#08 - Lei e Ordem (Sem Progresso)


Resumo

O episódio parte da tentativa (e arrependimento) de cobrir “9mm: São Paulo”, série procedural da Polícia Civil ambientada em uma delegacia de homicídios. Gus e Orlando contextualizam a confusão de temporadas entre Wikipedia e Netflix e comentam como a série ficou inacessível após sair do catálogo, o que reforça o tom de “documento perdido” de uma obra que eles assistiram às pressas.

A conversa alterna deboche e análise técnica: eles descrevem problemas de fotografia digital da época (câmera perto demais, tremor, pretos “destruídos”), falta de direção de arte, continuidade e preparação de elenco, além de um texto “declaratório” e personagens sem vozes distintas. O personagem Horácio (Norival Riso) vira símbolo disso: um torturador da ditadura retratado como herói eficiente, com cenas e falas que, para eles, tentam ser noir, mas caem num efeito de reconstituição sensacionalista.

No eixo político, os dois argumentam que a série condensa e normaliza um imaginário brasileiro de segurança pública: fins justificando meios, corrupção “do bem”, e a transformação de promotores/controle institucional em vilões. Eles conectam essa lógica a discursos que se difundiriam mais tarde (lavajatismo, adesivos e slogans), e destacam ações de marketing de 2008 (pessoas algemadas na Paulista/Berrini e encenação com 47 “bandidos” vs 1 policial) como síntese da mensagem de “falta polícia”.

O episódio também abre um parêntese histórico sobre a tortura como técnica de contra-insurgência (Argélia/Vietnã) e sua importação para o Brasil na ditadura, incluindo a experiência de Orlando na Comissão Nacional da Verdade e a forma como a “vida pessoal” é usada para relativizar crimes. Por fim, eles concluem que a série é tão mal feita que falha em glamourizar o que tenta vender — funcionando quase como um “Telecurso 2000 da polícia” — e encerram com a ideia de que, vista como espelho, ela expõe coisas que o país preferiu ignorar.


Indicações

Filmes

  • RoboCop — Citado como parte de uma sequência de episódios anteriores do podcast sobre polícia no audiovisual e normalização de violência institucional.
  • Duro de Matar — Usado como referência ao arquétipo do policial/indivíduo que rompe regras para fazer justiça; também aparece no contraste com o procedural.
  • Tropa de Elite — Mencionado na discussão sobre como certas obras podem glamourizar violência mesmo quando suas intenções seriam críticas, e sobre prazer/adesão do protagonista ao que faz.
  • Eliana em O Segredo dos Golfinhos — Mencionado como produção anterior ligada a Roberto D’Avila; citado de forma irônica como comparação de qualidade e como exemplo de “trabalho para pagar as contas”.

Livros

  • CVPCC: Hermandade do Crime — Livro atribuído a Carlos Amorim, citado ao comentar o envolvimento dele na criação da série e o viés de jornalismo policial associado.

MúSica

  • Cop Killer (Ice-T) — Mencionada como curiosidade sobre Ice-T, que participa de “Law & Order: SVU”, contrastando com o papel dele e a canção.
  • Cotidiano de um Casal Feliz (Jay Vaquer) — Citada como exemplo para comparar um “texto sem subtexto” e a literalidade do discurso, associada ao estilo declaratório que eles criticam em 9mm.

Pessoas

  • Isabela Stanguer — Citada pela noção de “alternativas infernais”, usada para explicar como a direita enquadra escolhas (polícia violenta vs caos) para sequestrar a imaginação política.

Programas-De-Tv

  • Linha Direta — Usado como comparação para o estilo de reconstituição e dramatização de crimes que os apresentadores enxergam em 9mm.
  • Fala Que Eu Te Escuto — Citado como referência para o tom moralista/sensacionalista e para a caricatura de temas sociais (drogas e “encosto”) que eles associam à série.
  • Cidade Alerta — Mencionado como exemplo de programa que imbeciliza o debate de segurança pública e normaliza discurso de violência e grupo de extermínio.
  • Castelo Rá-Tim-Bum — Citado ao identificar um ator (Bongo) que aparece em 9mm, reforçando a comparação com um “Telecurso 2000” pela forma didática da cena.

SéRies

  • 9mm: São Paulo — Série policial brasileira discutida no episódio; os apresentadores a consideram tecnicamente muito mal feita e ideologicamente problemática por glorificar violência policial e relativizar tortura.
  • Law & Order — Citada como referência central de séries procedurais e longevidade do formato; serve de comparação para discutir como o gênero individualiza policiais e normaliza certas práticas.
  • Law & Order: SVU — Mencionada como derivado que ultrapassou a marca de temporadas do original; aparece na conversa com curiosidades sobre personagens e elenco (Munch e Ice-T).
  • Homicide: Life on the Street — Citada como a série em que o personagem Munch teria começado, conectando o universo de procedurais e aparições cruzadas.
  • Brooklyn Nine-Nine — Referenciada ao comparar o tom “quase cômico” de cenas na delegacia na segunda temporada de 9mm, como se tentasse virar uma comédia de ambiente.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Contexto de 2008 e a chegada do procedural — Gus abre situando 2008 e a popularidade de narrativas policiais, comentando a ideia de séries procedurais como “última linha de defesa” do cidadão. Ele introduz “9mm: São Paulo” e explica a confusão de temporadas entre Wikipedia e Netflix. Também menciona que a série saiu do catálogo e ficou difícil de encontrar.
  • 00:01:57Merchan do Guaraná Pituca e tom do episódio — Orlando entra na conversa com a piada do “Guaraná Pituca” como patrocinador fictício e merchan da série. A dupla estabelece a dinâmica de humor ácido e frustração: Gus pede desculpas por ter sugerido cobrir a série. Eles começam a caracterizar a obra como “ruim de um jeito que dá a volta”.
  • 00:04:55Sinopse e personagens: Horácio e a delegacia — Eles descrevem a premissa: uma delegacia de homicídios fictícia em São Paulo e muitos protagonistas. Horácio, vivido por Norival Riso, é apresentado como policial veterano ligado à ditadura e tratado como protagonista pela série. A comparação com “Linha Direta” e “Fala Que Eu Te Escuto” reforça a crítica ao tom sensacionalista.
  • 00:06:21Crítica técnica: digital mal usado, câmera e iluminação — A conversa entra nos aspectos formais: imagem lavada, câmera tremida, enquadramentos “cropados”, falta de iluminação e pretos estourados. Eles sugerem que a produção parece não ter direção de fotografia e falam de problemas básicos de set (foquista, direção de arte, continuidade). A série vira exemplo do que não fazer num curso de cinema.
  • 00:08:01Criadores, produção e o “pedigree” da série — Gus cita Newton Canito e Roberto D’Avila como nomes ligados à criação/produção e comenta outras obras mencionadas no episódio (como “Cidade dos Homens” e “Eliana em O Segredo dos Golfinhos”). O tom muda do deboche para a crítica: eles afirmam que a série glorifica torturadores e que isso justifica a discussão no Popcult. A partir daí, eles passam a “problematizar” o conteúdo.
  • 00:10:22Ações de marketing e a mensagem de “mais polícia” — Eles lembram e depois detalham campanhas de divulgação em que pessoas foram algemadas em espaços de alta renda (Paulista e Berrini). A discussão gira em torno do significado político dessas ações e do que elas comunicam como espetáculo de segurança. O episódio enquadra isso como parte de um imaginário que naturaliza força e autoridade.
  • 00:13:21Exemplos de roteiro: execução, moralismo e “preto no branco” — Gus e Orlando comentam cenas iniciais em que Horácio executa um suspeito e, em outro caso, legitima moralmente um feminicídio com a justificativa da prostituição infantil. Eles usam esses exemplos para mostrar a falta de sutileza e o maniqueísmo do texto, apesar da estética “cinza” que a série tenta vender. A discussão inclui a ideia de que a série normaliza violência policial como solução.
  • 00:17:24Procedurais e Law & Order como referência — Eles situam “9mm” dentro de uma tradição de séries procedurais, citando “Law & Order” e “Law & Order: SVU”. A conversa passa por personagens e curiosidades (Munch/Richard Belzer e Ice-T) para contrastar longevidade e fórmula. Isso serve de ponte para argumentar que o formato tende a conciliar crítica institucional com a glorificação do policial.
  • 00:18:37Final da série e o arco “redentor” do torturador — A dupla dá spoilers e descreve o desfecho de Horácio como uma tentativa de redenção, incluindo a cena final no “além” com o filho que o acusa de tortura. Eles destacam como a série enquadra Horácio como herói apesar do histórico e como o tom moral se sustenta em cinismo. O resultado, para eles, é uma glorificação de um torturador da ditadura.
  • 00:19:30Roteiro “picotado”, vozes iguais e problemas de continuidade — Eles criticam a incapacidade do roteiro de criar personagens distintos: todos falam igual e em um português formal e artificial. Apontam cenas que parecem deslocadas e referências a eventos não mostrados, sugerindo edição e estrutura quebradas. Surgem exemplos como o apelido “3P” e o “Hello Fellow Kids” para ilustrar o ridículo involuntário.
  • 00:24:29Promotoria como vilã, corrupção “do bem” e lavajatismo — Orlando descreve como a segunda temporada coloca uma promotora tentando prender Horácio e policiais que acobertam crimes, mas a série quer que esses agentes do controle sejam vistos como vilões. Eles relacionam isso a um discurso em que até quem combate corrupção deseja “poder agir” fora da lei. A conversa conecta o tom ao lavajatismo e a slogans/pistas ideológicas que aparecem na própria série.
  • 00:31:13Comissão da Verdade e a relativização da tortura — Orlando menciona ter trabalhado na Comissão Nacional da Verdade e relata como recebiam mensagens defendendo torturadores por serem “boas pessoas” na vida privada. Eles conectam esse mecanismo à construção simplista de Horácio como religioso/“cidadão exemplar” que segue praticando violência. A série é usada como exemplo de como a sociedade perdoa crimes de Estado através de narrativas morais.
  • 00:37:10Origem histórica da tortura como técnica (Argélia e importação) — Orlando faz um panorama sobre guerra revolucionária, contra-insurgência francesa e a ideia de tortura como método de obter informação e espalhar terror. Ele afirma que o Brasil importou especialistas e técnicas durante a ditadura, vinculando isso à conformação das polícias militar e civil. O bloco serve para explicar por que a tortura é naturalizada como “necessária” no debate público.
  • 00:42:49Marketing de 2008 detalhado: algemas e “47 bandidos” — Gus lê detalhes de Wikipedia sobre duas campanhas: figurantes algemados na Paulista/Berrini e encenação nos parques Ibirapuera e Villa-Lobos com 47 “bandidos” e 1 policial. Eles interpretam o gesto como mensagem de impotência do Estado e necessidade de mais polícia. O tema reforça a crítica à noção de polícia “técnica” acima de ideologia.
  • 00:45:10Títulos de episódios e a estética do senso comum — Eles passam a ler títulos de episódios como se fossem “frases que valem um tapa na cara”, analisando o que cada nome sugere ideologicamente. O momento é usado para ironizar moralismo, simplificações e a tentativa de “popular” performático da série. A discussão conecta títulos a temas como lei, punição e inevitabilidade da violência.
  • 00:57:38Cracolândia, drogas e a caricatura dos usuários — A conversa destaca como a série retrata drogas de modo escolar e moralista, com usuários caricatos e trajetórias aceleradas para o desastre. Eles lembram cenas envolvendo 3P, uma garota de 17 anos e cocaína, e também a história do namorado da filha que rapidamente “vira morador de rua”. O argumento é que a série reduz tudo a falhas individuais e clichês.
  • 01:01:16PCC dramatizado e referências a jornalismo policial — Gus comenta o episódio “A hora é agora” como dramatização dos ataques do PCC em São Paulo, com assassinatos de policiais e ônibus queimados. Ele menciona Carlos Amorim e o livro “CVPCC, Hermandade do Crime” como parte do “pedigree” e do olhar policialesco. Eles lamentam não ter visto esses episódios para analisar a abordagem.
  • 01:05:24Telecurso 2000 da polícia e a série que não glamouriza — Eles defendem que a série é tão incompetente que falha em glamourizar a violência que tenta legitimar, ao contrário de obras mais bem feitas. A metáfora do “Telecurso 2000 da polícia” aparece, com menção a um ator que atua como se estivesse explicando laudos didaticamente. O efeito, para eles, é deixar o espectador menos inclinado a admirar a polícia.
  • 01:12:20Semiótica do cigarro: polícia como “câncer necessário” — Gus propõe uma leitura simbólica: o cigarro apagado de Horácio e o momento em que ele o acende no fim espelhariam a ideia de polícia como mal necessário para obter “prazer/resultado” a custo de doença. Orlando reage como uma conclusão horrível, mas coerente com a lógica da série. O bloco amarra forma e ideologia em uma interpretação final.
  • 01:13:00Encerramento: espelho social e disponibilidade da série — Eles concluem que “9mm” expõe crenças e discursos presentes no cotidiano brasileiro, e que hoje o noticiário já confronta o público com esses “Horácios” reais. Comentam a dificuldade de separar atuação ruim de condições ruins de produção e fazem piadas sobre a série virar um documento póstumo. Encerram prometendo avisar se a série voltar a ficar disponível e se despedem.

Dados do Episódio

  • Podcast: Popcult
  • Autor: Atabaque Produções
  • Categoria: TV & Film Film Reviews
  • Publicado: 2020-07-21T08:30:03Z
  • Duração: 01:15:59

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] No longínquo ano de 2008, o Brasil ainda estava cativado por Capitão Nascimento,

[00:00:26] porque ainda não estava cativado com a sua versão deputado do Rio de Janeiro e agora presidente da República.

[00:00:33] Então, era a hora de finalmente as séries procedurais de polícia chegarem ao Brasil.

[00:00:39] Essa coisa do os policiais toda semana, um caso diferente, mostrando como eles são a última linha da defesa.

[00:00:45] Pra você, o cidadão comum que precisa ser protegido da bandidagem, né?

[00:00:51] É com isso que veio 9mm São Paulo, uma série que…

[00:00:56] E a Wikipedia diz ter 3 temporadas e o Netflix diz ter 2 temporadas, produzidas entre 2008 e 2011.

[00:01:04] É porque, basicamente, a primeira temporada que eles falam são os primeiros 4 episódios.

[00:01:09] E aí, depois, a segunda temporada são os próximos 9.

[00:01:12] E aí, no Netflix, esses todos estavam juntos como uma temporada de 13 episódios.

[00:01:16] E depois, a terceira temporada estava como a segunda temporada do Netflix, que são mais 7 episódios completando aí.

[00:01:21] A uva de 20 episódios de…

[00:01:25] Quase uma hora de 9mm São Paulo.

[00:01:28] Parece muito mais que uma hora quando você tá assistindo.

[00:01:30] É uma série produzida aqui no Brasil.

[00:01:33] Na época, passou na Fox, né?

[00:01:35] E tava no Netflix agora até dia 1º de julho desse ano.

[00:01:39] A gente conseguiu assistir logo antes de sair do ar.

[00:01:42] E, infelizmente, agora não sei como você pode ver.

[00:01:43] Eu até procurei nos sites aí da famigerada pirataria, que é crime.

[00:01:47] Inclusive, eu poderia ser um personagem na série sendo preso por piratear a série.

[00:01:51] Mas eu não posso, porque só tem os 4 primeiros episódios no Pirate Bay, mas sem seeds.

[00:01:55] Então, você não consegue baixar.

[00:01:57] Não é, Orlando? E aí, tudo bem?

[00:01:59] Tudo bem, cara.

[00:02:00] Enquanto você falava aí, eu estava aqui degustando um copo de Guaraná Pituca.

[00:02:05] Guaraná Pituca.

[00:02:06] O Guaraná que parece uma bituca.

[00:02:08] Que é o nosso primeiro patrocinador, né?

[00:02:10] Nosso primeiro patrocinador.

[00:02:12] Ele que é um merchan que aparece em 9mm e agora, finalmente, retoma essa campanha de marketing que incendiou o Brasil.

[00:02:20] Deixando todo mundo com sede, claro.

[00:02:22] Guaraná Pituca.

[00:02:24] Meu Deus, Orlando.

[00:02:25] Em primeiro lugar, eu quero te pedir desculpas por ter dado a ideia de cobrir essa série, tá?

[00:02:32] Que parecia muito divertida.

[00:02:34] Porque foi só uma questão assim.

[00:02:35] A gente estava conversando das séries policiais, filmes policiais que a gente queria discutir aqui.

[00:02:39] E eu só…

[00:02:40] Aquele momento traiçoeiro em que caras como nós, que ficam acumulando muito conhecimento inútil,

[00:02:49] você não tem onde usar ele.

[00:02:51] E aí, parte do meu cérebro estava presa no fato de que ela lembrava que essa série existia.

[00:02:55] Só isso.

[00:02:55] E eu nunca tinha assistido.

[00:02:57] E eu só lembrava dos comerciais, na época que estreou na Fox, eu acho.

[00:03:00] E aí, só porque eu estava com esses preços, eu falei assim para o Orlando.

[00:03:04] Vamos falar dessa série?

[00:03:05] Porque é uma série brasileira disso.

[00:03:07] E é bom a gente ter esse ponto de vista, não sei o quê.

[00:03:09] Que erro, cara.

[00:03:10] Que erro.

[00:03:10] Porque aí eu descobri que estava na Netflix, comecei a ver.

[00:03:12] Aí eu vi que era muito pior do que eu imaginava.

[00:03:14] Aí eu falei, não, Orlando, você tem que ver.

[00:03:16] Porque a gente vai ter muita coisa para falar.

[00:03:18] Cara, eu não vou citar suas desculpas, não.

[00:03:20] Porque foi muito divertido.

[00:03:22] Inclusive, eu lamento aqui pelas pessoas que não vão…

[00:03:25] Vão poder assistir essa série.

[00:03:27] Porque ela é ruim de um jeito que dá a volta de verdade.

[00:03:33] Porque é impressionante.

[00:03:36] Eu me lembro de que poucas vezes, poucas vezes, eu ri tanto assistindo alguma coisa.

[00:03:43] Cara, porque aquela coisa que a gente estava falando do filme do Leslie Nielsen, né?

[00:03:47] De que os personagens do Leslie Nielsen são pessoas que estão completamente…

[00:03:52] São tolos, né?

[00:03:54] Só que eles não percebem que são tolos.

[00:03:55] A série é tola e não percebe que é tola.

[00:03:59] Porque não é possível.

[00:04:00] Eu fico imaginando assim, a pessoa terminou lá de gravar, editar, primeiro corte, todo mundo sentar.

[00:04:06] Aquela coisa que geralmente acontece, todo mundo reunido na casa de alguém para assistir aquele primeiro corte e tal.

[00:04:11] E o pessoal olha para aquilo e fala assim, muito bem, equipe, fizemos um bom trabalho.

[00:04:15] Eu não consigo acreditar que alguém fez isso.

[00:04:17] Não consigo, não é possível, cara.

[00:04:19] Só que, porque é difícil capturar.

[00:04:24] Eu deveria ser…

[00:04:25] Eu acho que só se eu fosse um poeta, ou se eu fosse um escritor muito melhor do que eu sou, sabe?

[00:04:30] Eu seria capaz de capturar a ruindade da série.

[00:04:34] Porque é uma coisa…

[00:04:36] Cara, assim, só uma coisa para ilustrar para os ouvintes, assim.

[00:04:41] Tem um determinado capítulo onde eles vão ter personagens que são pitboys.

[00:04:46] Só que os pitboys são magros.

[00:04:48] O ator que faz o papel de personagem bonito é feio, saca?

[00:04:53] Cara, sim, sim.

[00:04:55] E assim, vamos tentar dar uma introdução do que é 9 Milímetros de São Paulo.

[00:05:00] 9 Milímetros de São Paulo, ele é uma série sobre uma delegacia de homicídios da polícia civil em São Paulo.

[00:05:07] Uma delegacia fictícia aí.

[00:05:10] Com personagens principais demais.

[00:05:14] A gente tem o Horácio, que ele é listado aqui, tanto na IMDB quanto na Wikipedia, como o personagem principal.

[00:05:23] Então, isso, ou seja, isso vai nos dar muito pano para a manga.

[00:05:25] Fala mal da segunda temporada.

[00:05:26] Nossa, cara.

[00:05:27] O Norival Riso faz o Horácio, que é o policial velho, que está lá desde a época da ditadura.

[00:05:33] Que, inclusive, a gente vai chegar nisso.

[00:05:35] Era um torturador durante a ditadura.

[00:05:38] Spoiler, spoiler.

[00:05:39] Spoiler.

[00:05:40] Spoiler do passado.

[00:05:41] O Horácio é o personagem principal, porque ele acha que ele está num filme no ar.

[00:05:46] Só que ele está numa série que parece uma reconstituição do Linha Direta.

[00:05:53] Só, só, só.

[00:05:54] Não.

[00:05:55] Uma mistura de recriação do Linha Direta com aquelas passagens do Fala Que Eu Te Escuto, sabe?

[00:06:02] Sim, sim.

[00:06:03] Só faltou o encosto ali, né?

[00:06:04] Imagina, é.

[00:06:05] Imagina se eu fizesse um episódio do Fala Que Eu Te Escuto, só que eu tirasse toda a cor quase do vídeo

[00:06:11] e a câmera ficasse tremendo na mão do Michael J. Fox filmando.

[00:06:15] O encosto levou embora, tá ligado? A cor.

[00:06:18] O encosto dá a cor do mundo, saca?

[00:06:20] Exato.

[00:06:21] O encosto deixou muito lavada a película, né?

[00:06:23] Película não.

[00:06:24] Aliás, essa série sofre.

[00:06:25] Ela sofre de um problema que é, ela foi filmada em digital quando não estava muito pronto ainda pra filmar em digital.

[00:06:30] E as pessoas não estavam preparadas, né?

[00:06:31] Porque, a gente estava falando disso, né?

[00:06:33] Porque tem um problema de, tu falou que ia ficar tremendo muito, né?

[00:06:36] Porque a câmera, obviamente, está perto demais dos atores, né?

[00:06:39] Tipo…

[00:06:40] Sim.

[00:06:41] E não está iluminado o suficiente.

[00:06:42] Os pretos estão destruídos na imagem.

[00:06:45] Isso, né?

[00:06:45] E eu estava pensando nisso, né?

[00:06:46] Porque provavelmente esse próximo demais é um problema de crop do sensor da câmera, né?

[00:06:51] Porque pra quem…

[00:06:51] Ah, a gente chegou nessa conclusão.

[00:06:52] De que, claramente, o diretor de fotografia…

[00:06:55] Tipo assim, eu espero que ele não tenha sacado o enquadramento que ele estava fazendo de verdade.

[00:06:59] Que ele estava usando uma lente num sensor menor do que o 35mm do filme.

[00:07:05] E que aí, por isso, né?

[00:07:06] Estava mais cropado do que ele imaginava quando ele botava aquela lente ali.

[00:07:08] É, 50 vira 75 e você perde a estabilidade da lente, né?

[00:07:12] Mas não tem essa culpa.

[00:07:12] Se você lembra que ele está filmando em digital e ele está vendo exatamente o que a câmera está vendo.

[00:07:15] É isso, né?

[00:07:15] Mas, tipo…

[00:07:16] Cara, sabe que…

[00:07:17] Não, isso é uma coisa, assim.

[00:07:17] Essa série, ela é…

[00:07:19] Daria pra ensinar pras pessoas, assim, num curso de cinema…

[00:07:24] Então, olha só.

[00:07:25] Qual é o problema de você não ter uma direção de arte?

[00:07:28] Qual é o problema de você não ter uma direção de fotografia?

[00:07:31] Qual é o problema de você não ter um foquista?

[00:07:32] Saca?

[00:07:33] Qual é o problema de não ter como é que é fazer preparação de elenco?

[00:07:36] Dá, assim…

[00:07:37] Tudo ali você pode problematizar nesse sentido.

[00:07:40] E, ao mesmo tempo, dá a impressão de que o que imperou na produção dessa série

[00:07:45] foi aquela famosa filosofia do tipo…

[00:07:48] A minha esposa tem um sobrinho que entende muito disso.

[00:07:51] Saca?

[00:07:52] Porque eu…

[00:07:53] Sim.

[00:07:53] A direção de arte é feita…

[00:07:55] O Guaralhapituca, né?

[00:07:57] É feito no pente-breste.

[00:07:59] Olha só.

[00:07:59] A série…

[00:08:01] Quem consta como os criadores da série são o Newton Canito,

[00:08:06] que fez várias coisas.

[00:08:10] Ele fez aquela Cidade dos Homens, aquela série derivada…

[00:08:14] Praticamente derivada do Cidade de Deus e tal.

[00:08:18] Ele fez…

[00:08:19] Ele é o…

[00:08:20] Se eu não me engano, o diretor…

[00:08:21] Diretor…

[00:08:22] Diretor…

[00:08:22] Diretor…

[00:08:23] Diretor…

[00:08:23] De grande parte da série e roteirista de parte da série também.

[00:08:29] O outro cara que meio que segurou essa bucha aí

[00:08:33] e é o cara que aparece dando muitas entrevistas sobre a série

[00:08:35] é o Roberto Dávila,

[00:08:37] que, enquanto a gente está conversando sobre isso,

[00:08:40] está produzindo Silvio Santos, o Sequestro, né?

[00:08:43] E Predestinado, né?

[00:08:45] Dois filmes que vêm aí.

[00:08:47] Mas ele também produziu logo antes…

[00:08:51] O que ele tinha produzido logo antes de 9mm?

[00:08:52] 9mm.

[00:08:53] Um longa-metragem.

[00:08:55] Eliana em O Segredo dos Golfinhos.

[00:08:59] Que eu…

[00:09:00] Olha só, eu assisti algumas partes.

[00:09:03] Pra poder fazer…

[00:09:04] Conta pra mim.

[00:09:05] É melhor que 9mm, hein?

[00:09:06] Tem problemas de fotografia, cara.

[00:09:08] Porque, assim, você…

[00:09:09] 9mm tem momentos que você assiste e fica enjoado, né?

[00:09:12] Enjoado mesmo.

[00:09:12] E, Orlando, a gente não está aqui pra julgar as coisas que você fez no audiovisual brasileiro.

[00:09:17] Todo mundo tem que pagar as contas.

[00:09:19] Se o único filme que você conseguiu vender naquele ano foi Eliana em O Segredo dos Golfinhos…

[00:09:22] É!

[00:09:22] Mais poder pra você.

[00:09:24] Porra, né?

[00:09:24] Não tem renda pra nadar com esses golfinhos.

[00:09:26] Exato.

[00:09:27] Mas aí, quando você vende uma série que glorifica torturadores da polícia civil no Brasil,

[00:09:33] aí o pop cult quer discutir um pouco a sua obra.

[00:09:36] Então, vamos trazer já pra problematização do nosso estilo pop cult?

[00:09:40] Ou ainda quer continuar falando mal?

[00:09:42] Não, porque eu não vou conseguir contextualizar toda essa série,

[00:09:44] porque eu não consegui, mesmo assistindo as duas temporadas, decorar o nome de todo mundo.

[00:09:50] É, verdade.

[00:09:52] É…

[00:09:52] Eu lembro do Horácio.

[00:09:53] Graças a Deus, eu tenho uma colinha aqui, a Wikipedia aberta.

[00:09:55] É, eu lembro do Horácio, né?

[00:09:57] Que era o personagem que você falou que ele acha que está no ar,

[00:10:00] mas ele está o tempo inteiro, porque ele está o tempo inteiro com o cigarro apagado na boca, né?

[00:10:04] E aí, tipo, na última grande cena dele, no último episódio da segunda temporada,

[00:10:10] ele acende o cigarro.

[00:10:11] Nossa, ele finalmente conseguiu, porra.

[00:10:13] Ele finalmente, ele se permite a catarse da tragada.

[00:10:18] Mas então, vamos…

[00:10:19] Acho que…

[00:10:20] A gente estava falando toda dessa série…

[00:10:22] Horrorosa, né?

[00:10:23] Porque essa série, ela foi…

[00:10:26] Ela teve um merchan original, não foi isso, né?

[00:10:29] Naquela época que as pessoas achavam do caralho fazer esse tipo de ação, né?

[00:10:34] Como é que é?

[00:10:35] Botaram várias pessoas algemadas, né?

[00:10:36] Sim, em 2008, quando passaram os primeiros quatro episódios,

[00:10:39] eu lembro de ter muita propaganda.

[00:10:40] Tipo, é o que você queria ver, cara.

[00:10:44] Policiais.

[00:10:45] Na rua.

[00:10:46] Carros.

[00:10:49] Mas não teve aquela ação que eles fizeram,

[00:10:51] que ele algema…

[00:10:52] Algemaram pessoas na Avenida Paulista, não teve isso?

[00:10:55] Sim!

[00:10:55] Teve isso também.

[00:10:56] Eu nem lembro…

[00:10:57] Isso eu lembro…

[00:10:58] Eu cavei isso quando a gente decidiu falar sobre a série,

[00:11:01] a gente não tinha assistido ainda.

[00:11:03] É…

[00:11:03] Realmente, imagina…

[00:11:04] Imagina hoje você vendo essa ação de marketing,

[00:11:07] esse marketing de guerrilha.

[00:11:08] Que mensagem isso passa?

[00:11:10] Aí, em Bangu, você acha que ia ser legal?

[00:11:12] O pessoal ia gostar?

[00:11:12] Ia gerar interesse?

[00:11:14] Mas, enfim…

[00:11:15] Mas o ponto que eu acho…

[00:11:17] O ponto que eu acho que é fundamental dessa série, né?

[00:11:21] Porque a gente…

[00:11:21] A gente tá…

[00:11:22] A gente tá vindo numa sequência de falar…

[00:11:25] Bem de policial, né?

[00:11:26] Aqui, a gente tá falando tão bem das polícias e tudo mais.

[00:11:28] Mas, assim, nada melhor pra terminar essa trilogia dos canas, né?

[00:11:32] Essa quadrilogia dos canas,

[00:11:34] do que na série que a gente menos gostou.

[00:11:37] Porque a gente gosta de Robocop.

[00:11:39] A gente gosta de Duro de Matar, apesar de tudo.

[00:11:42] Mas…

[00:11:43] Essa série, não!

[00:11:45] Não, então…

[00:11:45] É isso, né?

[00:11:46] Porque, assim…

[00:11:47] Por que a gente tá falando dessa série?

[00:11:49] Porque…

[00:11:50] É…

[00:11:50] É…

[00:11:51] É…

[00:11:51] É…

[00:11:51] É…

[00:11:51] Vamos lá.

[00:11:52] A gente tava falando no…

[00:11:54] No primeiro episódio do Robocop,

[00:11:55] a gente tava falando sobre normalização de polícia,

[00:11:58] essas coisas todas, né?

[00:11:59] No segundo episódio, né?

[00:12:00] Do policial rebelde,

[00:12:02] a gente falou desse comportamento do policial

[00:12:04] que vai contra as regras,

[00:12:06] do indivíduo, né?

[00:12:07] Que vai contra as regras da sociedade,

[00:12:09] que luta contra as regras da própria polícia

[00:12:10] pra poder fazer a justiça.

[00:12:13] Aí, depois, no terceiro, né?

[00:12:14] Enfim, quando a gente começou a analisar as comédias,

[00:12:16] a gente começou a mostrar, por exemplo, como…

[00:12:19] É…

[00:12:20] De certa maneira, algumas comédias,

[00:12:21] alguns filmes mais…

[00:12:23] Como é que é?

[00:12:25] Mais leves,

[00:12:26] eles tentam, de certa maneira,

[00:12:28] nos fazer ter uma simpatia com os policiais,

[00:12:31] individualizar os policiais, né?

[00:12:33] De certa maneira, olhar pra que elas…

[00:12:34] Ah, não, são indivíduos, eles têm histórias,

[00:12:36] eles cometem erros, ok?

[00:12:37] Mas ele tem seus…

[00:12:38] Ele tem…

[00:12:38] Como é que é?

[00:12:39] Eles têm seus acertos, enfim.

[00:12:41] Complexificar um pouco, né?

[00:12:42] Aquilo, tudo.

[00:12:43] Essas séries…

[00:12:44] Essas séries procedurais,

[00:12:46] na verdade, elas fazem tudo isso junto,

[00:12:48] ao mesmo tempo, né?

[00:12:50] Porque…

[00:12:50] Dificilmente você vai ter um personagem,

[00:12:51] numa série dessa,

[00:12:52] que é um psicopata funcional,

[00:12:55] tal qual, sei lá,

[00:12:56] num duro de matar,

[00:12:57] numa máquina mortífera.

[00:12:58] Mas, ao mesmo tempo,

[00:12:59] você tá ali mostrando que

[00:13:00] as amarras, né?

[00:13:03] Que as instituições,

[00:13:04] os indivíduos sofrem

[00:13:05] das normas da sociedade

[00:13:07] na hora de fazer justiça, né?

[00:13:09] E, ao mesmo tempo,

[00:13:10] você também tá ali

[00:13:11] individualizando esses atores, né?

[00:13:14] Individualizando suas vidas,

[00:13:15] tornando suas vidas um pouco mais complexas.

[00:13:17] E aí você até entende

[00:13:19] alguma das suas atitudes.

[00:13:20] Então, por exemplo,

[00:13:21] nessa 9mm,

[00:13:23] o primeiro episódio

[00:13:24] é um cara sendo…

[00:13:26] Mostra o Horácio, né?

[00:13:28] Executando um suspeito, né?

[00:13:30] Assim, que ele nunca poderia

[00:13:32] prender o cara, saca?

[00:13:33] Tipo, porque o cara…

[00:13:35] E nunca explica isso na série,

[00:13:36] porque o cara tinha costas quentes,

[00:13:37] uma coisa do tipo, né?

[00:13:38] O cara faz todo um discurso lá…

[00:13:40] É maravilhoso.

[00:13:41] O cara faz um discurso tipo…

[00:13:42] Tipo o Coringa, né?

[00:13:43] Na série do Batman.

[00:13:44] Ele explica todo o plano pra ele

[00:13:45] e os caras não podem prendê-lo.

[00:13:46] Por motivos.

[00:13:48] E o Horácio depois vai lá e mata o cara.

[00:13:49] Assim, executa o cara.

[00:13:50] Executa.

[00:13:51] E nesse mesmo primeiro episódio,

[00:13:53] ele tá interrogando um marido

[00:13:56] que matou a esposa,

[00:13:57] porque a esposa…

[00:13:58] Não, isso é da segunda temporada.

[00:14:00] Ah, é verdade, é verdade.

[00:14:01] Isso, sim.

[00:14:02] No primeiro da primeira temporada,

[00:14:04] ele tá interrogando um cara

[00:14:05] que matou a esposa,

[00:14:06] porque a esposa prostituía

[00:14:08] a filha deles, criança.

[00:14:10] E ele fala,

[00:14:11] você fez a coisa certa.

[00:14:12] Sim, sim.

[00:14:13] O cara matou a esposa

[00:14:14] com requintes de crueldade, né, cara?

[00:14:16] Sim, sim.

[00:14:16] E é bem louco, assim,

[00:14:18] porque a série…

[00:14:19] Cara, isso é muito bizarro, assim.

[00:14:21] A série…

[00:14:22] Ali no…

[00:14:23] Naquela diegese dela,

[00:14:25] naquele roteirinho,

[00:14:26] naquele universo dela,

[00:14:28] o cara é meio que absolvido moralmente

[00:14:29] por todos os personagens, né?

[00:14:31] Assim…

[00:14:32] Sim, imediatamente.

[00:14:33] Imediatamente.

[00:14:33] Tudo que ele precisa dizer é, tipo,

[00:14:34] não, eu matei ela,

[00:14:35] porque, veja bem,

[00:14:36] ela prostituiu a minha filha.

[00:14:37] Eles imediatamente compram essa história

[00:14:39] e começam a agir em cima dela.

[00:14:40] Eu queria deixar claro

[00:14:41] que esse é o nível de sutileza

[00:14:44] no qual a série opera, entendeu?

[00:14:46] É tipo, nós queremos dar uma desculpa

[00:14:48] pro cara matar a mulher dele?

[00:14:49] Ah, então a mulher dele,

[00:14:49] o que ela fez?

[00:14:50] Ah, ela prostituiu uma criança,

[00:14:51] repetiu duas vezes em troca de dinheiro.

[00:14:52] Não tem…

[00:14:53] Assim, não existe uma série

[00:14:54] mais preto no branco do que essa.

[00:14:57] Nunca…

[00:14:57] Não tem, assim…

[00:14:59] Por mais que ela seja uma série que,

[00:15:00] inclusive, na direção de arte,

[00:15:02] nas cores e tudo mais,

[00:15:04] ela tente vender a ideia de que

[00:15:05] não há preto e branco,

[00:15:07] só níveis de cinza,

[00:15:08] ela é tudo menos isso no roteiro.

[00:15:10] Porque ela tem a mão mais pesada

[00:15:14] do que a de um roteirista de quadrinhos

[00:15:16] da Medical e da Image Comics nos anos 90, sabe?

[00:15:19] É tudo…

[00:15:20] O mais…

[00:15:21] O mais pesado possível

[00:15:23] pra ser chocante, assim.

[00:15:25] Pra ter aquela pegada meio

[00:15:26] Ed Lord, assim, de final dos anos 90

[00:15:28] a começo dos anos 2000.

[00:15:30] Que isso, assim?

[00:15:31] É tipo, todo episódio tem que ser assim,

[00:15:33] cara, é pior do que um episódio

[00:15:35] de Law & Order SVU, sabe?

[00:15:37] É tipo assim, é estupro de menor,

[00:15:40] é feminicídio,

[00:15:42] o mundo é escroto,

[00:15:44] as coisas são muito ruins,

[00:15:46] esse cara que é o herói da série,

[00:15:47] ele torturava pessoas,

[00:15:49] mas ele ainda assim é o herói,

[00:15:51] porque esse é o nível dos nossos heróis.

[00:15:53] Assim, eu nunca vi uma série

[00:15:54] onde claramente todo mundo

[00:15:57] votou no Bolsonaro.

[00:15:58] Sim, sim. E por motivos diferentes, né?

[00:16:01] Esse que é o pior de tudo, né, cara?

[00:16:02] Porque é isso, porque o tom da série…

[00:16:05] O tom da série é o pior tipo

[00:16:07] de tom conciliatório

[00:16:09] possível, que é

[00:16:11] o tom… É o seguinte,

[00:16:12] a gente vai passar metade do episódio

[00:16:14] glorificando o policial

[00:16:16] e a outra metade do episódio

[00:16:19] vai ser olhando pra quem não consegue

[00:16:20] tolerar essa glorificação, falando assim

[00:16:22] Ei, mas é um mal necessário, né?

[00:16:24] E é tipo, não! Não é necessário!

[00:16:27] Nada do que você tá

[00:16:29] mostrando é necessário! Nada disso

[00:16:31] é bom, a perpetuação

[00:16:32] dessa atividade pras pessoas…

[00:16:34] A única coisa que eu acho

[00:16:36] que existe triunfal nessa série é que no último

[00:16:38] episódio, o…

[00:16:40] o delegado desiste

[00:16:43] de ser policial.

[00:16:45] Porém,

[00:16:46] é meio que…

[00:16:48] eles cortam a perna

[00:16:50] desse argumento como algo bom

[00:16:51] na cena seguinte, porque na cena seguinte

[00:16:54] a Luísa, que é a…

[00:16:56] a outra

[00:16:57] personagem principal dos 25 mil protagonistas

[00:17:00] que essa série tem, ela termina

[00:17:02] triunfal ligando pra filha, que foi

[00:17:04] morar na Europa com o pai relapso,

[00:17:06] é…

[00:17:08] falando, voltei a estudar direito

[00:17:10] e aí ela fala pra filha, não, não vou

[00:17:12] ser advogada, nem promotora, mas

[00:17:14] talvez delegada.

[00:17:16] E depois você acabou da cena passada

[00:17:18] falar que é muito ruim ser delegado.

[00:17:20] Nossa, cara.

[00:17:21] E assim, só pra… vamos contextualizar um pouco mais,

[00:17:24] assim, por que que a gente tá falando…

[00:17:26] Essa 9mm, ela…

[00:17:28] ela é o pior dos piores

[00:17:30] desse tipo de série que é

[00:17:31] bastante típica, né? O Law & Order, que talvez acho que é a série

[00:17:34] que tá mais tempo na televisão americana, é isso, cara?

[00:17:36] Esse tipo… É, o Law & Order em si

[00:17:38] acabou depois de 20 temporadas.

[00:17:40] Sim, é, e 20 foram 20.

[00:17:41] A gente… foram 20, se não me engano,

[00:17:44] 19 ou 20, e agora a gente… mas o Law & Order

[00:17:46] SVU, que é o Special Video Terminator,

[00:17:48] já ultrapassou essa marca, já tá na…

[00:17:49] já tá na 23ª temporada, assim.

[00:17:51] Nossa, cara. Nossa.

[00:17:53] Que é o Law & Order que tinha

[00:17:55] o Munch,

[00:17:58] que é o personagem do Richard Belzer, que é o policial

[00:18:00] que apareceu em mais séries

[00:18:01] diferentes na sua história,

[00:18:03] porque ele começa no Homicide, Life on the Street,

[00:18:06] e passou pelo Law & Order original,

[00:18:07] várias outras séries, já apareceu em diversas séries

[00:18:10] e terminou no SVU,

[00:18:12] e que hoje em dia tem o…

[00:18:13] desde a 2ª temporada tem o Ice-T, né?

[00:18:16] O homem que escreveu a música

[00:18:18] Cop Killer.

[00:18:19] Nossa, cara.

[00:18:22] É, mundo da volta, né, cara?

[00:18:24] Mas, assim, o…

[00:18:25] Mas, então, por que que eu acho que esse que é um ponto?

[00:18:28] E eu acho que…

[00:18:30] não é à toa que essa série

[00:18:32] acaba, de certa maneira,

[00:18:34] glorificando um torturador da ditadura militar,

[00:18:36] né, cara, assim?

[00:18:37] Não é coincidência, né, cara?

[00:18:39] Porque a 2ª temporada toda é isso, né?

[00:18:41] O final real dessa porra

[00:18:43] dessa série é

[00:18:45] o Horácio…

[00:18:47] Desculpa, vai ter spoiler, porque você nem consegue ver essa série

[00:18:49] mais. É o Horácio

[00:18:51] morrendo e indo

[00:18:53] pra… pro além,

[00:18:56] onde ele

[00:18:57] implicitamente passará o resto da eternidade

[00:19:00] do lado de um filho

[00:19:01] pré-pubes… pré-pubescente

[00:19:04] que o odeia

[00:19:05] porque ele é um torturador, e ele

[00:19:07] não gosta do filho.

[00:19:09] As últimas palavras do Horácio,

[00:19:11] nesse final redentor

[00:19:13] dele nessa série, são

[00:19:15] cala a boca, moleque.

[00:19:17] Nossa, cara.

[00:19:19] Quando o filho…

[00:19:19] E aí, Paizão, matou muita gente hoje?

[00:19:22] Torturou muita gente hoje?

[00:19:24] Cara, que merda de série é essa?

[00:19:28] Cara, mas vamos voltar, vamos voltar.

[00:19:30] Vamos dar um passo atrás.

[00:19:32] Porque, assim,

[00:19:33] pra mim, um dos pontos que é

[00:19:35] mais sensíveis dessa série, né,

[00:19:37] é porque ela mostra em diversos

[00:19:39] momentos que, para

[00:19:41] resolver os casos,

[00:19:44] você fala que essa série tem diversos protagonistas,

[00:19:46] né? Só que,

[00:19:47] no fundo, no fundo, todos os protagonistas são muito parecidos,

[00:19:49] eles falam igual.

[00:19:52] Os roteiristas eram incapazes de criar vozes

[00:19:53] distintas para esses personagens. Todos eles, assim,

[00:19:55] se eu te ler uma fala, você nunca vai poder me dizer

[00:19:58] ah, quem falou isso foi o Horácio, foi a Luísa, foi o Eduardo.

[00:20:00] E falas que, obviamente, nenhuma

[00:20:01] pessoa diz em sã consciência, né?

[00:20:03] Ah, é, não. É escrito num português

[00:20:06] de, assim,

[00:20:07] equiparável a você estar tentando fazer Shakespeare

[00:20:10] em português, assim.

[00:20:11] É um português declaratório

[00:20:13] formal bizarro, assim,

[00:20:16] que nem novela de época da Globo.

[00:20:17] Não, cara, assim, é muito bom.

[00:20:19] Tem uma hora que, por exemplo, essa Luísa,

[00:20:21] né? Ela chega pro…

[00:20:23] Ela vai fazer o… Luísa, Luísa.

[00:20:24] Eu não sei se é Luísa ou Luísa. Tá escrito Luísa aqui na minha cola.

[00:20:27] Então deve ser Luísa. Tem uma hora que ela vai fazer

[00:20:29] alguma coisa. Não, vamos atrás de fulano.

[00:20:31] Aí ele vira pra ela assim e fala assim, Horácio,

[00:20:33] tarde demais, princesa. Cara, e assim,

[00:20:35] com uma entonação canalha.

[00:20:37] A frase… Porque, assim, tem um problema…

[00:20:39] E o Horácio, especialmente, é muito culpado

[00:20:41] disso, porque ele acha que ele tá num filme no ar,

[00:20:43] o Norival Riso. Claramente, ele tá no outro lugar.

[00:20:45] Ele não entendeu, ele não viu o que a série ia ser.

[00:20:47] Ou ele viu e falou assim,

[00:20:49] quero fazer isso. Eu quero… A minha grande fantasia,

[00:20:52] o meu grande sonho, é fazer um detetive de filme

[00:20:53] no ar americano. Então eu vou ficar aqui

[00:20:55] fumando meu cigarro

[00:20:57] intragável, literalmente, pois não está aceso.

[00:21:01] E olhando

[00:21:01] pro horizonte.

[00:21:03] Um homem torturado que sou…

[00:21:05] Uma alma torturada que sou porque torturava outras pessoas.

[00:21:08] Exato. Não, cara, então.

[00:21:09] Esse que eu não quero num ponto

[00:21:11] que eu ia chegar. Porque, assim, tu pensa assim,

[00:21:14] num roteiro que é tão

[00:21:16] simplório,

[00:21:16] incapaz de criar

[00:21:19] personagens que são

[00:21:21] distintos, né? Que tem vozes distintas,

[00:21:23] personalidades distintas. No máximo, eles têm

[00:21:25] histórias mais ou menos distintas.

[00:21:27] Mas, assim, mais ou menos,

[00:21:29] porque todos têm um conflito familiar,

[00:21:31] sabe? Tem um conflito

[00:21:33] entre a vida particular e a vida como

[00:21:35] um detetive da polícia civil.

[00:21:37] Então, assim, esse roteiro…

[00:21:38] Orlando, tu viu o último episódio? Não, não vi.

[00:21:41] Não vi. Porra, eu queria que você me explicasse

[00:21:43] a cena do

[00:21:45] Tavares, que é o personagem do

[00:21:47] Marco Cezana, que,

[00:21:49] infelizmente, morreu

[00:21:50] durante a produção da série ou antes da

[00:21:53] última temporada estrear.

[00:21:55] Ele… Tem uma cena dele

[00:21:57] tomando cerveja e chorando num bar

[00:21:58] e, até agora, eu não entendi direito

[00:22:01] o que aquela cena

[00:22:02] tava… Porque é o desfecho

[00:22:05] do personagem dele, assim. E eu não consigo

[00:22:07] enfiar aquela cena no arco do personagem dele.

[00:22:09] Cara, porque, assim, mas aí tem uma outra

[00:22:11] questão, porque a série é tão ruim

[00:22:12] porque você não tem continuista,

[00:22:15] né? E tem umas coisas

[00:22:17] do tipo, você,

[00:22:19] obviamente, vê…

[00:22:20] Isso vai do micro, né?

[00:22:23] As coisas, de uma cena pra outra, mudam

[00:22:25] de lugar na cena e tal, mas

[00:22:27] o roteiro, você vê que o roteiro

[00:22:29] foi picotado. Então, por exemplo, às vezes

[00:22:31] os personagens se referem a coisas que, obviamente,

[00:22:33] não aconteceram na série, saca? De pessoas que apareceram…

[00:22:35] Não, por que você não me disse isso antes?

[00:22:37] Porque a gente nem se conhecia, saca?

[00:22:38] Então, eu pulei vários episódios, né?

[00:22:41] Então, eu não consegui sentir essa diferença

[00:22:43] pois, pra mim, tudo tinha essa sensação.

[00:22:46] Só que é tudo…

[00:22:47] Se você visse tudo, era exatamente assim.

[00:22:49] Imagina, mas é que, assim, é tudo tão pouco

[00:22:51] sutil, também, que você não

[00:22:53] sente falta. Fica muito óbvio o que aconteceu.

[00:22:55] Tipo, eu não acompanhei em nenhum momento

[00:22:57] tem um personagem chamado 3P, porque

[00:22:59] o personagem se chama Pedro Paulo Pacheco

[00:23:01] e o apelido dele seria 3P

[00:23:03] porque esse é, claro, o tipo

[00:23:05] de apelido que alguém se dá fora do Anjibi da Mônica

[00:23:07] mas, enfim…

[00:23:08] Esse 3P

[00:23:11] tá falando com a tia dele

[00:23:12] porque, claramente, ele tinha um primo que era um policial

[00:23:15] corrupto, mas que morreu sem ninguém

[00:23:17] saber que ele era corrupto. Então, todo mundo

[00:23:19] fala que ele era um herói, só que ele tá com medo

[00:23:21] de que seja exposto o esquema

[00:23:23] de corrupção do primo dele

[00:23:25] e aí ele fica nervoso por causa disso.

[00:23:27] E eu só entendi isso, assim,

[00:23:28] eu vi o diálogo dele com a tia e já ficou óbvio

[00:23:31] tudo que tava acontecendo. Outro detalhe

[00:23:33] que eu preciso dar sobre esse personagem que a gente comentou é que

[00:23:35] como tem um gap de 3 anos

[00:23:37] entre a primeira e a última temporada

[00:23:39] ele passou

[00:23:41] de ser um cara que

[00:23:43] parece jovem, mas não é

[00:23:45] pra, claramente, um ator de 40 anos

[00:23:47] interpretando um jovem.

[00:23:49] Ele, inclusive, usa o look

[00:23:51] inconfundível do jovem

[00:23:53] de ficção, que é a camiseta

[00:23:55] de manga longa embaixo

[00:23:57] de uma camiseta de manga curta.

[00:23:59] Eu não estou brincando. Ele virou aquele gif

[00:24:01] do Hello Fellow Kids, né,

[00:24:03] cara? Ele é o meme do Hello Fellow Kids, total.

[00:24:05] Ele virou a personificação daquele gif,

[00:24:07] né, do Steve Buscemi,

[00:24:09] falando Hello Fellow Kids.

[00:24:11] Disfarçado de adolescente.

[00:24:13] Exato.

[00:24:15] O personagem dele, ele

[00:24:16] é o emblema

[00:24:19] de tudo que todos os personagens

[00:24:21] representam, de novo, nesse tema de que

[00:24:23] todos os personagens na verdade são o mesmo, são usados pra

[00:24:25] explorar exatamente a mesma temática, a mesma

[00:24:27] arco narrativo.

[00:24:29] Que é,

[00:24:31] esses são os melhores policiais que tem,

[00:24:33] e mesmo assim, pra eles serem os melhores policiais que tem,

[00:24:35] eles têm que ser muito corruptos.

[00:24:37] E o problema não são eles.

[00:24:39] O problema é

[00:24:41] a corporação

[00:24:43] não deixar eles serem corruptos pelos bons motivos.

[00:24:45] Porque toda

[00:24:46] a segunda temporada, os últimos sete episódios,

[00:24:49] a série, são em cima

[00:24:51] de uma promotora

[00:24:53] que tá tentando

[00:24:54] prender o Horácio e outros policiais

[00:24:57] que tão acobertando

[00:24:58] os crimes do Horácio

[00:25:01] e de outros policiais.

[00:25:03] E aí, só que a série quer que

[00:25:05] assim, a série quer que esses

[00:25:07] procuradores, esse promotor, sejam

[00:25:09] os vilões.

[00:25:12] E bota, inclusive,

[00:25:13] na equipe deles, falas de

[00:25:15] tipo, por que a gente não pode só ir lá e prender

[00:25:17] esses caras? Então, assim, até os

[00:25:19] caras que querem prender os policiais corruptos,

[00:25:21] querem a corrupção do lado deles.

[00:25:23] Porque, de novo, assim, se existe

[00:25:25] uma série… Assim, eu não vou dizer que essa série

[00:25:27] justificou o lavajatismo, porque ninguém

[00:25:29] viu essa série. Mas, assim, se tem

[00:25:31] um discurso lavajatista…

[00:25:33] Cara, e de novo, assim, eu quero que você fale um pouco

[00:25:35] sobre isso, porque a gente discutiu isso enquanto a gente tava assistindo a série

[00:25:37] durante as semanas, que foi

[00:25:38] todos os discursos que a gente ouve hoje,

[00:25:42] inclusive um adesivo

[00:25:43] de Brasil acima de todos,

[00:25:45] no para-choque de um carro,

[00:25:47] estão na série. Tipo, a

[00:25:49] série, ela aponta muito bem

[00:25:51] esse tipo de fascismo,

[00:25:53] só que ela acredita que a antítese

[00:25:55] desse tipo de fascismo é um

[00:25:56] outro, uma outra posição que hoje a gente vê

[00:25:59] que leva pro mesmo caminho,

[00:26:01] que votou na mesma pessoa, né, no nosso caso.

[00:26:03] Inclusive, na série tem,

[00:26:04] numa das cenas, tem um…

[00:26:07] é uma propaganda de uma política que é

[00:26:09] uma juíza, né?

[00:26:11] Sim. Mas, assim, por isso que

[00:26:13] eu ia chegar, por isso que eu tava falando do roteiro, né?

[00:26:15] Uma Sérgia. Sérgia Moura.

[00:26:17] Não, tipo assim,

[00:26:19] mas o meu ponto aqui é o seguinte.

[00:26:21] Um roteiro tão simplista sobre

[00:26:23] os problemas da sociedade, como a

[00:26:25] polícia funciona, e que ao mesmo tempo

[00:26:27] se pensa como inteligente, né?

[00:26:29] Rapidamente vai cair numa série de

[00:26:30] armadilhas típicas desse tipo de

[00:26:33] situação. Porque, por exemplo, uma coisa que

[00:26:35] eles sempre queriam mostrar, assim, por exemplo,

[00:26:36] os policiais, eles tinham que ser envolvidos

[00:26:39] em algum nível

[00:26:40] com sujeitos, com criminosos.

[00:26:43] Né? Então, assim, ah,

[00:26:44] fulano tinha um contato numa facção.

[00:26:47] Ah, fulano foi criado com

[00:26:48] ciclano, saca? Tipo, toda…

[00:26:50] Cara, todos eles tinham isso. Então, tinham momentos

[00:26:52] que eles, inclusive, faziam acordos. Não, me entrega

[00:26:55] o moleque que eu deixo você levar isso, saca?

[00:26:56] Mas coisas do tipo. Sim.

[00:26:58] Então, assim, toda essa representação

[00:27:00] de que

[00:27:02] era necessário jogar ali no limite

[00:27:05] pra fazer a lei ser cumprida,

[00:27:07] né? Porque aquilo, os fins

[00:27:08] justificam os meios. Obviamente,

[00:27:11] acabariam se

[00:27:13] desdobrando em tipos,

[00:27:15] em linhas argumentativas que

[00:27:16] muito nos lembram as linhas argumentativas.

[00:27:18] Linhas argumentativas que justificam,

[00:27:20] entre outras coisas, a eleição do

[00:27:22] Bolsonaro. Então, assim,

[00:27:24] uma coisa que é muito importante,

[00:27:27] assim, esse filme,

[00:27:29] esse filme, essa série,

[00:27:30] ela meio que condensa

[00:27:31] anos e anos de imbecilização

[00:27:35] do debate de segurança pública

[00:27:37] feito por figuras populistas,

[00:27:39] por programas do tipo

[00:27:40] Cidade Alerta, saca?

[00:27:42] Onde as pessoas meio que, de certa maneira,

[00:27:44] estavam, por exemplo, justificando aqui no Rio de Janeiro.

[00:27:46] Era muito comum isso. Os caras meio que

[00:27:48] justificando, é…

[00:27:50] quase justificando abertamente

[00:27:52] grupo de extermínio, saca?

[00:27:54] Então, assim, não é à toa

[00:27:56] que lá no final da série

[00:27:58] ela vai acabar glorificando

[00:28:00] um torturador. Porque o cara

[00:28:02] torturava, sei lá o quê, mas tinha um momento que o cara…

[00:28:04] Era muito louco. A eficiência

[00:28:06] do Horácio era sempre lembrada por todo mundo, né?

[00:28:08] Ele era o cara que mais resolvia crimes,

[00:28:10] era o cara que mais resolvia casos.

[00:28:12] Então, assim, é impressionante

[00:28:14] que quando a gente fala assim, ah, essa série

[00:28:16] antecipou o Bolsonaro,

[00:28:18] o carnavalismo, coisas do tipo,

[00:28:20] não é porque ela foi evidente, não é porque

[00:28:22] ela é, de fato, um produto do seu tempo

[00:28:24] que serve de rosto

[00:28:26] pra uma série de fluxos

[00:28:28] ali, uma série de linhas

[00:28:29] de, digamos, fluxos

[00:28:32] interpretativos, linhas interpretativas

[00:28:34] que mais tarde seriam

[00:28:36] condensadas pelo voto nacional, saca?

[00:28:39] Sim,

[00:28:40] e uma coisa

[00:28:42] que eu tava pensando é que a série,

[00:28:44] se ela tivesse

[00:28:46] alguma dica,

[00:28:48] alguma pista

[00:28:50] de uma certa inteligência mais

[00:28:52] mordaz por trás, eu poderia dizer

[00:28:54] que ela é ciente disso e tenta

[00:28:56] tirar sarro disso, mas

[00:28:58] ela não faz.

[00:28:59] Ela não faz isso. Eu tinha lembrado um exemplo

[00:29:02] muito bom da série

[00:29:04] apontando uma incongruência

[00:29:06] dessas, mas me

[00:29:07] escapou aqui, rapaz.

[00:29:10] Mas, assim, vale lembrar que o grande,

[00:29:12] o arqui-inimigo do

[00:29:14] Horácio na série, que é

[00:29:16] enfim, que é o cara que ele mata e logo

[00:29:18] depois, assim, de novo, ele não mata

[00:29:20] o cara, ele só pressiona o cara a ponto

[00:29:22] do cara se matar,

[00:29:23] ou seja, então tá, tudo bem, né?

[00:29:26] Mas os inimigos do Horácio

[00:29:28] são outros torturadores da ditadura

[00:29:30] que não se arrependem.

[00:29:32] Sim. E o grande crime deles

[00:29:34] é não se arrepender. E aí, beleza, assim,

[00:29:36] você poderia encarar isso como um

[00:29:38] discurso antipolitivista muito interessante,

[00:29:40] mas não é. É só que

[00:29:42] o Horácio é nosso amigo, e tudo bem.

[00:29:45] E esses outros caras não.

[00:29:46] É muito louco, porque o Horácio,

[00:29:48] ele é representado como um sujeito que tem realmente uma vida

[00:29:50] nem pra dizer dupla, é tripla,

[00:29:53] né? Porque ele é

[00:29:54] um sujeito da igreja, que é uma coisa

[00:29:56] que eles rapidamente abandonaram ali,

[00:29:58] meio pro final, né? De que ele tinha um

[00:30:00] pastor, né? Tipo, que ele

[00:30:02] convivia com as pessoas de uma congregação.

[00:30:04] Não, não, não, você tá confundindo. Ele vai

[00:30:06] à igreja pra tentar

[00:30:08] falar com quem eu acredito ser a ex-mulher

[00:30:10] dele. Não, cara, no começo,

[00:30:12] primeiro episódio, ele vai falar com o pastor, porque

[00:30:14] o pastor tava, inclusive, o sujeito

[00:30:16] que tava lá sendo mantido, o

[00:30:18] assassino da esposa, né? Ah, sim, é verdade.

[00:30:20] Ele fala com o pastor que estava

[00:30:22] escondendo o homicida, mas ao mesmo tempo

[00:30:24] também ele vai na igreja que a ex-mulher frequenta

[00:30:26] só pra tentar falar com ela. E ela fala, seu lugar não é aqui.

[00:30:28] É, porque é aquele tipo de

[00:30:30] roteiro preguiçoso, né? Que na verdade,

[00:30:32] isso a gente até faz uma concessão, porque

[00:30:33] sempre tem aquela limitação de verba,

[00:30:36] né? Sei lá, aquela coisa

[00:30:37] das novelas da Globo, né? Todo mundo frequenta o mesmo café

[00:30:40] no Leblon, né, cara? Não, e assim,

[00:30:42] não dá pra mais dizer que isso é uma limitação só

[00:30:44] da Globo, ou só da Record, ou só… Porque assim,

[00:30:46] a gente tá vivendo a vida real, onde

[00:30:48] prenderam o Queiroz em

[00:30:49] Atibaia, o juiz

[00:30:52] que soltou não sei quem

[00:30:54] é o mesmo que prendeu não sei quem.

[00:30:55] Claramente, limitação de elenco, limitação

[00:30:58] de cenário,

[00:30:59] de locação, tá acontecendo em todas as produções

[00:31:01] até no mundo real. É a crise, né, cara?

[00:31:03] A crise financeira

[00:31:05] chegou no mundo real, né, cara?

[00:31:07] E isolamento social, você não pode levar a aglomeração pra dois

[00:31:09] sets diferentes, tem que gravar tudo num só.

[00:31:12] Exatamente. Mas então, assim,

[00:31:13] tem essa

[00:31:15] coisa dele, porque isso é

[00:31:17] muito comum.

[00:31:18] E eu digo isso, assim, como alguém que trabalhou na Comissão Nacional

[00:31:20] da Verdade, né? Era muito comum

[00:31:22] que esse discurso sobre os torturadores

[00:31:24] ele fosse sempre…

[00:31:27] A gente recebia

[00:31:28] cartas. Eu não tô brincando sobre

[00:31:30] isso, é sério. A gente recebia cartas, e-mails

[00:31:32] de pessoas dizendo assim, não,

[00:31:34] conheci fulano, e ele era uma ótima

[00:31:36] pessoa, né? Tipo assim,

[00:31:38] a vida pessoal do sujeito

[00:31:40] era acionada

[00:31:42] pra, de certa maneira,

[00:31:44] não é bonal, né, mas

[00:31:46] de certa maneira, perdoar aquelas

[00:31:48] atividades que ele cometeu

[00:31:50] enquanto ele era um policial,

[00:31:52] enquanto ele era um militar, assim, as pessoas

[00:31:54] que ele torturou, ok, whatever,

[00:31:56] mas ele era um cara legal, saca?

[00:31:58] Tipo, pô, ele era um cidadão exemplar.

[00:32:00] Então, assim, essa construção

[00:32:02] simplista do personagem

[00:32:03] que vai mostrá-lo

[00:32:06] como um sujeito que frequenta

[00:32:08] a igreja, é religioso, mas ao mesmo tempo

[00:32:10] executa pessoas, porque esse que é um ponto

[00:32:12] que é fundamental, não é uma atividade do passado.

[00:32:13] Ele segue sendo essa pessoa, né? Exato!

[00:32:16] Não é uma coisa do passado. Tanto que o drama

[00:32:18] com o filho dele é que o filho dele falava

[00:32:20] pra ele assim, pai, você mata e tortura pessoas,

[00:32:22] né, tipo…

[00:32:23] As montagens com esse filho

[00:32:26] no flashback são incríveis. Ele fumando

[00:32:28] maconha, batendo, né, caraca,

[00:32:30] os caras não gostam… O garoto fuma maconha e fica

[00:32:32] elétrico como se estivesse fumando crack,

[00:32:33] e ele só fica, é,

[00:32:35] você mata, mata e tortura pessoas,

[00:32:38] e aí o pai só fica, ah,

[00:32:40] maldita maconha!

[00:32:42] Então, esse que é um ponto, por isso que eu tô dizendo,

[00:32:44] como essa série,

[00:32:45] ela condensa diversos elementos

[00:32:47] do que é o discurso do brasileiro

[00:32:50] comum, né? É muito louco, assim,

[00:32:52] porque essa série, ao mesmo tempo, ela é muito

[00:32:53] artificial nos seus argumentos,

[00:32:56] sobretudo nas falas dos…

[00:32:58] Sabe o que parece, gás? Na verdade,

[00:32:59] sabe o que parece? Peça

[00:33:01] de alunos do segundo grau,

[00:33:04] saca? Sim! Que eles vão dizer

[00:33:06] o super… vão fazer o super

[00:33:07] senso comum, né, das coisas, ah, as drogas,

[00:33:10] aí vai pensar aquela coisa assim,

[00:33:12] ah, um amigo que oferece drogas não é seu amigo.

[00:33:14] Ele é o seu melhor amigo.

[00:33:16] E é tipo, ué,

[00:33:17] mas o traficante só tem dinheiro pra comprar

[00:33:19] armas porque você deu dinheiro pra ele

[00:33:21] pelas drogas que você comprou.

[00:33:24] Sim, exatamente!

[00:33:25] Todos os problemas são decisões

[00:33:27] pessoais e individuais.

[00:33:29] Eu, o…

[00:33:31] Eu comparei a série logo

[00:33:33] que eu comecei a assistir, estilisticamente,

[00:33:35] e nesse sentido do…

[00:33:37] do texto sem subtexto,

[00:33:40] que é o…

[00:33:43] aquele clipe, eu vou ter que puxar aqui

[00:33:45] algo muito bom,

[00:33:47] que eu não sei se você viu, que é um pouco anterior

[00:33:49] a 9 Minutos, que é o clipe do

[00:33:52] Jay Vacker de Cotidiano de um Casal Feliz.

[00:33:55] Não conheço isso.

[00:33:56] Eu vou puxar a letra

[00:33:57] de Cotidiano de um Casal Feliz

[00:33:59] pra reforçar esse seu ponto.

[00:34:02] Mas antes, aqui,

[00:34:03] eu queria falar

[00:34:04] de um certo cinismo

[00:34:08] que é glorificado

[00:34:10] por essa série,

[00:34:12] que é tipo, voltando ao…

[00:34:13] Qual é a diferença entre

[00:34:16] o Horácio e o grande arquinismo?

[00:34:17] O Horácio é o inimigo dele, que era o colega dele de tortura

[00:34:19] na ditadura. É que o colega dele

[00:34:22] fala, o que a gente fez,

[00:34:23] a gente fez pra impedir os comunistas de tomarem

[00:34:26] o Brasil. E o Horácio

[00:34:28] é inteligente o suficiente pra saber

[00:34:30] que aquilo era só uma desculpa.

[00:34:32] E que é claro que eles não evitaram

[00:34:33] nenhuma ameaça comunista, não havia uma ameaça comunista,

[00:34:36] e que, mesmo se houvesse, também não justificava.

[00:34:38] Não que eu sinto que o Horácio

[00:34:39] seja ok com o comunismo, mas a gente já vai chegar nisso.

[00:34:43] Mas,

[00:34:43] então, o que a série apresenta como

[00:34:45] basicamente dois pontos de comunismo,

[00:34:47] otômicos, e que a gente já mencionou,

[00:34:49] não são, eles são partes

[00:34:52] muito próximas de uma mesma moeda,

[00:34:54] como a gente viu nos últimos anos aqui,

[00:34:56] é que o Horácio

[00:34:58] é o cara que fala assim,

[00:34:59] não, não, não, não, a gente foi enganado

[00:35:02] pra torturar, mas a gente tava só

[00:35:03] seguindo ordens. E o outro cara fala,

[00:35:05] não, não, não, a gente tava, meu,

[00:35:07] de corpo e alma ali, porque, porra, a gente tava

[00:35:09] impedindo os comunistas.

[00:35:11] E a série acha que é isso aí,

[00:35:14] que esses são os dois pontos de vista.

[00:35:15] Que é o mesmo ponto de vista que ela aplica pro trabalho

[00:35:17] dos policiais, é, eles são corruptos, eles são assassinos,

[00:35:20] eles compactuam

[00:35:22] com diversos crimes,

[00:35:23] eles abusam da autoridade policial

[00:35:26] que eles têm, eles vão contra

[00:35:27] os poucos

[00:35:29] limites que existem pra eles

[00:35:31] e as instituições que existem pra

[00:35:34] pelo menos formalmente

[00:35:35] limitar os poderes deles,

[00:35:39] e mesmo assim

[00:35:40] eles são os heróis.

[00:35:41] Porque a série

[00:35:44] partilha desse cinismo do Horácio.

[00:35:46] Sim, sim.

[00:35:47] Essa distinção entre

[00:35:50] gostar

[00:35:51] e não gostar,

[00:35:53] que, por exemplo, você vai ver

[00:35:56] sendo diluída, né,

[00:35:57] no Tropa de Elite, por exemplo, né,

[00:35:59] porque eles realmente gostam daquilo, fica muito claro

[00:36:01] que o Capitão Nascimento gosta de fazer aquilo,

[00:36:04] né, assim, não tem

[00:36:05] abono pra ele nesse sentido,

[00:36:08] mas o…

[00:36:10] que também é, de fato,

[00:36:12] essa lógica

[00:36:13] redentora, porque, assim,

[00:36:15] é muito louco quando você vai falar

[00:36:17] e eu vou ficar voltando a isso, porque

[00:36:20] é muito importante lembrar, né,

[00:36:22] é a série mesmo

[00:36:24] que traz à tona esse episódio

[00:36:25] e

[00:36:28] é bom lembrar que o atual

[00:36:30] mandatário da República adorava

[00:36:32] idolatrar esses sujeitos. Então, assim,

[00:36:34] de certa maneira a gente vive numa sociedade,

[00:36:36] de certa maneira não, em ampla escala

[00:36:38] nós vivemos numa sociedade

[00:36:39] que não apenas compreende

[00:36:42] a tortura como uma

[00:36:44] tática necessária, né,

[00:36:46] como um método

[00:36:47] necessário de obtenção de informações,

[00:36:49] como é capaz de, e por isso

[00:36:52] mesmo é capaz de relativizar,

[00:36:53] relativizar,

[00:36:54] isso. E esse que é um ponto que é fundamental,

[00:36:58] por que que isso é

[00:37:00] fundamental, por que isso que é importante?

[00:37:02] Esses sujeitos, eles param e falam

[00:37:04] assim, cara, você tem, né, se a gente for

[00:37:06] parar pra pensar na

[00:37:07] origem disso, né,

[00:37:10] que é, lá atrás,

[00:37:11] quando você tem a ideia de guerra revolucionária

[00:37:14] que começou na Argélia, enfim, pra lutar

[00:37:15] contra a colonização francesa,

[00:37:17] sim, ouvintes, a França não é legal

[00:37:20] na história da humanidade, não, né,

[00:37:22] o, você criou um tipo de…

[00:37:23] Mas, Orlando, eles inventaram o croissant.

[00:37:26] Grandes merdas, gente, teve uma

[00:37:27] discussão aqui antes de começar esse

[00:37:29] podcast e eu deixei claro que eu não sou

[00:37:32] muito fã de culinária francesa.

[00:37:34] É verdade. E eu deixei claro

[00:37:36] que eu acho que ninguém inventou prato nenhum, então…

[00:37:38] Sim, então, tudo que é dele a gente

[00:37:40] pode falar que não é do mundo e pronto, vai lá.

[00:37:41] Exato. Então, assim,

[00:37:43] é…

[00:37:45] Esse tipo de guerra, quando foi inventado,

[00:37:47] você tinha um novo tipo de guerra no qual,

[00:37:50] sei lá, até a Segunda Guerra Mundial, você tinha

[00:37:51] um tipo de guerra no qual

[00:37:53] o exército inimigo usava

[00:37:55] um uniforme, então ele era facilmente identificado,

[00:37:58] né, como seu inimigo.

[00:37:59] A partir dali, sobretudo nas guerras revolucionárias

[00:38:02] feitas por pequenas populações

[00:38:03] contra governos, inclusive, tipo,

[00:38:06] por exemplo, da Argélia, mas também no Vietnã,

[00:38:08] né, o…

[00:38:09] as tropas inimigas estavam camufladas na população.

[00:38:12] Então, né,

[00:38:13] os franceses inventaram um tipo

[00:38:15] de guerra, um tipo de contra-guerra revolucionária,

[00:38:17] que tinha como intuito

[00:38:19] dois aspectos. Um, espalhar

[00:38:21] o terror, produzir um contra-terror.

[00:38:24] Dois, obter informações rápidas

[00:38:26] pra poder ser capaz de separar os elementos

[00:38:28] que eram, de fato, perigosos da população, porque, afinal,

[00:38:30] você não poderia matar toda a população da Argélia, né?

[00:38:32] Então, assim, a tortura

[00:38:34] emerge nesse cenário como

[00:38:35] crucial pra você poder obter

[00:38:38] informações e criar um cenário de segurança

[00:38:39] pública, né, segurança social

[00:38:42] ali. A chamada segurança.

[00:38:44] É! Ou seja, a proteção

[00:38:46] do Estado colonial, naquele caso.

[00:38:47] Enfim, quando a gente vai ver, né,

[00:38:49] onde isso vai ser replicado, é exatamente isso

[00:38:51] que acontece em todos os casos, no Vietnã.

[00:38:54] E, uma coisa que poucas pessoas sabem,

[00:38:55] aqui no Brasil, durante a

[00:38:57] ditadura militar,

[00:38:59] o governo brasileiro importou

[00:39:02] especialistas em guerra francesa

[00:39:03] para ensinar dispositivos de tortura,

[00:39:06] ensinar esse tipo de

[00:39:07] contra-guerra, de cont…

[00:39:09] dessa contra-guerra revolucionária

[00:39:11] aqui, por exemplo, como o Paul Sars

[00:39:13] e coisas do tipo. O Brasil literalmente

[00:39:16] importou essa… importou

[00:39:17] esse tipo de inteligência.

[00:39:19] E, quando ele importa esse tipo de inteligência,

[00:39:21] ele consolida o papel

[00:39:23] da polícia militar, né, as brigadas

[00:39:25] militares começam a se tornar as polícias militares

[00:39:27] tais como nós as conhecemos hoje, por isso

[00:39:30] que, geneticamente, a polícia

[00:39:32] militar não investiga nada. A polícia militar, assim,

[00:39:34] a ação dela, o método de investigação é a tortura,

[00:39:36] né, enfim. E, por

[00:39:37] outro lado, você reformula

[00:39:39] o papel das polícias civis, né,

[00:39:42] como essas obtendo… pra

[00:39:43] obter esse tipo de informação. Por isso que a

[00:39:45] tortura, ela se introduz,

[00:39:47] nesses cenários, como um

[00:39:49] elemento fundamental e necessário

[00:39:51] de uma prática investigativa.

[00:39:53] E aí que vem. A tortura, ela é

[00:39:55] relativizada, por quê? Se você

[00:39:57] não torturar aqueles sujeitos, né,

[00:40:00] aqueles sujeitos,

[00:40:01] você não vai ter informações fundamentais

[00:40:03] para, né, promover a segurança,

[00:40:05] promover a justiça e coisas do tipo. E aí

[00:40:07] que vem o ponto, o pulo do gato, que eu

[00:40:09] vou chegar aqui. Porque, quando

[00:40:11] essa metodologia era

[00:40:13] distribuída,

[00:40:16] era ensinada no Brasil, um ponto

[00:40:17] crucial era… Porque, afinal,

[00:40:19] estamos falando de franceses, né,

[00:40:21] franceses. Os sujeitos que se pensam como

[00:40:23] o ápice da civilização ocidental, né.

[00:40:26] O… Sim, sofisticadíssimos.

[00:40:28] É, você não poderia gostar

[00:40:29] daquilo que você faz. Isso era um ponto crucial

[00:40:31] desses manuais. Porque

[00:40:33] você gostar daquilo de torturar as pessoas,

[00:40:36] de lacerar as pessoas psicologicamente

[00:40:38] e fisicamente, o tornava

[00:40:39] um bárbaro, né.

[00:40:41] Isso era uma coisa não francesa

[00:40:43] de ser. Ué, Orlando,

[00:40:45] é por isso que você não pode

[00:40:47] desejar a morte do presidente

[00:40:49] que mata pessoas.

[00:40:51] Pois é, né. Porque você

[00:40:52] decai na escala moral

[00:40:55] do mundo. Exatamente.

[00:40:57] Mas, assim, o ponto é que

[00:40:58] esse discurso, e é muito

[00:41:01] interessante pra gente

[00:41:03] ver como é que isso

[00:41:05] de certa maneira se perdura

[00:41:07] na maneira como

[00:41:09] nós imaginamos a própria ideia de segurança pública

[00:41:11] hoje em dia. Porque a gente vê falando

[00:41:13] desses filmes, por exemplo, como a ideia de

[00:41:15] tortura é naturalizada.

[00:41:17] Né, cara, qualquer filme de ação

[00:41:19] o herói tá lá torturando os seus inimigos

[00:41:21] e a gente tá lá batendo palma pros caras.

[00:41:23] A gente tem, entre aspas, a gente conta sociedade.

[00:41:25] Vamos deixar isso claro aqui pra eu não ser cancelado

[00:41:27] na internet amanhã. Mas o…

[00:41:30] O…

[00:41:31] Fica pra depois de amanhã, então.

[00:41:33] Depois de amanhã. Sábado, pelo menos, porra.

[00:41:35] Porque aí eu não tô descansando. Mas, assim,

[00:41:37] o…

[00:41:38] O ponto, assim, que quando você vai falar de polícias,

[00:41:41] né, nossa própria imaginação sobre segurança

[00:41:43] pública, a gente pensa, a polícia

[00:41:45] tem um papel genético,

[00:41:47] todas as polícias são geneticamente

[00:41:49] fascistas, seja ela civil, militar,

[00:41:51] porque elas estão atuando como um dispositivo

[00:41:54] de…

[00:41:55] de exercer poder, né, sobre a sociedade.

[00:41:58] E aí você vai ter aqui no Brasil,

[00:41:59] você tem uma distinção, as pessoas costumam

[00:42:01] passar um pano pra polícia

[00:42:03] civil, dizer, não, a polícia civil é diferente da

[00:42:05] polícia militar, né, porque, justamente, a polícia

[00:42:07] militar é selvagem, é

[00:42:09] bárbara, ao cometer aqueles

[00:42:11] atos, né, de violência.

[00:42:14] A polícia civil é técnica.

[00:42:16] Saca? Tipo assim, a ideia

[00:42:17] de ser técnica, de certa maneira

[00:42:19] as pessoas ali terem uma formação

[00:42:21] intelectual e tudo mais, meio

[00:42:23] que ajuda as pessoas a

[00:42:25] relativizarem o papel dessas

[00:42:27] polícias, né, na maneira

[00:42:29] como ficamos ali

[00:42:31] nessa tecnologia de opressão da sociedade, né.

[00:42:34] E outra coisa, né, Orlando,

[00:42:35] é também

[00:42:37] o germem dessa…

[00:42:39] compartilha o germem dessa mesma visão que a gente tem hoje

[00:42:41] pra ministros, que é o técnico

[00:42:43] como o oposto do ideológico, como se fossem

[00:42:45] coisas distintas e não elementos da mesma coisa.

[00:42:47] Voltando pra ideologia da série

[00:42:49] e aquela história que você puxou, eu

[00:42:51] peguei aqui os detalhes

[00:42:52] das duas grandes

[00:42:55] ações de marketing que rolaram pro

[00:42:57] lançamento da série em junho

[00:42:59] de 2008,

[00:43:01] 12 anos atrás aqui em São Paulo.

[00:43:03] Vou contar pra vocês todos

[00:43:05] o que que foram.

[00:43:07] Para promover a série, cerca de 200

[00:43:09] figurantes foram algemados como se estivessem

[00:43:11] sendo presos numa ação policial.

[00:43:13] O fato ocorreu em 5 dias,

[00:43:15] de junho, a 5 dias da estreia.

[00:43:17] 140 pessoas foram

[00:43:19] algemadas na Avenida Paulista e outras 60

[00:43:21] na Engenheiro Luiz Carlos Berrini.

[00:43:24] Veja bem onde eles

[00:43:25] algemaram pessoas, né.

[00:43:29] Dois grandes centros de concentração

[00:43:31] de renda da cidade de São Paulo, e do Brasil

[00:43:33] e da América Latina. Duas das mais

[00:43:35] importantes avenidas da cidade. Aí a segunda,

[00:43:37] essa que eu não lembrava, a segunda campanha

[00:43:39] de divulgação ocorreu nos dias 7 e 8 de junho

[00:43:41] nos parques Ibirapuera

[00:43:43] e Vila Lobos, novamente,

[00:43:45] olha onde, envolveu

[00:43:47] essa é a parte, essa é a parte que você

[00:43:49] vai querer dar um soco em alguém, Orlando.

[00:43:51] Envolveu 48 atores.

[00:43:54] Desses,

[00:43:54] 47 eram bandidos e apenas

[00:43:57] um era policial.

[00:44:00] A cena foi uma

[00:44:01] referência a um dos temas levantados

[00:44:03] na série. A imponem,

[00:44:05] a impotência das autoridades

[00:44:07] frente ao caos da segurança em São Paulo.

[00:44:10] Ou seja, de novo,

[00:44:11] tá vendo? O que falta é polícia.

[00:44:13] É mais polícia.

[00:44:14] É mais

[00:44:15] poder técnico. Porque a polícia

[00:44:17] está acima da ideologia,

[00:44:19] que é o que a série tenta

[00:44:21] mostrar. Essa coisa de, ah, a polícia

[00:44:23] é um mal necessário, a corrupção

[00:44:25] policial também, um mal necessário.

[00:44:28] Essas pessoas não gostam

[00:44:29] do que elas fazem, mas elas fazem o que precisam

[00:44:31] fazer. Elas estão se sacrificando

[00:44:33] por nós. Elas são a última linha

[00:44:35] de defesa, né?

[00:44:37] Essa coisa toda. E é isso, né?

[00:44:39] 47 bandidos, e a gente

[00:44:41] já falou previamente do

[00:44:43] que esse termo

[00:44:44] vazio de significado, mas

[00:44:47] tão cheio de pistas ideológicas

[00:44:49] quer dizer, né?

[00:44:52] E aí,

[00:44:53] pra continuar lendo aqui o material

[00:44:55] que eu tenho dessa maravilhosa fonte que é

[00:44:57] a Wikipedia, eu queria recriar

[00:44:58] um quadro do

[00:45:00] último programa do mundo.

[00:45:03] Você lembra do quadro Frases que Valem um Tapa

[00:45:05] na Cara? Nossa, sim!

[00:45:09] Eu vou ler aqui

[00:45:10] pra você todos os

[00:45:13] títulos de episódio dessa

[00:45:14] série. E se algum não precisar

[00:45:17] de um tapa na cara, você me avisa, tá?

[00:45:18] Aqui se faz, aqui se paga.

[00:45:21] Primeiro episódio, né?

[00:45:22] Nesse episódio é o que o Horácio executa um

[00:45:24] homem, um suspeito. Vai lá.

[00:45:27] Sim, e que ele fala, e no mesmo

[00:45:28] episódio ele fala pro cara que matou

[00:45:30] a mulher que ele fez a coisa certa. Isso.

[00:45:33] Matou a mulher na frente

[00:45:34] da filha, lembrando.

[00:45:38] O estreito

[00:45:39] caminho da lei.

[00:45:41] O que que isso significa, Orlando?

[00:45:43] Que é difícil

[00:45:44] andar na lei. É claro que você vai quebrar

[00:45:46] as regras, porque as regras são

[00:45:48] feitas pra atrapalhar esses policiais,

[00:45:50] coitados.

[00:45:52] Três. Eu sou mais forte. Não, não é.

[00:45:56] Quatro. Nós é polícia.

[00:45:58] Esse vale dois tapas na cara, né?

[00:46:00] Nós é polícia, cara. É aquele

[00:46:02] tipo de pessoa querendo imitar o estilo

[00:46:04] do popular falar, né? Sim.

[00:46:06] Essa é a dicotomia do quanto

[00:46:08] que a cultura

[00:46:09] barra da Tijuca

[00:46:11] quer adotar o banditismo e,

[00:46:14] e o bom mocismo

[00:46:15] na sua visão. Nunca

[00:46:18] melhor representado,

[00:46:20] eu acho, na cultura brasileira do que

[00:46:22] com os bonequinhos do Scarface

[00:46:24] na casa do Wossef com o Queiroz.

[00:46:26] Essa junção, e por isso que eu tô falando

[00:46:28] que essa série, ela não

[00:46:30] é uma previsão, né?

[00:46:32] Ela é uma espécie de antecipação

[00:46:34] estética de algo…

[00:46:36] Cara, vamos pensar…

[00:46:37] Ela não é uma antecipação, ela é um retrato de algo

[00:46:40] que se a gente tivesse prestado atenção…

[00:46:43] Orlando, o meu argumento,

[00:46:44] pra esse episódio, eu acho que eu cheguei nele agora.

[00:46:46] Se o Brasil tivesse assistido

[00:46:48] 9mm, talvez a gente tivesse evitado um pouco

[00:46:50] do que aconteceu desde então. Eu vou dizer

[00:46:52] pra você que eu tô

[00:46:54] nesse papo aí, cara, porque assim…

[00:46:56] Eu tô falando disso

[00:46:58] ao longo da década de 2000

[00:47:00] toda, assim, desde a década de 90,

[00:47:02] basicamente eu entrei na militância na década de 90,

[00:47:04] 2000, 2010…

[00:47:06] 2010… 2010 eu tava

[00:47:08] lá, eu tava fugindo

[00:47:10] de pistoleiro no Pará.

[00:47:12] Sim. What a life, né, cara?

[00:47:14] Assim, mas assim…

[00:47:16] O… o… o… o… tipo assim…

[00:47:18] O…

[00:47:19] É sempre bom lembrar, assim, que em

[00:47:22] 2010, como a gente teve

[00:47:24] toda uma guinada moral à direita

[00:47:26] na política das pessoas,

[00:47:28] por exemplo, toda aquela campanha do Serra

[00:47:30] versus Dilma falando do aborto e coisas do tipo…

[00:47:32] Então, assim, toda essa condensação,

[00:47:35] toda essa estética

[00:47:35] moral, religiosa

[00:47:38] e permissiva com a violência

[00:47:40] tava ali, de fato.

[00:47:42] Assim, as pessoas que são mais

[00:47:44] novas que eu e provavelmente a maioria dos nossos

[00:47:46] ouvintes, né, tem um pouco isso,

[00:47:48] se enquadram nessa categoria,

[00:47:50] talvez. Essas pessoas…

[00:47:51] Se enquadram nessa terrível condição de ser mais novo que o Orlando?

[00:47:54] Que, na verdade, hoje em dia é cada vez mais difícil,

[00:47:56] né, cara? Eu tô naquele… Outro dia eu tive uma pequena

[00:47:58] depressão que eu fui comprar, acho que foi

[00:48:00] um jogo, uma coisa assim, né? Tipo assim, bota a sua

[00:48:02] idade aqui, cara, eu tive que dar 12 scrolls

[00:48:04] pra… pra… saca?

[00:48:07] E cada scroll é uma década,

[00:48:08] tá ligado? Sim. Eu finalmente cheguei

[00:48:10] naquela idade que eu admiro diversas pessoas

[00:48:12] que têm menos idade que eu.

[00:48:14] Cara… E aí me

[00:48:16] preocupa muito, que é tipo, aí, o que que eu vou?

[00:48:18] Eu já tô… Eu fiz 30 anos, Orlando.

[00:48:20] Acabou pra mim. Tudo que eu tinha era o fato

[00:48:22] de que eu era um jovem talento e agora eu sou só

[00:48:24] mais um. E eu sou o quê, gancho, cara?

[00:48:26] Eu sou o quê? Eu já tô vendo os 40 aqui

[00:48:28] batendo na porta, cara. É que você é

[00:48:30] guerreiro, lutador, tá aí em Bangu, crescendo,

[00:48:32] eu não… eu já saí

[00:48:34] do privilégio, eu não cresci nada.

[00:48:36] Cara, cara, sei lá. Mas enfim,

[00:48:38] nossa, minha depressão de meia-idade,

[00:48:40] minha crise de meia-idade aqui, a parte,

[00:48:42] mas assim,

[00:48:44] o ponto é que eu acho que

[00:48:46] quando o PT assenteu

[00:48:48] ao poder, né, por exemplo,

[00:48:50] criou-se uma espécie de fantasia

[00:48:53] muito difundida

[00:48:54] no Brasil, de que o Brasil talvez fosse um

[00:48:56] país mais progressista. Eu odeio

[00:48:58] essa palavra, eu odeio mesmo, assim, mas vamos colocar

[00:49:00] isso porque é o que a gente tem nesse momento, pra não ter

[00:49:02] que fazer uma série de explicações.

[00:49:04] Um país fosse muito mais progressista do que

[00:49:06] de fato é. Porque assim,

[00:49:08] quando você vai olhar, por exemplo,

[00:49:10] o discurso, sobretudo quando você vai olhar pra

[00:49:12] figurança pública, ou o discurso

[00:49:14] sobre drogas, enfim,

[00:49:17] se avançou

[00:49:18] muito pouco ou nada.

[00:49:20] Pelo contrário, se retrocedeu ao longo

[00:49:22] dos últimos anos. Porque na mesma época

[00:49:24] que você tinha, sei lá, o PT

[00:49:26] ascendendo ao poder, você tinha pessoas

[00:49:28] aqui na Câmara

[00:49:30] na Lerje, aqui no Rio de Janeiro,

[00:49:32] fazendo discursos elogiando

[00:49:34] a milícia, saca?

[00:49:36] Então assim, e elogiando nesses

[00:49:38] termos que são muito caros ao dar sério. Então,

[00:49:40] eles têm esse problema aí que eles cobram no morador,

[00:49:42] mas eles fazem segurança, sabe? As pessoas são

[00:49:44] seguras, é melhor viver em área de milícia.

[00:49:46] Cara, nessa mesma época,

[00:49:49] se estourou,

[00:49:51] estourou, e é muito

[00:49:53] louco pensar nisso, né?

[00:49:55] A milícia no Rio de Janeiro

[00:49:56] cresceu absurdamente

[00:49:58] e muito atrelada

[00:50:00] ao crescimento

[00:50:02] das igrejas evangélicas,

[00:50:04] mas também aos projetos

[00:50:06] de Como Minha Casa Minha Vida.

[00:50:08] Saca? Não tô dizendo que

[00:50:09] o projeto foi criado pra dar poder

[00:50:11] pras milícias. Não, mas eles foram capazes de se apropriar

[00:50:13] daquilo, saca? Eles coexistiam

[00:50:16] com esse discurso de justiça social,

[00:50:18] todo aquele discurso,

[00:50:19] porque a milícia não é só uma ocupação territorial,

[00:50:22] ela é uma ocupação moral

[00:50:23] da própria imaginação. É isso que as pessoas

[00:50:25] têm que entender, e a gente vai, em algum momento,

[00:50:27] tem que voltar nisso aqui. Mas, ele

[00:50:29] coexistia com aquela suposta

[00:50:32] expansão da esquerda nacional,

[00:50:34] saca? Então, em 2008,

[00:50:36] quando a série vai mostrar esse tipo de

[00:50:37] esse tipo de pensamento,

[00:50:39] né? Você tá vendo que

[00:50:41] aquele discurso que até então

[00:50:43] era muito periférico, né?

[00:50:45] Tipo, que tava ali, né? Tipo,

[00:50:48] elegendo um

[00:50:49] deputadozinho, né? Que era o Bolsonaro na época,

[00:50:52] elegendo alguns, sei lá, major, alguma

[00:50:53] coisa. Depois ele foi começando a

[00:50:55] conquistar as elites brasileiras,

[00:50:58] né? Ao ponto de que, porque assim,

[00:50:59] sabe, cara? Quem faz audiovisual, sobretudo, vendendo

[00:51:01] pra Fox, não é gente ferrada

[00:51:03] de grana, saca? Não.

[00:51:05] Então, assim, pra esses caras começarem a

[00:51:07] adotar aquilo, esse é o momento que

[00:51:09] registra justamente o momento em que

[00:51:11] essas elites,

[00:51:13] elas tão abandonando um certo progressismo

[00:51:16] e cada vez mais

[00:51:18] adotando um

[00:51:19] conservadorismo, seja em termos de

[00:51:21] política, seja em termos morais,

[00:51:24] saca? Não é à toa

[00:51:26] que dois anos depois, em 2010,

[00:51:28] você tem uma campanha eleitoral

[00:51:30] que é um

[00:51:31] marco histórico, porque foi um momento em que

[00:51:33] você teve um debate

[00:51:34] moral sobre o aborto,

[00:51:37] o direito de direitos

[00:51:39] reprodutivos, direitos ao corpo, enfim,

[00:51:41] público, e de uma maneira

[00:51:43] tão conservadora, os dois

[00:51:45] lados, né? Tanto o PT

[00:51:47] quanto o PSDB, na época, foi o PSDB

[00:51:49] que puxou esse debate com Serra,

[00:51:51] né? Tipo, tava adotando uma posição

[00:51:53] extremamente conservadora sobre isso.

[00:51:55] E tudo bem pra maioria da sociedade,

[00:51:57] saca? Tô ok, ok, tudo bem. Não,

[00:51:59] todo mundo aqui é contra o aborto. Não,

[00:52:01] todo mundo também é a favor, porque tem que se fazer alguma coisa

[00:52:03] contra a violência, né, saca?

[00:52:05] Então, nessa época, o discurso se torna

[00:52:07] mais difuso. É, a direita,

[00:52:09] a direita é muito boa em estabelecer

[00:52:11] esses falsos consensos,

[00:52:13] né? Sim, ótimo.

[00:52:14] Que é como que eu falei

[00:52:17] que a série traz o… Não, mas, tudo bem,

[00:52:18] você pode não gostar, mas a gente precisa de polícia, né?

[00:52:21] E aí você impede que

[00:52:23] se torne mais comum o discurso

[00:52:25] de, cara, será que a gente precisa de polícia?

[00:52:27] E de cadeia? Do jeito que essas

[00:52:29] coisas são? Essas coisas estão ajudando a gente?

[00:52:31] E aí a direita é muito boa

[00:52:33] em fixar

[00:52:35] certas coisas como imutáveis, né?

[00:52:36] Como o próprio capitalismo, né? Como a gente discute

[00:52:38] bastante aqui, de que é tipo

[00:52:40] tá, mas o que você vai fazer? Todo o resto é pior, né?

[00:52:43] E é tipo, é? É pior?

[00:52:45] É porque, assim, eu lembro de todas as economias

[00:52:47] que vocês sabotaram, mas é… Enfim,

[00:52:49] tem a China, enfim…

[00:52:50] Esse assunto vai alongar muito

[00:52:52] o podcast, eu acho. Mas

[00:52:54] é muito interessante, assim, porque…

[00:52:56] E é uma coisa que a própria… Muita gente

[00:52:59] da esquerda tem uma dificuldade de

[00:53:00] entender e pra criticar

[00:53:02] e melhorar, que é toda essa violência policial

[00:53:05] que a gente tá vendo defendida aqui

[00:53:06] na série, tá sendo

[00:53:08] ditada na época em que ela existia, e existia

[00:53:10] sob esses governos do PT, né?

[00:53:12] Sim. Você falou com uma coisa que é importantíssima.

[00:53:15] Muito bom o que você falou.

[00:53:17] A direita, ela é especialista

[00:53:19] em…

[00:53:20] É uma coisa que a Isabela Stanguer chama de

[00:53:22] alternativas infernais, né? Que é

[00:53:24] basicamente você oferece, assim, ah…

[00:53:27] Por exemplo, uma situação básica.

[00:53:29] Vocês querem…

[00:53:30] Ou vocês vão ter empregos ruins

[00:53:32] ou vocês não vão ter empregos.

[00:53:35] Saca? Então, assim, ou vocês vão ter

[00:53:36] uma polícia que é violenta, que é…

[00:53:38] É isso, sei lá o quê, mas é uma polícia

[00:53:40] ou vocês não vão ter segurança nenhuma.

[00:53:43] E aí elas apresentam esses

[00:53:44] consensos, né?

[00:53:46] Esses verdadeiros sequestros da imaginação,

[00:53:48] né? Que é isso que é o objetivo

[00:53:50] dessas alternativas infernais,

[00:53:53] né? Tipo, tu só pensa aqui, ó. Ou é ruim ou é muito ruim.

[00:53:55] Saca? E aí quando você

[00:53:56] tem isso, é interessante como que isso rapidamente

[00:53:58] se consolida como

[00:54:00] uma coisa do tipo…

[00:54:02] É, realmente. E todo mundo começa a reproduzir isso

[00:54:04] de uma maneira completamente

[00:54:06] irreflexiva. Ao ponto que, por exemplo, você tem

[00:54:08] setores da esquerda que caem

[00:54:10] na conversa de coisas… Ah, existem coisas

[00:54:12] como policiais antifascistas.

[00:54:14] Então, e quando…

[00:54:17] E tu vê esses

[00:54:18] sujeitos repetindo exatamente

[00:54:20] esse discurso. É, vocês são contra a polícia?

[00:54:23] Vocês são contra os trabalhadores da segurança

[00:54:24] pública, mas sem a gente, a sociedade estaria

[00:54:26] em um caos. Saca? E é

[00:54:28] a postura de máfia, né? Tipo, é,

[00:54:30] seria uma pena se algo acontecesse com essa sociedade

[00:54:32] aí, hein? E aí?

[00:54:34] Não vai me apoiar, é? Seria uma pena

[00:54:36] se tudo queimasse, hein?

[00:54:38] E aí que vem um ponto, né? E a gente amarra

[00:54:41] lá no começo do nosso podcast, quando a gente

[00:54:42] começou a trabalhar

[00:54:45] isso… Por exemplo, a gente começou a

[00:54:47] trabalhar como a nossa imaginação é

[00:54:48] sequestrada ao ponto de a gente naturalizar o mundo

[00:54:50] que a gente vive de todas as formas. Por exemplo, quando a gente

[00:54:52] for falar do poço, por exemplo, como aquela

[00:54:54] imaginação do… A imaginação sul-liberal

[00:54:56] fala assim, ó, aquilo que nos

[00:54:58] ensina que o homem é o lobo do homem, que se a gente

[00:55:00] não tiver o Estado, as pessoas vão se matar

[00:55:03] nas ruas, as pessoas vão cometer canibalismo,

[00:55:04] sabe? Aquela coisa toda.

[00:55:07] Esse discurso tá lá desde o

[00:55:08] princípio, cara. Assim, desde o princípio

[00:55:10] umas pessoas chegaram pra gente e falaram assim, olha,

[00:55:12] sem a gente, nós somos ruins, nós admitimos,

[00:55:15] mas sem a gente fica pior.

[00:55:16] E desde sempre a tática é a mesma, e desde sempre

[00:55:18] a gente continua caindo. E essa série

[00:55:21] é uma… É uma representação

[00:55:23] clara, cristalina disso, né?

[00:55:26] Pois é,

[00:55:26] e assim, e tem muito a ver

[00:55:28] com o que a gente assiste à direita fazer

[00:55:30] na política mundial, nos últimos

[00:55:32] 40 anos, que é sempre

[00:55:34] essa discussão de, tipo, eu apelo

[00:55:36] pra um extremo, e aí

[00:55:38] a esquerda,

[00:55:40] não esquerda, né, mas os liberais

[00:55:42] progressistas e tal, né,

[00:55:44] esse centro, esse centro-esquerda

[00:55:46] que sempre dominou a…

[00:55:48] que a mídia deixou dominar

[00:55:50] o discurso de esquerda

[00:55:52] no Ocidente,

[00:55:55] vira essa briga de, tipo, assim,

[00:55:57] a gente vai matar todo mundo, a direita vai fazer assim,

[00:55:58] a gente vai matar todo mundo, e aí a esquerda

[00:56:00] fala assim, não, por favor, não.

[00:56:02] E eles falam assim, tá bom, só algumas pessoas então.

[00:56:04] E aí você vira e fala assim, olha só, a gente

[00:56:06] sentou e a gente negociou,

[00:56:08] e a gente saiu com o melhor que a gente podia.

[00:56:10] Vencemos!

[00:56:12] Você quer que eles não matem ninguém agora também?

[00:56:14] Você não vai dar o braço a torcer pra nada? Você quer só utopia?

[00:56:17] É isso, né?

[00:56:18] E essa série, por isso que eu acho que essa série

[00:56:20] ela antecipa, porque

[00:56:22] ela antecipa não, ela condensa esse tipo de

[00:56:25] imaginação simplória,

[00:56:27] imbecilizante, né,

[00:56:29] sobre a segurança pública, porque a segurança

[00:56:30] pública ali é

[00:56:32] tratada exatamente nesses termos, né,

[00:56:34] e, enfim, não é só essa série, né,

[00:56:36] tipo, 99,9% das séries são

[00:56:38] policiais, fazem isso, né. A segurança

[00:56:40] pública se torna, olha, essas pessoas

[00:56:42] têm problemas, a instituição tem

[00:56:44] problemas, admitimos que tem problemas,

[00:56:47] contudo,

[00:56:48] eles são a nossa última linha

[00:56:50] de defesa. Sem eles, a gente

[00:56:52] tava na barbárie, cara.

[00:56:55] Exato. E,

[00:56:56] bom, pra amarrar com isso,

[00:56:58] eu vou terminar aqui o nosso,

[00:57:00] o, como é que fala, o

[00:57:02] episódio que vai dar um tapa na cara, que inclusive

[00:57:04] acho que vão conectar aí com vários temas

[00:57:06] que a gente tá falando, e podem puxar os próximos.

[00:57:08] Olha só. Garoto Problema,

[00:57:11] Eu Não Vivo Disso,

[00:57:13] Limpeza, Polícia,

[00:57:15] Não Política,

[00:57:17] O Homem Que Todos Queriam

[00:57:18] Morto. Bom, esse pronto.

[00:57:20] Esse amarra muito bem, com várias coisas que a gente vai falar.

[00:57:23] Aí o próximo, você vai, o próximo,

[00:57:25] o próximo título de episódio,

[00:57:26] eu fico chateado que eu não assisti esse episódio pra não passar,

[00:57:29] porque podia trazer tanta raiva pra cá.

[00:57:31] Talvez você tenha visto, é o sétimo da segunda,

[00:57:32] da, caramba, não é o sétimo

[00:57:34] da segunda temporada, ele é o

[00:57:36] décimo primeiro da

[00:57:38] primeira.

[00:57:38] Não cheguei tão longe.

[00:57:40] Ele é o…

[00:57:42] Cracolândia. Nossa.

[00:57:44] Imagina a abordagem dessa série pra esse tema.

[00:57:46] Eita que barulho.

[00:57:48] As pessoas, os usuários de drogas nessa série,

[00:57:51] qualquer uso de entorpeça,

[00:57:52] é aquilo que a gente falou, a estética

[00:57:54] da série é a estética do teatrinho

[00:57:56] do segundo grau. Segundo grau, olha só como é que eu sou velho.

[00:57:58] Você se lembra quem é o primeiro usuário de drogas que aparece

[00:58:00] nessa série? Porque eu me lembro. É o namorado da menina.

[00:58:03] Não, a primeira usuária de drogas

[00:58:04] que aparece nessa série é uma garota de

[00:58:06] 17 anos que transa com um dos nossos heróis,

[00:58:08] o 3P. É verdade.

[00:58:11] Ela transa com ele no carro dele,

[00:58:13] conta que tem 17 anos e cheira uma carreira

[00:58:14] de cocaína na frente dele.

[00:58:16] E ele fica, não. E ele fala, não,

[00:58:18] não faz isso. Exatamente. Ele transa

[00:58:20] com a menina de 17 anos, ele é um policial.

[00:58:23] Vai pra uma festa de

[00:58:24] swing com ela depois. Isso, e

[00:58:26] o problema dele é ela cheirar cocaína.

[00:58:29] Sim, e é um problema que

[00:58:30] assim, ele só precisa deixar, tipo assim,

[00:58:32] ei, não faz isso. E não oferece

[00:58:34] resistência alguma. É isso,

[00:58:36] né? Porque assim, o…

[00:58:38] o discurso dessa série sobre

[00:58:40] entorpecentes é tão simplório

[00:58:42] porque é muito louco, né? Tipo,

[00:58:44] o garoto lá cheira, ele rouba a televisão.

[00:58:47] O outro filho do cara fuma maconha

[00:58:48] e tipo… Ué, é o discurso do

[00:58:50] fala que eu discuto. Sim, e assim, é muito

[00:58:52] louco porque rapidamente,

[00:58:54] por exemplo, o… talvez acho que

[00:58:56] você falou, mas o primeiro usuário mesmo

[00:58:58] que aparece na série e

[00:59:00] é representado, que tem uma história que é muito

[00:59:02] rapidamente abortada dentro da série, é o

[00:59:04] namorado da filha. É que eu acho que

[00:59:06] a primeira vez que a gente vê ele, a gente não sabe ainda

[00:59:08] que ele é o usuário, talvez. Mas fica, não, fica muito na

[00:59:10] cara, fica muito… Mas eu, então, mas é que

[00:59:12] essa cena que ele fala do

[00:59:14] pó que a menina cheirou, eu acho

[00:59:16] que ela acontece depois, talvez, não sei, não sei.

[00:59:18] Não, acontece depois, mas ele tá sempre

[00:59:20] com uma cerveja na mão, saca? Uma coisa meio

[00:59:22] éééé, tipo da casa… Eu não entendi quantos

[00:59:24] anos era pra ele ter, se ele pode estar do bem na cerveja

[00:59:26] ou não, enfim. Não, tá, isso é… Porque ele é um

[00:59:28] cara… Porque como todo mundo nessa série, ele não… é isso,

[00:59:30] é tipo teatro de escola, todo mundo tem a mesma idade

[00:59:32] e eles só tão interpretando faixas e atares

[00:59:34] diferentes. Isso, cara. Não, e aí

[00:59:36] tem um momento em que ele fala pra… ele…

[00:59:38] inclusive tem um plot que foi

[00:59:40] abortado, né? Porque ele olha pra aquela…

[00:59:42] ele tá lá cheirando, e aí ele quer

[00:59:44] transar com a menina, a menina não quer, ele começa… aí ele bate

[00:59:46] na menina, né? Só que aí sim…

[00:59:48] E aí logo depois ele fala assim, ele olha pra televisão

[00:59:50] como se nada daquilo que tivesse acontecido, né?

[00:59:52] Uma cena completamente distinta, ele olha assim

[00:59:54] essa televisão dava um dinheiro, hein?

[00:59:56] Saca? E aí depois de um tempo

[00:59:58] ele aparece completamente drogado na rua

[01:00:00] ligando pra ela, ela não liga mais pra ele

[01:00:02] tipo assim, viciadão mesmo, morando nas ruas

[01:00:04] saca? Tipo assim, um episódio,

[01:00:06] no episódio seguinte ele já tá assim. E ele

[01:00:08] liga pra ela, ela não… ela não liga… e ele

[01:00:10] pede desculpa pela televisão, só que em nenhum momento

[01:00:12] fala dessa televisão que foi roubada ou não, coisas

[01:00:14] do tipo. A mãe nunca percebe que a televisão foi roubada. Não,

[01:00:16] porque a mãe não assiste, ela nunca tá em casa, né? Ela é relapse.

[01:00:18] É verdade. Esse é o drama da… E, inclusive

[01:00:20] a menina, é dito que a menina

[01:00:22] começa a usar drogas porque ela

[01:00:24] quer sempre estar com a mãe, mas a mãe nunca tem tempo pra ela, né?

[01:00:27] E assim, só que ela quer ligar

[01:00:28] pra mãe, tipo assim, três da tarde. Mãe, eu quero

[01:00:30] conversar com você, vamos comer alguma coisa? Tipo assim, a mulher

[01:00:32] tá trabalhando. É aquele discurso que passa por

[01:00:34] cima da coisa mais óbvia

[01:00:36] de todos. Nunca ninguém tá usando droga porque droga

[01:00:38] é bom. Nunca isso. Não, tá usando

[01:00:40] porque você tem um vazio existencial, porque sua mãe tem que

[01:00:42] trabalhar, cara, sabe? Porque o único

[01:00:44] drogado nobre é o que não gosta

[01:00:46] do que tá fazendo. Sim.

[01:00:49] Aí, eu vou voltar

[01:00:50] pra cá, porque o último episódio da…

[01:00:52] do que é a primeira temporada do Netflix

[01:00:54] e tudo mais,

[01:00:55] ele é o que amarra com o fato

[01:00:58] de que eu nunca tinha entendido porque que a série

[01:01:00] diz que foi criada pelo Carlos Amorim também,

[01:01:02] que é o autor do livro CVPCC,

[01:01:04] Hermandade do Crime, enfim. É um jornalista policial,

[01:01:06] que também já dividiu episódios

[01:01:08] do programa do Ratinho em 98, enfim.

[01:01:10] Esse é o pedigree. Mas aí

[01:01:12] eu fiquei pensando, tipo, mas por que e tal?

[01:01:14] E aí eu vi, o último episódio

[01:01:16] dessa primeira temporada,

[01:01:18] que teoricamente é a segunda,

[01:01:20] enfim, é muito difícil lidar com a

[01:01:22] cronologia dessa série. Mas

[01:01:24] a hora é agora,

[01:01:26] que é sobre

[01:01:27] a facção

[01:01:29] que existe na série, que não é nomeada,

[01:01:33] pra eles não terem que pagar direito

[01:01:34] autoral.

[01:01:34] Que é

[01:01:37] a…

[01:01:38] Mário

[01:01:41] faz a prima de torre como refém

[01:01:43] e o bandido resolve botar a cidade em alerta

[01:01:45] e mostrar que o pessoal da facção

[01:01:47] não está de brincadeira.

[01:01:49] Assim, policiais começam a ser

[01:01:50] assassinados em diversos pontos da cidade,

[01:01:53] ônibus são queimados e pessoas

[01:01:55] se trancam em casa com medo.

[01:01:56] Ou seja, eles dramatizaram

[01:01:58] os ataques do PCC em São Paulo.

[01:02:00] Sim.

[01:02:02] Eu, de novo,

[01:02:03] uma temática que junto com a Cracolândia,

[01:02:04] eu queria ver muito como essa série explorou.

[01:02:06] Que pena que eu não tive tempo de passar essa raiva.

[01:02:08] Nossa, que chato, que chato.

[01:02:11] Terminar aqui com os episódios da segunda temporada,

[01:02:13] que tem ótimos nomes que valem

[01:02:15] tapa na cara. O Amor é Lindo,

[01:02:17] Açúcar ou Adoçante, Deus é Fiel,

[01:02:19] O Nascer da Lua Cheia, que também é um filme

[01:02:21] da Xuxa, Quem Corrige o Passado,

[01:02:23] Apaga o Futuro,

[01:02:24] lembrando que esse episódio é sobre tortura na dinadura.

[01:02:28] Hein, Orlando?

[01:02:29] Você que fez parte da Comissão da Verdade,

[01:02:30] Quem Corrige o Passado, Apaga o Futuro?

[01:02:33] Cacete, cara.

[01:02:34] Tapa na cara.

[01:02:34] Cara, Flor do Mal

[01:02:36] e, no fim, uma simples

[01:02:39] questão de números.

[01:02:42] Olha só,

[01:02:43] Orlando, que nomes,

[01:02:45] que série. Esse simples questão de

[01:02:47] números é bem aquela coisa técnica,

[01:02:49] a polícia técnica, né, cara?

[01:02:51] Polícia técnica. O policial competente…

[01:02:53] Ah, e aí eu quero falar do último episódio, porque

[01:02:54] eu quero falar da última usuária de drogas que aparece

[01:02:57] também.

[01:03:00] Essa cena

[01:03:00] maravilhosa, que é a Branca

[01:03:03] de Dredd, que tá grávida na

[01:03:04] delegacia. A Branca de Dredd é muito

[01:03:06] bom, né, cara? A Branca de Dredd, em primeiro

[01:03:08] lugar, já perde toda

[01:03:09] empatia e

[01:03:12] qualquer tipo de credibilidade que pudesse

[01:03:14] ter, né? Mas aí, eu como uma

[01:03:16] pessoa que estudei num colégio aqui

[01:03:18] de São Paulo que é famoso

[01:03:19] por seus Brancos de Dredd, posso

[01:03:22] dizer com propriedade que não presta,

[01:03:24] né? Aí, vamos dizer,

[01:03:26] na segunda temporada, especialmente, a série adota

[01:03:28] um tom quase

[01:03:30] cômico pra cenas que acontecem dentro

[01:03:32] da delegacia. A delegacia vira

[01:03:34] quase como o bar do Cheers, assim.

[01:03:36] Quase que um Brooklyn Nine-Nine que a gente discutiu

[01:03:38] no último episódio. E aí,

[01:03:41] não a

[01:03:42] claque dessa, mas

[01:03:44] assim, os extras muito divertidos

[01:03:46] dessa Praça é Nossa, né?

[01:03:48] Os policiais são o nosso Carlos Alberto

[01:03:50] e esses personagens muito loucos são

[01:03:52] normalmente os bandidos, entre

[01:03:54] aspas, né? Pessoas drogadas,

[01:03:57] enfim, pessoas que, ou pessoas que são

[01:03:58] vítimas de crimes, né? E são

[01:04:00] meio que humilhadas pela série pra criar

[01:04:02] algum tipo de divertimento nessa

[01:04:04] tenda de circo que é a nossa

[01:04:05] delegacia. Delegacia essa que

[01:04:08] tem que ser no

[01:04:10] subsolo, basicamente, porque

[01:04:12] não tem como ter janela nesse cenário muito

[01:04:14] barato que eles fizeram. O que é isso, né, cara?

[01:04:16] E eu não vou nem entrar na metáfora que eles tentam fazer com a

[01:04:18] porra do banheiro com a privada quebrada durante

[01:04:20] metade da segunda temporada. Mas, enfim.

[01:04:22] O que acontece? Tem um casal de

[01:04:24] brancos de dread lá, esperando pra

[01:04:26] falar com o policial e eu nem sei porquê, porque eu

[01:04:28] não lembro e eu não ligo.

[01:04:30] E aí, a garota começa a

[01:04:32] reclamar que o delegado tá em

[01:04:34] embora antes de falar com eles e aí, tipo,

[01:04:36] ela, eu pago meus impostos!

[01:04:38] Eu tô grávida aqui esperando!

[01:04:41] E aí, nisso,

[01:04:42] ela vai, ela puxa

[01:04:44] a bolsa dela e cai

[01:04:45] um ziplock de cocaína no chão.

[01:04:48] Uau!

[01:04:50] E aí, todo mundo para, muito chocado

[01:04:52] e aí um dos policiais fala assim,

[01:04:54] você está presa.

[01:04:56] E aí, a bolsa

[01:04:58] dela estoura e ela entra em trabalho de parto!

[01:05:00] E essa é assim que a cena

[01:05:02] termina.

[01:05:04] É, é isso.

[01:05:06] Eu só queria contar, eu só queria contar que

[01:05:08] essa cena, se você não tinha visualizado

[01:05:10] que tipo de série é essa, eu não sei

[01:05:12] nem te explicar. E aí, com isso, eu quero

[01:05:14] chegar no meu argumento final, que é, voltando àquela questão

[01:05:16] de, tipo, essa série, se a gente tivesse assistido

[01:05:18] enquanto na ação, talvez

[01:05:20] tivesse melhorado alguma coisa, porque eu teria exposto.

[01:05:22] Porque é isso, ela não consegue glamourizar

[01:05:24] o que ela tenta glamourizar, eu sinto,

[01:05:26] porque ela é muito mal feita. Sim.

[01:05:28] Então, ela não sofre do problema que

[01:05:30] o, o, muito do cinema sofre

[01:05:32] e o próprio, ahm, ahm…

[01:05:34] Tropa de Elite sofre, mesmo se você

[01:05:36] for muito generoso com as intenções

[01:05:37] dos criadores, que é, tem certas

[01:05:40] coisas que você não consegue mostrar no cinema

[01:05:41] sem glamourizar, mesmo que

[01:05:43] involuntariamente. A não ser

[01:05:46] que você seja muito ruim em fazer cinema.

[01:05:48] E que é o caso dessa série.

[01:05:50] Ela é um cinema muito incompetente.

[01:05:53] Então,

[01:05:54] ela acaba sendo

[01:05:55] um grande Telecurso 2000

[01:05:58] da polícia. E aí você fica

[01:06:00] muito pouco afim de ser policial

[01:06:02] ou defender aquelas ações. Ela é literalmente um Telecurso

[01:06:04] 2000 da polícia, porque tem aquele ator

[01:06:06] que fazia o Bongo, o entregador de pizza

[01:06:08] no Castelo Ratibum, que também era um ator muito

[01:06:10] prolífico no Telecurso 2000

[01:06:12] e ele aparece como um médico legista

[01:06:14] ou um médico, enfim, que tá lendo uns

[01:06:16] exames pros policiais e é tipo

[01:06:18] e ele explica basicamente os resultados

[01:06:20] do exame e tal, como se fosse

[01:06:22] uma cena do Telecurso 2000. Nossa, sim,

[01:06:24] cara! É incrível a semiótica

[01:06:26] dessa cena. Sim, cara, sim!

[01:06:28] É o único ator que sabe o que ele tá fazendo.

[01:06:30] Ele, tipo, claramente recebeu o script e falou assim

[01:06:31] eu sei, eu sei fazer isso, cara.

[01:06:33] Eu fiz o Telecurso 2000, o desafio,

[01:06:35] eu e o Taquete, vambora!

[01:06:38] Ai, cacete, cara!

[01:06:39] Então essa série, se a gente

[01:06:41] tivesse assistido ela lá em 2009…

[01:06:43] Cara, só uma coisa, pera aí, só pra pedir desculpa.

[01:06:46] Mas um dos pitboys magros

[01:06:47] é aquele garoto que fazia o TV Cruze,

[01:06:49] saca? Ah, claro!

[01:06:51] O Caju? Era o magrinho.

[01:06:53] O principal? O magrinho, o principal, é.

[01:06:55] O principal era, cara. Ele é um pitboy na série, pra ter uma

[01:06:57] ideia do nível do casting do ator dele.

[01:07:00] Aí, olha só. E aí

[01:07:01] o… é isso,

[01:07:03] assim, cara, essa série, se a gente

[01:07:05] tivesse, se ela tivesse passado na Globo, saca?

[01:07:07] Essa série, muita gente tivesse visto,

[01:07:10] as pessoas não iam glamorizar

[01:07:11] tanto essa visão de mundo que tá por trás

[01:07:13] do bolsonarismo

[01:07:15] e que tá por trás, mais abrangentemente,

[01:07:17] de todo o partido novismo da

[01:07:19] direita brasileira, né?

[01:07:21] Que tá por trás da ascensão

[01:07:23] do Dória, enfim, de todos esses

[01:07:25] caras. Se a gente

[01:07:27] como nação, e eu incluo você

[01:07:29] e eu aí, você e eu,

[01:07:31] porque a gente deixou passar, a gente não prestou

[01:07:33] atenção nessa série quando ela passou.

[01:07:35] Eu tava fazendo outras coisas.

[01:07:37] A gente não usou esse alerta.

[01:07:40] Esse alerta.

[01:07:43] Essa série estreou, eu tinha 18

[01:07:45] anos, Orlando.

[01:07:47] Eu era um ser em formação.

[01:07:49] Eu ainda era uncap

[01:07:51] nessa época. Sabe o que eu tava fazendo nessa época?

[01:07:54] Eu tava

[01:07:55] mergulhando com baleias.

[01:07:57] Olha que bonito. E a Eliana e o criador

[01:07:59] da série mergulhando com golfinhos.

[01:08:01] Orlando, quais são os seus argumentos finais?

[01:08:03] O pior é que essa história é séria.

[01:08:06] Meu mestrado foi sobre baleias e golfinhos.

[01:08:08] Sobre cetologia. Eu não duvido.

[01:08:11] Cara, um dia eu vou ter que fazer

[01:08:12] uma recapitulação do que eu já fiz na minha vida.

[01:08:14] Mas assim, o… Puta, vamos fazer nós dois,

[01:08:16] porque assim, tipo, eu…

[01:08:17] Meu primeiro emprego foi banca de revista, né?

[01:08:20] Cara, meu primeiro emprego foi office boy.

[01:08:22] Eu depois, eu trabalhei pra máfia chinesa.

[01:08:24] Vamos conversar sobre isso.

[01:08:25] A gente vai fazer isso. Quando terminar a primeira temporada,

[01:08:27] a gente faz um bônus. Isso.

[01:08:29] Que são os nossos currículos

[01:08:30] que nos permitem falar desses… Um monte de coisa.

[01:08:33] Como é que a gente chegou aqui?

[01:08:34] O que que não deu certo? Saca?

[01:08:36] Exato. Mas assim…

[01:08:38] Especialistas em fracasso. Com o Gus Lanzetta e o Orlando Calil.

[01:08:41] Total. Mas assim,

[01:08:43] o meu ponto, assim, dessa série…

[01:08:44] Eu concordo plenamente com você, cara, sobre isso.

[01:08:47] O meu ponto é que…

[01:08:49] Mas assim, ele é de fato uma cristalização

[01:08:51] desse tipo de argumento assim

[01:08:53] plóreo que virou

[01:08:54] a imaginação coletiva do Brasil,

[01:08:57] o discurso sociológico

[01:08:59] espontâneo do cidadão brasileiro

[01:09:01] que fundamenta, inclusive, a política.

[01:09:03] Porque o brasileiro…

[01:09:06] Essa entidade

[01:09:07] que é sempre o outro, né? O brasileiro médio,

[01:09:09] né? Ele imagina…

[01:09:11] E a gente pode falar isso porque a gente vê que

[01:09:13] os políticos reproduzem

[01:09:15] essa lógica, né? Ele imagina

[01:09:17] o mundo funcionando como se fosse

[01:09:19] a Diagesis dessa série, né, cara?

[01:09:21] Os policiais, aquela coisa toda…

[01:09:23] Quem são os bandidos? O que fazem os bandidos?

[01:09:25] O que é um usuário de drogas? Por que as pessoas usam drogas?

[01:09:27] Saca?

[01:09:29] Essa série, ao mesmo tempo, se a gente tivesse visto aquilo…

[01:09:32] Sabe o que ela seria?

[01:09:32] Ela seria um espelho da nossa sociedade

[01:09:34] que a gente não queria ver naquele tempo, sabe?

[01:09:37] Sim.

[01:09:39] É, não, mas é assim…

[01:09:40] Eu acho que, assim, com o…

[01:09:43] A perspectiva que a gente tem hoje de tudo

[01:09:44] que aconteceu desde 2008, a gente olha pra

[01:09:46] essa série e fala, caralho, essa série tava mostrando

[01:09:48] pra gente várias coisas que a gente queria ignorar,

[01:09:51] como você mesmo falou, de que a gente queria acreditar

[01:09:52] que a gente era uma sociedade, um país

[01:09:54] muito mais à esquerda

[01:09:57] e mais progressista do que a gente realmente

[01:09:59] é. E a gente

[01:10:00] se negava a ver. E essa série não se negava

[01:10:02] a ver.

[01:10:02] Eu não tô dizendo que ela tava criticando

[01:10:05] como a gente tá criticando.

[01:10:06] Veja bem, não estou passando

[01:10:08] pano pra série, mas eu tô dizendo.

[01:10:11] Do mesmo jeito que a gente acaba

[01:10:12] de ver isso, muita gente que tivesse visto essa série na época

[01:10:14] teria visto que, tipo, ela é um

[01:10:16] retrato, sim, de pessoas que existem e estão ao nosso redor

[01:10:19] o tempo inteiro. E assim,

[01:10:20] existe um momento que a série meio que quase chega

[01:10:22] nesse ponto, porque no último episódio da série

[01:10:25] você descobre que um cara que você

[01:10:26] acha que talvez seja bonzinho é do mal,

[01:10:28] exatamente porque o Horácio vê no carro dele

[01:10:30] um adesivo de…

[01:10:32] Brasil acima de todos.

[01:10:33] E só um… tem um outro momento,

[01:10:37] né, que a série lá

[01:10:38] no primeiro capítulo da segunda temporada,

[01:10:40] no segundo capítulo da segunda temporada,

[01:10:43] que tem aquele caso

[01:10:44] de uns jovens, né,

[01:10:46] que vão roubar, vão assaltar

[01:10:48] um…

[01:10:50] não dá pra entender muito bem, né, um…

[01:10:53] um…

[01:10:54] uma loja, né, que é

[01:10:56] comandada por uns chineses

[01:10:58] e é uma família chinesa e eles

[01:11:00] assassinam e tacam fogo na família, né.

[01:11:02] Ah, sim, essa cena.

[01:11:04] A família morre…

[01:11:06] Lembra que a família chinesa dessa cena está na Santa Efigênia

[01:11:08] porque era o estereótipo da época.

[01:11:10] É, e aí, tipo assim, só que é um acidente e tudo mais

[01:11:12] e a sociedade começa a pedir, né,

[01:11:14] clamar pelo sangue daqueles jovens

[01:11:16] e coisas do tipo, e aí acaba…

[01:11:18] Até parece que o brasileiro ia chorar por morte de imigrante.

[01:11:20] É, começa por aí, né, cara.

[01:11:22] Assim, o segundo ponto é que

[01:11:24] o…

[01:11:26] aí vai o policial lá, ele vai lá

[01:11:28] e eles vão lá e, né,

[01:11:30] e impedem os garotos de serem mortos,

[01:11:32] por outros bandidos, né,

[01:11:34] porque os bandidos queriam justiça, né.

[01:11:37] E aí…

[01:11:38] Mas eles… De novo, essa série não sabe

[01:11:40] o que ela acredita, porque esse é exatamente o ponto de vista

[01:11:42] dos policiais em todos os outros episódios, que é

[01:11:44] matar é justiça sim. Exato! Não, e calma,

[01:11:46] aí o delegado vai lá, né,

[01:11:48] salva os garotos, né,

[01:11:50] salva os meninos, né,

[01:11:52] que tinham cometido o crime.

[01:11:55] E aí, na hora que ele vai

[01:11:56] dar um discurso pra televisão,

[01:11:58] ele chega e fala assim, nós não podemos nos render

[01:12:00] ao fascismo, que é isso, de julgar

[01:12:02] as pessoas, de matar as pessoas sem nenhum

[01:12:04] tipo de julgamento, sei lá, ok, blá blá blá.

[01:12:07] Só que é isso que você mesmo falou.

[01:12:08] No episódio seguinte, eles vão lá e fazem isso, né.

[01:12:11] Eu acho… Eu… Desculpa,

[01:12:12] eu fui muito longe na análise de semiótica aqui

[01:12:14] na minha cabeça e eu vou ter que falar, então, até pra não perder

[01:12:16] a tradição da

[01:12:18] semiótica, gazanzeta.

[01:12:20] Que é o seguinte, o Horácio

[01:12:22] passa a série inteira com o cigarro apagado

[01:12:24] na boca, como a gente falou,

[01:12:26] e o grande

[01:12:27] comeuppance dele, ali no fim, é quando ele

[01:12:30] indiretamente mata,

[01:12:32] mata o vilão, que é o outro torturador,

[01:12:35] ex-parceiro dele lá,

[01:12:37] o cara se mata na frente

[01:12:38] dele e ele acende o cigarro.

[01:12:41] E aí eu entendo

[01:12:42] que a polícia é tipo

[01:12:44] o cigarro do Horácio nessa série.

[01:12:47] Você pode querer que esse cigarro nunca

[01:12:48] seja aceso, mas

[01:12:50] pra dar aquela tragada e ter

[01:12:52] aquele prazer, e pra você fazer o que precisa,

[01:12:55] você precisa se expor a esse câncer um pouco.

[01:12:57] Nossa, que horrível, cara.

[01:12:59] Né?

[01:13:00] Bom, Orlando, é isso, assim,

[01:13:02] acho que falamos o que a gente tinha pra falar

[01:13:04] de 9mm, né?

[01:13:06] Nos livramos desse peso de ter assistido

[01:13:08] essa série, pelo menos não foi em vão,

[01:13:10] né? Criamos um episódio podcast.

[01:13:12] E eu não sei se eu fico aliviado

[01:13:14] ou triste de que as pessoas não vão poder

[01:13:16] terminar de ouvir esse episódio e ir assistir a série.

[01:13:19] Mas eu acho que, tipo,

[01:13:20] não tem nada que você vai ver nessa série

[01:13:22] hoje que você não tá vendo todo dia no jornal,

[01:13:24] entendeu? Porque é isso, assim, a gente finalmente

[01:13:26] tá sendo confrontado,

[01:13:28] mesmo que involuntariamente, com a realidade

[01:13:30] dos muitos Horácios, Eduardo,

[01:13:32] dos Luísas, enfim,

[01:13:34] que existem no Brasil.

[01:13:36] Cara,

[01:13:37] essa série me fez ter

[01:13:39] uma elaboração maluca,

[01:13:42] do tipo, deve existir um círculo

[01:13:44] no inferno, onde você vive

[01:13:46] num mundo onde todo mundo é ator ruim.

[01:13:48] Porque me dava uma agonia absurda

[01:13:49] ver aquilo acontecendo,

[01:13:52] saca? Tipo… Cara, e é uma

[01:13:54] questão de que você não consegue nem saber,

[01:13:55] a maioria daqueles atores, eu não conheço o trabalho

[01:13:58] deles fora da série, e é tipo,

[01:13:59] não tem ator que fizesse bem, entendeu?

[01:14:02] Coisa que, aqueles atores estão atuando mal,

[01:14:04] eu não sei se eles são capazes de atuar melhor, mas assim,

[01:14:07] eles não tiveram as

[01:14:08] condições pra atuar muito melhor. Não, acho que

[01:14:10] provavelmente eles tiveram o roteiro na hora,

[01:14:12] e falaram assim, aí, dá teu jeito aí, cara,

[01:14:14] inclusive tem aquela cena, tem uma cena que

[01:14:16] provavelmente ficou, obviamente, que é o 3P

[01:14:18] com o filho lá do Horácio, né, tipo que

[01:14:20] o enteado, né.

[01:14:22] Você sabe o que a gente faz?

[01:14:24] É, não, que assim, que tu vê que o garoto, assim, botar ele assim,

[01:14:26] não, fica aí, cara, fica aí, ele vai falar uma parada pra você, assim,

[01:14:29] assim, ah, cara, tá os dois

[01:14:30] no sétimo, vamos formar uma cena aqui com os dois,

[01:14:32] saca? Tipo, que o garoto,

[01:14:34] o personagem do garoto não sabia,

[01:14:36] o ator não sabia o que fazia ali, cara,

[01:14:38] ficava muito claro, que ele tava assustado de verdade,

[01:14:40] o ator, saca?

[01:14:41] É terrível, é terrível, a gente viveu,

[01:14:44] a gente sobreviveu, tanto ao ano de 2008

[01:14:46] quanto a essa série,

[01:14:48] e talvez esse seja o último grande

[01:14:50] documento sobre ela, não sei se

[01:14:52] a Fox quer voltar a aproveitar

[01:14:54] esse backlog aí, se ele vai entrar

[01:14:56] no… A Fox tem um portal, né,

[01:14:58] pago de vídeo

[01:15:00] on demand e tal, não sei se vai parar lá,

[01:15:02] ahm, talvez a gente

[01:15:04] se em algum momento ela estiver

[01:15:06] disponível em algum outro lugar de novo, a gente avisa no

[01:15:08] Twitter, sei lá,

[01:15:09] pra você poder sofrer.

[01:15:11] A gente criou uma peça única

[01:15:14] na história do mundo, nesse momento, que é

[01:15:16] uma espécie de homenagem

[01:15:18] póstuma ao 9mm.

[01:15:21] Mas

[01:15:22] fico com medo de pesquisar

[01:15:24] naquelas databases de TCC

[01:15:26] se não teve, na época,

[01:15:28] gente escrevendo TCC sobre.

[01:15:30] Tanto na faculdade de direito quanto na faculdade

[01:15:32] de rádio, TV e cinema.

[01:15:34] A sociologia e a antropologia adoram também essas coisas, né, cara?

[01:15:37] Ah, sim. Mas é que o pessoal

[01:15:38] de antropologia normalmente se gaba

[01:15:40] de não ver TV a cabo, né?

[01:15:42] Eu ia falar exatamente isso, porque isso que eu não assisti na época.

[01:15:46] Eu conheço vocês.

[01:15:49] É como é que é? É clichê

[01:15:50] porque é verdade, saca?

[01:15:53] Exatamente.

[01:15:54] Muito obrigado, Orlando. Até semana que vem.

[01:15:56] E até semana que vem, você ouvinte!