#17 - Um Show de Realidade
Resumo
Neste episódio, Orlando e Gus exploram a obsessão contemporânea por transformar a realidade em entretenimento, partindo da premissa de que vivemos numa espécie de ‘duplipensar’ onde sabemos que estamos sendo enganados, mas aceitamos essa condição. A discussão examina como reality shows, redes sociais e produções midiáticas criam expectativas de realidade que são consumidas como espetáculo, mesmo quando sabemos que são construções editadas e artificiais.
Os hosts analisam três filmes que abordam essa temática: O Show de Truman (1998), EdTV (1999) e Dark City (1998). Em O Show de Truman, discutem como o filme falha em distribuir a responsabilidade moral pelo espetáculo sádico, concentrando-a apenas nos produtores e não no público consumidor. Em EdTV, destacam como o filme antecipa a cultura das redes sociais, onde a fama se torna um valor em si mesmo, independente de qualquer talento ou mérito.
A conversa toma um rumo mais sombrio com a análise do reality show japonês extremo ‘Sussu no Denpa Show’ (1998-2002), onde um participante ficou confinado nu por anos, sobrevivendo apenas de prêmios de concursos. Este caso serve como exemplo extremo do sadismo inerente ao consumo do sofrimento alheio como entretenimento. Os hosts argumentam que, enquanto sociedade, temos vergonha (não culpa) por consumir esse tipo de conteúdo.
Finalmente, conectam essas reflexões à era das redes sociais, onde a vida editada do Instagram e a performatividade online criam novas camadas de artificialidade. Dark City serve como metáfora final: assim como os alienígenas do filme que manipulam memórias humanas para entender a alma, nós buscamos sentido e realidade no entretenimento digital, muitas vezes às custas da própria humanidade.
Indicações
Conceitos
- Culpa vs. Vergonha (Primo Levi) — Conceito do escritor Primo Levi discutido no episódio: não temos culpa por viver numa sociedade que produz certos tipos de entretenimento, mas devemos sentir vergonha e agir para mudar isso. Quem tem culpa são os produtores.
Filmes
- O Show de Truman (The Truman Show) — Filme de 1998 com Jim Carrey sobre um homem que descobre que sua vida inteira é um reality show televisionado. Criticado por concentrar a responsabilidade moral apenas nos produtores, não no público.
- EdTV — Filme de 1999 com Matthew McConaughey sobre um homem comum cuja vida é transmitida 24 horas na TV. Antecipa a cultura das redes sociais onde a fama se torna um valor em si mesmo.
- Dark City — Filme de 1998 de Alex Proyas sobre alienígenas que manipulam memórias humanas em uma cidade artificial. Serviu como metáfora para como consumimos vidas editadas nas redes sociais.
- A Vida em Preto e Branco (Pleasantville) — Filme de 1998 sobre dois irmãos que são transportados para dentro de um seriado dos anos 50. Mencionado como contraponto ao Show de Truman na crítica ao sonho americano idealizado.
Pessoas
- Nasubi (Tomoaki Hamatsu) — Participante do reality show japonês extremo ‘Sussu no Denpa Show’ (1998-2002), que ficou confinado nu por anos sobrevivendo apenas de prêmios de concursos. Caso real citado como exemplo do sadismo no entretenimento.
- Britney Spears — Cantora citada como exemplo de como a cultura pop cria celebridades para depois acompanhar sua decadência com voracidade sádica, especialmente durante seu ‘meltdown’ em 2007.
Linha do Tempo
- 00:02:29 — Introdução ao tema: realidade como entretenimento — Os hosts apresentam o tema central do episódio: entender a obsessão por transformar o real em entretenimento e chamar o não-real de real. Discutem como vivemos num ‘duplipensar’ onde sabemos que estão mentindo para nós, mas aceitamos isso, citando exemplos como reality shows combinados e influenciadores pagos.
- 00:03:29 — Análise de O Show de Truman — Começam a análise de O Show de Truman, conectando com o episódio anterior sobre Jim Carrey. Criticam a premissa ingênua do filme - quem assistiria 24 horas a uma vida idílica? - e discutem como o filme representa o ápice do império americano pré-declínio. Debatem a falha moral do filme em isentar o público da responsabilidade pelo espetáculo sádico.
- 00:18:05 — O elemento do sadismo e consentimento — Gus destaca um ponto crucial que diferencia Truman dos outros casos: ele não sabe que sua vida é um show. Isso introduz um sadismo inerente à situação, diferente de reality shows onde há consentimento inicial. Discutem como o filme humaniza demais a figura do diretor (Ed Harris), perdendo a oportunidade de explorar a falta de compaixão dos produtores.
- 00:32:24 — O caso extremo: reality show japonês Nasubi — Apresentam o caso real e grotesco do reality show japonês ‘Sussu no Denpa Show’ (1998-2002). O participante Nasubi ficou confinado nu por anos, sobrevivendo apenas de prêmios de concursos. Descrevem as condições desumanas, incluindo fome, depressão e a edição que colocava risadas sobre seus momentos de desespero. A audiência cresceu tanto que desenvolveram streaming primitivo para atender a demanda.
- 00:45:47 — Análise de EdTV e a antecipação das redes sociais — Analisam EdTV (1999), filme sobre um homem comum cuja vida é transmitida 24 horas. Destacam como o filme antecipa a cultura das redes sociais: a fama como virtude em si, a performatividade da vida online e a artificialidade das identidades construídas. Uma cena crucial mostra um amigo do protagonista, antes desleixado, aparecendo na TV de terno e cachimbo como ‘crítico cultural’, expondo a hipocrisia do sistema.
- 01:01:00 — Meta-momento: a vida imita a arte (McConaughey) — Em um momento surreal, Gus revela que, enquanto discutiam uma cena de EdTV onde o pai do protagonista morre de ataque cardíaco transando, descobriu que Matthew McConaughey deu uma entrevista dois dias antes contando que seu pai real morreu exatamente da mesma forma. Isso ilustra perfeitamente como a vida real se torna entretenimento e como as celebridades reciclam tragédias pessoais como conteúdo.
- 01:12:22 — Dark City como metáfora das redes sociais — Analisam Dark City (1998) como metáfora final. No filme, alienígenas manipulam memórias humanas e rearranjam a cidade todas as noites para estudar a alma humana. Os hosts propõem um exercício: se aliens recriassem a humanidade baseados apenas no que veem na internet, que realidade artificial criariam? Concluem que, como os aliens do filme, buscamos sentido e realidade no entretenimento digital, muitas vezes de forma sádica ou masoquista.
- 01:26:39 — Conclusão e reflexão meta — Os hosts encerram refletindo sobre o próprio episódio: Gus fez piadas escatológicas mesmo com dor na língua, criando um entretenimento a partir de seu sofrimento. Destacam a natureza não-editada da conversa e deixam no ar a questão: isso foi ensaiado ou real? O episódio termina com a constatação de que o sofrimento de um se tornou o entretenimento do outro, fechando o círculo da discussão.
Dados do Episódio
- Podcast: Popcult
- Autor: Atabaque Produções
- Categoria: TV & Film Film Reviews
- Publicado: 2020-10-21T08:30:08Z
- Duração: 01:29:06
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/popcult/57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2/8bd10cf7-db6f-4c14-95e9-5caeb81e518f
- UUID Episódio: 8bd10cf7-db6f-4c14-95e9-5caeb81e518f
Dados do Podcast
- Nome: Popcult
- Tipo: episodic
- Site: https://www.spreaker.com/podcast/popcult—4416630
- UUID: 57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Half-Death
[00:00:30] Começa e termina
[00:00:31] Somos capazes de saber quem é o show
[00:00:33] Quem é a plateia
[00:00:34] Quem é a orquestra
[00:00:36] Quem é o condutor
[00:00:37] Tudo que sabemos é que a tragédia somos nós
[00:00:41] Orlando, tudo bem?
[00:00:43] Confesso que
[00:00:44] Bem, bem, bem
[00:00:47] Bem, bem, sabe bem
[00:00:49] Aham
[00:00:49] Não, não tô legal não
[00:00:52] Mas que legal, porque a gente gosta de ver gente se fudendo
[00:00:54] Então já é um show bacana
[00:00:56] Inclusive, isso que eu ia dizer aqui
[00:00:58] Fazer uma certa
[00:00:59] Aviso pros ouvintes, porque estou com um problema
[00:01:02] De dicção, pois tive um acidente
[00:01:04] Doméstico, no qual mordi minha própria
[00:01:06] Língua de forma profunda e dolorosa
[00:01:08] Pois é
[00:01:09] Então assim, estou aqui no sacrifício
[00:01:11] Jogando machucado
[00:01:12] Jogando machucado, assim, com a língua
[00:01:14] Quando a língua sai e bate no dente, porque foi bem ali
[00:01:17] Meu Deus do céu
[00:01:18] E aí dá aquela pequena inchadinha que torna mais recorrente
[00:01:22] O encontro com o dente
[00:01:24] É complicadíssimo
[00:01:26] Aí só Jesus
[00:01:26] Exato, e como nem você nem eu somos de Jesus
[00:01:29] Fica mais difícil ainda
[00:01:31] É, mas nessas horas a gente apela, né
[00:01:33] É aquela famosa piada
[00:01:35] Não existem ateus numa pane de avião, né cara
[00:01:38] Ó, vou te falar que já passei por pane de avião
[00:01:40] E segui ateu
[00:01:42] Hum, ali no íntimo
[00:01:44] Ali no íntimo, não prometeu construir uma igreja
[00:01:46] Em nome do Senhor
[00:01:47] Não
[00:01:48] Assim, vou espalhar em sua palavra
[00:01:52] Pelo mundo, pregarei sua palavra pelo mundo
[00:01:54] Pelo amor de Deus, Senhor, Senhor, Senhor
[00:01:55] Aí acabou assim, estabilizado
[00:01:57] Eu acho que
[00:01:59] Eu acho que
[00:01:59] Eu acho que
[00:01:59] Eu acho que
[00:01:59] Será, guys? Não sei, não sei
[00:02:29] No nosso episódio da semana passada
[00:02:31] Mas hoje a ideia é toda
[00:02:33] Entender essa nossa obsessão
[00:02:36] Com
[00:02:36] Transformar o real em entretenimento
[00:02:39] E chamar aquilo que não é real de real, né
[00:02:41] Porque a gente vive numa
[00:02:42] Num total
[00:02:44] Numa, como é que é? O duple pensar
[00:02:47] Né, do 1984
[00:02:49] Em que a gente sabe que estão mentindo pra nós
[00:02:52] E a gente aceita isso, né
[00:02:54] O, o, essa coisa assim
[00:02:56] Tipo, ah, eu sei que é meio combinado
[00:02:57] Esse reality show, mas eu
[00:02:59] Vou ver também
[00:03:00] E, tipo, eu sei que essa influencer aqui
[00:03:04] Não tava comendo esse hot dog
[00:03:06] Ela só, tipo, posou pra uma foto com o hot dog
[00:03:08] Jogando de fora, ou ela não usa esse tênis
[00:03:10] Ou ela não gosta desse app, mas, né
[00:03:12] Pagaram e tal
[00:03:13] O que que é vida real, o que que é um comercial
[00:03:16] O que que é um reality show
[00:03:17] A gente tá vivendo esse mundo, né
[00:03:19] Então, pra isso a gente selecionou
[00:03:22] Algumas obras aqui
[00:03:24] Pra serem analisadas
[00:03:26] E acho que a gente vai começar
[00:03:27] Com o
[00:03:29] Show de Truman, um filme do Jim Carrey
[00:03:31] Porque aí conecta a gente com semana passada
[00:03:34] Não é mesmo, Orlando?
[00:03:35] É, a gente fez um
[00:03:36] Sem querer, nós fizemos um
[00:03:39] Especial em homenagem
[00:03:42] A obra desse grande ator
[00:03:43] Jim Carrey, que infelizmente tem alguns filmes
[00:03:46] Mais ou menos, alguns filmes bem ruins
[00:03:48] Inclusive um desses filmes
[00:03:50] Que eu acho ruim
[00:03:51] É um ponto de discórdia dentro desse podcast
[00:03:53] Você sabe que a gente aqui em casa
[00:03:55] Reviu parte desse filme
[00:03:58] Esse final de semana?
[00:03:59] E aí, ambos ficaram muito deprimidos
[00:04:02] E a gente não terminou de ver o filme
[00:04:03] E concordaram mais comigo?
[00:04:06] Não, a gente não deixou de gostar do filme, só que foi pesado
[00:04:07] Mas aí, fazer as pessoas ficarem tristes é fácil, né
[00:04:11] É
[00:04:11] Fazer rir é pior, é mais difícil
[00:04:13] É isso que eu ia dizer
[00:04:14] Eu como comediante, eu sei disso
[00:04:17] Fazer a pessoa chorar
[00:04:20] Muito fácil
[00:04:21] Por isso que uma das coisas que eu acho desse filme
[00:04:23] Ele vai nessa veia
[00:04:26] Eu vou fazer, olha só como isso aqui é deprimente
[00:04:29] Olha
[00:04:29] Pra mim, como eu tô triste, então
[00:04:31] Mas enfim, mas uma das coisas que eu acho
[00:04:33] Que você falou e que é importante
[00:04:35] Seria até interessante a gente trazer
[00:04:37] Essa coisa do
[00:04:38] A gente
[00:04:41] Se deixa levar pelo real
[00:04:44] A gente se deixa levar pelo aquilo que a gente imagina
[00:04:46] Ser real
[00:04:46] Ignorando as desconfianças, né
[00:04:49] Pra aquilo se tornar a nossa
[00:04:50] Aquilo se tornar a nossa própria experiência
[00:04:53] Porque, na verdade
[00:04:55] Basicamente é assim
[00:04:57] Que funciona a vida
[00:04:59] Porque se a gente pensar
[00:05:01] Que tudo é uma construção social
[00:05:03] E essa dor, na minha língua, está horrorosa
[00:05:06] E essa dor não é uma construção social
[00:05:07] Ela tá difícil aqui mesmo
[00:05:10] Se a gente pensar que
[00:05:11] Tudo é uma construção social
[00:05:13] Chega um determinado momento que a gente tem que pensar
[00:05:15] Cara, as pessoas criaram as coisas
[00:05:18] As pessoas criaram as instituições
[00:05:20] Então as instituições pelas quais nós vivemos
[00:05:23] Em algum momento elas foram
[00:05:24] Criadas, disputadas
[00:05:27] Negociadas pela sociedade
[00:05:28] E aí nesse momento
[00:05:29] Para que essas coisas
[00:05:31] Passassem a funcionar
[00:05:33] Nós tivemos que ignorar
[00:05:35] Essa criação
[00:05:37] Ignorar que aquilo foi criado por mãos humanas
[00:05:39] Porque
[00:05:39] Eu tô falando isso de uma forma, obviamente, não é tão simplório
[00:05:43] Mas é basicamente assim que
[00:05:46] Aquilo que a gente chama de cultura
[00:05:47] Foi criado
[00:05:49] As coisas não simplesmente caíram dos céus e
[00:05:51] Olha só, cultura
[00:05:53] Sabe? Não
[00:05:54] As coisas foram feitas pelas pessoas
[00:05:57] Foram criadas, inventadas
[00:05:59] Então assim
[00:06:00] O que é interessante desse processo
[00:06:04] E é óbvio, eu tô fazendo isso aqui
[00:06:05] De uma perspectiva puramente ocidentalizada
[00:06:07] Porque para outras populações
[00:06:09] Acreditar, crer
[00:06:11] Não é exatamente
[00:06:13] O vetor do conhecimento
[00:06:15] Isso é uma obsessão
[00:06:17] Cristã
[00:06:19] Eurocêntrica
[00:06:20] Para outras populações o importante é a produção de experiência
[00:06:23] Se aquilo é verdade ou é mentira
[00:06:25] É a experiência que vale
[00:06:26] A gente que é obcecado para saber se algo é verdadeiro ou não
[00:06:29] Inclusive, enfim
[00:06:31] Essa palavra de crença é sempre uma
[00:06:33] É sempre difícil de traduzir
[00:06:36] Em algumas línguas
[00:06:37] E eu acho que é interessante pra isso
[00:06:39] Porque ali
[00:06:41] A gente vai falar do show de Truman
[00:06:43] Pra fazer justamente essa conexão com Jim Carrey
[00:06:46] E o show de Truman
[00:06:47] É um filme
[00:06:49] Sobre uma verdadeira
[00:06:52] Pandemia
[00:06:53] Que tomou conta da televisão mundial
[00:06:56] Ali em meados da década de 90
[00:06:58] Porque ainda que você tiver
[00:06:59] Esse tipo de experimento
[00:07:03] Durante a década de 80
[00:07:04] Década de 70
[00:07:05] Mas na década de 90 se tornou uma verdadeira febre
[00:07:07] Aquela coisa do entretenimento real
[00:07:10] Você se entretém com a vida
[00:07:12] Das outras pessoas
[00:07:12] Não são mais atores encenando as coisas
[00:07:16] Inclusive eu lembro na época
[00:07:17] Alguns desses críticos culturais
[00:07:19] Falando que o entretenimento vai mudar como um todo
[00:07:22] Porque agora é isso que as pessoas querem
[00:07:24] As pessoas querem realidade
[00:07:26] As pessoas não querem mais serem enganadas
[00:07:28] Quando não tem nada
[00:07:29] Que engana mais do que a própria realidade
[00:07:32] Porque inclusive assim
[00:07:34] Uma das maneiras que a gente entende
[00:07:36] A nossa vida e o mundo ao nosso redor
[00:07:39] É transformando tudo numa narrativa
[00:07:41] E você só consegue transformar
[00:07:43] Sua própria vida em narrativa
[00:07:44] Em retrospecto
[00:07:46] Então a partir do momento que você está filmando
[00:07:48] A vida em tempo real
[00:07:50] Você precisa inferir
[00:07:53] Essas narrativas
[00:07:55] Sem as ferramentas que normalmente
[00:07:57] Você tem na televisão
[00:07:58] No cinema
[00:07:59] Que é a edição
[00:08:00] Porque no caso da realidade do show de Truman
[00:08:02] Ele é um programa que passa 24 horas
[00:08:04] Que é pra mim o primeiro ponto
[00:08:06] Que não faz sentido nenhum
[00:08:08] Ninguém ia assistir aquele negócio por 24 horas
[00:08:11] Exatamente porque ele vive
[00:08:13] Uma versão idílica, casta, ingênua
[00:08:16] Da vida americana
[00:08:17] A única razão pela qual alguém assiste
[00:08:19] Um reality show 24 horas
[00:08:21] É pra pegar aquele momento
[00:08:22] Em que alguém vai editar
[00:08:24] Dos melhores momentos
[00:08:25] Então você quer pegar as pessoas
[00:08:27] Transando embaixo do…
[00:08:29] Do edredom
[00:08:30] Você quer pegar alguma coisa rolando
[00:08:31] Um barraco
[00:08:32] Um barraco, né?
[00:08:33] Uma coisa assim
[00:08:34] E aí o show de Truman não
[00:08:37] O show de Truman imagina
[00:08:38] Um mundo extremamente ingênuo
[00:08:41] Onde as pessoas gostam de ver
[00:08:42] Esse homem isolado
[00:08:44] Como se basicamente
[00:08:45] Pelo fato de ele estar isolado do mundo
[00:08:48] Ele não é afetado
[00:08:50] Ele não está nos anos 90, né?
[00:08:51] Ele claramente está numa versão dos anos 50
[00:08:53] Dos Estados Unidos
[00:08:55] Daquela versão idealizada do que era os anos 50
[00:08:58] Claro que a gente sempre…
[00:08:59] Que vem na TV e tal
[00:09:00] Baseado naquelas sitcoms da época e tal
[00:09:02] Então, assim…
[00:09:03] E você para e pensa
[00:09:04] Hoje, tipo, ninguém quer ver isso
[00:09:07] A gente quer algo muito mais…
[00:09:10] Baixo, por assim dizer
[00:09:12] Então essa é a primeira coisa que é muito…
[00:09:15] Assim, que me pegou revendo o filme
[00:09:17] É que é isso, assim, que tipo…
[00:09:19] Quem assistiria essa merda?
[00:09:22] É, Gus, eu acho que…
[00:09:24] Você falando
[00:09:25] Eu fiquei pensando nisso
[00:09:26] Nesse episódio a gente vai falar de filmes
[00:09:29] Cujo texto é melhor que o próprio filme
[00:09:32] E o Show de Truman é um desses filmes
[00:09:35] Foi um filme que não envelheceu tão bem
[00:09:37] Quanto os outros filmes do Jim Carrey
[00:09:38] Que a gente falou antes, né?
[00:09:39] O Mundo de Andy, Jim Andy
[00:09:40] E até o Pentelho
[00:09:42] O Show de Truman, na minha memória, ele era um filme melhor
[00:09:45] Porque na minha memória ficou o texto
[00:09:47] E não a execução do filme
[00:09:49] E isso que você falou
[00:09:51] Dessa coisa do…
[00:09:53] Que ele vivia
[00:09:54] Ele vive uma versão idílica do sonho americano
[00:09:56] Aquela coisa da casa… Ele vive no subúrbio
[00:09:59] Ideal dos Estados Unidos, né?
[00:10:01] Daquele… O subúrbio do…
[00:10:02] Do Bob, da Peg Sue, sabe?
[00:10:05] E os vizinhos se conhecem e se cumprimentam
[00:10:07] Aquela coisa, né?
[00:10:08] Que é um retrato muito de quando ele foi produzido
[00:10:12] Ele é produzido na década…
[00:10:14] Ali, naquele momento, no pós-grunge
[00:10:16] Numa década cínica
[00:10:17] Numa década onde, tipo, o legal
[00:10:20] Era um entretenimento mais agressivo
[00:10:22] E ele pensa assim, tipo
[00:10:23] E nós, agora, moramos aqui
[00:10:26] Em apartamentos e não conhecemos nossos vizinhos
[00:10:28] E tudo era melhor antes
[00:10:29] Mas, tipo, pra quem que era melhor antes?
[00:10:32] Tem um filme que seria legal trazer
[00:10:34] Em algum momento, que é A Vida em Preto e Branco
[00:10:36] Que…
[00:10:37] Ah, esse filme é muito bom, meu
[00:10:40] Que é da memória
[00:10:41] Faz muito tempo que eu não assisti também
[00:10:43] Eu só lembro de gostar na época que saiu
[00:10:45] Mas, assim, a premissa desse filme casa muito bem com o show de Truman
[00:10:48] É, porque pra quem não assistiu
[00:10:50] A Vida em Preto e Branco, é a história de dois irmãos
[00:10:52] Desse mundo
[00:10:53] Da MTV, do grunge, né?
[00:10:55] Dois adolescentes que vão parar
[00:10:57] Dentro de um desses seriados, tipo
[00:10:59] Happy Days, sabe?
[00:11:01] E aí tem toda uma coisa
[00:11:03] Meio opressiva desse cenário de felicidade
[00:11:05] Extrema, né?
[00:11:06] Desse cenário idílico do sonho americano
[00:11:08] Foi um desses filmes feitos ali na década de 90
[00:11:10] O show de Truman faz parte disso, né?
[00:11:12] Mas tinha o Magnolia, o Beleza Americana
[00:11:14] Que eram filmes que já ali na decadência
[00:11:17] Pré 11 de setembro, né?
[00:11:19] Ou pouco logo depois
[00:11:20] Estavam ali criticando a própria
[00:11:22] Metástase
[00:11:24] Do sonho americano
[00:11:26] É que eu acho que tem um ponto de vista muito interessante
[00:11:29] Nesses filmes, que hoje a gente
[00:11:31] A gente olha com desdém
[00:11:33] E não acho que esse desdém
[00:11:35] Seja desmerecido
[00:11:37] Ou que não haja justificativa
[00:11:39] Pra esse desdém, mas por exemplo, né?
[00:11:41] Eu vi esses tempos alguém falando de Beleza Americana
[00:11:43] Que é um filme que na época foi muito bem
[00:11:45] Falado e tal, não sei o que
[00:11:46] Mas falando assim, tipo
[00:11:48] Ah, nossa, você está entediado de ser um homem de classe média
[00:11:51] Um homem branco de classe média alta
[00:11:53] Que pena
[00:11:53] E meio que esses filmes todos
[00:11:56] Vêm um pouco dessa posição de tipo
[00:11:59] Ah, não temos mais problemas de verdade
[00:12:02] Nós conseguimos tudo o que a gente queria
[00:12:03] Mas aí agora a gente percebeu que tudo o que a gente queria
[00:12:05] Não era o que a gente queria e aí a gente está entediado
[00:12:07] É tipo assim, eles são o retrato
[00:12:10] Do ápice do império americano
[00:12:11] Eu acho, antes do começo do declínio
[00:12:14] Uhum, uhum
[00:12:15] E por isso que eu acho que no show de Truman
[00:12:17] Justamente
[00:12:18] É essa existência idílica, né?
[00:12:21] Porque se você for ver, por exemplo
[00:12:23] O que é a realidade dos espectadores
[00:12:26] Do show de Truman
[00:12:27] Ele contrasta
[00:12:29] O mundo atual
[00:12:30] O mundo onde as pessoas estão solitárias
[00:12:32] Com empregos
[00:12:33] Os shit jobs, né?
[00:12:35] Empregos de merda, né?
[00:12:36] Tipo, os caras da noite toda ali fazendo vigilância
[00:12:40] E sei lá o que, a galera no bar
[00:12:41] Não tem, é muito difícil
[00:12:43] Você tem essa oposição
[00:12:45] Entre a sociedade estadunidense
[00:12:48] E o mundo do Truman
[00:12:50] Por isso que eu me lembrei
[00:12:52] Da vida em preto e branco
[00:12:52] Porque no filme a vida em preto e branco isso se confunde
[00:12:55] Os personagens do filme, da vida real
[00:12:57] Vão parar dentro do filme, né?
[00:12:59] E aí que eu acho que é um ponto que é importante, né?
[00:13:02] Porque
[00:13:02] Eu acho que ele constrói essa oposição
[00:13:05] Como uma maneira
[00:13:06] De… é aquilo que uma vez você me falou
[00:13:09] Porque o drama, ele é o tipo
[00:13:11] De narrativa mais editada possível
[00:13:13] É, exato, assim
[00:13:14] Que é algo que eu acho
[00:13:16] Que eu sinto que o próprio show de Truman
[00:13:18] Não encara o suficiente
[00:13:20] Que é isso, assim, que um filme de drama
[00:13:22] Seja ele um drama romântico, né?
[00:13:25] Ou o que quer que seja
[00:13:26] Ele funciona muito
[00:13:28] Porque ele controla muito bem
[00:13:29] Ele controla muito bem o filme de Truman
[00:13:29] O que você tá vendo e as emoções que você tá sentindo
[00:13:32] Porque é isso, porque é aquela coisa
[00:13:33] Se no meio da comédia romântica
[00:13:35] Ou do filme de romance
[00:13:37] Você para pra mostrar o cara fazendo cocô
[00:13:39] Você quebra uma certa aura
[00:13:42] De, né?
[00:13:44] Não sei nem que palavra que eu tô procurando aqui
[00:13:46] Mas você quebra uma aura necessária
[00:13:48] Pro drama, né?
[00:13:50] É, então, esse que é o ponto
[00:13:52] Porque eu acho que assim, ele não vai direto a isso
[00:13:54] Mas ao mesmo tempo ele tenta criar uma realidade
[00:13:56] Completamente editada
[00:13:58] Né?
[00:13:58] Porque justamente, acho que o ponto
[00:14:00] Aquilo é muito mais sobre
[00:14:02] A maneira como
[00:14:04] O entretenimento é feito
[00:14:06] Aquilo que a gente enxerga como real
[00:14:08] É como se fosse assim
[00:14:09] Que eu quero deixar claro
[00:14:11] É como se aquilo fosse um ensaio
[00:14:14] Sobre o próprio entretenimento
[00:14:16] Não uma representação do entretenimento
[00:14:18] Uma representação fidedigna de como o entretenimento da televisão é
[00:14:21] E tal, até porque naquela época
[00:14:23] Enfim, já o que mais se tinha
[00:14:24] Era um filme sensacionalista
[00:14:26] Show sensacionalistas, enfim
[00:14:27] Pega o filme, pega o filme, pega o filme
[00:14:28] Pega o Robocop, o Robocop já criticava esse tipo de coisa há muito tempo
[00:14:31] É, exato, a televisão
[00:14:32] Tosca, sensacionalista
[00:14:35] De bacharia americana
[00:14:37] Começa nos anos 80
[00:14:38] Sim, e aí o que eu acho que é interessante
[00:14:41] É que
[00:14:42] O show de Truman, ele ia falar assim
[00:14:45] Cara, então, o jornalismo
[00:14:47] Aquilo que a gente vê como realidade na televisão
[00:14:49] Aquilo é muito editado
[00:14:51] Não existe realidade
[00:14:52] Então ele vai mostrar isso de uma maneira
[00:14:55] Ele vai exacerbar isso
[00:14:57] Ao ponto de que aquilo se torna
[00:14:58] O mais artificial possível
[00:15:00] Tem um outro filme que eu acho que é interessante
[00:15:02] Pra fazer um contraponto com isso
[00:15:03] Que é o Mood Holland Drive do David Lynch
[00:15:06] Que aqui ficou como Cidade dos Sonhos
[00:15:08] Ah, é por isso que quando você falou comigo
[00:15:10] Eu não sabia que filme que era
[00:15:11] É, tá, ok
[00:15:13] O título em português é uma merda
[00:15:16] Porque, enfim, é um spoiler, né
[00:15:17] Que é muito interessante isso
[00:15:20] O Holland Drive é o que tem aquela maravilhosa cena
[00:15:22] Do Eu Estou Na Sua Casa Neste Momento
[00:15:25] Não me lembro qual
[00:15:26] Que ele encontra um cara numa festa
[00:15:28] Eu estou na sua casa nesse momento
[00:15:30] Pode ligar lá
[00:15:31] E aí ele liga e o cara que tá na frente dele
[00:15:33] Atende na casa dele
[00:15:34] Não, acho que esse é o Estrada Perdida
[00:15:36] É, esse é o Estrada Perdida, isso
[00:15:37] Nesse filme acho que tem uma coisa que é interessante
[00:15:42] Porque, assim, é interessante notar como
[00:15:45] Os personagens
[00:15:48] Eles agem de uma maneira errática
[00:15:50] Eles não parecem estar atuando naturalmente
[00:15:52] Tem uma coisa meio artificial ali rolando
[00:15:54] Sim
[00:15:55] Que é uma forma de codificar
[00:15:57] Até o que é um
[00:15:58] Monte do filme, dessa coisa das representações
[00:16:00] A realidade, fantasia, se confundido
[00:16:02] Eu acho que o show de Truman, ele vai numa pegada
[00:16:04] Mais explícita sobre isso
[00:16:06] Fala assim, cara, não existe realidade
[00:16:08] Isso que a televisão tá mostrando como realidade
[00:16:10] É algo extremamente editado
[00:16:12] É algo totalmente artificial
[00:16:13] É tão artificial quanto qualquer outra coisa
[00:16:15] O que tem ali
[00:16:17] É a expectativa de realidade
[00:16:20] Então, assim, ao ponto de que
[00:16:22] As pessoas
[00:16:23] Os espectadores do show de Truman
[00:16:26] Tem essa expectativa de realidade
[00:16:27] No último episódio você falou
[00:16:28] Sobre a expectativa da comédia
[00:16:30] Você vê uma pessoa e fala assim
[00:16:31] Esse cara é engraçado
[00:16:32] E você vai rir de qualquer coisa que ele falar
[00:16:34] No show de Truman
[00:16:35] Tem essa expectativa da realidade
[00:16:37] E a pessoa assim, eu estou vendo a realidade
[00:16:39] E por mais artificial que aquilo seja
[00:16:41] Por mais artificial que aquilo pareça
[00:16:43] Aquilo te parece real
[00:16:45] Porque você espera que aquilo seja a realidade
[00:16:47] Então eu acho que
[00:16:49] Nesse filme, e acho que o final
[00:16:52] Que é o momento em que o Truman
[00:16:54] Ele faz aquele salamareque dele
[00:16:57] Que ele sempre fala
[00:16:58] Como é que é
[00:16:59] Enfim, ele dá o tchauzinho dele lá
[00:17:02] Bom dia, se eu não te ver, boa noite
[00:17:04] Boa tarde, boa noite
[00:17:05] E aí tu vê que ele estava representando
[00:17:09] O tempo inteiro no filme
[00:17:09] Ele sempre foi uma representação
[00:17:12] Então assim, eu acho que o final do filme
[00:17:14] Dá essa chave pra gente entender que toda aquela
[00:17:16] Realidade ali, artificial
[00:17:18] Ela só funciona justamente pelo
[00:17:20] Desejo dos espectadores
[00:17:22] Que aquilo seja uma realidade
[00:17:24] Ignorando todo o resto
[00:17:26] Mas eu preciso entrar numa questão
[00:17:28] Importante, eu acho
[00:17:30] Do show de Truman aqui
[00:17:32] Que difere ele
[00:17:34] De todos os outros
[00:17:35] Filmes que a gente vai falar aqui, que é
[00:17:38] O Truman é um personagem
[00:17:40] Que ele não sabe
[00:17:42] Que a vida dele é o show
[00:17:44] De outras pessoas, e ele não sabe que as pessoas
[00:17:46] Com quem ele interage
[00:17:48] Estão só interpretando, inclusive
[00:17:49] Isso é uma coisa que começa a rolar ali, quando ele começa a tentar
[00:17:52] Sair da
[00:17:54] Rotina dele e tal
[00:17:55] As pessoas que estão ao redor dele, tentando
[00:17:58] Não quebrar o personagem
[00:17:59] Mas só que ao mesmo tempo, meio que
[00:18:01] Com aquele olhar de produção
[00:18:03] E aí
[00:18:05] O que isso infere?
[00:18:07] Isso traz
[00:18:10] Uma coisa que o filme explora pouco, eu sinto
[00:18:11] Que é, existe um sadismo
[00:18:13] Inerente ao que está sendo feito
[00:18:16] Porque você está assistindo
[00:18:17] Um zoológico humano
[00:18:19] Que é muito diferente
[00:18:21] Não é 100% diferente
[00:18:24] De outras coisas que a gente vai falar aqui
[00:18:25] Mas existe esse ponto crucial
[00:18:27] De que
[00:18:28] As outras, os outros personagens
[00:18:30] Que a gente vai discutir aqui
[00:18:31] Inclusive uma pessoa de verdade que a gente vai discutir aqui
[00:18:33] Houve um primeiro consentimento
[00:18:36] E uma primeira consciência de tipo
[00:18:38] Vou eu lá me expor
[00:18:40] Para virar um espetáculo
[00:18:42] O Truman, toda a história é
[00:18:43] Não, não, ele cresceu a vida inteira nesse mundo
[00:18:45] Achando que esse mundo é real, mas na verdade
[00:18:47] Ele só é um produto que a gente criou
[00:18:49] Para todo mundo ficar olhando para ele
[00:18:51] Então, eu acho que
[00:18:52] E aí é por isso que eu não gosto de como, por exemplo
[00:18:55] O filme trata o personagem do diretor
[00:18:58] Eu acho que o Ed TV
[00:18:59] Que é um outro filme que a gente vai analisar hoje
[00:19:02] É muito menos
[00:19:04] Empático com essa figura
[00:19:05] Que não merece empatia, sabe
[00:19:08] Eles tentam
[00:19:09] Inclusive na escolha do ator lá
[00:19:12] Deixa eu ver quem é o
[00:19:13] Ed Harris
[00:19:14] Ele totalmente foi escolhido para esse papel
[00:19:18] Porque ele é o
[00:19:20] Paizinho, ele é uma figura muito
[00:19:21] De um pai
[00:19:23] Ed Harris?
[00:19:25] Eu sinto que naquela época especialmente ele era uma figura paterna
[00:19:28] Não, ele estava vindo fazer
[00:19:29] Ele tinha acabado de fazer Bukowski
[00:19:31] Bukowski não, Pollock
[00:19:33] Mas ele é o cara
[00:19:35] Ele não é o Houston
[00:19:37] No Apollo 13
[00:19:39] Quem que ele é no Apollo 13?
[00:19:41] Eu sinto que ele é uma figura muito
[00:19:43] Normalmente tenra, né
[00:19:45] Tirando o Pollock
[00:19:47] Mas de qualquer jeito, pelo menos nesse filme ele é
[00:19:50] E aí eu acho que
[00:19:51] Isso é uma das coisas que mais me incomodou revendo o filme
[00:19:53] É o quanto que
[00:19:54] Não é explorado o total
[00:19:58] O sadismo
[00:19:59] E falta de compaixão
[00:20:02] Que existe na cabeça das pessoas que
[00:20:03] Estão ali todos os dias
[00:20:04] Torturando aquele homem, entendeu?
[00:20:07] Eu acho que esse que é um ponto
[00:20:09] Mas ao mesmo tempo, peraí
[00:20:10] Deixa eu levantar o último ponto então pra você
[00:20:12] Pra você responder
[00:20:13] Já que a verdade
[00:20:16] Ela é vista como assim
[00:20:19] Um ideal supremo da nossa sociedade
[00:20:21] Mas você acredita que
[00:20:23] Isso é uma questão relativa
[00:20:25] O fato de todas aquelas pessoas
[00:20:27] Estarem mentindo pro Truman
[00:20:29] É tão ruim assim?
[00:20:32] É
[00:20:32] É
[00:20:34] Assim, vamos lá, vamos por partes aí
[00:20:37] Eu acho que assim
[00:20:39] Eu acho que a questão do Truman
[00:20:41] Pra mim é a maior falha do filme
[00:20:42] É de que fato ele se perde na própria narrativa
[00:20:46] E em vez de ser um ensaio moral
[00:20:48] Sobre o que estamos consumindo
[00:20:50] Ele vira
[00:20:52] Porque toda a responsabilidade
[00:20:54] Para a tortura do Truman
[00:20:55] Recai sobre
[00:20:57] Olha os vilões das grandes corporações
[00:20:59] Olha os vilões dos grandes conglomerados de mídia
[00:21:01] E o público
[00:21:04] Não tem nenhuma responsabilidade
[00:21:07] Para com aquilo
[00:21:08] Então assim, eu acho que esse que é um ponto
[00:21:10] Você falou muito bem
[00:21:11] Existe um sadismo ali
[00:21:13] Que a gente só olha pro personagem do Ed Harris
[00:21:16] E fala assim, esse cara é um produtor
[00:21:18] E eu acho que ele
[00:21:19] Até ali no filme ele foi
[00:21:21] Eu não sei se é tão simpático assim
[00:21:24] Mas eu acho que o Ed Harris
[00:21:27] Ali, ele é como se fosse
[00:21:29] Se o roteiro do filme fosse um pouco melhor
[00:21:31] Um pouco mais apurado nessa linha
[00:21:33] O Ed Harris
[00:21:35] Ele é como se ele fosse o super espectador do Truman
[00:21:37] Ele é o sonho de todo espectador do Truman
[00:21:40] Tanto que ele sente falta do Truman
[00:21:42] Tem uma hora que o Truman está dormindo
[00:21:43] Ele demonstra carinho pelo Truman
[00:21:45] Mas é exatamente isso que me faz
[00:21:48] Não gostar dessa posição do filme
[00:21:50] Que essas cenas existem
[00:21:52] Pra você pensar
[00:21:53] Ele não é de todo mal
[00:21:54] Ele gosta do Truman
[00:21:57] Se você olha pra ele como uma figura
[00:21:58] Paterna do Truman
[00:22:01] E eu olho isso
[00:22:03] Porque eu acho que existe
[00:22:03] Um paralelo entre a cosmologia cristã
[00:22:07] E esse filme
[00:22:08] Se Truman é o filho de Deus
[00:22:12] Ele é Deus
[00:22:13] E aí você fica muito nessa
[00:22:15] Ele está sacrificando o filho dele
[00:22:17] Pela humanidade
[00:22:18] Mas ele ama o filho dele
[00:22:21] Eu acho que é um bom paralelo isso
[00:22:24] Eu acho que aquele ato
[00:22:27] Eu não interpretei ele
[00:22:28] E eu acho que ambos estamos certos
[00:22:30] Porque o sentido não é fechado da coisa
[00:22:34] Eu acho que realmente
[00:22:36] Ele tem esse viés
[00:22:37] De humanizar o personagem
[00:22:38] Até porque o roteiro
[00:22:39] É um roteiro que não é tão corajoso
[00:22:42] Nesse aspecto
[00:22:44] Porque é meio complexo
[00:22:46] Você fazer um filme, sobretudo em Hollywood
[00:22:47] A gente sabe disso, pode ser mão de produtor
[00:22:50] Que vai chegar e vai falar assim
[00:22:52] Então, a culpa disso
[00:22:54] É de todos nós
[00:22:55] Não é só do
[00:22:57] Dos grandes conglomerados, da mídia
[00:22:59] Não é só do produtor, do Evil
[00:23:01] Não, todos nós temos uma responsabilidade
[00:23:04] Do tipo de entretenimento
[00:23:05] Que está sendo produzido no mundo
[00:23:07] Porque nós consumimos isso
[00:23:08] E a gente não tem como fingir
[00:23:10] Eu só consumo, eu não tenho a mão
[00:23:12] Não, sim, todos compartilhamos essa culpa
[00:23:13] Inclusive essa foi uma discussão na época
[00:23:15] Que quem fez isso foi o South Park
[00:23:19] Olha só, naquele episódio
[00:23:21] Sobre a Britney Spears
[00:23:22] Sim, que é um especial
[00:23:23] São acho que dois ou três episódios juntos
[00:23:27] Que é incrível
[00:23:28] Que a Britney Spears é uma figura
[00:23:31] Criada a toda geração
[00:23:32] Para ser sacrificada
[00:23:33] Porque, enfim
[00:23:35] Basicamente se cria uma estrela
[00:23:39] E depois se sacrifica ela
[00:23:41] Para que você tenha
[00:23:43] Coleta de milho
[00:23:44] Exato, basicamente você
[00:23:47] Cria uma figura
[00:23:48] E joga ela no topo
[00:23:51] Para que todos possamos apreciar
[00:23:53] A sua queda
[00:23:54] E aí que vem um ponto que é interessante
[00:23:57] Porque na crítica do South Park
[00:24:00] A crítica é distribuída
[00:24:02] A todos
[00:24:03] Todos e todas
[00:24:04] Todo mundo que consome
[00:24:06] Aquele que estava ali naquela época
[00:24:07] Consumindo porque os mais novos
[00:24:10] Talvez não lembrem
[00:24:11] Mas a decadência da Britney Spears
[00:24:13] Naquele momento em que ela raspou a cabeça
[00:24:16] Aquele meltdown dela
[00:24:17] Tem uma coisa em português?
[00:24:19] Ou aquele surto, vamos dizer
[00:24:21] Cara, aquilo foi acompanhado pelos sites da TMZ
[00:24:24] Aquelas coisas ao vivo
[00:24:26] Praticamente
[00:24:26] Toda semana tinha
[00:24:28] Qual é a nova loucura que a Britney Spears fez
[00:24:31] Ela foi perseguida nas ruas
[00:24:32] Sim, não
[00:24:35] Eu acho que
[00:24:37] Era uma época um pouco mais
[00:24:40] Monocultural
[00:24:41] Então assim, imagina
[00:24:43] Hoje você sabe coisas e acompanha
[00:24:45] Alguns artistas
[00:24:47] Que você gosta
[00:24:48] Mas naquela época era muito assim
[00:24:49] Todo mundo está olhando para essa mulher
[00:24:51] O mundo inteiro está olhando para essa mulher
[00:24:53] E aí que eu acho que o show de Truman
[00:24:56] Ele não é um show de truma
[00:24:56] Ele não é um show de truma
[00:24:56] Ele não compartilha essa crítica
[00:24:58] Ele retém essa crítica
[00:24:59] Nos produtores do filme
[00:25:01] Dos espetáculos
[00:25:03] E no diretor
[00:25:05] O deus
[00:25:07] E é interessante
[00:25:08] Sabe quando você tem aquela sensação
[00:25:11] Você tem mais esse feeling que eu
[00:25:14] De quando você vê que um roteiro
[00:25:15] Foi meio que retalhado
[00:25:17] Porque eu acho que aquele ato final
[00:25:19] Onde está todo mundo daquela sala de controle
[00:25:21] Eles estão se sentindo bem
[00:25:24] Porque o Truman saiu
[00:25:25] Eles estão se libertando
[00:25:26] Sabe daquilo
[00:25:27] Então assim, eu acho que esse aspecto
[00:25:31] No qual a crítica
[00:25:32] Era compartilhada
[00:25:33] É quase como se fosse descrito
[00:25:35] Enquanto uma relação de adicção
[00:25:37] E de fato é isso, nós somos uma sociedade
[00:25:40] Adicta
[00:25:41] De determinados produtos culturais
[00:25:44] Que celebram a violência
[00:25:46] De determinados produtos culturais
[00:25:48] Sádicos, a maneira como a gente acompanha
[00:25:50] O universo de fofoca
[00:25:51] Cara, mais do que uma estrela
[00:25:53] Em ascensão
[00:25:54] O que
[00:25:55] O mundo pop gosta
[00:25:57] É de uma estrela em decadência
[00:25:58] E quanto pior a decadência dela
[00:26:01] Melhor para as pessoas, melhor para o entretenimento
[00:26:03] Para a fofoca e tudo mais
[00:26:04] Então assim, esse é um aspecto sádico
[00:26:07] Que o filme, o roteiro final
[00:26:10] Na sua montagem final
[00:26:12] No seu corte final
[00:26:13] Ele deixa ali muito isolado
[00:26:15] Essa responsabilidade, essa cultura sádica
[00:26:17] Fica muito localizado
[00:26:19] Na figura do diretor, dos produtores
[00:26:21] Mas é impressionante
[00:26:23] Que as pessoas nenhuma se refletem
[00:26:25] Durante o filme que, cara, não
[00:26:27] Todos ali estão envolvidos naquilo
[00:26:29] Todos, todas aquelas pessoas
[00:26:31] Só tem uma heroína, né, que era o par romântico dele, né
[00:26:33] Que é, eventualmente
[00:26:35] Ela ajuda ele ali e tal
[00:26:37] Mas no começo ela tá meio reticente, ela não sabe o que fazer
[00:26:39] É, não, é, mas, enfim
[00:26:41] E tem o, não, tem o pai dele
[00:26:43] Que o ator que fazia o pai volta
[00:26:45] Enfim, é muito confuso
[00:26:47] Mas o que eu acho que assim
[00:26:49] Em primeiro lugar, pra mim, tem meio filme nesse filme
[00:26:51] Assim, claramente alguém teve uma ótima ideia
[00:26:54] Pra uma premissa e em nenhum momento
[00:26:55] As pessoas falam, tá, mas o que que acontece no meio do filme
[00:26:57] Ele só tem o começo e o fim
[00:26:59] Não tem meio, é chatíssimo
[00:27:01] Mas, mais do que isso
[00:27:03] Eu quero, eu quero, na verdade, contestar
[00:27:05] Ah, ah
[00:27:07] Uma crítica sua aqui
[00:27:08] E vamos pensar assim, é o seguinte
[00:27:11] É, quando você fala da nossa adicção
[00:27:13] Por certos tipos de entretenimento
[00:27:15] E tudo mais
[00:27:16] Todas as sociedades, e isso você sabe muito bem
[00:27:20] Hum, cuidado
[00:27:21] Contam histórias
[00:27:23] Sim, ok
[00:27:25] O ser humano, universalmente, gosta de histórias
[00:27:29] E a gente se vê inserido
[00:27:31] Numa cultura capitalista
[00:27:33] Onde o monopólio de contar histórias
[00:27:35] Pra todos
[00:27:36] É dos grandes conglomerados
[00:27:38] Então, até que ponto
[00:27:40] Você pode responsabilizar o indivíduo
[00:27:42] Porque aí não vira muito
[00:27:44] Aquela ilusão do
[00:27:46] Ah, a escolha do consumidor
[00:27:48] Tipo, ah, se você não usar a sacolinha plástica
[00:27:51] O aquecimento global vai embora
[00:27:52] E tal
[00:27:53] A gente tem alguma escolha
[00:27:55] Exato, a gente tem alguma escolha real
[00:27:58] Aquelas pessoas assistindo o show de Truman
[00:28:00] Dentro do mundo do show de Truman ali
[00:28:02] Tem alguma escolha
[00:28:04] Né, porque a gente não tem
[00:28:06] A gente não manda
[00:28:08] O limite
[00:28:10] Do quanto a audiência
[00:28:12] Essas coisas
[00:28:12] Podem ditar
[00:28:16] Os rumos do entretenimento
[00:28:17] São dentro de opções muito limitadas
[00:28:19] Que nos são dadas pelas pessoas que pagam
[00:28:22] O meu salário
[00:28:23] Olha, vamos lá
[00:28:25] Primeiro, power to the people
[00:28:27] Sim, não, eu não tô dizendo que deveria
[00:28:30] Na sociedade atual
[00:28:32] Será que a gente tem o poder?
[00:28:33] Não, então, esse que eu acho que é um ponto
[00:28:35] Importante, porque eu mesmo sou contra
[00:28:37] Totalmente essa redução
[00:28:40] Do, ah, basta você
[00:28:42] Usar sacolinha plástica
[00:28:44] E show aquecimento global
[00:28:45] Eu acho que tem dois movimentos que são necessários
[00:28:48] Eu acho que
[00:28:49] Isso nunca é abordado nos filmes
[00:28:51] Um desses movimentos é justamente
[00:28:53] Na retomada da agência pelas
[00:28:55] Massas, então, assim
[00:28:56] A gente tem uma cultura
[00:28:59] Na verdade, a gente tem
[00:29:01] Um aparato montado
[00:29:03] Para que a gente seja conformado
[00:29:06] A ele ao longo de toda a nossa vida
[00:29:07] Então, assim, da escola
[00:29:09] Do primário até o entretenimento que a gente
[00:29:11] Consome, tudo é moldado
[00:29:13] Para que a gente siga determinados padrões
[00:29:14] E eu acho que pensar um pouco
[00:29:17] Fora desses padrões, tentar recuperar
[00:29:19] A nossa agência popular
[00:29:21] É um processo fundamental
[00:29:22] E recuperar a agência
[00:29:25] Popular, né
[00:29:26] Recai justamente num
[00:29:28] Reconhecimento
[00:29:30] É…
[00:29:32] Daquilo que se passou, né
[00:29:35] Reconhecimento daquilo que estamos fazendo
[00:29:37] O primo Levi, ele tinha
[00:29:39] Dois conceitos que eu acho que eram muito interessantes
[00:29:41] Para falar sobre o nazismo
[00:29:43] Olha só onde eu vou, hein
[00:29:44] O primeiro, ele falava assim, cara
[00:29:46] Existe a culpa e a vergonha
[00:29:49] Nós não temos que ter
[00:29:51] Nós que não fomos partícipes, né
[00:29:53] Que não fomos agentes, não temos que ter culpa
[00:29:55] Pelo nazismo
[00:29:56] Nós temos que sentir vergonha
[00:29:58] Porque vivemos em um mundo que foi capaz de produzir aquilo
[00:30:01] E devemos agir, atuar
[00:30:03] Para que aquilo não aconteça novamente
[00:30:04] A vergonha é produtiva nesse sistema
[00:30:07] Agora, existem pessoas que tem culpa
[00:30:09] Então, por isso que eu acho
[00:30:11] Que, por exemplo, quando a gente vai falar disso
[00:30:12] É fundamental a gente falar que
[00:30:14] Nós, enquanto consumidores
[00:30:17] Temos que ter vergonha disso
[00:30:19] Porque nós temos responsabilidades
[00:30:21] Agora, nós não somos os responsáveis
[00:30:23] Esses tem culpa
[00:30:25] Então, assim, tem um processo
[00:30:27] Um, de retomada
[00:30:29] Da agência popular, retomada do poder
[00:30:31] Pelas pessoas, do poder sobre suas próprias
[00:30:33] Vidas, né, inclusive toda essa discussão
[00:30:35] Sobre redes sociais, passa por aí
[00:30:38] Como é que a gente pode
[00:30:39] Melhorar o nosso uso das redes
[00:30:41] Como é que a gente pode criar um movimento
[00:30:42] De empoderamento, não gosto muito dessa palavra
[00:30:45] Especialmente nesse sentido, né
[00:30:47] Mas criar uma
[00:30:49] Contratática, uma tática de guerrilha
[00:30:51] Contra essa massificação
[00:30:53] Contra todas essas agências
[00:30:55] Que estruturam, que colonizam nossa libido
[00:30:57] E, por outro lado
[00:30:58] Como é que a gente pode cobrar dessas pessoas
[00:31:01] Né, aquilo
[00:31:02] Pelas quais elas têm responsabilidade
[00:31:04] Cobrar dessas pessoas a culpa delas
[00:31:06] Se eu fosse fazer o show de Truman
[00:31:09] Se eu, se diretor eu fosse
[00:31:10] Né, um grande produtor de Hollywood
[00:31:12] O meu filme passaria pelas duas discussões
[00:31:15] Numa, a população
[00:31:17] Retomaria e compreenderia
[00:31:19] O seu papel
[00:31:20] Naquele entretenimento, né
[00:31:22] No reforço daquele entretenimento
[00:31:25] E, por outro lado
[00:31:26] As agências, os conglomerados
[00:31:29] De mídia seriam responsabilizados
[00:31:31] Por aquilo, porque assim, eu sinceramente
[00:31:33] O show de Truman viola uma série de
[00:31:35] Comete graves violações de direitos humanos
[00:31:37] É, isso que eu ia dizer, tipo, na nossa versão do filme
[00:31:40] A gente ia inclusive mostrar que no mundo real
[00:31:41] Existem protestos, né
[00:31:43] Pessoas nas ruas pedindo a liberdade
[00:31:46] Do Truman
[00:31:46] Do mesmo jeito que existem
[00:31:48] O Free Britney
[00:31:50] Uhum, uhum, leave Britney alone
[00:31:53] Exatamente
[00:31:55] E aí
[00:31:56] Eu, eu, eu achei informadíssima
[00:31:59] Quem conhece, tipo, os primeiros memes da internet
[00:32:02] Vai ficar muito feliz que se lembrou desse
[00:32:04] É
[00:32:05] O, o, o
[00:32:07] E aí, vamos, vamos passar
[00:32:09] No mesmo ano, aí você deve estar pensando
[00:32:11] Ah, mas o Truman Show, né, tão fake
[00:32:13] Tão longe
[00:32:14] No mesmo ano que saiu o Truman Show
[00:32:16] Estreou um outro
[00:32:18] Um reality show de verdade, no nosso mundo aqui
[00:32:21] Real
[00:32:22] Uh, chamado
[00:32:24] Sussu no Denpa Show
[00:32:25] Né, que é um show que se chama
[00:32:25] Que é, uh, o
[00:32:28] O reality show
[00:32:29] Que dá pra traduzir mais ou menos como
[00:32:31] Life of Prizes, uma vida de prêmios
[00:32:34] Que foi um reality show
[00:32:35] Japonês que durou
[00:32:36] Quatro anos, Orlando
[00:32:39] Quase, um pouco mais de quatro anos, na verdade
[00:32:41] De janeiro de 98 a março de 2002
[00:32:43] E aí
[00:32:45] Basicamente, é tipo
[00:32:47] O Ed TV que a gente vai
[00:32:49] Analisar aqui, que é
[00:32:50] O, o, o, a Nippon Television
[00:32:52] Foi lá e falou assim, queremos alguém pra
[00:32:55] Ser o nosso
[00:32:57] Reality Star, nós vamos levar você pra um
[00:32:59] Ah, pra um
[00:33:01] Pra um apartamento e filmar você 24 horas por dia
[00:33:04] Mas você não sabe o que vai acontecer
[00:33:05] E aí as pessoas estavam disputando
[00:33:07] Pra, ah, né, se inscrevendo
[00:33:09] Pra poder ficar famoso
[00:33:11] Então, e aí o cara que foi escolhido
[00:33:13] É hoje, né, conhecido como Nasub
[00:33:15] Ele, né, o nome dele
[00:33:17] De nascimento é Tomoaki Hamatsu
[00:33:19] E ele era um comediante já
[00:33:21] Ele queria ser um comediante
[00:33:23] Não era ninguém conhecido e ele
[00:33:25] Viu nisso uma oportunidade
[00:33:27] Tipo, vou me inscrever
[00:33:28] E aí foi selecionado, sem saber o que ia acontecer
[00:33:31] E aí, eventualmente, no dia que o programa
[00:33:33] Ia começar a ser transmitido, ele foi levado a um apartamento
[00:33:35] Bem pequenininho, né, tradicional
[00:33:37] Da cultura japonesa
[00:33:39] De uma ilha que não tem muito espaço
[00:33:41] E aí eles
[00:33:43] Pediram pra ele tirar todas as roupas
[00:33:45] Que ele tava usando, ficar totalmente pelado
[00:33:47] E que ele só podia usar o que ele tinha ali no apartamento
[00:33:50] Que eram milhares
[00:33:51] Milhares não, várias revistas
[00:33:53] Todas com
[00:33:55] Formulários pra você entrar em concursos
[00:33:57] Né, sorteios
[00:33:58] E aí ele tinha que acumular 10 mil dólares
[00:34:01] Em prêmios desses sorteios
[00:34:03] Pra poder sair do apartamento
[00:34:04] E ele não tinha comida também
[00:34:06] Então ele ia poder só se alimentar
[00:34:08] Do que ele conseguisse ganhar
[00:34:09] Então, enfim
[00:34:12] Continua, Orlando
[00:34:14] Porque é muita informação
[00:34:16] É muito absurdo
[00:34:17] Mas antes de continuar, eu quero falar uma coisa
[00:34:19] Cara, a gente tem que procurar um patrocínio de escolas de línguas
[00:34:22] Porque você tá impressionante, cara
[00:34:24] Obrigado, cara
[00:34:25] É, enfim
[00:34:27] Grupos conglomerados de escolas de línguas
[00:34:30] Não vamos falar o nome porque a gente não vai fazer propaganda aqui de graça
[00:34:33] Nos patrocinem
[00:34:34] Qualquer língua eu pronuncio
[00:34:37] Meu, perfeito
[00:34:38] Perfeito
[00:34:39] Eu só preciso do preparo
[00:34:42] Cara, o que eu achei
[00:34:44] Essa história
[00:34:47] Do Nasub
[00:34:48] Ela é grotesca
[00:34:52] Porque assim
[00:34:52] Ela é grotesca em tantos níveis
[00:34:55] Porque você tem isso
[00:34:57] Um sujeito é enganado
[00:34:59] É colocado pra viver
[00:35:00] Ele fica quase dois anos preso, né, dentro da casa
[00:35:02] Mas é isso que eu acabei de ver
[00:35:03] Um pouco mais de dois anos
[00:35:05] Porque janeiro de 98 a março de 2002
[00:35:08] Ele só fica sozinho, nu
[00:35:10] Dentro daquela casa
[00:35:12] Exato
[00:35:12] Depois a gente vai botar o link disso, né
[00:35:16] É, tudo o que a gente tá falando aqui
[00:35:19] A gente baseou num documentário
[00:35:20] Que tá no YouTube
[00:35:21] Que foi feito por um canal de YouTube
[00:35:23] E aí tem o nome aqui na descrição
[00:35:25] E tal, você pode assistir
[00:35:26] Aí na sua casa
[00:35:27] E assim, tudo, literalmente tudo
[00:35:30] Se vocês não estão entendendo
[00:35:31] Tudo, por exemplo, tem um momento que ele ganha arroz
[00:35:33] E tenta comer o arroz cru
[00:35:35] Porque ele não tinha onde cozinhar o arroz
[00:35:36] Ele comemora
[00:35:39] Não, é mais triste
[00:35:40] Porque ele comemora quando chega um saco de arroz
[00:35:43] Que ele ganhou num concurso
[00:35:44] E aí, depois de comemorar
[00:35:47] Ele percebe que ele não tem como comer o arroz
[00:35:50] E ele tenta comer cru
[00:35:51] Não consegue
[00:35:52] Aí ele
[00:35:55] Desculpa
[00:35:55] Ele acha um jeito
[00:35:56] De cozinhar
[00:35:58] De cozinhar o arroz dentro de um saquinho de outra coisa
[00:36:02] Tipo, que aí ele bota a água da pia
[00:36:03] E o arroz
[00:36:04] E aí ele dá um jeito ali, assim
[00:36:07] Basicamente ele fica isolado num quarto durante dois anos
[00:36:10] Nu, vivendo disso
[00:36:11] E aí vem o ponto
[00:36:12] Quando ele tava prestes a sair
[00:36:14] Levaram ele pra Coreia
[00:36:16] Aí fizeram
[00:36:17] Mas, calma, não
[00:36:18] Uma coisa
[00:36:19] Por que que ele está nu?
[00:36:21] Porque em nenhum momento
[00:36:22] Ele conseguiu achar
[00:36:23] Ganhar um concurso
[00:36:24] Que desse roupa
[00:36:25] Em primeiro lugar
[00:36:26] E aí a segunda
[00:36:27] Primeira coisa
[00:36:28] Ele muda de apartamento uma vez antes
[00:36:30] Lembra?
[00:36:30] Porque em algum momento
[00:36:31] Ele começa a ficar notoriamente deprimido
[00:36:33] O que faz todo sentido
[00:36:34] Tipo, é muito estranho
[00:36:35] Uma das coisas muito estranhas dessa história
[00:36:37] É que ele nunca para
[00:36:38] De fazer
[00:36:40] Ele se inscrevia em centenas de concursos por dia
[00:36:43] Né?
[00:36:44] É um bagulho absurdo, assim
[00:36:46] E tudo preenchido à mão ali
[00:36:48] Fica preenchendo
[00:36:49] Os negocinhos
[00:36:49] E aí
[00:36:50] Eles, quando percebem que ele tá ficando deprimido
[00:36:52] Mudam ele pra outro apartamento
[00:36:54] Quase deprimido
[00:36:54] É idêntico
[00:36:55] Pra ver se ajuda
[00:36:56] E claro que não ajuda, né?
[00:36:57] Mas, por exemplo
[00:36:58] Tem um momento
[00:36:59] É porque ele tava perdendo os concursos
[00:37:01] Aí teve uma coisa
[00:37:01] Sério, foi uma coisa assim mesmo
[00:37:03] Ele tava tendo má sorte
[00:37:04] E aí pegaram ele
[00:37:06] E mudaram pra melhorar
[00:37:07] Porque parece que
[00:37:08] Falaram assim
[00:37:08] Ah, não
[00:37:09] Aquele apartamento não tá dando sorte pra ele
[00:37:10] Mudaram de apartamento por isso
[00:37:12] E aí que vem um ponto que
[00:37:13] Você falou disso
[00:37:15] De ele participar dos concursos e tal
[00:37:17] Viver só disso o dia inteiro
[00:37:20] E isso que é
[00:37:22] Que é
[00:37:22] Mas, assim
[00:37:23] Em vários momentos
[00:37:24] Ele
[00:37:25] Ele fica desesperado, né?
[00:37:27] Porque ele
[00:37:27] Às vezes ele passa dias sem comer
[00:37:28] Então ele vai vendo que ele vai emagrecendo, né?
[00:37:31] E aí quando ele vai falar pra câmera
[00:37:32] Isso tudo era transmitido via streaming
[00:37:35] Um streaming bem primitivo
[00:37:37] É
[00:37:37] No começo
[00:37:39] Passava, tipo, uns melhores momentos
[00:37:41] Acho que todo dia na TV
[00:37:42] Mas, eventualmente, ali durante esse tempo
[00:37:45] Eles criaram um streaming
[00:37:47] Pra quem queria ver o tempo inteiro
[00:37:48] É, e aí ficava
[00:37:49] Tinha uma equipe que ficava 24 horas
[00:37:51] Acompanhando ele na tela
[00:37:53] Pra ficar
[00:37:54] Como é que é?
[00:37:56] Censurando o pênis e a bunda dele, né?
[00:37:59] Porque não podia aparecer
[00:37:59] Então ficava com um objetozinho
[00:38:01] Pra ele não aparecer pelado
[00:38:02] E aí, cara, que é muito louco
[00:38:04] Porque, assim
[00:38:04] Em vários momentos ele
[00:38:06] Ele simplesmente derretia na frente da câmera
[00:38:09] Ele chorava
[00:38:10] Ele falava as coisas
[00:38:11] E aí o que acontece?
[00:38:11] Na edição
[00:38:12] Colocavam risada
[00:38:14] Colocavam aplausos
[00:38:15] Colocavam, sabe?
[00:38:16] Faziam piada com aquilo
[00:38:17] Pra quê?
[00:38:18] Pra falar
[00:38:19] Para o espectador
[00:38:20] Que aquilo era um entretenimento
[00:38:22] Então, assim
[00:38:22] As pessoas estavam ali
[00:38:24] Extremamente
[00:38:24] As pessoas
[00:38:25] É aqui que eu falo da responsabilidade, né?
[00:38:28] A audiência foi crescendo
[00:38:31] Você falou
[00:38:31] No começo era só um
[00:38:33] Ele tinha um programa diário, né?
[00:38:35] Tinha um Melhores Momentos
[00:38:36] Mas a audiência cresceu de tal maneira
[00:38:37] Que eles
[00:38:38] Isso no final da década de 90
[00:38:40] Não era fácil
[00:38:40] É, 98
[00:38:41] Assim, imagina o custo
[00:38:43] Pra você criar um streaming
[00:38:45] É isso, né?
[00:38:46] Essa própria tecnologia
[00:38:47] De ficar escondendo em tempo real
[00:38:48] As partes íntimas dele
[00:38:50] É algo que, tipo assim
[00:38:51] Eles tiveram que desenvolver
[00:38:52] Ali naquele momento
[00:38:53] Pro público que estava ali
[00:38:54] Imagina o investimento
[00:38:56] Ou seja
[00:38:57] Imagina quanto a gente estava assistindo
[00:38:58] E quanto dinheiro
[00:38:59] Isso estava retornando
[00:38:59] Para os donos da TV, né?
[00:39:01] É
[00:39:01] E aí
[00:39:02] Que a coisa só vai piorando
[00:39:03] Porque quando estava chegando
[00:39:04] Próximo de ele ganhar
[00:39:05] Ele vai lá
[00:39:06] E levam ele
[00:39:07] Para um parque de diversões
[00:39:08] Na Coreia
[00:39:08] E aí
[00:39:09] Não, então
[00:39:10] É que na verdade é assim
[00:39:10] Vamos lá
[00:39:11] Ele tinha
[00:39:12] O primeiro objetivo dele foi
[00:39:13] Ganhar 10 mil dólares em prêmios
[00:39:17] Ele demorou 335 dias
[00:39:20] Para chegar nisso
[00:39:20] Mas ele chegou
[00:39:21] E aí
[00:39:22] Eles decidiram
[00:39:23] Tipo
[00:39:24] Não, não, não
[00:39:24] Você vai continuar
[00:39:25] Agora você tem que conseguir
[00:39:25] 100 mil
[00:39:27] Dólares em prêmios
[00:39:30] Eles aumentaram o coisa
[00:39:31] Ah, ok, beleza
[00:39:32] Aí eles levaram ele para a Coreia
[00:39:34] Como se fosse um prêmio
[00:39:35] E essa é a parte muito cruel
[00:39:37] Eles levam ele para a Coreia
[00:39:39] E aí
[00:39:41] Ele acha que, tipo
[00:39:42] Ah, é um prêmio, beleza
[00:39:43] E daqui a pouco levam ele para um apartamento
[00:39:44] Trancam ele
[00:39:45] E falam
[00:39:46] Aqui estão as revistas
[00:39:47] Mesma coisa do que antes
[00:39:48] Só que agora você tem que conseguir
[00:39:50] Em prêmios
[00:39:51] O preço
[00:39:52] De uma
[00:39:53] Passagem de primeira classe
[00:39:55] De volta para o Japão
[00:39:56] Para você poder voltar para o Japão
[00:39:57] E
[00:39:58] Todas as revistas são coreanas
[00:40:00] Então você tem que aprender coreano
[00:40:02] Então aqui está um dicionário
[00:40:02] Japonesco-coreano
[00:40:03] Cara, isso é muito absurdo, bicho
[00:40:05] Então se você acha que eu tenho habilidades com línguas
[00:40:07] Esse homem
[00:40:08] Ele conseguiu
[00:40:09] Ele, tipo assim
[00:40:11] Quando tudo acabou
[00:40:13] Ele acabou
[00:40:15] Porque ele conseguiu
[00:40:16] Na verdade o prêmio
[00:40:17] E aí
[00:40:18] Não, só um detalhe
[00:40:19] Ele não conseguia mais usar roupas
[00:40:22] Porque ele ganhou roupa
[00:40:23] Quando ele foi para a Coreia
[00:40:24] Ele não conseguia
[00:40:25] Ele tirou a roupa
[00:40:25] Ele não conseguia mais usar roupa
[00:40:27] É, ele não conseguia socializar direito
[00:40:29] Porque ele ficou isolado
[00:40:30] Desculpa, eu só queria corrigir uma coisa
[00:40:32] O programa passou de 98 a 2002
[00:40:35] Desculpa
[00:40:35] Mas essa jornada do Nasub
[00:40:37] Aparentemente teve outras pessoas e tal
[00:40:40] A jornada do Nasub
[00:40:41] Contando a Coreia e tudo
[00:40:42] Foram 15 meses
[00:40:43] Então foram 335 dias
[00:40:45] No Japão ali
[00:40:47] E depois o resto
[00:40:48] Eu acredito que já é na Coreia
[00:40:51] Não, então
[00:40:52] E aí só que depois
[00:40:53] Teve outros dias
[00:40:53] Participantes
[00:40:54] Um deles, por exemplo
[00:40:55] Só se alimentava
[00:40:56] Quando o time que ele apostava
[00:40:57] Ganhava
[00:40:58] O cara via de aposta
[00:41:00] O cara
[00:41:00] Imagina isso para o sujeito, cara
[00:41:02] E assim
[00:41:03] Mas esse que é o ponto
[00:41:04] Por isso que eu estava falando
[00:41:04] Dessa questão de responsabilidade
[00:41:06] Vergonha e culpa
[00:41:08] Todos nós
[00:41:10] Eu, você
[00:41:11] O ouvinte
[00:41:12] Todos nós
[00:41:14] Temos que sentir
[00:41:15] Vergonha
[00:41:16] Por viver
[00:41:17] Numa sociedade
[00:41:19] Que produz esse tipo de entretenimento
[00:41:22] Porque assim
[00:41:22] Basicamente
[00:41:23] Cara, é visível
[00:41:25] Você vê o vídeo do sujeito
[00:41:26] Ele está definhando
[00:41:29] Não, é tortura
[00:41:30] Não tem outra definição
[00:41:31] Para o que está acontecendo ali
[00:41:32] E a gente chamou aquilo de entretenimento
[00:41:35] Não só a gente chamou aquilo de entretenimento
[00:41:37] Como a gente faz outras versões daquilo
[00:41:39] Como entretenimento até hoje
[00:41:40] A gente não está tão distante disso
[00:41:43] Quer ver um exemplo disso nessa época?
[00:41:47] Aquele No Limite
[00:41:48] Que o quadro mais lembrado
[00:41:50] Quando as pessoas tinham que comer
[00:41:52] Quando as pessoas tinham que comer
[00:41:53] Coisas repugnantes
[00:41:54] Exatamente
[00:41:55] Então assim
[00:41:56] A gente tem que parar
[00:41:58] Para ver
[00:41:59] O que
[00:42:00] O que a gente está consumindo
[00:42:02] De sofrimento alheio
[00:42:05] Enquanto entretenimento
[00:42:06] E no final
[00:42:07] A gente vai fechar isso aqui
[00:42:08] Para falar de redes sociais
[00:42:10] Porque assim
[00:42:10] Esse foi um processo que só
[00:42:12] Piorou
[00:42:13] Exato
[00:42:14] A gente está falando de televisão
[00:42:16] Mas como a gente sempre fala aqui
[00:42:19] A tela é o que importa
[00:42:21] Então hoje a nossa tela
[00:42:22] Está muito mais
[00:42:22] Na internet
[00:42:23] Na rede social do que na televisão
[00:42:24] Mas a natureza da relação
[00:42:27] É a mesma
[00:42:28] Você está vendo televisão
[00:42:30] Algo que está longe
[00:42:31] E vem até os seus olhinhos ali
[00:42:33] Através da tela
[00:42:34] Uma coisa que eu queria voltar
[00:42:36] Na sub
[00:42:37] É que eu acredito que
[00:42:39] É muito palpável
[00:42:44] Quando você está vendo ali
[00:42:45] O documentário e vendo a situação
[00:42:47] É que os produtores
[00:42:49] Se aproveitam do fato
[00:42:51] De que eles sabem
[00:42:53] Que eles vivem numa sociedade
[00:42:54] No caso especificamente no Japão
[00:42:57] Onde as pessoas evitam
[00:42:59] O confronto ao máximo
[00:43:00] Socialmente
[00:43:02] E aí eles sabem
[00:43:04] Que é isso
[00:43:05] Que eles podem ir mudando as regras
[00:43:06] E exigindo mais
[00:43:07] E meio que esse cara
[00:43:09] Como são as figuras de autoridade ali
[00:43:11] E tal
[00:43:12] Tem uma questão muito grande
[00:43:15] De respeito à hierarquia
[00:43:16] Tanto na cultura quanto na língua japonesa
[00:43:18] Eles sabem o que eles estão fazendo
[00:43:21] Eles sabem que eles podem
[00:43:22] Abusar desse cara
[00:43:23] Mas a gente também faz isso
[00:43:27] Acho que não tem nada tão diferente
[00:43:30] Eu não estou dizendo assim
[00:43:31] O Nasub só poderia acontecer lá
[00:43:33] Inclusive
[00:43:34] Só porque o que se faz
[00:43:37] Aqui no Brasil
[00:43:39] Em alguns realities
[00:43:40] E não apenas
[00:43:41] Porque aquelas pessoas querem ser famosas
[00:43:45] Basicamente o input é esse
[00:43:46] Elas podem passar pelo que a gente quiser fazer com elas
[00:43:49] A gente eu digo os produtores
[00:43:50] Não é nada muito diferente né
[00:43:52] Vamos pegar essas pessoas e levá-las ao limite
[00:43:55] Sabe
[00:43:56] O próprio confinamento
[00:43:59] A gente sabe
[00:43:59] A gente passou por um ano aqui
[00:44:01] Onde muitas pessoas tiveram que lidar com algum tipo de confinamento
[00:44:04] Não é bom pra gente
[00:44:06] Imagina um monte de pessoas estranhas
[00:44:08] Mesmo quando ele não é flexível
[00:44:10] Mesmo quando ele é flexível de alguma maneira
[00:44:13] Mesmo quando ele não é forçado
[00:44:15] É uma coisa que você está fazendo por autopreservação
[00:44:16] Preservação das pessoas ao seu redor
[00:44:18] É difícil lidar com o isolamento
[00:44:21] E aí você
[00:44:22] Imagina um confinamento forçado
[00:44:24] Que é tipo ah beleza
[00:44:25] Todo mundo pode sair a hora que quiser
[00:44:27] Mas na realidade do momento ali
[00:44:30] Ela está se forçando a estar ali
[00:44:31] É eu lembro do primeiro episódio
[00:44:33] Do primeiro Big Brother
[00:44:34] Teve aquele episódio do Bambam
[00:44:36] Que ele entrou em surto
[00:44:38] Porque tiraram uma boneca que estava na casa
[00:44:40] Teve uma outra mulher lá
[00:44:42] Que teve um surto também
[00:44:44] Enfim esse tipo de coisa acontecer
[00:44:47] Nessas situações
[00:44:48] Não é uma coincidência
[00:44:52] Não é coincidência
[00:44:53] Isso de fato acontece
[00:44:54] E é digamos não é um acidente
[00:44:56] É o projeto
[00:44:57] E aí eu acho que a gente pode passar
[00:45:00] Para o terceiro filme né
[00:45:02] Falar de Dark City né cara
[00:45:04] Ah eu ia falar do Edge TV
[00:45:06] O que você prefere Dark City ou Edge TV
[00:45:08] Vamos falar de Edge TV porque o Dark City é mais
[00:45:10] Abstrato eu acho a conexão dele com o tema
[00:45:12] Mas existe
[00:45:13] Aí a gente encerra com Dark City pode ser
[00:45:15] O ouvinte está vendo aqui por trás das câmeras
[00:45:19] Baking off
[00:45:21] Baking off
[00:45:21] Olha só
[00:45:22] Aqui é realidade
[00:45:23] Esse foi um momento de realidade no seu pop cult
[00:45:26] Se fosse realidade mesmo a gente estava se xingando
[00:45:30] Se ameaçando
[00:45:30] Eu vou revelar aquelas fotos suas
[00:45:33] Tudo isso aqui parece realidade
[00:45:35] Mas é roteirizado como eu falei semana passada
[00:45:37] Eu sou só um cara que interpreta o Gus e esse cara aí
[00:45:39] Interpreta o Orlando e na verdade é uma pessoa só que faz
[00:45:41] Ótimas vozes
[00:45:42] Aí o outro filme que eu ia falar é de TV
[00:45:47] Que é talvez o único filme que o Ron Howard
[00:45:49] Dirigiu na vida que eu gosto
[00:45:50] E que é um filme que
[00:45:52] Eu retornei a ele
[00:45:54] Tal qual eu retornei ao Pentelho
[00:45:56] Achando que tipo
[00:45:56] Ah eu acho que tem uma premissa boa mas é um filme ruim
[00:45:59] E é tipo não
[00:45:59] No final das contas eu acho que tem uma premissa boa
[00:46:02] E é um filme bom também
[00:46:03] Edge TV
[00:46:05] Eu descobri hoje a adaptação de um filme
[00:46:08] Na verdade
[00:46:10] Franco-canadense
[00:46:11] De 1994 chamado
[00:46:14] Eu não sei falar 19 em francês
[00:46:17] Então eu vou falar
[00:46:18] Você sabe falar 19 em francês?
[00:46:21] Agora eu falhei
[00:46:22] Eu falhei
[00:46:22] Não consigo porque minha língua está fodida
[00:46:24] Tá, ah beleza, então tá
[00:46:26] Mas Louis Le Roi des Ondes
[00:46:27] Que é o rei das ondas
[00:46:29] The king of the airwaves
[00:46:31] Mas enfim
[00:46:31] É que o nome em inglês era
[00:46:38] King of the airwaves
[00:46:39] Achei engraçado, parece o nome de banda
[00:46:42] Da década de 60 né
[00:46:43] Mas aí Edge TV é um filme de 1999
[00:46:46] Né
[00:46:47] Cuja premissa é
[00:46:49] Um canal de reality shows
[00:46:51] Decide
[00:46:52] Anuncia
[00:46:53] Vamos fazer um reality show que é 24 horas
[00:46:55] O canal vai passar 24 horas
[00:46:58] A vida dessa pessoa
[00:46:59] Você quer ser essa pessoa?
[00:47:01] E eles começam a, né, saem pelos Estados Unidos
[00:47:03] Tentando achar essa pessoa
[00:47:04] Eventualmente eles chegam num bar em São Francisco
[00:47:07] Onde tá o Woody Harrison
[00:47:09] Que é o irmão falastrão, bufão
[00:47:11] Do Edge
[00:47:13] Que é o Matthew McConaughey
[00:47:15] E aí o irmão
[00:47:16] Woody Harrison sendo ele mesmo, né?
[00:47:17] Sendo ele mesmo
[00:47:18] Ele nem sabia que tava ligado a câmera
[00:47:20] Exatamente
[00:47:22] E aí ele
[00:47:23] Edge TV é um Edge TV do Woody Harrison
[00:47:25] Na verdade o filme se chama Woody TV
[00:47:27] Quando ele tava produzindo
[00:47:28] Porque na verdade o Woody Harrison tava no filme sem saber
[00:47:31] Foi um jeito de economizar dinheiro na produção
[00:47:32] Mas aí é isso
[00:47:33] Aí ele vai pra frente da câmera
[00:47:35] E mostra que todo mundo no bar gosta dele
[00:47:38] Conhece ele, começa a contar umas histórias
[00:47:39] Começa a querer se exibir
[00:47:40] E nisso ele chama o Edge, o irmão dele
[00:47:43] Meio tímido e tal
[00:47:44] E o Edge é isso
[00:47:45] É um cara de 31 anos que trabalha como atendente
[00:47:49] Numa locadora de vídeo
[00:47:50] Só pra gente saber que é exatamente isso
[00:47:52] Tinha um filme de 1999
[00:47:53] Enfim, ele é o retrato
[00:47:56] Da geração
[00:47:59] Da geração X mais velha ali
[00:48:02] Do final dos anos 90
[00:48:03] Que é o Slacker, né?
[00:48:04] Que eles chamavam, né?
[00:48:06] Que é o cara que passou pelo cinismo do grunge
[00:48:09] Essas coisas
[00:48:09] Rejeitou a ideia de botar uma gravata
[00:48:12] E virar parte do mundo corporativo
[00:48:15] Mas meio que não tem muito o que fazer
[00:48:16] Não tem muita grana e tal
[00:48:17] É visto como um perdedor pela sociedade
[00:48:19] Mas ele tá tranquilo com isso
[00:48:22] E isso que é o interessante do filme
[00:48:23] Que eu não lembrava
[00:48:24] Que assim, o Edge
[00:48:25] O que que ele é no filme?
[00:48:27] Ele é o americano médio
[00:48:29] Tanto que uma das primeiras cenas que a gente vê
[00:48:31] Ele tá com uma camiseta escrita Wonder Bread
[00:48:33] Que é o símbolo
[00:48:36] Do gosto medíocre americano
[00:48:39] Mas
[00:48:41] Por que que ele é escolhido
[00:48:42] Pela personagem da Ellen DeGeneres
[00:48:43] Que faz a executiva lá do canal
[00:48:46] Ele é escolhido
[00:48:47] Que faz ela mesma, basicamente, exato
[00:48:49] Não, ela parece um pouco mais
[00:48:52] Legal nesse filme do que ela na vida real
[00:48:53] E aí, ele é um ser
[00:48:56] Totalmente sem vergonhas
[00:48:58] E por quê?
[00:49:00] Porque ele é um ser totalmente sem ambições
[00:49:02] Ele inclusive fala com a personagem da Ellen
[00:49:04] Sobre isso, que ele fala assim, tipo
[00:49:06] Ah, ela pergunta, qual o seu sonho?
[00:49:08] Ele fala assim, eu não sei qual é o meu sonho ainda
[00:49:10] Não sei o que eu quero, sabe?
[00:49:12] E aí, por causa disso ele é um cara totalmente sem vergonha
[00:49:14] Por isso que ele é o cara que
[00:49:16] Pode ser o personagem
[00:49:18] Principal dessa produção
[00:49:20] Megalomaríaca
[00:49:22] Porque é isso, porque ele compartilha a vida dele
[00:49:25] Sem problema nenhum
[00:49:26] Uma cena é ele sentado no banheiro
[00:49:28] Fazendo cocô
[00:49:29] E mostra, não, eu fiz esse espelho aqui
[00:49:31] Enquanto eu fico no banheiro, eu consigo ver a televisão
[00:49:34] Então se eu estou vendo o jogo aqui
[00:49:35] Eu posso vir ao banheiro sem ter que perder o jogo
[00:49:38] E ele com muito orgulho da invenção dele
[00:49:41] Enfim
[00:49:42] Ele é um cara totalmente
[00:49:44] Tranquilão
[00:49:46] Que é o tipo de personagem que o Matthew McConaughey
[00:49:48] Adora fazer
[00:49:50] Mas, e aí, o grande
[00:49:52] Conflito é esse cara lidando
[00:49:54] Com a super exposição e principalmente
[00:49:55] As pessoas ao redor dele, né? Como que isso afeta
[00:49:57] A família dele e eventualmente a namorada
[00:50:00] Que era a namorada do irmão
[00:50:01] Que aí fica com ele e aí o irmão
[00:50:03] Veio pela TV, enfim, tudo mais
[00:50:05] Mas é um filme muito interessante
[00:50:07] Ele é um filme muito bom
[00:50:10] Pra mostrar que
[00:50:11] Tipo assim, a gente quer se exibir
[00:50:14] Quer se mostrar, ele adora quando vê
[00:50:15] O cartaz lá no ônibus
[00:50:17] Com a cara dele e tal, só que
[00:50:19] Ninguém quer mostrar as próprias vergonhas
[00:50:21] E aí no final, o grande plano dele
[00:50:24] A única maneira que ele acha
[00:50:25] De escapar do programa
[00:50:26] Porque ele quer acabar com isso e poder ficar com a namorada dele
[00:50:29] Em paz e ela não gosta da exposição
[00:50:31] Que ela sofre, até porque o filme é muito bom
[00:50:33] Em retratar como que a exposição que ele sofre
[00:50:35] E que ela sofre são diferentes só porque ela é uma mulher
[00:50:37] Né? Que como que
[00:50:38] Começa a sair matéria em jornal
[00:50:41] Tipo, ela merece ele?
[00:50:43] Ela é gostosa? Quem são mulheres mais bonitas com quem ele podia sair?
[00:50:46] Não sei o que
[00:50:46] Tem uma hora que uma velhinha interpela ela e fala assim
[00:50:48] Você deveria usar mais maquiagem
[00:50:50] Exatamente
[00:50:51] Então assim, o filme é muito astuto nesse sentido
[00:50:54] E aí o jeito que o Ed acha de vencer
[00:50:56] A burocracia do sistema
[00:50:58] Que travou ele nesse contrato draconiano
[00:51:01] É que ele decide
[00:51:02] Ah, eu vou expor, eu vou dar um jeito de expor
[00:51:04] Alguma grande intimidade vergonhosa
[00:51:07] De um dos executivos da TV
[00:51:09] E aí quem acaba ajudando ele
[00:51:11] Nisso é a personagem da Ellen
[00:51:13] Lá que vira um pouco
[00:51:13] Que aí eles fazem pra ela um arco
[00:51:16] Que justifica você ter uma certa empatia por ela
[00:51:18] Que não existe com o personagem do Ed Harris
[00:51:20] Né?
[00:51:21] No show de Truman
[00:51:22] E aí quando ele tá prestes a revelar
[00:51:25] Ele começa a fazer aquele rufar de tambores
[00:51:27] Então aqui ó, eu vou revelar
[00:51:29] E aí o executivo fica com o cu na mão
[00:51:31] E tira o programa do ar
[00:51:32] E paga todo o contrato dele
[00:51:34] Então ele fica rico, fica com a namorada
[00:51:36] E sai do ar
[00:51:37] E o filme meio que termina deixando
[00:51:39] Happy End americano
[00:51:41] E o filme, a última fala do filme
[00:51:45] É alguém na TV falando
[00:51:46] Ah, em cinco anos a gente vai ter esquecido esse cara
[00:51:48] Que é muito verdade
[00:51:51] Assim, se você olha o filme
[00:51:51] Se você olha pro volume de entretenimento
[00:51:53] E pessoas famosas que a gente
[00:51:55] Tem que decorar o nome hoje em dia
[00:51:57] É muito, você esquece as coisas muito rápido
[00:51:59] Né? Acho que talvez em 99
[00:52:01] O ritmo não fosse tão rápido, por isso que demoraria
[00:52:03] Cinco anos. E é mais
[00:52:05] Prescindente ainda porque esse filme foi um fracasso
[00:52:07] De bilheteria e foi esquecido
[00:52:09] Também. Eu tenho uma
[00:52:11] Questão que eu quero falar. Posso falar?
[00:52:14] Deve
[00:52:15] Ah, ó
[00:52:16] Por que assim?
[00:52:19] Eu só demorei pra responder que eu tava tomando um colidado
[00:52:21] É, teve um
[00:52:23] Tem um tom de suspense aí, entendeu?
[00:52:25] Conflitos, conflitos, conflitos
[00:52:27] Crise na gávea, crise na gávea
[00:52:28] É, não, mas assim
[00:52:31] Primeiro de tudo, eu tenho uma questão sobre esse filme
[00:52:33] Qual foi, qual foi
[00:52:35] Olha como tá difícil falar com a língua, cara
[00:52:37] Tá doendo
[00:52:37] Qual foi o budget
[00:52:40] De maconha desse filme?
[00:52:44] Cara, com Woody Harrison
[00:52:45] E Matthew McConaughey
[00:52:46] Cara, sabe aquele, o filme do Between Two Firms
[00:52:49] Cara, sabe o que que é o mais legal desse filme?
[00:52:51] Você pergunta isso?
[00:52:52] Sim
[00:52:52] Cara, pensa comigo
[00:52:56] Que tipo, esses dois atores depois foram reunidos
[00:52:59] Em True Detective
[00:53:00] Tipo, pensa
[00:53:04] Tipo, duas vibes
[00:53:05] Mais, tipo, opostas possível
[00:53:08] Ai, cacete
[00:53:10] Imagina a decepção deles dois de se reencontrar
[00:53:14] Depois de quase 20 anos
[00:53:16] E alguém falar pra eles
[00:53:17] Não, mas dessa vez vocês vão ter que atuar
[00:53:19] Eles, porra
[00:53:20] Por que esse filme é isso?
[00:53:21] Tem uma atuação naturalista das pessoas
[00:53:23] Woody Harrison tá sendo ele ali, ui, né
[00:53:24] Mas assim, tem uma coisa que eu acho que é interessante
[00:53:27] Nesse filme, porque quando tu olha pra ele
[00:53:29] Ele é um filme que
[00:53:31] Envelheceu
[00:53:33] Envelheceu, porque ele é um filme sobre
[00:53:35] Um tipo de mídia, um tipo de tecnologia
[00:53:37] Que já não existe mais
[00:53:38] Por que que não existe mais?
[00:53:40] É impressionante que como a ideia de que
[00:53:43] Olha, nossa, você vai ter uma vida
[00:53:45] Você vai ser vigiado 24 horas por dia
[00:53:48] Você vai, a sua vida vai virar entretenimento
[00:53:50] Para outras pessoas, e sei lá o que
[00:53:51] Que na década de 90
[00:53:53] Parecia uma distopia
[00:53:55] Né?
[00:53:57] É a realidade das pessoas, né?
[00:53:59] Porque assim
[00:54:00] E que as pessoas perderiam o interesse, né?
[00:54:03] O filme acaba com uma tese
[00:54:05] De que, ah não, tudo bem
[00:54:07] Mas tipo, você nunca vai passar o resto da sua vida
[00:54:09] Assistindo… Errado, errado
[00:54:11] É esse que eu compro
[00:54:12] Passar o resto da vida assistindo o Instagram dessas pessoas
[00:54:15] É isso, assim, você vai ficar vendo o Instagram
[00:54:17] Dos seus amigos até eles ou você morrer
[00:54:19] Não, e esse que é um ponto que eu acho que
[00:54:21] Que é importante
[00:54:22] Porque o filme, ele explora esse interesse
[00:54:25] Sádico, inclusive
[00:54:27] Porque o sadismo dos espectadores
[00:54:28] Está ali presente, né?
[00:54:30] Ainda que, mais uma vez, rapidamente é tirado da cena, né?
[00:54:33] Tipo, as pessoas ficam meio que do lado dele
[00:54:35] Quando ele vai querer
[00:54:36] Ir contra a grande corporação
[00:54:39] Porque Estados Unidos tem isso, né?
[00:54:41] É, e eu não penso mais na época ainda
[00:54:43] Exato, eu acho que
[00:54:45] Nos anos 90 ainda sobrava
[00:54:47] Um pouco disso que era muito forte nos filmes dos anos 80
[00:54:49] E depois um pouco nessa slack
[00:54:51] Culture dos anos 90, mas hoje
[00:54:53] Muito menos, mas o que o filme faz muito bem
[00:54:55] E eu acho que ele faz melhor do que o show de Truman
[00:54:56] É que ele fica cortando o tempo
[00:54:59] Inteiro pro público
[00:55:00] Né? E meio que ele corta
[00:55:03] O Truman faz isso também, né?
[00:55:04] Que ele corta pras mesmas pessoas, então tem os dois
[00:55:07] Amigos que um fica sempre prevendo
[00:55:08] Eles vão matar aquele cara lá
[00:55:10] Ele vai ficar com ela, prevendo como se fosse
[00:55:13] Um roteiro, aí o
[00:55:15] Outro que é tipo o casal, que assim
[00:55:16] Que a mulher é super interessada e o marido tipo
[00:55:18] Ah, por que você tá vendo isso? E aí eventualmente ele fica
[00:55:21] Super vidrado, e aí
[00:55:22] Enfim, tem vários, você vai vendo
[00:55:25] Vários tipos demográficos
[00:55:27] Ali que sendo sugados
[00:55:28] Pela narrativa da vida dele, mas
[00:55:30] O filme ele se vale muito
[00:55:32] Dessa visão ultrapassada
[00:55:34] Que envelheceu, como você
[00:55:36] Tá dizendo, que tipo assim, que as pessoas são tão
[00:55:38] Interessadas porque a vida dele é muito interessante
[00:55:40] Porque aí eu preciso fazer um parênteses
[00:55:42] Sobre como esse filme na verdade
[00:55:44] É sobre o drama da monogamia
[00:55:47] Por quê?
[00:55:49] Vamos lá, o que que acontece?
[00:55:51] Enredo, como que tipo assim, né
[00:55:52] São pessoas incapazes de se conformar
[00:55:55] Com as expectativas de uma sociedade monogâmica
[00:55:57] E isso causa todo o problema na vida delas
[00:55:59] Por quê? Vamos lá, a vida dele tá sendo
[00:56:01] Filmada e nada tá acontecendo de interessante
[00:56:03] E não tem audiência
[00:56:04] E aí o que acontece é que ele vai visitar o irmão dele
[00:56:07] Um dia, e aí
[00:56:09] O irmão abre a porta
[00:56:11] E aí você ouve uma voz feminina perguntando
[00:56:13] Ah, onde é que tem, onde é que tá o leite
[00:56:15] E tal, e o Woody Harrison responde
[00:56:17] O Woody Harrison de roupão
[00:56:19] Assim, claramente que pode sair da cama
[00:56:21] E aí o Ed fala
[00:56:23] Oi Sherry, que é o nome da namorada do Woody Harrison
[00:56:25] E a voz responde
[00:56:27] Quem é Sherry?
[00:56:29] E aí a Sherry está assistindo
[00:56:31] Na TV isso acontecer
[00:56:32] E aí o irmão convence o Ed
[00:56:35] Não, você tem que ir lá
[00:56:36] Convencer minha namorada de que
[00:56:38] Tudo, né, de que ela tem que me perdoar por ter traído ela
[00:56:41] Aí o Ed vai
[00:56:43] Consolar ela, nisso ele confessa
[00:56:45] Que está apaixonado por ela e ela confessa
[00:56:47] Que está apaixonada por ele
[00:56:48] E o irmão vê na TV
[00:56:51] Aí, esse é o grande conflito entre ele e o irmão
[00:56:54] E aí que isso é resolvido no fim
[00:56:55] No fim eles resolvem o conflito
[00:56:56] De uma maneira, acho que até bem razoável
[00:56:59] Que é tipo, tá tudo bem?
[00:57:01] É, tá tudo bem
[00:57:01] Mas aí a gente caminha pra, o que?
[00:57:04] Tem a mãe dos dois
[00:57:05] A mãe dos dois fala que o pai abandonou eles
[00:57:09] Quando eles eram pequenos
[00:57:11] E deixou a família
[00:57:13] O pai reaparece e fala
[00:57:15] Não, eu não abandonei sua mãe, ela que me expulsou de casa
[00:57:17] E aí o Ed vai confrontar a mãe
[00:57:19] Sobre isso e ela fala assim, não, mas eu cheguei em casa e ela me expulsou de casa
[00:57:19] E ela fala assim, não, mas eu cheguei em casa e ela me expulsou de casa
[00:57:19] E ela fala assim, não, mas eu cheguei em casa e ele tava transando com a mulher
[00:57:22] E aí ele falou assim
[00:57:24] Mas quando, mas peraí, quando foi isso?
[00:57:26] Ela fala, aí ele, não, mas ele só foi embora de casa
[00:57:28] Seis anos depois
[00:57:29] E ela, não, mas enfim, não importa, ele me tratava mal, não sei o que
[00:57:32] E aí ela vira pro padrasto
[00:57:34] Deles e vira e fala, não é verdade, Al?
[00:57:36] E aí ele vira e fala assim, não, peraí
[00:57:37] Você falou que só conheceu o Al depois que você se separou do nosso pai
[00:57:40] E aí
[00:57:42] Tem um sistema, né?
[00:57:44] Aí é tipo, ah, você estava tendo meu pai com ele
[00:57:45] Aí o pai dele morre
[00:57:48] Pô, mas eu me enrolei muito nessa história
[00:57:49] Caralho, cara, tipo, porra
[00:57:51] Aí o pai dele morre
[00:57:53] E aí, não, a mãe dele liga pra ele um dia
[00:57:56] Tá no hospital, falando assim, ele morreu
[00:57:57] Ele teve um ataque cardíaco
[00:57:59] E você fica achando que é o Al, que é o padrasto
[00:58:01] Que é o padrasto super legal, só que ele tá numa cadeira de rodas
[00:58:04] Ele respira oxigênio, ele tá muito prestes a morrer
[00:58:06] E aí
[00:58:07] O Ed vai correndo
[00:58:09] Pro hospital, tentar achar a mãe
[00:58:11] E nisso ele chega no hospital junto com o padrasto
[00:58:14] Ele olha pro padrasto e fala, você não morreu?
[00:58:16] Aí ele, não, eu sou
[00:58:17] Os vizinhos me trouxeram aqui porque disseram que sua mãe tava no hospital
[00:58:19] E aí a gente descobre que quem morreu
[00:58:22] Foi o pai dele, que a mãe foi reencontrar
[00:58:24] E transando com o pai dele
[00:58:25] O pai dele morreu, o pai dele teve um ataque cardíaco transando
[00:58:27] Ou seja
[00:58:29] Esse filme inteiro só tem conflito
[00:58:32] Por causa
[00:58:33] Da monogamia, mas aí tudo bem, isso é muito comum em Hollywood
[00:58:36] Mas o que eu queria dizer é
[00:58:36] Existe no filme uma crença de que as pessoas
[00:58:39] Só começam a assistir e se interessar
[00:58:41] Quando rola esse conflito
[00:58:42] Tipo, ah, o irmão traiu e não sei o que
[00:58:45] E agora, uh, ele pegou o namorado do irmão, não sei o que
[00:58:47] Quando, na verdade, a gente sabe
[00:58:49] Que não precisa de tanta coisa pra gente, não
[00:58:51] Então, isso que eu ia voltar
[00:58:53] Pra esse ponto, né
[00:58:55] Eu ia amarrar isso com o show de Truman
[00:58:57] Porque
[00:58:58] A primeira, assim, o show de Truman
[00:59:01] Na maior parte do tempo as pessoas estão assistindo o tédio
[00:59:03] A vida do Truman é um tédio
[00:59:05] Ele acorda, vai trabalhar
[00:59:07] E ele tem um trabalho
[00:59:09] Totalmente entediante, né
[00:59:11] Tipo, ele trabalha num banco
[00:59:13] Executando hipoteca, sabe
[00:59:15] Umas coisas assim
[00:59:16] E nesse
[00:59:18] As pessoas estão assistindo aqui
[00:59:19] Não precisa ter grandes acontecimentos
[00:59:21] E de fato, assim, tiveram grandes acontecimentos
[00:59:23] Tiveram, teve a morte do pai
[00:59:25] A menina que foi embora, sei lá o que
[00:59:27] Mas no geral ele teve uma vida muito
[00:59:29] Aquela vida média do sonho americano
[00:59:31] Muito sem graça
[00:59:32] Exato, mas assim
[00:59:33] Aquilo é entretenimento
[00:59:36] Apenas pela expectativa
[00:59:39] De que aquilo seja entretenimento
[00:59:41] Entendeu? É que nem a coisa do Instagram
[00:59:43] Os stories das pessoas
[00:59:45] Só é entretenimento
[00:59:47] Porque pela expectativa de que
[00:59:49] Aquilo seja entretenimento
[00:59:51] Então, por exemplo, fazendo aqui uma
[00:59:53] Meta-meta crítica
[00:59:54] Por exemplo, o fato da gente responder
[00:59:57] Mas a gente tá lá respondendo perguntas no Instagram
[00:59:59] Saca? Aquilo só é entretenimento
[01:00:01] Porque as pessoas esperam que seja
[01:00:03] Porque assim, se eu tô sentado lá
[01:00:05] Da pessoa, a pessoa tá me vendo respondendo
[01:00:07] Algumas perguntas aleatórias
[01:00:08] Ela não pode deixar aquilo interessante, sabe
[01:00:10] Ou a minha cachorra sentada
[01:00:12] Ou, sei lá, minhas plantas, sabe
[01:00:15] Aquilo só se torna entretenimento
[01:00:16] Porque a gente tem um condicionamento a conceber
[01:00:19] Aquilo que a vida da outra pessoa
[01:00:21] E esse
[01:00:21] Que a vida de outra pessoa
[01:00:24] Que a existência mediana da outra pessoa
[01:00:26] Pode ser compreendida por nós
[01:00:28] Pode ser consumida como entretenimento
[01:00:30] E isso
[01:00:31] Não é algo
[01:00:34] Tão natural assim quanto a gente imagina
[01:00:36] A gente naturalizou isso
[01:00:37] Orlando, Orlando, eu preciso que
[01:00:40] Você me diga que a gente não tá vivendo
[01:00:42] Uma simulação, porque acabou de acontecer algo
[01:00:44] Eu
[01:00:46] Eu rolei o Twitter enquanto você falava
[01:00:49] Mas eu tava pensando que a gente não tá vivendo uma simulação
[01:00:49] Eu tava prestando atenção
[01:00:50] E aí eu vi algo
[01:00:52] Não, mas eu vi algo
[01:00:55] Que ilustra exatamente
[01:00:56] O que você tá falando
[01:00:58] Porque agora eu não sei mais o que sentir
[01:01:00] Eu não acabei de te contar que no filme
[01:01:02] A mãe dele vai lá transar com o pai
[01:01:05] E o pai morre de um ataque cardíaco
[01:01:07] O Matthew McConaughey
[01:01:09] Deu uma entrevista
[01:01:10] Há dois dias
[01:01:12] Contando que isso aconteceu
[01:01:15] Que o pai dele morreu
[01:01:17] O pai dele, Matthew McConaughey, morreu quando a mãe dele
[01:01:19] Tava transando com ele
[01:01:20] Ou seja, a gente tava
[01:01:23] Quando viu o EdTV
[01:01:25] Se entretendo
[01:01:26] Com a realidade da morte desse homem
[01:01:29] E que agora ele usa como outra
[01:01:31] Outro entretenimento
[01:01:32] Que tipo, tempo passou o suficiente pra que isso não seja mais uma tragédia na cabeça dele
[01:01:35] Imagino que isso aconteceu há muito tempo
[01:01:37] Até porque esse filme é antigo
[01:01:37] Que ele usou, né, ele deve ter
[01:01:40] Dado essa sugestão pro roteirista
[01:01:43] E pro diretor
[01:01:43] Mas aí, ele agora volta
[01:01:46] E dá uma entrevista, né, respondendo perguntas
[01:01:49] Ao qual eu e você
[01:01:50] E aí ele decide
[01:01:52] Que tipo, olha só o que vai ser interessante
[01:01:54] O que vai ser um novo capítulo interessante
[01:01:57] Nesse espetáculo
[01:01:59] Que é ser a pessoa famosa
[01:02:00] Matthew McConaughey
[01:02:01] É contar que meu pai morreu transando
[01:02:04] Pois é
[01:02:04] E aí eu achei essa informação enquanto a gente tava gravando isso
[01:02:08] Falando sobre isso, entendeu, Orlando?
[01:02:10] Não, eu…
[01:02:11] Não é só porque você é paranoico
[01:02:14] Que eles não estão atrás de você, cara
[01:02:15] Essa é uma frase que a gente tem que levar aqui em consideração
[01:02:18] Exato
[01:02:19] Mas assim, esse que é o ponto que
[01:02:21] Que é um ponto que eu acho que é importante, né
[01:02:23] Por que que…
[01:02:24] A própria noção de entrevista, né
[01:02:26] Por que que a opinião de certas pessoas é entretenimento?
[01:02:30] Sabe?
[01:02:31] É que nem a gente tem hoje, a figura do ator comentando política
[01:02:34] Sabe?
[01:02:35] Por que que a opinião desse cara é importante?
[01:02:38] Sobre um determinado assunto
[01:02:39] Então assim, esse universo
[01:02:42] Que a gente vive que
[01:02:43] Se espera entretenimento
[01:02:45] Que a vida do outro se torna entretenimento
[01:02:47] Que de fato é
[01:02:49] É um desdobramento das revistas de fofoca
[01:02:51] Das revistas de fama da década de 60, 70, né
[01:02:54] Que é um tipo de entretenimento
[01:02:55] Que foi criado ali, que não existia
[01:02:57] Então essa ideia de que a vida do meu vizinho
[01:03:00] Me interessa
[01:03:00] Cara, isso aí não é uma
[01:03:02] Isso não é uma coisa, a vida do meu vizinho não me interessa, sobretudo
[01:03:05] Mas assim, isso não é uma coisa natural
[01:03:07] Natural, né
[01:03:08] E aí que vem o ponto
[01:03:10] Aquilo que a gente, mesmo nesses cenários, e eu acho que é uma coisa que é fundamental
[01:03:13] A gente tem que ter a noção
[01:03:15] De que aquilo, que a vida do outro que a gente tá consumindo
[01:03:18] Enquanto…
[01:03:19] Enquanto entretenimento
[01:03:20] É também uma vida editada
[01:03:21] É uma vida tão surreal, tão irreal
[01:03:24] Quanto a vida do Truman
[01:03:25] Eu, por exemplo, não tô 24 horas por dia me filmando
[01:03:28] Sabe?
[01:03:29] A minha personalidade que tá na internet
[01:03:32] A pessoa que as pessoas veem ali, a maneira como eu tô respondendo stories
[01:03:35] Eu tô gravando um podcast, sei lá o quê
[01:03:36] É uma edição da minha própria vida
[01:03:38] Como os reality shows
[01:03:40] Então assim, as pessoas acham que aquilo é a realidade
[01:03:43] Que aquilo é o Orlando
[01:03:44] Porque elas esperam, elas têm
[01:03:45] Esse desejo, que é um desejo muito típico
[01:03:49] Nessa sociedade
[01:03:49] De que aquilo seja real
[01:03:51] É justamente aquilo ser real que é um valor
[01:03:54] Né?
[01:03:55] No EdTV
[01:03:57] O que rola é que ele não pode escapar
[01:04:01] Como a gente pode
[01:04:02] Tipo, ah, eu não estou me filmando nesse momento
[01:04:03] Eu não estou tweetando nesse momento
[01:04:05] Porque ele tá sendo filmado 24 horas por dia
[01:04:07] Mas o que acontece, que a gente vê
[01:04:09] A partir do momento que ele está sendo filmado o tempo todo
[01:04:11] Quem ele era antes morre
[01:04:12] Porque ele não pode ser ele, porque ele tá performando
[01:04:14] Porque ele sabe que ele tá sendo filmado
[01:04:16] E aí é muito interessante
[01:04:17] Desculpa
[01:04:19] O filme, ele entra nisso
[01:04:20] E ele entra no que você tá falando
[01:04:22] Porque ele corta o tempo inteiro pra pessoas comentando o próprio fenômeno
[01:04:25] E aí tem uma cena genial
[01:04:26] Que eu não sei se ela é tão genial quanto eu imagino
[01:04:29] De propósito
[01:04:30] Ou se foi só, tipo, alguma coisa foi cortada
[01:04:33] Mas é o seguinte
[01:04:33] Tem o melhor amigo do Ed
[01:04:35] E ele é só, tipo, um cara de camiseta e touca
[01:04:38] Que fica lá, tipo, conversando com o Ed, fumando cigarro
[01:04:40] E do nada, ele aparece na televisão um dia
[01:04:44] Pera aí, cara
[01:04:45] Não, tá de sacanagem
[01:04:47] Hoje tá difícil
[01:04:48] O quê?
[01:04:48] O quê?
[01:04:48] O quê?
[01:04:48] O quê?
[01:04:48] O quê?
[01:04:48] O quê?
[01:04:48] O quê?
[01:04:48] O quê?
[01:04:48] O quê?
[01:04:48] O quê?
[01:04:48] O quê?
[01:04:48] Nesse exato momento que você tava falando comigo
[01:04:50] Acabei de receber um e-mail falando que minha conta foi verificada no Twitter
[01:04:53] Agora eu sou uma pessoa real, cara
[01:04:55] Você existe
[01:04:57] Você é o Pinóquio que virou um menino de verdade
[01:04:59] Eu sou um menino real
[01:05:00] Eu sou um menino real
[01:05:00] Eu sou um menino de verdade
[01:05:02] Foi nóis
[01:05:02] GP
[01:05:03] Tem esse amigo que tá sempre lá de camiseta e tal
[01:05:06] Slacker igual o Ed
[01:05:07] Conversando com ele
[01:05:08] E aí a gente tá sempre cortando pra programas de TV
[01:05:10] Discutindo o impacto de Ed TV
[01:05:13] Então a pessoa só
[01:05:13] Nossa, que horror que a televisão agora é isso
[01:05:16] E outra pessoa
[01:05:16] Não, é fascinante
[01:05:17] E aí
[01:05:18] Corta uma hora pra um programa desses de, né
[01:05:22] Panel show, assim, vários convidados discutindo
[01:05:24] E tá esse amigo do Ed
[01:05:25] De terno, com um cachimbo na boca
[01:05:28] Claramente, né, afetando todo esse look
[01:05:30] E ele vira e fala assim
[01:05:32] Olha, o que eu acredito
[01:05:33] É que antigamente você tinha alguma virtude
[01:05:36] Que lhe levava a ser famoso
[01:05:38] Mas nós vivemos agora numa sociedade americana
[01:05:40] Onde a fama em si
[01:05:42] É vista como uma virtude
[01:05:44] Então, você é especial porque você é famoso
[01:05:46] Você não é famoso porque você é especial
[01:05:48] E nunca se toca no assunto
[01:05:50] De que ele tava na televisão falando sobre o próprio amigo
[01:05:52] Tipo, em todas as outras cenas que ele aparece
[01:05:53] Ele está de volta de camiseta e calça jeans
[01:05:56] Ou seja, ele mesmo como crítico cultural
[01:05:58] É só mais um cara
[01:06:00] Tentando ficar famoso com uma imagem
[01:06:02] Irreal
[01:06:03] Sim, então esse que é um ponto que eu acho que é importante, cara
[01:06:06] Inclusive essa coisa da verificação
[01:06:08] Foi muito doida por conta disso
[01:06:10] Né, assim, porque
[01:06:12] Esse que é o ponto, assim
[01:06:14] O entretenimento
[01:06:16] Da vida alheia
[01:06:17] Ele é um entretenimento da vida alheia
[01:06:18] Ele é um entretenimento, assim
[01:06:19] A gente tá muito mais obcecado de aquilo ser algo
[01:06:22] De a gente acreditar naquela ilusão
[01:06:24] Pra aquilo poder se tornar um entretenimento
[01:06:25] Do que de fato focado
[01:06:27] Nos efeitos que aquilo tem sobre a gente
[01:06:30] No show de Truman, por exemplo
[01:06:32] As pessoas ficavam vendo o Truman dormir
[01:06:36] O cara falava isso várias vezes
[01:06:37] As pessoas ficam vendo a televisão ligada o tempo todo
[01:06:39] Vendo ele dormir
[01:06:39] E muita gente vê isso no Big Brother mesmo
[01:06:42] E tem gente que faz na internet
[01:06:45] Sleep stream
[01:06:46] Sim, sim, então assim
[01:06:48] Porque o que tá em jogo ali é justamente
[01:06:50] A ilusão do real é o próprio entretenimento
[01:06:54] Né, muito mais do que o conteúdo em si
[01:06:57] Do que tá sendo passado ali
[01:06:58] Porque se você for ver um filme, por exemplo
[01:07:00] Eu duvido que as pessoas vão ver um filme
[01:07:02] Sei lá, do
[01:07:03] Do Tarkovski
[01:07:05] Onde o sujeito dorme seis horas
[01:07:07] Ninguém vai assistir esse filme
[01:07:09] Agora, se é um reality show, as pessoas deixam aquilo ali clicado
[01:07:13] Sacou?
[01:07:14] Então assim, é justamente
[01:07:15] É todos esses processos que a gente tava falando aqui
[01:07:18] É justamente todos esses processos que a gente tava falando aqui
[01:07:18] Tipo assim, ah, é a vida do Matthew McGregor
[01:07:20] É tipo, é o verificado
[01:07:22] É a realidade
[01:07:23] Isso só se torna um valor em si
[01:07:26] Numa sociedade obcecada
[01:07:28] Com esse valor
[01:07:29] Porque esse valor nessa sociedade
[01:07:31] Que tá se perdendo justamente
[01:07:33] De tanta ilusão
[01:07:36] Porque esse que é uma das grandes obsessões do ocidente também
[01:07:38] Estamos num mundo de ilusão
[01:07:40] Eles buscam
[01:07:41] Desesperadamente a realidade
[01:07:44] Uma realidade pra chamar de sua
[01:07:46] Então assim
[01:07:47] Esses filmes que exploram
[01:07:50] Essa ideia de que
[01:07:51] Ah, cara, como
[01:07:53] A vida real se torna entretenimento
[01:07:56] Eles são muito bons pra se pensar
[01:07:58] Dessa obsessão que nós temos
[01:08:00] Uma obsessão justamente
[01:08:02] Que tá presente
[01:08:03] 24 horas
[01:08:05] Nas redes sociais, na maneira como consumimos o Twitter
[01:08:08] Na maneira como consumimos o Instagram
[01:08:10] Na maneira como consumimos o Facebook
[01:08:11] Porque ninguém é aquelas fotos do Facebook
[01:08:14] Tem um filme que é bem legal
[01:08:15] A gente ainda vai falar desse filme
[01:08:17] O filme com o…
[01:08:18] Meu Deus do céu
[01:08:19] O…
[01:08:20] Meu Deus, Gus
[01:08:21] Com o nome dele
[01:08:21] O Robin Williams
[01:08:22] Robin Williams
[01:08:23] Meu Deus do céu
[01:08:24] No qual ele é um psicopata
[01:08:26] Que acha que as pessoas
[01:08:26] São as pessoas das fotografias, né?
[01:08:28] Que ele fica obcecado com a vida
[01:08:30] Nas fotografias das pessoas
[01:08:31] Que as pessoas nas fotografias
[01:08:32] Estão sempre alegres
[01:08:33] E na vida real não estão
[01:08:33] É daqui uns 4 episódios
[01:08:35] Sim
[01:08:35] E aí, enfim
[01:08:37] Esse que é um valor
[01:08:39] E aí que vem um ponto que eu acho que
[01:08:41] Que vai juntar os três
[01:08:43] E vai falar do próximo filme
[01:08:44] Porque assim
[01:08:45] Nós temos o…
[01:08:47] Entretenimento enquanto valor
[01:08:49] Assim, a realidade enquanto um valor em si
[01:08:52] E esse valor pode se tornar um entretenimento
[01:08:53] E ao mesmo tempo não concebemos
[01:08:56] Que muitas vezes
[01:08:58] Aquilo que nós esperamos da realidade
[01:09:01] É uma espera sádica
[01:09:04] Porque assim
[01:09:05] Mais do que uma celebridade em ascensão
[01:09:07] A gente quer uma celebridade derretendo
[01:09:09] Mais do que uma Britney Spears cantando
[01:09:12] Baby One More Time
[01:09:13] Ela cantava isso?
[01:09:14] Era ela?
[01:09:15] A Britney sim
[01:09:16] E eu cantava
[01:09:17] Toda vez que eu vou no karaokê
[01:09:18] Eu canto
[01:09:19] Cara, eu mando muito bem essa música
[01:09:21] Eu não vou pedir pra você cantar no final do episódio não
[01:09:23] Não, mas eu posso botar o áudio
[01:09:26] De algum vídeo de eu cantando no final do episódio
[01:09:28] Existem múltiplos
[01:09:30] Tá certo, então
[01:09:31] Sinto por vocês, ouvintes
[01:09:35] Eu não vou fazer
[01:09:36] Eu não vou escutar esse episódio
[01:09:37] Cara, teve um episódio do Papo Torto
[01:09:39] Que era eu sozinho
[01:09:40] E eu cantei
[01:09:41] É de Mota Capela
[01:09:42] E as pessoas gostaram
[01:09:43] Eu tô ligado nisso
[01:09:44] Eu estou ligado
[01:09:45] Foi quando a gente tava fortalecendo a nossa amizade
[01:09:47] E eu não vou fazer isso mais
[01:09:47] Foi, foi, foi
[01:09:48] Eu acho, cara, bicho
[01:09:49] É capaz de ter sido no mesmo dia
[01:09:51] Que a gente gravou a primeira vez juntos
[01:09:53] Porque eu lembro que eu tava sozinho no estúdio
[01:09:54] Gravando com você
[01:09:55] E eu acho que eu fiquei até mais tarde
[01:09:57] Só pra gravar o Papo Torto
[01:09:58] Eu lembro disso, eu lembro disso
[01:10:00] Mas enfim
[01:10:00] Então assim
[01:10:02] Porque assim, a gente espera
[01:10:03] Por exemplo
[01:10:03] Ok, a gente tá consumindo
[01:10:06] A vida perfeita das pessoas
[01:10:07] Dos influencers do Instagram
[01:10:09] Aquelas pessoas que tem corpos perfeitos
[01:10:11] Vidas
[01:10:11] Nossa, minha dieta e tal
[01:10:12] Coisa, exercício, sucesso, sei lá o quê
[01:10:14] Mas ao mesmo tempo
[01:10:16] A gente tá gravando
[01:10:17] Existe uma
[01:10:18] Na momento que essas pessoas começam a entrar em decadência
[01:10:22] Elas começam a receber mais atenção
[01:10:24] E ao mesmo tempo
[01:10:25] Que a gente reverbera
[01:10:28] Não só o sofrimento delas
[01:10:30] Mas como o nosso próprio sofrimento
[01:10:31] No momento que a gente começa a consumir
[01:10:33] Um monte de materiais, por exemplo
[01:10:35] Quando a gente tá consumindo
[01:10:37] Isso teve um fenômeno muito característico
[01:10:40] Nesse último Big Brother Brasil
[01:10:41] Que ele reverberou
[01:10:42] Ele por toda uma discussão fundamental
[01:10:45] Sobre o racismo
[01:10:46] Mas ele foi
[01:10:47] Ali na veia da coisa
[01:10:48] Ele foi feito
[01:10:49] Pra deixar as pessoas com raiva sobre isso
[01:10:51] Ele foi feito
[01:10:52] As pessoas
[01:10:52] É muita ingenuidade pensar
[01:10:54] Que aquele cast não foi selecionado
[01:10:55] Tendo isso em mente
[01:10:56] Tendo esses conflitos em mente
[01:10:58] Quando isso suscitou
[01:10:59] Você via que as pessoas estavam
[01:11:01] Capturava a libido das pessoas
[01:11:03] E as pessoas estavam falando sobre aquilo
[01:11:04] Aquela experiência da televisão
[01:11:06] Fazia com que certas pessoas
[01:11:08] Rememorassem as próprias experiências dolorosas
[01:11:11] E repercutissem isso
[01:11:12] Então você teve, digamos
[01:11:14] Uma pulverização da realidade
[01:11:16] O reality
[01:11:17] A experiência do reality
[01:11:19] Serve de gatilho pro sofrimento coletivo
[01:11:23] E esse sofrimento coletivo vai
[01:11:24] Se desdobrando
[01:11:25] Ele vai se desdobrando e vai atingindo todas as pessoas
[01:11:28] E isso se torna um entretenimento
[01:11:30] As pessoas ficam condicionadas
[01:11:32] A consumir aquilo
[01:11:34] Por conta desse efeito
[01:11:35] Tem um efeito sádico e masoquista ao mesmo tempo
[01:11:37] Não é só sádico, porque você não só quer ver aquela pessoa sofrer
[01:11:39] Muitas pessoas sofrem junto com ela
[01:11:42] Dez?
[01:11:45] Sim
[01:11:45] Sim
[01:11:45] Sim
[01:11:46] , eu quis devolver
[01:11:49] Porque, pra quem não sabe
[01:11:51] Alguém apontou no Twitter
[01:11:54] Que eu falo muita coisa
[01:11:58] E aí o Orlando só fala assim
[01:11:59] E aí
[01:12:00] Mas então, vou continuar aqui
[01:12:04] Porque assim, tem uma coisa que eu acho que é importante
[01:12:05] Que a gente vê nessa discussão anterior
[01:12:07] Que é justamente isso
[01:12:09] Esse é o tipo de mundo que a gente está consumindo
[01:12:12] Nós temos responsabilidade
[01:12:14] Sobre isso, temos
[01:12:15] Nós temos a culpa
[01:12:16] Não
[01:12:17] A culpa é das pessoas que fizeram essa arquitetura
[01:12:20] E por isso que eu trouxe esse filme
[01:12:21] Esse Dark City
[01:12:22] Que é um filme ali
[01:12:23] Final da década de 90, né?
[01:12:25] 2000
[01:12:25] Sim, 98
[01:12:26] Mesmo ano do Truman Show
[01:12:28] E aí eu quero fazer um paralelo aqui
[01:12:31] Que é o paralelo mais inútil
[01:12:32] Que eu acho que a gente já fez na história desse podcast
[01:12:34] Que é
[01:12:35] Esse filme é dirigido
[01:12:37] Pelo Alex Proyas
[01:12:39] Que é um diretor australiano
[01:12:41] É uma coprodução América
[01:12:43] Estados Unidos
[01:12:45] Austrália
[01:12:45] Austrália
[01:12:46] E o show de Truman é dirigido por Peter Weir
[01:12:49] Um diretor australiano
[01:12:51] É tudo que eu tenho pra você
[01:12:53] Pode continuar
[01:12:54] Acabou o roteiro, cara?
[01:12:58] É o único paralelo que eu achei
[01:13:01] Entendeu?
[01:13:02] Nesse sentido
[01:13:02] Do por trás das câmeras ali
[01:13:04] Foi a única coisa
[01:13:05] Os australianos fizeram Dark City
[01:13:08] E o show de Truman
[01:13:10] Tá certo, então
[01:13:12] Mas enfim, uma coisa que eu acho que
[01:13:13] Porque esse filme pouquíssima gente viu
[01:13:16] Esse filme conta a história de umas pessoas
[01:13:18] Que vivem em uma cidade
[01:13:19] Na verdade assim
[01:13:22] Ele conta a história de
[01:13:23] Uma população de aliens
[01:13:25] Que abduziu uma população de humanos
[01:13:27] E confinou esses humanos em uma cidade
[01:13:29] Totalmente maleável pela vontade dos aliens
[01:13:31] E os aliens ficam fazendo experimentos com os humanos
[01:13:34] Colocando, implantando memórias
[01:13:36] Pra ver aquelas pessoas se comportando
[01:13:38] De uma determinada maneira
[01:13:39] E eles chamam isso de experimento
[01:13:41] Mas dá pra ver que há um desejo sádico naquilo
[01:13:43] E toda a história se baseia
[01:13:45] Num sujeito que um belo dia acorda
[01:13:47] Com as memórias de que ele é um assassino
[01:13:49] Um assassino serial
[01:13:50] E o filme se baseia nesse
[01:13:53] Digamos, nesse processo
[01:13:55] De que os aliens estão ali como espectadores
[01:13:58] Vivendo todo aquele sofrimento
[01:14:00] Daquele sujeito
[01:14:00] Que tenta de alguma maneira descobrir quem ele é
[01:14:03] E de outra forma ele tenta escapar daquela realidade
[01:14:05] E ele vai se tornando consciente daquele mundo que ele vive
[01:14:08] Enfim
[01:14:08] É, porque o que acontece ali
[01:14:10] O estopim da coisa toda é que eles implantam memórias
[01:14:13] Nas pessoas
[01:14:14] E eles iam implantando
[01:14:15] Implantar nesse cara
[01:14:17] A memória de que ele é um assassino
[01:14:19] E aí eles implantam
[01:14:21] Toda a cenografia necessária
[01:14:23] Mas na hora de implantar a memória
[01:14:25] Ele acorda no momento
[01:14:27] Em que todo mundo está sempre dormindo
[01:14:29] Nunca tinha acontecido de uma pessoa
[01:14:31] Acordar enquanto eles estão implantando
[01:14:33] Memórias e aí eles não conseguem implantar a memória
[01:14:35] Então ele se vê totalmente
[01:14:37] Sem memórias, confuso
[01:14:38] Mas com sinais de que ele é um
[01:14:41] Assassino em série
[01:14:44] E esse que é um ponto
[01:14:45] Que eu acho que é importante
[01:14:46] Porque o filme é um filme que eu recomendo
[01:14:48] É um desses filmes que a gente estava falando assim
[01:14:50] O texto é melhor do que a realização
[01:14:52] Eu gosto muito de uma questão estética
[01:14:55] Que ele é um filme noir dos anos 90
[01:14:58] Matrix também, né
[01:15:00] E esse filme do Alex Proyas
[01:15:04] Ele é o rei, eu acho
[01:15:05] Do noir grunge
[01:15:07] Eu vou chamar
[01:15:08] Que é o Corvo
[01:15:10] Um dos seus melhores filmes preferidos, né
[01:15:13] Eu gosto muito desse filme
[01:15:14] Mas
[01:15:15] Eu vou te dizer, é o único filme dele que eu gosto
[01:15:17] Porque olha só, ele dirigiu
[01:15:19] Spirits of the Air, Gremlins of the Clouds
[01:15:23] Não sei que filme é esse
[01:15:24] E não quero saber, ok gente
[01:15:26] Mas a capa que tem do filme na Wikipedia
[01:15:28] É a capa japonesa
[01:15:29] Aí ele dirigiu o Corvo
[01:15:31] Aí ele dirigiu Dark City 4 anos depois
[01:15:34] E aí foi o filme que ele escreveu
[01:15:36] E dirigiu
[01:15:37] E aí a gente já viu que ele não serve pra isso
[01:15:39] E aí depois foi Garage Days
[01:15:41] Faço a mínima ideia que filme é esse, não quero saber também
[01:15:44] Não venham me explicar
[01:15:44] Aí ele fez Eu, Robô, que é péssimo
[01:15:47] E aí ele fez
[01:15:49] Knowing
[01:15:50] Que é um filme do Nicolas Cage
[01:15:53] Então talvez eu tenha que ver
[01:15:54] E aí depois ele fez o Deuses do Egito
[01:15:57] Aquele filme que só tem gente branca
[01:15:59] Não é o que ele tem um
[01:16:00] Ele tem uma premonição do fim do mundo
[01:16:03] Uma coisa assim?
[01:16:04] Sim, é isso aí
[01:16:05] Nossa, filme péssimo
[01:16:06] Ah, ok, então não vou ver
[01:16:07] E aí o último filme que ele fez foi em 2016, Deuses do Egito
[01:16:10] Que é aquele filme em que os deuses do Egito
[01:16:13] E todos os egípcios que aparecem
[01:16:14] São só pessoas brancas de armadura
[01:16:16] Esse filme é…
[01:16:18] E de novo, essa é uma crítica que eu fiz pra você
[01:16:20] Ao Dark City
[01:16:21] Antes da gente gravar
[01:16:23] Que é um filme que só tem gente branca
[01:16:26] Ele tem literalmente uma pessoa negra que aparece
[01:16:28] E não tem latinos, não tem nada
[01:16:30] Não tem nenhum asiático
[01:16:33] Se não me engano, é só gente branca
[01:16:35] O que é uma falha
[01:16:37] Não só na questão de representatividade
[01:16:39] Inclusão
[01:16:40] Mas é uma falha porque assim
[01:16:42] Perde-se tanta semiótica possível
[01:16:44] Ali, exatamente porque
[01:16:46] A figura desses vilões aliens
[01:16:48] Que contam todo mundo
[01:16:49] São essas figuras pálidas que nunca viram o sol
[01:16:52] Eles são tipo uns Nosferatu BDSM
[01:16:54] Telespectadores
[01:16:56] Eles são telespectadores
[01:16:58] E na verdade
[01:16:59] Aquela não é a forma real deles
[01:17:01] Eles usam corpos de pessoas mortas
[01:17:03] Como seus hospedeiros
[01:17:05] O que importa é, são um monte de gente branca, careca
[01:17:08] Como você já explicou
[01:17:11] Talvez no outro episódio
[01:17:12] Bebês gigantes
[01:17:14] E aí
[01:17:16] O filme
[01:17:19] Poderia ter uma
[01:17:21] Uma semiótica muito interessante
[01:17:22] Sobre essas figuras opressoras
[01:17:25] E a população ser diversa
[01:17:26] E tudo mais
[01:17:27] Jogado fora
[01:17:29] Esse que é um ponto
[01:17:32] Porque por exemplo
[01:17:33] Tem várias coisas jogadas fora
[01:17:35] Por exemplo, essa ideia desses monstros
[01:17:38] Que parecem um pouco com os cenobitas
[01:17:40] Mas uns cenobitas meio mafiosos
[01:17:41] É, o cenobita que não tem coragem de fazer pira
[01:17:44] Ele só bota roupinha de couro
[01:17:46] Mas ele não se fura
[01:17:47] É um cenobita conservador
[01:17:49] Ele é conservador
[01:17:50] É que ele é o cenobita que é a segunda semana dele na casa de swing
[01:17:54] Ele tá só observando
[01:17:56] Ele não sabe ainda se ele quer
[01:17:58] Tipo, não sei se eu quero cortar minha língua ao meio
[01:18:00] Então, mas esses
[01:18:02] Esses cenobitas
[01:18:04] Eles são espectadores
[01:18:06] Toda coisa deles é ser espectadores
[01:18:08] Eles manipulam aquilo
[01:18:10] Pra ver o que acontece
[01:18:11] Toda existência deles é pra manipular
[01:18:14] Eles são quase assim
[01:18:15] Ele é uma mistura de produtor de cinema com espectador
[01:18:17] Então assim
[01:18:18] Cara, tem uma
[01:18:21] Tem uma alegoria ao cinema nesse filme
[01:18:24] Que é uma coisa que me dá muita preguiça muitas vezes
[01:18:26] Que é filme sobre fazer filmes
[01:18:28] E que é o que normalmente ganha Oscar
[01:18:30] Então me impressiona que esse negócio não levou nenhum de maquiagem
[01:18:32] Pelo menos
[01:18:33] Mas é o seguinte, porque o negócio que eles fazem é o seguinte
[01:18:36] Eles tem o poder de mudar todo o espaço físico
[01:18:38] Com o poder da mente
[01:18:39] Que é um poder que aí o nosso protagonista ganha
[01:18:42] Então tipo, toda noite
[01:18:43] Eles rearranjam a cidade
[01:18:45] Mudam prédios de lugar
[01:18:46] E mudam o tamanho dos apartamentos e casas das pessoas
[01:18:49] Porque eles vão lá e implantam novas memórias
[01:18:52] Pra dar novas vidas
[01:18:54] Pra essas pessoas e ver como elas reagem
[01:18:56] Pra entender como o ser humano funciona
[01:18:58] E eventualmente eles conseguirem entender o que é a alma
[01:19:00] E como eles conseguirem almas para eles
[01:19:02] Ou seja
[01:19:04] O que eles fazem é que eles pegam atores
[01:19:06] Todas as noites e falam assim
[01:19:08] Agora você é esse personagem
[01:19:09] E vamos ver o que acontece
[01:19:11] Então eles são produtores
[01:19:12] Num sentido muito literal da coisa
[01:19:14] O que eles estão fazendo ali com aquelas pessoas
[01:19:16] É um Truman Show
[01:19:18] Você vai interpretar o papel que eu quero
[01:19:21] Numa peça de ficção
[01:19:23] Que você não sabe que é ficção
[01:19:24] Esses vilões são o que?
[01:19:26] Homens brancos, pardos, totalmente carecas
[01:19:29] E quem é Ed Harris?
[01:19:31] Um homem branco careca
[01:19:32] Verdade
[01:19:34] Olha só essa semiótica foi bem boa
[01:19:36] Foi bem precisa
[01:19:37] Mas assim
[01:19:38] Eu acho que é justamente isso
[01:19:41] Eles são produtores mesmo nesse sentido
[01:19:43] De atores que não sabem quem estão atuando
[01:19:46] E a vida dessas pessoas se converte
[01:19:48] Em entretenimento pra eles
[01:19:50] Na verdade essa curiosidade deles
[01:19:52] Tem toda uma explicação que assim
[01:19:53] Whatever, não ligo
[01:19:55] Que eles estão morrendo porque eles não tem alma
[01:19:57] Eles não tem alma
[01:19:59] E eles falam brevemente essa coisa
[01:20:01] Eles não são aqueles corpos que a gente está vendo
[01:20:04] Eles possuem os corpos
[01:20:06] De pessoas mortas
[01:20:07] Inclusive por isso que um dos líderes lá é uma criança
[01:20:09] E no final do filme a gente vê
[01:20:11] O que seria a forma real
[01:20:13] Desses alienígenas aí
[01:20:14] Que é tipo
[01:20:15] Como todo alien depois de alien
[01:20:17] É uma buceta com perna
[01:20:19] E é um 3D que envelheceu mal
[01:20:22] É um 3D que nem é 3D na verdade
[01:20:24] É aqueles 2D com transparência
[01:20:26] É um bagulho que alguém desenhou na película
[01:20:29] Direto
[01:20:29] Porque assim
[01:20:32] Esses personagens
[01:20:34] Eles são como o pentelho
[01:20:36] Do filme
[01:20:37] Porque eles querem aprender
[01:20:41] Por meio dessa encenação
[01:20:42] Eles querem aprender a ser pessoas
[01:20:44] Pela encenação
[01:20:45] Tem até um momento que um cara deles se injeta as memórias
[01:20:48] Inclusive nas cenas mais bregas do mundo
[01:20:51] Do tipo que o cara vira e fala assim
[01:20:52] O humano, o protagonista
[01:20:54] O que nós somos não está aqui apontando pra cabeça
[01:20:56] Aí eu falo assim, ele não vai apontar pro peito
[01:20:58] Não faz isso não meu querido
[01:20:59] Ele só não aponta pro peito
[01:21:02] Mas fica subentendido
[01:21:03] É triste
[01:21:05] O mais interessante eu acho desse filme
[01:21:08] É que aí entra numa questão que a gente levantou
[01:21:10] Semana passada também
[01:21:11] Que é tudo muito artificial
[01:21:13] Porque o filme ele tem
[01:21:14] Essa estética art deco, retrô
[01:21:17] Ele tá puxando muito
[01:21:19] Da estética dos filmes no ar do começo do século XX
[01:21:21] E aí
[01:21:22] Ele me lembrou, cara
[01:21:24] Pra você sacar o nível
[01:21:26] Da artificialidade que eu senti assistindo esse filme
[01:21:29] Ele me lembrou o filme do Dick Tracy
[01:21:31] Lembra?
[01:21:32] Com o Warren Beatty
[01:21:33] E aí faz todo sentido
[01:21:36] Quando você bota nesse molde
[01:21:39] Do que é aquela história
[01:21:41] São essas pessoas não humanas
[01:21:43] Tentando criar uma história humana
[01:21:45] Então faz todo sentido
[01:21:47] Que aquele mundo seja totalmente artificial daquele jeito
[01:21:49] É, isso aqui é aí que eu acho que
[01:21:51] Eu quero pegar pra aí
[01:21:53] Que é uma coisa que a gente vai deixar mais em aberto
[01:21:55] Pros próximos episódios
[01:21:56] É porque eu acho que esse filme
[01:21:59] É aquela coisa, o texto dele é melhor do que o filme em si
[01:22:02] Porque ele condensa
[01:22:03] Muito bem o que a gente tem
[01:22:05] De experiência das redes
[01:22:06] Porque o que nós temos hoje
[01:22:09] São subjetividades
[01:22:10] São pessoas
[01:22:11] Que estão aprendendo
[01:22:14] Que estão se condicionando
[01:22:16] Que estão se afetando
[01:22:17] Pelo consumo da vida de outras pessoas
[01:22:20] E o consumo de uma vida que é simulada
[01:22:23] A gente vai ter um episódio
[01:22:25] Muito interessante sobre isso
[01:22:26] Que é o episódio que a gente vai trazer o filme do Robin Williams lá
[01:22:28] Que é assim
[01:22:30] Que eu acho que
[01:22:31] E aí eu proponho aqui
[01:22:32] Já que naquele episódio não vai ter nenhum filme com aliens
[01:22:35] Eu proponho um exercício de pensamento
[01:22:39] Que eu acho que corrobora isso
[01:22:40] Que você tá falando que é
[01:22:41] Se um alienígena tivesse que tentar recriar
[01:22:44] A existência humana atual
[01:22:46] E a referência dele fosse só
[01:22:48] O que existe na rede
[01:22:50] Tipo, ele tem acesso à internet
[01:22:52] Ele consegue lá do planeta dele acessar a nossa internet
[01:22:55] E aí ele pega todas as nossas fotos
[01:22:57] Nossos vídeos, nossas mensagens, tudo
[01:22:58] Que realidade seria essa que ele criaria?
[01:23:01] Não seria a realidade que a gente vive
[01:23:03] Não seria
[01:23:04] E só uma coisa pra deixar interessante isso
[01:23:07] É lembrar daquele caso da inteligência artificial
[01:23:09] Da Microsoft
[01:23:10] Que se tornou um racista em menos de um dia no Twitter
[01:23:13] Sim, porque ela aprendeu com o Twitter
[01:23:16] Exatamente
[01:23:17] Então assim, é interessante pensar
[01:23:19] Que todo aquele cenário artificial
[01:23:21] É uma bela metáfora
[01:23:23] De toda essa experiência das redes
[01:23:25] Tal como o mundo de Truman
[01:23:28] É uma metáfora do entretenimento
[01:23:30] Uma metáfora desse entretenimento
[01:23:32] Que é de fato totalmente editado
[01:23:34] Mas que a gente acha que aquilo é realidade
[01:23:35] Não é realidade
[01:23:36] A vida do Instagram não é a vida real
[01:23:38] O que acontece é que nós
[01:23:40] Consumimos aquilo
[01:23:41] Nós temos uma vontade de consumir aquilo
[01:23:44] Enquanto realidade
[01:23:46] Pois, olha aí que eu vou fundo agora
[01:23:48] Tal como os
[01:23:50] Os Ed Harris
[01:23:53] Piorados ali do filme lá
[01:23:54] Do Dark City
[01:23:56] Nós estamos à procura de um sentido
[01:23:58] Pra existência
[01:23:59] Essa busca pelo sentido
[01:24:01] Que é uma espécie de vazio
[01:24:03] Metafísico original das sociedades
[01:24:06] Ocidentalizadas
[01:24:08] Que a gente está sempre procurando uma verdadeira
[01:24:10] Verdade pra chamar de sua
[01:24:11] Esse que é um grande ponto, né
[01:24:13] Então assim, o que a gente está observando hoje
[01:24:16] São massas, uma turba mútua
[01:24:18] De pessoas que busca nas redes
[01:24:20] Uma verdade pra chamar de sua
[01:24:22] Mesmo que seja sob a forma de um entretenimento
[01:24:24] Então assim, nós
[01:24:26] Somos no fim das contas muito parecidos
[01:24:29] Com aqueles aliens do Dark City
[01:24:30] Uhum
[01:24:32] É, cara
[01:24:33] Eu acho muito interessante essa
[01:24:36] Essa parada que você trouxe
[01:24:37] Porque eu nunca tinha parado pra pensar
[01:24:38] Nisso, de que é uma coisa
[01:24:40] Da nossa sociedade ocidental
[01:24:42] Essa questão de querer
[01:24:45] Achar o sentido da vida
[01:24:48] A vida tem que ter um sentido
[01:24:50] Como se precisasse existir algo
[01:24:52] Antes da própria experiência
[01:24:53] Que é o que você estava falando
[01:24:55] Em outras culturas
[01:24:57] O que importa é a experiência, não se ela é real
[01:24:59] Você não hierarquiza
[01:25:01] A importância de experiências
[01:25:03] Ou o valor dessas experiências
[01:25:05] Porque você sabe que tudo que você tem
[01:25:07] É a sua experiência subjetiva
[01:25:08] Não que
[01:25:10] Não acredite que existam
[01:25:12] Fatos objetivos, porque uma vez eu li um livro
[01:25:14] Muito chato inteiro sobre isso
[01:25:15] E aí eu estou convencido
[01:25:18] De que existem
[01:25:19] Existe uma realidade objetiva
[01:25:21] Já que você leu esse livro, tem que servir pra alguma coisa
[01:25:23] Cara, eu fiquei tão irritado
[01:25:26] Eu li esse livro porque o namorado de uma amiga
[01:25:29] Era um
[01:25:30] Mestre em filosofia e tal
[01:25:32] E a gente estava conversando sobre isso
[01:25:33] E ele falou, ah, tem esse
[01:25:34] Esse livro chamado Fear of Knowledge
[01:25:38] Que é exatamente sobre isso e tal
[01:25:40] E aí eu falei, ah, legal
[01:25:41] Vou comprar, comprei no Kindle
[01:25:44] Aí comecei a ler
[01:25:46] E aí eu vi, ah, o livro é extremamente acadêmico
[01:25:48] Beleza, e aí
[01:25:49] Comecei a ler e o cara, tipo, fala
[01:25:52] É o seguinte, se tudo é subjetivo
[01:25:54] Então você não pode afirmar
[01:25:56] Nada com certeza, então nem essa afirmação
[01:25:58] Em si é certa
[01:25:59] E se existe alguma objetividade e todo o resto
[01:26:02] É subjetivo, beleza, você pode navegar
[01:26:04] A realidade, mas precisa existir
[01:26:06] Enfim, a justificativa dele é essa
[01:26:08] E aí ele passa
[01:26:10] 20 páginas fazendo a porra da defesa
[01:26:12] Da tese dele, porque é uma tese, sabe
[01:26:14] E aí eu terminei de ler
[01:26:15] E eu fiquei puto, porque é chatíssimo ler essas coisas
[01:26:18] E tem uma razão pela qual eu não estudei
[01:26:19] E aí eu virei pra esse meu amigo e falei
[01:26:21] Tipo, porra, eu li, cara, mas é meio chato
[01:26:23] Ele falou assim, é, eu não terminei de ler
[01:26:25] Ele podia ter me avisado, entendeu
[01:26:32] Ele podia ter me avisado
[01:26:33] Se quis se mostrar, deu mal, deu mal
[01:26:36] Pois é
[01:26:37] Assim, pra gente finalizar, eu gostaria de chamar
[01:26:39] Atenção pra duas coisas
[01:26:41] A primeira delas, não sei se você percebeu
[01:26:43] Mas você fez várias piadas escatológicas
[01:26:46] Nesse episódio
[01:26:46] Você não editou a sua vida
[01:26:49] Olha só
[01:26:50] Eu não editei a minha vida, não, mas por quê?
[01:26:52] Porque eu fiz piadas escatológicas
[01:26:54] Então eu quis usar aquilo que é
[01:26:56] Aquilo que é vergonhoso
[01:26:59] Na nossa existência física
[01:27:00] Pro humor
[01:27:02] Porque é um jeito de aliviar a tensão
[01:27:05] De saber que você é um animal escatológico
[01:27:09] Uma coisa que eu ia te perguntar
[01:27:11] Que eu não ia te perguntar pra você
[01:27:12] Mas é uma curiosidade que eu tenho e talvez você tenha essa resposta pra mim
[01:27:14] Por que que a palavra escatologia
[01:27:16] Em que momento que ela passa a significar isso
[01:27:18] Porque escatologia
[01:27:19] É o fim, é o estudo do apocalipse
[01:27:23] E aí
[01:27:24] A gente usa também a palavra escatologia
[01:27:26] No sentido de falar de coisa nojenta
[01:27:29] Dejetos
[01:27:30] Aquilo que vem depois do fim
[01:27:32] Entendi, entendi
[01:27:33] Então se eu falar de ranho, não é escatologia
[01:27:36] Não, é, pode ser
[01:27:38] Porque assim
[01:27:39] Pra gente falar muito sobre isso
[01:27:40] Um dos aspectos que eu estudo
[01:27:43] Das filosofias ameríndia
[01:27:45] É escatologia
[01:27:46] E não estou falando de fezes, estou falando sobre o apocalipse
[01:27:48] Sobre o fim do mundo, sobre a vida após a morte
[01:27:50] Decadência corporal, essas coisas
[01:27:52] O ranho ele é uma secreção
[01:27:54] E o cocô ele é uma excreção
[01:27:56] Então um é um fim e o outro não
[01:27:59] Pode ser uma perspectiva
[01:28:01] E outra coisa que eu queria apontar
[01:28:03] Esse episódio tem uma
[01:28:05] Existência mais naturalista
[01:28:06] Estão acontecendo eventos durante dele
[01:28:09] É assim
[01:28:10] Exato, cara, porque é meta-linguagem aqui, caralho
[01:28:14] A gente deixa aqui no alto
[01:28:15] O formato parece o mesmo
[01:28:18] Mas ele não é
[01:28:19] E a gente deixa no ar se isso foi ensaiado ou não
[01:28:22] Para os ouvintes
[01:28:23] Eu sempre deixo no ar, tudo na minha vida
[01:28:25] Eu vou deixar no ar para as pessoas se foi ensaiado ou não
[01:28:28] E o terceiro, a última coisa que eu vou deixar colocado aqui
[01:28:30] É o seguinte, ouvinte
[01:28:31] Você teve um entretenimento
[01:28:34] Enquanto eu estava aqui sentindo uma dor profunda
[01:28:36] Que é a língua?
[01:28:38] É
[01:28:39] Então assim, o meu sofrimento é o seu entretenimento
[01:28:42] Sim, porque se você pudesse não falar
[01:28:44] Nesse momento, você estaria forçando menos
[01:28:46] A sua língua e deixando ela sarar, né?
[01:28:48] Exatamente