#07 - Ria que a polícia vem aí


Resumo

Este episódio do Popcult analisa duas abordagens distintas da polícia na comédia: a sátira desconstrucionista de ‘Corra que a Polícia Vem Aí’ (e sua série original ‘Police Squad’) e a sitcom humanizadora ‘Brooklyn Nine-Nine’.

A primeira parte discute como ‘Corra que a Polícia Vem Aí’, através do personagem Frank Drebin (Leslie Nielsen), ridiculariza a figura do policial herói, mostrando-o como um completo imbecil que não percebe o estrago que causa. A série e os filmes satirizam as séries policiais americanas que glorificam a instituição, expondo a incompetência e a violência como características fundamentais desse arquétipo. A discussão aborda como essa sátira funciona como crítica ao ‘fracasso civilizacional’ que a polícia representa.

Na segunda parte, o episódio contrasta com ‘Brooklyn Nine-Nine’, uma sitcom contemporânea que busca fazer o público querer passar tempo com seus personagens policiais. Os apresentadores analisam como a série, ao focar no núcleo familiar dos personagens, acaba por individualizar problemas sistêmicos, naturalizar a violência policial e criar uma imagem ‘amigável’ da instituição, mesmo quando aborda superficialmente questões como o sistema carcerário ou a brutalidade policial.

A discussão se expande para o contexto brasileiro e norte-americano, examinando como diferentes experiências com a polícia (de populações negras e periféricas versus brancas e de classe média) influenciam essas representações. Os apresentadores também discutem como o humor pode ser usado tanto para desmontar hierarquias (como em ‘Corra que a Polícia Vem Aí’) quanto para naturalizar opressões (como em ‘Brooklyn Nine-Nine’).

O episódio finaliza refletindo sobre como a cultura pop molda nossa percepção da polícia, com exemplos que vão desde programas policiais sensacionalistas brasileiros até séries como ‘24 Horas’ que normalizaram a tortura no imaginário público.


Indicações

Filmes

  • Corra que a Polícia Vem Aí (The Naked Gun) — Série de filmes de comédia estrelados por Leslie Nielsen que satirizam o arquétipo do policial herói através do personagem Frank Drebin, um investigador completamente incompetente que não percebe o caos que causa.
  • Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu (Airplane!) — Filme dos mesmos criadores de Police Squad, também estrelado por Leslie Nielsen, que estabeleceu o estilo de comédia deadpan e a sátira de figuras de autoridade que seria levado para as comédias policiais.
  • O Observador (The Observe and Report) — Filme mencionado como exemplo de crítica à atração que a instituição policial exerce sobre pessoas problemáticas, mostrando um protagonista escroto cujo maior sonho é ser policial para se redimir sem mudar seu comportamento.

Livros

  • Como Nascem os Monstros — Livro mencionado que mostra como o processo de brutalização dos policiais começa ainda na formação dos cadetes, analisando a socialização dentro das academias de polícia.

Musica

  • Rage Against the Machine — Banda de rap metal mencionada por uma música que critica a polícia, com a letra ‘eles se acham os escolhidos porque usam o distintivo’, ilustrando a crítica à autoimagem de superioridade policial.

Pessoas

  • Leslie Nielsen — Ator canadense-americano que se tornou ícone da comédia deadpan com papéis em ‘Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu’ e ‘Corra que a Polícia Vem Aí’, sempre interpretando figuras de autoridade que dizem absurdos com total seriedade.

Podcasts

  • Nada Tá Bom Nunca — Podcast brasileiro mencionado que fez um episódio analisando programas policialescos como ‘Aqui Agora’ e sua função social de criar medo e demanda por um estado policial.

Series

  • Police Squad — Série original de 1972 que deu origem aos filmes ‘Corra que a Polícia Vem Aí’, com apenas seis episódios que satirizam as séries policiais americanas que glorificavam o trabalho policial.
  • Brooklyn Nine-Nine — Sitcom contemporânea sobre uma delegacia do Brooklyn que, segundo a análise do episódio, busca fazer o público querer ser amigo dos policiais, individualizando problemas sistêmicos e criando uma imagem ‘amigável’ da instituição.
  • 24 Horas (24) — Série de ação mencionada como exemplo de como a cultura pop pode normalizar práticas como tortura, melhorando a opinião pública americana sobre essas técnicas após o 11 de setembro.
  • 9mm São Paulo — Série policial brasileira mencionada como exemplo de como a sensibilidade brasileira digere as visões de mundo dos seriados policiais, com planos para um episódio futuro dedicado à análise.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução: Duas abordagens da polícia na comédia — Os apresentadores introduzem o tema do episódio: como a comédia pode ser usada tanto para criticar quanto para normalizar a instituição policial. São apresentados os dois casos de estudo: ‘Corra que a Polícia Vem Aí’ (e ‘Police Squad’) como exemplo de desconstrução do arquétipo do policial herói, e ‘Brooklyn Nine-Nine’ como exemplo de humanização e normalização da polícia. A conversa começa com uma piada sobre tomar cerveja com policiais, estabelecendo o tom crítico do episódio.
  • 00:04:04A sátira de Corra que a Polícia Vem Aí e Leslie Nielsen — Discussão detalhada sobre ‘Corra que a Polícia Vem Aí’ e seu personagem principal Frank Drebin, interpretado por Leslie Nielsen. Os apresentadores analisam como o humor ‘deadpan’ de Nielsen - falando coisas absurdas com total seriedade - funciona perfeitamente para satirizar figuras de autoridade. A conversa explora como a série original ‘Police Squad’ (1972) já satirizava as séries policiais americanas que glorificavam a polícia, mostrando investigadores completamente ineptos que ‘fracassam para cima’ numa sociedade predisposta a glorificar essas figuras.
  • 00:09:09O policial como fracasso civilizacional e psicopata funcional — Os apresentadores conectam a discussão sobre ‘Corra que a Polícia Vem Aí’ com análises anteriores sobre policiais na cultura pop. Discutem como o policial é exaltado como ‘mecanismo do fracasso civilizacional’, especialmente em sociedades que só respondem à diferença com criminalização e violência. A conversa aborda como ‘Corra que a Polícia Vem Aí’ mostra ‘a arma nua’ - o fracasso exposto de forma crua - contrastando com outras obras que dão ‘roupagem bonitinha’ a essa instituição problemática.
  • 00:18:52Experiências raciais diferentes com a polícia na cultura pop — Análise de como diferentes grupos raciais retratam a polícia na cultura pop norte-americana. Os apresentadores contrastam séries como ‘Um Maluco no Pedaço’ (produzida por e para negros), que mostra policiais como idiotas ou opressores, com séries brancas dos anos 90 que apresentam policiais como figuras gentis que devolvem crianças rebeldes às suas famílias. A discussão explora como essas representações refletem experiências materiais diferentes com a instituição policial.
  • 00:26:28Brooklyn Nine-Nine: A sitcom que faz você querer ser amigo de policiais — Transição para a análise de ‘Brooklyn Nine-Nine’. Os apresentadores explicam como as sitcoms evoluíram de veículos para piadas para núcleos familiares com os quais o público quer passar tempo. Discutem como ‘Brooklyn Nine-Nine’ se encaixa nesse modelo, criando um grupo de policiais com os quais o espectador quer conviver. A conversa já estabelece a crítica principal: a série individualiza problemas sistêmicos e cria uma imagem ‘amigável’ da polícia.
  • 00:35:00A superficialidade das críticas sociais em Brooklyn Nine-Nine — Análise específica de como ‘Brooklyn Nine-Nine’ aborda (ou falha em abordar) questões sociais sérias. Os apresentadores discutem episódios onde a série faz referências superficiais a problemas como o sistema carcerário norte-americano, mas sem questionar estruturalmente o papel da polícia nesse sistema. A crítica central é que a série usa essas referências mais para ‘datar’ seu conteúdo como contemporâneo do que para engajar seriamente com as questões.
  • 00:41:02O tropo do policial que quebra as regras e é protegido — Discussão sobre um tropo comum em séries policiais de longa duração: o protagonista que quebra regras e protocolos, mas é protegido pelo grupo porque ‘é nosso amigo’. Os apresentadores analisam como isso acontece em ‘Brooklyn Nine-Nine’ e o que significa em termos de narrativa: a integridade do núcleo familiar fictício se torna mais importante do que a responsabilidade institucional. A conversa também critica uma cena viral onde policiais cantam Backstreet Boys durante uma identificação de suspeitos, minimizando a gravidade de um homicídio.
  • 00:46:42Dois tipos de humor: desmontar hierarquias vs. naturalizar opressão — Análise teórica sobre diferentes funções do humor, baseada em um texto etnológico sobre ‘Do que riem os índios’. Os apresentadores contrastam o humor de ‘Corra que a Polícia Vem Aí’ (que ridiculariza figuras de autoridade para desmontar hierarquias) com o de ‘Brooklyn Nine-Nine’ (que faz o público rir ‘com’ os opressores, naturalizando seus comportamentos). A discussão explora como rir da violência policial em contextos diferentes tem implicações políticas distintas.
  • 00:52:42A naturalização da vigilância digital e da tortura na cultura pop — Expansão da discussão para outras séries policiais que normalizam práticas problemáticas. Os apresentadores mencionam como ‘Brooklyn Nine-Nine’ mostra grampeamentos de celular e acesso a bancos de dados como ações heroicas, naturalizando a vigilância digital. A conversa então aborda a série ‘24 Horas’ e como ela melhorou a opinião pública americana sobre tortura após o 11 de setembro, mostrando como a cultura pop pode servir como propaganda para práticas estatais violentas.
  • 00:59:44Representatividade liberal vs. mudança estrutural — Discussão sobre os limites da representatividade em séries como ‘Brooklyn Nine-Nine’. Os apresentadores analisam como ter um elenco diverso e personagens LGBT não resolve os problemas estruturais da instituição policial que a série retrata. A conversa conecta isso com críticas mais amplas ao feminismo e antirracismo liberais, usando o exemplo de Condoleezza Rice (uma mulher negra em posição de poder que reproduziu políticas opressivas) para ilustrar como a diversidade individual não necessariamente muda instituições opressoras.
  • 01:03:19Programas policiais brasileiros e a construção do medo — Os apresentadores expandem a discussão para o contexto brasileiro, analisando programas policialescos como ‘Cidade Alerta’ e ‘Polícia 24 Horas’. Discutem como esses programas, frequentemente exibidos em bares e restaurantes, criam uma sensação de medo e necessidade por um estado policial opressor, muitas vezes contrariando estatísticas reais de violência. A conversa também critica como esses programas individualizam policiais específicos, contribuindo para a personalização de problemas sistêmicos.

Dados do Episódio

  • Podcast: Popcult
  • Autor: Atabaque Produções
  • Categoria: TV & Film Film Reviews
  • Publicado: 2020-07-14T08:30:08Z
  • Duração: 01:07:41

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] A comédia pode ser usada para criticar e expor injustiças, mas também pode ser usada para

[00:00:18] normalizar instituições e comportamentos nocivos.

[00:00:21] Hoje nós vamos falar de exemplos de ambos os cenários através de Corra que a Polícia

[00:00:25] vem aí, originalmente a série Police Squad e os filmes Naked Gun e a sitcom Brooklyn

[00:00:29] Nine-Nine, respectivamente, como um desconstrói o arquétipo do policial herói e da polícia

[00:00:34] confiável e competente e como o outro tenta dizer que policiais são seus amigos, um pessoal

[00:00:40] simpático com quem você quer tomar umas cervejas.

[00:00:43] E aí, Orlando, quer tomar uma cerveja com um policial?

[00:00:47] Rapaz, eu diria que não.

[00:00:49] Assim, eu como bom macumbeiro tomaria cerveja com um monte de gente, mas com cana é bem

[00:00:53] complicado, né?

[00:00:53] Mas se ele pede botando a mão no coldre, né, a gente tem que dizer sim.

[00:00:58] Como é que você chama, como é que você trata um policial armado, né?

[00:01:02] De senhor, é assim que você fala.

[00:01:03] Exatamente.

[00:01:05] Então, seguindo a nossa linha de episódios com a temática policial, porque a situação

[00:01:12] no mundo pede, clama, urge, nós fizemos um episódio sobre Robocop, aí nós fizemos um

[00:01:19] episódio sobre o trompo do policial rebelde, né?

[00:01:22] E aí agora a gente pensou em falar sobre como as comédias com policiais são usadas

[00:01:30] tanto pra zoar a polícia e mais ao mesmo tempo também pra passar a mão na cabeça

[00:01:35] da polícia, né?

[00:01:36] Então, os exemplos que a gente pegou são exemplos que eu acho que bem notórios, os

[00:01:42] filmes que a polícia vem aí foram bem famosos no Brasil no começo dos anos 90, né?

[00:01:47] E a…

[00:01:49] Eu não sei se a série passou aqui, mas eu aproveitei a…

[00:01:52] O nosso exílio pra assistir a série que eu nunca tinha assistido, são seis episódios

[00:01:57] só, e na internet, nos lugares onde você acha coisas na internet, você acha legendas

[00:02:01] em português também, pra quem se interessar.

[00:02:04] E Brooklyn Nine-Nine é uma série que tá, né, aí, tá passando, tá acho que na sexta

[00:02:07] ou sétima temporada, e as pessoas gostam de Brooklyn Nine-Nine, eu já vi Brooklyn

[00:02:12] Nine-Nine num avião, e aí a gente decidiu, olha, acho que são duas abordagens diametralmente

[00:02:19] opostas, que servem muito bem pra gente falar sobre a polícia.

[00:02:22] Polícia na cultura pop.

[00:02:24] Pois é, né, porque Naked Gun, né, que eu gosto bastante desse nome no original, né,

[00:02:30] assim, em português também é bom, Corra Que a Polícia Vem Aí é um bom nome, né?

[00:02:35] É, assim, Corra Que a Polícia Vem Aí, pro nosso episódio, é muito bom, né, porque

[00:02:39] é um título que deixa bem claro qual é o ponto de vista do filme.

[00:02:45] É, mas assim, ele inaugura um tipo de…

[00:02:48] Ele inaugura um tipo de…

[00:02:49] Não dá pra dizer se ele inaugura, né, porque também a gente tem que saber…

[00:02:52] Teria que fazer uma pesquisa mais apurada pra saber se esse tipo de filme já existia,

[00:02:57] marginal, porque Police Squad não fez sucesso, a série não fez sucesso, né?

[00:03:00] A série não fez sucesso, né, mas a série veio depois dos criadores terem feito Kentucky

[00:03:06] Fried Movie, que tem um certo sucesso, e depois Airplane, que é o Aperte os Cintos que o

[00:03:10] piloto sumiu, que aí teve um bom sucesso e tal, e aí levou a oportunidade deles fazerem

[00:03:16] a série.

[00:03:17] Pois é, porque eu acho que é uma coisa que é interessante do Corra Que a Polícia Vem

[00:03:22] Aí, e você vai ver isso em outros filmes, talvez até alguns mais insuspeitos, né,

[00:03:27] por exemplo, sei lá, o Tira da Pesada, né, eu odeio, esse nome é muito bom, cara, porque

[00:03:33] é Beverly Hills Cop, vira um Tira da Pesada, mas depois você vai ver esse tipo de comédia

[00:03:39] aparecer em outros lugares, porque é uma comédia que zomba da instituição, e não

[00:03:44] só da instituição, mas ele zomba do discurso que eleva a instituição a espécie de um

[00:03:50] patamar de sacralidade.

[00:03:52] Né, ele diz assim, olha, esses são os sujeitos que, responsáveis pela manutenção da sociedade

[00:03:57] ocidental.

[00:03:59] A gente quer falar assim, é, nem tanto, assim, não é bem por aí, né.

[00:04:04] Exato, porque se a gente pega, né, Police Squad, Naked Gun, né, o Corra Que a Polícia

[00:04:08] Vem Aí, o personagem principal, o Frank Drabin, que é o personagem do nosso querido Leslie

[00:04:14] Nielsen, ele, ele, exato, assim, a grande graça dele é que ele não sabe que ele é

[00:04:20] um completo imbecil, né.

[00:04:21] Exato.

[00:04:21] Exato.

[00:04:21] Exato.

[00:04:21] Exato.

[00:04:22] Exato.

[00:04:22] Exato.

[00:04:22] Exato.

[00:04:22] Exato.

[00:04:22] Exato.

[00:04:22] É tudo muito sério.

[00:04:23] É muito bom.

[00:04:24] Não, assim, pera, pera, pera, rapidinho, rapidinho, vou fazer um corte aqui.

[00:04:26] Mas, assim, é, o Leslie Nielsen era, ele era uma instituição da comédia, né, cara,

[00:04:33] assim, porque ele era isso, ele era um cara que, ele falava tudo com uma pompa, né, e

[00:04:36] as coisas mais idiotas do mundo de uma coisa, de uma forma muito séria, né, cara.

[00:04:40] Sim, esse era o grande negócio desse, era o que a gente chama de delivery deadpan, né,

[00:04:45] ele, tipo, ele, pra ele, ele não tá contando uma piada, ele tá muito sério.

[00:04:48] E, e, e ele vem, e, e é isso, assim, porque durante as primeiras décadas da carreira

[00:04:52] dele, ele, ele era um ator de drama, né, um ator sério, e a, e a partir do, do, a

[00:04:57] parte dos cintos que o piloto sumiu, que ele começa a trabalhar com, com comédia, com

[00:05:01] o, o, os produtores do, do Polícia Squad, já e tal.

[00:05:05] E aí, é muito bom, porque no universo, e assim, ele ser um policial é meio que o universo

[00:05:09] perfeito, assim, é, no, no próprio, é, a parte dos cintos que o piloto sumiu, ele

[00:05:13] é um policial também, que tá no avião, e, e aí, ou ele é um médico.

[00:05:18] Ele é um médico.

[00:05:19] Ah, ele é um médico.

[00:05:20] Ele é um médico.

[00:05:21] Que também é outra coisa interessante.

[00:05:22] Tá.

[00:05:22] Que também é outra coisa interessante, assim, dessa, dessa…

[00:05:24] É uma, é outra figura de autoridade, né?

[00:05:25] Isso, é, é, eu acho que é interessante que o Olerio de Nilson, pela, pela, pela

[00:05:29] essa, pela essa imposição que ele tem na tela, ele sempre rouba a cena quando ele tá,

[00:05:32] porque ele tá sempre muito sério, impecável, né, ele nunca tá desgranhado, o cabelinho

[00:05:37] dele todo engomadinho, cortadinho, branco, né, milimétrico, o cabelo dele é formatado

[00:05:41] na cabeça, né, ele não, ele não, ele não, né, ele não escapa, ele é um sujeito quadrado.

[00:05:46] É, não, ele é um playmobil, assim.

[00:05:48] Isso, exatamente, e aí ele vai e fala, assim, tipo, no, tanto no, no Airplay,

[00:05:52] né, quanto no, no Corro que a Polícia Vem Aí, todas as falas dele são, assim, sérias,

[00:05:58] curtas, né, todos os discursos dele são curtos, muito, muito impositivos e completamente

[00:06:03] imbecis, né, cara?

[00:06:05] Sim, é, o, o, o, eu lembro que no, no Aperte os Cintos que o, o, o piloto sumiu, tem uma

[00:06:11] cena dele falando com uma da, eu acho que é com uma das, das comissárias de bordo,

[00:06:16] que ele vira e fala assim, é, mas quanto tempo você acha pra gente conseguir pousar

[00:06:21] ela?

[00:06:22] Putz, eu não sei.

[00:06:22] Eu não, eu não vou saber chutar, e aí ele, mas nem assim, assim, só estimando

[00:06:27] a ela, umas duas horas, ele, pra estimar?

[00:06:31] É, isso mesmo.

[00:06:33] Mas, é, e, e, mas eu acho que funciona muito bem no personagem dele, do, do Corro que a

[00:06:37] Polícia Vem Aí, porque é o seguinte, ninguém dentro do universo tem coragem de falar pra

[00:06:43] ele que ele é um idiota, porque ele é uma figura de autoridade.

[00:06:46] Sim.

[00:06:47] Né, ele normalmente, ele tá, ele tá falando com civis, com pessoas que ele tá investigando,

[00:06:51] então ninguém tem muito tempo pra ele falar que ele é um idiota, porque ele é uma figura

[00:06:52] que ele tem muita coragem de, de, de falar pra ele.

[00:06:56] Então, assim, por exemplo, tem uma fala, e tem uma fala maravilhosa, no primeiro ou segundo

[00:06:59] episódio da série, que eu acho que eles até reutilizam em um dos filmes, que eles vão

[00:07:03] na casa de, da mulher do homem que foi assassinado, e aí ele fala, me desculpe por ter vindo,

[00:07:10] é, vindo num momento tão difícil, mas o seu marido não estava morto antes.

[00:07:17] E é exatamente isso, assim, a gente não faz, né?

[00:07:22] E, e, e, enfim, eu, e aí, é uma, é, é muito genial, assim, porque eles são completos

[00:07:27] idiotas, e a série existe, né, ela, ela, ela existe como uma sátira das séries policiais

[00:07:33] que já, já eram muito comuns na TV americana da metade do século pra frente, então, é,

[00:07:39] é uma série, ela é de 1972 essa série, então, ah, ela já, já vem satirizando, ela

[00:07:45] não tá satirizando diretamente a polícia, né?

[00:07:46] Ela tá satirizando a imagem que a polícia tem nessas séries de TV americanas, que são,

[00:07:51] desde a sua criação, ah, meio que um braço da, da, das relações públicas da polícia,

[00:07:58] né?

[00:07:58] Tipo assim, essas séries existem com o, o, o total apoio e apreço das forças policiais,

[00:08:05] porque elas existem pra glorificar o trabalho policial e a figura do policial.

[00:08:09] Então, uma série como Polícia Squad, ela chega pra desconstruir esse ícone da cultura

[00:08:14] pop, que é o, o, o policial herói e o policial, o investigador que resolve tudo e tal, ele,

[00:08:20] ele, eles são, é, investigadores.

[00:08:21] Eles são investigadores muito ineptos, eles são incapazes, assim, de perceber coisas

[00:08:24] óbvias, eles são muito incompetentes quando eles tentam usar qualquer tipo de disfarce

[00:08:28] e, e, e, né, se infiltrar em alguma coisa, eles, ah, eles não entendem coisas muito

[00:08:33] simples que as pessoas falam, essa é uma piada muito recorrente, não entender o que

[00:08:38] as pessoas tão falando, é, e, e, enfim, e, e meio que, e, e o fato de que eles conseguem

[00:08:44] seguir a vida normalmente, e, e, e, especialmente nos filmes, né, o, o Frank Draven tá sempre

[00:08:50] sendo aclamado.

[00:08:51] Ele é uma grande figura notória porque ele fez algo, né, muito notável, mas ele

[00:08:55] fez sem querer, assim, então, é, tipo, é, é, mostra, assim, o, o, o, o, o, o, um policial

[00:09:03] fracassa pra cima numa sociedade que tá predisposta a glorificar essas figuras, né.

[00:09:09] Isso é interessante, né, porque o, se a gente for pensar, por exemplo, no, no Dutch

[00:09:15] Harry, né, que, enfim, desses psicopatas funcionais que a gente abordou no, no, no

[00:09:20] episódio anterior.

[00:09:21] O psicopata funcional já, ele, ele é, basicamente, essa falha civilizacional, né, porque, assim,

[00:09:28] é o momento em que você cria uma sociedade, se a gente, se você começar a, porque a

[00:09:33] questão, a minha questão toda é a seguinte, no momento em que você cria uma situação

[00:09:37] na qual a única resposta da sociedade é o extermínio do outro, né, é a violência

[00:09:45] para com os outros, você pode dizer que essa sociedade é um, pelo menos nesse campo específico,

[00:09:50] né.

[00:09:51] Você é que, o anarquista que eu costumo ser, né, mas, pelo menos nesse campo específico,

[00:09:56] ela é um fracasso, né, por exemplo.

[00:09:58] Então, você cria uma, uma sociedade que é incapaz de lidar com a diferença sem ser

[00:10:02] no campo da criminalização, sem ser no campo da violência, é uma sociedade que fracassou.

[00:10:06] Esse que é o ponto.

[00:10:07] O policial, né, ele é exaltado, né, como esse mecanismo de, do fracasso civilizacional,

[00:10:12] né, tipo, tanto que ele é um psicopata funcional pra isso.

[00:10:16] Então, assim, essa copy, como é que é que você falou?

[00:10:19] Copy, copy, copyganda, como é que é?

[00:10:21] É, essa propaganda dos policiais, né, tipo, é justamente o momento em que você

[00:10:27] tem esse dispositivo completamente estapafúrdio, vamos colocar assim, né, do fracasso civilizacional

[00:10:33] e você dá a ele uma roupagem bonitinha.

[00:10:36] Olha só, esse fracasso, na verdade, é o nosso sucesso, saca?

[00:10:40] No, o, o, o Naked Gun, eu gosto dessa palavra Naked, né, tipo, porque, vamos passar assim,

[00:10:45] a arma tá, enfim, vamos, vamos ser muito literal nessa, nessa tradução, a arma tá

[00:10:49] nua ali, né, tipo, então.

[00:10:50] Sim.

[00:10:50] Sim.

[00:10:51] Você pega e olha de uma maneira nua e crua pro que que é esse fracasso.

[00:10:55] E aí eles vão botar assim, ó, esse fracasso é um imbecil, é um completo imbecil que

[00:10:58] é incapaz de resolver as coisas de outro jeito e no final, no, geralmente no final

[00:11:02] tudo termina com explosão, tiro, mortos, né?

[00:11:05] Assim, não tem outra forma de resolver as coisas ali, né?

[00:11:08] Sim, eles, eles, eles, essa piada acontece nos filmes e, se não me engano, na série

[00:11:11] também, deles umas horas comemorarem quantas pessoas eles mataram e, assim, e a piada é

[00:11:16] exatamente, assim, o quão absurdo é isso e, ao mesmo tempo, assim, o quão absurdo

[00:11:20] é que isso realmente é.

[00:11:21] É a nossa visão de polícia, de algum jeito, assim, né?

[00:11:23] Pra além do real, onde é, sim, mas também pra figura do policial na, na, na cultura

[00:11:29] pop, como a gente já discutiu aí com o Dirty Harry, com todas essas coisas.

[00:11:33] E, e outra coisa, agora eu vou ser o momento, o momento da semiótica do Gus, assim, eu

[00:11:38] sempre gosto de, de fazer a análise semiótica de algo muito pequeno, que eu acho que significa

[00:11:42] muita coisa, que é o seguinte, no, no seriado e depois nos filmes, tem uma piada recorrente

[00:11:47] que é, toda vez que o Frank Drebbing vai estacionar o carro, ele bate…

[00:11:51] Ele bate em alguma coisa.

[00:11:52] Sim.

[00:11:52] Ou ele bate num carro que tá estacionado, ou numas latas de lixo, e ele sai do carro

[00:11:56] e ele não percebe que ele causou estrago.

[00:11:58] E eu acho que esse, esse é um resumo muito bom que, que, que Polícia Squad e, e, e Correia

[00:12:03] Polícia Biaí fazem do, dessa figura desse policial, é, é, que se vê como um herói,

[00:12:09] um salvador, que é isso, assim, ele, ele tá passando por cima das regras, ele tá,

[00:12:14] ele tá causando danos no mundo ao redor dele, mas ele não percebe, ele é totalmente incapaz

[00:12:19] de perceber o que ele tá causando.

[00:12:21] O que ele tá causando no mundo ao redor dele.

[00:12:22] Cara, isso é muito bom, porque no, no primeiro, né, Correia Polícia Biaí, é, tem uma cena

[00:12:27] quando ele vai visitar, não, quando ele tá chegando na delegacia pela primeira vez,

[00:12:31] tal, ele foi visitar o amigo que tava, o amigo dele, inclusive, era o O.J. Simpson, né,

[00:12:35] cara?

[00:12:36] Sim.

[00:12:36] O personagem do O.J. Simpson era outro ator na série, e aí, na real, tem uma piada muito

[00:12:41] boa, porque eu tava com medo de rever o primeiro, até porque tem o O.J. Simpson e tal, tem

[00:12:45] o O.J. Simpson nos três, na real, mas, é, eu tava com medo de ser muito, é, ter muita

[00:12:50] distração.

[00:12:51] Mas, a piada do primeiro filme, é que ele não tá no filme, né?

[00:12:55] É.

[00:12:55] Ele, na primeira cena, ele vai parar no hospital, e ele fica no hospital até o fim do filme.

[00:13:00] Mas, então, aí, aí, logo depois, e essa cena é muito boa, né, que também tem isso,

[00:13:03] ele vai visitar a esposa dele, e aí, ele começa a falar um monte de coisa tenebrosa,

[00:13:07] assim, com essa, pra esposa dele, e tal, e aí, termina assim, é, nós não vamos descansar,

[00:13:12] é, enquanto não resolvemos, o, quem, quem mandou assassiná-lo, sei lá o quê, aí,

[00:13:16] ele para assim, agora vamos comer, saca, tipo.

[00:13:18] Sim, é, alguém tá com fome?

[00:13:20] Mas, o que eu acho que, inclusive, na minha cabeça, essa cena já é uma, uma sátira

[00:13:26] também da cultura americana em geral, né, porque o, o, o americano médio, ele precisa

[00:13:30] tá comendo, o tempo inteiro, assim, o, o, o cidadão americano médio, é um ruminante.

[00:13:35] Sim.

[00:13:36] No começo dos anos 90, já tava se formando essa visão da, da sociedade americana, então,

[00:13:39] eu sinto que, também é uma sátira um pouco disso, assim, tipo, é, o conceito americano

[00:13:43] de nós não vamos parar, enquanto nós não encontrarmos o culpado, inclui vários snacks.

[00:13:48] É, sim.

[00:13:50] Mas, então, mas aí, logo depois dessa cena, ele vai parar no, no, ele vai, ele vai na delegacia

[00:13:55] e tal, quando ele chega na delegacia, ele para o carro, só que ele não engrena o carro

[00:14:00] e a delegacia tá numa, tá numa, tá numa, na madeira, e o carro, depois que ele sai

[00:14:06] do carro, o carro quase atropela ele, e ele atira no carro, o carro explode, só que o

[00:14:10] carro vai embora, e ele, assim, alguém anotou a placa, alguém anotou a placa, ele fica

[00:14:14] todo paranoico com isso, tipo, ele manda os policiais, tome nota de todo mundo aqui,

[00:14:18] e, sei lá o que, ele entra.

[00:14:19] Sim.

[00:14:19] Cara, essa cena é muito boa, porque, assim, ele não apenas, ele não percebe o estrago

[00:14:23] que ele causou no mundo, mas como o estrago que ele causou no mundo se voltou contra ele

[00:14:28] e estimulou a paranoia dele, saca?

[00:14:31] Tipo, se tem alguém tentando me matar, saca?

[00:14:32] Tipo, essa cena…

[00:14:33] E, de novo, assim, nunca tem um momento em que alguém vira e fala, assim, você estava

[00:14:37] errado.

[00:14:38] Isso é muito importante de, de, de frisar nessa série, né, nessa, nessa franquia toda,

[00:14:43] que é isso, assim, eles, todos os personagens da polícia, sempre estão completamente,

[00:14:49] né, especialmente o Frank Rebem, não cientes de quão idiotas eles são, assim, eles

[00:14:56] são a definição de idiota mais pura e platônica possível, porque eles nunca, nunca percebem

[00:15:02] os próprios limites.

[00:15:03] É, eu, eu, eu usaria a palavra imbecil, ainda vou voltar na palavra de idiota aqui, porque

[00:15:07] eu, eu tenho toda uma, uma relação, uma relação muito carinhosa com o papel do idiota

[00:15:12] Vidi Dostoievski, que beleza, enfim, o Ferdinand Idiota, que é o, é a fuga do capitalismo,

[00:15:17] mas, assim, um outro momento a gente volta.

[00:15:19] Tá bom, e você leu o livro, e aí você quer esfregar isso na minha cara?

[00:15:23] Exatamente, eu falo francês, e aí, enfim, o, o, mas assim, e, mas tem esse, eles são

[00:15:29] completamente imbecis, só que aí é o que eu ponto, na diegese do filme, né, todo mundo

[00:15:34] que não é policial sabe que eles são imbecis, né, assim, cara, no terceiro tem uma, uma

[00:15:41] cena, ou quando, eu, eu, e é muito bom frisar como é que esses filmes são numerados, né,

[00:15:46] é, corra que a polícia vem aí, né, from the files, óbvio, a polícia se corta,

[00:15:49] o Ed, mas aí o segundo é vinte e dois e meio, e depois…

[00:15:52] É dois e meio.

[00:15:53] Dois e meio.

[00:15:53] O primeiro, o segundo é dois e meio, e o terceiro é trinta e três e um terço.

[00:15:56] Cara, eu lembro quando eu era pequeno, e esse, e saiu, eu falei, o que que é isso,

[00:16:00] saca, tipo assim…

[00:16:00] Sim, eu, eu adorava, eu, eu lembro, eu lembro, eu já tinha visto, acho que um, um, um deles,

[00:16:06] assim, tipo na TV, o alugado, e aí eu lembro quando saiu no cinema, o trinta e três e

[00:16:10] um terço, eu achei a coisa mais engraçada do mundo.

[00:16:12] É, hoje em dia não seria possível por causa de uma estratégia de, de marketing, acho,

[00:16:15] uma coisa do tipo, né.

[00:16:16] O estúdio não ia deixar nada.

[00:16:17] É, mas…

[00:16:18] As pessoas vão achar que tem que ter visto os outros trinta e dois.

[00:16:20] É isso, né, mas assim, cara, aí tem no terceiro filme, tem uma cena que é uma cena

[00:16:24] muito boa, que eles tão num, numa, numa escadaria, né, eles tão pra, acho que vai

[00:16:31] sair um mafioso, alguma coisa, né, tá todo mundo lá disfarçado, é o Frank Debbin,

[00:16:34] aquele, o cara que é o mais velho lá dele, lá, que é o, enfim, o superior dele, e o

[00:16:39] O.J. Simpson, né, e aí, de repente, aí vai uma mulher subir com um carrinho na escadaria,

[00:16:44] aí ele vai lá e tenta ajudar a mulher, aí depois ele tenta ruir…

[00:16:46] Aí eles tentam, aí cada um deles fica engajado em tentar ajudar uma pessoa com um carrinho

[00:16:50] de bebê, só que nisso começa um tiroteio gigantesco, e eles largando os, eles largam

[00:16:55] os carrinhos de bebê, saca, tal, tal, sim, porque eles tem que cumprir a lei, e os bebês

[00:16:59] caindo no carrinho, aí quem vai salvar os bebês é o personagem do O.J. Simpson, né,

[00:17:04] porque os bebês começam a voar, e aí é a piada porque ele era, né, tipo, jogador

[00:17:08] de futebol americano.

[00:17:09] Jogador de futebol americano, e aí tem um que ele pega o bebê, e ele vai, tipo, começa

[00:17:12] a dançar com o bebê, saca, tipo, como se fosse uma bola, como se ele tivesse feito

[00:17:15] um touchdown.

[00:17:16] E ele vai…

[00:17:16] Na hora que ele vai jogar o bebê no chão, a mulher pega ele e começa a reclamar pra

[00:17:20] cacete com ele.

[00:17:21] E aí ele vira pra ela e fala assim, cara, o que que tá acontecendo, assim, por que

[00:17:23] que você tá puto comigo, ó, salvei ele.

[00:17:27] Não, é muito bom, essa é a cena de abertura do terceiro filme, que eu revendo aqui, eu

[00:17:30] achei o pior, assim, achei que o primeiro e o segundo são os melhores, e o terceiro,

[00:17:35] tipo, o terceiro, inclusive, é o que eu achei que mais, estranhamente, né, sendo mais recente,

[00:17:38] é o que mais tem piadas que, tipo, envelheceram mal, assim, de um ponto de vista de, tipo,

[00:17:43] é, não sei se a gente vai rir disso hoje em dia.

[00:17:46] Mas o um e o dois, eu fiquei surpreso, beneficamente, assim, de quanto que, tipo, ainda são engraçados.

[00:17:53] Eu tava…

[00:17:53] Tem uma piada que eu sempre lembro do primeiro, que é quando ele chega com um buquê de flores

[00:17:59] na casa do interesse romântico dele lá, que ele chega com um buquê gigante, e ele

[00:18:04] vai entrando no prédio dela, e é assim, ele sai do carro, e aí parte das flores ficam

[00:18:08] presas na porta do carro.

[00:18:09] Aí na porta do prédio, já perde mais um pouco de flores.

[00:18:12] Aí dentro do elevador, prende na porta do elevador, pega, e aí até ele chegar no apartamento,

[00:18:16] dentro dela, ele tá só com os ramos das flores.

[00:18:21] Cara, esse filme é genial, é genial.

[00:18:23] Mas eu queria chamar a atenção pra uma coisa que é interessante, por exemplo, você vai

[00:18:28] ver nesse filme, os policiais, nessas séries, nos filmes, os policiais são completos em

[00:18:35] persiste e a diegésia do mundo vai falar assim, cara, então, os policiais são esse

[00:18:39] fracasso que dá certo, né, na nossa sociedade, porque a nossa sociedade é um fracasso que

[00:18:43] dá certo, nesse sentido.

[00:18:44] O prêmio…

[00:18:45] Esse fracasso…

[00:18:46] Esse fracasso…

[00:18:46] Esse tipo de fracasso.

[00:18:48] Mas tem uma correlação bem interessante dessa percepção, né, dos personagens ao

[00:18:52] redor, de que os policiais são imbecis, você vai ver isso, por exemplo, no Fresh Prince

[00:18:57] of Bel-Air, que aqui ficou no Brasil, como é que chamou?

[00:19:00] O Maluco no Pedaço?

[00:19:01] É…

[00:19:02] O Maluco no Pedaço.

[00:19:03] O Maluco no Pedaço, que é a série com o Will Smith, né, que os policiais ali só

[00:19:08] apareciam enquanto, ou enquanto idiotas, né, ou enquanto idiotas opressores.

[00:19:14] Por quê?

[00:19:14] Sim.

[00:19:15] Né, assim, por quê?

[00:19:16] É óbvio, porque, da perspectiva, você pensa assim, por exemplo, da perspectiva de

[00:19:21] uma série produzida por negros e para negros, o policial, das duas uma, ou ele vai aparecer

[00:19:29] enquanto um sujeito opressor, maligno e coisas do tipo, o que não encaixaria dentro, né,

[00:19:36] de uma série daquele estilo, né, enfim, uma série cômica, feita ali pra um público

[00:19:40] infantil juvenil e tal, então ele vai retratar o policial como se fosse outra possibilidade,

[00:19:44] né, que não é…

[00:19:45] Como é?

[00:19:46] Não é…

[00:19:46] Excludente.

[00:19:47] Que é o policial como um completo imbecil, né, uma pessoa que tá meio perdidinha ali.

[00:19:52] E isso, e aí que vem um ponto que eu acho que é interessante, porque isso vem, obviamente,

[00:19:57] de uma experiência norte-americana, mas não só norte-americana, é vídeo que acontece

[00:20:03] no Brasil, né, de que as populações negras e pobres tem das forças policiais, né, porque

[00:20:10] são pessoas que não estão entendendo muito bem o que estão ali e são, tipo, opressores

[00:20:15] e coisas do tipo.

[00:20:15] Então, obviamente, eles só podem aparecer nessa série, né, e eu tenho uma percepção

[00:20:20] assim, meio solta, de que se a gente for ver outras séries de comédia feitas por e para

[00:20:27] negros, né, nos Estados Unidos, você vai ver algo semelhante aí.

[00:20:31] O que é ao contrário, por exemplo, de você ver esse tipo de personagem, né, o policial,

[00:20:38] aparecendo em séries de brancos, da mesma época.

[00:20:40] Tem uma coisa que era muito recorrente, né, um enredo.

[00:20:45] Um enredo que era muito recorrente, um plot que era muito recorrente nessas séries dos

[00:20:49] anos 90, era do garoto rebelde, né, que o garoto causa problemas, é, tipo assim, um

[00:20:54] problema, ele tá rebelde, aí sempre termina com um policial entregando o garoto pra família,

[00:20:59] sabe?

[00:20:59] Olha, não vamos, não vamos fichá-lo, mas tome conta do menino, sei lá o quê.

[00:21:04] E aí termina com o pai e o garoto, a mãe e o garoto, tendo uma longa conversa, né,

[00:21:08] e aí pronto, tudo se resolve.

[00:21:09] Até o Simpsons tem um episódio assim.

[00:21:11] Isso.

[00:21:11] O pai te rouba um videogame.

[00:21:12] É, cara, e cara, esse episódio é clássico, né.

[00:21:16] Sim.

[00:21:16] Porque deram um videogame errado pra ele.

[00:21:18] Sim, deram um videogame de golfe que, inclusive, recentemente, alguém fez.

[00:21:22] Teve esse jogo, Libermejo, né, como é que é?

[00:21:24] É o Lee Carvalho’s Putting Challenge.

[00:21:26] Lee Carvalho.

[00:21:28] Lee Carvalho’s Putting Challenge.

[00:21:29] Que ele queria o Bone Storm, eu acho que era.

[00:21:34] Isso.

[00:21:35] Que era um Mortal Kombat.

[00:21:36] Que era, tipo, um Mortal Kombat, assim.

[00:21:38] E aí, enfim, mas esse plot, que é muito típico das séries por e para brancos, né, tipo,

[00:21:45] que é o policial que é gentil.

[00:21:48] É o policial que pode ser até um pouco inconveniente, às vezes,

[00:21:53] mas ele não vai cometer uma violência descabida,

[00:21:55] ele é um ser meio razoável e sei lá o quê.

[00:21:58] Então é interessante você ver como toda essa ironia que tá lá no Police Squad, né,

[00:22:04] tipo, ou no Naked Gun, enfim, no Corro que a Polícia Vem Aí,

[00:22:07] vai reaparecer mais tarde, vai ser mantida dentro dessa tradição, né,

[00:22:12] porque nos Estados Unidos você tem uma coisa que não tem no Brasil, né,

[00:22:14] que são produções, você tem toda uma indústria feita por e para negros, né,

[00:22:18] aqui no Brasil isso é muito incipiente ainda, né.

[00:22:23] E, inclusive, tem outro exemplo disso que é o Beverly Hills Cop, né,

[00:22:26] o Tira da Pesada, que é a mesma coisa, né.

[00:22:29] O policial lá do Ed Murphy, basicamente, o tempo inteiro ele tá falando,

[00:22:33] olha, a polícia do Beverly Hills, essa polícia branca, sei lá o que, é uma polícia idiota, né.

[00:22:38] Sim, sim.

[00:22:39] É, não, e essa figura do policial que aparece nas sitcoms americanas,

[00:22:44] né, principalmente brancas e tal, é aquela figura do policial, assim,

[00:22:50] muito comum na cultura pop que é majoritariamente branca, né,

[00:22:54] que é o policial quase como um segurança de shopping.

[00:22:57] Sim.

[00:22:58] Ele é uma figura muito inofensiva, que tá ali pra, sabe, manter uma ordem muito,

[00:23:04] no caso dos Estados Unidos, muito suburbana, né, no sentido daqueles subúrbios,

[00:23:08] muito, né, aqueles bairros afluentes de, né, casinhas com seus quintais,

[00:23:13] onde todo mundo fica…

[00:23:14] Tá, né, fazendo churrascos no seu, na sua varanda e tal.

[00:23:19] E o policial aparece como uma figura, assim, quase que o zelador dessa galera, né.

[00:23:25] É isso, né, porque quando você tem…

[00:23:28] Porque o maior papel dele, na verdade, é oprimir pessoas que não moram ali.

[00:23:30] Isso, isso.

[00:23:31] Então, a experiência em primeira pessoa de pessoas como eu, por exemplo, né,

[00:23:36] pessoas brancas de classe média alta e tal, é muito…

[00:23:40] Você não interage com o policial.

[00:23:41] Então, a imagem do policial na sua cabeça é muito…

[00:23:44] É muito mais a imagem do policial da cultura pop do que, né, do policial real, assim,

[00:23:51] do policial que você vai conhecer quando você faz um B.O.,

[00:23:54] quando ele te dá uma prensa na rua, entendeu?

[00:23:56] Que é a minha experiência, né.

[00:23:58] Exato, que é a diferença entre crescer nos jardins e em Bangu, né.

[00:24:03] É, então, esse que é um ponto, né, pode parecer pra muita gente que isso é uma coisa boba,

[00:24:09] mas essas séries, elas desenham toda uma cartografia,

[00:24:14] uma cartografia da…

[00:24:17] Uma coisa que a gente já falou isso, né, lá no primeiro episódio sobre os policiais, né,

[00:24:21] de que como toda essa sociedade desenha um centro, um núcleo que tem que ser protegido

[00:24:25] e tudo que tá fora dele é classificado enquanto matável.

[00:24:29] Então, por exemplo, é perfeitamente possível que você tenha o mesmo policial

[00:24:34] que é uma espécie de zelador dos subúrbios norte-americanos, né,

[00:24:38] que esse mesmo policial nas periferias atue de maneira opressiva

[00:24:43] contra aquele policial que está fora dele.

[00:24:44] Tanto que, enfim, isso tem uma…

[00:24:49] Você vê como que a sociedade coloca uma hierarquia entre as vidas,

[00:24:55] entre o estilo de vida das pessoas, né, dos seus cidadinos, né.

[00:25:01] Então, aqueles que estão no centro valem mais, a vida deles vale mais

[00:25:04] ao ponto de que as forças policiais não podem tocá-los

[00:25:07] do que aqueles que estão na periferia.

[00:25:10] Sim, que a gente vê, né, tangivelmente, em todos os casos,

[00:25:14] de pessoas assassinadas pela polícia, né,

[00:25:17] que cada vez mais estão ganhando atenção aqui no mundo.

[00:25:21] Mas, assim, e mesmo em coisas menores e mais cotidianas,

[00:25:25] infelizmente não consigo nem dizer até mais cotidianas,

[00:25:27] porque é tão cotidiano o assassinato de pessoas pela polícia.

[00:25:31] Mas, assim, por exemplo, o caso que teve aqui em São Paulo,

[00:25:34] que estava rolando muito no ano passado e não sei como é que está agora,

[00:25:38] que era da Guarda Civil, que é vista como, tipo, a polícia mais branda de todas,

[00:25:41] porque acho que eles nem arma têm.

[00:25:44] É…

[00:25:44] É…

[00:25:44] É…

[00:25:44] É que a Guarda Civil aqui em São Paulo estava, tipo,

[00:25:49] o trabalho da Guarda Civil aqui estava sendo tirar todos os pertences de moradores de rua

[00:25:53] e enxotar eles dos lugares que eles estavam dormindo

[00:25:56] e várias vezes acordar os moradores de rua com jatos de água,

[00:26:01] porque tem que lavar a calçada.

[00:26:03] Show, né?

[00:26:03] Então, assim, o que você está fazendo com essa pessoa?

[00:26:07] Olha a agressão que você está cometendo com a pessoa em nome de quê, né?

[00:26:10] Em nome, tipo, daquela calçada estar limpa e bonita,

[00:26:14] para o cara que vai passar de Land Rover ali, rapidinho, né?

[00:26:17] Pois é, né?

[00:26:18] E esse é um ponto que é um ponto fundamental, né?

[00:26:22] Porque quando a gente faz essa…

[00:26:23] Aqui no Brasil isso é muito…

[00:26:25] Quando a gente for falar do Brooklyn Nine-Nine, a gente vai falar o melhor disso, né?

[00:26:28] Mas aqui no Brasil isso é muito explícito.

[00:26:31] Quando você fala sobre polícia, o problema da polícia, da instituição policial,

[00:26:35] aqui no Brasil você tem um discurso muito…

[00:26:39] Eu vou usar uma palavra dos meus tempos de partidário, né?

[00:26:42] Enfim, um discurso muito reforçado.

[00:26:44] Um discurso muito reformista, que vai reduzir o discurso da crítica à polícia

[00:26:48] a uma crítica à militarização da PM, né?

[00:26:52] Como se essa fosse a única forma de oprimir a sociedade.

[00:26:56] Como se a polícia civil, por exemplo, as ações dos órgãos da polícia civil

[00:27:00] também não tivessem, não fossem igualmente opressores.

[00:27:04] Óbvio, você tem uma gradação ali porque a polícia militar,

[00:27:08] ela é abertamente, né?

[00:27:11] A tática dela, porque as pessoas sabem disso, né?

[00:27:14] Mas a tática que funda a polícia militar é uma tática de contra-guerrilha revolucionária, né?

[00:27:19] No sentido de que você vai lutar contra um inimigo que é invisível.

[00:27:22] É um inimigo que você não consegue identificar.

[00:27:24] Então, pra você identificar esse inimigo, você usa de método de terror pra isso.

[00:27:28] Isso aí não é uma coisa inventada.

[00:27:29] Se você vai investigar lá sobre a ditadura militar,

[00:27:32] com a origem e a institucionalização das brigadas militares,

[00:27:37] você vai ver como essa metodologia tá por baixo dela.

[00:27:39] Então, o salar maléquia ali de violência é maior porque é necessário criar…

[00:27:44] Mas, assim, se você voltar pro mesmo período,

[00:27:46] você vê que a polícia civil era igualmente opressiva.

[00:27:50] E aí, quando você vai pros Estados Unidos, por exemplo,

[00:27:52] onde a polícia…

[00:27:54] Toda a polícia é civil.

[00:27:55] Exato, né?

[00:27:56] Então, você vê que o problema não é só a militarização.

[00:27:59] O problema mesmo é essa instituição que existe em larga escala

[00:28:04] pra fazer essa demarcação entre as vidas que…

[00:28:07] As vidas que…

[00:28:08] Os matáveis, né?

[00:28:09] E aqueles que devem ser defendidos.

[00:28:12] E a gente falou isso no último episódio,

[00:28:14] e é uma discussão que eu vejo sendo levantada muito…

[00:28:16] Especialmente lá nos Estados Unidos agora, com esses protestos,

[00:28:19] que é…

[00:28:20] A instituição é tão malévola em sua incepção,

[00:28:25] ela é conceitualmente péssima, né?

[00:28:29] Que ela é atraente para os piores tipos de pessoas, né?

[00:28:34] Exatamente as pessoas que você não quer que tenham

[00:28:36] o monopólio da violência e acesso irrestrito a armas, né?

[00:28:40] E a gente citou no último episódio o Observing Report.

[00:28:44] Né?

[00:28:44] Aquele filme do Jody Hill com o Seth Rogen,

[00:28:47] que é exatamente sobre isso, né?

[00:28:48] Que é um protagonista totalmente escroto, assim,

[00:28:51] uma pessoa da pior estílpe,

[00:28:53] que o maior sonho é ser policial.

[00:28:56] Porque ele vê na figura do policial

[00:28:58] uma maneira de redimir tudo o que ele é

[00:29:01] e, tipo, automaticamente virar um herói da sociedade

[00:29:02] continuando a ser uma pessoa horrível, né?

[00:29:05] Não tendo que mudar os próprios comportamentos.

[00:29:06] É, sendo só premiado por isso.

[00:29:08] Como diz a música do…

[00:29:10] Né?

[00:29:11] Do Rage Against the Machine, né, cara?

[00:29:13] Eles se acham…

[00:29:13] Os escolhidos porque eles usam o distintivo.

[00:29:17] O…

[00:29:17] Eu acho que tem um ponto importante aí nisso

[00:29:20] que é justamente porque, por exemplo,

[00:29:21] quando você vai ver, por exemplo,

[00:29:22] a máquina de recrutamento das PMs cariocas, né?

[00:29:26] É isso.

[00:29:26] Ou você vai ter lá pessoas que estão

[00:29:28] numa condição de, cara, ou é isso,

[00:29:31] ou eu vou pra PM porque é uma forma de eu ter

[00:29:34] uma garantia de vida, de um emprego, sabe?

[00:29:37] Com um salário…

[00:29:39] Sabe?

[00:29:39] Um salário contínuo, uma estabilidade financeira,

[00:29:41] coisas do tipo.

[00:29:42] O que é muito comum.

[00:29:43] Eu vi.

[00:29:43] Isso está acontecendo aqui na minha região.

[00:29:45] Muitos amigos meus de infância viraram policiais militares

[00:29:47] buscando esse tipo de segurança pessoal.

[00:29:51] Só que por um…

[00:29:52] Ao mesmo tempo, você também tem uma galera que

[00:29:54] vai pra lá justamente buscando

[00:29:57] por meio da psicopatia.

[00:29:59] E aí que vem o problema, né?

[00:30:00] Porque ambos, quando chegam na academia,

[00:30:03] na formação, né?

[00:30:04] Num sentido…

[00:30:05] Quando eles vão ser formados enquanto policiais,

[00:30:08] ambos são convertidos, né?

[00:30:10] Tem o livro que eu já citei, né?

[00:30:11] Como Nascem os Monstros, aqui,

[00:30:12] que mostra muito bem isso.

[00:30:13] De como esse processo de brutalização

[00:30:15] começa ainda na formação dos cadetes.

[00:30:19] E aí você vê como que isso também

[00:30:21] pode ser aplicado facilmente

[00:30:23] para as outras categorias, né?

[00:30:26] Tipo, é isso.

[00:30:28] Exato.

[00:30:29] E, bom, agora que a gente falou de amigos policiais,

[00:30:32] é a hora da gente entrar em Brooklyn Nine-Nine.

[00:30:35] Brooklyn Nine-Nine, pra quem não sabe,

[00:30:37] é uma sitcom americana.

[00:30:38] Começou na Fox e foi pra NBC.

[00:30:41] Hoje está…

[00:30:43] Já tem…

[00:30:43] Está na sétima temporada.

[00:30:44] Tem 143 episódios.

[00:30:48] Ela estrela o Andy Sandberg, né?

[00:30:51] Que ficou popular no…

[00:30:53] No…

[00:30:53] Série Night Live.

[00:30:55] Várias pessoas, mas provavelmente a mais notória aqui,

[00:30:58] especialmente pro público brasileiro,

[00:30:59] é o Terry Crews, né?

[00:31:00] Que é o pai do Chris no…

[00:31:02] Todo mundo odeia o Chris.

[00:31:03] E no inexplicável sucesso de As Branquelas,

[00:31:06] aqui no Brasil.

[00:31:07] Nossa.

[00:31:08] Eu não entendo porque…

[00:31:09] Eu posso contar uma coisa aqui?

[00:31:11] Hã?

[00:31:11] Cara, eu já tive uma…

[00:31:13] Uma situação de paquera com uma pessoa

[00:31:17] e…

[00:31:19] Qual flertava com essa pessoa.

[00:31:22] E aí ela era um dos irmãos Wayans vestidos de mulher?

[00:31:24] Não, cara.

[00:31:24] Ela me disse que…

[00:31:26] Que o filme preferido era As Branquelas.

[00:31:31] Eu não conseguia.

[00:31:32] E aí acabou.

[00:31:33] Eu não conseguiria adiante nesse flerte.

[00:31:36] Eu entendo.

[00:31:36] Eu só queria deixar essa história da minha dor aqui,

[00:31:38] nesse momento aqui.

[00:31:39] Entendo.

[00:31:40] Eu acho que eu senti muito a sua dor.

[00:31:42] Brooklyn Nine-Nine estreou em 2000…

[00:31:43] Em 2013.

[00:31:45] E…

[00:31:45] Pra gente discutir Brooklyn Nine-Nine,

[00:31:48] que é uma sitcom bem comum, assim,

[00:31:50] daquela coisa.

[00:31:51] Você tem um espaço comum,

[00:31:52] que nesse caso é o espaço de trabalho, né?

[00:31:54] Dessas pessoas,

[00:31:55] que é essa delegacia, né?

[00:31:57] A DP-99 lá no Brooklyn.

[00:32:00] E você tem os policiais ali,

[00:32:02] como seus personagens principais.

[00:32:04] Pra gente falar do que que ela tá tentando ser,

[00:32:08] a gente precisa entender o que que a sitcom

[00:32:09] era quando surgiu

[00:32:11] e o que que ela virou

[00:32:12] ali no final dos anos 80,

[00:32:13] como exemplo,

[00:32:13] nos anos 90,

[00:32:15] que é o seguinte.

[00:32:15] A sitcom,

[00:32:16] esse nome vem de Situation Comedy,

[00:32:18] que é basicamente isso.

[00:32:20] Eram séries que você criava

[00:32:23] pra, tipo,

[00:32:24] ter desculpas para contar piadas.

[00:32:26] Então é tipo,

[00:32:26] ah, beleza,

[00:32:26] eu vou ter essa família aqui nessa casa

[00:32:28] e o pai é rabugento,

[00:32:29] a mãe é isso,

[00:32:30] o filho é isso,

[00:32:31] e aí eu posso ter várias situações

[00:32:32] que vão gerar piadas pra mim

[00:32:34] e vambora.

[00:32:36] Então ela surge realmente como

[00:32:38] uma maneira de fazer

[00:32:40] pequenos esquetes e piadas,

[00:32:42] só que dentro de uma linearidade

[00:32:43] narrativa.

[00:32:45] Aí,

[00:32:46] o que que acontece, né?

[00:32:47] O hábito das pessoas verem TV,

[00:32:49] especialmente nos Estados Unidos

[00:32:50] e no Ocidente e tal,

[00:32:52] virou muito

[00:32:53] uma parte do seu dia,

[00:32:55] especialmente quando as pessoas

[00:32:56] voltam do trabalho,

[00:32:57] virou uma parte

[00:32:57] quase que

[00:32:59] de comunhão das pessoas.

[00:33:02] E aí,

[00:33:03] especialmente nos anos 80,

[00:33:04] nos anos 90,

[00:33:04] com a quantidade de pessoas

[00:33:06] que moram sozinhas,

[00:33:07] aumentando exponencialmente

[00:33:09] nos centros urbanos e tudo mais,

[00:33:11] você tem a TV como

[00:33:12] a companhia das pessoas.

[00:33:13] E aí a sitcom passa

[00:33:16] a suprir

[00:33:18] um vazio

[00:33:20] que hoje o próprio podcast faz

[00:33:22] também, que é o da interação

[00:33:24] social. Então,

[00:33:25] as redes de TV norte-americana

[00:33:28] percebem que o mais importante pra uma sitcom

[00:33:30] não é o quão engraçada ela é, quantas

[00:33:31] piadas ela tem, e sim

[00:33:33] o quanto você quer passar meia

[00:33:36] hora por semana com aquele grupo de

[00:33:37] protagonistas. E aí,

[00:33:40] o approach das sitcoms vira,

[00:33:42] especialmente nos anos 90, cada vez mais,

[00:33:43] esse, tipo, vamos fazer um grupo

[00:33:45] de amigos com os quais você quer passar meia

[00:33:48] hora. Que não é diferente de

[00:33:50] ah, eu vou ouvir esse podcast que eu ouço toda

[00:33:51] semana porque eu gosto de ficar aqui

[00:33:54] ouvindo o Gus e o Orlando

[00:33:55] falarem de filmes como se a gente estivesse num bar

[00:33:57] com os nossos amigos policiais.

[00:34:00] Então, Brooklyn Nine-Nine

[00:34:02] chega em 2013, quando

[00:34:03] a sitcom já é exatamente

[00:34:05] isso. Se você quer

[00:34:07] piadas por um minuto, você vai ver

[00:34:09] programas de esquete, você vai ver especiais de comédia,

[00:34:11] sitcoms são

[00:34:13] pra criar núcleos

[00:34:15] familiares, entre aspas, né, mas

[00:34:17] sempre são tratados como núcleos familiares,

[00:34:20] com os quais você quer passar tempo.

[00:34:22] E aí, o Brooklyn Nine-Nine ser

[00:34:24] um grupo de policiais e se passar

[00:34:26] o tempo inteiro na vida profissional

[00:34:27] dos policiais, nessa delegacia,

[00:34:30] é…

[00:34:31] diz muito sobre o que ele quer fazer,

[00:34:34] que é…

[00:34:35] meus policiais queridos do coração!

[00:34:39] Cara, a gente vai

[00:34:40] ser muito odiado por esse episódio, bicho.

[00:34:42] As pessoas adoram essa série.

[00:34:43] E assim, e eu não desgosto, assim,

[00:34:46] é engraçado.

[00:34:47] Eu não vou negar, eu já dei

[00:34:50] muitas citadas com a série, mas eu acho

[00:34:52] que ela não

[00:34:53] deixa de ser o que ela é, assim.

[00:34:56] Pra ver esse episódio fazia tempo que eu não via

[00:34:58] Brooklyn Nine-Nine, e eu fui

[00:35:00] ver o começo da

[00:35:01] sexta temporada, eu acho,

[00:35:04] e que é o que o personagem

[00:35:05] do Jake Peralta, o personagem de sempre,

[00:35:07] tá preso. E aí ele tem que se infiltrar

[00:35:10] numa gangue, na prisão e tal. E aí

[00:35:12] os dois episódios em que ele tá preso,

[00:35:13] eles fazem inúmeras

[00:35:15] piadas sobre o quanto

[00:35:17] a situação da população carcerária

[00:35:20] nos Estados Unidos é desumana.

[00:35:23] Só que ele

[00:35:23] faz a piada, meio que…

[00:35:26] Enfim, ele faz a

[00:35:27] piada só pra dizer que ele sabe,

[00:35:30] mas nunca é criticado,

[00:35:32] assim, tipo, o jeito que ele…

[00:35:34] que o framing da história toda acontece

[00:35:35] é, as pessoas que estão presas são

[00:35:37] pessoas… são vilões,

[00:35:39] e o nosso herói, ele só precisa

[00:35:41] é… é…

[00:35:43] se separar delas e sair daqui

[00:35:45] e entregar elas pras autoridades, né,

[00:35:47] e conseguir as informações que ele precisa.

[00:35:49] Ele nunca questiona quem são…

[00:35:51] né, é quase uma coisa, tipo,

[00:35:54] de… de…

[00:35:55] de alguém que ouviu uma crítica social,

[00:35:57] não entendeu 100%,

[00:35:59] e aí só reproduziu

[00:36:01] superficialmente pra dizer

[00:36:03] que tá muito ligado.

[00:36:05] Pois é, né, esse que é um ponto, porque eu acho que

[00:36:07] se o Brooklyn Nine-Nine

[00:36:09] fosse… é porque…

[00:36:11] essa que é uma questão fundamental.

[00:36:13] Quando o Brooklyn Nine-Nine

[00:36:15] foi feito, já não dava pra

[00:36:17] pra esconder, não dava pra

[00:36:19] ignorar tudo que

[00:36:21] é… a situação da população

[00:36:23] carcerária norte-americana. Já tinha tido

[00:36:25] o Ross, por exemplo, sabe, mas assim…

[00:36:27] Sim. É, não, é muito doido, assim,

[00:36:29] esses episódios dele na prisão, que são

[00:36:31] bem recentes até, são já da temporada da NBC

[00:36:33] e tal, é…

[00:36:36] parecem muito

[00:36:38] distantes de tudo

[00:36:39] que a gente tem falado sobre…

[00:36:41] sobre cadeia, se não fosse esses comentários.

[00:36:43] É quase como se eles usam esses comentários

[00:36:45] não porque os

[00:36:47] redatores concordam com aquilo,

[00:36:49] mas mais só porque, tipo, é pra

[00:36:51] é pra datar

[00:36:53] em 2018, 2019, tipo,

[00:36:55] não, não, a gente tá fazendo esse episódio agora, hein, só pra você saber, hein.

[00:36:58] É, pois é,

[00:36:59] porque esse aqui é uma questão

[00:37:01] que pra mim me incomoda no Brooklyn Nine-Nine,

[00:37:04] é…

[00:37:05] que é justamente

[00:37:06] essa dissolução do

[00:37:09] contexto, né.

[00:37:12] Como a ideia é

[00:37:13] você focar toda a narrativa

[00:37:15] no quanto aqueles personagens

[00:37:17] são legais,

[00:37:19] sabe, de como você queria viver aquilo

[00:37:21] com eles, ser amigo deles, sabe,

[00:37:23] você quer ser amigo

[00:37:25] do Peralta, você quer

[00:37:27] flertar com o Peralta, saca, tipo,

[00:37:29] no…

[00:37:31] você acaba desmoronando

[00:37:33] todo o contexto do que acontece

[00:37:35] ao redor deles e dos quais os personagens estão ali

[00:37:37] se aproveitando, em certa medida, né.

[00:37:39] Um exemplo disso, pra mim,

[00:37:41] desse tipo de série, por exemplo, você vê

[00:37:43] o Friends, né.

[00:37:45] Cara, Friends é uma série

[00:37:47] que se passa justamente num momento de

[00:37:49] gentrificação absurda, né,

[00:37:51] de Nova York, do momento em que

[00:37:53] as pessoas estavam sendo expulsas dos bairros

[00:37:55] pra ir morar sabe-se lá onde, muitas pessoas

[00:37:57] na rua, né, e o…

[00:37:59] e aquilo ali, né, é só…

[00:38:01] muitas vezes é só uma…

[00:38:03] um detalhe que é citado muito por alto

[00:38:05] nas personagens, né. Quando é citado, né.

[00:38:08] Exato, né.

[00:38:11] O…

[00:38:11] E, inclusive, um dia a gente vai ter que falar disso,

[00:38:13] pra falar de Seinfeld, por exemplo, né,

[00:38:15] como que Seinfeld e Friends trabalham

[00:38:17] a gentrificação de maneiras bem distintas, né.

[00:38:19] Mas o… mas pra voltar

[00:38:21] pro ponto do… do Brooklyn 99, né,

[00:38:24] o…

[00:38:25] é interessante como toda a questão

[00:38:27] da violência policial, toda a questão

[00:38:28] do papel da polícia na sociedade,

[00:38:31] e aí nesse ponto da situação

[00:38:33] da população carcerária, é só um pano

[00:38:35] de fundo, mas muito de fundo

[00:38:37] pro…

[00:38:39] pra narrativa daquelas personagens.

[00:38:40] É como se tudo aquilo ali,

[00:38:42] esse que é o auge, pra mim,

[00:38:44] do pensamento estadunidense, né,

[00:38:47] e não só do pensamento estadunidense,

[00:38:48] mas desse pensamento do centro, né,

[00:38:50] do sujeito que está no centro.

[00:38:52] Todos os problemas, tudo aquilo

[00:38:54] que acontece ao redor dele,

[00:38:56] é apenas algo que ele, no máximo,

[00:38:58] sabe, mas aquilo não afeta

[00:39:00] diretamente de forma nenhuma, e ele nunca é

[00:39:02] considerado um agente ativo daquilo.

[00:39:04] Então, por exemplo, quando você tem um sujeito

[00:39:06] nos Estados Unidos que o estilo de vida dele tá

[00:39:08] consumindo todo o planeta, né,

[00:39:10] ele fala, ah, eu sei que tem gente, pô,

[00:39:12] tem gente morrendo lá no Congo, por quê?

[00:39:14] Por causa do meu estilo de vida, ah, o aquecimento global,

[00:39:16] mas ele é…

[00:39:17] ele é legal, sabe? Então, assim,

[00:39:20] o Brooklyn Nine-Nine, os sujeitos

[00:39:22] ali da série, eles nunca

[00:39:24] são sujeitos… Até já vi um episódio

[00:39:26] que tem violência policial, e é tratado

[00:39:28] de uma maneira cômica, sabe,

[00:39:30] dentro da série. No máximo, quando não é tratado

[00:39:32] de uma maneira cômica, quando eles quebram alguma regra,

[00:39:34] ou rola violência policial, quando não é

[00:39:36] 100% cômico, quando eles ainda…

[00:39:38] Quando tá num contexto que eles têm que levar minimamente a sério,

[00:39:40] ainda é sempre do lado do tipo,

[00:39:42] oi, ele cometeu um erro, mas

[00:39:44] ele é o nosso amigo. Pois é, ele é um cara de gente boa,

[00:39:46] mas ele é… Nossa, ele é um

[00:39:48] cidadão exemplar, né, o famoso…

[00:39:50] Mas ele só gostava de matar pessoas de vez em quando.

[00:39:53] E um tropo que é muito comum

[00:39:54] em todas as séries policiais, mesmo as sérias,

[00:39:57] é que…

[00:39:57] e que começa a acontecer mais e mais quando você tem

[00:40:00] muitas temporadas, e acontece em

[00:40:02] Brooklyn Nine-Nine, é o seguinte,

[00:40:04] você tem um número de histórias bem finito

[00:40:06] que você pode contar daquelas pessoas

[00:40:08] obedecendo as regras e seguindo

[00:40:09] os protocolos. Então, cada

[00:40:12] vez mais se torna comum o tropo de

[00:40:13] essa pessoa quebrou as regras e nós temos que

[00:40:16] protegê-la das consequências dessa

[00:40:18] corrupção, porque no final das contas

[00:40:20] você sabe que esse protagonista

[00:40:22] é mais importante do que

[00:40:24] as regras da instituição, né?

[00:40:26] Então é tipo, ah, se o Peralta fez algo errado,

[00:40:28] se qualquer outro personagem fez algo

[00:40:30] errado, é mais importante

[00:40:32] a integridade desse núcleo familiar

[00:40:33] e permanecer o status quo

[00:40:36] imutável da série,

[00:40:38] porque essa é outra questão, você quer um status quo imutável

[00:40:40] pra série, você quer que o grupo,

[00:40:42] seja sempre o mesmo, que as dinâmicas sejam

[00:40:44] sempre as mesmas, você quer mudar o mínimo possível,

[00:40:46] por isso que as sitcoms hesitam tanto em criar

[00:40:48] e desmanchar casais

[00:40:50] e tudo mais, por mais que eles dependam

[00:40:52] desse tipo de tensão, porque você

[00:40:54] quer manter tudo muito

[00:40:55] igual ao que sempre era, repetir a mesma

[00:40:58] forma, né? Então, você

[00:41:00] passa por esse tipo de situação em que você

[00:41:02] tem que afagar

[00:41:03] a cabeça desses caras até quando eles cometem

[00:41:06] erros que são muito piores

[00:41:07] pra sociedade ao redor do que pra eles

[00:41:10] mesmos. Tem uma

[00:41:11] uma

[00:41:12] abertura recente do

[00:41:14] do Brooklyn Nine, que deu uma viralizada

[00:41:15] que você tem aquela

[00:41:18] line-up que eles falam, né, de quando tem vários suspeitos

[00:41:20] vários suspeitos não, é muito

[00:41:22] bizarro essa prática da polícia

[00:41:23] americana que é. Não, tem várias pessoas

[00:41:26] aqui que a gente acha que podem ter cometido

[00:41:28] crime e você vai apontar pra uma

[00:41:30] delas e a gente, tipo, fez elas virem até

[00:41:32] aqui porque a gente pode, e a gente

[00:41:33] arruinou, tipo, né, a gente tá trazendo as pessoas

[00:41:36] pra DP só porque a gente acha que talvez

[00:41:37] seja uma delas, e você aponta pra que você acha

[00:41:40] que foi, né, e aí tá

[00:41:41] tem essa line-up, tem uma

[00:41:43] a vítima lá, e tem o

[00:41:45] Peralta, o personagem do Andy Sandberg, e ele

[00:41:47] faz os

[00:41:49] todos os

[00:41:51] suspeitos cantarem

[00:41:53] uma música dos Backstage Boys, se não me engano

[00:41:55] né, e aí ele

[00:41:57] ri e tal, não sei o que, e aí

[00:41:59] no final a mulher fala assim, ah, foi o número

[00:42:01] três que matou meu marido, e aí ele, ah é, alguém

[00:42:03] morreu. Pois, eu vi isso

[00:42:05] num meme do… Porque, tipo, ele tá se divertindo ali

[00:42:07] e ele esquece que rolou um assassinato, e aí é tipo

[00:42:09] ah

[00:42:11] é tipo, é muito diferente

[00:42:13] você ter

[00:42:16] uma sitcom onde as pessoas trabalham, sei lá, num

[00:42:18] bar, tipo, Cheers, e aí

[00:42:20] o dia-a-dia profissional delas ser

[00:42:22] cômico, e você ter

[00:42:24] isso, né, um policial

[00:42:26] investigando um homicídio

[00:42:27] ser cômico, e eu não tô dizendo assim, ah

[00:42:30] meu Deus, policiais não podem ter senso de humor

[00:42:32] e tal, mas é tipo

[00:42:33] por que que você tá tentando que

[00:42:36] eu olhe pra

[00:42:37] esse contexto, né, pra esse grupo

[00:42:40] de policiais

[00:42:41] só com o viés humorístico, primeira coisa, né, tipo

[00:42:43] a sitcom, ela é rasa, ela não é

[00:42:45] ela não tem muitas camadas

[00:42:47] de emoção ali

[00:42:49] ela é um veículo de

[00:42:51] de, de, de

[00:42:53] basicamente, sons guturais de

[00:42:55] ha, ha, ha, oh, ah

[00:42:57] é isso, basicamente, essas são as relações que você quer

[00:42:59] e aí, você

[00:43:01] você tratar desse assunto

[00:43:03] automaticamente te bota numa posição muito difícil

[00:43:05] de poder explorar esses assuntos, não que não seja

[00:43:07] possível, assim, né, mesmo uma

[00:43:09] comédia dessas, de TV aberta americana, tratar

[00:43:11] de assuntos mais

[00:43:12] espionados, o próprio Mike Schur, que é um dos

[00:43:15] co-criadores de Brooklyn Nine-Nine, é co-criador também

[00:43:17] de The Good Place, que acho que é uma série

[00:43:18] bem mais interessante do que

[00:43:21] Brooklyn Nine-Nine, mas é isso, assim, eu acho que

[00:43:23] no final das contas, ela

[00:43:25] é uma série que

[00:43:26] acaba, o que, contribuindo no geral

[00:43:29] assim, e no inconsciente

[00:43:31] pra essa visão de

[00:43:33] personificar

[00:43:35] policiais, de dar uma

[00:43:36] mil chances

[00:43:39] né, de

[00:43:41] mil novas tentativas

[00:43:42] pra esses policiais incompetentes

[00:43:44] e que ama

[00:43:47] o tropo do vilão

[00:43:49] vilão, assim, do vilão raso, do vilão

[00:43:51] bidimensional, que existe para causar

[00:43:53] o mal, e que esses

[00:43:55] são os inimigos da polícia, que é isso que a polícia está fazendo

[00:43:57] quando, assim, sabe, a gente está falando

[00:43:58] de uma polícia, né, no caso da polícia dos Estados Unidos

[00:44:01] que resolve, na melhor das hipóteses

[00:44:03] dez, na melhor das hipóteses

[00:44:05] quarenta por cento dos homicídios que acontecem

[00:44:07] aqui no Brasil, é muito menos que quarenta por cento

[00:44:09] né, que é tipo

[00:44:11] uma polícia que, de novo, assim, ela serve pra vender

[00:44:13] a mesma ideia que as matérias

[00:44:15] de jornal policial normalmente vendem, porque elas são

[00:44:17] totalmente associadas à assessoria

[00:44:19] de imprensa da polícia, que é essa

[00:44:21] imagem que a polícia está aqui te defendendo

[00:44:23] da barbárie

[00:44:24] né, tipo de, assim, se a polícia

[00:44:27] desistir, a sua propriedade

[00:44:29] vai ser levada, você

[00:44:31] corre risco na sua integridade

[00:44:33] física e psicológica

[00:44:34] e esses guerreiros estão aqui

[00:44:37] e essa mentalidade é incutida na própria polícia, por isso que a polícia

[00:44:39] trata o cidadão como inimigo, né

[00:44:41] só que na realidade

[00:44:42] na vida prática, a polícia

[00:44:45] por uma pessoa como eu, não está fazendo isso

[00:44:47] né, ela não está me protegendo ativamente

[00:44:49] de nada, a maior parte do tempo

[00:44:51] e pra pessoas, no seu caso

[00:44:53] Orlando, morando na periferia do Rio de Janeiro

[00:44:55] ela está fazendo algo bem diferente

[00:44:57] do que ela faz no Brooklyn Nine-Nine

[00:44:58] então, essa que é uma questão que eu

[00:45:01] ia falar

[00:45:02] é

[00:45:03] porque assim, tem um

[00:45:07] vou longe, mas eu volto, hein

[00:45:08] tem um texto do

[00:45:11] do

[00:45:11] R. Clastres, um etnólogo francês

[00:45:13] já falecido

[00:45:14] sobre, o nome do texto é

[00:45:17] Do que riem os índios

[00:45:18] no qual ele vai analisar uma série

[00:45:21] de narrativas indígenas

[00:45:22] de populações em

[00:45:24] Biali, ou do Chaco e tal

[00:45:27] pra mostrar que, por exemplo

[00:45:28] existe toda uma forma de narrativa

[00:45:31] e humor indígena

[00:45:33] no qual

[00:45:34] eles dão risada

[00:45:36] daqueles elementos que eles têm medo

[00:45:39] então, por exemplo, eles vão criar

[00:45:41] uma narrativa pra rir

[00:45:42] do

[00:45:43] do jaguar, né, dos feiticeiros

[00:45:46] então, assim, essa

[00:45:48] o humor, aí, serve como

[00:45:51] um dispositivo

[00:45:52] de desmontar uma certa hierarquia, né

[00:45:54] porque quando você tem medo de algo

[00:45:56] você concede a esse algo um poder

[00:45:58] então, rir, colocar esse algo

[00:46:00] numa posição ridícula

[00:46:02] é, de certa maneira, desmontar

[00:46:04] a autoridade que aquilo tem sobre você

[00:46:06] nesse sentido, o

[00:46:08] Naked Gun, eu acho que faz isso

[00:46:11] e coloca essa autoridade policial

[00:46:13] num papel ridículo, o rei está nu

[00:46:15] né, o famoso troco clássico

[00:46:17] da comédia, né, tipo, você pega uma figura de autoridade

[00:46:19] e coloca ela numa situação ridícula, por isso

[00:46:21] que o Leslie Nielsen era sensacional

[00:46:23] porque ele encarava

[00:46:25] figuras de autoridade em posições

[00:46:27] ridículas, ou ele era um médico, ou ele era

[00:46:29] um policial

[00:46:31] ou num outro filme dele clássico, sensacional

[00:46:33] que ele era um violinista famoso

[00:46:35] um artista da performance

[00:46:37] seríssimo, clássico e tal

[00:46:38] então, assim

[00:46:39] …

[00:46:41] esse é um método do riso

[00:46:42] quando a gente vai olhar pra esse tipo de riso

[00:46:45] que a gente tá tendo, e a gente já falou

[00:46:47] sobre o riso antes, quando eu falei da experiência

[00:46:49] de ver tropas de elite no cinema

[00:46:51] das pessoas rindo da tortura

[00:46:53] o

[00:46:54] óbvio que existem

[00:46:56] intensidades, gradações

[00:46:59] coisas do tipo, né, enfim

[00:47:00] não vamos passar muito rápido, desluir o contexto

[00:47:03] mas, quando a gente ri

[00:47:04] de uma atuação, a gente acha engraçado

[00:47:07] uma situação no qual

[00:47:09] tem uma violência

[00:47:11] ali, implícita

[00:47:12] no mundo real, e a gente tá rindo dessa violência

[00:47:15] como se fosse, olha que legalzinho

[00:47:16] engraçado esse sujeito cometendo essa violência

[00:47:19] sei lá o que, papapá

[00:47:20] a gente não

[00:47:22] no lugar de a gente tá desmontando a hierarquia

[00:47:24] por meio do riso, como faz o Naked Gun

[00:47:27] ou como faz, sei lá

[00:47:28] esse estilo de

[00:47:30] humor de certas narrativas indígenas

[00:47:33] esse estilo, digamos

[00:47:34] como que eu posso dizer, contestador

[00:47:37] do humor, quando você tá rindo

[00:47:39] com os opressores

[00:47:41] basicamente isso que acontece nessas séries

[00:47:43] você tá, de certa maneira

[00:47:44] naturalizando essa questão

[00:47:47] então, assim

[00:47:48] quando você transforma

[00:47:51] violência policial

[00:47:52] ou, por exemplo, tem um episódio do Brooklyn Nine-Nine

[00:47:55] que eles apostam, quantas pessoas eles vão prender

[00:47:57] no dia, sabe

[00:47:58] quando você começa a rir disso, quando você começa a rir

[00:48:01] da polícia prendendo gente

[00:48:03] ainda que na série eles sejam retratados

[00:48:05] como pessoas ruins, bandidos

[00:48:06] maléficos e tudo mais

[00:48:08] você tá, de certa maneira, naturalizando

[00:48:11] e incutindo nas pessoas

[00:48:13] que o papel da polícia

[00:48:15] é esse, né

[00:48:16] e dando, amenizando

[00:48:18] eventuais excessos que possam ser cometidos

[00:48:21] como você bem disse

[00:48:22] você individualiza as pessoas, né

[00:48:24] ah, o Peralta, né

[00:48:25] você vai cair rapidamente, quando você faz isso

[00:48:28] você cai rapidamente

[00:48:29] naquele discurso que quando se depara

[00:48:32] com uma violência policial

[00:48:34] que é um fenômeno estrutural

[00:48:36] não é um fenômeno, você personaliza

[00:48:39] ah, existem

[00:48:41] maus policiais

[00:48:42] o problema não é a instituição que é geneticamente

[00:48:45] fascista, opressora, coisa assim

[00:48:46] não, o problema são maus policiais

[00:48:48] ah, o problema são excessos individuais

[00:48:51] pô, mas aí tu vai ver a estatística

[00:48:53] pô, cara, de casa em

[00:48:54] são apenas um caso isolado

[00:48:56] pô, de casa em casa isolado não informa uma estatística nunca na polícia

[00:48:59] porque você tá sempre pressuposto a

[00:49:00] afeitar esse tipo de individualização

[00:49:02] desse tipo de argumento

[00:49:04] o Chris Rock, no último especial

[00:49:06] de stand-up dele, ele fala, né

[00:49:08] que tem esse argumento, que em inglês

[00:49:10] ele fala assim

[00:49:11] ah, são algumas bad apples, né

[00:49:13] algumas maçãs podres aí, né

[00:49:14] e ele fala

[00:49:16] é, mas alguns empregos não podem ter maçãs podres

[00:49:20] e aí ele faz a comparação

[00:49:23] ele faz a analogia de tipo assim

[00:49:24] a American Airlines não pode dizer

[00:49:25] ah, a maioria dos nossos pilotos querem coisa

[00:49:27] e o Brooklyn Nine-Nine

[00:49:32] por ser uma série de comédia e ter que tirar

[00:49:33] situações cômicas

[00:49:36] do dia-a-dia daquele núcleo familiar

[00:49:38] ele pinta todos eles

[00:49:40] como diferentemente incompetentes

[00:49:42] todos os personagens têm uma incompetência

[00:49:44] diferente, mas ela precisa existir

[00:49:46] pra criar situações

[00:49:48] cômicas, né, e aí é exatamente

[00:49:50] o que você falou, assim, ah, aí beleza, vamos fazer

[00:49:52] um episódio em que eles apostam que empreendem mais gente

[00:49:54] e as pessoas que eles prendem

[00:49:55] dentro do universo diegético

[00:49:57] merecem ser presas, né, entre aspas

[00:50:00] e aí, se essa é a relação

[00:50:02] de polícia e cidadão

[00:50:04] que você vê sempre, isso reforça

[00:50:06] uma ideia sua

[00:50:07] de que, né, a polícia, né

[00:50:10] sempre indo atrás, né, aquela coisa

[00:50:12] ué, se eu não fiz nada de errado, não tenho nada a ter medo

[00:50:14] não, não, tem uma coisa que é importante aqui, por exemplo, agora

[00:50:16] recentemente saiu um editorial no New York Times

[00:50:18] né, tipo uma policionista norte-americana

[00:50:20] no qual ela fala que um dos grandes

[00:50:22] problemas pra você discutir

[00:50:24] né, o fim

[00:50:26] da polícia, enfim, é justamente

[00:50:28] essa imaginação de que

[00:50:30] o papel da polícia é prender

[00:50:32] pessoas, que a polícia tá sempre prendendo gente

[00:50:34] e aí ela fala assim, ah, nos Estados Unidos, sei lá, quando um

[00:50:36] policial comete uma prisão por ano

[00:50:38] é muita coisa, saca, um policial

[00:50:40] no máximo comete, sabe, tem uma estatística

[00:50:42] que mostra, assim, cara, é muito raro pros caras

[00:50:44] resolverem um crime, sabe, prender

[00:50:46] alguém, então assim, essas séries que

[00:50:48] tão mostrando esses caras, pô, por mais que eles sejam

[00:50:50] caricatos, eles são eficientes

[00:50:52] né, e aquela coisa, assim, dentro

[00:50:54] do estado que a gente vive, né

[00:50:56] assim, e nem falando nada

[00:50:57] de quão falha ele é, assim, tipo, quem prende não é

[00:51:00] policial, quem prende é juiz, entendeu

[00:51:01] pois é, né, assim, a polícia

[00:51:03] apreende, né, e assim

[00:51:06] no máximo prende se for flagra, entendeu

[00:51:07] mas é isso, assim, quem vai condenar mesmo, quem vai

[00:51:10] falar que alguém tem que ir pra prisão

[00:51:12] que tem que cumprir uma pena

[00:51:14] é um juiz, entendeu, então não é nem assim

[00:51:16] tipo, esse trabalho, é aquela coisa, o Law & Order

[00:51:18] é o primeiro seriado, né, quase, acho que

[00:51:20] o Homicide, o Law & Order, assim, são os primeiros seriados

[00:51:21] que aí eles decidem endeusar também

[00:51:24] os promotores. Aí vai longe, né

[00:51:26] cara, aí vai longe. Exato, mas a gente vai ter

[00:51:28] um episódio sobre essas séries

[00:51:30] de TV procedurais, assim

[00:51:32] CSI, Law & Order e

[00:51:34] a brasileira 9mm São Paulo

[00:51:36] mas isso fica pra

[00:51:38] semana que vem. A outra

[00:51:40] só queria fazer um último negócio que eu lembrei aqui

[00:51:42] falar uma última coisa do Brooklyn Nine-Nine que eu pensei que é

[00:51:44] o Brooklyn Nine-Nine, como várias

[00:51:46] outras obras

[00:51:47] recentes, também servem

[00:51:50] pra normalizar um outro comportamento da polícia

[00:51:52] e do Estado em geral, muito preocupante

[00:51:54] que é o Estado de Vigilância

[00:51:56] Digital, né

[00:51:57] que no Brooklyn Nine-Nine, por ser

[00:52:00] uma série que se passa nos tempos

[00:52:02] atuais, é muito comum eles fazerem alguma coisa

[00:52:04] tipo, ah, grampear um celular, tipo assim, né

[00:52:06] vamos dizer, né, pegar

[00:52:07] gravar a tela do celular de alguém

[00:52:10] ou tipo, acessar bancos de dados online

[00:52:12] pra achar informações de pessoas e tal

[00:52:14] e quando você fica usando

[00:52:16] isso nessas séries

[00:52:17] pros heróis, né, e aquilo só

[00:52:19] só causa o bem

[00:52:21] e tudo mais

[00:52:23] você começa a criar uma familiaridade

[00:52:26] com esse tipo de processo como algo bom

[00:52:28] né, e aí quando

[00:52:29] por exemplo, aí você vai ter alguma discussão

[00:52:31] legislativa sobre o marco civil

[00:52:34] da internet, alguma coisa assim

[00:52:35] as pessoas estão automaticamente predispostas a acreditar

[00:52:38] que na mão da polícia

[00:52:40] as ferramentas fazem o bem

[00:52:41] e tortura, guys

[00:52:42] também

[00:52:43] ué, a gente, assim, não tem um caso

[00:52:48] maior de propaganda

[00:52:50] da tortura

[00:52:52] na cultura pop recente

[00:52:54] do que aquele seriado 24 Horas

[00:52:56] que estreia

[00:52:58] logo depois

[00:53:00] do 11 de setembro e com a incursão

[00:53:02] dos Estados Unidos na Afeganistão e no Iraque

[00:53:04] e é o seriado

[00:53:06] que é assim, é comprovado, tem pesquisa

[00:53:08] sobre isso, que ajudou

[00:53:10] melhorar a opinião pública americana

[00:53:12] sobre tortura, exatamente

[00:53:14] na época quando o governo americano começa a ser

[00:53:16] investigado sobre ter usado técnicas

[00:53:18] de tortura em Guantanamo e nas suas

[00:53:20] prisões no Afeganistão e no Iraque

[00:53:22] e até hoje, assim, sabe, a gente tem que

[00:53:24] sentar aqui e ver, assim, essa semana

[00:53:26] que a gente tá gravando isso, as pessoas estavam

[00:53:28] elogiando o Obama, porque o Obama foi na TV

[00:53:30] falar que pelo menos o George W. Bush

[00:53:33] era melhor que o Trump porque ele respeitava

[00:53:34] as leis, não é verdade

[00:53:36] esse é um homem que respeitou as leis internacionais pra começar

[00:53:38] duas guerras que continuam até hoje

[00:53:40] guerras que o

[00:53:41] recipiente do Nobel da Paz, Barack Obama

[00:53:44] aumentou, inclusive

[00:53:45] e que fez isso, sabe, que autorizou

[00:53:48] programas de tortura totalmente ilegais

[00:53:50] e que depois

[00:53:51] e que toda a administração

[00:53:54] passou em colo por isso, né, e se

[00:53:56] defendeu publicamente

[00:53:57] é isso, assim, só se defendeu

[00:53:59] na corte de opinião pública

[00:54:02] e a corte de opinião pública tava muito

[00:54:03] virada pro lado deles, e uma

[00:54:06] das coisas que ajudou foi exatamente

[00:54:07] 24 horas, uma série policial

[00:54:10] aí, que fica citada aqui

[00:54:11] é, então, isso que, mas aí, por exemplo

[00:54:13] você, até nessas séries como Brooklyn Nine-Nine

[00:54:15] é comum verem suspeitos sendo agredidos

[00:54:18] né, até como uma forma de domá-los

[00:54:20] e coisas do tipo, então assim

[00:54:22] ou de, especialmente pra tirar

[00:54:24] informações das pessoas, tirar informação

[00:54:25] não existe outro tipo de coisa que seja

[00:54:27] investigação, né, é no mínimo um terror psicológico

[00:54:30] necessário, é, então assim

[00:54:32] é impressionante como

[00:54:33] porque quando você cria, porque

[00:54:35] esse tipo de brincadeira

[00:54:37] e aqui, é complicado falar

[00:54:40] disso, porque, enfim, muita gente fala

[00:54:41] agora não pode fazer piada sobre nada

[00:54:43] meu Deus do céu, cara, vai lá ver

[00:54:46] o corra que a polícia vem aí

[00:54:47] um monte de piada sendo feita

[00:54:49] e muitas até bem perigosas, ali no limiado

[00:54:51] uma piada errada, assim, saca, tipo

[00:54:53] e pra época, inclusive

[00:54:55] enfim, mas o

[00:54:57] tu vai ver que, por exemplo, como

[00:54:59] você vai fazer, quando você faz

[00:55:02] é aquilo que eu tava falando antes

[00:55:03] do que a gente ri

[00:55:05] e do que fazem a gente rir, né

[00:55:07] são duas coisas que muitas vezes estão juntas, né

[00:55:10] não é uma coisa inocente

[00:55:12] se a gente tá rindo, por exemplo

[00:55:13] ah, se a gente, se a gente sabe que

[00:55:15] hoje em dia, cara

[00:55:17] é, rir de

[00:55:19] minorias, é

[00:55:21] era uma, criar piadas com minorias

[00:55:23] era uma forma de você justificar

[00:55:25] e naturalizar uma hierarquia social que

[00:55:27] se criou pra oprimir essas pessoas, né

[00:55:29] e na década de, sei lá, de 50

[00:55:31] esse tipo de coisa não tava ali em voga e tudo mais

[00:55:34] cara, a gente tem

[00:55:35] que entender que o, quando a gente olha pra isso

[00:55:37] a gente não tem que dizer, pronto, já a gente não tá fazendo mais piada

[00:55:40] a minoria tá resolvido o problema do humor na sociedade

[00:55:41] não, bicho, a gente tem que dizer que o humor

[00:55:43] ele pode ser usado, muitas vezes

[00:55:45] e de maneira insuspeita, né

[00:55:47] pra naturalizar, enfim, pra propagar

[00:55:50] codificar comportamentos

[00:55:51] que são, cara, assim

[00:55:52] são errados, então assim

[00:55:55] se você tem um personagem

[00:55:56] num seriado de humor

[00:55:59] cometendo torturas, ainda que seja

[00:56:01] ah, ali

[00:56:04] pra piada, né

[00:56:05] pro punch in line, por causa daquilo

[00:56:07] ou só ser uma coisa, assim, secundária

[00:56:09] o que que você acontece? Você acaba naturalizando, justamente

[00:56:11] a necessidade de se criar

[00:56:14] de torturar pra poder extrair informações

[00:56:16] porque o papel dos policiais é

[00:56:17] defender a lei, defender

[00:56:19] pedir pessoas que cometerem crime

[00:56:21] ou punir aqueles que cometeram crime, sabe

[00:56:23] ou seja, você tá numa brincadeira, só você tá

[00:56:25] naturalizando todo o papel dessa instituição

[00:56:28] que agora, finalmente

[00:56:30] enfim, e ainda assim com grandes restrições

[00:56:32] né, as pessoas estão acordando

[00:56:34] para o seu grande problema, né

[00:56:35] Pois é, e aquela coisa que você já mencionou

[00:56:38] de individualizar problemas sistêmicos, né

[00:56:40] que é muito comum, mas você é incapaz

[00:56:42] de discutir e desconstruir problemas sistêmicos

[00:56:44] se você só vê

[00:56:46] pelo lado individualista

[00:56:48] porque assim, se eu quisesse

[00:56:50] eu podia fazer uma sitcom

[00:56:52] dos

[00:56:53] founding fathers americanos lá

[00:56:56] todos donos de escravos

[00:56:57] e aí você ia achar, tipo, pô, eles são donos de escravos, mas eles são muito legais

[00:57:00] e aí você começa

[00:57:02] a só mostrar as figuras

[00:57:04] por esse viés

[00:57:06] por esse viés de espaço, se você tiver

[00:57:08] vivendo com essa pessoa, ela é muito legal

[00:57:09] é tipo, é, a maioria das pessoas é ok se você tá convivendo com elas

[00:57:12] mas só que não é isso, assim, né, o comportamento das pessoas

[00:57:14] existe dentro de uma sociedade

[00:57:15] e quando esses comportamentos

[00:57:18] fazem parte de

[00:57:19] e propagam

[00:57:22] um problema sistêmico, uma opressão sistêmica

[00:57:24] você precisa questionar esses comportamentos

[00:57:26] e pra você

[00:57:27] você também é um ser humano

[00:57:29] pra poder questionar essas coisas, você precisa olhar pra isso

[00:57:31] de uma maneira que não é, ah, mas o meu amigo é policial

[00:57:34] ou o meu tio é policial

[00:57:35] ou, né, enfim, o meu tio

[00:57:38] é um grande fazendeiro, enfim

[00:57:40] todos esses problemas

[00:57:41] meu tio é dono de escola particular, enfim, todas essas coisas

[00:57:44] meu tio é a Taba Tamaral

[00:57:46] meu tio é o policial antifascista

[00:57:50] não, mas então

[00:57:52] só pra finalizar, eu acho que

[00:57:53] essa é uma questão fundamental mesmo, né, porque

[00:57:55] quando a gente foi falar no episódio anterior

[00:57:57] e a gente tá vindo nessa série

[00:58:00] né, antipolícia

[00:58:02] vamos colocar assim, né

[00:58:03] no qual a gente tá caracterizando o papel do policial

[00:58:06] lá, Robocop, é o psicopata

[00:58:08] funcional e tudo mais

[00:58:09] o que a gente tá vendo é como esse, de fato

[00:58:12] isso, né, o cinema americano não apenas

[00:58:14] naturalizou

[00:58:16] esse tipo

[00:58:18] de linguagem, tornou natural

[00:58:20] tornou aceitável figuras

[00:58:22] como psicopatas funcionais

[00:58:23] pessoas que são verdadeiras

[00:58:25] dificilmente você consegue

[00:58:28] quando você tá, digamos, do outro lado da

[00:58:30] arma dele, você não acha, você vai ser

[00:58:32] incapaz de olhar pra essa pessoa e falar assim, cara, então

[00:58:34] esse sujeito aqui não é um cara legal não, saca

[00:58:36] tipo, esse cara aqui é um assassino

[00:58:38] opa, tal, você pega esse sujeito

[00:58:40] naturaliza a existência deles, depois

[00:58:42] você naturaliza a existência da força que os engloba

[00:58:44] ou seja, no fim das contas

[00:58:46] toda essa instituição é uma instituição

[00:58:48] vamos usar uma palavra do momento, reacionária

[00:58:50] né, porque é aquilo

[00:58:52] aí às vezes se dá uma roupagem mais

[00:58:54] bonitinha, não, mas é porque aqui tem

[00:58:56] eles também tem, eles também falam

[00:58:58] de racismo, eles também tão produzindo

[00:59:00] igualdade entre as mulheres, saca

[00:59:02] entre os gêneros

[00:59:04] mas no fim das contas

[00:59:06] ali tem uma máquina opressiva, saca

[00:59:08] por mais que seja, que se trate de temas

[00:59:10] moderninhos nesse sentido, né

[00:59:12] mas ainda assim, quando

[00:59:14] você olha pro, pra big picture

[00:59:16] do negócio, né, pra estrutura da coisa

[00:59:18] assim, então, beleza, é que nem aquela

[00:59:20] que a gente falou da Condoleza Rice, né, tipo

[00:59:22] e aí, e aí, cara

[00:59:24] tipo assim, tá lá, ela tá mandando bombardear, saca

[00:59:26] tipo, se comemora o fato de você ter

[00:59:28] uma mulher negra na posição de poder, ou você fala assim

[00:59:30] então, ela tá comentando as mesmas coisas que

[00:59:32] o outro cara que tava no lugar dela, então tipo assim

[00:59:34] o fato de você ter alguma relação que

[00:59:36] você possa se identificar com essas figuras

[00:59:38] não as torna

[00:59:40] o seu papel na estrutura da sociedade não os

[00:59:42] torna menos piores, sabe

[00:59:44] sim, e que era uma

[00:59:45] ainda, né, um

[00:59:47] argumento do

[00:59:50] do feminismo

[00:59:52] liberal, da luta

[00:59:53] antirracista liberal, que é

[00:59:56] exatamente, por exemplo, quando começaram os

[00:59:58] protestos, o Cornel West apareceu

[01:00:00] na CNN criticando exatamente isso, falando

[01:00:02] assim, black faces in high places

[01:00:04] não resolveu, sabe

[01:00:06] tipo, o presidente dos Estados Unidos já foi um homem

[01:00:08] negro, e assim, e não resolveu

[01:00:09] o racismo

[01:00:12] estrutural reproduzido pelo

[01:00:14] governo, pelos braços do governo, seja

[01:00:16] o exército americano, a polícia

[01:00:18] americana, cada vez mais militarizada

[01:00:20] enfim, tudo isso segue

[01:00:22] porque, exato, o

[01:00:24] exemplo da Condoleezza Rice é exatamente isso

[01:00:26] se você individualiza a questão

[01:00:28] e aí o indivíduo chega lá e reproduz exatamente

[01:00:30] o mesmo comportamento, é isso

[01:00:32] assim, o Brooklyn Nine-Nine é a mesma coisa, assim, ah, legal

[01:00:34] o nosso

[01:00:35] o nosso cast é super

[01:00:37] diverso

[01:00:38] e tem uma personagem bissexual e um personagem

[01:00:40] gay, e isso é tudo muito legal

[01:00:42] muito bom, não deixa de ser

[01:00:44] representatividade, mas ao mesmo tempo

[01:00:45] assim, a polícia

[01:00:47] é um aliado

[01:00:49] da causa LGBT, a polícia

[01:00:52] é uma ferramenta

[01:00:54] de

[01:00:56] propagar diversidade

[01:00:58] na sociedade? Aparentemente não

[01:01:00] assim, né, se você olha pros, né, os números

[01:01:02] de quem que é

[01:01:04] preso, né, de quais as

[01:01:06] situações das pessoas

[01:01:08] são presas, são encarceradas

[01:01:10] pela polícia, enfim

[01:01:12] a atuação da polícia, né, quem são os jovens

[01:01:14] que a polícia mata, né

[01:01:15] enfim, você vê que, tanto faz

[01:01:18] assim, que o Terry Crews é um dos protagonistas

[01:01:20] da série, não resolveu muita coisa

[01:01:22] e muitas vezes acaba servindo como

[01:01:24] é isso, é a imagem da polícia

[01:01:26] né, e eu não tô dizendo que as pessoas são burras

[01:01:28] e elas acham que a polícia é o Brooklyn Nine-Nine

[01:01:30] não, as pessoas assistem Brooklyn Nine-Nine

[01:01:32] por escapismo, tal qual eu assisti

[01:01:34] naquele avião, mas

[01:01:35] é, mas só que isso fica na nossa

[01:01:38] cabeça, e é como eu disse, se você

[01:01:40] é uma pessoa de um background afluente

[01:01:42] de, né, de tipo, né, se você vive

[01:01:44] a vida privilegiada que muitos

[01:01:46] dos nossos ouvintes talvez vivam

[01:01:48] a sua relação com a polícia é a cultura

[01:01:50] pop, mais do que nunca, então

[01:01:52] você tá condicionado

[01:01:54] por essas coisas a reagir

[01:01:56] de uma certa maneira com a ideia da polícia

[01:01:58] com debates que quando eles surgem

[01:01:59] da

[01:02:00] da abolição da polícia e tudo mais

[01:02:04] e do sistema carcerário, então

[01:02:05] é importante pra gente, assim

[01:02:08] continua vendo Brooklyn Nine-Nine

[01:02:10] você gosta, assim, nada contra, eu provavelmente vou assistir

[01:02:12] um dia que eu não tiver nada pra fazer também, mas

[01:02:14] é, é, o que a gente

[01:02:16] tá discutindo aqui é, tipo, olha só

[01:02:18] como se você não para pra questionar o que a gente assiste

[01:02:20] às vezes essas paradas tem

[01:02:22] um efeito que a gente nem tá percebendo

[01:02:24] é, pois é, porque, por exemplo

[01:02:26] eu acho que não precisa nem ser só uma pessoa

[01:02:28] privilegiada, porque, enfim, a gente tá falando

[01:02:30] de coisas muito básicas, assim, assistir, consumir

[01:02:32] televisão, coisa, porque

[01:02:34] ver, por exemplo

[01:02:36] a linguagem que o atual

[01:02:38] governador do Rio de Janeiro utiliza

[01:02:40] pra falar de segurança pública, né

[01:02:42] enfim, a própria linguagem que o Bolsonaro

[01:02:43] utilizou pra se eleger, como se

[01:02:46] sabe, que são linguagens tiradas de filmes de ação

[01:02:48] e que você bem sabe

[01:02:50] apela pra pessoas que estão

[01:02:52] muito mais próximas da realidade violenta

[01:02:54] do que eu, por exemplo, né, entendeu

[01:02:56] assim, quantas pessoas você

[01:02:58] conhece aí no seu bairro

[01:03:00] que votaram nesse

[01:03:02] governador, por exemplo, né

[01:03:03] pois é, pois é

[01:03:04] e porque são

[01:03:06] de novo, assim, mais

[01:03:08] do que eu, as pessoas que lidam com os problemas

[01:03:10] de segurança pública que existem, né

[01:03:11] são pessoas que são muito mais vitimizadas

[01:03:14] por isso do que pessoas como eu, assim

[01:03:16] que estão aqui no seu apartamento e tal, perto da Paulista

[01:03:18] então

[01:03:19] é isso, assim

[01:03:21] claro que a visão das pessoas é moldada

[01:03:24] pelo que elas vivem na sua realidade

[01:03:26] imediata e material, mas

[01:03:28] a realidade imediata e material

[01:03:29] é também o que acontece na tela, né

[01:03:31] é a proposta desse podcast, assim

[01:03:33] o que acontece na tela é inseparável da realidade

[01:03:36] imediata ao seu redor

[01:03:38] e a gente vai ter que fazer um, depois um

[01:03:39] pequeno spin-off falando sobre Datenas

[01:03:41] e coisas da vida, né, porque

[01:03:43] é isso, né, tipo, ele

[01:03:45] leva pra esse lado

[01:03:46] vira um entretenimento, né

[01:03:49] tem um episódio recente do

[01:03:51] daquele podcast

[01:03:54] o Nada Tá Bom Nunca, que eles falaram bastante

[01:03:56] sobre esse tipo de programa, desde o Aqui Agora

[01:03:57] e tal, até os recentes

[01:04:00] eu tava até trocando uma ideia com o Vitor lá

[01:04:02] depois apresentando pra ele

[01:04:04] o Polícia em Ação, que era um programa desse

[01:04:06] policial do Rio Grande do Sul, que tem até um

[01:04:08] episódio em que ele faz merchan de puteiro

[01:04:10] nossa

[01:04:11] realmente, é Polícia em Ação isso aí, né

[01:04:14] procurem Polícia em Ação

[01:04:16] Tia Carmen no YouTube

[01:04:17] que vocês acham ele no Carmen’s Club

[01:04:19] talvez o prostíbulo mais

[01:04:21] famoso de Porto Alegre

[01:04:23] mas é isso, esses programas são

[01:04:26] todo dia, martelando na cabeça

[01:04:27] e uma coisa que eles citam

[01:04:29] que é muito interessante nesse episódio

[01:04:31] que eu nunca tinha parado pra pensar, é a quantidade de restaurantes

[01:04:34] e bares que passam

[01:04:36] esse tipo de programa aqui no Brasil

[01:04:37] pois é

[01:04:38] e você entra num lugar pra tomar uma cerveja

[01:04:40] no final do expediente, ou tomar um café com leite

[01:04:41] e tá passando esses programas policiais

[01:04:44] e a função deles

[01:04:46] de criar essa sensação

[01:04:48] de medo

[01:04:50] nas pessoas, de necessidade

[01:04:52] de um estado policial opressor

[01:04:53] porque você vê que a popularidade desses programas

[01:04:56] aumenta absurdamente durante os anos 90

[01:04:58] e tudo mais, que é exatamente

[01:05:00] quando cai a violência

[01:05:02] na maioria dos centros urbanos

[01:05:04] e que a violência

[01:05:05] tudo bem, ela começou a aumentar novamente

[01:05:07] muito tempo depois, mas é uma coisa que eu acho que é muito importante

[01:05:08] a um tempo atrás aqui e tal

[01:05:10] mas assim, que durante muito tempo

[01:05:12] foi muito linear, o aumento da sensação

[01:05:14] de insegurança das pessoas e do sucesso

[01:05:16] desses programas, totalmente contrário

[01:05:18] ao que realmente estava acontecendo

[01:05:19] imediatamente ao redor da gente

[01:05:21] e tem uma coisa também aí

[01:05:23] porque esses programas também começaram a

[01:05:25] colocar os policiais, individualizar

[01:05:28] individualizá-los

[01:05:29] então por exemplo, da Atena tem um coronel

[01:05:32] um cara que vai lá e apresenta

[01:05:34] nos Estados Unidos eles

[01:05:37] interromperam

[01:05:37] cancelaram finalmente COPS

[01:05:38] só que a versão brasileira

[01:05:41] o Polícia 24 Horas

[01:05:43] vai voltar

[01:05:44] nossa

[01:05:46] cara, a gente conseguiu ir de Naked Gun

[01:05:49] pra falar disso

[01:05:51] bicho, a gente tá amargo, hein

[01:05:53] muito

[01:05:55] por isso que a partir do próximo episódio a gente vai ter aquele jogo

[01:05:57] pra encerrar o episódio

[01:05:59] que é o jogo do Duvido Você

[01:06:01] fazer um paralelo entre isso e aquilo

[01:06:02] que a gente vai ter um nome melhor pra esse jogo até lá

[01:06:05] inclusive no próximo episódio

[01:06:06] que estreamos nosso primeiro patrocínio, né cara

[01:06:09] sim, também, vai ser um episódio

[01:06:10] muito bom, muito especial

[01:06:12] uma série que pouca gente viu

[01:06:14] normalmente a gente tenta falar aqui de

[01:06:16] produtos de consumo de massa, porque são esses exatamente

[01:06:18] que estão moldando a visão de muita gente

[01:06:20] mas, às vezes é interessante

[01:06:22] pegar um produto um pouco obscuro

[01:06:25] mas entender como que, por exemplo

[01:06:26] a sensibilidade brasileira digere

[01:06:29] uma certa visão de mundo

[01:06:31] desses seriados policiais

[01:06:33] então, semana que vem a gente vai falar

[01:06:34] talvez seja o último episódio

[01:06:36] policial, assim, da atual

[01:06:38] run, pra gente poder

[01:06:40] arejar os pensamentos

[01:06:42] e falar de outras coisas

[01:06:44] mas vai ser sobre séries policiais

[01:06:46] incluindo 9mm São Paulo

[01:06:49] essa grande obra

[01:06:50] grande, grande, maravilhosa

[01:06:52] que, infelizmente, saiu do Netflix

[01:06:54] no dia 1º de julho, quando você estava ouvindo isso

[01:06:56] já não tá mais no Netflix, não sei se vai estar em outro lugar

[01:06:58] ninguém pirateou

[01:07:00] ninguém pirateou, bicho

[01:07:02] e aí, tipo assim, se eu tivesse em DVD

[01:07:05] eu até pirateava pras pessoas do

[01:07:06] eu tava no Internet Archive e tal, mas

[01:07:08] no Netflix é um saco piratear as coisas

[01:07:10] porque eu teria que basicamente dar play e ficar gravando

[01:07:12] o que tá passando pelo HDMI, sabe, enfim

[01:07:14] aí, não vou fazer isso, desculpa gente

[01:07:16] mas, enfim

[01:07:17] fica aí

[01:07:19] fica aí, é isso aí

[01:07:21] dorme com essa

[01:07:23] dorme com essa, Cabral

[01:07:24] dorme com essa, Majin Bu

[01:07:36] aqui

[01:07:46] um

[01:08:01] um

[01:08:03] um

[01:08:05] um

[01:08:05] um

[01:08:06] um

[01:08:06] um

[01:08:06] um