#10 - Macacos e aliens


Resumo

O episódio discute como os filmes de Hollywood falham em imaginar formas de vida verdadeiramente não humanas, recorrendo a antropomorfizações que refletem apenas os valores e estruturas da sociedade ocidental contemporânea. Através da análise de ‘Planeta dos Macacos’ (1968), os apresentadores exploram como os macacos são representados como um espelho da humanidade, repetindo seus erros e hierarquias, com uma crítica à teleologia evolutiva e à incapacidade de conceber sociedades radicalmente diferentes.

A conversa avança para ‘A Chegada’, destacando como o filme transforma um conto sobre os limites da linguagem e do contato com o diferente em uma narrativa de super-heroína que salva o mundo, domesticando a diferença alienígena em algo reconhecível e utilitário para a humanidade. Isso exemplifica a tendência de reduzir o ‘outro’ a um apêndice da experiência humana, um ‘chaveiro cultural’.

Finalmente, ‘Solaris’ de Tarkovsky é apresentado como um contraponto mais bem-sucedido, onde o planeta alienígena não é domesticável e devolve aos humanos um reflexo de seus próprios subconscientes e vergonhas. O filme é elogiado por sua abordagem anti-narcisista, que força os personagens (e o espectador) a confrontarem aspectos sombrios e inaceitáveis de si mesmos, em contraste com as narrativas de conquista e identificação típicas de Hollywood.

O episódio conclui refletindo sobre como o entretenimento mainstream frequentemente ‘sonha sempre com a mesma coisa’, reforçando estruturas violentas e limitando a imaginação de alternativas sociais, enquanto obras como ‘Solaris’ oferecem um vislumbre de como a arte pode desafiar essas limitações.


Indicações

Conceitos

  • Teleologia — A ideia de que a existência ou o desenvolvimento segue um caminho único e pré-definido. Criticada no episódio como uma limitação da imaginação hollywoodiana, que projeta o modelo de desenvolvimento ocidental em todas as outras formas de vida.
  • Sociedades Contra o Estado (Pierre Clastres) — Conceito do etnólogo francês mencionado para argumentar que muitas sociedades humanas não desenvolveram o aparato estatal não por deficiência, mas por um esforço ativo para evitar a emergência de instâncias de poder coercitivo.

Filmes

  • Planeta dos Macacos (1968) — O filme original com Charlton Heston é analisado como superior aos remakes, destacado por seu protagonista misantropo e sua crítica à teleologia evolutiva e à incapacidade de imaginar sociedades não humanas radicalmente diferentes.
  • A Chegada (Arrival) — Baseado no conto de Ted Chiang, o filme é criticado por transformar uma história sobre os limites da linguagem e do contato com o diferente em uma narrativa de super-heroína que salva o mundo, domesticando a diferença alienígena.
  • Solaris (de Andrei Tarkovsky) — Elogiado como um contraponto anti-narcisista, onde um planeta-oceano alienígena devolve aos humanos um espelho de seus subconscientes e vergonhas, forçando um confronto com aspectos sombrios, em contraste com narrativas de conquista típicas de Hollywood.
  • Stalker (de Andrei Tarkovsky) — Baseado no livro ‘Picnic na Estrada’ dos irmãos Strugatsky, é mencionado como outro filme que trata de temas semelhantes de encontro com o desconhecido e os limites da percepção humana.

Livros

  • A História da Sua Vida (de Ted Chiang) — Conto original que inspirou ‘A Chegada’. É descrito como uma exploração profunda dos limites da linguagem humana e do que acontece quando nos confrontamos com a diferença radical, em contraste com a adaptação cinematográfica.
  • Planeta dos Macacos (de Pierre Boulle) — O livro original de 1963 que inspirou o filme. É mencionado que a premissa é a mesma, mas a história do livro é ‘bem diferente’ da adaptação cinematográfica.

Pessoas

  • Pierre Clastres — Etnólogo francês citado por cunhar o termo ‘Sociedades Contra o Estado’, usado para argumentar contra a ideia de um caminho evolutivo único para as sociedades humanas.
  • Davi Kopenawa — Filósofo e líder yanomami citado no final do episódio. Sua fala sobre como o ‘branco’ só sonha com a mesma coisa é usada para criticar a falta de imaginação do entretenimento mainstream.

Linha do Tempo

  • 00:01:30Introdução ao tema: limites de Hollywood para vida não humana — Os apresentadores introduzem o tema central do episódio: como os filmes de Hollywood são limitados em sua capacidade de conceber formas de vida não humanas (aliens, macacos, robôs). Eles anunciam que vão analisar ‘Planeta dos Macacos’ (1968) como primeiro exemplo, destacando sua origem no livro de Pierre Boulle e sua superioridade em relação ao remake de Tim Burton.
  • 00:04:20Taylor: um protagonista misantropo e falho — A discussão se aprofunda no personagem Taylor (Charlton Heston), descrito como um ‘insano’ e misantropo estrutural. Ele odeia a humanidade e busca algo ‘melhor do que ser humano’. Sua crueldade é evidenciada desde o início, ao debochar da morte de uma colega astronauta e desdenhar das emoções dos companheiros. Ele representa um ponto de vista conservador e desprezível, que não serve como avatar do espectador, mas como um objeto de análise curioso por si só.
  • 00:09:50A relação abusiva com Nova e a sociedade macaca — A conversa aborda a personagem Nova, uma humana primitiva dada a Taylor como companheira. A relação é descrita como totalmente assimétrica e bizarra, com Taylor tratando-a como um objeto. Isso é contrastado com a aparente maior igualdade de gênero na sociedade dos macacos, que no entanto é sustentada por um obscurantismo religioso que impede o desenvolvimento tecnológico para evitar a autodestruição humana.
  • 00:20:05Teleologia: o caminho único da ‘evolução’ — Os apresentadores criticam a teleologia presente em ‘Planeta dos Macacos’: a ideia de que existe um caminho único e pré-definido para o desenvolvimento das sociedades, culminando no modelo ocidental contemporâneo. Essa visão é transferida para os macacos, que inevitavelmente repetem os ‘erros’ humanos. Discute-se como essa narrativa ignora sociedades humanas que ativamente resistiram à formação de estruturas estatais de poder.
  • 00:36:52A Chegada’: domesticando a diferença alienígena — A análise de ‘A Chegada’ começa, contrastando o conto original de Ted Chiang com a adaptação hollywoodiana. Enquanto o livro explora os limites da linguagem e o impacto do contato com o radicalmente diferente, o filme transforma a linguista em uma super-heroína que usa o conhecimento alienígena para impedir uma guerra. A diferença é reduzida a um instrumento utilitário para salvar a humanidade, um exemplo de ‘shopping ideológico’ onde o outro existe apenas para o desenvolvimento pessoal do protagonista.
  • 00:50:04Cetáceos como ‘aliens’ na Terra e a inteligência não humana — A discussão se volta para a vida não humana na Terra, especificamente os cetáceos (golfinhos e baleias). Comentam-se os experimentos de comunicação interespecífica dos anos 60/70 e como as baleias foram inicialmente descartadas como inteligentes por serem ‘alienígenas demais’. O ponto central é a incapacidade da cultura ocidental de conceber inteligência que não esteja vinculada aos pilares de sua própria civilização (como construir shopping centers), um reflexo da teleologia discutida anteriormente.
  • 00:54:40Solaris’: o anti-narciso e o espelho da vergonha — ‘Solaris’ de Tarkovsky é apresentado como um contraponto positivo. O planeta-oceano não é antropomorfizado; ele investiga o subconsciente dos humanos na estação espacial e materializa suas vergonhas e desejos reprimidos. Diferente de narrativas de conquista, o filme coloca os humanos na posição de dominados, forçando-os a confrontar a faceta sombria de suas próprias tentativas de colonização. É um filme ‘anti-narcisista’ que devolve uma imagem na qual não nos reconhecemos e temos vergonha de olhar.
  • 01:06:04A mulher como objeto em Planeta dos Macacos e Solaris — Os apresentadores traçam um paralelo entre a misoginia em ‘Planeta dos Macacos’ (Stuart e Nova como objetos) e em ‘Solaris’. Em Solaris, a ‘visitante’ (a esposa reconstruída) é um objeto psíquico do protagonista, um ser incompleto que sofre por sua existência limitada. A diferença crucial é que em Solaris outros personagens apontam o caráter doentio da situação, e é a ‘visitante’ quem toma a iniciativa de se libertar daquela relação abusiva, ao contrário da passividade de Nova.
  • 01:17:10Recapitulação da primeira temporada e temas centrais — Os apresentadores fazem um balanço da primeira temporada do podcast, listando os episódios anteriores (Armageddon/Interestelar, O Diabo Veste Prada, Pocahontas, Robocop, Midsommar, episódios sobre polícia, Contágio). Identificam um tema unificador: como o entretenimento lida com ‘diferentes tipos de vida’, hierarquizando-as (vidas ‘matáveis’, ‘primitivas’, ‘avançadas’) e como ele reforça estruturas violentas da sociedade, ao mesmo tempo em que vende a ideia de que alternativas são impossíveis ou utópicas.
  • 01:22:01Conclusão: o sonho sequestrado pelo entretenimento — A conclusão reflete sobre como o entretenimento mainstream ‘sonha sempre com a mesma coisa’, limitando nossa imaginação e nos fazendo aceitar certas violências como naturais e necessárias. Citando o pensador yanomami Davi Kopenawa, contrasta-se a visão ocidental do sonho como delírio com a tradição ameríndia, onde sonhar é uma arte de produzir pensamento. O episódio encerra com uma prévia da segunda temporada, que abordará reality shows, o absurdo do capitalismo e a família tradicional.

Dados do Episódio

  • Podcast: Popcult
  • Autor: Atabaque Produções
  • Categoria: TV & Film Film Reviews
  • Publicado: 2020-08-04T08:30:14Z
  • Duração: 01:26:47

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Ouviste isto? Os Friends chegaram a McDonald’s. Agora as personagens vêm com o teu McMenu por apenas mais um euro.

[00:00:07] Oh my God! Isso é incrível!

[00:00:09] Entre Monica, Phoebe, Rachel, Ross, Chandler e Joey, qual deles és tu?

[00:00:14] Não sei, difícil escolher.

[00:00:15] Então não escolhas. Penda-te o Box Friends e colecione os seis. Só no Mac.

[00:00:30] Um tema recorrente neste podcast é como a desumanização de certos grupos

[00:00:34] é usada para firmar uma ideia de superioridade do modo de vida defendido pelos filmes de Hollywood.

[00:00:39] No episódio de hoje, porém, vamos olhar como esses mesmos filmes são muito limitados

[00:00:43] em sua capacidade de conceber uma forma de vida não humana.

[00:00:46] Sejam eles aliens, macacos, planetas, robôs,

[00:00:50] ou até os animais.

[00:00:52] Os filmes de Hollywood são muito limitados em sua capacidade de conceber uma forma de vida não humana.

[00:00:57] Sejam eles aliens, macacos, planetas, robôs, ou uma mistura de todos esses.

[00:01:02] Tudo bem, Orlando?

[00:01:04] Tudo ótimo, meu amigo.

[00:01:05] Eu só queria deixar claro que filmes com macacos são sempre os melhores filmes.

[00:01:10] Acho estranho você trazer esse argumento num episódio que não tem nenhum macaco nos filmes que a gente já está.

[00:01:18] São zero macacos.

[00:01:19] Será? Vamos ver. De repente não.

[00:01:22] Não, olha só.

[00:01:23] Eu reassisti Plantas Macacos ontem de madrugada.

[00:01:26] Então esse é o primeiro filme que a gente vai falar.

[00:01:28] Isso está fresquíssimo na memória.

[00:01:30] Um clássico do cinema hollywoodiano, que inspirou, inclusive, uma trilogia recente que você também gosta bastante.

[00:01:38] Essa aqui também não tem macacos, porque todos os macacos são computação gráfica.

[00:01:43] Mas vamos falar do filme de 68 do Charlton Heston, baseado num livro de 63, do mesmo nome,

[00:01:51] de um autor francês, Pierre Boulle.

[00:01:56] Nunca conheço outras obras dele, mas a história do livro é bem diferente.

[00:02:01] Mas a premissa é a mesma.

[00:02:04] Existe esse planeta com macacos inteligentes e o que no filme é um twist.

[00:02:11] Desculpa, gente, vai rolar spoilers.

[00:02:13] No livro, no entanto, que é o…

[00:02:16] Ah, no livro também é um twist, porque eles não sabem que é um planeta.

[00:02:19] Tem esse negócio.

[00:02:20] Acha um planeta, tem uma civilização de macacos evoluídos lá, mas só que na verdade era a terra.

[00:02:26] E os macacos simplesmente dominaram a terra após a queda da civilização humana.

[00:02:31] O original de 68 do Charlton Heston é, na minha opinião, o melhor filme.

[00:02:36] O único que tentou refazer essa história de verdade foi o remake de 2001 do Tim Burton, que é um péssimo filme.

[00:02:47] Não que o Tim Burton ainda fizesse bons filmes em 2001, mas ele parou de fazer bons filmes no meio de 1990.

[00:02:52] Eu diria que o Tim Burton também é um desses…

[00:02:56] É tipo um jogador de futebol que foi artilheiro numa temporada e depois todo mundo passa o resto da carreira vivendo daquele campeonato brasileiro de 1992.

[00:03:06] Ah, com certeza. O último filme bom dele foi Ed Wood, e desde então não acertou mais uma.

[00:03:13] Mas aí, no Planeta dos Macacos, a gente tem uma expedição de astronautas terráqueos liderada pelo Charlton Heston, que é o Taylor,

[00:03:24] e eles estão indo para algum lugar e eles vão demorar milhares de anos nessa jornada, só que como o tempo passa numa velocidade diferente, porque eles estão na velocidade da luz,

[00:03:35] já se passaram, assim, dois mil anos desde que eles saíram da Terra, mas para eles passaram pouquíssimos meses e tal, porque eles ficam um tempo naquela hibernação

[00:03:45] que todo filme de ficção científica adora, caem num planeta no qual a atmosfera é muito similar a nossa, é igual a nossa na verdade, mas enfim,

[00:03:54] que eles conseguem respirar, conseguem andar, conseguem achar plantas eventualmente, mas só que o que é interessante, eu acho, do filme logo no começo,

[00:04:02] é que ele, e que eu senti que a parte de tipo, eles nunca conseguiriam fazer esse filme de novo hoje, é que além dele ser estruturalmente um roteiro

[00:04:11] que não tem nada a ver com os filmes pipoca de Hollywood hoje, o personagem principal, o Taylor do Charlton Heston, é um insano.

[00:04:20] Insano.

[00:04:21] Ele é muito mais interessante, assim, a analogia que eu consigo fazer aqui para você, Orlando, é que se todo o protagonista desses grandes filmes blockbuster americanos

[00:04:34] são peito de frango, ele é uma bela paleta de cordeiro, assim, temperada.

[00:04:39] Sabe o que eu acho? Ele exibe uma, assim, eu acho que um comportamento característico dele é uma misantropia estrutural, né, assim,

[00:04:50] tipo, ele odeia a humanidade, né, tipo, de um nível que é uma coisa assim bizarro, né, tanto que o começo do filme é, eu vou para um outro lugar,

[00:05:03] me aventurei no espaço em busca de algo melhor do que ser humano, ele diz isso claramente, ele é basicamente um usuário de rede social

[00:05:10] raivoso, saca?

[00:05:11] Cara, ele é, assim, total unchanner, porque aí ele, imagina, quando eles caem nesse planeta dos macacos, olha, a única…

[00:05:23] Como surgiu o título do filme, né?

[00:05:27] São quatro tripulantes, a Stuart, que é a única mulher, e mais dois que o nome é irrelevante, porque eles somem da trama muito fácil.

[00:05:36] Mas, enfim, quando eles caem, o vasoar na câmara de hibernação da Stuart, então ela envelheceu aqueles anos todos, e aí ela está morta, mumificada.

[00:05:48] Mumificada, virou uma múmia.

[00:05:51] E aí o Charlton restam e esses dois astronautas sobrevivem.

[00:05:53] E nisso, imagina, eles estão num estado de shock, eles estão num planeta, a nave deles afundou num mar lá, e eles não têm prospecto nenhum,

[00:06:02] eles sabem que eles nunca vão voltar para casa, né, e que faz milhares de anos que eles saem da Terra, enfim, que eles não vão voltar para casa,

[00:06:09] eles só estão tentando achar uma comida e um abrigo, alguma coisa, e nisso ele tem um desdém completo, assim, pelo…

[00:06:19] Pelas emoções que os colegas dele estão sentindo, ele já está, tipo, rindo e fazendo piada com o total ao que eles foram destinados ali, né,

[00:06:32] essa lenta morte numa ilha deserta do espaço, assim, basicamente.

[00:06:37] E não só isso, né, porque a própria morte da outra personagem, né, um dos companheiros dele tenta fazer um velório, tenta fazer uma rosa simbólica,

[00:06:48] ele fica rindo daquilo, né, com uma certa crueldade, né, e assim, ele me parece…

[00:06:52] Como eu falei que ele parece esse usuário de redes sociais, ele me parece aquela pessoa que sofreu algum tipo de decepção com o mundo,

[00:07:01] e não precisa ser algum evento específico, mas se sente decepcionada com o mundo, e o tempo inteiro coloca a culpa numa espécie de humanidade ilusória,

[00:07:12] né, do tipo, olha, a culpa é do humano, o ser humano é cruel, o ser humano não tem mais que existir, porque o discurso dele vai todo nessa direção,

[00:07:21] só que no primeiro… Porque essa primeira cena é tudo essa, né, ele fala assim, vocês estão fazendo guerra,

[00:07:26] porque ele fica mandando um recado pra uma pessoa, né, pra alguém que possivelmente possa receber aquilo, e aí ele fala de guerra, de pessoas passando fome, né, enfim.

[00:07:35] E aí depois, na primeira cena onde você tem uma interação dele com os outros personagens, tu vê que ele é uma pessoa completamente desprezível,

[00:07:43] que ele tá ao mesmo tempo debochando da morte da companhia, demonstrando vero sentimento, tanto pela morte dela,

[00:07:50] quanto pelo quanto os companheiros dele ficaram fragilizados com aquilo, ou com a própria condição,

[00:07:56] e aí tu vê, né, ele é aquele cara que tipo assim, que o problema é o outro, mas no fim das contas o problema é ele mesmo,

[00:08:04] sabe, porque a forma como ele se engaja até toda essa misantropia estrutural do comportamento dele é basicamente aquele sujeito que fala assim,

[00:08:11] ah, vem meteoro, a humanidade já deu, só que essa mesma pessoa é incapaz de refletir como seus próprios comportamentos,

[00:08:17] seu própria vida, né, faz parte daquilo que ela constitui enquanto uma experiência ruim da humanidade.

[00:08:23] Sim, e aí eu acho muito interessante analisar como esse personagem dele é um produto claramente da época do filme, né,

[00:08:32] tanto que o personagem dele não existe no livro assim, né, não existe essa expedição terráquea que cai lá e tal,

[00:08:38] porque assim, a gente tem umas falas dele que dão o sinal de quem ele era, né, tem uma hora que ele faz a barba finalmente

[00:08:46] e ele fala para um dos macacos jovens que tipo, ah, as únicas pessoas que têm barba como você, da onde eu venho, são moleques, né,

[00:08:56] ou seja, né, final dos anos 60 e ele é um cara de mais idade, ele já parece ter ali seus 30, 40 anos.

[00:09:03] Ele é o Hulk, né?

[00:09:04] É, ele já é o galã de meia idade, ele e tal, e aí ele tem um certo desdém pela própria sociedade americana e as transformações,

[00:09:16] assim que ela está passando naquela época, mas que elas acabam sendo transformações não permanentes, de verdade,

[00:09:21] mas é porque ele fala, por exemplo, ele fala uma hora sobre, ele está falando com a Nova.

[00:09:29] Ah, porque isso, tem outro personagem que a gente nem pode chamar de personagem, mas tem um bibelô do roteiro que é a Nova, né,

[00:09:35] que é uma humana que dão para ele quando ele, é porque ele é mantido num zoológico dos macacos lá e os humanos desse planeta não falam,

[00:09:43] eles são animais ainda sem uma linguagem falada, eles são humanos mais primitivos

[00:09:50] e eles dão a ela para ele ter uma parceira assim, pra copular basicamente, e ele aceita isso de bom grado e carrega essa mulher como um objeto.

[00:10:01] Não só aceita isso de bom grado, porque tem todo um diálogo dele com ela que ele deixa claro que ela foi a única mulher que ele foi capaz de amar.

[00:10:09] Exato.

[00:10:10] Nessa relação totalmente assimétrica, né?

[00:10:13] Sim, porque ele vira e fala, can you love? Você consegue amar? E aí ele fala dele mesmo na terra falando, é, o…

[00:10:24] Aí tem uma outra hora, né, que ele fala assim, acho que é a mesma cena que ele fala assim, da vida dele na terra,

[00:10:33] meio que criticando o que estava rolando na época dessa cultura do amor livre, entre aspas, né, mas dos hippies e tudo mais,

[00:10:44] e de uma liberação sexual de certa maneira que estava rolando, e que ele é o ponto de vista conservador americano, né?

[00:10:51] E tem uma outra hora que um dos macacos vê ele com a nova, depois que eles escapam, acho que é o Dr. Zeyas mesmo que vê eles juntos e fala,

[00:11:00] ah, eu não sabia que homens conseguiam ser monógamos, e ele só responde, nesse planeta é fácil, porque ele está cercado de macacos,

[00:11:09] e a única mulher que ele tem é a nova. Então, as coisas que ele fala só porque ela não entende a língua dele, né, não entende inglês,

[00:11:15] enfim, eu acho que toda a nova existindo nesse filme, assim, torna ele tão mais estranho e tão mais desconfortável em certas partes,

[00:11:24] assim, é um ótimo filme, mas assim, essa relação é bizarra.

[00:11:28] Eu acho ele um ótimo filme pra justamente, é porque assim, não só ele, eu acho que esse filme, ele, todo, toda a série dos macacos,

[00:11:38] seja a original, seja o reboot, o remake, na verdade, do Tim Burton e o reboot que foi feito ali,

[00:11:49] sei lá, uns dez anos atrás, será, cinco anos atrás, talvez, com Ed Serkis fazendo o Caesar e tal, enfim, que são bons filmes,

[00:11:58] esses últimos filmes são bons filmes, mas eles conservam, que é justamente, eles são transparentes, por isso que eu acho que eles são ótimos pra isso,

[00:12:08] eles são bons para se pensar, né, essa estrutura, né, que a gente falou isso no último episódio, né,

[00:12:15] o que que acontece quando você coloca um macaco num filme, né, quando você coloca um macaco no filme,

[00:12:21] a não ser que ele seja aquele patch humorístico, né, que muitas vezes tem, sei lá,

[00:12:25] vi aquele filme com Clint Eastwood, que ele viajava o país com um orango tango no carro dele,

[00:12:33] cara, nesse momento, assim, eu fiquei muito sozinho, me senti muito sozinho, muito velho,

[00:12:38] cara, eu não faço a mesma coisa que você tava falando, eu tentei cavar, e você sabe que eu tenho muito conhecimento inútil dessa parte da cultura,

[00:12:44] mas procura o que você vai achar, cara.

[00:12:46] Não, não, eu não duvido que exista, eu não acho que você tá sofrendo um Mandela Effect,

[00:12:49] mas é que o filme que eu sempre penso quando falam de filme com macaco é o Dunstan Checks In,

[00:12:56] que é o filme que tem o Jason Alexander, que era o George, do Seinfeld, como o gerente de um hotel no qual o macaco tá hospedado.

[00:13:04] Nossa, esse aí eu não faço ideia não, você ouvinte tá vendo agora o problema de geração que nós temos quando fazemos roteiros pro pop cult,

[00:13:12] mas assim, nós dois nos lembramos de lixos de décadas diferentes, o nosso lixo é sempre o outro,

[00:13:20] mas assim, o meu ponto é que macacos quando aparecem em filmes, eles geralmente aparecem como um reflexo da própria humanidade,

[00:13:30] e esse reflexo é sempre um artifício muito típico da literatura e do cinema norte-americano pra deixar assim,

[00:13:39] você apresenta um reflexo da própria sociedade pro leitor, pro telespectador, e como é um ser diferente,

[00:13:47] você consegue isolar, simplificar a existência pra mostrar mais aquilo que você quer mostrar,

[00:13:53] isso inclusive vai aparecer por exemplo, depois a gente vai falar desse filme melhor, que é 2001, você aparece em 2001,

[00:14:00] mas o macaco nesse filme, ele tem um, os macacos, os símios no geral, eles tem dois papéis,

[00:14:07] o primeiro deles é fazer a humanidade em certa medida refletir sobre suas próprias violências,

[00:14:13] mas assim, a coisa do zoológico, a coisa das viviscações, a coisa dos experimentos em seres vivos,

[00:14:21] todo um discurso que hoje em dia, realmente isso é muito importante discutir isso,

[00:14:27] sobre por exemplo, testar medicamentos, coisas em animais e tudo mais, esse filme aborda isso,

[00:14:33] porque quando você coloca um ser humano da perspectiva de um ser que vai ser castrado, viviscecado,

[00:14:39] sabe, utilizado pra fazer experimentos científicos, a coisa se torna um filme de terror,

[00:14:43] esse é uma coisa, é um primeiro momento, o segundo momento é pra mostrar que no fim das contas,

[00:14:50] os macacos somos nós hoje, só que ao contrário, aí que pra mim vem o grande problema desse macaco,

[00:15:00] né, dos filmes de macaco, porque o nós que os macacos incorporam nos filmes, não somos nós,

[00:15:08] citadinhos, euro-americanos, enfim, ou pessoas que são euro-americanos wannabes, né, os brasileiros,

[00:15:15] enfim, não, esse nós é confundido com os limites da própria espécie, tanto que voltar pro começo do filme,

[00:15:23] né, o personagem de Thornton Helson chega e diz, é, quero encontrar algo melhor do que ser humano,

[00:15:30] ou seja, os macacos ali, né, eles são uma espécie de metáfora da própria espécie, da própria maneira como o filme, né,

[00:15:38] imagina o que era o ser humano, e aí que vem um problema fundamental pra mim desses filmes, né,

[00:15:43] ele cai numa espécie de teleologia, o que que é teleologia?

[00:15:48] Quando você imagina, temos muitos gerais de que a existência, ela segue um caminho pré-definido, uma evolução pré-definida,

[00:15:55] então você vai ter as sociedades primitivas que depois vão entrar num certo estágio de religião,

[00:15:59] depois vão chegar a formar feudos e até você vai ter a sociedade na qual nós vivemos, né,

[00:16:05] na sociedade que nós vivemos é o ápice da evolução humana, né, e aí que vem o problema, né,

[00:16:09] porque quando você cria uma ideia teleológica do desenvolvimento da espécie,

[00:16:14] você transfere esse desenvolvimento pros macacos, ou seja, não importa a espécie que vai desenvolver, né,

[00:16:19] é o próprio desenvolvimento, a própria forma de existir que é a única forma evoluída de ser que vai correr nos mesmos erros, né,

[00:16:25] os macacos se tornam tão violentos, tão ruins, porque é a única forma de existir, é a única forma de vida,

[00:16:32] por isso que o filme tem esse plot twist, né, porque o plot twist, inclusive assim,

[00:16:39] os macacos talvez eles sejam um pouco melhores que a humanidade porque eles aprendem com o erro da humanidade,

[00:16:45] só que aí que acontece, né, eles aprendem com o erro da humanidade e cometem os mesmos erros que a humanidade, né.

[00:16:50] Pois é, e aí eu preciso voltar em outras peculiaridades do protagonista, assim, de novo,

[00:16:56] esse filme é muito interessante pelo quão falho e estranho o protagonista é,

[00:17:04] que em momento nenhum ele tá lá pra ser um avatar da plateia, né, do espectador, né,

[00:17:10] ele é parte das coisas curiosas que você tá observando ali, tem um planeta cheio de macacos civilizados,

[00:17:16] que é muito curioso, mas também tem esse protagonista que é curioso e interessante por si só, né,

[00:17:21] e aí ele explica em algum momento qual que era o papel da mulher astronauta, a Stuart, na missão,

[00:17:28] e que ela seria uma nova Eva, porque a ideia era que esses três homens iriam com ela pra um novo planeta habitável

[00:17:36] e criaria uma nova população humana lá, enfim, inseminando ela diversas vezes.

[00:17:43] Não, e é o que é bizarro, né, porque da perspectiva biológica o certo seria completamente o oposto, né.

[00:17:49] Sim, né, um homem e várias mulheres.

[00:17:51] É, porque homens da perspectiva biológica são completamente descartáveis,

[00:17:54] tanto que você vi o problema do leão, o leão saco de esperma.

[00:17:58] Se você tivesse ali um saco de esperma e um repositório de esperma, o que poderia ser muito bem, inclusive,

[00:18:03] acho justo que fosse substituído por um tubo, né, se você tivesse um tubo ali que pudesse, enfim,

[00:18:10] fecundar o óvulo, não precisava ter homem ali naquela história, saca.

[00:18:13] Mas aí tu vê, né, como que mais uma vez o filme espelha a estrutura da própria sociedade, né,

[00:18:19] tem um patriarcado envolvido ali, né, tem uma obsessão reprodutiva envolvida ali, né,

[00:18:26] tem justamente assim, e aí você tem toda essa assimetria, né,

[00:18:29] que você vai submeter o corpo daquela mulher à obsessão de reprodução e colonização da espécie com muitas aspas, né, enfim.

[00:18:39] Sim, mas eu acho que assim, pra voltar pro tema do que a gente tá falando aqui,

[00:18:44] que é a incapacidade de imaginar outras vidas como diferentes,

[00:18:49] eu acho que o filme, ele falha, ele não falha, mas ele deixa de explorar tão bem o tema central dele,

[00:18:57] que é essa coisa de tipo, olha só os macacos, olha só o humano sendo oprimido como o humano oprime outras vidas e tal,

[00:19:03] é o seguinte, os macacos falam inglês, e é um problema que o filme descarta durante muito tempo

[00:19:10] quando o Jonathan Rasson tá com uma lesão na garganta, né, e aí ele não pode falar, então eles acham que ele é como todos os outros humanos que não falam,

[00:19:18] mas eventualmente ele começa a falar e ele começa a ser entendido e ele tem todo o vocabulário necessário pra se comunicar com esses macacos,

[00:19:25] e aí a recusa dos macacos em ouvir ele e reconhecer ele se torna menos crível num ensaio sentido, se torna menos interessante de acompanhar,

[00:19:35] porque aí você começa a acompanhar uma história que você vira e fala assim, tá, não, mas se eu fosse esses macacos agora,

[00:19:40] eu estaria, pelo menos, prestando atenção no que ele tem pra falar, ou usando ele pra alguma coisa,

[00:19:44] os macacos querem se livrar da questão, eles não querem pensar sobre isso, e eu entendo que num certo nível filosófico,

[00:19:50] faz todo o sentido a reação dos macacos de não querer lidar com o fato de que um humano pode ser equiparável a eles no sentido de modo de vida,

[00:20:00] de novo, voltando pra aquela coisa que a gente introduziu no primeiro episódio de Bios Isoé,

[00:20:05] de que ele não é só um animal, né, como eles chamam, e como a gente chama os outros animais que não somos nós,

[00:20:13] mas o problema é exatamente nesse, como os macacos eles são exatamente como nós, a sociedade deles é organizada de mesma maneira,

[00:20:21] a língua deles é a mesma, não cria-se um impasse na nossa cabeça, e na nossa cabeça a gente acha que, tipo,

[00:20:27] o filme podia ter acabado muito mais cedo se os macacos falassem, caramba, um humano que fala, vamos botar ele na TV, pronto, sabe,

[00:20:34] e é isso, assim, sabe, no final das contas, até os humanos, assim, não tô aqui pra defender a raça humana, Deus me livre, assim,

[00:20:42] adoro, tenho até amigas que vocês são, mas sei que tem muitos defeitos, mas eu digo assim, se um macaco, ué, a Coco,

[00:20:48] que era a gorila que falava com linguagem de sinais, a gente botou na TV.

[00:20:52] Mas aí tem dois pontos, né, o primeiro deles que é um espelho da máquina racista, né, porque toda maneira como,

[00:20:58] inclusive isso fica muito evidente na cena, na famosa cena do julgamento, né, de que tiram a roupa dele,

[00:21:04] porque tem todo um espelho da despersonificação, né, que a máquina racista imprime sobre outros, porque se você for ver, por exemplo,

[00:21:13] a máquina racista que, né, fundamentou o regime escravocrata, é, continuamente ignorava o fato de que você estava ali

[00:21:25] escravizando pessoas, pessoas, né, que falavam sentido.

[00:21:30] Tinha que criar esse artifício de desumanizar os povos escravizados.

[00:21:34] É, né, a gente tinha a palavra nem só de se humanizar, né, é despersonificar, né, você tira a possibilidade,

[00:21:41] você coloca ele num segundo, num estágio abaixo que o seu, né.

[00:21:46] Porque aí você impede as pessoas de criar empatia, né.

[00:21:49] Isso, isso, porque você tem que transformar aquele ser, pensar aquele ser enquanto, tentar reduzí-lo,

[00:21:54] no sentido da máquina, o que a máquina tinha como intenção fazer, né, tipo reduzí-lo é uma ferramenta de trabalho,

[00:21:59] reduzí-lo é um servo, reduzí-lo, sabe, esse que era o, e é interessante isso, né, porque o filme consegue criar essa empatia

[00:22:08] quando ele, para os telespectadores, quando ele coloca o Charlton Helson no papel da pessoa que está sendo

[00:22:14] despersonificada, só que o filme ao mesmo tempo compra de barato a ideia de que a mulher da

[00:22:20] expedição seria utilizada como máquina reprodutiva.

[00:22:23] É, e isso ele não, ele não joga em nenhum momento, assim, tipo, considerando os personagens do filme,

[00:22:30] assim, a sociedade macaca parece extremamente mais igualitária quando o assunto é gênero do que a

[00:22:36] sociedade da onde veio o Charlton Heston, né.

[00:22:39] É, porque isso que eu acho que é um outro ponto, porque o filme, ele avança um pouco nessa direção,

[00:22:44] porque assim, o filme, para quem não sabe do plot, do filme, plot twist, é que eles descobrem que estão na terra,

[00:22:51] né, que a humanidade se autodestruiu por conta de algum conflito que não se fala, e aí, e alguns macacos

[00:22:59] são conscientes disso, e aí o que acontece, esses macacos enxergam que se eles tiverem o mesmo

[00:23:04] desenvolvimento tecnológico que os humanos, vai acontecer a mesma coisa com eles, porque é isso, né,

[00:23:08] a sociedade está fadada a autodestruição, aquela coisa da única forma de existir, né,

[00:23:13] o único modelo histórico de desenvolvimento, de forma de vida, que é a grande imaginação ocidental

[00:23:17] sobre as coisas. E o que que esses caras fazem? Eles impedem a propriedade de se desenvolver, né,

[00:23:24] por meio da religião. Então, assim, talvez aquela pequena, aquela pequena igualdade entre as mulheres,

[00:23:30] ela é automaticamente rechaçada por conta de um obscurantismo fundamental da sociedade, né,

[00:23:35] que os caras não conseguem aceitar qualquer mudança. Tipo, qualquer mudança é violentamente rechaçada

[00:23:40] pelas lideranças, ao contrário, por exemplo, da sociedade norte-americana que abraça as mudanças,

[00:23:46] mas nem tanto, né, vídeo e personagem do Charlton Heston, né.

[00:23:49] Pois é, então, assim, a primeira coisa que me chamou a atenção no filme é quando ele está gravando aquele recado,

[00:23:56] assim, né, a abertura do filme é ele na nave gravando um recado pra quem tiver de volta na Terra,

[00:24:01] e já é tipo, pra eles ainda é 1970 alguma coisa, e na Terra já seria 2400 casetados.

[00:24:09] E aí ele fala assim, ele fala várias coisas e tal, e aí eu fico pensando assim, cara, imagina,

[00:24:15] assim, um cara de 1976 descongelado hoje já ia ter uma capacidade muito difícil, assim,

[00:24:23] de se comunicar com a nossa sociedade em algum nível que não fosse considerado problemático.

[00:24:31] Cara, sabe o que eu lembrei aqui? Desculpa te cortar, mas eu lembrei daquele episódio de South Park,

[00:24:35] um episódio clássico que eles descongelam um cara que estava no grunge, o cara ficou parado num grunge, lembra disso?

[00:24:41] É um episódio de, tipo, 2000 e eles descongelam um cara de 1994, né, e é muito bom, assim,

[00:24:48] The Man of 1994, um negócio assim, é muito bom, assim, porque eles pegam esse tropo do viajante no tempo, assim,

[00:24:55] só que eles fazem num espaço muito curto e eles, tipo, realçam as reais diferenças sociais.

[00:25:02] Que é isso, assim, é muito difícil. Ué, se você ficar um ano náufrago numa ilha deserta e voltar,

[00:25:08] vai ser muito difícil pra você acompanhar. Mas enfim.

[00:25:10] Mas rapidinho, mais ou menos, eu que vi isso, né, eu fiquei 18 meses dentro de uma terra indígena, né.

[00:25:16] Mas você não tinha nenhum acesso à internet?

[00:25:18] Sabia muito pouco, cara. Eu tinha, no máximo eu limitava a falar com a família, saber se as pessoas estavam vivas e tal.

[00:25:23] Eu sabia muito pouco o que estava acontecendo. Sério mesmo.

[00:25:26] Então eu entendo cada vez mais certas ideias suas.

[00:25:29] Mas enfim, o que eu queria dizer é que o filme, ele, eu acho que um grande crédito do filme é que é isso,

[00:25:39] que ele nunca tenta botar a gente do lado do Charlton Heston.

[00:25:43] O Charlton Heston não representa a humanidade e nem o ponto de vista que o filme tem da humanidade.

[00:25:47] Ele é mais uma criatura estranha num filme cheio delas.

[00:25:54] E sobre essa questão da oposição entre a fé que mantém essa sociedade claramente teológica ali,

[00:26:04] uma teocrática dos macacos, uma hora ele pergunta pro Dr. Zeyas lá, tipo,

[00:26:11] se você achar dentro dessa caverna uma evidência que contraria os seus pergaminhos sagrados aí,

[00:26:17] sobre a origem dos macacos, você vai acreditar?

[00:26:20] Porque ele está perguntando isso, tipo, pra botar o Dr. Zeyas numa sinuca de bico.

[00:26:26] E o Dr. Zeyas fala, claro, beleza, se você mostrar algo que contraria, você está certo.

[00:26:33] E eles entram na caverna e começam a dissecar coisas que, beleza,

[00:26:36] a gente que já sabe o final do filme acha, tipo, ah, o Charlton Heston está certo.

[00:26:41] Mas, assim, ele não está fazendo um caso muito científico pra aquilo que ele encontra.

[00:26:45] Você basicamente tem um embate entre o Taylor e o Dr. Zeyas, que é,

[00:26:48] olha, eu acho que a explicação é essa, então eu vou jogar ela em cima desses itens aqui.

[00:26:54] E o Dr. Zeyas vai dizer, não, não, o meu status quo é esse e eu acho muito mais…

[00:26:59] Eu tenho uma explicação muito simples aqui, e ainda assim lógica,

[00:27:02] porque pode ter acontecido aqui.

[00:27:04] E aí eles têm aquela conversa, tipo, do Taylor perguntar pro Dr. Zeyas,

[00:27:10] como assim você não vê contradição entre fé e ciência?

[00:27:16] E o Dr. Zeyas realmente fala assim, não, não tem contradição de ciência.

[00:27:19] Só que ele está tirando sarro porque o Dr. Zeyas é ministro da ciência

[00:27:22] e responsável pela religião daquela sociedade.

[00:27:27] E aí a grande conclusão que a gente chega,

[00:27:30] exatamente porque o filme, eu sinto, não toma o lado nenhum dos dois,

[00:27:33] é que eles falam assim, o Dr. Zeyas está errado e o Dr. Zeyas também.

[00:27:39] E nenhum dos dois está errado pelo argumento,

[00:27:42] porque o filme não está interessado em dar um veredito filosófico ali pra quem tem a ideia certa.

[00:27:49] Mas ele é capaz de mostrar como ambos são muito ruins em lidar com a realidade que está na frente deles.

[00:27:56] Eu acho que esse filme, eu acho que realmente o filme não compra simpatia por nenhum personagem,

[00:28:02] talvez no máximo por aqueles símios que ajudam o Taylor.

[00:28:08] Eu acho que o máximo de heroísmo que a gente tem ali são os símios que ajudam ele.

[00:28:13] Mas eu acho que é um filme que ele se expressa,

[00:28:18] o filme me parece um longo debate filosófico.

[00:28:23] Eu não concordo muito com essa ideia de que ele não tem uma teoria filosófica,

[00:28:26] eu acho que ele tem uma teoria filosófica no qual os personagens…

[00:28:29] Eu acho que ele tem, mas não sobre essa questão.

[00:28:31] É, mas eu acho que os personagens ali, eles fazem tipo como os personagens do banquete de platão, enfim.

[00:28:37] Cada um tem uma função de mostrar alguma coisa.

[00:28:40] Porque eu acho que é um ponto, a gente está muito acostumado,

[00:28:45] sobretudo por conta da americanização do entretenimento,

[00:28:50] de pegar filmes e entendê-los como personagens, protagonistas.

[00:28:53] Cara, vou seguir esse cara, sabe?

[00:28:55] Tem que gerar uma empatia, enfim.

[00:28:58] Nesse caso, esse filme, cada personagem tem, digamos, um papel no debate.

[00:29:04] E eu acho que o debate, a ideia do filme é uma ideia misantrópica,

[00:29:09] ou seja, do tipo, cara, a humanidade está ferrada,

[00:29:12] saca?

[00:29:13] Tipo assim, porque nós somos incapazes, de qualquer forma,

[00:29:19] de desenvolver soluções outras para essa existência ferrada que a gente está tendo.

[00:29:24] Isso você vê, inclusive, tem todo um…

[00:29:28] Me parece ter toda uma relação profunda.

[00:29:29] Você mostrou isso bem, né?

[00:29:30] A ideia, quando ele fala da barba raspada, é que ele fala,

[00:29:33] ó, só quem usa barba na minha sociedade são os jovens, né?

[00:29:38] Me parece todo aquele cenário pós-Vietnam, né?

[00:29:41] Do Hawks vs. Doves nos Estados Unidos.

[00:29:43] Ele cita aquela frase, nunca confie em alguém acima dos 30 também,

[00:29:47] que era algo popular dessa época.

[00:29:49] É, então assim, você tem uma ideia de que o grande problema, né?

[00:29:55] Assim, você não tem uma…

[00:29:57] É um filme que vai mostrar a humanidade, porque tem essa questão,

[00:30:01] confundir os nossos problemas citadinhos euro-americanos com os problemas da humanidade,

[00:30:05] que é um problema clássico do pensamento europeu, euro-centrico, enfim, euro-americano.

[00:30:10] E o outro é de mostrar que toda a sociedade vai se desenvolver da mesma maneira.

[00:30:16] Existe um caminho único evolucionista, né?

[00:30:18] E aí o filme, justamente, os macacos percebem isso

[00:30:21] e como é que o jeito de os macacos se manter em algum controle,

[00:30:24] é eles se apegarem a justamente um dos elementos que, né,

[00:30:29] nossa cosmologia espontânea vai dizer que é um elemento obscurantista,

[00:30:33] que é a religião, saca?

[00:30:35] Então, como que é o jeito de a gente segurar a onda aqui

[00:30:37] pra não acabar se tornando uma sociedade autodestrutiva como os humanos foram?

[00:30:41] Nós temos que ser religiosos, saca?

[00:30:43] Eu acho que é um filme que é incapaz de pegar e jogar um pé pro lado,

[00:30:48] é que a gente falou disso pra quando a gente for falar da Indomável Sonhadora, por exemplo.

[00:30:51] A Indomável Sonhadora é um filme que faz isso,

[00:30:53] que chega e fala assim, beleza, ó, temos uma sociedade hiperdestrutiva,

[00:30:56] mas temos outras formas de vida aqui também, saca?

[00:30:58] Saca, você tem toda uma gama de filmes que são capazes de mostrar assim,

[00:31:03] então, mas isso não é tudo.

[00:31:05] Eu acho que nesse, no filme original do Planeta dos Macacos,

[00:31:08] falta um elemento tipo assim, mas isso não é tudo.

[00:31:13] Eu acho que, e inclusive isso fica muito explícito na nova trilogia, por exemplo,

[00:31:18] quando os macacos começam a cometer os mesmos problemas,

[00:31:22] de novo, mais uma vez, os macacos evoluem com o discurso pros humanos,

[00:31:26] como que os humanos estavam fazendo contra eles e sei lá o quê, bababá, bababá.

[00:31:29] Aí no começo os macacos conseguem ter uma sociedade diferente,

[00:31:32] né, pra quem viu a trilogia nova, enfim, micro-spoilers do segundo filme,

[00:31:36] os macacos começam a ter uma sociedade um pouco diferente da dos humanos,

[00:31:40] um pouco mais justa, de repente, só que de repente,

[00:31:42] rapidamente os macacos são consumidos pela beligerância, saca?

[00:31:46] Rapidamente são consumidos pelas mesmas relações de poder,

[00:31:48] pelas mesmas relações hierárquicas e sei lá o quê, bababá.

[00:31:51] Tipo assim, parece que os problemas da nossa sociedade

[00:31:57] eles são intrínsecos aos desenvolvimentos do próprio intelecto,

[00:32:00] seja ele humano ou até proto-humano, como seria o intelecto dos símius.

[00:32:06] Não, mas só que isso se mistura também com uma questão muito comum

[00:32:12] no pensamento neoliberal ao qual a gente está submetido todos os dias,

[00:32:17] que é, por mais que seja inevitável e essa ideia de, tipo,

[00:32:20] ah, o poder corrompe como um grande absoluto, como se fosse inescapável,

[00:32:24] isso não é usado como um argumento contra o poder, né?

[00:32:28] Nunca se diz, não, ok, então a gente não pode ter certas estruturas de poder,

[00:32:32] mas não é questionado uma outra coisa.

[00:32:35] Guss, sem sacanagem, você quase agora, quase,

[00:32:38] acho que você está inspirado pelo Ina na arquista do último programa,

[00:32:41] nesse momento você quase chegou na tese do Pierre Clastres,

[00:32:45] ele foi etnólogo francês que cunhou o termo Sociedades Contra o Estado,

[00:32:49] para justamente falar sobre o fato de que várias sociedades humanas

[00:32:54] que não desenvolveram o Estado, o aparato estatal, o aparato de poder,

[00:32:58] não o fizeram por, digamos, uma espécie de deficiência evolutiva.

[00:33:03] Muito pelo contrário, a não emergência de situações de poder,

[00:33:06] de instâncias de poder, é o resultado de um esforço ativo e deliberado

[00:33:10] dessas sociedades para que, justamente, você não tenha a emergência desse tipo de situação.

[00:33:14] Ou seja, você não tem governantes porque você vê que eles são ruins, telos.

[00:33:18] Sim, é, mas mais do que isso, eu diria que esse ponto de vista anti-poder

[00:33:25] não é a mensagem real de nenhum desses filmes hollywoodianos,

[00:33:28] porque a solução deles, né, o Planetas do Macaco não está nisso,

[00:33:33] porque ele tem um recorte muito interessante da história,

[00:33:35] que, de novo, eu acho que torna ele um filme muito mais interessante

[00:33:38] do que a maioria dos feitos hoje em dia,

[00:33:41] mas é o seguinte, num recorte, pra pegar, por exemplo,

[00:33:45] a ideia que a gente quer discutir num episódio vindouro

[00:33:49] de você individualizar os problemas, né?

[00:33:51] Os filmes hollywoodianos, quando eles lidam com a questão de, tipo,

[00:33:54] ah, olha só, mais uma pessoa no poder que a gente achou que ia ser boa, mas ela foi ruim,

[00:33:59] ela ainda assim usa como solução tirar a pessoa ruim e botar uma pessoa boa

[00:34:03] no mesmo espaço de poder.

[00:34:07] A democracia, né?

[00:34:08] Exato, a grande parte da decepção que rola nesse filme,

[00:34:11] na própria trilogia moderna dos macacos,

[00:34:15] é exatamente, tipo, a gente achou que esse macaco ia ser o macaco que ia ser um bom líder.

[00:34:20] Bom, tudo bem, pega o outro macaco ali que é bomzinho pra ser o líder agora então,

[00:34:24] ou pega o humano pra ser um líder igualitário.

[00:34:27] Ele tenta imaginar uma sociedade diferente da nossa,

[00:34:30] mas ele acaba usando essa sociedade só pra referência,

[00:34:33] ele é competente, porém, ele ainda tá preso nessas amarras

[00:34:37] de que não conseguem tirar esse antropocentrismo da visão de vida e de sociedade.

[00:34:43] Então, o próximo filme que a gente vai falar então,

[00:34:46] que a gente acha que serve aqui pra falar um pouco desse tema,

[00:34:50] é A Chegada, né?

[00:34:52] Deixa eu só fazer uma passagem.

[00:34:57] Eu só deixo porque é o último episódio da temporada.

[00:35:00] Não, mas é porque tem um filme intermediário que eu já fitei aqui

[00:35:05] que vai ser interessante pra fazer essa virada aí,

[00:35:08] que é o 2001, né?

[00:35:12] Ah, sim, um monte de cena e espaço.

[00:35:14] No 2001, você tem lá aquela primeira cena que, se não me engano,

[00:35:17] são os artes lopitecos ali, descobrindo as ferramentas, né?

[00:35:20] E a gente acha que a gente vai ter que ir lá,

[00:35:24] e é interessante que naquele momento que emerge a ferramenta,

[00:35:28] você começa a hierarquia, você começa a produzir escassez,

[00:35:31] acesso àquela fonte de água, sabe?

[00:35:33] Que é todo aquele cenário bem complexo,

[00:35:36] que é a ferramenta que permite os humanos conquistar

[00:35:38] não apenas o ambiente, mas uns aos outros e coisas do tipo, né?

[00:35:42] Que aquilo vira o mote do filme, inclusive.

[00:35:44] Aí vem uma questão que eu acho que é importante,

[00:35:47] porque esse modelo de desenvolvimento de ferramenta,

[00:35:50] desenvolvimento de uma hierarquia, de uma sociedade única, unificada,

[00:35:54] um único modelo de desenvolvimento societal,

[00:35:56] ele rapidamente, no próprio 2001,

[00:35:58] ele se confronta no final com o encontro com uma coisa

[00:36:02] que foge da própria capacidade desses humanos de darem conta.

[00:36:06] Daquela sociedade completamente, daquela sociedade unificada,

[00:36:10] daquela sociedade que se imagina, daquela espécie, na verdade,

[00:36:13] que o 2000 também faz em certa altura essa confusão entre espécies,

[00:36:16] sociedade, né?

[00:36:17] Uma espécie humana que está altamente codificada

[00:36:20] pelas suas ferramentas, pela sua própria sociedade,

[00:36:22] quando ele se depara com um outro ser, né?

[00:36:24] Um ser alienígena, realmente alienígena,

[00:36:26] ele não sabe dar conta daquilo.

[00:36:28] E aí vem todo o final de 2001 que as pessoas não entendem.

[00:36:32] E é feito pra isso, né?

[00:36:34] E esse filme é a chegada, é justamente, ele mostra,

[00:36:39] eu acho que ele é um metadiscurso,

[00:36:42] né, sobre a nossa incapacidade de conceber existências outras, né?

[00:36:49] Existências alienígenas, outras formas de vida.

[00:36:52] Fala daí, Ivo, agora.

[00:36:54] É, eu tô muito chateado porque eu queria,

[00:36:58] vou ser transparente com o ouvinte nesse momento,

[00:37:01] não tava no roteiro, falar desse filme,

[00:37:04] e eu não revi recentemente esse filme,

[00:37:08] e aí o Orlando quer falar mal do filme

[00:37:10] e eu achei que eu podia estar melhor preparado

[00:37:14] pra defender essa obra cinematográfica,

[00:37:18] se eu soubesse que eu ia levar essa rasteira do meu colega.

[00:37:22] E fala o que você quer falar do filme aí.

[00:37:24] Cara, eu só quero te dizer uma coisa,

[00:37:26] você poderia ter visto o filme,

[00:37:28] ter lido todo o roteiro do filme,

[00:37:30] o making-of e o escassete a quatro.

[00:37:32] Mas eu acho que a gente não pode,

[00:37:35] mas eu tô certo sobre isso,

[00:37:37] eu tô certo e não há defesa,

[00:37:39] a verdade está do meu lado,

[00:37:41] agora eu vou ser euro-americano,

[00:37:43] vou invocar a luz de verdade,

[00:37:45] eu sou o juiz.

[00:37:47] Orlando, eu só não fico com mais raiva de você

[00:37:49] porque eu admiro muito o jeito com que você argumenta.

[00:37:55] Fala aí o que você quer falar desse filme.

[00:37:57] O problema desse filme, assim,

[00:37:59] todo mundo sabe que esse filme é baseado na obra do Ted Chiang,

[00:38:04] todo mundo sabe,

[00:38:06] minha mãe, se perguntar pra minha mãe,

[00:38:08] minha mãe vai falar,

[00:38:09] dona Ana, porra, o Arrival,

[00:38:11] é daquele conto do Ted Chiang, muito bom,

[00:38:13] mas o papo é o seguinte,

[00:38:15] tem um conto do Ted Chiang,

[00:38:19] a história da sua vida,

[00:38:21] que é justamente que ele narra o contato da humanidade,

[00:38:28] porque ele sentiu que tem escala global,

[00:38:30] com esses seres que são

[00:38:32] seres estranhos,

[00:38:34] que parecem uns barris com várias patas,

[00:38:38] seres meio aracnoides gigantescos e tudo mais,

[00:38:41] que é uma mistura de aranhas gigantes com elefantes,

[00:38:43] uma coisa meio doida, né?

[00:38:45] E aí todo o livro se baseia na maneira como

[00:38:50] uma linguista está tentando, de alguma forma,

[00:38:55] aprender a linguagem desses outros seres,

[00:38:59] e eu que tenho uma formação em linguística,

[00:39:01] vejo muita coisa interessante ali,

[00:39:04] muita coisa realmente interessante,

[00:39:06] você vê que o autor realmente pesquisou ao contrário

[00:39:09] das pessoas que escreveram o roteiro do filme,

[00:39:12] que pegaram uma coisa na Wikipedia,

[00:39:14] inventaram lá e falaram besteira,

[00:39:16] e aí é a maneira como o filme explora justamente

[00:39:20] os limites da própria linguagem humana,

[00:39:23] os limites do próprio pensamento humano,

[00:39:25] da própria cognição humana,

[00:39:27] o livro é sobre isso, o conto é sobre isso,

[00:39:29] sobre os limites da nossa própria existência,

[00:39:31] porque é isso que acontece quando você se defronta

[00:39:33] com o diferente, com a diferença,

[00:39:35] a diferença te joga no limite, né?

[00:39:37] E aí se você é uma pessoa que se permite afetar por aquilo,

[00:39:41] você começa a sentir esses efeitos.

[00:39:43] A dissolução da percepção temporal dela,

[00:39:46] que no livro é muito mais limitada,

[00:39:49] e que no filme vai se tornar um superpoder,

[00:39:51] e aí a gente vai voltar para isso, né?

[00:39:53] É justamente um ensaio sobre se deixar afetar pelo outro,

[00:39:57] porque no livro, todo aquele evento,

[00:40:01] ele não tem uma resolução grandiosa,

[00:40:04] ele não tem aquela coisa do tipo que é muito típica

[00:40:08] da nossa imaginação sobre o outro,

[00:40:10] sobre o contato com a diferença.

[00:40:12] Como, por exemplo, isso é uma pergunta que sempre me fazem

[00:40:16] quando as pessoas descobrem que eu vivi com uma população indígena e tal,

[00:40:20] como que você melhorou por causa disso?

[00:40:24] Sabe, como que você conviver com o Zé Queuara

[00:40:27] te tornou uma pessoa melhor?

[00:40:28] O que você aprendeu com eles?

[00:40:30] A nobreza inerente ao primitivo, Orlando.

[00:40:34] Você não entendeu?

[00:40:35] Não, é só isso.

[00:40:36] É como se a vida dos outros seres só existisse

[00:40:39] como um apêndice da minha própria desenvolvimento pessoal,

[00:40:41] da minha própria narrativa, sabe?

[00:40:43] Sim, mas é aquele shopping ideológico,

[00:40:48] que as pessoas encaram o mundo,

[00:40:50] que eu acho que era muito notável, por exemplo, nos anos 90,

[00:40:53] com o Budismo e depois a Madonna com o Kabbalah, por exemplo.

[00:40:57] É isso, é uma coisa que inclusive está presente na forma como a religião,

[00:41:01] a religião de matriz africana tem sido absorvida

[00:41:04] por algumas instâncias da nossa sociedade.

[00:41:07] Sim, você comodifica elementos, muitas vezes estéticos,

[00:41:13] de uma religião, de uma sociedade, de alguma cultura,

[00:41:20] e você absorve aquilo para você.

[00:41:22] Não que, de novo, não sendo um absolutista e dizendo assim,

[00:41:26] tipo, não existe intercâmbio entre culturas e não,

[00:41:29] mas é exatamente a forma com que isso é feito,

[00:41:31] de que sempre mantém aquilo como um apêndice exteriorizado

[00:41:34] e você não absorve como algo natural a você,

[00:41:37] não é um costume que você adquire porque ele faz sentido para você,

[00:41:42] não é uma cultura com a qual você sente afinidade

[00:41:46] e aí você passa a querer entender, acompanhar e reproduzir.

[00:41:50] É um bibelô, é um chaveiro cultural para ser pendurado.

[00:41:56] E é algo que você consegue fazê-lo quase tão bem ou até melhor que o outro,

[00:42:01] porque tem essa imaginação, vídeo, por exemplo, Karate Kid,

[00:42:05] que é uma coisa que acontece nesse filme.

[00:42:07] A protagonista, ao aprender a língua dos aliens,

[00:42:14] ela se torna capaz, ela detém até seus poderes,

[00:42:18] ao ponto de que ela é capaz de impedir uma guerra mundial,

[00:42:22] uma nova guerra mundial entre, aí mais uma vez,

[00:42:24] volta obviamente entre norte-americanos e chineses,

[00:42:27] porque aí volta toda a coisa do medo amarelo.

[00:42:30] Então, assim, é muito interessante que como um livro, um conto,

[00:42:35] que, cara, é muito, é um conto muito, muito interessante,

[00:42:40] que ao mesmo tempo consegue falar sobre os limites da diferença,

[00:42:44] o que acontece quando você se vê forçado, diversas maneiras,

[00:42:50] a lidar com a diferença, o que acontece com você com isso,

[00:42:55] inclusive a todo o espelho que há com a relação com a maternidade no livro,

[00:43:00] no filme se torna rapidamente mais uma história de desenvolvimento

[00:43:07] de uma personagem que vai se tornar uma espécie de super-heroína,

[00:43:10] que vai ser capaz de parar um conflito de uma escala mundial,

[00:43:16] ou seja, você basicamente vai transformar tudo aquilo

[00:43:18] em clichês do cinema norte-americano.

[00:43:21] Você não consegue ir para outra direção.

[00:43:24] Isso se amarra muito ao que você falou do Pantera Negra,

[00:43:28] de como ele trafica boas ideias ou a chegada,

[00:43:32] só que ele tem que empacotar tudo numa estrutura muito, muito, muito digerível

[00:43:37] pelo público hollywoodiano.

[00:43:39] É, mas assim, eu acho que no caso do Pantera Negra,

[00:43:41] você tem um problema que é o problema do estúdio ali, né?

[00:43:44] Agora, no caso do Arrival, eu acho que tem uma questão com o diretor também,

[00:43:49] a mão do diretor.

[00:43:50] Ah não, tá, eu ia falar, o diretor é o Denis Villeneuve,

[00:43:54] que só faz filme ruim, desculpa, falei.

[00:43:59] Ele fez o Blade Runner 2049.

[00:44:01] Pelo amor de Deus.

[00:44:02] Ele fez Sicário.

[00:44:04] Cara, Blade Runner 2049, eu só não saí do meio do filme, porque o ingresso é caro.

[00:44:09] Eu também, e eu paguei um bem caro, porque eu tava no Rio

[00:44:12] e eu fui naqueles cinemas que é a Cadeira Deita.

[00:44:14] Nossa, cacete, cara.

[00:44:16] Péssimo. E aí o Sicário, que é um daqueles filmes americanos que servem

[00:44:19] pra pintar o México como uma terra de total, desculpa pelo uso da palavra,

[00:44:25] anarquia, carnificina, né?

[00:44:27] Nossa, que papo horrorosa que você é.

[00:44:29] Marado.

[00:44:30] Desculpa.

[00:44:31] E aí ele tá fazendo o Duna, o próximo Duna que ia sair esse ano,

[00:44:34] não sei se ainda sai esse ano, mas enfim, quem gosta de Duna aí pode se animar,

[00:44:38] que tem esse pedigrim maravilhoso.

[00:44:40] Eu por exemplo.

[00:44:42] Orlando, o seu erro é gostar das coisas.

[00:44:45] Meu erro é amar demais, cara, meu erro é amar demais.

[00:44:48] Exatamente, até aí a diferença entre eu que moro em São Paulo e você que mora no Rio, né?

[00:44:52] Porque é isso, o Carioca ele ama demais, o Paulista ele ama de menos.

[00:44:56] Se juntar nós dois a gente dá uma pessoa saudável, mentalmente saudável, né cara?

[00:45:00] Exato.

[00:45:01] Traçar uma média, uma média da paixão ali.

[00:45:03] Eu acho que as pessoas que ouvem esse podcast diriam que se juntasse nós dois

[00:45:06] ainda dá uma pessoa bem perturbada.

[00:45:08] Bem perturbada, né?

[00:45:10] A gente tá sendo otimista aqui nesse momento, né?

[00:45:12] Mas vamos voltar aqui pra amarrar os dois pontos, né?

[00:45:16] Porque é impressionante, né, como você vê assim, por exemplo,

[00:45:19] lá no primeiro filme, né, dos primeiros filmes, né, porque a gente não abordou,

[00:45:23] a gente abordou sobretudo primeiro o Planeta dos Macacos original,

[00:45:25] mas é uma coisa que perdura em todos eles, né?

[00:45:28] É que os outros eles são muito, muito piores que o primeiro.

[00:45:31] É, eu acho que sim.

[00:45:33] E eles viram outra coisa, eles viram um pastiche de,

[00:45:36] eles viram um comentário muito mais datado da sociedade americana naquele momento,

[00:45:41] reproduzida com os macacos, virou outra coisa.

[00:45:44] Inclusive tem o desenho animado, né, do retorno ao Planeta dos Macacos, enfim.

[00:45:48] Eu acho que vale uma exploração, até porque você gosta tanto de macacos,

[00:45:53] e esses filmes não tem nenhum macaco, de novo, não tem nenhum macaco nesse filme.

[00:45:56] É, você não sabe voar, como diria Glória Pérez.

[00:45:59] Mas como diria Doutor Zeus, para que voar?

[00:46:02] É verdade.

[00:46:04] Essa foi boa, essa foi boa, cara, para que voar, cara.

[00:46:08] A diferença, mais uma vez, a diferença entre um carioca e um paulistano, né, cara.

[00:46:12] Carioca quer voar, paulistano pra que voar, cara?

[00:46:15] O paulistano só quer voar, você vai pegar uma pontiária de volta para São Paulo.

[00:46:18] Pois é.

[00:46:20] Mas encerra aí, essa ideia, porque eu quero falar do terceiro filme.

[00:46:24] Não, então, esse que é o ponto, né, porque assim,

[00:46:26] essa incapacidade de pegar, por exemplo, aquilo ali e dar um passo para o lado, né,

[00:46:30] e dizer assim, beleza, vamos imaginar uma outra sociedade mesmo,

[00:46:34] que seria, digamos, uma sociedade dos macacos,

[00:46:36] que não vai repetir os mesmos problemas que a sociedade humana ofereceu,

[00:46:40] porque, até que tu imagina, né cara,

[00:46:42] Fisiologicamente, os macacos são muito diferentes dos humanos,

[00:46:45] são muito mais…

[00:46:46] A linguagem corporal é muito mais exacerbada do que entre os humanos.

[00:46:49] Inclusive, isso fica muito evidente, que isso é uma coisa que tem que se tirar muito o chapéu, né,

[00:46:53] para a nova trilogia, né, que isso fica…

[00:46:55] Que o trabalho do Andy Serkis é sensacional nesse aspecto, né.

[00:46:59] Tipo, o… de como a linguagem corporal se difere, né,

[00:47:02] se torna um elemento da comunicação, mas só fica nisso.

[00:47:05] Mais uma vez, eles são humanos que se comunicam um pouco diferente.

[00:47:09] Esse tipo de questão fica ainda mais gritante quando a gente vai falar de alienígenas no cinema,

[00:47:17] porque é impressionante que, como até os aliens,

[00:47:20] ou os aliens vão aparecer nos filmes Alá, Star Wars, né,

[00:47:24] e até muitas vezes no Star Trek eu tenho que fazer essa concessão com a minha série de ficção preferida, né, enfim.

[00:47:29] Nem uma concessão assim, não tem um produto cultural mais culpado de antropomorfizar alienígenas,

[00:47:35] do que Star Trek, que é tipo assim, ah, eles são humanos com orelhas,

[00:47:39] ah, eles aqui são humanos com um bigode.

[00:47:41] Não, mas tem os aliens que são pedras, tem umas coisas diferentes lá também, mas enfim.

[00:47:45] Tem, tem, de vez em quando realmente tem, mas assim,

[00:47:47] até por uma questão orçamentália, tem que se manter num nível muito básico.

[00:47:53] É, pois é, mas assim…

[00:47:55] Mas não acho que seja muito limitante também, porque eu acho que muitas vezes Star Trek usou isso,

[00:47:59] porque assim, especialmente a série original, ela existe muito…

[00:48:03] Ela não tá se propondo a imaginar outras formas de vida, né.

[00:48:06] Mas a série original tem a pedra, tem o famoso capítulo que Spock fala com a pedra.

[00:48:10] Não, sim, mas só que assim, enquanto uma proposta da série, eu vejo muito mais a série original como

[00:48:17] a gente vai usar esse trapping de planetas e raças pra explorar a humanidade,

[00:48:22] pra explorar o preconceito, pra explorar, enfim, várias questões sociais humanas, assim.

[00:48:27] É só uma desculpa você estar no espaço, assim.

[00:48:30] Então, por isso que eu também passo um pano pro Star Trek,

[00:48:32] por mais que eu não seja um track ou um tracker e eu não seja a diferença exatamente entre os dois,

[00:48:36] e eu não quero que você me explique.

[00:48:38] E…

[00:48:40] Eu acho que…

[00:48:41] Isso não foi pra mim, foi pra você ouvinte, vai lá.

[00:48:43] Exato, eu não quero ninguém no meu Twitter me enchendo o saco.

[00:48:45] O Orlando, ele pode me explicar, porque enfim, não tem como bloquear ele, não tá legal.

[00:48:49] O…

[00:48:51] Eu acho que assim, esse é um trunfo da série, assim.

[00:48:53] Eu não vejo que ela tá fracassando nisso.

[00:48:55] Eu não sinto que ela tá tentando criar um mundo repleto.

[00:48:58] Acho que ela se dá essa liberdade de poder explorar essas coisas, como a pedra que fala.

[00:49:02] Mas, ao mesmo tempo, ele tá usando muito mais, assim, os alienígenas como um atalho pra falar de questões humanas.

[00:49:11] Tal qual planta os macacos e tal qual, por exemplo, os X-Men, enfim.

[00:49:15] É, mas eu acho que o Star Trek, ele é consciente disso em vários momentos.

[00:49:20] Tanto que quando… é um problema pros personagens dentro da diagéssica da série,

[00:49:24] é um problema quando eles se deparam com a diferença pura e simples, né.

[00:49:27] Que com a qual eles não conseguem fazer contato.

[00:49:29] Tanto que tem aquele filme clássico, que eles voltam pra terra pra resgatar uma baleia.

[00:49:34] Lembra disso? E aí vem um ponto que é interessante, que a gente vai falar do mundo.

[00:49:38] Em algum momento nesse filme, eu vi quando eu era muito pequeno,

[00:49:41] por que que eles tem que pegar um ônibus?

[00:49:43] Tipo, eles não tem um carro.

[00:49:44] Ai, eu não me lembro agora, eu teria que re-assistir.

[00:49:46] Em algum momento eles estão em São Francisco e eles pegam um ônibus, cara.

[00:49:49] É, que tem uns punks, né, sempre tem um punk, o cara espalha no meio com roupa, sempre tem umas coisas assim.

[00:49:52] Mas então, e aí tem um elemento bem interessante sobre isso, né.

[00:49:55] Porque vai voltar de novo pra essa história.

[00:49:59] Ali na década de 70, você começou a ter um…

[00:50:04] 60, 70, você teve um experimento de um cara chamado John Cillili, né, que trabalhou com cetáceos.

[00:50:09] E ele e um antropólogo chamado Gregory Paterson.

[00:50:11] Que era justamente a ideia de conceber a existência de uma certa vida alienígena na Terra, né.

[00:50:16] Que era diferente dos macacos.

[00:50:18] Os címios eram sempre colocados como uma proto-existência humana

[00:50:21] e os cetáceos eram como vida alienígena do lado.

[00:50:24] Assim, uma vida alienígena que você estivesse mais próximo dali.

[00:50:28] E aí nessa ideia de tentar trabalhar com cetáceos, até porque você tinha o investimento da CIA

[00:50:32] e tentar transformar golfinhos pra desarmar minas aquáticas, né.

[00:50:37] As grandes baleias, né, os misticetos, né, como…

[00:50:43] Não sei se vocês sabem, mas a ordem dos cetáceos é dividida entre autontocetos e misticetos.

[00:50:47] Autontocetos são os golfinhos, os misticetos são as baleias grandes.

[00:50:50] Autontocetos porque tem dentes.

[00:50:51] Nossa, é um momento…

[00:50:53] Exato, porque o golfinho, ele não tem dentes, ele tem cerdas bucasas.

[00:50:57] Não, é baleias.

[00:50:58] Baleias, não, os misticetos são tipo como se fosse uma…

[00:51:01] Ah, não, tá, mas os autontocetes então são…

[00:51:04] Que tem gondontos, dentes.

[00:51:06] Exato, mas então…

[00:51:07] Os misticetos que tem as cerdas.

[00:51:10] Baleia azul.

[00:51:11] E o golfinho é qual dos dois?

[00:51:13] Autontô.

[00:51:14] Ah, ele é autontô, ele tem dente e dente.

[00:51:16] Dente e dente.

[00:51:17] E aí o que acontece, as baleias gigantes, elas foram descartadas como seres inteligentes

[00:51:22] no começo, lá atrás do debate da cetologia, porque elas eram alienígenas demais.

[00:51:29] E aí…

[00:51:30] Sim, elas não se conformavam com a nossa ideia.

[00:51:32] Exatamente.

[00:51:33] E aí os antropólogos, os biólogos daquela época, daquele momento,

[00:51:38] foram incapazes de compreender aqueles seres como seres verdadeiramente inteligentes,

[00:51:44] ainda que isso tenha sido muito mobilizado para você impedir,

[00:51:47] criar todo um esforço global para impedir a caça das baleias,

[00:51:50] mas tudo aquilo foi muito difícil de se fazer, porque até aquele momento,

[00:51:56] a cetologia e outras disciplinas que estavam se dedicando àquilo,

[00:51:59] ao que se chamava na época de comunicação interespecífica,

[00:52:04] eram incapazes de codificar o comportamento desses grandes seres,

[00:52:07] dessas grandes pestas marinhas, dos leviatãs,

[00:52:11] como inteligentes, porque era alienígena demais.

[00:52:13] Os golfinhos, a gente entende, sobretudo aquelas brincadeiras que eles fazem,

[00:52:17] aquelas interações do tipo…

[00:52:19] Sim, mas eu acho que, inclusive, hoje em dia se fala muito sobre os polvos, né?

[00:52:25] É.

[00:52:26] É polvos ou polvos?

[00:52:28] Os octopodes, né?

[00:52:31] Que eles são muito inteligentes também.

[00:52:33] Só que eu acho que existe, assim, até considerando a cultura na qual a gente está inserido,

[00:52:37] uma incapacidade de entender como que um ser vivo é inteligente,

[00:52:43] mas ele ainda assim não tem um shopping center.

[00:52:46] Esse que é o ponto.

[00:52:47] Que essa é a questão, que é a teleologia que você levantou,

[00:52:50] essa coisa que a gente não consegue entender níveis de inteligência

[00:52:54] se eles não estão automaticamente amarrados ao que a gente considera como pilares da nossa civilização.

[00:53:02] Ah, tipo, se você não faz pão, né?

[00:53:04] Se você é uma baleia, você não faz pão.

[00:53:06] Você não é uma civilização.

[00:53:07] Não, inclusive, por exemplo, aquele ponto que eu citei do Pierre Clastres

[00:53:10] sobre as sociedades contra o Estado, que é diferente do conceito de sociedade sem Estado, né?

[00:53:15] Tipo, porque quando você via, quando você veio para o Brasil, assim,

[00:53:19] para as costas brasileiras, se decretou que os povos que aqui viviam em 1500

[00:53:23] não tinham lei, nem fé, nem religião, nem rei, nem fé, nem religião.

[00:53:27] Agora eu esqueci a frase.

[00:53:28] Mas a grande questão era ver, olhar para, assim, eles não têm as nossas instituições,

[00:53:33] logo eles são primitivos, né?

[00:53:35] Quando, por serem capaz de conceber que aquela existência, né?

[00:53:39] Era tão rica, tão, digamos, tão múltipla, tão desenvolvida quanto qualquer outra.

[00:53:45] Por isso que, assim, essa ideia de quando você olha para uma população

[00:53:48] e vê que essa população não tem uma esfera estatal que controla todo mundo,

[00:53:52] isso não é um sinal de que ela é mais ou menos desenvolvida.

[00:53:55] Não, é um sinal de que aquele foi o caminho de seu desenvolvimento.

[00:53:58] É um outro desenvolvimento.

[00:54:00] Por isso que, assim, para o ouvinte, talvez possa parecer um pouco abstrato,

[00:54:02] a gente está falando de baleias e aliens com milhares de tentáculos.

[00:54:06] Mas, assim, esse artifício está na base da nossa própria imaginação sociológica espontânea,

[00:54:13] da nossa incapacidade de olhar para outros povos

[00:54:16] e compreender que eles são tão desenvolvidos quanto outros, né?

[00:54:21] E ver que aquilo ali, que aquelas escolhas, o que elas nos ensinam é que, cara,

[00:54:26] talvez esses nossos mecanismos doentes de existir possam ser recolocados de outro jeito.

[00:54:31] A gente não precisa ter essa vida que a gente está tendo aqui agora, né?

[00:54:36] Sim. E aí, nisso, a gente vai chegar em Solares,

[00:54:40] que eu acho que é um ótimo exemplo.

[00:54:42] A gente está falando especialmente do filme do Tarkovsky, de 72, 73…

[00:54:48] 70 e alguma coisa, mas que é baseado num livro.

[00:54:52] Você lembra de quem que é o livro?

[00:54:54] Stanislaw Slain. Acabei de ler…

[00:54:56] Ah, é do mesmo que escreveu o Picnic na Estrada?

[00:54:58] Não, quem escreveu o Picnic na Estrada foram os irmãos Strugatsky.

[00:55:04] Olha só…

[00:55:05] É difícil falar Strugatsky. O Picnic na Estrada, só porque o Guy citou esse livro,

[00:55:09] o Picnic na Estrada também é um outro livro, é um outro filme do próprio Tarkovsky,

[00:55:13] que foi chamado de Stalker, né?

[00:55:15] E que trata de temas semelhantes, né?

[00:55:19] Sim. Então, e aí o Solares eu acho que é um bom exemplo de uma vida

[00:55:25] que não é humanizada de maneira nenhuma, não é antropomorfizada, né?

[00:55:30] No Solares, o planeta Solares, que dá nome ao livro e ao filme,

[00:55:35] ele começa a revidar, tem uma estação espacial orbitando o Solares,

[00:55:41] está lá para estudar esse planeta,

[00:55:43] e quando os humanos disparam mísseis nucleares no planeta,

[00:55:47] ele revida começando a criar alucinações completamente reais,

[00:55:53] ele começa a criar manifestações físicas de desejos e perversões,

[00:55:58] desejos incômodos dos tripulantes daquela nave,

[00:56:02] e aí a gente tem o protagonista que é um psicólogo que vai visitar a nave,

[00:56:05] ele também se torna a vítima desse ciclo,

[00:56:07] ele começa a estar acompanhado ali de uma incorporação da mulher dele

[00:56:13] que se matou uma década antes e tal.

[00:56:16] Por culpa dele, inclusive, né?

[00:56:18] Por culpa dele, ele começa a ver ela exatamente porque

[00:56:22] ele carrega um sentimento de culpa pelo suicídio dela, né?

[00:56:25] E aí é muito interessante porque não só a forma de vida são os oceanos de Solares,

[00:56:32] é como se o oceano tivesse uma consciência,

[00:56:35] ou se lá no oceano vivesse essa consciência,

[00:56:38] que a gente só consegue identificar como tal,

[00:56:40] a gente não enxerga como um povo que tem vários individuos com bracinhos e cabecinhas,

[00:56:46] e mais do que isso, que é uma forma de revidar e de fazer guerra,

[00:56:52] de travar combate com a humanidade,

[00:56:55] que foge totalmente da visão bélica que os Estados Unidos têm,

[00:56:58] que não importa o quão diferentes os aliens sejam,

[00:57:01] eles chegam aqui destruindo coisas e explodindo coisas

[00:57:05] para a gente ter que destruir e explodir eles de volta,

[00:57:07] seja Independence Day, Guerra dos Planês, Guerra dos Mundos,

[00:57:11] enfim, todos esses transformers, seja o que for.

[00:57:15] A própria ideia de combate está muito atrelada à ideia de combate do ser humano,

[00:57:20] do ser humano, que é um pedaço de carne assim,

[00:57:23] que é o atrito físico ali, é o embate.

[00:57:27] E aí esse combate que se dá numa esfera totalmente psíquica nos Solares

[00:57:33] é um exemplo muito interessante do que você consegue atingir, fazer e explorar

[00:57:39] quando você se libera dessas amarras de olhar a vida só como

[00:57:45] um espelho da humanidade um pouco diferente.

[00:57:48] Tem mais coisa, porque essa interpretação do combate,

[00:57:51] do embate do planeta é uma interpretação muito humana,

[00:57:55] porque o planeta na verdade está experimentando o contato com aqueles seres,

[00:58:01] porque o planeta é um planeta líquido, é um oceano gigantesco

[00:58:08] e ele consegue manter uma órbita completamente esdrúxula,

[00:58:12] ele consegue, por exemplo, se manter estável,

[00:58:15] ele não tem rotação, translação, ele fica parado no cóspus,

[00:58:18] imagina o nível de poder que isso tem que se banda.

[00:58:22] Porque ele está lutando contra forças bem fortes, né?

[00:58:26] Por mais que a gravidade seja uma força fraca, eu sei, físicos estão ouvindo,

[00:58:30] não vamos entrar nessa.

[00:58:31] Mas enfim, o ponto é, ele em algum momento,

[00:58:36] ele percebe a existência de alguns seres na sua superfície

[00:58:41] e tenta estabelecer com esses seres algum tipo de relação,

[00:58:46] porque na verdade o primeiro contato foi com eles começaram a emitir

[00:58:51] raios X do pensamento das pessoas, eletrocefalogramas para o oceano.

[00:59:00] E o que o oceano faz?

[00:59:01] O oceano investiga o subconsciente dos humanos que ali estão de alguma forma

[00:59:08] e dá para eles uma coisa que os humanos enxergam como vergonha.

[00:59:14] Porque, por exemplo, o personagem principal do filme,

[00:59:17] ele vê a própria, a ex-esposa, a ex-companheira dele que se matou.

[00:59:23] Mas outros personagens, tem o momento que um cara, ele tem um personagem

[00:59:28] que, por exemplo, se ensinou que ele seja pedófilo,

[00:59:30] porque tem uma criança ali vivendo com ele, saca?

[00:59:33] Tem o outro que tem uma pessoa que sofre dinanismo ali com ele.

[00:59:37] E tem o momento que durante as conversas fica muito,

[00:59:40] os outros personagens inclusive ficam com inveja dele,

[00:59:43] porque a imaginação, aquilo que eles chamam de o visitante,

[00:59:47] o visitante dele, a personagem principal, é uma pessoa identificável,

[00:59:54] que não é uma coisa com que ele tem que se envergonhar o tempo inteiro e tudo mais.

[00:59:58] O planeta é muito louco, porque o contato com o planeta

[01:00:03] faz emergir nos humanos um reflexo no qual os humanos não querem se reconhecer.

[01:00:11] E o reflexo é seu próprio subconsciente.

[01:00:13] Tem uma questão, eu acho, não, vai lá.

[01:00:16] Não, é porque isso é interessante, porque quando ele vira a chave,

[01:00:20] que é uma questão que é muito interessante no filme e no livro,

[01:00:24] de que tem um momento em que, o que é o esforço de colonização?

[01:00:28] O esforço de colonização que durante muito tempo foi vendido

[01:00:32] dentro do pensamento euroamericano como uma conquista.

[01:00:35] O Colombo era um herói, o Pedro Alves Cabral era um herói, um desbravador.

[01:00:40] E quando você vai ver, inclusive você tem isso hoje em dia,

[01:00:44] tudo esse debate, as manifestações dos riots que estão derrubando as estátuas dos colonizadores,

[01:00:49] isso está envolvido nessa história, porque a colonização foi um projeto violento.

[01:00:54] A colonização, quando você olha ela de uma outra perspectiva que não seja do conquistador,

[01:01:01] tem ali um reflexo da própria civilização europeia ou euroamericana extremamente violento.

[01:01:07] O mundo que nós vivemos, estou dizendo o mundo assim, Brasil, Estados Unidos,

[01:01:11] foi assentado sob genocídio, sob escravidão, sabe?

[01:01:14] As coisas não se formaram aqui de uma coisa muito interessante,

[01:01:17] de uma coisa, digamos, legal, sabe? Não foi uma conquista legal, né?

[01:01:21] Tipo, e aí o que esse filme faz é que chega numa determinada situação,

[01:01:26] quando os humanos tentam conquistar um ser que não apenas é alheio a eles,

[01:01:31] como é incapaz de ser domado, tudo que resta é o reflexo negativo daquela tentativa de conquista,

[01:01:39] o reflexo que envergonha, é só as próprias perversões das pessoas que vêm à tona,

[01:01:43] é a própria ganância, são seus desejos reprimidos,

[01:01:46] aquilo que essas pessoas em outros lugares jamais seriam capazes de admitir.

[01:01:51] Que é esse que é o ponto, né? Os comportamentos que a nossa sociedade teve, né?

[01:01:56] Quando a sociedade é a sociedade com as quais somos forçados a participar nas suas periferias, né?

[01:02:01] Nas suas colônias, seriam incapazes de serem admitidos dentro de seus próprios limites.

[01:02:07] A maneira, por exemplo, é sempre importante lembrar, os campos de concentração não começaram na Europa,

[01:02:12] não começaram na Alemanha, os campos de concentração foram uma tecnologia de controle utilizada em Cuba

[01:02:18] e utilizada na África do Sul primeiro, né?

[01:02:21] Justamente para conter as populações que estavam ali tentando se rebelar contra os colonizadores.

[01:02:28] Então, assim, é interessante você olhar dessa perspectiva de que o ato de colonização,

[01:02:33] o ato de conquista, esse ato de expansão da humanidade, né?

[01:02:37] Ele está sempre produzindo, por definição, essa faceta sombria da própria sociedade euro-americana.

[01:02:44] Só aqui que acontece, quando a gente só conta essas histórias,

[01:02:47] os filmes geralmente contam essas histórias, sei lá, vídeo de Indiana Jones, né?

[01:02:51] Da perspectiva dos colonizadores, que são histórias triunfantes, histórias de aventureiros, histórias de pessoas, sabe?

[01:02:56] O que o Solaris faz é, ele retira dois personagens à condição de estabelecer essa narrativa.

[01:03:04] Aqui vocês são os dominados, aqui vocês são aqueles que são incapazes de conquistar o espaço.

[01:03:10] O que é que sobra? Sobra a vergonha, sobra essa faceta sombria, essa faceta que vocês não querem se reconhecer.

[01:03:17] O Solaris, enquanto, por exemplo, Planta dos Macacos é um filme narcisístico, né?

[01:03:24] É um filme que nos devolve uma imagem que a gente se reconhece, a gente tem até uma certa…

[01:03:28] Nossa, ou pior, o Arrival, a chegada, é um filme extremamente narcisístico,

[01:03:32] no qual todo o contato só é feito com uma espécie de identificação de nós mesmos.

[01:03:37] O Solaris, ele é um filme anti-narcisista, né? É um filme do anti-narciso, é um filme que nos devolve um espelho

[01:03:42] no qual nós não apenas somos incapazes de nos reconhecer, como nós temos vergonha de olhar pra ali.

[01:03:47] Falei bonita, hein?

[01:03:48] Mas, eu diria que, um, foi longe. Dois, eu diria que, na verdade, o protagonista do Solaris, ele acaba sendo…

[01:03:58] Exatamente, como você mesmo citou, rola uma inveja dos outros personagens de que a visitante dele é muito mais…

[01:04:07] Fiel, ela é muito mais humana, né?

[01:04:09] É palatável, né? Pra sensibilidades ali, né? Porque é mãe de esposa e sei lá…

[01:04:13] Não, não só isso, sim. Ela cria características mais avançadas do que os outros, né?

[01:04:18] Ela existe quando ele não tá perto, ela consegue dormir, ela consegue fazer uma mímica muito mais…

[01:04:26] Ela imita muito melhor um humano do que…

[01:04:29] Mas isso é uma consequência da obsessão do próprio personagem.

[01:04:31] Tem uma hora que o Snow fala isso, ó.

[01:04:33] Sim, mas eu vou chegar nisso. Mas eu vou chegar nisso.

[01:04:37] E eu acho que, assim, isso acontece exatamente porque ele é o menos envergonhado de todos, né?

[01:04:43] Exatamente porque, por mais que ele tenha essa culpa atrelada ali, que é o que faz ela surgir, é isso, sim.

[01:04:51] Ele tem algo muito mais socialmente aceitável ali com ela do que essas fantasias um pouco mais, vamos dizer, vazias dos outros.

[01:04:58] Então, o fato de que ele se permite ser tão seduzido por isso, até por uma certa falta de vergonha,

[01:05:05] é o que deixa o planeta continuar nessa conexão, melhorar, vamos dizer, aprimorar e deixar mais complexa esse simulacro da esposa dele.

[01:05:15] E aí…

[01:05:16] É o que eu pensei, é o que tem um…

[01:05:20] Tá bom.

[01:05:21] Tem um elemento crucial aí que você falou, eu percebi, assim…

[01:05:25] Pensa que esse filme é um duplo do Planeta dos Macacos, né?

[01:05:29] Porque assim…

[01:05:30] Eu ia chegar nisso!

[01:05:31] Vai lá, então pega daí, vai lá.

[01:05:33] Eu ia pegar a misoginia desse filme com a dos Planetas dos Macacos, que é muito interessante que é…

[01:05:37] Misantropia também, né?

[01:05:38] Não.

[01:05:39] A misoginia é misantropia.

[01:05:41] Também, mas a gente já falou da misantropia, mas eu quero falar da misoginia especificamente.

[01:05:45] A gente falou da Stuart e da Nova no filme do Planeta dos Macacos, que elas não são personagens, elas são objetos, né?

[01:05:53] E aí a gente tem outro personagem que explicitamente não é uma personalidade individual.

[01:05:59] É sim um objeto psíquico do protagonista no Solares.

[01:06:04] Então é muito interessante como essas explorações são um retrato das limitações da sua época e da sua sociedade também,

[01:06:11] em que esses autores homens, né?

[01:06:15] Eles são mais capazes de tentar ver outra sociedade e outra forma de vida alienígena

[01:06:23] do que tentar ver o ponto de vista humano em sua totalidade

[01:06:28] e ele acaba sendo um ponto de vista extremamente masculino e centrado nessa visão.

[01:06:36] Uma visão que é isso, que passa mais tempo olhando para Solares do que para a própria esposa.

[01:06:43] Tanto que, e aí vou entrar no momento semiótica do Gus aqui para não terminar um episódio sem isso,

[01:06:50] que é, no final do Solares, ele faz as pazes, né?

[01:06:54] Ele se reencontra, a grande fantasia dele ali é com o pai.

[01:06:57] Sim.

[01:06:58] Não é com a mãe, que é extremamente apagada no começo do filme.

[01:07:02] Que não é um presente, ela é basicamente o tropeço da família Adams ali.

[01:07:06] Ela abre a porta, arruma a cama.

[01:07:09] Então, é muito interessante a gente poder apontar isso também,

[01:07:13] que todos esses produtos, por mais que eles tenham essas vantagens, essas obras,

[01:07:19] eles também indicam algo muito interessante sobre a sociedade.

[01:07:22] Que, tipo, no nosso ponto de vista, estando em 2020, olhando para como essas mulheres são usadas nesses roteiros e retratadas,

[01:07:29] a gente vê também uma diferença em como a gente enxerga mulheres hoje, espero,

[01:07:33] e enxergava daquela maneira.

[01:07:37] E como que autoras mulheres e autores mais cientes disso hoje podem, e farão,

[01:07:44] vão poder explorar esses temas de uma maneira que a gente enxerga hoje como mais interessante, mais inclusiva, mais expansiva, né?

[01:07:52] Não, eu concordo com isso, só que eu acho que o Solares, ele é bastante consciente desse tropo.

[01:07:56] No sentido de que, inclusive, a vergonha do personagem é por isso que ele não percebe, né?

[01:08:01] O personagem não percebe que ele só se consegue se relacionar com as antigas, com a memória da esposa dele, né?

[01:08:09] Enquanto uma memória que, em certa instância, é submissa a ele, né?

[01:08:13] Porque o filme chega um momento em que ela se liberta dele, né?

[01:08:18] Não é ele que é libertado dela, ela se liberta dele.

[01:08:21] Esse que é um ponto, assim.

[01:08:22] A grande vergonha que o personagem é incapaz de ver é de que ele foi incapaz de lidar com ela enquanto uma pessoa de verdade,

[01:08:30] por isso que é a culpa que ele carrega,

[01:08:32] e ele tenta redimir essa culpa, de certa maneira, se relacionando pura e simplesmente com a memória dela.

[01:08:39] Isso é uma coisa que fica explícito quando você vê a releitura americana que esse filme foi feita desse filme.

[01:08:46] O George Clooney, né?

[01:08:47] O George Clooney e por aquele diretor cujo nome eu já falei que pra mim é um impulso, que é o Soderberg, né?

[01:08:52] Que fez, que apareceu no nosso último pop cult.

[01:08:55] Várias relações, macacos, aliens, filmes, enfim.

[01:08:59] O ponto é, no filme americano, tudo isso se torna uma segunda chance de amar, né?

[01:09:08] Uma segunda chance de restabelecer o amor.

[01:09:11] Tanto que, enfim, isso fica explícito no final do filme.

[01:09:15] Nesse filme tem algumas falas que os personagens chegam pra ele falando…

[01:09:18] Eu nunca vi essa versão, como é que é a final da versão americana?

[01:09:20] Ele volta ao planeta, né?

[01:09:21] Ele tem a chance de escapar, porque o planeta vira meio que um inimigo, o planeta entra numa espécie de supernova,

[01:09:26] e ele vai escapar, e ele olha assim, não, vou voltar ao planeta pra viver com a minha esposa, sabe?

[01:09:30] O?

[01:09:31] É isso, é isso.

[01:09:33] Quem viu que pareça, né?

[01:09:34] Mas não é sua esposa, that’s the point.

[01:09:36] O ponto é que ela é só uma memória incompleta idealizada por você, ela não é um indivíduo.

[01:09:41] No Solares, no filme e no livro também, todos os outros personagens chegam pra ele e falam assim,

[01:09:46] cara, então, não é bem assim não, cara, sabe?

[01:09:50] Olha só, tem um momento que o cara fala assim, então, você sabe que ela vai ser sempre 20 anos, né?

[01:09:55] Tipo assim, ele, tipo…

[01:09:57] É, ela não vai imerecer.

[01:09:58] É, e aí pra ele, na fantasia masculinista dele, é o ideal, né?

[01:10:02] Só que os outros personagens, por isso que eu acho que a diegese do Solares rompe com a diegese do…

[01:10:07] dessa diegese extremamente masculinista do planeta dos macacos, ainda que você tenha assim, óbvio,

[01:10:13] você tenha algumas restrições importantes aí, né?

[01:10:18] E tem todo um motivo por que o final é a reconciliação do pai com o cosmonauta, né?

[01:10:25] Por conta do próprio autor, por conta do próprio Tarkovsky, da relação do Tarkovsky com o pai,

[01:10:31] que era poeta, enfim, tem toda uma questão aí.

[01:10:34] Mas, enfim, o ponto da história é que…

[01:10:36] Eu não li o Gibi que conta a história do Tarkovsky.

[01:10:39] É, tem um livro muito interessante que eu tenho aqui chamado Esculpir o Tempo do Tarkovsky,

[01:10:44] que a gente tá falando aqui do meu autor, meu diretor preferido, mas tem uma coisa…

[01:10:48] Bem sua carinha, né?

[01:10:49] É, cara, eu sou aquele cara, já falei isso, eu sou aquele cara que chegava pras pessoas e falava assim…

[01:10:53] E aí, vamos lá em casa assistir um filme russo?

[01:10:55] E era pra assistir filme russo, tá ligado?

[01:10:57] Uma vez eu tinha acho que 13, 14 anos e eu levei uma guria pra ver a Queda do Império Americano no cinema.

[01:11:08] E era pra assistir mesmo?

[01:11:10] Não, eu achei que ia dar uns beijos também, mas eu não sabia escolher filme pra dar beijo.

[01:11:15] Eu só escolhi, tipo, esse filme é bom.

[01:11:17] Tipo, eu já tinha visto, eu só queria ver de novo.

[01:11:19] É, eu tenho…

[01:11:21] É claro que não deu certo, é claro que não saiu nenhum beijo.

[01:11:23] Eu nunca, eu não, tem certo de filmes que eu prefiro…

[01:11:27] É pra assistir, sabe?

[01:11:29] Quando eu era jovem, eu era muito ruim de escolher filme pra qualquer situação.

[01:11:33] Eu não entendia que tinha filmes pra…

[01:11:35] Uma vez, dando aquelas festinhas em casa, vocês chamam vários amigos, várias amigas,

[01:11:39] e eles são tipo, a gente vai comer pizza e dormir todo mundo em casa.

[01:11:41] Eu aluguei One Hour Photo, aquele que o Robin Williams persegue em Uma Família.

[01:11:47] É um bom filme, inclusive.

[01:11:49] É um bom filme, e Hacking para um Sonho.

[01:11:51] Mas assim, não são filmes de você cenar com a galera e comer uma pizza.

[01:11:54] Quando você tem 14 anos ou 13 anos.

[01:11:57] Sobretudo é Hacking para um Sonho, né?

[01:11:59] Não, exato.

[01:12:00] Tipo, pra mim era tipo, eu gostei desse filme, eu vou lugar esse filme aí pra todo mundo ver.

[01:12:03] Nossa, cara, eu sou seu blind total, né?

[01:12:05] Mas eu acho que, só pra finalizar, eu acho que do Solaris, nesse ponto,

[01:12:10] ele escapa daquela diagese lá do filme do Charlton Heston, né?

[01:12:15] Do planeta de macacos original.

[01:12:17] Porque naquele filme não tem ninguém que chega assim,

[01:12:19] cara, então, tu não acha meio estranho essa situação que você tá vivendo aí com essa mulher aí?

[01:12:25] Não, enfim, você só amá-la porque ela muda, literalmente.

[01:12:29] E ela te segue cegamente.

[01:12:31] Porque no Solaris, no filme e no livro, o tempo inteiro os outros personagens estão dizendo pra ele assim,

[01:12:37] então, você também tem que sentir vergonha, cara.

[01:12:39] Isso aí não é legal não, cara.

[01:12:42] Sabe, tipo, porque ele acha, porque é aquilo assim, como os outros personagens,

[01:12:45] a gente só consegue ver os visitantes deles em vislumbres, né?

[01:12:51] A mão do menino, é o cara que escapa, né?

[01:12:54] Tipo, do laboratório, sei lá o quê.

[01:12:56] Porque ele é o único que tem a coragem de ficar andando pra cima e pra baixo com a sua ex-esposa, né?

[01:13:03] Com a afinada, né?

[01:13:05] Como se aquilo não tivesse problema nenhum.

[01:13:07] Tanto que aquilo causa uma… É muito interessante isso, quando você re-assiste e vê como que aquilo…

[01:13:11] Toda cena em que ela tá presente, os outros personagens estão sempre muito constrangidos com aquilo.

[01:13:16] Sim, ele leva ela praquele aniversário de um dos caras e aquilo se torna um espinho muito grande ali naquela cena.

[01:13:24] É porque é isso, né? Tipo, se os outros caras…

[01:13:26] Os outros personagens falam assim, cara, como você não acha essa situação que você tá vivendo doentia de alguma forma?

[01:13:32] Você tá aromatizando, idealizando o abuso…

[01:13:36] É tipo duas pessoas que já estão na rebordosa da droga, vendo outra, mandando muito.

[01:13:41] E falando assim, cara, você vai acabar exatamente como a gente.

[01:13:45] Você tá perseguindo o mesmo destino péssimo da gente.

[01:13:51] E o cara tá tão entorpecido pelo que tá acontecendo que ele é incapaz de enxergar isso.

[01:13:55] Eu acho que é o pior, né? Porque todos os outros são conscientes.

[01:13:58] Tanto que tem toda uma questão que os personagens ficam ali diante daquela situação, tentando ser cientistas, né?

[01:14:03] Tipo, tentando manter um mínimo de… Para justamente não embarcarem na sua…

[01:14:08] Não embarcarem naquele jogo com o planeta.

[01:14:12] Ele é o único que vai e faz assim, e abraça.

[01:14:14] Tanto que o cara que era amigo dele, que tava na estação, se matou por causa disso, né?

[01:14:18] O cara se mata porque ele não conseguiu lidar com aquilo, com aquela situação de estar o tempo inteiro tendo que lidar com uma perversão sua.

[01:14:24] Que é esse que é o ponto.

[01:14:25] O planeta rebate perversões, né?

[01:14:28] Nesse sentido quase parafílicos da coisa, né?

[01:14:31] Tipo, ocultas ou coisas que a gente deixa pro subconsciente.

[01:14:35] Ele é o único cara que chega e assume o subconsciente por quê?

[01:14:38] Porque no mundo em que ele vive, aquilo pode ser romantizado, aquele abuso.

[01:14:42] Porque é uma relação de abuso.

[01:14:44] Ele tem uma mulher o tempo inteiro, sabe?

[01:14:47] E é muito importante.

[01:14:48] É muito parecido com a relação de abuso do planeta dos macacos.

[01:14:50] Da nova com o Taylor.

[01:14:52] Só que tem os personagens que estão dizendo.

[01:14:54] Então, tá feio, hein, querido?

[01:14:56] Melhore, melhore.

[01:14:58] Sim, no planeta dos macacos isso não existe.

[01:15:01] Só uma coisa, mesmo naquela situação, é a mulher que nem era configurada ali enquanto um ser, consegue se livrar dele.

[01:15:11] Porque se dependesse dele, ela nunca iria ir embora.

[01:15:14] Porque ela não suporta aquela situação.

[01:15:16] Ela tenta se matar, só que ela é ressuscitada pelo planeta, enfim.

[01:15:22] E ele não.

[01:15:23] E ela tem um problema existencial desde o começo dela que é, como ela é um ser incompleto, né?

[01:15:30] Ela fala pra ele assim, ela tipo, quando eu fecho os olhos eu não sei quem eu sou, sabe?

[01:15:35] Tipo assim, eu não sou um indivíduo como você.

[01:15:37] Eu sou só essa representação do que você acha que essa mulher era.

[01:15:41] Então tipo assim, eu sou muito limitado.

[01:15:43] As coisas que eu sei são as coisas que você sabe que eu sei.

[01:15:46] Toda a existência dela é muito limitada.

[01:15:48] Isso causa um desconforto, imagina o desconforto que causa ela.

[01:15:51] O filme eu acho que é muito simpático com o sofrimento dela nesse aspecto.

[01:15:55] E isso fica muito representado, por exemplo, no próprio vestido dela.

[01:15:58] Tem uma hora que ela chega e fala assim, me ajuda a tirar o vestido.

[01:16:00] E quando ele vai tentar tirar o vestido dela, o vestido é falso, né?

[01:16:03] Tipo, o cadastro que fecha o vestido é falso.

[01:16:05] Porque ele tem que cortar o vestido, né?

[01:16:08] Porque se ele foi incapaz de imaginar o vestido como…

[01:16:12] Imagina, sim, a personalidade complexa de um ser humano.

[01:16:15] Pois é, e ela sofre por isso.

[01:16:17] E ele acha de boassa estar com aquela pessoa sofrendo.

[01:16:20] E é ela que tem que se libertar daquilo, sozinha.

[01:16:23] E ela vai lá e faz.

[01:16:25] Porque se não que depender do malandrão lá, está de boa viver naquela relação abusiva.

[01:16:30] Sim.

[01:16:31] E aí, o ponto que eu queria chegar agora é que eu citei brevemente ali no meio do capítulo.

[01:16:37] E as pessoas podem entrar o quê?

[01:16:39] É que esse é o último episódio da nossa primeira temporada.

[01:16:41] A gente prometeu 10 episódios no press release, então a gente cumpriu.

[01:16:45] Mas não tema.

[01:16:47] Esse não é o fim do public culture.

[01:16:49] A gente vai tirar agora, acho que provavelmente uma ou duas semanas aí para planejar a segunda temporada.

[01:16:53] Porque a gente já tem ideias.

[01:16:55] E aí a gente volta, né, Orlando?

[01:16:56] E aí eu acho muito interessante parar para observar aqui.

[01:16:59] Eu estava abrindo a lista dos episódios que a gente fez essa temporada.

[01:17:04] E aí eu acho que tem um tema que une todas.

[01:17:08] Eu vou fazer essa recapitulação.

[01:17:10] Fala o que eu acho.

[01:17:11] Aí você faz suas considerações finais da temporada.

[01:17:13] O pessoal digere em casa e a gente volta em breve, tá?

[01:17:16] Primeiro a gente tem Armageddon e Interestelar.

[01:17:19] Vendo como a relação do fim do mundo com o Nolan e o Michael Bay é diferente.

[01:17:25] Depois a gente tem o Diabo Vest Prada.

[01:17:27] Ou não tanto.

[01:17:28] O Diabo Vest Prada e o retrato das relações abusivas, nesse caso, de trabalho em Hollywood.

[01:17:35] Como que esse certo sacrifício pelo trabalho, o sacrifício por uma grande mente difícil,

[01:17:41] é um tema recorrente em Hollywood.

[01:17:44] Depois a gente olhou o Pocio Indomável Sonhadora

[01:17:46] para ver como que a gente enxerga os seres humanos que nos cercam

[01:17:50] e se eles são inerentemente bons ou ruins e se há esperança para a vida em sociedade.

[01:17:56] Depois a gente viu os Robocops.

[01:17:58] O Robocop original, o Robocop do Padilha.

[01:18:00] E como que eles retratam a visão de sociedade do complexo militar-industrial americano, basicamente.

[01:18:09] O Midsommar.

[01:18:10] A gente teve uma grande discussão aqui com a Tio Lin e a Jéssica

[01:18:13] sobre o que Midsommar significa em vários níveis.

[01:18:17] Tanto como a gente enxerga outras culturas e outros povos.

[01:18:22] Como a visão tecnicamente feminicêntrica de um diretor e roteirista homem

[01:18:30] e como ele tenta enxergar, tanto em Midsommar em Hereditário,

[01:18:35] ele espia suas próprias culpas.

[01:18:40] Aí a gente entrou na nossa grande série de episódios sobre a polícia

[01:18:46] e como que a polícia é retratada na cultura pop

[01:18:51] e como que a polícia nos faz ter que enxergar diferentes formas de vida

[01:18:57] dentro da própria sociedade e hierarquizar certas vidas.

[01:19:00] Aí a gente viu como contágio e epidemia nos fazem querer um salvador

[01:19:06] e não saber lidar com ameaças que não são intrinzicamente racionais

[01:19:12] na maneira que a gente encara o que é racional.

[01:19:15] E hoje a gente veio falar de como macacos e aliens são só diferentes tipos de seres humanos

[01:19:21] quando eles estão no cinema.

[01:19:23] Então eu sinto que a linha que a gente caminhou aí foi olhar para os diferentes tipos de vida.

[01:19:30] Como que a gente vê os indivíduos e a sociedade divididos entre diferentes tipos de vidas,

[01:19:36] como a gente falou já nos filmes de polícia, das vidas matáveis,

[01:19:39] e como a gente falou hoje das vidas primitivas e das vidas avançadas e tudo mais.

[01:19:45] Então acho que se a gente for definir um tema para essa temporada seria esse,

[01:19:50] seria a diferença entre as vidas, e que faz muito sentido pegando a tese do nosso primeiro episódio.

[01:19:56] Eu acho que é isso mesmo, na verdade assim, você falou primitivas e avançadas,

[01:20:01] lembrar para o nosso vídeo que tem aspas aí na história.

[01:20:04] Sim, sim, é a visão do que seria o primitivo e o avançado.

[01:20:08] A gente tem que sempre frisar isso para as pessoas, porque senão tira de contexto a gente tá ferrado.

[01:20:13] Me considere um gelado e gasoso frisante.

[01:20:18] Mas assim, eu acho que é muito isso, porque tem uma coisa que para nós, para mim,

[01:20:24] quando eu pensei junto contigo essa primeira temporada da Madeira,

[01:20:27] até de uma forma mais caótica do que pode parecer para as pessoas, né,

[01:20:31] mas assim, quando a gente ficou pensando nisso, para mim o tempo original era

[01:20:35] 1, mostrar como os filmes reforçam estruturas muito típicas da nossa sociedade, né,

[01:20:43] e primeira dessas estruturas é 1, como normalizam certas violências,

[01:20:47] como fazem, romantizam violências, como nos vendem essas violências como coisas interessantes e necessárias,

[01:20:53] então a gente falou, por exemplo, da própria violência da sociedade contra si mesma, né,

[01:20:57] contra aqueles que são marginalizados, mas também falamos sobre a violência sobre as mulheres,

[01:21:02] as violências que sofremos do trabalho, né, tipo, na esfera de trabalho, na esfera de produção,

[01:21:06] esse último episódio acho que pegou tudo isso, né, e ao mesmo tempo,

[01:21:11] ao mesmo tempo que o nosso entretenimento tenta vender para a gente que essas violências são necessárias,

[01:21:16] elas não são nem tão ruins assim, sabe, ela também vende a ideia de que o que tá fora dessa experiência

[01:21:22] é uma experiência meio trotatora, né, que ou é impossível de existir, ou é utopia, ou é, sabe,

[01:21:28] quando a gente vai falar da indomável sonhadora e a maneira como as pessoas reagem ao mundo que tá sendo proposto ali,

[01:21:33] é justamente isso, você tá dizendo pras pessoas ali, olha cara, então,

[01:21:37] quando a indomável sonhadora tá mostrando uma outra forma de vida possível,

[01:21:41] as pessoas estão dizendo, não, não é possível, porque a humanidade é ruim, porque eu vi tal filme, sabe,

[01:21:46] a maneira como eu imagino que a gente conseguiu amarrar essa primeira temporada foi isso,

[01:21:51] mostrando como a nossa imaginação é sequestrada continuamente pelo entretenimento, né,

[01:21:56] aquilo que poderia talvez nos fazer aprender a sonhar, né, a sonhar outras coisas, né,

[01:22:01] nos faz sonhar sempre com a mesma coisa, tem uma…

[01:22:05] e eu falo sonhar, que é uma palavra interessante, apesar de ser muito, muito mal…

[01:22:09] Você é um indomável sonhador, né?

[01:22:11] É, meu sonho é ser um indomável sonhador, mas assim, é porque tem uma…

[01:22:15] Vocês têm a mesma altura, você e aquela atriz.

[01:22:17] Não mais, porque ela provavelmente é mais alta que eu agora.

[01:22:19] Você sendo maldoso com ela.

[01:22:22] Desculpa, desculpa.

[01:22:26] Mas assim, mas o ponto pra mim, tem uma frase do Davi Kopenawa, né, que é um filósofo ianomame, né,

[01:22:32] um filósofo, eu chamo ianomame, que ele diz, assim, que boa parte da arte do povo dele consiste em sonhar, né,

[01:22:39] o sonho é uma figura essencial para o pensamento de diversas…

[01:22:44] pela fundação de diversas filosofias ameríndias, né, diversas tradições filosóficas ameríndias.

[01:22:49] Enquanto pra gente, o sonho é uma coisa de delírio, né, é uma coisa que a gente acha que é uma coisa menor,

[01:22:54] ou é manifestação do subconsciente, coisas do tipo.

[01:22:56] Pra eles, sonhar é uma arte, produzir pensamento a partir do sonho é uma arte.

[01:23:00] E ele fala uma coisa seguinte, quando ele…

[01:23:02] Pra um povo que tem no sonho, na imaginação da diferença, um princípio fundamental,

[01:23:09] quando eles olham pra nossa existência e dizem assim, o humano, ele fala assim, o humano, o branco,

[01:23:14] é como um machado no fundo do rio, tá ali parado, só sonha com a mesma coisa.

[01:23:18] Saca, tipo, basicamente eu acho que essa primeira temporada foi interessante pra mostrar que como o entretenimento,

[01:23:25] muitas vezes ele tá sempre sonhando com a mesma coisa, né, e nos fazendo sonhar,

[01:23:31] querendo que a gente sonhe com a mesma coisa, porque é isso, né,

[01:23:33] a gente precisa disso pra às vezes aceitar determinados… determinadas violências,

[01:23:39] não só contra a gente, mas contra outros, sobretudo contra os outros.

[01:23:43] Tá tocando a música anarquista no fundo, será?

[01:23:48] E é o seguinte, a próxima temporada, posso dar uns spoilers aqui?

[01:23:54] Eu vou dar spoilers de coisas que nem você leu ainda, porque eu tava escrevendo ontem.

[01:23:57] Olha só!

[01:23:58] Tem umas que a gente já conversou sobre aqui, mas olha só, aqui três episódios que eu rascunhei ontem aqui,

[01:24:06] que você pode esperar em algum momento da próxima temporada, que eu não sei quantos episódios vai ter, então vamos lá.

[01:24:12] O primeiro vai passar por reality shows falando sobre confinamento, o sofrimento como entretenimento,

[01:24:19] habilidades e anomalias e como os reality shows se assimilam ao circo, né,

[01:24:25] e o empreendimento como forma de vida, né, essa ideologia de que o ser humano tem que estar sempre empreendendo

[01:24:32] e fazendo algo, né, pra mudar a própria condição, porque só ele, o indivíduo, pode mudar a própria condição,

[01:24:37] e aí você tem o Jacan indo lá visitar o restaurante que desliga o freezer, você tem o Shark Tank, irmãos à obra, todas as coisas.

[01:24:45] Aí nós temos um capítulo que eu chamei, por enquanto, de o absurdo, entre aspas, do capitalismo,

[01:24:53] que a gente vai, que a minha ideia é passar por Tim & Eric Awesome Show Great Job,

[01:24:58] que é o que eu tô tentando fazer você assistir, então eu vou ter que botar lá o episódio,

[01:25:02] que é como reproduzir a realidade fielmente realça o absurdo dela, assim,

[01:25:08] que nos tira da zona de conforto sobre aquilo que nos faz questionar aquilo que é comum.

[01:25:14] Aí Nathan For You, que eu acredito ser uma das melhores críticas ao sistema,

[01:25:20] a essa existência totalmente ditada pela burocracia e pelo marketing, assim,

[01:25:24] que a gente toma essas coisas como se elas fizessem sentido e fossem estruturas naturais, assim,

[01:25:31] da coisa quando elas são artifícios muito bizarros da existência moderna.

[01:25:36] E o The Eric Andrew Show como um dadaísmo millennial que questiona todas essas coisas

[01:25:43] e a indústria do entretenimento. E aí um que eu quero fazer há muito tempo,

[01:25:47] e eu sei que você também, que é falar da família tradicional com família dinossauro.

[01:25:52] Esse vai ser ótimo, esse vai ser ótimo.

[01:25:55] Esse vai ser muito bom. Eu comecei a rever recentemente e é do cara,

[01:25:59] eu passei uns exemplos, tipo, cara, parece que foi feito ontem.

[01:26:02] Melhorou com o tempo, né? Impressionante, tem umas coisas que melhoram com o tempo.

[01:26:06] Só antes de a gente se despedir, eu vou lembrar de uma coisa,

[01:26:09] eu citei o filme do Clint Eastwood, né, que…

[01:26:12] Ah, qual o nome do filme do Clint Eastwood?

[01:26:14] Então, o Clint Eastwood é um personagem, ele mesmo, é um personagem muito presente

[01:26:20] na nossa série, na nossa primeira série, porque ele é o, digamos, o policial prototípico original.

[01:26:26] Ele é o D. Harry, né?

[01:26:28] E o nome do filme, que eu acho que é bastante sintomático,

[01:26:33] em inglês é Ever Rich Way But Lose, e em português ficou doido para brigar, louco para amar.

[01:26:40] Olha só, e o meu, o Dunstan Chexin, é o hóspede quer bananas.

[01:26:45] Caraca, verdade, eu lembro desse…

[01:26:47] Nossa, eu não vi, eu já era velho.

[01:26:49] Nem eu, mas é aquela coisa que você sabe por osmose cultural, assim, que existe.

[01:26:54] Nossa.

[01:26:57] É isso, Orlando, muito obrigado, muito obrigado a todo mundo que ouviu,

[01:27:00] e em breve a gente está de volta.

[01:27:04] Tamo junto.

[01:27:05] É nóis.