Pistolando #083 - A nova Rota da Seda, com Tanguy Baghdadi
Resumo
O episódio discute o ambicioso projeto chinês da Nova Rota da Seda (One Belt, One Road), uma iniciativa de investimento em infraestrutura global que pretende conectar a China ao mundo através de estradas, portos, ferrovias e redes de comunicação. Com um investimento estimado em trilhões de dólares e abrangendo mais de 125 países, o projeto é analisado como uma ferramenta de expansão da influência econômica e geopolítica chinesa, gerando tanto oportunidades quanto preocupações sobre dependência e endividamento.
Os participantes exploram as críticas ao modelo, frequentemente comparado a práticas imperialistas históricas, onde a China oferece empréstimos volumosos que podem levar países receptores a uma armadilha da dívida, com casos como o do Sri Lanka, onde ativos estratégicos foram tomados em troca de inadimplência. A discussão também aborda a resistência de potências como Índia e Estados Unidos, que veem a expansão chinesa como uma ameaça à soberania e à segurança, especialmente em setores sensíveis como tecnologia 5G e coleta de dados.
A análise se estende ao papel da China na África e na América Latina, examinando como o investimento chinês está remodelando alianças e dependências regionais. O episódio também debate a natureza peculiar do “soft power” chinês, mais focado em influência econômica do que em exportação cultural, e especula sobre o futuro de uma possível nova Guerra Fria, centrada em rivalidade tecnológica e econômica, em vez de confronto ideológico clássico.
Indicações
Cursos
- Curso sobre China do Petit Jornal com Clipping CACD — Curso de quatro aulas ministrado por Tanguy Baghdadi, cobrindo história chinesa, questões de fronteira, o papel da China como país emergente e seu protagonismo internacional.
Livros
- The Future is Asian — Livro indicado por Tanguy que argumenta que a Ásia, puxada pela China e Índia, será o centro do futuro da humanidade em termos de população, economia, inovação e política.
Podcasts
- The China in Africa Podcast (China Africa Project) — Indicado por Tiago, é um podcast/observatório que analisa a relação econômica, social e cultural entre a China e o continente africano.
- The Compass (BBC) - Série ‘Stories from the New Silk Road’ — Indicado por Letícia, é uma série de quatro episódios que conta histórias de pessoas cujas vidas são impactadas pelos projetos de infraestrutura da Nova Rota da Seda em seus países.
VíDeos
- Cerimônia de abertura das Olimpíadas de Beijing 2008 — Indicado por Letícia como um exemplo marcante do soft power chinês, particularmente a apresentação dos tambores, descrita como ‘mesmerizante’ e um ‘cartão de visita’ cultural.
Linha do Tempo
- 00:03:01 — Introdução histórica e conceitual da Rota da Seda — Tanguy explica a origem histórica da antiga Rota da Seda e como a nova versão é um projeto de integração de infraestrutura global liderado pela China. Ele destaca a escala colossal do investimento (cerca de 5 trilhões de dólares) e seu alcance em mais de 65 países, representando uma mudança geopolítica monumental com impactos ainda difíceis de dimensionar.
- 00:08:02 — Críticas ao modelo: dependência e imperialismo econômico — A conversa aborda as críticas de que a Nova Rota da Seda cria dependência através do endividamento, uma prática comparada ao imperialismo histórico de potências como Reino Unido e Estados Unidos. É citado o caso do Sri Lanka, onde a China assumiu o controle de um porto devido à inadimplência, ilustrando os riscos da ‘armadilha da dívida’ para países em desenvolvimento, especialmente na África.
- 00:14:08 — A rivalidade China-Índia e a questão da soberania de dados — Discute-se a tensa relação entre China e Índia, dois gigantes demográficos e econômicos. A Índia resiste ativamente aos investimentos chineses, bloqueando aplicativos como o TikTok e restringindo a Huawei, por temer a perda de soberania e a influência chinesa em suas eleições e economia. A conversa explora como a coleta de dados virou uma questão geopolítica central.
- 00:28:27 — A China como ameaça unificadora para o Ocidente — Tanguy argumenta que a expansão chinesa serve para unir adversários políticos internos em países ocidentais, como Estados Unidos, onde tanto Trump quanto Biden adotam retórica dura contra a China. Questões como Hong Kong e os uigures são usadas como ‘cereja no bolo’ para o público, mas a ameaça real percebida é econômica, tecnológica e relacionada à segurança de dados.
- 00:34:02 — O soft power diferenciado e os objetivos da China — É debatido se a China aspira ser uma potência hegemônica como os EUA. Conclui-se que seu modelo é distinto: focado em poder econômico, investimento e inovação tecnológica, com pouco interesse em exportar cultura ou valores (soft power tradicional). A China busca uma posição assertiva no mundo, mas não necessariamente a liderança cultural ou ideológica.
- 00:41:02 — A batalha pelo 5G e a segurança tecnológica — A discussão se aprofunda na disputa pela tecnologia 5G, liderada pela Huawei. A adoção do 5G chinês é vista como uma decisão estratégica de longo prazo, pois criaria dependência tecnológica e potencialmente daria à China acesso a dados sensíveis de infraestrutura crítica e hábitos domésticos, levantando questões de segurança nacional para outros países.
- 00:51:55 — Uma nova Guerra Fria? Poderio militar e disputa de influência — Os participantes avaliam se o mundo está entrando em uma nova Guerra Fria. Tanguy argumenta que já estamos em um ‘standoff’ ou guerra fria de natureza diferente, centrada em rivalidade econômica, tecnológica e de influência, com a China construindo poderio naval e os EUA tentando conter sua expansão. O conflito militar direto é considerado improvável.
- 00:58:40 — O Brasil e a América Latina no tabuleiro chinês — Analisa-se a posição ambígua do Brasil, dividido entre grupos econômicos que buscam investimento chinês e grupos ideológicos antichineses. A Argentina é citada como um foco crescente de investimento chinês na região, o que pode alterar dinâmicas regionais. Discute-se a possibilidade (remota) de uma base militar chinesa na Argentina e os riscos de endividamento para países da região.
Dados do Episódio
- Podcast: Pistolando Podcast
- Autor: Leticia Dáquer e Thiago Corrêa
- Categoria: News Politics News News Commentary
- Publicado: 2020-09-08T12:00:00Z
- Duração: 01:31:00
Referências
- URL PocketCasts: https://podcast-api.pocketcasts.com/podcast/full/b6a05580-5917-0136-fa7c-0fe84b59566d/3864eb3d-468c-4703-81a8-d0905e659e92
- UUID Episódio: 3864eb3d-468c-4703-81a8-d0905e659e92
Dados do Podcast
- Nome: Pistolando Podcast
- Tipo: episodic
- Site: http://www.pistolando.com
- UUID: b6a05580-5917-0136-fa7c-0fe84b59566d
Transcrição
[00:00:00] Sejam bem-vindos e sejam bem-vindas,
[00:00:28] pistoleiros e pistoleiras ao nosso episódio 83 e teoricamente é 83 mesmo, mas sei lá né,
[00:00:36] nunca se sabe, então nunca levem a ferro e fogo a numeração que a gente fala na gravação. O meu
[00:00:41] nome é Letícia Dacker e quem está me fazendo companhia como sempre hoje? Eu sou o Tiago Corrêa,
[00:00:48] eu atesto e dou fé que é 83. Fogo em saber. E hoje temos um episódio especial porque a pauta de hoje
[00:00:58] foi sugerida pela minha mamã, que não nos ouve, mas enfim, ela pediu para a gente fazer porque aí
[00:01:05] ela vai ouvir. E para isso a gente chamou nada mais, nada menos do que o homenzarrão do Petit
[00:01:12] Jornal, que é o Tanguy. Se apresenta aí Tanguy para o caso muito improvável de quem estiver nos
[00:01:17] ouvindo não te conhecer. Tudo bem Letícia, tudo bem Tiago? Bom, meu nome é Tanguy, sou host do Petit
[00:01:28] Jornal, estou feliz de estar num deles aqui agora. O meu é um podcastzinho no qual eu falo sobre temas
[00:01:35] internacionais, temas de atualidade, falo muito rápido, cinco minutinhos eu tento resolver os
[00:01:38] assuntos e eventualmente eu faço aparições em outros podcasts, que eu fico muito feliz. Obrigado
[00:01:44] pelo convite Letícia e Tiago. Muito arroz de festa, nós gostamos. Tanguy, muito obrigado por ter
[00:01:50] aparecido aí. A gente falou já várias vezes aqui durante a nossa trajetória que podcast de menos
[00:01:57] de um mês. Muito obrigado, muito obrigado.
[00:01:58] Uma hora e meia é golpe, mas o seu a gente abre uma exceção, assim, porque vocês são muito
[00:02:03] concisos, mas é assim, é pau, pau, pau, pau e vai uma hora atrás da outra, é só o grosso da notícia,
[00:02:13] é só o que realmente é imprescindível. Não tem enrolação. Não, não tem enrolação.
[00:02:17] Diferente da gente. Isso é, não tem enrolação, isso é muito importante. Tá, bom, o tema de hoje,
[00:02:23] como vocês obviamente já viram na capa do episódio, no título do episódio, é a
[00:02:27] nova rota da seda. Então, nós vamos falar de China e não foi combinado com o seu curso, Tanguy,
[00:02:34] porque esse tema, minha mãe não tava sabendo de nada e pediu e quando eu fiquei sabendo do curso,
[00:02:40] eu já tinha decidido que ia fazer essa pauta. Então, não foi combinado, mas, enfim, na hora
[00:02:45] do jabás, você já vai ter um ganchão, assim, pra entrar. A gente vai falar da nova rota da seda e
[00:02:51] pra isso a gente tem que dar um histórico rapidinho da velha rota da seda. Você explica aí pra gente
[00:02:57] um pouquinho, Tanguy, o que que é a velha e o que que é a nova, pro pessoal ter uma ideia?
[00:03:01] Explico, explico. Então, quando a gente fala sobre a nova rota da seda, né, eu vou de trás pra frente,
[00:03:05] a gente tá falando sobre uma das coisas mais históricas que tem por aí, né, a gente tá falando sobre
[00:03:10] uma mudança geopolítica de dimensões colossais. Eu acho que talvez a gente ainda não tenha ideia do
[00:03:16] impacto que isso vai ter no futuro, mas é basicamente a China voltando a ser um ator
[00:03:22] absolutamente crucial na economia, na política, na geopolítica do mundo inteiro. E quando a gente fala
[00:03:27] sobre a nova rota da seda, a gente tá fazendo uma referência à antiga rota da seda pelo fato de que,
[00:03:33] durante muito tempo, quem dominava as rotas comerciais ali da Eurásia era basicamente a China, né, então
[00:03:40] a gente tá falando sobre… a rota da seda era exatamente o caminho que se utilizava pra pegar a seda,
[00:03:45] principalmente do litoral chinês, e levar exatamente pelo sul da Ásia, chegando até o Oriente Médio.
[00:03:51] Então a gente tá falando sobre uma rota da seda que era algo gigantesco, era algo monumental, e a ideia de
[00:03:57] nova rota da seda… nem tem sido muito utilizado mais esse termo, mas eu acho o termo tão bom, né, assim,
[00:04:01] nova rota da seda é muito melhor que One Belt, One Road, né, parece muito pomposo, né, nova rota da seda eu acho que é
[00:04:09] bom demais, assim, pra ser utilizado, que é exatamente essa ideia da China ser o hub, né, e a integração de
[00:04:15] infraestrutura internacional. Durante muito tempo, integração de infraestrutura é você colocar camelo
[00:04:20] pra cruzar o deserto, né, isso já era uma baita infraestrutura. Atualmente a gente tá falando sobre estrada,
[00:04:27] rodovia, portos, aeroportos, enfim, tudo que você possa imaginar pra fazer essa ligação de
[00:04:32] infraestrutura da China pro resto do mundo. E eu tava lendo aqui sobre o histórico disso,
[00:04:38] né, a coisa que foi anunciada em 2013, né, que ia ser feito esse projeto, que é simplesmente
[00:04:44] o maior investimento da história da humanidade. É dinheiro pra caceta e vai cobrir uma quantidade
[00:04:51] absurda de países, assim, acho que era… peraí, me perdi nas minhas notas aqui, porque sou dessas.
[00:04:57] É, tamo falando de 5 trilhões de dólares, ou seja, 3 vezes o PIB do Brasil nos próximos 40 anos, e isso
[00:05:07] espalhado em investimentos em 65 países que concentram mais de 60% da população global.
[00:05:13] Então, isso que você falou no começo, da gente não ter muita dimensão do que que é, não tem mesmo,
[00:05:19] porque nunca foi feito nada disso nessa escala, a gente realmente… é difícil imaginar, né,
[00:05:27] esses 5 trilhões, eu não sei nem descrever isso com zero, esses 5 trilhões de dólares, para ser
[00:05:32] sincera. E tem uma série de questionamentos de outros países sobre isso, né, as coisas boas e
[00:05:40] as coisas ruins, porque, na verdade, o que eles vão fazer é financiar essas obras de infraestrutura
[00:05:46] em muitos desses países. Só que muitos desses países já estão endividados, inclusive,
[00:05:53] e quem não está ainda, provavelmente, vai ficar endividado.
[00:05:57] para pagar isso depois.
[00:05:59] Então, essa é uma crítica que eu li que foi feita bastante
[00:06:01] sobre se isso não seria mais ou menos a mesma coisa
[00:06:07] que os Estados Unidos já fizeram no passado.
[00:06:09] Você criar uma espécie de política predatória
[00:06:13] porque você está criando endividamento de outros países
[00:06:15] e tornando eles dependentes de você.
[00:06:19] É isso mesmo, então?
[00:06:20] É isso mesmo.
[00:06:21] Essas cifras, Letícia, são muito curiosas
[00:06:23] porque, dependendo das projeções, elas variam enormemente.
[00:06:27] Então, você falou no horizonte de 40 anos.
[00:06:31] Se a gente for pegar no curto prazo,
[00:06:33] a gente está falando sobre cerca de um trilhão de dólares,
[00:06:35] que é muito dinheiro.
[00:06:37] Você comparou com o PIB brasileiro.
[00:06:39] Um trilhão de dólares é mais de metade do PIB brasileiro.
[00:06:42] O PIB brasileiro atualmente deve estar na casa de 1,7, 1,8, 3.
[00:06:45] A gente está falando sobre mais de metade do PIB brasileiro no curto prazo.
[00:06:49] E você falou de 65 países
[00:06:51] que são os países que vão receber esse investimento de forma muito direta.
[00:06:55] Mas a China já tem um…
[00:06:57] um pool de países que vão receber algum investimento
[00:07:00] relacionado à nova rota da seda
[00:07:02] de 125 países.
[00:07:04] Eu vou repetir.
[00:07:05] 125 países.
[00:07:06] Caraca!
[00:07:07] É uma parte muito significativa da quantidade de países que tem na ONU.
[00:07:10] A ONU tem 194.
[00:07:12] A gente está falando sobre 125 países que vão receber algum dinheiro
[00:07:15] para ter alguma coisa relacionada à nova rota da seda.
[00:07:19] A princípio, se você for pegar o mapa,
[00:07:21] você vai ver que a nova rota da seda era uma ligação
[00:07:23] que tinha por objetivo original
[00:07:25] ligar…
[00:07:27] a China à Europa Ocidental.
[00:07:29] Então, chegar até a Alemanha.
[00:07:30] E depois eles pegaram o mapa Mundi
[00:07:32] e fizeram… começaram a brincar de fazer…
[00:07:35] Você tem uma filha também, né?
[00:07:36] Tem, tem.
[00:07:36] A minha também, ela faz a brincadeira de ligar os pontinhos.
[00:07:40] É isso, assim.
[00:07:41] Você pega…
[00:07:42] Como é que eu faço para sair dessa cidade chinesa aqui
[00:07:45] e passar pelo Oriente Médio, passar pelo Norte da África,
[00:07:48] passar pela Rússia, passar pelas rotas marítimas
[00:07:51] que podem passar pela América Latina?
[00:07:53] Então, se tornou, de fato, um grande jogo de war, né?
[00:07:56] Em que…
[00:07:56] Você…
[00:07:57] Basicamente, tem chineses ocupando o mundo inteiro.
[00:07:59] E quando você falou que isso é parecido com o que
[00:08:02] os Estados Unidos já fizeram,
[00:08:04] isso é, na verdade, parecido com o que todo país
[00:08:08] imperialista, colonialista, em algum momento já fez, né?
[00:08:10] Que é você criar dependência dos outros com relação a você.
[00:08:13] Aliás, a China sabe fazer…
[00:08:14] É, o Reino Unido na Índia é um exemplo óbvio, né?
[00:08:17] É, pois é.
[00:08:18] Mas na Índia e na China também, né?
[00:08:20] Tem um determinado momento em que o Reino Unido
[00:08:23] obrigou a China a comprar ópio, porque…
[00:08:26] O Reino Unido não conseguia vender nada para a China.
[00:08:29] Então, o Reino Unido pegava ópio da Índia, vendia para a China.
[00:08:33] A China falou assim, ó, não vou mais comprar,
[00:08:34] porque está dando problema, tanto sanitário,
[00:08:36] porque as pessoas estão ficando viciadas em ópio,
[00:08:37] e o dinheiro está saindo daqui.
[00:08:39] E o Reino Unido vai lá e obriga a China a comprar ópio.
[00:08:42] E isso faz com que a China, ela passe cerca de 110 anos
[00:08:46] com um status basicamente colonial.
[00:08:48] É essa a maneira pela qual a China conta essa história, né?
[00:08:51] Então, endividada, tendo que abrir suas portas, enfim.
[00:08:54] E, sim, essa é uma crítica importante.
[00:08:56] Que tem que ser feita a China.
[00:08:57] Você pega determinados países africanos,
[00:08:59] você injeta uma quantidade inacreditável de dinheiro,
[00:09:02] que é importante se diga, não é uma doação.
[00:09:04] Não é que a China está indo lá e vai dizer,
[00:09:05] ah, vou construir aqui uma estrada para você.
[00:09:07] Não, isso é um empréstimo que vai movimentar a economia local,
[00:09:11] mas que vai gerar dívida.
[00:09:12] E, eventualmente, esses países não conseguem pagar dívida.
[00:09:15] E aí, o que acontece quando você faz um empréstimo no Itaú
[00:09:17] e você não consegue pagar, né?
[00:09:19] O Itaú vai lá e te empresta mais dinheiro.
[00:09:21] Não, te empresta mais.
[00:09:22] E aí você fica ainda mais endividado.
[00:09:24] E a China tem uma quantidade
[00:09:26] basicamente infinita de dinheiro para emprestar.
[00:09:27] As reservas internacionais dela não são comparáveis a de nenhum outro país.
[00:09:32] Então, para a China, injetar dinheiro mundo afora não é, de fato, um problema.
[00:09:37] E, inclusive, está valendo que já teve um caso do governo chinês mesmo
[00:09:41] se apropriar de um porto no Sri Lanka porque eles não conseguiram pagar uma dívida.
[00:09:45] Então, tipo, o banco já pegou tua casa.
[00:09:47] Exatamente.
[00:09:48] Porque chegou num nível que não convinha mais emprestar dinheiro,
[00:09:51] ficou com a tua casa.
[00:09:52] Isso vai acontecer cada vez mais no continente africano.
[00:09:55] No continente africano, você tem uma disparidade muito grande, né?
[00:09:58] São países que têm uma capacidade de investimento muito pequena
[00:10:00] porque têm reservas muito pequenas.
[00:10:03] E a tendência é que esses países, eles também, ao se endividar em algum momento,
[00:10:07] é aquela questão de você, uma pessoa que tem uma renda errática,
[00:10:11] pegar um empréstimo grande.
[00:10:12] Pode pagar um mês, pode pagar dois meses, pode pagar cinco meses.
[00:10:14] Em algum momento, vai ficar inadimplente, não tem jeito.
[00:10:17] A China já sabe disso.
[00:10:18] Isso é, sim, uma forma que a China tem de se posicionar internacionalmente, né?
[00:10:23] Então, a China, durante muito tempo, ela teve uma posição no sistema internacional
[00:10:28] que era uma posição ensimesmada, voltada para dentro, meio tímida.
[00:10:33] A gente não via a China dando muita opinião por aí.
[00:10:35] É permanente o teu conselho de segurança, né?
[00:10:37] Mas, mesmo assim, você não vê a China se posicionando muito.
[00:10:40] E essa foi uma mudança de postura que o atual presidente da China,
[00:10:43] que é o Xi Jinping, implementou no país ao longo dos últimos, sei lá, sete anos.
[00:10:48] Thiago, você quer perguntar alguma coisa?
[00:10:50] Não, eu ia ainda para esse lado, aproveitando que a gente está na,
[00:10:53] na questão da África, eu tenho, inclusive, eu já vou acabar adiantando aqui
[00:10:58] uma recomendação que eu tinha para fazer depois,
[00:11:00] que é o ótimo podcast do pessoal do China Africa Project,
[00:11:05] que eles têm uma série de podcasts só para analisar a influência
[00:11:13] e a movimentação do capital chinês no continente inteiro e tal.
[00:11:19] Eu peguei alguns episódios deles para estudar para essa pauta,
[00:11:22] e uma coisa que eu até aprendi com eles, até,
[00:11:27] e me chamou muito a atenção, é que algumas pessoas do próprio podcast
[00:11:34] e analistas, assim, pessoas respeitáveis da academia,
[00:11:38] começaram a propor coisas do tipo,
[00:11:42] a África já foi muito dependente da China durante algum tempo,
[00:11:46] mas agora as equivalências equilibraram um pouco.
[00:11:50] Agora a China…
[00:11:52] De certa forma, em certa parte, também é dependente da África
[00:11:57] para determinadas coisas, e quando a gente fala em determinadas coisas,
[00:12:01] não é só para a questão de matéria-prima, questão de extrativismo,
[00:12:07] exploratório mesmo, mas justamente para esse posicionamento geopolítico
[00:12:12] que vai determinar como as coisas serão num futuro a médio prazo.
[00:12:18] Você concorda com esse tipo de questão, Tanguy?
[00:12:22] Eu concordo que a África tem uma posição importante na estratégia global da China,
[00:12:26] porque o continente africano ainda é um continente meio que em disputa
[00:12:32] acerca dos interesses que tem por aí.
[00:12:35] Então a gente teve um passado colonial relativamente recente,
[00:12:38] por parte da França, do Reino Unido, Portugal.
[00:12:42] Angola era uma colônia portuguesa até a década de 70,
[00:12:45] então é muito recente.
[00:12:46] E a gente teve um período no qual houve um desinteresse generalizado no continente africano.
[00:12:52] Ninguém achava que o continente africano realmente fosse trazer algum tipo de retorno.
[00:12:57] Então assim, é sempre visto como um continente muito grande,
[00:12:59] mas é um continente com mais de um bilhão de pessoas,
[00:13:02] então assim, não é de fato algo desprezível,
[00:13:06] mas um continente pobre, com dificuldades estruturais, problemas de conflitos e tal.
[00:13:12] E houve um ressurgimento da África ao longo dos últimos anos
[00:13:15] por uma disputa que a princípio o Brasil chegou a participar.
[00:13:18] Então o Brasil ali no primeiro governo Lula chegou a ter abertura de embaixadas,
[00:13:22] estava mais presente ali e tal.
[00:13:24] A França também voltou a se interessar, a Índia chegou com muita força
[00:13:28] e nos últimos anos a China barreu todo mundo.
[00:13:30] Então sim, a África tem uma importância grande para a China,
[00:13:34] mas é aquela questão da geopolítica,
[00:13:37] quando você tem capacidades militares, econômicas, financeiras,
[00:13:41] você tem reservas, você tem tudo,
[00:13:43] você pode até depender dos outros, mas os outros normalmente dependem mais de você.
[00:13:46] Então eu acho que a África nesse momento,
[00:13:48] ela olha de fato para o continente, para a China,
[00:13:53] como um país que tem condições de oferecer algumas alternativas
[00:13:58] para um continente que durante tanto tempo ficou fora do radar
[00:14:01] de praticamente o mundo inteiro.
[00:14:04] A Índia participa disso, Tanguy, ou ficou de fora?
[00:14:08] Então, aí a grande treta que a gente tem nesse momento,
[00:14:11] eu vou gravar daqui a pouquinho o bate-papo do Petit Jornal
[00:14:14] e essa vai ser uma das pautas que eu vou colocar lá,
[00:14:16] que é o fato de que a Índia hoje bloqueou 118 aplicativos,
[00:14:22] 118 aplicativos chineses.
[00:14:24] A Índia já bloqueou o TikTok,
[00:14:27] então a Índia está numa posição que é a seguinte,
[00:14:29] a Índia tem uma população que é comparável à chinesa,
[00:14:32] então a gente está falando também de uma população de mais de um bilhão de pessoas,
[00:14:36] então basicamente a gente está falando sobre os dois países combinados
[00:14:39] com quase 3 bilhões de pessoas,
[00:14:41] então a gente está falando sobre quase metade da humanidade,
[00:14:44] então somente nesses dois países.
[00:14:46] E a Índia também tem alguns traços parecidos com o da China,
[00:14:50] que é de grande crescimento econômico,
[00:14:52] ao longo dos últimos anos,
[00:14:53] então a Índia conseguiu manter uma taxa de crescimento econômico
[00:14:56] na casa de 6%, 7%, que é algo muito impressionante.
[00:15:00] E assim como a China, a Índia também fez um investimento muito grande de tecnologia,
[00:15:03] então isso a gente viu durante muito tempo,
[00:15:05] virou quase cultura pop,
[00:15:06] você tem um problema no computador e você liga e tem um indiano
[00:15:10] que vai resolver essa questão,
[00:15:12] você tem indústria farmacêutica,
[00:15:13] você tem indústria tecnologia nuclear, tecnologia espacial,
[00:15:17] então a Índia é uma potência também.
[00:15:18] A gente não lembra muito da Índia porque a gente compara com a China,
[00:15:21] e aí você compara,
[00:15:22] a comparação com a China é sempre uma comparação desleal.
[00:15:25] E a China, por ser muito agressiva nos seus investimentos,
[00:15:29] na sua expansão, não territorial, mas expansão econômica,
[00:15:33] expansão de influência, por ter problemas fronterizos,
[00:15:36] inclusive com a Índia, não um, dois problemas fronterizos,
[00:15:39] tanto no norte da Índia quanto na região da Caxemira,
[00:15:45] a Índia olha para a China com muita desconfiança,
[00:15:49] com muito cuidado, tanto é que,
[00:15:52] a China tentou nos últimos anos fazer investimentos na Índia,
[00:15:55] e a Índia começou a negar, a bloquear investimentos chineses,
[00:15:58] inclusive da nova Rota da Seda.
[00:16:01] Então a China falou assim,
[00:16:02] ah, posso construir uma estrada aí e tal,
[00:16:04] e a Índia falou assim, nem pensava,
[00:16:05] você faz seu investimento em outro lugar, procura outra rota aí,
[00:16:09] aqui não, tanto é que a China está despejando dinheiro,
[00:16:13] como se não houvesse amanhã no Paquistão, não é assim?
[00:16:15] Se a Índia não quer, tem sempre um Paquistão aqui que está de boa,
[00:16:19] então o Paquistão vai ser um desses países que provavelmente vai ficar endividado,
[00:16:22] vai ter um pescoço com a China,
[00:16:24] provavelmente a China em algum momento vai tomar a casa do Paquistão
[00:16:26] e vai vender de novo, vai emprestar de novo e tal,
[00:16:28] o Paquistão vai, de fato, entrar nessa brincadeira.
[00:16:31] O Paquistão tem muito menos alternativas do que a Índia,
[00:16:34] é um país muito mais pobre,
[00:16:35] é um país que tem possibilidades um pouco mais exíguas de crescimento econômico,
[00:16:42] mas essa é uma rivalidade muito grande,
[00:16:44] é importante lembrar, a gente está falando sobre dois países com bombas nucleares,
[00:16:48] que representam quase metade da população mundial,
[00:16:51] são dois países que crescem muito economicamente com problemas de fronteiriços,
[00:16:54] então ali não é uma situação fácil não.
[00:16:56] Que ótimo, tem tudo para dar certo.
[00:16:59] Tanguy, a gente já teve, eu lembro de algum tempo atrás, se eu não me engano,
[00:17:04] foi lá para o meio de julho que apareceu uma notícia,
[00:17:07] até em alguns canais brasileiros mesmo,
[00:17:10] falando que a Índia imporia restrições para impedir a Huawei e a ZTE
[00:17:17] de participar do 5G indiano,
[00:17:19] e ao mesmo tempo que esse tipo de coisa acontecia
[00:17:22] para dificultar a vida das telecoms indianas que optassem por essas duas,
[00:17:29] também teve alguns movimentos do próprio Amazon
[00:17:33] de comprar as principais marketplaces da Índia e tal.
[00:17:39] Então, assim, vivendo um mundo em que a gente vê, assim,
[00:17:44] porra, tretas diplomáticas por causa do TikTok,
[00:17:46] uma coisa que você nunca imaginou,
[00:17:48] do que poderia acontecer algum dia.
[00:17:51] Vendo que, assim, posicionamentos geopolíticos de consequências muito sérias
[00:17:56] estão acontecendo por conta de demarcação de territórios tecnológicos,
[00:18:05] o que exatamente a Índia está ganhando em comprar essa briga com a China?
[00:18:10] Me parece, assim, que ela está comprando uma briga simplesmente ideológica mesmo,
[00:18:15] por causa do nacionalismo, do Modi,
[00:18:17] correndo o risco de…
[00:18:18] de acabar virando, sei lá, um cachorrinho,
[00:18:22] um pet do imperialismo de outro lugar,
[00:18:25] muito provavelmente o americano.
[00:18:27] É.
[00:18:27] Onde é que a Índia pretende se encaixar nesse tabuleiro?
[00:18:31] Então, é porque eu acho que a gente tem uma visão da Índia,
[00:18:33] que é uma visão quase, isso que você falou, assim,
[00:18:36] de um país fragilizado diante da China.
[00:18:38] Uma coisa que é fundamental que a gente tenha consciência
[00:18:42] para a gente conseguir analisar qualquer posicionamento que a Índia venha a ter,
[00:18:45] é que a Índia é uma potência.
[00:18:47] A Índia só empalidece,
[00:18:48] porque a gente olha para lá e a gente vê a China.
[00:18:50] Realmente, assim, não dá para comparar.
[00:18:52] Mas a Índia é um país grande,
[00:18:54] é um país com bom nuclear,
[00:18:56] é um país com muita tecnologia,
[00:18:58] é um país com grandes universidades,
[00:19:00] é um país com capital humano inacreditável, assim.
[00:19:02] Então, não é apenas uma mão de obra pouco qualificada.
[00:19:06] É um país que, se não houvesse a China,
[00:19:09] provavelmente ela poderia estar liderando, eventualmente,
[00:19:12] até o próprio movimento do 5G.
[00:19:14] Então, a visão que a Índia tem com relação
[00:19:18] à China é que a China, nesse momento,
[00:19:20] ela é um perigo maior do que os Estados Unidos,
[00:19:22] por exemplo, ou do que o Ocidente.
[00:19:24] Lembrando que a Índia, ao longo da sua história,
[00:19:27] nunca teve grandes problemas em caçar treta com o Ocidente também.
[00:19:31] Lembrando que na década de 50, por exemplo,
[00:19:34] a década de 60 é muito consolidada, mas a partir da década de 50,
[00:19:37] a Índia, por exemplo, resolveu se aproximar da União Soviética
[00:19:40] e depois estabeleceu, inclusive,
[00:19:42] foi uma das lideranças do movimento terceiro-mundista,
[00:19:44] que é assim, eu não sou nem capitalista e nem comunista.
[00:19:47] Eu sou a liderança de um novo mundo,
[00:19:50] sou a liderança de um mundo diferente,
[00:19:52] inclusive se aproximando do próprio Brasil,
[00:19:54] se aproximando da própria China.
[00:19:56] Então, a posição indiana é uma posição de muita,
[00:19:58] assim, que ela busca uma independência muito grande
[00:20:01] e, na maior parte das vezes, o que eu vejo é a Índia
[00:20:03] vendo quem é que é a ameaça maior.
[00:20:05] Nesse momento, eu tenho que concordar com o Modi,
[00:20:07] muito embora você tenha uma pauta complicada ali,
[00:20:10] mas que a China é uma ameaça grande demais
[00:20:13] para a Índia nesse momento.
[00:20:15] Só para ter uma ideia, tá?
[00:20:16] Só para materializar isso.
[00:20:18] A Índia, assim como a China,
[00:20:21] a Índia é um país que incentiva muito, por exemplo,
[00:20:23] os jovens a criarem novas empresas, startups,
[00:20:26] programação, inovação tecnológica e tal.
[00:20:29] Isso é algo muito forte na Índia.
[00:20:31] Isso os indianos sempre entenderam,
[00:20:33] o governo indiano sempre entendeu como uma forma de,
[00:20:35] lá no futuro, você ter o próximo unicórnio.
[00:20:37] Você vai encontrar a próxima startup que vai valer muito dinheiro,
[00:20:41] vai gerar emprego, vai gerar crescimento,
[00:20:43] vai gerar tecnologia, vai gerar uma série de benefícios,
[00:20:45] para a economia indiana.
[00:20:48] O que a China faz é que ela,
[00:20:50] é o que os Estados Unidos já fizeram durante muito tempo,
[00:20:52] em vários lugares,
[00:20:54] a China pega uma parte das reservas dela lá
[00:20:57] e sai injetando dinheiro em tudo quanto é startupzinha indiana.
[00:21:01] Então assim, startupzinha indiana aqui são
[00:21:03] três estudantes da Universidade de Nova Delhi
[00:21:05] que estão projetando sei lá o quê.
[00:21:07] A China vai lá e compra.
[00:21:08] Ela vai comprar tudo.
[00:21:10] Se duas dessas derem certo,
[00:21:12] a China já ganhou muito dinheiro
[00:21:14] e tirou uma propriedade,
[00:21:16] tirou uma parte da propriedade que seria da Índia.
[00:21:20] E em cima disso tem outro ponto ainda,
[00:21:22] a gente faz piada, porque não tem outro jeito,
[00:21:24] mas o TikTok virou um assunto geopolítico.
[00:21:27] E sim, virou um assunto…
[00:21:29] Gente, isso é muito distópico,
[00:21:31] isso é um negócio surreal.
[00:21:33] É geopolítico de verdade,
[00:21:35] porque a gente está falando sobre coleta de dados.
[00:21:37] A partir do momento em que você tem um mapeamento
[00:21:39] dos dados das pessoas,
[00:21:41] você sabe o que ela consome,
[00:21:42] você sabe como é que ela vota,
[00:21:43] você sabe o que a emociona,
[00:21:45] você sabe o que mobiliza,
[00:21:47] você sabe se ela gosta de gatinho ou de cachorro,
[00:21:49] você sabe se ela prefere óleo ou negresco,
[00:21:52] você sabe se ela vai votar no Trump ou no Biden.
[00:21:55] E se ela estiver disposta a votar no Biden,
[00:21:57] mas ela tiver uma pauta muito conservadora,
[00:22:00] você fala assim, olha,
[00:22:01] o Trump é capaz de seguir essa sua pauta aqui.
[00:22:04] Você muda o voto,
[00:22:05] você consegue mudar o voto.
[00:22:07] Foi assim que foi aprovado o Brexit,
[00:22:08] foi assim que o Trump foi eleito em 2016.
[00:22:10] Sei lá, mas talvez tenha sido assim
[00:22:12] que o Bolsonaro foi eleito aqui em 2018.
[00:22:15] Você imagina, numa democracia como a indiana,
[00:22:18] em que a gente está falando, gente?
[00:22:19] Uma democracia…
[00:22:20] Tenta imaginar o que é uma democracia
[00:22:23] que funciona num país com 1,3 bilhão de pessoas que é a Índia.
[00:22:26] A gente está falando sobre 600 milhões de eleitores.
[00:22:30] 600 milhões de eleitores são três Brasis inteiros votando.
[00:22:34] Não é somente o eleitorado.
[00:22:36] Estou falando de três Brasis inteiros votando.
[00:22:38] É uma eleição que acontece em fases,
[00:22:40] porque não tem como essa galera toda
[00:22:41] votar ao mesmo tempo.
[00:22:42] Você imagina se eventualmente a China…
[00:22:44] Esse é o pensamento indiano,
[00:22:45] que eu acho que ele tem o fundo de razão.
[00:22:47] Se eventualmente a China passa a ter acesso
[00:22:50] a dados dos indianos e consegue, por exemplo,
[00:22:53] movimentar alguma coisa com relação às eleições,
[00:22:56] a China é de fato capaz de mudar os rumos
[00:22:59] da política indiana a seu favor.
[00:23:01] Então, você tem uma questão de soberania importante
[00:23:03] e essa é a preocupação com relação ao TikTok,
[00:23:05] com relação ao 5G,
[00:23:07] com relação a esses aplicativos todos,
[00:23:09] inclusive esses que foram bloqueados,
[00:23:10] ao longo das últimas semanas,
[00:23:12] inclusive no dia de hoje.
[00:23:40] A questão nacional de soberania,
[00:24:09] eu até entendo.
[00:24:10] Mas de que forma isso ajuda,
[00:24:12] ou se atrapalha,
[00:24:14] na questão do tabuleiro internacional
[00:24:17] ou até mesmo regional?
[00:24:19] Isso não cria uma certa,
[00:24:21] talvez até uma antipatia,
[00:24:23] dele para com os satélites chineses
[00:24:27] à sua volta?
[00:24:29] Sei lá, Vietnã, por exemplo?
[00:24:31] Então, pode gerar, pode gerar.
[00:24:33] E o que a posição indiana é
[00:24:35] eu confio no meu taco.
[00:24:36] E a Índia tem que confiar mesmo,
[00:24:37] porque não é um paísé qualquer.
[00:24:39] A Índia não pode deixar de, eventualmente,
[00:24:43] traçar uma determinada estratégia
[00:24:45] por conta de um Vietnã da vida.
[00:24:47] E a Índia já percebeu que,
[00:24:49] ao resistir à China,
[00:24:51] ela está conseguindo outros aliados poderosíssimos,
[00:24:53] que são Estados Unidos, Reino Unido,
[00:24:55] França, Alemanha, União Europeia,
[00:24:57] de uma forma geral,
[00:24:58] porque todos esses países estão muito desconfiados,
[00:25:00] Japão, são todos países que estão muito desconfiados
[00:25:03] com relação a essa expansão chinesa.
[00:25:05] Nas relações internacionais,
[00:25:07] tem um conceito que é a balança de poder,
[00:25:10] que diz que toda vez que um determinado Estado
[00:25:13] se fortalece demais,
[00:25:14] os outros se unem contra ele.
[00:25:16] Então, também, a gente olha muito para a China
[00:25:18] como algo novo, não é novo,
[00:25:20] mas a gente olha como algo novo,
[00:25:22] porque a nossa geração não viu ainda a China
[00:25:24] tendo essa força toda.
[00:25:26] Para a gente ver uma China forte desse jeito,
[00:25:28] a gente teria que voltar, sei lá, 200 anos na história.
[00:25:30] Mas o mundo inteiro está olhando para a China
[00:25:33] como algo que é, caramba,
[00:25:35] isso aqui é algo que a gente não conhece muito.
[00:25:37] Então, a gente olha do lado da China
[00:25:39] e fala assim, pô, a China está conseguindo
[00:25:40] se expandir para isso aqui tudo.
[00:25:42] Mas há um movimento contrário também
[00:25:44] de resistência à China.
[00:25:46] E essa resistência à China são as potências tradicionais
[00:25:49] que estão levando.
[00:25:50] Então, a Índia está ali do lado,
[00:25:52] os Estados Unidos, o Reino Unido,
[00:25:54] mesmo potências menores, o próprio Brasil.
[00:25:57] O Brasil não tem simpatia com relação à China,
[00:26:00] o governo atual.
[00:26:01] Ah, mas o Bolsonaro não importa.
[00:26:03] Geopoliticamente, é um país que ocupa
[00:26:05] uma parcela importante.
[00:26:06] Uma parcela importantíssima no território latino-americano
[00:26:09] e que não tem lá grande simpatia
[00:26:11] no amor de amores pela China.
[00:26:12] Então, os Estados Unidos têm liberado
[00:26:14] um movimento como esse e você vai ver,
[00:26:16] as eleições americanas estão chegando,
[00:26:18] vai ser daqui a dois meses,
[00:26:20] quase dois meses certinho.
[00:26:22] E isso vai ser algo que,
[00:26:24] a questão chinesa vai ser um assunto,
[00:26:26] porque o eleitor americano tem uma resistência
[00:26:28] muito grande à China também.
[00:26:30] Você acha que essa coisa dos Estados Unidos,
[00:26:33] eu vou me alongar um pouquinho mais nisso depois,
[00:26:35] que eu tenho anotado aqui para te perguntar,
[00:26:37] mas você acha que, por exemplo,
[00:26:38] a situação toda em Hong Kong,
[00:26:40] a situação com os uigures,
[00:26:43] você acha que isso pode ser usado meio que
[00:26:45] como desculpa, digamos assim,
[00:26:47] pelas potências mais tradicionais
[00:26:49] para rejeitar a China?
[00:26:51] Eu acho que, se você quiser rejeitar a China,
[00:26:54] você nem precisa falar sobre isso.
[00:26:56] Isso é a cereja no bolo.
[00:26:58] Essa é aquela parte valorativa.
[00:27:00] A democracia, os direitos humanos e tal,
[00:27:03] a gente sabe que direito humano de muçulmano
[00:27:05] lá em Xinjiang, os uigures lá,
[00:27:08] são exatamente o que tira o sono
[00:27:09] de um americano sequer.
[00:27:11] Ninguém está preocupadíssimo com isso.
[00:27:14] Você pode até ter uma questão valorativa,
[00:27:16] você acha que é um absurdo e tal,
[00:27:18] mas não é isso.
[00:27:20] A China, ela traz outras ameaças.
[00:27:22] O fato de que, eu não sei se já fizeram isso,
[00:27:25] façam no dia que vocês estiverem calmos,
[00:27:28] mas depois,
[00:27:30] pegue a sua história com o navegador do seu celular.
[00:27:32] E dê uma olhada.
[00:27:34] Outro dia eu fiz isso e me arrependi um pouco,
[00:27:36] porque eu percebi que eu coloco no meu celular
[00:27:39] absolutamente tudo o que eu estou pensando.
[00:27:41] O celular sabe tudo o que eu estou pensando.
[00:27:43] O celular consegue fazer uma linha do tempo do que eu estou pensando.
[00:27:45] Então, se eu vou assistir um jogo da NBA,
[00:27:47] eu coloco lá no navegador NBA.
[00:27:49] O meu celular já sabe que eu estou assistindo NBA.
[00:27:51] Então, se eu estou procurando alguma coisa para minha filha,
[00:27:54] coloco Barbie, certamente ele sabe que a Barbie
[00:27:56] não é para eu brincar com a Barbie.
[00:27:58] Ele sabe que é para minha filha.
[00:28:00] Então, ele já sabe qual é o presente que eu vou dar para minha filha
[00:28:02] no aniversário dela, quando for o dia das crianças.
[00:28:04] Então, esses dados todos que estão disponíveis por aí,
[00:28:07] a partir do momento em que a China coloque a mão nisso,
[00:28:10] é o que gera uma ameaça geopolítica severa.
[00:28:13] Então, esse ponto da soberania
[00:28:15] vai ser algo que certamente vai ser utilizado
[00:28:17] muito mais como uma motivação para fazer qualquer outra coisa
[00:28:21] do que a questão de Hong Kong, Xinjiang e tal,
[00:28:23] que me parece que vão ser utilizados
[00:28:25] quase que para o público corrente.
[00:28:27] Você que mora em Nova York,
[00:28:29] você que é um liberal da Califórnia,
[00:28:32] é um eleitor em Londres,
[00:28:34] você que é um parisiense com boas intenções…
[00:28:36] É o PSOL do Michel Norte.
[00:28:38] Você é da esquerda cirandeira,
[00:28:40] você gosta dessas pautas,
[00:28:42] da pauta de liberdade e tal,
[00:28:44] dá uma olhada nisso aqui.
[00:28:45] Vê se a gente não tem que fazer alguma coisa contra a China.
[00:28:47] E, dessa maneira, você une contra a China
[00:28:49] tanto aqueles que são conservadores
[00:28:51] quanto aqueles que são liberais.
[00:28:53] Isso é que mostra que a China é, de fato,
[00:28:55] uma ameaça para vários desses países.
[00:28:57] Você consegue unir parcelas absolutamente dísperas.
[00:29:00] É isso que eu estava dizendo.
[00:29:01] Nas eleições americanas agora,
[00:29:03] eu sei que você vai falar sobre isso depois,
[00:29:04] mas eu já vou dar spoiler aqui.
[00:29:06] Pode spoilerar.
[00:29:08] A gente vai ter um debate que vai ser entre o Trump
[00:29:10] querendo pegar pesado com a China
[00:29:12] e o Biden querendo pegar pesado com a China.
[00:29:14] Os dois estão falando sobre isso.
[00:29:16] E essa é uma vantagem que o Trump vai levar, inclusive.
[00:29:18] Porque o Biden é incapaz de demonstrar
[00:29:20] qualquer tipo de comoção ou de fúria
[00:29:23] ou de raiva com relação a qualquer coisa.
[00:29:26] Ele sempre parece ser muito pacífico, muito tranquilo.
[00:29:29] E o Trump consegue demonstrar angústia.
[00:29:33] Ele consegue passar raiva quando ele fala sobre a China.
[00:29:36] E não por acaso, no último discurso que ele fez
[00:29:38] agora na frente da Casa Branca, na convenção republicana,
[00:29:40] ele disse que a estratégia dele é Made in USA.
[00:29:43] Mas a estratégia do Biden é Made in China.
[00:29:45] É uma mentira.
[00:29:46] O Biden também não gosta da China.
[00:29:48] Mas ele consegue passar isso com mais vivacidade.
[00:29:51] Ninguém vai mexer nesse assunto.
[00:29:53] É um vespeiro que ninguém vai ter coragem de cutucar.
[00:29:57] Porque senão vai dar ruim.
[00:29:59] Eu tinha lido…
[00:30:03] Como sempre, quem está ouvindo a gente já sabe,
[00:30:05] tudo que a gente está comentando aqui,
[00:30:07] todos os artigos que a gente leu para a pauta,
[00:30:09] vão estar todos lá na postagem.
[00:30:11] E um deles falava de uma…
[00:30:15] Digamos que a China não está querendo desbancar os Estados Unidos.
[00:30:18] Que a China estaria.
[00:30:20] Porque dá muito trabalho ser potência hegemônica.
[00:30:23] Você tem que levar a democracia, a paz,
[00:30:27] enfim, tudo entre aspas.
[00:30:28] E ajuda para quem está na merda.
[00:30:30] E por aí vai.
[00:30:32] Então, dizendo que a China, teoricamente,
[00:30:34] não estava querendo esse papel.
[00:30:36] Mas estava simplesmente meio que preenchendo
[00:30:38] a lacuna, o vácuo que os Estados Unidos deixaram
[00:30:42] quando saíram lá do Tratado Transpacífico.
[00:30:48] E todo esse isolamento mesmo dos Estados Unidos
[00:30:51] com relação, sei lá, à ONU e ao MS.
[00:30:55] E esses ataques constantes e coisa e tal.
[00:30:57] Então, que seria uma coisa natural da China,
[00:31:01] mas que não seria um desejo da China
[00:31:03] ser a nova potência hegemônica,
[00:31:05] mas ser uma potência num mundo multipolarizado.
[00:31:09] Eu não sei se você concorda com essa análise,
[00:31:11] mas, concordando ou não,
[00:31:13] seria possível, você acha que seria compatível
[00:31:16] você ter a China como um polo
[00:31:19] e a Europa e os Estados Unidos como outros polos?
[00:31:22] Letícia, a maneira como eu vejo isso é o seguinte.
[00:31:25] Você sabe qual é o filme mais assistido da China nesse momento?
[00:31:30] Não.
[00:31:31] Você sabe qual é a música que eles ouvem?
[00:31:33] Menor ideia.
[00:31:34] O que eles fazem no fim de semana?
[00:31:36] Você sabe, sei lá, como é que eles se…
[00:31:39] A gente não sabe nada sobre a China.
[00:31:41] E por que a gente não sabe nada sobre a China?
[00:31:43] Porque a China não faz a menor questão de contar pra gente.
[00:31:45] É como se a China fosse um outro planeta nesse sentido.
[00:31:48] Isso significa que a China não é um país
[00:31:50] que quer ser uma potência como os Estados Unidos são.
[00:31:53] A gente, sem nunca ter ido pra Nova Iorque,
[00:31:55] a gente conhece Nova Iorque, porque a gente vê filme,
[00:31:57] porque a gente vê série, porque a gente lê,
[00:31:59] porque a gente sabe um monte de coisa, a gente fala a língua,
[00:32:01] a gente entende o quanto eles falam,
[00:32:03] a gente ouve a sonoridade,
[00:32:05] a gente consegue distinguir qual é o sotaque da Califórnia
[00:32:08] e qual o sotaque do meu oeste, o que é uma coisa bizarra, né?
[00:32:11] Até a aparência física mesmo, né?
[00:32:14] Pra gente é mais fácil se identificar de alguma forma, né?
[00:32:17] Pois é.
[00:32:18] E a China não tem a menor intenção de fazer isso,
[00:32:21] e ser o país que vai tomar conta do mundo e tal.
[00:32:23] A China, ela percebeu nos últimos anos,
[00:32:26] e esse é um debate da China, tá?
[00:32:28] Mas ela percebeu nos últimos anos que,
[00:32:30] ao se tornar uma potência, que ela vem se tornando,
[00:32:33] inclusive com o prognóstico de superar a economia dos Estados Unidos,
[00:32:36] o que deve acontecer em no máximo 10 anos,
[00:32:39] ela vai se tornar uma economia, em qualquer critério,
[00:32:43] maior do que a economia americana,
[00:32:45] a China não vai ser deixada em paz.
[00:32:47] Durante muito tempo a China conseguiu ficar em paz,
[00:32:49] porque a gente olhava pra China, de uma certa maneira,
[00:32:52] com uma visão de inferioridade dela, né?
[00:32:59] Ah, coitada, é um país com muita gente, muito pobre,
[00:33:02] sem educação, sem modos, sem tecnologia, um país rural,
[00:33:06] então assim, deixa a China lá, porque coitada, né?
[00:33:09] Ela tá lá, um país grande, populoso e tal,
[00:33:11] deixa ela lá porque ela não vai dar trabalho.
[00:33:13] Esse tempo vai passar.
[00:33:15] Esse tempo já está passando.
[00:33:17] Não tem mais como você não olhar pra China.
[00:33:19] E a China nesse sentido, ela tem um compromisso consigo mesma,
[00:33:21] que é crescer economicamente,
[00:33:23] porque quando você tem uma população de quase 1 bilhão de pessoas e meio,
[00:33:25] você tem que crescer economicamente,
[00:33:27] porque senão as pessoas morrem de fome.
[00:33:29] A mesma coisa que a Índia tem também.
[00:33:31] Tem que crescer economicamente.
[00:33:33] Então se você tem que crescer, você tem que criar novos negócios e tal,
[00:33:35] eventualmente a China, que é um país enorme,
[00:33:37] vai começar a ficar pequeno pra própria China.
[00:33:39] Então a postura que o Xi Jinping,
[00:33:41] que é o líder desde 2013, vem tomando é
[00:33:44] a China não pode mais se manter naquela posição de ser um país
[00:33:48] se volta pra dentro, que…
[00:33:51] não atua internacionalmente,
[00:33:53] que não se expande, que olha somente pros seus próprios negócios.
[00:33:56] A China tem que ter uma postura mais assertiva.
[00:33:59] Isso significa que a China quer ser uma potência como os Estados Unidos,
[00:34:02] um país que está difundindo valores mundo afora,
[00:34:07] não porque ela não quer fazer isso.
[00:34:09] Então nesse sentido, a gente tem uma diferença importante que é
[00:34:12] quando a França foi potência, a França expandiu a língua,
[00:34:15] a França expandiu os modos,
[00:34:17] a França expandiu a literatura,
[00:34:19] a França expandiu a pintura, a música,
[00:34:21] então a gente tem uma camada de cultura ocidental
[00:34:24] que é uma camada francesa.
[00:34:26] No século XIX a gente tem o Reino Unido,
[00:34:28] com o liberalismo, com outros valores comerciais,
[00:34:33] de revolução industrial, de crescimento econômico e tal,
[00:34:36] e depois a gente tem os Estados Unidos,
[00:34:38] que tem alguma semelhança, inclusive, com a liderança britânica.
[00:34:41] Também muito cultural.
[00:34:43] Conheçam os Estados Unidos, vejam os filmes,
[00:34:46] leiam os livros, ouçam as músicas,
[00:34:48] toda criança sabe quem é o Pato Donald,
[00:34:51] toda criança no mundo que não sabe quem é.
[00:34:53] Todas elas sabem.
[00:34:54] A Barbie, acabei de falar da Barbie.
[00:34:55] Minha filha ama de paixão a Barbie, uma loura magra.
[00:34:58] Ama, de paixão, adora.
[00:35:00] Ela não consegue brincar sem ser de Barbie,
[00:35:02] sem ver Barbie na televisão e tal.
[00:35:04] A China, sendo uma potência,
[00:35:06] ela certamente vai ser uma potência diferente.
[00:35:08] Ela vai ser uma potência mais econômica,
[00:35:11] uma potência mais de investimento,
[00:35:13] de deter a empresa de fazer aquisições,
[00:35:17] de fazer fusões, de fazer inovação,
[00:35:19] de ser o país mais inovador do mundo.
[00:35:21] A gente também se acostumou muito a ver
[00:35:23] os Estados Unidos como o país que mais inova,
[00:35:25] os Estados Unidos como o país do Vale do Silício e tal.
[00:35:28] O Vale do Silício está passando por um momento de estagnação
[00:35:31] em termos criativos.
[00:35:33] Pensa aí qual foi a última grande inovação do Vale do Silício.
[00:35:36] Outro dia eu estava lendo uma reportagem
[00:35:38] e o cara estava dizendo que a última coisa
[00:35:40] que o Vale do Silício criou de novo
[00:35:42] foi o fonezinho da Apple sem fio.
[00:35:44] Não teve nada de muito novo.
[00:35:47] Pois é, não teve nada de muito mais novo.
[00:35:49] Então a China tem já assumido exatamente esse papel
[00:35:52] e eu acho que poucas coisas são mais significativas
[00:35:55] para isso do que a questão da língua.
[00:35:57] Vocês devem ter ouvido a mesma coisa que eu ouvi
[00:35:59] quando era moleque, que é em breve
[00:36:01] todo mundo vai parar de aprender inglês
[00:36:03] e vai começar a aprender mandarim.
[00:36:05] Mentira, né? Mentira, né?
[00:36:07] Ninguém teve que aprender mandarim
[00:36:09] porque os chineses não fazem a menor questão
[00:36:11] de ensinar mandarim.
[00:36:12] Se você quiser, você vai lá no Instituto Confúcio,
[00:36:14] você vai estudar e tal, mas para fazer negócio
[00:36:16] tem que falar mandarim. Não precisa.
[00:36:17] Pode deixar que a gente aprenda o inglês
[00:36:18] e a gente vai até vocês.
[00:36:20] Porque se vocês tiverem que aprender mandarim,
[00:36:22] a gente tem que ensinar vocês,
[00:36:24] aí vocês tem que vir aqui entender como é que funciona.
[00:36:26] A gente não está afim. Não é isso que a gente quer.
[00:36:29] Então pode deixar que a gente vá até vocês.
[00:36:31] Então tende a ser uma liderança diferente
[00:36:33] da liderança francesa, britânica e americana.
[00:36:36] Eu tinha até preparado essa pergunta mesmo
[00:36:39] que você já respondeu, né?
[00:36:41] Então qualquer tipo de soft power, digamos assim,
[00:36:44] vai ser um efeito colateral.
[00:36:45] Não é uma coisa planejada, estruturada, nada disso, né?
[00:36:48] Não faz parte do modelo de exportação, né?
[00:36:51] Engraçado isso.
[00:36:53] Não, não faz. Tanto é que, de novo,
[00:36:55] se as crianças brasileiras quiserem a partir de agora
[00:36:57] se espelhar nas crianças chinesas,
[00:36:59] eu sinceramente não sei o que eu deveria fazer
[00:37:02] para a minha filha gostar de uma coisa chinesa.
[00:37:03] Porque eu não sei o que as crianças chinesas gostam.
[00:37:05] Não faço a menor ideia. Não tenho ideia.
[00:37:08] Para você se espelhar nas crianças americanas,
[00:37:10] francesas, britânicas, italianas, argentinas,
[00:37:12] é mais fácil, né? A gente sabe quais são os hábitos.
[00:37:16] No quesito do soft power,
[00:37:18] eu acho que talvez a coisa em que
[00:37:21] dos poucos pontos em que a China
[00:37:24] acaba se mostrando, assim,
[00:37:27] e também porque é uma questão de competição mesmo, né?
[00:37:30] É no quesito do esporte.
[00:37:32] Então, assim, o esporte chinês
[00:37:35] nos últimos tempos tem criado
[00:37:38] uma geração absurda, assim, né?
[00:37:41] Até porque é aquele negócio, né?
[00:37:43] Meu Deus, você tem tanta gente aí.
[00:37:45] Não é possível que você não encontre 11 para jogar futebol, né?
[00:37:47] Então…
[00:37:50] É, os esportes lá têm tomado uma proporção diferente,
[00:37:54] têm tornado uma profissionalização diferente.
[00:37:57] No próprio futebol, você vê já há alguns anos
[00:38:01] gente de nome, de peso, gabaritada,
[00:38:04] indo para lá para ganhar uma fábula,
[00:38:06] que é justamente para elevar o nível das competições lá
[00:38:10] e, com isso, trazer mais olhos ocidentais para lá, né?
[00:38:14] Então, você pega, sei lá,
[00:38:16] na Olimpíada de 84, de Los Angeles,
[00:38:20] a China ganhou 32 ouros.
[00:38:23] Aliás, 32 medalhas.
[00:38:26] No Brasil, em 2016, foram 71.
[00:38:31] Então, assim, eles vêm criando
[00:38:34] um novo nível de excelência no esporte
[00:38:37] para as suas coisas, que acaba transparecendo, assim, né?
[00:38:40] E aí entra todo aquele imaginário ocidentalizado, né?
[00:38:44] Jaida, a perseverança oriental,
[00:38:47] a concentração, não sei o quê, essa romantização.
[00:38:50] A disciplina.
[00:38:51] É, esse negócio que é uma romantização do cacete, né?
[00:38:54] É, e eu não sei, Thiago, eu não me preparei para isso,
[00:38:57] mas, se eu não me engano,
[00:38:59] nas últimas Olimpíadas, aqui no Rio,
[00:39:02] a China esteve no topo do quadro de medalhas, né?
[00:39:05] Ela, tipo, aspas, ganhou as Olimpíadas,
[00:39:07] ou algo parecido com isso, né?
[00:39:09] Foi um resultado que foi realmente muito impressionante
[00:39:12] em termos esportivos.
[00:39:14] Mas isso reflete também um investimento
[00:39:18] que a China fez, que a Índia fez,
[00:39:20] e que o Brasil não fez,
[00:39:22] que é um investimento em educação.
[00:39:24] Na maior parte desses países que você tem
[00:39:26] um resultado esportivo inacreditável,
[00:39:29] a gente olha muito para a parte esportiva, sim.
[00:39:31] É claro que tem.
[00:39:33] Mas você, normalmente, vincula isso muito à educação.
[00:39:35] Você tem escolas que incentivam,
[00:39:37] você tem universidades que dão bolsa
[00:39:39] para quem faz esporte.
[00:39:42] Então, talvez a coisa mais visível
[00:39:44] nos Estados Unidos, por exemplo, seja o basquete, né?
[00:39:46] Sempre você poder entrar numa liga universitária,
[00:39:48] você tem que estar na universidade.
[00:39:49] Não tem jeito.
[00:39:50] Você pode ser um baita jogador de basquete,
[00:39:51] se você não estiver na liga universitária,
[00:39:53] você vai ter dificuldade de entrar na NBA.
[00:39:55] Dificilmente você vai estar, portanto,
[00:39:56] no topo daqueles que jogam basquete no planeta.
[00:39:59] Então, tanto a China quanto a Índia fazem muito isso.
[00:40:02] E a China, aí tem uma questão de soft power importante, né?
[00:40:06] Como você falou, que ela usa isso muito
[00:40:08] como a propaganda do êxito, né?
[00:40:11] Assim, olha só, vocês estão achando que a China
[00:40:13] ficou para trás e tal, mas dá uma olhada aqui
[00:40:15] na galera que a gente está criando
[00:40:17] em todas as modalidades, né?
[00:40:18] Na natação, nos esportes coletivos e tudo,
[00:40:21] a China já não é mais aquele…
[00:40:23] o pato das Olimpíadas.
[00:40:25] Durante muito tempo, a gente olhava para a China
[00:40:26] e falava assim, coitada da China, né?
[00:40:28] Não vai dar nem para a saída.
[00:40:30] Só no futebol que a gente não conseguiu, né?
[00:40:31] Futebol, assim, continua sendo…
[00:40:33] É, está difícil.
[00:40:35] Não consegue fazer embaixadinha ainda, não.
[00:40:37] Essa coisa do 5G que está dando essa treta
[00:40:39] em tudo quanto é lugar,
[00:40:41] está todo mundo…
[00:40:42] mil teorias, mil ideias,
[00:40:44] você já falou um pouco e tal,
[00:40:46] mas como é que está sendo isso?
[00:40:49] Faz parte desse projeto todo,
[00:40:51] investimento nisso,
[00:40:53] só para coletar informação?
[00:40:55] Tem algo mais por trás disso?
[00:40:57] Como é que está esse lance?
[00:40:59] Então, qual é o lance do 5G, né?
[00:41:02] A tecnologia atualmente é uma tecnologia muito rápida.
[00:41:05] É quase clichê falar isso, né?
[00:41:07] Mas ela se renova muito rapidamente.
[00:41:09] O que significa que o seu histórico
[00:41:11] com relação à tecnologia que você já criou,
[00:41:14] em um determinado momento,
[00:41:15] ela começa a importar muito pouco.
[00:41:16] Ela começa a fazer pouca diferença,
[00:41:17] porque se você não é capaz de dar o próximo salto,
[00:41:20] algum outro vai dar.
[00:41:22] E a China conseguiu ao longo dos últimos anos, de fato,
[00:41:25] entender como é que a tecnologia pré-igressa funcionava
[00:41:28] e ela consegue criar em cima disso.
[00:41:30] Então, não é por acaso que foi exatamente
[00:41:32] uma empresa chinesa, que é a Huawei.
[00:41:33] Eu até hoje não sei como é que fala isso, tá?
[00:41:35] Pois é, já ouvi 18 pronúncias diferentes.
[00:41:39] Pois é.
[00:41:40] Aí eu fiquei…
[00:41:41] Estou sendo sincero comigo mesmo.
[00:41:43] Eu acho que é a Huawei e eu falo Huawei.
[00:41:45] E é isso.
[00:41:46] A Huawei, ela conseguiu fazer,
[00:41:48] formular a sua própria tecnologia de 5G.
[00:41:51] Qual é o perigo com relação ao 5G?
[00:41:53] A partir do momento em que a rede 5G
[00:41:56] começa a ser instalada no mundo inteiro,
[00:41:58] com a tecnologia da Huawei,
[00:42:00] é muito difícil você substituir.
[00:42:03] Então, não é assim.
[00:42:04] O Brasil vai adotar a Huawei,
[00:42:06] vai adotar o 5G da Huawei,
[00:42:08] e aí, daqui a dois anos, a Microsoft,
[00:42:10] ou outra empresa, a Siemens alemã,
[00:42:13] vai lá e faz um 5G,
[00:42:14] e a gente coloca aqui também.
[00:42:16] Não é também,
[00:42:17] porque você tem que saber se o seu celular,
[00:42:19] você tem que saber se o seu computador,
[00:42:20] você tem que saber se todos aqueles gadgets,
[00:42:25] que são a internet das coisas e tal,
[00:42:27] com qual 5G que elas vão se comunicar.
[00:42:30] Então, é um ponto importante que é,
[00:42:32] os outros países estão tentando retardar
[00:42:34] a implementação do 5G da Huawei,
[00:42:37] porque senão, a Huawei, ela vai se tornar,
[00:42:39] basicamente, a provedora de 5G para o mundo inteiro.
[00:42:42] Então, você tem duas corridas aí,
[00:42:44] uma para você conseguir desenvolver o 5G,
[00:42:46] e a outra é mais à frente do pessoal já começando
[00:42:49] a tentar imaginar o 6G.
[00:42:51] Então, a Coreia do Sul, por exemplo, já disse que…
[00:42:53] Socorro!
[00:42:54] A Coreia do Sul já tem um projeto para,
[00:42:56] daqui a alguns poucos anos, já ter o 6G,
[00:42:58] porque o 5G, ele vai ser superado em breve,
[00:43:00] já tem que ter a próxima geração.
[00:43:02] Caraca, parece, sabe o quê?
[00:43:04] Essa coisa de lâmina de barbear com, sabe?
[00:43:07] Gelete com oito lâminas.
[00:43:08] Exatamente.
[00:43:09] Aí, lança outro depois com nove.
[00:43:11] Caraca, que desespero, vai chegar aonde isso?
[00:43:13] E, assim, tem uma desconfiança grande,
[00:43:15] que eu, sinceramente, acredito,
[00:43:17] não é uma desconfiança absolutamente infundada,
[00:43:21] que tem correta de dados nisso tudo.
[00:43:23] Você imagina, você tem um 5G que, na sua casa,
[00:43:26] acende a lâmpada, liga a televisão,
[00:43:29] sabe a hora que você acorda, a hora que você vai dormir,
[00:43:31] qual o tipo de café que você consome,
[00:43:33] qual a cafeteira que você tem,
[00:43:35] como é que você usa o celular, qual o horário.
[00:43:37] O celular controla a casa inteira.
[00:43:39] É óbvio que tem informações coletáveis ali
[00:43:42] e, óbvio, que se você tem uma internet
[00:43:44] que ela está sendo oferecida,
[00:43:47] que ela está sendo levada para a sua casa por uma empresa,
[00:43:50] essa empresa tem acesso a esses dados.
[00:43:52] E, na China, você tem empresas que são ligadas ao governo.
[00:43:56] Ponto.
[00:43:57] Então, a Huawei é uma empresa com ligações com o governo.
[00:44:00] É difícil para mim acreditar que não vai ter qualquer tipo de
[00:44:03] passagem de informações da sua casa para a Huawei
[00:44:06] e da Huawei para o governo chinês.
[00:44:08] E se o governo chinês, portanto, tem informações com relação
[00:44:11] a absolutamente tudo o que eu faço na minha casa,
[00:44:13] o que é que me entretenho, o que é que me aborrece,
[00:44:15] o que é que eu falo, o que é que eu consumo e tal,
[00:44:17] tem condições de me vender mais produtos
[00:44:19] e tem condições de, a partir do meu comportamento,
[00:44:22] ter uma série de ingerências com relação ao que acontece
[00:44:25] dentro da minha casa, na minha comunidade, na minha cidade,
[00:44:28] no meu país.
[00:44:30] O que é curioso aí, na verdade, é uma certa disposição
[00:44:33] da população mundial em ceder informações para o Facebook.
[00:44:36] Mas não para a China.
[00:44:37] Aí você tem uma questão cultural importante.
[00:44:39] Eu estou plenamente disposto a falar absolutamente
[00:44:41] tudo o que eu faço para a Apple, para o Facebook,
[00:44:44] para o Twitter e para o Instagram.
[00:44:46] Mas para a China, não.
[00:44:47] Por quê?
[00:44:48] Porque a China, eu não gosto tanto.
[00:44:50] Então você tem uma questão cultural aí que é importante também.
[00:44:52] Mas o 5G é uma fronteira absolutamente indispensável
[00:44:55] para a gente conseguir entender esse movimento todo.
[00:44:58] Eu trabalho com tecnologia, então isso é justamente
[00:45:01] onde eu pego no calo.
[00:45:03] Porque sempre vem esse negócio da privacidade,
[00:45:05] dados para a China, não sei o quê, não sei o quê.
[00:45:07] Mas, mano, a gente já sabe, por conta do Wikileaks,
[00:45:10] que a NSA tinha um backdoor direto em todo o celular Apple.
[00:45:15] Então, qual é exatamente o seu problema com a China, né?
[00:45:19] Porque, cara, está acontecendo exatamente a coisa
[00:45:23] que você especula que acontecerá.
[00:45:25] Está acontecendo nesse exato momento com o outro lado dessa questão.
[00:45:29] Você sabe o que eu lembro disso?
[00:45:31] Eu lembro disso o tempo todo.
[00:45:33] Isso é uma coisa que fica muito na minha cabeça.
[00:45:35] Que é o 1984, né?
[00:45:37] A teletela.
[00:45:39] As pessoas serão obrigadas a ter uma teletela na sua casa.
[00:45:42] E a teletela te diria o que fazer.
[00:45:44] Saberia tudo o que você faz.
[00:45:46] Seria um monitoramento constante.
[00:45:48] E aí você tem uma tragédia que é o fato de que a gente opta
[00:45:51] por ter a teletela, né?
[00:45:53] A gente tem um celular na nossa mão e que a gente cede as informações
[00:45:56] não porque tem um regime totalitário que nos obriga.
[00:45:59] Mas a gente quer ceder.
[00:46:01] O celular sabe com quem que a gente fala.
[00:46:03] O celular sabe o que dá tesão.
[00:46:05] O celular sabe quem que a gente gosta.
[00:46:07] O que que a gente não gosta.
[00:46:09] O celular sabe absolutamente tudo e a gente quer ceder.
[00:46:11] E tem mais do que isso.
[00:46:13] A gente inclusive escolhe…
[00:46:15] A gente gostaria de escolher…
[00:46:17] A gente não escolhe.
[00:46:18] A gente gostaria de escolher para quem que a gente está disposto a ceder.
[00:46:20] Pega aí esse negócio todo.
[00:46:21] Esse FaceApp.
[00:46:22] Aí o pessoal fala assim…
[00:46:23] Caramba, mas eu não sabia que você tinha informação.
[00:46:25] Como que você não sabia?
[00:46:27] Como que você não sabia?
[00:46:29] A gente fica desesperado.
[00:46:30] Não fala disso não que dá gatilho.
[00:46:32] Quem está disposto a ceder todas as informações da sua vida
[00:46:35] para saber como é que você seria com 83 anos?
[00:46:38] A pessoa…
[00:46:39] Sim, eu estou disposto.
[00:46:40] Aí a China pergunta a mesma coisa.
[00:46:42] Você fala assim…
[00:46:43] Porra, jamais.
[00:46:44] Eu nunca cederia as minhas informações para a China.
[00:46:47] Meu amigo, você já está cedendo.
[00:46:49] E aí tem gente que agora vem me perguntar
[00:46:53] por causa da aula que eu dei do Petit Jornal junto com o Daniel.
[00:46:56] Que a gente falou exatamente sobre isso.
[00:46:58] A gente deu uma aula gratuita.
[00:46:59] Está lá no YouTube.
[00:47:01] TikTok versus Instagram.
[00:47:03] E aí o pessoal fala assim…
[00:47:04] Porra, então para eu irritar o Trump eu tenho que fazer uma conta no TikTok?
[00:47:08] Aí eu falo assim…
[00:47:09] Olha, você tem autonomia para ceder todos os seus dados para quem você quiser.
[00:47:12] Pode ser para a China.
[00:47:13] Pode ser para os Estados Unidos.
[00:47:14] Pode ser para quem você quiser.
[00:47:15] Mas que você está cedendo os seus dados, você está.
[00:47:18] Não tem jeito.
[00:47:19] Inclusive uma coisa que aconteceu recentemente é que…
[00:47:22] Até, sei lá, 10, 15 anos atrás a gente tinha essa cabeça muito formada de que…
[00:47:30] mercadoria, produto vindo da China é aquele negócio de baixa qualidade
[00:47:37] que entrou pelo Paraguai e você vai comprar muito barato sem saber quanto vai durar e tal.
[00:47:44] E de uns tempos para cá e eu trabalhando em tecnologia na minha empresa
[00:47:49] agora está cheio de testemunha de Xiaomi.
[00:47:52] Então tem aquele cara que está evangelizando a palavra de Xiaomi.
[00:47:57] É engraçado como essa chave virou agora.
[00:47:59] É.
[00:48:00] Como tem gente virando evangelizador de marca chinesa.
[00:48:04] Pois é.
[00:48:05] Não, todo mundo que falou sobre o Made in China tem que olhar para a sua mesa.
[00:48:09] Nesse momento, por exemplo, que eu estou falando com vocês, eu tenho um abajur, tenho um laptop
[00:48:14] de ótima qualidade, tenho dois celulares, um no qual eu estou gravando o que a gente
[00:48:18] está falando aqui, um que é o meu que eu uso, tenho um ring light e tudo que está
[00:48:21] aqui em cima da minha mesa é chinês.
[00:48:22] Tudo.
[00:48:23] Absolutamente tudo.
[00:48:24] Isso foi exatamente uma tentativa que o ocidente teve de tentar parar a China.
[00:48:28] Então a brincadeira que eles fizeram foi a seguinte.
[00:48:30] Beleza, a gente aceita que a China entre na Organização Mundial do Comércio.
[00:48:34] Isso aconteceu em 2001.
[00:48:35] Aliás, os Estados Unidos precisavam que a China entrasse para ter apoio lá para a Guerra
[00:48:40] do Terror.
[00:48:41] Então teve o 11 de setembro.
[00:48:42] Como é que eu faço para a China me apoiar?
[00:48:43] Pô, me coloca dentro da OMC que eu te apoio.
[00:48:45] Dito e feito, colocou a China para dentro da Organização Mundial do Comércio e a China
[00:48:49] apoia a Guerra do Terror.
[00:48:50] E aí o que o ocidente diz é o seguinte.
[00:48:53] Pô, mas aí não, porque se a gente coloca a China para dentro da OMC, os produtos chineses
[00:48:58] são baratos demais.
[00:48:59] Então vai começar a inundar o nosso mercado.
[00:49:01] Então o que a gente vai fazer?
[00:49:02] A China pode vender para a gente, mas a China é obrigada a vender por um preço mais alto.
[00:49:08] Então vamos tentar imaginar aqui.
[00:49:09] A China faz um determinado produto que no mundo inteiro custa, sei lá, 10 dólares.
[00:49:15] E a China é capaz de vender esse produto por 3, porque ela tem tanta mão de obra,
[00:49:19] ela tem uma capacidade tão grande de produção que ela consegue produzir aquilo muito mais
[00:49:23] barato.
[00:49:24] Ela produz por 3.
[00:49:25] Aí o mundo fala assim.
[00:49:26] Não, China.
[00:49:27] Eu vou vender por 3, porque se eu vendo por 10 e você vende por 3, eu vou quebrar.
[00:49:30] E aí o acordo que foi feito é o seguinte.
[00:49:32] Olha, China, você é obrigada a vender por 10.
[00:49:34] Isso significa que a China poderia vender por 3.
[00:49:37] Ela está produzindo por 2 e ela poderia vender com lucro por 3.
[00:49:40] Ela está sendo obrigada a vender por 10.
[00:49:42] O que ela vai fazer com essa margem inacreditável de um custo de produção de 2 e uma venda
[00:49:48] por 10?
[00:49:49] Ela tem 8 dólares por produto sobrando.
[00:49:52] O que ela vai fazer é que ela vai investir em tecnologia.
[00:49:55] Ela tem que vender por 10.
[00:49:56] Porque, pela regra, ela tem que vender por 10.
[00:49:58] Então, o que vai começar a acontecer é que o produto vendido pela China é o mesmo
[00:50:02] produto que é vendido pelos Estados Unidos, pela Alemanha, pelo Vietnã e pelo Brasil.
[00:50:06] Só que o produto vai começar a ter cada vez mais qualidade.
[00:50:09] E aí as empresas ocidentais começam a ver que é melhor ir para lá para produzir lá.
[00:50:15] E aí você tem a Nike que vai para lá.
[00:50:17] Aí você tem a Apple que vai para lá.
[00:50:18] Aí você tem a Microsoft que vai para lá.
[00:50:20] De modo que, nesse momento, a China produz com valores muito baixos, com uma margem de
[00:50:25] lucro inacreditável, uma capacidade inacreditável de inovação, muita tecnologia indo para
[00:50:32] lá não porque ela está pedindo, mas porque estão querendo ir para lá porque é mais
[00:50:35] barato mesmo.
[00:50:36] E isso faz com que, portanto, a China consiga criar uma Xiaomi, por exemplo.
[00:50:40] A ponto de…
[00:50:41] Eu conheço os evangelizadores que vêm com iPhone e falam assim, porra, mas você usa
[00:50:45] iPhone?
[00:50:46] Que absurdo você usar…
[00:50:47] Coisa paleolítica.
[00:50:48] O iPhone é chinês e a Xiaomi também é chinesa.
[00:50:53] E a Huawei também é chinesa.
[00:50:54] Vem cá, você estava falando dessa contraposição, falando de contraposição dos Estados Unidos
[00:51:01] com China e tal.
[00:51:03] Saiu um artigo ontem, que eu estava lendo agora no site da RT, falando que o Pentágono
[00:51:09] admitiu, confirmou que a China está investindo mais em construção de navios militares e
[00:51:19] porta-aviões, enfim, de infra militar do que na China.
[00:51:22] Já ultrapassou em termos de investimento.
[00:51:25] E aí, também se falava de uma certa, talvez, necessidade de polarização por causa da influência
[00:51:33] da China no mar da China Meridional.
[00:51:36] E todo mundo que atua ali, a um certo ponto, seria meio que forçado a escolher, digamos
[00:51:42] assim, entre Estados Unidos e China.
[00:51:44] E considerando esse novo poderio militar da China, esse novo poderio militar da China,
[00:51:51] existe, você acha, um risco de uma nova Guerra Fria?
[00:51:55] Letícia, eu acho que a gente já está vivendo essa Guerra Fria.
[00:51:58] É uma Guerra Fria em termos diferentes daquela da Guerra Fria.
[00:52:03] Pois é, não é aquilo que a gente viu.
[00:52:04] Aquela Guerra Fria era muito baseada em modelos que tinham uma questão cultural, inclusive,
[00:52:11] envolvida.
[00:52:12] Então, os países, de uma certa forma, eles escolhiam por fazer parte do… escolhiam,
[00:52:17] enfim, com opção ou não, mas, eventualmente, eles estavam em dois mundos.
[00:52:21] Em blocos diferentes com um sete complexo de questões políticas, econômicas, culturais
[00:52:26] e tal.
[00:52:27] Toda uma estética em volta de dois modelos.
[00:52:30] A China não quer ser uma nova União Soviética.
[00:52:33] Ela não quer ficar escondida nas suas ideias.
[00:52:35] Ela não quer que ninguém seja maoísta.
[00:52:37] Ela não quer nada disso.
[00:52:38] Ela quer mandar dinheiro.
[00:52:40] Ela quer que você aceite o dinheiro dela, que você se endivide com ela, que você faça
[00:52:43] comércio com ela, que você consuma os produtos dela.
[00:52:46] É isso que ela quer.
[00:52:47] Mas, eu acho que nesse sentido já tem uma Guerra Fria rolando.
[00:52:50] Porque há meio que um… lembra a primeira rodada do jogo de War, que você vai colocando,
[00:52:55] você tem um mapa aberto, você vai colocando as pecinhas ali para saber quem é que vai
[00:52:58] conquistar cada território.
[00:53:00] Essa rodada já está acontecendo e você está olhando para o mapa, você está vendo
[00:53:04] largas áreas com pecinhas vermelhas da China.
[00:53:08] E os Estados Unidos estão ali tentando conquistar novos territórios.
[00:53:11] E a China tem utilizado a estratégia que é exatamente de não deixar aberta a possibilidade
[00:53:18] de alguém querer atacar a China.
[00:53:19] É o seguinte.
[00:53:20] Não está na mesa a possibilidade de você atacar a China.
[00:53:23] Não é apenas porque eu tenho bombas nucleares, mas é porque eu também tenho uma marinha
[00:53:27] forte, porque, mal ou bem, se os Estados Unidos são responsáveis por um quarto de
[00:53:32] todo o gasto militar mundial, então 26%, para ser mais exato, a China tem 14%.
[00:53:38] Se somos dois da 40%, não é, ah, mas um é 26, outro é 14, e esse que investe 26
[00:53:44] vai poder atacar o de 14.
[00:53:46] Não está no horizonte os Estados Unidos atacarem a China.
[00:53:49] Então, para mim, isso já é um standoff, já é uma espécie de guerra fria, já é uma
[00:53:54] situação na qual um não vai atacar o outro, mas você já tem um nível de rivalidade muito
[00:53:59] elevado, e o que eu acho que a China vai viver ao longo dos próximos anos é, ela vai começar
[00:54:04] a ganhar espaço do ponto de vista econômico, mas vai haver uma união política contra
[00:54:09] ela, e em algum momento ela pode ser isolada, sim.
[00:54:11] Vai ser interessante, vai ser um tempo difícil, mas vai ser interessante de entender como
[00:54:17] é que esse tabuleiro vai ser montado.
[00:54:18] Quanto tempo você acha que rola uma coisa dessas, assim?
[00:54:21] Ah, eu acho que nos próximos, talvez, 5 a 10 anos a gente vai ver como é que isso vai rolar.
[00:54:26] Depois de amanhã, praticamente.
[00:54:27] Depende de saber como é que a China vai reagir.
[00:54:28] Ah, então, é muito perto porque é para agora.
[00:54:30] De novo, eu estou falando que o 5G não é, ah, vamos ver quem é que vai ter adotado
[00:54:35] esse 5G chinês ou não daqui a 10 anos.
[00:54:37] É hoje, 2020, 2021, 2022.
[00:54:40] Se passar disso, já vai ter o 6G, já vai ser outra parada e outra disputa, e me parece
[00:54:45] que a China está se posicionando para estar sempre no 5G.
[00:54:48] Estruturalmente, tá?
[00:54:49] Sempre à frente dos outros.
[00:54:51] E economicamente vai ser a maior economia, tecnologicamente vai ser a maior potência,
[00:54:56] vai coletar dados, sim, de nós ocidentais, vai ter o TikTok e tal, senão o TikTok vai
[00:55:02] ser outro, então a disputa está exatamente aí.
[00:55:05] É questão de dados, é questão econômica, é questão de quem é que vai se colocar
[00:55:09] mais próximo à China e quem é que vai conseguir resistir a isso.
[00:55:18] Aproveitando para falar dessa questão econômica, Tang, você acha que assim, esse período de pandemia
[00:55:46] de alguma forma acelerou isso, uma vez que agora todo tipo de Estado vai precisar se endividar
[00:55:53] mesmo, né?
[00:55:54] Até o próprio Daniel falou recentemente sobre isso também, que agora os Estados estão
[00:55:58] na obrigação de se endividar para fornecer algum colchão de sustentação para as suas
[00:56:04] classes mais baixas e também para um reforço dos seus próprios sistemas de saúde, e aí
[00:56:11] muitos desses vão ter que acabar recorrendo ao dinheiro chinês, né?
[00:56:15] É, eu acho que aí tem duas coisas, né?
[00:56:17] A primeira delas é isso que você falou, que é de todo mundo precisar de liquidez e quem
[00:56:22] tem liquidez muita no mundo é a China, então isso vai ser um ponto importante, eu não
[00:56:27] tenho nenhuma dúvida disso.
[00:56:28] E tem um outro ponto importante também que é o seguinte, é como se a pandemia fosse
[00:56:33] o momento no qual o carro de todo mundo parou, porque a economia do mundo inteiro parou.
[00:56:38] E aí a gente vai ter que ver agora qual é a economia que tem o maior arranque, ou seja,
[00:56:43] quem é que vai conseguir sair na frente.
[00:56:44] Aí um doce para quem adivinhar quem é que vai conseguir fazer isso, né?
[00:56:47] Me parece claro que a China foi a primeira prejudicada e não apenas por ter sido a primeira
[00:56:54] prejudicada, mas porque estruturalmente ela tem uma capacidade maior de arrancar na frente
[00:56:58] dos outros, ou seja, a diferença da China para quem está atrás vai aumentar e a diferença
[00:57:03] da China para os Estados Unidos vai diminuir, porque os Estados Unidos vão, não tem jeito,
[00:57:07] demorar muito mais para ser recuperado que a China.
[00:57:09] Tanto é que a China já está num mundo meio pós pandemia e os Estados Unidos estão
[00:57:13] chafurdando lá, os Estados Unidos estão no meio da crise.
[00:57:16] Aliás, esse é um ponto no qual a gente tem uma grande identificação com os norte-americanos,
[00:57:19] estão no meio da pandemia, não começaram a sair ainda, eles estão ainda dentro dela.
[00:57:25] Então, nesse sentido, você imagina, enquanto a gente está falando agora, a China está
[00:57:29] voltando a crescer economicamente, está tentando se recuperar, esse é um momento dramático
[00:57:33] do ponto de vista econômico, mas vai conseguir se recuperar rapidamente e os Estados Unidos não.
[00:57:37] Então, eu acho que a gente chega em um determinado ponto no qual a China era tão
[00:57:43] competitiva, ela é tão forte nesse ponto, ela é tão gigantesca nos seus movimentos
[00:57:47] que qualquer coisa que aconteça, ela vai tirar vantagem, ela vai sempre se dar bem.
[00:57:51] Se o mundo todo começar a crescer, o mundo inteiro vai comprar mais iPhone que é produzido
[00:57:55] na China, mais computador que é produzido na China, mais carro feito na China, mais
[00:57:58] tudo produzido na China.
[00:57:59] Se todo mundo parar, a China vai ser capaz de produzir mais do que os outros, vender
[00:58:03] mais do que os outros, então ela está sempre em vantagem.
[00:58:05] Nesse momento, não tem muito para onde correr.
[00:58:08] Caramba, das vantagens de ser um leviatã, né?
[00:58:12] Porque, putz grila.
[00:58:14] E como é que fica o Brasil nesse negócio todo aí?
[00:58:16] A gente tem alguma…
[00:58:18] Porque a gente fica pensando, rota da sede, Europa, não sei o quê.
[00:58:21] Tá, mas eles têm investimentos programados em países da América do Sul também,
[00:58:25] na América Central, tinha todo um lance, um projeto que começou na Nicarágua
[00:58:29] para abrir um canal para eles não precisarem usar o canal do Panamá,
[00:58:33] embora essa obra tenha sido interrompida.
[00:58:36] Mas o Brasil tem alguma coisa com isso?
[00:58:40] Então, a gente entrou nisso de alguma forma?
[00:58:42] Tem plano de investimento deles aqui?
[00:58:44] Então, o Brasil resolveu comprar briga com a China na hora que ela estava distribuindo
[00:58:48] dinheiro para o mundo inteiro. Foi a opção histórica que a gente fez.
[00:58:51] Agora que a China está distribuindo…
[00:58:55] Silvio Santos, quem quer dinheiro, o Brasil resolveu que vai fazer cara feia para a China.
[00:58:59] Na verdade, o Brasil, o atual governo brasileiro, ele tem uma posição muito dúbia com relação
[00:59:03] à China e isso reflete os diferentes grupos que fazem política externa no Brasil.
[00:59:08] A gente tem um grupo que formula, de alguma forma, a política externa no Brasil.
[00:59:10] Que são os liberais, liderados pelo Guedes.
[00:59:15] Que diz o seguinte, não interessa se eles são comunistas, se eles são capitalistas,
[00:59:18] se a bandeira é vermelha, não importa. Não interessa.
[00:59:21] Vai lá e arruma dinheiro com eles. Aí o Bolsonaro vai lá, abraça o Xi Jinping.
[00:59:25] Já encontrou com o Xi Jinping duas vezes. Deu uma camisa do Flamengo para ele.
[00:59:29] Não tem um erro, assim, grotesco. Não pode fazer uma coisa dessas.
[00:59:32] Deu uma camisa do Flamengo para ele. Casaco, enfim.
[00:59:35] Mas, assim, você tem uma tentativa de aproximação e o Xi Jinping virou para ele e falou assim, olha,
[00:59:38] eu estou disposto a fazer um fundo para você.
[00:59:42] A China não sabe brincar, tá? A brincadeira é saudável. A China não tem.
[00:59:46] Vou fazer um fundo, vou deixar à sua disposição um fundo de 100 bilhões de dólares.
[00:59:51] E eu deixo para você ir para fazer investimento em infraestrutura,
[00:59:54] vou conseguir banco para investir, outros países e tal.
[00:59:57] E eu vou liderar um fundo de 100 bilhões de dólares que eu coloco na sua mão.
[01:00:00] Ao mesmo tempo, tem no mesmo governo a galera do chapéu de alumínio.
[01:00:07] E aí você tem o próprio Ernesto Araújo, você tem a galera olavista, o Eduardo Bolsonaro e tal,
[01:00:16] que tem uma questão cultural que é a China não pode. A China a gente não aceita porque a China é comunista.
[01:00:22] Então, você tem um choque que em alguns momentos o governo emite declarações extremamente duras, racistas,
[01:00:30] a gente lembra do Weintraub, declarações racistas, duras, declarações que geram cisão com a China.
[01:00:36] Em determinado momento você tem um momento de aproximação.
[01:00:39] Agora, como é que a China se posiciona em relação a isso tudo?
[01:00:42] Você fala mal da China hoje, ela se chateia, ela reclama.
[01:00:45] Se amanhã você mandar um WhatsApp para ela e falar assim, pô China, vamos superar aquilo ali, você me empresta dinheiro?
[01:00:51] Sim, empresto, não tem problema. Eu coloco dinheiro porque a diplomacia dela é uma diplomacia menos cultural,
[01:00:56] menos eu quero demonstrar a minha liderança por meio de aspectos culturais, demonstrações de liderança
[01:01:03] e mais uma questão de uma diplomacia econômica.
[01:01:06] A diplomacia do cheque.
[01:01:08] Mais pragmática a coisa, né?
[01:01:10] Muito mais pragmática, exatamente.
[01:01:12] Tiago, você está muito quieto hoje.
[01:01:15] Não, eu estou aprendendo pra caramba aqui, eu estou anotando algumas coisas.
[01:01:19] E aí, quando eu tenho a hora para entrar, aí eu tenho que buscar aqui nas minhas anotações o que eu tinha.
[01:01:26] Mas ainda sobre essa parte da América do Sul, o que tem se desenhado agora, agora em 2020 praticamente,
[01:01:35] é aquele alinhamento que nós continuamos tendo com o governo Trump que aparentemente está definhando,
[01:01:43] o problema é que a gente chegou no dia da eleição americana dizendo que a Hillary estava eleita
[01:01:50] e todo mundo caiu do cavalo, então não dá para dar isso como certo, né?
[01:01:54] Mas ao mesmo tempo que a gente continua tendo esse alinhamento entre Bolsonaro e Trump,
[01:02:00] nós temos uma investida muito forte
[01:02:04] e uma investida é uma palavra boa porque dá para usar em mais de um contexto muito forte na Argentina, né?
[01:02:12] Então, a China está entrando para valer na Argentina, nós já não somos o primeiro,
[01:02:17] o top 1 entre parceiros comerciais da Argentina por causa dessa investida chinesa
[01:02:22] e caso aconteça a tragédia maior assim de continuar o Trump lá escalando esse tipo de tensão com a China
[01:02:32] e esse tipo de…
[01:02:34] alinhamento nosso se acirrando também,
[01:02:36] é possível que a gente tenha um eixo regional aqui entre Brasil, Estados Unidos, Argentina e China
[01:02:43] que de alguma forma, de que formas isso poderia nos afetar e afetar os outros vizinhos?
[01:02:50] É, eu acho que não tem muita clareza ainda de como é que a China se posiciona nesse sentido,
[01:02:58] assim, quais são as intenções da China com relação a Argentina.
[01:03:01] Me parece…
[01:03:02] Eu vou voltar a falar o que eu falei antes,
[01:03:04] eu acho que é uma aproximação muito mais econômica do que qualquer outra coisa.
[01:03:08] Então, é provável que a Argentina passe a ter relações cada vez mais intensas, mais aprofundadas,
[01:03:16] mais amplas economicamente com a China,
[01:03:19] mas menos uma situação de alinhamento, sabe?
[01:03:21] Alinhamento político.
[01:03:22] Então, agora eu vou pegar o que a China faz e eu vou seguir aquilo que a China faz.
[01:03:26] Nesse sentido, são lideranças bem diferentes, né?
[01:03:30] Então, esse é um ponto de curiosidade.
[01:03:32] Porque eu acho que a gente nunca viveu nada parecido com isso.
[01:03:35] A gente nunca teve uma potência mundial desse tipo que a China está pintando que vai ser.
[01:03:41] Mas, a princípio, me parece que a China não tem intenção, por exemplo,
[01:03:44] de fazer da Argentina um país que siga um modelo chinês.
[01:03:48] Não é esse o objetivo.
[01:03:50] O objetivo é fazer com que a Argentina compre mais da China, venda mais para a China,
[01:03:55] receba investimentos chineses, eventualmente deixe a China, por exemplo, comprar empresas chinesas estatais,
[01:04:01] empresas argentinas, estatais argentinas e passe a ter uma presença maior ali.
[01:04:07] Mas, não sei em que ponto que a Argentina, do governo Fernandes,
[01:04:12] eventualmente passe a ter um alinhamento político à China.
[01:04:16] Não sei nem se a China acha isso desejável.
[01:04:18] Agora, claramente, você vai ter uma proximidade maior da China à Argentina,
[01:04:23] mas lembrando que o comércio, por exemplo, entre Brasil e China não é pouco maior, não.
[01:04:29] É muito maior do que o comércio.
[01:04:30] É muito maior do que o comércio Brasil-Estados Unidos.
[01:04:33] A gente está falando sobre um comércio que, no ano passado, entre Brasil e China,
[01:04:37] virou quase os 100 bilhões de dólares, com 30 bilhões superados para o Brasil.
[01:04:42] O Brasil, portanto, recebeu de moeda estrangeira, de dólares, 30 bilhões de dólares vindos da China.
[01:04:49] Só para a gente comparar, o comércio Brasil-Estados Unidos, ano passado, foi 60 e pouquinho.
[01:04:54] Estamos falando de 100 bilhões com a China, 60 e pouquinho com os Estados Unidos.
[01:04:58] Não está no horizonte uma reversão disso.
[01:05:01] Então, a China passa a ter uma influência maior na Argentina e o Brasil uma influência maior com os Estados Unidos.
[01:05:07] Só que, se a gente for pensar do ponto de vista estritamente econômico,
[01:05:10] o Brasil já está mais na esfera de influência chinesa do que americana, inclusive em termos de investimento.
[01:05:16] Aí, mais um dado que eu acho sempre muito impressionante.
[01:05:19] Os Estados Unidos têm o que a gente chama de investimento em estoque,
[01:05:23] ou seja, investimento que veio e ficou aqui de cerca de 71 bilhões de dólares.
[01:05:27] A gente está falando sobre um país que investe no Brasil desde sempre.
[01:05:30] Sempre teve investimento americano aqui no Brasil.
[01:05:33] A China que investe há, sei lá, 10 anos, no máximo, no máximo 10 anos,
[01:05:38] já tem investimento no Brasil na casa de 65 bi.
[01:05:41] 65 para 71.
[01:05:43] É tipo, a China vai ultrapassar os Estados Unidos em investimento em estoque no Brasil depois de amanhã.
[01:05:47] Daqui a pouco eles vão comprar um pistolando e pronto.
[01:05:50] O que eu não sei se chegou a andar, não sei em que pé isso ficou,
[01:05:56] mas já havia sido aventado também a possibilidade de uma base militar chinesa na Argentina.
[01:06:04] E aí, por isso até que eu perguntei se poderia, de alguma outra forma,
[01:06:09] isso acabar influenciando até mesmo os vizinhos, sei lá, Paraguai, Uruguai, o próprio Chile.
[01:06:15] E assim, outro problema que eu vejo na Argentina é que eu não sei se a Argentina sabe existir,
[01:06:23] sabe ser alguém sem crise.
[01:06:25] Por quê?
[01:06:26] Porque eu acho que isso nunca ocorreu na sua história.
[01:06:28] E com esse investimento todo na Argentina, a gente vai acabar caindo no que você tinha falado antes
[01:06:34] de um lugar endividado cada vez se endividando mais e virando cada vez mais dependente da própria China.
[01:06:43] Então, onde isso exatamente pode parar?
[01:06:48] Sobre a questão da base, é uma daquelas coisas que eu acho melhor a gente esperar para ver.
[01:06:53] E certamente é um tema dos mais sensíveis.
[01:06:55] Isso é muito sensível.
[01:06:57] Lembrando que a América Latina já cria um fuzuê danado quando os Estados Unidos,
[01:07:03] que estão aqui do lado, criam uma base na Colômbia.
[01:07:05] Isso já é uma gritaria.
[01:07:07] Você imagina a China chegando aqui e fazendo uma base como essa.
[01:07:10] Então, certamente é um daqueles passos que, quando a gente for contar a história da América Latina no século XXI,
[01:07:16] se isso acontecer, vai ter uma sessão do livro só para isso.
[01:07:21] Então, isso não é algo…
[01:07:23] Não dá nem para especular muito.
[01:07:24] Não dá nem para especular muito como é que vai ser.
[01:07:25] Porque a gente tem que ver como é que isso vai ser conduzido.
[01:07:28] E, sim, a Argentina corre um risco muito grande com relação à China nesse sentido,
[01:07:33] porque eu acho que isso foi maldoso dizer que ela nunca viveu sem crise.
[01:07:37] Eu acho que uns 200 anos atrás ela viveu, sim, um bom momento.
[01:07:42] Mentira, mentira.
[01:07:43] No final do século XIX ela viveu um bom momento.
[01:07:46] De lá para cá é só crise o tempo todo.
[01:07:48] E a China, como ela tem muito capital para injetar,
[01:07:53] ela pode, sim, se colocar como a salvadora da pátria.
[01:07:56] E você pegar um governo que, por exemplo, vai passar cinco anos e falar assim,
[01:07:59] olha, eu posso salvar o seu governo.
[01:08:01] No meu governo você vai crescer economicamente.
[01:08:03] Qualquer governo aceita.
[01:08:05] Então, tá bom.
[01:08:06] Então, me dá dinheiro, a gente endivida e depois a gente vê.
[01:08:08] Joga o problema para frente.
[01:08:09] Então, é possível, sim, que a China se coloque nessa posição.
[01:08:12] E deixando claro, não é muito diferente…
[01:08:14] Assim, é diferente em escala, mas não é tão diferente, assim,
[01:08:18] de uma posição que o Brasil pode estar com relação à China também.
[01:08:21] O Brasil também precisa de investimento.
[01:08:23] A China tem investimento para oferecer.
[01:08:25] E os Estados Unidos não têm disposição para fazer os investimentos que o Brasil quer.
[01:08:30] Investimento em infraestrutura e tal.
[01:08:32] Não adianta bater lá na porta do Trump e falar,
[01:08:34] vem cá, você pode fazer um fundo de 100 bilhões para investir em infraestrutura no Brasil?
[01:08:37] O Trump vai rir da sua cara.
[01:08:39] A China tem.
[01:08:40] A China, na hora que você falar, a China já está com o fundo pronto para te oferecer.
[01:08:43] Você acha que, de alguma forma, a China poderia influenciar
[01:08:46] a ponto de tentar iuanizar o mercado altamente dolarizado da Argentina?
[01:08:51] Eu acho que a China não quer.
[01:08:54] Eu acho que ela não tem muita intenção.
[01:08:56] A China não tem problema em trabalhar com dólar.
[01:08:58] Trabalha com dólar, que é problema dos Estados Unidos.
[01:09:00] Isso é uma moeda internacional.
[01:09:02] Isso dá uma liberdade maior da China, por exemplo,
[01:09:05] deixar a moeda dela desvalorizada,
[01:09:07] que é o que ela faz para manter a competitividade,
[01:09:09] que, aliás, é um dos motivos de gritaria generalizada.
[01:09:12] A partir do momento que você internacionaliza o yuan,
[01:09:15] você acaba tendo que prestar mais contas.
[01:09:17] É aquilo que eu falei da China não querer muito prestar contas
[01:09:19] do que ela está fazendo.
[01:09:20] Então, acho que não.
[01:09:22] Acho que não.
[01:09:23] Acho que ela tem reservas em dólares tão grandes,
[01:09:26] mas tão grandes,
[01:09:28] que ela prefere fazer os investimentos todos em dólares.
[01:09:30] Então, acho muito difícil que aconteça
[01:09:32] de a Argentina fazer uma substituição
[01:09:36] de uma economia dolarizada, como é hoje.
[01:09:38] Então, você tem o peso, mas o dólar circula
[01:09:40] com uma facilidade enorme como reserva de valor
[01:09:43] para passar a circular o yuan.
[01:09:45] Acho quase impossível que isso aconteça.
[01:09:48] Dona Letícia?
[01:09:49] Eu queria perguntar uma última coisa só,
[01:09:51] que eu não sei nem se é relevante.
[01:09:52] A minha pergunta é exatamente se é relevante
[01:09:54] o fato do Steve Bannon ter sido preso no iate
[01:09:57] de um milionário chinês.
[01:09:59] Isso significa alguma coisa?
[01:10:01] Ou é totalmente aleatório?
[01:10:03] É alinhamento dos astros e não significa nada?
[01:10:06] É maravilhoso ele ter sido preso.
[01:10:08] É lindíssimo, né?
[01:10:09] Eu acho que é mais um indício do fato de você ter
[01:10:14] chineses muito poderosos.
[01:10:16] Tem muitos bilionários chineses.
[01:10:17] Então, os chineses estão, de fato,
[01:10:18] envolvidos na política mundial.
[01:10:21] Mas, de forma mais específica, acho que não.
[01:10:24] Acho que não.
[01:10:26] Claro, tem que ver.
[01:10:28] Tem um chinês que está financiando a reeleição
[01:10:31] do Trump por meio do Bannon.
[01:10:33] Isso é uma coisa grande.
[01:10:34] Mas, tirando isso, a princípio,
[01:10:37] eu não acho que tenha nada de mais relevante,
[01:10:40] por enquanto, não.
[01:10:41] Só uma ironia do destino, que eu acho maravilhoso.
[01:10:43] É espetacular, né?
[01:10:45] Tiago, mais alguma coisa?
[01:10:46] Ou podemos liberar esse homem?
[01:10:48] Eu vou aproveitar.
[01:10:49] Eu vou abusar, né?
[01:10:50] Vou fazer mais uma ainda,
[01:10:51] porque não é todo dia que a gente tem o Tanguy aqui.
[01:10:53] Então, eu vou abusar um pouquinho.
[01:10:55] Agora, basicamente, tudo o que a gente falou
[01:10:58] foi muito factual.
[01:11:00] Uma parte especulativa, óbvio,
[01:11:02] porque, como a gente está falando de um lugar tão fechado,
[01:11:05] em alguns momentos, a gente precisa ser especulativo.
[01:11:07] Mas, agora, perguntando um pouco mais
[01:11:10] numa questão de sensação mesmo.
[01:11:14] Até porque você…
[01:11:15] Você tem muitos contatos dentro da mídia,
[01:11:20] muitos contatos de pessoas que estão ao redor do globo, né?
[01:11:23] Então, eu gostaria de te perguntar com relação
[01:11:26] à sensação da sociedade civil sobre a China.
[01:11:31] Ela é uma sensação estigmatizada?
[01:11:35] Eu lembro, por exemplo, de que nós tivemos
[01:11:37] um vazamento de óleo de um petroleiro chinês
[01:11:42] no mar do sul da China.
[01:11:44] Que afetou, se eu não me engano, foi…
[01:11:48] Se eu não me engano, afetou o Vietnã,
[01:11:50] ou afetou o Camboja, não vou lembrar agora.
[01:11:53] Mas que eu lembro muito nitidamente, assim,
[01:11:56] de todo mundo falando de um petroleiro chinês, petroleiro chinês.
[01:12:00] E, há muito pouco tempo atrás, há menos de um mês atrás,
[01:12:03] nós tivemos um petroleiro que partiu ao meio,
[01:12:07] literalmente, nas Ilhas Maurício.
[01:12:10] E eu procurava saber de onde era aquele navio,
[01:12:13] e eu tive muita dificuldade de encontrar.
[01:12:16] E aí, depois eu fui saber que ele era de bandeira japonesa.
[01:12:21] Você sente que existe, por meio da mídia,
[01:12:24] e que isso possa ter alguma influência
[01:12:27] sobre a sensação da sociedade civil mesmo?
[01:12:31] Sobre a percepção que essas pessoas têm da China?
[01:12:35] Você acha que as tintas são mais carregadas
[01:12:37] quando é alguma coisa relacionada à China?
[01:12:40] Acho que sim, acho que sim.
[01:12:42] Eu acho que você tem toda razão na sua impressão,
[01:12:44] principalmente porque a gente sabe pouco sobre a China.
[01:12:46] Quando a gente não conhece, a gente tende a considerar
[01:12:49] que é uma ameaça, que é um problema e tal.
[01:12:51] A comparação com o Japão é muito boa, né?
[01:12:55] Assim, a gente sabe muito mais sobre o Japão
[01:12:57] do que a gente sabe sobre a China.
[01:12:59] A gente, de alguma forma, se acostumou a pensar no Japão.
[01:13:02] A gente conhece pessoas que já foram para Pequim,
[01:13:05] a gente conhece produtos japoneses,
[01:13:07] a gente sabe coisas sobre o Japão.
[01:13:09] Sobre a China, é muito novo ainda,
[01:13:11] e a China sempre aparece muito ameaçadora nesse sentido.
[01:13:14] Então, eu concordo plenamente com você
[01:13:16] que existe sim tintas mais carregadas,
[01:13:19] a China sendo colocada como uma ameaça,
[01:13:21] como um problema, como um gigante descontrolado,
[01:13:25] e principalmente um país que tem valores muito diferentes dos nossos.
[01:13:28] Então, eu concordo muito com a sua impressão
[01:13:32] e essa é uma impressão que não é vista somente aqui no Brasil.
[01:13:36] Eu ouço muita gente na Europa falando sobre isso.
[01:13:39] No próprio continente africano,
[01:13:41] existe uma desconfiança muito grande
[01:13:43] com relação aos interesses chineses,
[01:13:45] o que a China quer.
[01:13:47] Sempre aquela coisa que parece que tem uma coisa escondida,
[01:13:49] parece ser uma coisa escusa.
[01:13:51] Às vezes tem, às vezes não tem,
[01:13:53] mas em termos de impressão,
[01:13:55] já que a sua pergunta foi com relação às impressões,
[01:13:57] eu concordo, sim, que tem.
[01:13:59] Aqui no Brasil a gente vê muito isso
[01:14:01] e no restante do mundo me parece que isso é bastante presente também.
[01:14:04] É justamente sobre a África que eu estava pensando,
[01:14:09] porque a África tem esse problema,
[01:14:11] por ter uma descolonização tão recente,
[01:14:15] a sua própria mídia ainda é muito ocidentalizada
[01:14:19] e muito voltada para o seu colonizador.
[01:14:22] Você tem base da RFI em tudo que é país que já teve colonização francesa.
[01:14:28] Você tem BBC em todo o mundo que já teve colonização inglesa.
[01:14:32] E eu acho que é muito curioso de você ver como determinados países,
[01:14:37] dependendo de como foi a sua colonização,
[01:14:41] tem uma perspectiva e uma visão um pouco diferente da China.
[01:14:46] Eu gostaria muito de saber, por exemplo,
[01:14:48] como a Etiópia, que não teve colonização de nenhuma das potências europeias,
[01:14:53] consegue ver a China, sabe?
[01:14:55] Se consegue ver como uma oportunidade ou não.
[01:14:58] A impressão que eu tenho, Thiago, é que é como se fossem grandes potências
[01:15:03] em estações diferentes.
[01:15:05] Então você pode ter a BBC,
[01:15:07] em determinados países foram colonizados pelo Reino Unido,
[01:15:10] então você tem uma influência cultural ali,
[01:15:13] você tem toda uma identificação com o seu colonizador,
[01:15:16] que é um traço curioso, mas enfim, muito presente por qualquer lugar.
[01:15:20] E mesmo assim você tem uma presença chinesa grande.
[01:15:23] A presença chinesa não se vai colocar muito pela língua,
[01:15:25] nem pela notícia, nem por nada,
[01:15:27] mas porque a empresa que está gerando emprego para a sua família
[01:15:31] que está instalada ali é chinesa.
[01:15:33] Então são estações diferentes,
[01:15:35] mas exatamente porque a China não se abre muito,
[01:15:38] ela não se mostra muito, há desconfiança.
[01:15:41] Mas porque você tem uma colonização lá.
[01:15:43] Tem uma presença que é mais econômica e menos cultural.
[01:15:47] Isso gera estranhamento, é esquisito.
[01:15:49] Parece que apenas uma empresa está se aproximando de você
[01:15:52] e não exatamente um Estado, com toda uma complexidade por trás.
[01:15:55] Mas eu também tenho a mesma curiosidade que você.
[01:15:58] Um lugar que não tenha sido colonizado por ninguém que a gente conheça,
[01:16:02] como é que enxerga a China?
[01:16:04] Que em tudo quanto é lugar é exatamente uma presença nova.
[01:16:07] Então eu concordo plenamente com a sua questão
[01:16:11] e é uma questão que eu tenho também
[01:16:13] e acho que a gente vai ver isso no futuro.
[01:16:14] Em breve isso vai ser mais discutido.
[01:16:16] Uma última coisa.
[01:16:18] Eu juro que é a última.
[01:16:19] Eu juro, juro, juro.
[01:16:20] Juro que é a última, mas só…
[01:16:22] Já que a gente está trabalhando nessa parte de especulação,
[01:16:26] vamos jogar lá para o futuro.
[01:16:28] Você acha que alguma dessas políticas do governo chinês hoje,
[01:16:33] do Estado chinês hoje,
[01:16:35] poderia mudar ou poderia se atenuar
[01:16:39] ou mesmo intensificar
[01:16:41] de acordo com uma eventual sucessão do Xi Jinping?
[01:16:48] Acho improvável.
[01:16:50] O Xi Jinping, para começar,
[01:16:52] a não ser que ele engaje com uma ervilha,
[01:16:54] ele vai continuar no poder durante muito tempo.
[01:16:57] Ele é basicamente um líder vitalício.
[01:17:01] Isso que o Partido Comunista Chinês entregou na mão dele.
[01:17:03] Não precisa se preocupar com sucessão,
[01:17:05] não tem nada disso.
[01:17:06] Ele fica até morrer.
[01:17:08] Ou então enquanto ele quiser.
[01:17:10] Mas me parece que a ala que ganhou força no Partido Comunista Chinês
[01:17:15] é a ala que segue aquilo que o Xi Jinping vem pregando atualmente,
[01:17:19] que é a de uma China mais agressiva,
[01:17:20] uma China que não fica voltada apenas para dentro
[01:17:23] esperando os outros chegarem à sua costa,
[01:17:25] que foi o que aconteceu lá na Guerra do Ópio.
[01:17:27] A gente está falando aí de 1839,
[01:17:29] quando a China não ia para o mundo,
[01:17:30] porque estava muito voltada para dentro,
[01:17:32] e quem chegou à sua costa foram os britânicos.
[01:17:34] Muito embora a China historicamente tivesse condições de sair,
[01:17:38] de ir para outros lugares, de colonizar,
[01:17:40] de ganhar espaço, e não foi.
[01:17:42] Na verdade, optou por deixar de ir.
[01:17:44] Tinha condições, chegou a ir, mas voltou para casa e ficou quietinho.
[01:17:49] Então, a postura do Xi Jinping hoje é a gente vai.
[01:17:53] A gente vai passar a ter uma posição mais impositiva no plano internacional.
[01:17:57] A ala que vem ganhando força no Partido Comunista Chinês
[01:18:00] é ela que concorda com isso,
[01:18:01] muito embora não seja unânime,
[01:18:02] mas é ela que concorda com isso.
[01:18:04] É claro que, assim, na política muita coisa pode acontecer.
[01:18:06] O Xi Jinping pode ter alguma derrota muito importante.
[01:18:08] Eu acho improvável.
[01:18:10] Mas, eventualmente, tomar um nó tático aí,
[01:18:12] você passar a ter mais países que repulsam a China
[01:18:14] do que se sentem atraídos por ela,
[01:18:16] acho altamente improvável.
[01:18:19] Pode acontecer, mas eu acho que essa postura chinesa
[01:18:22] é uma postura que tende a ser um pouco mais perene
[01:18:24] pelo Xi Jinping e por meio daqueles que vierem a substituí-lo.
[01:18:30] Eu não vou mais fazer porque eu prometi que era a última.
[01:18:36] Caraca, meu caderninho está cheio de anotações também.
[01:18:40] Vou ter que reler tudo o que eu tinha lido antes.
[01:18:43] Pelo menos eu tenho a vantagem de ouvir de novo quando editar.
[01:18:46] Vou aprender tudo de novo.
[01:19:00] 🎵
[01:19:06] 🎵
[01:19:26] Tanguy!
[01:19:27] Vamos então para a…
[01:19:30] A balada do pistoleiro,
[01:19:32] pra quem tá de paraquedas
[01:19:34] caindo aqui agora, é a nossa
[01:19:36] sessão de dicas culturais
[01:19:38] que podem ou não ter a ver com o tema
[01:19:40] do episódio e que pode ser mais de uma,
[01:19:43] pode ser qualquer coisa, enfim.
[01:19:44] Fica aí à vontade pra indicar o que você quiser.
[01:19:47] Então, eu
[01:19:48] quero indicar um texto,
[01:19:50] na verdade um livro,
[01:19:51] que não é
[01:19:54] sobre China especificamente, mas que toca
[01:19:56] no ponto da China, que é um
[01:19:58] livro chamado The Future is Asian.
[01:20:01] Porque a gente tem essa
[01:20:02] impressão muito ocidental, né, de que
[01:20:05] os Estados Unidos vão ser a liderança
[01:20:07] pra sempre e tal, e você
[01:20:08] tem esse livro chamado
[01:20:10] Future is Asian, eu acho que ele não tá traduzido
[01:20:12] em português ainda, então
[01:20:14] em inglês pra o futuro é asiático,
[01:20:17] que é exatamente a ideia de que
[01:20:19] a Ásia, ela tende a ser o futuro
[01:20:20] da humanidade, porque a Ásia concentra
[01:20:22] a maior parte da população, tende a
[01:20:24] concentrar muito em breve uma parte da economia,
[01:20:27] uma parte da inovação,
[01:20:28] a política deve estar
[01:20:30] centrada lá, a economia, a tecnologia,
[01:20:33] tudo tá indo pra China,
[01:20:35] pra Índia, pra
[01:20:36] Ásia, então a China sendo
[01:20:38] meio que um dínamo de atração
[01:20:40] disso tudo e tende a levar
[01:20:42] a política mundial junto consigo, então
[01:20:44] acho que esse é um baita livro, vale
[01:20:46] a pena ser lido, The Future is Asian.
[01:20:50] Ótimo.
[01:20:51] Já tá aqui na postagem.
[01:20:52] Tiago? Então, eu vou
[01:20:54] indicar aquele podcast que eu havia
[01:20:56] falado lá no começo, o nome dele,
[01:20:58] ele é The China in Africa
[01:21:00] Podcast, ele é
[01:21:02] da China Africa Project,
[01:21:04] é um observatório
[01:21:06] justamente pra avaliar
[01:21:09] o nível
[01:21:10] econômico, social,
[01:21:12] cultural
[01:21:13] dessa relação, dessa intersecção
[01:21:16] entre o
[01:21:18] maior país do mundo
[01:21:20] e o continente que tem tudo
[01:21:22] pra ser o mais populoso do mundo até o final
[01:21:24] do século.
[01:21:27] Eu também,
[01:21:28] eu também vou deixar aqui pra
[01:21:29] caso, assim, dificilmente
[01:21:32] alguém não viu, mas é uma
[01:21:34] coisa maravilhosa de se ver
[01:21:35] e eu já vi algumas vezes assim
[01:21:38] porque é mesmerizante
[01:21:39] se você quer conhecer
[01:21:42] um pouquinho do soft power chinês
[01:21:44] veja a abertura
[01:21:46] das Olimpíadas
[01:21:48] de Beijing, é um negócio
[01:21:50] absurdo, se você não tem tempo
[01:21:52] de assistir tudo, assiste só
[01:21:54] a parte dos tambores, é incrível
[01:21:56] aquilo. Foi muito maravilhoso aquilo, gente.
[01:21:58] E eu acho que…
[01:21:59] Aquilo é muito interessante.
[01:22:01] Aquilo é sensacional e eu acho que, olha,
[01:22:04] se tem um cartão de visita
[01:22:06] do soft power chinês é aquilo, assim,
[01:22:08] toda vez que alguém fala de software
[01:22:10] soft power chinês, é a primeira
[01:22:12] coisa que me vem. É muito bom, muito bom.
[01:22:14] E eu estranhamente
[01:22:16] também ficarei no tema, que é uma coisa que
[01:22:18] raramente acontece, as minhas dicas são sempre
[01:22:20] totalmente aleatórias, mas dessa vez eu vou
[01:22:22] indicar um podcast também, chamado
[01:22:24] The Compass, que é da BBC
[01:22:26] e eu…
[01:22:28] descobri ele, foi a Vevila
[01:22:30] que uma amiga nossa, que me indicou
[01:22:32] inclusive, beijo, Vevila
[01:22:34] e eles fizeram uma série de quatro episódios
[01:22:37] chamada Stories from the New Silk Road
[01:22:39] e aí eles contam
[01:22:40] histórias de pessoas que vivem
[01:22:42] em países que estão sendo afetados por essas
[01:22:44] obras de infraestrutura
[01:22:46] que a China está fazendo
[01:22:48] investindo nesses países.
[01:22:50] É bem interessante, é um
[01:22:52] storytelling, então você tem
[01:22:54] um entendimento do que está
[01:22:56] acontecendo, da consequência direta da
[01:22:58] vida das pessoas e como essas pessoas
[01:23:00] vivem agora e o que elas esperam que vai
[01:23:02] acontecer com esses investimentos, com
[01:23:04] essas mudanças de infraestrutura, sei lá
[01:23:06] uma ferrovia onde não tem
[01:23:08] nada, uma coisa desse tipo.
[01:23:10] É bem bacana, são quatro episódios, acho
[01:23:12] que de uns 25, 27 minutos
[01:23:14] no máximo, são curtos.
[01:23:16] Enfim, esse podcast
[01:23:18] todo é muito bom, mas essa série de quatro
[01:23:20] é relativa ao que a gente está falando agora
[01:23:22] então é o que eu estou indicando
[01:23:24] hoje.
[01:23:26] Beleza, dicas terminadas,
[01:23:28] vamos ao Jabás Tangui
[01:23:30] quem quiser te ouvir, você já falou do Petit Jornal
[01:23:32] dá mais detalhes
[01:23:34] aí de site, de Twitter
[01:23:36] onde você está, o que você faz
[01:23:38] Então, eu tenho
[01:23:40] uma facilidade, Letícia, porque se jogar meu nome
[01:23:42] em rede social em qualquer um, eu só tenho
[01:23:44] um resultado.
[01:23:45] Não tem como achar outra pessoa.
[01:23:48] Se botar Tangui Bagdadi eu apareço
[01:23:50] minhas
[01:23:52] redes sociais no Twitter e no Instagram
[01:23:54] são arroba tbagdadi
[01:23:55] por lá também
[01:23:58] você vai encontrar certamente postagens
[01:24:00] que levam ao Petit Jornal. Petit Jornal
[01:24:02] também, se jogar em rede brasileira
[01:24:04] só tem o
[01:24:06] meu Petit Jornal, na França tem outros
[01:24:08] mas são plágios, não confiem
[01:24:10] nos franceses
[01:24:11] fiquem com o meu
[01:24:13] e eu estou dando um curso, já que a parte
[01:24:16] é do Jabás, eu estou dando um curso pelo
[01:24:18] Petit Jornal em parceria com o Clipping CACD
[01:24:20] que é o curso onde eu dou aula
[01:24:22] na preparação para a carreira diplomática
[01:24:23] que é um curso sobre China
[01:24:25] a Letícia jura que
[01:24:28] pensou nisso sem ligar com o curso
[01:24:30] não acredito
[01:24:31] o pior é que foi
[01:24:34] sem, cara, inacreditável
[01:24:35] quando eu ouvi vocês falando do curso
[01:24:38] no podcast, putz, caraca
[01:24:40] vai fazer uma propagandinha ali
[01:24:41] boa. Então, assim, são quatro aulas
[01:24:44] a gente já deu duas
[01:24:45] quem quiser entrar agora vai assistir
[01:24:47] as duas aulas anteriores também
[01:24:49] em que a gente falou um pouquinho sobre a história chinesa
[01:24:52] então em duas horas a gente tentou falar
[01:24:53] rapidamente sobre quais são
[01:24:56] os pontos, os nós focais
[01:24:57] da história chinesa
[01:24:59] a gente já deu uma segunda aula em que a gente falou sobre
[01:25:01] como é que a China lida com as suas fronteiras
[01:25:03] então questões relacionadas a Hong Kong, Taiwan
[01:25:06] Índia, Japão
[01:25:08] então todas as fronteiras
[01:25:10] chinesas
[01:25:11] e a gente ainda tem mais duas aulas pela frente
[01:25:13] que a gente vai falar sobre a China como país emergente
[01:25:15] como é que ela se posiciona como país emergente
[01:25:17] e uma última, que aí eu acho que a gente vai tocar uma série de pontos
[01:25:20] nessa aula que a gente falou aqui hoje
[01:25:21] que é sobre como é que a China
[01:25:23] vem se posicionando no palco mundo
[01:25:25] do Rock in Rio, como é que ela
[01:25:27] luta, o protagonismo internacional
[01:25:30] então tem sido um desafio dar esses cursos
[01:25:32] mas sempre
[01:25:33] eu certamente aprendo mais com meus alunos
[01:25:37] você preparar
[01:25:38] pra dar aula é muito bom né
[01:25:39] é bom demais
[01:25:40] Tanguy, muito
[01:25:43] muito, muito, muito obrigada
[01:25:45] mesmo pelo seu tempo, foi um puta
[01:25:48] papo, continuando a nossa
[01:25:49] linha esse ano
[01:25:51] não desse ano, desde o começo do podcast na verdade
[01:25:53] de só convidados shopsters
[01:25:56] já está na galeria
[01:25:57] dos top hiper mega plus
[01:26:00] então estamos muito felizes
[01:26:01] e pô
[01:26:03] não tenho nem palavras
[01:26:05] pra agradecer, porque foi muito bom mesmo
[01:26:07] deu tudo certo, não tivemos problemas técnicos
[01:26:09] Letícia, você não vai dar
[01:26:11] os nossos jabás, é isso?
[01:26:13] vamos dar depois do jabá, pra gente liberar
[01:26:16] o coitado do Tanguy
[01:26:16] mas assim não acaba esse episódio
[01:26:19] sem falar do Catarse, porque a gente precisa
[01:26:21] de dinheiro pra comprar o passe do Tanguy
[01:26:24] pra poder
[01:26:25] trazer ele mais vezes
[01:26:27] não, a gente precisa comprar o passe
[01:26:30] do Tanguy, porque assim
[01:26:32] é sacanagem, a gente tem que liberar ele
[01:26:34] agora, mas pô, eu queria falar
[01:26:36] com ele aqui do Macron pela segunda vez
[01:26:38] no Líbano, já
[01:26:40] indo lá mijar no poste
[01:26:42] e querendo
[01:26:43] demarcar
[01:26:45] eu tenho uma outra dica pra você
[01:26:48] que é o jabá, vou falar sobre isso daqui a pouquinho
[01:26:50] no Petit Jornal, aí se houve o
[01:26:52] bate-papo lá, certamente vai estar lá
[01:26:54] vai ser um dos assuntos do bate-papo
[01:26:56] a gente tem que comprar o passe
[01:26:57] ele veio fazer o Petit Jornal aqui
[01:26:59] pra gente falar com ele sobre esse tipo de coisa
[01:27:02] tem os indultos do Maduro pra falar também
[01:27:05] aqui vai ser o Khan Jornal
[01:27:06] porque aqui é um papelão
[01:27:07] bom, muito bom, muito bom
[01:27:10] Tanguy, valeuzaço mesmo, de verdade
[01:27:12] valeu, que agradeço a vocês, gente
[01:27:14] valeu, obrigadão, Tanguy
[01:27:15] valeu, gente, valeu, tchau, tchau
[01:27:18] beijo, tchau, tchau
[01:27:20] bom, nossos contatos, vocês já sabem, a gente tá no Twitter
[01:27:22] e no Instagram como
[01:27:23] arroba pistolando pod, a gente adora
[01:27:26] e-mail, manda e-mail pra
[01:27:27] contato arroba pistolando ponto com
[01:27:30] nosso site lindo, maravilhoso
[01:27:32] é o
[01:27:33] pistolando ponto com
[01:27:35] nós temos muita imaginação
[01:27:37] e, o que mais?
[01:27:40] catarse, a gente já falou do catarse.me
[01:27:42] barra pistolando
[01:27:43] agora falou, não tinha falado não
[01:27:45] catarse.me
[01:27:47] barra pistolando, pra quem quiser
[01:27:50] e puder nos ajudar financeiramente
[01:27:52] quem não puder, pode contribuir
[01:27:54] ajuda pra caramba
[01:27:55] ajudando a divulgar
[01:27:57] o podcast da maneira que vocês quiserem
[01:27:59] nós temos um
[01:28:01] patreon.com barra pistolando
[01:28:03] pra quem quiser nos ajudar de fora do Brasil
[01:28:05] nos dando aquela
[01:28:06] aquelas migalhinhas em dólares
[01:28:10] que ajudam pra caramba, porque a gente
[01:28:11] tem despesas em dólar, e o dólar daqui a pouco
[01:28:13] está custando um baço
[01:28:15] e meio no mercado negro
[01:28:17] e nós temos também as nossas parcerias
[01:28:19] lindíssimas, temos uma parceria
[01:28:21] com a vestesquerda.com.br
[01:28:24] que tem não só
[01:28:25] as camisetas esquerdopatas
[01:28:27] e revolucionárias em geral, mas tem
[01:28:29] as nossas camisetas do pistolando
[01:28:31] que você pode
[01:28:32] comprar com desconto, usando o seu código
[01:28:35] de desconto pistola10
[01:28:37] e também temos uma parceria com
[01:28:39] a boitempo, que tem os melhores
[01:28:41] livros de tudo de esquerda
[01:28:43] do Brasil, praticamente
[01:28:45] e você vai em boitempoeditorial.com.br
[01:28:48] barra pistolando
[01:28:49] e a gente ganha
[01:28:51] uma comissãozinha lá em cima do que
[01:28:53] vocês comprarem
[01:28:55] mas alguma coisa acho que não, agora acabou
[01:28:56] é isso
[01:28:57] cadê a checklist disso, meu Deus do céu
[01:28:59] eu não vou fazer porra nenhuma, se foda
[01:29:01] pra mim vai ser sempre assim
[01:29:02] além disso, nós temos
[01:29:05] você já falou o nosso site
[01:29:07] mas tanto o site quanto a capa
[01:29:10] não a capa do episódio, mas a capa
[01:29:12] do podcast mesmo
[01:29:14] a nossa logo
[01:29:15] foi feita pelo
[01:29:17] o visual, a logo, a identidade gráfica
[01:29:20] é, é isso aí, isso aí tudo
[01:29:22] pra você ver, como a gente não sabe
[01:29:24] porra nenhuma sobre isso, e não sabe nem como
[01:29:26] chamar isso direito
[01:29:27] a gente pega as melhores pessoas possíveis
[01:29:30] pra fazer isso pra gente
[01:29:31] então a nossa identidade visual
[01:29:34] é do Rafael Chino
[01:29:36] sempre muito bom
[01:29:38] indicá-lo aqui, e a nossa
[01:29:40] edição é da Estopim Podcasts
[01:29:43] hum
[01:29:43] quando forem divulgar esse episódio que eu sei que vocês vão
[01:29:46] fazer, divulguem com a hashtag
[01:29:47] mulheres podcasters, porque aí
[01:29:49] quem estiver procurando por mulheres que fazem podcast
[01:29:52] vão achar o nosso podcast
[01:29:54] já que eu estou fazendo podcast e eu sou mulher
[01:29:56] nós também fazemos parte
[01:29:58] da podosfera antifascista, que se vocês
[01:30:00] googlarem, vocês vão achar lá uma caralhada
[01:30:02] de podcasts legais
[01:30:04] que falam de assuntos
[01:30:06] variadíssimos, mas sempre com uma postura antifascista
[01:30:09] e inclusive
[01:30:09] todos ali também são dignos da sua
[01:30:12] ajuda financeira, se vocês
[01:30:14] puderem, é um pessoal muito
[01:30:16] bacana, sugerimos fortemente
[01:30:18] que vocês vão lá dar uma fuçada
[01:30:19] pra ver a variedade de assuntos
[01:30:22] que tem ali do pessoal falando
[01:30:23] e é tudo gente muito
[01:30:25] boa, fazendo um trabalho muito legal, vale a pena
[01:30:28] dar uma olhadinha lá
[01:30:28] por hoje eu acho que é só, certo Tiago?
[01:30:31] eu acho que deu, eu acho que por hoje era isso
[01:30:33] então até semana que vem
[01:30:35] beijo
[01:30:36] por que não?
[01:30:44] este podcast
[01:30:46] foi editado por
[01:30:47] estopimpodcasts.com.br
[01:30:55] e até a próxima