Frontdaciência - T11E24 - Demian Maia: jiu-jitsu e divulgação científica


Resumo

Neste episódio do Fronteiras da Ciência, o apresentador Jéfra Sonnenzom entrevista o lutador e divulgador científico Demian Maia. A conversa explora a conexão entre artes marciais e ciência, começando pela trajetória de Maia e seu interesse pela ciência desde a infância, influenciado por documentários e eventos como a passagem do cometa Halley em 1986. Maia também fala sobre seu canal e podcast de divulgação científica, criado durante o isolamento, com o objetivo de trazer pessoas de diversas áreas para conversar sobre assuntos que o interessam, sem se moldar às expectativas do público.

O diálogo se aprofunda no mundo das lutas, discutindo como o jiu-jitsu brasileiro se desenvolveu como uma “ciência de arte marcial”, baseada em testes e hipóteses, semelhante ao método científico. Maia explica que a família Gracie usava desafios de “vale tudo” para testar a eficácia das técnicas, levando ao desenvolvimento isolado do jiu-jitsu no Brasil, que depois chocou o mundo quando foi introduzido nos EUA nos anos 90. Ele contrasta essa abordagem com artes marciais mais dogmáticas e com pseudociências comuns no esporte, como pulseiras de equilíbrio com “holografias quânticas”.

Maia discute a evolução contínua do jiu-jitsu, com novos golpes e variações sendo inventados constantemente, e defende sua eficácia para defesa pessoal, destacando que permite controlar um agressor sem necessariamente machucá-lo. Ele também aborda os aspectos científicos do treinamento de alto rendimento, incluindo medições de força e potência, protocolos de perda de peso (que podem ser perigosos) e o uso de ciência nutricional e médica.

Por fim, a conversa aborda o antidoping no esporte, com Maia detalhando as mudanças implementadas no UFC a partir de 2015, incluindo testes surpresa e o “passaporte genético”, que dificultaram a burla. Ele também comenta sobre a falta de regulamentação em algumas competições e a tendência de aumentar a testagem à medida que os custos diminuem. O episódio encerra destacando a importância da divulgação científica e a relação simbiótica entre ciência e artes marciais.


Indicações

Eventos

  • UFC (Ultimate Fighting Championship) — Evento de artes marciais mistas onde a família Gracie lançou o jiu-jitsu brasileiro, demonstrando sua eficácia. Maia é lutador do UFC e discute suas políticas de antidoping.
  • One Championship — Evento de artes marciais na Ásia citado por Maia como tendo uma abordagem mais inteligente e segura para a pesagem, monitorando o peso dos lutadores diariamente e fazendo testes de hidratação.

Pessoas

  • Carl Sagan — Maia cita a série ‘Cosmos’ de Carl Sagan como uma influência de sua geração, que cresceu fascinada pela ciência.
  • Família Gracie — Referência central no desenvolvimento do jiu-jitsu brasileiro, usando desafios de ‘vale tudo’ para testar e validar técnicas, tratando a arte marcial quase como uma ciência.
  • Royce Gracie — Membro da família Gracie escolhido para os primeiros eventos do UFC devido ao seu físico comum, para demonstrar que a vitória era fruto da técnica, não do biotipo.
  • Irineu Loturco — Professor da USP de Educação Física que coordenava o núcleo de alto rendimento onde Maia treinava, utilizando máquinas e cálculos para medir a evolução de força e potência dos atletas.

Podcasts

  • Fronteiras da Ciência — Demian Maia menciona que este foi o primeiro podcast de ciência que ele acompanhou desde o início, demonstrando seu apreço pelo formato e conteúdo.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao episódio e ao convidado Demian Maia — O apresentador Jéfra Sonnenzom introduz o episódio, destacando que o convidado é Demian Maia, campeão de MMA e jiu-jitsu que também possui um canal de divulgação científica. O tema será a conexão entre lutas e ciência. Maia é convidado a contar sobre seu interesse pela ciência, que remonta à infância, influenciado por seu avô, documentários sobre animais e eventos como o cometa Halley.
  • 00:02:00Criação do canal e podcast de divulgação científica — Demian Maia explica que criou seu canal e podcast durante o isolamento, inicialmente relutante em fazer vídeo, mas convencido pela preferência do público brasileiro. Sua ideia era conversar com pessoas de fora do mundo das lutas sobre assuntos diversos. Ele enfatiza que faz o conteúdo por prazer pessoal, sem se moldar ao público, e vê a divulgação científica como um objetivo coletivo, não uma competição.
  • 00:05:15Pseudociências no mundo das lutas — A conversa aborda a presença de pseudociências no esporte, como pulseiras de equilíbrio e esparadrapos mágicos. Maia menciona o caso de um lutador japonês que alegava nocautear sem tocar, mostrando como charlatanismo e autoilusão podem existir. Ele contrasta isso com a abordagem do jiu-jitsu brasileiro, baseada em teste e hipóteses, semelhante ao método científico.
  • 00:07:40Desenvolvimento do jiu-jitsu brasileiro como ciência — Maia detalha como o jiu-jitsu brasileiro se desenvolveu isoladamente no Brasil, com a família Gracie testando técnicas através de desafios de “vale tudo”. Esse processo de levantar hipóteses e testar em ambiente controlado (a academia) e depois em lutas reais criou um corpo de conhecimento que chocou o mundo quando exportado. Ele compara esse isolamento e evolução à especiação biológica em ilhas.
  • 00:13:20Evolução contínua e eficácia do jiu-jitsu — Discute-se como o jiu-jitsu continua evoluindo com a invenção de novos golpes e a adaptação a contra-ataques, tornando-o uma prática dinâmica e fascinante. Maia defende que é a arte marcial mais eficiente para defesa pessoal devido à quantidade de testes que sofreu. Ele também fala sobre a perda do dogmatismo entre estilos e a abertura do jiu-jitsu a outras influências, como o boxe.
  • 00:17:27Jiu-jitsu além da luta no chão e defesa pessoal — Maia corrige a visão de que o jiu-jitsu é apenas uma luta de chão, explicando que trabalha com distâncias seguras e inclui técnicas em pé. Ele aborda sua aplicação em situações de múltiplos agressores e enfatiza seu caráter defensivo, que permite controlar uma pessoa sem machucá-la, útil até em contextos como anti-bullying escolar.
  • 00:22:01Ciência no treinamento de alto rendimento — O diálogo explora como a ciência é aplicada no treinamento de lutadores, com exemplos como máquinas para medir força e potência, desenvolvidas em parceria com pesquisadores da USP. Maia também discute protocolos de perda de peso para pesagem, que podem ser perigosos, e menciona a abordagem mais segura adotada pelo evento One, que monitora peso e hidratação diariamente.
  • 00:25:50Antidoping e regulamentação no esporte — Maia explica o funcionamento do antidoping em eventos regulados, como o UFC. Ele descreve como, a partir de 2015, a parceria com a agência norte-americana USDA implementou testes surpresa e o sistema de “paradeiros”, onde atletas devem informar sua localização diária. Também comenta sobre o “passaporte genético” e a persistência de doping em competições menos reguladas.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2020-08-17T10:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] O desafio ao divulgar a ciência é audaciosamente atingir aqueles nichos onde nenhum outro divulgador

[00:00:15] jamais esteve.

[00:00:16] O nosso entrevistado hoje, o Demian Maia, além de ter sido inúmeras vezes campeão

[00:00:21] brasileiro e mundial de artes marciais mistas, MMA e Jiu Jitsu, tem um canal e um podcast

[00:00:27] de divulgação científica.

[00:00:28] Hoje vamos então falar sobre lutas, ciência e a conexão entre essas áreas aparentemente

[00:00:34] tão distintas.

[00:00:35] Conversando com o Demian, eu, Jéfra Sonnenzom, do Departamento de Física da Orgues.

[00:00:40] Vamos começar então por esse lado menos conhecido, talvez, pelas pessoas que acompanham

[00:00:44] a tua carreira profissional.

[00:00:46] Então, conta um pouco sobre esse teu percurso e de onde vem esse teu interesse pela ciência.

[00:00:52] Bom, Jéfra, em primeiro lugar, um grande prazer estar aqui com o Fornateiras da Ciência.

[00:00:55] Foi o primeiro podcast que eu vi com Constância desde lá do começo.

[00:01:00] Meu interesse da ciência acho que vem da época que eu era criança e meu vô tinha

[00:01:07] um sítio aqui na grande São Paulo.

[00:01:09] Eu ia muito pra lá e era um mato, era uma reserva de mato atlântico.

[00:01:13] E me interessava muito por fauna, flora, essas coisas.

[00:01:17] E aí comecei a me interessar e ir atrás disso na escola.

[00:01:20] Sempre tinha aqueles documentários, eu lembro até hoje, da cultura de animais e eu gravava

[00:01:25] em VHS, quando eu tive o videocassete lá.

[00:01:28] Foi uma época do cometa Halley, quando eu era bem criança, lá em 1986, que eu lembro

[00:01:36] que a gente ficou na janela, todo mundo esperando pra ver se via.

[00:01:40] Tinha o Cosmo do Carl Sagan, então eu acho que foi uma geração que cresceu fascinada

[00:01:47] com ciência.

[00:01:48] Bom, mais recentemente tu criou um canal com programas de entrevistas, inclusive entrevistas

[00:01:54] de ciência.

[00:01:55] Eu fui um dos entrevistados recentes do teu canal.

[00:01:59] Desde quando que ele existe?

[00:02:00] Ele foi um projeto criado por uma mente em isolamento nesse nosso período?

[00:02:06] Não é uma coisa mais antiga?

[00:02:09] Na verdade foi criado por uma mente em isolamento mesmo.

[00:02:13] Já era uma coisa que eu queria fazer divulgar algumas coisas com relação a luta, esse

[00:02:18] tipo de coisa.

[00:02:19] E aí esse podcast, como eu falei, é um formato que eu gosto muito de áudio, nem pensava

[00:02:25] em fazer em YouTube, mas eu conversei com muitos amigos meus que trabalham com mídia

[00:02:29] e eles falaram que no Brasil, especificamente, as pessoas consomem muito vídeo e fora do

[00:02:36] Brasil eu vejo que as pessoas consomem muito o formato áudio em podcasts.

[00:02:41] E aí eu relutei um pouco, eu queria fazer só áudio, mas eu falei, já que tô aqui

[00:02:46] mesmo fazer vídeo, a gente separa os dois hoje com a tecnologia, não tem problema.

[00:02:51] Minha ideia no começo foi pegar pessoas que não são do meu meio, porque a coisa que

[00:02:57] eu mais me agrada quando eu tô entre amigos que não são do meu de luta é conversar

[00:03:02] sobre coisas que não têm a ver com a minha profissão.

[00:03:04] E aí eu peguei gente de tudo que é a área e convidei pra trazer um pouco pra esse mundo

[00:03:11] meu que é o mundo mais de atletas, esse tipo de coisa.

[00:03:14] Quando a gente define assim, bom, vou fazer um podcast, a gente pensa qual é o público

[00:03:20] que vai me ouvir, como é que eu posso fornecer, criar material que possa interessar e manter

[00:03:27] essas pessoas ouvindo.

[00:03:29] Então o teu público são as mesmas pessoas que te acompanham como lutador ou tu pensa

[00:03:35] em alguma exemplo?

[00:03:36] Você falou uma coisa interessante, você falou o que eu vou criar pra interessar as

[00:03:41] pessoas.

[00:03:43] É uma diversão e um prazer meu pessoal, então a minha ideia é o que?

[00:03:48] É fazer pessoas que me interessam e assuntos que me interessam e o público vai se criando

[00:03:53] a partir disso, eu não posso pensar em me moldar de acordo com o que vai funcionar ou

[00:03:57] não vai.

[00:03:58] Eu sei que existem agora com a internet milhões de pessoas que vão estar interessadas pelos

[00:04:03] mesmos assuntos que eu, então eu vou fazer o que eu gosto que eu faço melhor e falar

[00:04:07] sobre ciências é uma dessas coisas.

[00:04:10] Obviamente, com o advento do crescimento das artes marciais, do MMA, do UFC e eu estar

[00:04:16] numa plataforma dessa tão grande, tem muita gente que me segue e acaba tendo um crossover

[00:04:21] de pessoas de todas as áreas e dentro desse monte tem gente que vai gostar do que eu estou

[00:04:27] falando.

[00:04:28] Eu também penso assim, quando a gente começou era menos, mas agora existe uma oferta gigante

[00:04:33] de podcasts, então é difícil eu pensar em competição, ainda mais nessa área de

[00:04:40] divulgação científica não é nem saudável pensar que a gente está competindo com outros

[00:04:46] podcasts.

[00:04:47] Quanto mais podcasts fazendo divulgação, quanto mais podcasts falando de ciência,

[00:04:52] melhor para a ciência que no fundo é o objetivo final de todos nós.

[00:04:57] Eu particularmente acho que o meu objetivo é aprender com o que eu estou fazendo.

[00:05:03] Eu normalmente trago assuntos que eu tenho interesse em ouvir alguém que seja especialista

[00:05:08] naquele assunto e é muito interessante, mas eu queria conversar contigo também as lutas

[00:05:15] como qualquer área da sociedade hoje, elas são recheadas de ciência e de pseudociência.

[00:05:22] Vamos começar pelas pseudociências, em geral no esporte tem bastante pseudociência, pulseiras

[00:05:29] de equilíbrio, com holografias quânticas, esparadrapos mágicos.

[00:05:35] Eu lembro no caso específico das lutas daquele lutador japonês, eu acho que é o nome dele,

[00:05:42] que ele alegava que conseguia nocautear várias pessoas sem tocar nelas e tem esse vídeo

[00:05:48] de um desafio que ele fez para qualquer lutador de MMA que aceitasse, até que um aceitou,

[00:05:54] esse vídeo é bastante famoso e obviamente a luta não durou nem 20 segundos, eu acho.

[00:06:00] Se fosse eu provavelmente ela teria terminado empatada, porque eu não teria tocado no

[00:06:04] cara e o cara não teria tocado em mim, mas não é para os caras que aconteceu.

[00:06:08] Então como é que esse tipo de charlatanismo, como é que ele é visto isso no mundo da

[00:06:13] luta?

[00:06:14] Ele é visto como uma ameaça?

[00:06:15] Ele é visto como uma piada?

[00:06:17] Quanto isso é comum nesse universo?

[00:06:20] Isso existia muito quando eu comecei no começo dos anos 90, final dos anos 80 e antes disso

[00:06:27] pelo mundo, porque não existiam competições que botavam lutas à prova, como foi depois

[00:06:33] ter UFC, MMA, existiam, mas eram muito restritas, então o que acontece, você pega lá atrás

[00:06:39] a família Gracie, ela aprendeu com japoneses lá nos anos de 1910, 20 e começou a desenvolver

[00:06:46] que é o que os gringos chamam de brasileiro jiu-jitsu, o jiu-jitsu brasileiro.

[00:06:51] O que aconteceu?

[00:06:53] Eles usaram uma coisa que para muitas pessoas até hoje é um negócio muito agressivo,

[00:06:58] muito violento de ver, que eram os desafios de valer tudo.

[00:07:00] O que acontecia?

[00:07:01] Eles iam e desafiavam pessoas de outras artes, falavam não, a minha é melhor que a sua,

[00:07:05] é mais eficiente, mais eficaz, porque usa as alavancas do corpo, usa a energia de uma

[00:07:10] forma mais inteligente.

[00:07:12] Na verdade, o que eles faziam?

[00:07:13] Eles iam para a academia e treinavam igualzinho ao que a gente estava conversando de ciência,

[00:07:18] eles treinavam e começavam a levantar hipóteses, então eles falavam que essa chave de braço

[00:07:24] funciona, aí outros falavam não, não funciona, vamos treinar e ver se funciona, aí a primeira

[00:07:28] prova de teste é o que?

[00:07:30] Vamos fazer na academia, ambiente controlado, aí funcionou, não, muda um pouco o ângulo

[00:07:34] para cá, agora está funcionando, agora vamos ver se funciona mesmo, aí desafiava alguém

[00:07:39] de outra luta.

[00:07:40] E aí foi se criando esse corpo de conhecimento no Brasil e ficou muito isolado ao Brasil,

[00:07:47] porque Estados Unidos e Europa eram os centros e naquela época ainda mais, que as viagens

[00:07:52] eram muito menos constantes, o Brasil era um lugar isolado e isso foi se desenvolvendo

[00:07:57] aqui separado do resto do mundo, tanto que quando o Jiu Jitsu brasileiro chegou lá no

[00:08:04] nos anos 90 e 93, chocou o mundo todo, porque as pessoas elas acreditavam naquelas artes

[00:08:10] marciais que você falou que não toca, mas a pessoa sai voando, aquele mestre japonês

[00:08:16] lá que desafia, ele não é um charlatão só, ele acredita no que ele fala, ele tem

[00:08:22] um poder de influenciar as pessoas e sugestionar as pessoas, que elas também começam a acreditar

[00:08:27] e é uma coisa de seita mesmo.

[00:08:29] Não é encenação então, é autoilusão mesmo.

[00:08:32] Eu acho que é uma mistura, mas o que acontece quando vem uma arte marcial que é o Jiu Jitsu

[00:08:39] brasileiro que é baseada em teste, em levantar hipótese lá e testar, esquece a parte violenta

[00:08:45] da luta, esse tipo de coisa, você está falando aqui, eu tenho uma hipótese, vou testar e

[00:08:49] igual você falou na ciência pra mim aquele dia, os cientistas são loucos pra te destruir

[00:08:54] se você levantar alguma teoria, e na luta é a mesma coisa, você fala não, a minha

[00:08:59] teoria funciona porque eu faço isso, essa teoria aqui é melhor que a sua e o cara vai

[00:09:04] querer na luta isso se dar por embate físico, diferente da ciência.

[00:09:09] Como é que tu faz?

[00:09:10] Porque na ciência tu vai fazer um experimento, tem muita coisa que atrapalha esse experimento,

[00:09:17] o que se faz é de todas as variáveis que podem entrar naquele experimento, tu faz uma

[00:09:23] espécie de controle, tu tenta diminuir aquelas coisas que realmente podem mudar no teoria

[00:09:29] ou no experimento, então tu controla condições, no caso das lutas eu imagino várias coisas

[00:09:34] que podem influenciar, mesmo que tu pegue o melhor lutador de jiu jitsu e o melhor lutador

[00:09:41] de capoeira pra ver qual ganha de qual, ainda assim pode ter uma diferença, por exemplo

[00:09:48] no porte físico, na altura, então essas coisas atrapalham, o ideal seria pegar pessoas exatamente

[00:09:55] iguais.

[00:09:56] Isso é o que acontece hoje, então isso que foi o mais interessante, que na época existem

[00:10:02] essas variáveis, então qual que é o objetivo, o objetivo da luta é descobrir qual numa

[00:10:08] situação que você precisa se defender de verdade vai funcionar, então essa é a premissa

[00:10:13] e aí começa a se testar golpes ali, o mais impressionante e o que impressionou o mundo

[00:10:18] é que quando a família Gracie que lançou o UFC lá nos Estados Unidos, o Ultimate

[00:10:23] Fighting, que é esse evento de artes marciais mistas, depois foi vendido nos anos 2000,

[00:10:28] mas quando eles lançaram, eles acreditavam tanto que o que eles desenvolveram como uma

[00:10:33] ciência de arte marcial era tão superior que eles pegaram um membro da família que

[00:10:39] era o Royce Gracie, que não era grande, tinha um corpo de uma pessoa normal que você vê

[00:10:44] na rua, então ele tinha mais ou menos um metro e oitenta e pouco e oitenta quilos

[00:10:48] e botaram ele com tipos gigantescos, caras de 110 quilos, 120 quilos e escolheram ele

[00:10:55] propositalmente, porque alguns irmãos dele que já tinham um físico mais de atleta mesmo,

[00:11:01] então eles falaram, não, esse aqui eles podem falar que é porque ele é muito forte, não,

[00:11:05] vamos pegar um que ele passa por qualquer pessoa na rua, porque eles queriam que as

[00:11:08] pessoas se identificassem com esse, falassem, o que está funcionando é a técnica, não

[00:11:13] é o biotipo físico e aí ele vai nesses primeiros eventos que não tem tempo e nem

[00:11:18] divisão de peso e ganha todas as lutas e isso que impressiona muito as pessoas, porque a técnica

[00:11:25] era tão superior e o que foi criado no Brasil nesses anos todos ficou isolado aqui, é a mesma

[00:11:31] coisa que se você criasse uma ciência aqui no Brasil, se desenvolvesse tanto e no resto do

[00:11:36] mundo não tivesse desenvolvimento de ciência ou até você pegar a idade média, alguns países,

[00:11:41] por exemplo, a medicina no Oriente Médio era mais avançada, porque eram lugares isolados,

[00:11:47] não tinha tanto acesso. Esse é exatamente o mecanismo de especiação que acontece às vezes

[00:11:52] quando um grupo de animais, por exemplo, acontece muito em ilhas, quando eles se deslocam e atingem

[00:11:58] um ambiente que está isolado do ambiente anterior, então embora inicialmente fosse a mesma comunidade,

[00:12:04] a mesma espécie, como eles passam muito tempo isolados fisicamente, chega uma hora que essas

[00:12:10] espécies agora são realmente distintas. Mas assim, esse Jiu-Jitsu que a gente criou aqui,

[00:12:16] quando começaram a ter esses eventos grandes na época que chamavam de Vale Tudo, hoje MMA,

[00:12:21] e eles se encontraram de novo, foi muito interessante porque você viu os caminhos

[00:12:27] totalmente diferentes que cada um tomou, então a raiz era a mesma, o Jiu-Jitsu japonês, o judô,

[00:12:32] que também vinha do Jiu-Jitsu japonês e o Jiu-Jitsu brasileiro, e cada um virou uma coisa totalmente

[00:12:37] diferente, e aí as pessoas começaram a querer vir a aprender com os brasileiros, então no mesmo

[00:12:42] sentido que nos anos 70, 80 era muito legal você ter um professor de judô de karate japonês,

[00:12:48] hoje em dia, e há muitos anos, o cara quer ter um professor de Jiu-Jitsu brasileiro, inclusive o

[00:12:55] Japão redescobriu o Jiu-Jitsu, eles começaram a levar brasileiros para lá, principalmente

[00:13:00] descendentes de japoneses, para ir lá ensinar porque eles queriam ter acesso a esse Jiu-Jitsu

[00:13:05] brasileiro, então foi bem interessante como eles se reencontraram e aí os japoneses buscaram de novo

[00:13:13] aquilo. E hoje todo mundo luta o Jiu-Jitsu brasileiro ou a evolução continuou que se luta hoje e não tem

[00:13:20] nada a ver com esse Jiu-Jitsu brasileiro que foi introduzido lá na década de 80? É década de 90,

[00:13:25] não é que não tenha a ver, os princípios são os mesmos, mas ele evoluiu muito, mesmo de quando eu

[00:13:31] comecei a treinar lá nos anos 90 para hoje, principalmente a parte esportiva, porque tem

[00:13:37] muitos campeonatos o tempo todo, então a quantidade de golpes novos que foram inventados é aquele

[00:13:42] negócio, você tem aquela hipótese ali, mas daqui a pouco alguém inventa alguma coisa para matar

[00:13:47] aquele golpe, aí você acha uma variação, aí daqui a pouco tem uma posição, isso é muito comum,

[00:13:51] que todo mundo sempre fez a vida inteira e deu certo, e aí alguém inventa que naquele posicionamento

[00:13:56] ele te coloca em perigo, ele te dá uma chave de braço dali, te dá uma chave no punho de pé,

[00:14:01] aí aquele posicionamento acaba, ou você vai modificar ele ou você esquece ele, aquela hipótese,

[00:14:06] vamos dizer assim, não funciona mais, e isso é o mais fascinante para mim, Jiu-Jitsu, e por isso que eu

[00:14:12] continuo indo para a academia todo dia, porque todo dia eu sei que eu vou estudar e vou descobrir

[00:14:16] uma coisa nova e vou descobrir um detalhe novo, nem que seja um ângulo de um golpe diferente.

[00:14:21] Praticamente vocês estão aplicando um método científico para fazer evoluir, eu me lembro

[00:14:26] que a gente estudava física lá na graduação, a gente sempre dizia como era doloroso aquilo,

[00:14:32] mas o doloroso para vocês tem outro significado, e qual é a relação que existe hoje entre as

[00:14:38] diferentes lutas, o Jiu-Jitsu é a luta mais eficiente, se alguém fosse escolher uma luta

[00:14:43] por defesa pessoal, qual é a melhor indicação? O Jiu-Jitsu brasileiro é a luta mais eficiente,

[00:14:52] é um estado por campo de prova, você pode falar de outras lutas, mas ninguém tem a quantidade de

[00:14:59] teste que o Jiu-Jitsu sofreu em cima, então essa é a diferença, lógico que existem outras lutas

[00:15:04] também, mas como defesa pessoal é essa, agora hoje a relação entre as artes marciais é muito boa,

[00:15:10] na época que eu comecei, existia uma rivalidade muito grande entre artes marciais, existia uma

[00:15:15] curiosidade entre os estilos diferentes, e hoje não, inclusive todo mundo que quer lutar, um evento,

[00:15:23] treina Jiu-Jitsu, um evento desse MMA, as pessoas que começaram numa arte marcial, mas querem aprender

[00:15:29] alguma coisa da luta agarrada, vão para o Jiu-Jitsu e fazem esse crossover, e acaba virando um negócio

[00:15:37] menos passional do que era antigamente, antigamente era um contra o outro, hoje em dia isso não existe mais.

[00:15:43] Sim, aquela coisa de eu sou lutador disso, e aí tu não pode misturar com outros estilos, outras lutas,

[00:15:49] porque seria um pecado, algo assim.

[00:15:52] E o Jiu-Jitsu nunca teve isso, na verdade o Jiu-Jitsu, esse é o grande trunfo a Jiu-Jitsu,

[00:15:57] por exemplo, lá nos anos 60, 70, o Carson Grace foi um grande lutador da família, ele falou cara,

[00:16:02] a gente precisa dar uma melhorada na parte de movimentação de soco, pelo menos para abrir caminho

[00:16:08] para a gente derrubar e fazer nosso Jiu-Jitsu, e foi treinar Boxing, então eles já não tinham esse preconceito,

[00:16:14] a maioria, vários lutadores, e isso que foi fazer o corpo de conhecimento crescer tanto e ficar melhor,

[00:16:21] porque não tinha essa visão dogmática, ao passo que a maioria das artes marciais tinha essa visão dogmática

[00:16:27] que impedia elas de crescerem.

[00:16:29] O Jiu-Jitsu é uma luta de chão, uma luta de contato, onde tem um planejamento instantâneo do próximo movimento.

[00:16:37] Em que condições ele não seria a melhor luta indicada?

[00:16:42] Ou seja, em que situação um lutador que só sabe Jiu-Jitsu se veria em dificuldades?

[00:16:48] Na verdade, é um engano achar que o Jiu-Jitsu é uma luta de chão, o Jiu-Jitsu é uma luta que visa trabalhar com a distância,

[00:16:54] existem duas distâncias seguras para uma defesa pessoal, se se defender, ou você está longe da pessoa,

[00:17:03] que você pode evitar e conversar, ou sair correndo, se for o caso,

[00:17:07] ou você vai estar clinchado na distância mais colada possível para tirar o poder de pancada da pessoa,

[00:17:13] porque ela perde o poder de torque, sei lá se eu estou falando corretamente,

[00:17:17] mas ela perde esse poder de ter mais força para te bater,

[00:17:21] você não precisa necessariamente derrubar a pessoa no chão, você pode fazer os controles em pés.

[00:17:27] Eu acho que o que acontece hoje, muitas academias se especializaram tanto na parte esportiva,

[00:17:33] que eles perderam um pouco isso, então já começam todos os treinos no chão,

[00:17:37] treinando no chão, e aí você perde um pouco esse viés de defesa pessoal,

[00:17:41] principalmente em uma situação em que você está sendo atacado por mais de uma pessoa,

[00:17:45] você não pode e não quer cair no chão, porque se você cair o outro pode vir te chutar, te agredir, fazer alguma coisa,

[00:17:53] então você quer ter um controle para você sobreviver, e no caso de muitas pessoas fugir, correr mesmo.

[00:17:59] Agora, é engraçado que muitas artes marciais antigamente falavam assim,

[00:18:03] não, o Jiu-Jitsu é muito bom quando é um contra um, só que qual que é a arte marcial boa para lutar um contra vários?

[00:18:09] Não existe essa arte marcial.

[00:18:11] Se você tem um mar revolto na sua frente, você não quer pular dentro dele,

[00:18:16] mas se você cair no mar, você quer saber nadar, então assim,

[00:18:21] eu não quero cair no chão, mas se eu cair, eu quero saber me proteger e levantar o mais rápido possível para poder sair correndo,

[00:18:27] para poder segurar a pessoa e controlar ela, e botar ela na frente dos outros, para empurrar e sair correndo,

[00:18:34] fazer alguma coisa, e poder me defender de forma eficaz.

[00:18:37] Então, tem esse engano, as vezes as pessoas acharam que o Jiu-Jitsu é só uma rota de chão,

[00:18:42] porque o que você vê num campeonato esportivo, ou num campeonato qualquer, que é um contra um,

[00:18:47] só é a luta no chão, mas ela tem muitas técnicas de queda, de agarre, em pé, que você não necessariamente derruba o oponente.

[00:18:55] Como é que funciona a questão?

[00:18:57] Eu não sei qual é o status legal, mas uma pessoa, por exemplo, tu, é faixa preta, não sei que nível,

[00:19:04] isso é considerado uma arma branca? Existe legislação em relação a isso?

[00:19:10] Eu sei que um juiz, com certeza, se você sabe uma luta e agride alguém, com certeza o juiz vai levar isso em conta,

[00:19:17] não sei se existe isso constitucionalmente, ou com força de lei, mas eu sei que isso é levado em conta, sem dúvida nenhuma.

[00:19:25] E a ideia de quem pratica algum tipo de arte marçal é você, em primeiro lugar, aprender a se defender,

[00:19:31] em segundo lugar, praticar uma coisa que te dá um bem-estar físico, que você se diverte,

[00:19:36] que você está lá como uma forma de expressão e de relaxamento, então a ideia não é agressão.

[00:19:43] E o Jiu-Jitsu Brasileiro tem uma coisa muito legal, e eu acho que é isso que me fez gostar tanto dessa filosofia,

[00:19:49] além de ser viciante de você treinar, é muito divertido, como você falou,

[00:19:53] você tem que pensar, não um movimento à frente, mas às vezes três, quatro,

[00:19:56] como o pessoal tem até um clichê que fala que é um xadrez humano, e é mesmo,

[00:20:00] porque você vê pessoas realmente pequenas ganharem de pessoas gigantes,

[00:20:04] eu vi um professor que eu tive, o Léo, ele tinha setenta quilos,

[00:20:09] eu vi ele em campeonato, ele ganha de outras faixas pretas, de cento e vinte quilos,

[00:20:13] cento e trinta quilos, então é muito gratificante você conseguir ver que a técnica consegue sobrepor a força.

[00:20:20] Mas ele tem uma coisa, voltando ao que eu ia falar, que você não necessita machucar a pessoa para vencer a luta,

[00:20:26] você pode segurar ela, você pode mobilizar, você pode eventualmente,

[00:20:31] num caso mais extremo até, fazer que ela desmaie ali por dez segundos enquanto você vai embora,

[00:20:36] e num caso mais extremo, aí sim, causar uma lesão de articulação que não é o ideal,

[00:20:41] e isso é uma possibilidade que poucas artes marciais te dão,

[00:20:45] se você for um boxeador e vier alguma pessoa que agredir na rua,

[00:20:50] você não vai ter outra solução do que agredir ele de volta e machucá-lo.

[00:20:55] No Jiu Jitsu, meus filhos me perguntam isso, isso é o game, eles são pequenos,

[00:21:00] fizeram alguma coisa comigo na escola, o que eu faço?

[00:21:02] Eu ensino uma técnica que eles vão e seguram a criança pelas costas, em pé, pela cintura e chamam o professor.

[00:21:08] Então o Jiu Jitsu te dá essa possibilidade, esse conhecimento da movimentação e das reações humanas

[00:21:14] para você poder dominar uma pessoa e esperar ela se acalmar,

[00:21:18] no caso da escola do anti-bullying, chamar o professor e segurar a pessoa, esse tipo de coisa.

[00:21:24] Ou seja, tem um caráter defensivo mesmo, não só ofensivo como em outras lutas.

[00:21:28] Exatamente, e mesmo quando você for ofensivo, você pode usar essa ofensividade não para bater,

[00:21:33] mas para controlar, para segurar a pessoa.

[00:21:36] Interessante isso. Vamos falar um pouquinho da ciência.

[00:21:39] Como todo esporte de alto desempenho, imagino que tenha muita ciência por trás do treinamento.

[00:21:46] Um aspecto que você já mencionou antes, que é durante o desenvolvimento de novos golpes,

[00:21:53] mas outras áreas da ciência, como é que vocês se utilizam de conhecimento da medicina, da química,

[00:21:59] para melhorar o treinamento?

[00:22:01] Muito, muito conhecimento científico hoje em dia, porque tudo que envolve dinheiro e muita competitividade,

[00:22:07] você vai estar puxando ali cada um querer ficar melhor que o outro e a ciência vai entrar nisso.

[00:22:13] Então vamos dar um exemplo, alguns anos atrás eu treinava aqui preparação física

[00:22:18] em um lugar chamado núcleo de alto rendimento, que era um professor da USP de Educação Física,

[00:22:24] que era o coordenador, o Irineu Loturco, e ele fazia testes de força e potência.

[00:22:29] Então eles desenvolveram máquinas, era um trilho de agachamento,

[00:22:34] para quem já foi em uma academia sabe o que é isso, você tinha que pular com um peso

[00:22:39] e eles calculavam o quanto você gerava de velocidade, e aí tinha um cálculo de acordo com o peso que você tinha,

[00:22:47] eles tentaram tirar o atrito o máximo possível do trilho lá para você saltar,

[00:22:52] e tinham vários programas para ir calculando a sua evolução,

[00:22:57] esse professor Irineu tinha todo o aparato ali para medir isso sempre e ver na sua evolução.

[00:23:04] É muito difícil nesse caso de luta você ter uma medida exata,

[00:23:08] porque existem muitas coisas que você não consegue controlar,

[00:23:12] porque tem o outro adversário que muda,

[00:23:15] mas se você conseguir botar a gente num ambiente controlado desse, por exemplo, de peso,

[00:23:18] você consegue medir algumas valências, que era o caso dele.

[00:23:21] Medicina também é uma coisa que vem para ajudar,

[00:23:27] porque essa parte de ciência nutricional é muito, muito forte,

[00:23:31] e também tem muita besteira no meio, muita coisa séria,

[00:23:34] então no nosso caso a gente precisa trabalhar a perda de peso,

[00:23:37] eu chego a perder 10 quilos para uma luta, para bater o peso na sexta-feira,

[00:23:42] eu peso 87 mais ou menos,

[00:23:44] eu chego na segunda-feira da minha luta com 84 quilos,

[00:23:49] eu tenho que bater 77 quilos,

[00:23:51] então eu vou perder 7 quilos em três dias,

[00:23:54] na sexta de manhã, e aí eu começo a recuperar,

[00:23:57] e isso é uma das coisas mais difíceis, porque cada equipe tem um protocolo,

[00:24:00] é a ciência sendo feita de forma empírica,

[00:24:03] tem equipes que usam coisas muito ultrapassadas,

[00:24:06] por exemplo, hoje em dia muito pouca gente usa,

[00:24:08] mas as pessoas tomavam água destilada na época da perda de peso,

[00:24:12] para você desidratar o máximo possível,

[00:24:15] e conseguir bater o peso,

[00:24:17] mas isso te causa um malefício do outro lado de você não ter a quantidade de sódio e potássio que você precisa,

[00:24:24] que ela te tira tanta performance que ela é prejudicial.

[00:24:27] Não faria mais sentido fazer a pesagem imediatamente antes da luta,

[00:24:31] até para evitar todos esses subterfúgios.

[00:24:33] Só que o grande perigo numa luta é você estar desidratado,

[00:24:37] porque quando você se desidrata,

[00:24:39] não é só a musculatura que se desidrata,

[00:24:41] mas o cérebro também,

[00:24:42] os tecidos do cérebro,

[00:24:44] então você tomar um golpe desidratado é muito perigoso,

[00:24:48] inclusive quando você vê mortes em lutas de boxe,

[00:24:51] muitas vezes até contraintuitivamente são pesos mais leves,

[00:24:55] que você fala, mas o peso pesado bate muito mais forte,

[00:24:58] só que os pesos mais leves costumam perder muito peso para entrar na luta,

[00:25:03] muitos entram desidratados,

[00:25:05] acho que a melhor opção é uma que tem um evento que chama One na Ásia que faz,

[00:25:10] eles obrigam você a chegar com um peso que você vai lutar já na segunda-feira da luta,

[00:25:16] ou um quilo acima no máximo,

[00:25:18] eles vão medindo seu peso diariamente e fazendo teste de hidratação,

[00:25:21] então não tem como você fazer nada de desidratação,

[00:25:24] acho que isso é a forma mais inteligente, acho que é o futuro,

[00:25:27] porque é muito perigoso o que a gente faz,

[00:25:29] a gente não sabe o que isso vai gerar a longo prazo,

[00:25:32] depois que eu parar de lutar,

[00:25:34] porque isso sobrecarrega rins, esse tipo de coisa.

[00:25:37] É bom, muitos esportes têm consequências a longo prazo,

[00:25:41] como o futebol cabecear muito, fora os choques físicos,

[00:25:47] como é que funciona a questão do antidoping?

[00:25:50] Todo evento sancionado por uma comissão atlética,

[00:25:54] por exemplo, no Brasil ou nos Estados Unidos ou na Europa,

[00:25:58] tem que ter antidoping.

[00:26:00] Antigamente, tinha muitos eventos que não tinham uma entidade regulando

[00:26:06] comissões atléticas que a gente fala,

[00:26:07] hoje em dia já o Brasil tem a comissão atlética brasileira,

[00:26:09] que é a CAB, de MMA,

[00:26:12] e os Estados Unidos, por exemplo, cada estado tem uma comissão atlética.

[00:26:16] O esporte nos Estados Unidos é um pouco diferente de Brasil e Europa,

[00:26:18] que funciona mais com federações e clubes,

[00:26:21] nos Estados Unidos é mais profissional,

[00:26:24] o esporte de base deles vem muito mais de escola e faculdade

[00:26:29] do que do governo, que são privados também,

[00:26:32] principalmente os colleges, as faculdades.

[00:26:35] O meu evento em particular, o UFC,

[00:26:37] eu sempre fiz antidoping desde a primeira luta,

[00:26:41] mas muitos atletas burlavam,

[00:26:43] eles sabiam que iam fazer um antidoping no dia da luta,

[00:26:46] então eles tomavam todo tipo de substância

[00:26:49] que poderia sair do corpo em um mês, vamos dizer,

[00:26:52] ou em dois meses, e paravam um mês antes ou dois meses antes,

[00:26:55] ou até uma forma de burlar ainda maior ainda,

[00:26:59] que atletas faziam,

[00:27:00] eles sabiam que iam ser testados antes da luta ou depois,

[00:27:02] então pegavam urina de uma pessoa limpa,

[00:27:05] que não tinha anabolizante do corpo,

[00:27:07] escondia dentro da calça, da cueca,

[00:27:10] porque tem que estar quente,

[00:27:11] ela tem que estar da temperatura do corpo,

[00:27:14] e eles medem isso,

[00:27:15] e aí quando a comissão atlética te dava o potinho

[00:27:19] para você ir fazer xixi lá,

[00:27:21] ele jogava aquela urina que não era a dele.

[00:27:25] Em 2015 houve um escândalo grande de doping

[00:27:29] até do brasileiro, do Anderson Silva,

[00:27:31] e eles perderam muito dinheiro essa organização UFC,

[00:27:35] e aí eles decidiram fazer uma parceria com a USDA,

[00:27:39] que é a agência antidoping norte-americana,

[00:27:41] e essa agência também trabalha com a agência olímpica,

[00:27:46] ela faz testes randomizados e surpresas,

[00:27:49] até 2015 a gente sabia que ia ser testado em cada luta,

[00:27:52] então existia essa forma de burlar,

[00:27:54] que muitas pessoas burlavam,

[00:27:55] a partir de 2015 você não sabe a hora que você vai ter testado,

[00:27:59] nem em que lugar,

[00:28:00] constantemente eu estou na minha casa

[00:28:01] e toca aqui a campainha,

[00:28:04] e me ligam e falam,

[00:28:05] o pessoal está aí para fazer o controle de doping,

[00:28:07] ah tá bom, pode entrar,

[00:28:08] eu tenho que fazer uma coisa que chama

[00:28:10] o whereabout em inglês,

[00:28:11] que são os paradeiros,

[00:28:13] todo atleta que é sancionado por eles

[00:28:16] tem que escrever em um aplicativo

[00:28:19] onde vai estar todo dia,

[00:28:21] em cada dia eles têm que saber onde eu estou,

[00:28:23] então assim,

[00:28:23] não existe a privacidade,

[00:28:25] o atleta perde isso,

[00:28:26] se eles chegarem na minha casa,

[00:28:28] eu falo,

[00:28:30] dia tal eu estou na minha casa,

[00:28:31] eles chegarem na minha casa,

[00:28:32] eu não estou na minha casa,

[00:28:34] eles vão tentar me ligar,

[00:28:35] se eles não conseguir,

[00:28:35] eles vão me dar uma falta,

[00:28:37] e se eu tiver três faltas num período de 12 meses,

[00:28:39] é considerado um doping,

[00:28:41] então o que acontece,

[00:28:42] eu gosto de pescar,

[00:28:42] às vezes eu vou lá para um pessoal que eu conheço,

[00:28:44] que tem uma fazenda lá no meio do Mato Grosso,

[00:28:46] lá em cima já a Amazônia é Mato Grosso,

[00:28:48] e eu tenho que pôr lá,

[00:28:50] a estrada tal,

[00:28:51] a fazenda tal,

[00:28:53] porque se eles quiserem me testar,

[00:28:55] eles têm que poder ir lá,

[00:28:56] entrar e me achar lá no meio do Mato,

[00:28:58] para fazer o teste,

[00:28:59] e outra coisa que mudou também,

[00:29:02] não só o teste de urina,

[00:29:04] mas também o passaporte genético,

[00:29:05] que é um teste de sangue,

[00:29:07] que eles fazem um mapeamento ali,

[00:29:10] nos seus marcadores de níveis hormonais,

[00:29:14] e várias coisas,

[00:29:15] e aí eles sabem que se mudar muito aquilo,

[00:29:18] é porque tem alguma coisa errada,

[00:29:19] dificultou muito mais,

[00:29:21] o que foi muito bom,

[00:29:22] porque antigamente você está evitando se dopar,

[00:29:25] mas você sabe que você está lutando com um monte de gente dopada,

[00:29:27] e hoje em dia,

[00:29:28] o cara tem que se arriscar muito para se dopar,

[00:29:31] diminuiu com certeza.

[00:29:32] Mas deve existir um mundo de lutas clandestinas também,

[00:29:36] onde tudo isso não vale?

[00:29:37] Existem lutas que não são reguladas,

[00:29:40] a próprio campeonato de Jiu Jitsu,

[00:29:42] de Judo,

[00:29:43] não há testagem,

[00:29:45] só nos grandes,

[00:29:46] então no mundial de Jiu Jitsu,

[00:29:47] hoje em dia há testagem,

[00:29:49] se eu não me engano,

[00:29:49] eles vão começar a fazer no europeu e no brasileiro também,

[00:29:52] para o americano,

[00:29:53] mas a testagem também é aquela testagem no dia,

[00:29:55] só no campeão,

[00:29:56] porque é caro manter isso,

[00:29:58] os testes ainda são caros,

[00:29:59] mas eu acho que a tendência disso é cada vez ficar mais barato,

[00:30:02] conforme essas coisas forem evoluindo,

[00:30:04] e ter cada vez mais testes.

[00:30:06] Então hoje a gente conversou sobre o universo da luta,

[00:30:11] nosso convidado foi o Demian Maia,

[00:30:14] e conversando com ele,

[00:30:15] eu, o Jephas Valenzón,

[00:30:17] do Departamento de Física da URGES.

[00:30:19] O Programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGES.