Pistolando #109 - Sociologia do Desastre


Resumo

O episódio apresenta uma entrevista com o sociólogo Vitor Marquezine, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres (Cemaden), sobre o campo da sociologia dos desastres. Ele explica as origens da disciplina, que remontam a um estudo de 1917 no Canadá sobre uma explosão de navio, e seu desenvolvimento no Brasil a partir dos anos 2000, impulsionado por desastres como os de Santa Catarina (2008) e da Região Serrana do Rio de Janeiro (2011).

A conversa detalha o objeto de estudo da sociologia dos desastres, que vai além do evento em si para analisar causas sociais, vulnerabilidades, respostas institucionais, processos de reconstrução e os impactos psicossociais de longo prazo. Conceitos como vulnerabilidade, capacidade, resiliência e governança são discutidos, assim como as diferentes fases de um desastre: prevenção, preparação, mitigação, resposta e recuperação.

São abordados casos concretos, como a inundação histórica de São Luís do Paraitinga (2010), onde a ação comunitária evitou mortes durante o evento, mas os impactos psicossociais persistiram, e os rompimentos das barragens em Mariana e Brumadinho. O episódio também analisa a pandemia de COVID-19 como um “desastre de longo prazo”, destacando a necessidade de respostas intersetoriais que envolvam não apenas a saúde, mas também assistência social, economia (com menção a microcréditos e moedas sociais) e saúde mental.

A estrutura do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil no Brasil é explicada, desde a Secretaria Nacional até os órgãos municipais, apontando desafios como a instabilidade política nas indicações para cargos locais e a crônica falta de orçamento, ilustrada pelo exemplo de Nova Friburgo. A importância da ciência e de redes de cooperação, como o projeto Semadem Educação e a Série de Debates do Cemaden, é destacada como fundamental para fortalecer a capacidade de resposta do país.

Por fim, a conversa reflete sobre a necessidade de uma “cultura de prevenção” e de autoproteção por parte dos cidadãos, uma vez que, em muitos cenários, a primeira resposta vem da própria comunidade. A mensagem central é a de que os desastres são fenômenos sociais complexos, cuja gestão eficaz requer planejamento integrado, respeito às comunidades locais e o reconhecimento de que “as coisas não vão voltar a ser como eram antes”.


Indicações

Books

  • Man and Society in Calamity — Livro de 1942 do sociólogo russo Pitirim Sorokin, estudado por Marquezine em suas disciplinas. Analisa como comportamentos sociais e culturais se alteram diante de pandemias, fome e guerra, sendo considerado muito atual.
  • O Banqueiro dos Pobres — Livro de Muhammad Yunus, recomendado por Vitor Marquezine. Relata a experiência do banco de microcrédito em Bangladesh, que tirou milhões da pobreza, sendo considerado uma leitura obrigatória para os tempos atuais.
  • Ensaio sobre a Cegueira — Clássico de José Saramago, recomendado por Marquezine como leitura fundamental para todos, especialmente no contexto de desastres e crises.
  • Grande Hotel — Livro de Vicki Baum, de 1929, recomendado por Tiago Corrêa. Romance que reúne personagens diversos em um hotel de luxo onde um crime ocorre, com um final emocionante.
  • Trilogia MaddAddam (Oryx e Crake, O Ano do Dilúvio, MaddAddam) — Trilogia distópica de Margaret Atwood, recomendada por Letícia Dacchia. Apresenta um mundo futurista e colapsado, escrito com a maestria característica da autora.

People

  • Norma Valêncio — Professora da UFSCar citada como pioneira nos estudos de sociologia dos desastres no Brasil, a partir de 2003/2004.

Projects

  • Projeto Esfera — Iniciativa mencionada por Marquezine que reúne ONGs para definir parâmetros mínimos de resposta humanitária em desastres, como abrigos e saneamento, respeitando a cultura local.
  • Projeto ELOS — Pesquisa em cooperação com a ONU para mapear as necessidades e capacidades das defesas civis municipais no Brasil, coordenada pelo Cemaden.
  • Semadem Educação e Campanha AprenderParaPrevenir — Programa do Cemaden que envolve escolas, universidades e defesas civis para promover a educação em prevenção de desastres, adaptado para o formato online durante a pandemia.

Linha do Tempo

  • 00:01:24Apresentação do convidado e da sociologia dos desastres — Vitor Marquezine se apresenta como sociólogo pesquisador do Cemaden, estudando desastres desde 2004. Ele explica que a sociologia dos desastres estuda as causas sociais, as relações entre atores durante a emergência, a percepção de riscos e os processos de reconstrução. A disciplina ganhou força no Brasil após 2003/2004, com a professora Norma Valêncio.
  • 00:11:47Definindo o que é um desastre — Marquezine explica que a ONU define desastre como um evento com 10 ou mais mortes que excede a capacidade local de resposta. Ele usa o exemplo de São Luís do Paraitinga, onde ninguém morreu durante a inundação, mas o desastre teve continuidade com impactos psicossociais profundos, como depressão e envelhecimento acelerado, demonstrando que um desastre vai além da contagem imediata de vítimas.
  • 00:19:56Evolução da preparação no Brasil e a importância da confiança — Discute-se como o Brasil melhorou sua preparação após desastres como o do Morro do Baú (2008), tornando a Defesa Civil de Santa Catarina uma referência. Letícia conta uma anedota sobre a placidez de uma motorista de ônibus durante uma nevasca nos EUA, contrastando com a insegurança no Brasil e na Itália, para ilustrar como a confiança na infraestrutura e resposta do Estado afeta a qualidade de vida e a percepção de risco.
  • 00:33:03A complexidade das causas e a necessidade de governança — Em resposta a uma pergunta sobre negligência, imprudência e imperícia, Marquezine argumenta que é difícil separar responsabilidades entre Estado e setor privado, citando lobby, cortes de orçamento para fiscalização e a relação entre desmatamento e ocupação de áreas de risco. Ele defende que a gestão de risco de desastres deve ser integrada aos modelos de desenvolvimento, citando o exemplo complexo do Acre, que enfrenta pandemia, inundações, fluxos migratórios e crime organizado simultaneamente.
  • 00:43:01Estrutura e desafios da Defesa Civil no Brasil — Explica-se a estrutura do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil, da Secretaria Nacional às coordenadorias municipais. É revelado o exemplo chocante do orçamento da Defesa Civil de Nova Friburgo em 2019: apenas 500 reais para ações de vistoria e prevenção. Discute-se a falta de “respeito institucional” e orçamento para os órgãos locais, que muitas vezes dependem do voluntarismo de seus integrantes.
  • 00:56:51A pandemia como desastre e a resposta intersetorial — Marquezine comenta como o Cemaden adaptou seus projetos, como o Semadem Educação, para o contexto pandêmico. Ele enfatiza que a pandemia não é apenas um problema biológico, mas um desastre que exige resposta de múltiplos setores: saúde, psicologia, economia, assistência social e educação. São citados exemplos como bancos comunitários de microcrédito e moedas sociais (como em Maricá) como políticas importantes para a recuperação socioeconômica.
  • 01:17:53Pontos fortes e fracos do sistema brasileiro e lições comunitárias — Como ponto fraco, Marquezine aponta a instabilidade nas equipes municipais de defesa civil, que mudam a cada eleição. Como ponto forte, destaca a dedicação e identificação das pessoas com a missão, exemplificada com a história de Tatiane Reichardt, que perdeu 11 familiares no desastre de Ilhota e depois se tornou coordenadora municipal. Ele também cita a auto-organização em abrigos temporários, como em Sumidouro (RJ), onde as mulheres criaram uma lavanderia coletiva e escalas de trabalho.

Dados do Episódio

  • Podcast: Pistolando Podcast
  • Autor: Leticia Dáquer e Thiago Corrêa
  • Categoria: News Politics News News Commentary
  • Publicado: 2021-04-01T09:50:12Z
  • Duração: 01:45:20

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] 🎵

[00:00:26] Sejam muito bem-vindos, pistoleiros e pistoleiras.

[00:00:29] Esse é o Pistolando Podcast número 109.

[00:00:34] Eu sou o Tiago Corrêa.

[00:00:36] Eu sou a Letícia Dacchia.

[00:00:38] E, conforme prometido, voltamos aí à nossa maratona de entrevistas,

[00:00:44] que tem uma cacetada de coisa aí que vai sair nas próximas semanas para vocês.

[00:00:50] E a gente volta com aquele mesmo ritmo que deixamos o ano passado, né?

[00:00:54] De não deixar muita pedra sobre pedra

[00:00:58] com relação a temas, assim.

[00:01:00] Você volta e meia vai ouvir falar aqui sobre um tema

[00:01:04] que você sequer sabia que existia.

[00:01:07] E é o caso de hoje.

[00:01:08] Hoje nós vamos falar de um pedacinho de matéria, assim,

[00:01:14] uma subdivisão de uma matéria,

[00:01:16] que é algo extremamente específico

[00:01:18] e que eu duvido que você soubesse que existia.

[00:01:22] Para falar sobre isso,

[00:01:24] hoje nós contamos com a ajuda do professor Vitor Marquezine.

[00:01:28] Seja muito bem-vindo, Vitor.

[00:01:30] Olá, Tiago. Olá, Letícia. Obrigado pelo convite.

[00:01:33] Meu nome é Vitor Marquezine.

[00:01:35] Eu sou sociólogo.

[00:01:38] Venho estudando o tema de desastres desde maio de 2004.

[00:01:43] Comecei na Universidade Federal de São Carlos,

[00:01:46] no Núcleo de Estudos e Pesquisas Sociais em Desastres.

[00:01:50] Em 2012, janeiro de 2012,

[00:01:53] comecei a trabalhar na sala de monitoramento

[00:01:56] do Centro Nacional de Monitoramento,

[00:01:58] e Alerta de Desastres, o CEMADEM,

[00:02:01] do Ministério de Ciência e Tecnologia.

[00:02:03] Hoje estou nesse mesmo centro de pesquisa,

[00:02:07] trabalhando no cargo de pesquisador.

[00:02:10] Venho estudando sistemas de alerta em desastres.

[00:02:13] Cara, isso já abre um leque enorme

[00:02:16] para a gente perguntar sobre uma cacetada de coisas, assim.

[00:02:19] Mas vamos começar pelo começo, né?

[00:02:21] Esse negócio de sociologia dos desastres, assim,

[00:02:25] que é o que a gente acabou…

[00:02:28] Pesquisando até para chegar no seu nome e tal.

[00:02:32] Há quanto tempo existe essa ramificação, né?

[00:02:35] Essa subcategoria dentro de sociologia?

[00:02:39] Ou se ela sempre esteve aí?

[00:02:41] Tipo, o quão tradicional ela é dentro da própria academia brasileira?

[00:02:45] Você pode contar um pouco para a gente?

[00:02:47] Sim, sim.

[00:02:48] O primeiro estudo foi em 1917, no Canadá,

[00:02:52] após uma explosão de um navio na cidade de Halifax.

[00:02:56] O sociólogo Samuel Henry Prince começou,

[00:02:58] começou a estudar esse tema, né?

[00:03:00] Como que as sociedades se reconstruíam após esse desastre tecnológico.

[00:03:04] Mas o tema ganha um impulso muito grande a partir de 1950,

[00:03:09] nos Estados Unidos, em que se cria realmente uma linha de pesquisa

[00:03:12] em sociologia dos desastres.

[00:03:14] No Brasil, essa linha de pesquisa, ela começa principalmente

[00:03:18] no ano de 2003 e 2004, pela professora Norma Valêncio,

[00:03:22] da Universidade Federal de São Carlos.

[00:03:24] Nessa ocasião que eu comecei a estudar o tema.

[00:03:27] Como passou o tempo, eu comecei a estudar o tema,

[00:03:28] e, com o passar do tempo, em virtude dos muitos desastres ocorridos no Brasil,

[00:03:33] a gente tem hoje uma rede cada vez maior de pessoas estudando desastres.

[00:03:40] Cara, é curioso que seja tão recente assim, só a partir de 1917,

[00:03:46] e ainda sobre uma explosão de um navio, um negócio tão específico.

[00:03:51] Quando você começou a falar em 1917, já pensei que talvez fosse alguma coisa,

[00:03:55] por causa da gripe espanhola, alguma coisa da guerra mesmo,

[00:03:58] mas, caramba, por causa de uma explosão de um navio, eu não esperava essa.

[00:04:01] E curioso que tenha demorado tanto para aparecer,

[00:04:04] porque, assim, o que não faltou foi desastre.

[00:04:07] Sim, a partir da filosofia, Rousseau e Voltaire,

[00:04:12] quando teve o terremoto em Lisboa, em 1776, acredito eu,

[00:04:18] eles começam um diálogo sobre as razões daquele desastre,

[00:04:24] justamente problematizando o que seria um desastre,

[00:04:27] o que seria um desastre natural, quando, na verdade, não era.

[00:04:31] E eles explicam, eles debatem sobre a própria organização da cidade de Lisboa,

[00:04:36] o adensamento populacional, a fragilidade das edificações.

[00:04:40] Então, na filosofia, tem momentos antes, não sou especialista nisso,

[00:04:45] mas, realmente, o primeiro estudo na parte de sociologia,

[00:04:50] que se tem conhecimento, foi esse trabalho do Samuel Henry Prince.

[00:04:55] E depois, é muito interessante, um outro estudo, em 1942,

[00:05:00] de um sociólogo russo, Petrin Sorokin, em Harvard,

[00:05:04] que ele estudou como os comportamentos sociais e culturais

[00:05:08] se alteravam diante de eventos como pandemias, epidemias,

[00:05:12] períodos de fome e guerra.

[00:05:14] Então, é muito interessante.

[00:05:16] Eu até coloquei esse livro do Sorokin,

[00:05:18] Man and Society in Calamity, na disciplina desse ano,

[00:05:23] de introdução às ciências sociais.

[00:05:24] Então, os alunos vão, cada um vai se ocupar de um capítulo desse livro de 1942,

[00:05:30] porque ele se torna muito atual.

[00:05:32] É, eu queria saber essa matéria, né?

[00:05:34] A matéria, quem estuda sociologia do desastre,

[00:05:37] quem se especializa nisso, vai estudar exatamente o quê?

[00:05:40] Sobre que materiais vocês vão se debruçar,

[00:05:43] o quê que mídias, que escolas de pensamento, correntes, enfim,

[00:05:49] o quê que exatamente vocês, o quê que se estuda, né?

[00:05:52] A ementa de um curso desse seria como?

[00:05:54] É, tem bastante coisa, né?

[00:05:56] Primeiro se pode estudar as causas que levaram a esse desastre socioambiental,

[00:06:04] como também as relações entre os atores sociais no momento da emergência,

[00:06:12] no momento em que muitas vezes se organizam abrigos temporários

[00:06:16] para desastres e as famílias que perdem suas casas.

[00:06:19] Tem que tentar reordenar o mundo privado da casa no espaço público,

[00:06:22] de um abrigo temporário, em estruturas adaptadas, como escolas, ginásios.

[00:06:28] Tem também uma outra possibilidade, que é estudar como que as pessoas percebem

[00:06:35] os diferentes riscos aos quais estão sujeitas,

[00:06:38] como as instituições lidam com essa temática,

[00:06:42] como após uma inundação, um deslizamento,

[00:06:45] uma vez que você tem infraestruturas destruídas, casas,

[00:06:49] como se dá o processo de reconstrução e recuperação?

[00:06:52] Como estão as políticas de prevenção nesse tema?

[00:06:58] Então é uma infinidade de possibilidades e a gente tem uma escassez muito grande

[00:07:04] de recursos humanos voltados a, por exemplo, pensar, planejar,

[00:07:09] formular processos de reconstrução e recuperação em desastres.

[00:07:13] Então foi muito interessante, em razão do rompimento das barragens de Mariana

[00:07:20] e também do Madinho,

[00:07:22] houve a necessidade de profissionais para pensarem nos processos

[00:07:27] de reconstrução e recuperação.

[00:07:29] E aí me pediram sugestões.

[00:07:32] E aí no Brasil a gente não tinha muitas pessoas,

[00:07:38] é uma parte muito rara ainda.

[00:07:41] E como também precisamos de pessoas ainda,

[00:07:45] estamos formando algumas que ajudem a pensar em como gerenciar os riscos de desastres,

[00:07:51] para que os desastres não aconteçam.

[00:07:53] Então pensar em políticas de prevenção.

[00:07:57] Atualmente no Brasil a gente tem alguns cursos de mestrado profissional,

[00:08:03] mestrado e doutorado acadêmico nesse tema,

[00:08:06] mas ainda precisamos criar concursos públicos para esse fim,

[00:08:13] tendo em vista que muitas vezes nos cargos de proteção e defesa civil municipal

[00:08:19] são cargos ainda com indicação política

[00:08:22] e que se alternam a cada nova eleição municipal.

[00:08:25] Então isso é uma das coisas que, acredito eu,

[00:08:29] ainda é necessário melhorar no país.

[00:08:33] Sem mencionar ainda a necessidade de empresas

[00:08:37] que possuem empreendimentos de risco como barragens,

[00:08:41] que elas tenham esses especialistas em seu quadro

[00:08:45] e que esses especialistas estejam capacitados,

[00:08:49] para elaborar planos de evacuação, planos de prevenção, sistemas de alerta

[00:08:54] e assim por diante.

[00:08:56] Então é uma infinidade de temas que podem ser estudados.

[00:09:00] De forma muito interessante, acredito eu,

[00:09:03] que todos nós, a gente, de certo modo,

[00:09:07] está sendo impactado pela pandemia.

[00:09:10] E aí com certeza aparecem inúmeros estudos

[00:09:13] que se relacionam à pandemia.

[00:09:15] Não só nas ciências biológicas, mas também nas ciências humanas.

[00:09:18] Entendendo os impactos dessa pandemia

[00:09:21] sobre o mercado de trabalho, sobre as famílias.

[00:09:24] Então a infinidade de temas é muito grande.

[00:09:27] E na matéria de Sociologia dos Desastres,

[00:09:31] que eu leciono no programa de Mestrado e Doutorado em Desastres,

[00:09:35] é um programa novo entre o SEMADEM,

[00:09:37] o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres,

[00:09:40] e a UNESP, a Universidade do Estado de São Paulo,

[00:09:43] os alunos têm contato com alguns conceitos básicos.

[00:09:46] O que é vulnerabilidade?

[00:09:47] O que é capacidade?

[00:09:49] O que é resiliência?

[00:09:50] O que é governança?

[00:09:52] O que é risco de desastre?

[00:09:54] Então alguns desses conceitos,

[00:09:56] como também as diferentes fases que a gente tem no desastre.

[00:09:59] Seja a prevenção, a preparação, a mitigação,

[00:10:03] a resposta, a recuperação.

[00:10:06] As diferentes necessidades dos grupos sociais,

[00:10:09] seja de acordo com a dimensão de gênero,

[00:10:11] etária, raça, etnia,

[00:10:14] pessoas com deficiência,

[00:10:16] deficiência visual,

[00:10:18] deficiência física em geral.

[00:10:20] Nossa, é abrangente pra caramba, hein?

[00:10:23] Caramba, bastante.

[00:10:24] Victor, assim,

[00:10:26] dadas as condições do Brasil,

[00:10:28] e aqui, assim, como é um tema pesadíssimo,

[00:10:31] eu não tô falando nem com alguma ironia,

[00:10:33] nem com alguma gracinha,

[00:10:34] mas dadas as condições do Brasil,

[00:10:36] parece ser um terreno, assim,

[00:10:38] bastante fértil pra esse tipo de estudo.

[00:10:40] E aqui eu não tô querendo fazer piada não,

[00:10:43] mas a gente tem, assim, questões.

[00:10:45] É um país enorme,

[00:10:46] a gente tem questões com barragens,

[00:10:48] a gente tem questões que vão passar

[00:10:50] a ser cada vez mais comuns

[00:10:52] conforme as mudanças climáticas forem acontecendo, né?

[00:10:57] Eu moro aqui em Santa Catarina

[00:10:59] e é cada vez mais comum

[00:11:01] nós passarmos por alguns ciclones por aqui.

[00:11:05] A gente vai ter uma série de problemas

[00:11:07] com relação ao número de pessoas

[00:11:11] muito grande, muito considerável

[00:11:13] no Brasil inteiro,

[00:11:14] que moram em encostas, né?

[00:11:17] Em situações de deslizamento eminente e tal.

[00:11:22] Então não é nem querer fazer piada mesmo.

[00:11:26] Mas levando em consideração ali,

[00:11:28] você falou várias conceituações, né?

[00:11:32] Sobre o que é prevenção,

[00:11:34] o que é isso, o que é aquilo.

[00:11:35] Eu quero dar um passo pra trás ainda.

[00:11:37] O que exatamente pra vocês,

[00:11:40] pro seu objeto de pesquisa,

[00:11:43] caracteriza um desastre?

[00:11:45] O que é o desastre?

[00:11:47] Tipo, é por número de afetados?

[00:11:51] É por número de mortos?

[00:11:53] Qual é o critério pra se considerar algo desastre ou não?

[00:11:57] Sim.

[00:11:59] Ao redor do mundo a gente tem diferentes definições

[00:12:02] e também critérios.

[00:12:04] As Nações Unidas, elas estabeleceram um critério

[00:12:08] de que desastre é um evento em que

[00:12:12] se tem um registro de 10 ou mais mortes.

[00:12:16] De forma que esse evento excede a capacidade local

[00:12:21] em fazer frente àquela situação de danos e perdas.

[00:12:25] Correto?

[00:12:26] Então é diferente eu ter 10 mortes

[00:12:30] em um desastre na metrópole de São Paulo

[00:12:35] de eu ter 10 mortes em um desastre

[00:12:38] no município de Ilhota, no Vale do Itajaí.

[00:12:42] Um município com cerca de 10 mil habitantes.

[00:12:46] Então essas situações são também diferenciadas.

[00:12:50] E tem um ponto muito importante pra gente pensar.

[00:12:54] Eu estudei em um município de São Luís do Paraitinga

[00:12:57] que em janeiro de 2010 enfrentou uma inundação histórica.

[00:13:01] Doze metros acima do nível normal.

[00:13:04] O município já tinha experiência em viver inundações anteriores.

[00:13:08] Não nessa dimensão.

[00:13:10] De forma muito interessante

[00:13:12] graças aos praticantes locais de rafting

[00:13:16] e também a defesa civil municipal

[00:13:18] com dois integrantes

[00:13:20] ninguém morreu durante a inundação.

[00:13:22] Eles realizaram mais de 400 resgates

[00:13:25] madrugada adentro na passagem de ano

[00:13:27] de 2009 pra 2010

[00:13:29] até que os órgãos oficiais de emergência

[00:13:32] o Corpo de Bombeiros e as Forças Armadas

[00:13:35] chegassem ao cenário em São Luís do Paraitinga.

[00:13:38] Pois bem.

[00:13:39] Embora ninguém tenha morrido durante a inundação

[00:13:43] grande parte da infraestrutura da cidade foi destruída.

[00:13:47] Inclusive a Igreja Matriz

[00:13:49] que era a grande referência do centro histórico.

[00:13:52] Os sobrados ao redor do centro histórico.

[00:13:55] Então muitas pessoas perderam suas moradias

[00:13:58] e também a referência da igreja.

[00:14:00] Incluindo os idosos.

[00:14:02] Então durante as entrevistas que nós realizamos

[00:14:05] um ano após a inundação

[00:14:07] a gente percebia que o desastre tinha uma continuidade.

[00:14:10] E as pessoas relatavam, falavam assim

[00:14:13] olha, meus pais tiveram um processo

[00:14:16] de envelhecimento acentuado.

[00:14:19] Eles viveram 40, 50 anos

[00:14:22] ali no centro histórico.

[00:14:25] Passaram-se anos e eles imaginavam que a Igreja Matriz

[00:14:28] nunca seria reconstruída.

[00:14:30] Então é muito interessante porque

[00:14:32] as pessoas não morreram durante a inundação

[00:14:34] mas depois morreram

[00:14:36] de depressão, de dor, de tristeza.

[00:14:39] Outros fenômenos, impactos psicossociais

[00:14:42] que ocorrem na continuidade de um desastre.

[00:14:45] E isso para mim é muito importante dizer

[00:14:49] porque a pandemia ela é um desastre de longo prazo.

[00:14:54] Em que nós sim estamos diariamente

[00:14:58] sofrendo mortes biológicas

[00:15:01] cujos números às vezes nem nos causam mais tanto espanto.

[00:15:05] Tem um programa nos Estados Unidos

[00:15:08] que o professor tentou dar humanidade a esses números.

[00:15:14] Então ele conta as histórias das pessoas que se foram.

[00:15:18] É muito importante que a gente pense

[00:15:20] para além dessa contabilidade

[00:15:22] que todo dia nos amortiza.

[00:15:26] E também pense nos problemas

[00:15:29] que vão se relacionar à pandemia.

[00:15:31] Impactos psicossociais que estão já acontecendo

[00:15:34] e que vão acontecer também por gerações.

[00:15:37] Então é muito importante que a gente

[00:15:39] pense de algum modo

[00:15:41] em como a gente dá visibilidade

[00:15:44] a boas práticas de enfrentamento nessa pandemia.

[00:15:47] Sejam pelos movimentos sociais,

[00:15:50] pelas associações comunitárias

[00:15:52] para que a gente realmente consiga resistir

[00:15:56] a esse desastre, essa catástrofe de longo prazo

[00:15:59] que a gente está enfrentando

[00:16:01] e vai continuar enfrentando.

[00:16:03] O que eu estava pensando aqui

[00:16:05] enquanto você estava explicando isso tudo

[00:16:07] desse aspecto psicológico

[00:16:09] que não é nem só o depois.

[00:16:11] É o antes também.

[00:16:13] Eu vou contar uma historinha para ilustrar

[00:16:15] porque eu estou falando isso.

[00:16:16] Eu sou casada com italiano

[00:16:18] e a Itália é um país muito zoado, muito bagunçado.

[00:16:21] A maior parte do país totalmente indisciplinada.

[00:16:25] As coisas não funcionam direito.

[00:16:27] Você não consegue confiar na infraestrutura

[00:16:29] porque você não sabe o que vai acontecer.

[00:16:31] E aí eu viajei com o meu marido,

[00:16:33] com os meus sogros para Nova York.

[00:16:35] Já tem alguns anos.

[00:16:36] Minha filha era bem pequena.

[00:16:37] A gente chegou no dia de Natal.

[00:16:39] Estava tendo uma nevasca pavorosa.

[00:16:41] A gente tinha ido à cidade.

[00:16:43] A gente estava hospedado fora de Nova York.

[00:16:45] E tinha que pegar um ônibus

[00:16:47] para voltar para o hotel no final da tarde.

[00:16:49] A gente passou o dia batendo perna na cidade

[00:16:51] e começou uma nevasca.

[00:16:52] A gente pegou o último ônibus

[00:16:54] às 5 da tarde para voltar para casa

[00:16:56] senão a gente ia ficar ilhado na cidade.

[00:16:58] Só que já tinha começado a nevar muito.

[00:17:00] E o ônibus subindo o viaduto.

[00:17:02] Eu, meu sogro e mais uns amigos

[00:17:04] do italiano ônibus.

[00:17:06] O ônibus subindo devagar, devagar, devagar.

[00:17:08] E os táxis na nossa frente

[00:17:10] simplesmente assim, derrapando

[00:17:12] e vindo na horizontal

[00:17:14] caindo na direção do ônibus.

[00:17:16] Deslizando assim.

[00:17:18] Porque estava nevando muito

[00:17:20] e não era

[00:17:22] segura a estrada.

[00:17:24] E o motorista nem piscando.

[00:17:26] Amarradona lá só desviando do táxi.

[00:17:28] Vai para cá, vai para lá.

[00:17:29] Super tranquila.

[00:17:31] Meu sogro assim, mas como é que ela está tão calma?

[00:17:33] Aí depois que a gente passou desse viaduto

[00:17:35] a gente continuou andando no caminho

[00:17:37] e tal, não sei o quê.

[00:17:38] Chegou uma hora, eu estava sentada na frente.

[00:17:40] Chegou uma hora, ela perguntou para mim.

[00:17:41] Você consegue ver o nome da placa na rua?

[00:17:43] Eu falei, não.

[00:17:45] Porque tem uma tempestade de neve.

[00:17:47] Ela, eu não sei se essa aqui é a rua que eu tenho que virar

[00:17:49] porque eu não estou reconhecendo, porque eu não estou vendo nada.

[00:17:51] Mas ela estava super calma.

[00:17:53] Super tranquila.

[00:17:54] Aí veio o ônibus da mesma linha no outro sentido.

[00:17:57] Ah, então é essa aqui mesmo que eu tenho que virar.

[00:17:59] Meu colega está vindo na outra direção.

[00:18:01] O ônibus na volta.

[00:18:02] Ela foi, deu a seta e virou.

[00:18:04] E todo mundo me olhando assim.

[00:18:05] Por que ela está calma?

[00:18:07] Deu dez segundos, passaram dois caminhões daqueles,

[00:18:10] tratores daqueles que vão raspando o gelo da estrada

[00:18:14] e jogando sal.

[00:18:16] Aí eles olharam e meu sogro.

[00:18:17] Ah, ela sabe que funciona.

[00:18:20] Se fosse eu na Itália, eu não sei quando é que vão limpar a estrada.

[00:18:24] E já aconteceu com pessoas que eu conheço,

[00:18:26] minha cunhada, por exemplo,

[00:18:27] que ficou presa o dia inteiro.

[00:18:29] Trancada num carro com cachorro.

[00:18:32] Porque não tinha caminhão para limpar a neve que caiu na estrada.

[00:18:35] Numa região onde neva com frequência.

[00:18:38] Então isso também afeta o teu antes, né?

[00:18:41] Porque quando você…

[00:18:42] Se você mora numa zona que alaga muito,

[00:18:45] como por exemplo aqui onde eu moro em Curitiba.

[00:18:47] O meu bairro é um bacião e alaga sempre.

[00:18:51] Então todas as vezes que começa a chover forte,

[00:18:53] já fica todo mundo apavorado.

[00:18:55] Todo mundo já vai pegar os filhos mais cedo na escola.

[00:18:58] Já fica naquele desespero.

[00:19:00] Será que eu vou conseguir passar?

[00:19:01] Meu carro não aguenta passar na água.

[00:19:03] Você passa um nervoso, inclusive antes.

[00:19:06] Quando você sabe que não tem infra e não tem esse apoio, né?

[00:19:09] Eu nunca vou me esquecer da placidez daquela mulher dirigindo aquele tarugo de ônibus

[00:19:13] cheio de gente dentro.

[00:19:15] Os táxis caindo em cima do ônibus.

[00:19:17] E a mulher nem tchum.

[00:19:19] Porque ela sabia que logo depois,

[00:19:21] a prefeitura, alguém do governo,

[00:19:23] algum órgão, alguma autoridade

[00:19:25] ia resolver o problema.

[00:19:27] E eu acho que isso é qualidade de vida também, né cara?

[00:19:30] Sem dúvida.

[00:19:31] Porque você saber que você pode contar com uma certa estrutura

[00:19:33] quando acontece alguma coisa,

[00:19:35] é muito diferente de você começar a tremer de nervoso

[00:19:37] quando começa a chover, né?

[00:19:39] E a gente aqui não é muito bom nisso, né?

[00:19:41] A gente não tem uma defesa civil bem aparelhada.

[00:19:46] A gente não é bom em resposta a esse tipo de coisa.

[00:19:50] E como você está falando, a gente praticamente não estuda isso também.

[00:19:53] Aí fica difícil.

[00:19:55] Sim.

[00:19:56] E nos últimos anos,

[00:19:58] o Brasil, ele melhorou bastante nessa preparação, né?

[00:20:02] Muito em virtude dos desastres que a gente vivenciou.

[00:20:06] Então, em novembro de 2008,

[00:20:08] o Thiago deve lembrar bem

[00:20:10] do desastre no Morro do Baú, né?

[00:20:14] No Vale do Itajaí.

[00:20:16] Isso acabou catalisando melhorias na infraestrutura

[00:20:20] da defesa civil do estado de Santa Catarina.

[00:20:23] Então hoje,

[00:20:24] a defesa civil do estado de Santa Catarina

[00:20:26] é uma das mais preparadas no Brasil.

[00:20:28] Ela é uma boa referência,

[00:20:30] inclusive na América do Sul.

[00:20:33] Então, ela teve muito investimento.

[00:20:36] O problema, o desafio,

[00:20:39] é como manter isso ao longo do tempo.

[00:20:41] Porque quando o desastre sai de pauta,

[00:20:44] também podem definhar.

[00:20:46] Então, também vale, de certo modo,

[00:20:50] a pressão que a sociedade civil

[00:20:52] também pode ajudar a exercer

[00:20:55] sobre os seus parlamentares.

[00:20:57] Porque eles também podem garantir emendas

[00:21:00] e outros projetos para essa área.

[00:21:03] Então, aí tem uma dimensão importante, né?

[00:21:06] A ser realizada.

[00:21:07] Mas eu acho que um caminho, também,

[00:21:10] para nós pensarmos,

[00:21:12] é que hoje em dia, na verdade,

[00:21:14] embora a gente possa até ter experiência, né?

[00:21:17] Com certeza, os Estados Unidos foram criando, né?

[00:21:21] Essa experiência em atuar

[00:21:23] em virtude do que aconteceu no passado.

[00:21:25] Mas eu chamo a atenção,

[00:21:27] até para um título, né?

[00:21:29] De um livro da jornalista Amanda Ripley,

[00:21:31] da nossa capacidade de imaginar o impensável.

[00:21:35] E como sobreviver a desastres

[00:21:37] em situações impensáveis.

[00:21:39] Então, da mesma forma, né?

[00:21:41] Que a gente trouxe o exemplo dos Estados Unidos,

[00:21:43] no que você falou.

[00:21:45] Esse ano, os Estados Unidos também se deparou

[00:21:47] com um fenômeno terrível no Texas,

[00:21:49] de todo o colapso energético.

[00:21:50] E as crises que eles vivenciaram.

[00:21:53] O sistema de diques deles, também,

[00:21:56] ficou muito obsoleto durante a época do Trump.

[00:21:59] Faltou manutenção.

[00:22:01] A gente costuma, também,

[00:22:03] muitas vezes, nos espelhar no exemplo do Japão.

[00:22:06] Mas o Japão, também, tem deficiências.

[00:22:09] Tem até um exemplo interessante, né?

[00:22:12] Chamado o milagre de Kamaishi.

[00:22:14] Ocorrido há 10 anos atrás,

[00:22:16] durante o tsunami de 2011,

[00:22:18] que acabou impactando na usina de Fukushima

[00:22:22] e acarretando um desastre, também, nuclear.

[00:22:25] Eles tinham sempre o hábito

[00:22:26] de fazer planos de contingência.

[00:22:28] Não sei se vocês já ouviram falar desse termo.

[00:22:30] Sim.

[00:22:31] Junto com as crianças na escola.

[00:22:33] E haviam os planos, né?

[00:22:35] Por onde correr, a rota de evacuação.

[00:22:38] A indicação era subir no último andar da escola,

[00:22:41] de quatro andares,

[00:22:42] porque ali seria uma altura segura.

[00:22:45] Correto?

[00:22:46] Mas, em determinado momento,

[00:22:47] a própria escola e os alunos, professores,

[00:22:51] perceberam que não seria mais seguro ficar ali.

[00:22:55] Decidiram correr para um lugar mais alto, ainda.

[00:22:58] Ainda bem que fizeram isso.

[00:23:00] Porque, na verdade,

[00:23:02] a onda que atingiu ali,

[00:23:05] acabou cobrindo os quatro andares da escola.

[00:23:08] Então, às vezes, o que eu quero dizer,

[00:23:11] é muito importante que a gente tenha planos,

[00:23:14] treininhos simulados.

[00:23:16] Mas também é importante

[00:23:18] que a gente tenha capacidade

[00:23:20] de calma e liderança

[00:23:22] para esses momentos impensáveis.

[00:23:24] Que a gente precisa, realmente,

[00:23:26] de lideranças positivas,

[00:23:28] espírito de associativismo

[00:23:30] para lidar com esses desafios.

[00:23:32] São Luís do Paraitinga

[00:23:34] é um exemplo de cidade muito pequena,

[00:23:36] de 10 mil habitantes,

[00:23:38] mas que as pessoas tiveram que,

[00:23:40] ainda que de forma improvisada,

[00:23:42] se ajudarem para se salvar.

[00:23:44] Então, assim, chama atenção, né?

[00:23:46] Mais de 400 resgates

[00:23:48] que os próprios moradores fizeram

[00:23:51] em uma inundação extrema.

[00:23:54] E, cada vez mais, gente,

[00:23:56] somos nós, todos os cidadãos

[00:23:59] que estão na linha de frente,

[00:24:00] que vão responder a esses eventos.

[00:24:03] Não tem como ter bombeiro,

[00:24:06] órgãos de emergência,

[00:24:07] para salvar todo mundo.

[00:24:08] Então, a gente precisa, cada vez mais,

[00:24:10] investir na autoproteção,

[00:24:13] pleitear mais acesso a informações,

[00:24:15] na preparação das diferentes gerações

[00:24:17] para esse tipo de enfrentamento.

[00:24:20] Acredito que é esse, um pouco,

[00:24:22] a mensagem que a gente precisa.

[00:24:25] Uma cultura, realmente,

[00:24:27] de tratar esses temas

[00:24:29] cada vez mais como prioridade.

[00:24:31] E acredito que a pandemia

[00:24:33] é a maior prova disso.

[00:24:35] Um desastre permanente

[00:24:37] que a gente tem que se readaptar

[00:24:39] e as coisas não vão voltar ao que eram.

[00:24:41] A gente precisa aceitar isso,

[00:24:43] porque as coisas não vão ser como eram antes.

[00:24:45] Mas, oh, não se esqueçam

[00:24:48] Da rosa, da rosa

[00:24:55] Da rosa de Hiroshima

[00:24:58] Rosa hereditária

[00:25:05] A rosa radioativa

[00:25:08] Estúpida, inválida

[00:25:15] A rosa com cirrose

[00:25:18] A antirrosa atômica

[00:25:27] Eu acho que essa é a primeira vez,

[00:25:28] não a primeira vez, né?

[00:25:29] Mas a primeira vez que a gente para

[00:25:30] para pensar, talvez,

[00:25:31] em como vai ser o depois

[00:25:33] em termos psicológicos, né?

[00:25:34] Porque, desastre,

[00:25:35] a gente pensa em uma coisa rápida

[00:25:37] e depois na recuperação a curto prazo, né?

[00:25:39] Mas, essa pandemia está tão arrastada

[00:25:42] que está todo mundo louco,

[00:25:43] todo mundo desesperado.

[00:25:44] e aí eu estou ouvindo

[00:25:46] bastante conversa

[00:25:48] sobre como vai ser o depois

[00:25:50] de uma maneira que eu nunca ouvi antes

[00:25:52] para desastre nenhum

[00:25:53] tem um termo bem interessante

[00:25:55] de um antropólogo

[00:25:57] se não me engano ele é da Guatemala

[00:26:00] mas é professor lá nos Estados Unidos

[00:26:02] ele fala

[00:26:04] que a gente encara a pandemia

[00:26:06] como uma espécie de crise com garantias

[00:26:08] então é uma crise

[00:26:10] que a gente está enfrentando, mas a gente sempre tem

[00:26:12] carrega a garantia

[00:26:14] de que ela vai passar

[00:26:15] cedo ou tarde ela vai passar

[00:26:17] e esse cedo ou tarde não chega

[00:26:19] e pode ser que ele demore muito mais

[00:26:22] do que a gente imagina

[00:26:23] então a gente sempre

[00:26:26] ainda está lidando como se a gente fosse

[00:26:28] retomar a vida de outrora

[00:26:30] e eu

[00:26:32] acredito

[00:26:33] que pelo que a gente lê

[00:26:36] nos livros do próprio Sorokin

[00:26:38] que eu mencionei

[00:26:39] são justamente nesses períodos de grande

[00:26:41] catástrofe que a humanidade

[00:26:44] sofre grandes mudanças

[00:26:46] e aí

[00:26:47] criam-se novos padrões de vida em sociedade

[00:26:50] modificam-se tabus

[00:26:51] comportamentos, até instituições

[00:26:54] religiões, então são coisas

[00:26:56] que

[00:26:57] eu acho que a gente tem que

[00:27:00] também começar a pensar

[00:27:02] o quanto antes

[00:27:03] como que a gente redefine

[00:27:05] a nossa vida em pandemias

[00:27:08] que vão ser muito mais frequentes

[00:27:10] e duradouras do que a gente imagina

[00:27:11] Vitor

[00:27:13] contando um pouquinho da minha história

[00:27:16] eu já tive uns

[00:27:17] 300 mil empregos diferentes

[00:27:20] então em um deles

[00:27:22] eu já fui inspetor

[00:27:24] de segurança veicular

[00:27:25] que é algo que conversa bastante

[00:27:28] com essa área, porque

[00:27:29] você, a gente

[00:27:32] tem aí incontáveis

[00:27:34] exemplos de uma

[00:27:35] manutenção mal feita num ônibus

[00:27:38] que ele desce em um balanceiro abaixo

[00:27:39] e já é mais um desastre pra conta

[00:27:41] e aí

[00:27:43] por conta desse trabalho ter muita

[00:27:45] conexão com o seu tipo

[00:27:48] de pesquisa, eu tava aqui pensando

[00:27:50] sobre aqueles

[00:27:52] três pilares que a gente sempre

[00:27:54] ouve falar, pelo menos

[00:27:56] quanto ao mecanismo de trânsito

[00:27:58] mesmo, que

[00:28:00] quase todo acidente de trânsito

[00:28:02] acaba se enquadrando em um desses

[00:28:04] três pilares, que é a negligência

[00:28:06] a imprudência e a imperícia

[00:28:08] levando

[00:28:10] isso pro

[00:28:11] lado da

[00:28:13] sociologia e desastres

[00:28:15] faz sentido isso pra você?

[00:28:18] continua

[00:28:19] tendo essa mesma lógica

[00:28:22] dentro do seu campo de estudo?

[00:28:24] e se sim

[00:28:25] pelo que você conhece

[00:28:27] dos exemplos e dos estudos

[00:28:30] da área

[00:28:31] normalmente esse tipo

[00:28:34] de desastre

[00:28:36] num lato senso

[00:28:38] assim, né

[00:28:38] ele reside

[00:28:41] os problemas dele, as causas dele

[00:28:44] residem mais

[00:28:45] em responsabilidades de poderes públicos

[00:28:48] de questões

[00:28:50] particulares mesmo

[00:28:52] de um indivíduo mesmo

[00:28:54] ou em questões

[00:28:55] como por exemplo

[00:28:57] a da Vale, assim, uma

[00:28:59] grande corporação, algum tipo

[00:29:02] de instituto privado que acabou

[00:29:04] levando a esse

[00:29:05] a esse desastre

[00:29:07] é uma boa questão, né, uma ampla questão

[00:29:10] eu acho que

[00:29:11] hoje em dia

[00:29:13] é muito difícil

[00:29:15] a gente separar

[00:29:17] Estado e setor

[00:29:20] privado, né, a gente cria

[00:29:21] essas divisões

[00:29:23] mas a gente também sabe

[00:29:25] que existem muitas

[00:29:27] influências entre as

[00:29:29] diferentes esferas, né

[00:29:31] então sabemos que existe

[00:29:33] por exemplo

[00:29:34] um lobby, né, pra flexibilização

[00:29:38] das leis, também

[00:29:39] sabemos que existem cortes de

[00:29:41] orçamento pra fiscalização

[00:29:43] de empreendimentos, pra fiscalização

[00:29:46] ambiental em geral

[00:29:47] então são

[00:29:48] eu diria, né, que assim

[00:29:51] tem muita coisa

[00:29:52] que acontece

[00:29:55] em diferentes setores

[00:29:57] e muitas vezes a gente não pensa na

[00:29:59] relação que isso pode ter, né

[00:30:01] qual que é a relação entre uma

[00:30:03] boa fiscalização e uma redução

[00:30:05] de risco de rompimento

[00:30:07] de uma barragem, uma boa fiscalização

[00:30:09] ambiental

[00:30:11] um desmatamento

[00:30:13] e consequentemente

[00:30:14] ocupações em regiões

[00:30:16] mais suscetíveis a inundações

[00:30:18] ou mesmo, né, deflagrar

[00:30:20] processos de

[00:30:22] erosão ou mesmo

[00:30:24] de degradação ambiental

[00:30:26] então essas relações assim

[00:30:28] eu acredito que

[00:30:30] ainda o tema

[00:30:32] ele é muito desintegrado, ele é por setor

[00:30:35] então

[00:30:36] hoje o que a ONU fala é que

[00:30:38] os países deveriam

[00:30:41] considerar a gestão de risco de desastres

[00:30:44] em seus modelos de desenvolvimento

[00:30:47] e aí desenvolvimento é diferente de crescimento econômico

[00:30:50] crescimento econômico é só uma variação no produto interno bruto

[00:30:54] já desenvolvimento tem a ver com

[00:30:56] distribuição de riqueza

[00:30:59] melhorias das condições de vida e dignidade

[00:31:02] então ao colocar a gestão de risco

[00:31:05] associada aos modelos de desenvolvimento, né

[00:31:08] como a gente planeja o nosso território

[00:31:11] você teria condições de diminuir

[00:31:14] vamos dizer, esses riscos e a combinação dos riscos

[00:31:17] então eu vou dar um exemplo muito recente

[00:31:22] O Acre, o estado do Acre

[00:31:24] está vivenciando uma pandemia

[00:31:26] está vivenciando

[00:31:29] vivenciou, está vivenciando de novo

[00:31:32] agora né, no mesmo ano de 2021

[00:31:34] inundações

[00:31:36] tem também, fluxos migratórios

[00:31:39] na fronteira né, com o Peru que desencadearam ali, com o Peru, que desencadearam ali, bangs

[00:31:39] Peru que desencadearam ali conflitos, então acredito eu que sejam, se não me engano, haitianos que querem

[00:31:47] passar pela fronteira Brasil para ir para o Peru, para outros locais, mas em virtude da pandemia isso também

[00:31:52] está fechado e além disso tem o crime organizado que sim e também está atuando no Acre com grilagem de terras

[00:32:04] e assim por diante, então vejam que embora a gente tente separar a pandemia deve ser cuidada pela saúde,

[00:32:11] a inundação deve ser cuidada pela defesa civil, na prática essas coisas não são separadas e qual que é a nossa

[00:32:19] capacidade justamente de governança? Governança é a gente criar arranjos, mecanismos formais, leis, protocolos,

[00:32:28] planos, mas também informais, redes, associações, movimentos.

[00:32:34] Mecanismos que nos ajudem a lidar com esse tema, de forma a evitar que um desastre aconteça, então na governança eu tenho

[00:32:41] participação não só de atores estatais, mas também não estatais, então é fundamental que a gente tenha políticas públicas

[00:32:52] que criem esses mecanismos de participação, inclusive para pensar em como a gente deve lidar com a pandemia no longo prazo

[00:33:01] em diferentes setores.

[00:33:03] Então, a gente teve que fazer isso quando o Brasil enfrentou a catástrofe de 2011 na região serrana do Rio de Janeiro.

[00:33:12] Nossa, assim…

[00:33:14] Formulou-se um plano nacional de gestão de risco e resposta a desastres que atribuiu a diferentes ministérios um papel,

[00:33:22] então Serviço Geológico do Brasil, mapeamento de risco, o então Ministério das Cidades, obras de prevenção, melhoramento de

[00:33:30] drenagem urbana, plano municipal de redução de risco.

[00:33:33] ínfYo, de integração nacional, In짜imaração General, Obras de Prevenção de Recerca Antiga,

[00:33:38] Melhoria da Preparação da Resposta da Recuperação, índice da Semaden, fornecimento público do Serra,

[00:33:42] ações de monitoramento em C dimensão e alerta.

[00:33:44] É muito importante esses planejamentos que envolvam diferentes organizações e a sociedade civil a requerir.

[00:33:52] Isso com certeza, que forceira no problema de segurança, a violência econômica, etc.

[00:33:54] E, se nós tivéssemos a cultur, a multiterapê, nessa área, 13

[00:33:56] de participação, nesse tema, com certeza, Thiago, desde acidentes de trânsito, a acidentes de transtorno, das bolhas pod Lisbabon,

[00:33:59] Ok site da Folha de Cont如 Garcia mesmo…

[00:34:00] desde acidente de trânsito

[00:34:02] a acidente de barragem,

[00:34:04] nós estaríamos muito mais preparados

[00:34:07] para, pelo menos,

[00:34:08] reduzir parte dos danos

[00:34:10] e impactos que a gente tem

[00:34:12] vivenciado no Brasil.

[00:34:15] Assim como

[00:34:16] os desastres costumam ser multifatoriais,

[00:34:19] a resposta tem que ser,

[00:34:20] a resposta e a prevenção precisam ser interdisciplinares

[00:34:23] também, senão a coisa

[00:34:24] não funciona, né?

[00:34:27] Você falou do

[00:34:28] Semadem, explica pra gente o que

[00:34:30] que é, o que quer dizer e como é que

[00:34:32] funciona, quem está subordinado.

[00:34:35] Sim.

[00:34:36] O Semadem, ele é um

[00:34:38] órgão

[00:34:40] do Ministério da Ciência, Tecnologia

[00:34:42] e Inovações,

[00:34:44] que foi criado em razão

[00:34:47] da catástrofe de 2011 no Rio de Janeiro.

[00:34:49] Então, o Semadem foi criado

[00:34:50] por um decreto presidencial

[00:34:52] em 1º de julho de 2012,

[00:34:55] entrou em operação seis meses

[00:34:56] depois, em dezembro de 2011,

[00:34:59] já monitorando 56

[00:35:00] municípios no Brasil, que

[00:35:02] foram mapeados, né,

[00:35:04] em risco de inundação e deslizamento,

[00:35:06] pelo Serviço Geológico do Brasil.

[00:35:08] Então, olhem, o Semadem é uma

[00:35:10] instituição que hoje recebe

[00:35:12] dados e informações de diferentes

[00:35:15] órgãos no Brasil, órgãos federais,

[00:35:17] estaduais e municipais.

[00:35:19] Então, também é um exemplo

[00:35:20] de que é possível, né,

[00:35:23] ter, criar essas relações

[00:35:24] entre os órgãos, fortalecer isso.

[00:35:27] E, particularmente,

[00:35:28] eu acho que um exemplo importante,

[00:35:30] né, que vale a pena

[00:35:32] eu falar, hoje,

[00:35:34] a Secretaria Nacional de Proteção

[00:35:36] e Defesa Civil está com um

[00:35:38] projeto chamado

[00:35:40] Projeto ELOS, uma pesquisa

[00:35:42] municipal em proteção e defesa civil,

[00:35:45] faz parte de uma cooperação internacional

[00:35:46] com o Programa das Nações Unidas para o

[00:35:48] Desenvolvimento. E quem está ajudando

[00:35:50] a realizar a pesquisa é o próprio

[00:35:52] Semadem, como órgão de pesquisa.

[00:35:55] Então, a gente, a gente

[00:35:56] tem envolvido, né,

[00:35:58] mobilizado, ajudado a mobilizar a defesa

[00:36:00] civil estaduais, coordenadorias

[00:36:02] regionais de defesa civil, né, a região

[00:36:04] em cada estado, e também os

[00:36:06] municípios, para que a gente

[00:36:08] identifique as necessidades e

[00:36:10] capacidades das defesas civis

[00:36:12] municipais no Brasil. Então, a gente

[00:36:14] está fazendo isso, a pesquisa, né, em

[00:36:16] meio à pandemia, e no

[00:36:18] período de um mês, nós tivemos

[00:36:20] 1.200 municípios respondendo

[00:36:22] a pesquisa. Olha! Isso

[00:36:24] graças ao apoio

[00:36:26] das defesas civis estaduais,

[00:36:28] né, em todo o Brasil, que,

[00:36:30] mesmo, às vezes, respondendo o desastre,

[00:36:32] tem identificado a necessidade

[00:36:34] disso. Então,

[00:36:36] a gente espera, né, que

[00:36:38] esse trabalho, de algum modo,

[00:36:40] ajude aquilo, né,

[00:36:42] que vocês falaram quase que inicialmente,

[00:36:44] de ter uma defesa civil

[00:36:45] mais preparada no Brasil. Então,

[00:36:48] para isso, a gente também precisa

[00:36:50] da ciência, que nos ajude a

[00:36:52] identificar quais são essas necessidades

[00:36:54] e capacidades.

[00:36:56] Só para encerrar

[00:36:58] esse pequeno

[00:37:00] diâmbulo, eu comecei

[00:37:02] a estudar o tema em 2004.

[00:37:04] Em 2005, a gente

[00:37:06] teve uma proposta

[00:37:08] de reformulação da Política Nacional de

[00:37:10] Defesa Civil, e fizemos

[00:37:12] um processo de consulta.

[00:37:14] E, à época, eu me lembro

[00:37:16] muito de um professor do Pernambuco, Gilberto

[00:37:18] Farias. Ele falava assim, olha,

[00:37:20] ninguém sabe o que é defesa civil

[00:37:22] no Brasil. Você fala defesa civil,

[00:37:24] ninguém sabe o que é. Então,

[00:37:26] aí, passado mais de 15 anos,

[00:37:28] acredito que, hoje em dia, as pessoas,

[00:37:30] sabem, pelo menos, o que é defesa

[00:37:32] civil.

[00:37:34] Mas, com certeza, a gente

[00:37:36] tem que avançar mais e melhorar.

[00:37:38] Mas, o mais importante é

[00:37:40] saber o que é e tentar se envolver,

[00:37:43] porque, no fundo,

[00:37:44] acredito que, hoje,

[00:37:46] todo mundo precisa de noções

[00:37:48] básicas de proteção e

[00:37:50] defesa civil, porque a gente

[00:37:52] se depara com muitos

[00:37:54] tipos de riscos.

[00:37:56] Inclusive, isso que você está falando

[00:37:58] já conversa, inclusive, com a

[00:38:00] pergunta que eu tinha, que eu

[00:38:02] estava me preparando aqui para fazer,

[00:38:04] que eu levei muito tempo para

[00:38:06] conseguir colocar numa caixinha

[00:38:08] defesa civil, assim, porque

[00:38:10] a gente sabe que tem as defesas civis

[00:38:12] municipais, as

[00:38:14] regionais e as estaduais.

[00:38:16] Nós temos uma nacional

[00:38:18] e, se temos, ela responde

[00:38:20] exatamente a qual ministério?

[00:38:22] Ela é uma coisa à parte?

[00:38:24] Sim, nós temos

[00:38:25] a Secretaria Nacional

[00:38:28] de Proteção e Defesa Civil,

[00:38:30] hoje, ela está

[00:38:32] no Ministério do Desenvolvimento Regional,

[00:38:35] junto com

[00:38:36] a estrutura absorvida do Ministério

[00:38:38] das Cidades, a agência

[00:38:40] e também, né, a então

[00:38:41] Agência Nacional de Águas.

[00:38:43] Qual que é a função da Secretaria

[00:38:46] Nacional de Proteção e Defesa Civil?

[00:38:48] Ela é o órgão

[00:38:50] que articula

[00:38:51] e define parâmetros técnicos

[00:38:53] para todo o Sistema Nacional de

[00:38:56] Proteção e Defesa Civil. A gente tem

[00:38:58] o SUS, né, Sistema Único de Saúde,

[00:39:00] tem o SUS, Sistema Único

[00:39:02] de Assistência Social. Também temos

[00:39:04] o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil.

[00:39:06] Em nível federal, a

[00:39:08] Secretaria Nacional de Proteção

[00:39:10] e Defesa Civil, as

[00:39:12] Coordenadorias Estaduais de Defesa

[00:39:14] Civil. Nos estados,

[00:39:17] hoje, tem-se investido

[00:39:18] bastante na criação

[00:39:20] dessas Coordenadorias Regionais

[00:39:21] de Defesa Civil, para elas também

[00:39:23] darem apoio aos municípios,

[00:39:26] correto?

[00:39:26] E aí temos,

[00:39:30] os órgãos municipais de proteção

[00:39:31] e defesa civil, que

[00:39:33] dependem muito

[00:39:35] dos prefeitos,

[00:39:38] da sensibilização

[00:39:39] para que os prefeitos criem

[00:39:41] seus órgãos municipais de proteção e defesa

[00:39:43] civil, para que indiquem

[00:39:46] pessoas para ocupar aquele

[00:39:47] cargo, para que invistam

[00:39:50] o mínimo na sua

[00:39:51] defesa civil local, que se tem um orçamento mínimo.

[00:39:54] Então, hoje, um dos

[00:39:56] grandes desafios, também

[00:39:57] é essa falta de orçamento.

[00:40:00] Acredito, né, que vocês se lembrem

[00:40:02] de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro,

[00:40:04] que foi o município que teve mais de

[00:40:06] 400 mortes na catástrofe

[00:40:08] de 2011, na região serrana.

[00:40:11] Vocês arriscam dizer

[00:40:12] qual que era o orçamento

[00:40:14] da Defesa Civil de Nova

[00:40:16] Friburgo, em 2019,

[00:40:19] para fazer

[00:40:20] ações de vistoria e prevenção?

[00:40:22] Vocês arriscam dizer quanto que era esse orçamento?

[00:40:24] Eu não tenho a menor ideia.

[00:40:26] Eu não sei o tamanho de Nova Friburgo,

[00:40:29] mas… Nova Friburgo,

[00:40:30] tem mais de 400 mil habitantes.

[00:40:32] Cara, com um tamanho

[00:40:34] desse, sei lá, eu chutaria

[00:40:36] que algo em torno de…

[00:40:38] Sei lá…

[00:40:40] Meio milhão?

[00:40:41] 500 reais.

[00:40:43] Que não!

[00:40:45] Não!

[00:40:47] Caralho, eu tô rindo de nervoso.

[00:40:49] Não! Como assim? Não!

[00:40:52] Não, não, não, não, não, não.

[00:40:53] Não pode?

[00:40:56] Não pode?

[00:40:56] Cara, que surreal!

[00:40:58] Que surreal!

[00:41:00] Com uma simbial!

[00:41:03] Exato! Então, uma dimensão

[00:41:05] básica, né? Fala do próprio

[00:41:07] Secretário Nacional de Proteção e Defesa

[00:41:09] Civil, durante o lançamento do

[00:41:11] Projeto Elos.

[00:41:13] A Defesa Civil,

[00:41:15] ela precisa, né? Primeiro, ter o

[00:41:17] respeito institucional.

[00:41:19] Uma Defesa Civil Municipal,

[00:41:21] a primeira coisa que ela precisa ter é um

[00:41:23] respeito institucional.

[00:41:25] Então, qual que é o valor

[00:41:26] da vida, né? De uma pessoa?

[00:41:28] Esse valor da vida de uma pessoa

[00:41:31] também depende da ação de prevenção

[00:41:33] no município. Então, em muitos

[00:41:35] casos, a gente…

[00:41:37] As pessoas da Defesa Civil são

[00:41:38] pessoas voluntariosas.

[00:41:41] Elas, muitas vezes, colocam, né?

[00:41:43] Se locomovem com o próprio carro,

[00:41:45] colocam dinheiro do próprio bolso

[00:41:47] pra abastecer o veículo.

[00:41:48] Elas, né? Buscam capacitação

[00:41:51] da forma como podem.

[00:41:53] Então, a gente tem um retrato,

[00:41:55] né? De algum modo, assim, a gente

[00:41:57] precisa dar visibilidade

[00:41:59] e tentar garantir um mínimo,

[00:42:01] um mínimo, pra que,

[00:42:03] de certo modo, a pessoa

[00:42:05] tenha condições mínimas de

[00:42:07] trabalho, correto? Porque

[00:42:09] ela também é responsabilizada.

[00:42:12] Então, se ela não

[00:42:13] toma ações de prevenção, depois ela vai

[00:42:15] ser responsabilizada.

[00:42:17] Então, é muito importante, né?

[00:42:19] Acredito que se a gente tivesse que investir

[00:42:21] alguma coisa nesse

[00:42:23] setor, né? O primeiro seria

[00:42:25] a questão do respeito institucional.

[00:42:27] Então, é algo assim,

[00:42:29] né? Como que a gente investe isso?

[00:42:30] Às vezes, é a própria campanha, dar mais

[00:42:32] visibilidade ao tema, nos meios

[00:42:35] de comunicação, não só no momento que acontece

[00:42:37] um desastre. Então,

[00:42:39] eu acredito, né? Que isso

[00:42:41] é algo, assim, que cabe a nós

[00:42:43] também, né? Como sociedade civil.

[00:42:45] Porque é um serviço

[00:42:46] prestado, né? Pra gente

[00:42:49] também. Então,

[00:42:51] acredito, né? Que esse é

[00:42:53] um pouco do que a gente

[00:42:55] espera nesse projeto,

[00:42:57] né? Ajudar a dar visibilidade

[00:42:59] e, de algum modo, tentar melhorar.

[00:43:01] E, pra melhorar, é isso

[00:43:02] que vocês falaram. A gente precisa também

[00:43:05] de profissionais de diferentes áreas do conhecimento.

[00:43:07] Então, a nossa equipe

[00:43:08] tem uma profissional

[00:43:10] de uma área nova também, chamada

[00:43:12] Direito dos Desastres.

[00:43:15] Talvez seja a conversa aí

[00:43:17] pra um próximo podcast.

[00:43:20] Mas é uma

[00:43:21] área que aparece, que apareceu, né?

[00:43:23] Muito em virtude do

[00:43:24] Furacão Catrina, em 2005,

[00:43:27] nos Estados Unidos. Então, perceberam

[00:43:29] que, olha, o direito ambiental

[00:43:31] em si não dava conta

[00:43:32] do que os desastres,

[00:43:35] o que acontecia

[00:43:37] nos desastres. E aí,

[00:43:39] viram a necessidade

[00:43:40] de criar uma área

[00:43:43] específica do direito, chamado, né?

[00:43:45] Direito dos Desastres, Desaster Law,

[00:43:47] nos Estados Unidos. E aqui no Brasil,

[00:43:49] uma das primeiras pessoas,

[00:43:51] né? Que começaram a

[00:43:53] debater esse tema,

[00:43:54] foram os professores, né?

[00:43:57] Elton Winter de Carvalho

[00:43:58] e a Fernanda Damascena,

[00:44:01] que é a pessoa que está na nossa

[00:44:03] equipe. Então,

[00:44:04] a gente vê, né? A importância

[00:44:06] de ter profissionais de diferentes áreas

[00:44:09] pensando em um desafio comum,

[00:44:11] que é a melhoria da política,

[00:44:13] da implementação da política

[00:44:14] nos municípios.

[00:44:16] Você vinha falando dessa parte de

[00:44:18] da defesa civil ter esse respeito

[00:44:20] institucional, assim, e eu

[00:44:22] super concordo. Inclusive, eu

[00:44:24] sou um grande defensor,

[00:44:27] de quanto mais micro

[00:44:29] for a gestão da

[00:44:31] defesa civil,

[00:44:32] mais efetiva ela vai ser, né?

[00:44:35] Porque, assim, uma cidade

[00:44:37] na Caatinga,

[00:44:39] no Cariri, tem uma defesa

[00:44:41] civil que sabe exatamente

[00:44:42] como tratar os problemas de lá.

[00:44:45] A defesa civil de Nova Friburgo

[00:44:47] vai saber tratar

[00:44:48] questões como deslizamento de

[00:44:51] terra de um jeito muito diferente

[00:44:53] de aqui em Joinville, onde

[00:44:55] eu moro, onde o pessoal precisa estar

[00:44:56] muito…

[00:44:57] muito mais ciente de questões como

[00:44:58] alagamentos. Então, tem as

[00:45:01] suas particularidades e esse tipo

[00:45:03] de compartimentalização, assim,

[00:45:05] deixa mais próximo ainda

[00:45:07] da própria comunidade, né?

[00:45:09] Eu acho que é um jeito

[00:45:11] mais efetivo de

[00:45:13] mesmo uma alocação de recurso.

[00:45:15] Com relação a

[00:45:17] essas gerências

[00:45:19] regionais e tal,

[00:45:21] como é a gestão

[00:45:22] entre gerências regionais?

[00:45:25] Aí entra a Secretaria

[00:45:27] Nacional, ou elas têm certo

[00:45:29] nível de autonomia entre elas?

[00:45:31] Como funciona nessa

[00:45:33] parte pra coisas que ganham

[00:45:35] uma dimensão

[00:45:37] muito maior, né?

[00:45:39] Aí a gente já tá pensando em coisas, sei lá,

[00:45:41] tipo, Mariana. Não é a

[00:45:43] defesa civil de Mariana que vai ter que dar conta

[00:45:45] disso. Sequer é a defesa civil

[00:45:47] da região metropolitana de BH,

[00:45:49] né? Você precisa de um

[00:45:51] esforço muito maior que

[00:45:53] vá até onde

[00:45:54] o rio for desaguar lá

[00:45:57] do Espírito Santo, já. Sim.

[00:45:59] As coordenadorias regionais que existem,

[00:46:01] elas estão

[00:46:02] dentro de um mesmo estado.

[00:46:05] Então, você pega em Santa Catarina,

[00:46:07] você tem a defesa civil estadual,

[00:46:09] e aí, se você entrar no site

[00:46:11] da defesa civil estadual e

[00:46:13] buscar coordenadorias regionais,

[00:46:15] você vai ver, olha, lá na região de

[00:46:17] Joinville, tem uma,

[00:46:19] lá na região de Criciúma, tem

[00:46:21] outra, e assim por diante.

[00:46:23] Então, elas estão dentro de um mesmo estado.

[00:46:26] Nem,

[00:46:27] nem todos os estados do Brasil

[00:46:29] ainda investem, assim,

[00:46:31] no fortalecimento dessas coordenadorias

[00:46:33] regionais, porque isso também

[00:46:34] tem a ver com as particularidades

[00:46:37] de cada estado. Então, vamos

[00:46:39] pegar o exemplo do estado do Acre.

[00:46:41] Pela dimensão territorial dele,

[00:46:43] talvez, né, e a quantidade de municípios,

[00:46:45] talvez não faça sentido

[00:46:46] ter coordenadorias regionais,

[00:46:49] porque, né, estão ali próximos.

[00:46:51] Já em outros estados, às vezes

[00:46:53] o estado identifica essa necessidade.

[00:46:55] Então, isso é importante.

[00:46:57] Então, esse é um aspecto. O outro

[00:46:59] é a segunda parte.

[00:47:00] E o estado tem, o estado tem

[00:47:02] autonomia suficiente pra ele

[00:47:05] mesmo delegar quantas regiões,

[00:47:07] quantas regionais vai ter.

[00:47:09] Sim, sim. Aí é ele que planeja, né?

[00:47:11] E Santa Catarina

[00:47:12] é um dos estados que investiu

[00:47:15] muito nesse papel das coordenadorias

[00:47:17] regionais. Então, hoje

[00:47:19] tem também, às vezes,

[00:47:21] uma infraestrutura física também,

[00:47:23] em termos de ter um escritório,

[00:47:24] de ter equipamentos.

[00:47:26] Então, isso, né, tem

[00:47:28] ao longo do tempo, vem

[00:47:30] tido, vem ocorrendo

[00:47:32] esse tipo de investimento

[00:47:34] nas coordenadorias regionais.

[00:47:37] Então, é como se o

[00:47:38] em vez da

[00:47:40] defesa civil estadual

[00:47:42] ficar só em Florianópolis,

[00:47:44] ela criou escritórios regionais que

[00:47:46] permitam ter a agilidade

[00:47:48] também, né, nas ações.

[00:47:50] Então, isso tem

[00:47:51] ocorrido.

[00:47:54] Mas a segunda

[00:47:55] parte da sua pergunta, ela

[00:47:57] é muito interessante, né?

[00:47:59] Porque tem

[00:48:01] um aspecto na lei

[00:48:03] 12.608, que é da

[00:48:05] Política Nacional de Proteção e Defesa Civil,

[00:48:08] que fala da importância

[00:48:09] de se considerar o planejamento

[00:48:11] das ações de

[00:48:13] gestão de risco, de

[00:48:15] desastres, considerando

[00:48:17] a bacia hidrográfica.

[00:48:20] E aí, quando a gente

[00:48:21] pega o exemplo

[00:48:23] do desastre de Mariana,

[00:48:25] a bacia do Rio Doce

[00:48:26] compreende parte de Minas Gerais,

[00:48:29] Espírito Santo, né, e também

[00:48:31] os impactos dos rejeitos

[00:48:33] também avançaram ali pelo litoral,

[00:48:35] inclusive atingindo a

[00:48:37] Ilha de Abrólios, né, na Bahia.

[00:48:39] A gente vê a necessidade

[00:48:40] que ainda se tem

[00:48:42] de pensar nessas

[00:48:45] catástrofes de larga

[00:48:47] escala. Então,

[00:48:49] tem uma diferença entre o termo

[00:48:50] desastre e catástrofe na literatura

[00:48:53] científica,

[00:48:54] que ainda,

[00:48:56] acredito eu, não está muito incorporada

[00:48:58] nas leis e nos

[00:49:00] procedimentos. Então,

[00:49:02] a catástrofe

[00:49:04] seria um mega-desastre.

[00:49:07] Então,

[00:49:08] essa questão da escala,

[00:49:11] ela ainda, ela não é muito

[00:49:12] bem trabalhada,

[00:49:14] não é só no Brasil,

[00:49:16] em muitos lugares,

[00:49:18] correto? Como você gerencia,

[00:49:21] lida com

[00:49:22] impactos em cascata,

[00:49:24] em cadeia. Então, isso é uma

[00:49:26] coisa, assim, que

[00:49:28] intriga, né, muitos

[00:49:30] governos também.

[00:49:32] No Brasil, nesse exemplo de Mariana,

[00:49:35] a gente está falando entre

[00:49:36] estados, mas

[00:49:38] em outros casos, tem também

[00:49:40] entre países, como foi

[00:49:42] o desastre nuclear de Chernobyl.

[00:49:44] Então, aí é um outro problema.

[00:49:47] No caso do Brasil,

[00:49:48] eu acredito que a gente ainda

[00:49:50] precisa avançar muito

[00:49:51] em como lidar

[00:49:54] com esses desastres

[00:49:56] em cadeia, que

[00:49:58] extrapolam o limite

[00:50:00] municipal, o limite de um

[00:50:02] estado e outro, e muitas

[00:50:04] vezes vai exigir uma

[00:50:06] resposta coordenada dos

[00:50:08] diferentes atores,

[00:50:10] não só da defesa civil,

[00:50:12] mas de outras instituições.

[00:50:15] No caso do desastre

[00:50:16] de Mariana,

[00:50:18] durante muitos anos,

[00:50:20] dentro do Ministério da Saúde,

[00:50:23] se investiu,

[00:50:24] em vigilância

[00:50:26] ambiental em desastre,

[00:50:28] chamado Vigidesastres.

[00:50:30] Desde 2004, pelo menos que eu sei,

[00:50:33] investiu-se muito em capacitação

[00:50:35] para que os órgãos

[00:50:36] de saúde soubessem

[00:50:39] em como lidar nos

[00:50:40] desastres, nas doenças de

[00:50:42] veiculação hídrica e em outros problemas

[00:50:44] que aparecem no decorrer de um desastre.

[00:50:47] No caso de Mariana,

[00:50:49] demandava-se

[00:50:50] que a Secretaria de Saúde

[00:50:52] de Minas Gerais,

[00:50:54] tivesse interação com a Secretaria

[00:50:56] de Saúde do Espírito Santo.

[00:50:59] E essa interação

[00:51:00] se dava a partir

[00:51:02] do Vigidesastre, que era

[00:51:04] uma metodologia comum de trabalho

[00:51:07] no setor saúde. Por exemplo,

[00:51:09] se acontece um desastre

[00:51:11] em outro estado, e isso demanda

[00:51:13] uma resposta coordenada

[00:51:14] de parte de efetivo

[00:51:16] da Secretaria de Saúde de Minas

[00:51:19] Gerais, Espírito Santo, seja onde for,

[00:51:21] quando as pessoas vão

[00:51:22] para o cenário de desastre,

[00:51:24] elas já têm o mesmo protocolo

[00:51:26] de atuação, elas sabem

[00:51:28] o que cada instituição vai fazer.

[00:51:31] Correto? E aí você não

[00:51:32] corre o risco de ter

[00:51:34] disputas no comando da

[00:51:36] operação. Então são aspectos

[00:51:39] importantes

[00:51:40] que devem ser tratados,

[00:51:42] não só pelos órgãos públicos,

[00:51:44] mas também pelas organizações

[00:51:46] não governamentais. Eu vou

[00:51:48] dar um exemplo muito breve

[00:51:50] para vocês. Sempre,

[00:51:52] que a gente tem desastres

[00:51:54] de grande impacto,

[00:51:56] problemas com refugiados,

[00:51:59] as organizações não governamentais

[00:52:01] acabavam indo para

[00:52:02] a cena, e muitas vezes

[00:52:04] cada qual tinha um parâmetro

[00:52:06] de como organizar um abrigo temporário.

[00:52:09] Por exemplo, a

[00:52:11] ONG X

[00:52:12] tinha uma barraca de 15 metros

[00:52:15] quadrados. A ONG

[00:52:17] Y construiu uma

[00:52:19] casa com material de madeira

[00:52:21] de 30 metros

[00:52:22] quadrados. E aí ia num campo

[00:52:24] de refugiado, num abrigo temporário,

[00:52:26] via-se a barraca de 15 metros com

[00:52:28] uma família de plástico,

[00:52:30] uma casa de madeira de 30 metros

[00:52:33] quadrados. E isso gerava

[00:52:35] muitos conflitos entre as

[00:52:36] próprias famílias, entre as

[00:52:39] organizações não governamentais.

[00:52:41] O que se fez? Se

[00:52:42] decidiu, falou assim, vamos reunir

[00:52:45] todas as ONGs

[00:52:46] que trabalham com esse tema

[00:52:48] de abrigos, de campos de refugiados,

[00:52:51] e vamos definir

[00:52:52] parâmetros mínimos de resposta

[00:52:54] para que, quando nós formos

[00:52:56] atuar nesses cenários, a gente

[00:52:58] tenha uma resposta

[00:53:00] da nossa parte que defina alguns parâmetros

[00:53:02] do que é desejável em termos

[00:53:04] de moradia, o que é

[00:53:06] desejável em termos de sanitário,

[00:53:09] como a gente deve ter

[00:53:10] respeito à cultura local

[00:53:12] para que a gente não traga

[00:53:14] materiais que não correspondam

[00:53:16] ao clima da região,

[00:53:18] à cultura de como as pessoas têm suas

[00:53:20] casas. E aí criaram um projeto chamado

[00:53:22] Projeto Esfera.

[00:53:24] Projeto Esfera, que foi

[00:53:26] traduzido para inúmeras línguas,

[00:53:28] inclusive por seis meses. E aí

[00:53:30] todas as ONGs que iam lidar

[00:53:32] com assistência humanitária, se

[00:53:34] preparavam com cursos de capacitação

[00:53:36] do Projeto Esfera.

[00:53:38] Ao chegarem nesses cenários, já sabiam

[00:53:40] como atuar, quais

[00:53:42] os requisitos mínimos, o que fazer,

[00:53:45] o que não fazer, como lidar

[00:53:46] com situações de conflito, e etc.

[00:53:49] Bom, e no Brasil,

[00:53:50] no tema,

[00:53:52] de abrigos temporários, a gente tem uma

[00:53:54] iniciativa muito interessante que ficou

[00:53:56] para trás, esquecida.

[00:53:58] A Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro

[00:54:00] criou um manual de abrigos temporários,

[00:54:02] se não me engano, em 2006,

[00:54:04] com material muito bom,

[00:54:07] muito bem trabalhado.

[00:54:08] E não sei em que medida,

[00:54:10] ainda hoje,

[00:54:11] esse manual ainda é disseminado,

[00:54:14] se os cursos são realizados para outros

[00:54:16] locais do Brasil, enfim. Mas, às vezes,

[00:54:18] é isso. A gente tem uma

[00:54:19] boa iniciativa que precisa,

[00:54:22] de suporte, de ajuda.

[00:54:24] O desastre ambiental

[00:54:26] de Mariana, em Minas Gerais, está perto.

[00:54:28] O maior desastre ambiental do Brasil.

[00:54:30] Há 19 pessoas morreram após o

[00:54:32] fomento de uma das barragens.

[00:54:34] Só aumenta a sensação de

[00:54:36] impunidade. Até quando o lucro vai continuar

[00:54:38] sendo mais importante

[00:54:39] do que a preservação do meio ambiente?

[00:54:52] A defesa civil do Estado do Rio de Janeiro

[00:54:58] criou um manual de abrigos temporários,

[00:54:58] se não me engano, em 2006,

[00:54:58] com material muito bom,

[00:54:58] se não me engano, em 2006,

[00:54:58] que é o que a gente tem aqui.

[00:54:58] Pô, que bacana isso.

[00:55:00] Muito interessante.

[00:55:01] Isso me vem em mente sempre

[00:55:03] quando vem

[00:55:06] à tona esse assunto de

[00:55:08] respeitar a cultura local.

[00:55:10] Eu estou pensando

[00:55:11] em pessoas que são removidas

[00:55:14] de favelas ou de comunidades,

[00:55:16] e que essa coisa de você

[00:55:18] perder os laços comunitários,

[00:55:20] quando nada disso é levado em consideração,

[00:55:22] isso acaba com a vida das pessoas.

[00:55:24] Então não adianta nada você dar uma casa ótima,

[00:55:26] uma casa melhor do que a pessoa tinha

[00:55:28] antes de um desastre,

[00:55:29] se você não leva em conta quem era

[00:55:31] o vizinho dela, que tomou conta das crianças

[00:55:34] dessa pessoa, os amigos

[00:55:35] de sei lá quantos anos que ficavam

[00:55:38] na calçada vendo a vida

[00:55:40] passar e fazendo samba juntos

[00:55:42] e sei lá o quê, né? Essa parte de você

[00:55:44] ser

[00:55:46] humano mesmo, né, cara? E levar em consideração

[00:55:48] a vida da pessoa,

[00:55:49] o cotidiano dela,

[00:55:51] o modo de viver, e não só

[00:55:53] os bens

[00:55:55] materiais, né? A normalidade

[00:55:57] quem decide é a própria pessoa, né?

[00:55:59] Não é a gente que vai ditar o que é normal pra ela

[00:56:01] e o que não é, né? Isso é interessante

[00:56:03] pra caramba, e demonstra

[00:56:05] um respeito que a gente

[00:56:07] não costuma ver muito, né?

[00:56:09] Legal, interessante isso. Me diz uma

[00:56:11] coisa, Vitor, e entrando na

[00:56:13] pandemia agora, pra gente sair do geral

[00:56:15] e tentar focar um pouco

[00:56:17] no nosso desastre atual,

[00:56:19] né? O que que vocês,

[00:56:21] especificamente, estão

[00:56:22] estudando, estão fazendo,

[00:56:25] alguma ação

[00:56:26] específica do Semaden,

[00:56:29] como é que tá sendo? Porque é um

[00:56:31] desastre muito

[00:56:33] diferente, esse realmente é um impensável,

[00:56:35] né? Quem que imaginava uma coisa, quer dizer,

[00:56:37] muitas pessoas imaginavam, mas nessa

[00:56:39] escala, certamente não. A gente

[00:56:41] já sabe que quando chove, a rebanceira

[00:56:43] cai, a gente já sabe que ônibus

[00:56:45] caem na estrada, a gente já sabe

[00:56:47] que barragem dá merda,

[00:56:49] mas essa,

[00:56:51] esse nível e

[00:56:54] essa coisa tão rápida, e nessa

[00:56:56] escala tão grande, eu acho que ninguém

[00:56:57] tava prevendo. Sim. O que que

[00:57:00] tá sendo feito? E como é que vocês estão

[00:57:01] estudando isso? Pra onde que vocês estão

[00:57:03] direcionando o foco de vocês?

[00:57:06] A gente tem no Brasil

[00:57:07] muitos centros

[00:57:09] de pesquisa em universidades

[00:57:11] estudando o tema da

[00:57:13] pandemia em vários aspectos.

[00:57:16] Por exemplo, a Fiocruz

[00:57:17] tem um centro de pesquisa

[00:57:19] em saúde e desastres.

[00:57:21] E eles têm realizado,

[00:57:23] né, muitos estudos

[00:57:25] que dão subsídios às ações

[00:57:27] de enfrentamento da pandemia

[00:57:29] do ponto de vista da saúde,

[00:57:31] correto? Dentro do

[00:57:33] Semadem, a gente tem

[00:57:35] que seguir, né, alguns

[00:57:37] planos que já haviam sido

[00:57:39] definidos, né, no plano diretor. Então, a gente

[00:57:41] também recebe algumas orientações

[00:57:44] institucionais, né,

[00:57:46] pra não interromper

[00:57:47] aquilo que a gente já

[00:57:49] estava fazendo, porque

[00:57:51] afinal, as inundações,

[00:57:53] as secas, os desarmamentos não param

[00:57:55] de acontecer.

[00:57:57] Porém, sim, né, a gente

[00:57:59] teve que incorporar

[00:58:01] o tema da pandemia

[00:58:03] a coisas que a gente já vinha fazendo.

[00:58:06] Eu vou dar um

[00:58:07] exemplo de

[00:58:09] um programa, né, chamado

[00:58:11] Semadem Educação. A gente

[00:58:13] já vinha trabalhando com

[00:58:15] escolas, universidades

[00:58:17] e defesa civis,

[00:58:19] de forma a envolver os jovens,

[00:58:21] tornando jovens pesquisadores

[00:58:23] para estudar os riscos,

[00:58:26] propor pequenas intervenções

[00:58:28] para reduzir os riscos na sua

[00:58:29] comunidade, etc. Isso vinha

[00:58:31] sendo realizado de forma

[00:58:33] presencial.

[00:58:35] Todo ano, a partir

[00:58:37] do meio do ano até outubro, nós

[00:58:39] organizávamos uma campanha chamada

[00:58:41] Hashtag Aprender para Prevenir,

[00:58:44] em que

[00:58:45] escolas, universidades

[00:58:48] e defesa civis podiam

[00:58:49] compartilhar suas boas práticas,

[00:58:51] no tema de prevenção de desastres.

[00:58:53] E veio a pandemia.

[00:58:55] Aí veio o desafio, será que

[00:58:57] a gente continua ou não

[00:58:59] com a campanha?

[00:59:01] O que que a gente faz?

[00:59:03] E aí, a coordenadora do programa Semadem

[00:59:05] Educação, a doutora Raquel Treiber,

[00:59:07] que trabalhou 10 anos no Ministério da Educação

[00:59:09] de Educação, especialista

[00:59:11] em educação ambiental,

[00:59:13] ela definiu, né, o tema

[00:59:15] da pesquisa como desastres,

[00:59:17] desastres, desastres.

[00:59:19] Soma, se multiplica e potencializa.

[00:59:21] Justamente para a junção

[00:59:23] desses diferentes tipos de desastres.

[00:59:25] E aí falamos, olha, nós

[00:59:27] não podemos deixar

[00:59:29] a peteca cair. A gente

[00:59:31] precisa, de algum modo, manter

[00:59:33] as pessoas que

[00:59:35] sempre participaram do projeto

[00:59:37] ativas. Então, vamos,

[00:59:39] esse ano, vamos fazer a campanha das campanhas,

[00:59:41] de modo que os

[00:59:43] próprios participantes organizassem

[00:59:45] suas campanhas para envolver

[00:59:47] os estudantes, as comunidades

[00:59:49] que já vinham trabalhando.

[00:59:51] Através, né, de

[00:59:53] vídeos, de outros mecanismos.

[00:59:55] Aí eles tinham que criar.

[00:59:57] Bom, para incentivar

[00:59:59] e dar um start nisso, nós

[01:00:01] organizamos uma série de webinars.

[01:00:03] Webinários

[01:00:05] que nós trouxemos

[01:00:07] especialistas em saúde

[01:00:09] pública, especialistas em

[01:00:11] educação, especialistas

[01:00:13] de diferentes defesas civis no Brasil,

[01:00:15] defesas civis municipais.

[01:00:17] Cada webinário tinha um tema-chave.

[01:00:19] Então, isso foi ajudando

[01:00:21] a todos os

[01:00:23] participantes a encontrarem, olha,

[01:00:25] é possível a gente fazer.

[01:00:27] Então, olha, no Acre, estão utilizando

[01:00:29] rádio

[01:00:31] comunitária, podcast.

[01:00:33] Estão fazendo mapeamento

[01:00:35] digital pelo computador,

[01:00:37] usando a plataforma do Open Street Maps.

[01:00:39] Então, a gente foi dando,

[01:00:41] veiculando essas boas práticas

[01:00:43] para inspirar as pessoas com

[01:00:45] outras ideias. E foi muito

[01:00:47] interessante, porque a gente

[01:00:49] teve uma boa

[01:00:51] audiência que se manteve

[01:00:53] nesses webinários, trabalhando.

[01:00:55] Então,

[01:00:57] foi um mecanismo importante para

[01:00:59] manter uma rede que já existia.

[01:01:01] Correto? Mesmo

[01:01:03] em meio à pandemia. Eu acredito

[01:01:05] que isso que é importante, a gente

[01:01:07] saber que nós

[01:01:09] não estamos sozinhos.

[01:01:11] E como a gente mantém

[01:01:13] essas redes, resiste

[01:01:15] nesses tempos sombrios.

[01:01:17] Então, isso foi muito

[01:01:19] importante. Em termos de

[01:01:21] pesquisa, já tem

[01:01:23] as outras pesquisas que

[01:01:25] são realizadas no Semaden,

[01:01:27] que dão suporte, por exemplo,

[01:01:29] ao planejamento de reservatórios,

[01:01:31] crise hídrica,

[01:01:33] outros voltados a

[01:01:35] previsões, etc.

[01:01:37] Mas tem um, que é especificamente

[01:01:39] da pandemia,

[01:01:41] que está sendo realizado

[01:01:43] com a Prefeitura de São José dos

[01:01:45] Campos. Então, foi desenvolvido

[01:01:47] um aplicativo

[01:01:49] para coleta de dados

[01:01:51] e espacialização desses

[01:01:53] dados para o município de São José dos Campos.

[01:01:55] De modo

[01:01:57] que se sabe, por exemplo, onde estão

[01:01:59] a concentração de casos

[01:02:01] por bairro, como está se dando esse

[01:02:03] comportamento ao longo do tempo,

[01:02:05] se incluem dados da Secretaria

[01:02:07] Municipal de Saúde, e aí se

[01:02:09] ajuda a tomar a

[01:02:11] decisão por parte

[01:02:13] do município.

[01:02:15] Isso começou já o

[01:02:17] ano passado, mas é

[01:02:19] outro pesquisador,

[01:02:21] o Dr. Mamana,

[01:02:23] que é da Ciência da Computação,

[01:02:25] que está à frente

[01:02:27] desse projeto.

[01:02:29] Mas os outros projetos

[01:02:31] que já existiam antes, eles continuam

[01:02:33] e tiveram que

[01:02:35] se adaptar mesmo à pandemia.

[01:02:37] Em alguns casos,

[01:02:39] ainda, alguns pesquisadores

[01:02:41] vão a campo,

[01:02:43] porque ia

[01:02:45] perder todo o trabalho

[01:02:47] se de algum modo

[01:02:49] não continuassem a campo.

[01:02:51] Isso também

[01:02:53] diminuiu.

[01:02:55] E a outra que a gente

[01:02:57] tem feito agora, nesse projeto ELOS,

[01:02:59] que eu falei para vocês,

[01:03:01] o Semadem tem um canal no YouTube,

[01:03:03] se vocês digitarem

[01:03:05] Série de Debate Semadem,

[01:03:07] vocês vão encontrar lá algumas palestras

[01:03:09] que a gente vem

[01:03:11] organizando para

[01:03:13] tentar manter

[01:03:15] o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil

[01:03:17] interagindo e se

[01:03:19] fortalecendo, sabendo que cada um está

[01:03:21] fazendo, mantendo, vamos dizer,

[01:03:23] a rede

[01:03:25] fortalecida, fortalecer

[01:03:27] essa rede. Nessa quinta-feira,

[01:03:29] por exemplo, nós vamos ter a palestra

[01:03:31] de uma procuradora do

[01:03:33] Ministério Público do Rio de Janeiro,

[01:03:35] doutora Denise Tarim,

[01:03:37] que vai falar sobre o apoio do

[01:03:39] Ministério Público às ações de proteção

[01:03:41] e defesa civil.

[01:03:43] Na semana que vem, está confirmada já,

[01:03:45] vai ter uma palestra da

[01:03:47] Rejane Lucena, que é uma pessoa lá

[01:03:49] de Jabotão dos Guararapes.

[01:03:51] Ela tem 20 anos trabalhando na defesa civil,

[01:03:53] principalmente,

[01:03:55] Jabotão dos Guararapes, Pernambuco,

[01:03:57] com o tema de núcleos comunitários

[01:03:59] de proteção e defesa civil.

[01:04:01] Então, a gente

[01:04:03] vem tentando manter,

[01:04:05] fortalecer

[01:04:07] o sistema, ainda mais nesse

[01:04:09] tempo de pandemia, que

[01:04:11] também está impactando

[01:04:13] a defesa civil,

[01:04:15] de algum modo. A gente tem

[01:04:17] notícias, infelizmente,

[01:04:19] de surtos também.

[01:04:21] Dentro das equipes de defesa civil.

[01:04:23] Então, é algo que

[01:04:25] me preocupa, porque

[01:04:27] o corpo operacional das organizações

[01:04:29] públicas, ele também está sendo

[01:04:31] afetado e a gente precisa manter as instituições.

[01:04:51] Com relação, ainda,

[01:05:13] à pandemia,

[01:05:15] a gente tem aí

[01:05:17] umas questões

[01:05:19] para resolver

[01:05:21] com relação

[01:05:23] a essa

[01:05:25] pilha gigante de corpos

[01:05:27] que não para de crescer.

[01:05:29] Tipo,

[01:05:31] até o momento que esse episódio

[01:05:33] sair, a gente já vai ter ultrapassado

[01:05:35] as 300 mil mortes.

[01:05:37] E, assim, eu já

[01:05:39] conto tranquilamente,

[01:05:41] sem nenhum medo de errar,

[01:05:43] com 400,

[01:05:45] talvez 450

[01:05:47] mil mortes.

[01:05:49] Porque, ainda que a gente passe

[01:05:51] a fazer tudo certo, tipo,

[01:05:53] agora, até

[01:05:55] essa rampa toda que a gente escalou

[01:05:57] começar a baixar,

[01:05:59] é inevitável que a gente ainda

[01:06:01] perca muita gente por esse caminho.

[01:06:03] Então, a gente

[01:06:05] tem questões

[01:06:07] agora muito mais

[01:06:09] no âmbito da

[01:06:11] saúde mental,

[01:06:13] de você ter, assim,

[01:06:15] 400 mil pessoas ao

[01:06:17] mesmo tempo vivendo

[01:06:19] um luto, compartilhando

[01:06:21] uma…

[01:06:23] um momento de vulnerabilidade

[01:06:25] tão grande, assim,

[01:06:27] com todos os agravantes que a gente

[01:06:29] tem, tipo, um presidente

[01:06:31] que faz pouco e

[01:06:33] passa a sua live imitando

[01:06:35] uma pessoa faltando ar, assim,

[01:06:37] como o grande cretino que ele é.

[01:06:39] Eu sei que você não pode falar isso, porque

[01:06:41] você trabalha

[01:06:43] para um órgão que

[01:06:45] não deixa de ser uma instituição

[01:06:47] federal, mas

[01:06:49] eu fico lisonjeado,

[01:06:51] se alguém da família dele quiser me processar.

[01:06:53] Então…

[01:06:55] Então

[01:06:57] eu faço as minhas

[01:06:59] palavras aqui por quem

[01:07:01] talvez não possa falar

[01:07:03] a mesma coisa que eu.

[01:07:05] A defesa civil, a gente

[01:07:07] sempre leva

[01:07:09] ela em consideração, pensando

[01:07:11] mais nessa questão de

[01:07:13] infraestrutura em

[01:07:15] carros de resgate, barco,

[01:07:17] infraestrutura

[01:07:19] de tendas,

[01:07:21] e esse tipo de

[01:07:23] coisa de cadeia de suprimentos

[01:07:25] mesmo, para dar

[01:07:27] o melhor auxílio possível,

[01:07:29] o mais rápido possível

[01:07:31] para as pessoas diretamente

[01:07:33] impactadas por um

[01:07:35] problema desse. Agora a gente está lidando

[01:07:37] com algo que é completamente

[01:07:39] espalhado, não tem um foco, não tem

[01:07:41] onde você montar uma tenda e ajudar as pessoas.

[01:07:43] Muita gente vivendo

[01:07:45] um luto ao mesmo tempo, e a gente

[01:07:47] tende a ter uma epidemia

[01:07:49] de problemas de saúde,

[01:07:51] de saúde mental dessa ordem.

[01:07:53] A defesa civil

[01:07:55] e os órgãos que a gente tem

[01:07:57] hoje para tratar de questões

[01:07:59] de desastre,

[01:08:01] eles estão preparados

[01:08:03] para esse tipo de coisa? O que

[01:08:05] a gente pode esperar

[01:08:07] num médio para longo

[01:08:09] prazo com relação

[01:08:11] a esse tipo de organização?

[01:08:13] A defesa civil

[01:08:15] ela é um órgão

[01:08:17] que tem esse

[01:08:19] papel de articulação.

[01:08:21] Entre diferentes atores

[01:08:23] estatais e não estatais.

[01:08:25] Então é função dela,

[01:08:27] ela deve ser preparada

[01:08:29] para fazer essa articulação.

[01:08:31] E ela tem metodologias,

[01:08:33] sistema de

[01:08:35] comando, de operações,

[01:08:37] ela é treinada,

[01:08:39] ela deve ser treinada para isso.

[01:08:41] E dentro do sistema

[01:08:43] nacional de proteção e defesa civil,

[01:08:45] com certeza a gente tem

[01:08:47] pessoas muito

[01:08:49] experientes em

[01:08:51] atuar em desastres e saber

[01:08:53] como articular,

[01:08:55] como elaborar um plano de resposta.

[01:08:57] A gente tem esses recursos

[01:08:59] humanos ainda. A questão

[01:09:01] é ter realmente

[01:09:03] a autoridade,

[01:09:05] a permissão de se fazer

[01:09:07] isso junto com

[01:09:09] outro setor que

[01:09:11] tem tomado a frente

[01:09:13] da resposta

[01:09:15] à pandemia, correto?

[01:09:17] Então a meu ver, a saúde

[01:09:19] sim tem um papel

[01:09:21] muito importante na resposta

[01:09:23] à pandemia, mas

[01:09:25] não é o único

[01:09:27] setor que deve ser envolvido

[01:09:29] na resposta à pandemia, porque

[01:09:31] é muito mais complexo do que

[01:09:33] só um problema de saúde

[01:09:35] biológico. Então vai

[01:09:37] além disso, correto?

[01:09:39] Então eu acho que primeiro

[01:09:41] é importante,

[01:09:43] seria muito importante a gente reconhecer

[01:09:45] que não é só um problema

[01:09:47] biológico.

[01:09:49] Bom,

[01:09:51] acho que esse é um aspecto

[01:09:53] de articulação

[01:09:55] que eu acredito que é importante.

[01:09:57] A parte da sua pergunta

[01:09:59] também tem a ver

[01:10:01] com aspectos psicológicos,

[01:10:03] de saúde mental

[01:10:05] em uma crise de longo prazo.

[01:10:07] Existe uma área do

[01:10:09] conhecimento chamada

[01:10:11] psicologia das emergências e dos

[01:10:13] desastres.

[01:10:15] Com o próprio Conselho Federal de Psicologia

[01:10:17] e outros conselhos regionais

[01:10:19] de psicologia, durante

[01:10:21] muitos anos, em virtude

[01:10:23] do desastre de 2008 em Santa Catarina,

[01:10:25] da catástrofe de

[01:10:27] 2011 na região serrana do Rio de Janeiro,

[01:10:29] a catástrofe da

[01:10:31] Boate Kiss em Santa Maria

[01:10:33] em 2013, se não me engano,

[01:10:35] sempre eles

[01:10:37] se prepararam para

[01:10:39] formar pessoas capazes

[01:10:41] de prestar atendimento

[01:10:43] não só

[01:10:45] às vítimas desses

[01:10:47] desastres, às famílias,

[01:10:49] como também para

[01:10:51] as equipes que prestam

[01:10:53] atendimento nesses cenários,

[01:10:55] que também precisam de

[01:10:57] cuidado, correto?

[01:10:59] A meu ver, além

[01:11:01] do atendimento psicológico,

[01:11:03] nós estamos já

[01:11:05] num cenário em que

[01:11:07] nós deveríamos

[01:11:09] ter noções básicas de

[01:11:11] proteção e defesa civil e outras

[01:11:13] para além disso, para

[01:11:15] aprender o mínimo de como

[01:11:17] sobreviver. Desculpa se

[01:11:19] parece muito romântico essa história,

[01:11:21] mas para ser bem

[01:11:23] sincero, aqui em

[01:11:25] São José dos Campos, a gente já teve

[01:11:27] situações

[01:11:29] em que o pai

[01:11:31] foi hospitalizado.

[01:11:33] Dois dias depois,

[01:11:35] a mãe foi

[01:11:37] hospitalizada, entubada.

[01:11:39] Dois adolescentes de 14 anos,

[01:11:41] um menino e uma menina,

[01:11:43] ficaram sozinhos em casa,

[01:11:45] sem nenhum familiar, tendo que

[01:11:47] cozinhar, aprender, etc.

[01:11:49] Então,

[01:11:51] com certeza, lamentavelmente,

[01:11:53] a gente terá

[01:11:55] milhares de órfãos

[01:11:57] também, famílias

[01:11:59] desfeitas. De algum

[01:12:01] modo, a gente sim

[01:12:03] precisa de uma política pública

[01:12:05] que dê uma resposta rápida para

[01:12:07] essas situações que já estão acontecendo,

[01:12:09] como também

[01:12:11] para outras que vão

[01:12:13] se manifestar

[01:12:15] no longo prazo também.

[01:12:17] Isso vai demandar

[01:12:19] não só respostas da saúde,

[01:12:21] da psicologia, mas também

[01:12:23] da economia, também

[01:12:25] da assistência social, também

[01:12:27] da educação, e assim por diante.

[01:12:29] Então, vejam que há uma crise

[01:12:31] que exige resposta de

[01:12:33] diversos setores.

[01:12:35] Uma delas, que eu não

[01:12:37] tenho conhecimento,

[01:12:39] mas eu tive contato

[01:12:41] através de um outro projeto,

[01:12:43] se chama

[01:12:45] bancos de microcrédito,

[01:12:47] bancos comunitários.

[01:12:49] Boedas sociais, que vocês já têm ouvido

[01:12:51] falar disso.

[01:12:53] Tem um estudo de caso nosso

[01:12:55] em que a gente começou um projeto

[01:12:57] chamado Urbilatã, pensando

[01:12:59] em resiliência a deslizamentos,

[01:13:01] veio a pandemia e a gente está tendo que

[01:13:03] adaptar. E um parceiro fundamental

[01:13:05] desse projeto é o Banco

[01:13:07] Comunitário do Preventório, que é um

[01:13:09] bairro de Niterói. Esse banco

[01:13:11] comunitário já tem uma história

[01:13:13] de associativismo por longos

[01:13:15] anos. Então, eles concedem

[01:13:17] microcrédito para

[01:13:19] pequenas atividades comerciais,

[01:13:21] que fazem muita diferença

[01:13:23] para muitas famílias.

[01:13:25] Eu acredito que uma

[01:13:27] política de microcrédito

[01:13:29] vai ser fundamental

[01:13:31] para manter

[01:13:33] as pessoas.

[01:13:35] Maricá é um

[01:13:37] exemplo de município que

[01:13:39] adotou a moeda

[01:13:41] social circulando no próprio

[01:13:43] município. E isso tem

[01:13:45] um impacto econômico tremendo.

[01:13:47] É fantástica

[01:13:49] essa história. Então, eu acredito

[01:13:51] que parte da nossa

[01:13:53] saída para pensar

[01:13:55] recuperação

[01:13:57] socioeconômica tem a ver

[01:13:59] também com

[01:14:01] essas políticas de

[01:14:03] microcrédito. Além, é claro,

[01:14:05] de fortalecer as políticas

[01:14:07] assistenciais que

[01:14:09] são mais necessárias

[01:14:11] do que nunca. Nós temos

[01:14:13] exemplos de

[01:14:15] governos municipais e estaduais

[01:14:17] que têm investido

[01:14:19] nisso.

[01:14:21] Precisamos dar visibilidade

[01:14:23] para essas boas práticas

[01:14:25] e, de algum modo, criar

[01:14:27] mecanismos para que

[01:14:29] grande parte dos estados e

[01:14:31] municípios tenham orçamento

[01:14:33] para fazer esse tipo de ação.

[01:14:35] Eu acredito

[01:14:37] que eu tenho observado,

[01:14:39] não estou estudando isso,

[01:14:41] mas tenho observado, tenho lido algumas

[01:14:43] coisas. Acredito que aí

[01:14:45] reside

[01:14:47] um ponto fundamental.

[01:14:49] Um ponto que eu tenho

[01:14:51] que falar. Mesmo no Sistema Nacional

[01:14:53] de Proteção e Defesa Civil,

[01:14:55] as políticas de

[01:14:57] reconstrução e recuperação econômica

[01:14:59] têm carências.

[01:15:01] Vou dar um exemplo

[01:15:03] muito rápido de São Luís do Paraitinga,

[01:15:05] em que, olha,

[01:15:07] o conjunto habitacional,

[01:15:09] moradias e condomínios

[01:15:11] foi feito de forma

[01:15:13] rápida, sem desvio

[01:15:15] de recurso, em um período

[01:15:17] de oito meses. Foi ótimo.

[01:15:19] As pessoas conseguiram

[01:15:21] uma casa, etc.

[01:15:23] Porém, qual era o grande problema ali?

[01:15:25] Era a oferta de emprego.

[01:15:27] Então, as pessoas tinham a casa,

[01:15:29] mas não tinham como manter a casa.

[01:15:31] Então, elas tinham que trabalhar em

[01:15:33] outro município. Então, foi pensada

[01:15:35] uma solução habitacional, porém

[01:15:37] não uma solução para o mercado de trabalho.

[01:15:39] Então, entendem

[01:15:41] a necessidade

[01:15:43] dos municípios

[01:15:45] e dos estados

[01:15:47] se prepararem para essas respostas

[01:15:49] de diversos setores,

[01:15:51] para atuar frente ao problema.

[01:15:53] Acredito que a gente tem bons exemplos

[01:15:55] sendo executados.

[01:15:57] Precisamos da visibilidade

[01:15:59] e condições

[01:16:01] financeiras para que isso

[01:16:03] permaneça e ocorra

[01:16:05] em outros estados

[01:16:07] também que estão

[01:16:09] enfrentando mais

[01:16:11] desafios. Tem um programa

[01:16:13] muito interessante na região

[01:16:15] metropolitana de Recife. No passado,

[01:16:17] chamava-se programa Vivo Morro,

[01:16:19] mas o ideal dele foi

[01:16:21] recuperado, acredito eu.

[01:16:23] E hoje, a prefeitura de Recife

[01:16:25] tem investido em ações

[01:16:27] de mitigação de riscos de deslizamento

[01:16:29] nas encostas de Recife,

[01:16:31] com pequenas obras de intervenção.

[01:16:33] Às vezes, melhorando

[01:16:35] a microdrenagem

[01:16:37] no bairro, na encosta,

[01:16:39] construção de muros de arrimo.

[01:16:41] Então, isso tem feito

[01:16:43] diferença também

[01:16:45] na vida das pessoas. Acho que eu estou

[01:16:47] recuperando uma questão que vocês

[01:16:49] fizeram sobre a questão das áreas de risco.

[01:16:51] Então, é muito importante

[01:16:53] que a gente também pense

[01:16:55] em como

[01:16:57] às vezes a gente pode

[01:16:59] reduzir o risco de desastre

[01:17:01] e possibilitar que a pessoa

[01:17:03] permaneça

[01:17:05] vivendo naquele local de moradia

[01:17:07] onde ela tem as relações,

[01:17:09] onde ela tem as suas

[01:17:11] redes de cuidado,

[01:17:13] onde ela tem a oferta de emprego,

[01:17:15] etc. Acredito que

[01:17:17] esses exemplos vão ser importantes

[01:17:19] para esse longo

[01:17:21] processo de recuperação

[01:17:23] que ainda a gente vai ter

[01:17:25] que acontecer simultaneamente

[01:17:27] também, a vivência

[01:17:29] dessa crise de longo prazo.

[01:17:31] Perfeito.

[01:17:33] Uma última pergunta, cara.

[01:17:35] Olhando

[01:17:37] de forma bastante

[01:17:39] ampla com essas experiências

[01:17:41] de todos esses

[01:17:43] desastres que você

[01:17:45] já pôde

[01:17:47] estudar e ver

[01:17:49] até pelo próprio Semadem,

[01:17:51] o que seria

[01:17:53] o principal

[01:17:55] ponto forte ou ponto fraco

[01:17:57] da estrutura brasileira

[01:17:59] de prevenção de desastres?

[01:18:01] Eu acho que

[01:18:03] ainda o ponto

[01:18:05] fraco nessa troca,

[01:18:07] nessa instabilidade

[01:18:09] que acontece no

[01:18:11] município, pelo fato de muitas

[01:18:13] vezes o prefeito não conhecer

[01:18:15] a área da defesa civil, não valorizar.

[01:18:17] Então, muitas vezes

[01:18:19] tem o preparo das pessoas

[01:18:21] ao longo do tempo, e aí

[01:18:23] a cada nova eleição as equipes trocam

[01:18:25] e você precisa começar do zero

[01:18:27] a preparação. Então,

[01:18:29] acredito eu que hoje

[01:18:31] um dos principais pontos fracos

[01:18:33] do sistema

[01:18:35] é esse.

[01:18:37] De pontos fortes,

[01:18:39] se for

[01:18:41] para falar de um, eu acredito

[01:18:43] que é a identificação

[01:18:45] que as pessoas têm

[01:18:47] com a missão de proteção e defesa

[01:18:49] civil. Uma vez que elas

[01:18:51] se envolvem, elas

[01:18:53] se dedicam, e

[01:18:55] na minha cabeça vem o exemplo

[01:18:57] de Ilhota, Santa Catarina,

[01:18:59] da Tatiane Reichardt,

[01:19:01] que foi uma

[01:19:03] pessoa que perdeu

[01:19:05] 11 familiares

[01:19:07] na tragédia do Morro dos Baús,

[01:19:11] resistindo ali com

[01:19:13] um familiar dela que estava enterrado

[01:19:15] até a cintura,

[01:19:17] em espera de um resgate

[01:19:19] por mais de 12 horas. É surreal essa história.

[01:19:21] A Tatiane

[01:19:23] acabou virando coordenadora municipal

[01:19:25] de proteção e defesa civil em Ilhota,

[01:19:27] que não tinha uma defesa civil.

[01:19:29] Uma defesa civil estruturada

[01:19:31] no meio do desastre.

[01:19:33] E aí a Tatiane

[01:19:35] acabou se dedicando

[01:19:37] à defesa civil de Ilhota.

[01:19:39] Então, acredito

[01:19:41] que muitos de nós

[01:19:43] temos cada vez mais

[01:19:45] que ir aprendendo

[01:19:47] a como ter noções

[01:19:49] básicas de proteção e defesa civil,

[01:19:51] se nós precisarmos

[01:19:53] responder a um desastre,

[01:19:55] se nós precisarmos

[01:19:57] numa crise

[01:19:59] alimentar tremenda,

[01:20:01] como que a gente lida,

[01:20:03] como que a gente faz os nossos itens básicos,

[01:20:05] como que a gente divide os recursos que a gente tem.

[01:20:07] Num abrigo temporário é muito interessante

[01:20:09] a gente observar essas práticas.

[01:20:11] Em Sumidouro, no Rio de Janeiro, em 2007,

[01:20:13] em janeiro,

[01:20:15] tinha um abrigo temporário que não tinha gestor público.

[01:20:17] Uma coisa maluca.

[01:20:19] Falam, nossa, devia ser uma desorganização.

[01:20:21] As próprias mulheres,

[01:20:23] elas recebiam os mantimentos,

[01:20:25] tinha uma escala de refeição,

[01:20:27] quem fazia o que,

[01:20:29] quem cuidava do setor da limpeza.

[01:20:31] Elas resgataram máquinas de lavar,

[01:20:33] que eram de cada uma,

[01:20:35] mas se tornaram uma lavanderia coletiva

[01:20:37] e tinha escala de utilização.

[01:20:39] Então, quando a gente é exigido,

[01:20:41] a gente tem que dar uma resposta.

[01:20:43] Mais uma vez,

[01:20:45] a importância da gente identificar

[01:20:47] lideranças positivas

[01:20:49] e desastres e cada vez mais

[01:20:51] desenvolver essas habilidades.

[01:20:53] Porque, com certeza,

[01:20:55] a gente vai precisar disso

[01:20:57] em algum momento.

[01:20:59] Bom, eu acho que…

[01:21:01] Esse desastre de 2008

[01:21:03] do Morro dos Cavalos

[01:21:05] e do Morro do Baú,

[01:21:07] eu lembro que…

[01:21:09] Eu não me lembro,

[01:21:11] eu não lembro dessa história.

[01:21:13] Deixa eu falar uma questão de classe social

[01:21:15] só para interromper.

[01:21:17] A gente, às vezes, no Brasil fala

[01:21:19] que desastre é coisa de pobre,

[01:21:21] tem essa coisa, onde esse povo vai morar,

[01:21:23] o preconceito.

[01:21:25] Mas, Ilhota, as pessoas que foram

[01:21:27] afetadas no desastre, elas tinham

[01:21:29] propriedades rurais de um milhão de reais

[01:21:31] e elas perderam tudo

[01:21:33] por conta do deslizamento

[01:21:35] e explosão de gasoduto

[01:21:37] que teve naquela região junto.

[01:21:39] E aí elas tiveram

[01:21:41] que ir para o abrigo

[01:21:43] temporário.

[01:21:45] E também tiveram que se organizar,

[01:21:47] fundar associação dos afetados

[01:21:49] da região dos baús,

[01:21:51] verificar os mecanismos

[01:21:53] de transparência de gastos durante

[01:21:55] o processo de reconstrução,

[01:21:57] afinal, 25 milhões de reais

[01:21:59] tinham sido doados

[01:22:01] pela sociedade civil para os afetados

[01:22:03] da região dos baús

[01:22:05] e não haviam, até então,

[01:22:07] audiências públicas para se discutir

[01:22:09] como esses recursos deveriam ser investidos,

[01:22:11] afinal, foram feitos em nome

[01:22:13] dos desabrigados.

[01:22:15] Então, tem muitas questões

[01:22:17] que, de algum modo,

[01:22:19] a gente precisa começar a pensar

[01:22:21] porque, independentemente

[01:22:23] de classe social,

[01:22:25] todo mundo, hoje em dia,

[01:22:27] está sujeito em diferentes

[01:22:29] graus de vulnerabilidade

[01:22:31] e diferentes recursos materiais

[01:22:33] para enfrentar, mas todo mundo

[01:22:35] está exposto a um dia

[01:22:37] sofrer algum tipo de

[01:22:39] desastre.

[01:22:41] Sim, com certeza.

[01:22:43] Eu lembro que em 2008,

[01:22:45] quando foi esse desastre

[01:22:47] do Morro dos Cavalos e do Morro do Baú,

[01:22:49] foi num domingo, eu estava em

[01:22:51] Criciúma, estava

[01:22:53] naquele domingo voltando para

[01:22:55] Joinville, é um…

[01:22:57] acho que dá uns, sei lá,

[01:22:59] 350 quilômetros,

[01:23:01] alguma coisa assim. Normalmente

[01:23:03] você faz isso em menos de cinco

[01:23:05] horas. Eu lembro que

[01:23:07] aquela volta ali, eu levei

[01:23:09] 16 horas

[01:23:11] e o caminho é todo feito

[01:23:13] pela BR-101,

[01:23:15] margeando toda a costa

[01:23:17] catarinense, desde o sul até

[01:23:19] quase a

[01:23:21] divisa com o Paraná. E assim,

[01:23:23] são cenas

[01:23:25] escabrosas, cara. O que

[01:23:27] eu vi naquele caminho lá,

[01:23:29] eu nunca vi nada igual na minha

[01:23:31] vida, assim. Era…

[01:23:33] eu tinha visto, eu lembro

[01:23:35] muito nítido, assim, de um moleque

[01:23:37] que devia ter, sei lá, uns 11

[01:23:39] anos de idade, assim,

[01:23:41] que ele estava sentado no travessão

[01:23:43] de uma…

[01:23:45] de um Gol

[01:23:47] de um campinho que tinha na

[01:23:49] beira da estrada, assim.

[01:23:51] E o travessão estava completamente

[01:23:53] escondido, assim. A água

[01:23:55] estava na marca da coxa dele.

[01:23:57] Então,

[01:23:59] assim, cara, aquela

[01:24:01] água ali estava a

[01:24:03] dois metros e meio, três metros, assim.

[01:24:05] Estava mais alta do que ele.

[01:24:07] E eu lembro de ter passado por aquilo

[01:24:09] e eu fiquei, cara, se esse moleque não souber

[01:24:11] nadar e essa

[01:24:13] água continuar subindo,

[01:24:15] acabou, não tem?

[01:24:17] É surreal, é completamente

[01:24:19] surreal, assim.

[01:24:21] Um abraço aí para quem esteja

[01:24:23] nos ouvindo em Ilhota.

[01:24:25] Eu conheço Ilhota, capital

[01:24:27] capital catarinense

[01:24:29] do biquíni.

[01:24:31] É verdade, é verdade.

[01:24:33] Sim, coincidentemente, né,

[01:24:35] Nova Friburgo,

[01:24:37] também outro local afetado por desastre,

[01:24:39] também é a capital nacional da moda

[01:24:41] íntima, né? Também capital de moda íntima.

[01:24:43] Tal como Ilhota. Muito

[01:24:45] curioso. Olha,

[01:24:47] olha só, caramba.

[01:24:49] Pois é, Ilhota,

[01:24:51] Ilhota você passa, assim,

[01:24:53] na SC412,

[01:24:55] no caminho para Blumenau, ali,

[01:24:57] e você só vê loja de biquíni

[01:24:59] e de calcinha, de biquíni e de calcinha,

[01:25:01] a estrada inteira. É incrível, é surreal.

[01:25:03] O pessoal para ali, no caminho,

[01:25:05] está vindo de Blumenau e tal, para ali,

[01:25:07] compra um biquíni, depois segue para o litoral,

[01:25:09] para Itajaí, para Camboriú, Itapema.

[01:25:11] Mas a gente já

[01:25:13] desviou totalmente do foco aqui,

[01:25:15] é melhor acabar esse episódio

[01:25:17] de uma vez.

[01:25:19] Bem, para acabar, então,

[01:25:21] vamos para a Balada do Pistoleiro.

[01:25:23] A Balada do Pistoleiro é o nosso

[01:25:25] quadro de recomendações

[01:25:27] culturais.

[01:25:29] E eu já sei aqui, porque falamos

[01:25:31] isso antes de começar a gravação,

[01:25:33] que a Dona Letícia já teve

[01:25:35] que fazer um mea culpa.

[01:25:37] É isso, Dona Letícia?

[01:25:39] É isso.

[01:25:41] Eu esqueci de novo. Eu tinha parado

[01:25:43] com essa mania de esquecer de como

[01:25:45] comunicar aos convidados que a gente tem

[01:25:47] nesse quadro, mas dessa vez eu esqueci de novo.

[01:25:49] Mas eu avisei ele no começo

[01:25:51] da gravação. Não é surpresa, afinal,

[01:25:53] agora não.

[01:25:55] Se ele não tiver pensado ainda,

[01:25:57] a gente, eu e você, vamos

[01:25:59] falar os nossos primeiro.

[01:26:01] Sem problema.

[01:26:05] Nesse momento, eu não consigo pensar

[01:26:07] em outra coisa além do estudo,

[01:26:09] do tema do desastre.

[01:26:11] Mas tem um

[01:26:13] que eu estou terminando de ler,

[01:26:15] que se chama

[01:26:17] O Banqueiro dos Pobres,

[01:26:19] que é do Mohamed Yunus.

[01:26:21] Ele foi um dos pais

[01:26:23] do banco de microcrédito

[01:26:25] em Bangladesh.

[01:26:27] Foi ele que ganhou o Nobel?

[01:26:29] Acho que ele ganhou o Nobel em algum momento.

[01:26:31] Não sei exatamente em que momento.

[01:26:33] Mas eu sei que o programa dele

[01:26:35] tirou milhões de pessoas da pobreza

[01:26:37] e depois foi

[01:26:39] disseminado para outros países,

[01:26:41] sempre no desejo dos outros países

[01:26:43] por conhecer o programa.

[01:26:45] E, a meu ver,

[01:26:47] é uma leitura obrigatória

[01:26:49] para a gente,

[01:26:51] nesses momentos atuais.

[01:26:53] Acho que é bem útil.

[01:26:55] E um outro que me vem

[01:26:57] na cabeça, já é um clássico,

[01:26:59] acho que todo mundo conhece,

[01:27:01] que é o ensaio sobre a cegueira.

[01:27:03] Sim!

[01:27:05] Eu acredito que isso é

[01:27:07] fundamental, uma leitura obrigatória

[01:27:09] para todos nós.

[01:27:11] Sim, eu li ano passado.

[01:27:13] Eu tinha um monte de livro dele,

[01:27:15] e tinha começado algumas coisas

[01:27:17] e não tinha terminado.

[01:27:19] Ano passado,

[01:27:21] acho que foi ano passado,

[01:27:23] não está tudo se misturando na minha cabeça.

[01:27:25] Eu fui ler exatamente o primeiro

[01:27:27] que eu li inteiro dele,

[01:27:29] foi esse ensaio sobre a cegueira

[01:27:31] e, cara, eu amei.

[01:27:33] O livro é fantástico, fantástico.

[01:27:35] É tapa atrás de tapa na cara

[01:27:37] e muito bem escrito.

[01:27:39] Eu não conheço ninguém que não tenha gostado.

[01:27:41] Nossa, é sensacional.

[01:27:43] Eu tenho muita consciência,

[01:27:45] esse negócio não vai dar muito certo.

[01:27:47] Putz, é muito bom.

[01:27:49] Eu li, assim, numa sentada.

[01:27:51] Excelente, ótima dica.

[01:27:53] Gostei, gostei.

[01:27:55] Seu Tiago. Oi.

[01:27:57] O que você tem aí hoje?

[01:27:59] Eu vou de duas diquinhas,

[01:28:01] uma bem leve, só porque está

[01:28:03] começando agora, né?

[01:28:05] Então, assim, até o momento da liberação

[01:28:07] desse episódio, já vai ter passado

[01:28:09] a primeira etapa, mas

[01:28:11] tem uma porta do céu já

[01:28:13] com relação à nossa

[01:28:15] querida Fórmula 1.

[01:28:17] Então, eu vou

[01:28:19] aproveitar e fazer aquela convocação

[01:28:21] aí para o pessoal que gosta

[01:28:23] da Fórmula 1. A Fórmula 1

[01:28:25] saiu da dona Rede Globo,

[01:28:27] então você ainda vai poder acompanhar

[01:28:29] as corridas na TV

[01:28:31] aberta pela Band,

[01:28:33] com praticamente toda

[01:28:35] uma equipe ex-Globo, então você não

[01:28:37] vai sentir grande diferença,

[01:28:39] só vai mudar o canal mesmo.

[01:28:41] Mas, cara,

[01:28:43] sim, eu preciso de mais gente assistindo

[01:28:45] essa porra.

[01:28:47] Eu quero até com quem falar, cara.

[01:28:51] O nosso grupo de Fórmula 1,

[01:28:53] dos nossos apoiadores, tem oito

[01:28:55] pessoas só, cara. Eu fico

[01:28:57] me honrando.

[01:29:01] Eu assisto, eu assisto.

[01:29:03] Essa era a

[01:29:05] diquinha mais levinha e tal,

[01:29:07] mas eu estava,

[01:29:09] eu estou às vésperas de entrar em uma

[01:29:11] nova férias da

[01:29:13] firma,

[01:29:15] então eu estava procurando

[01:29:17] aqui entre os meus livros,

[01:29:19] porque eu tenho um monte de livro que eu ainda não li,

[01:29:21] né, mas eu estava procurando um para reler.

[01:29:23] E…

[01:29:25] Por quê?

[01:29:27] Porque eu sou um idiota.

[01:29:29] Mas, assim,

[01:29:31] eu trombei aqui que eu vou

[01:29:33] ter que reler nas férias, e eu

[01:29:35] lembro da história dele, o que é mais burro

[01:29:37] ainda da minha parte, relê-lo.

[01:29:39] Vou nem comentar, parece. Mas…

[01:29:41] assim, eu recomendo para todo mundo

[01:29:43] que é um livro da Vickbaum,

[01:29:45] V-I-C-K-I

[01:29:47] B-A-U-M,

[01:29:49] Vickbaum,

[01:29:51] e o nome é Grande Hotel.

[01:29:53] É um filme, é um livro de

[01:29:55] 1929, se eu não me

[01:29:57] engano, eu falei aqui no ato falho

[01:29:59] filme, mas se eu não me engano ele

[01:30:01] virou filme, com a Greta

[01:30:03] Garbo, inclusive.

[01:30:05] Mas aí…

[01:30:07] Foi longe, hein?

[01:30:09] É, o filme eu não vi, eu

[01:30:11] só li o livro, mas o livro é

[01:30:13] sensacional.

[01:30:15] É aquele típico livro,

[01:30:17] você vai pensar

[01:30:19] em vários exemplos, em que

[01:30:21] a única coisa que as

[01:30:23] pessoas têm em comum é aquele

[01:30:25] local, que é o hotel

[01:30:27] em que todos estão transitando. Então,

[01:30:29] você tem um

[01:30:31] magnata falido,

[01:30:33] que está ali, você tem uma

[01:30:35] bailarina russa,

[01:30:37] que veio dançar em Berlim,

[01:30:39] e trouxe umas joias

[01:30:41] valiosíssimas para essa

[01:30:43] para esse espetáculo e tal.

[01:30:45] Você tem o pessoal que está ali

[01:30:47] de curioso, você tem um cara que

[01:30:49] ele foi

[01:30:51] pobre a vida inteira

[01:30:53] e de repente

[01:30:55] ele resgatou um dinheiro, que eu não lembro

[01:30:57] exatamente se ele herdou, ou se ele

[01:30:59] resgatou tudo que ele economizou durante a vida

[01:31:01] inteira, e ele

[01:31:03] está às portas da morte

[01:31:05] e ele resolve que ele vai

[01:31:07] para o Grande Hotel, para um hotel de

[01:31:09] luxo, viver os últimos

[01:31:11] dias da vida dele como

[01:31:13] um magnata mesmo.

[01:31:15] Então, assim, um monte de gente maluca

[01:31:17] e acontece um crime no hotel,

[01:31:19] que é o roubo das joias

[01:31:21] da bailarina e

[01:31:23] envolve todos esses personagens

[01:31:25] de um jeito muito

[01:31:27] legal. O final

[01:31:29] é maravilhoso.

[01:31:31] O final é de terminar

[01:31:33] os prantos. Meu Deus, você

[01:31:35] forçará a ler isso mesmo?

[01:31:37] Ah, eu recomendo para

[01:31:39] todo mundo. Eu recomendo para todo mundo.

[01:31:41] Mas está aí, está aí.

[01:31:43] Mas se não quiser

[01:31:45] pode passar batido também, fica à vontade.

[01:31:47] Agora fica à vontade, né? Você acha que eu não vou ler?

[01:31:49] Infelizmente

[01:31:51] serei forçada a

[01:31:53] Eu vou falar de livro

[01:31:55] também. Eu estava sem ideia

[01:31:57] quando eu avisei

[01:31:59] ao Victor no começo que

[01:32:01] tinha esquecido de pedir a dica e tal

[01:32:03] comentei que inclusive eu estava sem dica

[01:32:05] mas alguém

[01:32:07] comentou em um outro grupo e eu

[01:32:09] vou recomendar. Eu não me lembro se eu já

[01:32:11] recomendei isso aqui. É uma trilogia

[01:32:13] de livros da

[01:32:15] Margaret Atwood

[01:32:17] que é que escreveu o conto da Aya

[01:32:19] e essa trilogia

[01:32:21] o último

[01:32:23] se não me engano saiu bem recentemente

[01:32:25] porque ele demorou a ser

[01:32:27] publicado mesmo em

[01:32:29] inglês, então a tradução demorou mais ainda

[01:32:31] é uma trilogia

[01:32:33] tem o primeiro Orcs e Crake

[01:32:35] o segundo é o Ano do Dilúvio

[01:32:37] e o terceiro é

[01:32:39] Madadão

[01:32:41] porque não tinha como

[01:32:43] a tradução era um

[01:32:45] o nome original é um palíndromo

[01:32:47] intraduzível não dá e ficou isso aí

[01:32:49] é uma trilogia

[01:32:51] porque era para ser Mad Adam

[01:32:53] que é um

[01:32:55] não vou falar o que é

[01:32:57] são livros espetaculares

[01:32:59] ela escreve maravilhosamente bem

[01:33:01] Atwood casa comigo

[01:33:03] vem na minha casa bem engravida

[01:33:05] é uma distopia

[01:33:07] que é bem a especialidade dela

[01:33:09] ela escreve bem qualquer coisa

[01:33:11] mas as distopias dela são muito boas

[01:33:13] e esse é um mundo distópico

[01:33:15] que é muito fácil

[01:33:17] da gente imaginar

[01:33:19] e é muito bom

[01:33:21] muito bom, eu demorei um pouquinho

[01:33:23] para entender o que estava acontecendo

[01:33:25] que começa meio no meio e tal

[01:33:27] mas é excelente

[01:33:29] eu tenho que reler o último

[01:33:31] porque eu li ele

[01:33:33] bastante tempo depois de ter lido os outros dois

[01:33:35] então eu estava com uma dificuldade

[01:33:37] de ler os três no mesmo universo

[01:33:39] e de relacionar as histórias e tal

[01:33:41] mas vale muito a pena

[01:33:43] ler do início os três na ordem

[01:33:45] porque são livraços

[01:33:47] e ela é maravilhosa em qualquer coisa que ela escrever

[01:33:49] leia porque vale muito a pena

[01:33:53] é uma dica que vale por três

[01:33:55] porque são três livros

[01:33:57] então eu considero que minha parte está feita

[01:33:59] Jabás

[01:34:01] vamos ao Jabás

[01:34:03] Vitor, quem quiser te achar

[01:34:05] falar com você, te seguir

[01:34:07] acompanhar o seu trabalho

[01:34:09] você tem rede social

[01:34:11] quem quiser falar contigo, te acha

[01:34:13] adonde?

[01:34:15] tenho sim

[01:34:17] eu tenho o twitter

[01:34:19] é arroba

[01:34:21] vmarquezine

[01:34:23] m-a-r-c-h-e

[01:34:25] z-i-n-i

[01:34:27] e também tenho o instagram

[01:34:29] que é

[01:34:31] arroba

[01:34:33] prof.vitormarquezine

[01:34:35] ótimo, anotadíssimo

[01:34:37] Thiago, já que meu áudio está pipocando

[01:34:39] eu devo a você os recadinhos finais

[01:34:41] recadinhos finais

[01:34:43] é que se você quiser falar com o Pistolando

[01:34:45] você pode utilizar o twitter

[01:34:47] em arroba pistolandopod

[01:34:49] ou então o instagram

[01:34:51] também como arroba pistolandopod

[01:34:53] se você quer falar alguma coisa mais

[01:34:55] delicada, mais pessoal

[01:34:57] e não quer colocar em uma rede social

[01:34:59] porque outras pessoas podem ler

[01:35:01] então entre em contato conosco

[01:35:03] pelo email

[01:35:05] é pistolando.com

[01:35:07] lembra que não tem o br

[01:35:09] é ponto com directo

[01:35:11] pistolando.com

[01:35:13] tambem é o nosso site

[01:35:15] no nosso site você vai encontrar

[01:35:17] E essa e todas as outras

[01:35:19] entrevistas e episódios

[01:35:21] com todas as referências

[01:35:23] todos os livros, as coisas que a gente citou

[01:35:25] ta tudo referenciadinho

[01:35:27] E

[01:35:28] então se você perdeu qualquer coisa

[01:35:30] no nosso site

[01:35:32] ela que você vai encontrar

[01:35:34] estamos

[01:35:35] em todos os tocadores

[01:35:37] de áudio, seja

[01:35:39] aquele sueco verde

[01:35:41] sem vergonha

[01:35:43] que faz bilhões

[01:35:45] e não paga um centavo pra gente

[01:35:47] ou seja nos outros realmente

[01:35:49] legais que são os independentes

[01:35:51] da galera que faz o seu

[01:35:53] corre por fora e esses a gente apoia

[01:35:55] demais

[01:35:55] acho que ficou bem explícito

[01:35:59] o que eu quis dizer

[01:36:00] o que mais eu estou

[01:36:03] esquecendo dona Letícia?

[01:36:04] nossas parcerias

[01:36:06] estou esquecendo das parcerias

[01:36:08] temos uma parceria com o pessoal

[01:36:10] da Vesta Esquerda que o nosso

[01:36:12] querido amigo Gabriel

[01:36:13] costuma chamar de a estamparia da revolução

[01:36:16] então você pode

[01:36:18] chegar lá na Vesta Esquerda

[01:36:19] vai encontrar uma cacetada de

[01:36:22] estampa, estampa de bando, estampa de militante

[01:36:24] estampa de

[01:36:25] caralho a quatro procura lá eu não vou

[01:36:28] ficar falando aqui você vai entrar lá de qualquer jeito

[01:36:30] mas na hora de fazer

[01:36:32] o pagamento você coloca

[01:36:33] pistola 10 e ganha

[01:36:36] 10% de desconto na faixa

[01:36:38] quem paga sou eu

[01:36:40] ou é você

[01:36:42] dona Letícia o próximo

[01:36:43] acho que o próximo é seu

[01:36:46] não sei veremos veremos

[01:36:47] eu acho que eu paguei o último

[01:36:48] mas tá

[01:36:50] além disso temos uma

[01:36:54] parceria também com a editora Boitempo

[01:36:56] então você pode entrar em

[01:36:57] boitempoeditorial.com.br

[01:37:00] barra pistolando

[01:37:01] e lá você vai ter acesso

[01:37:04] a todo esse maravilhoso catálogo

[01:37:06] desta ótima editora

[01:37:08] que a gente não cansa de fazer

[01:37:10] propaganda aqui inclusive já fizemos

[01:37:12] episódio

[01:37:14] baseado em

[01:37:15] livro de lá usando como referência

[01:37:18] bibliográfica mesmo porque o pessoal

[01:37:20] é foda e a gente apoia demais

[01:37:22] e o que

[01:37:24] mais eu estou esquecendo dona Letícia

[01:37:26] me ajuda eu não

[01:37:28] estou acostumado a fazer esse negócio

[01:37:30] tudo eu tudo eu

[01:37:31] catarse etc já falou não

[01:37:36] não não falei do catarse

[01:37:38] em catarse.me

[01:37:40] barra pistolando

[01:37:42] ou então em

[01:37:43] patreon.com barra pistolando

[01:37:46] se você estiver fora do Brasil

[01:37:48] em ambos os dois

[01:37:50] bem bonito pra você

[01:37:52] ambos os dois

[01:37:53] você vai ter

[01:37:56] acesso a

[01:37:57] ter acesso ou não ter acesso só depois que pagar

[01:38:00] mas você vai poder

[01:38:01] contribuir pra

[01:38:03] que a gente continue fazendo

[01:38:05] essa brincadeira aqui e que

[01:38:07] o nosso projeto possa melhorar

[01:38:09] cada vez mais você

[01:38:10] temos muito

[01:38:14] pipoco além de

[01:38:15] pipoco

[01:38:16] pipoco de áudio da dona Letícia

[01:38:19] precisamos resolver isso e isso

[01:38:21] se resolve com dinheiro

[01:38:23] além disso temos custos e custos

[01:38:25] em dólares que

[01:38:27] vocês eu acho que notaram

[01:38:29] também que ficou bem

[01:38:31] foda nos últimos meses

[01:38:33] então sempre que vocês ajudam

[01:38:35] a gente a gente tenta

[01:38:37] fazer tudo cada vez melhor

[01:38:39] pra poder

[01:38:41] recompensá-los mas não só

[01:38:43] recompensando dessa forma também

[01:38:45] temos um grupo fechado para os

[01:38:47] apoiadores e esse grupo tem

[01:38:49] oito eu disse

[01:38:51] oito ramificações

[01:38:53] em diferentes especialidades

[01:38:56] em línguas em culinária

[01:38:57] em fórmula 1

[01:38:59] em tudo em tudo

[01:39:01] não vou citar aqui porque senão

[01:39:03] vou cometer alguma indelicadeza

[01:39:05] com algum deles

[01:39:05] e também temos o picpay

[01:39:08] o picpay é arroba pistolando

[01:39:11] dona Letícia como é que é o picpay

[01:39:13] tem que botar arroba nem sei

[01:39:15] tem mas se der a busca lá pistolando

[01:39:17] só tem a gente não tem como errar não

[01:39:18] então tá então é isso

[01:39:21] fora isso somos

[01:39:23] editados e produzidos

[01:39:25] e tudo ou mais pela

[01:39:26] estopim podcast se você tem um

[01:39:29] projeto de podcast que precisa

[01:39:31] tirar do papel ou se você já

[01:39:33] tem um rodando mas precisa

[01:39:35] de certa forma profissionalizar

[01:39:37] ele seja em áudio

[01:39:39] em site ou em identidade

[01:39:41] visual entre em contato com a

[01:39:43] estopim podcast

[01:39:44] show Vitor

[01:39:46] muito obrigada foi ótimo

[01:39:49] a gente ficou nessa troca de e-mails

[01:39:51] aí um tempinho para conseguir marcar uma data

[01:39:53] deu tudo certo foi um papo ótimo

[01:39:55] aprendemos pra caramba sabemos

[01:39:57] que o pessoal vai gostar só podemos

[01:39:59] te agradecer e

[01:40:01] acompanhar o teu trabalho

[01:40:01] eu que agradeço a oportunidade aí

[01:40:05] também aprendi bastante com vocês

[01:40:07] com essa nova interatividade

[01:40:09] né toda a experiência

[01:40:11] sim sim ainda precisa

[01:40:12] aperfeiçoar algumas coisas mas a gente vai

[01:40:15] sempre aprendendo de um programa pro

[01:40:17] outro né ótimo

[01:40:18] show é isso

[01:40:21] seu Tiago vai dar tchau

[01:40:22] tá no mudo Tiago

[01:40:26] ah então tá dessa vez

[01:40:29] nós estávamos no mudo

[01:40:30] então é isso

[01:40:31] gente até semana que vem

[01:40:32] beijo

[01:40:33] este podcast foi editado

[01:40:37] por

[01:40:37] estopimpodcasts.com.br

[01:40:42] essa furadeira

[01:40:53] agora atrás foi ótima hein

[01:40:54] te contar

[01:40:55] caiu um negócio aqui em cima é uma maravilha

[01:40:59] o sertão vai virar

[01:41:01] é o mar virando lama

[01:41:04] gosto amargo do rio doce

[01:41:07] de regência mariana

[01:41:09] mariana marina maria

[01:41:21] marcia mercedes marília

[01:41:23] quantas famílias com sede

[01:41:24] quantas panelas vazias

[01:41:26] quantos pescadores sem redes e sem canoas

[01:41:28] quantas pessoas sofrendo

[01:41:30] quantas pessoas sofrendo

[01:41:31] quantas pessoas sem rumo

[01:41:33] como canoas sem remos

[01:41:34] ou pescadores sem linhas e sem anzóis

[01:41:36] quantas pessoas sem sorte

[01:41:38] quantas pessoas com fome

[01:41:39] quantas pessoas sem nome

[01:41:41] quantas pessoas sem voz

[01:41:42] adriano, diego, pedro, marcelo, josé

[01:41:45] aquele corpo é de quem?

[01:41:46] aquele corpo quem é?

[01:41:48] é do tião, é do léo, é do joão, é de quem?

[01:41:51] é mais um joão ninguém

[01:41:52] é mais um morto qualquer

[01:41:53] morreu debaixo da lama, morreu debaixo do trem

[01:41:56] ele era filho de alguém e tinha filho e mulher

[01:41:59] isso ninguém quer saber

[01:42:00] com isso ninguém se importa

[01:42:01] parece que essas pessoas já nascem mortas

[01:42:04] e pra quem olha de longe

[01:42:06] passando sempre por cima

[01:42:07] parece que essas pessoas não tem valor

[01:42:09] são tão pequenas e fracas

[01:42:11] deitando em camas e macas

[01:42:12] sobrevivendo, sentindo tristeza e dor

[01:42:15] quem nunca viu a sorte

[01:42:18] pensa que ela não vem

[01:42:21] e enche a cascina de mágoa

[01:42:26] e hoje me abraça forte

[01:42:30] corta esse mal, planta o bem

[01:42:32] transforma a lágrima em água

[01:42:35] o sertão vai virar mar

[01:42:40] é o mar virando lama

[01:42:43] gosto amargo do rio doce

[01:42:46] de regência mariana

[01:42:48] o sertão vai virar mar

[01:42:51] é o mar virando lama

[01:42:54] gosto amargo do rio doce

[01:42:57] de regência mariana

[01:43:00] quem olha assim lá do alto

[01:43:05] ou na tv em segundos

[01:43:07] as vezes vê todo mundo

[01:43:08] mas não enxerga ninguém

[01:43:09] e não enxerga a nobreza

[01:43:10] de quem tem pouco mas ama

[01:43:12] de quem defende o que ama

[01:43:13] e valoriza o que tem

[01:43:15] Antônio, Kátia, Rodrigo, Maurício, Flávio, Thaís

[01:43:17] trabalham feito formigas

[01:43:19] tem uma vida feliz

[01:43:20] sabem o valor da amizade e da pureza

[01:43:23] da natureza e da água

[01:43:24] fonte da vida

[01:43:25] conhecem os bichos e plantas

[01:43:27] e como o galo que canta

[01:43:28] levantam todos os dias

[01:43:30] Com energia e com a cabeça erguida

[01:43:32] Mas vem a lama e o descaso sem cerimônia

[01:43:34] Envenenando o futuro e o presente

[01:43:37] Como se faz desde sempre na Amazônia

[01:43:40] Nas nossas praias e rios impunemente

[01:43:42] Mas o veneno e o atraso disfarçado de progresso

[01:43:46] Que apodrece a nossa fonte, a nossa voz

[01:43:48] Não nos faz tirar os olhos do horizonte

[01:43:51] Nem polui a esperança que nasce dentro de nós

[01:43:53] É quando a lágrima no rosto a gente enxuga

[01:43:56] E segue em frente persistente como as tartarugas e as baleias

[01:43:59] E nessa lama nasce a flor que a gente rega

[01:44:02] Com o amor que corre dentro do sangue nas nossas veias

[01:44:05] Quem nunca viu a sorte

[01:44:08] Pensa que ela não vem

[01:44:11] E enxaca a cima de mágoa

[01:44:16] E hoje me abraça forte

[01:44:19] Guarda esse mal, planta o bem

[01:44:22] Transforma a lágrima em água

[01:44:25] O sertão vai virar mar

[01:44:29] É o mar virando lama

[01:44:33] Gosto amargo do rio doce

[01:44:35] De regência mariana

[01:44:38] O sertão vai virar mar

[01:44:41] É o mar virando lama

[01:44:44] Gosto amargo do rio doce

[01:44:46] De regência mariana

[01:44:49] O sertão vai virar mar

[01:44:52] É o mar virando lama

[01:44:55] Gosto amargo do rio doce

[01:44:57] De regência mariana

[01:44:59] Muita força, muita sorte.

[01:45:03] Mais justiça, mais um pouco.