#09 - Contágio e Epidemia


Resumo

O episódio faz uma análise crítica e comparativa dos filmes Contágio (2011), dirigido por Steven Soderbergh, e Epidemia (1995), estrelado por Dustin Hoffman. Os participantes discutem como essas narrativas cinematográficas moldam o imaginário social sobre pandemias, especialmente no contexto da Covid-19.

A conversa começa com uma avaliação do diretor Steven Soderbergh e do roteirista Scott Z. Burns, destacando a obsessão deles por criar filmes com aparência de documentário (docudrama) sem o rigor da pesquisa jornalística. Em seguida, os participantes desmontam as narrativas dos filmes, apontando problemas como o viés geopolítico racista (que coloca a origem das epidemias sempre em nações consideradas ‘subdesenvolvidas’), o subtexto machista (especialmente em Contágio, onde a infidelidade feminina é punida com a morte) e a construção de roteiros retalhados com múltiplos personagens sem desenvolvimento adequado.

Um ponto central da discussão é como Contágio, apesar de ser tecnicamente mais competente, apresenta uma visão problemática onde o governo norte-americano e os cientistas aparecem como heróis que salvam o dia, enquanto a população é retratada como irracional e propensa ao caos. Já Epidemia, considerado um filme pior tecnicamente e mais clichê, é avaliado como politicamente mais consciente por colocar o próprio governo norte-americano e sua paranoia geopolítica como a origem do problema.

Os participantes também exploram como esses filmes promovem uma visão individualista e heroica da ciência (com a cientista que testa a vacina em si mesma em Contágio) que obscurece as causas sistêmicas das pandemias, desviando a atenção de problemas como o capitalismo, a desigualdade e as relações coloniais. A discussão se expande para temas como ecofascismo, a responsabilização do indivíduo versus o sistema, e como o imaginário cinematográfico influencia a compreensão pública de crises reais de saúde.


Indicações

Filmes

  • Contágio (2011) — Filme dirigido por Steven Soderbergh sobre uma pandemia global. Criticado no episódio por seu viés geopolítico, subtexto machista e narrativa heroica que obscurece causas sistêmicas.
  • Epidemia (1995) — Filme estrelado por Dustin Hoffman e Morgan Freeman sobre um vírus mortal. Considerado tecnicamente pior que Contágio, mas politicamente mais consciente por colocar o governo americano como origem do problema.
  • O Desinformante (2009) — Filme de Soderbergh escrito por Scott Z. Burns, baseado em história real. Citado como um dos poucos filmes bons do diretor, uma comédia dramática estilosa.
  • The Report (2019) — Filme escrito e dirigido por Scott Z. Burns sobre o relatório da CIA sobre interrogatórios. Citado como exemplo da obsessão do roteirista por docudramas baseados em casos reais.
  • The Laundromat (2019) — Filme de Soderbergh sobre os Panama Papers. Citado como exemplo de filme estiloso que sofre do mesmo problema de querer ser documentário sem fazer pesquisa jornalística profunda.

Livros

  • The Hot Zone — Livro de não-ficção de Richard Preston sobre vírus como o ebola. Foi a base inspiradora, ainda que distante, para o filme Epidemia.

Pessoas

  • Enrico Malatesta — Anarquista italiano com formação médica que ajudou a combater uma epidemia de cólera em Nápoles em 1884. Citado como exemplo de alguém que rejeitou a narrativa do herói individual, focando nas causas sociais da epidemia.

Linha do Tempo

  • 00:02:42Introdução ao filme Contágio e contexto da pandemia — Os participantes apresentam o filme Contágio (2011) como um filme muito citado no início da pandemia de Covid-19 por sua suposta capacidade de prever eventos. Eles introduzem o diretor Steven Soderbergh e o roteirista Scott Z. Burns, iniciando uma crítica à filmografia de ambos e à obsessão por criar filmes com verossimilhança documental.
  • 00:06:48Crítica à filmografia de Steven Soderbergh — Inicia-se uma análise detalhada da carreira de Steven Soderbergh, citando filmes como Sexo, Mentiras e Videotape, Erin Brockovich, Traffic e Onze Homens e um Segredo. Os participantes discutem a percepção de Soderbergh como um diretor tecnicamente competente, mas que escolhe histórias problemáticas, operando dentro de um cinema hollywoodiano estiloso, mas não necessariamente cult ou inovador como alguns o consideram.
  • 00:11:16Análise da narrativa e problemas ideológicos de Contágio — Os participantes detalham a trama de Contágio, destacando três problemas centrais: o viés geopolítico racista (a origem do vírus vem de Hong Kong/Ásia), o subtexto machista (a personagem de Gwyneth Paltrow é punida por sua infidelidade) e os problemas de roteiro retalhado (como a introdução tardia de uma filha do personagem de Matt Damon). Eles começam a comparar com o filme Epidemia.
  • 00:18:44Comparação com Epidemia e a culpa do sistema — É estabelecida uma comparação direta entre Contágio e Epidemia. Enquanto em Contágio a origem do problema é natural (um vírus de morcego/porco) e o governo americano é o herói, em Epidemia a origem é o próprio governo americano, que acobertou testes de armas biológicas. Isso torna Epidemia, apesar de ser um filme considerado pior, mais politicamente consciente ao apontar para a responsabilidade sistêmica.
  • 00:24:51A narrativa do herói e a desresponsabilização sistêmica — A discussão se aprofunda na crítica à narrativa do ‘herói transformador’, presente em ambos os filmes, mas especialmente em Contágio com a cientista que testa a vacina em si mesma. Argumenta-se que essa narrativa desvia a atenção das causas reais e sistêmicas das pandemias (capitalismo, desigualdade, colonialismo) e cria uma complacência no público, que passa a esperar por soluções mágicas vindas de figuras heroicas, em vez de questionar o sistema.
  • 00:32:22Epidemias, colonialismo e a pobreza como sintoma — A conversa expande para uma análise geopolítica mais ampla, relacionando o surgimento de epidemias a condições de pobreza criadas por séculos de colonialismo e exploração. Usando o exemplo do continente africano e do ebola, os participantes argumentam que as narrativas cinematográficas e midiáticas tratam a pobreza como causa local, nunca conectando-a à responsabilidade histórica das nações colonizadoras, que são, na verdade, a causa raiz.
  • 00:47:30O caso de Enrico Malatesta e a rejeição do herói — É citado o caso histórico do anarquista Enrico Malatesta, que ajudou a combater uma epidemia de cólera em Nápoles em 1884 e depois rejeitou honrarias. Esse exemplo é usado para reforçar a crítica à narrativa do herói: Malatesta argumentava que a atenção deveria estar nos problemas sociais que causaram a epidemia, não nos indivíduos que a combateram. Isso se conecta à crítica dos filmes, que focam em salvações individuais e não em reformas sociais.
  • 00:52:17A heroína cientista e a falsa verossimilhança científica — Os participantes criticam especificamente a cena de Contágio em que a cientista (interpretada por Jennifer Ehle) injeta nela mesma a vacina experimental e, em seguida, visita o pai doente. Eles apontam a falta de rigor científico, o risco de ela se tornar um vetor e a mensagem problemática de que uma solução científica complexa pode ser alcançada através de um ato heroico e individual, desconsiderando o trabalho coletivo e as etapas metodológicas.
  • 01:05:46Representação da China e o sequestro da Marion Cotillard — É analisado o subplot do filme Contágio envolvendo a personagem da Marion Cotillard, uma agente da OMS sequestrada na China para trocar por vacinas. Os participantes criticam a representação estereotipada da China, a lógica falha do sequestro e a visão colonial implícita na cena em que ela, uma mulher branca, passa a ensinar crianças no vilarejo. Eles contrastam essa representação negativa com a resposta real da China à Covid-19.
  • 01:12:40Origem do filme Epidemia e a teoria do macaco totêmico — Os participantes voltam a falar de Epidemia, explicando que ele é baseado vagamente no livro de não-ficção The Hot Zone, mas se afasta da realidade para se tornar um filme catástrofe. É proposta uma ‘teoria totêmica’: filmes de pandemia com macacos (como Epidemia) tendem a ver o problema como mais interno e complexo, enquanto filmes com porcos/morcegos (como Contágio) externalizam a ameaça. A discussão termina com a citação da fala do Morgan Freeman em Epidemia que sintetiza a paranoia militar norte-americana.

Dados do Episódio

  • Podcast: Popcult
  • Autor: Atabaque Produções
  • Categoria: TV & Film Film Reviews
  • Publicado: 2020-07-28T08:30:16Z
  • Duração: 01:24:34

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] A festa de ofertas de primavera da Amazon está a chegar com ofertas incríveis.

[00:00:04] Para o Zé poder ir caçar ofertas e fugir das tarefas domésticas.

[00:00:10] Ele merece. É o momento ideal para poupar em granta, em eletrónica, ar livre, casa e muito mais.

[00:00:16] Cuidado, Zé! Volta ao trabalho!

[00:00:18] Só mais uma espreitadela rápida às ofertas da Amazon antes que…

[00:00:21] Uuuuh! Que grande oferta!

[00:00:24] Prepare-se para as ofertas de primavera da Amazon de 10 a 16 de março.

[00:00:27] Mais informações em Amazon.es

[00:00:30] No momento em que o mundo inteiro pensa no mesmo vírus e todos clamam pela salvação.

[00:00:52] Seja ela a imunidade de rebanho, seja a vacina, seja a cura pela cloroquina ou não.

[00:01:00] É… Achamos que era a hora perfeita para ver como que os filmes sobre doenças, catástrofes virais, virulentas e contagiosas

[00:01:11] formam o nosso pensamento de não só como lidar com essa situação, mas de quem irá nos defender.

[00:01:19] Será o Chapolin Colorado? Será que é Orlando Calheiros?

[00:01:23] Cara, eu acho que até esse momento, acho que essa foi a sua pior cabeça de episódio, cara.

[00:01:28] Hahaha!

[00:01:30] Eu concordo com você, Orlando, tudo bem?

[00:01:32] É, tudo bom, mas nada presta, né, cara? Tudo bom, mas nada presta.

[00:01:35] Mas sabe o que eu pensei agora, nesse momento que eu fiz o paralelo do Chapolin Colorado com você?

[00:01:40] A altura.

[00:01:41] Exato.

[00:01:42] A altura.

[00:01:43] Você podia, tipo assim, você… Já se vestiu de Chapolin no carnaval?

[00:01:48] Não, porque seria muito óbvio, tá ligado?

[00:01:50] Será que seria óbvio?

[00:01:51] É, é muito lugar comum, cara.

[00:01:53] Eu gosto de operar na base do oxymoro, saca?

[00:01:57] Então eu gosto de me vestir de coisas…

[00:02:00] Que eu não sou.

[00:02:01] Saca, assim?

[00:02:03] Então eu vou me vestir de coisas grandes, sei lá.

[00:02:06] Entendi.

[00:02:06] Você já…

[00:02:08] De girafa, talvez.

[00:02:10] Não, minha última fantasia de carnaval, inclusive se as pessoas procurarem, tem nas minhas redes sociais,

[00:02:14] eu me vesti de espírito imperialista norte-americano.

[00:02:17] Que, na verdade, na verdade, foi uma desculpa pra usar uma tiara maravilhosa na cabeça e sair maquiadíssima, assim, com…

[00:02:24] Com uns panos brilhosos e tal, saca?

[00:02:26] É bom ficar montada, né?

[00:02:28] Ah, pelo amor de Deus, né?

[00:02:30] Sim, maravilhoso.

[00:02:31] Se eu pudesse sair assim todo dia na rua.

[00:02:33] O primeiro filme que a gente vai levantar aqui foi um que, no começo da pandemia mundial de Covid-19,

[00:02:42] foi muito falado como, gente, vocês têm que ver esse filme, esse filme previu tudo, esse filme muito presciente, gente.

[00:02:48] Já começou errado, né?

[00:02:49] Exato.

[00:02:50] É, esse foi o filme Contágio, de 2011, dirigido pelo Steven Soderbergh e escrito pelo…

[00:03:00] Scott Z. Burns.

[00:03:03] E aí, aqui que eu quero dar um toquezinho, pra quem não conhece aí o Scott Z. Burns,

[00:03:11] ele escreveu o Ultimato Born, que é o segundo pior Born.

[00:03:15] Ele também escreveu o filme do Soderbergh que eu gosto, que é O Desinformante.

[00:03:19] Mas depois de Contágio, ele parece que se viciou…

[00:03:23] Peraí, eu só tenho um Born bom?

[00:03:25] Não, não, não.

[00:03:26] Tô fazendo conta aqui na minha cabeça, assim.

[00:03:28] Não, são quatro Borns.

[00:03:29] São quatro?

[00:03:30] Caraca.

[00:03:31] São quatro, são quatro.

[00:03:32] Eu acho que se pra o dois é pior que o três, não sei.

[00:03:35] O três é o Ultimato, esse aí.

[00:03:36] O pior de todos é o que eles fizeram que não tem o Matt Damon.

[00:03:39] Nossa, é o momento em que a franquia ficou ruim mesmo, né?

[00:03:43] Não, não só eles não têm, tipo, trocaram o protagonista, mas eles trocaram por aquele cara que faz o Gavião Arqueiro nos filmes da Marvel, tipo assim.

[00:03:51] É, esse cara é o Mark Dacascos dessa geração, né, cara?

[00:03:54] Todo mundo é o Mark Dacascos dessa geração pra você, né?

[00:03:56] Porque outro dia você me falou que o Jason Momoa era.

[00:03:59] O Jason Momoa.

[00:04:00] É, porque são heróis de ação genéricos, saca?

[00:04:03] Que eles aparecem quando os principais não podem fazer mais nada.

[00:04:07] Mas o Momoa, e digo, o Mark Dacascos também, tem um certo carisma que você entende porque alguém quer botar eles na frente de uma câmera.

[00:04:16] O Jeremy Renner não tem desculpa.

[00:04:18] Não, não tem, não tem.

[00:04:19] Você tá certo sobre isso.

[00:04:21] Mas então, o Desinformante de 2009, Contágio de 2011, e a partir daí, o Desinformante é baseado em uma história real, né?

[00:04:29] Contágio não, mas ele quer muito, enfim, né, ele é daqueles filmes que, tipo, onanisticamente admira a própria verossimilhança, sabe?

[00:04:40] Tipo, olha como esse filme é realista.

[00:04:41] A gente vai entrar nisso.

[00:04:43] Mas o negócio é que depois, ele, os filmes que ele escreveu, inclusive um que ele dirigiu, o The Report, que saiu em 2019,

[00:04:50] e The Laundromat, aquele do Netflix sobre o Panama Papers e tal, são todos filmes sobre casos reais, assim.

[00:04:56] Ele ficou viciado em fazer o famoso…

[00:04:59] Docudrama.

[00:05:00] O filme que dramatiza uma história real, e aí eu sinto que o Contágio é meio que o início desse fetiche.

[00:05:07] Porque o Desinformante é uma história real contada como se fosse uma comédia dramática muito estilosa, assim e tal.

[00:05:15] Acho que é um bom filme, inclusive.

[00:05:17] Mas o Contágio é muito, tipo, meu…

[00:05:20] É daqueles filmes que…

[00:05:22] Lembra o Massacre da Serra Elétrica, o primeiro?

[00:05:25] Uhum.

[00:05:26] Que o grande negócio é que ele começa com uma cartela dizendo que é baseado…

[00:05:29] E as pessoas saíram assustadíssimas achando que era verdade.

[00:05:34] Contágio podia ter feito esse mesmo truque.

[00:05:36] E todo mundo ia falar que é verdade.

[00:05:37] E, inclusive, a verossimilhança dá no mesmo plano, né?

[00:05:43] Ou seja, é completamente absurdo parecendo que é real, né?

[00:05:45] Na verdade, eu teria mais facilidade de imaginar o Massacre da Serra Elétrica como algo verossímil,

[00:05:50] que aconteceu no interior do Texas, assim, sei lá, o que dá de ódio, assim, do que o Contágio.

[00:05:56] Do que o mundo…

[00:05:57] Ah, não.

[00:05:58] E algo parecido com…

[00:05:59] Com o Massacre da Serra Elétrica deve ter acontecido várias vezes, né?

[00:06:02] É um país muito propício pra esse tipo de psicopatia.

[00:06:06] Sim, sim.

[00:06:07] Mas, assim, só vou deixar registrado uma coisa aqui, que é o meu completo…

[00:06:12] É…

[00:06:13] Eu sou…

[00:06:13] Eu acho que eu sou a pessoa…

[00:06:14] Eu faço aquele papel clichê dos podcasts, né?

[00:06:18] De ter a pessoa chata, né?

[00:06:19] Seu companheiro chato.

[00:06:20] Cara, eu acho que é uma vitória muito grande você estar num podcast comigo e você ser a pessoa chata.

[00:06:26] Tipo, em comparação, né?

[00:06:28] É de, assim, caralho.

[00:06:29] Assim, tipo…

[00:06:30] Que sorte que eu tive, que eu achei partido do podcast.

[00:06:33] Eu fico legal do lado do Orlando, né, cara?

[00:06:35] Exato.

[00:06:35] Eu, finalmente, não sou a pessoa chata do podcast.

[00:06:38] Mas, Orlando, pra quem não viu o Contágio…

[00:06:40] Não, meu…

[00:06:40] É, a primeira coisa que eu vou dizer é a seguinte, né?

[00:06:43] Eu vou contextualizar aqui.

[00:06:45] Eu acho o diretor uma fraude.

[00:06:48] O Soderbergh?

[00:06:49] Sim.

[00:06:50] Tá.

[00:06:51] Vamos…

[00:06:51] Vamos, pra contextualizar a fraude aqui, vamos tentar…

[00:06:54] Vamos pegar a lista de filmes dirigidos por ele, tá?

[00:06:58] Sexo, Mentira e Videoteca.

[00:06:59] De 89.

[00:07:01] Um filme que…

[00:07:04] Enfim…

[00:07:04] Eu gosto de todas as coisas que tem nesse título.

[00:07:07] É, mas juntas…

[00:07:09] Tipo assim…

[00:07:10] Olha, vou falar o seguinte.

[00:07:11] É propaganda enganosa, tá ligado?

[00:07:13] Propaganda enganosa, galera.

[00:07:15] Ele fez de 89 esse filme.

[00:07:17] Durante os anos 90, ele fez filmes de certo renome ali,

[00:07:20] mas ele estoura muito no ano 2000 com Aaron Brockovich,

[00:07:23] que levou vários Oscars e tudo mais, né?

[00:07:25] Foi um prestige movie, né?

[00:07:28] E…

[00:07:29] Em 2000 também ele faz…

[00:07:31] Outro filme legalista, né?

[00:07:32] Outro filme legalista.

[00:07:33] Extremamente legalista, né?

[00:07:35] Mas aí, o outro filme que ele fez no ano 2000,

[00:07:37] que eu não sei se você lembra que é dele,

[00:07:38] eu não lembrava antes de pesquisar por esse episódio,

[00:07:40] que aí vai cimentar ainda mais a sua raiva por ele,

[00:07:43] é que ele é o diretor de Traffic.

[00:07:47] Maravilhoso.

[00:07:47] Um filme que cimentou o approach hollywoodiano a

[00:07:51] tudo que acontece no México tem um filtro amarelo.

[00:07:54] Sim.

[00:07:56] Lembra desse filme?

[00:07:57] Lembro, lembro.

[00:07:57] Ele é o Crash desse filme.

[00:07:59] Do filme mais politicamente idiota a ganhar um Oscar.

[00:08:05] Aí, em 2001, ele fez o filme que, tipo,

[00:08:08] transformou ele num superstar,

[00:08:10] que é Onze Homens e um Segredo.

[00:08:13] Que também é um filme…

[00:08:14] Esse filme, inclusive, tem uma montagem muito parecida, né?

[00:08:17] Eu fiz quase um live reaction falando contigo, né?

[00:08:21] Sim, sim.

[00:08:22] Eu odeio filme com grande elenco,

[00:08:23] porque vira…

[00:08:24] Basicamente é Onze Homens e um Segredo.

[00:08:26] Na verdade, esse filme é Onze Homens e um…

[00:08:29] Um germe, né, cara?

[00:08:30] Só que a coisa mais legal do Onze Homens e um Segredo

[00:08:32] é aquela parte no terceiro ato

[00:08:34] onde o plano se desencadeia

[00:08:36] e todos estão agindo juntos, né?

[00:08:39] E esse momento nunca chega no contágio.

[00:08:41] Mas, assim, eu digo pra você, assim,

[00:08:43] eu gostei muito do ritmo do filme, assim.

[00:08:45] Eu acho que ele é um diretor tecnicamente muito competente.

[00:08:48] Ele só escolhe péssimas histórias pra contar.

[00:08:52] Não sei.

[00:08:53] É, talvez, né?

[00:08:54] Então, mas ele dirige videoclipe, então, né, cara?

[00:08:56] Vai dirigir videoclipe, porque…

[00:08:58] Não, ou vai dirigir…

[00:08:59] Tipo, Onze Homens e um Segredo, assim.

[00:09:00] Tipo, eu acho que Onze Homens e um Segredo

[00:09:01] faz tudo o que quer fazer e eu me diverti vendo.

[00:09:04] É, assim, porque, assim, na verdade,

[00:09:06] o meu problema com o Soderbergh

[00:09:07] e é um problema que eu tenho com vários diretores

[00:09:09] norte-americanos,

[00:09:12] é que é basicamente…

[00:09:14] É tipo assim,

[00:09:15] é a galera que fala…

[00:09:17] Vou fazer uma analogia meio louca,

[00:09:18] mas é a galera que acha que você dizer, assim,

[00:09:20] que o cara é ser contra o Bolsonaro,

[00:09:21] ele é antifascista, tá ligado?

[00:09:23] Então, assim…

[00:09:24] Sim, sim.

[00:09:24] O Soderbergh é o tipo de cara

[00:09:26] que, por ele não repetir os grandes clichês

[00:09:28] do cinema blockbuster,

[00:09:30] a galera acha que ele é um diretor cult,

[00:09:32] saca?

[00:09:33] Que é um termo babaquíssimo, né?

[00:09:35] O cult, diretor cult, sei lá o quê.

[00:09:37] Eu não sinto.

[00:09:37] Eu sinto que, especialmente com Onze Homens e um Segredo,

[00:09:39] ele mostra que ele é um diretor extremamente hollywoodiano,

[00:09:42] mas estiloso à sua própria maneira, assim.

[00:09:46] Ou seja, ele faz um filme de pipoca

[00:09:48] muito interessante de se ver.

[00:09:51] Inclusive, ele é que dirigiu o The Laundromat,

[00:09:54] esse filme do Netflix sobre os Panama Papers,

[00:09:56] lá com o…

[00:09:58] Antônio Bandeiras.

[00:09:59] E, assim, é um filme estilosamente muito interessante, assim.

[00:10:04] Mas ele sofre de um problema

[00:10:06] que aí vem dessa parceria dele com o Scott Z. Burns,

[00:10:09] que é o…

[00:10:10] Mamãe queria ser um documentário,

[00:10:12] mas só que eu não quero ter que fazer, tipo,

[00:10:13] pesquisa e jornalismo.

[00:10:15] E, ao mesmo tempo,

[00:10:17] aí ele fica, né, tipo, com uma narrativa

[00:10:19] que não é a 100% da narrativa de um filme,

[00:10:21] que não é tão interessante quanto a do Ocean’s Eleven,

[00:10:23] ou, por exemplo, um contágio

[00:10:24] que eles podem fazer ela do jeitinho que eles querem.

[00:10:28] Mas, e aí, eu preciso só fazer mais uma observação

[00:10:30] sobre a filmografia do Soderbergh

[00:10:32] antes da gente entrar no contágio,

[00:10:34] que é que ele dirigiu o Magic Mike.

[00:10:37] E eu gosto de Magic Mike, gosto,

[00:10:39] mas é que a continuação de Magic Mike,

[00:10:41] que ele não dirigiu,

[00:10:42] ele só fez a direção de fotografia com o pseudônimo,

[00:10:45] é muito melhor.

[00:10:47] Então, ou seja,

[00:10:49] se ele fosse diretor de fotografia de vários filmes,

[00:10:52] eu acho que estaria perfeito.

[00:10:53] Então, esse que eu acho que é um ponto, né,

[00:10:56] o…

[00:10:58] Mas tá aí outra coisa que é uma merda no contágio

[00:10:59] é a fotografia, né?

[00:11:02] Porque é uma fotografia extremamente naturalista,

[00:11:04] porque é essa vontade de ser muito verossímil,

[00:11:06] que aí, tipo,

[00:11:08] deixa o filme desinteressante, assim, esteticamente.

[00:11:10] É, eu acho que nem pro…

[00:11:12] Cara, eu acho que, assim, o contágio…

[00:11:13] Vamos lá, vamos falar pro público o que é o filme primeiro, né?

[00:11:16] Tipo, basicamente, o filme tenta replicar

[00:11:19] os efeitos de uma epidemia desconhecida, né?

[00:11:22] Obviamente, como todo bom filme, né,

[00:11:25] com muitas aspas aqui,

[00:11:26] filme de epidemia,

[00:11:28] epidemias feitos por norte-americanos,

[00:11:31] a origem da epidemia é sempre

[00:11:32] numa nação que eles consideram subdesenvolvida, né?

[00:11:36] Uma nação que, pela mera existência,

[00:11:37] lhes oferece algum perigo.

[00:11:39] Então, assim,

[00:11:40] todo filme de epidemia norte-americano

[00:11:41] tem um viés geopolítico claro,

[00:11:43] assim, do imaginário norte-americano.

[00:11:45] Ele sempre desenha nações perigosas,

[00:11:47] enfim, depois a gente ainda vai ver

[00:11:49] isso ficar mais claro com

[00:11:50] filmes como A Rocha, né, essas coisas.

[00:11:53] Cara, eu, assim, eu, na verdade,

[00:11:55] a gente vai ver mais isso, eu acho, ainda com epidemia.

[00:11:58] Porque eu assistindo a epidemia ontem,

[00:12:01] eu me deparei com uma verdade cruel,

[00:12:03] que é, contágio e epidemia

[00:12:05] são o mesmo filme,

[00:12:07] mas contágio é mais politicamente

[00:12:09] ciente dos problemas do que contágio.

[00:12:11] Epidemia.

[00:12:12] Epidemia é um filme mais politicamente consciente

[00:12:15] do que contágio. Sim, sim.

[00:12:17] O que é meio triste, porque a epidemia é um filme bem pior.

[00:12:19] Sim. E bem mais clichê.

[00:12:21] Mas tem mais macacos.

[00:12:23] Então, de novo, assim, essa sua obsessão

[00:12:25] por macacos no universo cinematográfico,

[00:12:27] eu acho,

[00:12:27] eu acho, hum,

[00:12:29] contraproducente. Porque os macacos não gostam de fazer filme.

[00:12:31] Eu digo esse planeta dos macacos.

[00:12:34] Tem uma trilogia aí que, tipo,

[00:12:35] tem zero macacos de verdade naquele filme.

[00:12:37] Daí, inclusive, deu caso no Procon.

[00:12:41] É que tem aquele pessoal do comentário do Choque de Cultura,

[00:12:43] obviamente são atores.

[00:12:46] Exatamente.

[00:12:47] Obviamente tem um macaco.

[00:12:48] Nenhum macaco do planeta dos macacos é um macaco de verdade.

[00:12:52] Isso aí, cadê a representatividade

[00:12:53] do macaco? Quantos macacos atores

[00:12:55] que trabalharam em epidemia

[00:12:57] estavam esperando um papel no planeta dos macacos

[00:12:59] de 2001, lá do Tim Burton, e não ganharam um papel?

[00:13:01] Pô, a porra, aquele ali foi…

[00:13:03] Mas, enfim. Caraca,

[00:13:05] que filme doente aquele.

[00:13:06] A gente ainda ia fazer um programa sobre o planeta dos macacos,

[00:13:09] mas vamos focar aqui na epidemia, no contágio.

[00:13:12] E aí, o que acontece? É um vírus

[00:13:13] que, obviamente, nessa atualização

[00:13:15] desse imaginário paranoico, sanitário

[00:13:17] norte-americano, vai imaginar

[00:13:19] a causa da doença vindo do exterior,

[00:13:21] porque é sempre bom

[00:13:23] ter, desenhar um mapa,

[00:13:25] né, sério, assim, pega esses

[00:13:27] para o nosso espectador. Quando você vê

[00:13:29] um filme que tem esse tipo de escopo,

[00:13:31] desenha um mapa, né,

[00:13:33] de onde vêm as ameaças.

[00:13:35] As ameaças, elas sempre vêm de fora,

[00:13:37] né, elas sempre vêm de fora do universo

[00:13:39] do personagem, né, daqueles que vão

[00:13:41] salvar o mundo. Então,

[00:13:43] esses filmes, eles desenham

[00:13:44] duas coisas, né. Primeiro, é o medo

[00:13:47] da…

[00:13:48] o medo amarelo, né, tipo, o medo

[00:13:51] daquilo que vem da Ásia,

[00:13:53] daquilo que vem, sei lá,

[00:13:55] daquilo que vai suplantar o próprio norte-americano,

[00:13:57] no futuro, né, tipo,

[00:13:58] no sentido geopolítico e tal.

[00:14:01] Então, basicamente, os Estados Unidos

[00:14:02] manifestam esse medo pelo medo de uma

[00:14:05] nossa, vai vir uma epidemia vindo da…

[00:14:07] acho que é de Hong Kong, né, nesse caso, o filme, né?

[00:14:09] É, nesse filme vem de…

[00:14:11] é Hong Kong ou é Macau?

[00:14:13] Agora eu não… Não, é Hong Kong, é Hong Kong.

[00:14:15] Hong Kong, que a mulher vai…

[00:14:17] Tem alguém que vai pra Macau.

[00:14:19] E aí, cara, e obviamente,

[00:14:21] a Gwyneth Paltrow…

[00:14:24] Não importa, essa mulher que tem

[00:14:25] uma revista de pseudociência hoje em dia.

[00:14:27] É, ela é… Aliás, fazer um parênteses,

[00:14:29] você sabia que

[00:14:31] há rumores de que ela tava tentando

[00:14:33] convencer a equipe editorial da Goop,

[00:14:35] que é essa revista horrorosa de pseudociência

[00:14:37] dela, a

[00:14:39] publicar uma dica de cura

[00:14:41] natural para o Covid?

[00:14:43] Não duvido.

[00:14:45] Não duvido, porque eu já tinha visto

[00:14:47] umas coisas bem doidas envolvendo ela

[00:14:49] no canal de YouTube dela, coisa assim.

[00:14:52] O… Então, assim,

[00:14:53] e ela vira o vetor, né,

[00:14:55] da pandemia,

[00:14:57] nos Estados Unidos, né? E ainda tem um

[00:14:59] discurso moralista para um

[00:15:01] cacete, né? Porque tem

[00:15:03] uma questão que ela… A grande infecção

[00:15:05] começa mesmo,

[00:15:07] se espalha, fica difícil de conter,

[00:15:09] porque ela é uma mulher infiel.

[00:15:12] Sim, porque ela faz uma escala

[00:15:13] em Chicago, na volta de Hong Kong,

[00:15:15] e aí ela transa com um cara que não é o homem dela.

[00:15:18] E é em Chicago que rola

[00:15:19] a grande epidemia. Isso.

[00:15:21] Então tem uma coisa do tipo, assim…

[00:15:22] Tem um subtexto

[00:15:25] de punição do desejo feminino

[00:15:27] ali, que também é fundamental. Então, ó,

[00:15:28] dois problemas bonitos. Primeiro, esse

[00:15:30] imaginário racista, né,

[00:15:33] geopolítico norte-americano se manifestando

[00:15:34] nesse medo, né, do outro,

[00:15:37] né, sempre. Segundo,

[00:15:38] esse subtexto,

[00:15:42] ainda que muito rápido,

[00:15:43] não é muito rápido não, porque ele fica voltando várias

[00:15:44] vezes nisso, várias vezes nisso, né?

[00:15:46] Na infidelidade dela. É um foco,

[00:15:48] porque ele tem um… É um foco de dispersão

[00:15:51] da doença, né? O encontro dela com

[00:15:53] um amante. E…

[00:15:54] E o terceiro… E o terceiro… E fica como o grande

[00:15:57] pecado nela, né? Tipo, uma das últimas cenas

[00:15:58] do filme é o Matt Damon, que faz o personagem

[00:16:01] do marido dela. Ele

[00:16:02] acha uma foto dela, assim,

[00:16:04] e aí é uma cena de uma

[00:16:06] tristeza ambígua, assim, de

[00:16:08] tipo, putz, por que que você foi fazer

[00:16:11] essa merda que matou você e todos nós?

[00:16:13] Matou teu filho?

[00:16:15] Matou seu filho, exato. Mas o filho, ele é

[00:16:17] muito escanteado, né? Ela… É tipo assim, ele vê

[00:16:19] fotos dela e ele nunca vê fotos do filho, né?

[00:16:20] É, porque ficou, assim,

[00:16:22] me parece que

[00:16:23] foi uma… É… Eu acho que o

[00:16:26] filho foi colocado… A morte do filho foi colocado

[00:16:29] no roteiro, numa última versão,

[00:16:31] saca? Sim. E aí tu vê

[00:16:32] que ele não aparece mesmo, ele é esquecido nas outras

[00:16:34] versões, por que, cara? É, porque é isso.

[00:16:36] E aí alguém total fez essa correção

[00:16:38] que é, ele não era o filho dele, ele é enteado.

[00:16:41] É. Lembra?

[00:16:43] Só que isso não é mencionado,

[00:16:44] isso é, tipo, mencionado no começo, assim,

[00:16:46] isso é mencionado ampassando o meio do filme.

[00:16:48] É, porque ele tinha de corpos.

[00:16:51] É, porque aí você…

[00:16:52] Porque aí é isso também. Outra coisa

[00:16:54] que claramente o roteiro foi muito

[00:16:56] retalhado perto da produção

[00:16:57] foi… É que, do nada, surge uma

[00:17:00] filha do Matt Damon com uma primeira

[00:17:02] esposa que a gente nunca vê, ela aparece sozinha

[00:17:04] no hospital e passa a viver com o Matt Damon.

[00:17:06] Sim. Caraca.

[00:17:08] Não, e aí vem o terceiro problema,

[00:17:10] né? Porque aí eu vou chegar.

[00:17:12] É… Ah, e peraí, gente,

[00:17:14] e aí aparece um namorado dessa filha, mas enfim.

[00:17:16] É, é isso, né?

[00:17:17] A filha não morava com ele, mas de repente tinha um namorado

[00:17:20] que tinha ali na região e tal, sei lá.

[00:17:22] Não, não, não, não. Eu ia fazer essa crítica,

[00:17:24] mas aí eu me lembrei que eles…

[00:17:26] citam, muito ano passado também, que

[00:17:28] estamos na holiday season,

[00:17:31] as pessoas estão de férias,

[00:17:32] e ela fala pro pai, não, eu moro

[00:17:34] aqui, eu não moro lá,

[00:17:36] porque ela tava na casa da mãe, né?

[00:17:38] E aí, tipo, meio que fica de um jeito que você pode entender

[00:17:40] que sim, real, beleza, você

[00:17:42] realmente mora aqui, você não tá falando isso como um ponto

[00:17:44] de, tipo, meu lugar é aqui, você tá dizendo

[00:17:46] realmente que você mora com seu pai, e não com

[00:17:48] a sua mãe, e que você tava lá só, tipo, meio que

[00:17:50] passando férias. Mas assim, sinceramente,

[00:17:52] grandes merda, né? Sim, não, assim,

[00:17:54] não torna essa história um pouco melhor.

[00:17:56] Menos, mais palatável, né? E aí,

[00:17:58] vamos lá, vamos, vamos, estamos desenhando

[00:18:00] aqui, né, ó, problemas de imaginário

[00:18:02] geopolítico racista, problemas

[00:18:04] machistas na construção do roteiro, fora

[00:18:06] esse problema de construção de roteiro mesmo retalhado,

[00:18:08] né? E… E, assim,

[00:18:10] vamos fazer o primeiro paralelo que eu preciso,

[00:18:12] porque eu já sinto que essa, se a gente for parar pra

[00:18:14] falar desse filme depois, lá, de

[00:18:16] epidemia, a gente vai

[00:18:18] passar 80 horas aqui.

[00:18:20] A primeira coisa que eu acho que

[00:18:22] mostra que epidemia é um filme pior,

[00:18:24] mas é politicamente mais

[00:18:26] consciente, é, no caso

[00:18:28] de contágio, é um

[00:18:30] vírus que veio de um morcego,

[00:18:33] passou

[00:18:34] pra um porco, e

[00:18:35] é isso, e aí foi pra um,

[00:18:37] o chefe lá preparou o porco,

[00:18:40] apertou a mão do chefe, e todo mundo

[00:18:42] morreu. Aí,

[00:18:44] na epidemia, o que aconteceu?

[00:18:46] Os Estados Unidos

[00:18:48] acobertaram, 30 anos atrás,

[00:18:50] um teste de

[00:18:52] arma biológica, criaram

[00:18:54] uma vacina secretamente pra

[00:18:56] esse vírus, e

[00:18:58] esconderam do mundo pra só os Estados Unidos

[00:19:00] terem o antídoto

[00:19:02] desse vírus, pra eles poderem usar

[00:19:04] como uma

[00:19:05] arma biológica, né?

[00:19:08] Então, no fim,

[00:19:10] o grande conflito

[00:19:12] do epidemia é o personagem do Dustin Hoffman

[00:19:14] indo contra o personagem do Morgan Freeman,

[00:19:17] que é responsável,

[00:19:18] né, parcialmente responsável por essa

[00:19:20] questão de acobertamento, e

[00:19:22] no final das contas é isso, assim,

[00:19:24] é um impulso

[00:19:25] bélico do

[00:19:27] governo americano, e

[00:19:30] a decisão do governo de, tipo, podemos matar

[00:19:32] pessoas é o problema, né? Porque, inclusive,

[00:19:34] o grande conflito do terceiro ato é o Dustin Hoffman

[00:19:36] conseguir impedir que ele simplesmente jogue uma

[00:19:38] bomba na cidade que tá com a epidemia,

[00:19:40] é uma cidade americana onde a epidemia

[00:19:42] tá se espalhando, e

[00:19:43] o filme

[00:19:46] interbota, o real vilão

[00:19:48] do epidemia é o governo americano,

[00:19:50] né, e que

[00:19:52] causa a morte de,

[00:19:54] de milhares de inocentes no filme

[00:19:56] é o governo americano, no contágio

[00:19:58] não, no contágio

[00:19:59] no contágio o governo americano é

[00:20:01] o herói que salva o dia, e a

[00:20:04] origem do problema é Deus,

[00:20:06] assim, é tipo, é isso, ah, o que você vai fazer?

[00:20:08] Um vírus surgiu e infectou um morcego, cara.

[00:20:10] Mais ou menos, também, não é

[00:20:12] Deus, não é Deus,

[00:20:14] é, tipo assim, a

[00:20:16] maneira como o gado,

[00:20:18] como os animais que são

[00:20:20] consumidos na Ásia, ou seja,

[00:20:22] o grande problema são as condições,

[00:20:24] né, da diegésia do filme,

[00:20:26] afirmo, né, porque a gente não está comprando

[00:20:28] essa tese, é

[00:20:29] a questão sanitária

[00:20:32] da, do, sei lá,

[00:20:34] das cidades asiáticas.

[00:20:36] E isso, sim, é

[00:20:38] uma verossimilhança do

[00:20:40] contágio com a atual realidade, né, porque assim,

[00:20:42] quem pode esquecer o quanto que a gente

[00:20:44] teve que ouvir sobre mercados

[00:20:46] a céu aberto, né, os wet markets

[00:20:48] serem a razão,

[00:20:50] tipo, até hoje, assim, eu

[00:20:52] infelizmente conheço idiotas

[00:20:54] não são meus amigos, mas

[00:20:55] quando você trabalha, você não escolhe com quem você

[00:20:57] com quem você senta na mesa.

[00:20:59] Exato, e que falam até hoje

[00:21:01] que, tipo, isso aí é que eles comem coisa nojenta

[00:21:04] lá na China.

[00:21:05] E aí, assim, e olha como a gente

[00:21:07] compra umas narrativas de

[00:21:09] gringo que não fazem a mínima

[00:21:11] não fazem o mínimo sentido pra um

[00:21:13] brasileiro, que é, que brasileiro

[00:21:16] pode comprar a narrativa

[00:21:18] do mercado a céu aberto

[00:21:20] é insalubre e é

[00:21:21] uma afronta humanitária

[00:21:24] e a civilização, quando você

[00:21:26] vai à feira.

[00:21:27] O que que é a feira? Como você acha que o americano vai falar

[00:21:29] da feira que você vai?

[00:21:31] O que que ele vai

[00:21:34] falar? Que é um wet market brasileiro

[00:21:36] é um mercado a céu aberto

[00:21:37] E a gente ainda vai fazer um

[00:21:39] outro podcast, você, quando

[00:21:42] você tomar vergonha nessa

[00:21:43] cara e assistir Aracnofobia, né

[00:21:46] que a gente vai falar sobre como

[00:21:47] justamente os americanos enxergam a

[00:21:49] América do Sul, né, mas

[00:21:51] o…

[00:21:53] A gente vai ter que ver a

[00:21:54] conda também. Com certeza

[00:21:56] mas a com certeza aí

[00:21:58] né, o…

[00:21:59] Mas então, é exatamente isso, né, então assim

[00:22:01] no filme, né, né, é justamente

[00:22:04] ele, que é um filme

[00:22:06] pseudo crítico com algumas coisas, muito

[00:22:08] pseudo, mas muito, muito, muito pseudo mesmo

[00:22:10] né, tipo do contágio

[00:22:12] ele compra totalmente esse senso

[00:22:14] comum racista de que o problema

[00:22:16] das epidemias do mundo

[00:22:17] está no, nas condições

[00:22:20] sanitárias, supostas condições

[00:22:22] sanitárias dos mercados

[00:22:24] chineses, da produção de alimentos

[00:22:26] chinesa e blá blá blá

[00:22:27] e aí dando origem a toda

[00:22:30] uma espécie de… dando

[00:22:31] voz a todo um ecofascismo, né

[00:22:33] muito em voga hoje em dia, que cada vez cresce

[00:22:36] mais, né, que inclusive

[00:22:38] você tem

[00:22:40] uma galera, por exemplo, que vai

[00:22:42] vai chegar e vai falar assim, não, o problema

[00:22:43] do… o problema da epidemia é

[00:22:45] o consumo de carne

[00:22:46] sim, a indústria da carne tem uma grande

[00:22:49] parcela de responsabilidade, mas assim

[00:22:51] não é das pessoas que estão consumindo carne, saca?

[00:22:54] o problema não são as pessoas, o problema é como a gente

[00:22:56] desenhou uma indústria em cima disso

[00:22:57] o problema é como o capitalismo desenhou uma indústria em cima disso

[00:23:00] o problema não é dos chineses, como os chineses abatem porcos

[00:23:02] não, e assim, e o capitalismo

[00:23:04] faz isso o tempo

[00:23:06] inteiro, que é jogar

[00:23:08] pro indivíduo

[00:23:10] que é

[00:23:11] no final das contas, a vítima de um problema

[00:23:14] sistêmico, a culpa, entendeu?

[00:23:16] que é, ah, se tem

[00:23:18] aquecimento global, é porque você não usou

[00:23:20] uma eco bag, né, se

[00:23:21] tá faltando água, é porque você tomou

[00:23:24] um banho longo demais

[00:23:25] se você

[00:23:27] acha que o agronegócio é um problema

[00:23:30] você que não coma carne, né

[00:23:32] é tudo assim, ah, se essa empresa aí

[00:23:34] tem

[00:23:36] crianças fazendo tênis, você que ande descalço

[00:23:38] e tudo pode ser resolvido

[00:23:40] pelo consumidor, o consumidor tem todo o poder

[00:23:42] que não é verdade, né, que se fosse verdade

[00:23:44] eles trabalhariam muito rápido pra tirar

[00:23:46] esse poder da mão do consumidor, e de novo

[00:23:48] o simples fato desse discurso

[00:23:50] existir, é que mesmo se você não compra ele

[00:23:52] se você se engaja nessa

[00:23:54] conversa, você assume seu

[00:23:56] papel como consumidor e não como

[00:23:57] trabalhador. É só deixar claro

[00:24:00] aqui, né, porque a gente também

[00:24:02] não tá advogando uma abordagem cínica

[00:24:04] do mundo, né, já que eu não tenho responsabilidade

[00:24:05] você tem responsabilidade, fim, agora você

[00:24:08] não é a causa, né, você

[00:24:09] e nem você é a solução

[00:24:11] por si só. É, usar eco bag

[00:24:14] é importante, mudar os hábitos alimentares é importante

[00:24:16] galerinha, tô fazendo isso com joinha aqui, vocês não

[00:24:17] tão vendo, né, mas tipo, o

[00:24:19] ponto é que quando esses filmes

[00:24:21] eles se concentram única e exclusivamente na responsabilidade

[00:24:24] da culpa individual, nem na responsabilidade

[00:24:26] na culpa, e isso aí

[00:24:27] fica… É, eles existem

[00:24:30] pra não mencionar, e aí ao

[00:24:32] não mencionar, apagar

[00:24:33] a culpa muito maior

[00:24:36] que existe em cima de um sistema, assim, né, de quem

[00:24:38] realmente tomou as decisões e de quem

[00:24:40] toma essas decisões na escala grande

[00:24:41] o suficiente pra ter o impacto que tem, né. É, então

[00:24:44] esse que é um ponto importante, né, porque assim, por exemplo

[00:24:45] no terceiro ato do filme, né, do

[00:24:47] já que a gente tá falando tanto de terceiros atos aqui

[00:24:49] o… no Contágio

[00:24:51] o terceiro ato é

[00:24:54] com a galera… começam os riots

[00:24:56] né, cara, tipo assim… Sim

[00:24:57] a galera cai no conto de uma… de uma

[00:25:00] de uma…

[00:25:02] de uma cloroquina local, não lembro qual era o nome

[00:25:04] que o personagem do Judy Law, é um desses

[00:25:06] comunicadores de extrema direita, assim, sei lá

[00:25:08] desse paranoia… Sim, é um… ele é tipo

[00:25:10] ele é tipo… cara, ele é meio que tipo

[00:25:12] o nosso Bolsonaro, porque ele fica tomando

[00:25:14] é um remédio homeopático que ele diz que cura

[00:25:16] o contágio, do filme Contágio

[00:25:18] e ele

[00:25:20] fica postando na internet, falando, ó, eu tava doente

[00:25:22] agora eu tô bem, aí no final é tipo, não, você nem

[00:25:24] tava com esse vírus, você só teve uma febre

[00:25:26] é…

[00:25:27] e aí, e as pessoas enlouquecem

[00:25:30] atrás dele, e aí, eu acho

[00:25:32] que puxa um ponto do… que

[00:25:34] se as pessoas quiserem expandir, elas podem ouvir

[00:25:36] o nosso episódio sobre o Poço e a Indomável

[00:25:38] Sonhadora, que é, a gente

[00:25:40] tem agora, assim, esse filme

[00:25:42] envelheceu muito mal, porque a gente tá passando por

[00:25:44] uma situação muito realmente análoga

[00:25:46] a que o filme quer retratar

[00:25:48] o problema é que é o seguinte, a gente já viu

[00:25:50] que, o que causa

[00:25:51] é… é…

[00:25:54] protestos e violência e caos

[00:25:55] não é, a gente tá em…

[00:25:57] a gente tá numa situação

[00:25:59] periculosa dessa, assim

[00:26:01] as pessoas não saíram destruindo

[00:26:04] umas às outras, porque a gente tava

[00:26:06] passando por uma epidemia

[00:26:08] uma pandemia mundial

[00:26:09] os grandes protestos que tomaram

[00:26:11] conta das ruas no mundo inteiro

[00:26:13] nos últimos meses, foram por causa da violência policial

[00:26:16] foram por solidariedade

[00:26:17] das pessoas umas com as outras

[00:26:19] a gente não vira

[00:26:22] esse caos muito louco só porque

[00:26:24] a gente tá em perigo, e a gente vira esse sociopata

[00:26:26] americano que é o Matt Damon

[00:26:27] que vê o vizinho ser saqueado

[00:26:30] e aí aproveita pra entrar na casa pra roubar

[00:26:31] a arma do vizinho

[00:26:32] esse que é um ponto que é fundamental

[00:26:35] porque

[00:26:36] nesses filmes, justamente

[00:26:40] o…

[00:26:42] quando eles culpabilizam os indivíduos

[00:26:44] ao culpabilizar os indivíduos

[00:26:45] por, olha só, se você não tiver

[00:26:47] um governo assim

[00:26:49] ou um tipo de dominação assado

[00:26:51] vai dar merda, porque os indivíduos

[00:26:53] fazem merda, então, por exemplo, uma das coisas que eles

[00:26:55] adoram fazer lá nesse filme, inclusive

[00:26:57] é, porque agora parece que tá liberado

[00:27:00] na indústria norte-americana, ser racista com

[00:27:01] chinês, né, enfim, você vai

[00:27:03] qualquer filme de comédia

[00:27:05] ficção científica que cita

[00:27:07] chineses, obviamente

[00:27:09] eles são os novos soviéticos

[00:27:11] dos filmes, né, impressionante, assim

[00:27:13] a não ser que seja uma grande produção

[00:27:15] hollywoodiana bancada por dinheiro chinês, que agora tem

[00:27:17] cada vez mais

[00:27:18] e aí, tipo, o…

[00:27:21] porque o governo chinês

[00:27:23] ele é representado como

[00:27:24] completo incapaz de tomar decisões

[00:27:28] razoáveis sobre as coisas

[00:27:30] e sei lá o que, e por isso

[00:27:31] a população age daquela maneira, né

[00:27:34] tem uma hora que eles falam das redes sanitárias

[00:27:36] nos lugares, tipo

[00:27:37] só que aí tu vai pros Estados Unidos

[00:27:39] quando chega nos Estados Unidos a população começa a fazer os riots

[00:27:41] ou começa a se lançar

[00:27:44] numa

[00:27:44] jornada

[00:27:46] louca, né, tipo, ah, esse remédio

[00:27:49] milagroso e tudo mais, e aí os

[00:27:51] personagens razoáveis do filme

[00:27:53] são quem? São as figuras de poder, né

[00:27:55] são os médicos, são os generais

[00:27:58] é o governo norte-americano, né

[00:28:00] que ainda que muitas vezes

[00:28:01] tem uma relação meio do tipo, não, olha só

[00:28:04] de repente a gente pode

[00:28:05] tá gastando muito dinheiro com isso, mas sei lá o que

[00:28:08] mas ainda assim eles tem uma atuação técnica

[00:28:09] né, aí você tem uma falácia

[00:28:12] da existência do Estado

[00:28:14] enquanto uma tecnologia

[00:28:16] necessária para a

[00:28:18] contenção da própria humanidade

[00:28:19] então assim, a responsabilidade da pandemia

[00:28:22] não é

[00:28:23] é dos hábitos

[00:28:26] higiênicos de uma população

[00:28:28] que não tem um governo decente

[00:28:30] uma população que não tem um sistema

[00:28:32] de governo apropriado, uma população que não tem

[00:28:34] a nossa educação, e a nossa população também

[00:28:36] quando ela começa a entrar nessas, a gente vai dar um jeito

[00:28:38] porque nós somos o governo técnico

[00:28:40] né, eles são os gerentes heróis do filme

[00:28:42] e aí quando a gente vai ver, por exemplo, a pandemia

[00:28:44] no mundo em que a gente tá

[00:28:46] hoje em dia, a gente vai ver que justamente o grande problema

[00:28:49] começa nas ações governamentais

[00:28:51] né. Pois é, e assim

[00:28:52] o mais louco desse filme é que aí a gente tem um personagem

[00:28:54] do Lawrence Fishburne, que trabalha no

[00:28:56] Center for Disease Control

[00:28:58] e aí ele

[00:29:00] é um dos

[00:29:01] principais heróis, talvez o principal herói

[00:29:04] do filme, sendo que aí

[00:29:06] o que que torna ele o

[00:29:08] grande herói? É que ele vai contra as regras

[00:29:11] sim. Ele burla o sistema

[00:29:12] né, ele no final

[00:29:14] do filme finge que ele tomou a vacina

[00:29:16] só pra dar a vacina pro filho do faxineiro

[00:29:19] né, ele

[00:29:20] ele revela… Esse é um da cena

[00:29:22] a gente falou

[00:29:24] daquela cena do Nolan, né, lá

[00:29:26] no episódio super interestelado, o cara que vira

[00:29:28] astronauta, né, do nada, assim

[00:29:30] esse filme, essa

[00:29:32] essa cena, esse apego dele

[00:29:34] com o filho do faxineiro

[00:29:36] se enquadra, vamos criar a categoria aqui

[00:29:38] astronauta do Nolan, tá ligado?

[00:29:40] Não, mas assim, e claramente

[00:29:42] o que que é isso? Retalho de roteiro

[00:29:44] porque tem uma cena com

[00:29:46] o faxineiro

[00:29:48] basicamente, no começo do filme

[00:29:50] que claramente

[00:29:52] só existe porque alguém escreveu a cena

[00:29:54] do filho do faxineiro no fim

[00:29:56] e falou, bom, essa cena só pode existir

[00:29:58] se a gente também fizer uma no começo

[00:30:00] pra estabelecer, né, a gente tem que

[00:30:02] dar o foreshadowingzinho aqui

[00:30:04] a gente tem que estabelecer o

[00:30:06] o faxineiro como

[00:30:08] um personagem pra depois ele poder dizer

[00:30:10] que ouviu o cara no telefone e aí

[00:30:12] ele se redimir no fim, dando

[00:30:14] a injeção do filho, mas claramente assim, tipo, uma cena escrita

[00:30:16] aos 30 minutos

[00:30:18] do segundo tempo

[00:30:19] e que não gera nada, né, porque basicamente é o

[00:30:22] faxineiro pedindo uma indicação de um médico

[00:30:24] pro filho que

[00:30:25] nunca é resolvida, porque ele quer um psiquiatra

[00:30:28] pra ver se o filho tem déficit de atenção, né

[00:30:31] pra ver se o filho realmente tem déficit de atenção

[00:30:34] é isso, e assim, né

[00:30:35] e olha só

[00:30:37] é pra

[00:30:38] seria pra gente ver como o filme mostra

[00:30:42] esse ato de dar a vacina

[00:30:44] que seria pro Laurence Fishburne

[00:30:45] pro filho como algo heróico

[00:30:47] se o Laurence Fishburne estivesse sacrificando algo

[00:30:50] mas um, fica muito

[00:30:52] evidente de que, ah, vai haver vacina pra todo mundo

[00:30:54] eles vão demorar um ano pra dar vacina pra todo mundo

[00:30:56] mas vai ter, e dois

[00:30:58] a gente tem que aceitar como super

[00:31:00] normal que as autoridades como ele

[00:31:02] recebam a vacina antes

[00:31:03] e três, a mulher dele

[00:31:06] ainda assim recebe a vacina, então tipo assim

[00:31:08] tudo bem, né cara, se todo mundo

[00:31:10] vai estar inoculado, menos ele

[00:31:12] ele provavelmente não vai ser exposto ao vírus

[00:31:14] logo, ele não vai estar correndo difícil

[00:31:16] de ser infectado, então o ato

[00:31:18] dele dar a vacina dele pro filho nem é

[00:31:20] tão heróico assim, não é nada

[00:31:22] é tipo assim, um cara que é milionário

[00:31:24] dá cem reais pra alguém na rua, saca

[00:31:26] mas o Jeff Bezos, todo dia no Twitter

[00:31:28] tem alguém batendo palma quando ele doa, tipo

[00:31:30] o que seria pra ele dez centavos pra alguma

[00:31:32] coisa, que estaria muito melhor se

[00:31:34] por exemplo, ele pagasse impostos

[00:31:36] e a empresa dele também, né, tipo, se os funcionários

[00:31:38] dele não tivessem que receber subsídios

[00:31:41] do governo e morar num carro

[00:31:42] porque ele não paga direito das pessoas

[00:31:44] cara, mas assim

[00:31:46] tem uma, e esse que eu acho que é um ponto que é

[00:31:48] essencial, né, que você falou

[00:31:50] da epidemia, a epidemia é justamente

[00:31:52] o governo norte-americano e a sua

[00:31:54] paranoia, né, geopolítica

[00:31:56] é colocada como

[00:31:58] o centro do

[00:32:00] problema, né, o problema é

[00:32:02] a origem do problema é justamente

[00:32:04] a paranoia, a geopolítica norte-americana

[00:32:06] vamos colocar assim, né, e essa, toda essa

[00:32:08] ideia de que, não, temos

[00:32:10] que continuar sendo o país mais poderoso, então

[00:32:12] já, agora a nova onda são armas biológicas

[00:32:14] não é mais poderio nuclear

[00:32:16] e tudo mais

[00:32:17] nesse, esse tipo de pensamento

[00:32:21] é importante porque

[00:32:22] é

[00:32:22] , quando a gente vai olhar pra

[00:32:24] porque é muito, é muito

[00:32:25] é muito, é muito importante

[00:32:28] quando a gente vai olhar pra um problema, tipo uma pandemia

[00:32:30] né, no, quando você

[00:32:32] consegue identificar

[00:32:34] que a origem dela, apesar dela ser

[00:32:36] um micróbio, pode sim

[00:32:38] ser remetido, a origem de fusão

[00:32:40] enfim, podem sim ser

[00:32:42] remetidos a uma responsabilidade

[00:32:45] né, do nosso modelo

[00:32:46] de gestão de pessoas

[00:32:47] modelo estatal, democracia

[00:32:50] regime capitalista, enfim, porque tudo

[00:32:52] isso no fim é um modelo de gestão de pessoas

[00:32:54] né, quando, se a gente consegue

[00:32:56] identificar a responsabilidade que o

[00:32:58] modelo tem nisso, já é um

[00:33:00] avanço, por isso que eu acho que é muito importante você falar

[00:33:02] que o Epidemia, apesar de ser um filme pior

[00:33:04] o que eu não concordo, porque tem macacos

[00:33:06] né, ele, ele é um filme

[00:33:08] politicamente muito mais consciente, porque ele

[00:33:10] consegue entender, ainda que desse jeito muito

[00:33:12] fantasioso, de que

[00:33:14] as epidemias do mundo

[00:33:16] elas tem uma relação direta

[00:33:18] né, com justamente

[00:33:20] esse modelo estatal

[00:33:22] paranoico, dominador

[00:33:24] opressivo, sei lá

[00:33:26] das civilizações euro-americanas

[00:33:28] atuais, né, e isso

[00:33:30] inclusive se reflete, por exemplo

[00:33:32] na emergência de pandemias

[00:33:34] né, sei lá, na África subsaariana

[00:33:36] porque

[00:33:37] é uma coisa muito louca, né, as pessoas

[00:33:39] falam, ebola na África, né, porque na década

[00:33:42] de 90, tu era mais novo nessa época, você estava

[00:33:44] nascendo, mas na década de 90

[00:33:46] eu cheguei a pegar, acho que

[00:33:48] um fim de um surto de cólera aqui no Rio de Janeiro

[00:33:50] e depois veio o

[00:33:52] medo do ebola, né, o mundo ficou com medo do ebola

[00:33:54] e aí, cara, então

[00:33:56] toda essa paranoia que se tinha com

[00:33:58] que hoje se tem com

[00:34:00] chineses e asiáticos em geral, se tinha

[00:34:02] com os africanos, mais uma, né, pra variar

[00:34:04] né, tipo, e

[00:34:06] se dizia, e se falava muito

[00:34:08] eu lembro disso claramente, assim

[00:34:09] se falava muito sobre a pobreza na África

[00:34:12] nossa, a África é um continente

[00:34:14] pobre, nossa, e era uma coisa

[00:34:16] tipo assim, uma África, continente de tantas

[00:34:18] riquezas, mas com tanta pobreza, um continente de

[00:34:20] contrastes, né, porque a África também tem essa

[00:34:22] coisa de racismo, de tratar a África como um

[00:34:24] todo, sempre, quase um país, né

[00:34:26] o, os caras

[00:34:28] só que esse discurso sobre a pobreza

[00:34:30] na África, que se

[00:34:32] torna um celeiro pra um

[00:34:34] tipo de eclosão de pandemia

[00:34:36] nunca se

[00:34:37] para pra pensar sobre a causa dessa

[00:34:40] pobreza, né, a causa da pobreza

[00:34:42] é sempre local, nunca se para pra pensar, é, então

[00:34:44] olha só, talvez as nações europeias

[00:34:46] as nações euro-americanas, talvez

[00:34:47] o nosso estilo de vida seja o que está causando

[00:34:50] por conta de todas as relações coloniais que nós

[00:34:52] estabelecemos ao longo dos últimos três séculos

[00:34:54] seja o que está causando a

[00:34:55] pobreza naquele lugar, logo, a origem da

[00:34:58] pandemia, somos nós, não eles

[00:35:00] saca, lá é o sintoma, nós somos

[00:35:02] a causa. Essa, essa

[00:35:03] o continente africano, ele é

[00:35:06] um símbolo muito grande de como

[00:35:08] a gente não é

[00:35:10] educado e

[00:35:11] isso eu digo não só na questão

[00:35:14] escolar, mas assim, como que a mídia

[00:35:16] trata as coisas, como que a verdade ao nosso

[00:35:18] redor é reforçada, pra pensar

[00:35:20] numa questão histórica, e isso

[00:35:22] me lembra sempre, quando a gente está falando

[00:35:24] desse assunto, de uma piada muito ruim

[00:35:26] do Sam Kinison

[00:35:28] que era um comediante stand-up nos anos

[00:35:30] 80, começo dos anos 90, que

[00:35:32] ele está falando desses comerciais

[00:35:34] pedindo doação pra levar comida

[00:35:36] pra um certo país africano e tal

[00:35:37] e ele fala revoltado assim, por que você não se

[00:35:40] muda pra onde a comida está? E aí assim

[00:35:42] vamos ignorar as políticas migratórias

[00:35:44] de imigração dos Estados Unidos, né

[00:35:45] mas assim, ué

[00:35:47] você acha que os americanos têm comida porque é lá que

[00:35:50] tem comida? Porque assim, 80%

[00:35:52] quase, assim, a grande

[00:35:54] a maior parte do território americano

[00:35:55] é um food desert, né, não cresce comida

[00:35:57] você só tem comida porque os aviões levam comida

[00:36:00] até você, né, por uma grande

[00:36:02] você acha que Las Vegas teria alguma

[00:36:04] comida? Se você fosse

[00:36:06] só uma questão de mora onde a comida está

[00:36:08] você acha que você teria

[00:36:10] grande, a questão é, é tudo

[00:36:12] econômico, assim, é quem

[00:36:13] colonizou quem e por que que você

[00:36:16] pode ter direito a morar num lugar

[00:36:18] né, na Europa, nos Estados Unidos

[00:36:20] onde nada cresce, mas você tem

[00:36:22] tudo, e por que que você pode estar

[00:36:24] num continente que grande parte

[00:36:26] dele é tropical, é muito

[00:36:28] cheio de uma riqueza

[00:36:30] de fauna e flora, mas

[00:36:31] não tem uma riqueza

[00:36:33] de dinheiro, né, porque

[00:36:35] pra onde será que foi esse dinheiro, né, cara?

[00:36:37] Pra onde será que ele continua indo?

[00:36:39] É, porra, eu não sei, o pessoal perdeu, o pessoal

[00:36:41] é muito desorganizado lá, o pessoal deixa cair muita moeda dentro do sofá

[00:36:44] A gente vai fazer, a gente vai fazer

[00:36:45] todo um programa aqui sobre, vamos

[00:36:48] falar sobre, por exemplo

[00:36:49] o que que foram, o que que foram as guerras

[00:36:52] civis pós-coloniais, né, no continente

[00:36:54] africano, a, a, por que que

[00:36:56] por que que muitas delas aconteceram, né

[00:36:58] mas esse é um ponto que eu acho que é

[00:37:00] importante, porque assim

[00:37:01] o, hoje

[00:37:03] Semana passada a França ainda tava começando

[00:37:06] a devolver certas, certas

[00:37:08] coisas pra, pra Gélia, né

[00:37:10] e que agora

[00:37:12] é, eu não sei que país que começou

[00:37:14] a conversar sobre talvez reparações

[00:37:16] serem pagas, né? A gente vai ter que fazer

[00:37:18] quer ver um episódio bom que a gente vai fazer? Vamos prometer

[00:37:20] aqui pro ouvinte, e eu tô prometendo ao vivo

[00:37:22] pra você se ferrar depois de ter que ver os filmes

[00:37:24] A gente vai fazer um filme sobre museus

[00:37:26] sobre a múmia, por exemplo

[00:37:28] e vamos falar sobre como

[00:37:30] todo esse imaginário, né, do arqueólogo

[00:37:32] Indiana Jones, por exemplo, como Indiana Jones

[00:37:33] é basicamente

[00:37:35] o auge da máquina colonial racista

[00:37:38] euro-americana, vamos falar disso, né

[00:37:40] É a melhor cena

[00:37:41] do Pantera Negra, né

[00:37:43] Ah, sim! A cena do Killmonger no

[00:37:46] no museu

[00:37:48] Isso aqui foi roubado, né?

[00:37:49] Tipo, isso aqui foi matado

[00:37:51] É, tipo, ah, eu vou levar!

[00:37:52] Tipo, não estava vendo, mas como assim a venda?

[00:37:54] Como você acha que os seus antepassados trouxeram isso pra cá?

[00:37:56] Eles compraram?

[00:37:58] Então, esse

[00:37:59] que é um ponto que eu acho que é

[00:38:02] importante, né? Porque assim

[00:38:04] esse que eu acho que é a questão

[00:38:06] do problema do

[00:38:07] contágio versus pandemia, né?

[00:38:10] No contágio…

[00:38:11] Epidemia, enfim, vai ter

[00:38:14] uma continuação, mas pandemia…

[00:38:16] Agora é a hora!

[00:38:17] Vamos trazer o Dustin Hoffman de volta!

[00:38:19] É, cara!

[00:38:20] E graças a Deus o personagem do Kevin Spacey

[00:38:23] morreu no filme, né? Então você nem tem esse problema

[00:38:26] Pois é, né? E o macaco

[00:38:27] provavelmente também, você vai comemorar isso, né?

[00:38:29] Por causa da idade

[00:38:30] E não, eu queria só corrigir uma injustiça aqui, quem tá ouvindo sem ter visto o filme

[00:38:33] não sabe, mas tem

[00:38:35] pelo menos um macaco em contágio

[00:38:37] É, tem

[00:38:38] Mas é um macaco de borracha, não é um macaco vivo

[00:38:41] A gente só vê o macaco depois de morto

[00:38:42] Não, mas tem um macaco vivo, assim, no finalzinho

[00:38:44] Tem um macaco vivo?

[00:38:44] Tem, porque ainda tem toda aquela coisa da heroína, né?

[00:38:47] Que vai criar a vacina, assim, injetada com a vacina

[00:38:50] Pariu, meu irmão! A gente ainda tem que chegar nisso

[00:38:53] É, porque tem toda uma…

[00:38:54] Antes de a gente chegar nisso, porque

[00:38:56] vamos só terminar, fechar esse ponto aqui da geopolítica, né?

[00:38:59] Porque depois a gente vai pra essa coisa do

[00:39:00] indivíduo transformador, porque é aquilo

[00:39:02] É, então assim

[00:39:04] Quando o filme, por exemplo

[00:39:06] o contágio, ele isola

[00:39:08] o problema numa coisa que tá

[00:39:10] O problema do contágio

[00:39:12] é o problema das chamadas democracias

[00:39:15] liberais modernas, né?

[00:39:17] Basicamente, eles vão

[00:39:18] compreender, vão desenhar

[00:39:20] que o povo, o populacho

[00:39:22] as massas, elas são atravessadas por

[00:39:24] paixões, e por isso são incapazes de tomar

[00:39:26] decisões racionais, por isso era necessário

[00:39:28] que você crie um sistema governamental

[00:39:31] no qual você vai produzir

[00:39:32] indivíduos razoáveis

[00:39:34] que vão ser capazes de

[00:39:36] fazer essa gestão de maneira

[00:39:38] eficiente. Essa é a grande fantasia

[00:39:40] do capitalismo liberal, das democracias

[00:39:43] liberais ocidentais dos últimos dois séculos

[00:39:45] basicamente, né?

[00:39:47] Tanto que

[00:39:48] isso é fundamental

[00:39:51] esse tipo de pensamento é fundamental

[00:39:52] e mesmo hoje, né? Quando

[00:39:54] você vê que, na verdade, o grande problema

[00:39:57] é o problema da gestão

[00:39:59] né? Por exemplo, aqui no Brasil, nos Estados Unidos

[00:40:01] na Índia, que tá acontecendo agora também com a pandemia

[00:40:03] porque isso é fundamental

[00:40:05] porque ele não distribui

[00:40:07] a responsabilidade do problema

[00:40:10] né? Ao longo

[00:40:11] dessa cadeia e fala assim, não, o problema

[00:40:13] não é o vírus, né? Se a gente não

[00:40:15] tivesse assistido de vida, o vírus

[00:40:17] tá lá, óbvio, o vírus

[00:40:18] ele é perigoso, né? Ele não é

[00:40:21] uma coisa assim, porque, principalmente

[00:40:23] no filme, no Contágio, tem

[00:40:25] um monte de cena de caras falando

[00:40:26] como é que se fala em inglês, aquele mumbo-jumbo

[00:40:29] como é que é?

[00:40:30] É, a parada científica

[00:40:33] assim, os jargões científicos

[00:40:35] que são pro público não entender

[00:40:36] só pra dizer, as pessoas são inteligentes, ok?

[00:40:39] É mumbo-jumbo que se fala?

[00:40:41] É, é um tipo, é, mumbo-jumbo

[00:40:43] é uma expressão

[00:40:44] É, uma expressão racista, inclusive, né? Pra falar

[00:40:47] de o…

[00:40:48] O ponto é que

[00:40:50] todo aquele vocabulário

[00:40:52] tenta de duas maneiras, isolar

[00:40:55] o problema da epidemia como um problema

[00:40:57] extremamente científico

[00:40:59] ou seja, temos uma bactéria que é

[00:41:01] sinistra, essa bactéria

[00:41:03] é a pica das galáxias, então a gente

[00:41:05] tá fazendo de tudo, e esse é um grande problema

[00:41:07] e o outro problema é que as massas

[00:41:09] apaixonadas não sabem lidar com isso

[00:41:11] né? Mas nós, os estados

[00:41:13] sabemos, nós cientistas somos

[00:41:15] pessoas de poder e…

[00:41:16] E por que o quê? Porque nós não temos a

[00:41:18] racionalidade acima da paixão

[00:41:20] Isso, isso. É, esse

[00:41:23] esse tipo de discurso impede que a gente realmente

[00:41:25] veja, distribua

[00:41:27] a responsabilidade do problema ao longo

[00:41:28] do nosso estilo de vida, porque, por exemplo, se a gente for pensar no COVID

[00:41:30] cara, o que tá doente

[00:41:33] é o nosso estilo de vida, o que

[00:41:35] o COVID se espalha pelo nosso estilo de vida

[00:41:36] pelo nosso tipo de habitação cidadina, aglomerada

[00:41:39] pelos regimes capitalistas

[00:41:41] saca? Tipo assim, eu não tô fazendo propaganda do comunismo

[00:41:43] tô fazendo, tipo, cara, assim

[00:41:44] a maneira como, por exemplo, você tem que

[00:41:46] abrir o comércio, porque

[00:41:48] senão as pessoas vão morrer de fome e

[00:41:50] expô-las ao risco, né? E sacrificar

[00:41:53] pessoas pra isso, né?

[00:41:54] É um sintoma de que o nosso sistema

[00:41:57] está sacrificando pessoas pra um vírus

[00:41:58] aumentando o contágio em nome de

[00:42:00] sua própria reprodução, o lucro

[00:42:02] daquelas pessoas, sei lá, do Jeff Bezos

[00:42:04] do Elon Musk, enfim. Sim, e assim

[00:42:06] que a pessoa tem que se

[00:42:08] expor ao risco pra ir trabalhar no supermercado

[00:42:11] pra eu poder comprar

[00:42:12] comida confortável aqui

[00:42:14] pra eu poder sair, comprar uma comida e ficar dentro da minha casa

[00:42:16] ou mandar um entregador de app lá

[00:42:18] comprar comida pra eu não me expor, mas aquela pessoa precisa

[00:42:20] se expor porque se ela não se expõe, ela não recebe

[00:42:22] esse dinheiro, ela não vai ter comida, assim

[00:42:24] o Estado, essa figura

[00:42:26] que é tão digna

[00:42:29] de respeito, diz assim

[00:42:30] olha, se você não for trabalhar pra ganhar um dinheiro

[00:42:32] eu lavo minhas mãos, entendeu? No máximo

[00:42:35] 600 reais uma vez aí

[00:42:36] e tal, depois a gente vê se tem mais 300 aqui

[00:42:39] É, no contágio, inclusive, o Estado

[00:42:40] como bom americano, né? Ele pouco

[00:42:42] se fode, as pessoas tão passando fome fazendo

[00:42:44] riot, ele lá, é, vamos aqui, doendo

[00:42:46] Pouco se fode naquelas, né? Porque

[00:42:48] ninguém explica a mecânica

[00:42:50] econômica, política, pela qual

[00:42:53] eles tão distribuindo vacina de graça

[00:42:55] no final do filme, né? Algo que os Estados Unidos

[00:42:57] tendem a não fazer, quer dizer

[00:42:58] eles distribuíram vacinas de graça

[00:43:01] uma outra vez que eu me lembro, você pode

[00:43:02] procurar aí Tuskegee Experiments

[00:43:04] no Google, pra que

[00:43:06] o governo americano já usou vacinas

[00:43:09] que ele decidiu bancar, né?

[00:43:10] Não, tem outro caso bom de vacinas

[00:43:12] americanas, que é quando eles estavam

[00:43:14] procurando o Bin Laden, inclusive isso aparece naquele filme

[00:43:17] Zero Dark Thirty, que

[00:43:18] eles usaram uma

[00:43:20] falsa campanha de vacinação

[00:43:22] contra, não vou

[00:43:24] lembrar o que que era, mas é uma

[00:43:26] é uma vacina que você tem que tomar três vezes

[00:43:29] e eles estavam tentando achar

[00:43:31] umas pessoas ligadas ao Bin Laden e tal

[00:43:32] pra chegar no Bin Laden, e eles

[00:43:34] fazem essa operação

[00:43:36] de vacina, só que

[00:43:38] como eles só queriam achar as informações, eles só deram a primeira rodada

[00:43:40] das vacinas pras pessoas e sumiram

[00:43:42] então isso criou um

[00:43:44] ceticismo muito grande na região

[00:43:46] com campanhas de vacinação e campanhas

[00:43:48] de saúde pública em geral, e

[00:43:50] bota em risco os trabalhadores

[00:43:52] da saúde que vão, né?

[00:43:54] pra ali, pro Afeganistão

[00:43:57] pra esses lugares, porque

[00:43:58] você agora sabe que esse é um

[00:44:00] disfarce que a CIA usa, né?

[00:44:02] Cara, na verdade, isso é clássico

[00:44:04] são operações a CISO, esse tipo

[00:44:06] de estratégia foi muito utilizado

[00:44:08] inclusive aqui no Brasil, na contenção da Guerrilha do Araguaia

[00:44:10] né, pra você fazer

[00:44:12] operações de inteligência

[00:44:14] disfarçada

[00:44:16] os Estados Unidos usam isso muito no Vietnã

[00:44:18] os brasileiros aprenderam isso na sua formação

[00:44:20] na Escola das Américas, aqui tem informação

[00:44:23] Rogerinho

[00:44:23] Cara, eu ainda vou terminar

[00:44:25] terminar não, mas eu quero vender muito, eu tenho um projeto

[00:44:28] que eu escrevi uma vez, que é uma sitcom

[00:44:30] que se passa na Escola das Américas

[00:44:32] todos os personagens são tipo wannabe ditadores

[00:44:35] de diferentes países

[00:44:36] e tal. Pô, isso é bom, hein?

[00:44:38] Me chama pra ser consultor

[00:44:40] pra fazer tipo um The Office

[00:44:42] do imperialismo americano

[00:44:44] Nossa, mas enfim, mas então, esse que é um ponto

[00:44:46] que eu acho que é importante, né?

[00:44:48] Porque, né, você falou das vacinas

[00:44:50] e tudo mais, mas o meu ponto aqui

[00:44:53] antes da gente passar por essa coisa

[00:44:54] do herói cientista, né, é justamente

[00:44:57] como a gente não percebe que na verdade

[00:44:58] a verdadeira doença é o próprio

[00:45:00] sistema, né, que é ele que passa

[00:45:03] que permite que esse tipo

[00:45:05] de coisa aconteça. Eu vou citar um caso

[00:45:07] aqui, é o momento da pregação anarquista do

[00:45:08] Orlandinho, né, em julho de

[00:45:10] 1884, uma epidemia

[00:45:13] de cólera chegou

[00:45:15] na França, né, tipo

[00:45:16] e essa epidemia

[00:45:18] rapidamente se alastrou

[00:45:20] rapidamente se alastrou ali pela Europa

[00:45:22] inteira. Um

[00:45:24] anarquista chamado Enrico

[00:45:26] Malatesta, um anarquista bem

[00:45:28] famosinho, que tinha uma

[00:45:30] formação médica, né, se juntou com

[00:45:32] um monte de outros anarcos

[00:45:34] e socialistas da época e

[00:45:36] formaram grandes frentes

[00:45:38] de combate

[00:45:39] à pandemia porque

[00:45:42] o governo de Nápoles

[00:45:44] não tava fazendo, de Nápoles não tava fazendo o que tinha que fazer

[00:45:46] né, tipo, e aí

[00:45:48] o cara, o Malatesta e um monte

[00:45:50] desses, um monte desses caras que foram lá

[00:45:52] fazer esse combate à pandemia

[00:45:54] de cólera morreram, enfim, contaminados

[00:45:55] o ponto é que no final, quando a coisa foi

[00:45:58] meio controlada, esses caras foram meio que

[00:46:00] exaltados como heróis, né, do processo

[00:46:02] e eles chegaram e falaram assim, o Malatesta inclusive

[00:46:04] renegou, renegou

[00:46:05] não quero medalha de honra ao médico, porra

[00:46:08] nenhuma não, pega isso aí, enfim

[00:46:09] porque

[00:46:11] duas coisas, a primeira das coisas ele falou assim, cara

[00:46:14] isso aqui que a gente conteve foi

[00:46:16] só um sintoma de um problema maior, a verdadeira

[00:46:18] doença é a própria sociedade

[00:46:19] só vamos curar a mesma doença quando tiver uma

[00:46:22] reforma social, porque o que

[00:46:23] promoveu a expansão

[00:46:26] da cólera

[00:46:27] foi a pobreza local, e essa

[00:46:29] mais do que isso, porque essa pobreza local

[00:46:31] ligada a toda uma máquina colonial

[00:46:33] europeia, porque

[00:46:35] tem toda uma relação direta com as

[00:46:38] operações francesas feitas no Egito

[00:46:40] anos antes, né

[00:46:41] no surto de cólera causado pela

[00:46:44] intervenção francesa no Egito, ou seja

[00:46:45] você confinou as populações ali, teve

[00:46:48] cólera, os soldados trouxeram

[00:46:50] a doença pra Europa e a

[00:46:51] doença chegou até, sei lá

[00:46:53] as partes mais pobres de Nápoles

[00:46:56] então o Malateste e outros percebiam

[00:46:58] que o problema todo era justamente esse sistema

[00:47:00] colonial capitalista, mercantilista, enfim

[00:47:02] o outro ponto é que quando ele

[00:47:04] nega, e aí a gente vai chegar no

[00:47:06] cientista herói e fala assim, cara

[00:47:08] em vez de vocês ficarem olhando pra quem são os heróis

[00:47:10] da situação, quem fez algum, teve algum papel proeminente

[00:47:12] o fundamental é olhar pros problemas

[00:47:14] que causaram isso, né

[00:47:16] quando você elege heróis e cria esse

[00:47:18] discurso do herói transformador, nós só sobrevivemos

[00:47:20] por causa desses caras, sei lá o que

[00:47:21] você afasta o seu olhar

[00:47:24] né, pra aquilo que realmente

[00:47:26] causou o problema, e aí vamos entrar no caso

[00:47:28] da heroína cientista, vai lá guys

[00:47:30] vamos lá, eu quis inclusive

[00:47:32] dizer aquilo que eu falei antes da gente começar a gravar

[00:47:34] que isso se amarra com esses episódios que a gente

[00:47:36] fez anteriormente sobre a polícia, né

[00:47:38] o retrato da polícia, que é

[00:47:40] basicamente essa filosofia

[00:47:42] de melhor remediar do que

[00:47:44] prevenir, né, é tipo, vamos

[00:47:46] saudar quem veio aqui

[00:47:48] e resolveu a situação depois que a merda

[00:47:50] já tava feita, e nunca vamos tentar prevenir

[00:47:52] a merda, nem tentar mudar um sistema

[00:47:54] que repetidamente nos leva a estar

[00:47:56] na merda, então a gente tem

[00:47:58] essa personagem, eu fiquei incrédulo, porque eu digo

[00:48:00] eu vou admitir aqui, eu não

[00:48:02] tô aqui pra fazer uma falsa imagem da minha pessoa

[00:48:04] eu tava gostando desse filme até um certo ponto

[00:48:06] do Contagem, e aí

[00:48:08] isso quando aconteceu, eu comecei a

[00:48:10] repensar tudo que tava acontecendo

[00:48:12] na minha vida, a gente tem

[00:48:14] uma personagem que é um dos cientistas

[00:48:15] na verdade, o filme ele é muito

[00:48:18] profundo, desculpa, eu tô pensando assim

[00:48:20] você falou, comecei a repensar tudo que tá acontecendo na minha vida

[00:48:22] eu imagino você chegando na sala com a Jade

[00:48:24] sentando boladão, eu falo assim, cara

[00:48:25] não sei o que tá acontecendo comigo não, não sei, não tô com

[00:48:28] certeza, sim, não, é, exato, foi pra muito além

[00:48:30] do filme, foi, peraí, mas

[00:48:32] como que eu me deixei chegar num momento em que eu me

[00:48:34] deixei ser enganado por esse

[00:48:36] farsante, tudo é falso

[00:48:38] tudo é falso, tudo é falso

[00:48:40] aí o

[00:48:41] não, mas é sério, inclusive

[00:48:44] eu achava que eu gostava do Soderbergh, até comecei a

[00:48:46] conversar com você e percebi que tinha um filme

[00:48:48] dele que eu gostava, cara, é, isso aí, foi o que

[00:48:50] até que eu te falei, né, cara

[00:48:52] um filme bom não é o suficiente

[00:48:54] é que uma noite é mortórrida, né

[00:48:56] não é suficiente pra você ter um relacionamento de longa

[00:48:58] duração saudável, cara, exato, não, não

[00:49:00] e assim, um diretor que já fez tanto filme

[00:49:02] e um é bom é porque é acidente, é, exato, e esse filme

[00:49:04] bom é o desinformante, mas enfim, o que eu ia dizer

[00:49:06] é, o filme, agora que eu

[00:49:08] ia falar da heroína, eu preciso chegar num outro problema

[00:49:10] que eu percebi agora pensando, que é

[00:49:12] o filme tem 25 heróis

[00:49:14] porque claramente ele é um roteiro ruim

[00:49:16] e você, e é

[00:49:18] isso, assim, quem o filme tenta elevar

[00:49:20] como virtuoso e heróico

[00:49:21] ele não faz, assim, tem a personagem

[00:49:24] da Kate Winslet, que

[00:49:25] ele sacrifica pra fazer um ponto

[00:49:28] que eu não sei qual é

[00:49:29] mas enfim, ela não tem um arco

[00:49:32] realmente, ela, tipo, começa a trabalhar naquilo, mas

[00:49:34] é uma perda, ela existe no roteiro

[00:49:36] não tanto como uma personagem, mas como

[00:49:38] um marcador de, ei, os stakes

[00:49:40] são altos, hein, todo mundo pode morrer

[00:49:41] mas ninguém mais vai morrer, fica tranquilo

[00:49:43] e aí tem

[00:49:46] o Lawrence Fishburne, o Lawrence Fishburne é outro

[00:49:48] outro pseudo-herói

[00:49:49] e aí nós temos

[00:49:50] nenhum momento, nenhum momento, o herói sem risco

[00:49:53] e exato, e a grande

[00:49:55] regra que ele quebra, que vira o peso no final

[00:49:57] do filme, é de que ele passa

[00:50:00] informações confidenciais pra mulher dele

[00:50:01] meio que mal, e ela não entende muito

[00:50:04] e ela não consegue escapar

[00:50:05] da cidade de qualquer jeito, então

[00:50:06] mas é isso, assim, ele passa informações

[00:50:09] confidenciais pra ela, que faz com que vaze a informação

[00:50:11] de que Chicago vai

[00:50:14] ser sitiada

[00:50:15] aí a gente tem

[00:50:18] rapidinho, só uma coisa

[00:50:19] mais uma vez, o roteiro cai

[00:50:21] numa misoginia

[00:50:23] né, porque ele cai na ideia da mulher

[00:50:25] fofoqueira, da mulher

[00:50:28] que é incapaz de, sabe, porque o cara

[00:50:30] deu uma informação séria, e ela tava assustada

[00:50:31] então ela vai, passa a informação pra amiga

[00:50:33] ele, ele homem, foi racional

[00:50:36] ela, foi passional

[00:50:37] e contou pra amiga

[00:50:38] e aí nós temos um outro herói, que é

[00:50:42] um pesquisador de um laboratório privado

[00:50:44] que quebra as regras

[00:50:46] de que, tipo, você não tem

[00:50:48] laboratório seguro o suficiente pra lidar com esse vírus

[00:50:50] a gente tá dizendo pra interromper

[00:50:52] só a pesquisa, porque agora só laboratórios

[00:50:54] nível 4 podem lidar

[00:50:56] com esse vírus, e o seu é nível 3

[00:50:58] só que, e aí ele, não, mas eu estou pesquisando

[00:51:00] esse vírus há muito tempo, não sei o que

[00:51:02] e aí ele, quando ele tem

[00:51:04] que destruir as amostras

[00:51:06] do vírus que ele tem, ele faz

[00:51:08] um último experimento e tal

[00:51:10] e aí ele, ao invés de usar

[00:51:12] essa pesquisa pra empresa dele e tudo mais

[00:51:14] ele passa pro governo

[00:51:16] os resultados da pesquisa, que é

[00:51:17] avançam a possibilidade

[00:51:20] de haver uma vacina, né?

[00:51:21] rapidinho, momento astronauta do Nola

[00:51:23] momento astronauta do Nola

[00:51:26] porque isso aí faz tanto sentido

[00:51:28] sei lá, quanto eu virar um unicórnio

[00:51:30] e sair voando agora nesse momento

[00:51:31] isso nunca vai acontecer na história do mundo

[00:51:33] nunca vai acontecer

[00:51:34] você quebra as regras porque você acha que vai fazer um trabalho melhor do que o governo

[00:51:37] mas você faz só o primeiro passo e aí larga na mão dele

[00:51:40] tá bom pra mim, já vou

[00:51:41] afinal você tem que chegar em casa na hora de jantar

[00:51:44] e aí o

[00:51:45] a gente sabe como pesquisar

[00:51:47] as pesquisas de

[00:51:49] empresas privadas, especialmente

[00:51:52] as americanas, muito benevolentes

[00:51:53] eles não querem patentes, eles não querem

[00:51:55] não é, não é isso que acontece

[00:51:57] na verdade a gente tá vendo inclusive vários casos em que

[00:52:00] os Estados Unidos, o governo subsidiou

[00:52:02] totalmente o custo de pesquisas e depois

[00:52:04] por causa de contratos horríveis, a patente

[00:52:06] fica 100% na mão de empresas privadas

[00:52:07] e aí o governo tem que pagar milhões de dólares

[00:52:09] pra adquirir as drogas que ele subsidiou

[00:52:12] a pesquisa, mas enfim

[00:52:13] aí mais um herói que a gente tem, mais uma heroína

[00:52:15] no caso, é ela, a

[00:52:17] médica que tá trabalhando do lado do governo

[00:52:19] por uma vacina

[00:52:21] e aí do nada

[00:52:23] meu amigo, ela vai e

[00:52:25] ela chega numa vacina

[00:52:27] que parece promissora

[00:52:30] mas ela precisa ser testada ainda, né

[00:52:31] porque é assim que as coisas funcionam

[00:52:33] e aí ela injeta nela mesma

[00:52:35] a vacina, ok, pra descobrir

[00:52:37] se dá certo, vamos ignorar

[00:52:40] o fato de que ao fazer isso, existe um risco

[00:52:41] muito alto de que ela se torne um vetor de contaminação

[00:52:43] porque se você não sabe se o vírus vai ficar

[00:52:45] inerte em você, você pode virar um

[00:52:47] um, né, um

[00:52:49] um potencial

[00:52:51] infectador, e aí ela vai visitar

[00:52:54] o pai que já está muito doente no hospital

[00:52:56] infectado por esse vírus do contágio

[00:52:58] e o pai é um herói também?

[00:53:00] o pai é um herói também, porque foi o pai

[00:53:01] que inspirou ela a ser

[00:53:03] ele ficou lá sozinho, lutando, médico

[00:53:05] ajudando as pessoas

[00:53:06] ele era um médico que estava atendendo as pessoas

[00:53:09] deixa eu só terminar

[00:53:10] tem uma coisa muito importante aí

[00:53:13] que aí eu vou ser o cara chato que vem pedir verossimilhança

[00:53:15] mas a gente já estabeleceu que nesse filme

[00:53:17] ele é que criou esse salto pra ele

[00:53:20] ele é que cria o fato de que

[00:53:22] eu quero ser verossimilhante, algo que

[00:53:23] a própria epidemia não faz, mas é o seguinte

[00:53:26] ela injeta a vacina nela mesma

[00:53:28] e imediatamente vai visitar o pai

[00:53:30] não importa que vacina é essa

[00:53:32] você não estaria imune

[00:53:34] vai dar um rolê

[00:53:35] não faz sentido nenhum

[00:53:37] não faz sentido, todo método científico ali não faz sentido, né

[00:53:39] não, ela joga fora o método científico, basicamente

[00:53:41] é dela, né

[00:53:43] e aí o que eu achei que ia acontecer

[00:53:45] ela ia ficar doente, ia morrer

[00:53:47] cara, eu tive certeza disso, eu torci muito

[00:53:48] mas não, esse é o fim do filme

[00:53:50] é daí que vem a grande salvação

[00:53:52] é que essa mulher decidiu ser uma grande heroína

[00:53:55] e se sacrificar e injetar nela mesma

[00:53:56] e pá, resolveu o problema de todo mundo

[00:53:59] vencemos, tipo

[00:54:00] em que momento, assim, se o filme quer ser

[00:54:02] verossimilhante, em que momento que o resultado

[00:54:04] dessa pesquisa é válido pra você produzir uma vacina

[00:54:07] como que as coisas teriam ido

[00:54:09] dela injetar na própria coxa o bagulho

[00:54:10] e daqui a pouco você tá injetando essa vacina no nariz

[00:54:12] de todos os americanos

[00:54:13] não, vamos lá, olha só

[00:54:15] é

[00:54:17] antes de entrar nisso

[00:54:18] você falou dessa coisa do herói médico

[00:54:20] mas o filme ele tem um plot

[00:54:22] que ele fica um tempo falando mal

[00:54:24] das greves, dos funcionários

[00:54:26] da saúde, que a galera tá com medo

[00:54:28] porque não tem proteção

[00:54:30] não tem nada, e os filmes que assim, não, porque os caras

[00:54:32] não querem mais trabalhar, meu Deus

[00:54:34] que absurdo, esses caras não querem trabalhar

[00:54:36] se expor à morte, sabe

[00:54:37] foi exatamente isso que aconteceu, né

[00:54:40] a gente tá vendo como os profissionais de saúde no mundo inteiro

[00:54:42] se recusam a trabalhar e ajudar as pessoas, né

[00:54:44] pois é, né, né, cara, tipo assim

[00:54:47] eles são uns frescos que não querem trabalhar

[00:54:49] ó, nossa

[00:54:49] e o que a gente tá vendo é que, na verdade, a parte que o filme previu

[00:54:53] honestamente é, realmente, falta EPI

[00:54:55] falta equipamento, falta amparo, falta infraestrutura

[00:54:57] pra todos esses trabalhadores da saúde

[00:54:59] e a galera tá lá

[00:55:00] mas só que a galera tá lá, exato

[00:55:02] é medo, né, cara, só o médico, o herói

[00:55:06] não, o filme ele tem

[00:55:07] como muita coisa americana

[00:55:09] ele tem um ranço

[00:55:10] no retrogosto ali de Ayn Rand

[00:55:13] de objetivismo

[00:55:14] de enxergar o ser humano como

[00:55:17] essencialmente egoísta

[00:55:17] e, cara, é aquilo que a gente tava falando

[00:55:20] mais uma vez, Nolan versus

[00:55:22] o Michael Bay, né, cara

[00:55:24] esse é um filme democrata

[00:55:27] né, que os caras

[00:55:28] são legais até

[00:55:30] a primeira vírgula, né

[00:55:32] então, assim, não, uma coisa mais

[00:55:34] um governo científico e sei lá o que

[00:55:36] mas as greves são, não são, pô, mas também

[00:55:38] nesse momento você vai fazer greve, pô, greve é legal

[00:55:40] mas nesse momento, poxa, pelo amor de Deus

[00:55:42] vocês tão morrendo, saca

[00:55:44] mas aí tem um, vamos voltar aqui

[00:55:45] o único momento que o americano neoliberal

[00:55:47] ele cita o bem coletivo é quando é pra impedir uma greve

[00:55:51] é, exatamente

[00:55:51] não, é a mesma coisa aqui também, né

[00:55:54] o pensamento neoliberal brasileiro

[00:55:55] de quando fecha alguma avenida pra protestar

[00:55:59] e fala assim, tudo bem protestar

[00:56:00] mas aí você vai me, vai fazer eu pegar trânsito

[00:56:02] não, sem quebrar nada

[00:56:04] sem violência

[00:56:05] mas vambora, cara, assim, primeiro de tudo

[00:56:08] é verdade, sem contar que é isso

[00:56:10] como a gente falou, tem riots, tem manifestações

[00:56:12] e assim, tem uma cena muito dramática

[00:56:15] assim que

[00:56:15] a gente passa mais tempo no filme

[00:56:18] sendo induzido a chorar

[00:56:19] pelo saque de um supermercado

[00:56:21] do que pela morte da Kate Winslet

[00:56:22] verdade, é, verdade

[00:56:25] o filme, ele passa mais tempo ali

[00:56:27] mostrando o supermercado sendo saqueado

[00:56:29] como, tipo, caralho

[00:56:30] o quão longe nós caímos, né

[00:56:33] o quão, né, estamos no fundo do poço

[00:56:35] e é tipo, a Kate Winslet morre

[00:56:37] assim, nem metade do tempo, é tipo, olha só

[00:56:39] eu nem tinha sacado que ela tinha morrido, tá ligado?

[00:56:42] eu achei que ela tava com frio

[00:56:43] ela tava, não, ela tava com frio

[00:56:45] é que aí, tipo, eles cortam muito rápido

[00:56:47] pra ela sendo enterrada num

[00:56:49] numa cova

[00:56:51] coletiva

[00:56:52] ah, é porque eu provavelmente tava reclamando contigo no Telegram nessa hora

[00:56:55] é, deve ter sido isso

[00:56:56] é, cara, mas assim, o

[00:56:58] eu acho que a primeira coisa antes de começar esse ponto

[00:57:01] quero mandar um abraço, né

[00:57:03] pra nossa ouvinte Marcela, que foi a que sugeriu

[00:57:05] essa pauta, revoltada

[00:57:07] cara, o, porque é um ponto

[00:57:09] que ela mandou, e eu acho que esse é um ponto fundamental

[00:57:11] né, de que esses filmes

[00:57:13] fazem todo um desserviço

[00:57:15] um desserviço imenso

[00:57:17] e sobretudo em tempos como este

[00:57:19] né, que nós vivemos

[00:57:20] que a gente tem que discutir

[00:57:22] sei lá, problemas sanitários

[00:57:24] no café da manhã, saca, enfim

[00:57:27] o, que são coisas muito

[00:57:29] complexas, ele idiotiza

[00:57:31] tudo pra essa narrativa do herói

[00:57:33] porque, cara, uma vacina não é produzida desse jeito

[00:57:35] a produção científica não é dessa forma

[00:57:37] por exemplo, uma pessoa

[00:57:39] não tem esse protagonismo, a pessoa pode ser o chefe do laboratório

[00:57:41] mas é uma equipe imensa

[00:57:43] só, fazer o teste funcionar

[00:57:45] nela, não tem nenhuma garantia

[00:57:47] que vai funcionar em milhares de outras pessoas

[00:57:49] saca, então por isso que você tem um longo

[00:57:51] período pra coisa

[00:57:53] poder funcionar, e aí assim

[00:57:55] pode não funcionar numa população maior

[00:57:57] porque esse tipo de pensamento

[00:57:59] que pensa a produção científica

[00:58:01] sobretudo uma coisa tão crítica quanto uma vacina

[00:58:03] no meio da pandemia, dessa forma

[00:58:05] ele, primeiro que ele

[00:58:07] tá colocando a ciência quase como se fosse desenvolvimento

[00:58:09] de um novo iPhone, saca

[00:58:11] e ela é mais um produto pra ser consumido

[00:58:13] que não, e aí é muito importante

[00:58:15] que é um pensamento que nunca leva em conta

[00:58:17] o risco, que inclusive a gente tá tendo que viver

[00:58:19] agora com o presidente aí falando

[00:58:21] não tem nenhum estudo que comprove que a cloroquina funciona

[00:58:23] mas não tem nenhum estudo que comprove

[00:58:25] que ela não funciona, a partir do momento

[00:58:27] que ele mostra aí uma total incompreensão

[00:58:29] de como a realidade funciona

[00:58:31] né, de que ele acabou

[00:58:33] de falar, ele tratou uma questão

[00:58:35] binária como não binária, mas a questão maior

[00:58:37] é essa assim, e com o exemplo da cloroquina

[00:58:39] de novo assim, no filme

[00:58:41] é só uma homeopatiazinha lá que eles querem dar

[00:58:43] pra galera, na vida real

[00:58:45] é cloroquina, que causa

[00:58:47] né, entre outras coisas

[00:58:49] parada cardíaca, né, o meu padrinho

[00:58:51] morreu porque foi receitado

[00:58:53] hidroxicloroquina e azitromicina

[00:58:55] e sofreu um

[00:58:57] um efeito colateral muito comum

[00:58:59] infelizmente, dessa combinação de remédios

[00:59:01] ele teve uma parada cardíaca e morreu em casa

[00:59:02] e depois chegaram os testes e ele nem tinha covid

[00:59:05] mas enfim, é isso que a gente

[00:59:07] tá tendo que enfrentar, e aí é isso assim

[00:59:09] o Bolsonaro falando isso na TV, e você tendo visto esse filme

[00:59:11] como alguém que te recomendou no Twitter falando

[00:59:13] é algo muito realista, faz você acreditar que realmente

[00:59:15] ah, chama uma vacina aqui, dá pra todo mundo

[00:59:17] não tem risco nenhum

[00:59:18] esse que é o ponto, né, porque assim

[00:59:20] a vacina, porque isso também

[00:59:23] inspira, a gente tava falando da coisa da responsabilidade

[00:59:25] primeiro que quando você

[00:59:27] reduz o problema à descoberta

[00:59:29] de uma vacina

[00:59:30] e desse jeito, sobretudo

[00:59:32] você também isenta toda a responsabilidade

[00:59:36] do sistema, né, então por exemplo

[00:59:37] a grande questão é só curar

[00:59:39] esse vírus, né, e curar dessa

[00:59:41] maneira, quando você não

[00:59:43] vai entender que existe

[00:59:45] toda uma noção, tipo, cara, a própria sociedade

[00:59:47] como um todo, não é só

[00:59:49] os nossos responsáveis, os gestores

[00:59:52] públicos, não, as pessoas

[00:59:53] tem que repensar seus hábitos, repensar

[00:59:55] sua própria vida, né, no filme

[00:59:58] é muito louco assim, porque no filme

[00:59:59] e isso é um discurso muito comum agora

[01:00:01] eu acho que realmente, esse filme previu

[01:00:03] muito do que a gente tava passando, mas

[01:00:05] previu muito do imaginário

[01:00:07] merda sobre o que a gente tá passando

[01:00:09] saca, essa esperança

[01:00:11] de que, nossa, vamos ser

[01:00:13] salvos por uma vacina

[01:00:15] e sei lá o que, e blá blá blá blá blá blá

[01:00:17] cara, enquanto a gente não for ser

[01:00:19] não for salvo por uma vacina, vamos parar e vamos pensar

[01:00:21] no que que está acontecendo, porque que a gente tá vivendo isso

[01:00:23] o filme impede, quando você

[01:00:25] resolve e se reduz tudo

[01:00:27] a uma heroína, a um herói

[01:00:29] que vai descobrir uma solução mágica pra tudo

[01:00:31] né, e essa solução é realmente

[01:00:33] mágica no filme, se essa mulher aparecesse

[01:00:35] no filme e falasse assim, olha só, descobri que

[01:00:37] porra, olha só a merda, hein, imagina, ela chega assim pro

[01:00:39] Lawrence Fishburne, rapaz

[01:00:41] menino, outro dia tava em casa

[01:00:44] abriu o carderinho da minha vovó

[01:00:45] de receita e tinha lá, receita pra matar

[01:00:47] gripe, é alho, mel

[01:00:49] gengibre, pimenta

[01:00:51] do reino e um saco de alfafa

[01:00:53] e cura esse vírus

[01:00:55] e cura, porque eu não tô com o vírus, entendeu

[01:00:56] então, pô, claro que curou

[01:00:58] se ela faz isso, eu acho que é tão verossímil quanto o discurso

[01:01:01] da vacina, tá ligado?

[01:01:02] e aí a gente tem que entrar numa coisa de como

[01:01:05] que esse tipo de narrativa

[01:01:07] nos torna complacentes

[01:01:09] com tudo, assim, e aí

[01:01:11] remete aquilo que você falou

[01:01:12] e o seu amigo Malatesta copiou de você

[01:01:14] que é

[01:01:15] exatamente assim, enquanto você tá

[01:01:16] focado em heróis que vão

[01:01:19] nos salvar ou nos salvaram

[01:01:20] você não vai questionar por que

[01:01:22] você tá nessa situação, então é isso

[01:01:24] e ao não questionar também

[01:01:27] e acreditar que essa salvação vai vir de fora

[01:01:29] você entra sim

[01:01:31] naquele discurso

[01:01:33] de que nada é sua culpa

[01:01:34] que aí é o problema, que é o que a gente tava falando lá no começo

[01:01:37] assim, as coisas são a culpa

[01:01:39] do sistema, mas você tem um papel aí

[01:01:41] responsabilidade

[01:01:42] você tem uma certa responsabilidade pra que as coisas não fiquem pior

[01:01:45] do que elas precisam ser, ou do que elas já são

[01:01:47] né, então aí

[01:01:49] é isso, assim, a gente tá vendo agora

[01:01:51] cada vez mais, ontem eu fui ao supermercado

[01:01:53] e vi pessoas

[01:01:55] sentadas no outback comendo

[01:01:57] sem máscara, né, enfim

[01:01:58] e essas pessoas estão só esperando

[01:02:01] a médica injetar cloroquina

[01:02:03] na bunda e dizer que funciona e pronto

[01:02:04] elas acreditam piamente

[01:02:07] que a vida é isso

[01:02:09] que é esse problema

[01:02:10] é esse problema

[01:02:13] que vem de fora e em controle

[01:02:15] e que algum herói vai vir resolver

[01:02:17] é, tem duas coisas aí, o primeiro erro

[01:02:19] é o outback

[01:02:20] já começou errado, tá comendo outback

[01:02:23] não, então, mas é que assim, é um retrato muito bom

[01:02:25] que eu comentei com a Jade, assim, tipo

[01:02:26] é assim, imagina que é por isso

[01:02:29] que você corre esse risco, entendeu

[01:02:30] imagina, se eu falo assim

[01:02:33] eu podia ficar em casa, eu podia no mínimo usar

[01:02:35] uma máscara

[01:02:36] vou sair de casa pra comer

[01:02:37] cara, vou sair de casa pra comer

[01:02:41] um, como é que é

[01:02:43] tomar um shake no Bob’s, tá ligado?

[01:02:45] sim, cara, eu fiquei com vontade de tirar o celular

[01:02:47] do Bob’s e tirar uma foto, assim, porque eu vi

[01:02:48] porque assim, eu moro em São Paulo e tô tudo dentro do shopping

[01:02:51] tô no supermercado, dentro do shopping

[01:02:52] e aí você passa na frente do outback

[01:02:54] e as pessoas estavam lá, sem máscara

[01:02:57] e aí você vê as pessoas que estão dentro do outback e assim

[01:02:58] dá vontade de tirar o celular e tirar uma foto, assim

[01:03:01] e fala assim, cara, vou postar na internet, assim, porque se você tem

[01:03:03] a coragem, na situação que a gente tá vendo

[01:03:05] na cidade de São Paulo, que é o maior foco

[01:03:07] do Covid-19 aqui

[01:03:09] acredito que na América do Sul, mas pelo menos no Brasil

[01:03:11] você tá aqui, em São Paulo

[01:03:13] indo comer sem máscara e no outback

[01:03:15] e aí você tá expondo

[01:03:17] as pessoas que trabalham no outback a isso

[01:03:19] puta que pariu, meu irmão

[01:03:21] assim… é, que nem o pessoal aqui no Rio de Janeiro

[01:03:23] né, no… acabou o Covid, cara

[01:03:25] acabou o Covid, né

[01:03:27] e aí tá rolando o bagulho bizarro de que os números

[01:03:29] deram uma caída essa semana e aí tá dando uma falsa

[01:03:31] segurança nas pessoas, que não seja, a gente vai sentir

[01:03:33] daqui umas duas semanas, ah, que é outra coisa

[01:03:35] os filmes, porque ele tem que ser uma narrativa

[01:03:37] muito imediata e fácil de seguir

[01:03:39] e o ser humano é muito ruim de criar

[01:03:41] causalidade quando tem um tempo

[01:03:43] grande entre as coisas

[01:03:44] é…

[01:03:45] o período de incubação de todos esses vírus

[01:03:47] desses filmes é 10 segundos

[01:03:49] 10 segundos

[01:03:49] é tipo, você encostou em alguma coisa e você vai passar

[01:03:52] de uma cena pra outra, você já vai tá totalmente doente

[01:03:54] com a maquiagem de doente, que é o lápis vermelho

[01:03:57] no olho, né, e a pele branca

[01:03:59] é, e agora tem aquele, nesse filme tem aquela

[01:04:01] aquela babinha do lado, né

[01:04:03] babinha, babinha branca, babinha branca

[01:04:05] mas então, só pra… tu falou essa coisa

[01:04:07] que é muito importante, né, cara, porque assim

[01:04:09] o grande problema desse filme

[01:04:11] e que é o nosso problema sobre

[01:04:13] o imaginário sobre uma pandemia

[01:04:15] é de que nós somos incapazes

[01:04:17] de assumir uma posição, assim, a gente tem

[01:04:19] dois, umas três décadas

[01:04:21] que a gente tá vivendo essa formação dos sujeitos

[01:04:22] do cidadão enquanto um consumidor

[01:04:25] nós não somos cidadãos

[01:04:27] mais, nós somos consumidores da sociedade

[01:04:29] né, e o governo, isso é uma posição

[01:04:31] muito confortável, né, porque enquanto o governo

[01:04:32] for capaz de nos fornecer produtos pro consumo

[01:04:35] tá tudo resolvido, né, o problema começa quando não tá

[01:04:37] né, então assim

[01:04:38] o… quando a gente

[01:04:41] vai… esse filme

[01:04:42] ele é um filme que no lugar de se falar

[01:04:45] por exemplo, sobre responsabilidade

[01:04:47] das pessoas, sobre

[01:04:49] culpabilização, aí sim

[01:04:51] né, dos gestores do nosso sistema

[01:04:53] não, ele tá focado no que?

[01:04:55] num discurso de exaltação de heróis

[01:04:57] né, que vão produzir

[01:04:59] um produto, né, que é quase

[01:05:01] como se fosse um novo iPhone, né, um produto de consumo

[01:05:03] e aí aquela coisa do tipo, olha

[01:05:05] nem todo mundo pode ter, então assim

[01:05:07] é muito louco, né, cara, assim, como o cara

[01:05:09] normaliza a ideia de que nem todo mundo

[01:05:11] pode ter uma cura, tanto que tem

[01:05:13] umas questões com sequestros

[01:05:15] no filme por causa disso, porque tem uma população lá

[01:05:17] que, cara, o pessoal tá meio desesperado, então eles

[01:05:19] vão em sequestro de uma mulher pra eles poderem

[01:05:21] ter acesso à cura, porque

[01:05:23] a vila dele todo mundo morreu

[01:05:25] e tem essa coisa também que é importante no filme, né

[01:05:27] tipo, os asiáticos, eles só são

[01:05:29] colocados assim, os chineses, né, só são

[01:05:31] colocados ali para morrer, né

[01:05:33] ou eles são pessoas desesperadas, eles não tem

[01:05:35] protagonismo nenhum

[01:05:36] assim, ó, vamos por favor

[01:05:38] usar um pouco assim

[01:05:40] as diferenças que o filme tem do mundo real

[01:05:43] pra entender um pouco

[01:05:45] o que, primeira coisa

[01:05:46] a infecção do contágio

[01:05:49] começa em Hong Kong, não começa

[01:05:51] na China continental como começou a do

[01:05:52] Covid-19, por exemplo, por que começa

[01:05:55] em Hong Kong? Porque ninguém quer lidar

[01:05:57] com a China continental

[01:05:59] eles acham que é muito complexo

[01:06:01] porque ou você faz uma caricatura

[01:06:03] americanizada do que é a China

[01:06:04] ou você tem que lidar com a realidade complexa

[01:06:07] que é um sistema que não agrada

[01:06:09] os neoliberais americanos, mas que tem êxito

[01:06:11] em muitas áreas, uma delas sendo a saúde pública

[01:06:13] mas enfim, você começa

[01:06:15] em Hong Kong, porque Hong Kong é a

[01:06:17] ex-colônia da Inglaterra, é ainda um

[01:06:19] território muito neoliberal, comparado

[01:06:21] ao governo continental

[01:06:23] e

[01:06:24] é um governo que é visto como vítima, né

[01:06:27] do governo continental, né

[01:06:29] como eles são um território da China, né

[01:06:30] enfim, a gente tem os protestos aí

[01:06:32] rolando em Hong Kong há um tempo pra mostrar

[01:06:35] essa narrativa, né, e que a mídia

[01:06:37] americana imediatamente

[01:06:39] tomou como grandes heróis aqueles

[01:06:40] os maiores manifestantes do mundo que são heróis

[01:06:42] são aqueles que não gostam dos governos que os Estados Unidos

[01:06:45] não gostam. Inclusive o Trump falou

[01:06:47] que ajudaria, entendeu, em CD, que ajudaria

[01:06:49] os protestos, né. Por que será, Orlando?

[01:06:51] Porque ele é uma pessoa muito boa, se importa com

[01:06:53] a situação dos outros, mas enfim, começa em Hong Kong

[01:06:55] porque você precisa pintar

[01:06:56] as pessoas em Hong Kong que estão ajudando

[01:06:58] a personagem da Marion Cotillard, que é

[01:07:00] mais uma heroína, eu tinha esquecido

[01:07:02] ai, esse roteiro é horrível, e aí

[01:07:05] você tem essa

[01:07:07] a World Health Organization

[01:07:09] ela tá lá, e aí

[01:07:11] tem um agente de uma agência governamental

[01:07:13] chinesa colaborando

[01:07:15] e aí ele no desespero

[01:07:17] porque o vilarejo da mãe dele e tal, todo mundo

[01:07:19] tá infectado, morrendo, ele se desespera

[01:07:21] e

[01:07:22] sequestra a Marion Cotillard, falando assim

[01:07:24] o único jeito da

[01:07:26] Organização Mundial de Saúde ajudar

[01:07:28] a gente, é se a gente tiver

[01:07:30] uma ocidental aqui, né,

[01:07:33] sequestrada, senão a gente vai ficar no fim da fila

[01:07:35] que eu duvido

[01:07:37] muito se, por exemplo, os Estados

[01:07:39] Unidos fizessem uma vacina e compartilhassem

[01:07:41] a vacina

[01:07:43] com todos os governos, eu acredito que a China

[01:07:45] ia ajudar a própria população, né, mas

[01:07:47] o que fica implícito é isso, na real, é que tipo, a vacina vai ser americana

[01:07:49] e a gente não vai compartilhar com o resto do mundo

[01:07:51] vocês vão ter que comprar da gente, né

[01:07:52] e aí fica implícito, e aí a outra

[01:07:55] questão é tipo assim, quem é esse cara

[01:07:57] que tipo, trabalha em Hong Kong

[01:07:59] numa grande agência

[01:08:00] governamental, mas aí ele volta

[01:08:03] pra um vilarejo no meio de uma mata

[01:08:05] tropical, assim

[01:08:06] enfim, de novo assim, essa

[01:08:09] visão americana de como que é a realidade

[01:08:10] é como se o cara trabalhasse

[01:08:13] na Faria Lima, e ele fala assim

[01:08:15] pô, meu vilarejo, e aí tipo, ele morasse

[01:08:17] no interior do Mato Grosso do Sul

[01:08:19] exatamente, cara, exatamente

[01:08:20] como que você viaja entre essas duas localidades

[01:08:23] tão rápido, de van

[01:08:24] sem, né,

[01:08:27] mais uma citação aí, ó, choque de cultura

[01:08:28] o, o, o, mas

[01:08:31] enfim, e aí

[01:08:32] no final, o que acontece, ela é sequestrada

[01:08:34] ela passa a virar, ela, por que que ela

[01:08:37] vira professora das crianças?

[01:08:38] porque passa uma imagem

[01:08:39] de que tipo, ah, ainda bem que chegou uma mulher branca

[01:08:43] europeia aqui, hein, meu, pra ser

[01:08:44] nacionalista

[01:08:45] ensinando inglês, porque senão

[01:08:47] ninguém aprendia nada, né

[01:08:48] mas enfim, aí ela fica lá na porra do vilarejo

[01:08:51] ela, ela foi sequestrada

[01:08:53] mas ela ama que ela foi sequestrada, é tipo

[01:08:54] férias pra ela

[01:08:55] é o espazinho que ela tava apresentada estressadona no trabalho

[01:08:58] por quê? Porque ela é muito benevolente, cara

[01:09:00] então é claro que ela não quer se irritar com as

[01:09:02] crianças e tal, é isso, ela é uma alma

[01:09:04] benevolente ocidental que nunca

[01:09:07] faria nenhum mal a ninguém, e aí eles

[01:09:08] no final do filme eles trocam ela por um

[01:09:11] carregamento de vacina pra todo mundo, e aí

[01:09:13] um representante lá da Organização Mundial

[01:09:15] de Saúde vai lá entregar a

[01:09:16] a vacina

[01:09:19] e ela é devolvida

[01:09:20] vamos lembrar só uma coisa

[01:09:22] eles pedem a vacina exatamente pra esse vilarejo

[01:09:25] e tal, poder levar e tal

[01:09:26] o quão fácil seria rastrear

[01:09:28] esses idiotas, é o pior plano

[01:09:31] de sequestro da vida de uma pessoa

[01:09:32] tipo, toda a questão do sequestro é que você

[01:09:34] não possa descobrir quem sequestrou essa mulher

[01:09:36] vocês sequestraram ela, levaram ela pro vilarejo

[01:09:38] de vocês e voltaram imediatamente pra lá com as vacinas

[01:09:40] pelo amor de Deus, e aí a grande revolta

[01:09:42] dela no final, que nem é bem resolvida, né

[01:09:45] ela só sai da cena

[01:09:46] ela só sai de cena e você não resolve, é o seguinte

[01:09:49] é, o cara da Organização Mundial

[01:09:51] de Saúde conta pra ela algo que ele nunca

[01:09:53] contaria, inclusive ele não saberia, que é

[01:09:55] aquele carregamento de vacina era um placebo

[01:09:57] nunca que ele saberia

[01:09:58] é muito mais fácil você resolver

[01:10:00] se a situação é essa, de

[01:10:02] eu não vou dar vacina de verdade pra

[01:10:04] sequestradores, porque eu não quero negociar com

[01:10:06] sequestradores, não quero estimular esse tipo de comportamento

[01:10:09] e nem tenho vacina o suficiente pra resolver

[01:10:11] isso, eu só preciso que essa mulher não

[01:10:13] morra aqui na China pra não criar

[01:10:15] um problema

[01:10:15] diplomático, né, uma crise diplomática

[01:10:19] você não ia contar

[01:10:21] pro mula que cê deu

[01:10:23] pra contar a porra

[01:10:25] você, um, você não ia contar praquele cara

[01:10:27] que ele tava integrando placebo, porque

[01:10:29] isso só atrapalha o seu plano, e dois

[01:10:31] ele nunca ia contar pra ela

[01:10:32] sabe o que eu fiquei achando daquela cena, daquela side

[01:10:37] cena, assim, ela ficou puta, ela foi no banheiro, tá ligado

[01:10:39] é, ela, exato, o que que ela ia fazer

[01:10:41] o que que ela ia fazer

[01:10:42] ela ia falar, me sequestra de novo?

[01:10:45] né, cara, assim, mas aquela cena

[01:10:47] só tinha todo aquele plot, porque

[01:10:49] depois eles, acho que aqui todo aquele plot

[01:10:51] ele tinha como

[01:10:52] como intenção, né

[01:10:54] primeiro, colocar a atriz pra ter

[01:10:57] algum protagonismo

[01:10:59] porque é isso, por isso que eu odeio esses filmes

[01:11:01] com muitos protagonistas, né, tipo

[01:11:03] onze homens e um germe, né

[01:11:05] o, porque

[01:11:06] simplesmente tinha que dar algum protagonismo

[01:11:09] pra ela, e depois, assim

[01:11:10] e criticar o governo chinês, de alguma forma

[01:11:13] ó, tá vendo, esse governo, ao contrário do

[01:11:15] nosso, não fornece

[01:11:16] né, o sistema de saúde

[01:11:18] uma assistência de saúde adequada

[01:11:20] para a sua população, quando na verdade

[01:11:22] e não estou aqui fazendo, pois, sou anarquista

[01:11:24] e não comunista, não estou aqui fazendo propaganda

[01:11:26] do governo chinês, mas, enfim

[01:11:28] dá acesso que é de César

[01:11:31] né, meu querido, assim, você

[01:11:32] e assim, tipo, se você for me perguntar, não é uma questão de propaganda

[01:11:35] se você for me perguntar, você prefere a saúde

[01:11:36] pública inexistente dos Estados Unidos ou a saúde pública

[01:11:38] chinesa? Pois é, né

[01:11:40] que, apesar de todos

[01:11:42] os pesares, cuida aí de, tipo, mais

[01:11:45] 10 vezes mais pessoas do que

[01:11:47] os Estados Unidos, né, também tem isso

[01:11:48] e quantas pessoas morreram? A comparação que tem em Drúxula, né

[01:11:50] de comparar 300 milhões de pessoas com mais de um bilhão

[01:11:53] não, e quantas pessoas morreram

[01:11:54] na pandemia de Covid, na China

[01:11:56] e quantas morreram nos Estados Unidos, quantas morreram no Brasil

[01:11:59] né, assim, o governo que é pintado como

[01:12:01] no filme, como incapaz

[01:12:02] foi aquele que justamente salvou as pessoas

[01:12:04] e assim, mais uma vez, não estamos fazendo propaganda

[01:12:07] estamos só dando, não, fazendo correto

[01:12:09] exatamente, assim

[01:12:10] do mesmo jeito que a gente adora esses filmes americanos

[01:12:13] e aponta vários problemas com os americanos

[01:12:15] capaz de admirar certas coisas na China

[01:12:16] mesmo apontando defeitos na China também

[01:12:19] olha só, como é muito doido

[01:12:21] a realidade não dicotômica do mundo

[01:12:23] mas, agora, eu gostaria

[01:12:25] de voltar pra epidemia pra não parecer que eu

[01:12:27] falei bem nesse filme

[01:12:27] entendeu? Igual a China

[01:12:30] só porque eu ressaltei alguns pontos

[01:12:33] positivos do filme, não vou falar que é um bom filme

[01:12:35] não tô dizendo que a China é ruim também, não briga

[01:12:37] comigo, João Carola é meu amigo

[01:12:38] é o seguinte, epidemia

[01:12:40] péssimo filme

[01:12:42] e por que que ele é péssimo?

[01:12:45] vou fazer uma teoria aqui, e não vai ser semiótica

[01:12:47] então vou te deixar orgulhoso, vai ser muito

[01:12:49] vai ser uma dialética meio materialista

[01:12:51] caraca, a gente foi

[01:12:53] pra China e voltou com a dialética, vambora

[01:12:55] não, eu voltei muito marxista dessa China

[01:12:57] agora, porque, olha, saca só

[01:12:59] a gente, eu estabeleci que eu acredito

[01:13:01] que o Steven Soderbergh e o Scott Burns

[01:13:04] tem um problema de

[01:13:05] tá querendo contar uma história real

[01:13:07] que não é real, né, eles querem muito

[01:13:09] que o filme deles seja visto como algo

[01:13:11] muito real, muito, né, verossímil

[01:13:13] e aí a gente chega em epidemia

[01:13:15] e a origem do filme epidemia

[01:13:18] é um livro de não ficção

[01:13:20] chamado The Hot Zone

[01:13:21] né, do Richard Preston

[01:13:23] que ficou anos pra virar um filme

[01:13:26] que as pessoas estavam tentando

[01:13:27] transformar ele num filme e não conseguiam

[01:13:30] e no final

[01:13:32] o que que acontece, ele só vira um filme

[01:13:34] quando ele vira epidemia, quando eles decidem

[01:13:36] tipo, não, vamos fazer um filme totalmente fictício

[01:13:38] que meio que pega uma das

[01:13:40] histórias reais que ele conta no livro

[01:13:42] e transforma

[01:13:43] num caos, então ele vem na direção

[01:13:46] contrária do Soderbergh, ele tá vindo da

[01:13:48] realidade tentando fazer algo menos

[01:13:50] real possível, enquanto o Soderbergh

[01:13:52] veio de uma ideia da cabeça dele

[01:13:53] e tentou transformar ela no mais real possível

[01:13:56] na visão dele de mundo

[01:13:57] então tem uma história

[01:13:59] real que ele

[01:14:01] conta no livro, o Richard Preston

[01:14:04] que é The Monkey House, que é a segunda

[01:14:06] história dessas quatro que tem no livro

[01:14:07] que é sobre um macaco infectado

[01:14:10] com ebola, que é

[01:14:11] esse ebola do Zaire, né, que eles usam

[01:14:13] o Zaire como

[01:14:14] essa coisa da epidemia começar no Zaire

[01:14:17] é utilizada no filme

[01:14:19] e aí o

[01:14:22] exército americano mata

[01:14:24] todos os macacos que tiveram expostos àquele macaco

[01:14:26] pra controlar esse

[01:14:27] vírus, essa exposição do vírus

[01:14:29] e inclusive o vírus ali

[01:14:31] que a gente vê é muito parecido com o vírus

[01:14:34] do ebola e tal, é bem baseado nessa história

[01:14:35] no Epidemia. No filme

[01:14:37] do Epidemia é um macaco traficado

[01:14:40] que chega nos Estados Unidos

[01:14:42] com o vírus

[01:14:43] que transmite pra humanos

[01:14:45] mas uma versão do vírus que não se transmite pelo ar

[01:14:47] e ao chegar nos Estados Unidos ele já tem

[01:14:50] uma mutação ali de um vírus que

[01:14:51] também se transmite pelo ar ou o vírus

[01:14:53] muda num outro macaco

[01:14:55] é verdade, tem vários macacos ali

[01:14:57] e o grande negócio do filme é que ele ainda

[01:14:59] cai na narrativa do cientista herói

[01:15:01] porque faltando tipo quatro horas

[01:15:03] pra cidade ser bombardeada

[01:15:05] nossa, ele é muito herói

[01:15:07] o Dustin Hoffman vai atrás do macaco

[01:15:09] que tem o antissoro

[01:15:11] pro vírus e acha o macaco

[01:15:13] e aí ele pega o macaco

[01:15:15] e sintetiza um antissoro

[01:15:18] muito rápido

[01:15:19] que ele não precisa testar em ninguém, ele só precisa sair dando pras pessoas

[01:15:21] e é um vírus que de novo

[01:15:23] porque o filme precisa andar rápido

[01:15:25] o vírus mata as pessoas em poucas horas

[01:15:27] depois da exposição

[01:15:28] então é um imaginário muito doido

[01:15:31] de que essa vacina

[01:15:33] vai ser sintetizada e produzida

[01:15:35] em poucas horas e curar as pessoas que já estão infectadas

[01:15:37] enfim, sem contar que

[01:15:39] não tinha como aquela infecção ser tão

[01:15:41] rápida se as pessoas estão

[01:15:43] morrendo tão rápido também, porque você não tem tempo de

[01:15:45] infectar tanta gente se você morre

[01:15:46] enfim, de qualquer jeito, e mesmo assim

[01:15:49] o epidemia ainda

[01:15:51] assim, é uma epidemia

[01:15:53] que pegou uma cidade americana de jeito

[01:15:55] basicamente, que é uma cidade que fica sitiada e vai ser

[01:15:57] bombardeada e

[01:15:58] lembrando que assim, é uma cidade de uma parte meio rica da

[01:16:01] Califórnia

[01:16:02] que nunca isso aconteceria

[01:16:05] as cidades que os americanos topam bombardear

[01:16:07] ali, eles topam

[01:16:08] sacrificar Nova Orleans, entendeu?

[01:16:11] eles não topam sacrificar o norte da Califórnia ali

[01:16:13] mas enfim, e aí o que acontece

[01:16:15] acho que é só por isso que o cara se mobiliza

[01:16:17] tanto, né? Pois é

[01:16:19] e aí o que acontece é que

[01:16:21] assim, ele é um filme extremamente clichê

[01:16:23] dos anos 90, ele é tipo um disaster movie

[01:16:25] só que o desastre é o vírus

[01:16:27] mas, é isso, ele tem essa salvação

[01:16:29] que o desastre não é o vírus

[01:16:31] o desastre é como os militares

[01:16:33] americanos decidem lidar

[01:16:35] com o vírus e

[01:16:36] meio que então, tipo, existe esse valor redimível

[01:16:39] ali de que, realmente assim, se você para pra pensar

[01:16:41] na história da epidemia

[01:16:43] dá mais material pra mastigar e questionar

[01:16:46] a autoridade

[01:16:47] e, enfim

[01:16:49] tudo, toda a estrutura de poder

[01:16:52] do governo americano do que o contágio

[01:16:54] então, no final das contas, esse filme

[01:16:56] que é tão poeril

[01:16:57] em comparação, inclusive, é melhor

[01:17:00] porque

[01:17:01] porque assim

[01:17:03] é isso, é mais divertido assistir contágio

[01:17:06] mas

[01:17:07] é, eu sei

[01:17:08] eu acho mais divertido assistir contágio

[01:17:11] porém

[01:17:13] cara, pandemia, os caras tão caçando macaco

[01:17:16] cara, tem toda

[01:17:16] epidemia, eu vou pensar sobre epidemia mais

[01:17:20] e epidemia traz uma

[01:17:21] uma história

[01:17:23] mais interessante de remuer na sua cabeça

[01:17:25] do que a do contágio

[01:17:27] então, nesse sentido, eu acho que

[01:17:29] epidemia é um filme pior tecnicamente

[01:17:31] mas que agregou mais valor

[01:17:33] na minha vida

[01:17:34] sim, inclusive porque tem com macacos

[01:17:37] eu tenho essa teoria, cara

[01:17:38] filme de, cara, a gente vai fazendo depois

[01:17:42] que a gente já estourou o nosso tempo

[01:17:43] aqui, mas assim, a gente vai fazer

[01:17:45] daria pra fazer toda uma análise totêmica

[01:17:47] dos filmes, né, porque por exemplo

[01:17:49] no pandemia é o que? é o porco e morcego

[01:17:51] cara

[01:17:52] e aí a gente vai ter que assistir Congo, então?

[01:17:54] contágio

[01:17:55] lembra de Congo?

[01:17:58] claro que eu lembro de Congo, tinha até um jogo pro Jaguar

[01:18:01] no FPS

[01:18:03] Congo, caraca

[01:18:04] olha isso

[01:18:06] você era um macaco no

[01:18:07] você matava macacos

[01:18:09] cara, vamos assistir Congo, cara, no próximo episódio

[01:18:13] vamos

[01:18:13] calma, calma

[01:18:16] você nem trouxe a tese

[01:18:18] porque isso

[01:18:19] eu vou fazer uma observação sobre os nossos queridos

[01:18:22] ouvintes que eu amo e adoro

[01:18:23] as pessoas sugerem muitos filmes, e é ótimo, inclusive esse episódio

[01:18:26] veio de uma sugestão de ouvinte

[01:18:27] mas é que muitas vezes as pessoas

[01:18:30] soltam o filme sem dar a tese

[01:18:32] por trás, tipo assim, ah, pega esse filme

[01:18:34] pra discutir tal coisa

[01:18:35] e o Orlando não é diferente de vocês, não

[01:18:38] ele chega, Lucas, aqui pra mim

[01:18:39] ele chega com, tipo, dois pés na porta

[01:18:42] assim, falando, assiste isso aqui, Gus

[01:18:43] vamos falar disso aqui, e não fala sobre o que ele quer falar

[01:18:46] mas a gente descobre

[01:18:47] não, exato, mas aí

[01:18:49] se for assim, eu vou sair assistindo tudo

[01:18:51] já eu, eu trago pra você quando eu falo assim

[01:18:53] assisti isso, que eu acho que é

[01:18:55] um bom ponto de partida para falar sobre tal coisa

[01:18:58] não, ó, mas então

[01:18:59] vamos voltar pro macaco, cara, só pra finalizar

[01:19:01] eu acho, eu tenho pra mim

[01:19:03] eu vou desenvolver essa teoria ao longo desse podcast

[01:19:06] né, todo

[01:19:07] a duração do pop cult

[01:19:09] de que filmes com macacos

[01:19:12] né

[01:19:13] eles agregam um valor aí

[01:19:15] justamente por conta, assim

[01:19:16] simbolicamente, macacos são melhores

[01:19:19] pra se pensar, vou falar uma coisa aqui do

[01:19:21] Levi-Straussiana, estruturalista

[01:19:22] macacos são melhores pra pensar

[01:19:24] deixar isso aqui no ar, aqui

[01:19:27] como assim?

[01:19:29] cara, tem uma teoria

[01:19:31] Levi-Straussiana

[01:19:31] não, então, mas tem uma teoria de que

[01:19:35] por que que, por exemplo, sobre a análise sobre

[01:19:37] totemismo, né, por que que aquela coisa

[01:19:38] determinado povo, grupo social

[01:19:41] se identifica com um animal X, um animal assado

[01:19:43] e tudo mais, então

[01:19:44] a ideia é de que a escolha

[01:19:47] desses animais, muitas vezes, eles

[01:19:49] não são simplesmente aleatórias, saca?

[01:19:51] caralho, eu sou, sei lá, gavião, por que gavião?

[01:19:53] não, tem, esses animais

[01:19:55] eles correspondem a uma

[01:19:57] a uma

[01:19:59] a uma relação muito, assim

[01:20:01] eles são bons pra pensar determinados aspectos

[01:20:03] então, assim, olha só, olha aí, hein

[01:20:05] vou te pegar nessa, quando você tem

[01:20:07] um filme sobre doença

[01:20:09] cujos os dois

[01:20:11] maiores vilões

[01:20:13] do filme, em termos animais, são

[01:20:15] o porco e o

[01:20:17] e o morcego, né

[01:20:19] o porco e o morcego são o que? São animais

[01:20:21] são mamíferos, estão animais próximos

[01:20:23] mas eles não são animais com os quais nós

[01:20:25] nos identificamos tanto, porco, por exemplo

[01:20:27] é comida, né, assim, no maior dos lugares

[01:20:29] é comida, porém, é a comida

[01:20:31] mais inteligente das comidas comuns

[01:20:33] sim, sim, mas ele é

[01:20:34] isso é uma raiz de desconforto aí

[01:20:37] que, inclusive, leva algumas religiões monoteístas

[01:20:39] a banir o consumo de porco

[01:20:41] sim, eu concordo plenamente com isso, inclusive

[01:20:43] o ponto é, assim, simbolicamente

[01:20:45] o porco, ele tá no campo das comidas

[01:20:47] né, tanto que não é à toa que

[01:20:49] ele é o símbolo do veganismo, por exemplo, né

[01:20:51] o morcego

[01:20:53] também tá ali, ele é um mamífero, só que ele é um mamífero

[01:20:55] distante, o problema

[01:20:57] tem que assistir Batman, Baby Porquinho na Cidade

[01:21:00] e o filme dos Power Rangers, porque cada Power Ranger

[01:21:01] é um animal, inclusive tem a cena que eles trocam

[01:21:03] os animais, o cara fica… Calma aí, calma que eu vou chegar

[01:21:06] aí, olha só, o porco

[01:21:07] e o morcego, cada um

[01:21:09] a seu próprio jeito, dentro da diagésia do filme

[01:21:11] então estou comprando essa ideia, o morcego

[01:21:13] seria essas ameaças externas, né

[01:21:15] tanto a ameaça, sabe, o porco

[01:21:17] é aquela coisa apaixonada das massas

[01:21:19] e o morcego é aquela

[01:21:21] coisa que vem de fora, tanto que no momento

[01:21:23] da cena, a análise semiótica aí, ó

[01:21:25] é o morcego que traz de fora

[01:21:27] a doença e o porco consome

[01:21:29] entendeu? Ó, tá pegando?

[01:21:31] Nos filmes de pandemia que você tem um macaco

[01:21:33] o macaco é o quê? Ele é aquilo

[01:21:35] que tá muito próximo da gente, o macaco é quase como se fosse

[01:21:37] um espelho, então assim, os filmes

[01:21:39] de pandemia que tem um macaco como seu símbolo

[01:21:41] como seu totem, né, são os filmes

[01:21:43] que pensam o problema como

[01:21:45] um problema mais intestino, eles não jogam

[01:21:47] o problema pra fora, como o filme, né

[01:21:49] o Epidemia

[01:21:50] E existe aí uma

[01:21:53] Agora te peguei, hein, colega

[01:21:55] Não, foi muito bom, eu gostei

[01:21:57] e aí tem uma imagética

[01:21:59] evolucionista, né, de que

[01:22:01] em todos esses filmes, o que acontece com

[01:22:03] o macaco é só um presságio

[01:22:05] do que vai acontecer com a gente. Sim, exatamente

[01:22:07] tanto que no pandemia, no contágio

[01:22:09] o macaco, ele é, na verdade, o momento em que

[01:22:11] ele tá vivo, que ele aparece vivo

[01:22:13] o filme é o momento da cura. Sim. É, aí, ó

[01:22:15] acabou, tá resolvido a minha análise

[01:22:17] por que que filmes de vírus tem que ter

[01:22:19] macaco? Hum, eu não sei se tem

[01:22:21] eu não sei se você provou isso, que tem que ter macaco. Tem que ter

[01:22:23] pra ser bom, tem que ter, tem que ter, pra ter

[01:22:25] sentido de perigo, tá ligado? Não sei

[01:22:27] porque The Happening não tem macaco

[01:22:29] Pô, mas The Happening não tem nada, se tem o The Happening

[01:22:32] se tem o título mentiroso na história

[01:22:33] do cinema é The Happening, porque não acontece porra nenhuma

[01:22:35] nesse filme. É, a gente

[01:22:37] ia mencionar ele, mas eu não tive coragem de assistir

[01:22:39] porque quando a gente fala de filmes de vírus

[01:22:41] e tal, a gente chegou a falar dele. O que eu

[01:22:43] tô muito chateado é que a gente teve uma discussão ótima

[01:22:45] que não precisou em nenhum momento falar do filme

[01:22:47] A Rocha, e

[01:22:49] e eu assim, que eu assisti esse filme

[01:22:51] por nada. Não, a gente pode fazer semana que vem, a gente volta

[01:22:53] pra esse tema. Não, então

[01:22:55] eu acho que não sei se é semana que vem, mas é que eu acho que

[01:22:57] A Rocha vai ser bom pra falar sobre

[01:22:59] armas biológicas, que aí é um avanço

[01:23:01] que inclusive é o que eu queria encerrar

[01:23:03] falando que foi uma fala que eu

[01:23:05] separei do filme pra mandar pra você, que é

[01:23:07] por que que, uma das razões pela qual

[01:23:09] é, é, epidemia é um filme

[01:23:11] melhor, porque ele sabe o que ele é

[01:23:13] então, ele desiste de ter subtexto

[01:23:15] porque ele sabe que ele é um filme hollywoodiano pras massas

[01:23:17] e o que Hollywood menos tem

[01:23:19] é confiança no público. Então

[01:23:21] ele tem uma cena em que todo

[01:23:23] o subtexto do filme é jogado numa fala do

[01:23:25] Morgan Freeman, em que ele vira e

[01:23:27] fala, nós temos que

[01:23:29] ter armas biológicas, porque

[01:23:31] tem pessoas loucas no mundo

[01:23:33] criando armas biológicas

[01:23:35] É a síntese da paranoia norte-americana

[01:23:39] É a síntese, exato, é tipo, nós temos que

[01:23:41] ter bombas nucleares, porque senão as outras pessoas vão

[01:23:43] ter bombas nucleares e jogar bombas nucleares na gente

[01:23:45] sendo que ninguém está mais próximo de jogar

[01:23:47] uma bomba nuclear o tempo inteiro do que os americanos

[01:23:49] a única nação que já jogou uma bomba

[01:23:51] nuclear na outra

[01:23:52] No meio de uma cidade

[01:23:55] com civis, né? Duas cidades

[01:23:57] com civis, entendeu? Assim

[01:23:59] ninguém é mais psicopata

[01:24:01] do que a nação americana, assim

[01:24:03] enfim, e é por isso que ela tem

[01:24:05] essa paranoia de ver os outros como

[01:24:07] ela se enxerga, né, na realidade

[01:24:09] É isso aí então, né, cara

[01:24:11] Então, é isso, os Estados Unidos

[01:24:13] se veem como a Gwyneth Paltrow, enquanto nós

[01:24:15] somos o porquinho que ela vai comer e morrer

[01:24:17] porque morreu

[01:24:18] Exato, exato, exato, inclusive

[01:24:20] a gente vai terminar, né? Vamos

[01:24:22] Vamos, eu só, né, eu pedi

[01:24:25] pra você, você deixou, a gente pode subir aquele

[01:24:27] um hino anarquista italiano, né?

[01:24:30] A gente vai encerrar com uma música

[01:24:31] hoje, graças a Deus aí, domínio público

[01:24:34] Sim, sim, e é isso

[01:24:35] Então, você quer introduzir a música?

[01:24:37] Alguma coisa? Não, eu sou um hino anarquista, deixa eu tocar

[01:24:39] eu quero que as pessoas sintam, só isso, deixa eu sentir

[01:24:41] Deixa fluir, deixa fluir, deixa acontecer naturalmente

[01:24:43] E até semana que vem