#12 - Black Mirror e o High Score


Resumo

O episódio analisa a obsessão humana por pontuação, validação e conquistas através da lente do documentário King of Kong e dos episódios de Black Mirror ‘15 Milion Merits’ e ‘Nosedive’. Os participantes discutem como esse comportamento não é novo, mas foi radicalizado pelas redes sociais, que funcionam como o mais recente ‘jogo’ a explorar o vício humano em ostentar conquistas, por mais etéreas que sejam.

A discussão começa traçando as origens históricas e filosóficas desse comportamento, identificando-o como tipicamente ocidental e ligado à ‘metafísica liberal’, que produz a ideia do ‘superindivíduo’ que se define pelo acúmulo de propriedades (materiais ou simbólicas). Isso é contrastado com visões de outras culturas, onde figuras de destaque são aquelas que distribuem e fazem a riqueza circular, não as que acumulam.

King of Kong: A Fistful of Quarters é analisado como um microcosmo perfeito dessa dinâmica. A história de Steve Wiebe tentando bater o recorde mundial de Donkey Kong e seu antagonista, Billy Mitchell, ilustra como comunidades se formam ao redor de conquistas específicas e como comportamentos considerados problemáticos no ‘mundo real’ (como a obsessão) são glorificados dentro dessas bolhas. Billy Mitchell é apresentado como um arquétipo do sujeito das redes sociais: fascinado consigo mesmo, sem autoconsciência e incapaz de ver o mundo de outra perspectiva que não a sua.

A análise de Black Mirror foca em como a série extrapola problemas do presente para mundos distópicos. ‘15 Milion Merits’ é visto como uma crítica à monetização de toda a existência e à forma como o sistema co-opta e comercializa até a revolta. ‘Nosedive’ é criticado por sua visão simplista, que imagina as redes sociais levando a uma sociedade excessivamente polida e obsequiosa, quando na realidade elas frequentemente estimulam a beligerância e o conflito como formas de engajamento.

O episódio conclui que o verdadeiro problema não é o ‘ego’, mas o vício estrutural. As redes sociais nos mantêm presos em dinâmicas de busca por um ‘high score’ (seja em likes, seguidores ou simplesmente em poder se expressar), muitas vezes reforçando comportamentos disfuncionais e gerando ansiedade. A discussão enfatiza que ninguém é imune a essas dinâmicas e que reconhecer nossa participação nelas é o primeiro passo para uma relação mais saudável com a tecnologia e com os outros.


Indicações

Filmes

  • King of Kong: A Fistful of Quarters — Documentário de 2007 sobre Steve Wiebe tentando bater o recorde mundial de Donkey Kong, enfrentando o campeão Billy Mitchell. Apresentado como um microcosmo perfeito da competição, do vício em conquistas e da formação de comunidades em torno de pontuações específicas.
  • Videodrome — Filme de David Cronenberg citado como exemplo de obra que abre espaço para múltiplas interpretações e convida o espectador a tirar suas próprias conclusões, em contraste com a abordagem mais direta de Black Mirror.
  • Brazil (O Brasil) — Filme de Terry Gilliam citado como exemplo de ficção distópica mais hermética e aberta à interpretação, em oposição à crítica ‘enlatada’.

Livros

  • Obras de Ursula K. Le Guin (A Mão Esquerda da Escuridão, Os Despossuídos) — Autora de ficção científica anarquista citada como exemplo de uma ficção que funciona como ‘experimento’, imaginando mundos radicalmente diferentes (como um sem gênero ou uma utopia anarquista) para energizar o pensamento e propor alternativas, em contraste com a ficção puramente distópica e extrapolativa.

Pessoas

  • Charlie Brooker — Criador de Black Mirror, ex-jornalista de videogames que se tornou roteirista. Também criou programas de comédia sobre TV como ‘How TV Ruined Your Life’ e ‘New Swipe’, que exploram como a mídia molda expectativas.
  • Billy Mitchell — Jogador profissional de videogame, antagonista no documentário King of Kong. Apresentado como o arquétipo do sujeito das redes sociais: sem autoconsciência, fascinado consigo mesmo e que vê a vitória como a derrota necessária do outro.
  • Steve Wiebe — Protagonista do documentário King of Kong, um professor que busca o recorde mundial de Donkey Kong como uma conquista para validar sua existência, ilustrando a figura do ‘underdog’ obcecado.

Series

  • Black Mirror (episódios ‘15 Milion Merits’ e ‘Nosedive’) — Série de antologia de ficção científica que critica o engajamento com a tecnologia e a sociedade. ‘15 Milion Merits’ mostra um mundo onde toda a existência é monetizada e o sistema co-opta a revolta. ‘Nosedive’ imagina uma sociedade onde todas as interações são avaliadas por estrelas, mas é criticado por retratar uma harmonia forçada que não condiz com a beligerância estimulada pelas redes reais.
  • Além da Imaginação (The Twilight Zone) — Série de antologia citada como uma influência direta do Black Mirror, consistindo em ‘fábulas modernas’ com uma moral no final.

Linha do Tempo

  • 00:01:04Introdução: A vida como um RPG e a busca pelo high score — Os apresentadores introduzem a metáfora da vida como um grande RPG, onde criamos um avatar e buscamos a pontuação mais alta (likes) para exibir no ‘placar da vida’. Eles argumentam que esse comportamento de ostentar conquistas não surgiu com as redes sociais; elas são apenas o jogo mais recente a tirar vantagem desse vício humano. O episódio será uma análise desse comportamento através do documentário King of Kong e dos episódios de Black Mirror ‘15 Milion Merits’ e ‘Nosedive’.
  • 00:02:05Origens históricas: A metafísica liberal e o superindivíduo — Orlando argumenta que esse comportamento de ostentar vantagens para se diferenciar tem uma origem histórica específica, sendo tipicamente ocidental. Ele conecta isso à ‘metafísica liberal’, consolidada nos últimos séculos, que produz a ideia do ‘superindivíduo’ – um sujeito que cresce conforme adquire propriedades (materiais ou simbólicas). Isso é contrastado com visões de outras culturas (como chefias ameríndias ou a figura de Xangô na cosmologia afro-brasileira), onde o destaque vem de distribuir e fazer a riqueza circular, não de acumular.
  • 00:08:33Análise do documentário King of Kong — Gustavo apresenta King of Kong, documentário de 2007 sobre Steve Wiebe, um professor que tenta bater o recorde mundial de Donkey Kong. Wiebe é o underdog clássico, buscando no recorde uma conquista para ostentar e se tornar um ‘super-homem’. O filme apresenta uma comunidade (a Twin Galaxies) que valida recordes e o vilão, Billy Mitchell, um jogador famoso dos anos 80, prepotente e dono de uma marca de molho de pimenta. A discussão destaca como o filme já antecipava dinâmicas que se tornariam comuns nas redes sociais.
  • 00:14:12Billy Mitchell como arquétipo das redes sociais — Billy Mitchell é analisado como o ‘tipo ideal’ (conceito weberiano) do sujeito das redes sociais. Ele é fascinado consigo mesmo, acredita merecer adulação, tem total falta de autoconsciência e não consegue se enxergar como os outros o veem. Sua vitória, que ele celebra, implica necessariamente na derrota de outros – uma lógica que os participantes conectam ao ‘buraco negro’ da metafísica liberal, que requer opressão para produzir superindivíduos. Mitchell é comparado a figuras como Trump e Bolsonaro.
  • 00:24:11Comportamentos dentro e fora da bolha — Os participantes discutem como comportamentos considerados negativos ou disfuncionais fora de uma comunidade específica (como a obsessão de Steve Wiebe, vista por sua esposa como um possível transtorno) são glorificados e estimulados dentro dela (a comunidade de recordistas de videogame). Essa dinâmica é diretamente comparada ao funcionamento das redes sociais, que podem estimular e reforçar transtornos (como depressão ou ansiedade) porque os comportamentos resultantes se transformam em entretenimento e geram engajamento (likes, comentários).
  • 00:34:52Introdução ao Black Mirror e crítica à sua abordagem — Após uma atualização sobre a vida pós-documentário de Billy Mitchell (perdeu recordes por suspeita de fraude e processou a Twin Galaxies), a discussão se volta para Black Mirror. Orlando apresenta sua crítica principal à série: ela representa um tipo de ficção científica ‘extrapoladora’ ou ‘de especulação’, que pega um problema do presente e leva ao limite, muitas vezes caindo em distopias que colocam o cidadão branco no lugar historicamente ocupado por grupos oprimidos. Ele critica a falta de sutileza (subtexto) e o fato de a série não se fechar bem nem como ensaio nem como obra de ficção, sendo um produto ‘enlatado’ de fácil consumo.
  • 00:44:11Defesa do Black Mirror e análise de ‘15 Milion Merits’ — Gustavo defende Black Mirror, apreciando sua direção de arte e sua capacidade de esfregar na cara do espectador como dinâmicas distópicas são muito parecidas com ações cotidianas. Ele descreve ‘15 Milion Merits’: um mundo onde pessoas vivem em bicicletas ergométricas, acumulando uma moeda (méritos) para tudo, incluindo pular anúncios invasivos. O sonho é participar de um reality show (um X-Factor) para escapar daquela vida. O episódio critica a monetização total da existência e a forma como o sistema co-opta a revolta, transformando-a em mais um produto.
  • 00:59:01Análise crítica de ‘Nosedive’ e seus equívocos — Os participantes analisam ‘Nosedive’, primeiro episódio da terceira temporada (já na Netflix), escrito por Mike Schur e Rashida Jones. No episódio, toda interação social é avaliada por estrelas, ditando status e acesso a serviços. A protagonista (Bryce Dallas Howard) tenta subir sua pontuação para conseguir um desconto num apartamento. Gustavo critica fortemente o episódio, argumentando que ele erra ao retratar as redes sociais como levando a uma sociedade excessivamente polida e obsequiosa. Na realidade, as redes frequentemente estimulam a beligerância, a polêmica e o conflito como formas de gerar engajamento.
  • 01:08:05O verdadeiro problema: vício e engajamento negativo — A discussão avança para o cerne do problema: o vício. As redes sociais nos mantêm engajados não por prazer genuíno, mas por uma dinâmica adictiva, muitas vezes baseada no engajamento negativo (raiva, indignação). Orlando compartilha uma experiência pessoal, descrevendo como, durante uma crise depressiva, seus comportamentos beligerantes online eram reforçados por likes e interações. Eles argumentam que a busca pelo ‘high score’ (seguidores, likes, poder de expressão) é uma questão de dependência, não apenas de ego, e que essa economia da atenção parasitou até a política, alimentando a extrema-direita.
  • 01:17:28Conclusão: Ninguém é imune e a necessidade de autoconsciência — Os participantes concluem que ninguém é imune às dinâmicas viciantes das redes sociais. É comum, especialmente em círculos de esquerda, achar que apenas ‘o outro lado’ é manipulado pelos algoritmos, quando na verdade todos participam de uma ‘cultura reativa’ que se engaja pela raiva. Eles enfatizam a importância de reconhecer nossa participação nesse sistema, evitando um discurso de superioridade. A conversa termina com a reflexão de que, assim como os personagens de King of Kong, podemos ficar presos nas dinâmicas internas de uma comunidade (online), com o mundo desmoronando ao redor, enquanto buscamos um ‘high score’ que, no fim, pode não ter sentido fora daquela bolha.

Dados do Episódio

  • Podcast: Popcult
  • Autor: Atabaque Produções
  • Categoria: TV & Film Film Reviews
  • Publicado: 2020-09-15T08:30:16Z
  • Duração: 01:19:25

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Entre ir mais rápido ou mais longe, entre a razão e a emoção, entre a potência e o silêncio.

[00:00:08] A melhor escolha é não ter de escolher.

[00:00:10] Porque encontra tudo no novo Audi A5 e Hybrid, com até 108 km de autonomia elétrica,

[00:00:15] tração integral 4 e agora com condições de financiamento exclusivas.

[00:00:19] Vá a Audi.pt ou visite um concessionário.

[00:00:22] Audi, na vanguarda da técnica.

[00:00:25] Dizem que é a idade que conta.

[00:00:27] Para nós, o que conta é a atitude.

[00:00:29] Novos Seat Ibiza e Seat Arona.

[00:00:32] Conectados, cheios de estilo e prontos para todos os planos.

[00:00:35] Porque ser jovem não é um número, é como te moves e como vives.

[00:00:39] Novos Seat Ibiza e Arona desde 195 euros ao mês.

[00:00:43] A idade é uma atitude.

[00:00:59] Novos Seat Ibiza e Arona desde 195 euros ao mês.

[00:01:04] Estamos num grande RPG.

[00:01:06] Você escolheu seu avatar, que pode ou não ser baseado em você, e criou seu perfil.

[00:01:11] Desde então, você está em busca da pontuação mais alta para exibir no placar da vida, os likes.

[00:01:16] Para chegar no seu high score, você pode usar um multiplicador, seguidores.

[00:01:19] E esse comportamento não surgiu com as redes sociais.

[00:01:22] Elas são só o mais recente game a tirar vantagem do vício humano em ostentar conquistas,

[00:01:27] por mais etéreas.

[00:01:29] Por mais etéreas.

[00:01:29] Por mais etéreas.

[00:01:29] Para analisar esse comportamento, vamos falar hoje do documentário King of Kong

[00:01:33] e dois episódios de Black Mirror, 15 Milion Merits e Nosedive.

[00:01:38] Não é isso, Orlando?

[00:01:39] Pois é, né, cara?

[00:01:40] Na verdade, sim.

[00:01:40] Você falou uma coisa, comportamento humano, enfim.

[00:01:44] Não é exatamente o comportamento humano, né?

[00:01:46] Na verdade, esse tipo de comportamento de ostentar vantagens para, de alguma forma,

[00:01:53] se diferenciar de outros, ele tem uma origem histórica muito, digamos, específica.

[00:01:59] E descrita, né, cara?

[00:02:02] É um comportamento tipicamente ocidentalizado, né?

[00:02:05] Tipicamente ocidental.

[00:02:06] Ainda que você tenha esse tipo de comportamento aparecendo em outras sociedades ao longo da

[00:02:12] história e no presente, né?

[00:02:14] Mas ele, quando aparece nesses lugares, ele aparece de uma forma não tão, digamos,

[00:02:19] viciante quanto é aqui, né?

[00:02:22] Tão central na vida como a gente produz hoje em dia, né?

[00:02:24] Eu acho que tem a ver também, especialmente na nossa encarnação,

[00:02:29] tão moderna disso, que um alicerce essencial para a nossa sociedade é baseado nisso,

[00:02:34] que é o consumismo, né?

[00:02:36] Você precisa cada vez mais ser um consumidor e estar constantemente consumindo.

[00:02:44] E por isso que a gente tem esses desdobramentos que estão em todos os episódios do nosso podcast,

[00:02:49] que é você se definir pela cultura que você consome, pelos produtos que você consome.

[00:02:54] E aí você tem uma cultura que…

[00:02:56] Então, se você não tem a personalidade viciada, você não é…

[00:02:59] Manipulável tão fácil por esse sistema.

[00:03:03] Então, o condicionamento ao redor da gente, em tudo, leva a gente a isso.

[00:03:10] Então, não é só isso também.

[00:03:12] Isso é também, né?

[00:03:13] Nunca é só isso, né, Orlando?

[00:03:14] Pois é, mas isso não é tudo, né?

[00:03:16] Como diriam os franceses.

[00:03:18] Mas o ponto, acho que…

[00:03:20] Porque eu acho que tem uma coisa que é essencial, né?

[00:03:22] Eu vi falando disso pra todo lugar que eu vou, né?

[00:03:25] Sobre a metafísica liberal.

[00:03:27] O que é a metafísica liberal?

[00:03:28] Essa forma de pensar e existir que foi consolidada ao longo dos últimos 4, 5 séculos, né?

[00:03:35] Porque uma das coisas que é essencial nessa metafísica liberal

[00:03:38] era a produção de superindivíduos.

[00:03:41] Você tem que ser um superindivíduo,

[00:03:43] porque você é um sujeito que cresce conforme vai adquirindo propriedades, né?

[00:03:48] Então, assim, chega num momento em que como você vai adquirir essas propriedades?

[00:03:52] Como que você pode mostrar pros outros que você é um sujeito que se difere dos demais?

[00:03:56] Inclusive, isso…

[00:03:58] Define como a gente pensa sobre várias coisas que, em primeira pensão, não tem a ver com isso.

[00:04:05] Porque acho muito engraçado você falar desse…

[00:04:07] Como que você se destaca pelo acúmulo constante de coisas.

[00:04:11] E essas coisas não são sempre físicas, né?

[00:04:14] É muito comum a gente, mesmo dentro da nossa bolha, né?

[00:04:18] De pessoas aí que refletem sobre a vida e rejeitam o consumismo desmiolado.

[00:04:24] É muito comum você elogiar a pessoa por quantos livros ela leu.

[00:04:28] Ou, né?

[00:04:28] Enfim, essa quantificação de tudo.

[00:04:32] Então, assim, o seu intelecto, né?

[00:04:35] A sua capacidade de ser uma pessoa interessante é só definida pela quantidade de coisas.

[00:04:41] Ah, fulano fala tantas línguas.

[00:04:45] E tudo acaba caindo na mesma estrutura de pensamento, né?

[00:04:51] De você olha pro mundo e você estrutura ele como um…

[00:04:54] Do que eu tenho muito, do que eu tenho pouco, do que aquela pessoa tem muito, do que eu tenho pouco.

[00:04:58] É, e esse é um ponto que é fundamental.

[00:05:01] Por isso que eu falo que é uma coisa muito espérica, ocidental, né?

[00:05:05] Esse tipo de concentração no indivíduo.

[00:05:07] Porque quando você vai olhar pra outras civilizações, outras sociedades, outras culturas, enfim…

[00:05:13] Você vai perceber que esses sujeitos, digamos, que tem maior proeminência, maior, digamos…

[00:05:21] Um certo destaque, não são aqueles que acumulam as coisas.

[00:05:25] São justamente aqueles que fazem as coisas circular.

[00:05:27] Que distribuem as coisas, né?

[00:05:29] São aquelas figuras de distribuição.

[00:05:32] Quando a gente vai olhar, por exemplo, pra figura da chefia ameríndia, né?

[00:05:36] O chefe ameríndio, né?

[00:05:39] Aquele famoso, a famigerada palavra cacique, né?

[00:05:44] Enfim, é aquele que justamente é capaz de produzir uma riqueza, distribuir a riqueza pela sua comunidade.

[00:05:51] Algo muito semelhante você vai ver, por exemplo, também entre as figuras de chefia idealizadas.

[00:05:57] Dentro da cosmologia afro-brasileira, né?

[00:06:00] Por exemplo, você vai ver, por exemplo, o que é o papel de Xangô.

[00:06:02] O que é Xangô? O rei Xangô é aquele que justamente é capaz de fazer a saúde, a riqueza circular na sua comunidade.

[00:06:10] O rei não é aquele que acumula o poder pra si, que acumula a distinção, né?

[00:06:14] Então, assim, é interessante quando a gente pensa que o nosso pensamento, a nossa estrutura, né?

[00:06:19] Até a nossa estrutura cognitiva, como é que a gente vai ver mais pra frente.

[00:06:22] Ela é orientada pra reparar naqueles sujeitos que acumulam para a circunstância.

[00:06:27] E não para aqueles sujeitos que, de certa maneira, servem como roteador.

[00:06:33] Vamos usar uma palavra, já que a gente vai falar de ficção científica, né?

[00:06:36] Como roteador, ou seja, distribuindo coisas, né?

[00:06:39] Tipo assim, distribuindo não também…

[00:06:41] Porque também até aqui na nossa, digamos, filosofia viciada,

[00:06:45] até aqueles que distribuem são vistos como super sujeitos, né?

[00:06:49] Porque, assim, é quase como se fosse…

[00:06:51] É a figura do caridoso, né?

[00:06:52] Que também é uma figura cristã.

[00:06:54] Quando eu tô falando de pessoas que fazem as coisas circular,

[00:06:55] não tô falando de caridoso, né?

[00:06:57] Aquele sujeito que é rico, tipo Elon Musk, que vai lá e doa,

[00:07:01] ou Bezos, que doa uma graninha, porque, enfim, tem muito dinheiro.

[00:07:03] Não, tô falando de pessoas que fazem a coisa circular de forma, digamos, radical, né?

[00:07:08] Exercícios radicais de circulação.

[00:07:10] Ao contrário do nosso pensamento viciado, que são exercícios radicais de acúmulo.

[00:07:16] E isso é tão presente que até o nosso entretenimento

[00:07:21] ele é comprometido por essa necessidade de acúmulo, né?

[00:07:24] Sim, sim, né?

[00:07:25] Quantos triunfos da ficção…

[00:07:27] Não são uma vitória de um prêmio, né?

[00:07:31] Quantificável, assim, né?

[00:07:33] Olha só, essa pessoa…

[00:07:36] É uma estrutura narrativa muito comum, né?

[00:07:38] Essa pessoa estava numa situação de opressão ou de pouco poder

[00:07:43] e agora ela tem muito poder.

[00:07:45] Então, tudo deu certo.

[00:07:47] Sim.

[00:07:47] E conseguiu o interesse romântico e o sucesso profissional

[00:07:53] ou o sucesso nessa aventura, seja ela qual for.

[00:07:57] E é isso, assim, a gente toma, sem nenhuma crítica,

[00:08:01] isso como normal, assim, isso é ótimo, assim.

[00:08:05] Que bom, você conquistou muitas coisas.

[00:08:08] Parabéns, você zerou o joguinho.

[00:08:10] É, e isso…

[00:08:12] Agora pra gente entrar, né, já no primeiro filme, né?

[00:08:14] Que é o King of Kong.

[00:08:15] Sim, falando em joguinho…

[00:08:17] É, já que o programa é sobre cinema, né?

[00:08:19] Sobre filmes e tudo mais.

[00:08:20] Mas é porque justamente esse King of Kong

[00:08:24] que você vai poder falar melhor porque é a tua especialidade, né, cara?

[00:08:27] É.

[00:08:27] Eu nasci pra isso.

[00:08:29] Você nasce…

[00:08:29] Esse é o teu momento, né, cara?

[00:08:31] Sim.

[00:08:32] O…

[00:08:33] Mas ele é justamente sobre isso, né?

[00:08:35] Como…

[00:08:36] É sobre uma comunidade, uma verdadeira comunidade

[00:08:38] que se forma ao redor de um tipo de conquista,

[00:08:42] um tipo de acúmulo que é, sei lá,

[00:08:47] uma parcela…

[00:08:48] Temos 90,9% da humanidade consideram completamente descartável,

[00:08:55] completamente, enfim…

[00:08:57] Que pode ser ignorado, né?

[00:08:59] Sim.

[00:09:00] Bom, King of Kong é um documentário de 2007

[00:09:03] sobre a jornada de Steve Weeb,

[00:09:07] então um total desconhecido,

[00:09:09] até ali no campo dos jogadores profissionais de clássicos do fliperama,

[00:09:16] ele tá tentando ser o cara que tem o recorde mundial de Donkey Kong.

[00:09:20] E é isso, assim.

[00:09:21] Ele cabe em todo o arquétipo daquilo que a gente falou.

[00:09:24] Ele é um professor de renda modesta,

[00:09:27] tá numa casinha, né?

[00:09:28] Num subúrbio americano, lá, com a familiazinha dele, pacata,

[00:09:32] e ele vê no recorde mundial de Donkey Kong

[00:09:35] uma chance de ter algo pra ostentar e, assim, ser, né?

[00:09:40] Alguém, um super-homem, né?

[00:09:42] Ele ter algo pra mostrar que ele conquistou na vida

[00:09:45] e que, olha só, eu mereço o seu apreço enquanto indivíduo, né?

[00:09:50] E aí, o filme é muito interessante

[00:09:52] e muito…

[00:09:54] Um ótimo pedaço de entretenimento,

[00:09:56] né?

[00:09:57] Porque as figuras que a gente acompanha,

[00:10:00] incluindo o próprio Weeby,

[00:10:01] são extremamente arquétipas, assim.

[00:10:03] Se você escrevesse um roteiro desse de ficção,

[00:10:07] que, inclusive, era um projeto que nunca se concretizou,

[00:10:10] a ideia…

[00:10:10] Compraram os direitos de fazer uma adaptação desse documentário

[00:10:13] e nunca conseguiram exatamente…

[00:10:15] Porque o diretor falou isso, assim.

[00:10:16] Se você tenta ficcionalizar aquela história,

[00:10:19] parece forçado, assim.

[00:10:21] Aquela história já tá tão escrita…

[00:10:23] E aí, é claro que tem o jeito com que ela é abordada

[00:10:26] e montada,

[00:10:27] ali, na linguagem cinematográfica,

[00:10:29] mas, assim, veio muito pronto, assim.

[00:10:31] O Steve Weeby é um cara…

[00:10:33] Um underdog pra você torcer, né?

[00:10:36] Os personagens em volta

[00:10:37] são… Especialmente o Walter Day,

[00:10:40] o fundador da Twin Galaxies,

[00:10:42] que é essa organização que mantém…

[00:10:44] É uma das organizações, hoje em dia,

[00:10:46] que mantém um arquivo

[00:10:48] dos recordes nos jogos.

[00:10:50] Se você quer validar um recorde de jogos,

[00:10:52] é com eles. Eles, inclusive, fazem isso

[00:10:54] pro Guinness.

[00:10:55] E aí, você tem…

[00:10:57] Essas figuras em volta do Walter Day,

[00:10:59] essa comunidade de jogadores

[00:11:01] que ou tem recordes,

[00:11:03] ou, pelo menos, acompanham os recordistas,

[00:11:05] se interessam

[00:11:06] por esse nicho cultural.

[00:11:09] E aí, você tem o vilão do filme,

[00:11:11] que é o Billy Mitchell.

[00:11:12] O Billy Mitchell é um notório

[00:11:14] jogador de videogame e dono

[00:11:17] de marca de molho de pimenta,

[00:11:19] que ficou

[00:11:20] semi-famoso nos anos 80, ali, como um dos primeiros

[00:11:23] grandes recordistas. Ele tem recordes…

[00:11:25] E teve, pelo menos, recordes

[00:11:27] de diversos jogos de fliperama clássicos.

[00:11:29] E, na época do filme, ele era

[00:11:30] o detentor do recorde mundial de Donkey Kong.

[00:11:33] Ou seja, o Steve Weeb tá tentando tirar

[00:11:35] o trono do Billy Mitchell.

[00:11:37] E aí, o Billy Mitchell é o cara que

[00:11:39] é o vilão odiável, assim, né?

[00:11:41] Que ele não respeita o Steve Weeb.

[00:11:44] Ele tem tramóias

[00:11:45] e esquemas pra se manter

[00:11:47] na liderança.

[00:11:49] E ele é prepotente.

[00:11:51] E ele… Eu preciso dizer isso. Ele é a última

[00:11:53] pessoa com um mullet na história

[00:11:55] da humanidade. Ele tem o cabelo mais…

[00:11:57] O cabelo mais ridículo do mundo. Procurem, nesse

[00:11:58] momento, uma foto do Billy Mitchell.

[00:12:00] Ele tá sempre com um cabelo ridículo, que parece

[00:12:03] um Playmobil, que não cortou

[00:12:05] o cabelo. E…

[00:12:07] Ele usa uma gravata

[00:12:09] com a bandeira

[00:12:11] americana. É tudo que eu preciso

[00:12:12] lhe falar sobre o Billy Mitchell pra você entender esse homem.

[00:12:14] Não, mas então, tem uma coisa que… Ele é uma referência,

[00:12:17] quase uma referência visual, pra quem

[00:12:18] conhece cinema. Aquele personagem

[00:12:20] do Tom Cruise, no

[00:12:22] Magnolia. Que é um…

[00:12:25] Um coach de… Sim, que quase prega

[00:12:27] o estupro. Quase, né? Ele tá pregando o estupro

[00:12:29] ali, né, cara? Sim, é um coach…

[00:12:31] É um coach… Exato. Do que viria a ser

[00:12:33] os pick-up artists,

[00:12:35] os men’s right activists, de hoje

[00:12:37] em dia. Total, aquele

[00:12:38] proto

[00:12:40] machista do século XXI ali, do

[00:12:43] Magnolia, é muito o Billy Mitchell.

[00:12:45] Ele, claro… O Billy Mitchell, se ele não…

[00:12:47] Se ele não tivesse

[00:12:49] já dinheiro do seu

[00:12:51] molho de pimenta e seus

[00:12:53] produtos aí relacionados

[00:12:55] a videogame, ele… Ele, com o

[00:12:57] certeza, estaria fazendo esse tipo

[00:12:58] de palestra motivacional.

[00:13:01] É, inclusive…

[00:13:03] Essa aqui é uma das questões.

[00:13:06] Ele…

[00:13:07] Toda palestra dele

[00:13:09] é quase uma palestra motivacional, né?

[00:13:10] As falas dele parecem que foram

[00:13:12] escritas por um

[00:13:14] roteirista ruim. Ele parece

[00:13:17] muito… Isso que é uma coisa que é importante

[00:13:19] pra depois do que a gente vai falar.

[00:13:20] Ele parece muito um desses

[00:13:22] coaches de Instagram, saca?

[00:13:25] Sim. E… Por onde?

[00:13:27] Eu ando, o sucesso me acompanha

[00:13:28] e… E ao mesmo tempo, ele tá falando

[00:13:31] o tempo todo assim, não, porque…

[00:13:33] É… Tem várias coisas que a gente vai

[00:13:35] falar sobre ele, né? Mas acho que uma delas

[00:13:36] da principal, e eu já vou deixar aqui

[00:13:38] escancarado isso pra… Porque como você

[00:13:41] já me antecipando ao movimento seu,

[00:13:43] Gustavo, é…

[00:13:46] É… Subtexto

[00:13:47] é para covardes? Como é que é isso?

[00:13:48] Subtexto é para covardes. Especialmente no documentário.

[00:13:51] Especialmente no documentário.

[00:13:52] Mas, assim, ele é,

[00:13:54] digamos, uma figura…

[00:13:57] Odiosa, né?

[00:13:58] Uma pessoa que você não consegue

[00:14:00] ter nenhuma simpatia, e ao mesmo

[00:14:03] tempo, eu arrisco dizer,

[00:14:05] ele é o avatar

[00:14:06] do sujeito da nova era,

[00:14:09] no sentido da era das

[00:14:10] redes sociais. Ele é o

[00:14:12] arquétipo, assim, é o tipo ideal

[00:14:14] de um tipo de personalidade

[00:14:17] de sujeito que tá nas redes

[00:14:18] sociais. E quando a gente fala tipo ideal,

[00:14:21] fazer aqui um momento

[00:14:22] sociologia… Não, um momento

[00:14:24] ciência social, com o Orlando Calheiros,

[00:14:27] né? Tipo… Tinha que ter uma vinheta,

[00:14:29] velho. Ciências sociais, com o Orlando…

[00:14:30] E uma vinheta chata, tá ligado? Assim, uma música

[00:14:32] chata e tal. Exato. É, não, muito

[00:14:34] um programa da TV Cultura que passa às seis da manhã.

[00:14:37] Isso, né, cara? Que você tem

[00:14:38] uma memória afetiva ruim, porque você tá se arrumando pra ir

[00:14:40] trabalhar, tá ligado? Pra ir pra escola.

[00:14:43] Ou que, tipo, é o tipo de programa que

[00:14:44] fala pra você que, é, cara, essa noite acabou,

[00:14:47] você deveria ir tentar dormir.

[00:14:49] Isso, tem mais… Ou é isso, ou é

[00:14:50] flipper passando na Globo, tá ligado?

[00:14:53] Exato. Nossa, já tá no

[00:14:54] Luluzinha? Ih, eu preciso…

[00:14:56] Caralho! Eu preciso sair daqui.

[00:14:59] Isso já tá no Luluzinha, é punk,

[00:15:01] hein? É… Cara,

[00:15:02] mas então, o… Porque

[00:15:04] o tipo ideal, quando a gente fala em tipo ideal, que é um conceito

[00:15:07] lá da sociologia

[00:15:08] Weberiana, né? O tipo ideal, ele é

[00:15:10] como se fosse uma projeção ideal, ou seja,

[00:15:12] ele não existe na prática, né?

[00:15:15] É assim, quando você pega

[00:15:16] você pega diversos elementos, por exemplo,

[00:15:18] vamos lá, o tipo ideal que é um sujeito nas redes sociais,

[00:15:21] né? Você pega diversas

[00:15:22] pessoas, diversos comportamentos que se repetem,

[00:15:24] né? Diversos indivíduos, mas são comportamentos

[00:15:26] que se repetem, e a partir da análise

[00:15:28] desses diversos comportamentos, você monta uma estrutura

[00:15:30] como se pudesse existir um sujeito,

[00:15:32] né? Um sujeito puro, que se

[00:15:34] comportasse daquela forma o tempo inteiro.

[00:15:37] O que tá acontecendo? O que acontece

[00:15:39] é que esse Billy Mitchell, ele

[00:15:40] parece assim, tipo ideal não existe.

[00:15:42] Isso é uma questão fundamental das redes

[00:15:44] sociais, da sociologia Weberiana, e depois

[00:15:46] a gente vai voltar nisso. Tipo ideal não existe.

[00:15:49] Mas se ele existisse, ele seria o Billy Mitchell.

[00:15:51] Cara, tem algo muito

[00:15:52] interessante no Billy Mitchell aí, que eu acho que é

[00:15:54] realmente, reflete muito do…

[00:15:56] do nosso Zé de Caixa atual, e aí eu concordo

[00:15:58] com você sobre isso, que é o

[00:16:00] seguinte. Ele é

[00:16:02] tal qual o Trump,

[00:16:04] o Bolsonaro e tantas outras figuras dessas

[00:16:06] e desses coaches de Instagram,

[00:16:08] ele é um extremamente

[00:16:10] fascinado consigo mesmo,

[00:16:12] e acredita que ele merece a sua adulação,

[00:16:15] porque ele é incapaz de

[00:16:16] ver o mundo como qualquer outra pessoa.

[00:16:19] Né? Tipo, ele não entende que outras pessoas veem o mundo

[00:16:20] de uma maneira diferente que a dele. Então, tudo que ele tem

[00:16:22] é algo que você quer.

[00:16:25] E ele nunca vai entender que você

[00:16:26] pode olhar com desdém pra ele, né?

[00:16:28] E aí isso leva ele a segunda

[00:16:30] questão, que é muito importante pra ele

[00:16:32] e pra caras como o Trump e o Bolsonaro,

[00:16:34] que é a total falta de autoconsciência.

[00:16:37] Que é o… Não tem aquele

[00:16:38] momento em que você fala assim, será que

[00:16:40] o que eu tô fazendo é ridículo?

[00:16:42] Que é o que, tipo, por exemplo, assombra a minha

[00:16:44] existência 24 horas por dia?

[00:16:47] Tipo, um cara como o Billy Mitchell,

[00:16:48] um cara como o Trump, nunca, em momento

[00:16:50] nenhum,

[00:16:52] consegue imaginar, pelo menos

[00:16:54] de antemão, que

[00:16:56] ele vai fazer algo que merece escórnio.

[00:16:58] Sabe? Ele tá sempre…

[00:17:00] Ele é, pra usar o vernáculo

[00:17:02] americano mesmo, ele é um vencedor.

[00:17:05] Entende?

[00:17:06] E ele se enxerga assim.

[00:17:08] E ele não consegue se enxergar

[00:17:10] da maneira que os outros veem ele.

[00:17:12] Não que qualquer um de nós consiga com qualquer

[00:17:14] clareza, mas a gente faz

[00:17:16] esse esforço, né? E essas pessoas,

[00:17:18] não, assim, é tipo, é direto.

[00:17:21] É assim, a figura do Billy Mitchell

[00:17:22] é tipo, oi, eu sei que eu sou

[00:17:24] foda. É, isso é importante,

[00:17:26] porque tem um momento em que ele fala, assim,

[00:17:28] qualquer constrangimento, né?

[00:17:30] O sucesso me segue, e eu sei que

[00:17:32] tudo que eu faço tem sucesso, e eu

[00:17:34] fico, às vezes, e tu vê que há um certo

[00:17:36] tom sádico ali, né? Por quê?

[00:17:38] Sim, porque é aquela questão, a vitória

[00:17:40] dele, ele mesmo fala, né? A vitória

[00:17:42] dele significa a derrota de outra pessoa.

[00:17:44] Exato, tem alguém sendo parafusado

[00:17:46] por aí. E ele ri disso,

[00:17:48] porque esse que é um dos elementos fundamentais

[00:17:50] que é muito, que é, digamos, é um…

[00:17:53] é o buraco negro, né?

[00:17:54] Da metafísica,

[00:17:56] liberal. Porque a metafísica liberal,

[00:17:58] e quando eu digo que é buraco negro,

[00:18:00] é porque ela, digamos,

[00:18:02] ela suga toda qualquer luz

[00:18:04] que possa ter nesse sentido, né?

[00:18:06] Eu tô falando buraco negro no sentido físico da coisa.

[00:18:08] Porque, pra que

[00:18:10] você tenha superindivíduos,

[00:18:13] você vai ter aqueles

[00:18:14] que são os indivíduos oprimidos.

[00:18:17] Não é à toa que sujeitos

[00:18:18] como Locke, que é um dos

[00:18:20] organizadores da

[00:18:22] da metafísica liberal, da filosofia

[00:18:24] liberal, vai falar de escravidão.

[00:18:26] Em determinados momentos, né?

[00:18:28] A escravidão,

[00:18:30] toda essa opressão necessária,

[00:18:32] sempre foi uma face oculta,

[00:18:35] né? De todo

[00:18:36] esse ambiente de luzes propagado

[00:18:39] pelo liberalismo ao longo dos últimos

[00:18:40] dois, três séculos e tudo mais.

[00:18:42] E aí que é um ponto. O Billy Mitchell,

[00:18:44] e esse que é uma questão também que vem à tona,

[00:18:46] o Billy Mitchell é um sujeito que traz isso à tona

[00:18:48] e fala assim, eu reconheço

[00:18:50] isso, né? Que é a minha vitória

[00:18:53] e eu, lembrando bem pro espectador,

[00:18:55] a vitória no mundo,

[00:18:56] no mundo dos videogames, de jogos

[00:18:58] que ninguém mais joga direito, a não ser pra

[00:19:00] coisa completamente

[00:19:01] descompromissada.

[00:19:04] Ele diz isso

[00:19:06] e fala assim, fica feliz quando

[00:19:08] sabe que pra ele tá lá com high score mundial

[00:19:10] no jogo, é porque

[00:19:14] tem pessoas que não conseguem fazer isso.

[00:19:16] Tem pessoas que são medíocres, pessoas que, sabe?

[00:19:18] E não passa na cabeça dele que pessoas não se importam com aquilo.

[00:19:21] E, mais, exato,

[00:19:22] assim, mais do que isso, pra além

[00:19:24] do que o

[00:19:26] foco do documentário e a razão

[00:19:28] pela qual eu sabia quem era o Billy Mitchell

[00:19:30] antes de ver o documentário e pela qual eu sei

[00:19:32] coisas da vida dele desde então, que eu vou atualizar

[00:19:34] você. Eu sei que tem gente que tá ouvindo que sabe

[00:19:36] o que aconteceu na vida do Billy Mitchell desde então

[00:19:38] e eu vou chegar lá. Mas a questão

[00:19:40] maior aí é, o Billy Mitchell

[00:19:42] ele é uma ilustração muito

[00:19:44] clara, eu acho, de como as pessoas

[00:19:46] de como muitas pessoas

[00:19:48] se portam hoje nas redes sociais e talvez

[00:19:50] seja como que

[00:19:52] o Mark Zuckerberg queira que todo mundo

[00:19:54] se porte, que é o seguinte,

[00:19:56] ele vê tudo

[00:19:57] que ele faz como um grande sucesso

[00:19:59] e com desdém a derrota

[00:20:01] dos outros que ele derrotou

[00:20:03] ou que são derrotados em

[00:20:05] contrapartida com ele, mas ele é um

[00:20:07] perfeito sujeito capitalista

[00:20:09] ou pro-capitalismo, porque

[00:20:11] ele é incapaz de ver que o tal

[00:20:13] sucesso dele torna ele

[00:20:15] tão perdedor quanto na face

[00:20:17] de outras pessoas, assim, é aquela

[00:20:19] coisa, enfim, é o velho estereótipo

[00:20:21] da pessoa que ouve em

[00:20:23] taxar grandes fortunas e acha que o Honda

[00:20:25] Civic dela está

[00:20:26] sob ameaça

[00:20:27] o Honda Civic é aquele

[00:20:29] Peugeot 2012 dele

[00:20:32] que ele está pagando, né, cara

[00:20:34] é, e ele fala, ô, você vira

[00:20:36] e fala assim, tipo, ô, tem

[00:20:37] moradia pra todo mundo, ninguém deveria morar na rua

[00:20:40] e o cara fala assim, ô, mas peraí, você está falando do meu apartamento

[00:20:42] no Guarujá aqui, e aí

[00:20:44] tipo, não, cara, calma

[00:20:45] a gente pode estar falando do seu apartamento

[00:20:48] dependendo, muito grande

[00:20:50] muito grande, é tipo duplex, aí não precisa

[00:20:52] aí, mas a

[00:20:54] questão do bilimite é essa, assim, é tipo, se você

[00:20:56] parar pra analisar friamente, ele é

[00:20:58] o que, assim, ele é o dono

[00:21:00] de uma marca de molho de

[00:21:02] pimenta no meio dos Estados Unidos

[00:21:03] com uma casa de dois andares, assim, ele

[00:21:06] não é, ele não é nem o sucesso

[00:21:08] dessa cultura capitalista

[00:21:10] no, né, que é o altar no qual

[00:21:12] ele adora. É, e esse que é um ponto que é fundamental

[00:21:14] por isso que eu gosto dessa ideia

[00:21:16] de ser o arauto desse sujeito arquetípico

[00:21:18] das redes sociais, porque

[00:21:20] ele só é um vencedor

[00:21:22] aos olhos de uma comunidade

[00:21:24] estrita, que é aquela comunidade de pessoas

[00:21:26] fãs da Twin Galaxy

[00:21:27] que, assim, quando você assiste o documentário

[00:21:30] e aqui não vamos repetir todos

[00:21:32] os estereótipos contra

[00:21:34] os nerds ou contra as pessoas que são

[00:21:36] aficionadas por games, porque fizemos

[00:21:38] e fazemos parte desse universo, né

[00:21:40] mas, mas

[00:21:42] assim, é quase

[00:21:44] como se você identificasse tudo, todas

[00:21:46] aquelas imagens, né, tipo assim, é ali

[00:21:48] são pessoas que estão vivendo praquilo

[00:21:49] vivendo, com comportamentos que você até

[00:21:52] identifica, cara, essa pessoa não tem vida social

[00:21:54] fora desse espaço, não? Tipo

[00:21:56] por que que eles estão se dedicando tanto

[00:21:58] por que tanto drama, por que tanta questão

[00:22:00] ao redor

[00:22:01] de uma máquina de fliperama

[00:22:04] sabe? É assim, não

[00:22:06] isso, assim, isso pra todas

[00:22:08] essas pessoas que aparecem no documentário, mas o próprio

[00:22:10] vamos focar no Billy Mitchell, que eu acho que é ótimo

[00:22:12] mas que é o seguinte

[00:22:14] parando pra pensar nisso que você tá falando, assim, o próprio

[00:22:16] Billy Mitchell, se ele tivesse algum tipo

[00:22:18] de círculo social

[00:22:19] que não fosse aquele

[00:22:21] ele ia ter mais perspectiva sobre o

[00:22:24] como um dano ele mesmo

[00:22:26] é, né? Então, parte do que

[00:22:28] é necessário pra você

[00:22:30] ter esse ponto de vista é exatamente você ter

[00:22:32] um círculo social que é feito

[00:22:34] do mesmo ponto de vista

[00:22:35] sempre, assim, e que reforça

[00:22:38] ele, né? É, cria uma diegese

[00:22:40] no qual você é um herói

[00:22:42] e é interessante nesse documentário que tem uma figura

[00:22:44] que, pra variar um pouco, né, no cinema

[00:22:46] né, tipo, é colocada de lado

[00:22:48] que é a figura da esposa do

[00:22:50] do Steve, Steve Webley, né?

[00:22:53] Steve Weeby, é.

[00:22:54] Que é a esposa dele que o tempo inteiro tá

[00:22:56] falando assim, cara, eu não tô nem aí

[00:22:58] pra isso. Eu não tô nem aí pra esse teu recorde.

[00:23:00] Cara, grande merda. Tipo, ah, vai lá, tipo, se você

[00:23:02] quer fazer, faz, mas, tipo, caguei.

[00:23:04] É, quando começa, inclusive, dá problemas familiares,

[00:23:06] né? Tipo, ela começa, ela se

[00:23:08] impõe e o documentário tem uma visão até meio

[00:23:10] negativa sobre isso, né? Tipo, ah,

[00:23:12] ela não dá suporte aí. Sim, porque o documentário tá muito do lado do sonho

[00:23:14] dele, né? Tipo, o documentário não tá do lado

[00:23:16] do Billy Mitchell,

[00:23:18] mas ele ainda subscreve

[00:23:19] a mesma visão de mundo, ou uma visão de mundo

[00:23:22] muito similar, na qual o que importa é

[00:23:24] esse acúmulo de vitórias, né? É, e

[00:23:26] esse que é um ponto que é interessante,

[00:23:28] né? Porque a

[00:23:30] a esposa do

[00:23:32] do, do, do, caraca, do Steve,

[00:23:33] né? E ela, ela chega e

[00:23:36] fica o tempo todo, querido,

[00:23:38] vamos acordar pra vida, tu tem dois filhos aí,

[00:23:40] tu tem que pagar contas, sei lá o quê, vamos viver,

[00:23:42] cara, a vida é isso aí, e sei lá o quê.

[00:23:44] E o cara, ele realmente, ele é obcecado, inclusive

[00:23:46] ela descreve ele como uma pessoa que provavelmente

[00:23:48] tem um transtorno obsessivo compulsivo,

[00:23:49] por causa disso, né? Ou seja,

[00:23:51] da perspectiva dela, ela,

[00:23:53] que é uma pessoa que tá ali atrelada ao mundo

[00:23:55] real,

[00:23:56] ela tá descrevendo o comportamento

[00:23:57] do próprio marido, como uma pessoa obsessiva, como

[00:23:59] uma pessoa que tem um, provavelmente um transtorno,

[00:24:02] né? Dentro daquela comunidade,

[00:24:04] daquele, daquela comunidade

[00:24:06] do pessoal da Twin Galaxy, naquele pessoal

[00:24:07] fissurado com aqueles jogos antigos,

[00:24:09] né? Tipo, ele é um

[00:24:11] vencedor, ele é um, quase um herói,

[00:24:13] ele é quase um herói mítico, né?

[00:24:15] Então assim, é interessante como um comportamento

[00:24:18] que, fora daquele circuito

[00:24:20] comunitário ali, é visto

[00:24:21] como negativo,

[00:24:23] né? Dentro daquele circuito, é

[00:24:25] é, é,

[00:24:26] é, como é que é, é…

[00:24:29] estimulado,

[00:24:31] né? E glorificado. O que também,

[00:24:34] vamos ser sinceros,

[00:24:35] é, faz, em grande

[00:24:37] parte, é o apelo das redes sociais.

[00:24:40] Porque as redes sociais, hoje em dia,

[00:24:41] é muito isso, né, cara? Comportamentos,

[00:24:44] estruturas de, até, até, até

[00:24:45] transtornos, é, do tipo,

[00:24:47] sei lá, depressão,

[00:24:50] ou algum tipo de, de, de, de,

[00:24:52] sei lá, de algum transtorno

[00:24:53] mental, nesse sentido,

[00:24:56] são estimulados pelas redes sociais, porque

[00:24:58] ali dentro, o comportamento que você vai ter

[00:25:00] por conta desses transtornos,

[00:25:02] por causa de alguma questão sua, você,

[00:25:04] aquilo se transforma em entretenimento pra outras pessoas

[00:25:06] e acaba sendo estimulado por likes, por comentários,

[00:25:08] e isso, e aquilo, então você acaba

[00:25:10] reforçando esse comportamento pra você,

[00:25:12] o que, de certa maneira, no mundo real, vai te tornar

[00:25:14] um pouco mais

[00:25:15] disfuncional, né? Porque

[00:25:18] é o que acontece, inclusive, com o personagem,

[00:25:20] né, do Steve Weeb, né? Tipo, porque,

[00:25:22] de qualquer forma, ele vai crescendo a obsessão dele de ganhar,

[00:25:23] bater o recorde, a esposa dele fala-se claramente,

[00:25:26] pô, cara, eu só queria que isso acabasse pra ele poder

[00:25:28] voltar a ser pai, saca? Sim.

[00:25:30] E aí, tipo, não, mas aí a comunidade

[00:25:32] vai estimulando, não, e sei lá o quê, então, assim,

[00:25:34] por isso que eu… Spoilers, isso não acabou

[00:25:36] porque o Steve Weeb tem recorde em

[00:25:38] vários outros jogos. Nossa, cara.

[00:25:40] E, assim, e é muito

[00:25:42] doido, porque eu, eu, eu acho que esse,

[00:25:44] esse, eu, eu acho que esse filme, se

[00:25:46] você analisa ele, esse documentário,

[00:25:48] e consegue entender o quanto ele

[00:25:50] já estava antevendo,

[00:25:52] né, tipo, ele já era, ele já estava ali

[00:25:54] mostrando uma coisa que só, sei lá,

[00:25:56] quatro anos depois ia se tornar muito popular,

[00:25:58] porque, a gente vai falar melhor sobre isso,

[00:26:00] mas, eu acho

[00:26:02] que o videogame,

[00:26:04] né, é aquilo que é uma coisa que eu sempre

[00:26:06] insisto, as pessoas,

[00:26:08] parece que tem uma certa dificuldade com isso, nenhuma tecnologia

[00:26:10] é neutra, nenhuma tecnologia se consolida

[00:26:12] no vácuo, então, por exemplo, se a gente tem

[00:26:14] internet do jeito que nós temos, se nós temos

[00:26:16] videogame do jeito que nós temos, essa tecnologia

[00:26:18] montada dessa ou daquela maneira, é porque

[00:26:20] ela se conecta, ela distribui,

[00:26:22] ela desdobra aspectos da sociedade

[00:26:24] envolvente, né, ela responde demandas,

[00:26:27] ela cria demandas, então, ela se conecta

[00:26:28] de alguma forma com aquilo que está ao seu redor.

[00:26:30] Por exemplo, essa cultura

[00:26:32] do high score do videogame,

[00:26:34] né, que começa lá atrás com o Space

[00:26:36] Invaders, né, ou seja, sei lá, ou se

[00:26:38] torna popular com o Space Invaders,

[00:26:40] que é essa coisa do, você tem um,

[00:26:42] uma, caraca, um leaderboard,

[00:26:44] né, tipo, você tem um, você,

[00:26:46] quando começa a máquina, você vê todos os placares,

[00:26:49] esse tipo de estratégia

[00:26:52] foi

[00:26:53] deliberadamente colocada dentro,

[00:26:54] dentro do, dos videogames

[00:26:56] pra, que é uma, uma espécie de,

[00:26:58] como é que é, cultura pela repetição,

[00:27:00] não, é um engajamento pela repetição,

[00:27:02] né, pra manter as pessoas jogando, porque

[00:27:04] era necessário que as pessoas gastassem suas moedinhas,

[00:27:06] gastassem seus dinheiros no flipper. Então, assim,

[00:27:09] você tinha que produzir uma certa adicção

[00:27:10] pra manter aquela pessoa

[00:27:12] ali, gastando dinheiro, e o,

[00:27:14] isso, o, tem um documentário no Netflix,

[00:27:16] o High Score, inclusive, o nome é por isso, né,

[00:27:19] o, o,

[00:27:20] que fala, o, o, o, o designer

[00:27:22] do Space Invaders fala isso,

[00:27:24] diretamente, ó, o High Score, lá,

[00:27:26] o, o, o placarzinho, tá ali, porque

[00:27:28] pra pessoa ver, caraca, alguém passou meu recorde,

[00:27:30] eu vou bater o recorde, vou chegar ali próximo, sabe,

[00:27:32] é um objetivo, é uma meta, que a pessoa

[00:27:34] fica ali engajada por isso, né.

[00:27:36] Sim, o, o, tem uma coisa muito interessante

[00:27:38] pro cantinho da semiótica do Gus

[00:27:40] aqui, que é, é muito legal,

[00:27:42] que tem a ver com isso que você falou da, da repetição,

[00:27:45] né, do conforto da repetitividade

[00:27:46] que isso traz também, que é um

[00:27:48] comportamento que a gente observa muito nas crianças, mas que ele

[00:27:50] nunca sai da gente, que é o

[00:27:52] seguinte, o, o fato desse

[00:27:54] jogo ser sobre Donkey Kong,

[00:27:56] inclusive o, o, o

[00:27:58] filme levanta isso, é muito interessante, porque

[00:28:00] Donkey Kong é um jogo que tem fim,

[00:28:02] né, ele é um jogo que é extremamente repetitivo,

[00:28:04] mas ele tem a chamada kill screen,

[00:28:06] ele chega numa fase, eu não lembro

[00:28:08] exatamente qual é, eu sei, o Pac-Man, por

[00:28:10] exemplo, chega na fase 256,

[00:28:12] e a memória acaba, e você,

[00:28:14] e ele não consegue desenhar a próxima fase,

[00:28:16] e acaba ali, então você tem

[00:28:18] que repetir sempre a mesma, o mesmo número

[00:28:20] de fases que você já jogou, e

[00:28:22] dentro daquele, daquele caminho limitado,

[00:28:24] que você já percorreu várias vezes, chegar

[00:28:26] num high score maior, e por isso

[00:28:28] que vários desses jogos, inclusive, tem um

[00:28:30] teto, pelo menos teórico

[00:28:32] de pontos, assim, você sabe que

[00:28:34] e aí a conquista

[00:28:36] deixa de ser a pontuação necessariamente, e aí

[00:28:38] vira, tipo, o quão rápido você chega nessa

[00:28:40] pontuação, etc, etc. E é muito

[00:28:42] interessante que aquelas pessoas ali, né,

[00:28:44] no filme, toda essa comunidade,

[00:28:46] é isso, assim, eles estão há 20, 30,

[00:28:48] 40 anos, jogando

[00:28:50] aquelas mesmas fases,

[00:28:52] entendeu? Vendo aquelas mesmas,

[00:28:54] porque existe um conforto

[00:28:56] nesse vício, né,

[00:28:58] a ação

[00:29:00] viciada, assim,

[00:29:01] esse ciclo repetitivo, assim,

[00:29:04] de que você tá ali, e

[00:29:06] por mais que aquilo possa te

[00:29:08] limitar ou te fazer mal, mas, tipo,

[00:29:10] a predictibilidade,

[00:29:12] a previsibilidade daquilo ali

[00:29:14] é parte do que te

[00:29:16] mantém engajado, né.

[00:29:18] E isso que eu acho que

[00:29:20] a partir daí a gente já pode falar um pouco do

[00:29:22] do Black Mirror, né,

[00:29:24] deixa eu só fazer um adendo, então, antes da gente entrar no

[00:29:26] Black Mirror, só pra atualizar a vocês

[00:29:28] sobre o Billy Mitchell. O Billy Mitchell

[00:29:30] é uma figura muito interessante.

[00:29:32] Logo depois que esse filme saiu, por exemplo,

[00:29:34] e todo mundo começou a tratar ele como um vilão,

[00:29:36] ele não soube lidar muito bem com isso.

[00:29:39] E aí, por exemplo,

[00:29:40] ele tem uma entrevista ótima

[00:29:42] no AV Club,

[00:29:43] no qual ele ligou do nada pra um repórter

[00:29:46] na redação pra dar uma entrevista,

[00:29:48] e forçou o repórter a entrevistar ele,

[00:29:50] na qual ele chama a própria

[00:29:52] esposa de uma…

[00:29:54] uma trophy wife, uma esposa troféu.

[00:29:56] Ou seja, né, olha a visão do cara

[00:29:58] que queria eu fosse rara

[00:30:00] essa visão, mas enfim.

[00:30:02] Mas é isso, tipo assim, o importante não é

[00:30:04] a visão, eu acho aí. É, de novo, a falta de pudor,

[00:30:06] porque ele é incapaz de enxergar

[00:30:08] o quão ridículo ele soa

[00:30:10] pra uma pessoa que não tenha a mesma visão

[00:30:12] de mundo que ele. E desde então,

[00:30:14] mais importante, mais recentemente,

[00:30:16] o Steve Will…

[00:30:17] o Billy Mitchell perdeu todos

[00:30:20] os seus recordes na Twin Galaxies

[00:30:22] quando foi descoberto que uma

[00:30:24] das fitas de vídeo que ele

[00:30:26] mandou pra comprovar um recorde

[00:30:28] de Donkey Kong dele, inclusive,

[00:30:29] mostrava sinais de ter sido gravada

[00:30:32] num emulador, porque

[00:30:33] ela não tava… é muito técnico,

[00:30:36] mas ela não tava carregando as sprites

[00:30:38] da maneira exata que o hardware original

[00:30:40] carregaria, e ela carregava numa ordem

[00:30:42] um pouco diferente, então você via na hora que ligava uma fase

[00:30:44] que aquilo não era hardware original.

[00:30:46] Ninguém sabe exatamente

[00:30:47] se… assim, você não pode dizer com 100% de certeza

[00:30:50] que foi isso que ele fez,

[00:30:51] e nem exatamente como isso daria alguma vantagem

[00:30:54] pra ele. Porém, o fato

[00:30:55] de que ele ofuscou aí

[00:30:57] alguma questão técnica

[00:30:59] fez com que ele perdesse por essa

[00:31:01] tecnicalidade todos os

[00:31:04] recordes que ele tinha, que eram de vários

[00:31:05] jogos, inclusive de Donkey Kong. Ele não era mais

[00:31:07] o primeiro lugar de Donkey Kong, nem ele, nem o Steve Will

[00:31:09] há uns anos. Mas…

[00:31:12] o que que o Billy Mitchell faz quando isso

[00:31:13] acontece? Fala assim, ah, eu já tenho

[00:31:15] 50 anos, vamos seguir

[00:31:17] em frente? Não.

[00:31:19] Billy Mitchell entra com um processo contra

[00:31:21] a Twin Galaxies, que inclusive nem é mais do Walter Day,

[00:31:24] o Walter Day vendeu o Twin Galaxies há muitos anos.

[00:31:26] O Jace Hall é o cara que cuida disso, e é uma outra

[00:31:28] figura muito estranha que a gente vai chegar

[00:31:29] um dia, talvez, a falar sobre, porque ele já

[00:31:31] produziu filmes. E aí,

[00:31:33] o Billy Mitchell processou

[00:31:35] tanto o Guinness quanto o

[00:31:38] Twin Galaxies,

[00:31:40] e aí, se eu não me engano, o resultado desse processo

[00:31:41] saiu há pouco tempo, e aí, se eu

[00:31:43] me lembro corretamente, é

[00:31:45] o Guinness

[00:31:46] reincorporou o recorde,

[00:31:49] os recordes que ele tinha no Guinness, mas a

[00:31:51] Twin Galaxies, não. Se eu não me engano, esse é o

[00:31:53] estágio que tá tudo agora, nesse momento,

[00:31:56] mas a Twin Galaxies

[00:31:57] não tá cedendo, mas

[00:31:59] o Guinness falou, tipo, foda-se.

[00:32:02] Mas, é isso, assim,

[00:32:03] o Billy Mitchell, ele é ainda mais

[00:32:05] uma, um

[00:32:07] recorte de papelão

[00:32:09] totalmente raso do que você imaginava

[00:32:11] que ele fosse. É, e só pra,

[00:32:13] acho que, pra deixar bem claro isso, porque

[00:32:15] foi uma coisa que a gente não tocou

[00:32:17] tanto no episódio anterior, né, porque

[00:32:19] o Billy Mitchell, tal como o Tomás,

[00:32:21] né, do hater e tal,

[00:32:23] eles não são,

[00:32:25] eles são tipos ideais, eles são

[00:32:26] vilões que a gente consegue identificar como pessoas

[00:32:29] assim, execráveis, né,

[00:32:31] mas, ao mesmo tempo, eles têm comportamentos

[00:32:33] que são

[00:32:35] comportamentos muito comuns

[00:32:37] nas redes sociais, que todos

[00:32:39] nós compartilhamos em alguma forma, né,

[00:32:41] algum tipo de mesquinharia, algum tipo de

[00:32:43] agressividade, alguns tipos de competitividade

[00:32:45] que a gente pode não perceber,

[00:32:47] né, inclusive essa coisa de que

[00:32:49] comportamentos que nós temos ali, né,

[00:32:51] que seriam ridículos,

[00:32:53] em qualquer outra esfera, ali são

[00:32:54] comportamentos considerados

[00:32:56] considerados, como é que é, positivos,

[00:32:59] considerados, digamos, de certa

[00:33:01] maneira, ah,

[00:33:02] interessantes, enfim, as pessoas batem palma,

[00:33:05] dão like, sei lá o que, então, assim,

[00:33:07] toda aquela agressividade

[00:33:09] do Billy Mitchell, né,

[00:33:11] no filme, você vai chegar e vai

[00:33:13] ver, assim, nas redes sociais isso acontecendo

[00:33:14] o tempo todo,

[00:33:17] eu acho que esse que é um ponto importante, a gente

[00:33:19] vê esses personagens, o Tomás, o Billy Mitchell,

[00:33:22] como,

[00:33:22] como vilões, como pessoas

[00:33:25] execráveis, mas tem em mente que

[00:33:26] o que eles estão

[00:33:28] fazendo, o que eles estão

[00:33:31] incorporando ali, são comportamentos

[00:33:33] amplamente

[00:33:34] difundidos, então, assim, quando a gente vê,

[00:33:37] por exemplo, por isso que eu falo que acho que é interessante a gente ver

[00:33:38] que esse filme, de certa maneira, antecipa

[00:33:41] essa cultura gamer

[00:33:42] underground, né, porque esses caras eram gamer

[00:33:44] underground, né, cara, o…

[00:33:47] antecipa

[00:33:48] o que seria, digamos, o grande jogo

[00:33:51] dos videogames, o grande jogo de

[00:33:52] videogame das redes sociais, é porque

[00:33:54] você vai identificar nas redes sociais

[00:33:56] o mesmo grau de competitividade,

[00:33:58] o mesmo grau de, sabe, de pessoas passando a perna

[00:34:01] uma nas outras, o mesmo grau de pessoas

[00:34:02] autorrealizadas

[00:34:04] com feitos que só

[00:34:06] contam dentro

[00:34:08] daquela comunidade. Cara, é uma coisa que

[00:34:10] as pessoas sempre falam comigo, pô, você tem muito

[00:34:12] seguidor no Twitter, ah, você tem 40 mil seguidores

[00:34:14] no Twitter, eu falei, cara, ter muito seguidor

[00:34:16] no Twitter, cara, é que nem ser rico no banco

[00:34:19] imobiliário, só que pior,

[00:34:21] só que pior, assim,

[00:34:22] mas aí, Orlando, você para pra pensar

[00:34:25] e pensa assim, quantas conquistas

[00:34:26] são objetivamente valiosas

[00:34:29] e quantas das conquistas

[00:34:31] que a gente valoriza na nossa sociedade ocidental

[00:34:33] são objetivamente, assim,

[00:34:35] aí a gente entra numa

[00:34:37] pira muito louca, que é

[00:34:38] olhar o quanto da nossa existência

[00:34:40] é totalmente ditada por

[00:34:42] questões tão artificiais, assim.

[00:34:45] Sim, sim, e aí que volta,

[00:34:47] é bom falar isso porque a gente entra

[00:34:48] no primeiro episódio do Black Mirror, na verdade

[00:34:50] dos dois, né, o…

[00:34:52] qual é o nome mesmo do primeiro?

[00:34:55] 15 Milhões de Méritos, 15 Milhões

[00:34:57] de Méritos. É, que é

[00:34:58] um episódio sobre

[00:35:00] pra quem não assistiu o…

[00:35:02] você quer dar a ficha do Black Mirror

[00:35:04] ou eu já posso…

[00:35:06] Eu quero falar uma coisa do Black Mirror pra

[00:35:08] se a discussão ficar acalorada, vocês

[00:35:10] entenderem um pouco, mas, assim, desde que eu revi

[00:35:13] eu tô mais do seu lado, talvez.

[00:35:14] Mas o Black Mirror é uma série

[00:35:16] do que a gente chama de uma série de antologia, né,

[00:35:18] que cada episódio é uma história diferente,

[00:35:20] é uma compilação de histórias

[00:35:21] com alguma coisa que as une em comum

[00:35:24] ali. No caso do Black Mirror é a temática,

[00:35:26] é sempre uma história de ficção científica,

[00:35:28] de um futuro próximo, que questiona

[00:35:30] o nosso engajamento, tanto com

[00:35:32] as tecnologias que, como o Orlando disse,

[00:35:34] nunca são neutras, e, né,

[00:35:36] e a sociedade em geral.

[00:35:38] Ele é muito…

[00:35:39] Ele é cria total, assim, do…

[00:35:42] Além da Imaginação, que é uma série

[00:35:44] que eu e o Orlando gostamos muito,

[00:35:46] que são, basicamente, é tudo, assim,

[00:35:48] as fábulas modernas.

[00:35:50] É sempre uma historinha com uma moral

[00:35:52] no final, né? E aí, ela é criada,

[00:35:54] o Black Mirror foi criada pelo Charlie Brooker,

[00:35:56] que é um cara que eu já gostava muito, mesmo antes

[00:35:58] de Black Mirror, porque ele foi, tal como eu,

[00:36:01] jornalista de joguinhos,

[00:36:02] que virou roteirista de televisão. E, antes

[00:36:04] de fazer Black Mirror, ele fazia programas de

[00:36:06] comédia sobre televisão.

[00:36:08] Então, ele fez

[00:36:09] três coisinhas que eu vou indicar pra vocês

[00:36:12] aqui, muito importantes,

[00:36:14] que, inclusive, uma inspirou bastante

[00:36:16] esse podcast.

[00:36:18] A primeira é o How TV,

[00:36:20] Ruined Your Life, que é uma série de seis episódios,

[00:36:22] que tem toda no YouTube.

[00:36:24] Só explorando, exato,

[00:36:26] essa coisa que o Pop Culture explora, assim, como que

[00:36:28] as cenas que você viu na telinha

[00:36:30] moldaram as suas expectativas e a sua visão

[00:36:32] da realidade. Ele fez

[00:36:34] um especial, uma vez,

[00:36:36] chamado Game Swipe, que é sobre videogames,

[00:36:38] e no qual ele fala que o maior

[00:36:40] videogame da atualidade é a rede social,

[00:36:42] exatamente. E

[00:36:43] ele também fez

[00:36:46] New Swipe, que aí era

[00:36:48] sobre como

[00:36:49] o jornalismo de TV

[00:36:52] é totalmente

[00:36:54] artificial, não tem nada a ver com

[00:36:56] te informar e tudo mais. E, assim,

[00:36:58] você pode achar coisas muito legais dele, a coluna

[00:37:00] que ele tinha no The Guardian como crítico de TV

[00:37:02] era muito boa, enfim. Só queria dar esse

[00:37:04] background aí dele e

[00:37:06] a relação

[00:37:07] de, assim, de apreço que eu tenho

[00:37:10] pelo trabalho do homem, antes da gente

[00:37:12] tacar-lhe pau aí

[00:37:14] no plano. Tacar-lhe pau, Marcos!

[00:37:16] Tacar-lhe pau, Marcos!

[00:37:19] É do Minha Terra, né?

[00:37:20] É, cara…

[00:37:22] Tá, Orlando, começa. Começa e vamos lá.

[00:37:24] Assim, porque eu acho que uma coisa

[00:37:26] que me incomoda

[00:37:29] no Black Mirror, e depois

[00:37:30] eu vou falar especificamente dos episódios, porque eu acho que é

[00:37:32] interessante. O Black Mirror, ele era

[00:37:34] uma coisa que a Ursula Le Guin, que pra quem não sabe

[00:37:36] é uma grande escritora de ficção,

[00:37:38] foi uma grande escritora de ficção científica

[00:37:40] norte-americana,

[00:37:42] e anarquista,

[00:37:44] que escreveu coisas como

[00:37:46] A Mão Esquerda da Escuridão,

[00:37:48] A Palavra pra Mundo,

[00:37:49] A Mão Esquerda da Escuridão,

[00:37:49] A Floresta,

[00:37:50] O… Despossuídos.

[00:37:54] Uma coisa que a Ursula Le Guin

[00:37:55] falava é que existem dois tipos

[00:37:57] de ficção científica. Uma que ela aprecia

[00:37:59] e uma outra que ela não aprecia tanto, né?

[00:38:00] Aquela aprecia é a ficção científica enquanto

[00:38:03] experimento, né? Que é basicamente

[00:38:05] como ela produz os níveis dela.

[00:38:07] Que uma das coisas que o experimento diz é

[00:38:09] cara,

[00:38:11] você começa a experimentar mesmo, por exemplo,

[00:38:12] A Mão Esquerda da Escuridão. Como seria viver

[00:38:15] num mundo sem gênero, sabe?

[00:38:17] Ou no Despossuídos. Como seria

[00:38:19] viver numa utopia anarquista.

[00:38:21] Então, assim, enquanto

[00:38:23] existe um outro tipo de ficção

[00:38:25] científica, é uma ficção científica muito rápida,

[00:38:27] vamos colocar assim, que é a ficção científica

[00:38:29] digamos,

[00:38:31] da especulação, como é que é?

[00:38:32] Da extrapolação. Que você pega um problema

[00:38:35] do presente e leva

[00:38:37] ele até o limite, né? E o limite é sempre o câncer.

[00:38:39] Por isso que você tem… E esse tipo de

[00:38:41] ficção científica da extrapolação é uma ficção

[00:38:43] científica tipicamente norte-americana,

[00:38:46] tipicamente ocidentalizada,

[00:38:47] que geralmente,

[00:38:49] vai cair sempre numa distopia

[00:38:51] e, veja só, a distopia

[00:38:53] é sempre um momento em que

[00:38:55] o cidadino

[00:38:57] branco, masculino,

[00:38:59] se vê num papel que

[00:39:01] usualmente é

[00:39:02] atribuído aos outros, né?

[00:39:05] Às mulheres, aos

[00:39:07] indígenas, aos negros. Então, assim,

[00:39:09] é impressionante. Um momento a gente vai falar

[00:39:11] nesse episódio, nesse programa, só sobre distopias e utopias

[00:39:13] pra mostrar que como, por exemplo,

[00:39:15] a distopia, a imaginação

[00:39:17] de distopia do cinema norte-americano, sobretudo,

[00:39:19] mas da literatura também, é justamente

[00:39:21] colocar o cidadão norte-americano no lugar

[00:39:23] ou dos povos indígenas, ou do lugar das mulheres,

[00:39:26] ou do lugar dos negros, saca? É sempre colocar

[00:39:27] no lugar do outro oprimido.

[00:39:29] E, nesse caso, é colocar a pessoa no lugar

[00:39:31] daquele que, segundo o Billy Mitchell, é o

[00:39:33] aparafusado, né? Aquele que tá sendo oprimido.

[00:39:36] Então, acho que esse é um problema. O meu problema

[00:39:37] que eu tenho com Black Mirror é isso.

[00:39:39] Ele é muito

[00:39:41] extrapolador,

[00:39:43] né? E não dá espaço pra você

[00:39:45] pensar em outras coisas. Fica assim, olha,

[00:39:47] o problema é esse aqui, ó. O problema é esse. Você fica repetindo

[00:39:49] ao longo dos episódios. Assim, não tem espaço

[00:39:51] pra nenhuma interpretação. Ele tem que deixar

[00:39:53] muito claro, né? Como é? Subtexto é

[00:39:55] coisa de covarde. Mas o…

[00:39:58] Exatamente. Outra série britânica muito

[00:39:59] boa, Garth Meringue’s Dark Place,

[00:40:01] onde o personagem titular

[00:40:03] fala a grande fala, que é

[00:40:05] subtexto é pra covardes.

[00:40:07] É, mas então, o…

[00:40:09] E acho que o Black Mirror tem

[00:40:11] esses dois episódios, né?

[00:40:13] Esse primeiro, né? O

[00:40:15] 50 Million Score, como é isso?

[00:40:17] É… Merits. 15 milhões

[00:40:19] de méritos. É, o que

[00:40:21] é, basicamente, pra quem não viu,

[00:40:23] são sujeitos que estão

[00:40:25] num…

[00:40:27] num prédio, não sei, num grande complexo

[00:40:29] que eles ficam

[00:40:30] em… Como é que é?

[00:40:33] Em bicicletas ergométricas. É,

[00:40:35] eles ficam em umas bicicletas ergométricas. Jogando Wii?

[00:40:37] É, eles

[00:40:39] ou jogam videogame ou assistem

[00:40:41] vídeos. Eles…

[00:40:43] Muita pornografia? É, eles

[00:40:45] não podem… Rola comercial de

[00:40:47] pornografia, né? Rola vários comerciais, inclusive

[00:40:49] de pornografia. E toda vez que eles pulam um comercial,

[00:40:51] eles têm que pagar por isso, né?

[00:40:53] Com esses méritos, né? Esse high score

[00:40:55] de méritos de cada um é meio que essa

[00:40:57] moeda que eles usam pra interagir

[00:40:59] com tudo na vida, assim, pra comprar uma maçã

[00:41:01] numa… E, tipo, até a maçã

[00:41:03] que o cara come, ele compra numa

[00:41:05] máquina, assim, né? Não tem…

[00:41:07] E, assim, todas as pessoas

[00:41:09] que a gente vê naquele prédio, elas são ou as

[00:41:11] pessoas que estão andando na bicicleta,

[00:41:13] ou as pessoas com sobrepeso

[00:41:16] que não aguentaram ficar…

[00:41:17] andando nas bicicletas,

[00:41:19] e aí viram os faxineiros

[00:41:20] que ficam ali limpando o lixo das pessoas que estão

[00:41:23] nas bicicletas.

[00:41:25] E, por sua vez, as pessoas que estão nas bicicletas estão

[00:41:27] querendo acumular méritos pra virar pessoas que

[00:41:29] aparecem na TV, porque tem, tipo,

[00:41:31] um American Idol, assim,

[00:41:33] que é um reality show onde você vai

[00:41:35] pra poder virar uma personalidade

[00:41:37] da indústria do entretenimento,

[00:41:39] basicamente. É tipo um X Factor, né?

[00:41:41] Que é mais do que só música.

[00:41:42] E se você tem o…

[00:41:45] Você sai lá das bicicletas

[00:41:47] e tem sobrepeso e ainda

[00:41:49] ganha mais peso, né?

[00:41:51] Você vai participar da televisão, mas também como

[00:41:53] ser torturado na televisão, né?

[00:41:55] Tipo, em programas que eles ficam literalmente torturando

[00:41:57] pessoas com sobrepeso, com obesidade,

[00:41:59] enfim. Você se torna um entretenimento…

[00:42:01] Assim, basicamente, todo

[00:42:03] entretenimento é um entretenimento pornográfico,

[00:42:06] né? Desde a pornografia,

[00:42:07] digamos, aquilo que a gente chama de pornografia, até a pornografia

[00:42:09] de tortura, ou até a erotização

[00:42:11] da cultura pop, porque tem todo um

[00:42:13] subtexto. Nem chega a ser um subtexto,

[00:42:15] é bem explícito sobre isso.

[00:42:16] Não é um subtexto.

[00:42:17] Não tem subtexto, cara. Não tem subtexto.

[00:42:19] Não tem subtexto.

[00:42:20] O Black Mirror, o espelho negro,

[00:42:23] é o seu telefone, cara, porque ele é…

[00:42:26] Você olha o seu reflexo nele,

[00:42:28] ele é um tijolinho preto

[00:42:30] e ele reflete você.

[00:42:32] Não tem subtexto.

[00:42:33] Não tem subtexto. E…

[00:42:36] Eu não sei se isso é um problema. Vamos lá.

[00:42:37] Por quê?

[00:42:39] Eu acho que é porque uma coisa que me imputece

[00:42:42] assistindo qualquer coisa

[00:42:43] é o…

[00:42:45] O filme achar que eu sou burro.

[00:42:47] Mas aí é uma insegurança

[00:42:49] sua. Não, não é insegurança.

[00:42:51] Isso é uma coisa que… Porra.

[00:42:54] É insegurança sua, rapaz.

[00:42:56] Não é porque eu não tô te falando de um jeito

[00:42:57] complicado que eu não acho que tu não ia entender

[00:42:59] se fosse complicado. Mas ele não está falando de um jeito complicado.

[00:43:01] Existem outras formas de falar. O filme tem que ficar

[00:43:03] o tempo todo. A narrativa para

[00:43:05] pra me mostrar o que está acontecendo.

[00:43:07] Eu odeio isso. É quase…

[00:43:09] Só falta ressuscitar a voz,

[00:43:11] o voice over, né? Tipo…

[00:43:13] Então aconteceu isso.

[00:43:15] Porque assim, o Black Mirror, ele faz

[00:43:17] isso o tempo todo. É que nem o último Blade Runner.

[00:43:20] Que a gente vai falar about isso em algum

[00:43:21] momento. Que o tempo todo os caras

[00:43:23] param. Olha, cuidado, hein. Olha só.

[00:43:25] Olha só. Presta atenção. Porque…

[00:43:27] Só que existe uma diferença muito grande

[00:43:29] entre esses episódios do Black Mirror que a gente vai

[00:43:31] falar aqui. E eu gostei bem menos do próximo

[00:43:33] que a gente vai falar. Mas vamos falar desse primeiro.

[00:43:35] E o novo Blade Runner…

[00:43:37] Ele é menos pior. Ele é menos pior.

[00:43:38] O Blade Runner tá propagando ideias nocivas. E no final das contas

[00:43:41] o PopCult sobre o que que é? É sobre

[00:43:43] como que a gente reforça certas ideias

[00:43:46] nocivas da nossa sociedade.

[00:43:47] Através da cultura

[00:43:50] de consumo em massa, né?

[00:43:52] Sim. E aí eu acho

[00:43:53] que no final das contas, o Black Mirror

[00:43:55] não me ofende

[00:43:57] como ofende você, no caso.

[00:44:00] Porque eu

[00:44:01] acho que tá tudo bem ali.

[00:44:04] Que ele tá…

[00:44:05] Ele tá fazendo uma reprodução

[00:44:07] exagerada de

[00:44:09] dinâmicas sociais que

[00:44:11] já existem na nossa vida. E aí

[00:44:13] ele exagera um monte por um efeito estético

[00:44:15] que é muito interessante. Sim, eu tinha esquecido.

[00:44:17] Por exemplo, quão interessante

[00:44:19] é a direção de arte, né?

[00:44:23] Sim, eu acho que é a melhor coisa.

[00:44:24] O design industrial

[00:44:25] do Black Mirror.

[00:44:27] Especialmente essas primeiras temporadas ali

[00:44:29] que eles tinham menos

[00:44:31] orçamento, tava na BBC

[00:44:33] e mesmo assim é do caralho. E eu acho

[00:44:35] que é um ponto de vista interessante

[00:44:37] que vem nesse episódio. Por mais que

[00:44:39] eu acho que, revendo agora, eu tinha esquecido

[00:44:41] quantos assuntos

[00:44:43] meio que eles empilham um em cima do outro

[00:44:45] pra criticar ao mesmo tempo.

[00:44:46] É muito interessante.

[00:44:47] É muito interessante porque ele foi escrito, como essas

[00:44:49] primeiras temporadas são quase todas escritas só pelo

[00:44:51] Charlie Brooker. E esse é um episódio que ele escreveu

[00:44:53] com a esposa dele, que também é

[00:44:55] uma roteirista apresentadora de televisão.

[00:44:57] E que já trabalhou em programas similares

[00:44:59] àquele…

[00:45:00] Até aquele X-Factor, basicamente, que a gente tem ali.

[00:45:03] Que é aquele reality show. Então, é muito interessante

[00:45:05] você ter pessoas que vêm desse

[00:45:07] background pra falar sobre isso.

[00:45:09] E eu acho que é isso.

[00:45:11] Toda a

[00:45:13] narrativa que se dá ali, você poderia

[00:45:15] imaginar ela como um filme sobre

[00:45:16] um cara que é um escritor, que queria

[00:45:19] né, tipo, que

[00:45:21] tá ali vivendo uma vida pacata, mas

[00:45:23] quer, né, ser ouvido

[00:45:25] e ter suas ideias propagadas. E aí ele se

[00:45:27] interessa por essa garota que chega na cidade

[00:45:29] e ela é uma garota mais ingênua, que

[00:45:31] quer ser uma cantora. E aí

[00:45:32] ela tenta entrar na indústria do entretenimento e aí ela é

[00:45:35] totalmente erotizada e objetificada por essa indústria.

[00:45:38] E aí, por causa da…

[00:45:39] E aí ele se revolta contra o sistema

[00:45:41] e aí o sistema mostra

[00:45:43] que ele tá totalmente imunizado contra a revolta

[00:45:45] porque ele sabe…

[00:45:46] Tudo em commodity, tudo em produto. Então é tipo assim,

[00:45:49] ah, você é um cara revoltado contra o sistema e você

[00:45:51] quer falar sobre isso? Ótimo, a gente sabe

[00:45:53] exatamente como empacotar e vender isso.

[00:45:55] E que a

[00:45:57] revolta… Que o sistema

[00:45:59] ele se perpetua

[00:46:01] assim, né? Por isso que

[00:46:02] a revolta individual, ela é muito ineficaz

[00:46:05] contra o

[00:46:07] sistema ali. E aí

[00:46:08] eu acho que ele não… Ele te deixa

[00:46:11] pensar assim. Eu acho que exatamente

[00:46:13] o modelo de ser… Deixa eu terminar.

[00:46:15] Deixa eu terminar.

[00:46:16] O modelo de ser uma série

[00:46:18] de…

[00:46:20] de episódios autocontidos,

[00:46:23] né? Não é serializada, não é tal.

[00:46:25] É exatamente pra caras

[00:46:27] como eu, que são roteiristas com

[00:46:29] total incapacidade de se

[00:46:31] focar nas coisas. Então você, ao invés

[00:46:33] de você ficar explorando aquele mundo e deixar

[00:46:35] várias brechas pra você pensar

[00:46:37] e tudo mais, você faz uma história muito

[00:46:39] pouco sutil mesmo, só pra

[00:46:41] explorar uma, duas, três ideias ali no

[00:46:43] mundo, sem ter que, tipo, ficar

[00:46:45] construindo,

[00:46:46] personagens e o mundo. Então, o que

[00:46:48] esse tipo de coisa te faz

[00:46:51] pensar, eu acho, assim, um episódio como esse,

[00:46:53] por exemplo? Onde que tá o espaço

[00:46:54] pra ele virar uma sementinha de

[00:46:57] pensamento na gente, que eu entendo que é o que você

[00:46:59] quer e que é realmente

[00:47:00] muito bom e muito proveitoso

[00:47:02] quando a cultura nos

[00:47:04] proporciona isso. É o

[00:47:06] seguinte, é você poder pensar

[00:47:09] nas coisas que poderiam ser diferentes,

[00:47:11] né? É você olhar e falar assim, putz,

[00:47:12] e se ele e as outras pessoas das bicicletas

[00:47:15] tivessem,

[00:47:16] se revoltado, e se as pessoas

[00:47:18] e tal, como que o mundo chegou naquele

[00:47:21] ponto? E aí você vai parar e vai pensar na nossa

[00:47:23] sociedade e quantas, e uma coisa

[00:47:25] que os episódios do Black Mirror são

[00:47:27] bem pouco sutis em fazer, mas acho que

[00:47:28] são bons, é meio que esfregar na sua cara

[00:47:31] de, tipo, isso aqui parece um futuro

[00:47:33] distópico, mas isso é muito, muito parecido

[00:47:35] com o que você tá fazendo. Isso aqui é uma analogia muito, muito,

[00:47:37] muito, muito óbvia a algo

[00:47:39] que você faz todo dia na sua vida.

[00:47:41] Então, eu aprecio isso

[00:47:43] e eu aprecio o quanto

[00:47:44] esse, o, o, o, sabe?

[00:47:47] É, eu acho que um símbolo

[00:47:49] da falta de, de, de,

[00:47:51] de subtexto que tem aqui,

[00:47:52] mas que eu não me sinto que tá me tratando como burro,

[00:47:55] é que o quarto de todas as pessoas

[00:47:57] que ficam nesse prédio, ele é só telas, né?

[00:47:59] Todas as paredes são telas, eles nunca veem

[00:48:01] o mundo real, e eles estão sempre vendo alguma

[00:48:03] coisa numa tela. E aí, quando ele

[00:48:05] tá deitado numa cama, ele bota a mão sobre

[00:48:07] os olhos, porque não aguenta mais ficar olhando

[00:48:09] pra tela, e aí todas as telas ficam vermelhas

[00:48:11] e falam assim, volte a assistir

[00:48:13] agora. É visão bloqueada.

[00:48:15] Exato, visão bloqueada.

[00:48:16] Se você não voltar a assistir, você vai levar uma multa, né?

[00:48:20] E é isso, assim, tudo que ele faz,

[00:48:21] ele, toda vez que ele pula um anúncio,

[00:48:23] tipo, ele tá escovando os dentes, e aí no espelho

[00:48:25] do banheiro tá passando um comercial, e ele

[00:48:27] quer pular, e ele, ok, mas você vai

[00:48:29] pagar pra pular esse comercial, então ele tem

[00:48:31] que gastar um dinheiro pra, e aí, enfim.

[00:48:34] E aí,

[00:48:35] o discurso dele no fim, eu acho que é muito energético,

[00:48:37] muito bom, e é sobre o mundo

[00:48:39] que ele tá, e como o mundo que ele tá é só

[00:48:41] uma extrapolação muito simplória

[00:48:42] do nosso mundo, é um discurso muito interessante.

[00:48:45] É claramente um discurso do,

[00:48:46] um monólogo do Charlie Brooker que ele teria feito em algum

[00:48:49] dos programas de não-ficção dele, assim.

[00:48:51] Mas ainda assim,

[00:48:52] nada do que eu vejo ali me faz pensar, tipo,

[00:48:55] ah, putz, meu,

[00:48:57] que ideia desinteressante, ou que, tipo,

[00:48:59] que crítica desinteressante.

[00:49:00] De maneira que eu olho pro, por exemplo,

[00:49:03] pro Black Mirror, o

[00:49:05] Blade Runner, ou o próximo episódio

[00:49:07] até que a gente vai falar do Black Mirror, e falo assim,

[00:49:09] ai, cara, não, cara, não.

[00:49:11] Não, então, tem

[00:49:12] coisas, então, o que eu acho que

[00:49:14] o meu problema maior,

[00:49:16] é o seguinte, o…

[00:49:19] ele não… eu acho que uma das

[00:49:21] questões é que ele não se fecha enquanto

[00:49:23] um ensaio, né, ou enquanto

[00:49:24] uma obra-ficção. Fica no meio-termo ali.

[00:49:27] Sobretudo até porque, se você for pensar

[00:49:29] naquele mundo, o mundo não funciona, né?

[00:49:31] Isso que é uma questão. Você não

[00:49:32] sabe se ele não funciona, porque a gente

[00:49:35] não vê o suficiente dele. Exato, então,

[00:49:36] mas assim, mas eu acho que tem uma…

[00:49:38] mas quando nos outros episódios,

[00:49:40] episódio lá da mulher… Não é o mesmo mundo, eu não vou

[00:49:42] comprar essa merda… Eu sei que não é o mesmo mundo,

[00:49:45] o que eu estou dizendo é o seguinte, porque os outros

[00:49:46] mundos que ele cria, quando ele vai falar de outros mundos,

[00:49:49] tu vê que são mundos sempre incompletos.

[00:49:51] Eles estão ali, toda aquela…

[00:49:52] todo aquele funcionamento da tecnologia,

[00:49:55] todo aquele mundo, ele existe em função

[00:49:57] do roteiro, daquilo que o cara quer passar

[00:49:58] pro roteiro. Por isso que ele é um ensaio.

[00:50:01] Calma, agora é minha vez.

[00:50:03] Minha direita de réplica.

[00:50:04] Vou botar o botãozinho aqui.

[00:50:06] Olha só, o ponto é,

[00:50:09] a questão, pra mim, é a

[00:50:10] seguinte, existe

[00:50:12] uma coisa

[00:50:15] que eu acho que é fundamental

[00:50:16] se a gente quer, em certas instâncias,

[00:50:19] produzir críticas

[00:50:20] ao mundo onde nós estamos, nós temos

[00:50:22] que produzir críticas que,

[00:50:24] de certa forma, em si mesmas,

[00:50:28] sejam capazes…

[00:50:29] Assim, elas

[00:50:30] tentem emular o mundo

[00:50:33] que a gente busca.

[00:50:35] Então, assim, se

[00:50:36] em outras instâncias a gente está falando

[00:50:38] uma das críticas fundamentais é justamente

[00:50:40] nessa cultura de acesso fácil,

[00:50:42] nesse sentido, assim, acesso

[00:50:44] pasteurizado, de mercador,

[00:50:46] energia mesmo e tudo mais, quando você

[00:50:48] produz uma crítica que em si mesmo já reproduz

[00:50:50] esse aspecto, ela

[00:50:52] em si, e eu acho que é isso que me incomoda

[00:50:54] no Black Mirror, é porque é uma indústria que

[00:50:56] é uma crítica que vem enlatada, literalmente,

[00:50:58] assim, porque você falou, é muito bom pra

[00:51:00] pessoas que não conseguem manter o foco, é muito bom pra isso.

[00:51:03] De fato, de fato.

[00:51:04] Porque ela vem como se fosse um produto de consumo

[00:51:06] fácil. Basicamente você…

[00:51:08] Inclusive, um dos efeitos, eu fui dar

[00:51:10] uma pesquisada, né, sobre

[00:51:12] trabalhos que fitam Black Mirror,

[00:51:14] pessoas falando de Black Mirror no Twitter, pessoas que…

[00:51:16] É muito doido como ele tem

[00:51:18] esse efeito de crítica

[00:51:20] anestésica, do tipo, a pessoa se sente

[00:51:22] bem por estar consumindo algo crítico, mas está ali

[00:51:24] consumindo dentro de uma plataforma de… E a gente não está

[00:51:26] sendo hipócrita, né? A gente faz isso.

[00:51:28] A questão é entender, assim, nós fazemos

[00:51:30] isso, a questão é como a gente produz

[00:51:32] uma crítica que vá, de

[00:51:34] certa maneira, além disso.

[00:51:37] E tem obras que fazem isso,

[00:51:39] né? Tem obras que param, que justamente

[00:51:40] te interromper

[00:51:43] esse movimento, né, de você parar

[00:51:44] a pensar e falar assim, cacete,

[00:51:46] você fazer, fixar a atenção

[00:51:48] do espectador em si mesmo,

[00:51:51] ela já é uma crítica, né?

[00:51:53] Tá fazendo…

[00:51:54] Acho que, enfim, a grande questão pra mim do Black Mirror

[00:51:56] é que ele vem empacotado

[00:51:58] como um produto industrializado

[00:52:01] de fácil consumo, né?

[00:52:03] Tanto que não tem subtexto, não pode

[00:52:04] ter subtexto em nenhum momento, tem…

[00:52:06] E fica repetindo às vezes, falando, ó, a crítica

[00:52:08] é essa, olha, tá vendo esse score? Esse score, ele

[00:52:10] não tem sentido. Olha só, caraca,

[00:52:12] toda a vida deles é mediada por esse score.

[00:52:14] Beleza!

[00:52:17] Das três primeiras vezes eu entendi,

[00:52:19] saca? Você não tem que repetir isso até o

[00:52:20] final, saca? O tempo todo.

[00:52:23] Então, assim, esse que é um…

[00:52:24] É uma questão pra mim. Porque

[00:52:26] o Black Mirror,

[00:52:28] primeiro ele fica entre o ensaio e a

[00:52:32] obra de ficção,

[00:52:32] como você mesmo falou, ele podia ser muito bem um monólogo,

[00:52:35] né, do produtor, mas ao

[00:52:36] mesmo tempo, ele…

[00:52:38] E não se decide entre uma coisa e outra,

[00:52:41] pode ser até um mérito, mas acaba não sendo

[00:52:42] porque ele vem num formato muito…

[00:52:44] enlatado pra mim, muito fácil.

[00:52:46] Saca? É uma crítica que realmente abre

[00:52:48] muito pouco espaço,

[00:52:50] e esse que é um outro ponto, né? Ela não é uma crítica

[00:52:52] multiplicadora, né? Ela é uma crítica

[00:52:55] que determina. Que aí vem…

[00:52:56] A gente vai entrar numa outra questão, porque a questão…

[00:52:58] Em vez de fazer você pensar

[00:53:00] outras coisas, te faz

[00:53:02] fazer você pensar e ter uma

[00:53:04] visão conforme a do

[00:53:06] produtor. Por isso que eu acho que é importante

[00:53:09] você ter obras, por exemplo, como Videodrome,

[00:53:10] né, que

[00:53:12] abrem espaço pra que você tire

[00:53:14] suas próprias conclusões do que está

[00:53:16] se passando ali, né?

[00:53:18] Pra que justamente… E nessas próprias

[00:53:20] conclusões do que está se passando

[00:53:22] ali, você possa produzir uma crítica.

[00:53:24] E aí que vem uma coisa que é legal.

[00:53:26] Essa crítica que você produz… Quem

[00:53:28] falou uma vez foi o Terry Gilliam, né?

[00:53:29] Que fez Doze Macacos, Aventuras do

[00:53:32] Barão Munchausen, fez…

[00:53:33] Qual outro filme bom do Terry Gilliam? Caramba, o do…

[00:53:36] Doze… O…

[00:53:38] O Medo Delino, As Vegas é dele.

[00:53:39] O Brasil, né? O Brasil é dele.

[00:53:42] O Brasil é dele. O Brasil é dele. O Brasil, o país é dele.

[00:53:44] Pouco a gente sabe, ele comprou em 1982.

[00:53:47] Mas assim, e uma coisa

[00:53:48] que o Terry Gilliam falava disso justamente pra falar mal

[00:53:50] do Nolan. Olha só que é por isso que é bom.

[00:53:52] Ah, se é pra falar do Nolan, mal

[00:53:54] do Nolan, putz, pode mandar.

[00:53:55] Porque ele fala mal do Inception, né, disso, né? E ele fala

[00:53:58] assim, cara, como que os filmes que

[00:54:00] de certa maneira são críticos da nossa sociedade, hoje em dia

[00:54:02] na verdade eles reproduzem até na sua própria estrutura

[00:54:04] aquilo que eles imaginam estar criticando.

[00:54:06] O Terry Gilliam, inclusive,

[00:54:08] ele já foi muito criticado por fazer filmes herméticos,

[00:54:10] né? O Brasil é um filme bem hermético, né, cara?

[00:54:12] Assim, o… Eu amo por isso,

[00:54:14] inclusive, mas enfim, porque eu sou chato.

[00:54:15] Mas o… Eu acho que o meu problema com Black Mirror

[00:54:18] é esse, né? Ele tem

[00:54:20] uma crítica, mas é uma crítica que te leva diretamente

[00:54:22] pra um ponto. Olha lá, você tem que pensar isso aqui,

[00:54:24] ó. Isso aqui é a crítica que a gente tá fazendo.

[00:54:26] Ele não abre espaço pra que você

[00:54:27] amplie o seu escopo crítico.

[00:54:30] Essa que é a questão. Então, assim,

[00:54:32] por isso que é uma crítica muito

[00:54:34] muito afeita a esse espírito do

[00:54:36] tempo, né? No qual você tá ali consumindo

[00:54:38] e se sentindo confortável por estar consumindo

[00:54:40] material crítico, saca?

[00:54:41] Duas coisas, então, aqui…

[00:54:43] Ah, rapidinho, só uma última coisa. Só uma última coisa pra isso

[00:54:45] que o Charlie Guilherme falava.

[00:54:47] Que esse tipo de reflexão

[00:54:49] no qual abre-se espaço pra

[00:54:51] produção de um escopo

[00:54:53] crítico, no qual você começa a pensar

[00:54:55] e refletir sobre,

[00:54:57] ela é importante pra formação de uma comunidade

[00:54:59] onde as pessoas se juntam

[00:55:01] pra debater, né,

[00:55:03] e não pra disputar, mas

[00:55:05] pra debater o que aquilo tá…

[00:55:07] os efeitos daquilo. Ou pra produzir

[00:55:09] a partir dos efeitos daquilo.

[00:55:11] Ele vai falar, por exemplo, da quantidade

[00:55:13] de pessoas que produziu e criou

[00:55:15] coisas a partir de Lanes Mecânicas,

[00:55:18] ou a partir de 2001, né?

[00:55:19] Que é diferente desse tipo de consumo

[00:55:21] do entretenimento atual,

[00:55:24] que justamente é um consumo individual.

[00:55:25] Você penta… O máximo que você vai postar no Twitter

[00:55:27] vai gerar toda aquela outra questão das redes, mas

[00:55:29] não é uma coisa que vai te levar a produzir uma

[00:55:31] comunidade. E isso aí…

[00:55:34] Eu acho que nesse momento ele tava se referindo

[00:55:35] a uma coisa do estilo

[00:55:37] mundo comum, né? Desse desenclausuramento

[00:55:40] necessário. Porque, cara,

[00:55:41] quando você tem uma crítica

[00:55:42] que chega a você e ela não se

[00:55:45] fecha em si mesmo, isso te leva a

[00:55:47] procurar outras referências.

[00:55:49] Cara, eu vi o Videodrome, cacete, eu vou

[00:55:51] ler o quê? Eu vou ler o Baudrillard pra entender melhor isso.

[00:55:53] Eu vou ver vídeos pra ver… Sabe?

[00:55:54] Você começa a ver um monte de coisa. Quando você, por exemplo,

[00:55:57] vai ver um produto

[00:55:59] como Black Mirror, ele tinha

[00:56:01] em si mesmo ali naquilo, né?

[00:56:02] Então, por exemplo, no máximo você vai ver um vídeo no YouTube,

[00:56:05] que é uma outra coisa que a gente vai ter que falar

[00:56:07] sobre vídeos que explicam

[00:56:09] as coisas.

[00:56:11] Eu tenho um sério problema com a cultura

[00:56:13] do explicar

[00:56:14] certas coisas que você

[00:56:17] não… Enfim,

[00:56:19] é muito difícil. O final de Mario…

[00:56:21] O final de Super Mario Bros. explicado, saca?

[00:56:23] Coisas assim, cara. É, é tipo isso.

[00:56:25] É tipo isso. Mas, cara,

[00:56:27] eu tive uma epifania com o que

[00:56:29] você tava falando. Olha…

[00:56:31] Concordo com muita coisa.

[00:56:33] E aí, eu acho que

[00:56:35] a gente tem um episódio de Black Mirror

[00:56:37] pra gente levar pro Netflix

[00:56:39] pra ver se eles produzem.

[00:56:41] Saca só.

[00:56:42] A gente tem um cara, e ele fica em casa,

[00:56:46] e tem esse programa

[00:56:47] que passa na tela da TV,

[00:56:49] que fala sobre como você ficar

[00:56:51] o tempo inteiro olhando pra tela sem pensar,

[00:56:54] é ruim.

[00:56:55] E aí ele fica assistindo isso e falando assim,

[00:56:57] cara, é muito ruim isso, né? É tipo, muito ruim.

[00:56:59] Você não deve fazer isso. Isso é péssimo pra você.

[00:57:01] Muito bom esse programa. Eu preciso ver o próximo.

[00:57:03] E aí ele fica vendo só vários episódios

[00:57:04] sobre como você ficar sentado na frente

[00:57:07] de uma tela o tempo inteiro,

[00:57:09] subserviente a um sistema,

[00:57:11] é ruim, só que

[00:57:12] ele se satisfaz totalmente

[00:57:15] em só pensar, é meu, é muito ruim.

[00:57:17] E continua comendo e olhando pra tela.

[00:57:18] Sabe onde tem uma pequena crítica a isso?

[00:57:20] No Twin Peaks, na última temporada do Twin Peaks.

[00:57:23] Com o personagem do psicólogo.

[00:57:23] A última temporada do Twin Peaks é muito metalinguística, né?

[00:57:27] E muito um tapa na cara de quem tem alguma coisa.

[00:57:29] As pessoas sentadas de frente

[00:57:31] pra uma televisão esperando algo acontecer, saca?

[00:57:33] Exato, as pessoas ficaram 20 anos

[00:57:35] esperando o David Lynch fazer mais

[00:57:36] The Twin Peaks. Ele, ah, você quer mais Twin Peaks?

[00:57:38] Então toma.

[00:57:40] E assim,

[00:57:41] concordo uma coisa, assim, que eu não esperava

[00:57:43] e eu deveria esperar, na verdade.

[00:57:45] Envelheceu muito mal.

[00:57:46] E muito rápido, né?

[00:57:48] Muito rápido, exatamente. O primeiro episódio é de 2011,

[00:57:51] mas a gente viu aqui no Brasil a maioria das pessoas

[00:57:53] em 2016, que foi quando

[00:57:54] ou 2015, ali, quando estreou no

[00:57:57] Netflix. Esse episódio

[00:57:59] que a gente vai falar agora, Nosedive, é o primeiro

[00:58:01] da terceira temporada, que foi já no

[00:58:03] Netflix. E aí eu vou te falar uma coisa.

[00:58:05] Vou fazer a ficha técnica aqui, já

[00:58:07] meio… Quando eu abri

[00:58:09] aqui a ficha técnica do episódio, antes da gente…

[00:58:11] a gente começar a gravar, eu falei

[00:58:12] ah, tá, entendi porque que eu achei

[00:58:15] ela mesmo. E foi um episódio que teve um free song

[00:58:17] imenso, né?

[00:58:19] Imenso, imenso, mas assim,

[00:58:21] eu sinto que todo o free song que houve na época

[00:58:23] do Black Mirror, era muito

[00:58:25] porque ele é uma crítica

[00:58:26] fácil de absorver

[00:58:29] porque

[00:58:30] é isso, assim, ela ecoava, assim, um sentimento

[00:58:33] que meio que todo mundo, mais ou menos

[00:58:35] tem, assim, né? De tipo,

[00:58:37] isso não faz sentido, ou por que que a gente tá fazendo isso?

[00:58:39] E a mensagem final, vamos lá, porque depois da finalização,

[00:58:41] a mensagem final, tu fica assim, é…

[00:58:42] Não, mas vamos lá, a gente vai chegar na mensagem final

[00:58:45] porque a mensagem final não faz sentido, mas

[00:58:47] porque o resto do episódio inteiro também não faz sentido.

[00:58:49] Mas vamos lá, o que que me

[00:58:51] decepcionou quando eu abri a porra do

[00:58:52] negócio? Quem que escreveu essa merda?

[00:58:55] Foi o primeiro roteiro que não foi

[00:58:57] o Charlie Booker que escreveu. Foi o

[00:58:59] Mike Schur e a Rashida Jones.

[00:59:01] O Mike Schur, pra quem não sabe,

[00:59:03] é o co-criador de

[00:59:04] The Office, o americano, né?

[00:59:07] E Parks and Recreation

[00:59:09] e The Good Place.

[00:59:11] E duas dessas séries, e se

[00:59:12] The Good Place, porque eu não vi até o final,

[00:59:15] elas são engraçadas,

[00:59:17] bem engraçadas, mas

[00:59:18] extremamente problemáticas, eu acho,

[00:59:21] no como elas tentam

[00:59:22] normalizar a

[00:59:24] miséria da existência média americana,

[00:59:27] assim. E especialmente Parks and Recreation,

[00:59:29] tipo, é uma série que adula

[00:59:31] totalmente, tipo, Joe Biden

[00:59:32] e Hillary Clinton, e

[00:59:34] acho que são duas séries que normalizam um pensamento

[00:59:37] muito… um

[00:59:39] conformismo meio medíocre, assim, com a vida.

[00:59:41] Né? Em contraste

[00:59:43] ao que você poderia criticar, por exemplo,

[00:59:45] o 15 Milhões de Méritos e vários outros episódios de

[00:59:47] Black Mirror, por serem extremamente cínicos

[00:59:49] e não verem esperança em nada.

[00:59:51] Né? Eu entendo essa crítica também.

[00:59:53] Por mais que eu, diferente de você,

[00:59:55] eu acredito que essas críticas que não deixam espaço

[00:59:57] pra você querer mais, acho que

[00:59:59] às vezes são boas. Uma crítica

[01:00:00] totalmente cínica e fatalista,

[01:00:03] às vezes é bom também.

[01:00:04] Porque ela pode ter o efeito contrário.

[01:00:07] Esse negócio dela tão

[01:00:09] em si mesmada, assim, às vezes pode te revoltar

[01:00:11] e falar assim, cara, não. Tipo, causar

[01:00:13] uma…

[01:00:14] né? Você discordar tanto daquilo

[01:00:16] que você quer fazer

[01:00:19] mais. Mas…

[01:00:19] Eu vou falar uma coisa sobre isso, porque

[01:00:22] como é meu tema

[01:00:25] de pesquisa dessa história,

[01:00:26] uma das coisas que eu mais vejo, e eu acho

[01:00:29] que isso tem uma relação muito rápida,

[01:00:30] muito direta com esse tipo de crítica rápida

[01:00:33] e determinante

[01:00:35] e cínica, é um

[01:00:37] certo pessimismo das pessoas

[01:00:39] com relação ao mundo que estão, né?

[01:00:41] Tipo, não há jeito. Não tem jeito.

[01:00:43] Eu acho que, assim, falando de uma

[01:00:45] maneira prática sobre o mundo e tudo mais,

[01:00:47] eu acho que, inclusive, o que você falou sobre

[01:00:48] ser um ensaio

[01:00:51] na sua visão inacabado

[01:00:53] é ruim, porque o que você precisa fazer

[01:00:55] pra energizar as pessoas é

[01:00:56] propor, né? É propor um futuro

[01:00:59] melhor, assim, né? Tipo, você quer

[01:01:00] muito fazer o

[01:01:02] happy mirror, né?

[01:01:04] Não é happy mirror, né, cara? É other mirror.

[01:01:07] Exato. Você quer falar assim, tipo,

[01:01:08] nossa, olha como poderia ser a sociedade.

[01:01:09] Mas até você adora a lenda

[01:01:11] imaginação, que não era isso.

[01:01:13] Não, mas a questão toda, porque, por exemplo,

[01:01:15] é aquilo que eu falo o tempo todo, né, cara? Hoje em dia

[01:01:17] e sobretudo pra um tipo de ficção

[01:01:19] especulativa

[01:01:20] comprometida, né? É mais fácil

[01:01:23] imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo,

[01:01:25] né? E aí, por exemplo, você vai pegar, por exemplo,

[01:01:27] a obra de grandes autores de ficção científica,

[01:01:29] a gente me gestiona na outra direção. A Ursula Le Guin,

[01:01:31] que é uma autora que eu não canso de

[01:01:33] recomendar pra todo mundo, ela é justamente

[01:01:35] o cerne da ficção científica

[01:01:38] que ela trabalha é isso, né?

[01:01:39] Vamos imaginar um outro

[01:01:41] mundo, sabe? Porque é imaginando

[01:01:43] um outro mundo que a gente vai energizar

[01:01:46] e encontrar elementos pra

[01:01:47] se, digamos,

[01:01:49] se desvencilhar desse,

[01:01:51] ou pelo menos resistir à opressão desse, né?

[01:01:54] Eu acho que é esse tipo de coisa que

[01:01:55] falta hoje em dia. Mas eu,

[01:01:57] uma coisa que eu mantinha sempre muito

[01:01:59] consciente na minha época que eu

[01:02:01] escrevia críticas de coisas,

[01:02:03] né, pra viver, é que você não pode

[01:02:05] criticar o que algo não é, assim.

[01:02:07] Eu acho que é muito contraproducente, né?

[01:02:09] Então, eu entendo que, assim, é ótimo

[01:02:11] e eu quero mais de conteúdo

[01:02:14] que seja, né, propositivo

[01:02:16] e acho que vai ter um efeito

[01:02:17] positivo no que a gente precisa no mundo,

[01:02:20] né? Acho que a gente fala muito

[01:02:21] nós dois sobre o como falta

[01:02:23] uma esquerda propositiva, por exemplo,

[01:02:25] e tal, né, pra conquistar

[01:02:27] exatamente a imaginação das pessoas

[01:02:29] e porque é daí que vem a esperança.

[01:02:32] O que é um pouco, na verdade,

[01:02:33] triste de se falar, que a esperança vem da imaginação,

[01:02:36] que ela não vem do real. Mas, enfim,

[01:02:38] o próximo episódio que a gente vai falar é

[01:02:39] Ghost Dive, que é o episódio que

[01:02:41] muita gente viu aqui como o primeiro episódio

[01:02:44] de Black Mirror

[01:02:45] e ele é o episódio que

[01:02:47] tudo na sua vida é ditado exatamente

[01:02:50] pelos pontos das redes sociais.

[01:02:52] Todo mundo avalia todo mundo o tempo

[01:02:53] inteiro, né, tipo,

[01:02:55] igual você dá cinco estrelas pro

[01:02:57] motorista lá do Uber,

[01:02:59] pro entregador do iFood e tal,

[01:03:02] todo mundo tá sempre se dando

[01:03:03] essas avaliações, que não deixa de ser o que você faz ali

[01:03:05] dando os likes nas pessoas

[01:03:07] no Facebook, no Twitter,

[01:03:09] no Instagram, no TikTok.

[01:03:11] E aí tem a Bryce Dallas Howard, que é a nossa

[01:03:13] principal ali, que ela tá querendo muito subir

[01:03:15] as estrelas dela, porque se ela conseguir

[01:03:17] mais uma estrela, ela tem um desconto

[01:03:19] pra comprar um apartamento, né?

[01:03:21] E aí,

[01:03:22] o episódio inteiro é ela indo

[01:03:25] pro casamento de uma amiga, viajar pro casamento de uma amiga

[01:03:27] e as coisas acontecendo de uma maneira

[01:03:29] que, cumulativamente, ela vai perdendo cada vez

[01:03:31] mais estrelas e se desesperando por causa disso

[01:03:33] e, no final, ela é presa

[01:03:35] e aí ela tá lá na prisão, onde ninguém tem mais

[01:03:37] estrelas, ela não tá mais no sistema

[01:03:39] de avaliação social

[01:03:40] e aí ela e o cara que tá na cela

[01:03:43] na frente dela, começam a se xingar

[01:03:45] numa cena extremamente mal dirigida

[01:03:47] na qual parece que

[01:03:49] eles tão só prestes a transar.

[01:03:51] E aí, a maior

[01:03:53] falha desse episódio, pra mim,

[01:03:56] é exatamente que

[01:03:57] ele é o episódio Black Mirror

[01:03:59] dos que eu vi, porque eu não vi as duas últimas

[01:04:01] temporadas mais recentes, mas

[01:04:03] é o episódio mais distante de qualquer

[01:04:05] crítica de algo da nossa sociedade

[01:04:07] que é, cara,

[01:04:09] se tem uma coisa que as redes sociais

[01:04:11] fizeram e essa eterna

[01:04:13] busca por gratificação

[01:04:15] e aprovação fizeram

[01:04:17] não foi a gente ficar, como no episódio

[01:04:19] extremamente obsequioso

[01:04:21] e educado

[01:04:22] e sem a capacidade

[01:04:25] de xingar

[01:04:27] o outro, exato, de ser ofensivo

[01:04:29] e de diminuir o outro, sabe

[01:04:31] ou seja, assim, eu não

[01:04:33] entendo

[01:04:34] o que tá sendo criticado ali

[01:04:38] porque ele tá

[01:04:39] assim, a não ser que o episódio

[01:04:41] seja exatamente

[01:04:43] o Happy Mirror que a gente quis, e de alguma maneira

[01:04:45] ele esteja falando assim, não seria legal se a gente fosse

[01:04:47] legal com todo mundo nas redes sociais, e para

[01:04:49] e pensa e diz, não, na verdade não

[01:04:51] não seria legal também, então

[01:04:53] assim, ei, talvez esse episódio

[01:04:55] seja como nenhuma tecnologia

[01:04:56] neutra, e na verdade

[01:04:59] agora eu gosto dele, mas eu acho que eu tô sendo

[01:05:01] muito generoso na minha interpretação

[01:05:03] muito generoso, mas muito generoso, nossa

[01:05:05] mas fica, mas olha só

[01:05:06] é porque eu vi a abertura pra minha interpretação

[01:05:09] aqui, eu tô mudando de ideia

[01:05:10] essa tua outra interpretação, ela deve

[01:05:13] ser uma consequência do seu histórico

[01:05:15] de abusos, vamos ser sinceros

[01:05:17] porque assim, inclusive

[01:05:20] inclusive, passa o telefone da tua mãe

[01:05:23] tá ligado, pra qualquer emergência

[01:05:25] ligar pra ela, assim

[01:05:26] eu acho que

[01:05:27] lembra que eu falei

[01:05:30] isso é insegurança sua, eu acho que isso é insegurança minha

[01:05:33] essa minha disponibilidade

[01:05:35] de sempre fazer o contra-argumento

[01:05:37] daquilo que eu mesmo argumentei

[01:05:39] a gente fala assim, olha é o seguinte

[01:05:41] eu acho que eu tô errado

[01:05:42] mas, porém, todavia, entretanto

[01:05:46] mas, vai, eu quero ouvir o que você

[01:05:47] achou desse episódio

[01:05:48] é porque esse episódio, ele é uma crítica fácil

[01:05:51] é, porque assim, muito

[01:05:52] quando você vai consumir material crítico, entre aspas

[01:05:56] né, sobre redes sociais, sei lá o que

[01:05:57] as pessoas só falam de ego

[01:05:59] ao ego das pessoas, é uma relação do ego

[01:06:01] é a leitura mais rápida que se faz

[01:06:03] é que as redes sociais, as pessoas tão ali pelo seu próprio ego

[01:06:05] as pessoas tão ali, ah, porque

[01:06:07] é quase como se fosse uma visão

[01:06:09] muito superficial sobre como

[01:06:11] o Instagram funciona, ou sobre como

[01:06:13] o sistema de likes funciona

[01:06:15] porque justamente é isso, o ego, então você tem que ser

[01:06:17] uma pessoa que agrada as pessoas

[01:06:19] só que, bicho, a gente

[01:06:21] sabe que as redes sociais

[01:06:23] a internet, quase como um todo, ela não

[01:06:25] funciona dessa forma, porque ela vai

[01:06:27] o que tá, o foco

[01:06:29] ali é na interação

[01:06:31] né, no engajamento, e muitas

[01:06:33] vezes, e a beligerância

[01:06:35] a beligerância, ela é muito

[01:06:37] estimulada como uma

[01:06:39] forma de engajamento, então assim

[01:06:41] é sempre bom lembrar, né, de como

[01:06:43] você formou toda uma geração

[01:06:45] de militância na base do textão do Facebook

[01:06:47] e o textão do Facebook, a própria

[01:06:49] definição dele, os que faziam mais

[01:06:51] sucesso, eram aqueles mais

[01:06:53] polêmicos, então por exemplo, se eu escrevo

[01:06:55] ah, no Facebook, um tratado

[01:06:57] sobre a metafísica de Leibniz, sobre, sei lá

[01:06:59] a teodiceia de Leibniz

[01:07:01] a monoda e tal, todo mundo vai cagar

[01:07:03] no Facebook, agora se eu escrevesse

[01:07:05] uma coisa sobre, ah

[01:07:07] usando palavras de ordem

[01:07:09] denunciando alguma coisa, sei lá o que

[01:07:11] isso geraria engajamento, e eu não tô dizendo que

[01:07:13] esses textos não tenham

[01:07:15] seu mérito, não apontem questões reais

[01:07:17] não tô dizendo isso, eu estou dizendo

[01:07:19] que é um estilo de

[01:07:21] escrita, é quase como

[01:07:23] se as redes sociais estivessem premiando

[01:07:25] o sensacionalismo, né

[01:07:27] e não, digamos, toda uma elaboração

[01:07:29] do pensamento, sei lá o que, então assim

[01:07:31] e é quando você tem uma simplificação disso no

[01:07:33] Twitter, o Twitter é isso de forma

[01:07:35] simplificada e mais rápida, o Twitter é isso

[01:07:37] de uma forma muito dinâmica, então assim, o que tá sendo

[01:07:39] muitas vezes isso vai ser, não é à toa que isso

[01:07:41] rapidamente vai se desdobrando

[01:07:43] para um engajamento

[01:07:45] beligerante, ou seja, um engajamento

[01:07:47] as pessoas estão o tempo todo brigando

[01:07:49] qualquer diferença nesse lugar

[01:07:51] é disputada na base da violência

[01:07:53] e aí, cara,

[01:07:54] a gente vê isso todo dia

[01:07:57] na rede social, as pessoas brigando

[01:07:59] brigando, e aí ao mesmo tempo

[01:08:01] tendo comportamentos

[01:08:03] adictos, né, de adictos

[01:08:05] porque tem uma coisa que

[01:08:06] é, eu tenho adictos

[01:08:09] na família, né, enfim, e

[01:08:11] uma coisa que eu aprendi

[01:08:13] com isso, né, que adicção não é um comportamento

[01:08:15] prazeroso, né, não é

[01:08:17] a pessoa não consome, no momento que a pessoa

[01:08:19] consome algo e não há prazer naquilo

[01:08:21] prazer genuíno, porque às vezes ela tem

[01:08:23] a ilusão do prazer, né, pra poder justificar

[01:08:25] e tal, mas é porque

[01:08:27] há adicção, e aí eu lembro de uma pesquisa

[01:08:29] pra conectar tudo, que eu falei até no programa com a

[01:08:31] Rosana, é

[01:08:32] sobre como a televisão

[01:08:35] noticiários violentos, as pessoas eram adictas daquilo

[01:08:37] as pessoas sabiam que se elas não assistissem a esses

[01:08:39] esses noticiários, elas se sentiriam

[01:08:41] melhores, mas elas não conseguiam

[01:08:43] não assistir, tem pesquisas que

[01:08:45] mostram isso, e eu acho que

[01:08:46] eu ainda não vi pesquisas assim, tem

[01:08:49] quase certeza que deve ter, se procurar eu vou achar, né

[01:08:51] eu não conseguia parar pra procurar isso

[01:08:53] de, mostrando como as

[01:08:55] pessoas se sentem

[01:08:57] melhor, e eu vejo pessoas falando isso

[01:08:59] comigo, ah cara, não vou entrar no Twitter não porque eu quero

[01:09:01] ficar bem, saca? E só que

[01:09:03] chega um momento que ela não consegue não entrar

[01:09:04] chega um momento que ela não consegue não ir no

[01:09:07] Facebook, não consegue no Instagram, isso são

[01:09:09] as redes sociais, o episódio

[01:09:10] reduz todo esse que é talvez o grande problema

[01:09:13] das redes sociais no presente, que é a adicção

[01:09:15] e que se desdobra no confronto de beligerância

[01:09:17] e competição, que é uma radicalização

[01:09:19] justamente daquele que a gente falou lá atrás

[01:09:21] no King of Kong, né, numa disputa pelo

[01:09:22] High Score, o High Score é o vício

[01:09:25] né, não é uma coisa do tipo

[01:09:27] caraca, de ego puramente, é um

[01:09:29] vício de existência, porque

[01:09:30] por que que ele é um vício de existência?

[01:09:33] Porque fora dessa comunidade

[01:09:35] dentro dessa comunidade você

[01:09:37] só é algo por causa desse High Score

[01:09:39] você só é alguém na internet por causa dos seus

[01:09:41] seguidores, por causa dos seus likes, por causa

[01:09:42] isso não é uma questão de ego, isso é uma questão de dependência

[01:09:45] né, não é você

[01:09:47] e o que isso gera, não é

[01:09:49] essa harmonia falsa forçada

[01:09:51] que o episódio tanto critica

[01:09:53] é tipo

[01:09:53] é exatamente o contrário, assim, inclusive

[01:09:57] voltando pro que você falou sobre a adicção

[01:09:59] de ver aqueles

[01:10:00] telejornais e tal

[01:10:02] eu me lembrei de uma situação muito

[01:10:05] interessante recente da minha vida, que foi

[01:10:07] discutindo com uma pessoa no Twitter

[01:10:09] que falou que, ah, mas quem não

[01:10:11] assina jornal se informa como

[01:10:13] né, que é aquela coisa de

[01:10:15] estar informado é consumir

[01:10:17] o jornalismo dos grandes jornais

[01:10:19] e só, e é consumir

[01:10:21] né, e aí eu lembro que

[01:10:23] eu respondi e tal, e aí alguém me chamou

[01:10:25] de canto ali no WhatsApp e falou assim

[01:10:27] ah, eu conheço fulana

[01:10:28] ela tá fazendo muita polêmica hoje em dia

[01:10:31] eu acho que é pra ganhar seguidor

[01:10:32] porque é exatamente isso que acontece mesmo

[01:10:35] você lê algo que

[01:10:37] gera, tipo, revolta nos

[01:10:39] outros e você meio que às vezes

[01:10:40] ok, eu vou seguir aqui pra ter meu

[01:10:42] pra ter uma dose de conflito

[01:10:44] todo dia aqui, quando essa

[01:10:47] pessoa falar algo idiota e as pessoas

[01:10:48] ficarem revoltadas aqui, eu vou estar aqui pra ver

[01:10:51] entendeu? Cara, eu vejo muito isso

[01:10:53] assim, no meu próprio

[01:10:55] timeline, a quantidade de pessoas que me

[01:10:57] seguem e que me dão RT

[01:10:59] que vão lá comentar minhas coisas

[01:11:01] por sentirem raiva, por não concordar

[01:11:03] mais uma vez, sei lá o que

[01:11:05] caraca, eu fico pensando assim, bicho

[01:11:07] você não concorda comigo, você tá

[01:11:08] sempre brigando comigo, porra

[01:11:11] ignore minha existência, cara

[01:11:13] assim, e aí aquilo que eu falo

[01:11:14] da coisa do

[01:11:15] cara do Mitchells, né

[01:11:18] tipo, bicho

[01:11:20] esses comportamentos

[01:11:23] não são comportamentos positivos, são comportamentos

[01:11:25] que a gente só acha

[01:11:25] a gente só encara como

[01:11:28] algo natural dentro dessa diegese

[01:11:31] que são as redes sociais, dentro dessa grande narrativa

[01:11:33] que são comportamentos que

[01:11:34] se a gente estivesse fora dela

[01:11:37] seriam comportamentos odiosos

[01:11:38] comportamentos, vai voltar a história lá

[01:11:40] da esposa, que

[01:11:41] dentro daqueles

[01:11:44] dentro desse universo

[01:11:46] né, tipo, esse tipo

[01:11:48] de comportamento faz sentido

[01:11:50] ele inclusive gera like

[01:11:52] você procurar polêmica, gerar briga, sei lá

[01:11:54] tá atrás das pessoas, distorcer

[01:11:56] coisa que acontece direto, você fala uma coisa

[01:11:58] a pessoa distorce o que você fala e te expõe

[01:12:01] e vira uma grande questão e ganha

[01:12:02] seguidor e perde seguidor

[01:12:03] esse tipo de comportamento, fora desse ambiente

[01:12:06] seria considerado odioso

[01:12:08] as pessoas olhariam pra essa pessoa e falassem, cara, essa é uma pessoa

[01:12:10] problemática, às vezes é uma pessoa

[01:12:12] que tem que lidar com algum tipo de

[01:12:14] questão psicológica, enfim

[01:12:16] é muito comum, cara, tipo, eu digo isso

[01:12:18] eu digo isso com propriedade, eu não tô tirando

[01:12:20] eu não tô adiando isso, tirando meu corpo fora, fazendo exercício

[01:12:22] de superioridade, eu já fui uma pessoa

[01:12:24] inclusive quando eu estourei na internet

[01:12:26] no momento em que eu deixei de

[01:12:28] enfim, pra quem escuta esse podcast e não sabe

[01:12:30] durante muitos anos na internet, eu fui

[01:12:32] anônimo, né, tipo, eu tinha um personagem

[01:12:34] um gatinho, né, uma narcofia

[01:12:36] enfim, não usava meu nome por questões até

[01:12:38] profissionais

[01:12:39] teve um momento da minha vida

[01:12:42] que por conta de uma crise de depressão

[01:12:44] eu me engajei muito na internet e foi um momento

[01:12:47] justamente que eu comecei a estourar, entre aspas

[01:12:48] ganhar uma certa projeção na internet

[01:12:50] e eu tive comportamentos muito beligerantes

[01:12:53] nessa época, justamente

[01:12:54] por conta da questão psicológica

[01:12:56] do momento psicológico que eu estava passando

[01:12:58] e era muito

[01:13:00] bizarro, como eu só fui perceber isso na análise

[01:13:03] né, tipo, como

[01:13:04] a rede, a estrutura

[01:13:06] das redes e as pessoas ali

[01:13:08] estavam, como é, reforçando

[01:13:10] meus comportamentos negativos, reforçando

[01:13:12] meus comportamentos beligerantes, porque eu ganhava

[01:13:14] like, porque, sabe, tipo, ah, eu estou

[01:13:16] alguma coisa está acontecendo, estou me comunicando

[01:13:18] com as pessoas, sei lá, que quando você percebe

[01:13:20] que não está acontecendo isso, é um processo

[01:13:22] quase de libertação, né, mas isso não te

[01:13:24] torna imune, essas dinâmicas, mas o meu ponto

[01:13:26] é que às vezes você tem

[01:13:28] uma questão, um problema fora

[01:13:30] no mundo real, você está apresentando

[01:13:32] problemas, você está apresentando uma certa

[01:13:34] disfuncionalidade e dentro das redes

[01:13:36] você, essa disfuncionalidade

[01:13:38] se traduz como uma coisa que é muito estimulada

[01:13:41] e isso

[01:13:42] reforçar isso muitas vezes é nocivo para

[01:13:44] você, e eu digo isso como uma pessoa

[01:13:46] que era ativa, eu falo isso com muita propriedade

[01:13:48] isso é uma coisa muito pesada, tive que

[01:13:50] fazer muita terapia para poder melhorar

[01:13:52] com isso, para me sentir bem

[01:13:54] para sair de uma crise de depressão profunda por causa disso

[01:13:56] e aí, não é à toa que se você for ver na internet

[01:13:58] quantas pessoas falam de depressão, de mal-estar

[01:14:01] de ansiedade, cara, quantas

[01:14:03] pessoas sofrem de ansiedade, quem você conhece

[01:14:04] que está na internet hoje em dia, sobretudo em tempos de quarentena

[01:14:06] que fala assim, não estou ansioso

[01:14:08] e quando você fala assim, cara, quais são os motivos de ansiedade

[01:14:11] ah, eu estava no twitter e vi tal coisa, eu estava na internet

[01:14:13] e vi tal coisa, bicho

[01:14:14] as redes estão deixando todo mundo doente

[01:14:17] e grande parte disso é porque elas

[01:14:18] reforçam um comportamento

[01:14:20] doentio, ah, só ficar

[01:14:22] replicando aquilo que nos ofende, replicando aquilo

[01:14:24] que nos agride, cara, porque que a gente não

[01:14:26] consegue ignorar essas coisas

[01:14:28] porque, de certa maneira, às vezes

[01:14:30] ignorar é combater, sabe

[01:14:33] a política mesmo parasitou

[01:14:35] a gente vai falar disso num próximo episódio, mas

[01:14:36] a própria política, esse universo da extrema direita

[01:14:39] da raiva, ele cresceu

[01:14:40] e parasitou justamente essa nova

[01:14:42] economia da atenção, né

[01:14:44] sim

[01:14:45] é muito louco, eu acho que o mais

[01:14:48] importante, eu acho, de

[01:14:49] pra amarrar esse episódio

[01:14:52] é que assim, eu abri falando que

[01:14:54] a gente ia analisar o quanto

[01:14:56] as redes sociais são um jogo

[01:14:59] que a gente está o tempo inteiro jogando, né

[01:15:01] mas eu acho que o mais importante é isso

[01:15:02] a gente está o tempo inteiro jogando esse jogo

[01:15:04] não porque a gente quer, é porque a gente está

[01:15:06] viciado, sim

[01:15:07] porque existe um sistema pra nos manter viciados

[01:15:10] entende? É isso, é exatamente como

[01:15:12] você falou, o vício é quando

[01:15:14] você não quer fazer uma coisa que você

[01:15:16] continua repetidamente a fazer

[01:15:18] você não queria estar fazendo aquilo

[01:15:20] você vai e você faz, porque você não consegue

[01:15:22] não fazer. A gente pode falar muito disso

[01:15:25] como o engajamento

[01:15:26] negativo é o engajamento prioritário

[01:15:28] as pessoas reagem àquilo que dá raiva e não àquilo

[01:15:30] é muito mais fácil a pessoa falar do Bolsonaro do que

[01:15:32] falar do pop cult, mesmo a pessoa sendo um grande fã

[01:15:34] do podcast, sabe?

[01:15:36] A pessoa que às vezes ouve

[01:15:39] alguma coisa, um conteúdo que gosta

[01:15:41] assiste um negócio, às vezes nem

[01:15:43] compartilha e nem comenta, porque tipo

[01:15:45] só satisfez, mas assim, a pessoa

[01:15:47] se deparar com um conteúdo

[01:15:49] que a ofende, a ataca

[01:15:51] gera raiva

[01:15:52] faz com que ela comente, faz com que ela

[01:15:55] compartilhe indignada, isso é algo que

[01:15:57] a gente sabe hoje, assim

[01:15:58] explicitamente que, por exemplo, é como o Facebook

[01:16:01] funciona e

[01:16:03] isso tem consequências materiais

[01:16:05] grandes, assim, né?

[01:16:06] O como

[01:16:08] você, né, sabe isso muito mais

[01:16:11] do que eu, porque é a sua pesquisa

[01:16:13] mas assim, os efeitos materiais na política

[01:16:15] mundial, assim, né, essa ascensão

[01:16:17] da direita mundial

[01:16:18] é calcado no Facebook e no YouTube

[01:16:21] assim, essas ferramentas

[01:16:23] na busca do

[01:16:25] engajamento sem filtro, assim

[01:16:27] de tipo, não importa no que você está

[01:16:29] engajado, só importa que você esteja aqui

[01:16:30] consumindo nossos anúncios, fez

[01:16:33] com que a gente criasse

[01:16:35] as empresas mais

[01:16:36] ricas e poderosas do mundo

[01:16:38] totalmente baseadas em nos manter

[01:16:41] em jaulas, olhando

[01:16:43] pra coisa que a gente não quer olhar

[01:16:44] e isso é uma coisa que

[01:16:46] é fundamental, porque

[01:16:48] o que mais você vê quando você

[01:16:50] começa a falar disso pras pessoas, é que as pessoas

[01:16:53] se acham imunes a isso, e aí

[01:16:54] quando você vai mostrar pra elas que elas

[01:16:56] têm esse comportamento também

[01:16:58] isso é muito comum nas esquerdas, por exemplo

[01:17:01] as pessoas acham que

[01:17:02] só o pessoal da direita é manipulado pelo algoritmo

[01:17:04] só o pessoal do outro lado, e tu fala assim

[01:17:06] cara, não, porque olha o que a gente está fazendo

[01:17:09] olha como a gente virou uma cultura reativa

[01:17:11] uma cultura que se engaja pela raiva

[01:17:12] pela ligeirância, a gente está participando

[01:17:14] do mesmo sistema que eles

[01:17:16] sabe, a questão que alguns deles

[01:17:18] estão surfando nisso, enquanto a gente só está

[01:17:20] sofrendo nessa história, e assim, não estou dizendo

[01:17:22] aqui pra gente fazer as mesmas coisas, deixar claro

[01:17:25] mas assim, a grande questão é que

[01:17:26] ninguém está imune, as redes sociais

[01:17:28] não são apenas ferramentas, muito pelo contrário

[01:17:30] elas nos colocam

[01:17:32] de certa maneira como aqueles sujeitos

[01:17:34] que estão ali buscando o high score

[01:17:36] Donkey Kong, viciados

[01:17:38] a vida caindo, desmoronando, o mundo desmoronando

[01:17:40] ao redor, e a gente preso

[01:17:42] nas dinâmicas internas daquela

[01:17:44] comunidade, preso porque tem

[01:17:46] um high score possível

[01:17:49] sabe, e não é só

[01:17:50] é fundamental entender que esse high score não é uma questão

[01:17:53] de ego, esse high score é uma

[01:17:54] questão de propagação, uma questão de engajamento

[01:17:56] às vezes pra gente o high score não é ter milhões de seguidores

[01:17:59] às vezes é ter

[01:18:00] poder falar alguma coisa, sabe

[01:18:02] poder se expressar, isso é um high score

[01:18:04] nas redes sociais, a coisa de você poder

[01:18:06] escrever algo ali, é uma sessão de realização

[01:18:09] algo que, sei lá, até então

[01:18:11] era só, mais uma vez

[01:18:12] só era destinado aos jornalistas

[01:18:14] né, os grandes jornalistas

[01:18:16] um grande colunista, não, todo mundo

[01:18:18] pode ser um grande colunista, e essa

[01:18:20] é a armadilha da coisa, né

[01:18:22] mas a gente vai falar isso mais pra frente

[01:18:24] exatamente

[01:18:25] depois de dizer tudo isso, tudo que eu posso dizer

[01:18:28] é que tá dando uma vontade de entrar no Twitter, faz tempo

[01:18:30] que eu não dou uma tweetada

[01:18:32] é

[01:18:33] é

[01:18:34] é

[01:18:34] é

[01:18:34] é

[01:18:36] , cara, mas é aquilo que eu falei

[01:18:43] não é um lugar de superioridade

[01:18:45] é um lugar, enfim, estamos no mesmo barco

[01:18:48] e o barco está afundando

[01:18:49] como é que a gente, é grupo, a gente tem que

[01:18:51] a gente não tem que

[01:18:51] bancar um discurso de superioridade

[01:18:54] de, digamos, comunidade terapêutica

[01:18:57] sabe, a gente tem que montar um grupo

[01:18:58] de grupo de ajuda

[01:18:59] e mais do que isso, eu acho que existe

[01:19:02] uma pose aí, nessas pessoas

[01:19:04] que se recusam a

[01:19:06] a

[01:19:06] , a ver

[01:19:07] que a gente

[01:19:08] tá, tá, tá

[01:19:09] de certa maneira preso nisso

[01:19:11] de que a gente tá

[01:19:11] preso num, num discurso

[01:19:13] muitas vezes

[01:19:14] de, de irritação

[01:19:16] de, tipo, de só reagir mesmo, né

[01:19:18] ao que nos indigna e tal

[01:19:20] por quê?

[01:19:22] porque dentro dessa indignação

[01:19:23] existe um pequeno bilimítio dentro da gente

[01:19:26] que tá lá dizendo

[01:19:27] olha só como estes caras

[01:19:30] são idiotas

[01:19:31] mas não você

[01:19:32] sim

[01:19:33] sim

[01:19:34] idiota é sempre o outro, né

[01:19:35] exatamente

[01:19:36] Orlando, foi um prazer

[01:19:38] conversar com você

[01:19:39] semana que vem a gente volta

[01:19:40] com mais um episódio

[01:19:42] sobre essa

[01:19:43] como nossa percepção de tudo

[01:19:45] está deturpada

[01:19:47] pela nossa existência

[01:19:49] hiperconectada

[01:19:51] e sempre

[01:19:52] de alguma maneira

[01:19:53] social

[01:19:53] você nunca tá sozinho

[01:19:55] e você nunca está sozinho

[01:19:57] quando está pensando sobre

[01:19:58] política

[01:19:59] exatamente

[01:20:00] muito obrigado

[01:20:02] você pode ver aí o nome das obras

[01:20:04] que a gente citou na descrição do podcast

[01:20:06] e a gente se vê na próxima

[01:20:06] e até semana que vem

[01:20:08] até semana que vem