Vivências Trans


Resumo

O episódio ‘Vivências Trans’ do podcast Mamilos mergulha nas experiências de pessoas transgênero através de relatos pessoais e uma entrevista com a psicanalista e escritora Letícia Lanz. A conversa é estruturada em quatro grandes temas: o despertar para a identidade de gênero e a relação com o corpo, a relação com a família, os desafios de acesso a renda e trabalho, e os relacionamentos amorosos.

A psicanalista Letícia Lanz explica que ‘transgênero’ se refere a quem transgride as normas de gênero estabelecidas há milênios, e que existem diversas transidentidades (travesti, transexual, não-binário, etc.). Ela desmonta a ideia de que a identidade de gênero é uma escolha, descrevendo-a como um processo profundo de identificação. Relatos como os de Amélia Molino ilustram a longa jornada de autodescoberta, medo e finalmente aceitação, muitas vezes marcada por rejeição familiar e dificuldades para acessar tratamentos hormonais ou cirúrgicos.

A questão familiar é abordada com profundidade. Enquanto histórias como a de Rafael Coutinho, filho da cartunista Laerte, mostram aceitação e aprendizado conjunto, Letícia Lanz alerta que, especialmente nas classes mais baixas, a rejeição e expulsão de casa são comuns, levando muitas pessoas trans à situação de rua. A trajetória de Ariadne, que passou por violência escolar e prostituição compulsória antes de se tornar uma profissional na ONU, evidencia como a falta de oportunidades educacionais e laborais estrutura a vida das pessoas trans.

Por fim, o episódio explora a complexidade dos relacionamentos amorosos para pessoas trans. Relatos como os de Ariadne, que viveu relacionamentos abusivos e depois um amor transformador, e de Jonas, que manteve seu relacionamento com Natalie durante sua transição, mostram que o amor pode sobreviver e se transformar. Letícia Lanz conclui que o oposto do amor não é o ódio, mas o medo, e que a cura para o sofrimento das pessoas trans está em mais amor por si próprias, algo que movimentos e casas de acolhimento como a Casa 1 buscam fomentar.


Indicações

Filmes

  • Super Deluxe — Filme hindu com várias histórias interligadas; uma delas acompanha uma mulher trans que retorna para a família após anos afastada para fazer sua transição, explorando a repulsa social e o acolhimento familiar.
  • Diário de uma Paixão (The Notebook) — Indicado por Ju como um clássico sobre amor, disponível no Netflix. Foi mencionado como um ‘teste’ para seu marido e uma história que a tocou profundamente.
  • Pina (documentário) — Documentário sobre a coreógrafa Pina Bausch, indicado por Cris. Mostra a obra da artista que traduz a dor, solidão e vivência humana intensa através da dança, com uma energia ‘arrebatadora’.

Musicais

  • Hamilton (trilha sonora) — Musical indicado por Cris. A gravação do elenco original está disponível em plataformas de streaming. Conta a história de Alexander Hamilton, um imigrante fundador dos EUA, e conquistou o Grammy de melhor álbum de teatro musical.

Organizacoes

  • Casa 1 — Centro de acolhimento em São Paulo mencionado por Amélia Molino e Letícia Lanz como um local necessário para pessoas trans em situação vulnerável viverem sua realidade com menos sofrimento.
  • Casa Florescer — Outro centro de acolhimento em São Paulo citado por Amélia Molino como essencial para o apoio a pessoas trans.
  • Casa Nem — Casa de acolhimento no Rio de Janeiro coordenada por Indianara, mencionada por Letícia Lanz como um lugar onde pessoas trans são ‘energizadas’ e constroem amor por si próprias.

Podcasts

  • Plenai — Novo podcast da plataforma Plenai, indicado no bloco de anúncios. Mergulha em histórias reais ligadas aos pilares de qualidade de vida: corpo, mente, espírito, relações, contexto e propósito.

Series

  • Itaewon Class — Drama coreano da Netflix indicado por Cris. Rompe paradigmas ao incluir uma personagem trans em seu ‘squad’ diverso, humanizando sua jornada para conectar com um público mais amplo que pode estar tendo um primeiro contato com a temática.

Linha do Tempo

  • 00:10:13Introdução ao tema das vivências trans — As apresentadoras Ju e Cris anunciam que o episódio vai explorar as vivências trans. Elas introduzem a convidada principal, a psicanalista e escritora Letícia Lanz, que se define como uma pessoa transgênera que nasceu ‘na sociedade errada’. Letícia explica seu trabalho na clínica psicanalítica e sua paixão pela psicanálise.
  • 00:13:08Estrutura do episódio e primeiros relatos sobre identidade — As apresentadoras explicam que o episódio será dividido em quatro aspectos: identidade e corpo, família, trabalho/renda e relacionamentos. É introduzida Ariadne, pesquisadora e mulher trans, que compartilha seu pioneirismo na cirurgia de redesignação no Brasil, descrevendo o processo longo, burocrático e por vezes violento do protocolo médico da época.
  • 00:18:50Discussão sobre identidade de gênero e relação com o corpo — As apresentadoras citam um episódio anterior com um homem trans que não via a cirurgia como definidora de sua experiência. Perguntam a Letícia Lanz como se sabe que se tem um gênero diferente do designado ao nascer. Letícia explica que a identidade de gênero é um processo de identificação, não uma escolha, e que a relação com o corpo varia enormemente, não sendo a cirurgia uma necessidade universal.
  • 00:25:40Relato de Amélia Molino sobre sua transição — Amélia Molino, tradutora e mulher trans, narra sua jornada desde a descoberta na infância, passando pela repressão em um lar religioso, depressão, até encontrar apoio no marido (também trans) e iniciar a terapia hormonal pelo SUS. Ela destaca a importância do suporte psicológico e de centros de acolhimento como a Casa 1.
  • 00:31:14O impacto da aceitação familiar nas vivências trans — Inicia-se a discussão sobre família com o relato de Ariadne sobre sua mãe, que percebia sua identidade feminina desde cedo, mas vivia com medo. Letícia Lanz analisa que o apoio familiar é crucial, mas que na base da pirâmide social a tendência é a rejeição e expulsão, enquanto na classe média há casos de aceitação, ainda que com enfrentamentos sociais como na escola.
  • 00:41:24Relato de Rafael Coutinho, filho da Laerte — Rafael Coutinho, quadrinista e filho da cartunista Laerte, descreve o processo gradual de transição de seu pai, compartilhado em etapas íntimas com a família. Ele fala sobre seu medo inicial de que a personalidade dela mudasse, seu processo de desconstrução de preconceitos e a reeducação de seu olhar sobre mulheres trans, culminando em uma relação de proximidade e projetos artísticos compartilhados.
  • 00:47:22Desafios no acesso à educação e ao trabalho — Ariadne relata a violência e discriminação que sofreu na escola, sendo espancada e tendo sua prova do telecurso cancelada por assinar como Ariadne enquanto seu RG não estava retificado. Ela descreve a dificuldade extrema de conseguir emprego, levando-a à prostituição compulsória, antes de encontrar seu caminho na carreira acadêmica e depois na ONU.
  • 00:54:37Análise dos obstáculos estruturais no mercado de trabalho — Com base no dado de que 72% das pessoas trans não concluem o ensino médio, as apresentadoras questionam Letícia Lanz sobre o impacto nas oportunidades de vida. Letícia explica que, na base da pirâmide, a criança trans é violentada e expulsa da escola, sendo destinada à marginalização. No mercado de trabalho, as oportunidades se restringem a áreas como beleza ou, majoritariamente, à prostituição, com a situação piorando para pessoas pretas e periféricas.
  • 00:59:02Relacionamentos amorosos e a busca por acolhimento — Ariadne compartilha a história de seus dois relacionamentos: um abusivo com o pai de seu filho e outro transformador com Leonardo, que a ensinou que ela ‘merecia tudo’ e nunca deveria aceitar menos. Letícia Lanz reflete que o oposto do amor é o medo, e que a síndrome do impostor persegue muitas pessoas trans, dificultando relações genuínas. Ela critica estereótipos dentro e fora da comunidade.
  • 01:08:56Relato de Jonas sobre amor e transição ao lado da parceira — Jonas, homem trans, conta como conheceu sua namorada Natalie online, quando ambos se entendiam como lésbicas. Ele descreve os desafios iniciais quando começou a entender sua transexualidade, um ano depois de começarem a namorar. Com muita conversa, conseguiram se entender, e toda sua transição ocorreu com ela ao lado. Hoje formam um casal heterossexual e completaram oito anos juntos.

Dados do Episódio

  • Podcast: Mamilos
  • Autor: B9
  • Categoria: News
  • Publicado: 2020-07-31T23:06:45Z
  • Duração: 01:31:22

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Oferecimento Meu Peso Minha Jornada.

[00:00:03] Acesse a campanha e entenda a relação entre o peso e a saúde.

[00:00:11] Este podcast é apresentado por

[00:00:14] b9.com.br

[00:00:17] Mamileiros e mamiletes, sejam bem-vindos ao nosso momento semanal de Respeito e Empatia.

[00:00:35] Hoje é 30 de julho de 2020 e eu sou a Juvalauer.

[00:00:39] E eu aqui do seu lado sou Cris Bartz.

[00:00:43] Olha, esse é o Mamilos.

[00:00:45] O podcast que faz hoje…

[00:00:47] Jornalismo de peito aberto.

[00:00:49] Se prepara que hoje é dia de muita escuta e, ó, muito aprendizado.

[00:00:57] Bora pro recadinho dos nossos parceiros do Bradesco?

[00:01:00] Bora!

[00:01:01] A gente sempre fala aqui de ações que fazem parte do projeto Aliados pelo Respeito, né?

[00:01:06] A gente vai explicar o que é esse projeto.

[00:01:10] Em 2018, o Bradesco criou um movimento Aliados pelo Respeito internamente

[00:01:14] com o objetivo de discutir as perspectivas

[00:01:17] e a sua opinião sobre o que é o projeto Aliados pelo Respeito.

[00:01:17] E as pautas relacionadas à equidade de gênero, etnia, deficiência, universo LGBTQIA+,

[00:01:24] e muito mais, para ser sempre bem plural.

[00:01:28] Isso é muito legal, porque ser aliado pelo respeito é potencializar a voz de pessoas

[00:01:35] e oferecer o lugar que elas merecem estar para compartilhar os seus ideais.

[00:01:42] Mas aí você me pergunta, como é que isso rola na prática?

[00:01:45] É assim, ó.

[00:01:46] Internamente, eles têm os grupos de afinidade,

[00:01:49] onde um líder de cada frente atua ativamente com a área de recursos humanos

[00:01:53] para trazer discussões sobre as mais diversas pautas.

[00:01:56] E nas redes sociais, o projeto está sempre junto das campanhas

[00:02:00] para garantir também na publicidade a desconstrução dos vieses antigos.

[00:02:05] Sabe?

[00:02:06] Opa, é aí que eles trabalham com criadores de conteúdo

[00:02:10] para ter sempre representatividade de pessoas trans, indígenas, negras,

[00:02:16] de classes sociais diferentes e com deficiências.

[00:02:20] E vai muito além.

[00:02:22] Não é só para falar das suas características,

[00:02:25] mas sobre o que eles amam, o que eles fazem, o que eles vivem e o que eles são.

[00:02:32] Houve só um trechinho de uma campanha em 2019 com uma família de pessoas GLBTQIA+.

[00:02:39] Não existe dizer que uma mãe não vai aceitar um filho porque ele é gay.

[00:02:43] Qual é a diferença?

[00:02:43] Como é que tu vai…

[00:02:46] Pensar uma criança por elas, né, entre aspas, não ser como os outros filhos?

[00:02:52] Não existe isso.

[00:02:54] Meu filho, minha vida, minha pele.

[00:02:58] Eita, que até arrepia. É lindo demais, né?

[00:03:01] Opa, é muito.

[00:03:03] E para não perder nada sobre esse projeto, aí você já sabe, né?

[00:03:09] Olho vivo nas redes sociais e no YouTube do Bradesco.

[00:03:13] O pessoal retrata tudo lá, não deixa passar?

[00:03:16] Nenhum tiquinho despercebido.

[00:03:18] Vai lá, acompanha e seja também você um aliado pelo respeito.

[00:03:28] Vamos para a coluna do Perífio Connection?

[00:03:31] Hoje é dia de ouvir o jornalista Jefferson Barbosa, que faz parte do Voz da Baixada.

[00:03:36] É sempre bom ouvir o Jeff por aqui.

[00:03:38] Ele veio falar dessa vez sobre o projeto LAB do Perífio Connection,

[00:03:43] feito em parceria com o Instituto Clima e Estudio,

[00:03:46] Eles formaram uma turma para aprender sobre conteúdos a respeito de sustentabilidade nas periferias

[00:03:54] e mostrar tudo para a gente agora.

[00:03:56] Bora ouvir.

[00:04:00] E aí, pessoal, tudo bom?

[00:04:01] Aqui é Jefferson Barbosa, do Perífio Connection.

[00:04:04] A gente vai falar sobre o LAB Perífio Connection, Clima e Periferias.

[00:04:09] Há uns meses atrás, a gente esteve aqui divulgando as inscrições, falando sobre esse processo,

[00:04:14] que é um processo de formação.

[00:04:16] Mas um pouco diferente dos processos de formação tradicionais.

[00:04:19] É um LAB com uma turma jovem, moradores de periferias, negros, mulheres, LGBTs,

[00:04:25] e que são comunicadores, comunitários.

[00:04:28] A gente juntou uma galera para passar os últimos três meses

[00:04:31] debatendo diferentes temas acerca do clima, desse debate sobre o meio ambiente.

[00:04:36] Mas tentando trazer uma perspectiva diferente.

[00:04:39] Então os pesquisadores, os produtores rurais, os professores,

[00:04:42] os ativistas que a gente trouxe para o espaço do LAB,

[00:04:46] trouxeram uma perspectiva que não as convencionais nos espaços onde se debate o clima e o meio ambiente.

[00:04:51] Essa iniciativa só foi possível graças a uma parceria nossa com o Instituto Clima e Sociedade, WICS.

[00:04:57] Nesse formato online, por conta da pandemia, a gente conseguiu ter participantes do Rio de Janeiro,

[00:05:03] de São Gonçalo, da Baixada Fluminense e também de outros estados.

[00:05:07] Gente do Nordeste, gente da região Centro-Oeste que participaram e que contribuíram muito para o resultado final.

[00:05:13] E um desses resultados a gente vai divulgar aqui hoje.

[00:05:15] A gente vai apresentar dois trechos de dois podcasts.

[00:05:18] Um é o Asas da Liberdade, esse feito pela Tainara Santos, pela Janaína Santana e pela Mariana Galdino.

[00:05:25] E pensando agora a questão do meio ambiente, o ministério com o Ricardo Salles,

[00:05:30] que fica cada vez mais visível como um interesse do agronegócio, dos latifundiários, da bancada ruralista.

[00:05:38] Fica cada vez mais evidente esse interesse de poder realmente adentrar dentro dessas instituições,

[00:05:43] e poder adentrar dentro dessas…

[00:05:45] Dentro dessas lideranças, né?

[00:05:47] E o outro é o Ecoou o Papo, feito pela Lorena Frois, a Gabriela Paiva e a Raissa Faria e o William Torres.

[00:05:54] Penso até que nem a comunidade em si, mas os processos em que essas comunidades foram inseridas historicamente.

[00:06:02] Porque aí a gente vai ver um processo que a gente consegue responsabilizar, que são os processos históricos.

[00:06:12] Escutem, acompanhem e aprofundem.

[00:06:15] Os debates que surgem dentro dessa questão do meio ambiente.

[00:06:18] Só que nem sempre, por exemplo, faz o recorte de raça, quando fala de racismo ambiental, que é um tema muito pouco conhecido para muitas pessoas.

[00:06:24] E o quanto que esses podcasts também são resultados de discussões que, às vezes, são esquecidas, são deixadas de lado.

[00:06:31] E que essa galera que se juntou no Lab Peripheral Connection trouxe, né?

[00:06:34] Então, essa é a nossa dica de hoje, né? Essa é a nossa sugestão.

[00:06:39] O debate climático, ele é muito importante e ele tem camadas que não são tão vistas, que não são tão conhecidas.

[00:06:44] E que precisam também ser as vozes protagonistas, né?

[00:06:48] E que precisam também disputar essa narrativa que é o que se propõe o Peripheral Connection.

[00:06:52] Muito obrigado e até a próxima.

[00:07:03] No país onde mais de 5 milhões de crianças não têm o nome do pai na certidão de nascimento,

[00:07:10] a marca Natura lançou uma campanha do Dia dos Pais,

[00:07:13] com a participação de Tami Miranda, um pai presente e apaixonado que é um homem trans

[00:07:20] e que foi alvo de ofensa nas redes sociais.

[00:07:23] Realmente, a Natura não precisa colocar paternidade assim, é melhor repensar.

[00:07:28] Eu já cancelei a minha compra na Natura.

[00:07:30] Dia dos Pais é para quem é do sexo masculino? Ele nasceu com sexo feminino e vai morrer assim?

[00:07:35] Até o pastor Silas Malafaia também se manifestou.

[00:07:39] A Natura querer colocar mulher como símbolo de pai

[00:07:42] é problema dela.

[00:07:44] Eu não sou obrigado a aceitar uma aberração dessas.

[00:07:47] Contrariando esse barulho nas redes sociais,

[00:07:50] as ações da Natura fecharam o dia em alta de 6,73%,

[00:07:55] registrando a maior variação positiva entre os papéis que compõem a Ibovespa,

[00:08:00] principal índice da bolsa de valores brasileira.

[00:08:03] Uma das explicações mais usadas para esse discurso de ódio

[00:08:07] é o fato de pessoas trans agirem contra a natureza.

[00:08:11] Porém, essa semana o perfil Biodiversidade Brasileira

[00:08:15] fez um fio no Twitter refutando essa platitude

[00:08:20] de que mudar de gênero contraria a natureza.

[00:08:24] Existem espécies de peixes e de sapos que mudam de sexo ao longo da vida.

[00:08:30] A gente não pode confundir comum com natural.

[00:08:34] Natural é nascer, crescer, reproduzir e morrer.

[00:08:38] O resto é construção.

[00:08:41] Faz parte da história e das narrativas que criamos e que nos fazem humanos.

[00:08:47] Ao que parece, o mundo do racional não dá conta de tudo que humano pode ser.

[00:08:52] E nesse momento, a gente recorre à poesia.

[00:08:55] Nesse caso, a poesia de Kleber Mello.

[00:09:00] Entre transtornos de poesias e melodias, me reconheço trans.

[00:09:07] Transviado. Em vias paralelas.

[00:09:10] Transbordo. No que já não cabe em mim.

[00:09:13] Transmigro. A cada manhã.

[00:09:16] Transporto. Por todos os portos.

[00:09:19] A paz das descobertas.

[00:09:21] Transmito. Por todas as bocas.

[00:09:24] O enfado da certeza alcançada.

[00:09:27] Transmuto o que jazia calado.

[00:09:30] Transformando em brisa toda tempestade.

[00:09:34] Como um arauto translúcido a se descobrir na viagem.

[00:09:38] Transformo em cores o breu dos meus abismos.

[00:09:42] Transpondo algo melhor a cada dia.

[00:09:45] Transpiro quando só. No calor que irradia.

[00:09:49] Transeunte da vida.

[00:09:51] Me redescubra. Vivo.

[00:09:57] Então hoje, a nossa missão é embarcar em uma jornada.

[00:10:01] Em outras vivências.

[00:10:03] Para encontrar nas dores vividas.

[00:10:06] Nos desafios vencidos à humanidade que nos conecta.

[00:10:10] Hoje, a gente vai falar de vivências trans.

[00:10:13] Vem com a gente.

[00:10:20] E para falar disso, a gente tem uma convidada muito, muito, muito especial.

[00:10:24] A gente recebe aqui Letícia Lanz. Muito bem-vinda.

[00:10:28] Quem é você na fila do pão, Letícia?

[00:10:31] Eu sou uma pessoa a mais na fila do pão. Não sou ninguém especial.

[00:10:36] Eu não nasci no corpo errado.

[00:10:38] Nasci na sociedade errada.

[00:10:40] Não há nada de errado comigo.

[00:10:42] Nunca houve.

[00:10:43] Eu sou uma pessoa transgênera.

[00:10:45] Porque eles acham que eu transgrido as normas de gênero que foram criadas há 10 mil anos.

[00:10:51] Para poder submeter as mulheres e gerar dominação masculina.

[00:10:56] Eu não sou ninguém especial.

[00:10:58] Eu sou apenas…

[00:11:00] Não sou homem, nem mulher, nem trans.

[00:11:02] Sou Letícia Lanz. Uma construção de mim mesma.

[00:11:05] As ordens.

[00:11:06] Letícia, por favor, conta um pouquinho do seu papel como escritora, psicanalista, mestre em sociologia.

[00:11:12] Então, hoje a clínica é onde eu atuo.

[00:11:17] A clínica psicanalítica.

[00:11:19] Eu sou apaixonada com a psicanálise.

[00:11:22] E a clínica é o meu ganha-pão e é a minha forma de participar do mundo.

[00:11:29] Esse é o meu trabalho.

[00:11:31] Eu escrevo sobre a minha vida.

[00:11:33] Eu escrevo sobre a realidade.

[00:11:36] Eu me considero hoje não uma pensadora.

[00:11:39] Porque a posição que eu tive que chegar por força da minha identidade gênera.

[00:11:46] Me levou a passar a vida pensando nas coisas.

[00:11:51] Tendo que me refugiar em mim mesma.

[00:11:54] Com medo do que as pessoas poderiam fazer comigo.

[00:11:59] O que é transgênero?

[00:12:02] Eu estava dizendo para você que infelizmente nós não temos uma homogeneidade de termos.

[00:12:10] Nem de termos, nem de abordagens no país.

[00:12:13] Eu escrevi o único livro que tem sobre estudos transgêneros no país.

[00:12:20] A própria palavra transgênero aqui ela é totalmente incompreendida.

[00:12:25] Transgênero é apenas a pessoa que transgride as normas de gênero.

[00:12:31] E aí você tem N transidentidades.

[00:12:35] Como travesti, transexual, crossdresser, drag queen, andrógeno, não binários.

[00:12:42] A identidade é a pessoa que se dá.

[00:12:45] Todas essas pessoas padecem porque elas ferem a norma.

[00:12:50] O dispositivo binário de gênero.

[00:12:53] Esse dispositivo é aquele que transforma macho e fêmea em homem e mulher.

[00:12:59] E deixa o intersexuado no meio do caminho.

[00:13:03] Com a ajuda da Letícia, a gente vai navegar por quatro aspectos da experiência transgênero.

[00:13:08] O despertar para a identidade transgressora e a relação com o corpo.

[00:13:13] A relação com a família.

[00:13:15] Os desafios para se ter acesso a renda e trabalho.

[00:13:18] E por fim, os relacionamentos amorosos.

[00:13:21] Quem vai abrir cada capítulo é a Ariadne.

[00:13:23] Pesquisadora, pedagoga, doutoranda em psiquiatria e psicologia médica na Unifesp.

[00:13:28] E assessora de apoio comunitário na Unaids.

[00:13:31] O braço da ONU para aides e mulher trans.

[00:13:34] Ela é uma mulher extraordinária que compartilhou com muita generosidade a sua trajetória com a gente.

[00:13:40] Para dar o ponto de partida de cada discussão.

[00:13:43] Além disso, a gente vai contar com a experiência de transição da Amélia Molino.

[00:13:47] Que é tradutora, escritora, designer de narrativa focada em videogames.

[00:13:51] A gente também vai conhecer a perspectiva de um familiar nesse processo de transição.

[00:13:56] Com o relato do Rafael Coutinho.

[00:13:57] Filho da Laerte.

[00:13:59] E mergulhar numa história de amor e acolhimento com o relato do Jonas.

[00:14:02] Namorado da Nátaly Nery.

[00:14:11] A Ariadne é uma das pioneiras na cirurgia de redesignação no Brasil.

[00:14:15] Ela conta pra gente um pouco do processo interno e institucional para se tornar a mulher que é hoje.

[00:14:21] É um processo longo. É muita luta.

[00:14:23] Mas vale a pena?

[00:14:27] Eu escutei na rádio a notícia de que o Conselho Federal de Medicina tinha criado uma resolução

[00:14:34] que possibilitaria que pessoas trans fossem ao Hospital das Clínicas e fizessem acompanhamento até a cirurgia

[00:14:41] que só poderia acontecer depois dos 21.

[00:14:44] Eu sou uma das pioneiras na questão trans aqui no Brasil.

[00:14:49] Eu fui uma das primeiras a entrar no protocolo, indo de pesquisa do Conselho Federal de Medicina.

[00:14:55] Foi bem complicado ter acesso a tudo, né?

[00:14:58] Tinha um processo de avaliação que era praticamente insano.

[00:15:02] As pessoas ficavam avaliando, muito estigmatizando mesmo, sabe?

[00:15:06] A coisa do que é ser travesti, do que é ser uma pessoa trans.

[00:15:10] Tentando marginalizar, meio que higienizando as identidades travestis

[00:15:15] como se elas não fossem adaptáveis a uma vida social, sabe?

[00:15:19] Então, na época, a gente precisava passar por uma avaliação muito rigorosa.

[00:15:24] Depois dessa avaliação, a gente passava por 10 anos passando por terapia

[00:15:29] como se os outros tivessem direito de dizer se a gente é ou não trans,

[00:15:34] se a gente tinha ou não direito a uma cirurgia.

[00:15:37] Eu fiz a cirurgia de redesignação sexual, cirurgia de prótese mamária

[00:15:41] e a maior parte do processo de construção pessoal, né?

[00:15:46] Ele foi permeado muito por outras questões que não a estética.

[00:15:50] Principalmente por questões de valores e de entendimentos, assim.

[00:15:53] O que mais me deixa feliz nesse processo

[00:15:57] é que eu entendo o quanto a cirurgia foi positiva pra mim.

[00:16:00] A genitália era algo que me afetava demais.

[00:16:03] Passar pela cirurgia foi um processo de construção do meu eu individual

[00:16:09] que transpõe a questão do corpo.

[00:16:11] Mas isso não necessariamente vai acontecer com todas as pessoas.

[00:16:15] Não necessariamente as pessoas vão se sentir recompensadas

[00:16:20] a partir de uma mudança corporal específica.

[00:16:23] No meu caso isso foi importante.

[00:16:25] No meu caso isso foi muito válido.

[00:16:28] Mas eu reconheço que depois da cirurgia o caminho foi ainda mais doloroso, assim.

[00:16:34] Porque na minha época a documentação só era…

[00:16:39] A gente só retificava a documentação, o sexo de nascimento e tudo mais

[00:16:44] depois que fazia a cirurgia e passava por várias perícias no Imesc.

[00:16:51] E essas perícias, né?

[00:16:52] Pelo menos a perícia que eu passei no meu caso foi extremamente violenta.

[00:16:57] Com isso eu não critico os aliados que encabeçaram a saúde trans no Brasil.

[00:17:02] Todos os médicos e todos os profissionais de saúde

[00:17:06] que encabeçaram essa luta no Brasil foram pioneiros.

[00:17:10] Foram graças a eles que a gente teve tantos avanços.

[00:17:14] Ai, eu me sinto muito feliz.

[00:17:16] Muito feliz hoje.

[00:17:17] Conforto com a minha própria imagem? Eu tenho, sim.

[00:17:20] Mas é engraçado, né?

[00:17:21] Que a gente sempre acha alguma coisinha que a gente queria melhorar, mudar.

[00:17:29] Quando a gente fez o episódio do Mamilos de todas as cores do arco-íris

[00:17:33] que a gente recebeu um homem trans aqui

[00:17:36] foi muito interessante e quebrador de paradigmas pra gente

[00:17:41] dele falar que não é definidor da experiência transgênero a cirurgia.

[00:17:47] Que você não precisa fazer a cirurgia

[00:17:49] pra ser uma pessoa trans.

[00:17:53] E que ele, por exemplo, era um homem com vagina.

[00:17:57] E que ele não tinha problema nenhum com a vagina dele.

[00:18:00] Que ele não sentia, porque a gente vê muitos relatos, né?

[00:18:03] Pra citar uma obra pop que a gente já indicou aqui no Mamilos, que é Pose.

[00:18:09] Uma das personagens fala que ela tinha uma questão com o pênis dela que era incômoda pra ela.

[00:18:17] Né? Então ela não queria.

[00:18:18] Ela precisava muito fazer a cirurgia.

[00:18:20] Ela fez a cirurgia e ela ficou muito feliz depois da cirurgia.

[00:18:22] Ela se reconhecia.

[00:18:24] Ela era melhor, mais feliz, mais ela mesma depois da cirurgia.

[00:18:28] O que esse convidado do Mamilos trouxe é que isso não é definidor da experiência trans.

[00:18:35] Você não precisa ter essa experiência de

[00:18:37] ah, eu nasci aprisionado num corpo que eu não reconheço.

[00:18:41] Ele falou, não, eu reconheço o meu corpo, eu reconheço a minha vagina.

[00:18:44] Só que eu sou um homem.

[00:18:46] Eu sou um homem que tem vagina.

[00:18:47] Queria que você falasse um pouco pra gente sobre isso.

[00:18:50] Sobre essas questões com o corpo.

[00:18:52] Como é que a gente sabe?

[00:18:54] Como é que você sabe que você tem um gênero que é diferente do designado no seu nascimento?

[00:19:00] E qual é essa relação com o seu corpo?

[00:19:03] Identidade de gênero não é definida por nenhuma carga genética.

[00:19:09] Ela é definida por um processo que nós chamamos na psicanálise de identificação.

[00:19:16] A identificação é um processo diferente de escolha.

[00:19:21] Eles usam muito esse termo escolha e por isso mesmo até dizem opção sexual, opção de gênero.

[00:19:29] Mas aqui não existe escolha.

[00:19:32] O que nós temos aqui é um processo de identificação.

[00:19:37] Que é certamente um dos processos mais pesados, mais fortes e mais definidores que nós temos

[00:19:45] na constituição da subjetividade de cada um.

[00:19:50] Na forma como cada pessoa se torna sujeito da história.

[00:19:55] Então nós não sabemos exatamente como a subjetivação acontece.

[00:20:02] De que forma ela opera.

[00:20:04] Porque o número de variáveis é muito grande.

[00:20:06] Entrando inclusive a questão do corpo.

[00:20:10] Entrando toda a carga emocional.

[00:20:14] A carga cultural que ela recebe dos pais, da escola.

[00:20:19] Mas a identificação acontece.

[00:20:22] O processo de identificação uma vez que acontece ele domina o indivíduo totalmente.

[00:20:27] Eu queria entender um pouquinho desse processo que você se entende

[00:20:32] e você começa a abraçar quem você é.

[00:20:35] Então eu acredito que muitas vezes a gente deva olhar no espelho e falar

[00:20:42] Isso é coisa da minha cabeça.

[00:20:44] Não é possível.

[00:20:46] De onde eu estou tirando essa história?

[00:20:49] E aí quando a pessoa percebe que existe realmente uma necessidade de transgredir

[00:20:58] Me parece que o medo da solidão.

[00:21:01] De não vou me aceitar.

[00:21:03] Eu vou perder tudo que eu tenho.

[00:21:06] É um grande divisor de águas entre ir para esse lugar que te pertence.

[00:21:12] Ou ficar nesse lugar que te foi dado.

[00:21:14] Eu queria Letícia que a gente conversasse um pouquinho sobre esse processo.

[00:21:19] Desse amor clandestino.

[00:21:21] Por quem você é e por quem você deveria ser.

[00:21:25] É terrível.

[00:21:27] Em breve resolvo.

[00:21:29] Eu vivi isso a vida inteira.

[00:21:31] Só que ao contrário do que você diz.

[00:21:33] Eu olhava no espelho e não dizia.

[00:21:35] Esse não sou eu.

[00:21:37] Eu dizia ao contrário.

[00:21:38] Esse sou eu.

[00:21:40] Mas é um eu que a sociedade tem.

[00:21:42] A sociedade não reconhece como tal.

[00:21:44] Então quando eu conheci a minha companheira.

[00:21:49] Com quem eu vivo até hoje.

[00:21:51] Foi fantástico.

[00:21:52] Porque ela por ser arquiteta, artista plástica.

[00:21:57] Então ela sempre teve uma visão bem descolada da vida.

[00:22:01] E eu era um executivo.

[00:22:04] Então ela diz assim.

[00:22:07] Eu acho que eu abri a porteira para você.

[00:22:10] Porque ela permitia que eu me identificasse no espelho.

[00:22:16] Com o cara que estava do lado de fora.

[00:22:19] Então essa é a questão da identificação.

[00:22:23] Porque para muita gente é básico mudar.

[00:22:28] Tirar o pênis.

[00:22:29] Colocar uma vagina.

[00:22:31] Fazer essa cirurgia de readequação.

[00:22:34] Se torna básico.

[00:22:35] É uma necessidade que não se explica.

[00:22:38] A transição ela tem estágios.

[00:22:40] Ela tem graus de profundidade.

[00:22:43] Ela tem graus de aceitação.

[00:22:45] Ela depende de muitos traumas.

[00:22:47] Ela depende de uma coisa chamada desejo.

[00:22:50] Que também não é respeitado.

[00:22:52] Olha, quando eu comecei a transicionar.

[00:22:54] Eu tinha, até pouco tempo ainda tinha lá em casa.

[00:22:58] Um quarto que eu chamava de cafofa.

[00:23:00] Onde você tinha todas as roupas que eu não pude usar ao longo da vida.

[00:23:05] Em fases distintas.

[00:23:06] Então eu tinha minicintas.

[00:23:07] Você conhece minicinto?

[00:23:09] É uma minissaia que é do tamanho de um cinto.

[00:23:13] Eu tinha miniblusas.

[00:23:15] Tinha minicintos.

[00:23:16] Tinha de tudo que você pudesse imaginar.

[00:23:19] Porque você fica meio desvairado na transição.

[00:23:23] Quer dizer, com o que é que eu vou me identificar?

[00:23:26] Então eu vou ou não fazer uma terapia hormonal.

[00:23:32] Para poder acabar com os pelos.

[00:23:35] No meu caso é uma beleza.

[00:23:36] Porque eu nunca tive pelo.

[00:23:37] Então o que é que eu vou fazer?

[00:23:39] Vou tirar o pomo de Adão.

[00:23:41] Eu nunca tive.

[00:23:42] Nasci sem ele.

[00:23:43] Todas essas coisas inclusive.

[00:23:46] Entram na composição de uma identidade de gênero.

[00:23:49] Porque o modelo é fornecido pela sociedade.

[00:23:52] Aí você tem uma questão de ordem prática.

[00:23:54] Que é um troço que nós chamamos de passabilidade.

[00:23:58] O que nós vemos na verdade é um show de horrores.

[00:24:02] Porque a passabilidade é muito mais importante.

[00:24:05] Muito mais em função das suas atitudes.

[00:24:08] Do seu comportamento no dia a dia.

[00:24:11] Do que do corpo que você carrega.

[00:24:13] Então existe inclusive muita doutrinação.

[00:24:17] Porque há toda uma indústria de transformação.

[00:24:20] Então eu não serei mulher enquanto eu não fizer uma cirurgia de transformação.

[00:24:26] Não é verdade.

[00:24:28] Não é verdade.

[00:24:29] Eu não serei homem se eu não tenho um pênis.

[00:24:32] Um grande homem que eu conheci.

[00:24:34] Meu amigo.

[00:24:36] Uma pessoa assim.

[00:24:38] Fascinante.

[00:24:39] Pênis para ele nunca foi problema.

[00:24:42] Assim como não é aqui para o Tame.

[00:24:45] Eles confundem hoje inclusive sexualidade com reprodutividade.

[00:24:50] Sexualidade humana é para o prazer.

[00:24:53] Uma palavra maldita entre nós.

[00:24:55] Sexualidade é para prazer e gozo.

[00:24:58] Reprodutividade é para fazer menino.

[00:25:00] E fazer menino não precisa mais nem de pênis.

[00:25:03] Nem de penetração.

[00:25:05] E brevemente não vai precisar nem de vulva.

[00:25:09] Isso vai ser feito por máquinas.

[00:25:11] Agora você imagina.

[00:25:13] Numa época em que há clínicas de reprodução humana por todo lado.

[00:25:18] Operando de todas as maneiras mais loucas.

[00:25:22] As pessoas estão aí.

[00:25:25] Não tem pau.

[00:25:29] Meu Deus.

[00:25:30] Isso é de um atraso que não tem tamanho.

[00:25:32] Então vamos encerrar esse bloco com o relato da Amélia Molino.

[00:25:40] Meu nome é Amélia Molino.

[00:25:42] Sou tradutora, escritora, designer de narrativa focada em videogames.

[00:25:46] E não por acaso também sou uma mulher trans.

[00:25:49] É difícil pontuar quando realmente percebi quem eu era.

[00:25:53] O primeiro contato que eu tive com a ideia de ser trans aconteceu quando eu tinha uns 10, 11 anos.

[00:26:00] Eu estava fazendo uma lição de casa, recortando uma revista para aula.

[00:26:04] E no meio das perguntas tinha uma matéria sobre a cirurgia de redesignação de uma jovem na Alemanha.

[00:26:10] E isso me fascinou.

[00:26:12] Eu não entendia porque eu estava me sentindo tão feliz.

[00:26:15] Talvez naquele momento eu tenha percebido pela primeira vez que mudar era possível.

[00:26:21] Lembro de ter mostrado a matéria para minha professora e ela ter reagido com nojo.

[00:26:26] Ela disse que era melhor jogar aquelas páginas fora.

[00:26:28] Para ninguém ver.

[00:26:29] Eu não joguei.

[00:26:31] Eu fiz o oposto.

[00:26:32] Guardei a revista e continuei lendo a mesma matéria várias e várias e várias vezes.

[00:26:39] Eu queria manter aquela ideia viva na minha mente.

[00:26:42] Mas com o tempo, mudar parecia inalcançável para mim.

[00:26:47] Conforme eu ficava mais velha, tentava suprimir o desejo.

[00:26:50] A vontade de ser outra pessoa.

[00:26:52] Eu lembro de provar as roupas da minha mãe e da minha irmã quando não tinha ninguém em casa.

[00:26:57] Eu era bem andrógina quando era criança.

[00:26:58] E me ver através de uma outra lente naquelas roupas me causava uma alegria inexplicável.

[00:27:07] Ao mesmo tempo, eu ficava mal por sentir uma coisa tão boa.

[00:27:12] Eu fui criada com um lar muito religioso e um pai abusivo que saiu de casa depois de uma briga comigo quando eu tinha 18 anos.

[00:27:22] Eu não tive mais contato com ele.

[00:27:24] Esse cenário de culpa contribuiu para que no ensino médio eu pudesse me sentir mais feliz.

[00:27:26] Esse cenário de culpa contribuiu para que no ensino médio eu pudesse viver uma vida que não era minha.

[00:27:31] Mas que eu via como uma, entre aspas, vida normal.

[00:27:35] Com 20 anos, eu me sentia completamente vazia.

[00:27:38] Sem motivo para existir.

[00:27:40] Nenhuma conquista parecia ser minha de verdade.

[00:27:43] Nada que eu fazia tinha real valor para mim.

[00:27:46] Nessa época, passei a acompanhar algumas discussões da comunidade trans.

[00:27:50] Comecei a ter contato com pessoas que passaram por transições.

[00:27:54] E fui me informando sobre os tratamentos.

[00:27:56] Mas eu só observava.

[00:27:58] Eu tinha muito medo.

[00:28:00] Achava que não podia confiar em ninguém para falar dos meus sentimentos.

[00:28:03] Então, eu conheci o homem que hoje é o meu marido.

[00:28:06] O meu marido também é uma pessoa trans.

[00:28:08] Conheci o meu marido, Alan, quando ele estava começando a terapia hormonal.

[00:28:12] O contato que eu tive com ele foi muito importante nessa fase que eu estava.

[00:28:16] Ali eu vi o desabrochar de uma pessoa que se tornava cada vez mais feliz.

[00:28:21] Alguém que finalmente ganhava uma vida real.

[00:28:23] Acompanhar o processo dele me fez ter um contato mais profundo com o meu verdadeiro eu.

[00:28:30] Ao mesmo tempo que eu me encontrava, eu vivia um momento de muito estresse.

[00:28:35] Eu estava no auge da depressão e da ansiedade.

[00:28:38] Na época, eu decidi abrir o jogo para minha mãe e meu irmão.

[00:28:41] Eu fiquei apavorada só de imaginar ser rejeitada por eles.

[00:28:45] Mas eu fui aceita.

[00:28:47] E apesar de eles não entenderem completamente, me acolheram.

[00:28:51] De cara, eu perguntei para eles.

[00:28:53] Eu busquei apoio psicológico para lidar com a ansiedade.

[00:28:56] Que era enorme.

[00:28:58] No começo foi bom. Eu falava sobre muita coisa.

[00:29:00] Mas eu não tinha contado para minha terapeuta que eu era trans.

[00:29:04] A terapia evoluiu.

[00:29:06] E quando eu finalmente contei para ela, foi péssimo.

[00:29:09] Ela questionou se eu não estava, entre aspas, inventando coisa para me vitimizar.

[00:29:14] Eu não tinha mais como continuar ali.

[00:29:17] Então, eu procurei apoio em outros lugares.

[00:29:20] Fui atrás do Ambulatório de Generalidades da Santa Casa de São Paulo.

[00:29:24] Que é um serviço voluntário. Nem sempre tem vaga.

[00:29:27] Eu entrei num grupo de terapia voltado para pessoas trans.

[00:29:31] E no ambulatório, comecei os primeiros passos para me apresentar para o mundo como eu realmente era.

[00:29:36] No grupo, eu percebi que não viver a vida que eu queria era exatamente o que me causava tanta ansiedade.

[00:29:43] Nesse meio tempo, eu consegui indicação para fazer tratamento hormonal pelo SUS.

[00:29:48] O programa da Santa Cecília.

[00:29:51] A fila de espera para uma vaga é grande.

[00:29:53] Mas, pelo menos, é uma opção gratuita.

[00:29:56] Agendei. Esperei.

[00:29:58] Em 2018, dei início à minha terapia hormonal.

[00:30:02] De lá para cá, tudo mudou.

[00:30:05] A minha vida deu um salto.

[00:30:07] Eu vi o meu corpo se transformar.

[00:30:09] A cada mês que passava, eu tirava uma foto para ver quanto eu tinha mudado.

[00:30:14] Conforme o meu corpo mudava,

[00:30:16] a imagem que eu via no espelho,

[00:30:17] me deixava mais e mais feliz.

[00:30:20] E a minha cabeça também ia se recuperando.

[00:30:23] Ter suporte psicológico e o mínimo de acolhimento é fundamental na transição.

[00:30:28] Eu sou uma privilegiada. Eu tive apoio.

[00:30:31] Eu não sou a regra.

[00:30:33] Dando uma volta pela internet,

[00:30:35] a gente se depara com muitos relatos de violência familiar e exclusão social.

[00:30:39] Por isso, centros de acolhimento como o Casa 1 e a Casa Florescer,

[00:30:43] ambos em São Paulo,

[00:30:45] são tão necessários,

[00:30:46] para que a pessoa trans em situação mais vulnerável

[00:30:49] possa viver sua realidade sem passar por tanto sofrimento ou negligência.

[00:30:54] Hoje eu sou feliz.

[00:30:56] Me tornei uma pessoa plena no momento em que comecei a viver a vida que realmente me pertencia.

[00:31:01] Ser trans te ensina a se cuidar na marra.

[00:31:04] Você entende que precisa se importar com quem você é.

[00:31:12] Vamos falar de família agora.

[00:31:14] A gente começa com um relato da Ariadne

[00:31:16] sobre como esse despertar da transgressão de gênero

[00:31:18] foi acolhido pela família dela.

[00:31:20] A minha mãe conta que quando eu tinha dois aninhos de idade

[00:31:23] ela já percebia o quanto eu era diferente

[00:31:25] e ela já enxergava que eu tinha uma alma feminina,

[00:31:31] uma expressão feminina muito forte.

[00:31:33] Eu mostrava pra ela que eu não gostava das coisas do gênero masculino,

[00:31:37] que eu não queria ser identificada como menino.

[00:31:40] E quando a minha irmãzinha nasceu,

[00:31:42] isso ficou muito mais forte.

[00:31:44] Aí eu tinha uma referência, não só corpórea,

[00:31:47] mas também uma referência de cuidado,

[00:31:49] de cuidar da outra pessoa.

[00:31:51] Minha irmã foi a pessoa mais próxima da minha vida durante toda a vida.

[00:31:56] A minha mãe percebia essas coisas com um certo receio

[00:31:59] depois que meu padrasto chegou em casa.

[00:32:02] Isso começou também a ser mais motivo de chacota.

[00:32:05] Você imagina uma criança de sete anos sendo chacoteada

[00:32:08] por coisas que fazia naturalmente.

[00:32:10] Eu era reprimida de todas as formas.

[00:32:12] Tudo que era natural pra mim,

[00:32:14] era um erro absurdo que eu estava cometendo.

[00:32:17] E foi meio que assim que surgiu a consciência

[00:32:20] de que eu era uma pessoa trans

[00:32:22] e que eu não cabia no gênero que tinha sido designado pra mim ao nascer.

[00:32:27] Era uma época que não se falava nada a respeito.

[00:32:31] Era muito difícil a gente ver pessoas que se mostravam

[00:32:35] e que demonstravam que eram felizes assim.

[00:32:39] A gente tinha muita informação da marginalidade

[00:32:42] que chegava às pessoas por serem diferentes,

[00:32:46] por serem trans, por serem gays.

[00:32:48] Então eu me vejo crescendo a partir dessa década, né?

[00:32:53] Já uma expressão feminina muito grande

[00:32:56] e um medo que me acompanhava desde sempre

[00:32:59] de que isso pudesse ser algo errado,

[00:33:02] de que isso pudesse machucar a minha família.

[00:33:05] Eu acho que eu poderia ter tido mais apoio na minha família,

[00:33:09] mas eu entendo que devido à pobreza,

[00:33:12] e à dificuldade que a gente vivia na época,

[00:33:16] a minha mãe não conseguia dar mais atenção pra mim.

[00:33:20] Ela não conseguia oferecer mais pra mim.

[00:33:22] Mas os poucos momentos que eu tive do lado dela

[00:33:25] e que foram cruciais,

[00:33:27] pra que valores fossem criados dentro de mim

[00:33:30] e eu pudesse seguir esses valores,

[00:33:32] eu tive apoio de amigos, da minha avó principalmente.

[00:33:35] Morei com a minha avó.

[00:33:37] A gente ficou juntas desde os 13 anos de idade até os 18.

[00:33:41] Foi quando ela faleceu com câncer.

[00:33:44] Eu lembro de ter sofrido muito a perda dela.

[00:33:48] Minha avó era uma mulher muito pra frente do tempo dela.

[00:33:53] Ela criou os filhos sozinha.

[00:33:56] Era uma lutadora.

[00:33:58] Ela, enfim…

[00:34:00] O maior amor, né?

[00:34:04] O maior amor que eu pude ter foi dela.

[00:34:07] A gente se encantou tanto pela jornada da Ariadne

[00:34:10] porque ela é feita de rejeição e amor,

[00:34:12] de preconceito, mas também de perdão e reconstrução.

[00:34:15] Foi depois de ter tido um processo de reconciliação com a minha família.

[00:34:21] Eu passei pela cirurgia.

[00:34:23] Eu fui uma das primeiras pessoas a realizar a cirurgia aqui no Brasil, né?

[00:34:27] Pelo Hospital das Clínicas em São Paulo.

[00:34:29] E pra mim foi uma redescoberta da minha mãe

[00:34:32] depois de tantos anos de afastamento.

[00:34:35] Em nenhuma atitude que ela tenha tomado,

[00:34:38] mesmo quando eu saí de casa,

[00:34:39] que eu tinha 13 anos de idade,

[00:34:41] eu entendo que a atitude dela

[00:34:43] foi o maior ato de amor que ela poderia ter.

[00:34:46] E quando ela abriu mão,

[00:34:48] ela não abriu mão da filha.

[00:34:50] Ela disse assim,

[00:34:51] eu acredito em você.

[00:34:53] E eu sei que todo mundo tá errado.

[00:34:55] Eu só não consigo caminhar junto pra te apoiar.

[00:34:59] Então eu sei o quanto pra minha mãe

[00:35:02] faltou esse momento que hoje a gente tem.

[00:35:04] É tão maravilhoso que a gente é muito amiga.

[00:35:07] Mas eu sei que a cada conquista da minha vida,

[00:35:10] os olhos dela vibram.

[00:35:12] E é como se a felicidade que eu tenho

[00:35:15] fosse tão dela quanto é minha.

[00:35:22] Na sua vivência como analista de tantos anos,

[00:35:26] o que que você consegue dizer como a vivência trans,

[00:35:29] uma coisa mais distanciada, né?

[00:35:32] Não falar de uma pessoa sair dessa perspectiva da história

[00:35:35] que a gente tá contando.

[00:35:36] E dar um zoom out.

[00:35:38] Qual é o impacto que a aceitação da família tem

[00:35:42] na vivência,

[00:35:44] nas possibilidades que uma pessoa trans tem

[00:35:47] de ter uma vida feliz e completa?

[00:35:49] Olha, eu acho que não é apenas com a condição transgênera, não.

[00:35:54] Qualquer condição que diferencie o indivíduo,

[00:35:58] ela faz com que ele necessite de um apoio extra.

[00:36:04] E esse apoio,

[00:36:05] em geral, a gente espera que venha da família.

[00:36:09] Ou que venha pelo menos de um gueto,

[00:36:12] de um movimento que possa fazer as vezes da família.

[00:36:18] Infelizmente isso não acontece de novo na base da pirâmide.

[00:36:24] A tendência das famílias na base da pirâmide

[00:36:28] é expulsar de casa porque a pessoa está endemoniada.

[00:36:31] Isso quando não manda pra famosa cura.

[00:36:34] Cura gay.

[00:36:36] E eu já ouvi relatos terríveis de pessoas transgêneras

[00:36:41] que passaram por essa cura

[00:36:43] e que se recusam terminantemente

[00:36:46] a se considerar como gente.

[00:36:49] Então, essa vivência na base da pirâmide,

[00:36:52] de novo, é essa.

[00:36:54] Famílias, em geral, não apoiam.

[00:36:57] Não vamos dizer que é 100%, porque…

[00:37:01] Agora, nas classes médias,

[00:37:03] já que elas são plurais,

[00:37:06] você vai encontrar comportamentos muito interessantes,

[00:37:10] como o de uma jornalista de São Paulo,

[00:37:13] eu não vou citar nomes aqui, por favor,

[00:37:15] cujo filho chegou pra ela,

[00:37:17] ela é uma pessoa bem conhecida, inclusive,

[00:37:20] o filho chegou pra ela e disse assim,

[00:37:22] mãe, com seis anos,

[00:37:24] você compra um vestido pra mim ir pra escola?

[00:37:27] Ela disse que sofreu, né?

[00:37:29] O estômago foi lá no fundo, né?

[00:37:32] Descarga de adrenalina terrível.

[00:37:35] E ela respondeu pra ele, eu compro sim.

[00:37:37] Mas você tem ideia do tipo de enfrentamento,

[00:37:43] do tipo de coisa que você vai ver?

[00:37:45] Ele falou, tem, mas não tem importância não,

[00:37:47] eu quero um vestido.

[00:37:49] Ela teve que brigar, nos relatos dela,

[00:37:51] ela teve que brigar com diversas escolas

[00:37:54] pra manter esse menino na escola.

[00:37:56] Eu não sei como o caso tá hoje,

[00:37:58] é um caso que eu acompanhei uns quatro anos,

[00:38:00] três, quatro anos,

[00:38:01] mas esse menino mudou de escola

[00:38:04] e ela sempre brigando com a escola.

[00:38:06] Quando eu ouvi o relato mais recente dela,

[00:38:10] ele estava numa escola em que na festa junina

[00:38:13] ele foi de prenda, né?

[00:38:15] Foi de prenda.

[00:38:17] E o pai de um aluno estranhou e disse pro filho,

[00:38:22] que coisa seu coleguinha tá vestido de prenda?

[00:38:26] E o menino respondeu pra ele,

[00:38:28] ele gosta pai, qual o problema?

[00:38:30] Sensacional.

[00:38:31] Então, mas a gente tem uma estatística grande

[00:38:34] de pessoas trans em situação de rua.

[00:38:39] E aí isso é muito reflexo dessa intolerância dentro da família.

[00:38:44] Porque se a gente for pensar,

[00:38:46] eu me lembro de um momento em que foi difícil,

[00:38:50] de grana, eu tava muito preocupada,

[00:38:52] os meus dois pequenos,

[00:38:54] tinha acabado de comprar apartamento,

[00:38:57] as contas amontoando e eu estressada,

[00:38:59] e eu lembro da minha sogra chegar pra mim e falar assim,

[00:39:02] qual é o pior cenário?

[00:39:03] Por que você tá sofrendo tanto?

[00:39:05] Qual é o pior cenário?

[00:39:06] Se tudo der errado, você vai morar debaixo da ponte?

[00:39:09] E eu lembro disso.

[00:39:11] Que eu entendi, tipo,

[00:39:12] por que que eu tava sofrendo tanto?

[00:39:14] Pior cenário, eu ia pra casa dela.

[00:39:16] Pior cenário, eu ia pra casa da minha mãe.

[00:39:18] Então, o amparo da família é fundamental.

[00:39:21] Todos nós somos o que somos,

[00:39:24] porque a gente sabe que a gente tem pra onde correr,

[00:39:26] porque a gente, se tudo der errado,

[00:39:28] a gente tem um amparo.

[00:39:30] Então, quando a gente pega um relato

[00:39:33] e a pessoa diz que ela foi expulsa de casa,

[00:39:37] é difícil pra gente, que tem o apoio da família,

[00:39:40] mensurar o tamanho do abandono que é isso

[00:39:43] e o tamanho do impacto que tem

[00:39:45] em todas as decisões futuras que você vai ter na vida

[00:39:48] quando você não tem pra onde correr.

[00:39:50] Sim, esse trauma permanece por toda a vida.

[00:39:53] Ele é uma ferida narcísica sem tamanho

[00:39:57] na vida da pessoa,

[00:39:59] porque ela vai se compreender a partir de então

[00:40:01] como alguém rejeitado.

[00:40:04] Alguém rejeitado que a sociedade vai continuar rejeitando,

[00:40:08] porque ela é uma transgressora.

[00:40:11] A gente fantasia e romantiza muito,

[00:40:14] ah, trans é de transformação,

[00:40:17] é de transsubstanciação,

[00:40:19] é nada, é de transgressão.

[00:40:22] Sendo transgressão, se for da parte da igreja, é pecado.

[00:40:25] Se for da parte do sistema jurídico, é crime.

[00:40:29] E se for da parte da medicina, é patologia,

[00:40:32] porque é assim que somos tratados,

[00:40:34] como doentes, como delinquentes e como pecadoras.

[00:40:40] Você imagina quem é que aguenta carregar uma carga dessa.

[00:40:45] Eu, com toda a formação que eu tenho, sofro com isso.

[00:40:49] Você imagina uma pessoa em formação,

[00:40:52] com seus 13, 14 anos,

[00:40:54] sendo expulsa de casa como pecadora,

[00:40:57] como doente perversa.

[00:41:00] Olha, ainda bota isso.

[00:41:02] E sabe quem põe?

[00:41:04] Autoridades médicas psicanalíticas do país

[00:41:09] que escrevem livro falando que é a histérica do século XXI.

[00:41:13] Bota isso.

[00:41:15] Mas nem todas as vivências são assim.

[00:41:18] E é por isso que a gente queria encerrar esse bloco

[00:41:21] com o relato do Rafael Coutinho.

[00:41:24] Eu sou o Rafael Coutinho,

[00:41:31] quadrinista, artista plástico,

[00:41:34] atuo no campo das artes há 20 anos

[00:41:38] e eu sou o filho da Laerte.

[00:41:41] Eu não lembro exatamente quando foi a primeira vez

[00:41:45] que falamos sobre o processo de transição.

[00:41:48] Para o meu pai, a aceitação da mudança de gênero

[00:41:52] vem em etapas.

[00:41:53] Ao longo dos últimos 20 anos.

[00:41:56] Tudo foi muito íntimo e gradativo.

[00:41:59] As mudanças, elas eram compartilhadas comigo

[00:42:03] e com a Laila, a minha irmã.

[00:42:06] E com um pequeno núcleo de pessoas, assim, mais próximas.

[00:42:10] Primeiro, soubemos da sua bissexualidade.

[00:42:14] Depois, que gostava de se vestir com roupas

[00:42:18] consideradas femininas, o cross-dresser.

[00:42:21] Em seguida, ela explicou que se sentia mais mulher do que homem.

[00:42:26] E depois, falamos mais sobre como ela se identificava

[00:42:31] como uma pessoa trans.

[00:42:33] Fomos aprendendo junto.

[00:42:35] Ela também estava aprendendo e dividia com a gente

[00:42:38] tudo com muita cautela e sensibilidade

[00:42:42] e até mesmo dúvidas.

[00:42:44] A primeira vez que saímos juntos

[00:42:46] e ela estava vestida de mulher, eu me lembro bem.

[00:42:49] Marcamos de tomar umas bebidas e comer algumas coisas no centro.

[00:42:54] Minha irmã, eu, Ilaerte e a Tuca,

[00:42:58] a namorada do meu pai na época.

[00:43:00] Eu não sabia o que eu iria encontrar

[00:43:03] e o meu maior medo era que algo da personalidade dela

[00:43:07] tivesse se perdido.

[00:43:09] Que a voz tivesse diferente, fina, algo do tipo.

[00:43:14] Fiquei com medo de achar engraçado e de começar a rir.

[00:43:18] Acredito que meu receio maior

[00:43:22] era que ela tivesse perdido a característica

[00:43:25] que para mim eram definidoras,

[00:43:27] formadoras da minha identidade de filho.

[00:43:30] Quando eu cheguei no bar

[00:43:32] e percebi que era a mesma pessoa que eu amava,

[00:43:35] só que mulher, relaxei.

[00:43:38] Fiquei feliz de saber que meu pai estava mais feliz.

[00:43:41] Afinal, ela tinha passado por anos de depressão

[00:43:45] pela morte do meu irmão.

[00:43:47] E tinham sido anos muito duros para ela e para nós também.

[00:43:52] Aos poucos, as coisas foram se ajeitando

[00:43:55] e aquela estranheza inicial se dissipou.

[00:43:59] Fizemos uma viagem para um evento de quadrinhos

[00:44:02] algum tempo depois.

[00:44:05] Fui visitá-la no quarto de hotel

[00:44:07] e ela começou a se vestir.

[00:44:09] Eu fiquei sem jeito,

[00:44:11] sem saber se devia sair do quarto para ela trocar de roupa

[00:44:15] ou se eu continuava lá.

[00:44:17] Como fiz a minha vida toda?

[00:44:19] Eu estava confuso.

[00:44:21] Eu devia dar privacidade?

[00:44:23] Devia deixá-la mais à vontade para se vestir?

[00:44:26] Acontece que temos um humor construído em família,

[00:44:29] que vem lá da minha avó

[00:44:32] e que certamente eu herdei do meu pai.

[00:44:35] O nosso humor é debochado, sacana,

[00:44:37] não tem tabu,

[00:44:39] que não possa ser desconstruído

[00:44:41] com uma boa piada infame.

[00:44:43] Isso é uma coisa que me encanta no meu pai.

[00:44:47] Ao mesmo tempo,

[00:44:49] as coisas podem ser sérias e profundas

[00:44:52] e podem ser também engraçadas e ridículas.

[00:44:56] Existe uma inteligência emocional difícil de explicar.

[00:45:01] A Laerte é assim.

[00:45:03] Mas eu precisei desconstruir bastante coisa também.

[00:45:07] Por exemplo,

[00:45:09] eu não tinha relações próximas com travestis,

[00:45:12] salvo algumas poucas interações em baladas, bares,

[00:45:15] de ver na noite, na rua.

[00:45:18] E eu passei a conviver mais próximo de muitas delas

[00:45:21] por causa do meu pai.

[00:45:23] Apenas observando de longe um determinado grupo social,

[00:45:27] você não consegue enxergar questões importantes

[00:45:31] e aspectos de vida desse grupo.

[00:45:34] Mulheres trans são muito objetificadas sexualmente por homens.

[00:45:40] Há um jogo construído por séculos

[00:45:43] que resvala na prostituição, na marginalização.

[00:45:47] Eu era parte dessa ideia torta, preconcebida.

[00:45:51] E eu sou grato por ter passado por uma reeducação no meu olhar.

[00:45:55] Hoje eu sei que há subníveis horrendos de preconceitos

[00:46:00] que mantêm pessoas trans marginalizadas

[00:46:03] sempre na condição de instáveis, irresponsáveis, loucas.

[00:46:09] Estamos longe de resolver isso.

[00:46:11] Mas me sinto mais capaz de enxergar esses problemas

[00:46:15] e mudar a minha postura.

[00:46:17] Eu entendi também que há um lugar no debate de gênero

[00:46:21] que eu ainda não alcancei.

[00:46:23] Um lugar que fica distante de mim

[00:46:26] porque eleva uma vida mais próxima da heteronormatividade.

[00:46:30] Hoje em dia, eu já reconheço a hibridez da minha identidade,

[00:46:34] do meu desejo.

[00:46:36] Não acho que ninguém seja uma coisa nem outra.

[00:46:39] Enfim.

[00:46:40] Sempre fomos muito próximos.

[00:46:43] Temos muitos projetos.

[00:46:45] Gostamos de dividir.

[00:46:47] A gente adora procurar coisas para fazer junto.

[00:46:51] Trocamos ideias sobre tudo.

[00:46:53] Criamos, compartilhamos.

[00:46:55] Há também a vida de artista.

[00:46:57] Conversamos desde os assuntos mais sérios

[00:47:00] até falar merda e dar risada.

[00:47:02] Essa é a minha vida com meu pai.

[00:47:05] E com a Laerte.

[00:47:11] Ai, ai, ai, meu Deus, que lindeza.

[00:47:14] Agora a gente vai falar dos desafios que as pessoas trans enfrentam

[00:47:17] para ter acesso a renda e trabalho.

[00:47:19] As barreiras começam muito cedo, já na escola.

[00:47:22] Vamos deixar a Ariadne nos conduzir mais uma vez nessa jornada.

[00:47:26] Eu já tinha uma aparência bastante feminina

[00:47:29] quando entrei na adolescência.

[00:47:31] Era como eu me reconhecia, era como eu me via.

[00:47:34] Eu não tinha como ficar escondendo algo que era a minha natureza.

[00:47:39] Passei por diversas situações de discriminação e de agressão física na escola.

[00:47:46] A mais grave delas me deixou bastante desfigurada.

[00:47:50] Eu fui espancada na porta do colégio.

[00:47:54] Eu lembro de ter ficado traumatizada durante algum tempo e parei de estudar.

[00:47:59] Depois de muitos anos foi que eu fui voltar para a escola fazendo telecurso.

[00:48:05] E eu me preparava para as provas eliminatórias.

[00:48:07] E eu me lembro…

[00:48:08] Eu fui muito bem na prova, mas eu já assinava meu RG, inclusive já tinha a assinatura Ariadne.

[00:48:15] Só que ela não batia com o documento que ainda não tinha sido retificado.

[00:48:20] Porque na minha época sequer podia retificar os documentos pessoais se não tivesse feito a cirurgia.

[00:48:25] Então a minha prova foi cancelada e eu tive que fazer outra no ano seguinte.

[00:48:29] Eu sabia que tinha dado o meu melhor.

[00:48:31] Eu sabia que eu tinha passado.

[00:48:33] Eu sabia que aquela etapa da minha vida já tinha sido concluída.

[00:48:36] Mas…

[00:48:37] Simplesmente minha prova foi cancelada e eu tive que fazer outra.

[00:48:41] Eu nunca paguei um centavo pela minha educação.

[00:48:44] Sempre estudei em escolas públicas.

[00:48:46] Eu sempre estudava, estudava, estudava.

[00:48:49] Para conseguir passar com bolsa e ter a minha educação garantida sem precisar de mais recurso.

[00:48:56] Quando chegou a vida adulta, conseguir emprego também era uma dificuldade muito grande.

[00:49:01] Eu cheguei a ter que me prostituir algumas vezes porque eu passava fome.

[00:49:05] Não tinha outra coisa, né?

[00:49:07] De que forma eu poderia conseguir um trabalho?

[00:49:11] Eu trabalhei em tudo que você pode imaginar.

[00:49:14] Você precisava se sustentar, não conseguia trabalho em lugar nenhum.

[00:49:18] E aí o único lugar que tinha disponibilidade para te acolher era a prostituição.

[00:49:24] Eu percebo que tudo isso na minha vida me mostra o quanto a falta de oportunidade que as pessoas trans têm.

[00:49:33] Levavam elas a ter uma prostituição compulsória.

[00:49:37] Antes de conseguir aí me engajar numa profissão em que eu me sentisse realmente fazendo algo que eu estava sentindo significado na vida.

[00:49:48] A gente avisou que a trajetória da Ariadne é cheia de reviravoltas, né?

[00:49:52] Foi o meio acadêmico que abriu portas para ela e mudou sua vida.

[00:49:56] Quando eu cheguei na carreira acadêmica, aí veio um processo, assim, de oportunidades.

[00:50:01] Consegui fazer uma especialização.

[00:50:03] Fui convidada a fazer um mestrado em psiquiatria.

[00:50:07] Diversas pessoas me ofereceram apoio e acreditavam no meu potencial.

[00:50:12] E comecei a trabalhar na dependência química e também em outros espaços aí que cuidavam de HIV.

[00:50:19] Eu consegui um emprego no Cratod, que é um centro de referência em São Paulo.

[00:50:25] Que é aberto à população usuária de droga.

[00:50:29] E foi uma das experiências mais…

[00:50:31] importantes da minha vida.

[00:50:33] Foi naquele lugar onde eu consegui enxergar o que eu poderia fazer para outras pessoas que também, como eu,

[00:50:40] tiveram tantas dificuldades de encontrar caminhos alternativos.

[00:50:46] Era como se eu estivesse estendendo a mão para mim mesma todas as vezes que eu via uma travesti, uma trans,

[00:50:52] na rua, dormindo num papelão.

[00:50:54] E eu tinha a possibilidade de tirar ela dali e ela não estava mais sozinha.

[00:50:59] Esse trabalho ficou conhecido não só pelo Ministério da Saúde, como também pela ONU, pelos organismos internacionais.

[00:51:08] Foi apresentado no 42º PCB em 2018.

[00:51:12] Quando surgiu uma oportunidade para eu trabalhar no Unaids, fazendo um pouco mais por essa população trans que tanto sofre.

[00:51:20] Quando eu olho para trás e me vejo, aos 20 anos, trabalhando com telemarketing, vendendo jornal.

[00:51:28] E hoje, chegando aos 40, como oficial no organismo internacional,

[00:51:34] é claro que eu nunca tinha tido a expectativa de chegar tão longe.

[00:51:39] Mas eu sempre acreditei no meu potencial e sempre acreditei nos meus sonhos.

[00:51:49] A partir desse relato, como é que os preconceitos, os desafios que as pessoas trans

[00:51:57] enfrentam,

[00:51:58] numa tenridade,

[00:52:00] quando a gente não sabe nem quem a gente é, né?

[00:52:02] Eu costumo falar dessa época da minha vida.

[00:52:04] Quando alguém me pergunta alguma coisa, eu falo, ah, da época que eu ainda comia ranho.

[00:52:07] Porque é uma época que você não é dono de você mesmo, dono do mundo.

[00:52:10] Você está descobrindo tudo.

[00:52:12] Receber esse grau de violência, esse grau de interdição no início da sua vida,

[00:52:17] como que isso impacta o resto da sua vida, né?

[00:52:20] De forma total.

[00:52:22] Essa semana mesmo, você sabe que para trabalhar na clínica, a gente faz supervisão.

[00:52:27] Então, há 20 anos eu estou com o mesmo terapeuta onde eu faço a minha supervisão.

[00:52:33] E a semana passada me bateu uma crise de raiva sem tamanho.

[00:52:38] E eu fui averiguar de onde que estava vindo essa raiva.

[00:52:42] Estava vindo.

[00:52:44] Eu examinei por causa de um episódio que eu presenciei.

[00:52:48] Eu fui parar lá no passado e me encontrei dentro das aulas de educação física

[00:52:54] que eu tinha horror de participar.

[00:52:56] Horror de participar.

[00:52:58] Horror.

[00:53:00] Agora, o problema é total normalização da ideia de que você já nasce pronto.

[00:53:07] Que o homem já nasce pronto.

[00:53:10] Que a mulher já nasce pronta.

[00:53:12] Em 1949, a Simone de Beauvoir falou uma frase que hoje eu já vi escrita até em

[00:53:20] parede de cemitério.

[00:53:22] Que é, ninguém nasce mulher, aprende a ser.

[00:53:25] E ela falou mulher.

[00:53:27] Porque se ela tivesse falado homem, eles tinham decapitado em 1949.

[00:53:33] Porque ninguém nasce nem mulher, nem homem.

[00:53:36] Aprende a ser.

[00:53:38] E aprende de forma compulsória.

[00:53:41] Porque o homem tem que ser homem.

[00:53:43] A educação do menino, se ele chorar, é não chore porque o homem não chora.

[00:53:49] E isso permanece.

[00:53:51] Há 60 anos era assim e continua a ser.

[00:53:53] O menino…

[00:53:55] Se você quer saber como são as coisas, vá numa loja de brinquedo.

[00:53:59] Sabe?

[00:54:00] Eu fui comprar brinquedo com um neto meu de aniversário.

[00:54:04] Cheguei na loja, a primeira pergunta que a vendedora te faz é menino ou menina?

[00:54:09] Eu peguei e respondi para ela de uma forma bem jocosa.

[00:54:12] Eu falei, ele não tem idade ainda para decidir isso.

[00:54:15] Segundo dados do projeto Além do Arco-Íris do Afro Reg, 72% das pessoas

[00:54:22] trans não conseguem concluir o ensino médio.

[00:54:26] Como que isso impacta as possibilidades de escolha, de carreira, de profissão, de renda,

[00:54:33] de liberdade, de vida mesmo dessas pessoas?

[00:54:37] A gente vê no relato da Ariadne os alunos sendo violentos com ela.

[00:54:43] Ela não se sentindo bem-vinda.

[00:54:45] Se o ambiente escolar expulsa essa criança, a gente tem essa estatística bizonha.

[00:54:51] De 72% das pessoas trans não concluindo o ensino médio, como que isso vai impactar

[00:54:56] nas escolhas de vida que ela tem no futuro?

[00:54:58] Olha, esse dado numérico, ele é complicado da gente assumir, porque ele vai estar mais

[00:55:06] ligado às classes mais na base da pirâmide.

[00:55:10] Dentro desse ambiente patológico em que essas pessoas vivem, patológico no sentido de não

[00:55:17] ter nenhuma habitação correta, de serem submetidas à doença.

[00:55:20] Submetidas a doutrinas malucas, de pecado, de uma série de coisas.

[00:55:25] Uma criança transgênera ali, o destino dela é virar o viado da região.

[00:55:32] Dentro da escola ele não vai ficar, porque ele vai ser agredido de todas as maneiras.

[00:55:37] Ele vai ser currado, que é o outro termo, para ser estuprado.

[00:55:42] Então, ele já vai moldar todo um comportamento que mais tarde vai levar ele para onde?

[00:55:48] Para a rua, para a esquina.

[00:55:50] Para se tornar uma travesti.

[00:55:53] E isso eu estou falando do macho que se identifica com mulher.

[00:55:58] Porque você tem o caso contrário também, da famosa Maria Sapatão.

[00:56:03] Quer dizer, figuras estereotipadas a partir da pobreza.

[00:56:08] Agora, classe média é outra história.

[00:56:11] Porque eles estão resolvendo simplesmente botando nas clínicas, sabe?

[00:56:16] Para fazer transição precoce.

[00:56:18] Agora, o problema é com a escola.

[00:56:20] A escola tem que acabar com essa divisão entre meninos e meninas.

[00:56:25] Você tem que educar a gente.

[00:56:27] Não faz sentido a escola ser desse jeito.

[00:56:31] A criança tinha que ser deixada ser ela mesma.

[00:56:33] Você vê barreiras no mercado de trabalho para que a mulher chegue em posições,

[00:56:39] como a gente viu na história da Ariadne,

[00:56:41] de ser uma profissional reconhecida academicamente

[00:56:45] e ter um trabalho reconhecido na ONU.

[00:56:48] Que obstáculos profissionais as pessoas trans enfrentam

[00:56:54] para navegar nesse mundo corporativo?

[00:56:57] Também é uma resposta que nós temos que ter necessariamente

[00:57:03] o corte de classe, o corte de raça aqui.

[00:57:07] Porque ela opera de maneiras diferentes em diversos níveis.

[00:57:12] Você tem, por exemplo, pessoas trans que, pela sua origem,

[00:57:17] pela sua herança, inclusive, herança econômica,

[00:57:21] de famílias muito abastadas, elas já estão no mercado de trabalho.

[00:57:25] Não tem que dar satisfação a ninguém.

[00:57:27] No entanto, se você estava na base da pirâmide,

[00:57:30] nossa, se estava, não se está.

[00:57:33] Porque o problema não foi resolvido.

[00:57:36] O tratamento é outro.

[00:57:38] Primeiro, a qualificação é precária.

[00:57:41] O que sobra para fazer?

[00:57:43] Acaba que mulheres trans estão no mercado de trabalho,

[00:57:47] muito na área de serviços de higiene pessoal,

[00:57:53] são cabeleireiros, manicures, coisas desse tipo,

[00:57:57] ambientes que aceitam mais.

[00:58:00] Acaba sendo o grosso.

[00:58:02] Para não dizer que a esmagadora maioria dessas pessoas

[00:58:06] vão para a rua ganhar vida na prostituição.

[00:58:10] O espaço de trabalho é esse.

[00:58:12] E piora ainda a situação se a pessoa é preta.

[00:58:17] Se a pessoa é pobre, se a pessoa é periférica,

[00:58:22] se ela está totalmente desabrigada,

[00:58:25] se ela está totalmente sem proteção da sociedade.

[00:58:29] Isso me cansa, isso acaba comigo.

[00:58:33] Porque eu quero um mundo onde todas as pessoas

[00:58:36] possam ser integradas pelo que elas são,

[00:58:39] do modo que elas são.

[00:58:41] Então, quando você vê essa escassez de oportunidade,

[00:58:45] esse corte violento na vida das pessoas,

[00:58:49] me deixa muito triste.

[00:58:50] Eu acho que deixa triste qualquer pessoa

[00:58:52] que tem consciência pela coletividade.

[00:58:59] Vamos encerrar falando de relacionamentos amorosos.

[00:59:02] E a gente volta para Ariadne e suas reviravoltas,

[00:59:06] com a busca por proteção e acolhimento

[00:59:08] por construir uma família em uma trajetória

[00:59:10] que começa com dor e violência.

[00:59:12] Eu tive dois relacionamentos na minha vida.

[00:59:14] Um deles foi o pai do meu filho, o Hélio,

[00:59:17] que faleceu há pouco tempo.

[00:59:19] Os dois faleceram.

[00:59:20] Ele chegou suprindo uma carência de família.

[00:59:23] Ele vem de uma família extremamente machista e violenta.

[00:59:26] Ele tinha um histórico muito grande com abuso de álcool.

[00:59:29] Mas era uma pessoa muito brilhante.

[00:59:32] Tinha conseguido transformar a vida dele

[00:59:35] em determinado momento, ter se afastado das drogas,

[00:59:38] de ter se transformado num professor.

[00:59:40] E o meu relacionamento com ele aconteceu dessa maneira,

[00:59:42] meio que absurda.

[00:59:43] Eu era namorada de um amigo dele.

[00:59:45] E eu não transava com esse amigo dele

[00:59:47] porque eu tinha medo de contar.

[00:59:48] E aí ele me tomou do amigo.

[00:59:50] Numa dessas vezes, ele trouxe o menino, o Bruno.

[00:59:54] O Bruno tinha dois aninhos.

[00:59:56] Ia fazer três para a minha casa.

[00:59:58] E disse assim, cuida aqui do meu bigado.

[01:00:00] E aí eu falei assim, cuida.

[01:00:01] Você vai voltar a que horas?

[01:00:02] Aí ele falou assim, não, eu volto.

[01:00:04] E não disse quando voltava.

[01:00:06] Ele voltou um mês depois.

[01:00:07] E peguei amor por ele.

[01:00:08] Eu tinha medo de ir na delegacia para dizer,

[01:00:10] olha, eu estou com uma criança que não é minha.

[01:00:12] E quando ele voltou, o menino estava bem.

[01:00:14] A partir daí, a gente meio que começou a criar o menino, né?

[01:00:17] Mas eu vivi muita violência doméstica.

[01:00:21] E eu meio que me protegi da sociedade na época.

[01:00:24] Me escondendo nos braços de uma pessoa

[01:00:27] que também me violentava, né?

[01:00:29] É engraçado que assim, eu não tenho nenhuma mágoa.

[01:00:31] Eu não tenho nenhum ressentimento do Hélio.

[01:00:33] E o tempo que a gente viveu junto,

[01:00:35] que foram sete anos,

[01:00:36] não foram sete anos sendo agredida.

[01:00:38] As agressões, elas começaram a acontecer,

[01:00:41] principalmente depois que eu fiz a cirurgia,

[01:00:44] depois que eu estava livre comigo mesma,

[01:00:46] depois que a minha autoestima não tinha mais o medo da cirurgia

[01:00:50] para me mostrar para o mundo, sabe?

[01:00:52] E aí a insegurança dele levou ele a questionar

[01:00:55] todo o lugar de poder que ele sempre se colocou

[01:00:58] pelo simples fato de ser homem.

[01:01:00] Isso foi uma questão conflituosa e causou nossa separação.

[01:01:04] Depois disso, a gente continuou tendo uma relação à distância

[01:01:07] muito em função do menino.

[01:01:09] E meu segundo relacionamento foi o Leonardo,

[01:01:12] que ele chegou e ele foi um divisor de águas.

[01:01:14] Ele foi a pessoa que me amava

[01:01:17] de uma maneira tão incondicional e tão perfeita.

[01:01:20] E a gente era amigo e a gente compartilhava tudo.

[01:01:24] Eu muitas vezes me perguntava, né?

[01:01:26] Nossa, mas por que será que esse homem tão maravilhoso,

[01:01:29] tão incrível, gosta de mim?

[01:01:32] Por que será que ele me trata tão bem?

[01:01:34] Por que será que ele me trata como

[01:01:36] alguém que eu sempre quis ser tratada, né?

[01:01:39] Depois do Leo, eu acho que eu nunca mais me apaixonei

[01:01:42] porque ele me disse uma coisa que mudou a minha vida toda.

[01:01:45] Disse assim pra mim,

[01:01:46] Ariadne, você merece tudo isso.

[01:01:48] Nunca aceite menos.

[01:01:50] Ele se matou…

[01:01:55] quando a gente tava tentando engajar ele

[01:01:58] num tratamento pra transtorno afetivo bipolar.

[01:02:00] E era bem complicado porque ele não reconhecia

[01:02:03] a necessidade de terapia,

[01:02:05] a necessidade de fazer o tratamento como um todo, né?

[01:02:08] E ele foi um marco.

[01:02:09] A Ariadne, antes do Leonardo,

[01:02:11] vivia muito em função de sonhos internos.

[01:02:15] A Ariadne, depois do Leonardo,

[01:02:17] passou a enxergar o mundo

[01:02:19] e todas as possibilidades que o mundo tinha

[01:02:22] de coisas que eu ainda precisava fazer.

[01:02:24] Ele foi um sopro de vida e continua sendo.

[01:02:27] Uma inspiração de bondade.

[01:02:29] Muitas pessoas passam por essa vida

[01:02:31] sem sequer descobrir o que é o amor.

[01:02:33] E eu vivi ele com tanta intensidade,

[01:02:35] com tanta sorte,

[01:02:37] que eu sou uma privilegiada.

[01:02:44] Eu queria que você falasse

[01:02:46] não da sua experiência pessoal,

[01:02:48] mas da sua experiência como terapeuta,

[01:02:50] da sua experiência acompanhando a história

[01:02:52] de muitas pessoas trans,

[01:02:54] como a experiência de buscar o amor,

[01:02:56] de buscar se abrir,

[01:02:58] de abrir a sua trajetória,

[01:03:00] as suas dores, quem você é,

[01:03:02] nesse mundo preconceituoso e hostil.

[01:03:05] O oposto de amor não é ódio.

[01:03:08] O oposto de amor é medo.

[01:03:10] E onde existe medo,

[01:03:12] não pode existir amor.

[01:03:14] A relação de uma pessoa trans com o mundo

[01:03:17] é uma relação de medo.

[01:03:19] Uma relação de total exclusão.

[01:03:23] Aquela chamada síndrome do impostor,

[01:03:26] em que você se acha sempre impostora,

[01:03:30] mesmo ocupando o lugar que te pertence,

[01:03:33] né?

[01:03:34] Ela permanece na pessoa transgênera

[01:03:36] para a vida inteira.

[01:03:38] E também nas relações amorosas.

[01:03:42] Você disse que eu tive a felicidade

[01:03:44] de estar com uma companheira,

[01:03:46] que além de tudo é arquiteta,

[01:03:48] é psicóloga também.

[01:03:50] Ela foi fazer psicologia

[01:03:52] para se formar junto com minha filha.

[01:03:54] Então, no início,

[01:03:56] foi muito difícil para ela,

[01:03:58] porque ela dizia para mim muitas vezes,

[01:04:00] para mim não faz diferença nenhuma,

[01:04:02] você é a pessoa que sempre foi,

[01:04:04] eu não vejo diferença,

[01:04:06] eu sempre me vesti de uma forma mais despojada,

[01:04:09] mais extravagante, né?

[01:04:11] Eu era consultor,

[01:04:13] e tinha brinco com alargador,

[01:04:16] e era respeitada,

[01:04:17] porque eu sou competente no que eu faço, né?

[01:04:20] Então, eu não estou vendo diferença nenhuma,

[01:04:22] fisicamente, a minha cara,

[01:04:24] eu não tenho alteração nenhuma,

[01:04:26] a não ser meus belos seios,

[01:04:28] dos quais eu me orgulho paraná,

[01:04:31] porque foram feitos,

[01:04:33] não tem implante, não tem nada,

[01:04:35] é meu mesmo,

[01:04:36] estava aqui prontinho para desabrochar.

[01:04:38] Então, o problema era eu,

[01:04:41] eu que não me aceitava, sabe?

[01:04:44] E como que eu projetava nela?

[01:04:47] Quer dizer, numa relação em que há pessoas adultas,

[01:04:50] maduras e preparadas,

[01:04:52] não é difícil a gente identificar isso, né?

[01:04:55] E ela me acusava,

[01:04:57] e eu ficava danada com ela.

[01:04:59] Mas que absurdo,

[01:05:00] o que você está falando,

[01:05:02] que eu não me aceito,

[01:05:03] que você me aceita?

[01:05:05] Menina, eu tive que trabalhar duro na análise,

[01:05:08] porque era eu que não podia me aceitar.

[01:05:12] Então, se não fosse essa pessoa,

[01:05:15] incrível,

[01:05:17] que eu tenho, né?

[01:05:18] Do meu lado.

[01:05:19] Para mim, ecoa muito a fala da Aline,

[01:05:22] a Aline da Quebrada,

[01:05:23] uma pessoa muito vocal

[01:05:26] para falar sobre essa violência da mulher trans,

[01:05:29] não ter o espaço de ser o objeto amoroso,

[01:05:33] de ser o sonho de um homem, né?

[01:05:37] E dessa violência que é te cobrarem de…

[01:05:41] Então, espera aí,

[01:05:42] você não me falou que você era uma mulher trans?

[01:05:44] Então, você me enganou.

[01:05:45] Então, o meu desejo foi enganado.

[01:05:48] Então, eu fui ludibriado.

[01:05:50] Isso era uma miragem no deserto.

[01:05:52] E ela fala bastante sobre isso, assim,

[01:05:54] foi tanto negado para mim esse espaço de amor,

[01:05:57] de acolhimento,

[01:05:58] que eu não quero,

[01:05:59] eu não desejo mais isso.

[01:06:01] Eu queria que, transcendendo a sua experiência,

[01:06:04] falando mais da sua experiência como terapeuta,

[01:06:08] você falasse sobre essa dor.

[01:06:10] A Aline faz referência a estereótipos

[01:06:12] que o outro tem dela,

[01:06:15] mas existem estereótipos dentro do gueto, né?

[01:06:18] De mulheres,

[01:06:20] inclusive eu conheço esses casos,

[01:06:22] não é nenhum nem dois,

[01:06:24] de mulheres que se apaixonam por pessoas trans,

[01:06:27] por mulheres trans,

[01:06:29] e gostariam de ficar com essas mulheres,

[01:06:32] e são repelidas, repudiadas,

[01:06:34] porque na cabeça das pessoas,

[01:06:37] mulher trans,

[01:06:38] o relacionamento conjugal dela tem que ser com homem.

[01:06:41] Eu mesma participei com isso,

[01:06:43] porque eu fui, eu acho,

[01:06:44] a primeira que teve coragem de falar,

[01:06:46] espera aí,

[01:06:47] eu sou lésbica.

[01:06:49] Hein?

[01:06:50] Como?

[01:06:51] Então, você faz uma transição para continuar com mulher?

[01:06:54] Sei só,

[01:06:55] eu sou doida de largar minha companheira,

[01:06:57] eu tenho que estar muito maluca, pirada,

[01:07:00] e eu não estou nesse estágio, né?

[01:07:02] Eu estou no estágio de…

[01:07:03] Não é sobre ela, né?

[01:07:05] Sobre você.

[01:07:06] Não é.

[01:07:07] Então, é muito importante,

[01:07:09] e eu reforço isso muito nos movimentos,

[01:07:12] porque o movimento, né?

[01:07:14] Os movimentos identitários,

[01:07:16] eles têm que ajudar muito as pessoas

[01:07:18] a terem essa autoestima,

[01:07:20] a eliminarem esse medo,

[01:07:22] a se amarem e se respeitarem,

[01:07:24] antes de mais nada, né?

[01:07:26] Você mencionou aí a Casa 1,

[01:07:29] aí em São Paulo,

[01:07:31] e a outra casa também,

[01:07:32] que eu conheço,

[01:07:33] inclusive o coordenador.

[01:07:34] No Rio de Janeiro,

[01:07:35] você tem a Casa Nem,

[01:07:37] com a Indianara,

[01:07:39] uma grande pessoa,

[01:07:41] onde ali essas pessoas estão sendo energizadas,

[01:07:46] elas estão sendo robustecidas

[01:07:48] por um amor por si próprias.

[01:07:50] Então, é possível que esse amor

[01:07:53] por si próprio se estenda

[01:07:55] a outras formas de amor na sociedade.

[01:07:58] Eu não digo, volto a dizer,

[01:08:00] não é a relação conjugal,

[01:08:02] porque essa é mais complicada, né?

[01:08:05] Mas as relações de amor,

[01:08:07] talvez a conjugal já não nos interesse tanto,

[01:08:11] mas a solução que eu vejo para o mundo,

[01:08:14] inclusive para todos os analisandos

[01:08:17] que eu tenho hoje comigo,

[01:08:19] é mais amor por si próprio,

[01:08:21] porque todo mundo tem medo

[01:08:23] de que o outro veja quem eu sou,

[01:08:26] de que me veja nu,

[01:08:28] e que o outro me veja com os olhos

[01:08:31] que eu estou me vendo.

[01:08:33] Eu sou um farsante,

[01:08:36] eu sou um impostor.

[01:08:38] Não, eu não sou nada disso, não.

[01:08:40] Eu sou uma pessoa digna, produtiva,

[01:08:44] uma pessoa muito feliz na fila do pão.

[01:08:48] Eu queria trazer para você um pouquinho

[01:08:50] dessa história do Jonas.

[01:08:56] Meu nome é Jonas Maria,

[01:08:58] eu sou formada em Letras

[01:09:00] e atualmente eu moro em São Paulo

[01:09:02] com a minha namorada.

[01:09:04] Eu escrevo contos, crônicas

[01:09:07] e eu produzo conteúdo online

[01:09:09] sobre gênero e transexualidade.

[01:09:12] As minhas referências de relacionamento

[01:09:15] sempre foram iguais às de todo mundo.

[01:09:19] Eu assistia filmes e novelas

[01:09:21] que ensinavam e ainda ensinam

[01:09:25] quais amores são válidos

[01:09:27] e qual é a maneira correta de amar.

[01:09:31] Durante muito tempo eu tive em mente

[01:09:34] um único modelo de relação possível,

[01:09:37] um modelo heterossexual,

[01:09:39] onde os papéis são muito bem definidos,

[01:09:42] homem e mulher, num amor romântico.

[01:09:46] A união desses seres perfeitos,

[01:09:49] onde a meta é ter alguém que nos complete

[01:09:52] e que viva a vida ao nosso lado para sempre.

[01:09:56] Na adolescência, quando eu ainda me entendia

[01:10:00] e era entendido como lésbica,

[01:10:03] eu tive dificuldade de romper

[01:10:05] com a lógica heterossexual.

[01:10:08] Num primeiro momento foi difícil entender

[01:10:11] que eu podia me relacionar com mulheres.

[01:10:14] Na sequência, entendi que precisava romper

[01:10:17] com essa norma hétero,

[01:10:20] que apresentava somente a essência do homem

[01:10:23] e da mulher,

[01:10:25] mesmo em relacionamentos homossexuais.

[01:10:28] Antes da minha namorada atual,

[01:10:31] eu tive um outro relacionamento sério

[01:10:34] com uma garota que durou cerca de um ano.

[01:10:37] Depois eu conheci a Natalie,

[01:10:40] que é a minha namorada até hoje.

[01:10:43] A gente se conheceu online.

[01:10:45] Eu tinha um perfil fake no Morcute

[01:10:48] e ela também tinha um fake lá.

[01:10:51] A gente conversava apenas por mensagem

[01:10:54] e na época não existia chamada em vídeo

[01:10:57] e falar por telefone era muito caro.

[01:11:01] Ficamos desse jeito online por um ano

[01:11:04] e eu oficializei o namoro

[01:11:07] na primeira vez que nos vimos

[01:11:09] e a gente se encontrou pessoalmente.

[01:11:12] Na época que começamos a namorar,

[01:11:14] a questão da homofobia ainda era mais presente

[01:11:18] e por sermos um casal lésbico,

[01:11:21] a gente enfrentou muitas dificuldades em família,

[01:11:24] mas por parte da minha família.

[01:11:27] Um ano depois que já estávamos juntos,

[01:11:30] eu comecei a entender a minha transexualidade.

[01:11:34] De imediato eu não me dei conta

[01:11:37] do impacto que isso teria em mim,

[01:11:40] na minha namorada,

[01:11:42] e não demorou muito a perceber

[01:11:45] que seria uma questão.

[01:11:47] Eu não estava apenas curioso

[01:11:49] com um assunto novo na internet.

[01:11:52] Era mais que isso.

[01:11:54] Eu estava me desconstruindo

[01:11:56] como uma pessoa trans.

[01:11:58] Os primeiros meses foram muito delicados.

[01:12:01] A Natalie estava no auge

[01:12:04] do seu orgulho lésbico

[01:12:06] e de namorar comigo.

[01:12:08] Eu estava muito fragilizado,

[01:12:10] tocado com tudo o que eu estava lendo

[01:12:13] e descobrindo sobre a transexualidade.

[01:12:16] Infelizmente,

[01:12:18] é comum relacionamentos lésbicos

[01:12:21] terminarem quando uma das pessoas

[01:12:24] se descobre trans.

[01:12:26] Natural que um problema comece a surgir,

[01:12:29] afinal, a gente está falando

[01:12:31] de duas identidades sociais

[01:12:33] que acabam entrando em conflito.

[01:12:35] E no meu caso,

[01:12:37] com o tempo e com muita conversa,

[01:12:39] a gente conseguiu se entender.

[01:12:42] E a gente chegou num ponto

[01:12:44] onde os dois

[01:12:46] acabaram ficando confortáveis.

[01:12:48] Eu tive a vantagem

[01:12:50] de não passar pela angústia

[01:12:52] de ter medo ou de ter receio

[01:12:54] de contar sobre ser trans

[01:12:57] para alguém porque me apaixonei.

[01:13:00] Toda a minha transição

[01:13:02] ocorreu com a Natalie ao meu lado

[01:13:04] e a gente está junto até hoje.

[01:13:06] E em janeiro a gente completa

[01:13:08] oito anos.

[01:13:10] O receio de me dizer trans

[01:13:12] está na associação à violência

[01:13:15] que pode atingir

[01:13:17] por eu vivenciar isso

[01:13:19] nessa sociedade.

[01:13:21] Hoje em dia,

[01:13:23] eu e a Natalie,

[01:13:25] a gente forma um casal heterossexual.

[01:13:27] É raro rolar algum tipo de preconceito

[01:13:30] por parte das pessoas.

[01:13:32] No passado,

[01:13:34] experimentamos tudo o que

[01:13:36] um casal homossexual vive.

[01:13:38] Medo de andar

[01:13:40] de mão dada na rua,

[01:13:42] medo de rejeição por parte

[01:13:44] de familiares,

[01:13:46] receio de agressão,

[01:13:48] todas essas coisas.

[01:13:50] O preconceito hoje é mais pontual.

[01:13:52] Por vezes,

[01:13:54] relacionado à questão interracial.

[01:13:56] Eu sou mais branco

[01:13:58] e a Natalie é negra.

[01:14:00] Ou pela deslegitimação

[01:14:02] da nossa relação

[01:14:04] por eu ser trans,

[01:14:06] mas, no geral,

[01:14:08] a gente não tem esse dilema.

[01:14:10] Eu vim para São Paulo há dois anos

[01:14:12] para ficar com a Natalie.

[01:14:14] E a gente mora junto desde então.

[01:14:16] Tem sido uma experiência

[01:14:18] totalmente nova para a gente.

[01:14:20] Afinal, namorar por cinco anos

[01:14:22] à distância e agora estar junto

[01:14:24] é uma vivência intensa.

[01:14:26] Estamos conhecendo

[01:14:28] outras facetas

[01:14:30] e construindo um relacionamento

[01:14:32] novo.

[01:14:34] Como se estivéssemos começando do zero.

[01:14:36] Tudo tem dado certo.

[01:14:38] E a gente adotou

[01:14:40] até um cachorro.

[01:14:42] É vida para frente.

[01:14:46] Fofo.

[01:14:48] Letícia, eu queria te fazer uma pergunta.

[01:14:50] Você já tinha uma

[01:14:52] vivência com a sua companheira.

[01:14:54] Em muitos anos de casada,

[01:14:56] já tinha frutos desse relacionamento.

[01:14:58] Como que foi

[01:15:00] para vocês, enquanto

[01:15:02] companheiras, entender

[01:15:04] esse novo significado do amor?

[01:15:06] O que inclusive me parece

[01:15:08] muito interessante, depois de muitos anos

[01:15:10] de casado, casar de novo.

[01:15:12] Mas me conta um pouquinho

[01:15:14] desse processo de

[01:15:16] redescoberta do sentimento

[01:15:18] e até da sexualidade

[01:15:20] quando tudo muda.

[01:15:22] Não é assim.

[01:15:24] Não é assim.

[01:15:26] Não mudou nada.

[01:15:28] O amor não muda.

[01:15:30] Quer dizer,

[01:15:32] nesse depoimento que você leu

[01:15:34] ali, a única coisa que

[01:15:36] manteve eles dois juntos

[01:15:38] foi o amor.

[01:15:40] Amor é uma coisa

[01:15:42] que não dá para descrever.

[01:15:44] O amor que pode ser dito com

[01:15:46] palavras não é amor.

[01:15:48] O que eu insisto em dizer para você é que

[01:15:50] quando há amor, e eu conheço casos

[01:15:52] e mais casos

[01:15:54] a respeito, a relação

[01:15:56] sobrevive.

[01:15:58] Quando não há,

[01:16:00] ela nem se constitui.

[01:16:02] Como acontece hoje,

[01:16:04] infelizmente, com a maior

[01:16:06] parte das famílias ditas

[01:16:08] cisgêneros, heterossexuais

[01:16:10] que existem no país.

[01:16:12] Porque as pessoas estão ali fingindo

[01:16:14] que são maridos,

[01:16:16] fingindo que são mulheres,

[01:16:18] com casos extraconjugais

[01:16:20] tentando superar

[01:16:22] o vazio que se institui

[01:16:24] quando não existe

[01:16:26] esse negócio chamado amor.

[01:16:28] Que é um negócio que não dá para descrever

[01:16:30] o que é, mas quando a gente

[01:16:32] já sentiu, sabe,

[01:16:34] e eu digo para você,

[01:16:36] a certa altura da minha vida

[01:16:38] eu duvidava que isso existia.

[01:16:40] Mas depois de ter

[01:16:42] vivido pessoalmente a experiência

[01:16:44] de amor, eu te falo, eu tenho dúvida

[01:16:46] de tudo.

[01:16:48] Só não duvido do amor.

[01:16:50] Que linda!

[01:16:52] Que linda!

[01:16:54] Amei! Que lindo jeito de terminar o programa.

[01:16:56] Não precisa mais nada.

[01:16:58] Qualquer palavra depois disso é excesso.

[01:17:00] Farol Aceso

[01:17:02] Vamos para o bloco do Farol Aceso?

[01:17:04] O que você está gostando

[01:17:06] de ouvir, de ler, de assistir?

[01:17:08] Na quarentena

[01:17:10] nós resolvemos voltar para os clássicos.

[01:17:12] Sabe?

[01:17:14] Então, esses clássicos

[01:17:16] maravilhosos que a gente

[01:17:18] esquece que existem.

[01:17:20] Filmes até relativamente recentes

[01:17:22] que a gente deixa passar.

[01:17:24] Eu vou deixar a indicação de um filme

[01:17:26] que me tocou profundamente.

[01:17:28] Sabe? Chamado

[01:17:30] Diário

[01:17:32] de uma paixão.

[01:17:34] E se acha

[01:17:36] lá no Netflix, inclusive.

[01:17:38] Você já viu?

[01:17:40] Eu amo, amo.

[01:17:42] Foi um teste que eu apliquei para o meu marido

[01:17:44] que ele não passou e está comigo até hoje.

[01:17:46] Ele viu o filme e

[01:17:48] ele ficou e falou

[01:17:50] Ah, ela não devia ter ficado com esse cara.

[01:17:52] Ela devia ter falado algo do outro lado.

[01:17:54] Eu falei, que? Você não entendeu nada do filme.

[01:17:56] Mas é lindo. Eu amo esse filme.

[01:17:58] Aquele realmente é uma história de amor.

[01:18:00] O Clair de Lune

[01:18:02] tocando nesse filme.

[01:18:04] Eu lembro sempre. Eu amo esse filme.

[01:18:06] Que bom que a gente coincidiu.

[01:18:08] E você, Cris?

[01:18:10] O que você indica?

[01:18:12] Eu indico você primeiro.

[01:18:14] Eu tenho duas dicas.

[01:18:16] A primeira a ver com o tema

[01:18:18] é um drama coreano

[01:18:20] original Netflix desse ano

[01:18:22] e Taiwan Classics

[01:18:24] é um dos grandes sucessos

[01:18:26] da Netflix desse ano.

[01:18:28] Os dramas coreanos são bem tradicionais.

[01:18:30] É tudo bem padrão.

[01:18:32] Tudo para reforçar a cultura.

[01:18:34] É o oposto do cinema.

[01:18:36] Quem está pensando em Parasita

[01:18:38] que é super transgressor, esquece.

[01:18:40] Drama coreano

[01:18:42] TV coreano é bem tradicional.

[01:18:44] Esse é um drama

[01:18:46] que tem todos os ingredientes

[01:18:48] viciantes de um novelão.

[01:18:50] Pensa novela das seis, novela das oito.

[01:18:52] É a jornada do herói por vingança

[01:18:54] por justiça, para derrotar o mal

[01:18:56] a corrupção, o abuso de poder

[01:18:58] através da união

[01:19:00] de um squad jovem

[01:19:02] ambicioso, leal

[01:19:04] e super diverso.

[01:19:06] E está aí a disrupção.

[01:19:08] Diversidade nunca

[01:19:10] aparece em drama coreano.

[01:19:12] Então você vê um ex-presidiário,

[01:19:14] um negro, uma psicopata

[01:19:16] e uma mulher transformar em um squad

[01:19:18] que a gente vai amar

[01:19:20] é romper muito paradigma.

[01:19:22] E eu

[01:19:24] acho que assim, se a gente considera o meio

[01:19:26] o público e a proposta

[01:19:28] ele é brilhante em propor

[01:19:30] na forma como ele apresenta esse tema.

[01:19:32] Porque não é um manifesto.

[01:19:34] Não é uma obra seminal

[01:19:36] sobre a experiência trans, tanto que

[01:19:38] a atriz, a pessoa

[01:19:40] que faz a personagem trans

[01:19:42] é uma mulher. Então

[01:19:44] de maneira nenhuma representa.

[01:19:46] Sabe?

[01:19:48] Inclui uma pessoa trans na cultura

[01:19:50] pop. Coloca na boca

[01:19:52] e na reação de personagens

[01:19:54] os preconceitos que a audiência vai ter

[01:19:56] justamente para conectar ao público.

[01:19:58] Está tudo bem, sabe?

[01:20:00] A gente sabe que você se sente

[01:20:02] assim, mas fica mais.

[01:20:04] Vive com a gente esses momentos.

[01:20:06] Cresce com a gente.

[01:20:08] Pode ser a primeira experiência de muita

[01:20:10] gente que está assistindo com a jornada

[01:20:12] de uma mulher trans e para uma

[01:20:14] primeira experiência

[01:20:16] dá uma quebrada nesse

[01:20:18] estranhamento e humaniza demais.

[01:20:20] Porque não tem como não se apaixonar

[01:20:22] por ela, não tem como não

[01:20:24] sofrer com ela, como não torcer por ela.

[01:20:26] Não tem como não vibrar

[01:20:28] por ela. Então

[01:20:30] indico bastante. Chama Itaewon

[01:20:32] Classes. 16 episódios como sempre.

[01:20:34] É uma delícia porque a história

[01:20:36] vai, vai, o arco termina e acabou.

[01:20:38] Não tem próximas temporadas.

[01:20:40] E também indicar

[01:20:42] enquanto a

[01:20:44] Disney Plus não agracia o Brasil

[01:20:46] com a sua ilustre presença, para que a gente

[01:20:48] possa indicar o Hamilton

[01:20:50] para vocês curtirem loucamente

[01:20:52] a gente já tem as

[01:20:54] músicas no Spotify,

[01:20:56] em qualquer plataforma de streaming,

[01:20:58] a gravação do elenco

[01:21:00] original, tá?

[01:21:02] Então, depois eu conto

[01:21:04] todos os prêmios que esse musical faturou

[01:21:06] quando a gente enfim puder indicar,

[01:21:08] mas enquanto isso, basta dizer

[01:21:10] que conquistou o prêmio

[01:21:12] Grammy de melhor álbum de teatro

[01:21:14] musical. Então vocês

[01:21:16] realmente tem que escutar essas músicas

[01:21:18] que contam a história de um imigrante

[01:21:20] órfão, miserável,

[01:21:22] mas muito inteligente e ambicioso

[01:21:24] que foi um dos fundadores dos

[01:21:26] Estados Unidos. Então vai lá

[01:21:28] tomar banho cantando My Shot

[01:21:30] a plenos pulmões,

[01:21:32] ter seu momento Cinderela murmurando

[01:21:34] Helpless durante a faxina,

[01:21:36] cozinhar cantarolando Satisfy

[01:21:38] e dormir embalando

[01:21:40] o sonho com That Would Be Enough.

[01:21:42] Cara, eu tô

[01:21:44] alucinada com Hamilton,

[01:21:46] alucinada. Vão lá escutar a trilha que é muito gostosa.

[01:21:48] E você, Cris?

[01:21:50] Pode falar. Então, quero indicar

[01:21:52] um filme que tem a ver com o

[01:21:54] tema, tá? Que é uma

[01:21:56] história fascinante que também se

[01:21:58] acha no Netflix com muita

[01:22:00] facilidade. É um filme de

[01:22:02] quatro histórias, três

[01:22:04] na verdade, que se interpenetram.

[01:22:06] E esse filme se chama

[01:22:08] Super Deluxe. É um filme

[01:22:10] hindu. A terceira

[01:22:12] história é a história

[01:22:14] de uma mulher trans

[01:22:16] que sumiu de casa pra poder

[01:22:18] fazer transição. Então ela volta

[01:22:20] anos depois. É uma

[01:22:22] história fascinante

[01:22:24] que eu acho que tem tudo a ver com o que

[01:22:26] nós falamos aqui, né?

[01:22:28] A repulsa que a

[01:22:30] sociedade tem por ela.

[01:22:32] Como que ela é acolhida ou

[01:22:34] desacolhida dentro da família, né?

[01:22:36] E o filho dela,

[01:22:38] que é a coisa mais fofa

[01:22:40] que você vai descobrir

[01:22:42] naquela história. O cinema hindu

[01:22:44] tem feito coisas

[01:22:46] magníficas, sabe? Esse

[01:22:48] filme eu amei.

[01:22:50] Dá uma olhada nele.

[01:22:52] Super Deluxe. Tem no

[01:22:54] Netflix. Muito bom. Ótima dica. Adorei

[01:22:56] e já vou assistir hoje. E você, Cris?

[01:22:58] Eu revisitei uma obra

[01:23:00] que

[01:23:02] me inspira muito

[01:23:04] e que

[01:23:06] me sensibiliza ao extremo.

[01:23:08] Eu revi o documentário

[01:23:10] da Pina Bausch

[01:23:12] que é uma coreógrafa,

[01:23:14] pedagoga, dançarina

[01:23:16] e teatróloga alemã

[01:23:18] que formou

[01:23:20] uma companhia de dança

[01:23:22] que fala sobre a nossa existência

[01:23:24] com uma

[01:23:26] força que não te deixa respirar.

[01:23:28] Ela traz a dança pro

[01:23:30] palco com uma energia

[01:23:32] de vivência

[01:23:34] e com uma força

[01:23:36] tão arrebatadora

[01:23:38] que ou você vai

[01:23:40] chorar ou você vai sair

[01:23:42] correndo dançando.

[01:23:44] É uma dança contemporânea

[01:23:46] teatróloga

[01:23:48] que cada um que assiste

[01:23:50] vai dar a sua própria interpretação.

[01:23:52] E a Pina tem isso.

[01:23:54] Ela tem isso de pegar

[01:23:56] as obras musicais

[01:23:58] ao redor do mundo,

[01:24:00] jogar pra sua companhia

[01:24:02] que são homens e mulheres

[01:24:04] de 30 a 45 anos.

[01:24:06] Então, a gente não tá falando

[01:24:08] de gente muito jovem

[01:24:10] porque precisa de vivência

[01:24:12] pra interpretar aquela dor,

[01:24:14] aquele repertório

[01:24:16] e tudo aquilo que a gente

[01:24:18] quer traduzir pra dor

[01:24:20] da vivência de uma vida adulta.

[01:24:22] E ela partiu. Ela partiu

[01:24:24] de uma maneira muito abrupta.

[01:24:26] Então, eu acho que

[01:24:28] é muito importante

[01:24:30] que a gente faça

[01:24:32] essa comparação

[01:24:34] com o que a gente

[01:24:36] quer traduzir

[01:24:38] pra uma vida adulta.

[01:24:40] Então, eu acho que

[01:24:42] é muito importante

[01:24:44] que a gente faça

[01:24:46] essa comparação

[01:24:48] com o que a gente

[01:24:50] quer traduzir

[01:24:52] pra uma vida adulta.

[01:24:54] Eu acho que

[01:24:56] a gente precisa

[01:24:58] de uma forma

[01:25:00] de entender

[01:25:02] o que é a vida

[01:25:04] adulta.

[01:25:06] Então, eu acho

[01:25:08] que é muito importante

[01:25:10] que a gente

[01:25:12] faça essa comparação

[01:25:14] com o que a gente quer

[01:25:16] traduzir pra uma vida adulta.

[01:25:18] Então, eu acho

[01:25:20] que é muito importante

[01:25:22] que a gente faça essa comparação

[01:25:24] com o que a gente quer

[01:25:26] traduzir pra uma vida adulta.

[01:25:28] Vamos direto pra

[01:25:30] uma estilo.

[01:25:32] E eu acho que

[01:25:34] na história

[01:25:36] da vida adulta,

[01:25:38] por sernostante

[01:25:40] ou por ser

[01:25:42] doctora.

[01:25:44] Por ser

[01:25:46] !!

[01:25:48] Hoje eu

[01:25:49] acho privilegeira

[01:25:51] ouvir

[01:25:52] É um documentário que os bailarinos vêm trazendo um pouco do que ela faz,

[01:25:57] mas está de forma aleatória.

[01:26:00] Está traduzindo muito mais a leitura da música que ela tem

[01:26:03] para trazer o repertório da dor, da solidão e da vivência intensa humana

[01:26:09] do que narrar mesmo uma história.

[01:26:11] Mas ela fala, eu acho que você precisa ser um pouco mais louca.

[01:26:16] Eu acho que é isso que eu pego desse documentário, é a terceira vez que eu assisto.

[01:26:20] E toda vez que eu assisto, eu acho que ele traz para mim muito da vivência presente.

[01:26:26] Talvez a gente precise ser um pouco mais louco,

[01:26:29] se entregar um pouco mais a isso que não está no quadrado,

[01:26:34] não está no prefeito, não está no estigmatizado, não está na norma.

[01:26:40] Eu acho que a Pina coloca isso de uma maneira muito poética.

[01:26:44] E quando ela combina isso com o Caetano, meu Deus do céu, explode.

[01:26:49] Pina.

[01:26:50] Pina Bausch, você pode assistir partes do documentário no YouTube

[01:26:54] ou na plataforma de streaming Apple TV, assinando.

[01:27:03] Ju, tem podcast novo para indicar para a gente hoje?

[01:27:07] Olha aí, chegou na central de informação que o Plenai,

[01:27:10] a plataforma de conteúdo sobre qualidade de vida e bem-estar,

[01:27:14] está lançando seu podcast com histórias para refletir.

[01:27:17] E são histórias reais.

[01:27:19] E elas buscam…

[01:27:20] Vão nos auxiliar a entender um pouco mais sobre o mundo e sobre nós mesmos.

[01:27:26] Cada episódio vai mergulhar em um dos seis pilares do Plenai.

[01:27:32] Corpo, mente, espírito, relações, contexto e propósito.

[01:27:38] Fica o convite, então, para você tirar uns minutinhos do seu dia

[01:27:41] para se conectar com as histórias do podcast Plenai e com o momento presente.

[01:27:46] Faz esse teste.

[01:27:47] Quer um exemplo?

[01:27:49] No pilar relações…

[01:27:50] Tem a Geise e o Abílio Diniz.

[01:27:52] E vamos escutar um pouquinho do que eles falam.

[01:27:55] Eu sempre tive grandes metas na vida.

[01:27:57] Sempre busquei me superar.

[01:27:59] Sempre fui uma pessoa competitiva,

[01:28:01] em busca de conhecer e desafiar meus próprios limites.

[01:28:05] Isso valia para o meu trabalho, para os meus esportes que praticava e para a minha vida.

[01:28:10] Eu tinha sido casado e tive quatro filhos.

[01:28:13] Ana, João, Adriana e Pedro.

[01:28:16] Posso dizer que tinha uma boa relação familiar.

[01:28:18] Meus filhos sempre foram muito, muito importantes para mim.

[01:28:23] Sempre dei valor para as relações pessoais.

[01:28:26] Sempre soube que elas eram importantes.

[01:28:28] Mas hoje eu percebo que faltava alguma coisa.

[01:28:31] E aí?

[01:28:32] Foi com vontade de escutar?

[01:28:34] Então procura pelo podcast Plenai em todas as plataformas de streaming.

[01:28:38] Tire um tempo para você hoje e reconecte-se.

[01:28:41] Fala que te escuto.

[01:28:48] Bora para o Fala que te escuto?

[01:28:51] Você pode nos seguir no Twitter, no arroba Mamilos Pode.

[01:28:55] Como fez o arroba Antônio Sils.

[01:28:57] Puta que pariu, que homem é o Paulo Galo.

[01:29:01] O cara é um lutador, trabalhador.

[01:29:03] A sua voz reacende a esperança que estar pelo povo vale a pena.

[01:29:07] Eu me vejo nesse cara.

[01:29:09] A Heloísa Ikeda disse,

[01:29:10] A gente trabalha hoje em dia com tantos direitos já assegurados

[01:29:13] que não imagina o quanto foi preciso lutar para chegar aqui

[01:29:16] e o quanto ainda existe muita exploração e desigualdade.

[01:29:18] A luta continua sempre graças à democracia.

[01:29:22] O povo ficou apaixonado pelo Galo, como a gente já esperava.

[01:29:26] Tipo a Joana, que reproduziu uma fala dele que disse,

[01:29:29] Eu não quero ser o Lula, eu quero ser o Paulo Freire.

[01:29:32] Vamos juntos.

[01:29:33] O Galo de luta no Mamilos Pode.

[01:29:36] Esse cara tem minha admiração.

[01:29:38] No Instagram você também nos segue no arroba Mamilos Pode.

[01:29:41] Lá a gente coloca os destaques do programa,

[01:29:43] farol aceso e muito conteúdo especial.

[01:29:45] Além, é claro, das lives toda sexta,

[01:29:48] para vocês sextarem com a gente.

[01:29:50] Essa semana a Cris vai sextar com a queridíssima Sara Oliveira.

[01:29:54] Eita, que vai ser bom.

[01:29:55] Assim como fez a Débora Chaves, que falou,

[01:29:58] Que episódio maravilhoso.

[01:30:00] Consciente de que preciso ouvir mais sobre esse assunto.

[01:30:02] Às vezes a falta de consciência de classe nos transforma em Dória sobre rodas.

[01:30:07] Adorei.

[01:30:07] A Pedro Tradias disse,

[01:30:09] Amei a conversa com o Galo.

[01:30:11] Muito construtiva.

[01:30:13] Que pessoa incrível.

[01:30:14] Mas no fundo, achei o episódio foi isso.

[01:30:18] Uma conversa.

[01:30:19] Quase não teve participação do João.

[01:30:22] Uma pena.

[01:30:22] Eu queria ter ouvido mais dele também.

[01:30:24] A Sandra O’Dia disse,

[01:30:26] Que episódio curto, meninas.

[01:30:27] Eu ficaria o dia inteiro ouvindo o Galo falar.

[01:30:30] Parabéns.

[01:30:30] Episódio maravilhoso e inspirador.

[01:30:32] Obrigada por toda semana trazer assuntos necessários

[01:30:35] de uma forma que todos possam compreender.

[01:30:38] É isso, dona Cris.

[01:30:39] Temos um programa?

[01:30:40] Temos um programa.

[01:30:42] Fica gostosa a sensação de mais uma Vilos no Ar.

[01:30:48] Uma Milos é uma produção do B9.

[01:30:51] Apresentação, Juvalau Ericris Bartz.

[01:30:53] Coordenação geral de Carlos Merigo, Juvalau Ericris Bartz.

[01:30:57] Direção criativa e edição, Alexandre Potasheff.

[01:31:01] Produção, Beatriz Fiorotto.

[01:31:03] Curadoria e roteirização de histórias, Andréia Freitas.

[01:31:08] Apoio a pauta e pesquisa, Jaqueline Costa.

[01:31:11] Trilhas, de Andy Lopes.

[01:31:13] Identidade visual, Bárbara Seward.

[01:31:16] Coordenação digital, A.G. Barros.

[01:31:18] Pedro Estraza, Lucas Debrito e Iago Vinícius.

[01:31:22] Atendimento e comercialização, Raquel Casmala, Camila Maza e Thelma Zenaro.

[01:31:28] Até a próxima semana.

[01:31:30] Mamilos, jornalismo de peito aberto.

[01:31:34] Na jornada pelo controle de peso, saber que você não está sozinho é fundamental.

[01:31:41] Acesse Meu Peso, Minha Jornada.