#22 - Zack Snyder vs Clive Barker
Resumo
Gustavo e Orlando partem do paralelo entre Liga da Justiça (Snyder Cut) e Nightbreed, dois casos marcados por embates entre estúdio e diretor e por campanhas de fãs que impulsionam (ou até montam) versões alternativas. A partir daí, eles perguntam por que mobilizações de consumidores em torno de filmes parecem produzir efeitos práticos mais facilmente do que mobilizações políticas, e como essa relação molda a ideia de “ter direito” à versão desejada de uma obra.
O episódio entra fundo na discussão sobre como, na era do streaming, versões “originais” podem desaparecer, e como a cultura do produto “inacabado” (com revisões, reshoots, patches e relançamentos) afeta cinema, música e jogos. Eles relacionam isso à disputa entre autoralidade e produto ajustado por pesquisa de público, e ao impulso de fãs de se sentirem donos do objeto cultural.
Em seguida, a conversa migra para a ideia de herói como objeto cultural que “antecipa” uma relação de devoção: não pode haver distância ou contradição entre público e obra, sob pena de rejeição. Essa lógica é conectada ao capitalismo (escassez de recursos, concentração de produção e culto ao “gênio” criador), e ao modo como certos filmes tratam heróis como deuses, com pouca empatia pelos humanos comuns.
No bloco sobre Nightbreed, Orlando resume a trama, explica a cidade subterrânea de Midian e o protagonista Boone/Cabal, e relembra sua relação afetiva com o filme (inclusive por ter conhecido primeiro via álbum de figurinhas). Ao mesmo tempo, eles criticam a falta de sutileza, os buracos de roteiro, a estética “adolescente gótica” e a forma como tanto Barker quanto Snyder trabalham uma grandiosidade que esvazia humanidade e subtexto.
O fechamento retoma a tese: filmes de herói sempre tiveram um componente infantil/mercadológico (como o foco histórico em vender brinquedos), e o problema não é gostar deles, e sim entender o que se consome e como isso se articula com propaganda, indústria cultural e desejo de devoção. Eles encerram com um convite para acompanhar a nova cadência quinzenal do programa.
Indicações
Animacao-E-Tv
- Universo animado da DC (Batman: The Animated Series / desenho do Batman e do Superman) — Apontado como um grande símbolo afetivo e como exemplo de obra muito boa até hoje, ao discutir a relação entre público, idade-alvo e venda de brinquedos.
- Batman Beyond — Citado como um projeto criado para mirar um público mais jovem e ajudar na monetização via bonecos, quando a audiência dos desenhos anteriores era ‘velha demais’ para o objetivo comercial.
Documentarios
- Paris Is Burning — Recomendado como referência para contextualizar a cultura dos ‘balls’ e o universo que influenciaria drag queens, citado ao falar de subculturas marginalizadas tangenciadas por Barker.
Filmes
- Hellraiser (Renascido do Inferno) — Recomendado como uma opção melhor para entender Clive Barker, com mais subtexto e ideias do que Nightbreed, apesar de também ter problemas de montagem e direção.
- Mestre das Ilusões — Citado como um dos três filmes do Clive Barker e apontado como melhor que Nightbreed; é descrito como pouco visto e o último filme que ele fez antes de um problema grave de saúde.
- Freaks — Mencionado como um filme muito melhor sobre a temática de ‘freaks’ e exclusão, e como exemplo de obra com mais substância do que Nightbreed.
- Candyman — Elogiado diretamente como “muito bom”, dentro da leva de terror da época.
- Tartarugazinha 2 — Citado por ter uma cena musical memorável e absurda com o Vanilla Ice, usada como exemplo de sequência musical ‘sem sentido’ que funciona.
- Leprechaun — Mencionado com a observação de que há ‘vários bons’ na série.
- Trolls 2 — Citado como ‘muito bom’ dentro de uma conversa sobre trash, já próximo do tipo de experiência ‘The Room’.
Livros-E-Artbooks
- Livro de arte do H.R. Giger — Sugerido como atalho para entender a estética que eles associam ao Clive Barker; a piada é que basta comprar um artbook do Giger para captar ‘qual é a’ do Barker.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introducao: herois diretores e seus cortes — A abertura coloca Zack Snyder e Clive Barker como “diretores heróis” para seus fãs, capazes de mobilizar campanhas e gerar novas versões de filmes. A proposta do episódio é comparar Liga da Justiça e Nightbreed como obras atravessadas por disputas com estúdios e pela intervenção do público.
- 00:01:15 — Contexto: Snyder Cut e versoes de Nightbreed — Eles explicam que o episódio nasce da vontade de comentar Liga da Justiça após “digerir” o Snyder Cut e do paralelo com Nightbreed. Detalham quais versões assistiram: Snyder Cut (quadrado) e Nightbreed no corte do diretor, situando o histórico de cortes do filme de 1990.
- 00:03:00 — Cabal Cut, Ultimate Cabal Cut e arqueologia de cortes — Gustavo descreve como surgiram o Cabal Cut e, depois, o Ultimate Cabal Cut, que mistura materiais de Blu-ray, versão de cinema, VHS e workprints. O caso vira exemplo de como fãs tentam reconstruir a “versão ideal” quando a obra foi mutilada por decisões de estúdio.
- 00:05:02 — Mobilizacao de consumidores vs politica e o ‘Padilha Cut’ — A conversa provoca: por que revoltas de consumidores por filme de herói geram resultados práticos, enquanto pautas como reformas trabalhistas e previdenciárias não? Eles brincam com a ideia de uma campanha por um “Padilha Cut” (especialmente de O Mecanismo) e lembram mudanças e remontagens como parte da história do audiovisual.
- 00:08:10 — Streaming, versoes perdidas e cultura do inacabado — Eles discutem como versões originais podem desaparecer no streaming e como às vezes nem há identificação clara da versão disponível. Usam exemplos de revisões e relançamentos, aproximando cinema da lógica de videogames com patches e atualizações.
- 00:12:12 — Memoria, reescrita do passado e paralelos culturais — O tema vira uma reflexão sobre memória e ressignificação histórica, conectando a reformulação de obras culturais com a forma como sociedades recontam sua própria história. Eles citam o estresse de alterações em Star Wars como exemplo clássico, mas evitam entrar nos detalhes.
- 00:15:00 — Herois mudam, mas a cultura finge que sempre foram iguais — O episódio argumenta que heróis são continuamente reformulados conforme sensibilidades sociais mudam, mas se cria a ilusão de permanência (como no caso de Batman e Superman). Eles mencionam reboots e ajustes de continuidade para mostrar como a indústria sustenta uma aparência de coerência histórica.
- 00:17:34 — Arte para agradar: do consumo ao sentimento de propriedade — Eles defendem que a indústria cultural acostuma o público a esperar produtos que agradam e eliminam contradições, o que alimenta a sensação de que o consumidor “merece” outra versão. O Snyder Cut vira caso-limite dessa dinâmica: uma obra retrabalhada para atender expectativas e consolidar devoção.
- 00:22:00 — Da contemplacao a devocao: heroi, religiao e capitalismo — Orlando propõe que a relação moderna com obras e heróis se aproxima de uma devoção religiosa, na qual não pode haver distância entre público e objeto. Gustavo complementa conectando isso à escassez e à concentração da produção cultural no capitalismo, que cria o artista como figura excepcional e separada do público.
- 00:25:40 — Snyder, divinizacao do heroi e desprezo pelo humano — Gustavo critica a estética e a visão de Snyder como centradas em deuses (Superman, Batman, Leônidas), com pouca empatia por humanos comuns. Ele menciona a afinidade de Snyder com Ayn Rand e relaciona isso à forma como esses filmes tratam heróis como seres acima da humanidade.
- 00:35:20 — O que e Nightbreed: Midian, Boone/Cabal e a guerra — Orlando resume Nightbreed: a cidade subterrânea de Midian sob um cemitério, onde vivem raças e seres marginalizados pelos humanos. Boone é manipulado pelo psiquiatra (interpretado por David Cronenberg) e busca refúgio entre os ‘monstros’, o que culmina em conflito com os humanos.
- 00:38:00 — Idealizacao, frustraçao e recepcao do filme — Orlando conta que passou anos apaixonado por Nightbreed antes de vê-lo, por ter contato inicial via álbum de figurinhas no Brasil. Quando finalmente assistiu em DVD, percebeu que o filme real era muito diferente do imaginado; mesmo assim, ele o defende como diversão possível, enquanto Gustavo rejeita a experiência.
- 00:39:45 — Estetica adolescente gotica: Snyder e Barker em paralelo — Gustavo compara a sensibilidade estética de Snyder e Barker a um adolescente gótico revoltado, citando visual dessaturado, ‘trevas’ e exagero. Eles criticam a falta de subtexto em Nightbreed e a caricatura dos humanos, e discutem como a estética vira uma casca usada sem profundidade.
- 00:44:10 — Hellraiser, subculturas e moralidade no slasher — Orlando contextualiza Hellraiser como ligado a subculturas marginalizadas (BDSM e LGBTQ+) e como uma inversão moral do slasher. Ao mesmo tempo, eles reconhecem problemas de montagem/direção e discutem como o que foi subversivo pode se tornar palatável e diluído quando vira produto de estúdio.
- 00:51:20 — Lista de terror/trash e digressoes (Candyman, Trolls 2 etc.) — Eles citam filmes de terror e ‘trecheiras’ da época, elogiando Candyman e lembrando a escalada para o ‘nível The Room’. A conversa inclui a ideia de um episódio futuro sobre cenas musicais sem sentido em filmes e menções a títulos como Tartarugazinha 2 e outras referências pop.
- 01:01:00 — Herois como produto: bonecos, publico e Marvel militar — Orlando argumenta que heróis eram vistos como coisa de criança e que o mercado buscava monetização via brinquedos, citando o universo animado do Batman e o caso de Batman Beyond. Eles também apontam que, para atingir um público mais velho, o universo Marvel no cinema se aproximou de propaganda do Estado militar estadunidense (deixando a discussão detalhada para outro episódio).
- 01:05:15 — Conclusao: devoçao, industria cultural e herois reais — O fechamento amarra a tese sobre a ruptura (ou apagamento) da distância entre público e objeto de consumo, e como isso produz identidades de fandom e devoção. Eles reforçam que não é errado gostar de heróis, mas é preciso contextualizá-los — e lembrar que políticos e administradores do Estado não são heróis.
Dados do Episódio
- Podcast: Popcult
- Autor: Atabaque Produções
- Categoria: TV & Film Film Reviews
- Publicado: 2021-04-06T08:30:12Z
- Duração: 01:08:40
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/popcult/57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2/b75a6cc2-98dc-4238-950b-02710e84a6ec
- UUID Episódio: b75a6cc2-98dc-4238-950b-02710e84a6ec
Dados do Podcast
- Nome: Popcult
- Tipo: episodic
- Site: https://www.spreaker.com/podcast/popcult—4416630
- UUID: 57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Half-Death
[00:00:30] Se curve a vontade do povo e retorne aos heróis sua liberdade
[00:00:33] Do que eu estou falando?
[00:00:35] De heróis como Clive Barker e Zack Snyder
[00:00:38] Que são diretores heróis para seus fãs
[00:00:40] Fãs esses que fizeram novas versões de seus filmes existirem por pura força de vontade
[00:00:45] Será que nós da esquerda temos algo a aprender com os Snyderheads?
[00:00:50] Será que esses heróis da cinematografia se importam com a humanidade?
[00:00:55] Vamos olhar hoje para Liga da Justiça e Nightbreed
[00:00:57] Dois filmes cheios de desentendimentos
[00:01:00] Entre estúdios e diretores
[00:01:01] Revolta popular e um final feliz?
[00:01:05] Orlando, o que você acha?
[00:01:06] Eu estou completamente surpreso com a cabeça desse programa
[00:01:10] É que a gente…
[00:01:15] Para contextualizar o ouvinte
[00:01:16] A gente queria já falar de Liga da Justiça
[00:01:20] Que a gente fez o comentário
[00:01:21] Porque a temporada é sobre heróis
[00:01:23] E tem coisas que a gente agora tendo digerido o Snyder Cut
[00:01:27] A gente pode comentar melhor
[00:01:28] Digerido, porque caiu mal, hein?
[00:01:29] Caiu mal
[00:01:29] Caiu mal
[00:01:30] Nossa, é, exato
[00:01:32] E aí o Orlando falou
[00:01:33] Não, tem um filme que eu adoro
[00:01:35] Que eu acho que casa muito
[00:01:36] E ele pode super estar no episódio, assim
[00:01:38] Liga da Justiça
[00:01:39] E o filme é Nightbreed
[00:01:40] E o paralelo era muito sobre a temática, na verdade, assim
[00:01:44] Do herói, em geral
[00:01:46] Mas ontem, enquanto a gente estava fazendo a pesquisa para o episódio
[00:01:49] A gente esbarrou na miríade de cortes diferentes que o filme tem
[00:01:54] E é uma história que tem muitos paralelos com o Snyder Cut, eu sinto
[00:01:59] E finais um pouco distintos
[00:02:01] Então, achei ótimo
[00:02:04] Graças a Deus, Nightbreed não é em 4x3, não é quadrado
[00:02:07] Isso tornou ele mais fácil de assistir
[00:02:10] Não tem 4 horas
[00:02:10] Em geral, mais fácil de assistir
[00:02:11] Não tem 4 horas
[00:02:12] Mas, mas, tem um corte de 3 horas e 20 minutos que eu estou baixando
[00:02:18] Que a gente vai assistir eventualmente
[00:02:21] Eventualmente, eventualmente
[00:02:22] Mas para esse episódio, para deixar claro
[00:02:23] Então, a gente assistiu Liga da Justiça
[00:02:25] O corte do Zack Snyder, preto e branco
[00:02:27] Não, preto e branco não
[00:02:28] Colorido, semicolorido
[00:02:29] E quadrado
[00:02:31] Que é o que tem o comentário aqui no nosso feed
[00:02:33] Se você não assistiu o filme, pode assistir com o nosso comentário
[00:02:36] E Nightbreed, a versão do diretor
[00:02:40] Que saiu, o filme é de 1990
[00:02:42] Essa versão do diretor saiu em 2014
[00:02:47] Ou 2017, por aí
[00:02:50] 17, 17
[00:02:50] 17, essa é de 17
[00:02:52] E é o seguinte
[00:02:53] Antes, havia a versão que saiu no cinema em 1990
[00:02:57] Que não é a versão que o Clive Barker queria ter lançado
[00:02:59] Que o estúdio cortou para o filme
[00:02:59] Bastante
[00:03:00] Então, paralelas aí com Liga da Justiça do Joss Whedon
[00:03:03] Que inclusive, uma das coisas que o Joss Whedon trocou no filme
[00:03:06] Foi botar uma trilha sonora do Danny Elfman
[00:03:07] Que fez a trilha sonora de Nightbreed
[00:03:09] Então, tudo se amarra
[00:03:10] Aí, essa versão saiu
[00:03:14] E virou meio que um filme cult
[00:03:16] Apesar de não merecer
[00:03:17] E aí
[00:03:18] O Clive Barker sempre falou
[00:03:21] Tinha cenas, tinha coisas que o estúdio cortou
[00:03:24] Que eu queria botar de volta e tal
[00:03:25] Aí, eventualmente
[00:03:27] Já no século 21
[00:03:29] Pessoas encontraram
[00:03:32] Cortes alternativos do filme
[00:03:34] De enquanto ele estava sendo editado e tal
[00:03:36] Montado
[00:03:36] E montaram o tal do Cabal Cut
[00:03:40] Que era um corte
[00:03:42] Que misturava o filme original
[00:03:44] Antes lançado com essas cenas encontradas
[00:03:46] Aí, finalmente, quando foi
[00:03:47] Ser feito o Blu-ray da Shout Factory
[00:03:50] Do filme, foi quando
[00:03:51] O estúdio liberou lá
[00:03:53] A película original e tinha lá cenas
[00:03:55] Que achavam que estavam perdidas
[00:03:57] E o Clive Barker, junto com o
[00:03:59] Mike Miller
[00:04:02] Juntou tudo
[00:04:04] E fez a edição que é o corte dele
[00:04:06] Só que isso
[00:04:08] Não satisfez os fãs, porque tinha cenas
[00:04:10] Que eles já tinham visto no tal Cabal Cut
[00:04:12] Que não estão na versão do Clive Barker
[00:04:14] E eles sentem falta
[00:04:15] Então, existe o Ultimate Cabal Cut
[00:04:18] Que tem 3 horas e 20
[00:04:20] Que mistura cenas do Blu-ray
[00:04:21] Cenas da versão de cinema
[00:04:23] Cenas encontradas em VHS
[00:04:26] E em work prints
[00:04:27] E me parecem
[00:04:29] A coisa mais próxima que a gente vai ter
[00:04:31] A gente não viu esse ainda
[00:04:32] Porque o único lugar que eu achei
[00:04:33] É um lugar que só me deixa baixar 50kbps
[00:04:36] Então, infelizmente, ainda faltam 3 horas e 50
[00:04:39] Desse download de 26 horas
[00:04:40] Então, basicamente, a gente tem
[00:04:43] De um lado, um filme
[00:04:44] Dois filmes que o diretor
[00:04:47] Tipo, o estúdio não deixou eu fazer do jeito que eu queria
[00:04:49] Aí os fãs falam assim
[00:04:50] Eu quero ver esse filme
[00:04:51] E o filme realmente não existe
[00:04:54] E mais dinheiro tem que ser gasto para o filme existir
[00:04:56] No caso do Clive Barker, ele não teve que regravar nada
[00:04:59] Mas, Orlando, basicamente é isso
[00:05:02] Por que as pessoas se importam
[00:05:04] E o que a gente pode aprender
[00:05:06] Com o fato de que a única
[00:05:07] Mobilização coletiva
[00:05:10] Que parece ter tido efeitos
[00:05:12] Materiais muito práticos
[00:05:14] E que a gente pode sentir
[00:05:16] Na pele, foi uma revolta
[00:05:18] De consumidores com filme de herói
[00:05:20] E não, por exemplo, contra a reforma
[00:05:22] Tributária, contra a reforma da previdência
[00:05:25] Contra a reforma dos direitos trabalhistas
[00:05:26] É sempre bom lembrar que isso não aconteceu
[00:05:28] No Brasil, né?
[00:05:29] Mas eu participo de alguma forma disso
[00:05:31] Porque imagina o pessoal
[00:05:34] Você acha que o Padilha Cut
[00:05:37] Tem que ser lançado?
[00:05:39] Nossa, o Padilha Cut do mecanismo, né?
[00:05:42] O Padilha Cut do mecanismo
[00:05:43] Nossa, imagina
[00:05:45] Vamos pedir pro…
[00:05:46] Cara, ouvintes do Pop Cult, comecem essa campanha
[00:05:50] Padilha Cut
[00:05:50] Que é Netflix
[00:05:51] O Netflix tem que pagar o Padilha
[00:05:55] Pra ele voltar e reeditar o que der
[00:05:56] Sem filmar nada novo
[00:05:57] Mas peraí, mas tem…
[00:05:59] Vai ler, vai continuar
[00:05:59] Não, é só…
[00:06:01] É um desafio pro Padilha
[00:06:03] É tipo, Padilha, eu duvido você fazer essa série fazer sentido
[00:06:06] Agora que a gente sabe o que rolou de verdade
[00:06:08] Boa
[00:06:09] Mas tem uma coisa histórica, né?
[00:06:10] Que o Tropa de Elite, o primeiro
[00:06:12] Ele é uma espécie de Padilha Cut, né?
[00:06:16] Porque a primeira versão
[00:06:18] Era um filme sobre o Matias
[00:06:21] Foi todo gravado
[00:06:22] O personagem do Wagner Moura
[00:06:24] O Capitão Acidente, ele teria um papel secundário
[00:06:26] O personagem não rendeu
[00:06:28] A história não rendeu
[00:06:29] E aí ele…
[00:06:29] Eles tiveram um monte de reshot
[00:06:31] E aí fizeram o Tropa de Elite que a gente conhece
[00:06:34] Então o Tropa de…
[00:06:36] Não sabia disso, não?
[00:06:37] Não
[00:06:37] Olha só
[00:06:37] O Tropa de Elite original
[00:06:39] Ele era completamente diferente
[00:06:40] O roteiro era diferente
[00:06:41] A primeira montagem era completamente diferente
[00:06:42] O primeiro corte e tal
[00:06:43] Era completamente outro filme
[00:06:44] O Matias era o personagem principal, né?
[00:06:47] O…
[00:06:48] Release the Matias Cut
[00:06:48] É, Release the Matias Cut, né?
[00:06:50] O filme original, o filme como tal
[00:06:51] Ficou muito…
[00:06:52] Ou não
[00:06:52] Ou queimei os dois
[00:06:54] E filmam com tudo isso
[00:06:55] Que eu acho que é mesmo…
[00:06:55] Mas não, mas eu ainda acho
[00:06:57] Que a gente tem que se concentrar
[00:06:58] No Padilha Cut do mecanismo
[00:06:59] Porque eu adoro ficar lembrando
[00:07:01] Todo…
[00:07:02] Né?
[00:07:02] Eu adoro que todo mundo agora
[00:07:03] Adora lembrar o Padilha
[00:07:05] De que ele fez isso
[00:07:06] O sistema é foda, cara
[00:07:08] O…
[00:07:10] Não, mas então
[00:07:11] Tem várias paradas aí
[00:07:12] Que a gente vai começar
[00:07:13] Linkando
[00:07:14] Com coisas que a gente já falou, né?
[00:07:17] Nesse programa
[00:07:18] É…
[00:07:19] Mas eu acho que a primeira coisa
[00:07:20] Que é evidente aqui
[00:07:21] É essa ideia de que
[00:07:25] Aquilo que foi pro ar
[00:07:28] Não é aquilo que a gente quer
[00:07:29] Logo…
[00:07:29] A gente tem o direito
[00:07:30] De ter outra coisa
[00:07:31] Né?
[00:07:32] E…
[00:07:33] E…
[00:07:33] E esse…
[00:07:35] E esse…
[00:07:35] Ledo engano
[00:07:36] Que a gente cai como ser humano
[00:07:38] De que se eu tiver aquilo
[00:07:39] Que eu imagino que eu quero
[00:07:41] Eu vou ser feliz
[00:07:42] Sim!
[00:07:42] Sim, é isso que eu ia falar
[00:07:43] Porque, por exemplo
[00:07:43] A gente tava falando no programa
[00:07:45] No primeiro programa dessa temporada
[00:07:46] Sobre a gente volta pro futuro
[00:07:47] Que o sujeito
[00:07:49] É quase como se fosse
[00:07:50] O Mario McFly
[00:07:50] Que chega no futuro e fala
[00:07:51] Ih, ó
[00:07:52] Minha vida deu nisso?
[00:07:53] Não, volto no tempo
[00:07:54] Pra resolver essa história
[00:07:55] E dar em outra coisa, né?
[00:07:57] É…
[00:07:57] O cinema
[00:07:58] Tal como ele é feito
[00:07:59] Né?
[00:08:00] Desde…
[00:08:00] Desde sempre, né?
[00:08:02] Pela indústria cultural
[00:08:02] Permite essa possibilidade, né?
[00:08:04] Porque aquilo que vai pro ar
[00:08:05] Você pode fazer um monte de reshoot
[00:08:07] E depois você lançar de novo
[00:08:08] Inclusive tem um filme
[00:08:09] Que, por exemplo
[00:08:10] É…
[00:08:11] Esse dia eu tava conversando
[00:08:12] Tava…
[00:08:13] Descobri que o Highlander 2
[00:08:15] Que eu assisti
[00:08:16] Não existe mais cópias daquilo
[00:08:17] Né?
[00:08:19] Ah, era um corte que já, tipo…
[00:08:21] O primeiro corte
[00:08:21] O primeiro corte do filme
[00:08:23] Ele foi todo refeito
[00:08:25] Pra que o Highlander 2
[00:08:27] Se adequasse ao…
[00:08:28] Ao que depois
[00:08:29] Virou canônico, né?
[00:08:30] Porque no Highlander 2
[00:08:31] Eles eram alienígenas
[00:08:32] É revelado…
[00:08:33] Aí depois eles…
[00:08:34] Aí inventam toda uma história
[00:08:35] De máquina do tempo
[00:08:37] E sei lá o quê, né?
[00:08:38] Tipo…
[00:08:38] E tem um final
[00:08:39] Que ele fica flutuando
[00:08:39] Brilhando
[00:08:40] Nossa, mas coisa assim
[00:08:41] Que bizarra
[00:08:42] É, e porque o Highlander
[00:08:43] Tem essa coisa de…
[00:08:44] O Highlander 2
[00:08:45] É uma continuação do 1
[00:08:46] Mas o 3 também
[00:08:47] É uma continuação do 1
[00:08:48] Ele tenta ignorar o 2
[00:08:49] E aí o 4
[00:08:50] É uma continuação do 1
[00:08:51] E das séries
[00:08:52] Ignorando o 2 e o 3
[00:08:53] Sim, sim
[00:08:54] Mas é…
[00:08:55] O mais recente disso
[00:08:56] Desses reshots que mudam
[00:08:58] Por exemplo
[00:08:58] A versão do Avatar
[00:09:00] Do filme Avatar
[00:09:01] Que todo mundo assistiu no cinema
[00:09:03] Não existe mais
[00:09:04] Sim, exatamente
[00:09:05] A versão que tem
[00:09:06] Pra streaming hoje
[00:09:07] Ela tira umas cenas
[00:09:09] Não tira?
[00:09:10] Isso, porque é a cena que
[00:09:11] Os nave
[00:09:12] Tem relação…
[00:09:13] Porque eles se comunicam
[00:09:15] Com os bichos
[00:09:15] E tem relações sexuais
[00:09:16] Pelo mesmo…
[00:09:18] Pelo cabelinho, né?
[00:09:19] Ali pelo negócio
[00:09:20] Isso, pelo fim da trança
[00:09:21] Isso, então isso gerou
[00:09:22] Um monte de meme
[00:09:22] De zoofilia
[00:09:23] E isso pegou mal
[00:09:26] Pro estúdio
[00:09:27] Então todas as cópias
[00:09:28] Subsequentes
[00:09:28] Foram feitas
[00:09:30] Dessa forma
[00:09:31] Agora eu te imagino o seguinte
[00:09:32] Que nesse mundo
[00:09:33] Que a gente vive
[00:09:34] Que é o mundo do streaming
[00:09:35] As versões originais
[00:09:37] Dos filmes
[00:09:38] Podem ser
[00:09:38] Definitivamente perdidas
[00:09:40] Sim
[00:09:41] Inclusive
[00:09:43] Por exemplo
[00:09:43] Nightbreed é um filme
[00:09:44] Que se você for alugar
[00:09:45] Pra streaming
[00:09:46] Só existe pra alugar
[00:09:47] A versão do diretor
[00:09:48] A versão teatral
[00:09:49] Saiu no box
[00:09:51] Da Shout Factory
[00:09:51] Que vinha com as duas versões
[00:09:52] A versão cinematográfica
[00:09:53] Que passou do cinema
[00:09:54] A versão do diretor
[00:09:55] Mas no streaming
[00:09:56] Eu acho que você só consegue ver
[00:09:57] O filme
[00:09:58] A versão do diretor
[00:09:59] E não tem
[00:10:00] E o problema é que
[00:10:01] Não tem nem o label
[00:10:03] Você tem que ir nos lugares
[00:10:04] E olhar o tempo do filme
[00:10:06] E bater com a tabela
[00:10:08] De versões do filme
[00:10:09] E saber qual que você está vendo
[00:10:10] E isso é muito sintomático
[00:10:13] Do tipo de mundo
[00:10:15] Que a gente vive
[00:10:15] Porque é
[00:10:17] Onde o produto cultural
[00:10:19] Ele nunca é um produto acabado
[00:10:21] Ele é sempre feito ali
[00:10:22] Ele é quase como se fosse
[00:10:24] Hoje em dia
[00:10:24] Qualquer jogos de videogame
[00:10:26] São assim
[00:10:27] Sobretudo
[00:10:27] Mas que dão menos
[00:10:28] Trabalho de fazer isso
[00:10:29] Porque você fala
[00:10:30] Joga um patch
[00:10:31] Faz uma reprogramação e tal
[00:10:32] Mas é impressionante
[00:10:33] Que você tem uma cultura
[00:10:34] Do inacabado
[00:10:36] Você joga
[00:10:37] Por exemplo
[00:10:37] Um filme
[00:10:38] E aí o público
[00:10:38] Não reage bem a ele
[00:10:39] Então você faz um outro filme
[00:10:41] Você faz um jogo de videogame
[00:10:42] Então
[00:10:43] Temos exemplo aí
[00:10:45] Do Cyberpunk 171
[00:10:47] Que o jogo saiu
[00:10:48] Completamente de outra parada
[00:10:49] Exatamente
[00:10:51] E muita gente não sabe
[00:10:54] Mas por exemplo
[00:10:55] Jogos de fliperama
[00:10:56] Eles iam parar no fliperama
[00:10:58] Sem estarem prontos também
[00:11:00] Porque você podia atualizar os chips
[00:11:02] Então por exemplo
[00:11:03] Mortal Kombat
[00:11:05] Você vai ver
[00:11:06] Cada Mortal Kombat de fliperama
[00:11:09] Tem umas 5 versões
[00:11:10] Que você jogou no fliperama
[00:11:11] Porque eles iam lá
[00:11:12] Mudavam um negocinho
[00:11:13] Balanceavam
[00:11:13] Viam como a galera estava jogando
[00:11:14] Ih, esse personagem aqui
[00:11:15] Está muito apelão
[00:11:16] Vamos balancear melhor isso
[00:11:18] E aí aproveitava
[00:11:19] Bota um segredinho novo aqui
[00:11:20] Bota uma mensagem escondida ali
[00:11:22] E isso se espalhou
[00:11:25] Por causa do
[00:11:26] Como agora
[00:11:27] A arte
[00:11:28] Está mais
[00:11:28] Toda roda no computador
[00:11:29] Não só os jogos
[00:11:30] A gente
[00:11:32] Tem isso
[00:11:33] Eu lembro
[00:11:33] Quando por exemplo
[00:11:34] O Kanye West
[00:11:36] Lançou
[00:11:37] O penúltimo álbum dele
[00:11:39] E aí ele lançou
[00:11:41] Ele relançou o álbum
[00:11:42] Depois porque ele falou
[00:11:43] Que ele ia consertar a música
[00:11:44] Isso acontecia muito antigamente
[00:11:46] Com os remastering
[00:11:47] Sim, sim
[00:11:49] Mas no caso dele
[00:11:50] Ele realmente mexeu
[00:11:51] Na melodia da música
[00:11:53] É, isso é doido
[00:11:53] Mudou coisa de arranjo e tal
[00:11:56] Separou umas tracks
[00:11:58] E
[00:11:58] Enfim
[00:11:59] Mudou completamente o álbum
[00:12:00] Então tem duas versões do álbum
[00:12:01] Mas só existe uma
[00:12:01] Que você pode realmente pagar
[00:12:02] Pra ter e tal
[00:12:03] Comprar ou fazer streaming
[00:12:05] Que é a
[00:12:06] Aquele
[00:12:06] Tipo
[00:12:06] Lançou depois
[00:12:07] Ele lançou o álbum
[00:12:08] Não sei se eu gostei
[00:12:10] Vou mexer
[00:12:11] Não
[00:12:11] Mas aí que vem
[00:12:12] Um ponto que eu acho
[00:12:14] Que é importante
[00:12:15] E aí a gente volta
[00:12:16] Até pra falar
[00:12:17] Do grande tema
[00:12:18] Dessa temporada
[00:12:19] Que é
[00:12:20] A ideia de herói
[00:12:21] O
[00:12:22] Porque
[00:12:23] É impressionante
[00:12:25] Como
[00:12:25] O produto
[00:12:27] Essa ideia
[00:12:28] De você ter um produto cultural
[00:12:30] Porque assim
[00:12:30] Tem duas coisas
[00:12:31] Que são conflitantes aí
[00:12:32] É a própria ideia de memória
[00:12:34] Que pode parecer bobeira
[00:12:36] Pro ouvinte
[00:12:37] Mas é uma coisa
[00:12:38] Fundamental
[00:12:39] Pra gente ter
[00:12:39] A manutenção de uma sociedade
[00:12:41] A conservação de sua memória
[00:12:43] O trabalho de sua memória
[00:12:45] A gente tá vendo
[00:12:46] No momento aí
[00:12:47] De pessoas comemorando
[00:12:49] O golpe de 64
[00:12:50] Por exemplo
[00:12:51] E justamente
[00:12:52] Todo esse processo
[00:12:53] De boa parte
[00:12:54] Desse regime
[00:12:55] Que nós vivemos
[00:12:56] Vem de um longo processo
[00:12:57] De ressignificação
[00:12:59] Da história
[00:13:00] E da memória brasileira
[00:13:01] Com essa história
[00:13:01] De que dita branda
[00:13:02] De ditadura
[00:13:02] Nunca aconteceu
[00:13:03] Então pense no perigo
[00:13:05] Que tem
[00:13:05] Óbvio
[00:13:06] Guardadas devidas proporções
[00:13:09] Orlando
[00:13:11] Eu tenho certeza
[00:13:12] Que tem gente
[00:13:12] Ouvindo esse podcast
[00:13:13] Berrando
[00:13:14] Contra seus
[00:13:15] MP3 players
[00:13:16] E celulares
[00:13:17] Então eu preciso
[00:13:18] Só fazer um comentário aqui
[00:13:19] Sim
[00:13:20] A gente sabe
[00:13:21] Que você provavelmente
[00:13:22] Passou esse stress
[00:13:23] A primeira vez
[00:13:23] Quando o George Lucas
[00:13:25] Ficou mudando
[00:13:25] Os Star Wars
[00:13:27] Nossa
[00:13:27] But we don’t have time
[00:13:29] For that today
[00:13:31] Sim
[00:13:33] Sim
[00:13:34] Esse caso
[00:13:35] Se encaixa
[00:13:36] Com o que a gente tá falando
[00:13:36] A gente não vai falar
[00:13:37] Dos pormenores desse caso
[00:13:38] Porque é muito chato
[00:13:39] Nossa
[00:13:40] Sim cara
[00:13:40] Inclusive a grande
[00:13:42] As pessoas
[00:13:43] Gritando
[00:13:46] Nossa
[00:13:47] Estragou a minha infância
[00:13:48] Acabou com a minha infância
[00:13:49] E tudo mais
[00:13:50] E eu
[00:13:51] Eu sou já da infância
[00:13:53] Que viu
[00:13:53] A segunda versão
[00:13:54] Nossa
[00:13:55] Eu vi as primeiras
[00:13:56] Porque eu assisti
[00:13:56] Quando foi relançado
[00:13:57] Em 96, 97
[00:13:59] E as minhas primeiras
[00:14:00] Super estranhei
[00:14:01] Estranhei até hoje
[00:14:02] Eu estranho até hoje
[00:14:03] Aquela quantidade de CG
[00:14:04] Ruim
[00:14:05] Um CG
[00:14:06] Que mereceu mal
[00:14:06] Eu fiquei espantado
[00:14:07] Em saber que aquela cena
[00:14:09] No primeiro filme
[00:14:09] Não era o Jabba
[00:14:10] Na versão original
[00:14:11] Não, não
[00:14:12] E tu viu
[00:14:13] Quando o Han Solo
[00:14:14] Vai andar por cima dele
[00:14:15] Que podia ter cortado
[00:14:16] A cena, né
[00:14:17] Sim
[00:14:18] Você já viu ele andando
[00:14:19] Ele basicamente pega
[00:14:19] Recortam ele no pente
[00:14:21] E levantam ele
[00:14:22] E ele passa por cima do rabo
[00:14:23] É, tipo assim
[00:14:24] Não tem nenhuma tipo de
[00:14:24] Nossa, cara
[00:14:27] É impressionante
[00:14:28] Mas, assim
[00:14:29] Então
[00:14:29] A grande questão
[00:14:31] A grande questão
[00:14:32] É a seguinte
[00:14:32] A gente
[00:14:34] Essa máquina
[00:14:35] De reformulação
[00:14:36] Do passado
[00:14:37] Propaganda, né
[00:14:38] Ela tá ativa
[00:14:39] Nos produtos culturais
[00:14:40] Como tá ativa
[00:14:41] Na própria forma
[00:14:42] De como a gente
[00:14:43] Conta a história, né
[00:14:44] A própria ideia
[00:14:45] De memória
[00:14:45] E por que que isso
[00:14:47] É um exemplo
[00:14:48] Isso, assim
[00:14:49] A gente tá falando
[00:14:49] Dos heróis
[00:14:50] Pra falar disso
[00:14:52] Porque, por exemplo
[00:14:52] Quando você vê o papel
[00:14:53] Dos heróis
[00:14:54] Ao longo do tempo
[00:14:55] Né
[00:14:56] Os heróis
[00:14:57] Enquanto personagens
[00:14:59] Eles são, talvez
[00:15:00] Uma das grandes
[00:15:01] Porque, por exemplo
[00:15:02] O Batman
[00:15:03] Quando apareceu originalmente
[00:15:04] O Batman matava
[00:15:05] Né
[00:15:06] Aí depois
[00:15:06] Aí você teve uma reformulação
[00:15:08] Do Batman
[00:15:09] Da imagem dele
[00:15:09] E se tornou um personagem
[00:15:10] Os mais adequados
[00:15:12] Seus tempos
[00:15:12] Então o Batman
[00:15:13] Nunca matou ali
[00:15:14] Né
[00:15:15] E aí você vai adequando ele
[00:15:16] Continuamente
[00:15:18] A sensibilidade
[00:15:20] Do público
[00:15:20] E acho que
[00:15:21] Esse que é um ponto
[00:15:22] Porque quando a gente falava
[00:15:23] De que os heróis
[00:15:25] Eles estão
[00:15:26] Eles são
[00:15:26] Eles são sempre
[00:15:27] Digamos
[00:15:27] Uma espécie
[00:15:29] De condensação
[00:15:30] Das
[00:15:31] Certos valores
[00:15:33] Da sociedade
[00:15:34] E não tô dizendo
[00:15:36] Que são bons valores
[00:15:37] Mas certos valores
[00:15:38] Como a sociedade
[00:15:41] Sempre se transforma
[00:15:42] Os heróis
[00:15:42] Sempre se transformam
[00:15:43] E aí que vem um ponto
[00:15:44] Conforme eles se transformam
[00:15:46] E aí que
[00:15:47] Na verdade
[00:15:47] Esse que é sempre o problema
[00:15:48] Eles não se transformam
[00:15:51] A gente fala assim
[00:15:51] Não
[00:15:51] Tinha esse herói aqui
[00:15:53] Depois tinha esse Batman
[00:15:54] Tinha esse Superman
[00:15:55] Tinha esse aqui
[00:15:56] Não
[00:15:56] Se cria uma ideia
[00:15:59] De que eles sempre foram assim
[00:16:00] Por exemplo
[00:16:01] A ideia do Batman
[00:16:02] Do Christopher Nolan
[00:16:03] Que é o Batman justiceiro
[00:16:05] Que é o Batman miliciano
[00:16:07] Todo mundo
[00:16:08] Hoje em dia
[00:16:08] Se você perguntar pra todo mundo
[00:16:09] Inclusive pro senhor
[00:16:10] Gustavo Lanzetta
[00:16:11] Ele vai te apontar
[00:16:12] Que esse é o Batman
[00:16:13] E ponto
[00:16:14] Esse é o Batman
[00:16:14] Que existe
[00:16:15] Eu vou te falar que
[00:16:17] Ele era miliciano
[00:16:19] Antes do Nolan
[00:16:19] Mas enfim
[00:16:20] Tem outro episódio
[00:16:21] Mas é o Frank Miller
[00:16:22] A culpa do Frank Miller
[00:16:23] Não, não, não
[00:16:25] Quando que era antes?
[00:16:26] Ih, agora vai dar merda
[00:16:27] Todo o conceito
[00:16:30] De um playboy
[00:16:31] Que se veste de morcego
[00:16:32] Pra bater em pobre
[00:16:32] Mas não era isso o original
[00:16:34] Tem vários outros
[00:16:35] Claro que era, Orlando
[00:16:36] Batman detetive
[00:16:37] O Batman detetive
[00:16:38] Do Neil Adams
[00:16:39] Orlando
[00:16:40] Primeira capa do Batman
[00:16:41] Ele tá dando um soco em alguém
[00:16:42] Mas então
[00:16:43] Esse era o Batman que matava
[00:16:45] Esse era o Batman
[00:16:46] Esse era
[00:16:47] Vamos pra outro
[00:16:48] Vai, vai
[00:16:48] Vamos pra outro aí
[00:16:50] O super-homem, por exemplo
[00:16:51] Que ele só voa
[00:16:52] Por causa do desenho animado
[00:16:54] Né
[00:16:55] Nos quadrinhos
[00:16:56] Originalmente
[00:16:57] O super-homem pulava muito alto
[00:16:58] E aí quando eles foram fazer
[00:16:59] O primeiro desenho animado
[00:17:00] Do super-homem
[00:17:01] Os animadores voltaram pra DC
[00:17:02] E falaram assim
[00:17:03] Ou então
[00:17:03] Fica muito ridículo
[00:17:04] Ele pulando
[00:17:05] E se ele voasse
[00:17:06] E aí os caras
[00:17:07] Ah, legal
[00:17:07] E aí como ele voava
[00:17:08] E a galera curtia no desenho
[00:17:10] Isso foi incorporado
[00:17:11] No GB
[00:17:11] E ele nunca foi
[00:17:13] E aí
[00:17:14] Aí vem o ponto, né
[00:17:15] No GB
[00:17:16] Aí cria essa ideia
[00:17:17] De que ele sempre voou
[00:17:19] Né
[00:17:19] Sim
[00:17:20] E os quadrinhos
[00:17:21] Eles fazem isso também inteiro, né
[00:17:22] Os reboots
[00:17:23] Das continuidades, né
[00:17:24] Não, isso sempre foi assim
[00:17:25] Não, essa pessoa nunca morreu
[00:17:26] Essa pessoa sempre esteve aqui
[00:17:27] Esse pessoal sempre foi casado
[00:17:28] Mas enfim
[00:17:29] Acho que estamos
[00:17:29] Estamos fugindo um pouco
[00:17:30] Do
[00:17:31] Do nosso
[00:17:32] Assunto
[00:17:34] Que é
[00:17:34] Basicamente
[00:17:35] Mas pra gente
[00:17:36] Amarrar as coisas aqui
[00:17:37] Basicamente o que a gente está vendo
[00:17:39] Um pouco aí
[00:17:40] Né
[00:17:40] Com os fãs de Nightbreed
[00:17:42] Fazendo o próprio corte
[00:17:43] Fãs de
[00:17:44] Star Wars
[00:17:44] Que fazem os próprios cortes
[00:17:45] E tudo mais
[00:17:46] É
[00:17:47] Que é
[00:17:48] Talvez
[00:17:49] Esse relacionamento
[00:17:50] Com uma indústria
[00:17:51] De
[00:17:52] Cultural
[00:17:53] Que existe
[00:17:54] Pra agradar os desejos
[00:17:56] Né
[00:17:56] Então lançar novos cortes de filmes
[00:17:58] Falaram
[00:17:58] Não, não, não
[00:17:58] Vocês não gostaram disso
[00:17:59] Né
[00:17:59] O Mass Effect 3
[00:18:00] Não gostou do final
[00:18:01] A gente lança um DLC
[00:18:02] Com um final melhor
[00:18:02] Não sei o que
[00:18:03] E aí
[00:18:04] As pessoas acabam levando isso
[00:18:07] Ao extremo
[00:18:09] De tipo
[00:18:09] Não, eu sou dono desse filme
[00:18:10] E aí é muito estranho
[00:18:11] Porque quando a gente para
[00:18:12] Para pra pensar nessa questão
[00:18:13] É assim
[00:18:14] Por
[00:18:14] Tipo assim
[00:18:15] Eu não quero defender a Warner
[00:18:16] Entendeu?
[00:18:17] Se tipo
[00:18:18] Se pessoas que gostam
[00:18:19] Dos filmes do Zack Snyder
[00:18:20] Queriam aquele negócio
[00:18:22] E aí tudo que aconteceu
[00:18:23] Foi que a Warner
[00:18:24] Teve que gastar mais dinheiro
[00:18:25] E provavelmente
[00:18:25] Vai ganhar todo esse dia de volta
[00:18:26] Porque eles não teriam feito isso
[00:18:27] Se não fossem
[00:18:28] Tipo assim
[00:18:29] Como é que eu posso
[00:18:30] Me ofender
[00:18:31] Eu não
[00:18:32] Não tô ofendido
[00:18:33] E nem tô tipo
[00:18:34] Do lado da Warner
[00:18:34] Assim
[00:18:35] Pô, legal que o cara fez o filme
[00:18:36] É melhor do que
[00:18:37] Essa
[00:18:38] Essa coisa
[00:18:39] Fabriqueta de filmes
[00:18:40] De tipo
[00:18:40] Não, olha
[00:18:41] A gente fez uma
[00:18:42] Um teste aqui
[00:18:43] Com o pessoal
[00:18:44] E aí
[00:18:44] Tem que diminuir 3 minutos
[00:18:46] Porque o pessoal tá perdendo atenção
[00:18:47] E tem que ter um pouquinho menos de violência
[00:18:48] Um pouquinho mais de romance
[00:18:48] E fazer o
[00:18:50] Né
[00:18:50] Faz
[00:18:51] Do mesmo jeito que o McDonald’s
[00:18:52] Faz teste de sabor das coisas
[00:18:54] Eles fazem
[00:18:54] Do filme
[00:18:55] Fazer o filme perfeito
[00:18:56] Pra um maior número de pessoas
[00:18:57] É
[00:18:58] Então
[00:18:59] Rola uma coisa de tipo
[00:19:01] O
[00:19:02] O mercado transformou esses produtos
[00:19:04] Em algo que tem que agradar todo mundo
[00:19:06] E se você não saiu agradado
[00:19:08] Quem
[00:19:09] Quem errou foi quem fez
[00:19:10] Né
[00:19:10] Não é mais uma visão autoral
[00:19:12] E uma
[00:19:13] Uma mensagem que você quer passar
[00:19:14] E ao mesmo tempo
[00:19:16] A partir do momento que você começa a ser tratado assim
[00:19:18] Você vira e fala assim
[00:19:19] Ué, mas
[00:19:19] Esse não é o filme que eu queria
[00:19:20] Me dá o filme que eu queria
[00:19:21] É
[00:19:21] Então
[00:19:22] Mas é
[00:19:23] Por isso que eu dei aquela
[00:19:23] Você acha que eu dei a volta
[00:19:25] Mas eu dei a volta
[00:19:25] Não, Gustavo
[00:19:26] Eu
[00:19:26] Era aí que eu queria chegar
[00:19:27] Porque assim
[00:19:28] O
[00:19:29] Você cria uma ideia
[00:19:32] De que
[00:19:32] O
[00:19:33] Quando você
[00:19:34] Tá sempre readequando
[00:19:35] Um produto cultural
[00:19:37] E os heróis
[00:19:38] A própria
[00:19:39] A própria ideia do herói
[00:19:40] Ele é um produto cultural
[00:19:41] Esse que é um ponto crucial
[00:19:43] Né
[00:19:43] Esse herói estadunidense
[00:19:44] Ele é em si um produto cultural
[00:19:46] É
[00:19:47] Quando você tá sempre
[00:19:48] Atualizando essa ideia
[00:19:49] Pra que ela
[00:19:50] Esteja mais conforme
[00:19:52] As sensibilidades
[00:19:53] Das pessoas
[00:19:53] Às vezes isso pode ser
[00:19:55] Um produto cultural
[00:19:55] Como o
[00:19:56] O voo do Superman
[00:19:56] É uma escolha estética
[00:19:58] Que funciona
[00:19:59] Com um grande público
[00:20:00] Às vezes
[00:20:01] Como por exemplo
[00:20:02] Aconteceu com
[00:20:02] Snyder’s Cut
[00:20:03] Que é
[00:20:03] Quando você assiste
[00:20:05] Snyder’s Cut
[00:20:06] E assiste
[00:20:07] O primeiro corte
[00:20:08] Do Joss Whedon
[00:20:09] São dois filmes
[00:20:10] Completamente diferentes
[00:20:12] Com as pessoas
[00:20:13] Eu não assisti o primeiro
[00:20:14] Eu vi
[00:20:15] Comparativos no YouTube
[00:20:16] Né
[00:20:17] Vou deixar claro aqui
[00:20:18] Ser honesto com as pessoas
[00:20:18] Porque né
[00:20:19] Não
[00:20:20] Como é que é
[00:20:21] Não existe
[00:20:22] Um homem
[00:20:22] Um homem
[00:20:23] Um homem
[00:20:23] Um homem
[00:20:24] Um homem
[00:20:24] Um homem
[00:20:24] Um homem
[00:20:24] Um homem
[00:20:24] Um homem
[00:20:24] Um homem
[00:20:24] Um homem
[00:20:24] Um homem
[00:20:24] Um homem
[00:20:24] Um homem
[00:20:24] Um homem
[00:20:24] Um homem
[00:20:25] Um homem
[00:20:28] Como é que é
[00:20:28] O tom
[00:20:32] Até as cores
[00:20:32] Eram diferentes
[00:20:33] O filme
[00:20:34] Era cheio de piada
[00:20:35] O primeiro corte
[00:20:35] O filme
[00:20:35] Era cheio de piada
[00:20:36] O filme
[00:20:37] Era cheio
[00:20:37] Daquele humorzinho
[00:20:39] Da Marvel
[00:20:39] Por que
[00:20:40] Porque
[00:20:40] Os produtores
[00:20:41] Entenderam
[00:20:42] Que aquilo ali
[00:20:43] Era a sensibilidade
[00:20:45] Das pessoas
[00:20:45] Então aquilo
[00:20:46] Que deveria ser adequado
[00:20:47] Pro outro lado
[00:20:48] Você
[00:20:49] Quando você traz isso
[00:20:51] Pro
[00:20:51] Pro
[00:20:52] Pro Snyder’s Cut
[00:20:54] Né
[00:20:54] Pra sensibilidade
[00:20:55] do Snyder, que depois a gente pode
[00:20:57] até discutir o quanto ela é próxima da sensibilidade
[00:20:59] do Clive Barker
[00:21:01] em termos de mood,
[00:21:03] né, em termos de… Como é que fala mood?
[00:21:06] De…
[00:21:06] Moods. De… Como é que…
[00:21:09] Clima. De clima.
[00:21:11] É, mas não é clima, né, mas enfim.
[00:21:13] Tem uma palavra que a gente tá esquecendo.
[00:21:15] É que a gente, tal como a Sasha, fomos alfabetizados
[00:21:17] em inglês, né? Exatamente.
[00:21:19] Eu fui em carioquês, eu não fui alfabetizado
[00:21:20] em português, mas… E eu fui em gauchês, né?
[00:21:23] O… Mas então, assim,
[00:21:27] aí você
[00:21:27] cria lá o corte do Snyder
[00:21:29] pra agradar o público e tal, e sei lá o quê.
[00:21:32] A grande questão, pra mim,
[00:21:33] é que o herói,
[00:21:36] ele, de certa maneira,
[00:21:37] ele é uma espécie de objeto cultural
[00:21:39] que antecipa a forma como nós
[00:21:41] estamos lidando com nossos objetos culturais
[00:21:43] hoje em dia. Que é o seguinte,
[00:21:45] não pode existir entre o objeto
[00:21:47] cultural e o seu público
[00:21:49] nenhuma contradição, nenhuma distância.
[00:21:51] Do contrário, aquele
[00:21:53] objeto cultural, ele é expurgado.
[00:21:56] Ou seja, você não pode
[00:21:57] ter…
[00:21:59] Pra quem aprecia a arte, sabe?
[00:22:01] Quanto a arte não… A arte não existe pra agradar
[00:22:03] as pessoas. Você não pode. Quando você
[00:22:05] cria arte pra agradar, você mata
[00:22:07] o princípio artístico.
[00:22:09] Sim, que é o de comunicar alguma coisa. Sim!
[00:22:11] Estabelecer uma comunicação. E nem se
[00:22:13] dá algo positivo, né? Você pode causar uma
[00:22:15] reação no público, deixar o público com raiva,
[00:22:17] excitado, nervoso, triste.
[00:22:20] É, e que essa provocação,
[00:22:21] ela é
[00:22:24] parte intrínseca do mecanismo
[00:22:25] pelo qual você vai absorver aquela
[00:22:27] ideia, né?
[00:22:30] Enfim, que você
[00:22:31] vai usar de mecanismos que às vezes
[00:22:33] sejam emocionalmente
[00:22:35] negativos, por assim dizer,
[00:22:38] porque você
[00:22:39] é o jeito de você conseguir
[00:22:41] a atenção que você precisa praquilo, né?
[00:22:44] Sim! A arte, na verdade,
[00:22:46] eu penso que a arte é uma espécie de abdução
[00:22:47] da agência, né? Basicamente é o momento que ela
[00:22:49] faz você ser capturado por algo,
[00:22:51] fica ali, tendo uma certa experiência
[00:22:54] com relação àquilo. O que é
[00:22:56] essa experiência? Aí vai depender
[00:22:57] da intenção do artista e desse
[00:22:59] encontro, daquela obra de arte com
[00:23:01] você, né? Com a sua subjetividade,
[00:23:04] enfim. Quando você
[00:23:05] cliva
[00:23:07] esse, esse,
[00:23:10] esse, quando você impede
[00:23:12] esse processo, né? Que é o que tá
[00:23:13] em jogo aqui, é…
[00:23:15] você não cria uma relação de
[00:23:17] contemplação da arte. Muito pelo contrário, você cria
[00:23:19] uma relação de devoção.
[00:23:21] Porque, quando…
[00:23:24] devoção no sentido religioso clássico,
[00:23:25] aqui eu tô, enfim,
[00:23:27] no sentido cristão da coisa, porque
[00:23:29] quando… não pode existir,
[00:23:32] por exemplo, no Velho
[00:23:34] Testamento, no Novo Testamento,
[00:23:35] uma contradição entre a figura de Cristo e a figura
[00:23:38] dos católicos, né?
[00:23:40] Os católicos devem ser como Cristo,
[00:23:42] né? Eles devem ter, eles têm
[00:23:44] como objetivo ser como aquele sujeito,
[00:23:46] ou têm como objetivo ser
[00:23:48] a imagem, semelhança de Deus.
[00:23:50] Tá lá na Bíblia, não sou eu que tô inventando essa história.
[00:23:52] Né? Então, aqui, o que a gente tá
[00:23:54] criando, digamos, é uma espécie de
[00:23:55] cristianização… não, é uma
[00:23:58] péssima palavra. É uma espécie de relação
[00:24:00] de devoção com os produtos culturais
[00:24:02] que a gente já via
[00:24:04] antecipada na
[00:24:06] imagem dos heróis.
[00:24:08] Galera, nesse momento, eu falo assim,
[00:24:09] porra, Orlando, toma aí 200 merréis.
[00:24:12] Cara, não, é por isso que eu faço podcast
[00:24:14] contigo, e… mas não, mas
[00:24:15] saca só, eu vou pegar a bola e continuar
[00:24:18] com a torreta. Vai lá, não vai sair pra fora do campo,
[00:24:20] não, hein? Não, não, não.
[00:24:22] Acho, é muito apta essa
[00:24:24] observação da
[00:24:26] relação de devoção. Por quê?
[00:24:28] Porque aqui a gente tem dois exemplos
[00:24:30] de criadores
[00:24:32] que são botados em uma posição
[00:24:34] de devoção por aqueles que consomem
[00:24:36] seus produtos e gostam,
[00:24:38] que é gerada exatamente
[00:24:40] pelo sistema
[00:24:41] mercantil no qual
[00:24:43] tá inserida essa arte toda.
[00:24:46] Que é o seguinte, a visão de que
[00:24:47] o artista é um cara muito especial,
[00:24:50] de que você é um mero consumidor
[00:24:52] da arte, e o produtor da arte
[00:24:54] ele é diferente de você, ele é esse herói
[00:24:56] que consegue, apesar de tudo,
[00:24:58] ir lá e fazer esse filme,
[00:25:00] que foi um puta esforço, e que é uma
[00:25:02] ideia única, e que, porra, é uma mente
[00:25:04] brilhante. Isso tudo
[00:25:06] existe por causa da escassez de recursos
[00:25:08] no capitalismo.
[00:25:10] O capitalismo precisa que pouca gente produza
[00:25:12] filmes, pra milhões de
[00:25:14] pessoas verem e pagarem, né?
[00:25:16] E assim concentrar o capital na mão das poucas
[00:25:18] pessoas que podem fazer filmes pra mar.
[00:25:20] É, na verdade, as poucas produtoras, né?
[00:25:22] Exato, é, exato. Mas assim,
[00:25:24] são poucas pessoas também, se você parar pra pensar,
[00:25:26] porque assim, tem vários diretores trabalhando
[00:25:28] pra Warner, mas mesmo assim, perto dos 7
[00:25:30] bilhões de pessoas que tem no mundo, e aí
[00:25:32] fica essa visão. A gente tem, a gente é muito
[00:25:34] treinado pra ter essa visão de que, tipo,
[00:25:35] a arte é uma coisa que poucas pessoas fazem,
[00:25:38] e a gente tem o direito
[00:25:40] de consumir, enquanto
[00:25:41] consumidor. E aí
[00:25:44] você cria essa mesma relação
[00:25:45] que o próprio Snyder tem com o
[00:25:48] super-homem e o Batman lá no filme que ele faz,
[00:25:50] tipo, ah, esses deuses muito mais
[00:25:51] gloriosos, importantes que a humanidade.
[00:25:53] Os filmes do Zack Snyder não olham pros seres humanos,
[00:25:55] não gostam de gente. E, porque
[00:25:57] ele tá muito ocupado admirando aqueles deuses,
[00:25:59] sejam eles o super-homem, o Leônidas, ou
[00:26:01] quem quer que seja. Ou os
[00:26:03] heróis do Watchmen e tudo mais.
[00:26:07] Ele
[00:26:07] não tem empatia nenhuma pelo
[00:26:09] ser humano, porque ele, de alguma
[00:26:11] maneira, se enxerga como os heróis,
[00:26:14] não como o ser humano.
[00:26:16] E uma coisa que a gente discutiu aqui
[00:26:17] antes de começar a gravar, que eu trouxe essa informação pra o Lanta,
[00:26:20] também, que é, esse homem é extremamente
[00:26:21] fã da filosofia de Ayn Rand,
[00:26:23] que explica totalmente ele
[00:26:25] ter um desdém pelo seu
[00:26:27] colega, camarada, companheiro
[00:26:30] ser humano, e achar que ele é
[00:26:31] o super-homem do cinema.
[00:26:33] E, eu diria,
[00:26:36] não é coincidência que
[00:26:37] tanto o Nightbreed, o filme do Clive Barker, quanto
[00:26:39] o filme do Zack Snyder, tratam
[00:26:42] os heróis como
[00:26:43] deuses ou adjacentes a divindades.
[00:26:47] Pessoas que
[00:26:47] são mais que humanas.
[00:26:50] E que, né, são mais difíceis de
[00:26:51] matar. E que tem uma conexão com o
[00:26:54] divino muito mais próxima do que
[00:26:55] os meros mortais. E que, aquele
[00:26:57] que consegue ascender
[00:26:59] aquela posição, é um
[00:27:01] escolhido. E que, a própria,
[00:27:04] né, o interesse
[00:27:05] romântico do Nightbreed, não quer
[00:27:07] mais ser humano. A partir do momento que ela sabe
[00:27:09] que o amor da vida
[00:27:11] dela é mais do que humano,
[00:27:14] ela acha um jeito de também
[00:27:15] sê-lo. Né? E
[00:27:17] o filme do Clive Barker, ele é
[00:27:20] sobre como, tipo, olha, na verdade,
[00:27:22] os monstros feios e
[00:27:23] tradicionalmente grotescos, na verdade
[00:27:26] são, primeiro, as vítimas
[00:27:28] e depois os heróis triunfantes aqui
[00:27:29] que lutam pela própria sobrevivência.
[00:27:32] Que tem um certo paralelo com Avatar e
[00:27:33] O Último dos Moicanos e tudo mais, do Salvador
[00:27:35] Branco que vem e tudo mais. Mas,
[00:27:38] além disso,
[00:27:39] todos os seres humanos
[00:27:42] que a gente vê, além do protagonista,
[00:27:44] que não é humano, né, a gente vem a
[00:27:45] descobrir, são grotescos e
[00:27:48] vilões e toda…
[00:27:50] Não há ninguém naquele filme
[00:27:51] que exista pra ser
[00:27:54] algo além
[00:27:56] de vítima, totalmente
[00:27:58] incapaz de perceber o que está
[00:28:00] acontecendo, ou
[00:28:01] o ser humano
[00:28:03] americano, médio, sádico, que vê
[00:28:06] tudo que não é exatamente igual a si
[00:28:07] como uma ameaça à sua vida
[00:28:09] e vira um assassino
[00:28:12] psicopata pra
[00:28:13] defender aquilo que ele vê como normal.
[00:28:16] Tem várias coisas aí.
[00:28:18] Inclusive, pra contextualizar pro
[00:28:19] ouvinte, né, Don Rand, é
[00:28:21] basicamente a base de uma
[00:28:23] perversão
[00:28:26] da filosofia anarquista
[00:28:28] que cai dentro de um
[00:28:30] individualismo extremo,
[00:28:32] basicamente,
[00:28:34] uma defesa das
[00:28:36] pulsões individuais sobre todas as outras
[00:28:38] e que é
[00:28:40] muito utilizada pelos anarcocapitalistas
[00:28:42] e, enfim,
[00:28:44] anarcocapitalismo
[00:28:46] é um desses
[00:28:47] oxymoros impossíveis.
[00:28:49] Você acredita nisso? Meu querido, tá errado.
[00:28:52] Não tem relativismo, não.
[00:28:55] Mas, assim,
[00:28:57] tem uma coisa que é interessante,
[00:28:59] porque, por exemplo, eu nunca consegui, eu fui tentar
[00:29:01] ver, já deixei
[00:29:03] várias vezes claro aqui, eu sou muito fã
[00:29:05] de quadrinhos, especialmente
[00:29:07] DC. E mesmo assim a gente gosta de você.
[00:29:10] Eu sei, pode ver como é que são as coisas,
[00:29:12] né, meu querido? Todo mundo precisa de um
[00:29:13] defeito.
[00:29:16] Eu tenho vários.
[00:29:18] Mas, enfim.
[00:29:19] É, assim,
[00:29:24] eu gosto de Superman. Gosto bastante
[00:29:25] da ideia, do conceito de Superman.
[00:29:28] E aí eu fui assistir o filme, né,
[00:29:30] do Superman, do primeiro, lá, do
[00:29:31] Snyder, e é uma coisa que me chamou uma…
[00:29:34] A primeira coisa que me chamou a atenção é
[00:29:35] todo aquele embate que o Superman tem com
[00:29:37] o Zod, né, com o seu algoz
[00:29:39] e…
[00:29:41] destruindo a cidade toda, totalmente
[00:29:43] totalmente
[00:29:45] a moda caralha.
[00:29:48] Totalmente, tamo nem aí,
[00:29:49] cara. Sabe? O quanto as pessoas foram
[00:29:51] mortas naquela brincadeira, tanto que depois vira o plot
[00:29:53] dos outros filmes, né, subsequentes disso.
[00:29:55] E aí tu fala disso, né, o quanto
[00:29:57] essa…
[00:29:59] Tanto essa filosofia, quanto
[00:30:01] a escolha estética
[00:30:03] desses diretores, e como
[00:30:05] todo esse contexto também parte daí,
[00:30:08] é representativo disso, né?
[00:30:09] Você tem ali o Superman lutando
[00:30:11] contra o seu inimigo, ele não tá nem se importando
[00:30:13] das consequências daquela luta.
[00:30:15] Ele não tá nem se importando das consequências pra vida das pessoas ao redor.
[00:30:17] Tudo que lhe importa, e,
[00:30:19] pro personagem, e pro diretor,
[00:30:22] enquanto escolha estética, é mostrar
[00:30:23] aquela luta. Não é pensar
[00:30:25] o contexto daquilo com tudo que está
[00:30:27] ao seu redor, né, como aquilo impacta
[00:30:29] o universo, de fato.
[00:30:31] Que é uma coisa que nos faz
[00:30:32] que a gente não se conecte
[00:30:35] com aquilo. Pelo menos eu não me conecto
[00:30:37] com aquilo, porque, enfim, a grande…
[00:30:39] E que acontece em menor escala no próprio Liga da Justiça,
[00:30:41] né? Naquele começo em que
[00:30:43] a Mulher Maravilha decide explodir
[00:30:45] metade de um prédio histórico
[00:30:47] só pra matar uma pessoa que ela podia…
[00:30:49] Podia ter facilmente desarmado. Sim, não!
[00:30:51] E aí tem aquela cena que você
[00:30:53] levantou, né, que a menininha vira pra ela
[00:30:55] quando eu crescer eu posso ser como você
[00:30:57] aí ela vira e fala, ah, você pode ser o que
[00:30:59] você quiser. Não! Você é uma deusa!
[00:31:02] Não! Exato! A diegésia do filme
[00:31:03] deixa claro que nenhum de nós pode ser como ele.
[00:31:05] Sim! O nosso lugar é aqui sentado
[00:31:07] admirando de boca aberta.
[00:31:09] Pois é, né? Então, assim,
[00:31:11] esse tipo de construção
[00:31:13] é, ao mesmo tempo, uma construção
[00:31:15] estética do diretor, uma escolha
[00:31:17] do diretor, e
[00:31:19] ao mesmo tempo tá presente na diegésia
[00:31:22] porque fica explícito
[00:31:23] ali, né, nos personagens,
[00:31:25] e ao mesmo tempo isso reflete
[00:31:27] um ambiente do mundo, né?
[00:31:29] Esse ambiente capitalista que pra existir
[00:31:32] você tem que ter um número
[00:31:33] reduzido de pessoas que são privilegiadas
[00:31:35] de fato, e
[00:31:37] um número imenso de pessoas
[00:31:39] cuja vida existe
[00:31:41] para dar vazão
[00:31:43] à vida dessas pessoas que estão na ponta.
[00:31:46] Basicamente,
[00:31:47] estamos em um mundo de heróis.
[00:31:49] Né? Um mundo onde
[00:31:50] que depende, né, que vende
[00:31:53] a ideia de um herói, os ricos são
[00:31:55] heróis, tanto que quando você vai ver
[00:31:56] essa mudança cultural da década de 90
[00:31:59] onde as pessoas
[00:32:01] começaram a se tornar celebridades só por serem ricas.
[00:32:04] Isso é uma coisa muito louca, né?
[00:32:05] Tipo assim, celebridade,
[00:32:06] celebridades, artistas que não fazem arte.
[00:32:09] Né? As pessoas simplesmente são ricas.
[00:32:11] As pessoas simplesmente são, tem seguidores,
[00:32:13] sabe? É a arte do empreendedorismo
[00:32:15] também, né? Porque nos anos 90 que, por exemplo,
[00:32:17] começa o culto ao Bill Gates
[00:32:19] e o Steve Jobs, assim. Ah, eles inventaram
[00:32:21] computador. É a coisa dos
[00:32:23] yuppies também, né? A cultura yuppie, né?
[00:32:25] A gente vai voltar aqui a falar pra
[00:32:27] a gente vai fazer um episódio mais
[00:32:29] específico sobre o
[00:32:31] psicopata americano, também conhecido como
[00:32:33] ex-namorado da Elaine.
[00:32:36] O…
[00:32:37] Cara, porque o psicopata
[00:32:39] americano, ele fala muito disso, né?
[00:32:41] De que como se criou uma cultura
[00:32:42] psicopata nos Estados Unidos, literalmente,
[00:32:45] né? E onde aqueles sujeitos eram meio que
[00:32:47] queirosos, aqueles
[00:32:49] o Patrick
[00:32:50] Bittman, como é que é? Bittman. Bittman, é.
[00:32:53] Bittman. Ele tinha uma relação, ele era
[00:32:54] endeusado, lembra disso? Pela sua secretária.
[00:32:58] Sabe? Sim. Tipo, ele tem uma, ele
[00:32:59] andava tal como um
[00:33:01] deus ali pela, por Manhattan.
[00:33:04] Né? Então, assim,
[00:33:05] essa estética não é uma, não é
[00:33:07] coincidência. Esse que é um ponto que eu acho que é crucial.
[00:33:09] Então, vamos lá. Desenhar melhor
[00:33:11] aqui. A gente vive num mundo, o
[00:33:13] capitalismo é o mundo dos heróis.
[00:33:15] O capitalismo, ele parte de um pressuposto
[00:33:17] que você tem que ter heróis, ou seja, pessoas que
[00:33:19] são apartadas dos demais,
[00:33:21] mas, ao mesmo tempo, são
[00:33:22] como se fossem
[00:33:27] propagandas daquele estilo
[00:33:29] de vida, né? Como se fossem uma
[00:33:30] conjunção de todos aqueles valores
[00:33:32] e os demais, né?
[00:33:35] E, assim, quando a gente vai olhar pra essas
[00:33:37] obras culturais, a gente tá vendo
[00:33:39] exatamente essa
[00:33:40] relação, né? Você tem
[00:33:42] um filme feito por heróis, para heróis,
[00:33:45] né? E aí você tá
[00:33:47] difundindo esse pensamento.
[00:33:49] Pelas pessoas. E, por isso,
[00:33:51] mais uma vez, que se desenha essa ideia
[00:33:53] de que não pode haver
[00:33:55] contradição entre
[00:33:57] o herói
[00:33:59] ou esse tipo de objeto cultural
[00:34:01] e a massa. Por que que
[00:34:03] acontece? Porque se há uma contradição,
[00:34:06] as pessoas simplesmente
[00:34:07] perdem o interesse. Ou, no caso dos
[00:34:09] heróis do capitalismo, simplesmente
[00:34:10] fazem uma revolução e mudam o sistema, né?
[00:34:13] Porque, basicamente, é isso que acontece. Quando você, com as
[00:34:15] monarquias, com algumas monarquias, não todas, né?
[00:34:18] Sim.
[00:34:19] E eu acho que…
[00:34:21] Nossa, peraí, peraí, peraí, peraí,
[00:34:23] Gustavo. A gente foi, a gente tá…
[00:34:25] Cara, esse…
[00:34:27] Ninguém podia imaginar. Nem a gente.
[00:34:29] Nem a gente. Quando a gente deu o player aqui, a gente não sabia
[00:34:30] que a gente ia chegar tão fundo hoje, velho. Não.
[00:34:32] Não. Mas eu acho que tudo mudou
[00:34:35] pra mim, o meu ponto de vista.
[00:34:37] O meu ponto de vista em si não mudou, mas a minha abordagem
[00:34:39] aqui desse nosso assunto
[00:34:41] hoje mudou totalmente ontem, quando
[00:34:43] eu achei esses paralelos entre como
[00:34:45] os fãs lidaram com Nightbreed
[00:34:46] e como eles lidaram com Snyder Cut.
[00:34:49] Porque antes era mais um
[00:34:50] paralelo temático só, né?
[00:34:52] Mas eu acho que a gente vai ter que parar e explicar melhor, porque
[00:34:54] o Snyder… O Liga da Justiça, a gente meio que sabe,
[00:34:56] todo mundo meio que sabe o que é e tal, mas a gente pode
[00:34:58] explicar um pouco melhor, só muito
[00:35:00] rápido. Mas o Nightbreed, eu imagino
[00:35:02] que, se tiver dez
[00:35:04] pessoas que assistiram esse filme aqui, entre
[00:35:06] nossos ouvintes, vai ser bastante, hein, cara?
[00:35:08] E são dez sofredores. Dez sofredores.
[00:35:11] Dez sofredores. Então acho que vai ter que parar e explicar
[00:35:12] o filme. Então conta pra gente, você que ama
[00:35:14] esse filme mais do que ele merece…
[00:35:16] É muito mais, eu vou te explicar o motivo.
[00:35:19] Tá. Então
[00:35:20] contextualiza pra galera. Cara,
[00:35:23] o Nightbreed,
[00:35:25] ele é um filme feito pelo Clive Barker,
[00:35:27] que é um escritor
[00:35:28] de terror, né, e que ficou mais
[00:35:31] conhecido pelo filme Hellraiser,
[00:35:33] né, o Renascido do Inferno, enfim.
[00:35:35] Que tem um pinhead, aquele do vilãozinho
[00:35:36] com os… Um vilão clássico. Um vilãozinho
[00:35:39] que faz acupuntura. Que faz acupuntura…
[00:35:41] Extreme acupuntura, né?
[00:35:42] Extreme acupuntura facial. É, e assim,
[00:35:45] que é um personagem
[00:35:46] clássico e tal.
[00:35:49] Do universo do terror. Então o segundo filme que ele vai
[00:35:50] dirigir, por conta do sucesso
[00:35:52] que foi o Hellraiser, foi o
[00:35:55] Nightbreed.
[00:35:56] Que era baseado numa outra obra dele,
[00:35:59] né, que se chama Cabal, um livro.
[00:36:01] É, um conto. É, e aí
[00:36:02] o que acontece? Nesse…
[00:36:04] Nesse mundo
[00:36:06] existe uma cidade chamada Midian
[00:36:08] que basicamente vive…
[00:36:10] É um submundo de um
[00:36:12] cemitério, né? É o subterrâneo de um cemitério
[00:36:15] onde
[00:36:15] sobreviventes das
[00:36:18] antigas raças,
[00:36:21] ou seja, das antigas raças que foram
[00:36:22] mortas e destruídas pelos humanos,
[00:36:25] se refugiaram, né,
[00:36:27] pra viver numa sociedade
[00:36:28] meio que utópica, escondida.
[00:36:30] Quando eu digo antigas raças, são pessoas que…
[00:36:33] É, metamorfos,
[00:36:35] licantropos,
[00:36:36] pessoas que possuem algum tipo
[00:36:38] de, aos olhos dos
[00:36:40] humanos, deformidades, né, e tal.
[00:36:43] Então, assim, todos eles vivem
[00:36:44] nessa espécie de sub-sociedade
[00:36:46] e aí o conto inteiro,
[00:36:48] o filme inteiro, se baseia
[00:36:50] na…
[00:36:52] Eu sempre esqueço o nome dele, você acabou de ver agora,
[00:36:54] é o Cabal, mas quando eu lembro o nome dele,
[00:36:56] o nome original.
[00:36:59] Boone, Aaron Boone.
[00:37:01] Nossa, que nome lindo, né?
[00:37:03] E que esse sujeito
[00:37:04] que sofria de alguns sonhos,
[00:37:07] ele é manipulado
[00:37:08] pelo seu
[00:37:10] psiquiatra a acreditar
[00:37:12] que ele é um serial
[00:37:14] killer. Um detalhe interessante,
[00:37:16] né, que o psiquiatra dele é o…
[00:37:18] O David Cronenberg, né, o diretor.
[00:37:21] E aí ele vai procurar
[00:37:22] refúgio entre esses
[00:37:24] seres e acaba por lá.
[00:37:27] Basicamente o filme é isso, e aí
[00:37:28] em algum momento se cria
[00:37:30] uma espécie de guerra entre os humanos
[00:37:32] e esses seres.
[00:37:35] O filme é cheio de
[00:37:36] buraco, já deixo avisado
[00:37:38] pra quem quiser assistir.
[00:37:40] Os efeitos especiais,
[00:37:42] muitos envelheceram muito mal,
[00:37:44] naquele estilo de efeitos especiais do começo dos anos
[00:37:46] 90, mas ainda alguns
[00:37:48] são bem legais, como por exemplo
[00:37:50] aquele cara que tem os dreads,
[00:37:52] ele se transformando, aquilo é bem legal.
[00:37:55] Tem uma coisa que é interessante
[00:37:57] dos filmes do Clive Barker, que ele tem um mood,
[00:37:59] né, ele tem um clima muito bom,
[00:38:00] um clima meio sombrio.
[00:38:02] E tem uma coisa, assim,
[00:38:04] só que a relação
[00:38:07] que eu tenho com esse filme, que o Gays fala que eu gosto
[00:38:08] muito desse filme, é porque eu passei
[00:38:10] anos da minha vida
[00:38:11] apaixonado por esse filme, sem nunca tê-lo visto,
[00:38:15] porque…
[00:38:16] Aí, ó, a idealização do filme que você nunca viu.
[00:38:18] Mas o meu filme continua sendo
[00:38:20] muito melhor do que o filme que foi pro AI, e eu tô nem aí.
[00:38:23] O Calheiros Cut, que só existe
[00:38:24] na sua cabeça, é o melhor corte.
[00:38:26] E eu não quero que seja feito outro.
[00:38:29] Eu faço uma aventura de RPG, se eu quiser
[00:38:30] fazer isso. Porque, assim,
[00:38:32] aquilo que eu tava falando no episódio de Seinfeld,
[00:38:35] na época, os produtos culturais
[00:38:36] não chegavam fechados aqui. A gente, às vezes,
[00:38:38] tinha acesso a alguns pequenos fragmentos
[00:38:40] dele. O primeiro acesso que eu tive
[00:38:42] a esse filme foi um
[00:38:44] álbum de figurinhas, que foi vendido aqui no Brasil,
[00:38:47] que você comprava os bichinhos,
[00:38:48] e tal, os pacotinhos.
[00:38:51] E eu…
[00:38:52] Meu pai trazia do trabalho.
[00:38:54] Nem vendia aqui em Padre Miguel.
[00:38:56] Meu pai trazia do centro do Rio.
[00:38:58] Ele comprava os pacotinhos que eu via
[00:39:00] e colecionava aqueles monstros.
[00:39:02] E, cara, eu pirava na história daquilo.
[00:39:04] Eu sabia que era um filme, mas não sabia a história.
[00:39:06] Eu só fui assistir esse filme no final da minha adolescência,
[00:39:08] quando eu achei em DVD numa locadora.
[00:39:10] E o filme era completamente diferente
[00:39:12] do que eu imaginava. Mas, assim,
[00:39:14] não é pouco diferente. Era muito diferente.
[00:39:16] Era outro filme. Sim, ele só é a estética
[00:39:18] que você via nas figurinhas. Sim, sim.
[00:39:20] Pronto, assim. Eu acho o filme
[00:39:22] bem fraco, mas vale a pena
[00:39:24] ver. É uma diversão descompromissada.
[00:39:26] É melhor do que o Snyder’s Cut,
[00:39:28] momento de polêmica. Sim, sim.
[00:39:30] Não, mas não tem nenhuma polêmica.
[00:39:31] Só o fato de não durar quatro horas, como a gente bem conversou,
[00:39:34] já torna ele mais fácil de entrar.
[00:39:35] É melhor dirigido. E olha que o Clive Barker não é um bom diretor.
[00:39:40] Não, ele é um péssimo diretor.
[00:39:43] Bom, já que você falou do Clive Barker
[00:39:44] ser um péssimo diretor, eu vou entrar
[00:39:45] em outro paralelo aqui que eu sinto vendo,
[00:39:48] o trabalho do Snyder e do Clive Barker,
[00:39:50] que é o seguinte.
[00:39:51] A sensibilidade artística de ambos
[00:39:54] me lembra
[00:39:55] eu com 13 anos, ouvindo
[00:39:58] Korn e Marilyn Manson desenhando
[00:40:00] pentagrama no caderno da escola. Vai que eu tenho um ponto
[00:40:02] sobre isso aí, vai lá. Vai que eu tenho um ponto sobre isso.
[00:40:04] Eu acho que eles
[00:40:06] têm a sensibilidade estética
[00:40:08] de um adolescente
[00:40:10] gótico revoltado.
[00:40:12] Eu acho que é por isso que o Snyder
[00:40:14] gosta do filme quase sem cor, com o super-homem
[00:40:16] de roupa preta, que
[00:40:18] mata e não liga pra ninguém.
[00:40:20] O Batman que usa arma, porque ele não pode
[00:40:22] usar o spawn na Liga da Justiça.
[00:40:24] Então ele bota o
[00:40:26] Batman pra usar arma e matar gente.
[00:40:28] E o Clive Barker, ele vai pro outro lado,
[00:40:30] que é o
[00:40:32] do satanismo BDSM,
[00:40:34] que, beleza,
[00:40:36] é um pouco mais maduro
[00:40:38] do que a visão do Snyder.
[00:40:39] Eu diria pra você que é um bem mais maduro.
[00:40:42] Você tá usando definições de
[00:40:44] maduro diferentes das minhas, mas aí…
[00:40:46] Eu…
[00:40:48] Eu vejo que
[00:40:49] toda a substância
[00:40:52] que podia estar por trás
[00:40:54] do Barker no…
[00:40:56] No Hellraiser, né?
[00:40:58] E nos…
[00:40:59] Como é que é o…
[00:41:01] Como é que é o nome da raça lá?
[00:41:05] Dos…
[00:41:06] Dos Cenobitas.
[00:41:07] Tem toda uma análise
[00:41:10] que você pode fazer dos Cenobitas e tal, não sei o quê,
[00:41:12] sobre os excluídos e a
[00:41:14] contracultura e blá blá blá,
[00:41:16] que o Nightbreach tenta fazer…
[00:41:18] Ahm…
[00:41:21] Sem sutileza nenhuma.
[00:41:22] Sem subtexto.
[00:41:22] Sim, sem subtexto.
[00:41:23] We are the freaks!
[00:41:25] É horrível quando você faz uma referência a um filme,
[00:41:28] né, mesmo sem querer,
[00:41:30] que é melhor do que o filme que você tá vendo.
[00:41:31] Porque aí eu imediatamente fiquei de, porra, eu podia estar vendo Freaks,
[00:41:34] tá ligado? Um filme de 50
[00:41:36] anos antes, que é muito melhor,
[00:41:38] e é sobre essa questão de verdade. Não usa
[00:41:40] essa questão como um pano de fundo.
[00:41:41] Porque aí o que acontece, o Nightbreach deixa claro pra mim
[00:41:44] a relação do Clive Barker com aquilo, que é só, tipo,
[00:41:46] é uma estética. E é uma estética que eu vou
[00:41:48] usar pro que eu quiser.
[00:41:50] E aí, de novo,
[00:41:52] misturado com uma falta de
[00:41:54] noção de nada. Então, assim,
[00:41:56] a coisa que você tava conversando comigo ontem,
[00:41:58] do, ah, o herói é aquele tradicional
[00:41:59] look anos 90, calça jeans, bota
[00:42:02] de couro, camiseta branca e jaqueta de
[00:42:04] couro. Claro, porque o Clive Barker, tipo,
[00:42:06] não tem uma ideia do que tem que ser.
[00:42:08] Então, ah, bota o herói mais genérico possível.
[00:42:09] Exatamente o herói que seria em tudo
[00:42:11] naquela década ali, tipo, né, o renegado.
[00:42:14] O renegado, nossa, a primeira coisa que eu me lembrei foi do renegado.
[00:42:16] Exato, Lourenço Lamas, grande,
[00:42:18] grande. E, então,
[00:42:19] e aquele tipo de protagonista muito
[00:42:21] notório daquela época, que é o homem que tem
[00:42:23] a cabeça três vezes maior do que ele deveria.
[00:42:26] Uhum, uhum.
[00:42:27] E aí, ele pega, e aí
[00:42:30] ele não dá profundidade nenhuma
[00:42:32] pra aqueles, pra aqueles
[00:42:33] vilões, eles só não são os, não, pros monstros,
[00:42:36] eles só não são os vilões.
[00:42:37] Porque ele vai lá e faz caricaturas
[00:42:39] ainda mais sádicas
[00:42:42] e estranhas dos
[00:42:44] humanos, né, pra, tipo,
[00:42:46] bater com toda
[00:42:47] falta de sutileza
[00:42:50] possível. Os humanos são os vilões,
[00:42:52] os monstros, você acha que eles são feios
[00:42:53] e por isso eles são maus? Mas, na verdade, eles nem são maus.
[00:42:56] E, na verdade, não, eles são maus,
[00:42:58] só que eles só não são tão maus quanto os humanos
[00:43:00] naquele contexto, e
[00:43:02] é tudo tão…
[00:43:04] Parece que eu tô vendo o desenho animado
[00:43:06] mais longo que eu já vi, sabe? Tipo,
[00:43:08] é terrível.
[00:43:10] Isso. Cara,
[00:43:12] então, tem várias coisas aí. Assim, quando você
[00:43:14] fala da…
[00:43:16] Sabe o meme
[00:43:17] do How To Do Fellow Kids, né?
[00:43:19] Aí. É meio difícil recuperar isso
[00:43:21] hoje, né? Mas quando Hellraiser saiu,
[00:43:23] né, você pega o que que era
[00:43:25] o…
[00:43:27] o gênero do terror,
[00:43:29] né, o que que era o gênero de slasher,
[00:43:31] o que que era a literatura de terror,
[00:43:34] né, quando você pega
[00:43:35] o que que era o próprio universo do cinema,
[00:43:38] e o que que
[00:43:39] era a cultura estadunidense, e vai perceber
[00:43:41] que o Clive Barker ali, ele tava realmente
[00:43:43] sendo representante de uma
[00:43:45] cultura que era uma…
[00:43:47] Uma cultura marginalizada, né? Era aquele cenário
[00:43:49] BDSM, LGBTQ+,
[00:43:52] na época não se usava essa
[00:43:53] sigla, né?
[00:43:55] Era uma subcultura mesmo marginalizada.
[00:43:58] Era uma subcultura do…
[00:43:59] Era uma certa subcultura do…
[00:44:02] Não é mesmo a subcultura dos
[00:44:03] balls, né? Pra quem
[00:44:05] procure a referência Paris Burning,
[00:44:07] o documentário, né?
[00:44:10] Que vai dar origem
[00:44:11] às drag queens e tudo mais.
[00:44:14] Mas era algo ali
[00:44:15] que tangenciava, ou seja,
[00:44:17] ele era, de fato, um representante de uma
[00:44:19] subcultura marginalizada
[00:44:21] no mainstream estadunidense.
[00:44:23] Isso era uma coisa bem… E ele era
[00:44:25] abertamente homossexual, então tem uma série
[00:44:27] de questões aí.
[00:44:29] E tem uma… O Hellraiser,
[00:44:32] ele tem uma inversão do slasher,
[00:44:34] né? Ele faz uma inversão moral dos filmes
[00:44:35] de slasher, porque quem sabe os filmes de slasher
[00:44:37] são todos moralistas, né?
[00:44:39] São totalmente moralistas.
[00:44:41] As pessoas que fazem sexo morrem nos filmes.
[00:44:44] Ele vai lá e inverte
[00:44:45] essa história.
[00:44:47] Então, beleza. O fato de que isso
[00:44:50] se tornou tão mainstream
[00:44:51] ao ponto de ser considerado
[00:44:53] infantil por você…
[00:44:56] E não tô aqui te criticando
[00:44:57] por isso, não. Jamais.
[00:44:59] Eu te critico pelos motivos certos, Gustavo.
[00:45:03] Jamais pelos errados.
[00:45:05] Se eu critiquei é porque você mereceu.
[00:45:08] Então, assim…
[00:45:10] Lembro minha mãe falando agora.
[00:45:12] Nossa!
[00:45:13] Todo mundo envelhece pra virar a própria mãe.
[00:45:16] Mas, enfim.
[00:45:17] Aí o que acontece?
[00:45:19] Mas a questão é…
[00:45:21] Eu acho que é realmente uma questão de sensibilidade geracional.
[00:45:24] Pra mim, o grande
[00:45:25] problema é o
[00:45:27] Snyder estar fazendo isso
[00:45:29] hoje em dia. Sabe?
[00:45:31] Ter uma sensibilidade tão
[00:45:32] parecida quanto
[00:45:35] era naquela época.
[00:45:37] A sensibilidade dos anos 90. Ou seja, o sujeito parou
[00:45:39] ali nos anos 90. É tipo aquela galera
[00:45:41] que chega e fala assim, meu,
[00:45:43] depois que o Legião Urbana acabou, o rock
[00:45:45] nacional morreu.
[00:45:47] Bom. Assim, tipo…
[00:45:49] Cara, é a mesma porra, tá ligado?
[00:45:51] É a mesma história. Então, assim…
[00:45:53] Esse é um ponto.
[00:45:57] O outro ponto também. Tem uma questão de storytelling aí.
[00:46:00] Porque quando a gente vai assistir esses filmes
[00:46:01] antigos, sobretudo
[00:46:02] eu que assisti na época que eles saíram,
[00:46:06] alguns…
[00:46:07] Óbvio, minha maturidade
[00:46:09] enquanto espectador mudou e tudo mais, mas
[00:46:11] muito do que
[00:46:13] hoje em dia são soluções…
[00:46:16] Aquilo que você fala sempre, né?
[00:46:17] É… Ninguém sente o cheiro da própria
[00:46:19] casa, né? Na época a gente não sentia o cheiro
[00:46:21] daquilo. Hoje em dia, como é que o estilo de produção
[00:46:23] cinematográfica mudou,
[00:46:25] a gente vê os buracos daquilo.
[00:46:27] A gente vê os problemas. É a mesma coisa, por exemplo,
[00:46:29] muita gente assiste o Snyder’s Cut e não vê
[00:46:31] o problema de montagem que tem ali.
[00:46:33] O problema de construção de personagem. Porque
[00:46:35] ele tá totalmente… Aquele tipo
[00:46:37] de experiência, quase uma experiência
[00:46:39] de brinquedo
[00:46:41] da Disney, tá totalmente adequada
[00:46:43] à sensibilidade moderna, né?
[00:46:45] E eu acho que aí é um
[00:46:47] momento em que o fã do Snyder’s Cut
[00:46:49] e os Night Breeders
[00:46:51] se encontram
[00:46:53] em acharem que
[00:46:55] eles merecem menos do que merecem.
[00:46:57] Porque o que eu vi
[00:46:59] de gente elogiando o Snyder’s Cut
[00:47:01] só porque ele é melhor do que a versão do Joss Whedon,
[00:47:03] que eu não duvido, mas eu também não vou
[00:47:05] comprovar vendo.
[00:47:06] É incrível, porque assim, é tipo…
[00:47:09] Você ainda tá comendo cocô.
[00:47:11] Ele é só menos…
[00:47:14] Menos horrível
[00:47:15] do que o outro cocô que te deram pra comer.
[00:47:17] É… Sei lá…
[00:47:19] Que te deram não, que te venderam.
[00:47:20] É um tapa na cara ou…
[00:47:23] O que você prefere? Um soco na cara ou um soco no estômago?
[00:47:25] Sabe? Ah, qual é o que dói menos?
[00:47:28] É. Exatamente.
[00:47:28] Mas ainda se trata de um soco.
[00:47:30] E totalmente evitável.
[00:47:33] Você pode não ver esses filmes.
[00:47:36] Cara, o Nightbreed eu recomendo, gente.
[00:47:38] Sabe que o Nightbreed funciona?
[00:47:39] Para! Para!
[00:47:41] Vai ver Hellraiser, gente. Hellraiser é bom.
[00:47:43] Pega toda a trilogia do…
[00:47:45] Toda a trilogia do Clive Barker.
[00:47:47] O Hellraiser, o Nightbreed e o outro é o…
[00:47:50] Eu tô com pescador de ilusões.
[00:47:52] Mestre das ilusões.
[00:47:53] São os três filmes do Clive Barker.
[00:47:56] Não precisa ver…
[00:47:57] Se você quiser entender qual é a do Clive Barker,
[00:47:59] você vai ali numa
[00:48:02] livraria online
[00:48:04] e você compra um livro de arte
[00:48:05] do H.R. Giger
[00:48:07] e aí você fala assim, ah, e aí o…
[00:48:09] o Clive Barker queria fazer a mesma coisa.
[00:48:13] Eu acho que eles são
[00:48:14] confluentes.
[00:48:14] Não… Acho que eles estavam ali no mesmo…
[00:48:17] no mesmo lugar, curtindo as mesmas
[00:48:19] baladas e tal, mas
[00:48:21] sabe porque eu… Por exemplo,
[00:48:23] aí que tá o ponto. Eu acho que, por exemplo,
[00:48:25] o Barker, ele funciona
[00:48:27] numa assistida
[00:48:29] descompromissada. Pega uma
[00:48:31] pipoca, né,
[00:48:33] chama o broto,
[00:48:35] chama… O broto é ótimo.
[00:48:36] Eu fiquei extremamente irritado.
[00:48:39] Achei supim para a sua referência.
[00:48:41] Mas eu acho que não.
[00:48:43] Eu acho que…
[00:48:44] Me distraiu da minha pipoca.
[00:48:47] O quê?
[00:48:48] Me distraiu da minha pipoca.
[00:48:51] Fiquei revoltado com o que eu tava assistindo.
[00:48:53] E preferia muito mais
[00:48:55] estar vendo Hellraiser. O filme inteiro,
[00:48:57] os designs dos monstros são
[00:48:58] piores do que os do Hellraiser.
[00:49:01] A história é pior que a do Hellraiser.
[00:49:04] O tempo que você
[00:49:05] dá pro discurso
[00:49:07] daqueles que são os queridinhos
[00:49:09] do Barker, que são sempre os freaks,
[00:49:12] é pior nesse, porque
[00:49:13] nesse, na verdade, eles são só
[00:49:15] objetos para serem resgatados pelo herói.
[00:49:17] Quando, na verdade, você tem os
[00:49:19] cenobitas como, tipo,
[00:49:21] os grandes faladores da verdade ali no
[00:49:23] Hellraiser, de tipo, ei…
[00:49:24] Anjos para um, demônios para outros.
[00:49:27] Exato. E é tipo assim, qual é o nosso crime?
[00:49:28] O nosso crime é que a gente ama a dor
[00:49:31] e a gente quer fazer o que a gente ama. E a gente é, no final das contas,
[00:49:33] só hedonistas.
[00:49:35] E quem tem um problema com isso é quem quer manter
[00:49:37] a sociedade capitalista.
[00:49:39] Qual é a verdadeira tortura? Estar vivo
[00:49:41] nessa sociedade ou eu me fincando aqui com as agulhas?
[00:49:43] Mas tu já viu assistir o Hellraiser há pouco tempo?
[00:49:46] Não, faz muito tempo.
[00:49:47] Não, o Hellraiser é um filme cheio de problemas.
[00:49:49] Cheio de problemas de montagem, direção,
[00:49:51] pá pá pá, é…
[00:49:53] Assim…
[00:49:54] Tal qual o Nightbreed, só que ele tá tentando fazer algo um pouco
[00:49:57] mais interessante, então pelo menos isso.
[00:49:58] Sim, é porque eu acho que o Nightbreed sofreu daquela questão
[00:50:01] do diretor que fez sucesso.
[00:50:04] Sim.
[00:50:04] Se colocou muita responsabilidade.
[00:50:06] Eu não acho, deixando claro, eu não acho
[00:50:09] Nightbreed um bom filme, mas eu acho
[00:50:11] que ele pode ser uma audiência
[00:50:13] divertida
[00:50:15] se você tá simplesmente vendo ali
[00:50:17] fazendo outra coisa com
[00:50:19] com broto, sabe?
[00:50:22] Tipo…
[00:50:22] Coitado do seu broto, é isso que eu fico pensando nessas horas.
[00:50:24] A brota é boa porque ela é unissex, né?
[00:50:27] Sim, não, mas coitado do seu broto, é isso que eu fico pensando.
[00:50:29] Não, mas tá todo mundo ali na diversão, ali,
[00:50:31] pô, vendo… Cara, a gente fazia
[00:50:33] muito filme, sessão de filme trash, assim,
[00:50:35] né, cara? Assim…
[00:50:36] Sim, não, mas eu venho da mesma tradição
[00:50:39] que você, Orlando, de novo, e eu tô falando assim,
[00:50:41] há trashes e trashes, há jeitos
[00:50:43] e jeitos de gastar o meu tempo.
[00:50:45] Eu acho que você tá amargurado pelo…
[00:50:46] Eu sou contra,
[00:50:47] você ver… Eu sou contra você ver
[00:50:49] o Snyder Cut de 4 horas? Sou.
[00:50:51] Eu sou contra você ver Nightbreed?
[00:50:53] Sou. Menos do que o Snyder? Sim.
[00:50:56] Mas…
[00:50:56] A favor de ver Nightbreed, não seja o CHC.
[00:50:59] A favor. Eu sou a favor de ver Hellraiser.
[00:51:01] Eu já não iria… Mas o outro
[00:51:03] filme do Clive Barker, aqui, só pra…
[00:51:05] Mas vamos voltar pro tema, o Mestre das Ilusões,
[00:51:07] ele é melhor que Nightbreed,
[00:51:09] mas eu… Eu acho que eu nunca vi.
[00:51:10] É um filme pouco visto, foi o último filme que ele fez,
[00:51:13] depois ele teve um problema de saúde
[00:51:15] muito grave e tal, mas o…
[00:51:17] É o último filme que ele fez, o último filme que ele fez.
[00:51:19] Sabe um filme que eu nunca vi e que eu tenho
[00:51:21] um bonequinho pendurado na parede
[00:51:23] só porque eu acho a estética muito legal e eu nunca vi
[00:51:25] esse filme e talvez você tenha visto, você pode me dizer
[00:51:27] agora se vale ou não?
[00:51:29] Puppet Master.
[00:51:31] Puppet Master. Tô tentando lembrar se vale a pena
[00:51:33] ou não, já vi.
[00:51:34] É uma trecheira dessa época aí. Sim, sim, não.
[00:51:37] Eu vi, eu vi. Eu tô tentando lembrar
[00:51:39] se vale a pena ou não, mas não vou saber responder.
[00:51:41] Porque, por exemplo, tem o
[00:51:43] Candyman, que… Candyman é muito bom.
[00:51:45] Muito bom, muito bom.
[00:51:47] E é um filme que saiu nessa
[00:51:49] mesma época, né, cara? Sim, ele é
[00:51:51] uma trecheira bem dessa
[00:51:52] leva.
[00:51:55] Leprechaun tem vários bons.
[00:51:58] Trolls 2
[00:51:59] é muito bom.
[00:52:02] É, mas aí a gente já tá chegando
[00:52:03] no nível The Room da coisa. Talvez um dia
[00:52:05] a gente faça um episódio The Room.
[00:52:07] Não, não tem substância. Mas vamos voltar
[00:52:09] aqui pro ponto
[00:52:11] em tela, porque já estamos quase uma hora de podcast.
[00:52:14] Eu acho, assim, que…
[00:52:16] Mas isso é
[00:52:17] interessante que você falou dessa coisa de
[00:52:19] pra você, o Nightbreach soa
[00:52:21] muito infantil. E
[00:52:23] de fato, assistindo hoje, com as lentes
[00:52:25] de hoje, é um filme infantil. É um filme que não tem
[00:52:27] subtexto. O famoso subtexto
[00:52:29] é pra covardes, né? Sim.
[00:52:32] Ele é um filme total.
[00:52:33] Ele é total. Enquanto o Hellrise,
[00:52:35] você fala, é, existe um subtexto aqui e tal.
[00:52:37] Mas esse aqui não tem nenhum. Zero.
[00:52:40] Zero. Você sabe de mantimão quais são
[00:52:41] as motivações dos personagens. São muito claras, né?
[00:52:44] Na verdade, assim,
[00:52:45] não tem…
[00:52:47] Os personagens nem tem motivação.
[00:52:49] A única personagem que tem motivação é a
[00:52:51] namorada, a esposa do Boomer.
[00:52:53] O Boomer, Boom. É, Boomer?
[00:52:56] Boom, Boom. Boom.
[00:52:57] Que é o cabal. É, o cabal.
[00:52:59] A única pessoa que tem uma motivação é ela, né?
[00:53:02] E a gente tem que
[00:53:03] aturar ela
[00:53:04] cantando duas vezes. Uma vez nos créditos,
[00:53:07] uma vez durante o filme, no corte do diretor.
[00:53:09] É, pelo menos a música é legal.
[00:53:15] Eu vou estar dando…
[00:53:17] Eu vou estar dando…
[00:53:17] Eu vou estar dando…
[00:53:17] Eu vou estar dando uma descordadinha, assim, de leve.
[00:53:19] De leve.
[00:53:20] Eu diverti. Eu fiquei estalando o dedinho, tá ligado?
[00:53:23] Eu gosto daquele estilinho.
[00:53:25] Jack. Era uma coisa assim, fio.
[00:53:27] Mas, enfim. Que também é outra coisa que a gente tem que fazer.
[00:53:29] Cara, sabe que a gente tem que fazer um episódio
[00:53:31] só com as melhores cenas, sem sentido…
[00:53:33] musicais, sem sentido de filme, cara.
[00:53:36] Cara, com certeza.
[00:53:38] Cara, tem muito,
[00:53:39] muito filme de terror.
[00:53:41] Eu tava lembrando outro dia, eu tava conversando
[00:53:43] outro dia sobre o seriado do Batman, nos anos 60,
[00:53:45] e quantas cenas musicais…
[00:53:47] aquele negócio tem.
[00:53:48] Pô, mas ali, pelo menos, tinha um certo sentido.
[00:53:50] Agora, tu vendo um filme de terror,
[00:53:51] cara, a quantidade de cenas musicais
[00:53:53] não tem nenhum sentido, que tu fica lá
[00:53:55] dois, três minutos, já vendo…
[00:53:56] Porque a trilha sonora do filme, tu fica assim,
[00:53:58] cacete, o que eu tô vendo aqui?
[00:53:59] A melhor dessas cenas não é num filme de terror,
[00:54:02] é em Tartarugazinha 2,
[00:54:05] quando eles invadem o show do Vanilla Ice.
[00:54:07] Vanilla Ice, porra.
[00:54:08] Eu vi isso no cinema.
[00:54:09] E aí o Vanilla Ice simplesmente goes with it
[00:54:11] e dança com as tartarugas.
[00:54:12] Porra, por que não, né?
[00:54:13] Você não faria…
[00:54:14] Quem pode julgá-lo?
[00:54:15] Exato.
[00:54:16] E aí, eu assisti…
[00:54:17] A última coisa que eu pensei
[00:54:19] assistindo Nightbreed, de novo,
[00:54:21] foi…
[00:54:22] Eu preciso fazer um episódio
[00:54:24] sobre Família Adams 2 com o Orlando,
[00:54:27] porque o filme que ele acha que isso é,
[00:54:30] é aquele lá, na verdade.
[00:54:31] Aquele filme é uma boa versão disso.
[00:54:33] Então, mas eu…
[00:54:34] Ah, boa alusão,
[00:54:35] porque o Nightbreed é mais perto de Família Adams
[00:54:38] para…
[00:54:39] Pseudos adultos.
[00:54:41] Sim, sim.
[00:54:42] É tipo, se você é o Zack Snyder
[00:54:44] e você tem a idade que o Zack Snyder tinha
[00:54:46] em 19…
[00:54:47] Você ia achar que, tipo,
[00:54:49] Família Adams é pra criança,
[00:54:50] eu vou ver Nightbreed,
[00:54:51] porque é do cara que fez Hellraiser.
[00:54:53] E o que acontece?
[00:54:54] O seu humano cresce
[00:54:55] e faz essa merda da Liga da Justiça.
[00:54:57] Então, eu culpo o Clive Barker.
[00:55:00] Boa.
[00:55:00] Você ganhou.
[00:55:01] Você ganhou.
[00:55:02] Dá pra pedir pro Henrique
[00:55:03] botar um somzinho de You Win aqui?
[00:55:05] Será que a gente consegue?
[00:55:06] Sim, sim.
[00:55:06] Henrique, bota aí um bom You Win.
[00:55:10] You Win.
[00:55:11] Mas, assim, o…
[00:55:16] Tirando essa…
[00:55:16] Essa sua vitória, guys.
[00:55:18] Fique com ela.
[00:55:18] Fique com ela, porque vai ter volta.
[00:55:20] Obrigado.
[00:55:20] Mas…
[00:55:21] O ponto que eu acho que é importante disso
[00:55:24] é que…
[00:55:25] Praticamente falar dessa ideia de que…
[00:55:28] Como a sensibilidade vai se transformando
[00:55:30] e como ela vai ficando fora de moda, né?
[00:55:32] Quando, assim…
[00:55:33] Quando, nos anos 90,
[00:55:34] a pessoa assistiu Nightbreed,
[00:55:36] a pessoa não precisa nem ser o…
[00:55:37] Nossa, eu sou adulto,
[00:55:38] eu vou assistir Nightbreed, não, Família Adams.
[00:55:41] Não precisa ser essa pessoa, mas…
[00:55:43] Fazia um certo sentido ali naquele tempo.
[00:55:45] Quando você vai assistir hoje,
[00:55:46] ele vira um produto completamente defasado, né?
[00:55:49] Você tá assistindo ele com as lentes de hoje, sabe?
[00:55:52] Pô…
[00:55:52] Eu não acredito nisso.
[00:55:53] Eu acho que em nenhum momento a gente discutiu aqui
[00:55:55] questões sobre, tipo,
[00:55:56] a sensibilidade do filme
[00:55:58] quanto a questões sociais
[00:55:59] cuja nossa visão é diferente.
[00:56:00] Não!
[00:56:01] Eu acho que o filme, tipo…
[00:56:03] Olha o ego dele.
[00:56:03] Você podia fazer ele hoje,
[00:56:05] só que você ia ter que reescrever ele em tempo.
[00:56:06] Não, olha o ego dele.
[00:56:07] Não, eu tô falando…
[00:56:07] Justamente, eu não estou dizendo, guys,
[00:56:09] que o filme, ele é bom…
[00:56:11] Ele era bom na época,
[00:56:12] ele não foi bom na época, assim.
[00:56:14] É, não, mas eu acho que o que você tá dizendo pra mim
[00:56:16] é, tipo,
[00:56:16] pô, é que na época a gente não conhecia subtexto.
[00:56:18] Não, mas é…
[00:56:19] Na época a gente não conhecia histórias melhores.
[00:56:20] Subtexto foi inventado em 2002.
[00:56:23] Todo mundo sabe disso.
[00:56:24] Foi no segundo filme do X-Men.
[00:56:25] Todo mundo sabe disso.
[00:56:26] Exatamente.
[00:56:27] Exatamente.
[00:56:28] Todo mundo sabe disso, porra.
[00:56:29] E foi aposentado no terceiro filme do X-Men.
[00:56:31] É, foi muito rápido.
[00:56:33] Foi uma vida muito rápida
[00:56:34] do menino subtexto no cinema americano.
[00:56:36] Mas o que eu quero dizer é o seguinte,
[00:56:38] eu tô falando de sensibilidade estética, né?
[00:56:40] Porque, assim, quando…
[00:56:41] Ah, tá, não, não, tudo bem.
[00:56:42] Não, mas a sensibilidade estética
[00:56:44] eu não tava comparando com a atual.
[00:56:45] Eu tô dizendo, assim, tipo,
[00:56:45] o próprio Clive Barker já tinha feito melhor
[00:56:47] e faria melhor novamente.
[00:56:48] Sim, sim, sim.
[00:56:49] O que eu tô dizendo é que, justamente,
[00:56:50] ali naquele momento,
[00:56:52] essa sensibilidade que ele trouxe lá no High Riser
[00:56:54] já tava lhe mostrando um certo desgaste,
[00:56:56] sobretudo, e não por se tornar,
[00:56:58] porque é esse que é um ponto que é crucial,
[00:56:59] é esse que é o ponto que eu queria chegar
[00:57:00] se você não tivesse me cortado tantas vezes.
[00:57:02] Inclusive…
[00:57:02] Ah, se fuder, rapaz.
[00:57:03] Um abraço pros ouvintes que notaram
[00:57:05] o quanto eu sou oprimido nesse podcast aqui,
[00:57:06] questões de classe envolvida.
[00:57:08] Tudo bem.
[00:57:09] Mas vambora.
[00:57:13] O…
[00:57:13] Né?
[00:57:15] A grande questão…
[00:57:15] A grande questão é que esse…
[00:57:17] Aquela sensibilidade que era subversiva
[00:57:20] com o High Riser,
[00:57:21] ela vai se tornando tão…
[00:57:23] Ela vai morrendo
[00:57:24] porque ela vai se tornando palatável.
[00:57:27] Aquilo que a gente tava falando, assim,
[00:57:27] cara, a jaquetinha de couro,
[00:57:29] o cara que tá com aquela coisa…
[00:57:31] De repente, se tornou
[00:57:32] todo personagem de ação padrão dos anos 80, 90.
[00:57:37] Se tornou rapidamente aquilo, né?
[00:57:38] Aquela coisa do…
[00:57:39] Mas já era.
[00:57:40] E aí o Clive Barker usa
[00:57:41] porque parece que, tipo,
[00:57:42] dessa vez não tem ideia.
[00:57:43] Tipo assim, eu só tinha ideia
[00:57:44] pra fazer os monstrinhos agora.
[00:57:45] Em 90,
[00:57:45] eu tava começando, né?
[00:57:47] Tava começando a aparecer, né?
[00:57:49] E já não era, tipo,
[00:57:50] sei lá,
[00:57:51] ver o Renegado em 2000, sabe?
[00:57:53] Qual é?
[00:57:53] Mas era exatamente o personagem
[00:57:55] que se a vida de um criador,
[00:57:57] de um roteirista,
[00:57:58] de um diretor,
[00:57:59] fosse um videogame,
[00:58:00] seria o modelo que aparece
[00:58:01] quando você abre o criador de personagem.
[00:58:03] Se você não muda nada
[00:58:03] e só aperta A pra seguir em frente…
[00:58:05] Vai sair com aquilo.
[00:58:06] Vai sair com o boom.
[00:58:07] E sai aquele lá.
[00:58:08] Sim.
[00:58:09] Tanto que sai no Lorenzo Lamas do Renegado,
[00:58:12] sai no Highlander do seriado
[00:58:14] e tudo mais.
[00:58:14] Não, sim, concordo.
[00:58:15] Mas a questão…
[00:58:16] A minha questão é que
[00:58:17] aquilo que…
[00:58:19] O ponto que eu quero chegar aqui
[00:58:20] é que aquilo que uma vez
[00:58:20] foi subversivo…
[00:58:22] Se você pegar o Hellraiser,
[00:58:23] assistir,
[00:58:24] depois assistir o…
[00:58:26] O…
[00:58:26] O…
[00:58:26] O Nightbreed,
[00:58:28] você vai ver a decadência
[00:58:29] de uma certa estética
[00:58:31] que ela só funciona
[00:58:33] enquanto ela é marginalizada.
[00:58:34] E a partir do momento
[00:58:35] em que você incorpora ela,
[00:58:37] ela vai ficando cada vez
[00:58:38] mais infantilizada.
[00:58:41] Ah, mas aí eu vou te falar uma coisa.
[00:58:44] Quem engendrou o germen
[00:58:45] da própria derrota
[00:58:45] foi o Clive Barker.
[00:58:47] Porque a partir do momento
[00:58:48] que a sensibilidade estética
[00:58:50] e as mensagens que ele leva
[00:58:51] pra tela no Hellraiser
[00:58:52] foram levadas pra tela
[00:58:54] num filme de estúdio,
[00:58:56] ele ajudou a diluir.
[00:58:59] Ele transformou em produto
[00:59:00] aquilo que continha significado.
[00:59:06] Ele transformou o símbolo
[00:59:09] numa commodity vazia
[00:59:10] que é exatamente
[00:59:11] o que você tá falando
[00:59:12] que a indústria cultural
[00:59:15] faz o tempo inteiro.
[00:59:15] Ela se apropria
[00:59:17] dessas simbologias
[00:59:19] e dessas estéticas
[00:59:20] e transforma em algo sem sentido.
[00:59:22] Já o Zack Snyder
[00:59:23] não pega nem algo que…
[00:59:24] Tipo assim, é algo que foi esvaziado
[00:59:26] muito antes dele chegar.
[00:59:27] Esse que era o meu ponto.
[00:59:28] Esse que era o meu ponto.
[00:59:29] É tipo agora, nesse momento,
[00:59:30] eu abri uma iogurteria.
[00:59:32] Sabe qual é?
[00:59:32] Uma paleteria.
[00:59:33] Opa, vou fazer um negócio de sucesso.
[00:59:35] O negócio já saiu totalmente do…
[00:59:37] Já tá totalmente fora do timing.
[00:59:39] Sacou?
[00:59:39] Quer ver um exemplo disso?
[00:59:41] E aí você falou bem do…
[00:59:42] Porque quando você
[00:59:43] se tornou um adolescente,
[00:59:44] quando você se tornou um adolescente,
[00:59:45] o que tava na moda
[00:59:46] era o quê?
[00:59:46] Korn.
[00:59:48] Era…
[00:59:49] Você nem pegou White Zombie, né?
[00:59:50] Você pegou…
[00:59:52] É, eu já pego
[00:59:53] o Rob Zombie ali no Drácula.
[00:59:55] Eita.
[00:59:56] Sim, o…
[00:59:58] O Carreira Solo.
[00:59:59] Então assim,
[01:00:00] você pegou aquele monte
[01:00:01] de banda de new metal
[01:00:02] que era isso, né?
[01:00:04] E aí quando você vai ver…
[01:00:05] Sim, e era o Spawn
[01:00:07] e todas essas coisas, né?
[01:00:08] E aí quando a gente olha de hoje
[01:00:08] parece totalmente muito infantil
[01:00:10] aquilo tudo.
[01:00:11] Tu vai pegar aquelas…
[01:00:11] Sim.
[01:00:12] Cara, tu vai pegar, por exemplo,
[01:00:13] o próprio…
[01:00:15] Sei lá,
[01:00:16] a maioria dessas letras
[01:00:17] é…
[01:00:19] Porque eu sou doente,
[01:00:20] porque eu sou mal,
[01:00:21] ninguém me entende
[01:00:22] e eu sou aquilo, sabe?
[01:00:23] Pega quanto isso.
[01:00:24] Sim.
[01:00:24] Quantas letras tem sick, né?
[01:00:27] Tipo, cara…
[01:00:28] É, eu adorei
[01:00:29] a sua rima
[01:00:30] de eu sou doente
[01:00:31] com ninguém me entende
[01:00:32] que eu acho que você já tá pronto
[01:00:33] pra começar
[01:00:33] o próprio Limp Bizkit
[01:00:35] de Bangu.
[01:00:37] Carniça Pôs
[01:00:38] é o nome da banda.
[01:00:39] Carniça Pôs.
[01:00:42] É, o meu…
[01:00:43] A minha banda
[01:00:44] vai se chamar Nightbreed.
[01:00:44] Nightbreed.
[01:00:45] Vai fazer covers
[01:00:46] de Nightwish.
[01:00:47] Putz!
[01:00:48] Putz!
[01:00:49] Mas, enfim…
[01:00:50] Mas aí tu vê,
[01:00:51] esse que é o ponto
[01:00:51] que eu falo…
[01:00:52] Vai a gente voltar
[01:00:53] pra essa história
[01:00:53] da metáfora, né?
[01:00:54] Do herói…
[01:00:56] Do cheiro, né?
[01:00:57] Cheiro da própria casa.
[01:00:58] E aí a gente volta
[01:00:59] pra arrematar
[01:01:01] com a coisa do herói.
[01:01:02] Porque quando a gente olha…
[01:01:04] A própria ideia de herói
[01:01:05] no cinema,
[01:01:06] ela começa
[01:01:07] como infantilizada, né?
[01:01:09] Se você falasse
[01:01:10] na década de 90…
[01:01:11] Por quê?
[01:01:12] Vai fazer um filme da…
[01:01:13] Porque era uma percepção
[01:01:14] mercadológica.
[01:01:15] Não, mas imagina o seguinte.
[01:01:16] Na década de 90,
[01:01:18] você falar que ia fazer
[01:01:18] um filme dos Vingadores,
[01:01:20] todo mundo ia falar
[01:01:21] cara, é coisa de criança.
[01:01:23] Porque os Vingadores,
[01:01:24] eles não eram heróis
[01:01:24] que matavam.
[01:01:26] Eles não eram anti-heróis.
[01:01:27] Eles não eram o corvo,
[01:01:28] eles não eram os pau,
[01:01:29] eles não eram, sei lá…
[01:01:30] Sim.
[01:01:31] O herói de gente grande
[01:01:33] entre aços,
[01:01:33] porque ainda tinha
[01:01:34] bonequinho deles e tudo e tal.
[01:01:35] Sim!
[01:01:36] Mas tem tudo a ver.
[01:01:37] Porque, por exemplo,
[01:01:37] qual que foi, pra mim,
[01:01:39] o maior símbolo
[01:01:41] de heróis, né?
[01:01:45] Tradicionais,
[01:01:45] quando…
[01:01:45] Quando eu era pequeno
[01:01:46] e que eu ainda
[01:01:47] tenho muito afeto por isso,
[01:01:50] era o desenho animado do Batman, né?
[01:01:52] O universo animado do DC.
[01:01:54] Que é muito bom.
[01:01:54] É bom até hoje.
[01:01:55] Que é muito bom.
[01:01:56] Mas, por exemplo,
[01:01:57] ele passa por uma coisa…
[01:01:59] O desenho do Batman
[01:02:00] e do Superman
[01:02:01] foram cancelados.
[01:02:02] E eles iniciaram
[01:02:03] o Batman Beyond
[01:02:04] ali,
[01:02:06] no 99,
[01:02:07] porque tinha muita audiência
[01:02:09] do desenho do Batman,
[01:02:10] só que era uma audiência
[01:02:11] um pouco mais velha
[01:02:11] do que eles queriam.
[01:02:12] E o único jeito
[01:02:13] de tirar dinheiro
[01:02:14] de super-herói
[01:02:15] naquela época
[01:02:15] que eles tinham na cabeça
[01:02:16] era vender bonequinho.
[01:02:17] Então, quem tava assistindo
[01:02:18] Batman era um pouquinho
[01:02:19] velho demais
[01:02:19] pra comprar boneco a rodo.
[01:02:22] Então, não dava
[01:02:22] tanto dinheiro
[01:02:23] e não existia
[01:02:24] esse mercado tão grande
[01:02:25] do bonequinho pra adulto,
[01:02:28] o colecionável e tal.
[01:02:29] E aí, eles fazem, então,
[01:02:31] um Batman pra gente mais jovem,
[01:02:32] que é o Batman Beyond.
[01:02:36] E…
[01:02:36] E isso é uma parada, assim,
[01:02:38] tipo…
[01:02:40] Os filmes de herói
[01:02:41] começam como algo
[01:02:42] pra criança,
[01:02:43] de certa maneira,
[01:02:44] porque heróis
[01:02:45] eram pra criança.
[01:02:46] É agora que a gente
[01:02:47] convenceu todo mundo
[01:02:48] de que não.
[01:02:50] E meio que é ainda,
[01:02:51] porque eles ainda
[01:02:52] têm que ser pra crianças também,
[01:02:53] sabe?
[01:02:54] É tipo Guerra nas Estrelas, assim.
[01:02:55] Guerra nas Estrelas
[01:02:55] sempre foi um filme pra criança.
[01:02:57] E enquanto mais
[01:02:58] as pessoas recusam
[01:02:59] a entender isso,
[01:02:59] mais elas se frustram.
[01:03:01] Mas é tipo, não,
[01:03:01] a gente gostava
[01:03:02] quando era criança
[01:03:02] porque a gente era criança
[01:03:03] e tem uma razão
[01:03:04] pela qual esse filme saía
[01:03:05] e junto à loja de brinquedo
[01:03:07] ficava cheio de bonequinho.
[01:03:08] É tipo, tem claramente
[01:03:10] uma mensagem aí
[01:03:10] sobre pra quem é esse filme.
[01:03:12] E o fato de você poder…
[01:03:14] Eu digo isso como fã, né?
[01:03:15] De muitas coisas
[01:03:17] que são confiáveis
[01:03:17] pra criança, né?
[01:03:18] Não é uma crítica isso.
[01:03:20] Não é uma coisa em si.
[01:03:21] Você pode se divertir
[01:03:22] pra cacete com isso.
[01:03:23] Não é uma questão.
[01:03:24] É só você entender
[01:03:24] o tipo de produto
[01:03:25] que você está consumindo.
[01:03:26] Ponto.
[01:03:27] Exato.
[01:03:27] E é uma diversão
[01:03:28] que nenhum outro filme
[01:03:28] vai te dar.
[01:03:30] É algo específico.
[01:03:31] Sim.
[01:03:31] É tipo, Hollywood
[01:03:32] é muito boa nesse tipo
[01:03:33] E você pode fazer um filme
[01:03:34] pra criança
[01:03:34] que é muito mais profundo
[01:03:35] e inteligente, né?
[01:03:37] Que vai tocar em afetos
[01:03:39] muito mais, digamos,
[01:03:41] elaborados,
[01:03:42] muito melhor elaborados
[01:03:43] que é muito filme
[01:03:43] pra adulto aí.
[01:03:44] Um exemplo,
[01:03:45] disso aí,
[01:03:46] você pega qualquer filme
[01:03:46] do Toy Story, bicho.
[01:03:48] Pelo amor de Deus.
[01:03:49] Não, e digo mais.
[01:03:50] E são…
[01:03:52] E é isso, assim.
[01:03:53] Existem momentos
[01:03:54] pra ambos os filmes, assim.
[01:03:55] Eu não quero ver
[01:03:56] só filme de herói
[01:03:56] o tempo inteiro,
[01:03:57] mas de vez em quando
[01:03:58] eu tenho vontade
[01:03:58] de ver também.
[01:04:00] Enfim.
[01:04:01] E são experiências diferentes.
[01:04:02] É isso.
[01:04:03] Não existe uma arte
[01:04:04] melhor que a outra.
[01:04:05] Mas a questão é que, tipo,
[01:04:07] a gente está cada vez mais
[01:04:09] sendo exposto
[01:04:11] pelo mainstream
[01:04:14] a isso.
[01:04:15] Porque, basicamente,
[01:04:16] são os únicos filmes
[01:04:17] que os caras conseguem
[01:04:18] dar dinheiro suficiente
[01:04:19] pro nível megalomaníaco
[01:04:21] de lucro
[01:04:22] que essas corporações
[01:04:23] querem ter.
[01:04:24] Mas é aí que é o ponto
[01:04:25] que eu vou chegar
[01:04:25] só pra gente finalizar
[01:04:26] que já estamos passando
[01:04:27] da hora aqui.
[01:04:29] Quando…
[01:04:29] Vamos lá,
[01:04:29] vou voltar pros Vingadores.
[01:04:31] Os Vingadores,
[01:04:31] pra se tornarem filmes
[01:04:33] de adulto,
[01:04:33] nesse sentido de ter
[01:04:34] um público adulto
[01:04:35] ou um público,
[01:04:36] pelo menos,
[01:04:36] adolescente, né?
[01:04:37] Pós-adolescente.
[01:04:38] Eles tiveram que,
[01:04:40] em larga escala,
[01:04:41] o universo da Marvel
[01:04:42] se tornar
[01:04:43] uma espécie de espelho
[01:04:45] propósito
[01:04:45] da propaganda
[01:04:46] do Estado Militar
[01:04:48] estadunidense.
[01:04:50] Sim,
[01:04:50] mas aí
[01:04:51] a gente vai discutir isso
[01:04:52] em outro episódio
[01:04:53] sobre como isso
[01:04:54] não começou no cinema.
[01:04:55] Sim,
[01:04:55] sim, exatamente.
[01:04:56] Esse é um ponto crucial.
[01:04:58] Mas aí vem o ponto
[01:04:59] que é só pra gente
[01:04:59] arrematar mesmo
[01:05:00] do quanto
[01:05:01] a gente olha
[01:05:03] pro Nightbreed hoje
[01:05:04] e fala assim,
[01:05:04] cara,
[01:05:04] isso é bem infantil, né?
[01:05:06] E aí quando a gente
[01:05:06] olha pro Zack Snyder,
[01:05:07] cara,
[01:05:07] que estética estranha, bicho.
[01:05:09] Porra,
[01:05:09] dessa altura do campeonato
[01:05:10] você tá fazendo uma estética
[01:05:11] como se fosse um filme
[01:05:11] retrô dos anos 90
[01:05:13] de uma coisa que já era
[01:05:13] estranha lá, sabe?
[01:05:15] Sim.
[01:05:16] E como,
[01:05:17] quando você vai ver
[01:05:18] a diferença do
[01:05:19] Snyder’s Curse
[01:05:20] pro corte do
[01:05:21] Joss Whedon,
[01:05:21] que tentava dar
[01:05:22] a sensibilidade
[01:05:23] dos filmes da Marvel
[01:05:24] pros filmes
[01:05:25] dos filmes da DC,
[01:05:28] o que tá tudo em jogo aí
[01:05:29] é justamente
[01:05:30] essa ruptura
[01:05:32] da distinção
[01:05:34] entre o público
[01:05:35] e o seu objeto
[01:05:36] de consumo.
[01:05:37] Uma adequação melhor
[01:05:39] daquele objeto
[01:05:40] de consumo
[01:05:41] porque ele tem que ser
[01:05:42] o alvo de devoção.
[01:05:43] E por que ele tem que ser
[01:05:44] o alvo de devoção?
[01:05:44] Porque ele não pode ter
[01:05:45] um contexto
[01:05:45] de contraste
[01:05:46] entre ele
[01:05:46] e os sujeitos
[01:05:47] que o adoram.
[01:05:48] Não é à toa que
[01:05:49] depois eles vão se tornar
[01:05:50] elementos dos próprios sujeitos.
[01:05:51] As pessoas são
[01:05:51] Descenauta,
[01:05:52] eu sou Marvete,
[01:05:53] sei lá como que se chama.
[01:05:55] Tanto que esse humor
[01:05:56] que você falou ali
[01:05:57] que tá mais presente
[01:05:58] nos filmes da Marvel,
[01:05:59] na Liga da Justiça
[01:06:00] do Joss Whedon,
[01:06:02] é um humor
[01:06:02] que sempre vem da…
[01:06:03] E se esses heróis
[01:06:04] falassem como a gente?
[01:06:05] Sim!
[01:06:05] É o Flash impressionado
[01:06:07] com as coisas,
[01:06:08] é o Homem-Aranha lá,
[01:06:09] tipo,
[01:06:10] nossa,
[01:06:10] é o Homem de Ferro aqui e tal.
[01:06:11] É, ou fazendo piadinha
[01:06:12] com cultura pop, né?
[01:06:13] Não, porque eu tava assistindo
[01:06:14] o episódio de Seinfeld,
[01:06:15] né, Superman?
[01:06:17] Então, assim,
[01:06:18] acho que esse
[01:06:19] que é um ponto
[01:06:20] que é crucial,
[01:06:20] que a gente entender
[01:06:21] que há…
[01:06:23] Esses dois filmes
[01:06:24] eles levam
[01:06:24] num debate
[01:06:25] que é muito importante,
[01:06:26] que é um debate
[01:06:27] sobre como
[01:06:28] o estilo
[01:06:29] de obras culturais
[01:06:31] que nós estamos
[01:06:31] produzindo
[01:06:32] e consumindo,
[01:06:33] ele,
[01:06:34] em larga medida,
[01:06:35] ele é uma indústria cultural,
[01:06:37] ele é uma indústria,
[01:06:37] ele é feito pra dar dinheiro,
[01:06:38] então por isso
[01:06:38] que ele funciona dessa forma,
[01:06:39] então ele replica justamente
[01:06:40] os moldes do mundo
[01:06:41] que nós vivemos
[01:06:42] e os moldes do mundo
[01:06:43] que nós vivemos
[01:06:44] é um mundo
[01:06:45] onde nós temos
[01:06:45] uma separação
[01:06:46] fundamental entre
[01:06:47] os heróis
[01:06:49] e o resto,
[01:06:50] e a massa,
[01:06:51] só que entre os heróis
[01:06:52] e a massa
[01:06:53] tem que se desenhar
[01:06:54] uma relação de devoção.
[01:06:56] Vamos ver,
[01:06:57] a própria ideia
[01:06:57] de Estado.
[01:06:59] Agora eu fechei
[01:06:59] com uma pregação anarquista,
[01:07:00] então tá resolvido
[01:07:01] o meu assunto hoje aqui.
[01:07:02] Então, assim,
[01:07:03] a ideia toda
[01:07:04] que o Estado,
[01:07:04] ele cria uma relação
[01:07:05] de devoção
[01:07:06] nos indivíduos,
[01:07:07] né,
[01:07:08] ao ponto de que
[01:07:09] a gente nunca está
[01:07:09] em contraste com ele,
[01:07:11] a gente, né,
[01:07:12] ele vai sempre se readequar
[01:07:13] da sensibilidade,
[01:07:13] da sensibilidade dos indivíduos
[01:07:14] e adequando-as
[01:07:15] aos seus próprios interesses.
[01:07:17] Então, a gente tem
[01:07:18] uma máquina estatal
[01:07:19] que opera
[01:07:19] na indústria cultural
[01:07:20] e, por fim, né,
[01:07:23] tudo isso carrega consigo
[01:07:25] o imaginário, né,
[01:07:27] e necessita
[01:07:28] de um certo imaginário
[01:07:30] sobre os heróis.
[01:07:31] Só lembrando,
[01:07:31] não é errado
[01:07:31] eu gostar de herói,
[01:07:33] é importante contextualizá-los,
[01:07:34] é importante entender
[01:07:35] que não é um conceito universal,
[01:07:37] é importante entender
[01:07:38] o que que estamos consumindo.
[01:07:40] E eu gosto de heróis,
[01:07:41] gosto de Superman.
[01:07:42] E que aqueles
[01:07:42] que a gente escolhe
[01:07:43] pra administrar esse estado
[01:07:45] não são heróis.
[01:07:47] Exatamente.
[01:07:48] E que enquanto a gente
[01:07:49] precisar que eles forem,
[01:07:50] a gente vai ser incapaz
[01:07:51] de ter o que a gente quer.
[01:07:54] Que a gente vai ser incapaz
[01:07:55] de ter o Snyder Cut da vida.
[01:07:58] Não tem como.
[01:08:01] Tem que a gente já tá vivendo
[01:08:02] o Snyder Cut do Brasil
[01:08:03] nesse momento.
[01:08:03] Orlando, saiu a versão
[01:08:04] em preto e branco,
[01:08:05] vamos ver?
[01:08:08] Pô, cara,
[01:08:08] me dá um soco no estômago, cara.
[01:08:10] Dá um soco no estômago.
[01:08:11] Tá bom, então.
[01:08:12] Fico te devendo.
[01:08:13] Gente, se vocês não…
[01:08:13] Se vocês não perceberam ainda,
[01:08:14] podem perceber agora,
[01:08:16] é a gente tá lançando
[01:08:17] quinzenalmente os episódios
[01:08:18] pra caber na nossa agenda.
[01:08:20] Então, você tem essa…
[01:08:22] Esse trabalho mais dedicado,
[01:08:25] esse afinco na pesquisa agora
[01:08:27] de 15 em 15 dias
[01:08:29] com os nossos episódios.
[01:08:29] E aí, ele também deve encaixar melhor
[01:08:31] aí no seu calendário
[01:08:32] de coisas pra ouvir.
[01:08:34] Então, é isso.
[01:08:35] Fica aqui com a gente.
[01:08:36] Daqui 15 dias
[01:08:37] estaremos de volta.
[01:08:38] Show!