#14 - Todo mundo vota no Chris
Resumo
O episódio analisa dois filmes que discutem política e sociedade: ‘Um Pobretão na Casa Branca’ (2003), estrelado por Chris Rock, e ‘Ele Está de Volta’ (2015), sobre Hitler ressurgindo na Alemanha contemporânea. A conversa começa com ‘Um Pobretão na Casa Branca’, que segue um vereador negro de Washington que é escolhido como candidato sacrificial pelo Partido Democrata, mas que acaba conquistando popularidade por falar ‘a verdade’ e se recusar a seguir o script político tradicional. Os hosts discutem como o filme reflete uma visão ingênua da política, onde um ‘bom homem’ pode redimir o sistema através do carisma e honestidade, uma perspectiva que parece datada em um mundo pós-Trump e pós-Bolsonaro.
A discussão então se volta para ‘Ele Está de Volta’, onde Hitler volta à vida na Alemanha moderna e se torna uma sensação da mídia através de um programa de comédia. O filme é analisado como uma crítica à normalização do discurso de ódio e à forma como a mídia e o entretenimento podem banalizar ideologias perigosas. Os hosts destacam como o filme mostra pessoas comuns expressando opiniões racistas e xenófobas quando se sentem ‘autorizadas’ pela figura de Hitler, revelando os microfascismos latentes na sociedade.
Os participantes exploram o conceito de ‘kayfabe’ (a manutenção da ilusão na luta livre profissional) como uma metáfora para a política contemporânea, onde figuras públicas mantêm personagens que entretêm e mobilizam paixões. Discutem como políticos como Trump e Bolsonaro utilizaram essa dinâmica, transformando a política em espetáculo e canalizando frustrações populares. A conversa também critica a ideia de que o problema político está apenas em ‘pessoas ruins’ no poder, argumentando que as instituições em si são projetadas para perpetuar certas dinâmicas de poder.
O episódio aborda ainda a relação entre economia e política, criticando a naturalização de políticas econômicas destrutivas como se fossem ‘leis da natureza’. Os hosts discutem como a fé no ‘triunfo do bom senso’ e no progresso inevitário é uma ilusão perigosa, especialmente quando confrontada com a realidade de que sistemas políticos frequentemente servem aos mesmos interesses, independentemente de quem está nominalmente no comando. A análise conecta ambos os filmes às dinâmicas políticas atuais, questionando narrativas simplistas sobre salvadores políticos e destacando a importância de entender as estruturas de poder que transcendem indivíduos específicos.
Indicações
Conceitos
- Kayfabe — Termo da luta livre profissional que se refere à manutenção da ilusão e dos personagens mesmo fora dos ringues. Discutido como metáfora para a política contemporânea, onde figuras públicas mantêm personagens que mobilizam paixões e criam espetáculo.
- Microfascismo — Conceito de Deleuze e Guattari referente a atitudes e pulsões autoritárias presentes no cotidiano e nas relações sociais, que podem ser mobilizadas por regimes fascistas. Discutido como explicação para o apoio popular a figuras autoritárias.
Filmes
- Um Pobretão na Casa Branca (Head of State) — Filme de 2003 dirigido e estrelado por Chris Rock, sobre um vereador negro que se torna candidato sacrificial à presidência dos EUA e desafia o sistema político com sua autenticidade. Discutido como uma visão ingênua da política onde um ‘bom homem’ pode redimir o sistema.
- Ele Está de Volta (Er ist wieder da) — Filme alemão de 2015 onde Hitler ressuscita na Alemanha contemporânea e se torna uma sensação da mídia através de um programa de comédia. Analisado como crítica à normalização do discurso de ódio e à banalização da política como entretenimento.
- Rede de Intrigas (Network) — Filme clássico de Sidney Lumet mencionado como influência para ‘Ele Está de Volta’, especialmente na cena do discurso anti-televisão. Trata do sensacionalismo midiático e da transformação das paixões do público em espetáculo.
- Distrito 9 — Filme de ficção científica sul-africano que utiliza entrevistas com pessoas reais expressando opiniões xenófobas (sobre nigerianos) e as transplanta para um contexto de alienígenas. Citado como exemplo anterior da técnica documental usada em ‘Ele Está de Volta’.
Pessoas
- Chris Rock — Comediante e diretor de ‘Head of State’, cujo filme é analisado como representante de uma tradição de comédia negra norte-americana que usa o humor para criticar dinâmicas racistas e sociais.
- Sacha Baron Cohen — Citado como exemplo de comediante que vai além de ‘Ele Está de Volta’ ao confrontar diretamente figuras políticas poderosas em seus trabalhos como Borat e Ali G, expondo hipocrisias e discursos de ódio.
Linha do Tempo
- 00:03:29 — Introdução a ‘Um Pobretão na Casa Branca’ — Gus apresenta o filme ‘Head of State’ (2003), dirigido e estrelado por Chris Rock, explicando a premissa: um vereador negro de um bairro pobre de Washington é escolhido como candidato sacrificial pelo Partido Democrata, mas acaba conquistando popularidade por sua autenticidade. Discute-se como o filme imagina um cenário onde um ‘homem do povo’ pode vencer o sistema político através do carisma e honestidade, uma visão que parece ingênua no contexto político atual.
- 00:10:52 — A crítica racial e a ingenuidade política do filme — Orlando analisa como o filme de Chris Rock, apesar de algumas piadas datadas, faz críticas precisas sobre racismo estrutural e violência policial nos EUA, usando a comédia como veículo político. No entanto, ele aponta que o filme mantém uma fé ingênua no sistema democrático, acreditando que basta um ‘bom homem’ com coração puro para redimir a política. Essa visão contrasta com a realidade de que instituições têm lógicas próprias que frequentemente cooptam ou neutralizam mudanças.
- 00:20:01 — A espetacularização da política e a era pós-Trump — Os hosts discutem como a tática do personagem de Chris Rock de rejeitar o teleprompter e falar ‘do coração’ prefigurou estratégias usadas por políticos como Trump e Bolsonaro. A conversa explora como a mídia trata a política como entretenimento, normalizando absurdos e focando em personalidades em vez de políticas. Eles criticam a cobertura midiática que condena a ‘chucrice’ de figuras como Bolsonaro enquanto defende suas políticas econômicas, mostrando como o espetáculo político serve a interesses estabelecidos.
- 00:33:50 — Microfascismos e o apoio popular a regimes autoritários — Orlando introduz o conceito de ‘microfascismos’ - atitudes e pulsões autoritárias presentes no cotidiano que podem ser mobilizadas por figuras políticas. Ele argumenta que regimes fascistas não surgem apenas pela manipulação de massas passivas, mas por apelar a desejos e frustrações já existentes na população. A discussão conecta isso com a realidade brasileira, onde discursos como ‘bandido bom é bandido morto’ encontram ampla ressonância, mostrando como o fascismo se alimenta de microfascismos sociais.
- 00:40:21 — O conceito de kayfabe e a política como espetáculo — Gus introduz um áudio do podcast Four Corners explicando o conceito de ‘kayfabe’ da luta livre - a manutenção da ilusão mesmo fora dos ringues. Os hosts discutem como a política contemporânea opera sob lógicas similares, com políticos mantendo personagens públicos que mobilizam paixões. Eles citam exemplos como a foto de ex-presidentes americanos juntos ou brasileiros em um jatinho, mostrando como rivais políticos muitas vezes compartilham interesses por trás das cenas.
- 00:56:04 — Análise de ‘Ele Está de Volta’ e a banalização do discurso de ódio — Orlando apresenta ‘Er ist wieder da’ (2015), onde Hitler ressuscita na Alemanha moderna e se torna uma sensação da mídia através de um programa de comédia. O filme mostra como discursos de ódio são normalizados quando apresentados como entretenimento. Os hosts discutem as cenas onde pessoas comuns expressam opiniões racistas e xenófobas para as câmeras, sentindo-se ‘autorizadas’ pela figura de Hitler, revelando preconceitos latentes na sociedade.
- 01:11:01 — Os limites da crítica: Hitler como fenômeno único versus fascismos cotidianos — Gus critica a premissa do filme ‘Ele Está de Volta’, questionando se a ideia de ‘e se Hitler voltasse hoje’ não reforça a noção de que o fascismo é algo excepcional associado apenas a figuras históricas específicas. Ele argumenta que isso pode invisibilizar os fascismos cotidianos e as estruturas que os permitem. Orlando concorda, destacando como o filme ignora aspectos econômicos do nazismo (como seu liberalismo e parcerias com grandes corporações) para focar apenas no discurso de ódio.
- 01:27:10 — A política como entretenimento e a suspensão da descrença — Os hosts discutem como redes sociais e mídia transformaram a política em entretenimento, com figuras como Bolsonaro e Trump usando estratégias de ‘kayfabe’ para criar personagens públicos. Eles exploram o conceito de ‘suspensão da descrença’ do cinema, aplicando-o à política: enquanto o espetáculo funciona, o público aceita a ficção. A conversa critica a cobertura midiática que trata política como disputa esportiva, ignorando consequências materiais e normalizando absurdos.
Dados do Episódio
- Podcast: Popcult
- Autor: Atabaque Produções
- Categoria: TV & Film Film Reviews
- Publicado: 2020-09-29T08:30:13Z
- Duração: 01:41:51
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/popcult/57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2/628c157e-388b-4ca1-9ac8-4e905ef5cd5c
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Dados do Podcast
- Nome: Popcult
- Tipo: episodic
- Site: https://www.spreaker.com/podcast/popcult—4416630
- UUID: 57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Entre ir mais rápido ou mais longe, entre a razão e a emoção, entre a potência e o silêncio.
[00:00:08] A melhor escolha é não ter de escolher.
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[00:00:41] Cuidado, Zé! Volta ao trabalho!
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[00:00:59] Acesse o link na descrição do vídeo para aprender mais sobre o Zé.
[00:01:15] Bem-vindos ao Coliseu da Nova Era!
[00:01:18] Mais um embate sangrento para o seu prazer e escapismo.
[00:01:22] Escolha um combatente, vibre, xingue seus pares, consuma os nossos snacks e refrigerantes.
[00:01:27] Nada disso importa.
[00:01:29] É só mais uma competição para lhe trazer adrenalina sem sair do sofá.
[00:01:33] É assim que somos convidados a interagir com a política hoje.
[00:01:36] Como se ela fosse algo distante e imaterial ao nosso dia-a-dia.
[00:01:39] Por isso que você pode bater palmas para os vilões
[00:01:42] e rir cinicamente de quem ainda é canastrão o suficiente para professar alguma virtude esperançosa.
[00:01:47] Hoje, vamos abordar esses temas pelo prisma de Ele Está De Volta
[00:01:50] e o clássico esquecido Um Pobretão na Casa Branca.
[00:01:54] O que você acha, Orlando?
[00:01:55] Eu tô aqui impressionado ainda com as suas…
[00:01:59] digamos, com as suas qualidades de interpretação, né?
[00:02:02] Parabéns.
[00:02:02] Muito obrigado.
[00:02:03] Parabéns, parabéns, cara.
[00:02:04] Assim, você é um talento da indústria da dublagem perdido.
[00:02:08] Perdido, mas quem sabe ainda serei descoberto.
[00:02:10] Eu já dublei, por exemplo, bolas de futebol falantes no comercial de cerveja.
[00:02:17] É uma conquista na vida, né?
[00:02:19] Me pagaram por fazer isso, então tá bom.
[00:02:21] Não existe, não existe.
[00:02:24] É, cara, princípios e dignidade é coisa de quem tem dinheiro sobrando.
[00:02:28] Você sabe que…
[00:02:29] Eu não bebo cerveja e eu já fiz comercial pra três marcas de cerveja diferentes?
[00:02:33] Enfim, hipocrisia, né, cara?
[00:02:34] Você é literalmente uma pessoa vendida para o sistema, né, cara?
[00:02:37] Eu que bebo cerveja, nunca fiz nenhum.
[00:02:40] Exatamente, porque você mantém o seu amor à cerveja puro.
[00:02:43] Não me disse burrice, né, cara?
[00:02:45] Inclusive, marcas de cerveja, se quiserem me patrocinar…
[00:02:49] Bicho, tranquilo, a gente faz aquele comercialzinho, né, do estilo…
[00:02:52] Nossa, nem vi vocês aqui.
[00:02:54] Nossa, lutar contra o capitalismo me dá uma sede.
[00:02:57] Ainda bem que eu tenho essa…
[00:02:59] Tira aqui o nome da cerveja, a minha mão.
[00:03:00] Exato.
[00:03:02] O…
[00:03:03] Cara, o bonito da hipocrisia, eu acho, é que se você fala uma coisa e faz outra,
[00:03:08] mais chance da gente concordar em alguma delas.
[00:03:12] Você…
[00:03:16] É verdade, né, cara?
[00:03:18] O hipócrita, ele…
[00:03:19] Ele tá sempre 50% certo, né, cara?
[00:03:23] Exato!
[00:03:24] E eu acho que isso tem tudo a ver com o tema do nosso episódio de hoje.
[00:03:29] Eu escolhi o filme Um Pobretão na Casa Branca,
[00:03:33] porque ele é um clássico esquecido, realmente.
[00:03:36] Eu não acreditava nisso antes de assistir o filme,
[00:03:38] mas revendo o filme pra esse episódio, eu acho que tem muita coisa boa ali.
[00:03:42] É o primeiro filme dirigido pelo Chris Rock,
[00:03:44] que é um comediante que eu gosto bastante.
[00:03:46] E ele é… A história, ele é um…
[00:03:50] Eu não sei o que seria um alderman, assim, na política brasileira,
[00:03:53] mas ele é basicamente um subprefeito ali.
[00:03:55] Ele cuida de uma subprefeitura em…
[00:03:57] Em…
[00:03:58] É, ele se traduz como vereador, né?
[00:03:59] Mas não tem nada a ver com vereador.
[00:04:01] É, não é vereador.
[00:04:02] Ele é mais tipo um subprefeito ali e tal,
[00:04:04] de um bairro pobre em Washington, né?
[00:04:07] Capital dos Estados Unidos.
[00:04:09] E aí, ele…
[00:04:10] O candidato do que a gente acredita ser o Partido Democrata ali,
[00:04:14] a presidência, morre num acidente de avião.
[00:04:19] E…
[00:04:19] O candidato e o vice, né? Todos, né?
[00:04:21] A cúpula.
[00:04:21] Exato!
[00:04:22] É, porque…
[00:04:22] Eu tô rindo porque a justificativa é que um avião bateu no outro.
[00:04:28] E aí, a gente descobre isso na cena mais preguiçosa do mundo,
[00:04:34] que é o Chris Rock tá ouvindo uma música no carro,
[00:04:37] aí a música é interrompida, os caras fazem assim…
[00:04:39] O avião do candidato tal bateu no avião do candidato tal,
[00:04:42] e agora eles morreram na hora.
[00:04:45] E voltamos agora com essa música do Jay-Z.
[00:04:47] E segue o filme.
[00:04:48] É só pra você saber por que que isso tá acontecendo.
[00:04:50] E aí, basicamente, o partido saca que, tipo, é tarde demais,
[00:04:53] a gente tá muito perto da eleição, a gente vai perder,
[00:04:56] só que a gente tem que ter um candidato, né?
[00:04:58] Pra gente não só entregar.
[00:04:59] E aí, a gente pode usar essa oportunidade de uma eleição
[00:05:02] que a gente sabe que vai perder e a gente não quer ganhar,
[00:05:05] pra ter um candidato que apele pra minorias
[00:05:07] e faça com que eles votem no nosso cara branco em 2008.
[00:05:11] Isso é durante a eleição de 2004, né? No filme.
[00:05:15] E aí, eles tão… É tudo só pra, tipo, ó, olha só.
[00:05:17] A gente bota um candidato que agrade as minorias agora,
[00:05:20] porque aí eles votam no nosso cara branco em 2008.
[00:05:22] É, eles não querem só perder.
[00:05:24] Eles querem perder de um jeito muito específico, né?
[00:05:26] Eles tão construindo, pensando no jogo.
[00:05:28] Jogo a longo prazo, né?
[00:05:29] Exato, eles querem usar essa derrota, né?
[00:05:32] E aí, eles escolhem o Chris Rock,
[00:05:34] porque ele aparece no noticiário salvando uma senhora e o gato dela
[00:05:37] de uma explosão.
[00:05:38] E aí, uma cena muito boa, que ele…
[00:05:41] É muito boa, porque a senhora entra na casa que era dela,
[00:05:45] que foi… Ela foi desapropriada, basicamente,
[00:05:48] e vai ser demolida a casa que ela entra pra salvar o gato dela.
[00:05:51] E aí, o Chris Rock sai correndo atrás,
[00:05:53] porque eles não conseguem desativar as bombas lá,
[00:05:56] os explosivos que vão demolir a casa.
[00:05:58] E aí, a senhora tá abraçada na gata,
[00:06:00] e ele vira e fala assim, a senhora realmente…
[00:06:02] A senhora, tipo, a senhora viveu a segregação,
[00:06:04] a senhora viveu linchamentos, a senhora viu tudo que esse país faz contra os negros.
[00:06:08] A senhora realmente acha que eles não vão explodir essa casa com a senhora dentro?
[00:06:11] Isso é muito bom, né?
[00:06:12] E aí, ela sai correndo com ele.
[00:06:15] Ai, cara, essa cena é boa, essa cena é boa.
[00:06:16] Enfim, aí o Chris Rock é escolhido.
[00:06:18] A primeira vez que ele é… Que falam com ele, né?
[00:06:21] Falam, a gente quer que você seja o candidato.
[00:06:22] Ele, imediatamente, ele imagina uma cena que se repete várias vezes
[00:06:26] na cabeça do personagem.
[00:06:28] Ele quer… É só ele levando um tiro, assim.
[00:06:30] Ele, tipo, ah, eles querem me botar ali, porque eu vou ser assassinado.
[00:06:35] E aí, eles botam quem eles quiserem de presidente, né?
[00:06:38] Basicamente, ele tem essa revelação.
[00:06:40] Mas o filme é todo, tipo assim, ele é uma comédia bem boba.
[00:06:44] Mas ele tem um fundo ali interessante, temático, pra gente analisar.
[00:06:47] Porque ele é todo sobre como ele apega essa oportunidade
[00:06:51] e se torna um candidato extremamente popular.
[00:06:53] Porque ele não é o político engessado, né?
[00:06:56] Tentando agradar os interesses colombianos.
[00:06:58] Ele não é o político engessado, né?
[00:06:59] Ele não é o político engessado, né?
[00:06:59] Ele não é o político engessado, né?
[00:06:59] Ele não é o político engessado, né?
[00:06:59] Ele não é o político engessado, né?
[00:06:59] Ele não é o político engessado, né?
[00:06:59] E falar as coisas num jeito medido, ele vira um cara totalmente, tipo…
[00:07:03] Ele fala real, né?
[00:07:05] Ele fala exatamente o que as pessoas estão pensando, não sei o quê.
[00:07:09] Ele, uma hora, defende que você tem que bater nos seus filhos e tal.
[00:07:12] Mas ele é sempre visto como um cara que, tipo, pô, ele é legal.
[00:07:15] Então, seria muito legal ele ser eleito.
[00:07:17] E aí, a gente vendo isso hoje, num mundo pós-Trump, pós-Bolsonaro,
[00:07:21] pós-Obama, que era o primeiro homem negro eleito nos Estados Unidos
[00:07:28] contra os oponentes, mas que usou esse carisma pra, por exemplo,
[00:07:31] justificar inúmeras mortes de civis, torturas em Guantanamo, etc, etc, etc.
[00:07:39] Esse filme meio que tenta imaginar isso como um cenário fictício
[00:07:43] que seria bacana, e aí, agora, a gente assistindo ele
[00:07:46] com o ponto de vista de, tipo, não, a gente sabe exatamente o que acontece
[00:07:49] quando você elege o cara que fala o que ele pensa.
[00:07:52] A gente percebe que a espectacularização da política,
[00:07:55] ela serve aos mesmos interesses que…
[00:07:58] que estavam sendo combatidos pelo personagem do Chris Rock ali naquele filme.
[00:08:02] Cara, tem várias coisas aí.
[00:08:04] A primeira delas é a seguinte.
[00:08:06] Algumas piadas desse filme, é importante salientar isso,
[00:08:08] envelheceram bem mal, né?
[00:08:10] Sim.
[00:08:11] Enfim, é aquilo, a gente não tá aqui…
[00:08:14] Enfim, é um filme que tem algumas piadas que tu fala assim,
[00:08:16] cara, na década de 90 ainda faziam algum sentido,
[00:08:19] ali naquele finalzinho, né, dois mil e pouco.
[00:08:21] Mas hoje em dia a gente fala assim, isso aí é…
[00:08:24] Não, não é legal não.
[00:08:25] É, tipo assim, eu não concordo com isso que tá acontecendo,
[00:08:28] na minha tela.
[00:08:28] É, e assim, só que…
[00:08:31] Eu acho que existe uma razão pela qual esse filme, tipo,
[00:08:33] simplesmente não existe.
[00:08:34] Sim.
[00:08:35] Pra você ver legalmente.
[00:08:36] É, mas assim, tem uma…
[00:08:38] Tem vários outros aspectos, assim,
[00:08:39] só pra deixar isso registrado antes da gente avançar, né?
[00:08:45] Como a gente citou nos programas sobre policiais,
[00:08:47] eu falei sobre o papel da polícia nas séries negras, né?
[00:08:52] Séries feitas por negros, para negros,
[00:08:53] nos Estados Unidos, como um maluco do pedaço.
[00:08:56] Onde, por exemplo, o papel da polícia é representar…
[00:08:58] É representar de maneira negativa,
[00:08:59] há sempre uma crítica à polícia e tal.
[00:09:02] Inclusive, o maluco do pedaço é uma série que trata de temas
[00:09:05] muito sensíveis, né, na luta antirracista.
[00:09:09] Vai falar de colorismo, vai falar de violência policial,
[00:09:11] violência do Estado, genocídio do povo negro, sabe?
[00:09:14] Então, assim, é sempre interessante ver que como
[00:09:17] a comédia, né, e tem todo um histórico disso, né,
[00:09:22] enfim, de comediantes estadunidenses, negros,
[00:09:25] que usam a comédia como um veículo,
[00:09:28] para falar e explicitar as dinâmicas racistas
[00:09:32] que constituem a sociedade estadunidense.
[00:09:35] O Ed Murphy foi um desses, por exemplo, né?
[00:09:38] Se você pegar, por exemplo, um Tira da Pesada,
[00:09:40] toda a sequência inicial do Tira da Pesada,
[00:09:43] por exemplo, ele sendo um policial negro,
[00:09:44] sendo confundido com um bandido, sabe?
[00:09:47] Aquilo ali tudo é, digamos, é uma caracterização
[00:09:50] muito precisa da máquina racista estadunidense.
[00:09:55] E esse filme tem vários momentos que ele faz isso.
[00:09:58] Porque essa piada recorrente mesmo que você falou aí,
[00:10:00] que ele, toda hora que ele se imagina sendo eleito,
[00:10:03] ele é morto, né?
[00:10:04] Tipo, um homem negro tem que morrer, né, sabe?
[00:10:07] Porque é isso, a gente sabe do histórico de homens negros
[00:10:10] que são, que ganham alguma proeminência,
[00:10:12] de figuras negras no geral, que ganham alguma proeminência
[00:10:14] nos Estados Unidos e são assassinados
[00:10:16] de uma maneira muito misteriosa, né?
[00:10:18] Tipo, um homem solitário, sei lá o quê.
[00:10:20] E no final do filme, um homem negro tem que morrer
[00:10:22] para que ele assuma, né?
[00:10:23] Tipo, ele debocha dessa história.
[00:10:27] Então, assim,
[00:10:28] é interessante como tem algumas piadas que são,
[00:10:31] que não, me vejo sendo muito mal,
[00:10:34] mas tem outras piadas que são, assim,
[00:10:35] que a gente passa de barato naquilo,
[00:10:38] mas são piadas muito precisas e sensíveis
[00:10:40] sobre a própria, né,
[00:10:42] a própria condição do povo negro nos Estados Unidos,
[00:10:45] na máquina racista, enfim,
[00:10:46] de como a política é um sistema feito
[00:10:47] para excluir essas pessoas e tal.
[00:10:50] Então, esse é um primeiro aspecto.
[00:10:52] O outro que eu acho que a gente pode pegar
[00:10:54] que é justamente isso, né?
[00:10:55] Ele é um filme
[00:10:57] sobre uma certa imaginação ideal
[00:10:59] do funcionamento da política,
[00:11:01] que hoje em dia, com essa história de rede social,
[00:11:03] se intensificou de uma maneira, enfim,
[00:11:04] perdeu o controle.
[00:11:05] Porque é muito interessante, né?
[00:11:07] De um lado, tem o político burocrata
[00:11:09] ou o político que só está interessado
[00:11:12] no próprio umbigo, né?
[00:11:13] Por exemplo, que é o adversário dele,
[00:11:15] cujo discurso é
[00:11:16] eu sou um herói de guerra
[00:11:17] e sou primo da Sharon Stone.
[00:11:19] Essa piada é bem boa.
[00:11:20] Isso é maravilhoso.
[00:11:23] Né, cara?
[00:11:24] Que é o sujeito que é o republicano padrão,
[00:11:27] né, cara?
[00:11:28] Tipo…
[00:11:28] Sim.
[00:11:29] E por outro lado,
[00:11:30] que é o sujeito branco em si mesmo,
[00:11:32] eu sou um herói de guerra, né?
[00:11:34] Tipo…
[00:11:35] E não tem nenhuma…
[00:11:36] Inclusive, o discurso dele é
[00:11:37] Deus abençoe a América
[00:11:38] em nenhum outro lugar no mundo.
[00:11:39] Saca?
[00:11:40] Sim.
[00:11:40] E o grande momento triunfal
[00:11:44] do Chris Rock no debate contra
[00:11:45] é quando ele vira e fala assim,
[00:11:47] não, Deus abençoe a América
[00:11:48] em todos os outros lugares e tal.
[00:11:50] Como se isso fosse possível.
[00:11:51] Porque a gente vai entrar nisso de novo.
[00:11:53] Que é, esse filme tem uma visão
[00:11:55] muito ingênua
[00:11:57] da América, né?
[00:11:59] Que é bem compatível.
[00:12:01] Do povo, né?
[00:12:03] Exato.
[00:12:05] Porque assim, por exemplo,
[00:12:06] ele vai lá e com esse discurso
[00:12:09] honesto e preocupado
[00:12:11] com as pessoas e tal, porque ele é um homem do povo
[00:12:13] e tal, não sei o quê, ele conquista, por exemplo,
[00:12:16] os marqueteiros cínicos
[00:12:17] que estavam ali só pra ajudar ele a perder
[00:12:19] que depois viram e falaram, não, não, não,
[00:12:21] eu quero ajudar você a vencer e tal.
[00:12:22] Como se as ideologias políticas,
[00:12:24] como se elas não existissem, ideologias políticas,
[00:12:27] e você só tivesse que
[00:12:29] eleger a pessoa que tem o melhor
[00:12:31] coração, entendeu? Que assim, não,
[00:12:33] se o cara é um cara legal,
[00:12:35] ele vai fazer o que é melhor pra todo mundo.
[00:12:37] E, entende?
[00:12:38] Que como se essas pessoas ali não tivessem
[00:12:41] já suas próprias ideologias
[00:12:43] e seus próprios interesses,
[00:12:45] que é isso, assim, tipo, ele vai lá e recusa
[00:12:47] dinheiro de corporações
[00:12:49] que ele acredita que são
[00:12:50] socialmente maléficas e tudo mais.
[00:12:52] Mas, e aí, como se
[00:12:55] assim, e aí as pessoas que trabalham,
[00:12:57] exatamente, pra garantir
[00:12:58] o poder dessas elites, desses
[00:13:00] oligopólios, fossem dizer, tipo,
[00:13:02] mas ele é um cara legal, então eu quero que ele ganhe.
[00:13:04] Não, então, tem uma coisa que é importante aí, vamos, tem,
[00:13:06] a gente não criou as nossas vinhetas, né, cara,
[00:13:08] na terceira temporada a gente tem que criar a vinheta
[00:13:10] da semiótica do Guzzi e
[00:13:12] aprender no Corlano Calheiros,
[00:13:15] né? Isso. E o meu tem
[00:13:16] que ser aquele programa estilo TV Cultura,
[00:13:19] né, cara? O…
[00:13:21] Porque tem uma coisa que se chama do triunfo
[00:13:22] do bom senso, né, que é uma crença,
[00:13:25] falar crença no sentido
[00:13:26] forte mesmo, extremamente
[00:13:28] ocidental, que acredita que a nossa
[00:13:30] sociedade, ela caminha de uma maneira invariável
[00:13:33] para uma certa, um
[00:13:34] bem comum. Então, toda essa crença
[00:13:36] no progresso, toda essa crença, digamos,
[00:13:39] na história, nessa teleologia,
[00:13:41] né, enfim, vem disso.
[00:13:43] Esse filme se baseia exatamente
[00:13:44] na crença que o bom senso
[00:13:46] vai triunfar,
[00:13:49] né, que diante de um cenário
[00:13:51] político em si mesmo,
[00:13:52] dominado ou por figuras
[00:13:54] como aquele candidato de extrema,
[00:13:56] de extrema, não, candidato
[00:13:58] de, candidato republicano, né,
[00:14:00] que é o cara que é herói de guerra e
[00:14:02] primo da Sharon Stone, ou do cara que é
[00:14:04] simplesmente um burocrata, né,
[00:14:06] são burocratas que também estão ali fascinados
[00:14:08] pelo poder, como o pessoal, como o pessoal
[00:14:10] do partido republicano, partido
[00:14:12] democrata é, é, digamos, pintado
[00:14:14] no filme. Basta
[00:14:16] que emerge uma pessoa que tem
[00:14:18] bom senso e que fale bem, que apele para
[00:14:20] o coração das pessoas, que isso, que a
[00:14:22] verdade, é esse que eu aponto, que a verdade
[00:14:24] há de triunfar, né,
[00:14:26] inclusive toda essa crença de que todo bom conhecimento
[00:14:28] triunfa, ele é,
[00:14:31] ele caminha sempre na direção
[00:14:32] da verdade, vem daí, né,
[00:14:34] então, tudo que se afasta
[00:14:36] disso é maldito. Eu só queria um ponto
[00:14:38] porque acho que é importante, como é que
[00:14:40] esse filme, ele apela justamente para esses clichês que a gente
[00:14:42] vê o tempo inteiro sendo mobilizado
[00:14:44] nas redes sociais, né, porque assim,
[00:14:47] o personagem do Chris Rock, ele
[00:14:48] é o que se chamaria na teoria clássica, ainda estamos
[00:14:50] aqui, no momento, aprendendo com
[00:14:52] o Orlandinho, é,
[00:14:55] ele é o que se chama, digamos,
[00:14:56] na tática, enfim, do pensamento
[00:14:59] da militância, enfim,
[00:15:01] de uma pessoa voluntarista,
[00:15:02] ele age segundo as suas próprias volições,
[00:15:05] sempre, os
[00:15:06] marqueteiros chegam para ele, os conselheiros chegam e falam
[00:15:08] cara, se você fizer isso vai ser melhor, será que ele, não,
[00:15:10] ele chega lá e faz o que ele acha
[00:15:12] que tem que fazer, saca, e aquilo
[00:15:14] dá certo.
[00:15:16] Isso me parece muito
[00:15:18] uma imagem do que é pensado a
[00:15:20] militância nas redes sociais de hoje em dia,
[00:15:22] todo esse discurso que, para quem me acompanha
[00:15:24] nas redes, vê eu fazendo, que sobre, cara,
[00:15:26] como a extrema-direita
[00:15:28] hackeou o nosso
[00:15:30] voluntarismo, ele usa, justamente, esse nosso voluntarismo
[00:15:32] que está sempre tendendo para um certo
[00:15:34] trágico, a maneira como a gente reage de forma
[00:15:36] compulsória e obsessiva aos conteúdos
[00:15:38] da extrema-direita, enfim,
[00:15:40] os caras hackearam isso em favor
[00:15:42] deles, né, o Chris Rock, a maneira como o personagem
[00:15:44] dele se comporta e contra o que ele está sendo
[00:15:46] contrastado ali, ou aos burocratas
[00:15:49] do Partido Democrata, ou aos
[00:15:50] direitosos do Partido Republicano,
[00:15:53] né, me parece um, digamos,
[00:15:54] um desenho muito preciso de como
[00:15:56] a imaginação política nesse mundo
[00:15:58] do infopocalipse. Hoje eu estou falando,
[00:16:00] né, estranho. Bonito, eu estou gostando.
[00:16:02] Estranho, talvez a palavra seja estranho.
[00:16:04] Mas é, não, é muito interessante, porque o
[00:16:06] filme, ele é de 2003, e ele
[00:16:08] claramente, ele carrega uma sensibilidade que
[00:16:10] vem ainda da
[00:16:12] era pré-Bush ali e tal, que a gente já
[00:16:14] citou várias vezes, que é o fim
[00:16:16] do fim da história, que é basicamente
[00:16:19] e, assim, eu,
[00:16:20] essa, essa, essa ideologia
[00:16:22] de fim da história que imperou ali, especialmente
[00:16:24] nos Estados Unidos, pós-Guerra Fria, de que,
[00:16:26] pá, agora,
[00:16:27] agora a terra é dos burocratas,
[00:16:30] basicamente, porque o capitalismo venceu,
[00:16:32] esse é o sistema que a gente tem, é o melhor possível,
[00:16:35] e com o tempo, é isso,
[00:16:36] a gente vai fazer pequenos ajustes
[00:16:38] burocráticos
[00:16:41] à nossa maneira de vida,
[00:16:43] mas sempre na
[00:16:44] direção do bem, porque isso é
[00:16:46] inevitável, né,
[00:16:48] a história marcha para o progresso
[00:16:50] e é isso que vai acontecer.
[00:16:52] Que, inclusive, é um discurso muito
[00:16:55] conformista, eu acho, e que a gente,
[00:16:56] que a gente vê repetido por uma galera
[00:16:58] hoje, que, uma
[00:17:00] galera de esquerda, que
[00:17:02] se prostra aí
[00:17:04] na frente dos acontecimentos
[00:17:07] da
[00:17:09] extrema-direita do poder,
[00:17:10] dizendo, ah,
[00:17:12] os livros de história irão registrar,
[00:17:15] ficará
[00:17:16] marcado quem aqui, olha,
[00:17:18] passou pano pra esse homem. A história vai cobrar,
[00:17:21] a história vai cobrar. Exato.
[00:17:22] Como se, um,
[00:17:24] fizesse diferença
[00:17:25] a história cobrar?
[00:17:26] Porque, pras pessoas, né, que sofrem agora,
[00:17:30] tipo, não há alento nenhum
[00:17:31] em dizer, ah, daqui a 50 anos,
[00:17:33] meu amigo,
[00:17:34] todo mundo vai enxergar.
[00:17:37] E dois, como se isso fosse inevitável,
[00:17:40] como se isso fosse acontecer, como se
[00:17:41] essas pessoas nunca tivessem ouvido a máxima
[00:17:43] a história escrita pelos vencedores.
[00:17:45] A história cobra, ela cobra
[00:17:47] igual o seu barriga
[00:17:49] cobra o seu madruga, né, cara?
[00:17:51] Tipo, pague o aluguel.
[00:17:53] Não.
[00:17:53] Não posso, não tenho.
[00:17:56] Enfim, depois a gente resolve.
[00:17:57] É, a história cobrou muito os militares de 64.
[00:18:00] Nossa, eles estão cobrados.
[00:18:02] Você dizer isso num país como o Brasil,
[00:18:04] que todo o processo, teoricamente,
[00:18:06] revolucionário, todo o processo de transição
[00:18:08] de estrutura de poder, foi
[00:18:09] realizado
[00:18:11] sempre passando a mão na cabeça
[00:18:13] de quem saía, né, tipo,
[00:18:16] de todo o processo, assim, né,
[00:18:17] da independência da coroa
[00:18:19] portuguesa, pra depois
[00:18:22] a formação
[00:18:24] da república, depois
[00:18:25] o fim da ditadura.
[00:18:28] Exato. Todos os processos de transição
[00:18:30] aqui são feitos como um grande
[00:18:31] como um grande acordo nacional.
[00:18:37] Com frango e tudo
[00:18:38] dentro, né, cara? Tipo, pelo amor de Deus,
[00:18:40] cara. Mas vamos voltar pro filme aí, volta pro filme aí,
[00:18:42] vai lá. Vamos voltar pro filme. Então,
[00:18:43] o que eu acho muito interessante é, por exemplo,
[00:18:45] uma coisa que eu citei pro Orlando quando a gente tava vendo o filme
[00:18:47] é que foi
[00:18:49] o…
[00:18:51] tem uma cena, a primeira cena, assim, que o Chris Rock decide
[00:18:54] tipo, ó, ok,
[00:18:55] se eu vou ser o candidato, eu vou ser o candidato pelas coisas que eu acredito
[00:18:58] e eu vou lutar, eu vou ser eu,
[00:19:00] né? Ele vai lá
[00:19:01] e ele vai fazer um discurso e ele desliga o teleprompter
[00:19:04] e não lê o discurso que escreveram pra ele
[00:19:05] ler e ele fala do coração, né?
[00:19:08] E que isso
[00:19:10] eu falei pro Orlando, falei
[00:19:11] cara, isso é muito bom porque o Trump
[00:19:14] se valia disso, porque o
[00:19:16] Obama é um cara, né, que sempre
[00:19:17] se valeu da sua oratória
[00:19:20] de ser um bom, né,
[00:19:21] um bom… ele discursa bem, ele fala
[00:19:23] bem, ele é cativante,
[00:19:25] e o Trump
[00:19:27] criticou ele, quando o Trump
[00:19:29] era candidato, uma das coisas que ele
[00:19:31] criticava, tipo, ó, o Obama só sabe ler teleprompter
[00:19:34] olha eu aqui, eu não preciso de um teleprompter
[00:19:35] eu falo o que eu tô pensando, eu não tô lendo um teleprompter
[00:19:38] eu sou um cara mais genuíno
[00:19:39] e aí eu pensei, cara, olha que doido, né, tipo
[00:19:41] como que eles imaginam o
[00:19:44] o Chris Rock, que é um cara mais
[00:19:45] socialmente liberal, olha aí o personagem dele
[00:19:47] um cara mais socialmente liberal
[00:19:49] um cara muito oposto a esses interesses corporativos
[00:19:52] um cara que nega dinheiro de grandes
[00:19:53] corporações e pensa no
[00:19:56] no trabalhador americano
[00:19:58] ele
[00:19:59] usa dessa tática, e o que a realidade
[00:20:01] nos mostrou é que, tipo, todas essas táticas
[00:20:03] elas funcionam, sim
[00:20:05] só que elas funcionam
[00:20:07] quando você olha pra política de maneira
[00:20:09] vazia, né, porque
[00:20:11] vira essa coisa de, tipo, assim
[00:20:13] pouco importa quem o
[00:20:15] Bolsonaro realmente defende, pouco importa
[00:20:17] quem o Trump realmente defende, ele pode
[00:20:19] ele pode tá atacando os meus interesses
[00:20:21] mas ele se mostra
[00:20:23] como o homem do povo
[00:20:25] e aí você olha, e assim, é claro que isso não é
[00:20:27] uma falha, assim, de caráter
[00:20:30] das pessoas
[00:20:31] isso é assim
[00:20:33] porque se você olha pra mídia
[00:20:36] e como a mídia trata a política
[00:20:38] assim, olha a situação
[00:20:40] em que a gente tá, assim, olha
[00:20:41] quantas, é, é, é
[00:20:43] eu odeio usar esse termo
[00:20:45] mas ele vai servir nesse momento
[00:20:47] mas olha quantas anormalidades a gente tá tendo que tolerar
[00:20:50] como se elas fossem parte do processo
[00:20:52] assim, e isso é uma crítica que a gente
[00:20:53] vê o tempo inteiro aqui, aqui no Brasil
[00:20:55] a questão da mídia que bate no Bolsonaro
[00:20:57] porque ele é uma figura
[00:20:59] chucra, mas
[00:21:01] tenta defender exatamente os planos
[00:21:03] econômicos do Paulo Guedes e todas as
[00:21:05] políticas de austeridade
[00:21:07] e tudo mais que o Bolsonaro
[00:21:09] tá lá pra fazer
[00:21:11] e lá nos Estados Unidos a gente tem o Trump
[00:21:13] que é um candidato à reeleição
[00:21:16] que já falou que não sabe se precisa ter
[00:21:17] uma transição de poder pacífica
[00:21:20] que é um candidato que
[00:21:21] cujos apoiadores mais
[00:21:23] ferrenhos estão indo pras ruas armados
[00:21:26] com, né, pra ameaçar
[00:21:27] o, o, a galera que tá protestando
[00:21:30] contra a brutalidade policial
[00:21:32] e o racismo sistêmico nos Estados Unidos
[00:21:34] então assim, e tudo isso
[00:21:35] é coberto, né, aparece na mídia
[00:21:38] como menos detalhes, né
[00:21:39] é só tipo, beleza, é isso que tá acontecendo
[00:21:42] mas vamos, né, os
[00:21:44] gráficos ali pra
[00:21:45] pra cobrir a eleição, as chamadas
[00:21:47] são exatamente as mesmas, é quase como se fosse a Olimpíada
[00:21:50] a cada quatro anos entram aqui
[00:21:51] os competidores e a gente cobre
[00:21:53] e a gente finge que os efeitos materiais disso
[00:21:55] são irrelevantes e que não existem também
[00:21:57] cara, então, tem várias coisas que a gente vai
[00:21:59] abordar melhor quando a gente for falar do próximo filme
[00:22:02] né, sobre isso
[00:22:03] porque
[00:22:04] é aí que tá uma coisa, por isso que eu acho que
[00:22:07] é importante, assim
[00:22:09] essa visão
[00:22:11] esse filme do
[00:22:13] Chris Rock, ele aposta numa coisa
[00:22:15] que é uma, é digamos uma
[00:22:17] crença que mobiliza muita gente até hoje
[00:22:19] o problema não é o sistema, o problema são as pessoas
[00:22:21] né, a coisa que a gente tava falando
[00:22:23] no programa anterior, por exemplo, sobre
[00:22:25] o exército, no filme lá
[00:22:28] do Doctor Strange Love, né, que o sujeito
[00:22:29] chega e fala assim, aquele
[00:22:31] general paranoico, ele não era
[00:22:33] uma perversão do sistema, ele não
[00:22:36] era um sujeito maluco, ele não, ele era na verdade
[00:22:38] o sistema, o sujeito ideal
[00:22:40] do sistema, tanto que tu vê lá o
[00:22:42] outro general, que é um general supostamente mais
[00:22:44] é, mais moderado
[00:22:46] falou, não, a gente não pode
[00:22:48] dizer que esse cara é maluco, não, mas
[00:22:49] depois ele começa a defender coisas muito semelhantes, né
[00:22:51] ele começa a embarcar rapidamente
[00:22:53] no plano lá do general louco, então assim
[00:22:55] o, e aí quando você vê esse tipo
[00:22:58] de coisa, que eu acho que é um retrato muito preciso
[00:22:59] de como as tais instituições funcionam
[00:23:02] é aquela coisa que a gente, as instituições
[00:23:03] estão funcionando, exatamente
[00:23:05] elas estão funcionando e talvez o problema seja esse
[00:23:07] o, e aqui é um momento
[00:23:09] anarquistão, né, mas assim
[00:23:11] não é ser anarquista não, isso na verdade é
[00:23:13] digamos uma, até uma análise
[00:23:15] política bem cínica, bem cínica não, bem
[00:23:17] precisa do funcionamento, assim, porque
[00:23:19] a grande questão é
[00:23:21] entender que as instituições
[00:23:23] elas têm uma certa psicologia
[00:23:26] e mais do que isso, elas têm
[00:23:27] um certo funcionamento que é próprio
[00:23:29] que tudo aquilo que de fato é
[00:23:32] divergente a elas
[00:23:34] é expulso, então assim
[00:23:35] se você vê que um determinado
[00:23:38] pra que um determinado político
[00:23:39] floresça, pra que um determinado apelo
[00:23:42] político possa acontecer dentro desse
[00:23:43] atual sistema, ele vai ter que se
[00:23:45] conformar, né
[00:23:47] com uma série de estratégias daquelas
[00:23:49] pessoas que estão ali, é uma coisa que aqui no
[00:23:51] Brasil a gente vê, por exemplo, ah, onde que
[00:23:53] estava esse pessoal todo que hoje em dia apoia o Bolsonaro
[00:23:55] estavam nos mesmos lugares
[00:23:57] estavam nos mesmos lugares
[00:23:59] esse pessoal nunca saiu dali, né
[00:24:01] a mesma coisa que você vai ver, historicamente
[00:24:03] as elites continuam fazendo
[00:24:05] a política de financiamento de campanha, sei lá o que
[00:24:08] então assim
[00:24:09] quem, óbvio, que colocar um candidato
[00:24:11] ou outro, tem uma diferença
[00:24:13] só que ela não é uma diferença tão revolucionária
[00:24:16] nesse aspecto, quando as pessoas
[00:24:17] imaginam, ah, se botar um candidato lá vai
[00:24:19] é um aspecto quase messiano
[00:24:21] da coisa toda, né
[00:24:23] ah, tal candidato vai redimir
[00:24:25] todo esse problema, vai fazer toda a revolução
[00:24:27] vai mudar tudo, não, não adianta assim
[00:24:29] porque quando você vai ver, por exemplo, a maneira
[00:24:31] como o personagem de Chris Rock se comporta
[00:24:33] não, não quero seu dinheiro, porque você
[00:24:35] faz lá leite pra criança e coloca
[00:24:37] não, vende cerveja pra criança como se fosse
[00:24:39] uma mamadeira, saca
[00:24:40] pô, mas, então ele vai fazer de campanha com que
[00:24:43] dinheiro, e aí se ele não fizer dinheiro
[00:24:45] como que a campanha dele vai funcionar
[00:24:47] então assim, todo o sistema é desenhado
[00:24:50] pra isso, a gente depois
[00:24:51] dá essa fé excessiva nos indivíduos
[00:24:53] dizendo assim, ah, se a gente colocar uma pessoa
[00:24:55] X ou Y, toda a história vai mudar
[00:24:57] hum, pode fazer uma
[00:24:59] diferença? Pode, agora
[00:25:01] mudar a história desse jeito, hum
[00:25:03] não é assim não, como você bem falou
[00:25:05] a gente vive num lugar
[00:25:07] onde está se normalizando
[00:25:10] os absurdos
[00:25:12] que
[00:25:13] o nosso mandatário da república faz
[00:25:16] em nome de uma suposta
[00:25:17] agenda econômica
[00:25:19] sabe, todo dia a gente está aceitando
[00:25:21] um absurdo atrás do outro
[00:25:23] em nome de uma agenda econômica que é um absurdo
[00:25:25] em si mesmo, assim, a agenda
[00:25:27] talvez seja até tão absurda
[00:25:29] quanto as coisas mais loucas que estão
[00:25:31] sendo ditas do outro lado, só que é aquilo
[00:25:33] a agenda econômica, ela é vendida como
[00:25:35] uma verdade, ao ponto
[00:25:37] de que as pessoas acreditam, uma verdade do tipo
[00:25:39] científica, né, ao ponto de que muitas
[00:25:41] pessoas acreditam que essa verdade do tipo
[00:25:43] científica que é vendida como
[00:25:45] um, olha só, vamos acabar com
[00:25:47] a segurança do trabalhador
[00:25:49] vamos acabar com a segurança, vamos
[00:25:51] desmontar todo o estado de seguridade social
[00:25:53] porque isso vai ser melhor para todo mundo
[00:25:55] sabe, é que é uma crença
[00:25:57] demasiada no triunfo da
[00:25:59] verdade, né cara, assim, ou seja, os caras
[00:26:01] podem dizer qualquer coisa e dizer que isso aqui
[00:26:03] é a conclusão do nosso processo
[00:26:05] evolutivo e papapá, que as pessoas acedam
[00:26:07] de bom grado, e quando você vai ver a consequência
[00:26:09] daquilo, fala assim, não bicho
[00:26:11] isso é uma tragédia tão grande quanto
[00:26:13] sei lá, você ter um ministro da educação
[00:26:15] sendo homofóbico
[00:26:17] exato, mas aí
[00:26:19] eu evito, assim, o que eu falei
[00:26:21] não queria usar a palavra
[00:26:22] anormalidade
[00:26:24] porque aí eu acho que você, como
[00:26:27] anarquista, vai concordar
[00:26:29] muito com isso, é que
[00:26:30] eu preciso invocar aí
[00:26:33] o day leave do John Carpenter
[00:26:35] é que, quando a gente
[00:26:37] fala de anormalidade, a gente corre o risco
[00:26:40] de parecer que a gente está dizendo
[00:26:41] que o que veio antes era normal
[00:26:43] mas já era
[00:26:45] absurdo, assim, né, e aí eu lembro, assim, o que
[00:26:47] que tem de novo
[00:26:48] nessa supremacia do plano econômico
[00:26:51] e de tratar
[00:26:53] a economia como se ela fosse uma força
[00:26:55] na natureza, com a qual a gente tem que
[00:26:57] fazer, né, pra qual a gente tem que fazer
[00:26:59] sacrifícios, basicamente
[00:27:01] não, nós temos que sacrificar aqui a estabilidade do
[00:27:03] trabalhador porque o Deus, a economia
[00:27:05] precisa se normalizar, né, do mesmo jeito
[00:27:07] que a gente faria
[00:27:08] pra, né, pra aplacar um fenômeno
[00:27:11] natural, tipo, ah, né, vamos
[00:27:13] fazer aqui uma oferenda
[00:27:15] pra aplacar a natureza
[00:27:17] o que que o day leave
[00:27:19] mostra, né, quando ele olha pro
[00:27:21] dinheiro, aparece lá, esse é seu
[00:27:23] Deus, e assim, isso
[00:27:24] ou seja, existe uma
[00:27:27] anormalidade, mas
[00:27:29] existe uma anormalidade anterior
[00:27:31] ali, assim, né, nada do que
[00:27:33] veio antes, assim, desde que a gente
[00:27:35] nasceu, é normal
[00:27:37] assim, a capacidade de
[00:27:39] enxergar o absurdo naquilo
[00:27:41] que a gente é feito
[00:27:42] pra tratar como normal
[00:27:44] é parte do que eu acho que a gente tá falando aqui, não só
[00:27:47] nesse episódio, mas no podcast em geral
[00:27:49] se isso é perfeito, porque nesse
[00:27:51] esse filme ele faz exatamente isso, ele trata
[00:27:52] todo esse sistema de eleições
[00:27:55] norte-americanas como uma coisa
[00:27:56] natural, né, uma coisa
[00:27:59] muito, inclusive, muito
[00:28:00] nossa, que é muito evoluída
[00:28:03] né, porque, e a gente sabe que, cara
[00:28:04] que o processo eleitoral dos Estados Unidos é uma bagunça
[00:28:07] o processo eleitoral dos Estados Unidos
[00:28:09] a tal democracia, né, o berro
[00:28:10] como é que é, a maior democracia do mundo
[00:28:13] como é que chama, a maior democracia
[00:28:14] tudo que você falou, ele fala
[00:28:16] porque é muito louco, porque
[00:28:17] é um país onde a maioria da população
[00:28:21] não elege presidente, então assim
[00:28:23] porque se fosse isso, os republicanos
[00:28:25] não ganhavam nada, eles
[00:28:26] se valem naqueles sistemas lá de
[00:28:28] daqueles sistemas de proporcionalidade, delegados
[00:28:30] coisas do tipo, e isso que tu falou
[00:28:32] é muito importante, porque
[00:28:33] a gente não vai entrar aqui nisso, né, mas
[00:28:36] todo esse sistema que a gente defende como
[00:28:38] natural, enfim
[00:28:40] ele é um instrumento de dominação clássico
[00:28:42] é um instrumento de dominação, inclusive
[00:28:44] de produção, de distinção
[00:28:46] aquilo que a gente tava falando, que eu comecei
[00:28:48] falando, como essas comédias
[00:28:50] feitas por negros, para negros nos Estados Unidos
[00:28:53] muito do que elas fazem é justamente
[00:28:54] isso, elas apontam
[00:28:56] olha só, então a polícia não é exatamente
[00:28:58] uma instituição boa, a gente naturaliza
[00:29:00] a violência policial, mas assim, a gente que sofre
[00:29:02] de verdade com isso, não acha isso
[00:29:04] natural, não acha isso legal, sabe
[00:29:06] você só consegue achar isso natural porque vocês não são
[00:29:08] os afetados diretamente por esse processo
[00:29:10] e aí é interessante assim, porque
[00:29:12] a própria economia
[00:29:14] ela é vendida
[00:29:16] como um desses processos que a gente tem que naturalizar
[00:29:18] e aceitar, enfim, tem um trabalho
[00:29:20] vai falar sobre alternativas
[00:29:22] infernais, de como
[00:29:23] isso tá sempre operando, minando a nossa
[00:29:26] imaginação do tipo, ou você aceita
[00:29:28] ter um emprego de merda, ou você
[00:29:30] aceita não ter emprego, qual que você prefere
[00:29:32] né, e aí que é um ponto que eu acho
[00:29:34] que é legal, que depois a gente vai deixar pronto, a gente ainda vai fazer um
[00:29:36] episódio só sobre isso né, porque tem aquele filme
[00:29:38] sobre a crise dos mercados financeiros nos Estados Unidos
[00:29:40] que é um filme bem bom, mas
[00:29:42] é sempre bom lembrar de uma crítica que o South Park
[00:29:44] faz a esse processo todo
[00:29:46] lembra daquele episódio de South Park
[00:29:48] sobre a crise financeira
[00:29:50] e sei lá o que, que tudo é decidido matando uma galinha
[00:29:52] não, esse eu não vi, porra é muito bom cara
[00:29:54] que eles pegam, como é que, o que a gente vai fazer agora
[00:29:56] tem um problema financeiro, eles matam, arrancam o pescoço
[00:29:58] de uma galinha, a galinha corre pra um
[00:30:00] pra uma grande roleta assim, onde a galinha cai
[00:30:02] é, eles decidem, ah então
[00:30:04] vamos investir 10 milhões em futuro
[00:30:06] saca, sim, e aí tipo
[00:30:08] que eles já estavam justamente falando
[00:30:09] sobre como a crise financeira ali do começo
[00:30:12] do final dos anos 2000, final da era Bush
[00:30:14] né, enfim, era um negócio assim
[00:30:16] quando você vê o motivo pelo qual aquilo tava acontecendo
[00:30:18] você fala assim, cara, toda essa abstração
[00:30:20] que a gente chama de mercado financeiro
[00:30:22] isso não é um jogo positivo
[00:30:24] no sentido de positivismo, não é um jogo
[00:30:26] concreto, não é um jogo científico, na verdade
[00:30:28] isso é um mercado de evoluições, uma estratégia
[00:30:30] de poder criada por pessoas ricas
[00:30:32] para ficarem mais ricas, e as pessoas
[00:30:34] falam, olha, que legal
[00:30:35] né, enfim, e eu acho que esse filme, só pra voltar
[00:30:38] pro filme mesmo, ele realmente cai
[00:30:40] nesse buraco aqui, ele falou assim
[00:30:41] se por um lado ele atua no plano
[00:30:44] micro ali né, ele fica, ele tá o tempo
[00:30:46] todo brincando com ela, olha como é que esse
[00:30:47] sistema de poder aqui é feito pra excluir os negros
[00:30:50] olha, tem a violência policial
[00:30:52] olha só como é que as comunidades negras vivem
[00:30:54] aqui, mas ao mesmo tempo ele deposita uma
[00:30:56] fé excessiva no sistema, achando
[00:30:58] que sim, um homem negro vai
[00:31:00] realmente fazer a diferença lá dentro, um homem
[00:31:02] que fala a voz do povo, um homem que é o povo
[00:31:04] um homem que fala aquilo que o povo pensa
[00:31:05] né, porque o que o povo pensa
[00:31:08] a voz da maioria, a voz
[00:31:09] do povo é a voz de Deus, é uma voz boa
[00:31:12] então assim, aquilo que a maioria
[00:31:13] quer, é a ascensão
[00:31:16] de um indivíduo do povo
[00:31:17] e só pra contrastar isso aí agora, eu vou longe hein
[00:31:20] essa tu não vai ver chegando, vai, vai
[00:31:22] é sempre interessante
[00:31:24] contrastar isso, eu ainda vou escrever um dia
[00:31:26] sobre isso um dia, como
[00:31:28] muitos filmes prestam
[00:31:30] um desserviço ao próprio
[00:31:32] debate sobre fascismo, regimes totalitaristas
[00:31:34] enfim, porque muitas vezes
[00:31:36] nos filmes são retratados
[00:31:38] a gente vai ficar mais evidente quando a gente for falar
[00:31:40] do próximo filme, a ascensão
[00:31:42] de estados totalitários
[00:31:44] ou de regimes fascistas, ela
[00:31:46] é sempre pensada como um
[00:31:48] indivíduo, um tirano
[00:31:50] eliminando os povos
[00:31:52] né, quando
[00:31:53] sei lá, pega aí Senhor dos Anéis
[00:31:55] Star Wars, sabe
[00:31:58] ó, o cara deu um golpe, enganou as pessoas
[00:32:00] e sei lá o que, pipipipopopô
[00:32:02] quando você vai ter um monte de
[00:32:04] trabalhos mostrando sobre como a ascensão do fascismo
[00:32:06] só foi possível pela existência
[00:32:08] de um apoio popular maciço
[00:32:09] você acha
[00:32:12] que a população um dia
[00:32:13] apoiaria um golpe?
[00:32:16] não, 64, aqui no Brasil
[00:32:18] foi meia dúzia, ninguém foi
[00:32:20] sabendo o que tava acontecendo
[00:32:21] não, você acha que
[00:32:23] não, porque o que você tá dizendo
[00:32:26] é que a Dilma
[00:32:28] poderia ter sofrido um golpe, mas não poderia
[00:32:30] ser um golpe, porque as pessoas queriam que a Dilma saísse
[00:32:32] o problema é que é um pouco mais
[00:32:34] louco que isso, né, a questão toda
[00:32:36] a gente vai voltar a falar disso no próximo filme
[00:32:38] mas é porque
[00:32:40] uma coisa que me incomoda muito
[00:32:42] é que
[00:32:43] quando as massas
[00:32:46] agem para
[00:32:47] que querem alguma coisa
[00:32:50] né, se aquilo não é
[00:32:52] do interesse de um certo discurso
[00:32:54] liberal, enfim, aquilo é
[00:32:56] sempre entendido como uma manipulação
[00:32:58] as pessoas foram manipuladas
[00:33:00] para, sei lá, apoiar o golpe
[00:33:02] de 64, as pessoas foram
[00:33:04] manipuladas para apoiar o regime fascista
[00:33:06] e pipipipopopô, e aí você vai ver
[00:33:08] por exemplo, tem um texto do Deleuze
[00:33:10] hoje eu tô super aprendendo com
[00:33:12] o Orlandinho, né, enfim
[00:33:13] tem um texto do Deleuze que se chama Micropolítica e Segmentaridade
[00:33:16] tá ali no terceiro volume
[00:33:18] do Mil Platôs, é Deleuze e Guattari
[00:33:20] onde eles vão justamente
[00:33:22] fazer uma grande análise sobre os
[00:33:24] regimes fascistas
[00:33:26] molares, no sentido do regime
[00:33:27] fascista estatal
[00:33:29] porque depois vai ter uma outra coisa chamada microfascismo
[00:33:31] que a gente vai falar aqui, como eles estão justamente
[00:33:34] eles não são movimentos descolados
[00:33:36] do desejo populacional
[00:33:37] eles apelam, eles
[00:33:39] elaboram, eles reelaboram
[00:33:42] eles se inserem, eles cultivam
[00:33:44] uma série de pulsões
[00:33:46] que atravessam a sociedade
[00:33:47] então, por exemplo, aqui no Brasil
[00:33:50] vê quantas pessoas acreditam que bandido bom é bandido morto
[00:33:53] e você compara com a quantidade de votos
[00:33:55] que pessoas que pregam esse tipo de ideologia
[00:33:57] e muitas vezes
[00:33:58] é…
[00:34:01] assim, porque tem a galera que
[00:34:02] fala que bandido bom é bandido morto
[00:34:05] tem a galera que pensa
[00:34:07] mas não fala, né
[00:34:09] então assim, pensa na quantidade de pessoas
[00:34:11] que votam tendo esse tipo de
[00:34:13] orientação política, então você vai dizer
[00:34:15] que o cara que, sei lá, tipo
[00:34:16] o quase ex-governador do Rio de Janeiro
[00:34:19] que faz toda uma discriminação
[00:34:20] psicopata de uma bala entrando no crânio
[00:34:23] de uma pessoa e vende isso como plataforma
[00:34:25] política, e tu acha que esse cara se elege
[00:34:27] enganando as pessoas?
[00:34:29] então esse que é um ponto que o cinema, por exemplo
[00:34:31] presta muitas vezes um desserviço
[00:34:33] a se falar sobre ditaduras, a se falar sobre
[00:34:35] regimes totalitaristas, porque parece
[00:34:37] que o povo é sempre um
[00:34:39] ele sempre tem um papel passivo
[00:34:41] nesse processo, ou ele tá sendo manipulado
[00:34:43] ou ele tá simplesmente sendo dominado
[00:34:44] quando na verdade a gente sabe que tem uma relação
[00:34:47] intrínseca
[00:34:49] né, uma dó
[00:34:50] que o povo coloca ali no poder, né, assim
[00:34:52] e aí a gente volta
[00:34:54] pra um ponto que a gente falou lá no começo
[00:34:56] que é a hipocrisia, que o filme, por exemplo
[00:34:58] ele tem essa ingenuidade de achar
[00:35:00] que o sistema funciona, porque por exemplo
[00:35:03] primeira coisa é, se o Chris Rock
[00:35:05] conquista os corações
[00:35:07] e as mentes
[00:35:08] ele é uma força
[00:35:10] inevitável, né, tipo, o sistema não tem
[00:35:12] como controlar, como se houvesse uma supremacia
[00:35:15] da democracia realmente
[00:35:16] que é isso, assim, né
[00:35:17] de novo, assim, como se ele não
[00:35:20] pudesse ter sido assassinado
[00:35:22] como o próprio personagem imagina
[00:35:23] como se não houvesse nenhum tipo de manipulação eleitoral
[00:35:26] nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar
[00:35:28] e eu acho
[00:35:30] que mais longe é
[00:35:31] você deixou de citar um tipo
[00:35:34] de pessoa que é
[00:35:36] a pessoa que fala, mas não acredita
[00:35:38] porque essa é a questão, o filme
[00:35:40] ele ainda parte de um pressuposto ingênuo
[00:35:42] de que
[00:35:44] a pessoa que fala
[00:35:45] ou que aparenta falar o que ela pensa
[00:35:48] realmente acredita, que a única pessoa
[00:35:50] que está falando sem acreditar
[00:35:52] é aquela que está reproduzindo o discurso
[00:35:55] quadrado
[00:35:56] e, né
[00:35:58] e corporativista, enfim
[00:36:00] que a pessoa que vem com
[00:36:02] que vem com carisma
[00:36:04] e com uma certa, né
[00:36:06] e com paixão no seu discurso
[00:36:08] ela não pode estar sendo
[00:36:10] hipócrita, assim, de maneira nenhuma
[00:36:12] quando na realidade, né
[00:36:14] a gente, enfim, tem todos os exemplos
[00:36:16] do mundo real que a gente
[00:36:18] tem, mas só pra encerrar esse
[00:36:20] filme, eu queria fazer dois momentinhos
[00:36:22] rápidos, o primeiro é
[00:36:24] o momento semiótica do Gus
[00:36:26] que é, nessa cena de abertura
[00:36:28] do filme, em que ele vai salvar
[00:36:30] a
[00:36:31] senhora que foi atrás do
[00:36:34] próprio gato, da casa dela que vai ser demolida
[00:36:36] você tem ali
[00:36:38] todo mundo, né, o pessoal da demolição
[00:36:40] o pessoal da construtora
[00:36:42] e você tem a polícia, né, que tá ali
[00:36:43] porque eles tem que tá lá, né, pra garantir a segurança das pessoas
[00:36:46] e aí o que ele
[00:36:48] ele fala assim, ah, gente, ele fala
[00:36:50] policial, e é um policial
[00:36:51] negro, que fala assim
[00:36:53] e ele fala assim, para os caras
[00:36:56] aí, tipo, e deixa eu
[00:36:58] entrar lá, né, vamos entrar
[00:36:59] entra você pra tirar o gato de lá
[00:37:02] e o cara fala assim, ah, desculpa
[00:37:03] a partir do momento que
[00:37:06] eles botam os explosivos
[00:37:07] a gente não pode fazer nada
[00:37:09] então, assim, o cara que tá
[00:37:12] garantindo
[00:37:14] de maneira burocrática
[00:37:16] o direito da violência
[00:37:18] ali, dos caras que vão demolir a casa
[00:37:20] de tipo, é, talvez eles matem o gato dela
[00:37:22] talvez eles matem ela se ela entrar na casa e tal
[00:37:24] é um policial negro, assim
[00:37:26] então, é uma cena que
[00:37:27] de certa maneira
[00:37:29] aponta um dedo pra, tipo, olha só, como na verdade
[00:37:32] todo esse sistema aqui, torna todo mundo
[00:37:34] parte da mesma
[00:37:36] do mesmo rolo compressor
[00:37:38] contra nós mesmos
[00:37:39] e a outra coisa que eu queria levantar
[00:37:42] é que a gente não tocou
[00:37:44] e aí eu vou fazer isso por nós
[00:37:46] numa grande
[00:37:48] talvez no grande trunfo desse filme
[00:37:50] que é o Bernie Mac fazendo
[00:37:52] o irmão do Chris Rock
[00:37:53] saudoso
[00:37:54] e aí, o Bernie Mac, eu lembrei dele
[00:37:58] porque você falou da crise econômica nos Estados Unidos
[00:38:00] e qual foi a solução da crise econômica
[00:38:02] nos Estados Unidos, inclusive durante o governo Obama
[00:38:05] foi o que a gente chama
[00:38:06] dos bailouts
[00:38:07] eles salvaram as empresas
[00:38:10] as grandes empresas, os grandes bancos
[00:38:11] que iam falir ou ficar muito mal das pernas
[00:38:14] por causa do prejuízo que eles mesmos geraram
[00:38:16] e aí o governo vai lá
[00:38:17] e dá subsídios
[00:38:19] e corta impostos e empresta dinheiro
[00:38:21] a juros baixíssimos pra essas empresas
[00:38:24] pra salvar a economia
[00:38:26] ao invés de salvar as pessoas
[00:38:27] e aí o termo bailout
[00:38:29] ele vem da onde? Vem do bail
[00:38:31] que é a fiança
[00:38:33] e aí o que que é
[00:38:35] o personagem do Bernie Mac
[00:38:37] ele é um bail bondsman
[00:38:38] que é uma figura extremamente americana
[00:38:41] que eu não saberia nem como traduzir o que ele é
[00:38:44] mas o que ele faz é o seguinte
[00:38:45] é tão universal
[00:38:47] o sistema de fianças
[00:38:49] nos Estados Unidos
[00:38:50] que existem esses caras, os bail bondsmen
[00:38:53] o que que eles são?
[00:38:54] eles são caras que te emprestam o dinheiro
[00:38:56] pra você pagar a sua fiança
[00:38:58] eles vão lá e pagam a sua fiança diretamente pra polícia
[00:39:00] e é o seguinte
[00:39:02] e no sistema americano é o seguinte
[00:39:04] se você não aparece
[00:39:06] se você paga uma fiança, fica lá
[00:39:08] você tem que voltar aqui no dia do seu
[00:39:10] da sua audiência
[00:39:13] se você não aparecer na audiência
[00:39:15] você não recebe esse dinheiro de volta
[00:39:17] como quem pagou não foi você?
[00:39:19] é o personagem do Bernie Mac
[00:39:22] que é o bail bondsman
[00:39:23] então ele fica com o trabalho
[00:39:25] de capturar você e devolver
[00:39:27] você pra polícia pra você ser preso
[00:39:29] pra ele poder receber o dinheiro de volta
[00:39:30] ele é quase um caçador de recompensas
[00:39:33] ele é um caçador de recompensas
[00:39:34] um bounty hunter
[00:39:37] normalmente esses bail bondsmen
[00:39:39] contratam
[00:39:41] os caçadores de recompensas lá
[00:39:43] que é uma profissão regulamentada nos Estados Unidos
[00:39:45] pra você entender que o velho oeste nunca acabou lá
[00:39:48] mas enfim
[00:39:48] e aí
[00:39:49] o Bernie Mac faz esse discurso
[00:39:51] na TV
[00:39:52] quando ele vira candidato a vice-presidente do irmão
[00:39:55] pergunta pra ele
[00:39:56] como é que um cara como você pode ser vice-presidente
[00:39:59] o que você entende?
[00:39:59] ele falou assim, o que o nosso governo faz?
[00:40:01] quando a gente tem a crise econômica
[00:40:03] a gente fala bail out pras empresas
[00:40:05] tem a crise na automotiva
[00:40:09] bail out pras empresas automotivas
[00:40:10] você tá com um problema
[00:40:11] o governo americano paga a sua fiança
[00:40:14] e é por isso que eu cedei um ótimo vice-presidente
[00:40:16] muito bom, essa cena é muito boa
[00:40:18] é maravilhosa
[00:40:19] então, antes da gente entrar
[00:40:21] no segundo filme
[00:40:22] eu citei o conceito de kayfabe
[00:40:25] no episódio anterior
[00:40:27] e como eu acho que ele vai ser bem importante
[00:40:29] pra nossa discussão hoje aqui
[00:40:31] e também pra adicionar
[00:40:33] o nosso maravilhoso currículo
[00:40:34] eu trouxe um áudio do amigo meu, o Lucas
[00:40:37] lá do Four Corners
[00:40:38] que é um podcast brasileiro sobre luta livre
[00:40:41] pra ele dar uma
[00:40:43] explicada melhor aqui
[00:40:45] eu vou tocar um áudio que ele mandou pra gente
[00:40:46] meio que citando
[00:40:49] essa relação do público
[00:40:51] com a ficção
[00:40:53] da luta livre
[00:40:55] porque eu acho que ela tem tudo a ver com
[00:40:57] a nossa relação com política hoje e com o que
[00:40:59] esse segundo filme mostra, então vamos ouvir aqui
[00:41:01] junto com os nossos ouvintes
[00:41:03] e a gente volta pra falar de Ele Está De Volta
[00:41:05] a gente vai estar de volta pra falar de Ele Está De Volta
[00:41:07] olha que bonito
[00:41:08] Oi Gus, Oi Orlando, tudo bem?
[00:41:11] Eu sou o Lucas Alberto, faço parte de um podcast
[00:41:13] chamado Four Corners Wrestling Podcast
[00:41:15] no mundo da luta livre
[00:41:17] profissional ou wrestling, né?
[00:41:19] a gente chama, existe um termo chamado
[00:41:21] kayfabe, tudo que é falso
[00:41:23] mas precisa ser apresentado como realidade
[00:41:25] é kayfabe, é como se fosse um véu
[00:41:27] pra essa magia do espetáculo
[00:41:29] por assim dizer, ela não seja perdida
[00:41:31] por exemplo, era bem comum
[00:41:33] que lutadores rivais, assim, na vida normal
[00:41:35] deles, aos olhos do público, eles não
[00:41:37] socializassem, né?
[00:41:39] diferente do ator de filme de ação, por exemplo
[00:41:41] que, sei lá, o Rambo e o Schwarzenegger
[00:41:43] interpretam
[00:41:44] antagonistas num filme, mas depois que
[00:41:47] o diretor grita corta
[00:41:49] eles socializam, enfim, na luta livre
[00:41:51] não tinha isso
[00:41:52] nos anos 70 e 80, era muito comum, por exemplo
[00:41:55] os lutadores mocinhos
[00:41:57] e os vilões, vamos dizer assim
[00:41:59] não frequentarem os meus restaurantes
[00:42:01] eles se encontrassem em público
[00:42:03] tinha que ter uma discussão, assim, uma coisa
[00:42:05] meio dedo na cara, eu vou te pegar de porrada
[00:42:07] num dos exemplos mais
[00:42:09] emblemáticos disso, existia um lutador
[00:42:10] chamado Ted DiBiase, né?
[00:42:12] que era o Million Dollar Man, né?
[00:42:15] ele ganhava uma mesada, além do salário dele
[00:42:17] que não era pra ser gasto com ele
[00:42:19] dinheiro que era ser, ele tinha
[00:42:21] o objetivo de ser esbanjado
[00:42:23] na frente dos fãs, de modo a
[00:42:25] perpetuar essa ideia que, assim, mesmo quando
[00:42:27] ele não tá lutando, ele é um milionário
[00:42:29] tudo isso que ele apresenta no ringue
[00:42:31] é verdade e ele realmente pode
[00:42:33] comprar tudo, então, por exemplo
[00:42:35] ele ia fazer um show numa cidade, assim, sei lá
[00:42:37] os caras iam se apresentar em
[00:42:38] vou dar um exemplo local aqui, São Vicente
[00:42:41] ele entrava num restaurante lá
[00:42:43] em São Vicente
[00:42:44] e, cara, hoje eu vou bancar
[00:42:47] todo mundo aqui, ó, vai passar meu funcionário
[00:42:49] aqui, ele tinha um capanga, né, o Virgil, né
[00:42:51] ele fazia
[00:42:53] o Virgil pegar a comanda de todo mundo
[00:42:55] do restaurante e bancava e ia embora
[00:42:57] e todo mundo ia embora falando, cara, o cara existe
[00:42:59] mesmo, ele tem uma grana
[00:43:00] ele pagou o nosso almoço, ele é o
[00:43:03] Million Dollar Man, né
[00:43:04] hoje em dia, essas manifestações do
[00:43:07] Kayfabe, elas são um pouco
[00:43:08] mais brandas, vamos dizer assim, até por conta
[00:43:11] de redes sociais, é muito difícil, né
[00:43:13] você manter esse aspecto ainda
[00:43:14] mas, por exemplo, existem turnês ainda que existem
[00:43:17] fazem
[00:43:19] empresas que fazem turnês
[00:43:21] com um ônibus exclusivo
[00:43:23] pra mocinhos e outro ônibus
[00:43:25] exclusivo pra vilões
[00:43:26] eu fui num show uma vez
[00:43:28] eu fui num card de wrestling
[00:43:31] por exemplo, que era uma homenagem
[00:43:32] a um lutador que havia morrido
[00:43:35] ele morreu no ringue, enfim
[00:43:36] todo ano tem como se fosse uma homenagem
[00:43:38] pra ele, assim, um evento comemorativo
[00:43:40] e na hora lá que
[00:43:43] fazem, vamos dizer assim, um minuto de silêncio
[00:43:44] os vilões não participam, os vilões
[00:43:46] pra você olhar e falar
[00:43:48] cara, olha como esses caras são filha da puta, meu
[00:43:50] eles não respeitam nem a morte do
[00:43:52] do fodão aí, do negócio, né
[00:43:54] no caso, o Mitsuharu Misawa, né
[00:43:56] e é interessante
[00:43:59] ver que a reação do público, ela também
[00:44:00] acaba fazendo parte dessa combinação
[00:44:02] assim, dessa dinâmica
[00:44:03] um exemplo mais claro, mais contemporâneo
[00:44:06] tem o Dwayne Johnson, né
[00:44:08] que muita gente conhece como o Rock, né
[00:44:10] o The Rock
[00:44:11] ele no começo de carreira, ele era um mocinho
[00:44:14] ele era totalmente execrado
[00:44:16] pelo público, pessoal
[00:44:18] vaiava ele, falava que queria que ele morresse
[00:44:21] queria que ele se machucasse
[00:44:22] enfim, e um dia ele realmente
[00:44:24] se machucou, ele voltou dessa lesão
[00:44:26] passou um puto
[00:44:28] esculacho no público, começou a falar dele mesmo
[00:44:30] na terceira pessoa, assim, um negócio
[00:44:32] muito arrogante, assim
[00:44:34] e ele assumiu essa persona de The Rock
[00:44:36] né, e os fãs
[00:44:38] por algum motivo, né
[00:44:40] agora que eles tinham motivo pra vaiar o cara
[00:44:42] agora que o cara era arrogante, que o cara xingava
[00:44:44] eles, que o cara falava mal da cidade deles
[00:44:46] eles ao invés de
[00:44:48] vaiarem ainda mais
[00:44:50] eles começaram a torcer pro cara
[00:44:52] o cara xingava todo mundo, eles batiam palmas, né
[00:44:54] num caso clássico, assim, da audiência
[00:44:56] torcendo pro vilão, né
[00:44:57] o The Rock, nesse caso, né
[00:45:00] antes dele virar esse ator que ele é hoje, né
[00:45:02] o Dwayne Johnson, um dos maiores atores de Hollywood
[00:45:03] ele foi um dos maiores e mais populares lutadores de todos os tempos
[00:45:07] e não só
[00:45:08] pela técnica dele no ringue
[00:45:09] aliás, eu acho que a técnica dele era até
[00:45:12] o menor dos
[00:45:13] das qualidades dele, mas principalmente
[00:45:16] por esse carisma, essa maneira que ele
[00:45:18] arranjava tudo o público, né
[00:45:19] e é possível você ver
[00:45:22] esse kayfabe também fora da luta livre, né
[00:45:24] é um caso clássico, né
[00:45:26] um grande exemplo, é aquela história do Andy Kaufman
[00:45:28] com o Jerry Lawler, né
[00:45:30] o comediante Andy Kaufman
[00:45:31] que isso só foi revelado que era uma grande
[00:45:34] armação, né, essa rivalidade entre eles
[00:45:36] eles saindo no tapa
[00:45:38] no programa do Letterman, enfim
[00:45:40] isso só foi revelado pro público
[00:45:42] que era uma armação
[00:45:43] anos depois do Kaufman morrer, né
[00:45:47] existem outros exemplos
[00:45:48] além disso, mas acho que esses
[00:45:49] são funcionais pra pontuar
[00:45:52] exatamente o que é o kayfabe
[00:45:54] e é isso aí, obrigado
[00:45:56] pela oportunidade, um abraço a todos
[00:45:58] bom, e é esse
[00:46:00] eu não sei você, mas sabe o que eu lembrei
[00:46:02] Orlando, ouvindo agora o áudio do Lucas
[00:46:04] é de
[00:46:06] dois momentos
[00:46:07] que talvez da
[00:46:10] quebra do kayfabe na nossa política, que é
[00:46:12] aquela foto que é
[00:46:13] os dois Bush, o Obama
[00:46:16] e os
[00:46:17] e os
[00:46:18] Clinton, todo mundo junto rindo
[00:46:19] e tem aqui no Brasil, a gente tem aquela foto que é o Lula
[00:46:22] o Sarney, o Collor e a Dilma
[00:46:24] se eu me engano, também todos
[00:46:26] no, acho que no jatinho
[00:46:28] presidencial e tal
[00:46:29] enfim, o que você quer dizer
[00:46:32] sobre isso? Cara, assim, é porque
[00:46:34] tem
[00:46:34] tem várias camadas aí, né
[00:46:38] assim, porque eu acho que essa coisa
[00:46:40] do político enquanto um personagem é uma coisa
[00:46:42] bem clássica, né
[00:46:43] inclusive, sei lá, se pegar o Vargas
[00:46:46] né, alguns personagens políticos
[00:46:48] se tornaram quase
[00:46:50] figuras divinizadas, né, literalmente
[00:46:52] se tornaram imagens messiânicas
[00:46:54] e tal, então você tem isso
[00:46:56] né, o personagem
[00:46:58] se tornou muito maior do que o próprio
[00:46:59] o Vargas, inclusive
[00:47:01] isso supostamente está na carta de suicídio
[00:47:04] dele, né, assim, é um sujeito
[00:47:06] que entendeu, se entendeu como um
[00:47:08] personagem de uma história, aí falou, vou embora
[00:47:10] como isso, né
[00:47:10] pra mim, o que
[00:47:14] me chama muito a atenção nessa história
[00:47:16] toda do kayfabe, e sobretudo
[00:47:18] na parte onde ele fala do The Rock
[00:47:20] né, que
[00:47:21] vai de encontro
[00:47:24] ao que a gente
[00:47:26] já falou nesse episódio, mas também uma coisa que você falou
[00:47:28] no episódio
[00:47:28] onde a gente falou sobre Black Mirror, né
[00:47:31] de que como aquele universo do Black Mirror
[00:47:34] onde as pessoas estão tão
[00:47:36] obcecadas com as redes sociais que elas são incapazes
[00:47:38] de serem
[00:47:39] desagradáveis umas com as outras, né
[00:47:42] é, digamos
[00:47:44] é impossível de existir
[00:47:46] né, tipo, é inconcebível, como é que aquilo
[00:47:48] não pega, porque justamente
[00:47:50] esse
[00:47:52] quando você vê o que está sendo
[00:47:54] aplaudido ali, como é que
[00:47:56] esses sujeitos que são os vilões, né
[00:47:58] do, do, do, do
[00:47:59] os vilões, digamos, do
[00:48:01] da luta livre, né
[00:48:04] ou da luta livre, enfim
[00:48:05] como é que é no Japão, esqueci o nome
[00:48:07] é, no Japão eles chamam de
[00:48:10] wrestling mesmo, enfim
[00:48:11] eles são capazes de
[00:48:14] mobilizar, né, as paixões
[00:48:16] esse kayfabe deles
[00:48:18] essa manutenção desse personagem
[00:48:19] algo desagradável, algo
[00:48:22] arrogante, às vezes, nem é algo, né
[00:48:24] extremamente desagradável, extremamente arrogante
[00:48:26] extremamente, sabe, é o que
[00:48:28] os torna famosos e é o que vai
[00:48:30] mobilizar as paixões do público, porque eles são
[00:48:32] adorados
[00:48:33] por serem odiosos, né
[00:48:36] e assim, é interessante
[00:48:38] pra ver como isso contrasta
[00:48:40] primeiro com essa ideia de que
[00:48:41] num universo onde tá todo mundo sendo
[00:48:43] o tempo todo visto, né
[00:48:45] o tempo todo a sua vida, você se torna um personagem
[00:48:48] de si mesmo, você vai sempre ser um
[00:48:49] você vai invariavelmente ser um
[00:48:51] personagem agradável, a gente sabe que
[00:48:53] não é isso, inclusive a
[00:48:55] própria estrutura das redes sociais
[00:48:57] te recompensa por ser polêmico, te recompensa
[00:49:00] por ser desagradável, te recompensa
[00:49:02] por produzir o ódio nos outros
[00:49:04] e
[00:49:05] como isso, imaginar
[00:49:07] que isso, digamos
[00:49:09] vai, na política vai dar
[00:49:12] vazão, né, como é que é um personagem
[00:49:14] que seja extremamente agradável na política, vai ser
[00:49:15] vai ser aquele que vai ser capaz de
[00:49:18] redimir a política, que vai ser capaz de salvar
[00:49:20] a democracia dos seus agentes, sei lá o que
[00:49:21] também não é verdadeiro porque
[00:49:23] justamente nesse universo que a gente vive
[00:49:26] extremamente mediado pelas redes
[00:49:28] sociais, foram
[00:49:29] justamente sujeitos desagradáveis
[00:49:32] e não só aqui no Brasil
[00:49:34] o Trump, o Bolsonaro
[00:49:36] você tem o Boris Johnson
[00:49:38] sabe, são pessoas que
[00:49:39] tem essa polêmica
[00:49:42] que foram capazes justamente
[00:49:44] de, como é que eu posso dizer
[00:49:45] é… conquistar
[00:49:48] o apreço, o coração
[00:49:50] das massas, né?
[00:49:51] Pois é, nisso eu fico
[00:49:53] lembrando também, eu até compartilhei
[00:49:55] com você semana, uma
[00:49:57] uma beat do stand-up do Peton Oswald
[00:50:00] porque assim, eu tava pensando
[00:50:02] né, o que que faz
[00:50:04] os lutadores fingirem que eles
[00:50:06] são inimigos, mas
[00:50:07] na verdade é só o espetáculo
[00:50:09] é porque todos eles trabalham pro mesmo patrão, né
[00:50:12] e aí tem essa
[00:50:14] essa beat do
[00:50:15] do Peton Oswald que ele vira e fala assim, eu não quero ser o cara
[00:50:18] que diz que o presidente não importa
[00:50:20] porque tem
[00:50:21] alguém, tem as pessoas que realmente
[00:50:23] mandam na gente e no presidente
[00:50:25] mas
[00:50:26] meio que o presidente não importa e tem as pessoas
[00:50:30] que mandam no presidente
[00:50:31] que aí ele fala assim, tipo
[00:50:33] que se você olhar pro presidente americano
[00:50:36] como só um casting, assim, um trabalho
[00:50:38] um papel
[00:50:40] pro qual você tem que escalar
[00:50:41] um ator, um personagem
[00:50:43] uma personalidade, ele vira e fala assim, cara
[00:50:45] olha, ele vai fazendo vários, aí ele vira e fala
[00:50:48] assim, cara, a gente vai
[00:50:49] a gente vai começar a encarcerar várias pessoas
[00:50:51] a gente vai começar um conflito
[00:50:53] na Iugoslávia, não sei o que, o que a gente precisa
[00:50:55] pô, vamos pegar um cara que
[00:50:57] já falou uma conha, toca um saxofone
[00:50:59] meio carismático, assim, do sul
[00:51:01] dos Estados Unidos, é o Clinton, né
[00:51:03] ele fala assim, agora a gente vai começar duas
[00:51:05] guerras muito sangrentas
[00:51:07] vai ser complicadíssimo
[00:51:09] e vai terminar numa crise econômica
[00:51:11] e aí ele
[00:51:13] cara meio cowboy, seu brother
[00:51:16] assim, meio bobão, assim, ele faz
[00:51:17] umas atrapalhadas, tropeça e tal
[00:51:19] que é o Bush, o W. Bush, né
[00:51:21] e aí ele vira e fala assim, e aí agora
[00:51:24] o que que a gente tem? Pô, a gente tem
[00:51:25] robôs voadores assassinos
[00:51:27] então a gente precisa de um
[00:51:29] cool black guy, a gente precisa
[00:51:31] de um cara negro, carismático, muito legal
[00:51:33] e aí ele faz essa comparação
[00:51:35] assim, tipo, qual que é
[00:51:37] a personalidade que vai dourar a pílula
[00:51:39] da realidade, assim, né, tipo, quem que é a figura
[00:51:41] que vai ser só o rosto
[00:51:43] disso, né? E isso é interessante
[00:51:45] pensar nisso, né, porque você tem
[00:51:47] como figuras, como, cara
[00:51:49] o Bush
[00:51:49] é como, por exemplo, até
[00:51:53] esses escândalos, né, eles
[00:51:55] rapidamente se tornam, digamos
[00:51:57] o Bush, ele era um material de
[00:51:59] piada pronta, né, pras pessoas ali
[00:52:01] sim, sim, ele era, ele era, tipo
[00:52:03] ele era um bobo da corte, sim, ele era
[00:52:05] ridicularizado o tempo inteiro, e como o que?
[00:52:07] muito parecido com o Bolsonaro, assim, aquela coisa
[00:52:09] ele é burro, ele é atrapalhado
[00:52:11] ele não fala direito, ele fala as coisas tudo errado
[00:52:13] e tal, só que, enfim
[00:52:15] a agenda, a milhão lá
[00:52:17] dos conservadores, dos
[00:52:19] ultra-evangélicos e tudo mais, passando
[00:52:21] assim, passando, passando, passando, passando
[00:52:22] e nada disso sendo desfeito depois, né
[00:52:25] é uma coisa que eu tava ouvindo
[00:52:27] ontem, assim, que é como a gente enxerga
[00:52:29] as ditas oposições, que foi
[00:52:30] o que eu quis remeter ali com aquelas
[00:52:32] fotos, né, dos ex-presidentes todos juntos
[00:52:35] correndo e tal, que é
[00:52:36] a dita oposição
[00:52:39] cria exatamente
[00:52:40] as armas pra aqueles que
[00:52:43] seriam seus inimigos, né, então
[00:52:44] por exemplo, assim, nos Estados Unidos, pra pegar
[00:52:47] um exemplo, né, você tem a origem
[00:52:49] das ferramentas
[00:52:51] de vigilância, do uso de redes
[00:52:53] sociais pra manipulação das pessoas
[00:52:55] e pra
[00:52:57] fomentar também os interesses
[00:52:59] de política externa
[00:53:01] e fomentar
[00:53:02] desinformação em outros países nos Estados Unidos
[00:53:05] todas essas ferramentas, os próprios
[00:53:07] campos de concentração
[00:53:09] de imigrantes e tudo mais, são coisas
[00:53:11] que surgem e cujas burocracias
[00:53:13] que as permitem surgem
[00:53:15] durante o
[00:53:17] governo dos democratas, nos oito anos
[00:53:19] que precedem o Trump, né, então ao invés
[00:53:21] de, tipo, desmontar
[00:53:22] essas estruturas
[00:53:25] de poder, esses partidos
[00:53:27] na verdade, eles querem manter essas estruturas
[00:53:29] de poder e cada um usar por seus interesses
[00:53:31] que no final das contas são muito parecidos
[00:53:33] e aqui no Brasil a gente tem vários
[00:53:34] desses exemplos, assim, sabe
[00:53:36] a lei antiterrorismo
[00:53:37] a lei antiterrorismo
[00:53:40] nenhuma das reformas que a gente tanto critica
[00:53:43] agora, né, surgiram com o
[00:53:45] Bolsonaro, a reforma trabalhista
[00:53:47] a reforma da previdência, todas essas são
[00:53:49] são processos políticos
[00:53:51] que já estão rolando aí, muito antes
[00:53:53] dele tá lá como a figura
[00:53:54] central do executivo
[00:53:56] é, a gente vai começar a entrar no filme
[00:53:59] agora mesmo, mas eu acho que um ponto
[00:54:00] um ponto importante disso
[00:54:02] é entender como
[00:54:04] muitas vezes, até políticos
[00:54:06] com as quais a gente se identifica
[00:54:08] tem uma coisa assim, é, eu
[00:54:10] todo mundo que me escuta sabe
[00:54:12] eu acredito, eu
[00:54:14] no estilo delezeno da coisa que não existe
[00:54:17] em governos de esquerda
[00:54:18] o que existe são governos que, sim, podem
[00:54:21] ser mais ou menos atentos
[00:54:23] a demandas da esquerda
[00:54:25] então, porque
[00:54:26] como o governo ele funciona como
[00:54:29] um projeto de poder que muitas
[00:54:31] vezes, muitas vezes não, sobretudo
[00:54:33] vai além da sua figura central
[00:54:34] que é o presidente, né, então assim
[00:54:36] você não pode concebê-lo como um projeto uniforme
[00:54:39] à esquerda, porque na maior parte do tempo
[00:54:41] assim, cara, como que você pode conceber um governo de esquerda
[00:54:42] que tá encarcerando em massa as pessoas
[00:54:44] como que você pode conceber um governo de esquerda
[00:54:47] que tá ocupando militar, colocando um monte de militar
[00:54:49] pra ocupar uma favela aqui do Rio de Janeiro
[00:54:52] então, assim, esse tipo
[00:54:53] de questão é que a gente tem que se perguntar
[00:54:56] quando a gente fala do governo como um todo
[00:54:57] porque muitas vezes, justamente aquilo que a gente tava falando
[00:54:59] a gente tá sempre se focando
[00:55:01] num certo personalismo do sistema
[00:55:03] como, aí fica sempre aquela história
[00:55:05] ah, não deu certo, basta a gente trocar pra melhorar
[00:55:08] quando a gente sabe que não é isso que tá em jogo
[00:55:10] né, então assim, toda essa
[00:55:11] crença que tá no filme do Chris Rock, não, não tá bom
[00:55:13] mas a gente melhor, trocar as pessoas
[00:55:15] né, se não der
[00:55:17] no lugar de a gente ficar, botar pessoas mais legais ali
[00:55:19] vai dar tudo certo, uma hora a gente consegue
[00:55:21] uma hora encaixa esse jogo aí, saca
[00:55:22] pode melhorar sim, né
[00:55:25] não tô falando aqui, não vou fazer aqui campanha
[00:55:27] anarquistão, falar não votem, sei lá o que
[00:55:29] coisa do tipo, não, uma questão pra mim não é essa
[00:55:30] mas a questão toda é assim
[00:55:33] a quantidade de fé que se coloca
[00:55:35] nesse tipo de processo
[00:55:37] sabe, assim
[00:55:39] basta votar que vai dar tudo certo
[00:55:41] basta votar no melhor candidato possível
[00:55:43] que vai dar tudo certo
[00:55:44] e aí sim, quem é o melhor candidato possível
[00:55:47] e aí que vêm outros pontos, né
[00:55:49] muitas vezes a gente tem que entender
[00:55:51] que o candidato que a gente acha que é o melhor possível
[00:55:53] não é exatamente o candidato que a maioria da população
[00:55:55] acha que é o melhor possível porque não
[00:55:56] atende os desejos dela
[00:55:58] e aí a gente fala desse filme aí que a gente
[00:56:00] um filme polêmico
[00:56:02] Ele está de volta
[00:56:04] do original Er ist Wider da
[00:56:07] é, o filme alemão
[00:56:09] de 2015
[00:56:10] você treina isso antes de vir pra cá, cara?
[00:56:13] não, eu sou só, eu sou bom
[00:56:15] de pronúncias
[00:56:17] vai lá, vai lá
[00:56:17] e aí
[00:56:18] explica pra gente esse filme, Orlando
[00:56:22] cara
[00:56:23] você definiu bem
[00:56:25] é uma espécie de borá com Hitler, né
[00:56:28] o filme
[00:56:30] começa com um evento inexplicável
[00:56:32] que basicamente Hitler volta
[00:56:33] a existir na Alemanha de 2014
[00:56:35] ele acorda num
[00:56:37] em cima de uma periferia ali
[00:56:39] vive no subúrbio, no subúrbio no sentido que tem lá fora
[00:56:42] né, alemão
[00:56:44] e tal, na verdade é um bairro pobre
[00:56:46] né, tem até
[00:56:47] uma história que eles estão fazendo um documentário sobre as crianças que são pobres
[00:56:49] que podem ascender pelo futebol
[00:56:51] e tal, e enfim
[00:56:52] e aí o Hitler surge ali, naquele cenário
[00:56:55] já palperizado, Alemanha
[00:56:57] pós crise do euro, né
[00:56:59] enfim, e aí ele chega
[00:57:01] e vai, é o Hitler mesmo
[00:57:03] não é uma pessoa, é o Hitler mesmo
[00:57:04] com a mentalidade, é como se ele fosse transportado no tempo
[00:57:07] né, inclusive tem um diálogo
[00:57:09] super confuso no começo sobre isso
[00:57:10] porque parece que ele está consciente de que ele estava em corpóreo
[00:57:13] depois ele fica, ele não lembra disso
[00:57:15] e ele volta
[00:57:17] eu sinto que, assim, na minha interpretação ali
[00:57:19] o que o filme dá a entender é que tipo
[00:57:20] na hora que o bunker dele foi bombardeado
[00:57:23] ele ao invés de morrer
[00:57:24] ele foi jogado
[00:57:26] no tempo, numa viagem do tempo
[00:57:28] e surgiu ali
[00:57:29] é né, mas aí depois ele fala, como que eu vim parar aqui o tempo todo
[00:57:33] é meio confuso isso, não é bem escrito
[00:57:35] essa cena, e aí basicamente
[00:57:37] não só essa cena
[00:57:38] mas o que acontece é que ele
[00:57:40] quando ele volta, ele rapidamente
[00:57:42] começa a ser
[00:57:45] ele vai ganhando uma certa popularidade, né
[00:57:47] lá, ele faz uma
[00:57:48] ele se torna um personagem da televisão
[00:57:49] ele se torna um personagem de humor da televisão
[00:57:52] falando daquelas atrocidades que ele
[00:57:54] usualmente você espera que ele falaria
[00:57:57] e ele vai se tornando cada vez
[00:57:58] cada vez mais popular, cada vez mais popular
[00:58:00] e por meio dessa popularidade
[00:58:02] por via da comédia
[00:58:05] ele vai se tornando
[00:58:06] ele vai produzindo um movimento muito semelhante
[00:58:09] àquele que ele produziu
[00:58:11] ali no período entre guerras
[00:58:12] que a gente sabe que não terminou bem
[00:58:14] né
[00:58:15] pois é
[00:58:17] e aí, o que eu comentei com você
[00:58:19] algumas coisas enquanto eu tava assistindo
[00:58:20] que assim, a primeira
[00:58:22] é que, assim, a gente já comentou aqui
[00:58:24] que tem muita coisa do humor
[00:58:27] e da própria estrutura
[00:58:28] do Um Pobretão na Casa Branca
[00:58:29] que é muito ultrapassado, assim, que é uma comédia meio
[00:58:32] né, enfim, datada
[00:58:34] e que você olha e você fala assim, tá, eu entendo
[00:58:36] o que você tá tentando fazer, mas
[00:58:37] não me pegou
[00:58:38] porém, eu ri mais
[00:58:42] no primeiro filme
[00:58:44] porque esse aqui
[00:58:45] as horas que ele tenta
[00:58:47] especialmente quando ele tá fazendo humor
[00:58:48] na ficção ali do filme, né, que ele não tá envolvendo
[00:58:50] pessoas reais e tal
[00:58:51] isso que é uma coisa que é importante
[00:58:52] porque boa parte do filme é ele viajando
[00:58:55] pela Alemanha
[00:58:56] totalmente caracterizado como Hitler
[00:58:59] e aí, esse é um ponto que depois eu vou voltar
[00:59:01] muita gente tirando foto
[00:59:04] se divertindo com ele, rindo mesmo
[00:59:06] pessoas sendo filmadas
[00:59:07] fazendo isso, né
[00:59:08] sim, como se ele fosse um mascote
[00:59:10] e em alguns momentos colhem depoimentos das pessoas
[00:59:12] é como se ele tivesse um programa de entrevistas, né
[00:59:14] que faz parte do programa original dele
[00:59:16] e as pessoas que estão assistindo o filme
[00:59:17] as pessoas falam atrocidades racistas
[00:59:19] de níveis, assim, bizarros
[00:59:21] e tão ali na câmera, sabe
[00:59:23] e se sentem autorizados
[00:59:25] a falar aquilo naquele espaço
[00:59:26] pela figura dele e tudo mais
[00:59:28] mas depois a gente volta pra isso, né, porque tem
[00:59:30] essa parte que é mais ou menos documental
[00:59:33] e a parte que é ficção, né
[00:59:34] estritamente
[00:59:35] e eu diria que na verdade, assim, a minha impressão
[00:59:38] pelo menos, porque o filme parecia não acabar nunca
[00:59:40] é que se ele fosse uma bolacha
[00:59:43] tipo, beleza
[00:59:44] as partes crocantes
[00:59:47] essas, mas que sim, que ele tem um
[00:59:49] gigante recheio
[00:59:50] que é só essa ficção
[00:59:52] né, e aí essa ficção
[00:59:55] é ele, é isso, ele vai pra TV
[00:59:57] os antigos adoram ele
[00:59:58] dão um programa de TV pra ele e tal, não sei o que
[01:00:00] e essa parte tem, assim, um
[01:00:03] um humor extremamente Chaves
[01:00:05] assim, no começo tem umas piadas, assim, que podiam
[01:00:07] estar no episódio de Chaves, assim
[01:00:08] totalmente, e assim, longe de mim
[01:00:11] criticar Chaves, mas assim, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa
[01:00:13] é, e saiba
[01:00:15] o que você está fazendo
[01:00:15] ninguém vai assistir Chaves, acho que não vai assistir Chaves, não vai assistir Chaves, não vai assistir Chaves, não vai assistir Chaves
[01:00:17] achando que está vendo um comentário social profundo
[01:00:19] como as pessoas que estão vendo esse filme acham que estão vendo, né
[01:00:21] até a gente fazer o nosso episódio
[01:00:23] sobre Chaves, que aí eu vou mostrar pra você
[01:00:24] aquele episódio sobre Acapulco e anticapitalismo vai mudar
[01:00:27] a história da internet
[01:00:28] exato, a revolução
[01:00:30] será televisionada e começa em Acapulco
[01:00:32] mas aí, o que me incomodou nesse filme
[01:00:35] é que, por exemplo, o grande discurso
[01:00:37] dele, a primeira vez que ele vai pra TV
[01:00:38] e que, tipo, muda tudo e tal, que é um discurso
[01:00:41] anti-televisão
[01:00:42] é exatamente a famosa cena
[01:00:45] de Network, né, que é um filme que a gente
[01:00:47] vai discutir, é o Rede de Intrigas
[01:00:48] um clássico do Sidney Lumet
[01:00:50] que
[01:00:52] a gente vai discutir mais pra frente nessa temporada
[01:00:55] mas é o seguinte, exatamente o mesmo discurso
[01:00:57] só que mais mal feito
[01:00:59] ele
[01:00:59] tem mensagens muito similares ao Rede de Intrigas
[01:01:03] nessa parte sobre TV
[01:01:05] e na capacidade de você
[01:01:07] transformar as paixões do público
[01:01:09] em paixões extremamente fascistas e tal
[01:01:11] é um filme extremamente
[01:01:13] presciente sobre o que viraria a TV no mundo
[01:01:15] e como que a TV seria usada
[01:01:16] exatamente pra
[01:01:18] enaltecer esses
[01:01:20] microfascismos que se unem
[01:01:22] pra virar o grande fascismo
[01:01:24] mas enfim, eu achei que é isso
[01:01:27] ele é muito mal executado
[01:01:29] ele tem
[01:01:31] uma mensagem ali que ele quer passar
[01:01:32] que é interessante e que acho que ele passa
[01:01:35] ela, mas assim, como um filme
[01:01:37] eu fiquei
[01:01:39] um, extremamente entediado
[01:01:40] em várias partes e dois
[01:01:43] nessas partes, eu preciso admitir, eu não sou
[01:01:45] um cara que lida bem
[01:01:46] com essas cenas que envolvem pessoas reais
[01:01:48] por mais que eu ache que elas são extremamente
[01:01:50] eficazes pra várias coisas
[01:01:54] não é que eu ache ruim
[01:01:57] que elas sejam feitas
[01:01:58] eu como espectador
[01:01:59] eu umas horas eu não tenho estômago ali
[01:02:02] mas eu entendo que esse desconforto que eu sinto
[01:02:04] também é parte do objetivo
[01:02:06] do que você quer passar
[01:02:08] quando você faz isso com pessoas reais
[01:02:09] mas assim, essa é a minha crítica sobre
[01:02:12] como isso é um
[01:02:14] um filme
[01:02:16] mas a gente tá aqui pra desdobrar
[01:02:18] a mensagem
[01:02:19] qual o efeito que isso
[01:02:23] deixa em quem assiste
[01:02:25] cara, tem uma coisa que você falou disso
[01:02:27] sabe um filme que muita gente
[01:02:28] que tem cenas que foram gravadas dessa forma
[01:02:30] ou seja, pegaram pessoas reais
[01:02:33] entre aspas, pessoas cotidianas
[01:02:35] populares
[01:02:36] e filmaram essas pessoas falando sobre um tema
[01:02:39] e depois
[01:02:40] deixaram essas pessoas
[01:02:43] digamos, expressarem todo o seu racismo
[01:02:45] destilarem toda a sua xenofobia
[01:02:46] e isso foi inserido
[01:02:47] meio que, digamos
[01:02:50] traficado, contrabandeado
[01:02:52] de um filme totalmente distinto
[01:02:54] Distrito 9, né
[01:02:55] boa parte daquelas cenas que você vê as pessoas falando pra câmera
[01:02:59] ali, são pessoas que
[01:03:01] em tese
[01:03:02] estão falando sobre os nigerianos na África do Sul
[01:03:05] sim, sim
[01:03:06] ele gravou como se fosse
[01:03:08] como se ele já estivesse fazendo um documentário
[01:03:10] e as perguntas eram sobre os nigerianos
[01:03:12] ele usa no contexto do filme como se fosse sobre os alienígenas
[01:03:14] e quando você sabe disso o filme se torna
[01:03:16] tão
[01:03:16] muito desconfortável
[01:03:17] muito desconfortável
[01:03:19] e tanto que até no final tem essa relação dos nigerianos
[01:03:22] com os aliens ali, envolvendo aqueles
[01:03:24] guetos e tudo mais
[01:03:25] então assim, esse é um artifício
[01:03:28] já bem clássico no cinema
[01:03:30] o que eu acho que tem
[01:03:32] quando eu te mandei esse filme
[01:03:34] você botou lá na relação passiva-agressiva
[01:03:36] que nós temos, e isso vai terminar
[01:03:38] eu já falei, o Popcut vai terminar
[01:03:40] num processo judicial movido por ambas
[01:03:42] as partes, falando, reclamando do outro
[01:03:44] por assédio moral, ambos vão
[01:03:46] ganhar, a questão toda vai ser
[01:03:49] saber quem vai ganhar mais
[01:03:50] né, porque esse vai ser o vencedor
[01:03:52] eu, eu, eu
[01:03:54] a minha tática pra ganhar mais é contratar um advogado
[01:03:56] mais caro, porque aí se você tiver que pagar
[01:03:58] os meus honorários, aí você vai perder mais dinheiro
[01:04:00] é, mas improporcionalmente você não vai ganhar mais
[01:04:02] né, enfim, é uma tática
[01:04:04] só vai me ferir, só que é meu mal, cara
[01:04:06] você não quer o seu bem, tá vendo como é que você tá
[01:04:08] capturado?
[01:04:11] caralho, que doido
[01:04:12] é, é o microfascismo aí, olha só
[01:04:14] mas vambora
[01:04:15] é verdade?
[01:04:16] o, o, o
[01:04:18] eu, quando eu mandei pra você, eu falei assim, cara, esse filme é bom
[01:04:20] esse filme é bom pra pensar
[01:04:22] ele não é um bom filme, e eu inclusive
[01:04:24] a gente tava falando, batendo esse papo antes, né, eu acho que eu meio que
[01:04:26] perdi a capacidade de ver filmes, assim, pra mim
[01:04:28] às vezes quanto pior, melhor
[01:04:29] eu tô muito mais focado no que que eu posso
[01:04:32] falar sobre ele
[01:04:33] do que ele em si, a não ser quando eu tô vendo meus filmes
[01:04:36] que as pessoas acham chatos, sei lá
[01:04:38] ainda vou fazer você ver Akira Kurosawa nesse programa
[01:04:40] é… nada contra, gosto
[01:04:42] você tem, você tem a percepção
[01:04:44] muito errônea da minha pessoa
[01:04:45] não, então vamos ver, assim
[01:04:46] vamos ver mais cinema russo
[01:04:47] vamos ver mais cinema russo, então, vambora
[01:04:49] não, aí também, calma, cinema russo pra mim
[01:04:52] é a cena de abertura do
[01:04:53] do Velozes e Furiosos 8, que eles tão na Rússia
[01:04:56] Andrei Rublev, do Tarkovsky
[01:04:58] esse aí é pros fortes, esse é pros fortes
[01:05:00] o…
[01:05:01] vamos ver Jacques Tati
[01:05:03] vamos criar um pouco de alegria
[01:05:06] nessa vida, mas enfim
[01:05:08] então, assim, por que que eu acho que esse é um filme bom
[01:05:10] pra pensar? Porque esse filme vai
[01:05:12] na contradireção completa do
[01:05:14] do filme anterior, né
[01:05:16] um pobretão na Casa Branca, né
[01:05:18] porque ele mostra como
[01:05:20] justamente nesse
[01:05:22] nesse processo de entrevistar pessoas reais
[01:05:24] mostrar que
[01:05:25] o que que ele tá fazendo ali
[01:05:28] ele tá
[01:05:29] dando àquelas pessoas
[01:05:32] uma oportunidade pra falar aquilo
[01:05:34] que elas pensam, mas que se sentem
[01:05:36] de outra forma constrangidas de falar
[01:05:38] inclusive isso é uma fala contínua dos personagens
[01:05:40] dos entrevistados
[01:05:42] a gente não pode falar mais nada, porque senão é tudo racismo
[01:05:44] né, que é uma coisa que
[01:05:46] inclusive, a gente vê isso sendo acionado o tempo inteiro
[01:05:48] ah, eu não posso fazer mais nada porque é machismo
[01:05:50] ah, eu não posso fazer mais nada porque é racismo
[01:05:52] é, porque é, né
[01:05:53] isso que você quer fazer é, né
[01:05:55] o filme tem uma cena muito interessante sobre isso
[01:05:58] que é, logo que eles decidem
[01:06:00] botar o Hitler no ar, eles vão
[01:06:02] botar num programa de comédia
[01:06:04] e aí eles sentam com
[01:06:06] os roteiristas de comédia
[01:06:08] que claramente estão muito desconfortáveis
[01:06:10] e…
[01:06:11] vai lá, tem um desconforto performático
[01:06:15] aí, né
[01:06:16] sim, sim, é, é tipo, é o desconforto do tipo
[01:06:18] quebre essa regra
[01:06:19] e é, não, mas pode? pode mesmo? pode?
[01:06:23] e aí, e é basicamente
[01:06:24] que é o executivo lá da TV
[01:06:26] falando, vocês tem que escrever piadas pro Hitler falar aqui, tá
[01:06:28] então, ó, pode falar de tudo
[01:06:30] pode falar de judeu, de cigano, de campo de concentração
[01:06:32] manda ver e tal
[01:06:33] não sintam que existe uma linha
[01:06:36] e se você sentir que existe uma linha
[01:06:38] você está sendo convidado a cordialmente cruzá-la
[01:06:40] e tal, e aí é só pra ver
[01:06:42] que tipo de piada esses caras vão escrever
[01:06:44] se você fala assim, escreve umas piadas pro Hitler
[01:06:46] falar
[01:06:46] e aí, eu acho que de novo a gente entra numa questão
[01:06:50] que aí você como
[01:06:51] antropólogo pode comentar melhor que eu
[01:06:54] que é, tem uma questão aí
[01:06:56] do qual o filme se vale
[01:06:58] que aí eu não sei o quanto que isso
[01:06:59] atrapalha talvez o discurso
[01:07:02] que é, quando você está fazendo cenas assim
[01:07:04] que você está lidando com pessoas reais falando
[01:07:06] você também está lidando com um instinto
[01:07:08] social
[01:07:10] de que as pessoas
[01:07:12] elas tendem a evitar o conflito
[01:07:14] nesses momentos, né
[01:07:16] nas interações pessoais
[01:07:18] cara a cara
[01:07:19] que os limites que
[01:07:21] o cineasta ali no caso
[01:07:23] delimita, vão ser respeitados
[01:07:26] então assim, o que ele estimula
[01:07:28] você a fazer
[01:07:29] as pessoas vão ter muita resistência
[01:07:31] a resistir, né
[01:07:33] o fato de você ter
[01:07:36] uma câmera e você se botar como uma figura
[01:07:38] de autoridade ali, acaba fazendo que as pessoas
[01:07:40] tenham uma certa complacência
[01:07:42] e meio que façam o que você quer
[01:07:44] é
[01:07:45] é
[01:07:46] é
[01:07:46] , eu concordo, inclusive é uma coisa que é fundamental
[01:07:48] frisar, porque assim, por exemplo
[01:07:50] isso não é um ensaio sociológico
[01:07:52] não é um ensaio estatístico, então você não sabe
[01:07:54] quantas pessoas ele entrevistou
[01:07:56] para ter aquele tipo de resposta
[01:07:58] né, e que tipo de pessoas foram entrevistadas
[01:08:00] então isso faz muita diferença
[01:08:03] quando a gente vai fazer um ensaio estatístico
[01:08:04] o que eu acho que é importante daquilo ali
[01:08:06] é justamente
[01:08:07] colocar pessoas dizendo aquele tipo
[01:08:10] de coisa e falar assim, caraca
[01:08:12] realmente tem gente que fala isso
[01:08:13] porque muitas vezes
[01:08:16] a gente não tem
[01:08:17] contato com esse tipo de discurso
[01:08:20] porque é muito interessante, enfim, quando as pessoas
[01:08:22] olham pra, o que que foi
[01:08:24] a ascensão do Hitler
[01:08:25] na Alemanha, ou do Mussolini
[01:08:28] na Itália, inclusive é bom falar
[01:08:29] que tem uma versão italiana desse filme
[01:08:31] onde o personagem é o Mussolini
[01:08:33] então assim
[01:08:35] e aí as pessoas se perguntam, nossa
[01:08:37] como é que eles conseguiram chegar onde eles chegaram
[01:08:40] né, as pessoas
[01:08:42] realmente pensavam, a mesma coisa com a ditadura militar
[01:08:43] no Brasil, nossa, como é que eles conseguiram chegar
[01:08:45] onde eles chegaram, é, então
[01:08:47] porque tinha muita gente que ou pensava
[01:08:50] aquilo, ou
[01:08:51] concordava aquilo de uma forma um pouco
[01:08:53] difusa, concordava com aquilo
[01:08:55] de uma forma um pouco, digamos
[01:08:57] é
[01:09:00] é que nem quando você vai falar, por exemplo, de toda essa máquina
[01:09:02] é, montada
[01:09:04] pelo bolsonarismo, não só pelo
[01:09:05] bolsonarismo, na qual ele surfa, radicalmente
[01:09:08] essa máquina de segurança pública
[01:09:10] né, que basicamente prega
[01:09:11] o encarceramento em massa e o genocídio
[01:09:14] e o extermínio da população
[01:09:15] preta e pobre
[01:09:16] então assim, muita gente pode não concordar
[01:09:19] de falar diretamente, não, eu acho que essas pessoas tem que morrer
[01:09:21] eu acho que tem que prender todo mundo, sei lá o que, pê pê pê pô pô pô
[01:09:23] mas
[01:09:24] se você oferece determinadas condições
[01:09:27] pra essas pessoas, eles vão concordar com aquilo
[01:09:29] e aí que vem o ponto, porque eu acho que é importante
[01:09:32] tem uma coisa que a gente falou
[01:09:33] dos fascismos molares, né, dos fascismos estatais
[01:09:35] grandes, desses regimes, né
[01:09:37] mas tudo isso tá ancorado naquilo que
[01:09:39] se chama de microfascismo
[01:09:41] o que que são esses microfascismos
[01:09:43] os microfascismos são essas atitudes
[01:09:45] esses pequenos fascínios
[01:09:47] pelo poder, que são
[01:09:49] que se sustentam, digamos, muitas vezes
[01:09:51] no medo, muitas vezes numa manutenção
[01:09:54] de determinados privilégios
[01:09:55] então, por exemplo
[01:09:56] a pessoa sente medo da violência
[01:09:59] a pessoa sente medo de ser morta, de perder seus bens
[01:10:01] ela vai começar a
[01:10:03] concordar com
[01:10:05] discursos ou com atitudes
[01:10:07] vai ter atitudes, vai falar coisas
[01:10:09] vai agir de certa forma
[01:10:10] a tentar conter o objeto desse medo
[01:10:12] então se ela tem medo de ser morta
[01:10:15] num assalto, ela vai começar
[01:10:17] isso ser uma coisa que vai começar a consumi-la
[01:10:19] ela vai começar a concordar
[01:10:21] com soluções finais
[01:10:23] vamos colocar assim, né
[01:10:24] sim, e porque ela vai ter uma preconcepção
[01:10:27] um preconceito de quem é esse possível
[01:10:29] assaltante, né
[01:10:30] e aí volta pro episódio anterior, né, sobre a função dos algoritmos nisso
[01:10:33] de que como os algoritmos vão reforçar
[01:10:35] o racismo e a pessoa começa a aceitar determinados discursos
[01:10:37] e figuras que surfam nesses discursos
[01:10:39] começam a ascender
[01:10:40] na política, enfim, no marketing
[01:10:43] coisa e tal
[01:10:45] olha só
[01:10:45] eu tava pensando aqui
[01:10:47] uma coisa que me veio
[01:10:49] um certo clichê na minha cabeça
[01:10:51] quando eu tava vendo o filme
[01:10:52] que se relaciona com outro clichê
[01:10:55] que eu acho que ambos sustentam
[01:10:57] aquela visão que eu acho perigosa
[01:10:59] que eu falei um pouco mais cedo nesse episódio
[01:11:01] que é a de que agora as coisas estão
[01:11:03] anormais e absurdas, mas antes elas eram
[01:11:05] normais e muito
[01:11:07] racionais e justificadas
[01:11:08] e aí eu quero ver o que você acha disso, porque o meu pensamento tá muito
[01:11:11] tá muito na entrada ainda
[01:11:13] e talvez você consiga discorrer melhor sobre isso, mas
[01:11:15] que o filme, basicamente assim, se ele tem um
[01:11:17] argumento que você possa destilar é
[01:11:19] e se o Hitler voltasse hoje, as pessoas iam achar normal
[01:11:21] e isso
[01:11:23] se relaciona a um outro
[01:11:24] clichê que eu acho muito chato
[01:11:27] de ouvir, que é, se Jesus voltasse
[01:11:29] hoje, os cristãos iam matar ele
[01:11:31] chamar de comunista e não sei o que
[01:11:33] então
[01:11:34] o que que você acha assim, que tipo
[01:11:36] o que que tem nessa ideia
[01:11:39] de você usar
[01:11:41] o Hitler, no caso
[01:11:43] ou Jesus Cristo
[01:11:44] como fenômenos sui generis
[01:11:47] assim, né, que é, qual que é o perigo
[01:11:48] da gente achar que é, olha só, só é
[01:11:51] fascismo se é o Mussolini
[01:11:53] ou o Hitler, só é realmente
[01:11:55] nazismo
[01:11:57] se são esses caras
[01:11:58] e que todo o resto é meio que
[01:12:00] normal ou parte de um
[01:12:02] de um espectro de opiniões que você pode
[01:12:04] ter e tal
[01:12:05] o que que acaba
[01:12:08] será que o filme reforça um pouco isso, de que
[01:12:10] tipo, se é o Hitler
[01:12:12] é perigoso, mas quando é o Hitler quer dizer que
[01:12:14] é menos perigoso
[01:12:15] eu acho que o filme, ele, em alguns momentos ele pode
[01:12:18] ele tende pra isso, mas em outros não
[01:12:20] inclusive é uma coisa que acho que é importante a gente frisar
[01:12:22] mesmo isso, né, aqui no Brasil, por exemplo
[01:12:24] você teve muita gente falando, não, Bolsonaro não tem nada a ver
[01:12:26] com fascismo, porque ele não diz que é fascista
[01:12:28] né, enfim, ah, porque
[01:12:30] o Trump não é fascista
[01:12:32] porque ele não aceita que ele é fascista
[01:12:34] ele é um presidente de um país democrático
[01:12:36] então ele não pode ser fascista por definição
[01:12:39] mas eu acho que uma coisa que é interessante
[01:12:41] talvez mais interessante
[01:12:43] do que isso, assim, se o Hitler
[01:12:44] voltasse hoje, ele não seria
[01:12:46] o Hitler daquela época
[01:12:48] acho que esse que é um ponto que é importante, né, ele seria uma outra
[01:12:50] figura, ele seria um desses, eu acho que o filme
[01:12:52] é interessante por isso que ele bota o Hitler como um comediante
[01:12:54] mesmo, isso é uma, acho que é uma tacada
[01:12:56] boa, e por que que eu acho que
[01:12:58] mas porque, exatamente porque a única coisa que
[01:13:00] tá fora de lugar e anacrônica ali, é o
[01:13:02] jeito que ele se veste, e que ele
[01:13:04] se porta de certa maneira, mas que
[01:13:06] o discurso
[01:13:07] é extremamente, assim, as pessoas
[01:13:10] aceitam o discurso, né, tipo, por mais que ele
[01:13:12] seja visto como comédia
[01:13:14] é aquela coisa, assim, só por você travestir
[01:13:16] algo de comédia, você não tira o poder
[01:13:18] de aquilo ser um discurso, do mesmo jeito que algo sendo um filme
[01:13:20] não deixa de ter um poder de discurso
[01:13:23] é, e muito pelo contrário, a gente tava falando de como
[01:13:24] por exemplo, as comédias feitas
[01:13:26] por negros para negros nos Estados Unidos
[01:13:28] tem um poder de crítica social imenso
[01:13:30] né, enfim, e ao mesmo tempo
[01:13:32] isso que é uma parte que eu acho interessante desse filme do Hitler
[01:13:34] né, que ele chega e bota ele num programa
[01:13:36] de comédia que já existia, que era
[01:13:38] extremamente complicado, com blackface
[01:13:41] e piada racista o tempo inteiro
[01:13:42] né, então assim, ele fala assim, cara
[01:13:44] então, os elementos que permitem
[01:13:46] esse sujeito existir aí, já estão
[01:13:48] todos aí, a gente tá o tempo todo
[01:13:50] nos entretendo com isso, o que acontece
[01:13:52] é que ele, digamos, é um profissional entre amadores
[01:13:54] que é basicamente
[01:13:56] basicamente pra mim, o tom que ele coloca é assim
[01:13:58] então, o Hitler
[01:14:00] junto dessa, toda essa galera que a gente tá consumindo como
[01:14:02] entretenimento, a única diferença dele
[01:14:04] é que ele é um sujeito profissional
[01:14:06] porque, esse cara
[01:14:08] e ele fala mesmo isso, não, fulano é um amador
[01:14:10] fulano é um amador, já vi tantos como ele
[01:14:12] isso aí não vai terminar bem, ele nem se
[01:14:14] sujeito que passa em colo e ir por qualquer
[01:14:16] qualquer, assim, qualquer
[01:14:18] tanto que o maior revés, é interessante isso
[01:14:20] o maior revés do projeto dele
[01:14:22] é o momento em que descobrem que ele matou um cachorro
[01:14:24] e é assim que tu vê, ele
[01:14:26] fez toda
[01:14:28] falando de racismo, machismo
[01:14:30] tem uma hora que ele chega pra uma princesa e fala assim, não
[01:14:32] pessoas como você vão, um cara negro fala assim, pessoas como você vão
[01:14:34] ter um lugar aqui nesse país, trabalhando nas estradas
[01:14:36] saca, tipo, e o cara
[01:14:38] fica rindo, olhando praquilo e tal
[01:14:40] mas assim, o maior problema não é o racismo, o machismo
[01:14:42] é o fato dele ter matado um cachorro
[01:14:44] me lembra aquele documentário, Don’t Fuck With Cats
[01:14:47] né cara, tipo, que isso?
[01:14:48] sim, o, o, só pra
[01:14:50] acho que pra fechar isso, né, porque
[01:14:52] esse que é o ponto que eu acho que o
[01:14:54] esse docudrama, vamos colocar assim
[01:14:56] esse filme, docudrama, não sei, ele é importante
[01:14:59] pra mostrar
[01:15:00] como, o que que pra mim
[01:15:02] sempre foi o maior risco de figuras como Trump
[01:15:04] Bolsonaro, enfim, porque
[01:15:06] o que essas figuras
[01:15:08] fazem, e o apelo deles
[01:15:10] tá nisso, é
[01:15:12] produzir um rosto, um código
[01:15:14] para que boa parte
[01:15:16] da população manifeste
[01:15:18] seus microfascismos
[01:15:19] né, porque aquilo, ah, minha tia
[01:15:22] é fascista, provavelmente tua tia não é fascista
[01:15:24] provavelmente, eu não conheço tua
[01:15:26] tia, de repente não sei, mas
[01:15:28] assim, provavelmente, mas contudo
[01:15:30] ela pode ter ali, ela pode estar ali
[01:15:32] secretando algum tipo de
[01:15:34] microfascismo, né, e
[01:15:36] os microfascismos, eles emergem
[01:15:38] ali até onde a gente não imagina serem possíveis
[01:15:40] né, existem microfascismos de esquerda
[01:15:42] sabe, microfascismos em todos os lugares
[01:15:44] toda a luta antifascista
[01:15:46] ela se baseia justamente em identificar
[01:15:48] ali, onde esse tipo de coisa
[01:15:50] tá começando a ser secretada, tá começando a se sedimentar
[01:15:53] e lutar contra aquilo
[01:15:54] né, por isso que é tão importante discutir
[01:15:56] sobre isso dentro de movimentos de esquerda
[01:15:58] ou movimentos militantes, ou enfim, ou movimentos progressistas
[01:16:00] como a gente quiser chamar, o que esse filme
[01:16:02] fala e coloca
[01:16:04] é justamente como essas figuras
[01:16:06] que falam o que o povo pensa
[01:16:08] que se identificam, né, que fazem o papel do Chris Rock
[01:16:10] só que assim, de uma maneira até um pouco mais realista
[01:16:12] assim, cara, o povo quer
[01:16:14] uma válvula de escape pra raiva
[01:16:16] uma válvula de escape pras suas frustrações
[01:16:18] né, então, a campanha que ele
[01:16:20] tá movimentando, essa campanha de ódio que ele começa
[01:16:22] a produzir ali, é uma campanha que justamente
[01:16:24] vai dar vazão
[01:16:26] pra todas as frustrações difusas
[01:16:29] da população
[01:16:29] a ascensão do bolsonarismo logo depois de uma época
[01:16:32] como, sei lá, do que foi
[01:16:34] quase os últimos 10 anos no Brasil, não é coincidência
[01:16:37] né, a ascensão do Trump
[01:16:38] nos Estados Unidos também não é coincidência
[01:16:40] sobretudo num cenário onde nós estamos
[01:16:42] numa rede
[01:16:44] cada vez mais
[01:16:46] absorvidos, embebidos
[01:16:48] né, atuando, vivendo
[01:16:50] dentro de redes sociais
[01:16:52] que lucram
[01:16:54] e estimulam o nosso mal-estar psicológico
[01:16:57] a nossa, a destruição da nossa
[01:16:58] subjetividade, então assim, o que você tem
[01:17:00] você tem uma massa crescente de pessoas
[01:17:02] deprimidas, ansiosas, raivosas
[01:17:05] né, e essas pessoas
[01:17:06] vão enxergar cada vez
[01:17:09] mais em lideranças
[01:17:10] que dão um código pra essas pessoas
[01:17:12] e falam assim, então, toda essa frustração que você está resistindo
[01:17:15] que você está sentindo, tudo isso que está
[01:17:16] acontecendo com você, então, eu tenho
[01:17:18] nomes pra isso, eu tenho alvos pra isso
[01:17:20] eu posso resolver isso, eu posso redimir
[01:17:23] isso, né, e aí que tá
[01:17:24] muitas vezes, essas figuras
[01:17:26] não vão falar pra essa pessoa assim
[01:17:28] então, você
[01:17:30] vai melhorar com o que eu estou fazendo, não
[01:17:32] eu vou
[01:17:34] vingar você, eu vou fazer
[01:17:37] outro lado se sentir pior
[01:17:38] é um projeto, né, tal como você
[01:17:41] imagina o seu futuro
[01:17:42] processo judicial
[01:17:44] contra mim, né, assim, que só quer me
[01:17:47] ferir, não quer o seu melhor
[01:17:48] a promessa
[01:17:50] política, hoje, é
[01:17:52] essa, não é assim, você vai se sentir melhor com o que eu estou fazendo
[01:17:55] não, eu vou fazer o outro lado sofrer
[01:17:57] e a gente sabe
[01:17:58] como esse discurso vai conquistando
[01:18:01] cada vez mais adesão na nossa sociedade
[01:18:02] porque, por exemplo, se essa história de bandido bom
[01:18:05] ou bandido morto resolvesse alguma coisa
[01:18:06] o Brasil era Suíça, em termos de criminalidade
[01:18:09] muito pelo contrário, quanto mais
[01:18:11] se encarcera, mais violência você tem, quanto mais
[01:18:12] se mata, mais violência você tem, porque você tem todo um
[01:18:14] processo de piora das condições
[01:18:17] de vida, enfim, então assim, só que
[01:18:18] você dá os dados pras pessoas
[01:18:21] e as pessoas não ligam pra isso, por quê?
[01:18:23] porque o que está em jogo ali é a
[01:18:24] máquina de vingança, e aí só pra finalizar
[01:18:26] agora, isso mesmo
[01:18:27] o mecanismo da piada, de achar
[01:18:30] que essas pessoas são engraçadas, que isso é entretenimento
[01:18:33] que é o que o Trump, o Bolsonaro e o próprio
[01:18:35] Hitler no filme conseguiram fazer ali, né
[01:18:37] te mostrar isso, como se tudo rapidamente vira entretenimento
[01:18:39] é justamente uma forma muito fácil
[01:18:41] de você vender esse discurso
[01:18:42] porque você não força a pessoa que está
[01:18:44] reproduzindo ele, a admitir que ela está falando sério
[01:18:47] é só uma brincadeira, é só uma piada
[01:18:48] eu sou só sendo racista de brincadeira, eu sou só sendo machista
[01:18:50] de brincadeira, isso é tudo uma piadinha, isso é tudo uma brincadeirinha
[01:18:53] sabe? Então assim, isso é uma
[01:18:54] forma de você tornar palatável
[01:18:56] todo um discurso
[01:18:59] opressivo
[01:19:00] um discurso fascista. Concordo
[01:19:02] plenamente com o que você falou, e aí
[01:19:04] eu vou fazer um
[01:19:06] elogio a esse filme
[01:19:08] mas antes eu vou fazer uma crítica
[01:19:10] não consegue, não consegue
[01:19:11] não, mas é uma crítica que é mais pra cutucar você
[01:19:14] do que cutucar o filme
[01:19:15] e eu gosto, né, que é o seguinte
[01:19:18] pra quem estava aqui
[01:19:20] reclamando da falta de sutileza e subtexto
[01:19:23] em Black Mirror
[01:19:24] tem uma cena nesse filme
[01:19:27] em que o cara, o apresentador
[01:19:29] do programa está sendo pintado
[01:19:30] pro blackface, assim
[01:19:32] estão pintando a cara dele de marrom pra ele fazer
[01:19:34] blackface, ele vai fazer um blackface pra imitar
[01:19:36] o Obama, enquanto ele fala
[01:19:38] assim, gente, vocês vão botar o Hitler
[01:19:40] no programa, você não pode fazer isso, isso aqui
[01:19:42] não é um programa pra esse tipo de coisa
[01:19:44] e tal, e aí a justaposição é exatamente
[01:19:46] essa. A minha crítica é, tipo
[01:19:48] você veio me recomendar esse filme
[01:19:50] depois de, mas tudo bem, mas o que essa
[01:19:52] cena é interessante pra… Enfim a hipocrisia
[01:19:55] Enfim a hipocrisia, exatamente
[01:19:56] tá vendo como a hipocrisia no final salva todos nós
[01:19:59] o
[01:19:59] o louco dessa cena, o que eu acho
[01:20:02] muito importante, e que o filme
[01:20:04] toca nisso em outras partes, que eu acho interessante
[01:20:07] é o seguinte, é como
[01:20:08] esses símbolos do inascente
[01:20:10] aceitável e do ofensivo
[01:20:12] são utilizados exatamente pelas pessoas
[01:20:14] que querem
[01:20:16] ofender e que querem
[01:20:17] poder ofender sem
[01:20:20] receber críticas e tudo mais
[01:20:22] que é essa questão, assim
[01:20:24] do tipo, é isso, assim
[01:20:26] se eu não citar Hitler, se eu não
[01:20:28] falar exatamente
[01:20:30] esse discurso, se eu falar
[01:20:32] de um outro jeito, você não
[01:20:34] pode me acusar de estar sendo
[01:20:36] intolerante, né? Então eu
[01:20:40] acho que isso é muito interessante também, assim, né?
[01:20:42] Porque eu acho que
[01:20:44] num contexto no qual as pessoas falam
[01:20:46] por tweets e se julgam
[01:20:49] por tweets e posts no
[01:20:50] Instagram e tudo mais, a gente vê o
[01:20:52] quanto a forma
[01:20:54] do discurso às vezes toma precedente
[01:20:57] ao que é o discurso
[01:20:58] em si, né?
[01:21:03] Era só isso. Tô pensando nisso, eu concordo
[01:21:04] Concordo, concordo
[01:21:06] não tenho muito o que discordar não, assim
[01:21:08] pra gente finalizar eu quero uma opinião sua
[01:21:10] Hum
[01:21:11] Tá preparado, cara?
[01:21:16] Eu não sei
[01:21:16] Eu não sei o que você vai pedir
[01:21:17] Mas assim, eu tô meio que sempre preparado
[01:21:21] pra dar uma opinião, mesmo que ela não seja muito boa
[01:21:23] Gus, o que que você achou
[01:21:27] da paródia da cena da queda no filme?
[01:21:29] Nossa, ai meu Deus
[01:21:31] Muito obrigado por me lembrar
[01:21:33] Meu Deus, meu Deus
[01:21:35] Meu Deus, cara, cara
[01:21:37] Cara, sério, sério
[01:21:38] Não, eu virei o dinheiro preto
[01:21:40] Mas assim, tem uma paródia
[01:21:44] Cara, que é só
[01:21:45] É a cena mais tiozão possível
[01:21:48] porque ela claramente só existe
[01:21:49] pra fazer referência ao fato
[01:21:51] de que aquela cena do Hitler
[01:21:53] se revoltando no bunker
[01:21:55] com os generais do filme
[01:21:58] A Queda, ela é usada como
[01:21:59] meme na internet. Todo mundo aqui ouvindo
[01:22:01] que é mais ligado nessa cultura digital deve conhecer
[01:22:03] Toda vez que tem alguma polêmica, alguma coisa
[01:22:05] vai lá alguém e legenda essa cena
[01:22:08] como se o Hitler estivesse falando do assunto específico
[01:22:10] que está sendo discutido.
[01:22:10] E aí você tem uma cena
[01:22:12] em que o executivo de TV fica sabendo
[01:22:14] que o programa de comédia lá, o comediante
[01:22:16] saiu e não quer voltar
[01:22:17] e aí ele recria a cena
[01:22:20] de uma maneira extremamente cadastrona
[01:22:22] e assim
[01:22:24] e que é uma das coisas mais tristes
[01:22:26] que existe na comédia, que é você ver a pessoa
[01:22:28] tentando fazer você rir
[01:22:31] porque
[01:22:32] vira patético
[01:22:33] Cara, comédia é tipo mágica
[01:22:36] no sentido da prestigitação
[01:22:38] não no sentido da mágica
[01:22:40] no seu sentido original
[01:22:42] mas assim, no sentido de você fazer o espetáculo
[01:22:45] que é assim, existe uma linha
[01:22:46] muito tênue entre você ter sucesso
[01:22:49] e você fracassar
[01:22:51] miseravelmente e que essa linha
[01:22:53] é exatamente no eu perceber
[01:22:54] você tentando. Se eu percebo
[01:22:56] você tentando me enganar
[01:22:59] que você sabe qual é a minha carta
[01:23:00] você parece patético
[01:23:02] se você realmente faz parecer
[01:23:04] que você tem poderes mentais pra adivinhar
[01:23:06] qual era a carta que eu peguei
[01:23:08] é fascinante, é muito legal. Eu bato palma.
[01:23:10] Mesma coisa a comédia
[01:23:12] se você consegue fazer
[01:23:14] eu rir, né, daquilo que você
[01:23:16] tá tentando dizer, muito bem
[01:23:18] mas se eu percebo que você tá me
[01:23:20] dizendo algo com a
[01:23:22] intenção de me fazer rir e não
[01:23:24] conseguiu, eu
[01:23:26] cai o véu, talvez
[01:23:28] do kayfabe aí, daquele
[01:23:30] momento, e aí eu percebo
[01:23:33] a ilusão e tudo
[01:23:34] passa a ser ridículo. E aí isso
[01:23:36] tudo se relaciona com tudo que a gente falou aqui, eu acho
[01:23:38] que é, quanto mais a gente olha
[01:23:40] pra política
[01:23:42] e pro discurso político que
[01:23:44] a gente recebe da mídia
[01:23:46] e tudo mais, de como isso tem que ser
[01:23:48] tratado, e quanto a gente
[01:23:50] percebe que essas regras
[01:23:52] e essa estrutura
[01:23:54] e esse discurso, eles são
[01:23:56] também maneiras de enganar
[01:23:58] você, né, eles são
[01:24:00] um tipo de mágica, um tipo de comédia, um tipo de
[01:24:02] espetáculo, mas você olha
[01:24:04] pra tudo e fala assim, cara, que ridículo
[01:24:06] o que você tá tentando fazer comigo
[01:24:08] É tipo você
[01:24:10] ver uma, pra voltar pro kayfabe
[01:24:12] é como você ver
[01:24:14] porque assim, eu já tive a experiência
[01:24:16] de ver, você fala assim, o momento eu já fui
[01:24:18] pro Japão, o meu momento eu já
[01:24:20] fui pro México, e uma das coisas mais
[01:24:22] fascinantes pra mim foi ver
[01:24:24] a Lucha Libre lá, e aí eu tava com uma amiga
[01:24:26] que eu falei, ah, não gosto disso, é tudo mentira, e sei lá o que
[01:24:28] eu falei, pô, mas vamos lá divertir, sei lá o que, fomos
[01:24:30] e aí, cara, chegando lá
[01:24:32] eu falei, caraca, é super divertido, porque
[01:24:34] nem parece que é mentira, né, você fica
[01:24:36] o tempo todo, você começa a torcer pro cara, sei lá o que
[01:24:38] e tal, eu falei, a arte é
[01:24:40] essa, né, cara, você sabe que
[01:24:42] é encenado, mas tu fica assim
[01:24:44] caraca, o que vai acontecer na sequência
[01:24:46] né, então assim
[01:24:47] o filme peca nesse momento
[01:24:50] você sabe que é muito encenado, né, tipo
[01:24:52] ver hoje em dia as lutas
[01:24:54] do último dragão branco
[01:24:56] sim, e isso tem a ver
[01:24:58] com o cinema também
[01:24:59] você foi, eu não vou nem tentar
[01:25:02] desempacotar essa
[01:25:04] mas isso tem a ver com um conceito
[01:25:06] que tem tudo a ver com o cinema também
[01:25:08] que é o conceito de suspensão
[01:25:10] de descrença, né, que é
[01:25:12] eu preciso criar uma ficção aqui
[01:25:14] que você não questione enquanto
[01:25:16] você tá vendo ela, você não tem que acreditar
[01:25:18] que aquilo é factível
[01:25:20] você só tem que se deixar levar
[01:25:22] enquanto aquilo tá acontecendo
[01:25:24] e daí surge uma
[01:25:26] expressão
[01:25:27] que eu acho que a origem dela
[01:25:30] é do Hitchcock, que é
[01:25:31] a lógica de geladeira, né
[01:25:34] que eu acho que é exatamente
[01:25:36] essa expressão, que é o seguinte
[01:25:37] que tudo bem o filme não
[01:25:40] fazer sentido pra você
[01:25:42] quando você chega em casa e vai pegar
[01:25:44] algo na geladeira e você abre a porta e fala assim
[01:25:46] não, mas peraí, ele não tinha como saber que o vilão
[01:25:48] ia tá lá, que tudo bem
[01:25:50] isso não tem problema, isso não é
[01:25:52] uma falha de roteiro, se você só
[01:25:54] pensou nisso quando você foi pegar um negócio
[01:25:56] na geladeira, tudo bem
[01:25:58] se enquanto você tava sentado na poltrona
[01:26:00] do cinema, você foi
[01:26:02] com a narrativa, tá tudo bem
[01:26:04] isso, isso, isso
[01:26:06] basicamente
[01:26:08] o nosso filme, o nosso programa é
[01:26:10] isso, né cara, nosso programa é
[01:26:12] o nosso programa é a gente abrindo a porta da geladeira
[01:26:14] e falando, não, peraí, não, isso aí tá errado
[01:26:15] e é engraçado, mas assim, é engraçado
[01:26:18] como boa parte do cinema estadunidense, blockbuster
[01:26:20] hoje em dia é isso, né cara, tu vê um monte de coisa
[01:26:21] que, como que
[01:26:23] como que essa coisa desse filme, a chegada
[01:26:26] sei lá o que, enfim, mas só pra
[01:26:28] acho que pra voltar um pouco
[01:26:29] pra finalizar mesmo o episódio, é interessante
[01:26:32] ver como toda essa
[01:26:34] máquina de redes sociais
[01:26:36] eles operaram uma espécie de curto-circuito
[01:26:38] onde a política
[01:26:40] virou exatamente um filme
[01:26:42] né, um grande
[01:26:44] um grande entretenimento, né, então
[01:26:46] boa parte do que, não é à toa que
[01:26:48] figuras como Bolsonaro, Trump
[01:26:50] tiveram uma eleição muito palpada
[01:26:51] num certo tom humorístico
[01:26:54] das coisas, num certo, uma memetificação
[01:26:56] aguda das coisas que faziam, né
[01:26:58] e tem toda aquela encenação, por exemplo
[01:27:00] toda aquela encenação do Bolsonaro tomando
[01:27:02] café da manhã com copo de
[01:27:03] com copo americano, saca, tipo
[01:27:05] aquilo era tudo uma encenação pro grande
[01:27:08] público, assim, e aí
[01:27:10] enfim, o
[01:27:11] fim daquilo era criar primeiro
[01:27:13] uma imagem, né, o kayfabe, né, tipo
[01:27:15] de um sujeito popular que ao mesmo tempo
[01:27:18] falava o que pensava, era tipo o tio
[01:27:20] bonachão, né, que fala umas coisas
[01:27:22] completamente esdrúxulas, um tanto
[01:27:24] quanto racistas, um tanto quanto
[01:27:26] racistas, extremamente racistas, né
[01:27:27] extremamente machistas, extremamente misóginas
[01:27:30] extremamente homofóbicas, mas
[01:27:32] de alguma forma aquilo entretém a massa
[01:27:34] entretém a população que, ah, legal, o cara
[01:27:36] fala isso, e sei lá o que, e pipipipopopô
[01:27:38] e ao mesmo tempo
[01:27:40] os jornais, os grandes jornais que são os críticos
[01:27:42] que estão a serviço da democracia, né
[01:27:44] aquelas aspas
[01:27:45] ficam batendo nele, olha esse vilão
[01:27:48] olha o vilão falando de novo, olha o que esse
[01:27:50] vilão tá falando, e a gente
[01:27:52] vai embarcando na história, olha o que
[01:27:54] vilão, que cara odioso, que maluco odioso
[01:27:56] e ao mesmo tempo, assim, só produzindo
[01:27:58] né, só dando mais
[01:28:00] e mais vazão, mais e mais espaço, mais
[01:28:02] e mais atenção pra esses sujeitos, né
[01:28:04] Claro, que
[01:28:06] é um problema que eu tenho, até com
[01:28:08] aquele discurso que eu acabei
[01:28:10] citando naquele clichê do tipo, ah, se Jesus
[01:28:12] voltasse hoje, os cristãos iam
[01:28:13] né, condenar ele e tal
[01:28:15] mas assim, esse é um discurso muito bizarro
[01:28:18] assim, porque
[01:28:18] e a gente compra
[01:28:21] né, muitas vezes nessa discussão
[01:28:24] superficial
[01:28:26] da política e da sociedade
[01:28:28] a gente compra o clichê
[01:28:30] de que o cristão, ele é sempre
[01:28:32] o mocinho, assim, como se a gente não vivesse
[01:28:34] no mundo que teve a inquisição
[01:28:36] as cruzadas, assim
[01:28:37] é tipo, da onde que o argumento de
[01:28:40] que esse cara pode fazer isso sendo cristão
[01:28:41] significa alguma coisa quando, tipo, olha
[01:28:44] nunca foi um impedimento pra ninguém
[01:28:46] fazer algo ruim, assim, antes
[01:28:48] né, então, tipo, você parece
[01:28:50] tá querendo comprar aquela ilusão
[01:28:52] você parece, não, você tá
[01:28:54] a gente tem que lutar, às vezes parece
[01:28:56] que a gente tá abrindo a porta da geladeira
[01:28:58] e aí você não quer pensar sobre aquilo
[01:29:00] tipo, mas peraí, tem vários
[01:29:02] outros cristãos que fizeram coisas horríveis, não, não, não
[01:29:04] eu só vim pegar o suco, eu só vim pegar o suco
[01:29:06] não, e
[01:29:07] inclusive a gente volta pro filme do Chris Rock
[01:29:10] né, porque ele é como se fosse
[01:29:12] um certo, um tom
[01:29:14] messiânico, aquele que vai voltar para salvar
[01:29:16] a democracia, né, porque pra aquilo
[01:29:18] funcionar, você tem que acreditar que a
[01:29:20] democracia já foi legal, né, que a
[01:29:22] democracia dos Estados Unidos, por exemplo, não
[01:29:24] emergiu amplamente
[01:29:26] ancorada pela escravidão, né
[01:29:28] ou pela, né, pelo genocídio
[01:29:30] de outras populações indígenas
[01:29:32] ou fora, né, pela guerra feita
[01:29:34] contra outros países, ocupação, imperialismo
[01:29:36] norte-americano, estadunidense, norte-americano e tal
[01:29:38] então não adianta o Chris Rock falar, ai
[01:29:40] Deus abençoe a América e todos os países do mundo
[01:29:41] não, porque na prática é impossível
[01:29:44] que a América seja
[01:29:45] os Estados Unidos seja esse país
[01:29:47] abençoando os outros países do mundo
[01:29:50] não, cara, é… Exato, tanto que
[01:29:52] ele fala assim, a América claramente
[01:29:54] é um país abençoado e cita
[01:29:56] todas as benesses que a América tem exatamente
[01:29:58] por ser uma força colonialista repressora
[01:30:00] tipo, ah, nós somos o país mais rico
[01:30:02] e não sei o que, assim, mas porque vocês
[01:30:04] vocês saquearam
[01:30:06] todas essas outras nações
[01:30:08] é, é isso, né, pra você ter
[01:30:10] o teu celular tem uma bateria
[01:30:12] que foi, cujo minério
[01:30:14] foi criada, foi extraída
[01:30:16] de um regime de escravidão
[01:30:18] né, tipo, destruição da natureza
[01:30:20] de opressão de pessoas
[01:30:22] então assim, não tem como
[01:30:24] você fingir que o mundo em que a gente vive
[01:30:26] por mais abençoado que seja para você
[01:30:28] é um mundo legal, porque senão você vai ter
[01:30:30] que ignorar toda a camada de violência
[01:30:32] o que é engraçado, pra mais uma vez voltar, né
[01:30:34] como boa parte de comédias
[01:30:36] norte-americanas falam sobre
[01:30:38] isso explicitamente, né, então
[01:30:40] o sistema policial norte-americano só parece
[01:30:42] ser legal pra aquelas pessoas que são abençoadas
[01:30:44] realmente por ele, porque pra você se sentir
[01:30:46] seguro desse jeito, tem um monte de gente que tá
[01:30:48] sendo morta e sendo presa aí, né, por isso
[01:30:51] exato
[01:30:52] e agora você quer ver o momento
[01:30:54] maravilhoso, que talvez mereça
[01:30:56] uma vinheta na terceira temporada, que é o
[01:30:58] ache o cristianismo escondido
[01:31:00] nesse filme?
[01:31:01] no filme do Chris Rock
[01:31:05] a gente tem uma das cenas
[01:31:06] que é, cujo papel
[01:31:08] narrativo é estabelecer
[01:31:10] que ele é um homem nobre
[01:31:11] por isso que a gente pode confiar nele
[01:31:13] que é exatamente quando ele afirma
[01:31:16] sua castidade, porque
[01:31:18] ele não transa
[01:31:20] com ninguém durante o filme, nem beija ninguém
[01:31:22] ele tem um interesse romântico
[01:31:23] que ele beija só no fim, se não me engano
[01:31:26] que é bem clássico de filme americano
[01:31:27] mas tem uma personagem, cujo único papel
[01:31:30] dela na campanha é que ela está lá disponível
[01:31:32] pra se ele precisar transar
[01:31:33] uma parada do Bill Clinton, né
[01:31:35] exato, e quando ela tenta
[01:31:38] né, tipo, ver se ele não vai transar
[01:31:40] com ela, ele tipo, fala, ei, não
[01:31:41] eu estou apaixonado por outra pessoa
[01:31:44] e tal, assim, ele não vai ser
[01:31:46] seduzido pelos prazeres carnais
[01:31:47] e ver isso como uma virtude
[01:31:50] é totalmente uma visão cristã
[01:31:52] então até na hora, até um filme que tipo, né
[01:31:54] superficialmente você fala assim, ah, esse filme não é
[01:31:56] necessariamente cristão, mas ele tá inserido
[01:31:58] numa ideologia cristã americana
[01:32:00] e aí é exatamente assim que ele vai
[01:32:02] fazer a semiótica
[01:32:04] da virtude
[01:32:06] e tal, é pela castidade do Chris Rock
[01:32:07] Chris Rock, nesse filme, é o
[01:32:10] sujeito que vem ao mundo para redimir
[01:32:12] a democracia
[01:32:14] de seus pecados, né
[01:32:16] exatamente, enquanto
[01:32:18] a gente vai ver, por exemplo, que
[01:32:20] no outro filme, o que
[01:32:22] na prática acontece é justamente
[01:32:24] os pecados da democracia
[01:32:26] né, cara, mas peraí
[01:32:28] agora eu pensei num negócio, você não
[01:32:30] acha muito curioso que o
[01:32:32] Hitler, depois de certo ponto nesse filme, ele é
[01:32:34] casto, assim, a gente ignora
[01:32:35] a Eva Braun, né, ele
[01:32:38] logo, a primeira vez que ele encontra
[01:32:40] a executiva diretora do canal de TV
[01:32:41] ele faz uns elogios
[01:32:43] libidinosos na narração dele
[01:32:45] a ela, ele compara a ela
[01:32:47] não a Eva Braun, ele compara a ela
[01:32:49] a… qual era o nome da diretora de cinema
[01:32:52] lá? Não me lembro, não me lembro, mas sim
[01:32:54] nazista, mas enfim, compara a ela
[01:32:55] mesmo quando ele tá fazendo um comentário sobre o corpo
[01:32:57] dela, enfim, ele não fala da Eva Braun e depois
[01:33:00] de maneira alguma
[01:33:01] se toca na
[01:33:03] sexualidade do Hitler
[01:33:06] e no, né, assim, enfim
[01:33:08] ele é um homem que, assim, não tinha
[01:33:10] um testículo porque tinha pegado
[01:33:12] sífilis transando com prostitutas
[01:33:14] ele, assim, ele não era
[01:33:15] um homem acima dos
[01:33:17] prazeres carnais, ele também não era
[01:33:19] essa outra figura, assim, do mesmo jeito que o
[01:33:22] Chris Rock não é o Salvador, ele não é esse demônio
[01:33:24] acima, não humano, né
[01:33:26] essa coisa, mas ele
[01:33:28] mas o próprio filme, tipo, tira essa característica
[01:33:30] assim, e seria muito interessante explorar
[01:33:32] na verdade, especialmente porque o filme
[01:33:33] explora o quanto que existem
[01:33:36] adoradores da figura do Hitler e tudo mais
[01:33:38] na Alemanha atual, infelizmente
[01:33:40] não só na Alemanha, você
[01:33:41] poderia ter a cena que explora o fato de
[01:33:44] imagina o Hitler tendo groupies
[01:33:46] em 2015, entendeu?
[01:33:48] é, é, é, acho que o filme
[01:33:50] deixa muito na mesa aí
[01:33:51] inclusive porque o fascismo e o nazismo se colocaram
[01:33:54] como ventos castos, né, a juventude
[01:33:56] Hitlerista era uma juventude casta, né, inclusive
[01:33:58] todo o papel da Eva Braun, toda
[01:33:59] ela ser isolada durante um
[01:34:01] determinado período, assim, passou muito
[01:34:04] por isso, o que você falou
[01:34:06] lembrando que inclusive era uma nação
[01:34:08] católica, né, muito
[01:34:10] muito próxima do Vaticano
[01:34:11] enfim, mas tem uma coisa aí que eu acho que
[01:34:13] seria interessante a gente pensar um filme
[01:34:16] a gente podia pegar uma grana pra tentar fazer isso, hein Gus
[01:34:18] é, se figuras
[01:34:20] clássicas da democracia, tipo
[01:34:22] Winston Churchill voltasse hoje
[01:34:24] né, sei lá, o que ele falaria
[01:34:26] saca, e aí as pessoas iam imaginar
[01:34:28] que ele ia tentar redimir a democracia
[01:34:30] então ia ver o Winston Churchill falando, nossos inimigos
[01:34:32] morrerão, como é que era o discurso
[01:34:34] dele, com fogo caindo dos céus
[01:34:36] e sei lá o que, e porra
[01:34:38] né? Ué,
[01:34:40] aí eu tenho que voltar num pobretão na Casa Branca
[01:34:42] que tem uma cena maravilhosa
[01:34:44] que é exatamente, logo depois da cena que ele
[01:34:46] se afirma casto, ele faz o que?
[01:34:48] ele vai buscar com o ônibus de campanha dele
[01:34:50] o interesse romântico dele, que ela tá saindo do trabalho
[01:34:52] e faz o que? Uma tour
[01:34:54] do, do
[01:34:56] daquela área de
[01:34:57] Washington, que tem todos os grandes
[01:34:59] prédios históricos
[01:35:02] e monumentos históricos, basicamente o
[01:35:03] Planalto Central deles lá, e aí
[01:35:05] ele faz uma
[01:35:07] tour meio satisfeita
[01:35:10] e tirando
[01:35:12] sarro aí das grandes figuras
[01:35:13] do ideal americano, porque
[01:35:15] a primeira coisa que ele fala é o
[01:35:17] memorial ao Lincoln, ele fala assim, o Lincoln
[01:35:19] ele disse que ele liberaria os escravos, mas só depois
[01:35:22] deles construírem um monumento pra ele
[01:35:23] e esse aqui é o monumento
[01:35:26] ao Jefferson, o Jefferson é um cara
[01:35:27] que estuprava
[01:35:29] as escravas dele e tal, não sei o que
[01:35:31] enfim, e aí ele faz
[01:35:34] essa tour meio tipo, olha só
[01:35:35] assim, mesmo as figuras mais respeitáveis
[01:35:38] assim, do imaginário
[01:35:40] americano, elas não são
[01:35:42] assim, santos, nem nada, elas são
[01:35:43] né, enfim, ele
[01:35:45] fala assim, se você tá olhando do meu ponto de vista
[01:35:47] de um homem negro na América, você vê
[01:35:49] tipo assim, que essas pessoas
[01:35:50] não se importavam comigo, né, elas
[01:35:53] eram também tiranas
[01:35:55] de uma
[01:35:58] maneira, então
[01:35:58] de novo, um pobretão na Casa Branca tem um
[01:36:01] olhar mais sutil
[01:36:04] e mais interessante, eu acho
[01:36:05] da nossa realidade, pelo menos da
[01:36:07] realidade política da época, que a gente pode usar
[01:36:09] pra analisar a nossa realidade política
[01:36:11] porque ele lida com
[01:36:13] a dualidade da coisa
[01:36:15] o filme do Hitler
[01:36:17] você sai com a impressão de que quem não é o Hitler
[01:36:20] é um herói, entendeu
[01:36:21] assim, porque ele nunca tenta nem
[01:36:23] formar o que seria uma oposição
[01:36:25] ele tem um momento ali no começo que o Hitler tá lendo um jornal
[01:36:27] se inteirando da política nacional
[01:36:29] e aí o único partido que ele elogia é o Partido Verde
[01:36:32] e que por si só é
[01:36:33] uma piada, assim, porque, né, o Partido Verde
[01:36:35] especialmente na Alemanha, nos Estados Unidos, ele é muito
[01:36:37] visto como um partido de segunda classe
[01:36:39] e tal, que quase não elege ninguém e tal, não sei o que
[01:36:41] não que aqui seja muito difícil, mas enfim
[01:36:42] aí
[01:36:45] e aí você meio que nunca mais fala
[01:36:47] dos partidos políticos da Alemanha e tal
[01:36:49] não sei o que, você tem um procurador ali que se diz
[01:36:51] fã do Hitler, mas meio que de uma
[01:36:53] forma que ele só vê o Hitler como algo que
[01:36:55] não fede nem cheira, tipo, que não
[01:36:57] causa mal o Hitler estar na TV e tal
[01:36:59] e ele simplesmente
[01:37:01] tipo, ele enxerga o Hitler
[01:37:03] como se não houvesse um sistema
[01:37:05] político na Alemanha
[01:37:07] como se não houvessem partidos políticos
[01:37:09] isola totalmente dessa questão rapidamente
[01:37:11] então eu, por isso eu acabo
[01:37:14] preferindo, então, um pobretão
[01:37:16] na Casa Branca. É, eu concordo
[01:37:18] o, mas
[01:37:20] ainda acho que é aquilo, né, o filme
[01:37:21] do Chris Rock
[01:37:22] ele ainda acredita na salvação
[01:37:25] homens complicados
[01:37:28] né, tipo, o Thomas Jefferson
[01:37:29] estuprava as mulheres
[01:37:31] o, enfim, o
[01:37:34] esqueci o nome do outro lá, o
[01:37:35] Lincoln, o Lincoln queria que os escravos
[01:37:38] construíssem o negócio pra ele antes de, ele teve,
[01:37:39] tirá-los e tal
[01:37:40] o, só que ao mesmo tempo ele ainda acredita na ideia
[01:37:43] na força da ideia da democracia, né
[01:37:45] que dá pra ser redimida, né
[01:37:47] o que falta é, digamos, o sujeito ideal pra redimi-la, né
[01:37:50] é, eu acho assim
[01:37:52] totalmente, o ponto de vista do filme do Chris Rock
[01:37:54] é exatamente o que você falou que é
[01:37:56] o sistema não é o problema
[01:37:57] o sistema só precisa de um bom homem no comando
[01:38:00] e o do Hitler
[01:38:02] talvez é de que existem sistemas
[01:38:04] melhores que outros
[01:38:05] que também, de certa forma, acaba caindo um pouco
[01:38:07] no, no, no, na discussão
[01:38:09] da coisa, e é uma coisa assim
[01:38:11] que pra finalizar, talvez em outro momento
[01:38:13] a gente volte a isso
[01:38:14] é sempre bom colocar que
[01:38:17] a ascensão dos regimes fascistas
[01:38:19] na Europa, no período entre guerras
[01:38:21] foi de, elas ocorreram
[01:38:24] dentro de sistemas liberais
[01:38:25] dentro do que se chamavam democracias
[01:38:27] europeias ali da época, e de uma forma
[01:38:29] são a própria metástase desses
[01:38:31] sistemas, e fundamental
[01:38:33] colocar
[01:38:34] enfim, uma coisa que é importante
[01:38:37] que mesmo no auge desses
[01:38:39] sistemas, nas tais social-democracias
[01:38:41] europeias daquela época ali
[01:38:43] e vamos deixar pra cada polêmica do momento
[01:38:45] a gente não tá aqui defendendo Stalin não, né
[01:38:47] isso que a gente tá curvando como alternativa não
[01:38:49] mas assim, o ponto
[01:38:51] assim, que naquela época ali
[01:38:53] o, essas
[01:38:55] sociais-democracias, elas só poderiam existir
[01:38:57] enquanto tais, a partir justamente
[01:38:59] do saque e da pilhagem
[01:39:01] e do genocídio praticados em outras
[01:39:03] localidades, então se você pegar, por exemplo, toda a
[01:39:05] origem da segunda guerra mundial
[01:39:07] que teve uma relação profunda com a culpa
[01:39:09] da África, né
[01:39:11] dos países africanos, né, o que que
[01:39:13] tava em jogo era quem podia ou não explorar
[01:39:15] aquilo ali, né
[01:39:16] Exato, inclusive nessa hora
[01:39:19] que o Hitler fala do Partido Verde, ele
[01:39:21] fala, tipo, ó, é muito nobre que eles queiram
[01:39:23] preservar o meio ambiente da
[01:39:25] terra alemã e não sei o que
[01:39:27] mas na verdade, mas aí
[01:39:29] entra nessa questão do filme de que ele ignora totalmente
[01:39:31] qual é a política do Hitler, né
[01:39:33] ele entra muito no discurso de ódio do Hitler
[01:39:35] e do nazismo que realmente
[01:39:37] a gente
[01:39:39] enfim, que é uma parte
[01:39:41] essencial dele, mas é isso
[01:39:43] ele nunca entra no fato de que ele era um político extremamente
[01:39:45] liberal, que foi um regime
[01:39:47] de hiperindustrialização, então, tipo, como é que o
[01:39:49] cara que era hiperindustrialista ia defender
[01:39:51] qualquer tipo de preservação
[01:39:53] do meio ambiente
[01:39:54] e assim, nunca entra no fato
[01:39:57] por exemplo, assim, de hoje
[01:39:59] até a Alemanha, que é
[01:40:01] a potência capitalista ali da União Europeia
[01:40:04] é um país muito do
[01:40:05] que ainda tem muito daquela coisa
[01:40:07] europeia do estado de bem
[01:40:09] do estado social e tudo mais, só que
[01:40:11] o governo nazista
[01:40:13] ele era extremamente liberal
[01:40:15] e privatizador
[01:40:17] e assim
[01:40:19] e preocupado
[01:40:20] em ajudar as elites
[01:40:23] capitalistas, né
[01:40:25] então assim, isso em nenhum momento
[01:40:27] eles entram nessa discussão
[01:40:28] exato
[01:40:30] o Hitler tinha uma foto
[01:40:32] a Volkswagen
[01:40:34] na Alemanha, mas assim
[01:40:37] Ford tinha no seu escritório
[01:40:39] uma foto de Hitler e Hitler tinha uma foto do Ford
[01:40:41] no escritório dele, então, assim
[01:40:43] o respeito era mútuo
[01:40:44] então, a questão, o filme
[01:40:48] ele tenta
[01:40:49] evitar a discussão mais importante
[01:40:51] que é, quais são
[01:40:53] essas ideias que ficam vivas
[01:40:55] mesmo nos políticos que
[01:40:57] sabem fazer o discurso, que sabem
[01:40:59] que tudo bem o blackface
[01:41:01] daquele cara, mas não o Hitler, sabe?
[01:41:03] é, que promovem isso, né, que promovem a
[01:41:05] cadê, quem são os políticos
[01:41:07] que promovem isso
[01:41:08] da…
[01:41:09] falando do jeitinho
[01:41:11] que é aceitável, assim, né
[01:41:13] é… tem um
[01:41:15] uma politicagem
[01:41:18] um discurso
[01:41:18] algo que se fala muito na política
[01:41:21] americana sobre os políticos racistas
[01:41:23] mas que é os discursos
[01:41:26] de apito de cachorro, né
[01:41:27] que é como você fala as coisas
[01:41:30] de um jeito
[01:41:32] que só aquele público
[01:41:34] radical que vai ser seduzido por aquelas ideias
[01:41:35] vai entender que você tá acenando
[01:41:37] pra ele
[01:41:38] isso é muito interessante, acho que
[01:41:40] e o filme não explora essa maneira
[01:41:42] a gente tem partidos de extrema direita
[01:41:44] lá e aqui
[01:41:45] que são extremamente
[01:41:47] alinhados com essas ideias, mas eles falam
[01:41:50] só da outra parte, da parte aceitável
[01:41:52] da parte de… é, sim, ué
[01:41:54] tem que morrer pobre com
[01:41:56] reformas econômicas, porque o que eu posso fazer?
[01:41:59] a prioridade do
[01:42:00] meu governo não é essa, não é
[01:42:02] ser bom pras pessoas, né
[01:42:04] então eu acho isso muito…
[01:42:06] ou não é bom pra ninguém, na verdade é isso
[01:42:08] que é a imagem que é vendida
[01:42:10] é, e aí
[01:42:12] o filme não explora isso, acho que seria muito interessante
[01:42:14] eu acho que o próprio Sacha Baron Cohen
[01:42:17] com as coisas que ele fez do Borat
[01:42:18] e depois, ele explora muito isso
[01:42:20] porque ele vai atrás de figuras políticas, né
[01:42:22] e figuras grandes, muitas vezes
[01:42:24] ele vai atrás de pessoas
[01:42:26] comuns, assim por dizer, mas ele
[01:42:28] ele usava muito o próprio
[01:42:30] Ali G Show e tudo mais, pra expor essas
[01:42:32] facetas de figuras
[01:42:34] poderosas, né
[01:42:36] uhum, uhum, acho que é isso
[01:42:38] é isso, cara, fizemos
[01:42:40] tem um episódio aí, episódio grande, hein
[01:42:42] tá bom, vamos dar stop