#21 - Popcult sobre o nada


Resumo

O episódio analisa a série Seinfeld como um fenômeno cultural dos anos 90 que transcendeu fronteiras e se tornou um produto aspiracional para audiências globais, especialmente no Brasil. Os hosts discutem como o programa, apesar de apresentar personagens egoístas e ensimesmados, criou uma identificação com o público através da projeção de um estilo de vida nova-iorquino de classe média.

A conversa explora o contexto histórico dos anos 90, quando o Brasil experimentava um aumento do poder aquisitivo e maior acesso à cultura americana via TV a cabo. Seinfeld chegou como um produto “fechado” que não apenas entreteve, mas também vendeu um modo de vida específico, tornando-se parte da formação cultural de uma geração inteira.

Os participantes debatem como os protagonistas de Seinfeld funcionam como “heróis deturpados” dentro da estrutura narrativa americana, representando o ápice do individualismo e do excepcionalismo estadunidense. A série é analisada tanto como crítica quanto como reprodução dos valores da sociedade que retrata, com seu final servindo como metanarrativa que expõe a natureza problemática dos personagens.

A discussão também aborda como o humor de Seinfeld, baseado em “white people problems”, se conectou com audiências periféricas que aspiravam a um estilo de vida inatingível. O episódio traça paralelos entre a disseminação cultural de Seinfeld e processos mais amplos de americanização global durante o período pós-Queda do Muro de Berlim.

Por fim, os hosts refletem sobre o legado da série e recomendam Broad City como uma herdeira contemporânea da sensibilidade de Seinfeld, adaptada para as realidades econômicas e sociais do século XXI.


Indicações

Documentarios

  • The Aristocrats — Documentário sobre uma piada tradicional entre comediantes que funciona com uma estrutura diferente do humor convencional de setup e punchline, onde a graça está na jornada absurda mais do que no final.
  • Riso dos Outros — Documentário brasileiro sobre a explosão do stand-up no país, mostrando os comediantes que se inspiraram no modelo americano representado por Seinfeld.

Filmes

  • Psicopata Americano — Mencionado como um filme que pega a moral vigente dos Estados Unidos dos anos 80/90 e mostra que é uma moral de psicopata, com o yuppie psicopata como produto cultural daquela sociedade.

Series

  • Broad City — Recomendada como a herdeira contemporânea de Seinfeld, adaptada para as sensibilidades atuais. Criada por Abby Jacobson e Ilana Glazer, mostra duas mulheres vivendo em Nova York com dificuldades financeiras reais, representando a geração pós-crise de 2008.
  • Arrested Development — Mencionada como uma das comédias que herdou a sensibilidade de Seinfeld, com personagens egoístas e situações absurdas que escalam de maneira hilária.
  • Curb Your Enthusiasm — Série criada por Larry David (co-criador de Seinfeld) onde ele interpreta uma versão ainda mais rica e insuportável de si mesmo, levando a premissa de Seinfeld a extremos ainda maiores.
  • How To with John Wilson — Série documental que inclui um episódio sobre como Nova York foi transformada pelo turismo e como a cidade real se tornou menos “real” do que a Nova York das séries como Seinfeld.

Linha do Tempo

  • 00:01:04Introdução à análise de Seinfeld como fenômeno cultural — Os hosts apresentam o tema do episódio: analisar como a audiência foi guiada a se projetar nos personagens de Seinfeld (Jerry, Elaine, Kramer e George) e como, na verdade, somos representados por suas vítimas. Eles destacam a importância da série como investimento cultural de uma geração inteira que envelheceu assistindo ao programa.
  • 00:04:22Seinfeld como sintoma de ascensão econômica no Brasil — Gustavo compartilha que Seinfeld foi um sintoma da melhora econômica de sua família nos anos 90, quando ter TV a cabo se tornou o primeiro sinal de crescimento do poder aquisitivo. Ele descreve como o consumo da série fazia parte de uma adolescência marcada por MTV, música rock e cultura pop americana, refletindo uma monocultura ainda existente na época.
  • 00:10:28Nova York como cenário aspiracional nos anos 90 — Os hosts discutem como Nova York, após sua revitalização nos anos 80, se tornou o cenário onipresente do cinema e TV americanos nos anos 90. Eles exploram como os espectadores brasileiros “moraram” em Nova York através de Seinfeld, desenvolvendo um sentimento de familiaridade e aspiração por uma cidade que muitos nunca visitaram, mas que sentiam conhecer através da série.
  • 00:15:02Seinfeld e a estrutura do herói excepcional — A discussão se aprofunda na ideia de herói dentro da estrutura narrativa ocidental. Os hosts analisam como os personagens de Seinfeld funcionam como indivíduos excepcionais dentro de seu contexto, encarnando valores sociais enquanto se colocam acima dos outros. Eles criticam a aplicação universal da “jornada do herói” como estrutura narrativa, destacando suas origens culturais específicas.
  • 00:27:59O episódio da noiva morta e a falta de empatia — Os hosts analisam um episódio específico onde a noiva de George morre intoxicada por lamber envelopes, e ninguém consegue ficar triste. Eles destacam como a série tinha a coragem de mostrar personagens completamente ensimesmados, incapazes de empatia mesmo diante de tragédias, e como isso refletia uma crítica à sociedade que criava essas personalidades.
  • 00:39:41Seinfeld como relíquia da monocultura branca — A conversa aborda como Seinfeld representa o último estágio da monocultura onde um homem branco nova-iorquino podia ser o centro do entretenimento massivo. Os hosts discutem como a falta de representatividade na época tornava normal consumir histórias que não refletiam a diversidade do público, contrastando com as séries de comédia populares entre negros brasileiros como Um Maluco no Pedaço.
  • 00:54:44Humor, contexto e a dificuldade com stand-up — Orlando compartilha sua dificuldade com stand-up, especialmente o humor que ataca minorias, destacando como o humor depende profundamente do contexto cultural. Eles discutem como as piadas que funcionam em um ambiente específico (como na macumba ou em comunidades indígenas) não necessariamente se traduzem para audiências mais amplas, e como o humor de Seinfeld se baseava em experiências muito específicas de classe.
  • 01:01:42O episódio do Babu e a crítica ao White Savior — Os hosts analisam o episódio onde Jerry “ajuda” um restaurante paquistanês a falir com seus conselhos inadequados. Eles destacam como este episódio funciona como uma crítica antecipada ao complexo do “salvador branco”, mostrando Jerry como uma figura que destrói enquanto acredita estar ajudando. A catchphrase “You’re a terrible bad man” sintetiza a percepção que os coadjuvantes têm dos protagonistas.
  • 01:08:51Seinfeld e a aspiração impossível — A discussão conclui que Seinfeld vendia uma aspiração impossível, criando identificação com um estilo de vida inatingível. Os hosts comparam isso com a cena de Liga da Justiça onde uma garota aspira ser como a Mulher-Maravilha, ignorando que ela é literalmente um deus inalcançável. Eles argumentam que a série alimentou um desejo por um consumo insustentável que nem mesmo os americanos médios poderiam manter.

Dados do Episódio

  • Podcast: Popcult
  • Autor: Atabaque Produções
  • Categoria: TV & Film Film Reviews
  • Publicado: 2021-03-25T08:30:05Z
  • Duração: 01:15:01

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Half-Death

[00:00:30] Jerry Seinfeld

[00:00:32] Mais especificamente a série Seinfeld

[00:00:34] Na qual Jerry Seinfeld interpretou uma versão icônica

[00:00:36] De si mesmo como o epicentro

[00:00:38] De um microcosmos da existência cidadina

[00:00:40] Ideal de sua época, a classe média

[00:00:42] Nova Yorkina. Esse grupo que o mundo

[00:00:44] Inteiro queria criticar e ser ao mesmo

[00:00:46] Tempo, essa identidade baseada

[00:00:48] No suprassumo do individualismo moderno

[00:00:50] Que se encontra com o territorialismo

[00:00:52] E excepcionalismo daqueles que

[00:00:54] Merecem fazer parte daquele grupo

[00:00:56] De quem aguenta isso daqui

[00:00:59] Resiliência, loucura

[00:01:00] Bairrismo, elitismo

[00:01:02] Uma mistura de tudo isso aí

[00:01:04] No episódio de hoje, vamos analisar

[00:01:06] Como fomos guiados a nos projetar

[00:01:09] Em Seinfeld, Elaine, Kramer e George

[00:01:11] E como somos, na verdade

[00:01:13] Representados por seus

[00:01:14] Codjuvantes, ou melhor

[00:01:16] Suas vítimas. Não é verdade, Orlando?

[00:01:18] Minha vítima, Calheiros

[00:01:20] Rapaz, eu acho que essa foi

[00:01:22] Sua melhor introdução

[00:01:24] Né, melhor preâmbulo

[00:01:26] De todos os episódios que tivemos até o momento

[00:01:28] Fico feliz, fico feliz

[00:01:31] Tô aqui pra dar sempre o meu melhor

[00:01:33] Me superar a cada episódio

[00:01:34] Até porque Seinfeld é um investimento

[00:01:37] De nossas vidas, né

[00:01:38] Esse episódio tem que ser bom

[00:01:41] Se não, tem tipo

[00:01:42] 25 anos nas nossas vidas

[00:01:44] Que a gente tem que devolver pro nicho

[00:01:47] Cara, a gente envelheceu vendo Seinfeld

[00:01:49] É, então, cara, é muito doido, né

[00:01:51] Porque a gente tem

[00:01:53] O…

[00:01:55] A gente tem uma diferença de idade aí

[00:01:56] De o que, uns 6, 7 anos?

[00:01:58] Um 3, 8, 3, 9

[00:02:00] É, eu tô com…

[00:02:02] Eu vou fazer 31

[00:02:03] É, 8 anos

[00:02:04] Mas assim, ou seja, a gente pegou

[00:02:08] Seinfeld enquanto…

[00:02:10] Tipo assim, eu comecei a ver Seinfeld logo que acabou

[00:02:12] Porque ele acabou em 98

[00:02:14] A série lá nos Estados Unidos e tal

[00:02:16] Mas eu comecei a ver quando era reprise na Sony

[00:02:18] Então eu devia ter tipo uns 11 anos

[00:02:20] Eu lembro

[00:02:21] E aí, meu, eu era tipo essa figura bizarra

[00:02:24] Que a nossa geração criou

[00:02:26] Que é o pré-adolescente, depois adolescente

[00:02:28] Adora Seinfeld

[00:02:30] E é tipo muito comum, assim, na nossa faixa etária

[00:02:33] Porque realmente, porque era um bagulho muito

[00:02:35] É isso, assim, a gente sente

[00:02:37] Que viu Seinfeld na época

[00:02:38] Mas a gente já tava vendo depois que o bagulho acabou

[00:02:40] E já tinha sido um fenômeno, e ele ainda ressoava

[00:02:42] Eu vi na época

[00:02:43] Eu não cheguei a ver na época que eu tinha 8 anos

[00:02:46] Eu lembro que inclusive o episódio

[00:02:48] O episódio, o último episódio

[00:02:50] Quando passou na Sony, foi assim, um período de tempo muito curto

[00:02:53] Assim, imagina as pessoas fazendo

[00:02:55] A…

[00:02:56] A legenda desesperada

[00:02:58] Virando noite, assim, como é que foi

[00:03:00] Uma relação de abuso, provavelmente, ali

[00:03:02] Não estou acusando ninguém, não estou acusando produtores nenhum

[00:03:04] Estou inferindo, basicamente, puramente

[00:03:06] Meus preconceitos sobre a indústria do entretenimento

[00:03:08] Eu estou acusando

[00:03:09] Momento acusação, estão acusados

[00:03:11] Então, eu acompanhei Seinfeld

[00:03:14] Enquanto ele tava sendo produzido

[00:03:16] Eu acho que, pelo menos as

[00:03:18] Três últimas temporadas, né

[00:03:20] São quantas?

[00:03:22] São nove temporadas, de 89 a 98

[00:03:25] É, pelo menos as três últimas

[00:03:26] Fácil, eu acompanhei quando passava a noite

[00:03:28] Na Sony, fora que tinha uma reprise

[00:03:31] Eterna passando na Sony todo dia

[00:03:32] Que eu chegava da escola, né

[00:03:34] Exato, eu comecei a ver na reprise eterna

[00:03:36] Porque era isso, acabou em 98, mas ela

[00:03:38] Ali, 2000, 2001, ela seguia

[00:03:40] E seguiu muitos anos

[00:03:42] E aí, rolou esse fenômeno

[00:03:45] De, tipo, ainda ser relevante, porque eu lembro que

[00:03:46] Saiu aqui nessa época

[00:03:48] O livro dele lá

[00:03:51] Que era o livro

[00:03:52] Compilando as piadas

[00:03:54] Dele e tal

[00:03:55] Do stand-up dele, eu lembro que

[00:03:58] Cara

[00:03:58] O primeiro DVD que eu importei na minha vida

[00:04:01] Foi o DVD que ele fez

[00:04:03] Quando acabou a série, que ele fez o especial

[00:04:05] I’m telling you for the last time

[00:04:06] Que ele falou, vou jogar, tipo, vou aposentar todo o meu material

[00:04:09] Que eu fiz, desde que eu comecei a fazer stand-up

[00:04:11] Vou fazer um último show com esse material

[00:04:13] E começar do zero

[00:04:15] E aí eu lembro que

[00:04:16] Foi a primeira vez que eu importei um DVD

[00:04:18] Foi daí pra baixo

[00:04:19] Cara, mas interessante você falar isso, porque Seinfeld, pra mim

[00:04:22] Ele é um sintoma

[00:04:24] De uma certa melhor econômica

[00:04:27] Na minha família, porque foi ele

[00:04:28] Dos anos 90, minha família saiu de uma condição

[00:04:31] De pindaíba gravíssima

[00:04:32] Pra uma coisa assim, estamos remediados

[00:04:34] E o primeiro sinal de crescimento de poder aquisitivo

[00:04:36] Foi ter TV a cabo em casa

[00:04:38] Né, então foi isso, e era o que eu assistia

[00:04:41] Era MTV

[00:04:42] Né, enfim, adolescente

[00:04:45] Eu assistia Fúria, Metal, aquelas coisas

[00:04:47] E assistia Seinfeld

[00:04:48] Minha vida adolescente em termos televisivos

[00:04:51] Era isso, fora porque filme, essas coisas

[00:04:53] Eu assistia por fora, né

[00:04:54] Cara, é muito curioso

[00:04:56] E aí a gente vai entrar, eu acho que é muito

[00:04:58] Interessante a gente entrar numa análise

[00:05:01] Do que que era esse cenário

[00:05:03] Da cultura pop, onde Seinfeld se insere

[00:05:05] Né, 89 e 98

[00:05:06] Basicamente os anos 90

[00:05:08] É, que é

[00:05:10] Uma cultura que tinha espaço

[00:05:12] Era uma monocultura

[00:05:15] Ainda, existia o mainstream

[00:05:17] Bem forte, né, e bem abrangente

[00:05:19] 80 milhões

[00:05:21] De pessoas viram o episódio

[00:05:23] Final de Seinfeld, se não me engano

[00:05:24] Números assim que nenhum programa de TV

[00:05:26] Vai fazer nunca mais

[00:05:28] Mas ao mesmo tempo, era isso

[00:05:30] Você tinha um público que era capaz

[00:05:32] De ver Fúria MTV

[00:05:34] E aí vai pro Seinfeld

[00:05:36] E aí depois lê um gibi do Venom

[00:05:38] Do Spawn

[00:05:39] Ouve Korn

[00:05:41] Não era trend ainda não, na época

[00:05:44] É, não, o Korn é bem final

[00:05:46] É mais pra tua geração do que pra minha

[00:05:48] É, porque issues do Korn

[00:05:50] São em 99, mas eles já estavam

[00:05:52] Famosinhos antes com o Life Speech

[00:05:54] Mas enfim

[00:05:55] É uma geração que tipo

[00:05:57] Ah, beleza

[00:05:58] A gente gostava muito dessa coisa pós-grunge

[00:06:01] Do entretenimento noventista

[00:06:02] Ah, né, as coisas, o anti-herói

[00:06:05] Dark, gritty

[00:06:06] Mas a gente era totalmente capaz

[00:06:09] De consumir algo

[00:06:10] Totalmente engomadinho, né

[00:06:13] Totalmente coxinha, calça kaki

[00:06:15] Porque é isso

[00:06:17] Tipo, era uma sitcom

[00:06:19] Que eu e você, dois moleques

[00:06:21] Despirocados da cabeça

[00:06:23] Viam e amavam

[00:06:25] E tipo, meu

[00:06:28] A hora que estavam vendo também

[00:06:30] E tipo, era esse fenômeno de monocultura

[00:06:33] Assim, é o Michael Jackson

[00:06:35] Das sitcoms

[00:06:37] É, então, tem várias coisas aí

[00:06:39] Que eu acho que, e a gente vai chegar

[00:06:40] Por que a gente escolheu o Cypher pra esse episódio, né

[00:06:43] Eu acho que

[00:06:44] Ali nos anos 90, o Brasil

[00:06:47] Aqui no Brasil, a gente teve

[00:06:49] A minha família foi um sintoma disso

[00:06:51] Essa aquisição

[00:06:52] Pequena aquisição de poder aquisitivo, né

[00:06:54] Que foi experimentado ali

[00:06:57] Com um plano real e depois

[00:06:58] Posteriormente consolidado nos primeiros governos

[00:07:00] Do Lula, né, nos primeiros governos

[00:07:02] Nos primeiros anos já era Lula

[00:07:04] Esse foi o momento em que

[00:07:06] Várias pessoas passaram a consumir

[00:07:09] Ativamente

[00:07:10] A cultura estadunidense, porque aí tem uma coisa

[00:07:12] Que é importante

[00:07:13] Antes, década de 80, a gente consumia

[00:07:16] Muito, consumia muito

[00:07:18] Porém, todavia, entretanto

[00:07:21] As coisas chegavam

[00:07:22] Menos codificadas, então, por exemplo, o Michael Jackson

[00:07:25] Você escutava a música do Michael Jackson

[00:07:26] Você não tinha muito acesso ao

[00:07:28] Rosto do Michael Jackson

[00:07:29] Você não tinha muito acesso ao videoclipe

[00:07:31] Essa ideia de videoclipe

[00:07:32] O videoclipe passava uma vez no Fantástico

[00:07:35] Quando passava

[00:07:37] Várias bandas que eu comecei escutando

[00:07:40] Que eu escutava, que eu gostava

[00:07:41] Eu não fazia a mínima ideia de como era

[00:07:44] O rosto dos integrantes

[00:07:45] Eu tenho

[00:07:47] Era muito louco, assim, porque, por exemplo

[00:07:49] Sepultura mesmo, o Sepultura

[00:07:52] Eu achava que o vocalista da banda

[00:07:53] Durante muitos anos, eu achei que

[00:07:55] Vendo só o Sepultura por capa de disco

[00:07:58] Que o Igor, baterista, ele era o vocalista

[00:08:00] E não o Max

[00:08:01] Então, assim

[00:08:02] Ah, porque o Igor tem mais cara de…

[00:08:04] Não sei porque eu achava isso, não sei porque

[00:08:06] Mas o…

[00:08:07] Quando você falou que tinha uma banda que você não conhecia o rosto

[00:08:10] Eu ia falar assim, não, mas essa aqui é a pegada do Kiss mesmo

[00:08:12] É, enfim

[00:08:14] Porra, mas assim, o lance todo era que

[00:08:16] Essa ideia de que

[00:08:18] Hoje em dia você tem um

[00:08:20] Um produto cultural, seja uma música

[00:08:22] Enfim, inclusive essa ideia de que

[00:08:24] A música se tornou pequeno em seriados

[00:08:26] Tem storytelling

[00:08:28] É uma coisa que só foi começar

[00:08:30] Assim, óbvio, você tem Trilha

[00:08:32] Do Michael Jackson, mas isso foi se tornar

[00:08:34] Uma arte ali a partir dos anos 90

[00:08:36] Né, então

[00:08:37] É, que é o que, né, que na música

[00:08:40] A gente chama do concept album, né

[00:08:41] Que não é uma coisa tão

[00:08:43] Não, não é nem um conceitual, é o

[00:08:46] Videoclip mesmo, né, você tem um videoclip

[00:08:48] Ah, não, tá, assim, de ser a coisa multimídia

[00:08:50] É, isso, isso, assim

[00:08:51] Porque é isso, é de ser pensado

[00:08:53] É isso, não, porque o álbum já sai com os vídeos

[00:08:56] E os vídeos, eles podem conversar

[00:08:58] Em si e virar essas produções

[00:09:00] E os anos 90 são o auge

[00:09:02] Dessas produções caríssimas, o Thriller

[00:09:04] Foi por muito tempo o videoclip mais caro

[00:09:06] Depois era um videoclip

[00:09:08] Do Michael Jackson com a irmã

[00:09:10] Depois era o Captain EO que foi feito

[00:09:12] Pra Disney, mas só que aí

[00:09:14] Nos anos 90 a coisa despiroga, assim, todo mundo fazia

[00:09:16] Clip muito caro e a indústria da música

[00:09:18] Ganhava tanto dinheiro que isso valia a pena

[00:09:20] Tipo, eles podiam gastar tanto no clipe

[00:09:22] Porque se vendia tanta música

[00:09:24] Tanto disco, que o

[00:09:26] Clip servia de comercial pra música

[00:09:28] Hoje em dia, a Pabllo Vittar

[00:09:30] Que é uma artista gigantesca

[00:09:32] Tem que botar merchan no clipe

[00:09:34] Senão não sai um clipe bom, entendeu

[00:09:36] Não tem verba pra gastar no clipe

[00:09:37] Porque clipe, né, porque música não se vende

[00:09:39] Porque, né, as plataformas

[00:09:42] De streaming não pagam nada pros músicos

[00:09:44] E pros podcasters

[00:09:45] E pros podcasters

[00:09:47] Com menos de zero é o que?

[00:09:50] A gente paga, literalmente

[00:09:52] A gente paga pra botar lá as coisas, mas vamos entrar nessa

[00:09:54] Exato, mas vou só usar o

[00:09:56] Enco

[00:09:58] Mas, não, e

[00:09:59] E não dá pra fazer show

[00:10:01] Porque tem a pandemia ainda por cima

[00:10:03] Então, assim, acabou

[00:10:04] Se você é um músico, morra

[00:10:07] É o que o mundo tá dizendo

[00:10:08] Mas o mundo não tá falando de música

[00:10:11] O mundo tá falando de pop cult, falando de cypher

[00:10:12] E aí eu acho que tem uma coisa muito interessante

[00:10:15] Do que você tá falando, do consumo

[00:10:16] Da cultura americana se tornar cada vez

[00:10:19] Uma parte mais integrada, né

[00:10:21] Da vida da gente no Brasil

[00:10:23] E vários outros países submetidos ao império

[00:10:25] Que é o seguinte

[00:10:28] Existe um sentimento

[00:10:30] Especialmente na nossa geração

[00:10:31] Mas não limitado a isso

[00:10:33] Que vem

[00:10:35] De uma questão muito específica

[00:10:37] Da cultura pop americana, que é

[00:10:39] Nova York era

[00:10:40] Um lugar muito

[00:10:43] Fudido

[00:10:45] Ali nos anos 70

[00:10:47] A gente vê The Warriors, vê essas coisas assim

[00:10:49] Teve uma crise

[00:10:51] Muito grande

[00:10:52] De violência, de falta de planejamento urbano

[00:10:55] De pessoas

[00:10:57] Sem ter onde morar

[00:10:58] E aí o que aconteceu nos anos 80

[00:11:00] Donald Trump e várias outras pessoas

[00:11:03] Vieram com a especulação imobiliária

[00:11:05] O Rudy Giuliani entrou com a coisa

[00:11:08] A política da

[00:11:09] Da janela quebrada

[00:11:12] E tudo mais

[00:11:12] De vamos limpar o Times Square

[00:11:15] Vamos limpar o crime dessa cidade

[00:11:17] E transformar Manhattan no que ela é hoje

[00:11:18] Uma grande ilha pra elite abastada do mundo

[00:11:21] Mas o que isso gerou na cultura?

[00:11:24] Isso gerou que a partir dos anos 80

[00:11:25] E começo dos anos 90

[00:11:26] Nova York virasse

[00:11:28] O cenário de tudo que acontece no cinema e na TV

[00:11:31] Nova York era o lugar

[00:11:33] Então a gente cresceu vendo Nova York

[00:11:35] E meio que vivendo Nova York através de coisas

[00:11:37] Como Seinfeld

[00:11:38] E aí a gente tem um sentimento

[00:11:40] Quem nunca pisou em Nova York

[00:11:42] Fica com uma coisa tipo

[00:11:43] Meu, Nova York

[00:11:44] Vê uma foto de Nova York e já fala assim

[00:11:46] Meu, Nova York

[00:11:47] E aí a gente foi imbuído desse sentimento

[00:11:50] E pra mim

[00:11:51] Porque eu consumi tanto Seinfeld

[00:11:54] E porque existe tanto Seinfeld pra se consumir

[00:11:55] 180 episódios

[00:11:56] Exatamente

[00:11:58] Dessa época

[00:11:58] Onde você vê ali prédios bege

[00:12:01] Mulheres de ombreira

[00:12:03] E caras com ternos grandes demais

[00:12:06] Tipo, pra mim

[00:12:07] Eu morei em Seinfeld, sabe?

[00:12:09] Eu morei naquela Manhattan

[00:12:10] E aí isso é muito doido

[00:12:13] Porque isso forma na nossa cabeça

[00:12:15] De uma maneira absurda

[00:12:16] Exatamente o ponto que eu ia falar

[00:12:18] Porque na década de 90

[00:12:19] É o momento em que os produtos culturais

[00:12:22] Eles não vêm isolados

[00:12:23] De maneira que você possa facilmente acoplá-los

[00:12:25] Com aquilo que é o seu

[00:12:27] Entre aspas, né?

[00:12:28] Então por isso que eu falo

[00:12:28] Então por isso que eu falo

[00:12:28] Porque, por exemplo

[00:12:28] Você podia escutar Michael Jackson

[00:12:30] E depois forró

[00:12:31] Inclusive tem grandes culturas musicais

[00:12:33] Por exemplo, o Tecnobrega

[00:12:35] Fez e faz muito isso, né?

[00:12:37] Então, por exemplo

[00:12:37] Com adaptações de músicas

[00:12:38] Ah, vem lá

[00:12:39] Bad Romance da Lady Gaga

[00:12:41] Vira Babado é Romance

[00:12:43] Sabe?

[00:12:43] Então, assim

[00:12:44] Essas adaptações

[00:12:45] Essa antropofagia

[00:12:46] Ela era muito melhor feita

[00:12:49] O funk, por exemplo

[00:12:49] O funk carioca começa assim, né?

[00:12:53] Antropofagizando

[00:12:54] As cenas do My M-Bass

[00:12:55] E do Freestyle

[00:12:57] Esses são pontos cruciais

[00:12:59] Quando você tem todo esse império do videoclipe

[00:13:01] E as coisas já chegam enquanto produtos

[00:13:03] Você não tá consumindo um videoclipe da Britney Spears

[00:13:06] Você não tá consumindo uma música

[00:13:07] Você tá consumindo todo o estilo de vida da Britney Spears

[00:13:09] Então você ia ver pessoas andando como a Britney Spears anda

[00:13:12] Aqui em Padre Miguel

[00:13:14] Subiu do Rio de Janeiro na década de 90

[00:13:16] Mesma coisa, as pessoas

[00:13:17] Quando você faz isso, você importa, por exemplo

[00:13:19] Backstreet Boys, saca?

[00:13:22] As pessoas que começavam a andar

[00:13:23] Usavam aquelas calças gigantescas

[00:13:26] Backstreet Boys

[00:13:27] Andar parecendo que estavam

[00:13:28] Cara, eu não tô me inventando

[00:13:31] Eu vi pessoas em festa, parecendo que estavam indo esquiar

[00:13:33] Sabe aquela roupa de esqui que os caras usavam?

[00:13:37] Em Bangu

[00:13:38] Em Bangu

[00:13:39] Mas, Orlando, a gente vai falar de um drama

[00:13:41] Que é muito mais abrangente

[00:13:43] Porque você era roqueiro

[00:13:45] Eu era roqueiro

[00:13:46] E todo mundo via

[00:13:49] Com maus olhos e bons olhos

[00:13:51] Uma certa admiração

[00:13:53] O cara que realmente

[00:13:54] Tinha

[00:13:57] A capacidade de ser gótico tropical

[00:13:59] O maluco que você olha pra ele

[00:14:01] E você sabe que você tá com esse cutune

[00:14:03] Sobretudo suando

[00:14:04] Sua bunda tá molhada

[00:14:07] Eu tive um período de tempo

[00:14:09] Confesso

[00:14:10] Porém, rapidamente me toquei

[00:14:13] Que eu

[00:14:14] Preferi estar arejado

[00:14:16] Eu moro em Bangu, no bairro mais quente do Rio de Janeiro

[00:14:18] Eu nunca cheguei nesse ponto

[00:14:20] O que eu fazia era

[00:14:21] Eu me vestia todo de preto

[00:14:25] Mas era camiseta e bermudão

[00:14:26] É

[00:14:27] Tanto que quando o Korn chegou

[00:14:29] Foi um grande alívio

[00:14:29] Até o cara da banda tá de bermuda

[00:14:32] Mas antes tinha o Trax

[00:14:33] Ele usava bermuda

[00:14:36] Eu não conhecia o Trax

[00:14:39] Eu sou da geração que foi conhecer o Trax

[00:14:41] Só quando em 2001

[00:14:42] Enviaram aqueles envelopes

[00:14:44] Mas vamos voltar pro Jerry Seifert

[00:14:47] A grande questão, pra mim

[00:14:48] Que é um ponto que é crucial

[00:14:50] A gente tá falando do modelo de heróis

[00:14:52] É uma temporada sobre heróis

[00:14:54] O ponto

[00:14:56] Tem uma brincadeira que fala assim

[00:14:57] Nem todo herói usa capa

[00:14:58] De fato, nem todo herói usa capa

[00:15:01] A ideia de que

[00:15:02] Nós estamos aqui fazendo uma discussão estrutural

[00:15:05] Do papel do herói

[00:15:06] O herói não é só o Superman

[00:15:07] O herói é uma posição na estrutura

[00:15:10] Que lhe confere uma excepcionalidade

[00:15:13] Diante do seu contexto

[00:15:14] E ele, por ser aquele sujeito

[00:15:17] Excepcional, ele é ao mesmo tempo

[00:15:19] Uma encarnação

[00:15:20] Dos valores daquela sociedade

[00:15:22] Mas ao mesmo tempo

[00:15:23] Ele ao mesmo tempo se parece com

[00:15:27] Todos os cidadãos

[00:15:28] Mas ao mesmo tempo ele não é nenhum deles

[00:15:30] Porque ele é um indivíduo excepcional

[00:15:32] Nenhum ser vai conseguir ser aquele ser

[00:15:35] E aí que vem um ponto

[00:15:36] Ele se coloca num papel de excepcional

[00:15:38] E todos os outros sujeitos ao seu redor

[00:15:41] São menores do que ele

[00:15:42] Aí que vem uma questão

[00:15:44] Essa ideia

[00:15:47] Que não é uma ideia universal

[00:15:49] A gente falou assim no primeiro episódio

[00:15:50] Sobre heróis de outras cosmologias

[00:15:53] Heróis de outras histórias

[00:15:55] Enfim, a gente tem sempre que fugir

[00:15:57] Mesmo, é uma coisa que me incomoda muito

[00:16:00] Essa coisa, ah, jornada do herói

[00:16:02] É que as pessoas estão lendo até

[00:16:03] Inventam, recalcam

[00:16:06] A estrutura ocidental

[00:16:07] Heróica americana

[00:16:09] Até na mente humana

[00:16:12] Como se todas as narrativas humanas

[00:16:14] Replicassem

[00:16:15] Uma estrutura narrativa

[00:16:17] Que é muito típica

[00:16:19] Uma leitura narrativa típica

[00:16:21] De alguns problemas

[00:16:22] Que nós fazemos de algumas narrativas

[00:16:24] As narrativas gregas e tudo mais

[00:16:27] Enfim, depois a gente pode até entrar nisso

[00:16:28] Que a grande questão das narrativas gregas

[00:16:30] Não era ser uma narrativa

[00:16:31] Era justamente a produção de problemas

[00:16:34] Então só o fato de você lê-las como uma narrativa

[00:16:36] Já é uma leitura

[00:16:38] Anacrônica

[00:16:40] Mas então, vamos para o outro lado

[00:16:41] Enfim, um dia a gente vai conversar sobre como

[00:16:44] O teatro grego

[00:16:46] Ele é o programa do ratinho

[00:16:49] Ele não é assim

[00:16:49] Não é tipo um filme

[00:16:51] Não, total, total

[00:16:52] Aquela galera que ficava lá

[00:16:53] Não, é tipo

[00:16:55] Tem clac do filme

[00:16:57] Clac na narrativa, sabe?

[00:16:58] Exato, não é

[00:16:59] Tipo, o Silvio Santos é o expoente

[00:17:01] Do teatro grego

[00:17:02] Mas, mas

[00:17:03] Deixa eu só concluir

[00:17:04] Deixa eu só concluir isso

[00:17:05] Ah, eu achei que você tinha concluído

[00:17:06] Não, não, vou concluir agora

[00:17:07] O grande ponto é que

[00:17:09] Seinfeld

[00:17:10] Ele não apenas

[00:17:12] Foi muito importante falar assim

[00:17:13] Cara, o Seinfeld foi o primeiro

[00:17:14] Primeiro produto americano

[00:17:16] Fechado que eu consumi, né?

[00:17:18] Porque, enfim

[00:17:18] Consumia desenho animado e tal

[00:17:20] Mas Seinfeld foi uma coisa que eu vi

[00:17:21] Consumia meu estilo de vida

[00:17:23] Eu consumi Nova York, né?

[00:17:25] E assim como eu

[00:17:26] Ele foi o primeiro produto americano que eu consumi

[00:17:27] Foi o primeiro produto de várias outras pessoas

[00:17:28] E aí que vem o ponto

[00:17:30] Seinfeld não apenas

[00:17:31] Tava ali mostrando o estilo de vida de Nova York

[00:17:33] Mas ele também tava passando uma ideia

[00:17:35] De herói

[00:17:36] Protagonista, né?

[00:17:38] Porque

[00:17:39] Seinfeld e seus amigos

[00:17:41] Eles são indivíduos excepcionais

[00:17:44] E quando você vai olhar pra eles

[00:17:46] Eles são tão excepcionais

[00:17:47] Dentro daquele contexto

[00:17:48] Que eles são extremamente

[00:17:49] Ensimesmados

[00:17:51] Quando você vai olhar pros programas

[00:17:52] O número de piadas

[00:17:53] De situações, né?

[00:17:55] Que envolvem

[00:17:56] O ensimismamento desses indivíduos

[00:17:59] Que depois a gente vai descobrir

[00:18:00] Porque tem uma coisa de

[00:18:01] Essa coisa de

[00:18:02] Autoironia, né?

[00:18:04] Que faz muito, né?

[00:18:05] Você vai descobrir que eles não são sujeitos legais

[00:18:07] Fica explícito

[00:18:08] O problema é falar

[00:18:08] Não são legais

[00:18:09] Exato

[00:18:10] É uma série

[00:18:12] Que, enfim

[00:18:13] Iniciou, de certa maneira

[00:18:15] Uma moda muito comum

[00:18:17] Hoje na comédia americana

[00:18:19] Que é muito boa

[00:18:20] Que era uma subversão

[00:18:23] Em partes

[00:18:24] Do modelo de sitcom americano

[00:18:25] Que se criou especialmente

[00:18:26] A partir dos anos 80

[00:18:27] Que é o seguinte

[00:18:28] Que é

[00:18:28] As pessoas não

[00:18:30] Os executivos de TV americana falaram assim

[00:18:32] Uma sitcom não precisa ser

[00:18:35] Uma série de comédia

[00:18:37] Que todo mundo vai ligar

[00:18:39] Pra ver as piadas

[00:18:40] Tipo, né?

[00:18:41] Num pensamento, tipo

[00:18:42] Pra ser nossa

[00:18:43] Mas assim, pensando

[00:18:44] Nas sitcoms dos anos 60

[00:18:47] E tudo mais

[00:18:47] Tipo assim

[00:18:48] Putz, isso aqui

[00:18:48] Não é sobre

[00:18:49] Você vir aqui

[00:18:51] E você saber que vai ter boas piadas

[00:18:52] Com esses personagens

[00:18:53] Não

[00:18:53] É você querer passar

[00:18:54] Meia hora por semana

[00:18:55] Com esses personagens

[00:18:56] Independentemente

[00:18:58] De se você tá rindo

[00:18:59] A cada dois minutos ou não

[00:19:00] E aí

[00:19:01] As sitcoms viraram

[00:19:03] Essa coisa de tipo

[00:19:04] Likeability, né?

[00:19:05] E que tem os seus expoentes modernos

[00:19:07] Tipo

[00:19:07] Friends

[00:19:08] E How I Met Your Mother

[00:19:09] Tipo

[00:19:10] Ah, é a minha turma de amigos

[00:19:11] E tal

[00:19:11] E o Seifert vem na onda

[00:19:13] Do It’s the Gary Shandling Show

[00:19:14] E tal

[00:19:14] Que é

[00:19:15] Não, tá

[00:19:16] Mas e se eu só

[00:19:17] Tipo

[00:19:17] E se o meu personagem

[00:19:18] For uma pessoa

[00:19:19] Tipo

[00:19:19] Que não vai ser o seu amigo

[00:19:21] Sabe?

[00:19:21] Que é uma pessoa que tá ali

[00:19:22] Tipo

[00:19:23] Pra

[00:19:23] Basicamente

[00:19:25] Vivenciar o espetáculo

[00:19:26] Do ridículo

[00:19:27] Que tá ao redor dele

[00:19:28] Junto com você

[00:19:29] Né?

[00:19:30] E meio que ser um

[00:19:31] Um estopim também disso

[00:19:33] Então tipo

[00:19:33] É um programa

[00:19:35] Que

[00:19:36] Deixava bem claro

[00:19:37] Desde sempre

[00:19:38] Tipo

[00:19:38] Eles não são boas pessoas

[00:19:40] Assim

[00:19:41] Você tá aqui

[00:19:41] Pra meio que

[00:19:43] Se divertir vendo eles

[00:19:44] Sendo

[00:19:44] Pessoas

[00:19:45] Extremamente egoístas

[00:19:47] Ensimesmadas

[00:19:48] E

[00:19:48] Desde o começo da série

[00:19:50] Né?

[00:19:51] Daquela temporada de quatro episódios

[00:19:52] Já tem um

[00:19:53] Um deleite em vê-los sofrer

[00:19:55] Assim

[00:19:55] No episódio do

[00:19:56] Restaurante de churrasco

[00:19:56] Chinês

[00:19:57] Depois ali

[00:19:57] Na segunda temporada

[00:19:58] Do episódio do

[00:19:59] Do ar-condicionado

[00:20:00] E tal

[00:20:00] Já tipo

[00:20:01] Ele vai te acostumando

[00:20:02] A tipo

[00:20:02] Você não precisa

[00:20:03] Tipo

[00:20:04] Tratar esses caras

[00:20:05] Como se eles fossem

[00:20:05] Feitos de louça

[00:20:06] Tá?

[00:20:07] Mas

[00:20:07] De qualquer jeito

[00:20:09] É uma sitcom

[00:20:10] De prime time americano

[00:20:12] Que

[00:20:12] Se valia por

[00:20:14] Você querer

[00:20:14] Tá com aqueles personagens

[00:20:15] Toda semana

[00:20:16] Então

[00:20:17] Por mais que

[00:20:18] A série apresente isso

[00:20:20] O que ela faz

[00:20:21] Com a gente

[00:20:22] É exatamente

[00:20:22] O que eu

[00:20:23] O que eu levantei ali

[00:20:25] No questionamento

[00:20:25] Da introdução

[00:20:26] Que é

[00:20:26] Por mais que a gente saiba

[00:20:28] Que o Jerry

[00:20:29] É uma pessoa ruim

[00:20:30] No final das contas

[00:20:31] A série precisa

[00:20:32] Que a gente

[00:20:33] Se identifique com ele

[00:20:35] E com a turma dele

[00:20:35] Né?

[00:20:37] E

[00:20:37] A gente é cooptado

[00:20:39] Por isso

[00:20:39] Porque né

[00:20:40] Eles são os protagonistas

[00:20:40] Eles estão ali

[00:20:41] E aí a gente tem

[00:20:43] A gente tira uma satisfação

[00:20:44] Da satisfação deles

[00:20:45] E ao mesmo tempo

[00:20:47] A gente se permite

[00:20:48] Então

[00:20:49] Dizer

[00:20:50] Ah eu secretamente

[00:20:51] Sou uma pessoa ruim

[00:20:52] Mas tudo bem

[00:20:53] Porque o Jerry

[00:20:54] Também é

[00:20:54] E aí

[00:20:55] Eu discordo um pouco disso

[00:20:56] É

[00:20:56] Eu acho que

[00:20:57] Esse

[00:20:57] Esse secretamente

[00:20:59] Se assumir

[00:21:00] Como uma pessoa

[00:21:00] Egoísta

[00:21:02] Eu acho que

[00:21:03] Esse pulo final

[00:21:04] Uma boa parte

[00:21:07] Dos espectadores

[00:21:07] Não faz

[00:21:09] E eu não tô aqui

[00:21:09] Menosprezando a inteligência

[00:21:11] Das pessoas não

[00:21:11] Tô falando que existe

[00:21:12] Tal como o Rick e Morty

[00:21:13] A gente tava falando

[00:21:14] De fãs

[00:21:15] Que abraçam

[00:21:17] Né

[00:21:18] Produtos

[00:21:18] Produtos culturais

[00:21:19] De séries escrotos

[00:21:20] Personagens escrotos

[00:21:21] E acham ilegal

[00:21:22] Mas eu digo

[00:21:22] Eu digo isso

[00:21:24] No sentido de

[00:21:24] Orlando

[00:21:25] Ele

[00:21:25] Ele

[00:21:26] Ele

[00:21:26] No final das contas

[00:21:27] O egoísmo

[00:21:28] Do Seinfeld

[00:21:29] E dos

[00:21:29] Dos personagens

[00:21:31] Do núcleo

[00:21:32] Eles não são

[00:21:33] Acidentais

[00:21:34] Eles são

[00:21:34] Uma versão

[00:21:36] Exagerada

[00:21:37] Da ideologia americana

[00:21:39] Na qual eles estão inseridos

[00:21:40] Especialmente

[00:21:41] Pós

[00:21:41] IUPs

[00:21:42] De anos 80

[00:21:42] E tal

[00:21:43] Assim

[00:21:43] Eles são o supra sumo

[00:21:44] Do fim da história

[00:21:45] Do excepcionalismo americano

[00:21:47] Durante tipo

[00:21:47] Um período

[00:21:48] Econômico

[00:21:49] Extremamente próspero

[00:21:50] Pros Estados Unidos

[00:21:51] E de um período

[00:21:52] De relativa

[00:21:54] Pouca

[00:21:55] Atividade

[00:21:55] Bélica

[00:21:56] Pro

[00:21:56] Né

[00:21:57] Comparando no nível

[00:21:59] Do império ali

[00:21:59] Mas

[00:22:01] E aí

[00:22:01] Ou seja

[00:22:02] E aí você criar

[00:22:03] Esses personagens

[00:22:04] E ter aquelas situações

[00:22:04] Toda semana

[00:22:05] Faz com que a gente

[00:22:06] Crie algum tipo de apreço

[00:22:08] Se não uma identificação

[00:22:09] Com personagens

[00:22:10] Que

[00:22:11] No final das contas

[00:22:12] Existem

[00:22:13] Também para

[00:22:15] Passar um pano

[00:22:18] Pra usar

[00:22:19] Um vernáculo

[00:22:19] Da nossa época

[00:22:20] No

[00:22:22] Egocentrismo

[00:22:23] Individualista

[00:22:24] Americano

[00:22:24] Exatamente

[00:22:25] Porque eles

[00:22:26] São o sonho americano

[00:22:28] E cara

[00:22:28] Isso é um outro

[00:22:29] Um tropo

[00:22:30] Que a gente vai ter que discutir

[00:22:31] No episódio

[00:22:31] Que eu tava vendo um filme ontem

[00:22:33] Vi um filme esses dias

[00:22:33] A quantidade de filmes

[00:22:35] Que agora usam o

[00:22:36] Isso é o sonho americano

[00:22:38] Pra te apontar algo

[00:22:39] Que tá errado

[00:22:40] E aí

[00:22:40] A minha reação

[00:22:41] É que normalmente são

[00:22:42] Diretores americanos

[00:22:43] Fazendo isso

[00:22:44] Tá mas você sabe que tipo

[00:22:45] Não é que eles deturparam

[00:22:46] Essa frase

[00:22:47] É que você sabe que essa frase

[00:22:48] Sempre significou maldade

[00:22:49] Né

[00:22:49] E aí eu acho que tipo

[00:22:51] É ótimo

[00:22:51] E eu acho que

[00:22:53] É impossível pra mim

[00:22:54] Analisar Seinfeld

[00:22:56] Se não é que

[00:22:56] Sem

[00:22:56] A moldura do último episódio

[00:22:58] Porque a moldura do

[00:22:59] Último episódio

[00:23:00] Pra quem não sabe

[00:23:01] É basicamente

[00:23:02] O Larry David

[00:23:03] Que co-criou a série

[00:23:04] Com o Jerry

[00:23:05] E o cara

[00:23:06] Que é acreditado realmente

[00:23:07] Pelo

[00:23:08] Pelo etos da série

[00:23:09] O cara que transforma

[00:23:10] Aquilo numa série

[00:23:11] A sensibilidade dele

[00:23:11] Do Jerry numa série

[00:23:12] Ele voltou

[00:23:14] Depois de duas temporadas

[00:23:15] Sem estar escrevendo

[00:23:16] Na série

[00:23:16] Pra escrever o final

[00:23:17] E o final é exatamente

[00:23:19] Um episódio de duas partes

[00:23:20] Com

[00:23:21] Né

[00:23:22] Milhares de coadjuvantes

[00:23:24] Ali

[00:23:24] Das outras temporadas

[00:23:26] Voltando

[00:23:26] Pra literalmente

[00:23:28] Depor contra

[00:23:29] Os protagonistas

[00:23:31] E dizer tipo

[00:23:31] Essas pessoas são horríveis

[00:23:32] E ao mudar

[00:23:33] A perspectiva

[00:23:34] E finalmente

[00:23:35] Botar aquelas pessoas

[00:23:37] No centro da narrativa

[00:23:38] Contando o ponto de vista

[00:23:39] Delas do que aconteceu

[00:23:40] Você ouve

[00:23:41] Você fala assim

[00:23:41] Nossa realmente

[00:23:42] O que aconteceu

[00:23:42] É ainda pior

[00:23:43] Eles são pessoas horríveis

[00:23:45] Tem duas

[00:23:45] Tem várias coisas aí

[00:23:46] Porque assim

[00:23:46] Pra mim

[00:23:47] É

[00:23:48] Sei lá

[00:23:49] Pra as duas pessoas

[00:23:50] Que nunca assistiram Seinfeld

[00:23:51] Que estão ouvindo

[00:23:51] Essa série

[00:23:53] Né

[00:23:53] Porque você pode até

[00:23:54] Odiar a série

[00:23:55] Mas você

[00:23:55] É muito difícil

[00:23:56] Você nunca ter visto

[00:23:57] Pelo menos metade

[00:23:58] De um episódio

[00:23:58] Uma coisa do tipo

[00:23:59] Eu acho que só se você

[00:24:00] É muito mais novo

[00:24:01] Que a gente

[00:24:02] Ou muito mais velho

[00:24:02] E aí é isso

[00:24:03] Tipo a situação da TV

[00:24:04] Estar ligada

[00:24:05] É

[00:24:05] Não é muito

[00:24:06] Como você consumir o conteúdo

[00:24:08] Mas eu acredito que

[00:24:09] As pessoas que tem

[00:24:10] Né

[00:24:10] Vinte e tantos

[00:24:11] Trinta e poucos anos

[00:24:12] Todas estão no mesmo barco

[00:24:14] Que a gente

[00:24:14] Que a osmose cultural

[00:24:16] Enfiou Seinfeld

[00:24:16] De bola abaixo

[00:24:17] Mas assim

[00:24:18] Ah mas só um ponto

[00:24:19] Que eu acho

[00:24:19] Não sei se ficou claro

[00:24:21] Eu só quero

[00:24:22] Esclarecer uma coisa

[00:24:23] Que eu não sei se ficou claro

[00:24:24] Pra todo mundo ouvindo

[00:24:24] Eu amo

[00:24:25] Eu amo essa série

[00:24:26] Eu tô dizendo tudo isso

[00:24:29] Mas assim

[00:24:29] Eu amo essa série

[00:24:30] É muito confortável pra mim

[00:24:31] Eu revi muito

[00:24:32] Durante essa pandemia

[00:24:33] Porque tipo

[00:24:34] É algo confortável pra mim

[00:24:35] É aconchegante

[00:24:35] Eu tô voltando

[00:24:36] Pra um lugar onde eu vivi

[00:24:37] Eu acho a série engraçada

[00:24:38] E eu acho que

[00:24:40] Tem como a gente

[00:24:41] Analisar

[00:24:42] Como ela criou

[00:24:42] Uma figura deturpada de herói

[00:24:44] Dentro de um meio

[00:24:45] Que tava criando

[00:24:45] Várias figuras deturpadas de herói

[00:24:47] Eu acho que tem

[00:24:48] Tem várias questões aí

[00:24:49] Eu inclusive

[00:24:50] A maneira como eu

[00:24:51] Ri

[00:24:52] E rio de Seinfeld

[00:24:53] Mudou muito

[00:24:54] Né

[00:24:54] Assim

[00:24:54] Eu

[00:24:55] Eu

[00:24:55] ima

[00:24:55] Hoje em dia

[00:24:56] Eu acho a série

[00:24:56] Mais pro patético

[00:24:57] Né

[00:24:58] Do que pro engraçado em si

[00:25:00] Né

[00:25:01] Uma coisa meio

[00:25:01] O quanto aquelas pessoas

[00:25:02] São patéticas

[00:25:03] Porque assim

[00:25:04] Eu acho que

[00:25:05] Sabe o que que ajuda

[00:25:06] Nisso

[00:25:08] Eu tava pensando

[00:25:08] Vendo a série

[00:25:09] Moda

[00:25:10] A moda daquela época

[00:25:12] Envelheceu muito mal

[00:25:13] Ah mas é

[00:25:13] Pras nossas sensibilidades hoje

[00:25:14] Não

[00:25:15] E aí isso te ajuda

[00:25:16] A ver eles como ridículos

[00:25:17] Entendeu

[00:25:17] Porque eles não tão vestidos

[00:25:19] Como gente se veste

[00:25:20] Gente

[00:25:20] Eles tão vestidos

[00:25:21] Como aquela coisa

[00:25:23] Aquela caricatura

[00:25:24] Daquele anos 90

[00:25:25] Né

[00:25:25] Mas assim

[00:25:26] Tem uma coisa que eu

[00:25:27] Tem duas coisas que eu queria falar

[00:25:28] Assim

[00:25:28] A primeira coisa que eu vou defender

[00:25:29] Que o psicopata americano

[00:25:31] O filme

[00:25:32] Né

[00:25:32] Com

[00:25:33] Nossa esqueci o nome

[00:25:35] Patrick Bateman

[00:25:36] Não

[00:25:36] Patrick Bateman é o nome do personagem

[00:25:37] O nome do ator

[00:25:38] O

[00:25:39] Jason

[00:25:39] Caraca

[00:25:40] O Batman

[00:25:42] O Batman

[00:25:42] O nome dele é Batman

[00:25:43] O Batman

[00:25:44] O Christian Bale

[00:25:45] O

[00:25:46] Eu tenho certeza

[00:25:48] Que ele se passa mesmo

[00:25:49] No universo de Seinfeld

[00:25:50] Eu tenho certeza

[00:25:51] Absoluta

[00:25:52] Ele

[00:25:52] Ele é um

[00:25:53] Eu

[00:25:53] Eu total

[00:25:54] Tô escrevendo esse roteiro

[00:25:55] Agora do episódio

[00:25:56] Que a Elaine namora ele

[00:25:56] Não, total

[00:25:57] E ela fica desconfiando

[00:25:58] Acho que ele é

[00:25:59] Um psicopata

[00:26:00] Ela namora

[00:26:01] O Joe da Vola

[00:26:02] Que pode ser

[00:26:03] Implicitamente um serial killer

[00:26:04] Lembra?

[00:26:05] Eu

[00:26:06] Crazy Joe da Vola

[00:26:07] Eu tenho

[00:26:07] Isso pra mim

[00:26:09] Depois a gente pode até falar um pouco melhor

[00:26:10] Do psicopata americano

[00:26:11] Porque o psicopata americano

[00:26:12] Pega essa moral vigente ali

[00:26:13] Dos Estados Unidos

[00:26:14] E fala assim

[00:26:14] Então

[00:26:15] É a moral

[00:26:16] A nossa moral

[00:26:16] É uma moral de psicopata

[00:26:18] Esse que é o ponto

[00:26:19] O nosso produto cultural

[00:26:20] É um psicopata

[00:26:21] É um yuppie psicopata

[00:26:22] Sim

[00:26:22] E é como

[00:26:23] Eu acho que a gente

[00:26:24] Tocou nisso

[00:26:25] No episódio anterior

[00:26:26] Mas assim

[00:26:27] De como

[00:26:27] A sociedade que a gente criou

[00:26:30] Especialmente a sociedade americana

[00:26:32] Criou

[00:26:32] Ela é

[00:26:34] Ela é

[00:26:35] Uma

[00:26:36] Corrida de obstáculo

[00:26:38] Feita

[00:26:38] Pra que

[00:26:39] Os psicopatas

[00:26:41] Se deem melhor

[00:26:41] Sim

[00:26:42] Tipo

[00:26:42] Não digo nem que foi necessariamente

[00:26:44] Com intenção

[00:26:47] Mas

[00:26:47] Acidentalmente

[00:26:48] Através

[00:26:50] Da ganância

[00:26:51] De várias pessoas

[00:26:52] E da falta de desculpas

[00:26:53] De várias pessoas

[00:26:54] Modou-se

[00:26:55] Uma sociedade

[00:26:56] Na qual

[00:26:56] Você

[00:26:57] Quem tem

[00:26:58] Quanto menos empatia

[00:26:59] Você tem

[00:27:00] Melhor

[00:27:00] Perfeito

[00:27:01] Então esse que era o meu ponto

[00:27:02] Porque assim

[00:27:02] Daria

[00:27:03] Eu não estou aqui dizendo

[00:27:05] Que os personagens de Saif

[00:27:06] Cometeram homicídios

[00:27:07] São psicopatas seriais

[00:27:09] Mas

[00:27:10] O George

[00:27:10] Então

[00:27:11] Mas

[00:27:11] A gente tinha que chegar nesse episódio

[00:27:13] Né

[00:27:14] Eles são

[00:27:15] Tão ensimesmados

[00:27:17] Tão afundados

[00:27:18] Em seus próprios

[00:27:19] Pequenos problemas

[00:27:20] Que são

[00:27:20] São sempre pequenos

[00:27:21] Existe

[00:27:22] É um

[00:27:23] É um tipo de roteiro comum

[00:27:24] Né

[00:27:24] Toda

[00:27:25] Tudo

[00:27:26] Todo episódio

[00:27:26] Começa com um problema ridículo

[00:27:28] Que pra aqueles sujeitos

[00:27:30] Estão tão ensimesmados

[00:27:31] É um problema absurdo

[00:27:33] Né

[00:27:33] Então

[00:27:33] Ah

[00:27:34] Sei lá

[00:27:34] Desde que não faz a balinha

[00:27:35] Que ele gosta

[00:27:36] Ah

[00:27:37] Os lençóis

[00:27:38] Quando

[00:27:39] As pessoas

[00:27:39] Quando vão fazer

[00:27:40] Arrumar os lençóis

[00:27:41] Camareiras

[00:27:41] Botam os lençóis

[00:27:42] Muito apertados

[00:27:43] E as pessoas ficam

[00:27:43] Sentindo sufocados

[00:27:44] Então

[00:27:44] É sempre um pouco

[00:27:45] Sobre isso

[00:27:46] E é que vem um ponto

[00:27:47] Né

[00:27:48] A coisa é tão ensimesmada

[00:27:49] Que em alguns episódios

[00:27:50] Acontecem verdadeiras

[00:27:51] Tragédias

[00:27:52] Com pessoas

[00:27:52] Ao redor deles

[00:27:54] E eles não estão

[00:27:55] Nem aí

[00:27:56] Nesse episódio

[00:27:57] Que você se referiu

[00:27:57] E eu sei qual é

[00:27:58] A prosmose

[00:27:59] Né

[00:27:59] É um episódio

[00:28:00] Que a noiva do George morre

[00:28:02] Porque ele é tão pão duro

[00:28:04] Que ele não compra

[00:28:05] Um

[00:28:06] Ele não compra os envelopes

[00:28:07] Ele se recusa a pagar

[00:28:08] Os envelopes

[00:28:09] Pro casamento

[00:28:10] Envelopes autodesivos

[00:28:11] É

[00:28:11] E ela tem que ficar lambendo

[00:28:13] A cola

[00:28:14] E ela morre intoxicada

[00:28:15] Exato

[00:28:15] E aí

[00:28:16] Exato

[00:28:17] Já tinha cola

[00:28:18] No coisa

[00:28:19] Só tava velha

[00:28:20] Por isso que não colava

[00:28:20] E aí ela lambeu

[00:28:21] Tanta cola

[00:28:22] Que ela morre

[00:28:23] E aí

[00:28:24] Ele não consegue

[00:28:25] Ficar triste

[00:28:25] Ninguém consegue

[00:28:26] Ficar triste

[00:28:26] E o Jerry

[00:28:27] Fica puto

[00:28:28] Porque os dois

[00:28:29] Decidiram noivar

[00:28:30] Ao mesmo tempo

[00:28:31] E agora o Jerry

[00:28:32] Está noivo

[00:28:32] E o George não

[00:28:33] Porque a noiva dele morreu

[00:28:34] E aí o Jerry

[00:28:34] Entra injustiçado

[00:28:35] Não, sim

[00:28:36] E aí vem um ponto

[00:28:36] Porque assim

[00:28:37] Essa cena

[00:28:38] Pra quem não viu

[00:28:39] Procura no YouTube

[00:28:40] Essa cena

[00:28:40] Ela é cringe

[00:28:42] Ela é constrangedora

[00:28:43] De um nível

[00:28:44] Porque assim

[00:28:44] O sujeito recebe a notícia

[00:28:46] Que a noiva dele

[00:28:47] Tinha morrido

[00:28:47] Falecido

[00:28:48] E ele não consegue

[00:28:49] Ficar triste

[00:28:50] Tem uma hora que pergunta assim

[00:28:51] Ela morreu?

[00:28:53] É

[00:28:53] Que chato né

[00:28:55] É

[00:28:55] E assim

[00:28:57] E fica ali

[00:28:58] Exato

[00:28:59] Eles ficam muito

[00:29:00] E é muito bom

[00:29:01] Porque é muito surreal

[00:29:02] Você ver

[00:29:03] Naquele

[00:29:04] Naquela

[00:29:04] Naquele enquadramento

[00:29:06] Sitcom

[00:29:06] Num programa

[00:29:07] Que tem left track

[00:29:08] Você vê uma cena

[00:29:10] Que lida com isso

[00:29:11] Em primeiro lugar

[00:29:11] E que tem a coragem

[00:29:13] De botar

[00:29:14] Porque assim

[00:29:14] É isso

[00:29:14] Isso acontece

[00:29:15] Lá pela sétima temporada

[00:29:16] Sexta ou sétima

[00:29:18] E aí

[00:29:19] Tipo

[00:29:20] A coragem

[00:29:21] Inerente em tipo

[00:29:23] Ah vamos pegar esse

[00:29:24] Que é o maior programa

[00:29:25] Da televisão americana

[00:29:26] E continuar

[00:29:27] Empurrando a linha

[00:29:29] Do tipo

[00:29:30] Ok

[00:29:30] O quão ruim eles podem ser

[00:29:31] Com pessoas

[00:29:32] Sim

[00:29:32] O quão ruim

[00:29:32] Então isso é fascinante

[00:29:34] E aí eu entro numa coisa

[00:29:36] Que eu acho que é importantíssima

[00:29:37] A série

[00:29:38] Ela

[00:29:39] Desde o começo

[00:29:40] Ela existe

[00:29:41] Pra

[00:29:42] Meio que ridicularizar

[00:29:44] Os protagonistas

[00:29:44] Porque

[00:29:45] Ela é

[00:29:46] Quando tudo começa

[00:29:48] Né

[00:29:48] O projeto da série

[00:29:49] Ela é um jeito de adaptar

[00:29:51] A sensibilidade

[00:29:52] Do stand up

[00:29:52] Do Jerry

[00:29:52] Pra uma série

[00:29:54] E isso é o ponto

[00:29:55] Que eu chegava lá

[00:29:55] O stand up dele

[00:29:56] Exatamente

[00:29:56] O que a gente chama

[00:29:58] De white people problem

[00:29:59] Exatamente

[00:29:59] E a razão

[00:30:01] Pela qual o humor dele

[00:30:02] Na série funciona

[00:30:03] Melhor do que no stand up

[00:30:05] Eu diria

[00:30:05] É exatamente

[00:30:06] Porque no stand up

[00:30:07] Tá ele sozinho

[00:30:08] Como uma figura

[00:30:09] De autoridade

[00:30:09] Projetando

[00:30:10] As suas

[00:30:11] Tipo

[00:30:11] As suas pequenas

[00:30:13] Né

[00:30:14] Os seus pequenos

[00:30:14] Contragostos

[00:30:15] Numa vida extremamente

[00:30:16] Privilegiada

[00:30:16] Já na série

[00:30:18] E a

[00:30:20] A brilhanteza

[00:30:21] Do Larry David

[00:30:22] Vem disso

[00:30:22] Que ele vira e fala assim

[00:30:23] Bicho

[00:30:24] Se a gente só fizer uma série

[00:30:25] De você

[00:30:26] Vivendo as situações

[00:30:27] Das quais você reclama

[00:30:28] No seu stand up

[00:30:29] Ninguém vai gostar

[00:30:30] A gente tem que rir

[00:30:32] Desse homem criança

[00:30:34] Que a gente criou

[00:30:34] E aí

[00:30:35] Tem uma

[00:30:35] Tem todo um outro episódio

[00:30:37] De PopCult

[00:30:37] Se você quiser fazer um dia

[00:30:38] Pra analisar o quanto

[00:30:39] Que o Jerry Seinfeld

[00:30:40] Como a figura Seinfeld

[00:30:42] Do seriado

[00:30:43] Hum

[00:30:44] Influenciou

[00:30:45] A

[00:30:46] A

[00:30:46] A geração

[00:30:47] De homens crianças

[00:30:48] Que

[00:30:49] Com a quais convivemos hoje

[00:30:50] Deixa anotado

[00:30:51] Que isso é um tema quente hein

[00:30:52] E esse é um tema importante

[00:30:53] Exato

[00:30:53] A gente volta pra isso

[00:30:54] Exato

[00:30:54] E aí

[00:30:56] Entra a dinâmica da série

[00:30:57] Que é essa que é revertida

[00:30:58] No último episódio

[00:30:59] Que é

[00:31:00] Toda semana

[00:31:01] Você sabe que eles estão

[00:31:02] Perturbando pessoas

[00:31:04] Você

[00:31:04] Você tá vendo eles

[00:31:05] Só que você quer acompanhar

[00:31:06] A jornada deles

[00:31:07] Né

[00:31:08] Então por exemplo

[00:31:09] A gente viu um episódio

[00:31:10] Recentemente

[00:31:10] Que é aquele

[00:31:11] A

[00:31:12] A

[00:31:12] A

[00:31:12] A

[00:31:13] A

[00:31:13] A

[00:31:13] A

[00:31:13] A

[00:31:13] A

[00:31:13] A

[00:31:13] A

[00:31:13] A

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[00:31:13] A

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[00:31:13] A

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[00:31:13] A

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[00:31:14] A

[00:31:14] A

[00:31:14] A

[00:31:14] A

[00:31:14] A

[00:31:14] A

[00:31:14] A

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[00:31:14] A

[00:31:14] A

[00:31:14] A

[00:31:14] A

[00:31:14] A

[00:31:29] A

[00:31:35] A

[00:31:35] A

[00:31:36] A

[00:31:36] A

[00:31:36] A

[00:31:36] A

[00:31:36] A

[00:31:36] A

[00:31:37] A

[00:31:38] A

[00:31:38] A

[00:31:39] A

[00:31:39] A

[00:31:39] A

[00:31:39] A

[00:31:39] A

[00:31:39] A

[00:31:40] A

[00:31:40] A

[00:31:40] A

[00:31:40] A

[00:31:40] A

[00:31:40] A

[00:31:41] A

[00:31:41] A

[00:31:41] A

[00:31:41] A

[00:31:41] A

[00:31:41] A

[00:31:41] A

[00:31:41] A

[00:31:41] A

[00:31:41] A

[00:31:41] A

[00:31:41] A

[00:31:41] A

[00:31:42] A

[00:31:42] A

[00:31:42] A

[00:31:42] A

[00:31:42] A

[00:31:42] A

[00:31:43] A

[00:31:44] Ela

[00:31:44] Ela

[00:31:44] Ela

[00:31:44] Ela

[00:31:44] Ela

[00:31:44] Ela

[00:31:44] lá, conversando com o cara, e ela

[00:31:46] tinha falado no começo do episódio pro Jay, ah, eu acho que a gente

[00:31:48] vai morar junto e tal, tipo, a coisa tá ficando séria.

[00:31:51] E aí, eles tão conversando

[00:31:52] e aí ele para, peraí, mas onde você comprou

[00:31:54] essa bala? No cinema. Ué, mas o gerente

[00:31:56] não te avisou? Sim.

[00:31:58] E aí você comprou pra…

[00:32:00] Você parou pra comprar a bala? Ela falou

[00:32:02] é aí que eu tava no balcão, já.

[00:32:06] E ele, mas peraí, você ouviu que eu fui atropelado

[00:32:08] e aí ele, eu não faria isso com você.

[00:32:11] E aí você começa,

[00:32:12] você ao mesmo tempo, você sabe que o cara

[00:32:14] tá certo e que o que ela fez é ridículo,

[00:32:16] mas a série também sabe, porque assim que ela

[00:32:18] vira, quando ela tá no cinema ainda, e ela

[00:32:20] vira pra pegar a bala, tem uma

[00:32:22] tem um left track.

[00:32:24] Então a série é escrita sabendo

[00:32:26] que é tipo, ai meu Deus,

[00:32:28] o quão, tipo,

[00:32:30] é um tropo muito comum de sitcom,

[00:32:32] desde as mais chatas, assim, tipo Full House,

[00:32:35] mas que o Seifert leva

[00:32:36] pra enésima potência, que é o

[00:32:38] o quão fundo é o buraco

[00:32:40] que essa pessoa vai criar.

[00:32:42] Porque tem, inclusive, uma piada muito

[00:32:44] rota, assim, tipo, sobre

[00:32:46] sitcoms americanos, que é, quantas sitcoms

[00:32:48] não teriam episódios se as pessoas simplesmente

[00:32:50] se comunicassem direito?

[00:32:53] Né? Quantos enredos

[00:32:54] de sitcoms são só, tipo, ah, eu fiz algo

[00:32:56] e eu não quero contar pra alguém e eu vou tentar esconder isso?

[00:32:58] Superman.

[00:33:00] Superman, por exemplo.

[00:33:02] Não, Superman, tipo, quadrinho, tem muito isso.

[00:33:04] Aquela que falou, porrada de quadrinho que as pessoas não

[00:33:06] comunicam, né?

[00:33:08] É, então, mas, ah, porque o super-homem

[00:33:10] é um expoente muito grande disso, porque eles

[00:33:12] não conseguem criar vilão que seja tão forte quanto

[00:33:14] ele o tempo inteiro, então é, tipo, ah, ele vai ter

[00:33:16] que sair na mão com os heróis também.

[00:33:18] Vai ter que apostar corrida com o Flash.

[00:33:20] E aí o Seinfeld, eu acho

[00:33:22] que é maravilhoso, é um expoente disso

[00:33:24] que a gente vê refletido em outras comédias

[00:33:26] muito legais que vieram depois,

[00:33:28] né? Tipo, Arrested Development,

[00:33:30] o próprio Rick e Morty,

[00:33:32] e o Curb Your Enthusiasm,

[00:33:35] que é a série que o Larry David faz

[00:33:36] hoje em dia, que aí ele teve a brilhante ideia

[00:33:38] de, tipo, ah, agora que eu fiquei milionaríssimo

[00:33:41] com Seinfeld,

[00:33:42] eu vou fazer a minha versão de Seinfeld,

[00:33:44] em que eu sou ainda mais

[00:33:46] insuportável, porque eu ainda

[00:33:48] sou dez vezes mais rico que os personagens

[00:33:50] daquela série. Então eu tô

[00:33:52] vivendo situações que, tipo,

[00:33:54] não tão nem perto do reino

[00:33:56] da normalidade das pessoas. E é aí

[00:33:58] que existe o pulo do gato do Seinfeld

[00:34:00] que faz a gente querer falar sobre ele aqui hoje.

[00:34:02] Que, apesar de tudo isso que a gente falou, e das

[00:34:04] pessoas estarem, sim, em algum nível ciente, de, tipo,

[00:34:06] ah, esses caras fazem umas coisas, hein?

[00:34:08] Eles são doidos, hein?

[00:34:10] As pessoas ainda tinham uma

[00:34:12] certa visão aspiracional, porque eles

[00:34:14] não eram essa figura nova-arquina de classe média

[00:34:16] a qual você tinha que aspirar ser. Especialmente,

[00:34:18] cara, eu morava em São Paulo.

[00:34:20] Todo paulista quer fingir que mora em Nova York.

[00:34:23] Chegamos a um ponto aí.

[00:34:24] Chegamos a um ponto. Porque, assim,

[00:34:27] tem duas questões fundamentais aí.

[00:34:29] A ideia

[00:34:30] aspiracional e tem

[00:34:32] a coisa do stand-up.

[00:34:34] Eu confesso, e digo isso

[00:34:36] com toda sinceridade, isso não é nenhuma…

[00:34:38] não é um ataque pessoal a você,

[00:34:40] mas eu tenho uma dificuldade imensa

[00:34:42] com stand-ups.

[00:34:44] Porque tem uma questão… Inclusive, porque tem

[00:34:46] toda uma escola paulistana

[00:34:48] de stand-up, meu, que é

[00:34:50] complexa. É complexa.

[00:34:53] Eu acho bem simples.

[00:34:55] Eu acho tão

[00:34:56] simples quanto um fundo.

[00:34:58] A gente sabe

[00:35:00] que uma das coisas que sempre me

[00:35:02] faltou, porque, assim, tem uma coisa…

[00:35:04] Uma vez você usou

[00:35:05] uma coisa dentro do pop-cult, que eu sempre fiquei…

[00:35:08] Me deu uma frase pra pensar.

[00:35:10] Me deu uma frase pra pensar, né?

[00:35:12] Ninguém sente o cheiro da própria

[00:35:14] casa, né? Então, assim,

[00:35:16] o… Por que o humor?

[00:35:18] O que o humor desenha?

[00:35:20] E aí eu sou uma pessoa, assim,

[00:35:21] com populações indígenas, né?

[00:35:23] Eu tô vivendo sempre em outros contextos.

[00:35:26] Macumba, sabe?

[00:35:27] Eu tô sempre vivendo em outros contextos que, digamos,

[00:35:29] o contexto pop-cult, né?

[00:35:31] O pop-cult é apenas um dos contextos

[00:35:33] dos quais eu transito e tenho familiaridade.

[00:35:36] Então, assim, eu sei, por exemplo,

[00:35:38] que as piadas que eu escuto

[00:35:40] na macumba, eu não posso

[00:35:42] trazer pro pop-cult porque não seriam engraçadas.

[00:35:44] As piadas que eu escuto na aldeia e das quais

[00:35:45] eu dou risada, rio com…

[00:35:48] Sabe? Lá, entre os aqui e lá,

[00:35:50] é uma coisa que eu sempre falo. Eu vi isso na introdução

[00:35:52] da minha tese. Eu falo assim, cara, não teve um só dia que eu não gargalhei.

[00:35:54] E não gargalhei, assim, eles me

[00:35:56] faziam… Eu ria com eles, das coisas

[00:35:58] que eles riam, né? Tipo, eles são pessoas…

[00:36:00] Porque o humor é uma atividade

[00:36:02] essencial, né? As pessoas…

[00:36:04] Uma coisa que é muito importante,

[00:36:06] quem já conviveu com populações indígenas sabe que o humor

[00:36:08] é uma das características essenciais.

[00:36:10] Porque se as pessoas não estão rindo,

[00:36:11] é um sinal de tristeza, né?

[00:36:14] Então, assim, esse que é um ponto

[00:36:16] crucial. Na macumba, é a mesma

[00:36:17] coisa. Só que são piadas que eu sei,

[00:36:20] que eu só entendo elas e rio

[00:36:22] com elas porque eu estou familiarizado

[00:36:24] com aqueles contextos e eu me identifico

[00:36:26] com eles. Quando eu vou olhar pro stand-up,

[00:36:28] uma das coisas que eu sempre tive muita dificuldade

[00:36:30] era porque eu não me

[00:36:31] identificava com aqueles indivíduos, ainda que a maioria

[00:36:33] daqueles comediantes eram pessoas

[00:36:36] fenotipicamente parecidas

[00:36:37] comigo, né? Tipo, homens brancos,

[00:36:39] cisgênero, enfim. Eu não achava

[00:36:42] aquelas piadas engraçadas porque

[00:36:43] aquela perspectiva da quais elas estavam

[00:36:45] enunciando, não é à toa

[00:36:48] que muito do stand-up se construiu

[00:36:49] e não estou dizendo, não estou generalizando, mas

[00:36:51] é inegável que muito do stand-up, sobretudo

[00:36:53] nacional, se constituiu

[00:36:56] atacando

[00:36:58] minorias,

[00:36:59] atacando, exercendo o poder do

[00:37:01] macho branco, né? Enfim.

[00:37:03] Então, assim, aquilo nunca me

[00:37:05] pareceu engraçado. Não vou aqui

[00:37:07] aquela coisa, fingir coerência eterna.

[00:37:10] Não. Porque quando aquilo apareceu pra mim,

[00:37:11] eu já era uma pessoa, eu já era uma pessoa muito

[00:37:13] mais próxima do que eu sou hoje do que em outros momentos, né?

[00:37:15] Então, é o que faz, cara, porra,

[00:37:18] ficar falando mal de mulher,

[00:37:19] bicho, saca? Tipo, ah, meu,

[00:37:21] mulher é muito doido, né?

[00:37:23] Porque ela não gosta quando a gente sai com os

[00:37:25] amigos e some. Sabe? As coisas do tipo,

[00:37:27] cara, qual é a graça disso? Então, assim,

[00:37:30] cara, mas é que eu acho

[00:37:31] que tem uma questão aí que se

[00:37:33] amarra, inclusive, com essa coisa que você falou, assim, tipo,

[00:37:35] a piada que eu faço na Macumba,

[00:37:37] a piada que eu vou fazer com o Zaqueu Ara,

[00:37:38] que é a mesma piada que eu vou fazer aqui,

[00:37:40] que é o seguinte, que as pessoas,

[00:37:42] às vezes, não têm essa noção,

[00:37:46] mas elas têm

[00:37:46] inerentemente, que é

[00:37:48] humor, como toda comunicação,

[00:37:51] depende muito do contexto.

[00:37:53] É por isso que você tem

[00:37:55] piada interna com seus amigos. É por isso

[00:37:56] que você consegue fazer os seus amigos rirem

[00:37:59] e não necessariamente você é um comediante.

[00:38:00] É por isso que as vezes que você fala pra seus amigos rirem…

[00:38:02] Esse é o fogão de problema da tua geração.

[00:38:05] Um monte de gente que

[00:38:06] era engraçado no grupo de AM, falou, pô, meu,

[00:38:08] sou engraçado pro mundo.

[00:38:11] Exato. E aí,

[00:38:12] é isso, você ser engraçado na mesa de bar

[00:38:15] com os seus amigos, que tem uma vivência

[00:38:17] específica como a sua,

[00:38:18] e mais do que isso, tem um contexto pra quem você é,

[00:38:21] né? Tem um contexto de, tipo,

[00:38:23] de você não precisar contextualizar

[00:38:25] a cada fala, por exemplo, tipo, ah, eu não gosto disso,

[00:38:27] eu gosto daquilo, não, enfim, né?

[00:38:29] Você tem uma leniência muito maior com as pessoas

[00:38:31] que te conhecem do que com um grupo de estranhos.

[00:38:33] E mais do que isso é reconhecer

[00:38:35] que é isso que você falou, assim, ah, os caras eram

[00:38:37] muito parecidos comigo fenotipicamente, mas a gente

[00:38:39] não tinha muito em comum tirando isso.

[00:38:41] E é uma parada que é muito real,

[00:38:43] assim, é, eu, o, o,

[00:38:45] quando eu fazia stand-up, por exemplo,

[00:38:47] eu sempre falei assim, tipo, cara,

[00:38:49] não gostaria, nem se me convidassem,

[00:38:51] iria fazer um show no Comedians,

[00:38:53] entendeu? Porque as pessoas que vão assistir comédia

[00:38:55] no Comedians não querem me ver.

[00:38:57] Eu não vou fazer isso com nós.

[00:38:59] Eu não vou fazer isso comigo e eu não vou fazer isso com eles,

[00:39:01] entendeu? Aquelas pessoas,

[00:39:03] elas, elas usam camisa

[00:39:05] polo e sapatênis e a gente, tipo,

[00:39:07] tem visões de mundo muito diferentes.

[00:39:09] E não é nem uma questão, tipo,

[00:39:11] assim, não era nem isso, eu era um moleque muito mais novo,

[00:39:13] não era uma questão de, tipo, ah, só…

[00:39:15] Pra mim, era, era, era tão babaca

[00:39:17] que era essa coisa de, tipo, assim, do cara

[00:39:18] fazer essas piadas machistas, eu nem pegava

[00:39:21] tanto pelo lado do machismo, porque

[00:39:22] não tava tão consciente disso. Mas eu tava no, tipo,

[00:39:25] essa piada é velha, saca?

[00:39:26] Isso aí é batido.

[00:39:28] Tipo, não faz isso, cara.

[00:39:30] E, e, e, e aí, claro, que, tipo, só começou

[00:39:32] a denigolar cada vez mais, né?

[00:39:35] E aí temos hoje o Danilo Zantilli

[00:39:37] no TV e tudo mais.

[00:39:38] Mas o que eu acho interessante é

[00:39:41] que o Seinfeld é uma relíquia

[00:39:43] disso que a gente tava falando, porque eu comecei falando como ele era

[00:39:45] a monocultura. E ele é

[00:39:47] a monocultura do último estágio,

[00:39:49] talvez, ali, em que a monocultura podia

[00:39:51] ainda ser um homem branco

[00:39:53] nova arquivo, cercado

[00:39:55] por seus amigos brancos e tal,

[00:39:57] reclamando da sua vivência extremamente

[00:39:59] classe média americana. Por quê?

[00:40:02] Porque a gente,

[00:40:03] a gente tava acostumado a

[00:40:05] tomar isso como normal, tipo, a não entender

[00:40:07] que faltava representatividade,

[00:40:09] que as pessoas não se viam representadas na tela

[00:40:11] e não havia espaço pra gente ouvir essas pessoas

[00:40:13] dizendo, tipo, ei, eu,

[00:40:15] eu quero, eu não quero ver isso.

[00:40:17] E, e, e se reflete aqui

[00:40:19] que, tipo, beleza, Seinfeld ainda passa

[00:40:21] no Sony, provavelmente, e é muito

[00:40:23] popular aqui, e os DVDs

[00:40:25] venderam pra caralho, o livro vendeu pra caralho aqui,

[00:40:28] mas as séries

[00:40:29] de comédia que as pessoas

[00:40:31] na sua maioria falam e veem até hoje

[00:40:33] é um maluco no pedaço, é todo mundo odeia o

[00:40:35] Chris, entendeu? Que são vivências

[00:40:38] nem um pouco próximas

[00:40:40] da vivência média brasileira,

[00:40:42] mas ainda mais próximas. E também

[00:40:44] de personagens negros,

[00:40:46] entendeu? De, tipo, né, a gente

[00:40:47] tem pouquíssimos

[00:40:49] Jerry Seinfeld no Brasil, assim, né?

[00:40:52] Mesmo se a gente levar em conta

[00:40:54] que, tipo, ah, ele não é só branco, ele também é judeu e tal,

[00:40:56] mas, pô, então menos ainda.

[00:40:58] Mas é isso, assim,

[00:40:59] a gente tava vivendo uma época

[00:41:02] ainda em que as novelas eram muito brancas,

[00:41:04] que o Jornal Nacional ainda era

[00:41:06] mais branco ainda do que é hoje.

[00:41:08] É, é. Então, tipo, era muito

[00:41:09] normal o Seinfeld poder ser

[00:41:12] a série do mundo, a coisa

[00:41:14] mais vista. Mas, hoje em dia,

[00:41:16] é quase incompreensível pra quem não viveu

[00:41:18] aquela época. Por que que isso seria algo

[00:41:20] que tantas pessoas que não

[00:41:22] são o público-alvo, vamos dizer,

[00:41:24] daquilo ali, gostavam e apreciavam

[00:41:26] de alguma maneira. Não, então, mas isso que é um ponto que eu queria

[00:41:28] chegar, porque

[00:41:28] no Seinfeld, as pessoas, muito

[00:41:32] dessa

[00:41:33] entrada que ele teve, digamos,

[00:41:35] nas regiões mais periféricas, me parece,

[00:41:38] ser justamente dessa

[00:41:39] aspiração, né, as pessoas

[00:41:42] riam daquilo que elas gostariam

[00:41:44] de estar vivendo, né. Elas não riam

[00:41:46] de problemas que elas se identificavam. Nossa,

[00:41:48] deve ser muito difícil conviver

[00:41:50] com um lugar que, sei lá,

[00:41:52] é… um nazista que vende

[00:41:54] a melhor sopa francesa do mundo, sabe.

[00:41:56] Deve ser muito difícil. Não, eu nunca tive

[00:41:58] essa experiência na minha vida, sabe.

[00:42:00] É, não, você queria aquilo.

[00:42:02] E acho que tem uma série que, pra mim,

[00:42:04] é super herdeira do Seinfeld, mas

[00:42:05] feita com a sensibilidade dos dias de hoje,

[00:42:08] é Broad City, que são duas

[00:42:10] garotas morando em Nova York,

[00:42:11] e é muito bom, porque elas vivem,

[00:42:14] tipo, é isso, elas têm,

[00:42:16] elas dividem apartamento, elas, tipo,

[00:42:18] pegam uns frilas horríveis, elas nunca têm

[00:42:20] grana pra fazer as coisas e tal, então

[00:42:21] conversa muito mais com a geração de hoje, né,

[00:42:23] pós crise econômica de 2008

[00:42:26] e tudo mais. E aí,

[00:42:28] mas eu acho que o Seinfeld

[00:42:30] dessa época, ele conversa exatamente com a novela

[00:42:32] dessa época, que é aquela coisa, ninguém mora

[00:42:34] num apartamento pequeno, entendeu?

[00:42:36] Seja em Copacabana ou em Manhattan.

[00:42:38] É isso, tipo, não, é uma

[00:42:40] realidade que não é a real, é um

[00:42:42] recorte pra ser aspiracional.

[00:42:44] Tem uma coisa, tem uma coisa

[00:42:46] que tem várias questões aí envolvidas, né,

[00:42:47] inclusive, por exemplo, existe, eu já falei isso no

[00:42:49] Pop Cult, né, existe estudos que falam

[00:42:52] como o Brasil conseguiu

[00:42:53] modificar o seu crescimento demográfico

[00:42:56] por conta das novelas, né, porque

[00:42:57] você ter um casal e dois filhos

[00:43:00] é o padrão das novelas, né, enfim,

[00:43:02] porque contratar com criança deve ser,

[00:43:03] fazer casting de criança é complicado,

[00:43:06] filmar com criança é pior que fazer casting de criança,

[00:43:08] tem que trabalhar com a sua criança depois.

[00:43:09] É, e criança, bicho, então, aí, praia,

[00:43:11] e acabou tudo. Mas, assim,

[00:43:13] o ponto todo, né,

[00:43:16] dessa história é que

[00:43:17] a novela tem um tipo de narrativa

[00:43:20] que muitas vezes não é tão

[00:43:21] aspiracional quanto talvez

[00:43:23] era esses primeiros produtos,

[00:43:25] porque, por exemplo,

[00:43:28] é muito…

[00:43:31] Tem um trabalho, eu tenho que lembrar qual é o nome

[00:43:33] desse livro, é Made For You,

[00:43:35] que foi um aluno do Marshall Sarnick que escreveu

[00:43:38] novelas e ela detectou uma coisa muito interessante

[00:43:40] que a novela tem uma coisa meio

[00:43:41] chaves, né, que é essa…

[00:43:43] Você sabe o que vai acontecer, então

[00:43:45] o conforto dela, a tua relação com a novela

[00:43:47] é meio que você sabe pra onde ela vai, saca?

[00:43:50] Então você tá assistindo aqui, tanto que a novela, você pode

[00:43:52] ficar três, quatro, cinco episódios sem assistir, quando você volta,

[00:43:54] pô, pode ter acontecido um monte de coisa,

[00:43:56] mas você consegue inferir, né?

[00:43:58] Eu vou ter que fazer um parênteses sobre

[00:43:59] algo que eu tava pensando hoje enquanto eu cozinhava o almoço,

[00:44:02] desculpa, porque é muito relevante aqui com

[00:44:03] o que você tá falando. Eu tava pensando

[00:44:05] hoje, na terapia hoje, por algum

[00:44:07] motivo a gente falou do filme Sexto Sentido

[00:44:09] e aí eu

[00:44:12] lembrei que o Sexto Sentido foi o primeiro

[00:44:13] filme, assim, pelo menos na minha vivência

[00:44:16] que as pessoas ficavam bravas

[00:44:17] se você falasse que não, né? E aí, desde

[00:44:19] então, a gente degringolou muito enquanto sociedade.

[00:44:22] E aí, eu lembrei, teve um estudo

[00:44:24] uns anos atrás que mostrava que, tipo,

[00:44:25] a capacidade da pessoa de aproveitar

[00:44:28] uma história, um filme, não é

[00:44:29] diminuída por saber o fim, né?

[00:44:32] E aí eu tava pensando assim, cara,

[00:44:34] que doido, eu tava lendo

[00:44:35] um livro pra

[00:44:36] a

[00:44:36] filhada da minha namorada, esse tempo,

[00:44:39] e aí eu li, tipo, 25

[00:44:41] vezes o mesmo livro, né? Aqueles livros de crianças.

[00:44:43] Com isso, bem, com essa situação.

[00:44:45] E criança ama, né?

[00:44:47] O conforto de saber o que vai acontecer e viver

[00:44:49] aquele momento. E eu falo assim, quando que a gente

[00:44:51] ficou pior do que crianças pra aproveitar

[00:44:53] histórias que você fala, tipo,

[00:44:55] qualquer coisa? Tipo, você fala assim,

[00:44:57] pô, tem esse ator nesse filme?

[00:44:59] Pô, sem spoilers, cara.

[00:45:02] Sem spoilers. Tudo que

[00:45:03] eu tenho aqui é, é, é, é,

[00:45:05] é, tipo, a minha capacidade de assistir

[00:45:08] um filme

[00:45:09] é a mesma capacidade que eu tenho de assistir um show

[00:45:11] de mágica em festa infantil.

[00:45:13] Se eu souber o que ele vai fazer, eu vou

[00:45:15] embora.

[00:45:18] Mas é isso,

[00:45:19] cara, eu tenho uma teoria de que

[00:45:21] é, a gente sabe de onde vem isso, né, e tal,

[00:45:23] mas é porque, eu sempre acho

[00:45:25] que se um filme,

[00:45:27] uma obra, um livro, que você saber

[00:45:29] o final dele, a virada narrativa,

[00:45:32] você saber a virada narrativa e isso

[00:45:33] estragar o livro, é porque ele é ruim.

[00:45:35] O filme é a mesma coisa, sabe?

[00:45:37] Tipo assim, eu não assisto um filme do Tarkovsky,

[00:45:40] um do Akira Kurosawa,

[00:45:41] nossa, então o planeta é vivo,

[00:45:44] meu, nossa!

[00:45:45] E aí, eu vou dar a volta

[00:45:47] suprema aqui, e você vai falar assim, é por isso

[00:45:49] que eu faço Pode Esquecer com o Gus.

[00:45:52] O humor americano,

[00:45:54] especialmente, esse

[00:45:55] tradicionalzão do Jerry Seinfeld e do,

[00:45:58] e da sitcom, é exatamente

[00:45:59] esse pensamento expresso de humor,

[00:46:02] que é o humor de setup e punchline.

[00:46:04] Que você tá ali,

[00:46:05] só esperando a punchline.

[00:46:07] Que você tá ali só pra ser surpreendido com uma virada

[00:46:10] no fim. E,

[00:46:12] é um só tipo de humor. Do mesmo jeito

[00:46:13] que as pessoas generalizam, muitas vezes, é tipo,

[00:46:15] ah, o stand-up é sempre humor de identificação.

[00:46:17] Tipo, não. Tem humoristas surrealistas

[00:46:19] que fazem stand-up muito bem.

[00:46:21] Tem um monte de

[00:46:23] comediantes que fazem stand-up que não tem nada a ver

[00:46:25] com identificação. Inclusive, vão

[00:46:27] pro extremo oposto, às vezes.

[00:46:29] Do mesmo jeito que não é todo o humor

[00:46:32] que é nessa estrutura setup

[00:46:34] e punchline e tal. Tem um documentário,

[00:46:35] que eu não recomendo pra ninguém assistir hoje em dia,

[00:46:38] porque, enfim, extremamente problemático

[00:46:40] já. Mas, eu preciso só pegar

[00:46:41] o assunto, que é o The Aristocrats.

[00:46:44] Que é sobre essa piada, que era uma

[00:46:45] piada tradicional, tipo, desde a época de

[00:46:47] vaudeville, lá do

[00:46:49] final do século XIX, e aí

[00:46:51] adentrou o século XX, que era a piada

[00:46:53] que os comediantes contavam

[00:46:55] pros outros e pra banda, e nunca contavam

[00:46:57] no palco. E que exatamente é uma piada

[00:46:59] cuja punchline é horrível, e tipo

[00:47:01] assim, horrível no sentido de sem graça.

[00:47:03] E a graça é que você improvisa

[00:47:05] no meio. E quanto mais você

[00:47:07] enfia de coisas idiotas

[00:47:09] e grotescas, e enfim,

[00:47:11] o que for, mais absurdo

[00:47:13] vai ficando. E aí o absurdo da jornada

[00:47:15] é engraçado

[00:47:17] e é pontuado com

[00:47:19] olha o quão insignificante é esse fim que

[00:47:21] torna tudo mais absurdo. Ou seja,

[00:47:24] né, ele é

[00:47:24] um exemplo muito

[00:47:26] difundido de uma estrutura que foge

[00:47:29] disso. E aí, talvez,

[00:47:31] a gente tá tão condicionado por esse tipo de humor

[00:47:33] massificado, que é esse humor

[00:47:35] americano de setup e punchline,

[00:47:37] que é diferente até do humor

[00:47:39] britânico também, mas eu não vou ser aqueles caras pedantes

[00:47:41] aqui que ficam falando que o humor britânico é o melhor.

[00:47:43] Então,

[00:47:44] de certa

[00:47:47] maneira, o Seinfeld é tanto um herói

[00:47:49] que ele nos ensinou a não gostar de spoilers.

[00:47:51] Isso é verdade. Isso é uma questão

[00:47:53] verdadeira.

[00:47:55] Por um momento ali,

[00:47:57] quando você deu uma respirada, eu falei, será que eu perdi?

[00:47:59] Não, não, eu fiquei pensando. Faz sentido.

[00:48:01] Porque, assim, tem vários outros pontos que dá pra

[00:48:03] levar nisso aí também. A gente levou,

[00:48:05] como sempre, a gente levou o programa pra um

[00:48:06] lote completamente imprevisível.

[00:48:09] A gente não sabe.

[00:48:11] A gente não sabe. A gente só espera e não recebe

[00:48:13] processos, né? Basicamente.

[00:48:15] A gente começa, a gente faz uma oração aqui,

[00:48:17] né? Bota um copo e fala assim,

[00:48:19] irmão, a gente não vai ser processado hoje. Hoje não.

[00:48:21] Hoje não. E tá bom até agora. Como é que é?

[00:48:24] Terceira temporada,

[00:48:25] não sei quantos episódios já fizemos, nenhum processinho chegou

[00:48:27] na nossa conta ainda.

[00:48:29] É o décimo segundo episódio já.

[00:48:31] Uau. Vamos lá.

[00:48:33] Então… Não, vigésimo segundo.

[00:48:35] Não, eu também achei… Vigésimo segundo.

[00:48:37] Então, assim, eu concordo

[00:48:39] com isso. Eu acho que, de fato,

[00:48:42] tem uma… O Seinfeld

[00:48:43] foi uma coisa que massificou, inclusive,

[00:48:45] pra gente enquanto humor, né? Tipo,

[00:48:47] olha, então… Ah, sim. Se você fala com

[00:48:49] todo mundo que começou a fazer

[00:48:51] stand-up aqui naquele começo do

[00:48:53] stand-up aqui no Brasil, no começo dos anos 2000,

[00:48:55] todos eles iam falar, ah, eu adoro o Seinfeld. É?

[00:48:57] É isso, assim, tipo… Mas era, porque, assim,

[00:48:59] era

[00:49:00] o contato que, assim, tipo,

[00:49:03] eu comecei ali, tipo, em 2003,

[00:49:05] 2004, a achar

[00:49:07] comediantes na internet, gringos, e aí, tipo,

[00:49:08] ouvir umas coisas, baixar uns

[00:49:11] vídeos e baixar uns álbuns.

[00:49:13] Mas, assim, na cultura… Tipo, se você

[00:49:15] era brasileiro e tinha até TV a cabo,

[00:49:18] você raramente

[00:49:19] via um especial de stand-up. Eu vou falar pra você

[00:49:21] qual foi o primeiro especial de stand-up

[00:49:23] que eu vi na TV a cabo,

[00:49:25] que foi The Kings of Comedy.

[00:49:27] Eu não sei se você lembra desse especial. É um especial

[00:49:28] extremamente popular, do começo dos anos 2000,

[00:49:31] só de comediantes negros americanos.

[00:49:33] Eu vi um do Chris Rock, será que eu conheço?

[00:49:35] Não, não tem o Chris Rock.

[00:49:36] São os caras mais antigos que ele.

[00:49:38] É o Cedric The Entertainer,

[00:49:40] o D.L. Hewley,

[00:49:43] o Bernie Mac.

[00:49:45] O Bernie Mac, é. E eu acho que tinha mais um.

[00:49:47] E eu assisti isso, tipo,

[00:49:49] toda vez, assim, tava passando em qualquer

[00:49:51] telecine ou qualquer coisa que fosse, eu parava e via,

[00:49:53] assim, porque era aquela coisa… Não só

[00:49:55] porque é bom, mas porque

[00:49:57] era, tipo, cara, qualquer pingo de stand-up

[00:49:59] que eu consegui consumir aqui vai ser muito.

[00:50:01] Porque é isso, porque a gente tá falando,

[00:50:03] né? Quantas pessoas realmente falam

[00:50:05] inglês no Brasil. Assistir stand-up com

[00:50:07] legenda não parece

[00:50:08] muito frutífero, né?

[00:50:11] Então, tipo, é claro que

[00:50:12] não era um conteúdo que você tava programando

[00:50:15] num canal de televisão aqui e falar, pô, eu preciso

[00:50:16] encher de stand-up aqui. Tipo,

[00:50:19] não acho que ia fazer barulho. O negócio

[00:50:21] do Cypher, tipo, popularizar o formato aqui

[00:50:23] é que ele enfiou aquelas cenas no meio da

[00:50:25] sitcom. Então aí passava a sitcom aqui, a sitcom

[00:50:27] fazia sentido, e você tinha

[00:50:29] uma noção de, pô, ah, stand-up, é aquele negócio

[00:50:31] que o Jerry faz e tal, não sei o quê.

[00:50:33] E tinha aquela noção de que isso,

[00:50:34] isso rolava muito mais lá do que aqui.

[00:50:36] E aí, eventualmente, virou o homem com

[00:50:38] um violão no bar, assim, felizmente.

[00:50:40] Aquela coisa que te faz voltar pra casa.

[00:50:43] Nossa, cara, eu confesso,

[00:50:44] confesso aqui que eu nunca assisti

[00:50:46] um show de stand-up. Inclusive, eu já saí

[00:50:48] de um lugar que eu saberia que ia ter um show de stand-up

[00:50:50] e eu saí e falei, ó, vou embora, porque

[00:50:52] eu tenho mais o que fazer da minha vida, né? Mas

[00:50:54] é porque o comediante, não vou falar o nome,

[00:50:57] ele era, obviamente,

[00:50:58] ruim. Eu sabia que ele era ruim.

[00:51:00] Então, assim, e era famosinho.

[00:51:02] Eu falei, não é possível.

[00:51:04] Não, isso eu compreendo

[00:51:06] 100%.

[00:51:07] Uma coisa aqui, eu lembro que quando

[00:51:10] eu tive uma longa conversa com os meus

[00:51:13] amigos nesse dia, porque

[00:51:15] esse sujeito,

[00:51:16] eu ficava assim, eu ficava transtornado

[00:51:19] com o fato de que aquele sujeito

[00:51:20] provavelmente ganhava mais do que eu,

[00:51:24] porque ele tava,

[00:51:25] ele era famosinho, enfim.

[00:51:27] Sendo uma pessoa

[00:51:29] muito,

[00:51:30] muito sem graça.

[00:51:33] Mas, assim, muito sem graça.

[00:51:34] Antes de fechar a gravação, eu vou falar o nome pra você

[00:51:36] e falar assim, é, vocês têm razão.

[00:51:38] Eu, eu, um dia, quando a gente

[00:51:40] estiver fazendo esses episódios especiais que a gente

[00:51:42] falou,

[00:51:43] de falar mais idiotices

[00:51:46] que a gente pensa e da nossa vida,

[00:51:48] eu vou falar dos meus sentimentos

[00:51:50] um pouco mais.

[00:51:52] Mas, enfim, o que eu acho é o seguinte,

[00:51:54] tipo, tem, é isso, assim, tipo,

[00:51:56] existe, o que mais

[00:51:58] me dói, talvez isso seja completamente

[00:52:00] errado, é que, tipo,

[00:52:03] tem quem goste.

[00:52:04] Então, esse que é o ponto que eu ia chegar.

[00:52:06] Tipo, eu não posso, o que que eu, o que que eu vou dizer?

[00:52:09] Tipo, assim, você claramente tá fazendo algo

[00:52:10] certo pra alguém que não sou eu.

[00:52:12] Então, isso que eu, esse que é o ponto que eu vou chegar.

[00:52:14] É exatamente esse o ponto. Tem um documentário

[00:52:16] chamado Riso dos Outros,

[00:52:19] né, que foi feito justamente sobre

[00:52:20] toda essa gama de, de, de,

[00:52:22] de, de, é,

[00:52:25] humoristas de stand-up

[00:52:26] aqui no Brasil, quando teve a explosão, enfim,

[00:52:28] então você imagina os suspeitos, os usuários.

[00:52:30] Inclusive, depois desse documentário, teve uma explosão de documentário

[00:52:32] sobre stand-up, que eu acho que eu dei até pra isso.

[00:52:34] O cara que eu assisti esse Riso dos Outros, eu falei assim, cara, estou com medo

[00:52:36] de ver você no documentário, Gustavo,

[00:52:38] porque tá complicado. Sim, graças a Deus, não fui

[00:52:40] no documentário, não, eu não era relevante, eu nunca fui

[00:52:42] relevante o suficiente na comédia pra estar em um documentário,

[00:52:45] eu acho. É a única vez, eu,

[00:52:46] teve uma vez que eu apareci no documentário, mas eu acho que foi

[00:52:48] benevolência, porque o, o, o cara

[00:52:50] que dirigiu o documentário, é,

[00:52:52] é, gostava de mim, assim, tipo, gostava da

[00:52:54] minha comédia, mas, é, é,

[00:52:57] é isso, assim, tipo, cara, eu, eu conheço,

[00:52:59] eu tinha amigos que

[00:53:00] eu acho muito engraçado, que estavam fazendo algo muito diferente,

[00:53:03] eu gostava do que eu fazia, tinha

[00:53:04] pessoas que pagavam pra ver o que eu fazia,

[00:53:06] mas, assim, era um esforço tão grande,

[00:53:09] porque é um público tão menor do que o público

[00:53:10] que tá aí enchendo, ou tava antes

[00:53:12] da pandemia, ou ainda, durante a pandemia,

[00:53:14] enchendo drive-ins pra ver

[00:53:15] outro tipo de comédia, que, tipo,

[00:53:19] cara, não, não, não,

[00:53:21] não vou continuar, é,

[00:53:22] dando… Esse que é um ponto que eu acho

[00:53:25] que é importante, assim, e acho que a gente consegue

[00:53:26] amarrar o episódio, porque,

[00:53:28] você falou, esse comediante, por isso que eu

[00:53:30] ficava transtornado, né, eu falo assim, cara, eu vivo

[00:53:32] num mundo onde

[00:53:34] esse sujeito é considerado engraçado,

[00:53:37] eu não consigo considerar nada do que ele faz engraçado,

[00:53:38] mas, muitas pessoas

[00:53:41] acham, e eu acho, assim,

[00:53:42] na verdade, eu nem acho ele engraçado, eu acho

[00:53:44] ele ofensivo,

[00:53:46] né, em alguns momentos, e tem, ele nem é

[00:53:48] dos piores, esse cara nem é dos piores, então, assim,

[00:53:51] tem uma, pra voltar àquela ideia

[00:53:52] da, a ideia do, a ninguém sente

[00:53:54] o cheiro da própria casa, né, porque,

[00:53:57] assim, o humor,

[00:54:00] muito do humor

[00:54:01] é ter uma, muito do humor sempre tem um

[00:54:02] alvo, né, sempre tem,

[00:54:04] um alvo, então, tem esse humor

[00:54:06] que é um humor

[00:54:08] feito por

[00:54:10] figuras que são

[00:54:12] a própria encarnação do homem branco, né,

[00:54:14] que, muitas vezes, o alvo desses

[00:54:16] sujeitos, né, são as

[00:54:18] minorias, aquilo que a gente tava falando no começo, ah,

[00:54:20] tá falando mal de mulher, sei lá o que, e aí, uma das coisas,

[00:54:22] por exemplo, é,

[00:54:24] aí você fala, tem muita gente que acha isso bom,

[00:54:26] de fato, então, e isso é uma questão,

[00:54:29] esse é um problema.

[00:54:30] Sim, isso é uma questão porque a gente

[00:54:32] pode traçar um paralelo entre várias dessas pessoas,

[00:54:34] e com quem elas votaram,

[00:54:36] e o que que isso causa hoje,

[00:54:38] nas vidas de todos nós.

[00:54:40] Mas, então, pra voltar à história do Seinfeld, pra voltar aqui,

[00:54:42] porque, assim, o ponto

[00:54:44] é, pra mim, o Seinfeld,

[00:54:46] cara, quando você vai olhar pro Seinfeld hoje,

[00:54:48] e esses são os episódios que, pra mim, envelheceram

[00:54:50] muito mal, muito mal, tem muitas coisas que envelheceram

[00:54:52] muito mal, eu consigo assistir

[00:54:54] bem alguns episódios e falar assim, cara,

[00:54:56] quão patéticas são essas pessoas, não tô aqui sendo chatão

[00:54:58] intelectual, não, tô aqui de cura, cura só,

[00:55:00] não, tem episódios de Seinfeld que

[00:55:02] são engraçados mesmo,

[00:55:04] né, tipo, mas,

[00:55:06] assim, o quanto as piadas

[00:55:08] de Seinfeld giravam ao redor de

[00:55:10] é, baseado naquele

[00:55:12] clichê, pessoas que não falam nossa língua bem

[00:55:14] são pessoas simplesmente, né,

[00:55:16] tipo, falando mal de mulher, o Seinfeld

[00:55:18] era um sujeito

[00:55:19] extremamente machista, né, cara,

[00:55:22] tipo assim, ele era um cara que

[00:55:23] trocava de namorada pelo fato de a

[00:55:26] namorada ter um detalhe mínimo,

[00:55:28] isso inclusive virou uma piada recorrente, né.

[00:55:31] Exato, mas aí é que eu,

[00:55:32] é que aí, eu,

[00:55:33] a gente tem que pensar no Seinfeld,

[00:55:35] a gente não tem que pensar no Seinfeld, mas a gente

[00:55:37] pode pensar no Seinfeld

[00:55:40] no contexto das outras séries que passavam

[00:55:41] na época, e aí

[00:55:43] dá, eu que perdi

[00:55:45] muito tempo da minha vida vendo sitcoms ruins,

[00:55:48] quando você pensa nas séries

[00:55:50] que estavam lá naquela época, Frasier,

[00:55:52] Friends, e todas as outras

[00:55:54] mais esquecíveis

[00:55:55] e que a gente realmente, porque não

[00:55:57] fizeram grande sucesso e tudo mais, tipo,

[00:56:01] elas estavam

[00:56:01] fazendo isso sem nenhuma,

[00:56:03] autoconsciência, então, em algum nível,

[00:56:06] o Seinfeld é também uma paródia

[00:56:08] do que tava acontecendo,

[00:56:10] e aí ele sofre, talvez, do mal

[00:56:12] aqui que a gente para pra analisar, que é,

[00:56:14] ele é uma paródia que ficou extremamente

[00:56:16] mais popular do que aquilo que ele parodiava,

[00:56:19] então, agora a gente

[00:56:20] olha praquilo como um elemento

[00:56:22] fora do seu contexto,

[00:56:23] então, eu também vejo isso,

[00:56:26] especialmente depois de ver

[00:56:28] hoje que não só,

[00:56:29] eu sou a pessoa mais madura que já aprendeu

[00:56:32] mais coisas, enfim,

[00:56:33] no outro contexto, mas eu já escrevi

[00:56:35] televisão, saca? Então, eu consigo

[00:56:38] aparecer nesse sentido também, de tipo,

[00:56:39] de ver, é aquele momento que você vê

[00:56:41] o roteirista, o roteirista aproveitando

[00:56:44] a vida, sabe? Então,

[00:56:45] eu acho que tem esse contexto aí

[00:56:47] que você perde, e que,

[00:56:50] enfim, é normal, toda obra perde seu contexto

[00:56:51] porque o tempo segue, tal como

[00:56:53] um rio, mas

[00:56:55] o que eu acho que

[00:56:57] fica aí é que, beleza, assim,

[00:56:59] a experiência que eu e você temos com essa série nunca

[00:57:01] vai ser a mesma de que alguém que,

[00:57:03] ouviu esse podcast, vai ver agora,

[00:57:06] porque a nossa risada tá

[00:57:07] eternamente atrelada, a primeira risada

[00:57:10] que a gente viu.

[00:57:10] É totalmente afetiva, emocional, histórica,

[00:57:13] biográfica. Exato, mas

[00:57:15] eu acredito, a gente já teve uma conversa

[00:57:17] quando a gente tava fechando esse episódio,

[00:57:19] que eu queria tentar voltar,

[00:57:22] que é, você

[00:57:24] tava me perguntando, tem um episódio

[00:57:25] muito famoso do Supnaz,

[00:57:27] que é o cara cheio de regras pra vender

[00:57:29] sopa e tal, que é

[00:57:31] baseado em,

[00:57:33] no Supnaz de verdade,

[00:57:35] ele existia, em Nova York

[00:57:37] na época, enfim, e aí ele

[00:57:39] é cheio de regras e se ele não gosta, se ele não vai com a sua

[00:57:41] cara, ele não te vende a porra da sopa.

[00:57:43] E aí, a gangue toda ama

[00:57:45] a porra da sopa, só que

[00:57:47] a Elaine não consegue se, até as regras,

[00:57:49] o Jerry

[00:57:51] larga uma namorada.

[00:57:52] E aí, você tava, eu tinha

[00:57:57] revisto recentemente esse episódio

[00:57:59] e você falou pra mim, cara, eu tenho medo

[00:58:01] de ser problemático,

[00:58:02] esse episódio, e eu falei assim, cara,

[00:58:04] eu revi, e você me

[00:58:06] falou porque, e eu vou deixar você falar, e eu falei assim,

[00:58:08] eu acho que não tem muito, muito

[00:58:10] esse viés, mas você já assistiu

[00:58:12] agora, vendo pra ver,

[00:58:14] pra ver se caía nesse

[00:58:16] sentido, então fala pra gente como foi

[00:58:18] a sua experiência revendo do Supnaz.

[00:58:20] É porque tem vários episódios do Seinfeld, né,

[00:58:22] no qual, por exemplo, tem aquele

[00:58:24] o episódio em que ele vai tentar ajudar

[00:58:26] um paquistanês que tinha um restaurante

[00:58:28] que não consegue,

[00:58:30] que não consegue

[00:58:31] fazer, então você tem que fazer comida

[00:58:32] paquistanês e ele vai à falência por causa disso, né.

[00:58:35] Sim, que inclusive, eu preciso dizer, o Babu

[00:58:37] na época, ele, a frase,

[00:58:39] a catchphrase que ele tem em um episódio

[00:58:41] e depois retorna no próximo episódio

[00:58:43] You’re a terrible bad man

[00:58:45] Ele, ele

[00:58:47] é

[00:58:48] é uma frase que, tipo,

[00:58:51] ficou muito famosa, era aquelas catchphrases

[00:58:52] pra quem não sabe, naquela época não tinha meme

[00:58:55] a gente tinha frase

[00:58:57] de sitcom, e a

[00:58:59] Seinfeld tinha uma infinidade delas

[00:59:01] que pegaram, as pessoas falavam, né.

[00:59:02] e essa, pegou

[00:59:04] e ele retorna no último episódio

[00:59:07] como uma síntese do sentimento

[00:59:08] de todos os personagens que retornam

[00:59:10] no último, que é apontar o dedo

[00:59:12] realmente pro Seinfeld

[00:59:14] pros colegas dele e falar

[00:59:16] cara, você é uma pessoa ruim, cara

[00:59:18] e você não consegue enxergar isso

[00:59:20] porque é isso, assim, tipo

[00:59:21] não tem muita, ó, eu sei que esse é o canto da

[00:59:24] semiótica do Gus, mas assim, não tem muita semiótica

[00:59:26] num homem apontando

[00:59:28] o dedo na cara do Jerry falando

[00:59:30] você é um homem mau, e ele sendo

[00:59:32] incapaz de entreter

[00:59:34] a noção de que talvez ele seja um homem mau

[00:59:36] melhor, porque assim, se tivesse só um personagem

[00:59:38] fazendo isso, ah, você é uma pessoa

[00:59:40] muito, muito ruim, e ele chegar

[00:59:42] e não sofrer nenhuma consequência

[00:59:44] por isso, né, eles sofrem consequência

[00:59:46] porque eles terminam a série

[00:59:48] presos, eles estão presos, né

[00:59:50] eles vão presos

[00:59:51] e no próprio episódio do Babu

[00:59:54] anos antes, nunca

[00:59:56] a tragédia do negócio

[00:59:58] do Babu é

[01:00:00] a série mostra como uma

[01:00:02] tragédia, tipo

[01:00:02] o personagem do Seyfried só é

[01:00:06] absurdo o suficiente pra ser engraçado

[01:00:08] exatamente porque a gente tá vendo

[01:00:09] aquele homem tentar tudo que o Jerry

[01:00:12] fala, e confiar no Jerry, porque aparentemente o Jerry

[01:00:14] porra, o Jerry é daqui, ele é local

[01:00:16] ele tem que entender, mas o Jerry não sabe

[01:00:18] nada do que ele tá falando

[01:00:19] né, e aí

[01:00:22] você vê, tipo assim, porra, esse homem confiou nele

[01:00:24] e ele arruinou a vida do cara porque ele não sabia fazer

[01:00:26] só pra quem não ouviu, esse episódio, basicamente o Jerry

[01:00:28] ele fica obcecado, ele fica literalmente

[01:00:30] obcecado com um restaurante que tem na frente da casa

[01:00:32] dele, do prédio dele, que ninguém

[01:00:34] entra, né, e é um restaurante coordenado

[01:00:36] por um paquistanês que

[01:00:38] vende comida italiana, se eu não me engano, né

[01:00:40] e aí ele chega lá e vai comer a comida do

[01:00:42] cara, a comida não é muito boa, mas é uma comida

[01:00:44] e ele chega e fala assim, não cara, você tem que fazer um restaurante étnico

[01:00:47] paquistanês, é isso que você tem que fazer

[01:00:48] sei lá o que, se vestir com roupa tradicional

[01:00:50] e tal, aí o cara morre, redecora tudo

[01:00:52] gasta uma grana, então, onde

[01:00:53] já quase não entrava gente antes, depois que ele faz isso

[01:00:56] não entra mais ninguém

[01:00:57] e se eu não me engano, faz tempo que eu não vejo esse

[01:01:00] mas tem uma escalada maior, assim

[01:01:02] tem vários pitacos

[01:01:04] que o Jerry vai dando, que só vão piorando a situação

[01:01:06] e o Jerry quando ele termina, ele faz toda vez que ele dá um pitaclo

[01:01:08] ele fala assim, eu sou uma pessoa muito boa, ele fica assim pensando

[01:01:10] eu sou uma pessoa muito boa

[01:01:11] porque ele tem, e aí isso sim é uma parada

[01:01:14] que tipo, é humor

[01:01:16] de

[01:01:16] identificação, mas

[01:01:19] de novo, é uma identificação que você não deveria estar

[01:01:21] quer dizer, que ao momento de ter

[01:01:23] você deveria questionar, ser assim

[01:01:26] que é, o Jerry tá vivendo uma parada

[01:01:28] que hoje em dia, com o Instagram e as fotos de comida

[01:01:30] é muito maior que é o, esse restaurante

[01:01:32] sim, sim, sim

[01:01:34] eu vou ajudar esse, eu vou divulgar

[01:01:36] aqui pros meus amigos, eu vou

[01:01:38] entendeu, é o que

[01:01:39] esse episódio, é uma crítica maravilhosa

[01:01:42] de um tema que a gente vai entrar de novo

[01:01:44] mais pra frente dessa temporada, que é o

[01:01:45] White Savior, esse episódio tá tirando

[01:01:48] sarro do Jerry

[01:01:49] sentindo o White Savior, concordo, concordo

[01:01:52] porque uma coisa que você falou

[01:01:53] você falou que você não consegue

[01:01:56] ver a série, sem

[01:01:57] ver a partir do último episódio

[01:02:00] né, porque você começou a ver

[01:02:01] depois, então é, por isso que eu acho que são

[01:02:03] duas experiências diferentes, eu vi a série

[01:02:05] enquanto ela, ah não, não, não, não

[01:02:07] a primeira vez que eu vi, eu não tinha visto o episódio

[01:02:09] é que eu digo, hoje em dia, assim

[01:02:11] tendo visto a série inteira

[01:02:12] pra mim, é, enfim, é como um livro, assim

[01:02:15] que eu li até o fim, tipo, aqui não, né

[01:02:17] pra aquilo ser palatável

[01:02:20] você tem que até o fim entender que, olha

[01:02:21] de fato, que tão criticando esses personagens

[01:02:23] tão falando assim, criticando o comportamento

[01:02:25] deles

[01:02:26] eu acho que, sim e não, eu acho assim

[01:02:29] é, porque assim

[01:02:29] as pessoas

[01:02:30] já sabiam, assim

[01:02:31] que era isso, mas assim, o último episódio

[01:02:34] deixa extremamente explícito, assim, é tipo

[01:02:36] ok, o último episódio que a gente tem, eu só quero

[01:02:38] deixar bem claro, eles foram terríveis todos

[01:02:40] esses anos. E você, cara, e aí tem um ponto

[01:02:42] você riu disso, você se identificou

[01:02:44] você não sentiu o cheiro dessa casa

[01:02:46] eu acho que esse que é um ponto, se você não sentiu

[01:02:48] o cheiro dessa casa. Ah, mas aí agora eu preciso

[01:02:50] entrar no canto da semiótica

[01:02:52] do Gus, de novo mostrando como

[01:02:54] Seinfeld é uma série muito

[01:02:56] explícita na sua semiótica, que é quase

[01:02:58] só ótica, porque

[01:02:59] porque que eles são presos no último episódio

[01:03:02] porque eles veem um cara

[01:03:04] sendo assaltado e eles

[01:03:06] riem dele porque ele é gordo

[01:03:08] ou seja, né

[01:03:10] uma pessoa está sofrendo

[01:03:12] e aí eles, o que, são

[01:03:14] cruéis e preconceituosos

[01:03:16] e riem

[01:03:18] e tratam isso como espetáculo

[01:03:19] eles são os telespectadores

[01:03:22] do último episódio. Exato, exato

[01:03:23] esse é o ponto que eu ia chegar, porque assim

[01:03:25] eu acho que esse é um

[01:03:28] um giro

[01:03:29] que nem aquela que a gente estava falando do Rick e Morty

[01:03:31] cara, assim, esse é um giro necessário

[01:03:33] até pra você entender

[01:03:34] pra não cair também no que é um outro ponto

[01:03:36] que a gente critica muito aqui nesse podcast

[01:03:37] que é a coisa dos

[01:03:38] necessidades de protagonistas serem

[01:03:42] adoráveis, né, como é que fala

[01:03:44] sim, likeable, né

[01:03:46] o cativante. É, e aí você tem, por exemplo

[01:03:48] o filme onde você está vendo o comerciante

[01:03:50] de armas, não, eles são legais e tal

[01:03:52] pá, então

[01:03:53] mas, peraí, peraí, aquele filme é muito bom

[01:03:56] porque o Nicolas Cage é ótimo. Eu não estava falando do Nicolas Cage

[01:03:58] eu já estava falando de outro aí

[01:03:59] de outro filme, de outro filme, de outro filme, de outro filme

[01:03:59] de um herói, mas enfim

[01:04:01] o… Ah, o Aço

[01:04:04] é, esse é o herói mesmo, então assim

[01:04:05] o ponto que eu acho

[01:04:07] que é crucial aqui é

[01:04:09] entender que

[01:04:10] quando você ignora

[01:04:13] esse momento

[01:04:15] toda essa, digamos, essa meta

[01:04:17] esse meta da série, né

[01:04:19] que está o tempo todo dizendo assim, cara

[01:04:20] se você não está sentindo o cheiro dessa casa

[01:04:23] e óbvio, né

[01:04:25] tem vários problemas aí, porque enfim

[01:04:27] as pessoas enriqueceram fazendo isso, aquela coisa do

[01:04:29] tipo, ah, fazer uma banda de rock

[01:04:31] dentro de uma mega corporação para ganhar dinheiro, falando assim

[01:04:33] foda-se o sistema. E é isso, assim, tipo

[01:04:34] o Jerry Seinfeld, ele não

[01:04:37] deixou de ser aquela pessoa, mesmo sabendo que ele

[01:04:39] sorridiu. É, e ele é exatamente uma pessoa

[01:04:41] exatamente agradável, né

[01:04:42] ele não, ele é uma versão extremamente

[01:04:45] turbinada daquilo que ele já era. O Kramer

[01:04:47] então nem se fala. E assim, mas eu só

[01:04:48] bom, o Kramer, não, mas cara, você quer

[01:04:51] entender um negócio

[01:04:53] que é isso que eu queria

[01:04:54] eu só queria

[01:04:56] fermentar isso de novo, assim, voltando pro contexto

[01:04:59] da época, assim, o quão famoso

[01:05:01] esse homem era, assim, eu não sei se vocês conseguem

[01:05:03] entender, que é o seguinte, não

[01:05:05] só o fato de que a gente aqui no Brasil sabia quem era

[01:05:07] esse comediante da Nova York, mas é o seguinte

[01:05:09] esse cara no auge da série era tão famoso

[01:05:11] que ele tinha 30

[01:05:13] e cacetada, namorou

[01:05:15] uma garota de 17 anos

[01:05:17] e todo mundo

[01:05:19] deixou passar. E na época

[01:05:21] isso já era estranho

[01:05:22] com muitas aspas. Não existe assim

[01:05:25] cara, exato, assim, a gente, tudo bem

[01:05:27] a gente, a gente

[01:05:29] caminhou muito

[01:05:30] socialmente desde a época da série

[01:05:33] né, mais de 20 anos já

[01:05:35] mas assim, a gente tava vivo lá

[01:05:37] isso não era normal. Tipo

[01:05:39] se fosse alguém da sua rua fazendo isso

[01:05:41] você já ia falar, cara, isso é muito estranho

[01:05:43] mas, mas é aquela

[01:05:45] coisa assim, tipo, do mesmo jeito que o Michael Jackson

[01:05:47] era tão famoso que

[01:05:49] enfim, tudo o que

[01:05:51] aconteceu, aconteceu

[01:05:52] é isso, assim, tipo, cara, o Seinfeld teve esse momento da vida dele

[01:05:55] em que ele, tipo

[01:05:56] fotografavam ele com a porra da

[01:05:59] menina de 17 anos em evento

[01:06:01] lembra daquilo que a gente tava falando exatamente

[01:06:03] da ideia da excepcionalidade, né, dos indivíduos

[01:06:05] exatamente, porque ele pode

[01:06:07] porque ele, ele tá acima da gente

[01:06:09] que aí entra também na ideia

[01:06:11] de celebridade. A ideia de celebridade

[01:06:13] tá totalmente atrelada com a ideia de herói

[01:06:15] e aí, eu vou amarrar isso, o meu último

[01:06:17] comentário, prometo que é o último comentário, aí você faz isso aí

[01:06:19] a gente encerra, que é o seguinte, isso se amarra com o que?

[01:06:22] Liga da Justiça do

[01:06:23] Zack Snyder, porque no Liga da Justiça do

[01:06:25] Zack Snyder, tem uma hora que

[01:06:27] a Mulher Maravilha

[01:06:29] estralhaça um homem lá, e aí uma garotinha

[01:06:32] fala assim, é

[01:06:33] quando eu crescer eu consigo ser

[01:06:35] como você, e aí a Mulher Maravilha

[01:06:38] fala assim, você pode ser o que você quiser

[01:06:39] porque o Zack Snyder não conhece o subtexto

[01:06:41] mas, o que é interessante é

[01:06:43] não garota, você não pode, porque o filme literalmente

[01:06:45] diz, ela é um deus

[01:06:47] ela não é humana, você é

[01:06:49] um inseto perto dela, ou seja

[01:06:51] não, você não pode ser como ela

[01:06:53] e aí vem a ideia, mas aí volta pra ideia

[01:06:55] da meritocracia, né, dessa cidade norte-americana

[01:06:58] estadunidense que é

[01:06:59] assim, a grande promessa da

[01:07:01] excepcionalidade estadunidense, manifesto

[01:07:03] destino, e a gente volta pra ideia lá

[01:07:05] do Mario McFly, que teve que

[01:07:07] voltar no tempo e falar assim, ó, a história

[01:07:09] tá errada, né, o meu destino tá errado

[01:07:11] né, a gente podia dizer assim, cara

[01:07:13] criar nos indivíduos uma inspiração

[01:07:15] uma aspiração

[01:07:17] irrealizável, propriamente

[01:07:19] irrealizável, né

[01:07:20] mais uma vez aquilo que a gente tava falando do

[01:07:23] humor, porque que as pessoas estavam rindo com o Seinfeld

[01:07:25] as pessoas aqui da minha região

[01:07:27] da minha época, enfim, elas estavam

[01:07:29] rindo de algo que elas nunca seriam

[01:07:30] querendo ser, elas estavam rindo do

[01:07:33] do wannabe, né, de cara assim

[01:07:35] eu quero ser isso, eu vou rir, eu quero que esses

[01:07:37] problemas sejam meus, quando

[01:07:39] perdendo talvez o subtexto

[01:07:41] né, perdendo entre elas, mas assim

[01:07:43] a captura, vamos falar assim, a maneira

[01:07:45] como isso foi

[01:07:46] foi antrofagocitado

[01:07:49] melhor, fagocitado, por que não é a palavra, fagocitado

[01:07:51] por um substrato

[01:07:52] emergente, brasileiro

[01:07:55] periférico, enfim, quando eu falo

[01:07:57] brasileiro periférico, não tô falando assim, brasileiro periferico

[01:07:59] literalmente, eu falo assim, Brasil era a periferia

[01:08:01] do mundo nessa época, né, assim, em termos de

[01:08:03] é, não, então, assim, quem

[01:08:05] tava aqui em São Paulo, mesmo

[01:08:07] eu, assim, que tava aqui no apartamento de classe média

[01:08:09] em São Paulo, vendo aquilo ali

[01:08:11] tava muito mais próximo de você aí no Rio

[01:08:13] no subúrbio do Rio de Janeiro

[01:08:15] do que eu tava do Seinfeld, mas a percepção

[01:08:17] não era essa, né, e até hoje não é

[01:08:19] então, esse que eu conto, porque, por exemplo

[01:08:21] eu nasci, né, no começo dos anos 80

[01:08:23] bem no começo, eu sou

[01:08:25] de uma época que não existia classe média

[01:08:27] as pessoas tomam de barata

[01:08:29] gente de uma classe média, né, não é um

[01:08:31] mandado natural da sociedade brasileira

[01:08:33] a classe média, ela vai aparecer enquanto

[01:08:35] uma camada média, de fato, a partir

[01:08:37] dos anos 90, né, então

[01:08:39] assim, o que você tinha era gente pobre

[01:08:41] gente muito pobre e gente com dinheiro

[01:08:43] né, gente que não tava, porque

[01:08:45] aí depois você teve todo um processo de endividamento

[01:08:47] tudo mais, mas enfim, né, a explosão

[01:08:49] do consumo e tudo mais, mas aí

[01:08:51] a grande questão, né, e muito do cenário

[01:08:53] político que a gente vive hoje, passa por aí

[01:08:55] também, é justamente a ideia

[01:08:57] de que um

[01:08:59] monte de milho passou a se

[01:09:01] identificar como galinha

[01:09:02] então, assim, eu acho que

[01:09:04] Seinfeld, a maneira como Seinfeld é vendida

[01:09:07] essa coisa, essa inspiração, né, tipo assim

[01:09:08] uma deusa pra uma garotinha, fala assim

[01:09:11] não, você pode ser como eu, é muito assim, fala pro milho

[01:09:13] é, você pode se identificar com a galinha

[01:09:15] né, tipo, você pode ser

[01:09:17] achar que você é uma galinha, mas você nunca vai ser

[01:09:19] uma galinha, você vai ser sempre um milho

[01:09:20] então, esse

[01:09:22] que eu acho que é um ponto que a gente tem que pegar pra entender

[01:09:25] justamente como Seinfeld

[01:09:27] se tornou muito popular

[01:09:29] deu vazão, inclusive

[01:09:30] a todo um humor opressivo

[01:09:32] né, você falou da escola, virou uma escola

[01:09:34] de humor, pelo menos no Brasil, não vou

[01:09:36] falar no mundo, porque eu não sei como é que é em outro lugar, mas no

[01:09:38] Brasil, especificamente, virou

[01:09:40] uma escola de humor, pra um monte de gente

[01:09:42] que tá aí destilando um humor opressivo

[01:09:45] um humor extremamente

[01:09:46] americanizado, no sentido de que

[01:09:48] wanna be mesmo

[01:09:49] esse humor, que quer ir pra Miami, sabe, do sujeito

[01:09:52] que quer, tu falou daquele quadro do público, né

[01:09:54] que não é o teu público, mas assim

[01:09:56] isso é uma coisa que as pessoas não aprenderam nem vendo Seinfeld

[01:09:59] qualquer americano que não mora

[01:10:01] na Flórida vai te avisar, tipo, não vai pra lá

[01:10:02] não vai pra lá, é o

[01:10:04] sovaco da América

[01:10:05] verdade, o episódio do ar condicionado é isso

[01:10:10] me dá repulsa

[01:10:11] porque não é tipo

[01:10:12] a pessoa que sonha um dia ir pra fora

[01:10:14] e vai pra Miami, isso vai, faz

[01:10:16] fica feliz, o que me dá repulsa

[01:10:18] é tipo, juiz recebendo

[01:10:20] deputado recebendo auxílio terno

[01:10:23] e vai comprar terno em Miami

[01:10:24] bicho, cruza o Atlântico

[01:10:26] vai num alfaiate italiano, pelo amor de Deus

[01:10:29] tem algum bom gosto nessa vida?

[01:10:30] mas não, vão pra um shopping da Vila Olímpia

[01:10:33] só que na costa dos Estados Unidos

[01:10:34] é, esse que é o ponto, né, mas esse que é um ponto

[01:10:36] que eu acho que é um elemento crucial, né

[01:10:38] porque se tornou

[01:10:40] essa aspiração de um modelo

[01:10:43] completamente enlatado de existência

[01:10:45] que é essa, eu acho

[01:10:46] extremamente prega

[01:10:47] esse

[01:10:49] esse estilo de vida consumista

[01:10:53] né, que

[01:10:53] é um fato, quer ver um

[01:10:56] porque que os Estados Unidos é um

[01:10:58] mundo excepcional, essa cultura americana

[01:11:00] é um mundo excepcional

[01:11:01] um dado sinistro

[01:11:04] um cidadão

[01:11:07] médio norte-americano, estadunidense

[01:11:08] ele consome, em média

[01:11:11] em termos de recursos

[01:11:12] do mundo, incluindo-se aí

[01:11:14] de trabalho escravo

[01:11:16] a minério de ferro, sei lá o que

[01:11:18] de 7 a 8 vezes mais do que com um cidadão

[01:11:20] de outros países

[01:11:22] se o mundo todo fosse

[01:11:24] pudesse ser igual aos Estados Unidos

[01:11:26] a gente estaria devendo terra

[01:11:28] não existiria terra pra abarcar

[01:11:30] aquilo, terra, planeta terra, não existiria

[01:11:32] planeta terra que pudesse dar vazão

[01:11:34] àquele estilo de vida, então

[01:11:35] uma das questões que eu acho que é importante pra voltar

[01:11:38] pra essa ideia do herói e de como o Seif

[01:11:39] se insere nisso, é de que

[01:11:42] ele narrativamente

[01:11:43] no sentido histórico, ele teve um papel

[01:11:46] crucial na dispersão de uma certa

[01:11:48] aspiração, né

[01:11:50] de uma certa americanização do mundo

[01:11:52] né, aquele contexto de fim da história

[01:11:54] agora, caiu o muro de Berlim, porra

[01:11:56] Metallica tá fazendo show na Rússia

[01:11:58] a gente aqui no Brasil, acho que tá vendo

[01:12:01] Seifeld, basicamente foi isso que aconteceu

[01:12:03] literalmente foi isso que aconteceu

[01:12:04] e aí, é um fenômeno que existe

[01:12:07] até microcosmicamente nos Estados Unidos

[01:12:09] porque um

[01:12:09] programa de TV que era assistido por milhões de pessoas

[01:12:13] a maioria delas, que nunca tinha

[01:12:15] pisado em Manhattan, e não vivia a vida

[01:12:16] daquelas pessoas, né, e mesmo assim

[01:12:19] tava assistindo, assim como nós aqui

[01:12:20] e a gente tava mais distante ainda

[01:12:23] só que tem uma série que a gente gosta

[01:12:25] muito, né, que é aquela

[01:12:26] How To Do With John Wilson

[01:12:29] né, que é muito boa

[01:12:31] porque tem um episódio muito bom que ele vai falar

[01:12:33] sobre Nova York, né, que ele vai falar

[01:12:35] sobre os todos, os andames

[01:12:37] e todos em Nova York, que ele fala assim, cara

[01:12:38] a pessoa vê Sex and the City

[01:12:41] vai ver, porque Sex and the City também foi outra série

[01:12:43] que fez esse mesmo processo, né, só que

[01:12:45] com um pouco diferente

[01:12:46] o Friends, vai ver Seifeld

[01:12:49] quando as pessoas vão andar pro Nova York

[01:12:51] a Nova York hoje em dia parece menos real

[01:12:53] do que a Nova York das séries, porque

[01:12:55] a Nova York hoje em dia foi todo, né, existe

[01:12:56] uma indústria de todos e sei lá o que, como aquilo mudou

[01:12:59] completamente a paisagem da cidade

[01:13:00] e nesse episódio

[01:13:02] ele tem uma tomada que é

[01:13:05] a fachada

[01:13:07] do Mel’s, que é a

[01:13:09] fachada do Seifeld, lá da

[01:13:11] da lanchonete onde eles ficam e aí

[01:13:13] tocam o solinho de baixo

[01:13:14] ele faz uma homenagem nesse episódio

[01:13:16] mas é isso, né, cara, é a aspiração de uma vida

[01:13:19] que é impossível, né, impossível até na materialidade

[01:13:21] é isso, Seifeld é o

[01:13:23] herói da sua vida, quer queira você não

[01:13:24] a minha recomendação

[01:13:26] se você já viu Seifeld ou se você

[01:13:29] não tá afim de ver Seifeld ou não acha graça

[01:13:31] veja Broad City

[01:13:32] você vê pirateando

[01:13:34] coisas, porque

[01:13:35] ninguém tá disponibilizando

[01:13:39] pra você aqui no Brasil mesmo

[01:13:40] e foi uma série maravilhosa que durou acho que 5, 6

[01:13:42] temporadas

[01:13:43] criada por duas comediantes

[01:13:46] a Abby Jacobson e a

[01:13:49] Ilana Glazer

[01:13:50] enfim, eu posso tá errando sobrenomes

[01:13:52] aí, mas elas, as duas

[01:13:54] escreveram

[01:13:56] dirigiram e co-escreveram

[01:13:58] e co-estrelam essa série maravilhosa

[01:14:00] que também é, tipo, pra mim

[01:14:03] é o Seifeld com as sensibilidades de hoje

[01:14:05] basicamente, assim, porque

[01:14:06] enfim, é isso

[01:14:09] se você quer ter a sua nova

[01:14:11] série pra morar em Nova York hoje

[01:14:12] nos anos 2000 e cacetada

[01:14:14] o único episódio que me fez revirar o estômago

[01:14:17] dessa série foi um que

[01:14:19] elas encontram a Hillary Clinton e pagam muito pau

[01:14:21] pra ela

[01:14:21] mas é só um episódio, eu juro, Orlando

[01:14:24] tá bom, tá certo

[01:14:26] é isso

[01:14:28] o que que a gente vai

[01:14:30] a gente já decidiu o tema

[01:14:31] a gente tem vários temas

[01:14:33] e a falácia do White Savior

[01:14:35] tá bom, vai, eu falei de White Savior

[01:14:39] você tá afim de ver a filha de Teresa

[01:14:40] eu vou ter que

[01:14:43] eu sei, eu vou ter que ver

[01:14:45] então bota lá

[01:14:47] na nossa lista, porque na ordem não era

[01:14:49] bem isso, mas tudo bem

[01:14:50] eu acho que funciona

[01:14:52] a gente tá aqui pra serem quebradas

[01:14:54] tá ótimo

[01:14:56] então, Orlando e público

[01:14:58] até semana que vem

[01:14:59] até