#11 - O Hater e a Hermann (O Ódio não Surge nas Redes)
Resumo
O episódio começa com uma reflexão sobre como memórias e experiências virtuais moldam nossa realidade, citando o filme ‘Videodrome’ e a frase “a tela é a retina do olho da mente”. A conversa então se volta para a análise do filme polonês ‘The Hater’ (Rede de Ódio), disponível na Netflix. Os participantes criticam a abordagem simplista e caricata do filme, que retrata um protagonista sociopata que manipula redes sociais para destruir uma família abastada, mas falha em explorar as estruturas sistêmicas por trás do ódio online.
A discussão aponta que o filme ‘fulaniza’ o problema, colocando a culpa em um indivíduo maligno (Tomás) enquanto ignora como a arquitetura das plataformas, os algoritmos que exploram vulnerabilidades humanas e o sistema capitalista que isola os indivíduos criam o terreno fértil para a radicalização. Eles comparam a abordagem superficial do filme com a de um episódio de ‘Black Mirror’ e destacam sua provável datação rápida devido à falta de nuance sobre como a internet realmente funciona.
Os participantes aprofundam a análise sobre como as redes sociais, particularmente o Facebook e suas subsidiárias, hackeiam vulnerabilidades cerebrais humanas—como a busca por validação (dopamina) e a propensão à raiva—para criar vício e engajamento. Eles discutem como isso leva a uma sociedade de distração, polarização (refletindo a binariedade da tecnologia digital) e a padronização dos comportamentos humanos, onde as pessoas começam a agir fora das redes como agem dentro delas, tornando-se ‘templates’ industriais.
A conversa se expande para um contraste com formas de vida não massificadas, como algumas sociedades indígenas, que percebem os ‘brancos’ como repetidores de padrões, ‘tudo igual a anta’. Eles também refletem sobre como a internet já foi um espaço mais colaborativo e de descoberta antes da cooptagem pelo capital, e como a experiência atual de disputa e isolamento nas redes se opõe a experiências sociais fundamentais como debater ideias em um bar ou em uma roda de samba. O episódio termina conectando essas ideias de volta a ‘Videodrome’ e à noção de que a exposição a certos conteúdos pode literalmente reprogramar a percepção e o corpo.
Indicações
Filmes
- The Hater (Rede de Ódio) — Filme polonês da Netflix analisado no episódio. Criticado por sua abordagem simplista e caricata de um sociopata que manipula redes sociais, falhando em explorar as causas sistêmicas do ódio online.
- Videodrome — Filme clássico de David Cronenberg citado na abertura. Trata dos efeitos da exposição a imagens violentas e pornográficas na televisão, que alteram a percepção da realidade e até o corpo do protagonista, servindo como metáfora para a programação via mídia.
- Taxi Driver — Citado como comparação por também ter um protagonista com passado vago que se torna um reflexo dos problemas sociais (violência nos EUA), ao contrário do personagem raso de ‘The Hater’.
- Barry Lyndon — Filme de Stanley Kubrick também citado como exemplo de personagem ‘nada’ que se torna um arquétipo (da metafísica liberal), em contraste com a abordagem falha do filme polonês.
Livros
- Tudo o que a Grande Mente Capta — Livro de Rosana Herman mencionado no início. É descrito como tendo ‘tudo a ver com o pop-cult e o tema de hoje’. Uma frase do livro é citada: ‘a realidade é sempre mais surpreendente do que a ficção, pois a ficção é obra humana, e a realidade é obra divina’.
- Celular Docilar — Livro mais recente de Rosana Herman, sobre como nos viciamos no celular. Ela menciona que fala sobre como algoritmos de distração exploram vulnerabilidades e como Dom Pedro II foi um ‘geek’ que introduziu o telefone no Brasil.
- 24/7 — Livro de Jonathan Crary mencionado por Orlando. Publicado no Brasil pela Ubu, discute pesquisas sobre adicção ao consumo de noticiários (como Fox News) que geram raiva e medo, mesmo sabendo que faz mal.
Pessoas
- Cláudia Raia — Rosana Herman escreveu a biografia da atriz, em primeira pessoa. Ela comenta a experiência satisfatória de ‘baixar o santo’ da pessoa e escrever em sua voz, a ponto dos filhos de Cláudia dizerem que parecia ela falando.
Linha do Tempo
- 00:00:33 — Abertura e reflexão sobre realidade virtual e memória — O episódio começa refletindo sobre como experiências virtuais (filmes, livros, etc.) moldam nossa realidade e memória, citando o professor Brian Oblivion de ‘Videodrome’ e a ideia de que ‘a tela é a retina do olho da mente’. A convidada Rosana Herman é apresentada, e inicia-se uma discussão sobre a plasticidade e reconstrução constante da memória, comparando-a a uma ‘câmara de eco’.
- 00:04:35 — Apresentação e crítica inicial do filme ‘The Hater’ — Os participantes apresentam o filme polonês ‘The Hater’ (Rede de Ódio na Netflix). Orlando descreve o protagonista Tomás como um sociopata que manipula redes sociais para controlar uma família rica, um enredo básico de ‘vingança do ressentido’. Críticas iniciais apontam que o personagem é um ‘nada’ proposital, um arquétipo vazio, similar a personagens de ‘Taxi Driver’ ou ‘Barry Lyndon’, mas que o filme falha em ir além da caricatura.
- 00:10:47 — Análise das falhas narrativas e caricatura do filme — A discussão detalha as falhas do filme: a caracterização superficial dos personagens como arquétipos (o liberal bonzinho, a bruxa má), a falta de realismo nas reações (como uma vlogueira desativando seu canal após o primeiro ataque), e a incapacidade do filme de mostrar a internet como um sistema com múltiplos atores. Eles criticam a ideia de que o protagonista é um ‘sintoma de uma doença que nunca aparece’, ignorando a arquitetura das plataformas.
- 00:22:08 — Como as redes sociais hackeiam vulnerabilidades humanas — Rosana Herman explica como as redes sociais e seus algoritmos ‘hackeiam’ vulnerabilidades cerebrais humanas, explorando a produção de dopamina e criando um sistema de recompensa aleatório que gera vício, similar a um cassino. Orlando complementa citando pesquisas sobre a adicção a notícias que geram raiva ou medo. A conversa destaca que o problema não é individual, mas um sistema projetado para esse fim.
- 00:34:02 — A internet como ferramenta de controle de massa e polarização — Os participantes discutem como a internet, especialmente após ser cooptada pelo capital, se tornou uma ferramenta poderosa de controle e polarização em massa. Eles citam exemplos como as manifestações de 2013 no Brasil e o uso do Facebook para organizar movimentos. A conversa traça um paralelo com o desenvolvimento da bomba atômica: uma tecnologia poderosa hackeada para fins destrutivos em escala global, agora no campo do controle mental.
- 00:47:47 — Redes sociais definindo identidade e padronizando comportamento — A discussão explora como as redes sociais passam a definir a identidade das pessoas (pelos livros que listam, marcas que curtem) e como os comportamentos padronizados das redes se replicam na vida real. Rosana dá exemplos de alunos escrevendo como no Twitter e pessoas vestindo ‘looks do dia’ para o Instagram. Orlando contrasta com sociedades indígenas que percebem os não indígenas como repetidores de padrões, ‘tudo igual a anta’.
- 01:00:51 — A binariedade da tecnologia vs. a complexidade da natureza — Rosana argumenta que a polarização atual tem uma base tecnológica: a internet é construída sobre a lógica binária (0 e 1) dos circuitos semicondutores. Isso, por sua vez, molda um pensamento social binário (esquerda/direita, bem/mal). Ela contrasta isso com a natureza e a realidade humana, que são complexas, não binárias e não individuais, sugerindo que estamos tentando reconstruir uma civilização sobre uma base inadequada.
- 01:10:01 — Encerramento e jabá da convidada — Os participantes brincam que passaram o episódio sendo ‘haters do The Hater’, o que os torna ‘lovers’. Rosana Herman faz seu jabá, promovendo seu livro mais recente ‘Celular Docilar’, sobre o vício em celulares, e a biografia da Cláudia Raia que escreveu em primeira pessoa. Ela comenta a experiência de ‘baixar o santo’ da pessoa para quem se escreve. O episódio termina de forma descontraída.
Dados do Episódio
- Podcast: Popcult
- Autor: Atabaque Produções
- Categoria: TV & Film Film Reviews
- Publicado: 2020-09-08T08:30:16Z
- Duração: 01:12:34
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/popcult/57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2/d9b78b8d-20e3-49d4-9052-ae6e548db308
- UUID Episódio: d9b78b8d-20e3-49d4-9052-ae6e548db308
Dados do Podcast
- Nome: Popcult
- Tipo: episodic
- Site: https://www.spreaker.com/podcast/popcult—4416630
- UUID: 57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] A festa de ofertas de Primavera da Amazon está a chegar com ofertas incríveis.
[00:00:04] Para o Zé poder ir caçar ofertas e fugir das tarefas domésticas.
[00:00:10] Ele merece! É o momento ideal para poupar em granta, em eletrónica, ar livre, casa e muito mais.
[00:00:16] Cuidado, Zé! Volta ao trabalho!
[00:00:18] Só mais uma espreitadela rápida às ofertas da Amazon antes que…
[00:00:21] Uuuuh! Que grande oferta!
[00:00:24] Prepare-se para as ofertas de Primavera da Amazon de 10 a 16 de Março.
[00:00:27] Mais informações em Amazon.es
[00:00:30] Half-Death
[00:00:33] Olá, e seja bem-vindo a mais uma temporada do Pop Cult.
[00:00:52] Mais uma leva de vozes e ideias transportadas diretamente para o seu cérebro, direto aqui do nosso mundo virtual.
[00:00:58] Mas o quão virtual é o que acontece dentro ou por trás das telas, que são a maior parte da nossa realidade?
[00:01:04] Esse podcast sempre abordou o fato de que o que vivemos através de experiências virtuais,
[00:01:08] livros, filmes, músicas, jogos, etc, molda nosso entendimento de todo o resto do universo,
[00:01:14] exatamente porque é só mais uma situação que vivemos, mais uma memória que criamos.
[00:01:19] Estaria, então, o professor Brian Oblivion, do clássico Videodrome,
[00:01:23] correto em dizer que a tela é a retina do olho da mente?
[00:01:28] O que acontece na tela emerge como experiência crua para o espectador?
[00:01:31] A televisão, e aqui eu incluo toda e qualquer tela que traz para perto algo que veio de longe,
[00:01:36] é a realidade, e a realidade é menos que a televisão?
[00:01:41] Talvez, mas ele estava correto em profetizar que a guerra pela mente norte-americana seria travada na arena do vídeo.
[00:01:47] E o que somos nós, se não mais uma colônia da cultura norte-americana?
[00:01:52] Para falar sobre esse tema, com Orlando Calheiros e eu, temos aqui uma convidada muito especial.
[00:01:57] Ela é escritora, roteirista, apresentadora, bacharel em física, pós-graduada em física quântica
[00:02:01] e coautora de um livro com um ótimo título, Tudo o que a Grande Mente Capta,
[00:02:07] que eu li hoje de tarde, em preparação para este episódio.
[00:02:10] Um livro que, inclusive, tem tudo a ver com o pop-cult e o tema de hoje.
[00:02:14] Bem-vinda, Rosana Herman.
[00:02:16] Tudo bem, gente?
[00:02:16] Eu estou muito pensativa aqui sobre essa abertura aqui.
[00:02:21] Eu já parei para pensar aqui, porque para a memória da gente,
[00:02:27] a lembrança da foto e a lembrança do acontecimento não tem distinção, né?
[00:02:32] Pois é.
[00:02:32] E, eventualmente, você nem sabe mais o que você tirou da foto, o que você tirou, né?
[00:02:36] Você cria as suas memórias e elas são uma costura ali das coisas que você realmente viveu,
[00:02:42] das coisas que as pessoas falam sobre aquilo, das fotos que você viu, né?
[00:02:46] A realidade é muito plástica, né?
[00:02:49] E constantemente reconfigurada, né?
[00:02:52] Sim.
[00:02:52] Porque a gente vai refazendo o passado conforme a gente vai ficando distante dele.
[00:02:57] Você vai preenchendo vazios com outras suposições que você já sedimenta ali, né?
[00:03:03] Porque a gente sempre pensa na memória, quando você pensa na memória,
[00:03:07] como se fosse uma grande prateleira onde você vai lá e pega as gavetinhas e as coisas.
[00:03:11] Tipo a prateleira do Caetano na live que ele fez, assim.
[00:03:15] A maior prateleira do Brasil.
[00:03:17] Exatamente.
[00:03:17] Você pensa que a memória é aquilo, mas não é, né?
[00:03:20] Porque são disparos, disparos elétricos, nas sinapses, nos seus circuitos,
[00:03:27] em circuitos neurais, então não tem prateleira, sabe?
[00:03:30] É quase como uma câmara de eco, né?
[00:03:33] Assim, que aquele som tá sendo degradado com o tempo ali,
[00:03:36] e aí você tá ouvindo ali um resto das frequências que foram emitidas lá no começo.
[00:03:41] É, então a memória, ela é tricky, tricky.
[00:03:45] Não sei como é que fala em português, porque eu fui alfabetizada no Canadá.
[00:03:49] Ah, Sasha.
[00:03:50] É, mas ela é tricky, né?
[00:03:53] Ela é truqueira, né?
[00:03:55] Exato, ela é truqueira.
[00:03:57] Ela plays tricks on us também, né?
[00:03:59] A gente deixa confiar nela.
[00:04:01] Mas agora a gente não precisa confiar na memória.
[00:04:02] E é sobre isso que esse episódio fala um pouco, que é…
[00:04:05] A gente pode confiar no computador.
[00:04:07] O computador lembra tudo, registra tudo.
[00:04:09] E a gente não precisa mais lembrar de nada.
[00:04:11] É, não.
[00:04:12] Você lembra de algum telefone, de número de telefone de alguém?
[00:04:16] Não, é que nem apêndice.
[00:04:18] Tudo que perde função, morre dentro do seu corpo.
[00:04:20] Não serve mais pra nada se você não usa, né?
[00:04:23] Dente do siso.
[00:04:25] Exato.
[00:04:25] E pra entrar no tema.
[00:04:27] De hoje, é claro que a gente vai falar de Videodrome.
[00:04:29] A minha situação ao Brian Oblivion não é por nada.
[00:04:32] A gente vai chegar lá.
[00:04:33] Mas antes, a gente tem um filme recente aí.
[00:04:35] Publicado pela Netflix.
[00:04:37] O filme polonês.
[00:04:40] Sala Somubu Kowhater.
[00:04:43] Acho que eu pronunciei quase certo.
[00:04:45] Eu tenho certeza que não.
[00:04:50] Pelo menos eu tentei.
[00:04:51] Pelo menos eu tomei riscos nessa vida.
[00:04:53] Eu vivi emoções.
[00:04:54] Você, Orlando, ficou aí se isolando na sua casa.
[00:04:57] Sem tentar pronunciar polonês.
[00:04:59] Mas aí…
[00:05:00] Deixa eu passar essa oportunidade.
[00:05:02] É um filme…
[00:05:03] Tá na Netflix.
[00:05:04] Se chama Rede de Ódio, aqui no Brasil.
[00:05:06] É um filme que o Orlando vai explicar.
[00:05:10] Explica, Orlando.
[00:05:10] Basicamente, é um filme que…
[00:05:13] Digamos, é um…
[00:05:15] Taxi Driver barra Barry Lyndall 2.0, né?
[00:05:19] Mostra um sujeito sem escrúpulos que manipula, vive…
[00:05:24] Ele sabe manipular muito bem.
[00:05:26] Onde as redes sociais para obter os seus objetivos.
[00:05:30] E que objetivos seriam esses?
[00:05:32] Conquistar, é…
[00:05:33] Controlar uma família abastada da Polônia.
[00:05:39] Basicamente é isso.
[00:05:39] O filme, acho que o plot é esse, né?
[00:05:41] Ele é um psicopata.
[00:05:43] Eu dei usar essa palavra assim, de forma livre, né?
[00:05:45] Mas enfim, é um sujeito, é um sociopata.
[00:05:48] Ele é, no mínimo, um sociopata.
[00:05:49] Eu não consigo entender essa gradação, essa distinção.
[00:05:52] Porque não é…
[00:05:52] Eu, assim, então…
[00:05:54] Eu acho…
[00:05:54] Eu vi o filme, né?
[00:05:55] Pra poder falar com vocês.
[00:05:56] Eu tinha começado a ver, mas eu vi inteirinho, assim, pra estugiar os colegas.
[00:06:01] Olha!
[00:06:02] Os colegas poloneses, sabe o que for.
[00:06:05] E, assim, é o plot mais básico dos 36 possíveis plots desde a tragédia grega,
[00:06:11] que é a vingança do ressentido, né?
[00:06:14] Se você fosse reduzir ao mínimo possível.
[00:06:18] Ambientado com toda essa coisa de rede social e algoritmos e tal.
[00:06:23] Mas é a vingança de alguém ressentido.
[00:06:26] E ele vai mostrando esse lado, que você falou, sociopata,
[00:06:32] que é caracterizado, basicamente, pela falta de empatia pelo próximo.
[00:06:37] Tipo, quando a gente fala, eu quero que você se foda,
[00:06:38] ele quer e fode, né?
[00:06:40] A pessoa.
[00:06:41] E não sente nada.
[00:06:42] Sim.
[00:06:43] Mas só que eu acho que uma coisa muito interessante do filme
[00:06:47] é o quanto ele é preguiçoso, entre aspas,
[00:06:51] com a criação desse personagem principal, que é o Tomás.
[00:06:54] Que é o seguinte.
[00:06:55] Ele é…
[00:06:55] Ele é…
[00:06:55] Ele é…
[00:06:55] Ele é…
[00:06:56] Pra ser um arquétipo daquilo que os criadores do filme
[00:07:00] veem como tudo que há de errado no mundo hoje.
[00:07:03] Então, eles fazem algo muito esperto da parte deles, assim.
[00:07:08] Que é tipo quando você faz espaçamento duplo na lição de casa
[00:07:11] pra dar o número de páginas.
[00:07:13] Que eles falam assim, ah, se a gente quer que esse cara seja
[00:07:15] meio que um arquétipo universal,
[00:07:17] quanto menos a gente soubesse sobre ele, melhor.
[00:07:20] Então, assim, a gente sabe que ele recebe uma ajuda financeira ali
[00:07:23] dos pais da…
[00:07:26] Interesse romântico.
[00:07:27] Mas, ao mesmo tempo, ele aluga um apartamento super caro lá e tal.
[00:07:31] A gente não sabe quem são os pais dele, nem direito de onde ele veio.
[00:07:33] A gente sabe que alguma coisa aconteceu ali com a morte da mãe,
[00:07:36] que foi enterrada na Holanda.
[00:07:37] Mas, assim, é só um passado.
[00:07:38] Só pra dizer que tem algo no passado dele, assim.
[00:07:41] Como todo ser humano tem algo no seu passado.
[00:07:43] O passado de ninguém é vazio, né?
[00:07:44] Ninguém nasceu ontem.
[00:07:46] E, a não ser bebês.
[00:07:47] E se você é um bebê e está ouvindo isso, parabéns, bebê.
[00:07:50] Mas o…
[00:07:51] É muito louco, assim, porque aí o filme, ele…
[00:07:53] É isso, assim.
[00:07:54] Ele é um pastiche.
[00:07:55] E…
[00:07:55] Quase todo mundo naquele filme é, assim…
[00:07:58] Ele parece, assim…
[00:07:59] Ele tem a sutileza de um episódio de Malhação.
[00:08:02] Nada contra, tem amigos que escrevem Malhação.
[00:08:04] Mas ele é…
[00:08:06] E aí, o que eu acho…
[00:08:07] Eu assistindo o filme, eu fiquei…
[00:08:08] Cara, esse filme não vai prestar daqui a, tipo, dois anos, assim.
[00:08:11] Porque ele é tão sobre agora, de uma maneira pouco sutil,
[00:08:16] que eu sinto que, daqui a pouco,
[00:08:18] quando algumas coisinhas estiverem diferentes da nossa rotina no dia a dia,
[00:08:21] por mais que simbolicamente elas permaneçam iguais,
[00:08:24] porque o ser humano é incapaz…
[00:08:25] De melhorar…
[00:08:26] É…
[00:08:27] Ele vai ser um filme muito atado, sabe?
[00:08:29] Ele vai ser um filme muito estranho de se assistir.
[00:08:31] Não que ele…
[00:08:32] Não seja estranho de assistir.
[00:08:32] Mas é por isso que eu falei que ele me lembra o…
[00:08:35] Logo no começo eu falei que ele me lembra Taxi Driver by Barry Lyndon, né?
[00:08:39] Tipo…
[00:08:39] Porque o Taxi Driver, o personagem…
[00:08:41] Ambos são personagens que a gente sabe muito pouco.
[00:08:43] A gente sabe muito pouco sobre o personagem de Taxi Driver, né?
[00:08:45] Muito pouco sobre o próprio Barry Lyndon.
[00:08:46] Barry Lyndon, pra quem…
[00:08:48] Pra nossos ouvintes que não sabem, é um filme do Stanley Kubrick.
[00:08:51] Pra mim, é o meu filme preferido do Stanley Kubrick.
[00:08:53] O…
[00:08:54] Que não é dizer muita coisa.
[00:08:54] Olha, olha, olha, olha…
[00:08:57] É isso que você faz com as coisas que eu gosto também, né?
[00:09:00] Ah, vou te botar pra ver Tarkovski de novo, hein?
[00:09:03] Fica aqui, concorde.
[00:09:03] Meu Deus do céu.
[00:09:04] Concorde.
[00:09:05] Olha só.
[00:09:06] Mas então, porque assim, são personagens…
[00:09:08] Eu acho interessante quando tem esse artifício do roteiro
[00:09:12] que você tem um personagem sobre o qual…
[00:09:13] Que ele é basicamente um nada, né?
[00:09:15] E por ele ser um nada, ele é um reflexo da sociedade, né?
[00:09:19] O Taxi Driver, quando você tem aquele sujeito que é um psicopata
[00:09:22] e se torna um herói, justamente por ser um…
[00:09:24] Capaz de ter ações violentas, né?
[00:09:27] Que é todo aquele comentário sobre a violência
[00:09:28] que constitui a socialidade norte-americana.
[00:09:31] Ou o Barry Lyndon que se torna aquele sujeito que é basicamente…
[00:09:33] A festa de ofertas de primavera da Amazon está a chegar com ofertas incríveis.
[00:09:38] Para o Zé poder ir caçar ofertas e fugir das tarefas domésticas.
[00:09:44] Ele merece.
[00:09:46] É o momento ideal para poupar em granta, em eletrônica, ar livre, casa e muito mais.
[00:09:50] Cuidado, Zé! Volta ao trabalho!
[00:09:52] Só mais uma espreitadela rápida às ofertas da Amazon.
[00:09:54] Antes que… Uh! Que grande oferta!
[00:09:58] Prepare-se para as ofertas de primavera da Amazon de 10 a 16 de março.
[00:10:02] Mais informações em Amazon.es.
[00:10:04] A metafísica liberal, né?
[00:10:05] Tipo assim, o mundo liberal, como que ele consegue se criar naquela sociedade?
[00:10:09] Naquela sociedade que estava se abandonando o antigo regime e tudo mais.
[00:10:13] Então assim, ele se tornou um nada para justamente se tornar um tudo.
[00:10:17] Só que nesse filme, esse tudo que ele é, que ele representa,
[00:10:20] que é justamente esse império do algoritmo em que nós vivemos,
[00:10:24] nos quais nós estamos inseridos, é muito caricato.
[00:10:27] Porque o filme, me parece, ele não dá um passo essencial
[00:10:32] que é justamente falar sobre aquilo do qual ele é um sintoma.
[00:10:37] Quando a gente estava batendo esse roteiro, né, Gus?
[00:10:39] Você falou uma coisa que eu fiquei pensando.
[00:10:41] Ele parece um sintoma de uma doença que nunca aparece, né?
[00:10:45] Mas veja, ele também é…
[00:10:47] Quer dizer, você também está vendo um filme digital, né?
[00:10:50] Você está vendo um filme em material digital.
[00:10:52] E assim como ele constrói…
[00:10:55] Um avatar para entrar dentro do videogame,
[00:10:58] para fazer as combinações com o maluco,
[00:11:01] e ele cria aquele personagem, ele também,
[00:11:04] para o diretor que fez o filme, ele também não passa de um avatar,
[00:11:09] só que é um ator que está representando esse avatar
[00:11:12] nesse outro jogo que é o filme.
[00:11:14] E o personagem que você faz num game também não tem profundidade.
[00:11:18] Você não cria o passado dele.
[00:11:20] Então o filme é o game da gente,
[00:11:24] que está assistindo exatamente como ele faz lá dentro, né?
[00:11:28] Exato, por isso que eu acho que ele vai ficar datado muito rápido, né?
[00:11:31] Porque a gente assistindo, a gente preenche várias lacunas ali
[00:11:35] com coisas que a gente conhece, né?
[00:11:37] Assim, todos nós aqui temos contas no Twitter,
[00:11:40] o que nos proporciona sempre estar em contato com os haters.
[00:11:45] Momento de lazer, momento de lazer, né?
[00:11:47] Exato, permite estar perto, permite encostar, dar a mão, levar a mordida.
[00:11:52] Com o hater, né?
[00:11:53] E se você está um pouco removido também,
[00:11:57] eu acho interessante ouvir, inclusive, acho que depois desse episódio
[00:12:00] a gente vai ouvir a perspectiva de ouvintes,
[00:12:03] de tipo, como que é pra uma pessoa que está menos ligada
[00:12:06] nesse mundo de rede social, que está menos perdida
[00:12:09] nesse mundo negro do vício aí,
[00:12:12] que é o… o que você vê dali?
[00:12:16] Porque a gente sabe muito bem, a gente acompanha,
[00:12:17] Gamergate, essas histórias, a gente sabe que o Tomás
[00:12:20] representa vários tipos de arquétipos,
[00:12:23] não só ele, né?
[00:12:25] Como a Gabi, lá no Interesse Romântico, os pais dela,
[00:12:29] todos são arquétipos dos quais a gente está falando o tempo todo, né?
[00:12:32] O liberal bonzinho, né?
[00:12:34] Que aí no final, quando alguém aperta lá, a mãe dela vira e fala assim
[00:12:38] Ah, tinha que pegar essa gente toda e jogar numa jaula.
[00:12:41] E jaular as pessoas.
[00:12:42] Exato, e aí tipo assim, o prefeito bonzinho que fala também que tipo
[00:12:46] Não, a gente tem que receber refugiados, mas a gente já recebeu o suficiente
[00:12:50] como se fosse uma torneira que você fecha e tal.
[00:12:53] Enfim, é um filme extremamente cheio de generalizações.
[00:12:58] E assim, como a gente sempre conversa aqui, é claro que o filme
[00:13:01] e os personagens dentro dele vão servir de avatares.
[00:13:04] Só que parece que a segunda parte da lição de casa não foi feita, que é
[00:13:07] Ah, esse personagem é um personagem e eu uso ele pra falar desse tema
[00:13:11] e ele serve como um avatar desse tema.
[00:13:12] Me parece muito que, assim, podia ter sido um episódio de meia hora
[00:13:17] de Black Mirror, sabe?
[00:13:18] É, eu também acho, assim.
[00:13:19] Inclusive, eu acho que degringola a partir do momento
[00:13:22] do momento em que ele fala
[00:13:23] Mata meu avatar lá dentro do jogo e vai acontecer lá.
[00:13:27] Pode falar, né?
[00:13:28] Porque é spoiler pra quem já viu, né?
[00:13:30] E vai acontecer o massacre e tal.
[00:13:32] Ali eu acho que se perdeu em função de produzir aquela grande cena de massacre.
[00:13:37] Eu acho que ali, sabe, o filme deu uma barrigada, por assim dizer.
[00:13:42] Eu achei interessante a coisa de combinar dentro do mundo do game.
[00:13:47] Isso eu achei uma coisa interessante.
[00:13:50] Porque como ele fala lá
[00:13:52] que ele leu na arte da guerra
[00:13:54] que tem que ter esse agente
[00:13:56] que nunca se revela
[00:13:57] ele usou, então, essa forma
[00:14:00] moderna do agente
[00:14:02] que não se revela se transformando
[00:14:04] no avatar de uma menina lá.
[00:14:06] Então, isso eu achei, falei, ah, legal, boa ideia.
[00:14:08] Mas, realmente, não precisava ter tanto tempo
[00:14:10] de filme só pra essa ideia, né?
[00:14:13] Exato.
[00:14:14] Eu acho que, inclusive, foi muito bom que você trouxe
[00:14:16] essa referência ao
[00:14:17] arte da guerra que ele faz no filme
[00:14:19] porque eu acho que é um perfeito emblema
[00:14:22] desse filme inteiro, que é um filme
[00:14:24] no qual o personagem principal nunca tinha ouvido
[00:14:26] falar na arte da guerra.
[00:14:29] Que fez
[00:14:30] faculdade de direito, né?
[00:14:32] O cara tá na faculdade de direito.
[00:14:33] Ele era, teoricamente, um cara
[00:14:35] que, tipo, tava empenhado
[00:14:37] em construir
[00:14:39] a sua vida intelectual.
[00:14:41] Tem uma coisa que me incomodou,
[00:14:43] sobretudo, porque, justamente, acho que é por isso
[00:14:45] que o filme desanda.
[00:14:47] Porque o filme, ele
[00:14:50] cai numa coisa que me parece ser uma respiração
[00:14:52] e responsabilização individual
[00:14:54] para construir todo esse cenário
[00:14:58] de, digamos,
[00:15:00] infopocalipse.
[00:15:01] Vamos colocar desse jeito, né?
[00:15:03] É por isso mesmo que eu disse que eu acho que
[00:15:06] o protagonista do filme, ele é um
[00:15:07] sintoma de uma doença que a gente nunca vê.
[00:15:10] É isso. Por que isso, assim? Porque,
[00:15:11] em momento nenhum, assim, desde o começo
[00:15:13] você vê que ele é um cara obcecado com internet,
[00:15:15] com redes sociais, tem aquele
[00:15:17] diálogo bem no começo que ele vira
[00:15:19] pro interesse romântico dele lá,
[00:15:22] Gabi, e fala assim,
[00:15:23] ah, me aceita lá no Facebook. Ela, tipo, ah, tá bom,
[00:15:25] manda um invite. Ela, tipo, eu mandei
[00:15:27] há sete anos. Sim! Mas, gente,
[00:15:29] pera um pouquinho, o cara ainda usa Facebook
[00:15:31] pra começar.
[00:15:33] A chefe dele, que é a bruxa,
[00:15:36] né, o arquétipo da mulher má,
[00:15:37] bruxa, vilã, ela dá pra ele
[00:15:39] um livro no quê? Num pendrive?
[00:15:42] Nossa!
[00:15:43] Isso, eu fiquei muito incomodado.
[00:15:45] Gente, pera um pouquinho,
[00:15:48] ela, ela, ela
[00:15:49] deu um pendrive pra ele com o livro,
[00:15:52] quem dá um livro num pendrive
[00:15:54] pra alguém?
[00:15:54] Eles são retros, saca? É, pendrive já é retro,
[00:15:58] saca? Já é! Se tu for na casa dela,
[00:16:00] ela escuta vinil. Tipo, dá um livro com capa de couro.
[00:16:02] Ela escuta vinil, sabe, com ela, bota um vinil
[00:16:04] pra escutar e toma um pendrive aqui, sabe?
[00:16:06] Nossa! E, por favor,
[00:16:07] vamos falar, então, já que a gente falou da bruxa,
[00:16:10] vamos falar um pouco
[00:16:11] de todo o cenário. Ele trabalha numa
[00:16:13] agência de publicidade,
[00:16:15] que eu achei bem realista, até, como pessoa que já
[00:16:18] entrou em agência de publicidade.
[00:16:20] Eu não sei o que você acha, Rosana.
[00:16:22] A gente morando aqui em São Paulo, estando envolvido
[00:16:23] nesse mundo da internet, a gente já viu.
[00:16:26] Mas, assim, até pra uma
[00:16:28] agência de publicidade,
[00:16:30] eles pintam a galera meio como
[00:16:31] má demais. É, não, é muito
[00:16:34] caricato, porque, primeiro… É muito, parece um desenho
[00:16:36] da Disney. Total, a menina fica
[00:16:37] em pé chorando ali, porque foi demitida,
[00:16:40] né, parece um… E aí o outro gritando,
[00:16:41] vai chorar no banheiro! É, exatamente.
[00:16:44] É muito, é muito assim. E tem
[00:16:46] a parte…
[00:16:47] Além disso, tem a menina
[00:16:50] lá, que sofreu o bullying todo,
[00:16:52] a vlogueira que ela queria destruir.
[00:16:54] Ah, é? Que aquela história some?
[00:16:56] Não, na primeira coisa,
[00:16:58] ela já desaparece e fala, eu vou desativar meu canal,
[00:17:00] não vou suportar, tipo… Oi?
[00:17:02] Na primeira porrada, ela já
[00:17:04] vai… Ela vive disso, ela ganha dinheiro com
[00:17:06] isso, ela vende suco. E o contrato
[00:17:08] com o patrocinador do suco, sabe, assim,
[00:17:10] é tudo… Tudo se resolve
[00:17:12] muito… Pá, matei, sabe?
[00:17:14] E é muito desanimado, né, porque
[00:17:16] assim, tipo, o trabalho do nosso protagonista
[00:17:18] é organizar uma
[00:17:19] campanha de assédio online,
[00:17:22] contra essa vlogueira e tal, não sei o quê.
[00:17:24] E aí, o que ele vê? As pessoas mandam foto da mão.
[00:17:26] É tipo, não, cara, eu moro
[00:17:28] no mundo real, não é isso que ia acontecer.
[00:17:29] Hashtag mão amarela, hashtag mão amarela.
[00:17:31] Essa mulher ia receber foto de pinto amarelo,
[00:17:34] entendeu? Isso, tipo assim, ia ser muito…
[00:17:36] Mão amarela não era quando peidava
[00:17:37] na mão, uma coisa assim? Eu não me lembro.
[00:17:39] Mas será que era assim na Polônia também? Então, eu acho que não.
[00:17:42] Essa piada é nacional.
[00:17:44] Exato. Mas é isso, assim, tipo,
[00:17:46] o filme, ele tem… Ele
[00:17:48] tá tentando pintar, assim,
[00:17:50] tipo, dizer, olha só, coisas horríveis podem
[00:17:52] acontecer quando você é um
[00:17:54] cara do mal na internet. Mas só que
[00:17:56] ele é incapaz de mostrar isso bem.
[00:17:57] A não ser quando ele leva pro outro extremo
[00:17:59] cartunês, que é tipo… Ah não, beleza, ele
[00:18:01] vai virar um tiroteio em massa,
[00:18:04] assim, né, que é tipo… Que é o que acontece.
[00:18:06] Sabe o que me parece? Me parece aquelas
[00:18:07] caracterizações, tipo, sei lá,
[00:18:09] TV Angélica,
[00:18:12] Xuxa, Contra o Baixo Astral,
[00:18:14] saca? Que os caras são um roqueiro do mal,
[00:18:16] sabe? Então, os caras têm que virar tudo
[00:18:17] na chave do 20, né? Porque
[00:18:19] só pra
[00:18:22] recuperar o que eu tava falando antes, porque
[00:18:23] eles têm que fazer isso justamente porque falta
[00:18:26] nesse segundo ato do
[00:18:28] filme, que é justamente, cara,
[00:18:30] isso só é possível
[00:18:31] nesse mundo do algoritmo,
[00:18:33] nesse mundo de redes sociais, nessa
[00:18:35] arquitetura toda que é construída
[00:18:37] justamente pra esse tipo de
[00:18:40] empreendimento ter sucesso,
[00:18:42] saca? É ele que vai
[00:18:43] radicalizar aquele garoto lá, o
[00:18:45] cara do videogame, sei lá o quê. Não, em nenhum
[00:18:47] momento o filme entra nesse aspecto. O Facebook
[00:18:49] inclusive é bonzinho, é uma coisa que eles estão
[00:18:52] vivendo. Não, não deixa o Facebook… O Facebook é uma
[00:18:53] ferramenta neutra, né? É, não, deixa o Facebook.
[00:18:55] O Facebook tem que pegar, cuidado, hein.
[00:18:58] Exato, é tipo assim, o Facebook
[00:18:59] só tá lá, é tipo e-mail, assim.
[00:19:01] É tipo um post no qual
[00:19:03] você cola o seu lambi-lambi. E é
[00:19:05] muito louco, porque o filme, ele flerta com
[00:19:08] ilustrar como pessoas
[00:19:09] entre aspas, normais, usam aquilo
[00:19:11] ali, que são basicamente as vítimas dele, né?
[00:19:13] A Gabi, as amigas da faculdade dela
[00:19:15] e tal, as pessoas que ele se usa pra se aproximar
[00:19:18] dela. Mas isso rapidamente deixa
[00:19:19] de ser parte do filme, né? Como essas pessoas…
[00:19:22] É que tem um erro, tem um erro aí
[00:19:23] de construção de personagem, porque assim,
[00:19:26] quantos anos tem o Tomás? Se ele tá no começo
[00:19:28] da faculdade, foi expulso, deve ter o quê?
[00:19:29] Tipo, 20 anos? 19?
[00:19:32] Tem tipo 19?
[00:19:34] Por aí, sei lá, vai…
[00:19:35] Tá bom, digamos que seja isso. Se há 7 anos
[00:19:38] ele mandou um convite no Facebook,
[00:19:40] que moleque de 13 anos tá
[00:19:41] no Facebook?
[00:19:43] Não, e… Cara, você não tinha pensado,
[00:19:45] não, essa…
[00:19:46] Talvez, não, vai, um moleque de 13 anos em
[00:19:49] 2007, que passa, tipo assim, imagina, um moleque que
[00:19:51] ficava o dia inteiro no computador, ele tinha conta em todos os
[00:19:53] sites. Era só mais um site, assim.
[00:19:55] Mas ela, a Gabi, ter a conta
[00:19:57] é o mais estranho.
[00:19:59] Até porque ela é mais nova que ele, né?
[00:20:01] É, então, ela era o quê? Tinha uma criança.
[00:20:03] É proibido no Facebook você ter conta
[00:20:05] com 10 anos de idade.
[00:20:06] E ela não ia ter interesse nenhum em ter essa conta.
[00:20:09] O Facebook de 2007, sabe?
[00:20:11] O Facebook de 2013.
[00:20:13] Não faz nenhum sentido isso, é assim…
[00:20:15] Não, a gente tá reduzido ao Felipe Neto
[00:20:17] nesse momento, não faz sentido, né?
[00:20:20] Mas aqui tem um… Eu acho
[00:20:21] que tem um erro, assim,
[00:20:23] é como se fosse tudo muito binário, né?
[00:20:25] Fez isso, já reagiu assim.
[00:20:28] Atacou, fechou o canal.
[00:20:30] Tá, tá, tá, sabe?
[00:20:31] É muito reativo.
[00:20:33] É como se o ser humano fosse
[00:20:35] essa coisa que você aperta um botão e ele vai
[00:20:37] reagir sempre daquela maneira.
[00:20:38] É por isso que o filme
[00:20:43] parece o game em primeira
[00:20:45] pessoa do diretor, porque ele
[00:20:47] mata a hora que ele quiser, ele faz,
[00:20:49] ele tá brincando em primeira pessoa e vai fazendo
[00:20:51] conforme ele quer. Ele criou, é assim,
[00:20:53] tipo, esse aqui é meu jogo, é meu mundo,
[00:20:55] eu criei meus avatares e fodam-se
[00:20:57] vocês, eu tô jogando em primeira pessoa.
[00:21:00] Mas isso é interessante,
[00:21:01] porque essa alusão aí,
[00:21:03] de game em primeira pessoa, de matar,
[00:21:05] todo esse problema que a gente tá detectando
[00:21:07] no filme, na construção do roteiro,
[00:21:09] quando a gente vai assistir hoje em dia, por exemplo, Rambum,
[00:21:14] filmes antigos de
[00:21:15] ação, a primeira coisa que
[00:21:17] salta aos olhos é o quanto
[00:21:19] o uso das armas são
[00:21:21] pouco reais, são pouco realistas.
[00:21:23] Saca? Tipo, sei lá, um fuzil
[00:21:25] dá um tiro, o cara, sabe, toma um tiro
[00:21:27] pequenininho e tudo mais, porque antigamente
[00:21:29] em Hollywood você não tinha consultor, né,
[00:21:31] de armas de fogo, o cara não tava lá.
[00:21:33] Então toda a construção era feita, tudo aquilo ali
[00:21:35] só, todo o uso da tecnologia
[00:21:37] de armas de fogo, né, falando de filme de ação,
[00:21:40] era feita única e exclusivamente
[00:21:41] para atender aos designos
[00:21:43] do roteiro. Não tinha ninguém que falava assim,
[00:21:45] então, armas de fogo não funcionam desse jeito,
[00:21:47] querido. Entendeu? Esse filme
[00:21:49] me parece que não teve uma consultoria,
[00:21:51] né, por isso que o Gutt falou que daqui a uns
[00:21:53] dois, três anos isso vai parecer muito, vai
[00:21:55] ficar muito datado, é porque assim,
[00:21:58] esse filme não teve uma
[00:21:59] consultoria de uma pessoa que falou assim, cara, então,
[00:22:01] redes sociais não funcionam assim, a internet
[00:22:03] não funciona desse jeito, inclusive esse pendrive
[00:22:05] aí tá estranho pra cacete,
[00:22:08] cara.
[00:22:08] Eu acho que esse filme tá parecendo
[00:22:11] publicitário velho
[00:22:13] que quer fazer uma peça pra jovem
[00:22:16] e ele faz um rap
[00:22:17] tudo rimando com infinitivo de
[00:22:19] verbo, sabe assim?
[00:22:21] Você vai ver e eu vou te mostrar
[00:22:23] você vai querer e depois vai comprar,
[00:22:26] sabe? Ele acha que tá fazendo um rap
[00:22:27] com rimas de verbos
[00:22:30] em ar e iras, sabe assim?
[00:22:31] E ele acha que fez uma puta peça publicitária,
[00:22:34] é meio isso, tem a impressão que
[00:22:35] o nosso amigo, o diretor,
[00:22:38] talvez ele não entenda
[00:22:39] muito profundamente de
[00:22:41] rede, ele não é um cara que usou rede, né?
[00:22:44] Você acha que essa é a chuva
[00:22:45] de Twix do Netflix?
[00:22:50] Os melhores
[00:22:51] flops, né, que é uma coisa maravilhosa
[00:22:54] assim, porque então a gente vai
[00:22:55] percebendo assim, quem é
[00:22:57] é que, sabe, parece que é o famoso
[00:22:59] é, acho que o cara tá cheirando maconha,
[00:23:02] sabe? É isso.
[00:23:04] Falando em cheirar maconha, esse filme
[00:23:06] tem uma cena maravilhosa
[00:23:07] em que o protagonista
[00:23:10] cheira cocaína pela primeira vez
[00:23:11] pra fazer um powerpoint.
[00:23:13] Gente, meu Deus do céu.
[00:23:14] E aí depois que ele entra na
[00:23:17] agência de publicidade, ele não usa mais drogas,
[00:23:19] ele só bebe energético.
[00:23:21] É, você vê que tem, que é pra combinar
[00:23:23] quem trabalha com publicidade, precisa
[00:23:25] varar a noite, então…
[00:23:27] E também tem aquela coisa, quando ele faz
[00:23:29] as duas turmas que vão se
[00:23:31] digladiar, vão se encontrar
[00:23:33] nas manifestações pró e contra,
[00:23:36] ele faz de um lado do computador
[00:23:37] e o outro no outro computador. De um lado
[00:23:39] quer dizer que é uma cena construída pra
[00:23:41] fazer o choque das duas…
[00:23:43] Mas ele só podia estar com várias contas
[00:23:45] logadas no computador. Não podia ter duas janelas,
[00:23:48] entendeu?
[00:23:49] Ele não conhece o conceito de aba?
[00:23:51] E de novo, tem um grande problema
[00:23:53] aí, porque o filme, ele é
[00:23:55] incapaz de pensar que existem
[00:23:57] outras pessoas usando a internet além do protagonista.
[00:23:59] Não, ele é o mais.
[00:24:00] A própria campanha do candidato a prefeito
[00:24:03] que é levemente
[00:24:06] baseado no
[00:24:08] Pavel
[00:24:09] Adamowicz, que era o
[00:24:11] prefeito de
[00:24:13] Gdansk, na Polônia,
[00:24:15] que foi esfaqueado por um
[00:24:17] moleque da internet. E morreu.
[00:24:18] Eu li isso no texto da Patrícia Campos Mello,
[00:24:21] na Folha.
[00:24:22] É, então. É isso, assim,
[00:24:24] não existe apoio orgânico a esse homem
[00:24:27] de certa maneira, porque é isso, assim,
[00:24:28] a passeata a favor dele tem que ser
[00:24:31] o protagonista, tem que criar, e a passeata contra.
[00:24:33] Porque se ele não faz nada, todo mundo ia ter ficado em casa.
[00:24:36] De novo, assim, é isso, assim,
[00:24:37] o mundo do filme
[00:24:39] estaria bem se o Tomás
[00:24:41] não existisse. Tipo, esse
[00:24:42] guri na Polônia,
[00:24:45] esse guri que veio do interior da Polônia pra morar em
[00:24:47] Varsóvia, ele arruinou
[00:24:49] a vida de todas aquelas pessoas.
[00:24:50] Acabou com a democracia,
[00:24:51] a Polônia. Exato.
[00:24:52] Exatamente.
[00:24:54] Como? O filme é incapaz
[00:24:57] de ver ele como o que ele é,
[00:24:59] o que ele seria se fosse na vida real,
[00:25:01] que é tipo uma engrenagem no sistema, muito grande.
[00:25:03] Isso que é uma coisa…
[00:25:04] A única coisa que eles levantam é que lá na
[00:25:07] Índia tem uma click farm
[00:25:09] que você pede
[00:25:11] lá tantos mil perfis, é a única
[00:25:13] lampejo de que
[00:25:15] não é só o personagem dele
[00:25:17] que é responsável por tudo, que criou tudo isso.
[00:25:19] Quer dizer, se não fosse ele…
[00:25:20] Ele tá pagando o indiano, né?
[00:25:22] É. Tipo assim, o indiano não estaria
[00:25:24] fazendo isso se não fosse ele, sabe? A impressão
[00:25:26] que fica é essa. Mas assim, eu vou…
[00:25:28] Mas então, a gente tá reclamando disso, né?
[00:25:31] Mas eu que fico
[00:25:32] estudando muito sobre essa coisa de
[00:25:34] rede social, no geral
[00:25:37] eu vou te falar que
[00:25:38] se você perguntar pra maioria das
[00:25:41] pessoas, pedir pra caracterizar como funciona
[00:25:43] por exemplo, a máquina de propaganda da extrema
[00:25:45] direita no Brasil ou no mundo,
[00:25:47] elas vão te dar uma imagem muito semelhante com a imagem desse filme.
[00:25:49] Porque, por exemplo… Mas é por isso que…
[00:25:50] É por isso que essas pessoas não estão fazendo esse filme, entendeu?
[00:25:52] Se você vai fazer o filme, você tem a responsabilidade
[00:25:54] de precisão por mais. Exato! Não, mas então, mas assim, o que eu tô dizendo é porque
[00:25:56] eu vi muita gente repercutindo esse filme
[00:25:58] falando assim, nossa, olha como é que a internet
[00:26:00] funciona, olha o gabinete do ódio como é que é,
[00:26:03] sei lá o que. Então assim, cara,
[00:26:04] não, o gabinete do ódio é
[00:26:06] só uma engrenagem, se não tivesse uma coisa que eu
[00:26:08] vivo insistindo. Ah, porque tem
[00:26:10] uns botes. Não, cara, nada
[00:26:12] adiantaria você ter gabinete do ódio, você ter
[00:26:14] um monte de botes, disparo, injeção de
[00:26:16] dinheiro, se você não tivesse toda uma rede orgânica,
[00:26:18] toda uma rede de pessoas que, orgânicamente,
[00:26:20] replicam aquela mensagem. E a
[00:26:22] pergunta fundamental, que é a que o filme
[00:26:24] não faz, por que que as pessoas
[00:26:26] replicam aquela mensagem, saca? Por que
[00:26:28] que as pessoas se engajam? Até o cara
[00:26:30] que é radicalizado, que vira um
[00:26:32] terrorista, né, ele é muito
[00:26:34] mal trabalhado nesse aspecto, ele é
[00:26:36] totalmente caricato mesmo, né, da maneira como
[00:26:38] se enxergam, por exemplo,
[00:26:40] esses machos
[00:26:42] nos Estados Unidos, sabe, os incels.
[00:26:44] Ah, olha só, ele tem raiva.
[00:26:46] E a caricatura liberal
[00:26:48] dos caras, né, porque…
[00:26:49] A primeira forma…
[00:26:50] Aquela foto de nerd da internet, aquela primeira
[00:26:52] foto que é o menino gordinho de óculos, uma camisa
[00:26:54] de xadrez, na frente de um PC
[00:26:56] de tubo, vocês lembram dessa? Vocês têm
[00:26:58] memória dessa foto?
[00:27:00] É o mesmo, é o mesmo,
[00:27:02] é a mesma proposta desse cara
[00:27:04] que mora com a avó, assim, né, é muito…
[00:27:07] É muito caricato.
[00:27:07] Essa fantasia liberal de quem é o inimigo
[00:27:10] também, porque é isso,
[00:27:12] o que os democratas fazem lá
[00:27:14] nos Estados Unidos, e que muita gente
[00:27:16] metida a
[00:27:18] a centrão liberal,
[00:27:20] aqui no Brasil também faz, que é essa coisa, assim,
[00:27:22] de menosprezar o outro lado e achar que é isso.
[00:27:24] Tipo, ah, se não tivesse o Carlinhos Bolsonaro
[00:27:26] postando na internet, tudo isso
[00:27:28] ia sumir, porque todo cara que paga de machão
[00:27:30] na verdade é só um filho de vó
[00:27:32] aí no apartamento e tal, não sei o quê.
[00:27:34] E aí ignora, por exemplo, assim, tipo, ah, beleza, mas
[00:27:36] grande parte da polícia militar apoia
[00:27:38] o presidente, né. Então a gente vai fechar
[00:27:40] veredicto aqui que esse filme, ele está
[00:27:42] fulanizando
[00:27:43] todo esse sistema. Sim.
[00:27:46] É, tá fulanizando.
[00:27:48] É isso. E aí, nisso, eu preciso pegar…
[00:27:50] É uma frase de um livro
[00:27:52] muito bom, chamado Tudo o que
[00:27:54] a Grande Mente Capta,
[00:27:55] que eu aprecio,
[00:27:58] que é a realidade
[00:28:00] é sempre mais surpreendente do que a ficção,
[00:28:02] pois a ficção é obra humana, e a realidade
[00:28:04] é obra divina. E esse filme é um ótimo
[00:28:06] exemplo disso. Ele é uma versão
[00:28:08] tão simplificada do que acontece na vida real
[00:28:10] que ele é muito menos interessante
[00:28:12] do que você analisar o que está acontecendo no nosso mundo
[00:28:14] ao nosso redor, né.
[00:28:16] E corre o perigo das pessoas que é isso.
[00:28:18] As pessoas que não se informam
[00:28:20] sobre isso, como o Orlando, que está desperdiçando
[00:28:22] a vida dele tentando entender…
[00:28:24] Basicamente é isso mesmo.
[00:28:26] A pessoa vai usar
[00:28:28] aquilo como a gente usa mesmo, a ficção, pra se informar
[00:28:30] sobre o real. Mas como é uma ficção
[00:28:32] mal fundamentada,
[00:28:34] no que ela está tentando reproduzir
[00:28:36] e comentar ali,
[00:28:38] muita gente vai sair dali com uma impressão
[00:28:40] muito leviana e simplória
[00:28:42] do que é
[00:28:43] realmente o gabinete do ódio.
[00:28:46] A mobilização online
[00:28:48] de radicalização
[00:28:50] de pessoas e jovens.
[00:28:51] E perigoso, né, porque é justamente…
[00:28:53] Isso é uma coisa que eu até falei contigo, né,
[00:28:55] quando a gente estava batendo a ideia desse episódio,
[00:28:58] de que uma coisa que muito me incomodou
[00:29:00] nesse filme é que
[00:29:01] o… e que é uma coisa que eu acho que é
[00:29:04] essencial quando a gente vai debater redes sociais,
[00:29:06] enfim, que nenhum de nós está
[00:29:08] imune a essas dinâmicas, né.
[00:29:10] De que, assim, aqueles comportamentos que são apresentados
[00:29:12] como comportamentos doentios, típicos
[00:29:14] de um sociopata, né,
[00:29:16] são comportamentos amplamente
[00:29:17] difundidos nas redes sociais.
[00:29:20] Então, assim, o que é uma coisa de se pensar
[00:29:22] que nós estamos criando uma sociedade
[00:29:23] de sociopatas. Que, inclusive,
[00:29:26] isso tem a ver com toda uma relação com a deshumanização
[00:29:28] que as redes proporcionam,
[00:29:30] toda a beligerância, enfim,
[00:29:31] que a arquitetura delas
[00:29:33] faz, como é que é, favorece.
[00:29:36] Então, enfim, esse é um ponto que é fundamental, que o filme
[00:29:37] deveria ter abordado.
[00:29:39] E que acho que vai além, Orlando.
[00:29:41] Não é só que as redes
[00:29:43] arquitetam essa dinâmica.
[00:29:46] É que a gente vive num
[00:29:47] sistema capitalista que está muito satisfeito
[00:29:50] em isolar os indivíduos
[00:29:51] cada vez mais.
[00:29:52] Não, então, esse que é o ponto.
[00:29:53] Porque, assim, meu mestrado,
[00:29:57] aquela coisa assim, eu tenho que sempre jogar meus diplomas aqui, né.
[00:30:00] Joga na cara, eu não estudei.
[00:30:02] Meu mestrado, há mais de 10 anos,
[00:30:03] meu mestrado, antes de eu
[00:30:05] ir para estudar povos indígenas,
[00:30:07] foi em antropologia da ciência.
[00:30:09] Então, uma coisa assim que, basicamente,
[00:30:11] é que é fundamental. Nenhuma tecnologia
[00:30:13] é neutra. A tecnologia não são
[00:30:15] descobertas ou invenções que vêm do
[00:30:17] vácuo. Elas são criações
[00:30:19] que têm uma relação fundamental
[00:30:21] com a sociedade que está
[00:30:23] ali circunscrevendo-as, sabe?
[00:30:25] Então, assim, você diria que para todo mundo que tem um
[00:30:27] martelo… Cara, quem tem um martelo
[00:30:29] todo problema é um prego?
[00:30:31] Essa é muito ruim, Gays. Pelo amor de Deus, cara.
[00:30:33] Puta. Ah, mas é
[00:30:35] didática. É isso, mas é isso.
[00:30:38] Eu não sei se vocês tiveram
[00:30:39] a oportunidade de ver, mas
[00:30:41] eu fiz essa… Eu transformei essa
[00:30:43] máxima em homenagem
[00:30:45] ao desgoverno.
[00:30:47] Eu escrevi, do ponto de vista
[00:30:49] de um cuzão, tudo ao redor
[00:30:51] é bundão.
[00:30:53] É isso.
[00:30:56] Mas esse é um ponto
[00:30:57] que eu vou voltar. É porque, assim,
[00:31:00] a tecnologia
[00:31:01] é um desdobramento da sociedade que
[00:31:03] está ali, onde ela foi produzida. Porque, assim,
[00:31:06] se a gente tivesse um outro mundo
[00:31:07] que não fosse habitado,
[00:31:09] conduzido, estruturado por uma
[00:31:11] metafísica liberal, enfim,
[00:31:13] fundada no século XVI, consolidada no século XVIII,
[00:31:16] a gente teria um outro tipo de desenvolvimento,
[00:31:17] uma outra forma de nos conectarmos com as pessoas.
[00:31:20] Até porque a própria internet já foi de outra
[00:31:21] maneira. As pessoas não lembram
[00:31:24] disso. Antes de ela ser cooptada pelo capital,
[00:31:26] ela era bem diferente. Cara, é. Quando eu entrei na internet…
[00:31:28] Não pode ver um vácuo, né? É. Quando eu entrei
[00:31:29] na internet em 97,
[00:31:32] por aí, pela primeira vez, você tinha
[00:31:33] uma cultura colaborativa
[00:31:36] imensa. Eu sou filho disso.
[00:31:38] Anarquismo, punk rock, filosofia.
[00:31:40] Eu tenho um diploma de doutorado por causa da internet.
[00:31:42] Saca? Porque, assim, eu fui
[00:31:43] aprender essas coisas, pesquisar, me interessar
[00:31:45] por causa da internet. Hoje em dia, seria
[00:31:47] diferente. Porque você tem uma…
[00:31:49] A competitividade começou a tomar conta.
[00:31:51] A rede social, essa coisa toda. Então, assim,
[00:31:54] eu acho que o filme, ele não vai
[00:31:55] pra esse lado. E é isso que é perigoso. Porque
[00:31:57] quando você cria essa imagem da internet, que a internet
[00:31:59] é um lugar neutro. Que, sim, temos vilões
[00:32:01] aí. Temos que lutar contra esses vilões.
[00:32:04] E, enfim, temos que
[00:32:05] lutar, estar à espreita pra que um Tomás
[00:32:07] não nos manipule. Você não compreende
[00:32:10] que, na verdade, quem está
[00:32:11] nos manipulando é a própria
[00:32:13] terra, o próprio solo onde a gente tá ali.
[00:32:16] Exato. O Tomás só existe
[00:32:17] porque o sistema precisa que exista um Tomás.
[00:32:20] Claro. Porque, assim,
[00:32:22] acho que tem, assim,
[00:32:23] o próprio Facebook,
[00:32:25] que o filme trata com uma
[00:32:27] importância, dá uma importância grande,
[00:32:29] assim, dá esse destaque.
[00:32:32] Ele é, assim,
[00:32:33] ele é uma China
[00:32:35] voluntária de pessoas trabalhando de graça,
[00:32:37] escravizadas, produzindo conteúdo.
[00:32:40] Né? Achando
[00:32:41] que tem o direito de usar a plataforma
[00:32:43] gratuitamente. E
[00:32:45] sempre lembrando que, eu repito
[00:32:47] isso em qualquer lugar que eu vou. Eu vou comprar
[00:32:49] pão, eu falo isso pro padeiro.
[00:32:51] Que é inacreditável, mas 55%
[00:32:54] das pessoas no Brasil
[00:32:55] e em outros lugares do mundo acham
[00:32:57] que o Facebook é a internet inteira.
[00:33:00] Sim. Elas não sabem que tem
[00:33:01] uma rede fora. As pessoas não acessam outros sites.
[00:33:03] Não. Elas entram no Facebook
[00:33:05] e veem tudo através do Facebook.
[00:33:07] Exatamente, porque já vem no celular, compra,
[00:33:09] já tem, ela acha que aquilo, ela já tá na internet.
[00:33:11] E agora os grupos de WhatsApp
[00:33:13] estão virando a
[00:33:15] rede social.
[00:33:17] A rede social
[00:33:18] é grupo de WhatsApp.
[00:33:21] Então, quer dizer, a gente…
[00:33:22] O WhatsApp e o Instagram são do Facebook, assim, a grande…
[00:33:25] Imagina quantas pessoas no mundo hoje
[00:33:27] tudo que elas fazem online
[00:33:29] é propriedade do Zuckerberg.
[00:33:32] Pois é. Então a gente virou
[00:33:33] uma sociedade de distração.
[00:33:36] Né? Que
[00:33:37] é muito útil
[00:33:38] pra quem quer fazer controle.
[00:33:41] Que pode ser mais fácil de fazer controle
[00:33:43] do que gente distraída.
[00:33:44] Mas você acha que a gente virou
[00:33:46] uma sociedade…
[00:33:47] de distração? Ou é natural…
[00:33:50] O ser humano quer estar distraído
[00:33:52] e é só a gente…
[00:33:53] Essas empresas monetizaram…
[00:33:57] Como é que é?
[00:33:59] Weaponized
[00:33:59] essa vontade.
[00:34:02] É o que o Orlando falou, assim.
[00:34:04] A gente tinha uma internet que tinha um modelo
[00:34:06] totalmente diferente antes, na qual
[00:34:08] você podia perder muito tempo lendo muita coisa
[00:34:10] e não tá preso nesse
[00:34:12] ciclo, por exemplo, do algoritmo
[00:34:14] do Facebook que quer te mostrar coisas que…
[00:34:16] Um que você vai consumir e que quer te engajar
[00:34:19] o tempo todo. Então é aquela coisa que a gente
[00:34:20] já viu muito ser falado, que é tipo
[00:34:23] que o algoritmo prioriza coisas
[00:34:25] que vão fazer você ficar irritado
[00:34:26] que vão reforçar
[00:34:28] seus preconceitos e tudo mais, porque isso te faz
[00:34:30] comentar, te faz engajar, te faz compartilhar link.
[00:34:33] Então que existe uma vontade
[00:34:35] de moldar o nosso comportamento
[00:34:37] através daí pra monetizar isso
[00:34:39] e que aí…
[00:34:40] Que o problema não é querer se distrair
[00:34:42] necessariamente, né? O problema é…
[00:34:44] É o que ninguém está responsável.
[00:34:46] É o mesmo princípio de Las Vegas, assim, sabe?
[00:34:49] É um mundo sem janela, sem luz
[00:34:51] pra você perder a noção se é noite
[00:34:53] ou se é dia e você continuar fazendo
[00:34:55] o jogo, sabe? Então…
[00:34:56] É a diferença de jogar futebol diário com seus amigos e ir pra um cassino, né?
[00:34:59] É, então, no livro que eu escrevi
[00:35:01] lá do celular do Cilar, que é mais
[00:35:03] recente, fala exatamente isso.
[00:35:05] Quer dizer, hoje você tem, né, todos esses ex-engenheiros
[00:35:08] fazendo meia-culpa
[00:35:09] desse monstro que foi criado
[00:35:10] desses algoritmos de distração
[00:35:13] que, na verdade, assim, a palavra
[00:35:15] chave pra mim, quando eu tava
[00:35:16] fazendo esse livro, eu falei
[00:35:18] nossa, então achei a palavra comum
[00:35:20] é vulnerabilidade. Então, assim
[00:35:22] como a gente tem o termo jurídico pra você
[00:35:24] quando você, alguém
[00:35:26] molesta uma criança, que então você
[00:35:28] trata porque a criança é
[00:35:30] vulnerável, assim, quando hackear
[00:35:32] um sistema é quando você entra
[00:35:34] na vulnerabilidade do sistema
[00:35:36] nós fomos hackeados
[00:35:38] por esse sistema, em nossas
[00:35:40] vulnerabilidades cerebrais
[00:35:42] porque a gente produz
[00:35:44] dopamina e a gente fica
[00:35:46] lá…
[00:35:46] exatamente como o cara que não consegue
[00:35:50] sair do cassino e fica lá e perde todo o dinheiro
[00:35:52] entendeu? Então, a gente caiu
[00:35:54] a gente foi usado e explorado
[00:35:56] em nossas vulnerabilidades
[00:35:58] cerebrais, que é mais do que
[00:36:00] emocionais, é o hardware
[00:36:02] porque a emoção é o software
[00:36:04] a gente foi hackeado no nosso
[00:36:06] hardware, na maneira como a gente está
[00:36:07] wired na cabeça da gente
[00:36:10] então você não consegue parar, você joga
[00:36:12] mais um pouquinho, você vai e paga mais um pouquinho
[00:36:14] você fica puto, que errou, é igual
[00:36:15] é igual
[00:36:16] é incrível quando você percebe isso
[00:36:19] você só percebe dando 10 mil passos
[00:36:22] pra trás e olhando de fora
[00:36:23] eu era viciada em Pokémon nessa idade
[00:36:26] eu concordo
[00:36:28] plenamente com isso
[00:36:29] inclusive se você for ver
[00:36:32] tem o Jonathan Crowley
[00:36:34] que eu vivo citando, que ele tem
[00:36:36] um livro pequenininho, 24 por 7
[00:36:38] foi publicado aqui pela
[00:36:39] Finada Kozak, na IFE, agora acho que
[00:36:42] tá pelo Ubu, que tá saindo
[00:36:43] uma das coisas que ele traz lá
[00:36:46] o tipo de pesquisa que tem que ser refeita
[00:36:48] que ele vai mostrar que como, por exemplo
[00:36:51] tinha na década de 80
[00:36:52] toda uma série de pesquisas que mostravam
[00:36:54] a relação de adicção com o consumo
[00:36:57] de noticiários
[00:36:58] as pessoas assistiam, sei lá
[00:37:01] Fox News, pra ficar putas
[00:37:03] com o mundo, com raiva, com medo
[00:37:04] e não conseguiam parar de assistir
[00:37:07] mesmo sabendo que aquilo
[00:37:09] mesmo sabendo que se elas
[00:37:11] não assistissem aqueles programas
[00:37:13] elas ficariam melhores
[00:37:14] no dia que eu não assisto Fox News
[00:37:16] fico bem, fico me sentindo bem
[00:37:18] mas ela não conseguia não assistir
[00:37:19] eu acho que tem uma relação
[00:37:21] desse tipo, é uma adicção mesmo
[00:37:24] você tem uma relação de adicção construída
[00:37:27] inclusive
[00:37:27] tanto com uma exposição via
[00:37:30] pelo ego, porque tem toda uma relação com o ego
[00:37:32] que algumas redes sociais vão trabalhar isso melhor que outras
[00:37:35] mas também tem uma relação com a adicção
[00:37:37] com a exposição à violência
[00:37:38] ou com a relação com injeções de adrenalina
[00:37:40] coisa do tipo assim, cara, você tá com medo o tempo inteiro
[00:37:42] você tá excitado o tempo inteiro, você tá com raiva
[00:37:44] o tempo todo, sabe, não é à toa que
[00:37:46] esses algoritmos
[00:37:49] eu acho muito boa isso que você falou
[00:37:50] que eles hackearam ali nas nossas vulnerabilidades
[00:37:53] eles pegaram justamente isso
[00:37:55] determinadas propensões à violência
[00:37:57] determinadas propensões ao medo
[00:37:58] determinadas propensões, sei lá
[00:38:00] à excitação, e vão lá assim
[00:38:02] que tipo de produto a gente pode elaborar
[00:38:05] pra cá, qual tipo de movimento que a gente vai
[00:38:06] fazer pra cá, então uma rede social se especializa
[00:38:09] mais em uma vulnerabilidade, outra
[00:38:10] em algumas, em outras, algumas como o Facebook
[00:38:13] atiram para todos os lados, o Facebook é isso
[00:38:15] ele atira pra todos os lados
[00:38:16] e aí quando isso cai na mão
[00:38:18] de pessoas, como por exemplo é o caso
[00:38:20] da Cambridge Analytica, que tem esse mapa
[00:38:22] os caras conseguem simplesmente falar assim, então beleza
[00:38:24] vamos fazer aqui uma campanha e vamos dar um
[00:38:26] golpe, porque assim
[00:38:28] não é coincidência, não me parece coincidência
[00:38:30] que, sei lá, de 2010
[00:38:32] pra cá, você pega a história
[00:38:34] sei lá
[00:38:35] da civilização ocidental e não apenas
[00:38:38] porque pensando na primeira era árabe e tudo mais
[00:38:40] diversas revoltas
[00:38:42] diversas movimentações populares
[00:38:44] um tanto quanto estranhas
[00:38:46] em muitos momentos, são criadas
[00:38:48] e organizadas a partir do Facebook
[00:38:50] isso não é coincidência
[00:38:52] isso não é uma coincidência
[00:38:54] quando você vai pensar em 2013 no Brasil
[00:38:56] que era todo aquele ódio difuso, toda aquela revolta
[00:38:58] difusa que colocou, sei lá, anarcos
[00:39:01] comunistas, gente de partido
[00:39:03] fascista, intervencionista
[00:39:05] todo mundo do mesmo lado na rua, por que
[00:39:06] essas pessoas estavam na rua assim? Pessoas que se odiavam
[00:39:08] porque tava todo mundo com raiva de alguma coisa
[00:39:10] e não sabia exatamente do que
[00:39:12] e essa máquina foi justamente a máquina que
[00:39:14] dois anos mais tarde foi totalmente cooptada
[00:39:16] pela direita pra falar assim, então
[00:39:18] o inimigo é esse aqui, o inimigo
[00:39:21] é o PT, o inimigo são as
[00:39:22] esquerdas, o inimigo é isso, o inimigo
[00:39:24] sabe que isso é um tempo todo, tem uma máquina
[00:39:27] que tá o tempo todo se aproveitando e falando assim
[00:39:28] dando um rosto pro inimigo, né
[00:39:30] foi uma junção, quer dizer
[00:39:32] as pessoas que, as equipes que
[00:39:34] criaram esses algoritmos que
[00:39:36] compartimentalizam todos os seres
[00:39:38] humanos de um bilhão e meio de usuários
[00:39:41] do Facebook, eles usaram
[00:39:43] por exemplo, tudo que eles já sabiam
[00:39:44] de um século de propaganda
[00:39:46] isso mudou profundamente a psicologia humana
[00:39:49] pra vender, né
[00:39:50] você vende o sonho, você vende a
[00:39:53] ambição, você vende
[00:39:55] você se sentir mais sexy
[00:39:57] poderoso, então eles pegaram tudo
[00:39:59] que se sabia durante cem anos
[00:40:01] do poder de convencimento
[00:40:03] para a venda
[00:40:04] numa plataforma de alcance
[00:40:07] gigante, numa velocidade que nunca
[00:40:09] antes se viu
[00:40:11] como a gente lida na internet
[00:40:12] e com o fato de que todo mundo
[00:40:15] tem acesso a essa ferramenta de
[00:40:16] produção, então quer dizer
[00:40:18] foi como se você fizesse assim, uma junta médica
[00:40:21] para o mal, pra falar de um jeito
[00:40:22] estruturista, sabe, então você pega as melhores
[00:40:25] cabeças e você junta, eu falei assim
[00:40:27] eu acho que o que tá acontecendo agora
[00:40:29] com esse, essa
[00:40:30] máquina que você fala
[00:40:32] que você se refere, Orlando, me lembra
[00:40:35] aquela frase dos pilotos que estavam
[00:40:37] dropando, soltando
[00:40:39] a bomba em Hiroshima e quando eles viram
[00:40:41] cogumelo, assim, ou alguém viu de longe
[00:40:43] e falou, o que que a gente fez, what have we done
[00:40:45] sabe, então é
[00:40:46] assim como a física quântica
[00:40:49] a física nuclear, a física atômica
[00:40:50] foi hackeada, porque era uma coisa pra ser
[00:40:53] boa, foi hackeada pra produzir bomba atômica
[00:40:55] e matar um monte de gente
[00:40:57] de maneira fácil e rápida
[00:40:58] eu acho que foi
[00:41:00] esse mesmo hackeamento que aconteceu
[00:41:02] agora, só que num plano muito
[00:41:04] de controle de massa, muito mais
[00:41:07] eficaz e abrangente, porque
[00:41:08] ele realmente passa a controlar
[00:41:10] o seu cérebro, o nosso cérebro
[00:41:12] não tem como
[00:41:14] reagir a isso, a não ser
[00:41:16] você parando, se afastando e tentando
[00:41:18] tomar consciência, realmente se conscientizando
[00:41:20] você tem que sair, senão você não
[00:41:22] consegue, porque você não tem
[00:41:24] como controlar a sua produção hormonal
[00:41:27] sabe, de dopamina
[00:41:28] a sua euforia, você não
[00:41:30] consegue controlar sozinho, você fica preso
[00:41:32] é feito pra isso
[00:41:34] é realmente uma
[00:41:36] coisa assustadora e que
[00:41:38] a gente precisa conversar sempre muito sobre isso
[00:41:40] é isso que eu acho que é interessante
[00:41:42] eu vou começar
[00:41:44] nas minhas análises sobre isso, você vai falar sobre
[00:41:46] eu acho que o fundamental é produzir um descarrego
[00:41:48] mesmo dessa energia
[00:41:50] das redes sociais
[00:41:52] e por isso que eu acho que esse filme
[00:41:54] a rede social, a rede do ódio
[00:41:56] ele é perigoso
[00:41:58] nesse sentido, porque ele dá
[00:42:00] as pessoas uma falsa sensação
[00:42:02] de segurança, tal como é todo esse discurso
[00:42:05] contra o gabinete do ódio
[00:42:06] que tem que ser contra mesmo, não estou falando que tem que salvar a barra dos caras
[00:42:08] pelo contrário, mas assim
[00:42:10] a ideia é que eles não são a origem
[00:42:12] de todo mal, da mesma maneira como o
[00:42:14] Tomás do filme não é a origem de todo mal
[00:42:16] o problema é muito maior e anterior a isso
[00:42:19] por isso que a gente começou falando
[00:42:20] nesse episódio do Videodrome
[00:42:22] porque eu acho que uma das coisas que é interessante desse filme
[00:42:25] depois a gente vai falar melhor sobre ele
[00:42:27] em outros episódios, porque
[00:42:28] esse tema aqui das redes sociais vai ser recorrente
[00:42:30] nessa segunda temporada do Pop Cult
[00:42:32] porque uma das coisas que é
[00:42:35] interessante
[00:42:36] desse filme que vai mostrando, por exemplo
[00:42:38] é um grande ensaio, vamos colocar assim, sobre os efeitos
[00:42:40] da televisão, da grande
[00:42:43] indústria cultural da televisão
[00:42:44] sobre as subjetividades, inclusive
[00:42:46] o filme fala muito sobre os efeitos
[00:42:48] da exposição à imagem de violência e sexo
[00:42:50] o que o próprio The Hater
[00:42:52] tenta usar, mas larga
[00:42:54] também, porque o primeiro emprego
[00:42:56] do Tomás é como um desses moderadores
[00:42:58] de conteúdo do Facebook, que passam o dia
[00:43:00] vendo as piores imagens da face
[00:43:02] da terra e não
[00:43:04] recebe nenhum apoio psicológico e tal
[00:43:06] enfim, são tratados como
[00:43:07] funcionários descartáveis
[00:43:11] e aí o Videodrome
[00:43:12] também tem essa coisa do protagonista que
[00:43:14] adora
[00:43:15] o
[00:43:15] , coisas extremamente violentas
[00:43:17] conteúdo violento, não sei o que, que é o que leva ele
[00:43:20] a ser exposto ao titular
[00:43:21] Videodrome. É porque ele é um dono
[00:43:24] de uma, tem um momento que
[00:43:26] um personagem se refere como uma fossa
[00:43:28] ele é dono de uma emissora de
[00:43:30] TV especializada em produzir
[00:43:32] distribuir programas violentos e
[00:43:34] pornografia, e ele
[00:43:36] ele vai, tipo assim, consome
[00:43:38] o material, um vídeo
[00:43:39] supostamente pirata, que mostra
[00:43:41] imagens de uma pessoa sendo torturada, uma pessoa
[00:43:43] nua sendo torturada, e essa imagem,
[00:43:45] acaba alterando a percepção
[00:43:47] que ele tem da realidade, a exposição
[00:43:49] àquele vídeo. O ponto que eu acho
[00:43:51] que é interessante, depois no outro episódio a gente vai falar
[00:43:53] disso melhor, é como
[00:43:55] a exposição àquele
[00:43:57] vídeo, altera
[00:43:59] não apenas a percepção que aquele personagem
[00:44:01] tem do real
[00:44:03] mas ao próprio real, porque
[00:44:05] a própria carne dele
[00:44:07] é transformada, ele se torna uma espécie de
[00:44:09] ciborgue, tipo
[00:44:11] ele ganha uma, vai parecer estranho
[00:44:13] pra quem não viu o filme, mas é isso mesmo, ele ganha
[00:44:15] uma vagina no meio da barriga
[00:44:17] no qual ele esconde uma arma
[00:44:19] onde ele bota fitas de
[00:44:21] videotape e ele esconde uma arma
[00:44:23] então assim, que é uma metáfora bem interessante
[00:44:25] disso, né
[00:44:27] e assim, eu acho que
[00:44:29] ele se torna programável
[00:44:31] ele se torna uma consequência, ele se torna
[00:44:33] programável pelas fitas de videotape que ele
[00:44:35] recebe, ele começa a reagir
[00:44:37] e aí tem tudo a ver com essa questão das redes sociais
[00:44:39] que ele está lendo, que é o que o
[00:44:41] professor Brian O’Brien
[00:44:43] que eu já citei aqui, ele fala
[00:44:45] no filme, né, que o
[00:44:47] videodrome, que ele teve um câncer no cérebro
[00:44:49] por assistir o videodrome, aí ele fala
[00:44:51] assim, mas eu saquei que
[00:44:53] não era o meu tumor que estava causando
[00:44:55] as alucinações, as alucinações
[00:44:57] causaram o tumor
[00:44:59] né, então, no filme
[00:45:01] são aquelas imagens
[00:45:03] que causam esse câncer nas pessoas
[00:45:05] que são expostas, e esse câncer
[00:45:07] parte dele é isso, ele se tornar
[00:45:09] uma pessoa programável, que aí no caso
[00:45:11] ele é programado por dois lados
[00:45:13] antagônicos
[00:45:15] que querem que ele cause violência
[00:45:17] basicamente, e que aí tem tudo a ver
[00:45:19] com o que a gente vive hoje
[00:45:21] nas redes sociais e no
[00:45:23] mundo, e com o que o filme
[00:45:25] The Hater tenta abordar da maneira
[00:45:27] dele, né. É, porque a gente
[00:45:29] assim, quando você começa a tomar um
[00:45:31] remédio, e aquele remédio
[00:45:33] faz bem pra você de alguma maneira
[00:45:35] se alguém falar mal do remédio, você
[00:45:37] defende aquele remédio, você perde o amigo
[00:45:39] mas defende o remédio, as pessoas
[00:45:41] brigam se você falar mal de um rivotril, uma
[00:45:43] coisa assim com você, sabe, porque
[00:45:45] a medida que você consome
[00:45:47] muito uma coisa, ela passa a ser parte
[00:45:49] de você, e ela realmente altera você
[00:45:51] e você passa a defender aquilo
[00:45:53] como qualquer adição que você tem
[00:45:55] você meio que defende aquilo, porque aquilo
[00:45:57] já é você, já tem uma relação com você
[00:45:59] então a gente passa a defender as redes sociais
[00:46:01] e fica puto quando alguém ataca ou
[00:46:03] fala, porque a gente passa a
[00:46:05] se integrar naquele sistema sem perceber
[00:46:07] e continua na
[00:46:09] adição e no vício, porque esse vício
[00:46:11] cerebralmente falando
[00:46:13] ele é baseado num sistema aleatório de
[00:46:15] recompensa, porque não é
[00:46:17] um padrão que nem Pavloviano
[00:46:19] que você descobre qual é a frequência
[00:46:21] que você vai receber o alimento ou não, você não
[00:46:23] sabe que de repente 100 pessoas vão virar
[00:46:25] seus seguidores, e aí que você vai receber
[00:46:27] um like, então a gente fica na constante
[00:46:29] expectativa da reação a tudo
[00:46:31] que a gente fala ou faz, a gente publica
[00:46:33] e fica esperando a reação, a gente grava o vídeo
[00:46:35] e fica esperando pra ver o que as pessoas estão
[00:46:37] comentando, então a gente fica
[00:46:39] e aí tá fora do nosso
[00:46:41] domínio, porque é aleatório
[00:46:43] a forma como as pessoas vão responder
[00:46:45] e eu me vicio nessa recompensa
[00:46:47] de tudo que eu faço, do alcance
[00:46:49] que isso me dá, então tem gente
[00:46:51] que tem mil views, mas 500
[00:46:53] eram ela, vendo se tinha mais views
[00:46:55] sabe, ela vai lá de novo
[00:46:57] Mas é muito louco, porque é um meta
[00:46:59] consumo, né, porque
[00:47:01] inclusive isso tem a ver com
[00:47:03] uma coisa que você fala no livro
[00:47:05] que como eu li agora, o detalhe tá muito fresquinho na cabeça
[00:47:07] mas você fala daquela coisa
[00:47:09] tem o capítulo que você pede pro leitor
[00:47:11] se definir, e aí você fala como
[00:47:13] a gente se define pelas coisas
[00:47:15] que a gente tem, pelas coisas, né, o que que a gente
[00:47:17] faz, né, e tudo mais
[00:47:19] e aí eu, na hora que eu li isso
[00:47:21] eu me lembrei de como era
[00:47:23] como você montava seu perfil no Facebook
[00:47:25] no começo, nas suas redes sociais, que é
[00:47:27] ah, bota os livros que você tá lendo, aí vai lá
[00:47:29] dá like nas marcas que você gosta
[00:47:31] que até hoje tem isso, né, dá like na marca
[00:47:33] segue a marca, e aí
[00:47:35] não só elas viram
[00:47:37] uma grande ficha que registra
[00:47:39] e resume você a isso
[00:47:41] como você se define também
[00:47:43] pelas redes sociais que você consome
[00:47:45] é, porque você acha
[00:47:47] que aquilo é só mais um produto também
[00:47:49] que compõe a sua existência, a sua personalidade
[00:47:51] então, você tem a pessoa que é super
[00:47:53] definida pelo fato de que ela precisa tirar uma foto pra botar no Instagram
[00:47:55] a outra que, ah, eu vou postar
[00:47:57] um texto sobre isso no Facebook
[00:47:59] ah, eu vou twittar sobre isso
[00:48:01] e aí a
[00:48:03] reação é essa mesma que você falou, assim
[00:48:05] de que vira parte da sua personalidade
[00:48:07] então se alguém falar mal daquilo, ela tá falando mal de você
[00:48:09] é
[00:48:11] e graças a Deus a gente não sofre disso, porque a gente gosta
[00:48:13] de Twitter, e a atividade principal
[00:48:15] do twitteiro é falar mal do Twitter
[00:48:17] é, então, a gente já tá vacinado
[00:48:19] a nossa vacina russa
[00:48:21] já chegou
[00:48:23] a gente já
[00:48:25] a gente acha que funciona
[00:48:27] mas na verdade não funciona, a gente tem um vício
[00:48:29] de falar mal do Twitter, né cara
[00:48:31] eu sei que não funciona, porque eu já vivi
[00:48:33] essa relação antes, porque eu moro em São Paulo
[00:48:35] e morar em São Paulo é constantemente
[00:48:37] falar mal de São Paulo, mas não
[00:48:39] querer sair daqui
[00:48:41] só falar um Twitter da vida real, né
[00:48:43] com certeza
[00:48:45] inclusive aqui em São Paulo, as pessoas
[00:48:47] elas estão twittando na vida real
[00:48:49] porque assim, acontece muito, outro dia
[00:48:51] eu tava correndo
[00:48:53] em volta da praça, eu passei e o cara falou
[00:48:55] assim, não, você tá correndo errado, que você tem que fazer isso
[00:48:57] ele twittou em mim
[00:48:59] e foi embora, ele deu uma twittada e foi embora
[00:49:01] foi twitt mesmo
[00:49:03] caralho, você sofreu um twitt na vida real
[00:49:05] exato, vários, tem várias pessoas
[00:49:07] e as pessoas twittam em mim
[00:49:09] é muito louco
[00:49:11] cara, mas isso é uma coisa que a gente tá
[00:49:13] brincando, mas vou voltar pra coisa do Videodrome
[00:49:15] porque
[00:49:17] eu tenho visto isso, inclusive
[00:49:19] como
[00:49:21] boa parte da minha pesquisa não é apenas
[00:49:23] sobre a rede social em si, mas sobre aquilo
[00:49:25] sobre os sujeitos que ela produz
[00:49:27] hoje em dia, você tem pessoas que estão
[00:49:29] reduzidas a uma certa idiotia
[00:49:31] típica das reduções
[00:49:33] das redes sociais, porque na rede social
[00:49:35] você é uma redução de si mesmo, você é apenas um
[00:49:37] aspecto da sua existência, tipo
[00:49:39] você pode ser a pessoa, se você tiver o mínimo
[00:49:41] de investimento, você pode parecer a pessoa mais cool
[00:49:43] do mundo, ou a pessoa mais
[00:49:45] deprimida do mundo, basicamente
[00:49:47] é um pequeno recorte da sua existência
[00:49:49] o que tá acontecendo agora
[00:49:51] e eu tenho visto isso se replicando fora
[00:49:53] das redes sociais, as pessoas estão se tornando
[00:49:55] esse tipo de pastiche
[00:49:57] as pessoas são assim, eu sou isso
[00:49:59] a pessoa tenta readequar
[00:50:01] uma existência fora das redes
[00:50:03] que é uma existência cheia de contrastes
[00:50:05] que é muito maior
[00:50:07] do que o algoritmo consegue comportar
[00:50:09] ela começa a se…
[00:50:11] conformar
[00:50:13] com um tipo de comportamento padronizado
[00:50:15] pela rede social, e mais uma vez
[00:50:17] esse tipo de existência
[00:50:19] é uma coisa que já foi detectado lá
[00:50:21] atrás, com o papel
[00:50:23] a influência da televisão
[00:50:25] quando a televisão se torna um dispositivo de
[00:50:27] comunicação de massa, você já
[00:50:29] tinha visto isso com o rádio
[00:50:31] uma coisa que eu sempre falo, cara
[00:50:33] pra falar da história do fascismo no mundo
[00:50:35] você não pode perder de vista o papel do rádio
[00:50:37] da tecnologia
[00:50:39] a mesma coisa com a televisão
[00:50:41] não tem como você pensar
[00:50:43] a difusão do pensamento
[00:50:45] neoliberal
[00:50:47] sem pensar da máquina televisiva
[00:50:49] de como ela dispersa e homogeniza
[00:50:51] essa história
[00:50:53] a internet está fazendo isso
[00:50:55] a internet está homogenizando
[00:50:57] as pessoas, a nossa existência
[00:50:59] pra que ela se conforme
[00:51:01] com um tipo de comportamento
[00:51:03] que é previsto nas redes
[00:51:05] ou seja, você se comporta como se se comporta
[00:51:07] nas redes, você se comporta fora das redes
[00:51:09] o twitter diz que tem que ser
[00:51:11] eu falo assim, cara
[00:51:13] você quer ver um exemplo disso?
[00:51:15] como as pessoas estão escrevendo na vida real
[00:51:17] eu dava aula na PUC aqui no Rio
[00:51:19] eu via meus alunos
[00:51:21] que são tudo nessa faixa de idade, 20 anos
[00:51:23] pessoas que foram criadas, nasceram já
[00:51:25] com a internet bombando
[00:51:27] as pessoas escrevem como escrevem no twitter
[00:51:29] é muito doido, é frase curta
[00:51:31] as pessoas querem viver
[00:51:33] uma vida instagramável
[00:51:35] elas não se vestem
[00:51:37] elas põem o look do dia
[00:51:39] sabe assim
[00:51:41] porque já é em função
[00:51:43] disso né
[00:51:45] eu lembro há muitos anos eu estava
[00:51:47] explicando pra uma criança
[00:51:49] de 6 anos
[00:51:51] sobre a massificação
[00:51:53] aquela que quer explicar pro menino de 6 anos
[00:51:55] sobre a massificação da comunicação
[00:51:57] mas eu estava num prédio
[00:51:59] sei lá se era em Santos
[00:52:01] na hora da novela, novela das 8
[00:52:03] que todo mundo vê
[00:52:05] aí eu parei na janela e falei pra ele assim
[00:52:07] dá uma olhada nas janelas
[00:52:09] vamos ligar aqui na novela
[00:52:11] olha como pisca azul
[00:52:13] depois pisca tudo amarelo
[00:52:15] cada vez que corta a cena aqui e muda a luz
[00:52:17] todas as janelas também mudam
[00:52:19] onde tem televisão
[00:52:21] então você vê que tá todo mundo assistindo a mesma coisa
[00:52:23] aí eu falei, olha como é diferente na natureza
[00:52:25] quando você vai comprar um
[00:52:27] bombom, você fala
[00:52:29] me dá um sonho de valsa, porque são todos iguais
[00:52:31] você não escolhe
[00:52:33] quando você vai na feira, você escolhe a batata
[00:52:35] você escolhe a maçã
[00:52:37] você escolhe a cenoura
[00:52:39] você escolhe a natureza
[00:52:41] cada um é um indivíduo
[00:52:43] então você escolhe
[00:52:45] você faz a opção de escolher
[00:52:47] e na industrialização não tem
[00:52:49] ah não, não quero esse bis
[00:52:51] eu queria aquela caixinha da esquerda
[00:52:53] a coxinha você pede assim
[00:52:55] aquela mais no fundinho, essa mais gordinha
[00:52:57] porque é artesanal
[00:52:59] então a gente perdeu a dimensão artesanal
[00:53:01] as mulheres, os homens
[00:53:03] eles viraram templates
[00:53:05] tem umas artistas que eu não sei quem é quem
[00:53:07] que todas tem o mesmo nariz
[00:53:09] entende?
[00:53:11] esse processo
[00:53:13] de industrialização
[00:53:15] das pessoas através de modelos
[00:53:17] elas estão virando templates
[00:53:19] é meio assustador isso
[00:53:21] porque é forma e conteúdo
[00:53:23] e comportamento sendo realmente
[00:53:25] padronizado
[00:53:27] é uma revolução industrial
[00:53:29] humana
[00:53:31] o produto é você
[00:53:33] Rosana, isso é perfeito porque assim
[00:53:35] hoje eu estou citando
[00:53:37] referências acadêmicas por algum motivo
[00:53:39] mas assim
[00:53:41] só porque tem outra pessoa com diploma aqui
[00:53:43] aí você está querendo se mostrar
[00:53:45] eu também sou inteligente
[00:53:47] exato, eu estudei
[00:53:49] mas assim
[00:53:51] eu trabalhei muito com a filosofia
[00:53:53] com uma espécie que eu vou chamar de antropologia reversa
[00:53:55] dos aikewara, que é essa população tupi-warani
[00:53:57] do sudeste do Pará
[00:53:59] e quando eu falo de antropologia reversa
[00:54:01] é sobretudo
[00:54:03] foi uma investigação sobre como eles enxergam
[00:54:05] os brancos, os não indígenas
[00:54:07] e uma coisa que era impressionante
[00:54:09] como eles subvertem totalmente
[00:54:11] a fórmula que nós temos
[00:54:13] que nossa imaginação ocidentalizada
[00:54:15] tem sobre as populações
[00:54:17] indígenas do mundo
[00:54:19] basicamente a gente tende a imaginar
[00:54:21] que os povos indígenas são
[00:54:23] uniformizados, do tipo assim
[00:54:25] todo mundo ali é muito parecido
[00:54:27] e nós somos uma sociedade de indivíduos
[00:54:29] e eles me diziam que era
[00:54:31] geralmente o oposto, porque lá é uma sociedade
[00:54:33] como você não tem uma massificação
[00:54:35] você não tem digamos um regime
[00:54:37] que determina como as pessoas devem ser
[00:54:39] enfim, eles são sempre
[00:54:41] fazendo as coisas em horários diferentes
[00:54:43] eles estão sempre inventando uma forma de existir
[00:54:45] muito individualizada
[00:54:47] quando eles olham pra nossa sociedade
[00:54:49] eles enxergam pessoas fazendo
[00:54:51] as mesmas coisas ao mesmo tempo
[00:54:53] eu lembro que uma vez eu tive que explicar
[00:54:55] tava eu e um já falecido
[00:54:57] chamam aikewara, a gente tava passando pro marabá
[00:54:59] ele tava fazendo tratamento médico
[00:55:01] e aí ele passou na frente de um ponto de ônibus
[00:55:03] 5 horas da manhã, um ponto de ônibus e marabá lotado
[00:55:05] ele olhou pra aquilo ali e falou assim
[00:55:07] ele olhou pra aquilo com um olhar de desgosto
[00:55:09] ele falou assim, cara, vocês são tudo igual a anta
[00:55:11] aí eu falei, pô, como assim tudo igual a anta
[00:55:13] ele falou, porque anta
[00:55:15] que eles chamam de tapirirapé, o caminho da anta
[00:55:17] porque anta é chamado de um bicho burro
[00:55:19] porque anta vai e volta sempre
[00:55:21] pelo mesmo caminho, por isso que ela é muito fácil de ser abatida
[00:55:23] se você ver um rastro de anta, é só ficar esperando
[00:55:25] que uma hora ela vai passar por ali de novo
[00:55:27] a anta sempre repetindo o mesmo caminho
[00:55:29] cara, os brancos, os não indígenas
[00:55:31] eles estão sempre repetindo as mesmas coisas
[00:55:33] cara, vocês almoçam junto, vocês vão pro banheiro junto
[00:55:35] vocês assistem as mesmas coisas, vocês usam as mesmas coisas
[00:55:37] vocês usam as mesmas roupas, vocês falam do mesmo jeito
[00:55:39] saca, tipo assim, e aí quando você vai olhar pra
[00:55:41] nossa vida cidadina, é exatamente isso
[00:55:43] a gente tá sempre fazendo as mesmas coisas, a gente tem horário pra comer
[00:55:45] horário pra dormir, horário pra se divertir
[00:55:47] sabe, enquanto as outras
[00:55:49] formas de vida que não estão afetadas
[00:55:51] por esse tipo de, digamos, massificação
[00:55:53] inventam livremente a sua forma de existir
[00:55:55] e a gente, e aí a gente
[00:55:57] tal como uma
[00:55:59] aí tu vê né, tal como
[00:56:01] uma espécie de efeito compensatório
[00:56:03] a gente tem que ficar repetindo pra nós mesmos
[00:56:05] que nós somos únicos, diferentes
[00:56:07] que nós somos indivíduos e sei lá o quê, enquanto na verdade
[00:56:09] nós estamos repetindo padrões
[00:56:11] pré-determinados por uma escala industrial
[00:56:13] tanto é que na pandemia
[00:56:15] virou assunto as pessoas falando assim
[00:56:17] gente, acordei a hora que
[00:56:19] o sono acabou, aí fui ver, era uma da tarde
[00:56:21] nossa, isso nunca me aconteceu
[00:56:23] sabe, assim
[00:56:25] ou as vezes a
[00:56:27] olha, desculpa, ainda são 11 horas
[00:56:29] mas eu vou almoçar porque eu tô com fome
[00:56:31] sabe, assim, quase que pedindo licença
[00:56:33] social, né
[00:56:35] de tá almoçando antes do meio dia, como assim
[00:56:37] sabe, não é hora do almoço
[00:56:39] então a gente começou
[00:56:41] eu falei, porque a gente entrou num estado
[00:56:43] coletivo de hibernação
[00:56:45] sim
[00:56:47] e hibernar
[00:56:49] é do animal, então as pessoas
[00:56:51] pela primeira vez, assim
[00:56:53] acho que elas estão surpresas
[00:56:55] de perceber a sua, nem sei se é essa
[00:56:57] palavra, animalidade
[00:56:59] né, sim
[00:57:01] mas ao mesmo tempo todo mundo
[00:57:03] conseguiu ser influenciado a fazer pão, né
[00:57:05] eu não, eu não
[00:57:07] eu sou um indivíduo, eu sou um indivíduo
[00:57:09] eu já, eu já
[00:57:11] desculpa, eu sou
[00:57:13] indivíduo, mas eu sou hipster, então eu já fazia
[00:57:15] pão antes da pandemia
[00:57:17] antes de ter modinha
[00:57:19] antes da pandemia
[00:57:21] eu fiz
[00:57:23] um freelancer
[00:57:25] que envolvia pão, então eu fiz
[00:57:27] um trabalho
[00:57:29] que discutiu isso aí também, essa coisa de
[00:57:31] você monetizou o pão?
[00:57:33] foi, foi a única coisa que eu consegui fazer
[00:57:35] foi monetizar
[00:57:37] só esse pão, o resto
[00:57:39] não tá dando mais pra monetizar nada
[00:57:41] não, mas
[00:57:43] a esperança é monetizar o podcast
[00:57:45] olha, vamos monetizando aqui
[00:57:47] tendo vela aqui no pé da porta e tudo
[00:57:51] mas agora eu fiquei com muita vontade
[00:57:53] esse papo que a gente começou aqui
[00:57:55] por causa do Videodrome e tal, e nós vamos
[00:57:57] voltar nele em outro episódio
[00:57:59] que é juntar isso com
[00:58:01] dois filmes
[00:58:03] o Vidiotta, né, com
[00:58:05] o Peter Sellers
[00:58:07] e o Pentelho
[00:58:09] com o Jim Carrey
[00:58:11] que são dois filmes
[00:58:13] sobre pessoas que
[00:58:15] tentam emular
[00:58:17] um ser humano real através do que eles veem na TV
[00:58:19] é
[00:58:21] muito além do Jardins, né
[00:58:23] é, é muito além do Jardins
[00:58:25] o Vidiotta é o livro aqui no Brasil
[00:58:27] é o Being There, que é o livro e o filme
[00:58:29] em inglês é o Being There
[00:58:31] que aliás foi um dos maiores
[00:58:33] choques, porque eu trabalhei minha vida inteira em televisão
[00:58:35] então eu conheço
[00:58:37] como é que são as pessoas, os templates
[00:58:39] dessas pessoas de televisão
[00:58:41] e quando surgiu a internet em 1995
[00:58:43] aqui no Brasil
[00:58:45] e depois a onda de vídeos
[00:58:47] como as pessoas só tinham assistido
[00:58:49] televisão como referência
[00:58:51] elas passaram a fazer televisão no Youtube
[00:58:53] então as pessoas começam assim
[00:58:55] oi gente, tudo bem galera?
[00:58:57] aí tem seguimores, videomores
[00:58:59] foda, sei lá
[00:59:01] então tem
[00:59:03] assim, então
[00:59:05] tem a coisa de sabe
[00:59:07] ai gente, olha, estou muito feliz de estar aqui com vocês
[00:59:09] e tal, tipo
[00:59:11] um papo de apresentadora de programa
[00:59:13] vespertino feminino
[00:59:15] sabe, uma bondagem
[00:59:17] uma reprodução
[00:59:19] assim, é muito louco, porque assim
[00:59:21] são poucas as pessoas que criaram
[00:59:23] coisas novas
[00:59:25] e linguagens novas da plataforma
[00:59:27] descobriram linguagens
[00:59:29] porque elas ficam emulando
[00:59:31] as meninas da TV, parecem as apresentadoras
[00:59:33] que faziam merchandising
[00:59:35] nos anos 60, sabe
[00:59:37] o mais louco para mim
[00:59:39] é que todo mundo
[00:59:41] muitas dessas pessoas no Youtube
[00:59:43] falam gritando
[00:59:45] porque elas estão falando pessoas que estavam falando para um auditório
[00:59:47] com mil pessoas
[00:59:49] e elas estão sozinhas no quarto
[00:59:51] só que elas ainda gritam
[00:59:53] e é muito artificial
[00:59:55] porque a referência que elas tem
[00:59:57] na cabeça delas
[00:59:59] são essas pessoas que elas viram na televisão
[01:00:01] então elas
[01:00:03] pensam, não é nem racional
[01:00:05] instintivamente elas emulam
[01:00:07] e isso eu acho uma coisa muito incrível
[01:00:09] inclusive, por exemplo, eu lembro no começo
[01:00:11] quando eu dava aula de roteiro na FAAP
[01:00:13] aqueles alunos todos super ricos
[01:00:15] que já tinham todas as referências do mundo
[01:00:17] de séries, viajavam e assistiam as coisas
[01:00:19] logo no começo da internet
[01:00:21] eu lembro que um dia eu perguntei assim
[01:00:23] a internet é praticamente infinita
[01:00:25] você pode aprender aramaico
[01:00:27] pode fazer qualquer coisa
[01:00:29] quantos lugares vocês vão na internet
[01:00:31] as pessoas vão em 4 ou 5 lugares
[01:00:33] no máximo
[01:00:35] usam os mesmos aplicativos
[01:00:37] é o caminho da ANTA
[01:00:39] então é fácil você bater
[01:00:41] porque ela abre o twitter, depois ela vai para o instagram
[01:00:43] vê uns stories
[01:00:45] aí ela vê no whatsapp
[01:00:47] e ela volta e vê uma notícia
[01:00:49] são as mesmas coisas
[01:00:51] você tem um infinito de possibilidades de aprender
[01:00:53] que o Orlando usou para estudar
[01:00:55] por exemplo
[01:00:57] para buscar referências
[01:00:59] os mesmos lugares
[01:01:01] então para ela tudo bem se a internet é o facebook
[01:01:03] ela não vai sair dali mesmo
[01:01:05] o facebook se vale dessa
[01:01:07] vontade que a gente tem
[01:01:09] de ter conveniência
[01:01:11] que também está por trás
[01:01:13] de todos esses apps
[01:01:15] que precarizam o trabalho
[01:01:17] o uber, o rap, o ifood
[01:01:19] essas coisas
[01:01:21] é isso, eles se valem
[01:01:23] como você falou
[01:01:25] de uma vulnerabilidade para hackear a gente
[01:01:27] é claro que você é contra
[01:01:29] a exploração do trabalhador
[01:01:31] do rap
[01:01:33] você queria ter aquela comida dentro da sua casa
[01:01:35] e aí o que você vai fazer
[01:01:37] é a mesma coisa na internet
[01:01:39] algumas pessoas
[01:01:41] iam a muitos lugares
[01:01:43] desbravando a internet com um facão na mão
[01:01:45] tal qual o Orlando
[01:01:47] tal qual eu fiz também
[01:01:49] na minha época
[01:01:51] mas que é isso
[01:01:53] a maioria das pessoas era isso
[01:01:55] eu ficava confortável no seu canto
[01:01:57] conhecia 3, 4 sites
[01:01:59] lia as notícias lá
[01:02:01] ia no chat do wall e acabou
[01:02:03] o facebook tem uma facilidade muito grande
[01:02:05] de estabelecer como o único website
[01:02:07] ele é desenhado
[01:02:09] mesmo para isso
[01:02:11] antes quando você
[01:02:13] investiu um tempo em que
[01:02:15] muitas pessoas não vão lembrar
[01:02:17] talvez você tenha nascido já nessa época
[01:02:19] que o google não era nada
[01:02:21] o google não existia
[01:02:23] eu fiz muita pesquisa antes do google existir
[01:02:25] porque assim
[01:02:27] pesquisar na internet era muito difícil
[01:02:29] mesmo quando você tinha aqueles alta vista
[01:02:31] o kd enfim
[01:02:33] não eram tão eficazes
[01:02:35] para você achar as coisas
[01:02:37] eles não indexavam tudo
[01:02:39] isso não
[01:02:41] contar com lista de e-mail
[01:02:43] e quando você
[01:02:45] perdia um site
[01:02:47] você esqueceu de salvar no seu favorito
[01:02:49] esqueceu de anotar
[01:02:51] cara tinha um site
[01:02:53] eu vi um site ontem
[01:02:55] os caras tinham isso
[01:02:57] eu fiquei de ler um outro negócio que tinha lá e qual era o nome
[01:02:59] porque a gente desbravava
[01:03:01] a gente minerava as coisas
[01:03:03] a gente ia lá com sabe
[01:03:05] e ficava minerando
[01:03:07] procurando um cristal ali um diamante
[01:03:09] era descentralizado
[01:03:11] na peneira exatamente
[01:03:13] então cada um fazia então por exemplo eu
[01:03:15] continuo nessa vibe foda-se
[01:03:17] então eu fico me perguntando será que existe
[01:03:19] então outro dia eu falei assim
[01:03:21] cara eu nem sabia
[01:03:23] tem até um nome para isso mas eu desconhecia
[01:03:25] eu falei será que eu consigo em vez de fazer uma live só no instagram
[01:03:27] no twitter assim no periscope
[01:03:29] em todos os lugares ao mesmo tempo
[01:03:31] aí a primeira coisa idiota foi
[01:03:33] ah mas eu tiver três celulares e puser um do lado do outro
[01:03:35] e ficar falando ao mesmo tempo
[01:03:37] eu falei cara mas tem que ter uma plataforma para isso
[01:03:39] aí eu baixei um programa
[01:03:41] aí conheci o outro que distribui
[01:03:43] e aprendi a fazer
[01:03:45] agora eu falo num lugar e saio em todos os lugares
[01:03:47] mas assim as pessoas não se perguntam
[01:03:49] elas não tem o hábito a curiosidade
[01:03:51] elas querem a coisa pronta
[01:03:53] elas querem apertar o botão
[01:03:55] eu falei pra mim e é por isso que hackei o cérebro
[01:03:57] ele vivia
[01:03:59] que nem vivia o stephen hawkins
[01:04:01] parado sentado com um dedo mexendo
[01:04:03] e tudo acontecia sabe
[01:04:05] o cérebro quer a imobilidade
[01:04:07] o cérebro quer
[01:04:09] ele quer ele
[01:04:11] tipo fazer tudo
[01:04:13] exatamente ele não quer que você faça nada
[01:04:15] por isso que a gente
[01:04:17] a gente gosta de
[01:04:19] a gente enquanto a humanidade
[01:04:21] por favor gosta de drogas
[01:04:23] porque várias delas são exatamente para isso
[01:04:25] é assim
[01:04:27] você faz um negócio
[01:04:29] e você fica imerso na experiência do seu cérebro
[01:04:31] mas assim
[01:04:33] todas as civilizações
[01:04:35] uma vez eu fui fazer também um trabalho
[01:04:37] que era quando o cigarro ficou dark
[01:04:39] a publicidade foi proibida
[01:04:41] e assim todas as civilizações humanas
[01:04:43] as tribos
[01:04:45] o orlando deve saber melhor
[01:04:47] mas todo mundo sempre teve seus pajés
[01:04:49] seus sábios
[01:04:51] a sua comunidade de anciãos
[01:04:53] e que usavam alguma coisa
[01:04:55] de alteração de consciência
[01:04:58] seja, sabe, cogumelo
[01:05:00] seja fumar uma folha
[01:05:02] ou o que for, pra você alterar a consciência
[01:05:04] e tomar decisões em conjunto
[01:05:06] sobre aquela comunidade
[01:05:07] entende? Então assim, era pra
[01:05:10] deliberar coisas importantes
[01:05:12] assim, que se alterava a consciência
[01:05:14] então ainda, isso ainda
[01:05:15] existe, só que isso sempre foi feito
[01:05:18] de uma maneira, de um passar
[01:05:20] pro outro, era uma coisa conjunta
[01:05:22] não individual, sabe
[01:05:23] a pessoa sozinha em casa
[01:05:25] que se droga e se embebeda, é triste
[01:05:28] entendeu?
[01:05:29] Eu ia falar que isso é a própria
[01:05:32] origem da
[01:05:33] da ideia de civilização, da sociedade
[01:05:36] é, as pessoas se juntaram
[01:05:38] pra ficar doida
[01:05:40] saca, eu tô falando assim
[01:05:42] com a propriedade de um ploma
[01:05:44] olha só, então, pode anotar aí
[01:05:47] as pessoas se juntaram pra ficar doidas
[01:05:48] e ficar doida no sentido
[01:05:50] até porque faz parte do ato
[01:05:52] de pensar, né, a própria, sei lá, você vai pegar
[01:05:54] a filosofia grega
[01:05:56] tem toda uma discussão fundamental
[01:05:58] que é o momento em que eles
[01:06:01] se distanciam desse ato
[01:06:03] de alteração da consciência, né
[01:06:04] porque aí começa toda uma obsessão
[01:06:06] que ferra o pensamento ocidental, que é a obsessão
[01:06:08] com a ideia de verdade, enfim
[01:06:10] e aí começa um outro problema
[01:06:12] na nossa civilização, que é o momento que a gente fala assim
[01:06:14] cara, estados alterados da mente são
[01:06:16] problemáticos, quando outras filosofias
[01:06:19] outras tradições filosóficas, ameríndia
[01:06:21] mas não apenas, por exemplo, as tradições
[01:06:22] filosóficas de matriz africana
[01:06:24] a alteração da mente
[01:06:27] e do corpo são elementos fundamentais
[01:06:29] do pensar e coexistir
[01:06:31] e coexistir, por isso que
[01:06:33] na nossa sociedade, o ato de
[01:06:35] consumir entorpecentes, ele vai se tornar
[01:06:37] um mero entretenimento
[01:06:39] e individualista
[01:06:40] por isso que você vai acabar como
[01:06:43] sujeito alcoólatra, adicto
[01:06:45] em casa, deprimido, sei lá o que
[01:06:47] porque é justamente isso
[01:06:49] a sociedade vai pegar isso que era algo
[01:06:50] que era usado, que é usado
[01:06:52] pra pensar
[01:06:54] e falar assim, não, vamos transformar isso aqui em puro entretenimento
[01:06:57] pras pessoas, em tipo de consumo
[01:06:59] então, você assim
[01:07:01] antigamente, eu achava legal, achei
[01:07:03] maravilhosa essa frase, que era tipo
[01:07:04] vou fumar sobre isso, sabe
[01:07:06] quando você tinha uma coisa pra pensar
[01:07:08] pra deliberar, as pessoas se juntavam
[01:07:10] pra vamos fumar sobre esse assunto, sabe
[01:07:12] era pra atingir
[01:07:15] uma compreensão
[01:07:17] num estado
[01:07:18] não mundano, digamos
[01:07:21] assim
[01:07:22] você se juntar com seus amigos pra beber
[01:07:25] né, é isso também
[01:07:27] é isso
[01:07:28] só pra completar, acho que
[01:07:30] ajuda a gente a fechar esse episódio
[01:07:32] porque assim, isso é uma
[01:07:34] essa experiência de fumar sobre isso
[01:07:37] a ideia do bar
[01:07:39] que eu acho que é uma ideia, por isso que é muito
[01:07:41] fundamental pra algum movimento de resistência
[01:07:43] tipo samba, por exemplo
[01:07:44] ela se opõe radicalmente
[01:07:47] à própria experiência da internet
[01:07:49] que é o ápice dessa experiência neoliberal
[01:07:50] que a gente tá vendo hoje, né
[01:07:52] que, quantas vezes a gente vê assim
[01:07:54] cara, essa briga não aconteceria se essas duas pessoas
[01:07:56] estivessem num bar, saca
[01:07:58] exatamente, numa roda de samba
[01:08:00] é isso, não, porque a experiência
[01:08:03] da internet é justamente uma experiência
[01:08:04] onde qualquer alteração mental
[01:08:07] só se dá num estado
[01:08:09] de entretenimento, onde
[01:08:10] toda a matriz da própria socialidade
[01:08:12] humana é reduzida a uma disputa
[01:08:14] por isso que as pessoas estão sempre brigando na internet
[01:08:16] não tem troca mais, as pessoas estão sempre disputando
[01:08:19] uma com as outras, entendeu
[01:08:20] e isso, a própria arquitetura
[01:08:22] inicia, né, ela favorece esse tipo de situação
[01:08:24] que é o contrato da própria especialidade
[01:08:27] mas Orlando, porque Orlando
[01:08:29] porque
[01:08:29] a internet
[01:08:32] as redes e tudo mais
[01:08:34] é construído num mundo binário
[01:08:37] exato
[01:08:37] toda transição de dados é de zeros e um
[01:08:40] ele é binário, e isso veio
[01:08:42] com a física dos
[01:08:44] semicondutores, quando você
[01:08:46] passou a ter só um circuito
[01:08:48] que abre ou fecha, zero ou um, é isso
[01:08:50] o circuito abre, o circuito fecha, a corrente
[01:08:52] passa, a corrente elétrica não passa
[01:08:54] é só isso, duas possibilidades
[01:08:56] então, a gente fala que tem um mundo polarizado
[01:08:59] é lógico, só tem duas possibilidades
[01:09:00] é zero ou um, então
[01:09:02] ou você é boi garantido ou caprichoso
[01:09:04] ou você é direita ou você é esquerda
[01:09:06] você entende? Então, a gente
[01:09:08] reconstruiu uma civilização
[01:09:11] que não tá dando muito certo, como a gente
[01:09:12] tá vendo, em cima
[01:09:14] dessa binariedade
[01:09:16] e quando a gente vê qualquer coisa que não é binária
[01:09:19] tipo esse vírus, porque cara
[01:09:20] ele tem um puta efeito diferente em
[01:09:22] cada um, não tem sintoma
[01:09:24] tudo igual, é uma puta zona
[01:09:26] se fosse binária a gente sabia fazer a vacina
[01:09:28] tava facinho, a realidade
[01:09:30] a natureza não é binária
[01:09:33] entende?
[01:09:34] não é binária, não é eletrônica
[01:09:36] não é iluminada
[01:09:38] não transita nessa velocidade
[01:09:40] e não é
[01:09:42] individual, então
[01:09:44] isso aqui não
[01:09:46] é a vida, sabe?
[01:09:48] exato, exato, exato
[01:09:50] o gás morreu?
[01:09:52] não, eu tô aqui aprendendo
[01:09:54] gente, foi um papo maravilhoso
[01:09:58] nossa, sim
[01:09:59] a gente mal entrou no Videodrome porque
[01:10:01] a gente ficou aqui sendo hater do hater
[01:10:03] que significa que a gente
[01:10:07] é lover
[01:10:08] porque menos com menos dá mais
[01:10:10] então a gente não gosta de ódio, a gente gosta de amor
[01:10:12] então é isso
[01:10:14] adorei, achei que foi
[01:10:16] uma ótima conversa, espero que os ouvintes tenham gostado também
[01:10:18] Rosana, esse é o momento
[01:10:20] essa é aquela hora que todo convidado do podcast
[01:10:22] espera, que é o
[01:10:23] faça o seu jabá
[01:10:25] opa, um jabá
[01:10:27] meu jabá, eu tenho um livro
[01:10:30] que é o mais recente, chama Celular Docilar
[01:10:32] me fala de como a gente se viciou
[01:10:34] no celular, fala como surgiu
[01:10:36] o telefone, tem coisas incríveis
[01:10:38] de saber que Dom Pedro era um geek
[01:10:39] sabe, que foi o cara que introduziu o telefone
[01:10:42] você diria que ele é o candidato Jique?
[01:10:44] é, Jique
[01:10:45] e o outro jabá
[01:10:48] é que eu tô preparando agora
[01:10:50] escrevi a biografia da Cláudia Raio
[01:10:52] que vai sair em novembro
[01:10:53] e eu entrei no andar sete e meio
[01:10:55] e virei Cláudia Raio, a bi em Cláudia Raio
[01:10:58] e escrevi em primeira pessoa
[01:11:00] foi muito divertido
[01:11:01] e eu tô preparando, eu vou fazer um curso
[01:11:04] de roteiro, texto
[01:11:06] criatividade básica pra
[01:11:07] estruturar coisas escritas
[01:11:10] então esse era o meu grande jabazão
[01:11:12] que maravilha, e eu adorei
[01:11:14] que você, assim, eu vou te falar que você
[01:11:16] andou num campo minado perigoso
[01:11:18] aqui com o Orlando, que ele odeia
[01:11:21] o
[01:11:21] o Kaufman lá, o roteirista
[01:11:24] desse filme, menos
[01:11:26] esse filme, ele odeia todos os outros filmes
[01:11:28] do Kaufman
[01:11:29] mas o Bean, John Malkovich, ele gosta
[01:11:32] então você fez a referência certíssima
[01:11:34] tem macaco
[01:11:36] mas é muito interessante
[01:11:40] porque você
[01:11:41] eu já escrevi muito pra apresentador de televisão
[01:11:44] então eu tenho essa coisa do livro
[01:11:46] do Vargas Viliosa
[01:11:47] do Pedro Camacho, que vai pondo as perucas
[01:11:50] e vai vivendo a vida
[01:11:51] dos personagens, né
[01:11:53] e ele vai enlouquecendo com isso
[01:11:54] mas assim, você escrever
[01:11:57] em primeira pessoa
[01:11:59] uma biografia, você pegar o jeito
[01:12:01] a voz, o vocabulário da pessoa
[01:12:03] é muito louco, porque eu achei
[01:12:05] a portinha pra escorregar
[01:12:07] e entrar
[01:12:09] dentro da outra pessoa
[01:12:10] é bem diferente de fazer
[01:12:13] é um trabalho bem diferente, eu achei
[01:12:14] é muito satisfatório quando você escreve
[01:12:17] algo que tem que ser na voz de outra pessoa
[01:12:19] e aquela pessoa olha e fala assim, caralho, sou eu
[01:12:21] é, ela falou
[01:12:23] meu, mas é como se tivesse escrito aí
[01:12:25] eu mandei pros meus filhos lerem uma parte
[01:12:27] do manuscrito, a primeira versão
[01:12:28] falou, mãe, a gente sabe que é você
[01:12:31] que tá escrevendo, mas parece a Claudia Raia
[01:12:33] falando, eu falei, é isso
[01:12:35] sim, é muito bom a gente chegar
[01:12:37] nesse lugar, assim, conseguir
[01:12:38] baixar o santo da pessoa
[01:12:41] é, exatamente, servir de cavalo
[01:12:43] sabe, assim, então
[01:12:44] eu fui cavalgada por Claudia Raia
[01:12:47] nossa
[01:12:48] eu vou botar essas aspas pra divulgar
[01:12:51] meu Deus do céu, todo mundo vai clicar
[01:12:53] eu fiquei muito feliz com a sua referência
[01:12:57] macumbeira, eu pensei que
[01:12:59] esse era o meu papel aqui, cara, me senti
[01:13:00] feliz pro estado obsoleto nesse momento
[01:13:03] eu acho que tá rolando uma troca
[01:13:05] eu tô aprendendo, tá rolando
[01:13:07] daqui a pouco você vai começar
[01:13:09] daqui a pouco a gente vê esse direito
[01:13:11] vamos dar uma caralhazinha
[01:13:12] assim que acabar a pandemia, vou tá lá contigo
[01:13:15] lá no barracão, vamos tá tudo certo
[01:13:17] vamos no barracão, vamos
[01:13:19] vamos comer lá, vamos
[01:13:20] vamos curtir
[01:13:22] vamos embora, vamos embora
[01:13:22] Rosana, muito obrigado, Rosana, sério mesmo
[01:13:25] muito obrigado, foi muito bom, cara
[01:13:27] obrigado a vocês, foi muito legal
[01:13:29] é muito bom a gente tá entre nós