#25 - O novo Velho Oeste


Resumo

Este episódio usa a série de televisão Deadwood como ponto de partida para uma discussão profunda sobre a formulação da ideia de herói na sociedade contemporânea. Os participantes exploram como o arquétipo do xerife do Velho Oeste se tornou a base para os heróis modernos do cinema e da cultura pop, representando um indivíduo excepcional que opera além das leis e instituições.

A conversa avança para uma crítica da origem do Estado moderno, comparando-o a uma gangue que se legaliza e perpetua estruturas de poder. Deadwood é analisada como uma representação desse processo, mostrando como a “anarquia” do Velho Oeste é incorporada ao plano estatal, com personagens estabelecendo instituições antes da chegada formal do Estado para garantir a continuidade de seu poder.

Os participantes discutem o apagamento sistemático de outras culturas e modos de existência, particularmente dos povos indígenas e africanos, no processo colonial. Eles argumentam que a narrativa do “progresso” e da civilização ocidental serve para justificar esse apagamento e conformar todas as sociedades a um único modelo euro-americano.

A análise se estende para outras obras como Breaking Bad, Tropa de Elite, Mad Max e Logan, mostrando como todas compartilham essa semiótica da “sujeira” (dirt) como solo infértil onde brotam os heróis. O episódio questiona por que, mesmo quando temos liberdade criativa (como em RPGs de mesa), tendemos a reproduzir os mesmos arquétipos, em vez de imaginar alternativas radicalmente diferentes.

Por fim, os participantes refletem sobre a dificuldade de imaginar futuros verdadeiramente alternativos ao capitalismo, sugerindo que estamos presos em recriar variações do mesmo passado, tal como as cidades temáticas do Velho Oeste que ainda existem nos Estados Unidos.


Indicações

Filmes

  • Clube da Luta — Citado como exemplo de filme que envelheceu mal, com fundamento similar ao Breaking Bad na recuperação de uma essência guerreira e beligerante do homem.
  • Filhos da Esperança (Children of Men) — Mencionado como exemplo de filme distópico onde o mundo é sujo e horrível, justificando qualquer ação para alcançar algo melhor.
  • Interestelar — Citado como exemplo de como mesmo quando o mundo acaba, reproduzimos o modo de vida americano no espaço, com cenas de baseball representando essa continuidade.

Jogos

  • Destiny 2 — Mencionado como jogo onde os jogadores passam anos matando uma espécie alienígena, mas depois os salvam e abrigam, levando a uma reflexão sobre como os heróis são vistos como vilões genocidas do outro lado.
  • Wreckfest — Citado como jogo de corrida de demolição que representa a sujeira e terra (dirt) característica do Velho Oeste e obras pós-apocalípticas.

Livros

  • Piquenique na Estrada — Obra de ficção científica mencionada como exemplo de literatura que tenta imaginar outros tipos de alienígenas e seres vivos com origens não ocidentais.
  • Obras de Ursula K. Le Guin — Citada como escritora que bebe em fontes etnográficas para imaginar outros modos de existência em sua ficção científica.

Pessoas

  • Gilles Deleuze — Filósofo mencionado em relação à sua análise de Walt Whitman e da literatura americana com fronteiras móveis, diferente da literatura europeia conformada a territórios específicos.
  • Oxóssi — Orixá da cultura afro-brasileira citado como exemplo de herói popular cujas ações são voltadas para a manutenção e enriquecimento da comunidade, em contraste com os heróis individualistas do Velho Oeste.

Series

  • Deadwood — Série de televisão usada como âncora principal do episódio, mostrando a formação de uma cidade no Velho Oeste e as origens das instituições estatais modernas.
  • Breaking Bad — Citada como o fim da Era de Ouro da TV americana, totalmente amarrada ao Velho Oeste e à figura de Walt Whitman como arquétipo masculinista liberto das amarras.
  • Mad Max — Mencionada como exemplo de obra pós-apocalíptica que compartilha a semiótica da sujeira (dirt) com o Velho Oeste, representando uma existência inóspita.
  • Tropa de Elite — Citada como exemplo brasileiro do arquétipo do herói/xerife, com o Capitão Nascimento representando a figura que expurga elementos indesejáveis da sociedade.
  • Logan — Filme analisado como representação do herói que morre para que outros tenham uma vida diferente, começando na sujeira e terminando na floresta verdejante.
  • Westworld — Mencionada como exemplo de como as pessoas pagam para viver em uma simulação do Velho Oeste, mostrando a persistência desse imaginário.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao tema: Deadwood e a formulação do herói — O episódio começa apresentando Deadwood como âncora para discutir a formulação da ideia de herói na sociedade através do cinema e cultura pop. Os participantes introduzem a questão central: por que o mundo não pode ser gerido por xerifes? Já se estabelece uma conexão entre o Velho Oeste e realidades contemporâneas como as milícias e UPPs no Brasil.
  • 00:05:00A fronteira móvel e o herói como pioneiro — Discussão sobre como a ideia de fronteira móvel nos Estados Unidos produziu a figura do pioneiro como herói - indivíduos desgarrados de seu contexto que se tornam representantes da nação. A conversa conecta isso com Breaking Bad e Walt Whitman, mostrando como ambos representam essa imaginação heróica de estar além das regras do território.
  • 00:15:00O xerife neurótico e a violência institucionalizada — Análise do xerife de Deadwood como personagem neurótico que revela a verdade sobre a polícia: é apenas a mão que bate, uma maneira de fingir que a violência é aceitável. A série é centrada em Al Swearengen, dono de um puteiro que representa a única estrutura de poder estável baseada na exploração dos vícios.
  • 00:25:00Apagamento indígena e racismo estrutural — Discussão sobre como Deadwood lida com racismo e xenofobia, particularmente o apagamento dos povos indígenas. A série mostra a cabeça de um índio na sala de Al Swearengen, mas nunca mostra indígenas vivos após a primeira temporada, representando como suas culturas e conhecimentos foram sistematicamente apagados pelo colonialismo.
  • 00:35:00A semiótica da sujeira (dirt) e o solo do herói — Análise da palavra “dirt” (sujeira/terra infértil) como elemento semiótico central no Velho Oeste, Mad Max e outras obras pós-apocalípticas. Esta terra infértil é o solo onde brotam os heróis, representando um mundo esgotado pelo capitalismo. Contrasta com heróis de outras tradições, como Oxóssi na cultura afro-brasileira, cujo solo é fértil.
  • 00:45:00Por que recriamos o passado em vez de imaginar futuros? — Reflexão sobre por que tendemos a recriar o passado (Velho Oeste, Idade Média) em RPGs, filmes e entretenimento, em vez de imaginar futuros verdadeiramente alternativos. Os participantes discutem como somos doutrinados por uma teleologia que nos faz acreditar que vivemos no ápice do progresso histórico, dificultando a imaginação de outros modos de existência.
  • 00:55:00A medicina como processo cultural e a inevitabilidade histórica — Discussão sobre como Deadwood retrata a medicina como um processo cultural em evolução, não como verdade absoluta. Isso leva a uma reflexão sobre como nada na história era inevitável - o que aconteceu aconteceu porque aconteceu, mas poderia ter sido diferente. A conversa questiona nossa dificuldade em imaginar que processos similares possam acontecer para mudar o presente.
  • 01:03:00Conclusão: o herói não existe e não nos salvará — Conclusão do episódio afirmando que um herói não vai nos salvar porque o herói não existe, mas também porque somos incapazes de imaginá-lo verdadeiramente. Todos os heróis modernos (Homem de Ferro, Superman, Batman) são variações do xerife. Deadwood nos mostra as origens dessa sociedade e nos dá nojo dela, porque reconhecemos que ainda vivemos em uma variação do mesmo sistema.

Dados do Episódio

  • Podcast: Popcult
  • Autor: Atabaque Produções
  • Categoria: TV & Film Film Reviews
  • Publicado: 2021-05-25T08:30:18Z
  • Duração: 01:06:50

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Half-Death

[00:00:03] Isolados um do outro

[00:00:21] Sem presença do Estado

[00:00:24] Sem segurança

[00:00:26] Sem higiene

[00:00:28] Sem saúde

[00:00:30] Cá estamos nós

[00:00:31] No novo velho oeste

[00:00:34] Caros ouvintes

[00:00:36] Com atrasos, brigarros e tosses

[00:00:39] Chegamos nós

[00:00:41] A Deadwood

[00:00:42] A cidade da costa do sul

[00:00:45] Que existe até hoje

[00:00:46] Mas também

[00:00:48] A série de televisão

[00:00:50] Que vamos usar como

[00:00:52] Ancora desse programa

[00:00:54] Sobre a formulação

[00:00:56] Da ideia de herói

[00:00:58] Na nossa sociedade

[00:00:59] Através do cinema e da cultura pop

[00:01:01] Eu e Orlando

[00:01:03] Vamos entender

[00:01:05] Por que o mundo

[00:01:06] Não pode ser gerido por xerifes

[00:01:09] Não é verdade?

[00:01:10] É

[00:01:11] Sabe o que eu fiquei lembrando?

[00:01:15] Do meu próprio bairro

[00:01:16] Porque

[00:01:18] A gente vai desenvolver isso aqui melhor

[00:01:21] Como o subúrbio de Rio de Janeiro

[00:01:23] É um velho oeste

[00:01:24] Como é um tipo de velho oeste

[00:01:26] Eu acho que assim

[00:01:28] Voltando pra Deadwood e Bangu

[00:01:31] Ao mesmo tempo

[00:01:31] A coisa que a gente não menciona

[00:01:35] E esquece, eu acho, muitas vezes

[00:01:37] De falar e que Deadwood abre

[00:01:38] Mostrando é tipo

[00:01:40] Você lembra que xerife

[00:01:42] É uma ocupação muito específica

[00:01:45] Tipo

[00:01:46] É um policial que é

[00:01:48] Um freelancer

[00:01:50] É o ápice

[00:01:53] Do mercantilismo

[00:01:56] E

[00:01:56] Justiça

[00:01:58] Entre aspas se encontrando

[00:01:59] E é exatamente o que a gente quer com as

[00:02:02] Milícias, UPPs, etc

[00:02:04] É o xerifismo

[00:02:05] É porque assim

[00:02:08] Esse é o programa

[00:02:09] Que nós estamos encerrando

[00:02:12] Essa nossa temporada dedicado ao mito do herói

[00:02:15] Então assim

[00:02:16] Nesse momento a gente está analisando

[00:02:19] O que é o solo

[00:02:19] O solo do qual brotam os heróis

[00:02:22] E não por coincidência

[00:02:25] Também é o solo

[00:02:28] Vamos

[00:02:28] O velho oeste

[00:02:29] É talvez

[00:02:31] O prototipo

[00:02:34] Do cinema de herói

[00:02:35] Na verdade assim

[00:02:36] Não é à toa que ele foi o primeiro momento

[00:02:37] Que os heróis tiveram na tela

[00:02:39] Não é à toa que o cinema americano

[00:02:40] Era tão obcecado com o velho oeste

[00:02:42] Acho que era aquele momento que ideologia

[00:02:44] E arte se cruzavam

[00:02:46] Estou viajando aqui

[00:02:48] Porque é uma coisa que eu realmente não tinha preparado

[00:02:50] E olha que louco

[00:02:50] Eu viajei de uma outra maneira

[00:02:52] Você falou do solo

[00:02:54] E é assim

[00:02:55] O Han Solo

[00:02:57] Outro grande cowboy do cinema

[00:02:58] E o velho oeste

[00:03:00] Ele é

[00:03:01] Inteiramente marcado por ser um solo

[00:03:05] Infértil

[00:03:05] A única coisa que há lá é ouro pra você roubar

[00:03:08] Você não está lá pra plantar comida

[00:03:10] Criar uma família

[00:03:12] Não existe terra fértil

[00:03:14] O solo é areia

[00:03:16] É sujeira

[00:03:18] É ruim

[00:03:19] É a dirt

[00:03:22] É porque é muito louco isso

[00:03:24] Porque quando você pensa por exemplo

[00:03:26] No

[00:03:26] É sempre importante lembrar

[00:03:29] Que essa expansão marcha pro oeste

[00:03:31] Ela sempre é feita

[00:03:34] Tendo um certo imaginário cinematográfico

[00:03:37] Sobre a própria marcha pro oeste

[00:03:38] Que é a ideia daquela galera que foi

[00:03:40] Ocupar ali a Califórnia

[00:03:42] Que foi ocupar ali o Novo México

[00:03:44] O Arizona

[00:03:45] E é muito louco

[00:03:47] Porque de fato foram os últimos movimentos expansivos

[00:03:50] Mas os primeiros movimentos expansivos

[00:03:52] Foram justamente pra tomar as terras férteis

[00:03:55] Que estavam ocupadas

[00:03:55] Populações nativas

[00:03:56] Povos originários

[00:03:58] Então assim, não é à toa que eles foram expulsando

[00:04:01] Os povos originários pra cada vez mais pra borda

[00:04:04] Até o momento que eles se depararam ali

[00:04:06] Que é o grande último

[00:04:07] É a última fronteira

[00:04:09] Que é ali naquelas planícies do Arizona

[00:04:12] Aquelas coisas todas

[00:04:13] E a própria da Corte do Sul

[00:04:15] Onde passa a série Deadwood

[00:04:17] E aí que vem um ponto que eu acho que é interessante

[00:04:19] Porque é interessante

[00:04:21] Perceber como

[00:04:23] O Deleuze

[00:04:25] No momento que eu citei Deleuze

[00:04:26] Ele fala disso pra falar do Walt Wittman

[00:04:30] Porque o Walt Wittman

[00:04:32] Tem uma literatura americana

[00:04:33] Segundo Deleuze

[00:04:34] E é uma literatura no qual ela tem uma fronteira

[00:04:37] Que tá sempre se movimentando

[00:04:38] Que é diferente da literatura europeia

[00:04:40] A literatura europeia é conformada a territórios muito específicos

[00:04:44] A literatura

[00:04:45] A literatura

[00:04:46] Isso daria toda uma discussão que a gente não vai entrar aqui

[00:04:49] E tem um paralelo porque

[00:04:51] Breaking Bad, outra série

[00:04:53] Se Deadwood é o começo

[00:04:55] Da Era de Ouro

[00:04:57] Da TV acaba americana

[00:04:59] E Breaking Bad é o fim

[00:05:01] Breaking Bad é totalmente amarrada

[00:05:03] Por Walt Wittman, mas ao mesmo tempo

[00:05:05] Totalmente presa ao Velho Oeste

[00:05:08] Porque em Albuquerque, Novo México

[00:05:10] E tudo mais

[00:05:10] E tem isso né, mas esse que é o ponto que eu ia

[00:05:13] Que eu ia falar, porque assim

[00:05:15] A grande questão é que quando você tem

[00:05:17] A fronteira móvel, essa ideia de fronteira móvel

[00:05:20] O que você produz com a fronteira móvel

[00:05:22] Você produz indivíduos que são os pioneiros

[00:05:24] Supostamente né, são aqueles indivíduos

[00:05:25] Que estão, eles são representantes

[00:05:28] De seus mundos, porém por um motivo

[00:05:30] Ou outro, eles se desamarram

[00:05:32] Daquele mundo

[00:05:33] É aquilo que a gente vem insistindo que é a própria ideia do herói

[00:05:36] Né, então por exemplo

[00:05:37] Você já morou nos Estados Unidos

[00:05:40] Né, assim, cara

[00:05:41] Sabe quanto é

[00:05:43] Desculpa, eu não vou aceitar isso

[00:05:45] Eu já passei 30 dias

[00:05:48] Eu já passei 30 dias naquele país

[00:05:48] Você tinha morrido morando nos Estados Unidos

[00:05:50] Morri nos Estados Unidos, eu ouvi o que você disse

[00:05:53] Não, eu nunca morei nos Estados Unidos

[00:05:55] Ser desmamado aqui

[00:05:57] Uma ilusão biográfica que eu tenho sobre você

[00:06:00] Na minha cabeça

[00:06:00] Mas enfim, tu sabe o quanto os caras são

[00:06:04] Mas mesmo assim, você sabe o quanto os caras são

[00:06:06] Orientados, fascinados com essa ideia dos pioneiros

[00:06:09] Né, eles têm toda uma dificuldade

[00:06:11] De reconhecer o genocídio

[00:06:12] Que a nação dos Estados Unidos

[00:06:15] Perpetuou contra os povos nativos

[00:06:16] Não, mas as pessoas que estavam lá

[00:06:18] Meus ancestrais eram heróis, eles eram pioneiros

[00:06:21] Eles lutavam contra tudo e contra todas

[00:06:22] E tudo mais

[00:06:23] Mas o meu ponto é

[00:06:25] Toda essa ideia, essa imaginação

[00:06:27] Ela está produzindo indivíduos

[00:06:30] Desgarrados de um certo contexto

[00:06:32] E esses indivíduos são os heróis

[00:06:34] Eles são como se eles fossem representantes

[00:06:37] É aquilo assim, por exemplo

[00:06:37] Os Estados Unidos não parecem com os pioneiros

[00:06:41] Mas no Velho Oeste

[00:06:42] Os Estados Unidos são os pioneiros

[00:06:44] Eles são embaixadores da nação

[00:06:46] Eles são um grande representativo

[00:06:48] E aí quando você vai olhar

[00:06:49] Para o Breaking Bad

[00:06:51] O que você tem é algo muito semelhante

[00:06:53] Porque o Walt Whitman

[00:06:55] Ele se torna um grande representante

[00:06:58] Dos homens

[00:07:00] Porque ele é uma figura extremamente

[00:07:02] Afeita a arquétipos masculinistas

[00:07:04] Que foi liberto das amarras

[00:07:07] Por conta do medo de morrer

[00:07:09] Ele perdeu o medo de morrer

[00:07:10] E aí, tirado o medo de morrer

[00:07:12] Aquilo que o oprimia

[00:07:13] Ele se torna um arquétipo, um ser liberto

[00:07:15] Como as pessoas que

[00:07:17] Que iam para o Velho Oeste

[00:07:20] Que produziam a expansão

[00:07:23] Você falou do Deadwood

[00:07:24] O Deadwood é um arquétipo que se torna um arquétipo

[00:07:25] O Deadwood é um arquétipo que se torna um arquétipo

[00:07:25] A cena inicial da série é muito isso

[00:07:27] O sujeito que quer ir para o Deadwood

[00:07:29] O cara que está preso

[00:07:29] E falou assim, cara, lá a gente vai viver fora da lei

[00:07:32] Porque não existe lei, não existe sei lá o que

[00:07:33] Então assim, tanto o cowboy

[00:07:37] O pioneiro, o Walt Whitman

[00:07:39] Eles representam

[00:07:41] Essa imaginação heróica

[00:07:44] De estar além

[00:07:46] E ao mesmo tempo aquém

[00:07:48] Das próprias regras do território

[00:07:50] Da própria cidade

[00:07:51] Da própria nação

[00:07:53] Então você se torna um indivíduo excepcional

[00:07:55] Então você se torna um indivíduo excepcional

[00:07:55] E essa necessidade

[00:07:57] De fugir da lei

[00:07:59] E ir onde o estado

[00:08:01] E a lei e a civilização não chegaram ainda

[00:08:04] É sempre vista

[00:08:06] Na série

[00:08:08] E tudo mais

[00:08:09] Como algo que você sabe que é

[00:08:12] Fútil, assim, porque você está

[00:08:13] Correndo para

[00:08:15] Alcançar o pôr do sol

[00:08:17] Você está só indo onde

[00:08:20] Ele ainda não chegou

[00:08:21] Ainda

[00:08:22] Durante toda a série de Deadwood

[00:08:25] Eles estão assim, tipo

[00:08:26] A gente vai ser anexado ao estado

[00:08:28] A gente vai virar parte

[00:08:29] Da nação dos Estados Unidos

[00:08:32] O que a gente tem que garantir

[00:08:33] É que a gente, antes do estado chegar

[00:08:36] A gente estabeleça

[00:08:38] As estruturas de poder e as instituições

[00:08:41] Nas nossas mãos

[00:08:42] E que elas se perpetuem

[00:08:44] Quando elas forem oficializadas

[00:08:46] E aí a gente vê

[00:08:48] O quanto aquele

[00:08:50] Velho oeste, aquela

[00:08:51] Desculpa usar essa palavra nesse sentido

[00:08:54] Mas você vai entender, amigo

[00:08:55] Essa anarquia

[00:08:56] É usada

[00:08:58] É incorporada

[00:09:02] Ao plano de estado

[00:09:04] É impossível você ver lá

[00:09:06] O nosso xerife

[00:09:08] E o Al Swerd

[00:09:09] Mancomunando coisas

[00:09:12] E tudo mais

[00:09:13] Para ir contra os poderes do estado

[00:09:16] Vindouro e tudo mais

[00:09:17] E quando a série acaba o estado

[00:09:19] Que não é mais tão vindouro

[00:09:21] Porque o Hearst vira senador e tudo mais

[00:09:23] É

[00:09:25] O negócio de tipo

[00:09:26] Ué, qual a diferença disso e o

[00:09:28] Né, 100 anos depois

[00:09:31] O Capitão Nascimento

[00:09:32] Né

[00:09:33] O que que a gente tá

[00:09:35] Porque é quase uma coisa assim

[00:09:37] A gente tava conversando hoje, trocando uns links

[00:09:40] E a gente gosta muito de falar de Robocop

[00:09:42] Daquela coisa da distopia que é

[00:09:44] Privatizar a polícia, né

[00:09:46] Só que aí a gente olha pras origens da polícia

[00:09:48] Que existe hoje

[00:09:50] No Deadwood e nessas coisas todas

[00:09:52] E aí a gente para e pensa assim

[00:09:54] Cara

[00:09:55] Mas tipo

[00:09:57] Na real a gente estatizou

[00:09:59] Um serviço privado

[00:10:02] De segurança, né

[00:10:03] Pinkertons e enfim

[00:10:06] Guerrilhas e armadas

[00:10:08] Totalmente particulares

[00:10:09] E aí a gente transformou isso num poder de estado

[00:10:12] Universal

[00:10:14] E aí agora a gente tá surpreso

[00:10:16] Que ele trabalha

[00:10:17] Pras elites que

[00:10:19] Fundamentaram tudo isso

[00:10:21] É porque na verdade

[00:10:22] Aí entra o anarquista, né

[00:10:24] É

[00:10:25] É

[00:10:25] É

[00:10:25] É

[00:10:25] É

[00:10:25] É

[00:10:55] , também pode servir pra gangues de Nova York

[00:10:59] Que também é outro ponto

[00:11:00] Porque é isso que eu ia fazer o contraponto

[00:11:01] Porque o que acontece

[00:11:03] Essa imaginação de que

[00:11:04] Porque Deadwood ele é basicamente a base

[00:11:07] Do que se chama de

[00:11:08] De um pensamento sobre municipalismo nos Estados Unidos

[00:11:11] Uma leitura à direita do anarquismo

[00:11:14] Que inclusive

[00:11:16] Depois foi totalmente tomado pelos anarcocapitalistas

[00:11:19] Que é a ideia de que você tem

[00:11:21] Uma unidade mínima autogestada

[00:11:22] Que é o município

[00:11:24] E o estado ele é corruptor

[00:11:25] Então assim, você consegue fazer aquela

[00:11:27] O que em certa medida deu uma ideia até interessante

[00:11:30] Contudo

[00:11:31] Quando você confia demais na

[00:11:33] Na cosmologia, na mitologia

[00:11:36] Daquelas pessoas que tão fundando aquele município

[00:11:38] Ou seja, o capitalismo

[00:11:39] A livre concorrência

[00:11:40] Aí tu vê que o negócio não dá certo, né

[00:11:41] Porque não é uma autogestão fundada na mutualidade

[00:11:45] No mutualismo, né

[00:11:46] Na autoajuda

[00:11:46] Não, é fundada na competição

[00:11:48] É, exatamente

[00:11:49] Eles querem se reunir

[00:11:51] Pra poderem continuar competindo livremente

[00:11:53] Entre aspas, né

[00:11:55] E aí que vem o ponto, né

[00:11:56] Porque assim, o Deadwood

[00:11:58] Atira no que vê e acerta no que não vê

[00:12:01] Porque ele queria mostrar

[00:12:02] Ah, o estado tá chegando aí

[00:12:04] A gente tem que se organizar pra poder perpetuar o poder

[00:12:07] Nas coisas

[00:12:07] Como se o estado, em certa medida

[00:12:10] Ele existisse de uma forma pura

[00:12:12] Mas o estado ele é exatamente isso

[00:12:14] Porque toda vez que você vai olhar pra qualquer lugar

[00:12:16] Você vai ver o estado surgindo da mesma maneira

[00:12:18] O estado ele não é

[00:12:20] Porque aí que tá, você teve todo um investimento

[00:12:22] Quando eu falo aqui, por exemplo, do Locke, por exemplo

[00:12:24] Do Hobbes

[00:12:25] Dessa galera toda

[00:12:26] Você teve todo um investimento desses caras

[00:12:27] De dar uma roupagem mais interessante

[00:12:31] Ao que basicamente é o seguinte

[00:12:34] Gente

[00:12:34] Momento anarquista

[00:12:37] O estado é uma gangue

[00:12:40] Basicamente

[00:12:41] O que se chama de estado

[00:12:42] A fundação dos estados modernos, dos reis

[00:12:45] São gangues

[00:12:46] E aí o que que acontece

[00:12:49] Essas gangues começaram a tomar o poder

[00:12:50] E aí de repente uma galera começou a escrever uns livros

[00:12:53] Falando assim, não, isso aqui

[00:12:54] Aí

[00:12:55] Se criou a ideia de direito divino

[00:12:57] Depois se criou a ideia do eleito pelo povo

[00:12:58] E sei lá o que, papapá

[00:13:00] Mas quando você vai ver o que tá rolando

[00:13:02] Na verdade você tá vendo assim, gangues se perpetuando no poder

[00:13:05] Né, tal como em Deadwood

[00:13:07] Deadwood basicamente ele é um mito

[00:13:09] Sobre a própria origem do estado

[00:13:11] Aí pra, ah mas é no Velho Oeste

[00:13:13] Gangues de Nova York

[00:13:14] O próprio gangue de Nova York

[00:13:16] Nova York, o coração dos Estados Unidos

[00:13:19] Né, tipo

[00:13:20] Tá lá, você vai ver como aquilo surgiu

[00:13:23] Daquela maneira

[00:13:24] E aí

[00:13:25] É porque é sempre interessante quando a gente fala disso

[00:13:27] Porque as galeras falam do estado

[00:13:29] Ah não, porque

[00:13:31] O estado está sendo corrompido

[00:13:33] O estado, por exemplo

[00:13:35] No caso do Tropa de Elite, né

[00:13:37] No Tropa de Elite 2 que o cara vai dar aquele movimento extra

[00:13:40] E vai falar do estado

[00:13:41] Que, ó, o problema é Brasília

[00:13:43] Cara

[00:13:45] O problema é Brasília, não são as pessoas que estão em Brasília

[00:13:47] O problema é a própria ideia de Brasília

[00:13:49] A própria de estado, então esse que é o ponto

[00:13:51] É o estado que corrompe, ele é um corruptor

[00:13:54] Ele não é corrompido

[00:13:55] Nem os atores, sabe

[00:13:56] Esse que é um ponto que eu acho que falta

[00:13:58] Deadwood, ele não dá essa volta, né

[00:13:59] Como a maioria dos filmes não dão, né

[00:14:01] Existe sempre o

[00:14:02] Porque nos filmes de

[00:14:06] Deadwood tem um pouco isso, né

[00:14:09] Mas não tanto

[00:14:10] Mas nos filmes, geralmente nos filmes de Velho Oeste

[00:14:13] Tem sempre a figura do Marshall

[00:14:15] Porque tem o xerife e tem o Marshall

[00:14:17] Que é o cara que é o representante do estado

[00:14:19] Quando o assentamento é incorporado

[00:14:22] O xerife vira um Marshall

[00:14:24] O xerife vira um Marshall

[00:14:24] Ele vira um representante do estado

[00:14:26] O U.S. Marshall, né

[00:14:28] Ele vira o representante da lei

[00:14:30] Centralizada do estado, tal como era em Roma

[00:14:33] E tudo mais

[00:14:33] É, ele só ganha um distintivo diferente

[00:14:35] Mas a questão maravilhosa

[00:14:39] Do Deadwood que eu acho, por exemplo

[00:14:40] É que, assim, diferente do

[00:14:42] Do que a gente tem

[00:14:44] No imaginário popular

[00:14:46] Comum, é

[00:14:48] O xerife de Deadwood é um neurótico

[00:14:51] Que em nenhum momento é heróico

[00:14:53] Ele é o mais próximo

[00:14:54] Que a gente tem de herói

[00:14:56] Vamos dizer, tradicional na série

[00:14:58] Mas ele é sempre

[00:15:00] Representado

[00:15:04] Como um total neurótico

[00:15:06] Incapaz de coibir

[00:15:09] Seus impulsos de violência

[00:15:10] Inclusive ele deixa isso bem claro

[00:15:12] Num episódio da terceira temporada

[00:15:14] Em que ele fala com outro cara que já foi xerife

[00:15:16] E fala assim, é, eu sei como é não ser xerife

[00:15:18] Tipo, largar o distintivo por um tempo

[00:15:21] Mas você não perde

[00:15:23] A vontade de ser violento

[00:15:24] Com certos tipos

[00:15:25] E aí ele deixa bem explícito

[00:15:28] Aquilo que a série vem botando

[00:15:30] Ele traz pro texto

[00:15:32] O que tava no subtexto da série até então

[00:15:34] Que é, ué

[00:15:36] A polícia é só

[00:15:38] O

[00:15:39] A mão que bate, assim

[00:15:42] É um jeito da gente

[00:15:44] Fingir que a violência é tudo bem

[00:15:45] E é por isso que a série toda é centrada

[00:15:48] No dono de um puteiro

[00:15:50] Que é o Al Swearengen

[00:15:52] E aí você vê

[00:15:53] Como o Al Swearengen

[00:15:54] É representando

[00:15:55] A única real

[00:15:57] Estrutura de poder estável

[00:16:00] Que é, ué, eu exploro

[00:16:02] Os vícios de todos

[00:16:04] Né, então é tipo, é

[00:16:05] Mulher, bebida, comida, cama

[00:16:08] E todo tipo de resto de atividade

[00:16:10] Que for acontecer

[00:16:11] Vai passar por mim

[00:16:12] E aí, o que ele quer proteger do estado corruptor

[00:16:16] Não é uma certa

[00:16:17] Um estado natural que tipo, ah não, olha só

[00:16:20] O homem está aqui

[00:16:21] E aí o estado vem e arruina tudo o que a gente tá fazendo

[00:16:24] Não

[00:16:24] Basicamente assim, não

[00:16:25] Eu quero a minha corrupção, não a corrupção deles

[00:16:28] É, é porque o problema

[00:16:30] O problema da

[00:16:32] É porque assim, a própria ideia de corrupção

[00:16:35] A gente poderia, daria pra fazer toda uma outra temporada

[00:16:37] Sobre isso, né

[00:16:38] Mas é que, como eu digo, são lutas de gangues

[00:16:41] Né, é briga de gangue

[00:16:42] Não é uma briga entre o certo e o errado, são duas gangues

[00:16:45] Porque aí você tem uma briga

[00:16:46] Deadwood, por isso que eu falo, Deadwood atira no que vê

[00:16:49] E acerta no que não vê, né

[00:16:50] Porque ele mostra diretamente como é uma briga de gangue

[00:16:53] Porque é a gangue que é a briga de gangue

[00:16:54] Do estado versus a gangue local

[00:16:56] Né, é tipo assim, porque

[00:16:58] Em todo mundo ali, não existe uma

[00:17:00] Ordem transcendental do bom

[00:17:02] Sabe, não existe um bom valor

[00:17:04] Porque é esse que é um ponto que é crucial, né

[00:17:06] Porque muitas das pessoas que falam, toda aquela ideia do

[00:17:08] Fardo do homem branco, né

[00:17:10] Do mito do fardo do homem branco

[00:17:12] De levar a civilização para outros povos

[00:17:14] E aquilo e papapá

[00:17:15] Toda essa falácia

[00:17:18] Ela se apoia na ideia de que a civilização

[00:17:20] Ocidental, e por isso que é um dos motivos

[00:17:22] Pelos quais eu sempre odeio a palavra progressista

[00:17:24] Progressismo, progresso

[00:17:26] Porque ela carrega com isso

[00:17:28] Esse valor, né

[00:17:29] Que nós somos encarnações

[00:17:32] Nós somos embaixadores

[00:17:33] Do suposto

[00:17:35] Da mente humana mais desenvolvida

[00:17:38] No sentido da mente expandida, né

[00:17:40] Dos valores mais expandidos

[00:17:41] Então, como se, tudo se passa

[00:17:44] Como se os valores ocidentais, como se

[00:17:46] Quer ver um exemplo, um exemplo muito claro

[00:17:48] Disso

[00:17:49] Quando você começa a falar

[00:17:54] Sobre

[00:17:54] A galera começa

[00:17:57] Toda vez que vão falar sobre ataques terroristas

[00:18:00] Na França

[00:18:01] Não estou aqui justificando ataques terroristas

[00:18:03] Não estou aqui justificando nada disso

[00:18:04] Mas uma das coisas que fica muito fora do escopo

[00:18:07] Quando se fala disso

[00:18:08] Parece que as pessoas estão atacando a França

[00:18:11] Por um motivo muito

[00:18:12] Aleatório, não, a França é um alvo

[00:18:15] De ataques terroristas por motivos aleatórios

[00:18:17] Não se fala, por exemplo, do passado muito recente

[00:18:20] Não estou falando de coisa de três séculos atrás

[00:18:21] Muito recente da França

[00:18:23] Por exemplo, na Argentina

[00:18:24] Na Argélia

[00:18:25] Todo método de tortura que foi criado

[00:18:28] Por exemplo, que foi explorado aqui no Brasil

[00:18:29] Que chegou no Brasil por via da Guerra do Vietnã

[00:18:31] Mas começou na França

[00:18:32] A ditadura militar

[00:18:35] Foi baseado na chamada

[00:18:37] Doutrina de Guerra Revolucionária

[00:18:38] Criada pelos franceses para oprimir

[00:18:41] E impedir os eventos separatistas

[00:18:44] Na Argélia

[00:18:44] E isso envolvia tortura e desaparecimento forçado

[00:18:48] E a gente está falando

[00:18:49] Da galera que chegou na Argélia

[00:18:52] Com a desculpa que estava promovendo direitos humanos

[00:18:54] Promovendo, sabe, tipo assim

[00:18:56] Olha, estamos aqui levando

[00:18:59] Nós somos o berço da civilização ocidental

[00:19:01] Cara, tipo assim, os caras estavam na Argélia

[00:19:04] Na década de 50

[00:19:05] Torturando e desaparecendo pessoas

[00:19:07] Sabe, então assim

[00:19:08] É interessante notar que existe

[00:19:11] Um abismo

[00:19:14] Entre a maneira como o ocidente

[00:19:16] Se representa

[00:19:18] E a maneira como ele age

[00:19:19] E aí que vem o ponto

[00:19:21] Porque toda vez que a gente vai olhar para esses

[00:19:23] Para esse imaginário

[00:19:26] Sobre o Velho Oeste

[00:19:27] Ou o pós-apocalipse

[00:19:29] Sempre tem essa dicotomia

[00:19:30] Como se o Estado

[00:19:33] Ou ele fosse uma coisa inerentemente boa

[00:19:35] Porque ele é uma representação desses valores

[00:19:37] Porque é um Estado democrático, liberal

[00:19:39] E ali tem sujeito que o corrompe

[00:19:42] Isso que é o legal do Deadwood

[00:19:44] Ele mostra que não

[00:19:45] Não existe o Estado transcendental

[00:19:47] O Estado basicamente é uma organização

[00:19:50] É um negócio

[00:19:51] Criado por algumas gangues

[00:19:53] Que depois é legalizado

[00:19:55] É isso

[00:19:56] A melhor definição é essa

[00:19:58] Exato, você joga o jogo

[00:20:00] E aí você vê como o negócio dá certo para você

[00:20:02] E você fala assim

[00:20:03] Ah, então essas são as regras que você vai escrever no manual

[00:20:05] É basicamente isso

[00:20:07] E aí Deadwood, tal qual

[00:20:09] Tropa de Elite

[00:20:11] Ele nos leva

[00:20:13] A contragosto

[00:20:15] A situações em que você está lá torcendo

[00:20:17] Para o xerife ou para o Capitão Nascimento

[00:20:19] Tipo, é isso, desce a porrada desse filho da puta

[00:20:21] Mas te dando

[00:20:23] O espaço e a informação necessária

[00:20:25] Para você depois falar, caralho

[00:20:26] Por que que eu, naquele momento

[00:20:29] Estou torcendo para esse cara ou aquele cara

[00:20:31] No final das contas, eu tinha que estar torcendo

[00:20:33] Para algo melhor que eles dois

[00:20:35] E aí eu acho que é isso que Deadwood

[00:20:37] É muito bom em retratar, em tipo

[00:20:38] Olha só, saca só

[00:20:40] Sim, esses caras

[00:20:43] Acham que eles são melhores que esses

[00:20:45] E você pode até achar que esses caras são melhores que esses

[00:20:47] Em suas intenções, mas vamos comparar

[00:20:49] As ações aqui e ver como

[00:20:51] Nada disso é bom

[00:20:53] E aí voltando

[00:20:54] Para um outro ponto que a gente já levantou em outros episódios

[00:20:56] Nada disso é necessário

[00:20:58] Nada disso é natural

[00:21:00] Tudo isso está sendo construído

[00:21:02] A gente decide que as instituições

[00:21:04] Vão ser assim, então a gente vê

[00:21:06] No Deadwood, por exemplo, a imprensa

[00:21:08] Nascendo como o quarto poder

[00:21:10] E tal, tem o jornalista lá

[00:21:12] Bobalhão da cidade

[00:21:14] Que representa exatamente

[00:21:16] Tipo, olha, meu amigo, não existe

[00:21:18] Neutralidade, meu amigo, não existe

[00:21:20] Não existe imparcialidade

[00:21:21] Você é jornalista?

[00:21:23] Você é o cara que

[00:21:25] Leva informação para o povo e atiça o povo

[00:21:27] Você abraça a realidade do seu papel

[00:21:29] E agora você decida

[00:21:30] O que você vai fazer com isso

[00:21:31] Então esse que é um ponto, né

[00:21:34] Porque assim

[00:21:35] Aí a gente vai para um tema mais complexo

[00:21:41] Porque vai entre intenção e auto-representação

[00:21:43] Porque um ponto que é crucial

[00:21:44] Ninguém se vê como vilão

[00:21:46] No mundo real

[00:21:48] Raramente alguém se vê como vilão, sabe

[00:21:50] Acho que talvez nem

[00:21:52] Talvez

[00:21:53] Alguns fádicos, talvez

[00:21:55] Mas no geral

[00:21:56] Não, por isso que a gente faz filmes tipo Coringa

[00:21:59] Que até o vilão tem que ser o herói

[00:22:01] Porque você tem que se compreender

[00:22:02] Com aquela estrutura narrativa

[00:22:04] É, exatamente, então esse é o ponto

[00:22:07] Então assim, é óbvio que

[00:22:09] Quando você coloca esses sujeitos

[00:22:12] Que estão

[00:22:12] Esses sujeitos sob perspectiva

[00:22:15] Esse que é o ponto, coloca esses sujeitos sob perspectiva

[00:22:18] E aí se diz muito sobre, por exemplo

[00:22:20] Tem um debate que pra mim é muito pouco produtivo

[00:22:22] Sobre humanizar vilões

[00:22:23] Vocês estão humanizando as pessoas e tal

[00:22:25] Não, a questão toda eu acho que

[00:22:27] Inclusive é fundamental que a gente compreenda

[00:22:30] Que muitos desses sujeitos

[00:22:33] Quando você vai olhar ali na estrutura do evento

[00:22:35] Eles foram vilões

[00:22:36] Um exemplo clássico disso

[00:22:37] Tem uma polêmica aí, você como paulistano

[00:22:40] Você entende bem disso

[00:22:42] Os bandeirantes

[00:22:43] Cara, os bandeirantes são

[00:22:46] Vocês tem monumentos

[00:22:48] Aqui também no Rio de Janeiro tem monumentos de bandeirantes

[00:22:50] Tipo, cara, os bandeirantes foram agentes genocidas

[00:22:53] Foram agentes genocidas

[00:22:55] Foram agentes do genocídio

[00:22:56] A Íanguera, né, que é o nome de uma avenida aí

[00:22:59] Se não me engano, né, avenida

[00:23:00] A Íanguera, pra quem não sabe

[00:23:03] Íang, Íanga

[00:23:04] É o famoso Íanga, é espírito e tudo mais

[00:23:07] A Íanguera, tipo assim

[00:23:08] É um espírito velho, é um ex-espírito

[00:23:10] Tradução mais aproximada

[00:23:12] Isso era utilizado por um diabo velho

[00:23:15] Se chamava ele de diabo velho

[00:23:16] É o nome que as populações

[00:23:18] Daí já andavam ele

[00:23:19] Porque ele não era um sujeito, não era um nice guy, tá ligado?

[00:23:23] Ao contrário, ele era um ator genocida

[00:23:24] E aí temos uma rua, uma avenida

[00:23:27] Com esse nome

[00:23:28] Tu vê como é que a perspectiva da coisa muda?

[00:23:31] O cara é visto como herói

[00:23:33] Só que no fim das contas o cara era um genocida

[00:23:35] Então eu acho que

[00:23:37] É importante ter isso em mente

[00:23:39] Porque, um, sim

[00:23:41] Acaba com a ideia de neutralidade

[00:23:43] Não existe uma coisa neutra

[00:23:45] A narrativa histórica não é neutra sobre os eventos

[00:23:47] A narrativa nunca é neutra

[00:23:49] Então, assim, o que é um herói

[00:23:51] Nesse sentido, porque é aí que vem o ponto

[00:23:53] É aquele sujeito

[00:23:55] Cujos atos foram

[00:23:57] Abraçados pela própria

[00:23:59] Cosmologia daquelas pessoas que estão contando

[00:24:01] Os heróis são aqueles que nós desejamos

[00:24:03] Que sejam heróis

[00:24:04] E isso muitas vezes é preocupante

[00:24:07] Porque, assim, quem são os heróis

[00:24:09] Que nós queremos?

[00:24:10] Quando a gente olha pra um

[00:24:12] Porque tem esse aspecto estrutural

[00:24:14] Que é o herói é aquele que se liberta das amarras

[00:24:16] Então ele se torna um embaixador

[00:24:18] Ele tá além a quem

[00:24:19] Mas também agora tem um outro ponto

[00:24:21] Que a gente acha interessante pra gente finalizar

[00:24:22] A série com ele

[00:24:23] Quem são aqueles que nós queremos

[00:24:26] Que sejam nossos heróis

[00:24:28] A gente fala muito do herói likeable

[00:24:30] Mas, assim

[00:24:31] Por exemplo, o Capitão Nascimento

[00:24:34] Que virou um herói no Brasil, ele não é likeable

[00:24:36] Muito pelo contrário

[00:24:38] É um gesto extremamente agressivo com a esposa

[00:24:40] Tem uma relação abusiva com ela

[00:24:43] Mas ele é visto como um herói

[00:24:45] Por quê? Porque ele cumpre um papel

[00:24:47] Que nós achamos

[00:24:49] Que é um papel heróico

[00:24:50] Nós, entre aspas, nós sociedade

[00:24:52] Não tô falando que eu acho isso, pra deixar claro pro ouvinte

[00:24:54] Que é o de expurgar o mundo

[00:24:56] Dos elementos indesejáveis

[00:24:57] E daí que os pioneiros

[00:25:00] Cowboys, sabe? Billy the Kid

[00:25:02] Toda essa fascínio por vilões

[00:25:04] Passa por aí, né?

[00:25:05] E aí, nessa questão dos elementos indesejáveis

[00:25:07] Eu entro numa questão que eu adoro

[00:25:10] Que vocês estejam aqui pra isso

[00:25:11] Que é o seguinte

[00:25:13] Deadwood lida com uma questão muito importante

[00:25:16] Pro colonialismo americano

[00:25:18] De uma maneira interessante

[00:25:20] Que é o seguinte

[00:25:20] Ele lida com o racismo e xenofobia

[00:25:23] Muito ali

[00:25:24] Com alguns personagens negros

[00:25:25] E alguns personagens sino-americanos

[00:25:28] Chineses e imigrantes

[00:25:30] E ele deixa

[00:25:33] Como um espectro

[00:25:35] Bem

[00:25:35] Nunca visível

[00:25:38] Mas super martelado na série

[00:25:41] Inclusive tem uma cabeça

[00:25:42] Que você nunca vê de um índio

[00:25:44] Na sala do Wall Swearingen

[00:25:46] Que rola na primeira temporada

[00:25:48] De tipo, a gente sabe que

[00:25:50] A prima

[00:25:52] A primeira coisa que a gente tem que fazer aqui

[00:25:54] O pecado capital da nossa existência aqui

[00:25:57] É roubar a terra

[00:25:59] De quem já tava aqui

[00:26:00] E no caso eram os nativo-americanos

[00:26:02] E aí eles sempre falam dos selvagens

[00:26:05] E eles nunca mostram

[00:26:07] Os nativo-americanos

[00:26:08] Porque, imagino eu

[00:26:10] É algo proposital

[00:26:13] Não é uma questão

[00:26:14] De falta de

[00:26:17] De orçamento e tudo mais

[00:26:19] Enfim, e não tô aqui

[00:26:20] Também, mas é uma coisa que eu acho que é muito importante

[00:26:20] Também pra defender essa decisão ou não

[00:26:22] Mas eu digo assim, existe uma questão

[00:26:24] Por que que você não vê

[00:26:26] Indígenas fora da primeira temporada

[00:26:28] Você vê um personagem indígena

[00:26:29] Que é quando ele enfrenta o personagem que viria a ser o xerife

[00:26:32] E aí o próprio personagem

[00:26:34] Volta e fala assim, cara, eu matei o cara

[00:26:36] Mas assim, eu vi ali que a gente era

[00:26:38] A mesma pessoa naquele momento

[00:26:39] Ele achava que eu matei o amigo dele

[00:26:41] Eu tava tentando não morrer, ele tava tentando não morrer

[00:26:44] E é isso, e a gente teve que tipo

[00:26:46] Um teve que matar o outro, um ia morrer

[00:26:48] E aí eu matei ele e foi isso que aconteceu

[00:26:49] Não foi algo

[00:26:50] Bom

[00:26:51] E não tinha nenhum jeito de terminar bem

[00:26:54] Essa história

[00:26:55] E aí você fica com esse espectro de tipo assim, ó

[00:26:58] É a gente ou os selvagens

[00:27:00] A gente ou os selvagens

[00:27:01] E aí, eu acho que entra

[00:27:04] Numa questão maior ainda

[00:27:06] Desse apagamento

[00:27:08] Ótimo, eu vou te jogar

[00:27:12] O gancho que eu quero jogar, que é o seguinte

[00:27:14] Existe um apagamento

[00:27:16] Quando a gente fala de colonialismo

[00:27:18] E desse processo

[00:27:19] Civilizatório

[00:27:20] De criação do Estado como ele é

[00:27:22] Na visão europeia

[00:27:23] De que, ah, nós chegamos aqui

[00:27:26] Nós roubamos essa terra

[00:27:28] Dessas pessoas

[00:27:29] Mas pouquíssimo se fala

[00:27:31] Do que essas pessoas faziam

[00:27:34] A gente aprende que

[00:27:36] Tipo, os nativos estavam aqui

[00:27:38] Os nativos estavam lá nos Estados Unidos

[00:27:39] E chegaram os cowboys e mataram todo mundo

[00:27:43] E roubaram suas terras

[00:27:44] Mas é tipo assim, em nenhum momento você para pra dizer assim

[00:27:46] Ó, é o seguinte

[00:27:47] Essas sociedades tinham essas estruturas

[00:27:50] Tinham essas tecnologias

[00:27:52] Tinham esses conhecimentos, essas ciências

[00:27:54] Tudo isso é apagado, tudo isso é jogado pro lado

[00:27:56] Não, só, você só vai entender

[00:27:58] A sociedade europeia

[00:28:01] Como uma sociedade que tem diversos

[00:28:03] Galhos, né

[00:28:05] Todas as outras árvores

[00:28:06] São mortas, são deadwood

[00:28:08] É só tipo, os índios estavam lá

[00:28:10] Sim, mas o que eles estavam fazendo? Não, eles estavam lá

[00:28:11] Não, mas é o seguinte, eles já tinham entendido

[00:28:14] Como plantar milho

[00:28:16] Como fazer a nixtamilização

[00:28:17] Como fazer isso, como construir pirâmides

[00:28:19] Construir, não

[00:28:20] Não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não

[00:28:20] Todo esse conhecimento, toda essa cultura

[00:28:22] Toda essa relação, toda essa hierarquia

[00:28:25] Todas essas instituições

[00:28:27] São apagadas pra que você possa

[00:28:29] Focar no fato de que não, só existe

[00:28:31] Um tipo de estrutura de poder

[00:28:33] Que é essa exata aqui do Império Romano

[00:28:35] Que a gente tá trazendo de volta no Velho Oeste

[00:28:38] Então, tem várias coisas aí

[00:28:40] Uma coisa que você falou que é uma coisa interessante

[00:28:41] Eu revi Logan esses dias

[00:28:43] E é um filme melhor e pior do que eu lembrava

[00:28:45] Ao mesmo tempo, né, eu adoro esses filmes que são assim

[00:28:47] E tem uma coisa que é um momento que o Logan

[00:28:49] Que é muito bom

[00:28:50] Que a X-23 vira pra ele, né

[00:28:53] E fala assim

[00:28:54] Todas as pessoas que eu matei eram pessoas ruins

[00:28:57] E aí ele falou assim

[00:28:58] No final é tudo a mesma coisa

[00:29:00] Tipo, porque eu acho que é uma coisa

[00:29:03] Eu acho que esse é um momento muito bom, assim, do roteiro do Logan

[00:29:06] Que é o momento que ele fala assim

[00:29:07] Cara, morte é morte, pronto, bicho

[00:29:09] Não existe, uma morte não é menor porque a pessoa

[00:29:11] Era ruim, que você matou do outro lado

[00:29:13] Porque essa é uma dicotomia muito simples

[00:29:15] De você estruturar qualquer narrativa

[00:29:16] As pessoas que estão morrendo

[00:29:17] Eu que sou da terra das racinas

[00:29:20] Do Rio de Janeiro, né

[00:29:22] Marcado pelas racinas

[00:29:23] É a resposta mais fácil

[00:29:28] Que os caras usam

[00:29:29] Não, as pessoas eram bandidas, mereciam morrer

[00:29:30] Como assim, cara?

[00:29:32] É que nem, chegam pra mim e falam assim

[00:29:34] Ah, você tudo defende vagabundo

[00:29:36] Falei, cara

[00:29:37] Primeiro, dentro desse sistema, sim, eu defendo, bicho

[00:29:41] Porque pra mim, vida humana é uma vida humana, cara

[00:29:43] O cara pode ser traficante

[00:29:44] Mas a vida dele é uma vida digna de respeito

[00:29:47] Não é assim que a coisa opera, não, sabe

[00:29:49] Não é bem assim que

[00:29:50] Que a banda toca

[00:29:51] E aí, esse é um ponto que eu acho que é crucial

[00:29:53] Que isso desmonta toda essa

[00:29:55] Tanto que eu acho que é muito interessante

[00:29:57] O Logan por isso, porque ele é o filme do herói possível

[00:30:00] O herói que não existe, né

[00:30:01] Tipo, não existe herói, pronto

[00:30:03] O herói, ele morre, ele tem que morrer

[00:30:04] Não existe um herói possível

[00:30:06] E aí, mas sobre essa coisa do apagamento

[00:30:09] Porque aí vem outro ponto, né

[00:30:10] A gente tava falando isso há um longo tempo

[00:30:13] É mais fácil imaginar o fim do mundo

[00:30:14] Do que o fim do capitalismo, né

[00:30:16] E é mais fácil imaginar o fim do mundo

[00:30:19] Que nós, os eurâmicos

[00:30:20] Os americanos construíram, do que outros mundos

[00:30:22] Né

[00:30:23] É muito difícil se imaginar

[00:30:26] Outras vidas que vão para além

[00:30:28] Né, que estão além

[00:30:29] Dos limites estabelecidos

[00:30:31] Pelo mundo euro-americano

[00:30:34] E aí, não apenas os povos

[00:30:36] Os povos originários, os povos indígenas

[00:30:38] Mas isso você também

[00:30:40] Vê, por exemplo, as populações que chegavam

[00:30:42] Junto com

[00:30:44] Que foram, é, sequestradas e trazidas

[00:30:46] Para as Américas, por exemplo

[00:30:47] Para os próprios negros

[00:30:48] Né, os povos africanos

[00:30:50] Que, eu como um adepto

[00:30:52] De religiões matriz africana

[00:30:54] Falo isso com certeza

[00:30:55] O que se pensa ali, os heróis

[00:30:57] Os heróis desse mundo são completamente diferentes

[00:31:00] O mundo é completamente outro

[00:31:02] Né, então assim

[00:31:04] É interessante porque

[00:31:05] Essa máquina de produzir heróis

[00:31:07] Esse território, de produzir cidades, né

[00:31:10] Porque tem que produzir uma cidade

[00:31:11] Aí a cidade rapidamente se organiza, vira um microestado

[00:31:13] Ele é também

[00:31:15] Um processo de apagamento

[00:31:17] E conformização dos sujeitos

[00:31:20] Dos outros sujeitos, das outras histórias

[00:31:22] Dos outros mundos, das outras possibilidades

[00:31:24] A colonização

[00:31:25] Não é apenas um processo de você colocar ali

[00:31:27] Uma vilazinha, não, a colonização é um processo

[00:31:29] Completo de destruição da paisagem

[00:31:32] Né, e a paisagem são outras subjetividades

[00:31:35] Então aqueles

[00:31:36] Os negros

[00:31:37] Não é à toa que, por exemplo, um dos processos

[00:31:39] Cruciais do processo de colonização

[00:31:41] E de escravidão

[00:31:43] É um processo de despersonização

[00:31:47] Né, daquelas pessoas

[00:31:48] Que eram trazidas para cá

[00:31:50] Como escravos, né

[00:31:52] Porque o que acontece

[00:31:54] Você destituir

[00:31:56] Essas pessoas de um nome

[00:31:57] Da sua própria língua

[00:31:59] Da sua própria possibilidade

[00:32:02] De exercer suas crenças religiosas

[00:32:03] Sua fé, suas artes religiosas

[00:32:06] Porque nesse processo você tornava

[00:32:08] Você tentava torná-la um mero objeto

[00:32:10] Da reprodução

[00:32:11] Daquela cidade, daquele fluxo, sabe

[00:32:14] E aí o que acontece

[00:32:16] Quando você faz isso, é que você está sempre condenando

[00:32:18] O outro a ser um

[00:32:20] Mero apêndice seu

[00:32:21] Né, estou falando seu no sentido dos euro-americanos

[00:32:24] Né, assim, e aí o que acontece

[00:32:26] Por isso que, e é muito bom

[00:32:28] Uma das coisas muito interessantes

[00:32:30] É você reverter

[00:32:32] O

[00:32:33] É você reverter

[00:32:36] O processo, né, você reverter e ver assim, cara

[00:32:38] Como que esse processo todo foi desenhado

[00:32:40] A partir

[00:32:41] Daqueles que estavam do outro lado da história, né

[00:32:44] E é outra coisa, é aquilo

[00:32:46] Os heróis aparecem como vilões

[00:32:48] Teve agora um exemplo recente

[00:32:50] Uma coisa meio doida que aconteceu

[00:32:51] O Destiny, né, o Destiny 2

[00:32:53] Que é um jogo que eu perco

[00:32:55] Tenho envelhecido jogando ele, né

[00:32:57] Tá aí o jogo que ao invés de morrer um herói

[00:33:01] Viveu o suficiente

[00:33:02] Pra se tornar um vilão

[00:33:03] Cara, mas

[00:33:05] Recentemente lançou uma expansão dele

[00:33:08] Que você tem lá

[00:33:10] O Destiny é o clássico jogo

[00:33:12] Jogo da, jogo

[00:33:13] De tiro, né

[00:33:15] Você é um herói mudo

[00:33:17] E aí você mata um monte de vilões

[00:33:19] Muito parecido

[00:33:20] Hordas, hordas de vilões

[00:33:22] Muito parecidos e tal

[00:33:22] E aí eles lançaram uma expansão

[00:33:26] Onde uma dessas espécies

[00:33:27] É um jogo que tem aliens e tal

[00:33:29] Uma dessas espécies alienígenas

[00:33:31] Você salva essas espécies alienígenas

[00:33:34] Que você passou, sei lá, 10 anos da sua vida lutando contra

[00:33:36] E você começa a abrigá-la

[00:33:38] Na própria cidade

[00:33:39] E aí o que acontece

[00:33:40] As pessoas refugiadas

[00:33:43] Fallen, né, dos caídos

[00:33:46] Eles chegam lá com os filhotinhos

[00:33:48] Saca?

[00:33:49] Então, tipo

[00:33:50] Eles são insectóides, né

[00:33:51] Então tem uns filhotinhos insectóides

[00:33:52] E aí o público se amarrou

[00:33:54] Eles tão fazendo

[00:33:55] Eles tão fazendo boneco daquilo

[00:33:58] Cara, olha a 4

[00:33:58] Só que aí surgiu uma pergunta crucial

[00:34:01] Assim, uma galera no fórum

[00:34:02] Gente, vocês já pararam pra imaginar

[00:34:05] Que nós estamos há 10 anos

[00:34:07] Matando os pais desses bebês

[00:34:10] No jogo?

[00:34:11] Tipo, e aí a galera ficou assim

[00:34:13] Ah, mas pera aí

[00:34:14] E a galera do Destiny que tá escrevendo

[00:34:17] Teve uma sacada muito interessante

[00:34:19] Porque, por exemplo

[00:34:20] Quando você começou a ter contato

[00:34:22] Com essa outra espécie

[00:34:23] E eles começam a representar

[00:34:25] Eles representam os personagens

[00:34:27] Os guardiões, né

[00:34:29] Os personagens dos jogadores

[00:34:30] Inclusive o maior de todos os guardiões lá

[00:34:32] Como vilões genocidas

[00:34:34] Como monstros genocidas imortais

[00:34:36] Porque o grande lance é que você é um soldado imortal no jogo

[00:34:39] Então você vai matar centenas de milhares

[00:34:41] De inimigos se você nunca morre

[00:34:43] E aí, quando eles

[00:34:44] Eles simplesmente dão uma virada na perspectiva

[00:34:47] E falam assim, não cara

[00:34:48] Agora imagina como as outras espécies

[00:34:50] A galera que tá do outro lado da tua mira

[00:34:52] Tá vendo você

[00:34:53] Você é uma máquina de matar que não morre

[00:34:54] Você é um demônio

[00:34:56] Saca?

[00:34:56] E essa foi uma sacada muito simples

[00:34:59] Que deu uma bela enriquecida no jogo, sabe?

[00:35:02] Então, aí entra uma questão interessante

[00:35:04] Já que você quis puxar jogos

[00:35:06] Jogos?

[00:35:07] Jogos

[00:35:08] Eu vou puxar aqui

[00:35:10] Um elemento da semiótica do Gus

[00:35:15] Que permeia Deadwood muito

[00:35:17] E Mad Max

[00:35:19] Que você levantou

[00:35:19] Que é o…

[00:35:20] É o…

[00:35:20] É o…

[00:35:20] É o Velho Oeste

[00:35:20] É o Novo Velho Oeste, né?

[00:35:23] É aquela situação

[00:35:24] Que é muito comum na ficção científica

[00:35:27] Que é o…

[00:35:27] Ah, e se tudo for uma merda

[00:35:30] E a gente voltar pra como era antes?

[00:35:32] Né?

[00:35:32] É basicamente isso

[00:35:33] É tipo assim

[00:35:33] Se a gente tiver que reconstruir a nossa sociedade

[00:35:35] Né?

[00:35:35] Voltar pro começo

[00:35:36] O New Game Plus

[00:35:38] É…

[00:35:39] O New Game Plus, é isso

[00:35:40] O que que é o elemento que tá presente ali nesses

[00:35:43] E num jogo que eu tô muito viciado em jogar

[00:35:45] Chamado Wreckfest

[00:35:48] Que é um jogo de…

[00:35:49] Corrida de demolição

[00:35:50] Corrida de bater carro

[00:35:51] É terra

[00:35:54] Lama

[00:35:55] E essa palavra

[00:35:56] Que eu adoro do inglês

[00:35:57] Dirt

[00:35:58] Que é sujeira e terra ao mesmo tempo

[00:36:02] Né?

[00:36:02] Porque o que é a terra

[00:36:03] Se não sujeira?

[00:36:05] Ahm

[00:36:06] E que é o…

[00:36:07] O rejeito, né?

[00:36:08] Aquilo tudo que sobra

[00:36:09] O que cai

[00:36:10] É…

[00:36:10] Vai porque terra pra mim é…

[00:36:13] É fertilidade, né?

[00:36:14] Vai lá

[00:36:14] É só outra coisa

[00:36:15] Exato

[00:36:15] Então é…

[00:36:16] Não é terra no sentido que a gente pensa de terra

[00:36:18] Quando você fala

[00:36:19] Dirt

[00:36:19] Você não pensa numa terra

[00:36:21] Pretinha

[00:36:22] Que vai nascer uma grama

[00:36:23] Uma árvore

[00:36:23] Não

[00:36:24] Você pensa naquela terra

[00:36:24] Roxa

[00:36:26] Né?

[00:36:26] Na terra vermelha

[00:36:28] Aquela árida

[00:36:29] Sem nutriente

[00:36:30] Aquilo que é só

[00:36:31] Minério

[00:36:32] E coisa morta

[00:36:34] Vai lá que eu…

[00:36:36] Entrei numa pira aqui

[00:36:37] Vai lá

[00:36:37] Vai lá que eu voltei

[00:36:38] Exato

[00:36:38] E aí aquilo faz aquela lama

[00:36:40] Escrota

[00:36:41] Que tá sempre em Deadwood

[00:36:42] E tal

[00:36:43] Não sei o que

[00:36:43] E que é sempre um…

[00:36:45] Um atalho visual

[00:36:46] Pra toda…

[00:36:47] Toda obra

[00:36:48] De tipo…

[00:36:49] Você não queria estar aqui

[00:36:50] Isso aqui é sujo

[00:36:51] Isso aqui não é pra você

[00:36:52] E isso é uma sensação

[00:36:53] Que você tem o tempo inteiro

[00:36:54] Em Deadwood

[00:36:54] Em Mad Max

[00:36:55] De tipo assim

[00:36:56] Essa é uma existência inóspita

[00:36:58] Né?

[00:36:59] Essa é uma…

[00:36:59] Você fica com sede

[00:37:00] Vendo a do Mad Max

[00:37:01] Você fica com vontade

[00:37:02] De escovar os dentes

[00:37:03] Vendo o E.B. Farnham

[00:37:04] Falar no Deadwood

[00:37:05] E tudo mais

[00:37:06] E toda aquela existência

[00:37:07] E meio que existe

[00:37:08] Uma justificativa de tipo

[00:37:09] Não, estamos no inteirinho

[00:37:10] Não é assim

[00:37:11] Que o ser humano

[00:37:12] É pra viver assim

[00:37:13] Né?

[00:37:13] Mas ele está vivendo assim

[00:37:15] Num processo

[00:37:16] De chegar na sua existência ideal

[00:37:18] Né?

[00:37:18] Esse pessoal de Deadwood

[00:37:19] Tá vivendo assim

[00:37:20] Pra eventualmente

[00:37:21] Poder deixar de…

[00:37:23] Poder ter um banheiro em casa

[00:37:24] Entendeu?

[00:37:25] E virar você

[00:37:25] Mas…

[00:37:26] Só que em algum momento

[00:37:27] Você percebe

[00:37:28] Não

[00:37:28] As pessoas viveram

[00:37:30] Né?

[00:37:31] Gerações inteiras viveram

[00:37:32] Nesse…

[00:37:33] Nesse processo

[00:37:34] E aí você pensa assim

[00:37:35] Pô, que desperdício

[00:37:36] Né?

[00:37:36] Que essas gerações viveram

[00:37:38] Numa sociedade

[00:37:39] Que não servia

[00:37:41] A humanidade

[00:37:43] Né?

[00:37:44] Que era uma sociedade

[00:37:44] Que não te permitia

[00:37:45] Viver a sua vida

[00:37:47] E aí você

[00:37:48] Dá stop no seu episódio

[00:37:50] Desce lá na portaria

[00:37:52] Pra pegar o seu delivery

[00:37:53] E fala assim

[00:37:53] Ainda bem

[00:37:54] Que eu não moro

[00:37:56] No Velho Oeste

[00:37:56] E hoje

[00:37:57] Eu moro

[00:37:58] Na sociedade

[00:37:59] Moderna

[00:38:00] Que me dá

[00:38:01] Tudo que eu mereço

[00:38:02] Enquanto ser humano

[00:38:03] E aí

[00:38:04] Antes de você abrir

[00:38:05] A caixa da pizza

[00:38:06] Quando você chega

[00:38:07] No seu apartamento

[00:38:08] Você vê o adesivo

[00:38:10] Não aceitar

[00:38:11] Se esse lacre

[00:38:11] Estiver violado

[00:38:12] E você fala assim

[00:38:13] Mas por que alguém

[00:38:14] Violaria o lacre da minha pizza

[00:38:15] Pra fazer algo errado

[00:38:16] Com a minha pizza?

[00:38:18] Aqui não é assim

[00:38:18] Aqui não é o Velho Oeste

[00:38:18] E aí você bota a pizza

[00:38:20] Na sua mesa

[00:38:20] E aí você abre a sua pizza

[00:38:22] E come a sua pizza feliz

[00:38:23] E fala assim

[00:38:23] Ah, graças a Deus

[00:38:25] Eu tenho a segurança

[00:38:26] De poder sentar na minha casa

[00:38:27] E comer a minha pizza

[00:38:28] Mas aí você para

[00:38:29] E pensa assim

[00:38:30] Tá

[00:38:31] Mas

[00:38:32] Daqui 200 anos

[00:38:35] As pessoas vão olhar

[00:38:35] Pra minha vida

[00:38:36] Exatamente como eu olho

[00:38:37] Pro Velho Oeste

[00:38:37] E falo assim

[00:38:38] Meu Deus

[00:38:38] Que vida suja

[00:38:40] Pandêmica

[00:38:41] Cheia de guerras

[00:38:42] Cheia de mortes

[00:38:43] Cheia de sujeira

[00:38:44] Cheia de opressão

[00:38:46] Cheia de censura

[00:38:47] Cheia de

[00:38:48] Todo tipo de

[00:38:49] Tragédia

[00:38:50] Mazela

[00:38:51] E abuso de poder possível

[00:38:52] E

[00:38:54] Por que que a gente

[00:38:55] Só consegue

[00:38:56] Ficar olhando

[00:38:57] Pras coisas

[00:38:57] E falando assim

[00:38:58] Ah, graças a Deus

[00:38:59] Tá melhor que antes

[00:39:00] Eu não

[00:39:01] Olha, eu

[00:39:02] Tenho esse aspecto

[00:39:03] Evolucionista

[00:39:04] Mas assim

[00:39:05] Eu

[00:39:05] Sabe o que eu tava pensando

[00:39:06] Tu falou disso

[00:39:07] Eu tava vendo um filme

[00:39:08] Que envelheceu

[00:39:09] Eu tava lembrando

[00:39:09] De um filme que envelheceu

[00:39:10] Muito mal

[00:39:10] E agora nesse momento

[00:39:11] Eu vou ser

[00:39:11] Mais uma vez

[00:39:12] Odiado nesse podcast

[00:39:13] Que é

[00:39:14] Nossa

[00:39:16] Qual o nome?

[00:39:16] Clube da Luta

[00:39:17] Clube da Luta

[00:39:17] Clube da Luta

[00:39:19] É um filme

[00:39:19] Vamos lá

[00:39:20] Faz muitos anos

[00:39:20] Que eu não revejo esse filme

[00:39:21] Eu quero entender

[00:39:22] Envelheceu mal pra caralho

[00:39:23] Eu acho totalmente plausível

[00:39:25] Eu acho totalmente plausível

[00:39:26] Que ele não tem envelhecido bem

[00:39:28] Mas eu vou

[00:39:30] Eu vou deixar aqui

[00:39:31] Só pra me

[00:39:32] Talvez espelhar

[00:39:33] A reação de várias pessoas

[00:39:35] Na audiência

[00:39:35] Tipo assim

[00:39:35] Olha

[00:39:36] Eu

[00:39:37] Que eu me lembre

[00:39:38] Tem pontos bons ali

[00:39:39] Mas é só isso

[00:39:40] Que eu queria deixar

[00:39:41] De noar

[00:39:42] Mas não

[00:39:42] Me explica

[00:39:43] Porque talvez

[00:39:43] Você esteja 100% correto

[00:39:45] Porque assim

[00:39:45] O Clube da Luta

[00:39:46] Ele tem

[00:39:47] Um fundamento

[00:39:49] Que é muito próximo

[00:39:49] Do Breaking Bad

[00:39:51] Que é

[00:39:51] Esse retorno do macho

[00:39:53] Essa recuperação do homem

[00:39:55] E é uma coisa

[00:39:56] Que é muito

[00:39:56] Que assim

[00:39:57] Tem aquela coisa assim

[00:39:57] Nós vivemos

[00:39:58] Nossas vidas confortáveis

[00:39:59] Porque o nosso maior problema

[00:40:00] É escolher mil temperos

[00:40:02] Que não vamos usar

[00:40:02] É aquela coisa assim

[00:40:03] A ausência de sentido

[00:40:05] O esgotamento de sentido

[00:40:07] Da vida capitalista contemporânea

[00:40:10] Em contraposição

[00:40:11] A uma certa essência

[00:40:13] Quase guerreira

[00:40:14] Beligerante

[00:40:15] Do homem

[00:40:16] Que pode ser

[00:40:17] Que deve ser

[00:40:17] Deve ser recuperada

[00:40:19] Por isso que os caras brigavam

[00:40:20] Faziam o que faziam

[00:40:20] Montavam aqueles movimentos

[00:40:21] De recuperação

[00:40:23] Do sentido

[00:40:23] Pela beligerância

[00:40:24] É quase como

[00:40:25] Se eles estivessem querendo

[00:40:26] Refundar um velho oeste

[00:40:28] Dentro do mundo moderno

[00:40:29] Dentro das amarras

[00:40:30] Do mundo moderno

[00:40:32] E aí que vem

[00:40:32] Vários pontos interessantes

[00:40:33] Você falou do Dirt

[00:40:34] E é interessante mesmo

[00:40:36] Como o Dirt

[00:40:37] Ele é

[00:40:37] O solo

[00:40:39] Ele é o solo

[00:40:40] Que fundamenta o herói

[00:40:42] Ele é o solo do cowboy

[00:40:44] A bota do cowboy

[00:40:46] Está sempre pisando na sujeira

[00:40:47] E é muito importante

[00:40:48] Quando a gente pensa nisso

[00:40:49] Porque

[00:40:50] A Dirt é isso

[00:40:51] Ele não é a terra

[00:40:52] Ele não é algo

[00:40:54] Que vai

[00:40:54] Que dá onde vai brotar

[00:40:56] Alguma coisa

[00:40:56] É aquela sujeira mesmo

[00:40:57] É uma terra cinza

[00:40:58] É uma terra esgotada

[00:41:00] E é esse que é um ponto

[00:41:02] Que eu acho que é crucial

[00:41:02] Porque quando a gente vai pensar

[00:41:03] Nos heróis

[00:41:04] Eu estava falando do Logan

[00:41:06] Olha a volta

[00:41:07] Que eu vou dando aqui

[00:41:08] A gente estava falando do Logan

[00:41:09] Por exemplo

[00:41:10] O Logan é um filme

[00:41:11] Que começa na sujeira

[00:41:12] O filme tem uma semiótica

[00:41:14] Ele começa na sujeira

[00:41:15] Ele começa na Dirt

[00:41:16] E ele vai morrer

[00:41:17] Ele vai morrer na floresta

[00:41:18] Fora o spoiler galera

[00:41:19] Ele morre na floresta

[00:41:20] Na floresta verdejante

[00:41:21] Para que a X-23

[00:41:23] Possa ter uma outra vida

[00:41:24] Que não é uma vida de herói

[00:41:25] Não é uma vida que é dele

[00:41:27] Por que eu estou falando disso?

[00:41:30] A sujeira é a terra do herói

[00:41:32] Essa terra

[00:41:32] É esse mundo esgotado

[00:41:34] Esse mundo que

[00:41:35] Porque assim

[00:41:37] É um mundo que é

[00:41:38] O mundo que vem depois

[00:41:39] Da nossa sociedade

[00:41:41] A nossa sociedade

[00:41:42] Ela existe para esgotar

[00:41:43] Recursos

[00:41:44] Para esgotar as pessoas

[00:41:45] Esgotar os corpos

[00:41:46] Os corpos

[00:41:47] O capitalismo é isso

[00:41:48] É uma máquina

[00:41:49] De moer a existência

[00:41:50] Moer terra

[00:41:51] Moer a natureza

[00:41:52] Moer as pessoas

[00:41:53] Moer a subjetividade

[00:41:55] O herói

[00:41:56] É aquele que de certa maneira

[00:41:58] Ele escapa disso

[00:41:59] Mas ele escapa disso

[00:42:00] Por um tempo

[00:42:01] Então ele pode escapar

[00:42:03] Para fora

[00:42:05] Ou seja

[00:42:06] Ele vai escapar

[00:42:07] Para a sujeira

[00:42:08] Para o Dirt

[00:42:09] Então ele vai pisar

[00:42:10] Na sujeira

[00:42:11] Ou ele vai escapar

[00:42:12] Ele vai se tornar

[00:42:13] Um super indivíduo

[00:42:14] Vai estar acima

[00:42:16] Que é

[00:42:17] O papel

[00:42:18] Por exemplo

[00:42:18] Do Lobo de Wall Street

[00:42:19] Ele é aquele cara

[00:42:20] Que está

[00:42:21] Ele está afundado

[00:42:23] Ele está cada vez

[00:42:24] Ele está no coração

[00:42:25] Ele está embebido

[00:42:26] Naquilo

[00:42:26] Mas tanto um

[00:42:27] Tanto um

[00:42:29] Quanto o outro

[00:42:29] Nenhum dos dois

[00:42:30] Pode perdurar

[00:42:31] Nenhum dos dois

[00:42:33] Pode perdurar

[00:42:33] A figura do herói

[00:42:35] Desse herói

[00:42:35] Concebido pelos americanos

[00:42:37] Ele é simplesmente

[00:42:38] Aquele sujeito

[00:42:39] Que existe

[00:42:40] Para nos dar

[00:42:41] Um horizonte

[00:42:42] De

[00:42:43] Um exemplo

[00:42:44] Olha

[00:42:45] Esses são

[00:42:46] Os nossos heróis

[00:42:46] Esses são os nossos deuses

[00:42:48] Saca

[00:42:49] Nossos deuses

[00:42:49] É o John Wayne

[00:42:51] É o maluco lá do

[00:42:52] Sempre esqueço o nome

[00:42:53] Do cara lá do

[00:42:54] Lobo de Wall Street

[00:42:56] Né

[00:42:56] O Leonardo DiCaprio

[00:42:57] O Leonardo DiCaprio

[00:42:58] A gente já estabeleceu

[00:43:00] Que é ele

[00:43:00] Que é

[00:43:01] Que ele nem sabia

[00:43:02] Que estava sendo filmado

[00:43:02] Na maior parte do momento

[00:43:03] Exato

[00:43:04] O momento que ele estava sendo filmado

[00:43:05] É que ele estava tomando água

[00:43:06] É

[00:43:07] E aí tipo

[00:43:08] Esses sujeitos

[00:43:10] São os heróis

[00:43:11] Do mundo contemporâneo

[00:43:12] Não é à toa

[00:43:12] Que são homens

[00:43:13] Brancos

[00:43:14] Né

[00:43:15] Beligerantes

[00:43:16] Todos os arquétipos

[00:43:18] Masculinistas

[00:43:19] Né

[00:43:19] Que

[00:43:20] Né

[00:43:21] Estão o tempo todo

[00:43:21] Operando sobre esses apagamentos

[00:43:23] Né

[00:43:23] Apagamentos das populações indígenas

[00:43:25] Apagamentos

[00:43:26] Sabe

[00:43:26] As mulheres

[00:43:27] Por exemplo

[00:43:27] No filme do

[00:43:28] Leonardo DiCaprio

[00:43:30] São meros objetos

[00:43:32] Para ele

[00:43:32] Então é o mundo dos objetos

[00:43:34] E é muito interessante

[00:43:35] Quando você dá um passo

[00:43:36] Para o lado

[00:43:37] E aí você vê

[00:43:38] Quem são os heróis

[00:43:39] E quais são os mundos

[00:43:40] E quais são as terras

[00:43:42] Que estão sendo produzidas

[00:43:43] Por outros povos

[00:43:44] Ou por outros pensamentos

[00:43:45] Por exemplo

[00:43:45] Aqui eu já citei Oxóssi

[00:43:47] Né

[00:43:48] Oxóssi

[00:43:48] Aqui no Brasil

[00:43:49] Que é o herói

[00:43:50] É o herói popular

[00:43:51] A tradução

[00:43:51] A palavra Oxóssi

[00:43:53] Não é o nome do orixá

[00:43:54] É um epíteto

[00:43:55] Chamado

[00:43:56] A tradução é

[00:43:57] O herói popular

[00:43:58] Né

[00:43:58] Porque ele é

[00:44:00] O guerreiro de uma flecha só

[00:44:01] Quando você vai olhar

[00:44:03] Para o terreno

[00:44:04] Para a terra

[00:44:05] Onde Oxóssi pisa

[00:44:06] A terra que Oxóssi pisa

[00:44:08] É a terra que verdeja

[00:44:09] É a terra que

[00:44:10] É a terra fértil

[00:44:11] Né

[00:44:11] O cenário de Oxóssi

[00:44:13] Oxóssi é um

[00:44:14] É um herói

[00:44:14] Cujo as ações

[00:44:15] Não são voltadas

[00:44:16] Para si

[00:44:17] São voltadas

[00:44:17] Para manutenção

[00:44:19] E enriquecimento

[00:44:19] Da própria comunidade

[00:44:20] Né

[00:44:21] Então assim

[00:44:22] E aí quando você vai ver

[00:44:23] Figuras análogas

[00:44:24] Em narrativas

[00:44:25] Né

[00:44:25] De povos indígenas

[00:44:26] Você vai ver

[00:44:27] Imagens muito semelhantes

[00:44:29] O herói desses povos

[00:44:30] O herói

[00:44:31] O herói

[00:44:31] Desses outros mundos

[00:44:33] E eu me incluo

[00:44:34] Nesses outros mundos

[00:44:35] Né

[00:44:35] Pois

[00:44:35] Ogan

[00:44:36] Né

[00:44:37] Não é o herói

[00:44:38] Não é o John Wayne

[00:44:38] Né

[00:44:39] Não é o

[00:44:39] Nunca vai ser o John Wayne

[00:44:40] Nunca vai ser o

[00:44:42] Leonardo DiCaprio

[00:44:43] Né

[00:44:43] Porque o solo

[00:44:44] Desses heróis

[00:44:45] Ou é a latrina

[00:44:46] Ou é a nossa latrina

[00:44:47] Né

[00:44:48] Ou é

[00:44:48] Ou é a sujeira

[00:44:50] Do

[00:44:50] Do

[00:44:50] Infértil

[00:44:52] Né

[00:44:52] Não é à toa que

[00:44:53] Quando você vai ver o cinema

[00:44:55] Tudo que ele tá criando

[00:44:58] Eu tô

[00:44:58] Eu tô

[00:44:59] Vocês não sabem

[00:45:00] Mas o Guns

[00:45:00] Ele tem um monte de quadro aqui

[00:45:02] Né

[00:45:02] De filmes

[00:45:03] E aí tem o

[00:45:04] John McClane

[00:45:05] Né

[00:45:06] Atrás dele

[00:45:06] Que cujo arquétipo

[00:45:08] Não é à toa que

[00:45:08] Justamente

[00:45:09] Todos os heróis de ação

[00:45:11] Eles estão sempre sujos

[00:45:12] Em algum momento

[00:45:12] Né

[00:45:13] Eles precisam estar cobertos

[00:45:14] Dessa sujeira

[00:45:15] Do herói

[00:45:16] Né

[00:45:16] Cara assim

[00:45:16] Porque

[00:45:16] É o signo

[00:45:18] É a semiótica deles

[00:45:19] Né

[00:45:19] O herói é aquele que tá

[00:45:20] Que se suja

[00:45:21] Por nós

[00:45:22] É aquele que se suja

[00:45:23] Pra que nós tenhamos

[00:45:23] Nossas existências

[00:45:24] Medíocres e confortáveis

[00:45:25] Isso dentro

[00:45:26] Entre os euro-americanos

[00:45:28] Para os outros povos

[00:45:29] Os heróis somos todos nós

[00:45:31] Porque é aí que vem o ponto

[00:45:33] Né

[00:45:33] Cara

[00:45:33] Todos somos heróis

[00:45:34] Em outras instâncias

[00:45:36] Né

[00:45:36] Porque o heroísmo

[00:45:37] O verdadeiro herói

[00:45:38] Não é esse

[00:45:39] Não é o indivíduo excepcional

[00:45:40] Pelo contrário

[00:45:41] É aquele que vive

[00:45:42] Por e pela comunidade

[00:45:43] Né

[00:45:43] É então

[00:45:44] Aí

[00:45:45] Puts

[00:45:45] Essa ideia da sujeira

[00:45:46] É ótima

[00:45:47] Que eu queria puxar

[00:45:48] Que é o seguinte

[00:45:48] Existe uma razão

[00:45:50] Pela qual a gente conta

[00:45:51] Essas histórias na ficção

[00:45:52] Ah

[00:45:53] Através

[00:45:55] Do

[00:45:55] Velho Oeste

[00:45:56] Através do Mad Max

[00:45:58] Através do

[00:45:59] Ah

[00:45:59] Children of Man

[00:46:00] Como é que é

[00:46:01] Em português

[00:46:02] Aquele filme

[00:46:02] Que ninguém nasce

[00:46:05] É tudo sujo

[00:46:06] Ah

[00:46:06] Não lembro

[00:46:07] Acho que é

[00:46:07] Children of Man

[00:46:08] Filhos da Esperança

[00:46:09] Filhos da Esperança

[00:46:10] É

[00:46:10] Que é o seguinte

[00:46:12] É um bom filme inclusive

[00:46:13] Bom filme

[00:46:13] É um ótimo filme

[00:46:14] Mas é o seguinte

[00:46:15] Esses filmes

[00:46:17] Precisam que você

[00:46:18] Olhe pro mundo deles

[00:46:19] E diga

[00:46:19] Ah

[00:46:20] Que mundo horroroso

[00:46:21] Pode destruir

[00:46:22] O que for desse mundo aí

[00:46:23] Pra conseguir

[00:46:25] O que você quer

[00:46:25] Porque o que vier

[00:46:27] É lucro

[00:46:28] Porque a gente

[00:46:29] É incapaz

[00:46:30] De ter essa visão

[00:46:32] Com o nosso próprio mundo

[00:46:33] E aí

[00:46:34] Eu queria voltar

[00:46:34] Naquela situação

[00:46:35] Naquela

[00:46:36] Naquele conceito

[00:46:37] Que você levantou

[00:46:38] De conforto

[00:46:39] Existência confortável

[00:46:40] Ah

[00:46:40] É assim que

[00:46:41] O capitalismo nos mantém

[00:46:42] Mas ué

[00:46:43] É assim que

[00:46:44] A sociedade mantinha

[00:46:45] Eles também

[00:46:45] O xerife lá

[00:46:46] Quando constrói a casa

[00:46:47] Pra mulher dele

[00:46:48] Que ele teve que casar

[00:46:49] Porque o irmão dele morreu

[00:46:50] E receber lá

[00:46:50] O filho que não é dele

[00:46:51] E criar aquela família

[00:46:53] E não poder estar com a mulher

[00:46:53] Que ele ama

[00:46:54] Mas isso é o que ele tem que fazer

[00:46:55] Porque esse é o papel social dele

[00:46:56] Não sei o que

[00:46:57] Ele acha

[00:46:58] Que ele tá mil vezes melhor

[00:46:59] Do que o avô dele tava

[00:47:01] Porque ele tem uma casa

[00:47:02] Que tem água

[00:47:03] Que tem comida

[00:47:04] Perto

[00:47:05] Pra ele comprar

[00:47:06] Ele não tem que plantar

[00:47:07] A própria comida

[00:47:07] Não sei o que

[00:47:08] Então é assim

[00:47:09] É

[00:47:10] É

[00:47:10] É

[00:47:10] Por que que a gente precisa

[00:47:12] Externalizar tanto

[00:47:14] Os nossos problemas

[00:47:15] Por uma situação

[00:47:16] Tão

[00:47:16] Pouco familiar

[00:47:18] Mas que

[00:47:19] Quando você joga

[00:47:20] Pro velho oeste

[00:47:21] Que é tão próximo

[00:47:21] Historicamente

[00:47:22] Você começa a ver coisas

[00:47:23] Tipo

[00:47:23] Você começa a ver

[00:47:24] As origens de hábitos

[00:47:25] Que você mesmo aprendeu a ter

[00:47:26] E que você aprendeu

[00:47:28] Da sua avó

[00:47:28] E tudo mais

[00:47:29] Que você vê

[00:47:29] As origens

[00:47:31] De certas normas sociais

[00:47:33] E normas

[00:47:34] Estruturais

[00:47:35] De poder

[00:47:36] Da sua vida

[00:47:36] Você vê tipo

[00:47:37] Ah

[00:47:37] É daí que isso veio né

[00:47:39] E aí você vê

[00:47:40] Percebe que você tá

[00:47:40] Perpetuando aquilo

[00:47:41] Você percebe que

[00:47:42] Você

[00:47:43] É

[00:47:45] Você vive

[00:47:46] No velho oeste

[00:47:48] Sujo

[00:47:49] De alguém

[00:47:50] Que tá num mundo melhor

[00:47:51] Que

[00:47:52] A gente é incapaz

[00:47:54] De imaginar

[00:47:55] Como você bem disse

[00:47:55] Que é mais fácil

[00:47:56] De imaginar

[00:47:57] O fim do capitalismo

[00:47:58] Do que o fim do mundo

[00:47:58] Por que

[00:48:00] Que a nossa

[00:48:00] Não é o contrário

[00:48:01] Contrário

[00:48:02] É mais fácil imaginar

[00:48:02] O fim do mundo

[00:48:03] Do que o fim do capitalismo

[00:48:04] Por que

[00:48:05] Já que esse é um podcast

[00:48:06] Sobre filmes

[00:48:07] E cultura

[00:48:08] E os objetos culturais

[00:48:09] Que a gente cria

[00:48:09] Por que

[00:48:10] Que a gente tá tão preso

[00:48:12] Recriar o passado

[00:48:13] E recriar

[00:48:14] Não é recriar o passado

[00:48:15] É recriar

[00:48:16] A nossa estrutura

[00:48:17] E a gente não consegue usar

[00:48:20] Exatamente

[00:48:21] O campo da imaginação

[00:48:22] Pra imaginar

[00:48:23] Algo melhor

[00:48:24] A gente só fica

[00:48:25] Revivendo esses cenários

[00:48:26] E esse que é um ponto né

[00:48:28] Porque por exemplo

[00:48:29] Tu vê

[00:48:29] Aquele filme

[00:48:31] O Interestelar né

[00:48:33] Que foi inclusive

[00:48:33] Acho que foi o primeiro filme

[00:48:34] Que a gente fez aqui né

[00:48:35] Foi o nosso primeiro episódio

[00:48:36] Foi

[00:48:36] O Interestelar

[00:48:37] Que é impressionante né

[00:48:39] O mundo acabando

[00:48:40] A terra acabando

[00:48:41] Os caras vão

[00:48:42] Criam

[00:48:42] Toda uma nave espacial

[00:48:44] Pra que a gente não possa

[00:48:44] Pra reproduzir

[00:48:45] O modo de existir

[00:48:46] Era americano no espaço

[00:48:47] Tanto que a primeira cena

[00:48:48] Que o cara acorda

[00:48:49] O balão tá jogando

[00:48:49] Baseball

[00:48:50] Que como todos sabemos

[00:48:52] É o esporte mais chato

[00:48:53] Que existe

[00:48:53] Não

[00:48:54] Então assim

[00:48:55] Se a sua sociedade

[00:48:56] Isso aqui tinha que ser

[00:48:57] Um jogo daqueles

[00:48:58] Tipo Civilization

[00:48:58] Que é um fail state

[00:49:00] Assim

[00:49:00] Em algum momento

[00:49:01] A sua sociedade

[00:49:02] Desenvolve o baseball

[00:49:03] É um sinal de que

[00:49:04] Ih

[00:49:04] Deu errado

[00:49:04] Começa de novo

[00:49:05] Deu errado

[00:49:06] Cara

[00:49:07] Então assim

[00:49:08] O

[00:49:08] Esse é o ponto né

[00:49:11] Porque assim

[00:49:11] Aí que vem a questão

[00:49:13] Nós somos incapazes

[00:49:14] De produzir isso

[00:49:15] Porque

[00:49:15] Primeiro

[00:49:15] Acho que o ponto principal

[00:49:17] Crucial

[00:49:17] É

[00:49:18] Um

[00:49:19] Nós somos ensinados

[00:49:21] Que nós

[00:49:21] Nós somos ensinados

[00:49:23] Doutrinados

[00:49:23] Por uma certa

[00:49:24] Teleologia né

[00:49:25] Que é diferente

[00:49:26] De teologia

[00:49:27] Teologia

[00:49:28] É de caminho né

[00:49:29] Você tem uma teleologia

[00:49:30] Que é assim

[00:49:31] Um caminho único

[00:49:32] De que existe

[00:49:33] Uma marcha histórica

[00:49:34] Em direção

[00:49:34] A um progresso

[00:49:35] O progresso

[00:49:36] Então nós vivemos

[00:49:37] O ápice

[00:49:37] De um progresso histórico

[00:49:38] Do qual

[00:49:39] Todas as outras

[00:49:40] Civilizações humanas

[00:49:41] Participaram juntas

[00:49:42] Né

[00:49:43] Então por exemplo

[00:49:43] Tudo se passa

[00:49:44] Como dentro

[00:49:45] Dessa imaginação

[00:49:46] Como sei lá

[00:49:47] Se o destino

[00:49:47] Dos

[00:49:49] É

[00:49:49] Dos

[00:49:51] Yupik

[00:49:51] Sabe

[00:49:52] Um povo inui

[00:49:53] É

[00:49:54] Fosse se tornar

[00:49:55] Se eles tivessem tido

[00:49:56] As mesmas condições

[00:49:57] Sei lá

[00:49:58] De possibilidades

[00:49:59] Eles se tornariam

[00:49:59] Tão capitalistas

[00:50:00] Quanto

[00:50:01] Os holandeses

[00:50:02] Do século XVI

[00:50:03] Saca

[00:50:04] Que é o que permite

[00:50:05] Essa visão

[00:50:05] De que povos

[00:50:06] Colonizados

[00:50:07] Simplesmente

[00:50:09] Foram injustiçados

[00:50:09] Pela sua

[00:50:10] Pelo poder

[00:50:11] Da sua

[00:50:11] Posse

[00:50:12] Entre aspas

[00:50:13] Porque assim

[00:50:13] A gente chegou

[00:50:14] E tirou deles

[00:50:14] O que eles tinham

[00:50:15] E não deixou

[00:50:16] Eles fazerem

[00:50:17] Isso que a gente fez

[00:50:18] Que é tipo

[00:50:19] Ah

[00:50:19] É claro que

[00:50:20] Dado

[00:50:21] Tempo e recursos

[00:50:22] Toda a sociedade humana

[00:50:23] Vai chegar

[00:50:24] Nisso que a gente chegou

[00:50:25] E não é verdade

[00:50:26] É não

[00:50:27] Tem

[00:50:27] Isso só é legal

[00:50:29] Quando se dá pra brincar

[00:50:30] Por exemplo

[00:50:30] Tipo o Alan Moore

[00:50:31] Faz num quadrinho lá

[00:50:32] Do

[00:50:32] Caraca

[00:50:34] Sempre esqueço

[00:50:34] Esse novo quadrinho

[00:50:35] Que ele cria

[00:50:36] Uma linha do tempo alternativa

[00:50:37] De que quando o Colombo

[00:50:38] Chegou na América

[00:50:39] Os aztecas

[00:50:41] Já estavam com o R15

[00:50:41] Na mão

[00:50:42] Sabe o que é

[00:50:42] E aí era engraçado

[00:50:43] Porra

[00:50:44] Mas assim

[00:50:45] Mas pra falando sério

[00:50:47] Então a gente aprende

[00:50:49] Que nós somos

[00:50:49] Os arautos do progresso

[00:50:50] Por isso que eu odeio

[00:50:51] Essa palavra progressista

[00:50:52] Progresso

[00:50:53] Sabe

[00:50:53] Porque tá sempre evocando isso

[00:50:55] Essa ideia de que a história

[00:50:56] Não anda pra trás

[00:50:57] Irmão

[00:50:58] A história não anda

[00:50:58] Pra lugar nenhum

[00:50:59] Esse que é o ponto

[00:51:00] Não tem direção

[00:51:00] O trem

[00:51:01] O trem da história

[00:51:02] Não tem trilhos

[00:51:03] É não

[00:51:03] Nem existe

[00:51:05] Nem trem

[00:51:05] Porque o trem

[00:51:06] Vai pra algum lugar

[00:51:07] Não é

[00:51:07] Tipo você tem desdobramentos

[00:51:08] E tudo mais

[00:51:09] E aí o

[00:51:10] E aí o outro ponto é

[00:51:11] Entender que

[00:51:12] Cada povo

[00:51:13] Né

[00:51:13] Tece os fios

[00:51:14] De sua própria história

[00:51:15] O capitalismo

[00:51:16] Né

[00:51:17] Isso que a gente chama

[00:51:17] De capitalismo

[00:51:18] Ele é um fio

[00:51:19] Que foi tecido

[00:51:20] Pelos

[00:51:20] Pelos europeus

[00:51:21] E depois foi se distribuindo

[00:51:22] Ao longo do globo

[00:51:24] Mas ele não é

[00:51:24] Um desenvolvimento inerente

[00:51:25] Do cosmos

[00:51:26] Né

[00:51:27] Nem toda

[00:51:27] Aqui a gente não tá vivendo

[00:51:28] O mundo dos Star Wars

[00:51:29] Onde sei lá

[00:51:30] Tu vai

[00:51:30] Vai nos aliens

[00:51:32] Lá

[00:51:32] Sei lá

[00:51:33] Num planeta

[00:51:33] Distante

[00:51:34] E eles são capitalistas

[00:51:35] Né

[00:51:36] É assim que funciona

[00:51:37] E também não tô dizendo

[00:51:37] Que eles vão ser socialistas

[00:51:38] Ou comunistas

[00:51:39] Ou anarquistas

[00:51:40] Ou coisas do tipo

[00:51:40] Não

[00:51:41] A ideia é

[00:51:42] Imaginar outros

[00:51:43] Outros modos de existir

[00:51:45] Inclusive tem

[00:51:46] Tem uma

[00:51:46] Uma série de literaturas

[00:51:47] Que eu gosto muito

[00:51:48] Por exemplo

[00:51:48] Solares

[00:51:49] É

[00:51:50] O Piquenique na Estrada

[00:51:51] Que a gente já citou aqui né

[00:51:52] Que viraram filmes né

[00:51:53] Solares e Stalker

[00:51:54] Que justamente são

[00:51:55] Dedicados a tentar imaginar

[00:51:57] Outros tipos de alienígenas

[00:51:59] Outros tipos de seres vivos

[00:51:59] Essencialmente

[00:52:00] Também vale lembrar

[00:52:01] Cujas origens não são

[00:52:04] Na sociedade pós

[00:52:06] Na sociedade que a gente vive

[00:52:08] Que é pós Guerra Fria

[00:52:09] Ou na sociedade da Guerra Fria

[00:52:12] Elas não são

[00:52:13] Do Ocidente

[00:52:14] Entre aspas né

[00:52:15] Uhum

[00:52:15] Uhum

[00:52:16] É

[00:52:16] E aí quando você vai ver

[00:52:17] Por exemplo

[00:52:18] Uma grande escritora

[00:52:19] Aquela Ossola Leguin

[00:52:20] Que tenta ver sobre isso

[00:52:21] Ela vai beber

[00:52:23] Nas fontes etnográficas né

[00:52:24] Que o pai dela

[00:52:25] Era um antropólogo né

[00:52:26] O

[00:52:26] Mas assim

[00:52:28] O ponto é

[00:52:28] Nós somos criados

[00:52:31] Tendo essa crença

[00:52:32] Em vista de que

[00:52:33] Nós somos representantes

[00:52:34] Mesmo as pessoas

[00:52:35] Mais bem intencionadas

[00:52:36] Por isso que a palavra

[00:52:37] Progressista

[00:52:37] O tempo todo aparece

[00:52:38] Nesse sentido né

[00:52:39] Não

[00:52:40] Os valores que nós defendemos

[00:52:41] São os melhores valores possíveis

[00:52:43] São os melhores

[00:52:43] Desenvolvimentos possíveis

[00:52:44] Não

[00:52:45] São valores

[00:52:46] Cujos

[00:52:46] Que nos alimentam

[00:52:47] Pelos quais nós lutamos

[00:52:48] Contudo

[00:52:49] Não são valores

[00:52:50] Que estão

[00:52:51] Numa espécie de topo histórico

[00:52:53] Intrínseco

[00:52:53] Não

[00:52:54] São valores

[00:52:54] Com os quais

[00:52:55] Nós nos identificamos

[00:52:56] E esse é um ponto crucial

[00:52:57] Porque

[00:52:58] Quando a gente desmonta

[00:52:59] Essa ideia

[00:53:00] De que nós somos

[00:53:00] Arautos

[00:53:01] De um progresso

[00:53:01] Inequívoco

[00:53:03] Do cosmos

[00:53:04] A gente começa a olhar

[00:53:05] Então talvez

[00:53:06] Existam outras ideias

[00:53:07] Que são tão

[00:53:09] Ou mais interessantes

[00:53:10] Para nós

[00:53:11] Cara

[00:53:12] Não

[00:53:13] Nós

[00:53:13] E eu digo isso sim

[00:53:16] Já tendo muito contato

[00:53:19] Ou de ser do santo

[00:53:21] De ser do axé

[00:53:22] Ou de ser também

[00:53:23] De contato com populações

[00:53:24] Ameríndias

[00:53:25] Nós somos

[00:53:27] Nós

[00:53:28] Os euro-americanos

[00:53:29] Somos grandes tecnólogos

[00:53:31] Nós inventamos

[00:53:32] Muitas coisas

[00:53:33] Isso é verdade

[00:53:33] Só que nós somos

[00:53:35] Completamente imbecis

[00:53:36] Quando tu citava

[00:53:37] Ele trata de viver junto

[00:53:38] Se trata de

[00:53:40] Então assim

[00:53:41] Que progresso

[00:53:43] Isso que a gente tá sempre colocando

[00:53:45] Nossa

[00:53:46] Cara

[00:53:47] Hoje talvez as pessoas

[00:53:48] Sejam mais infelizes

[00:53:49] Do que jamais foram

[00:53:50] A gente criou uma pandemia global

[00:53:52] Né

[00:53:52] A pandemia se tornar global

[00:53:54] Não foi um erro

[00:53:55] Não foi um acidente

[00:53:56] Sabe

[00:53:57] É uma consequência

[00:53:58] Do estilo de vida global

[00:53:59] Que se desenvolveu

[00:54:00] Então assim

[00:54:01] Como é que a gente olha pra isso

[00:54:02] E fala assim

[00:54:02] Nós somos

[00:54:03] A gente é sinistro

[00:54:04] A gente é sinistro

[00:54:05] Isso aí é a parada

[00:54:07] Sabe qual é

[00:54:07] Então assim

[00:54:08] Acho que esse que é um processo

[00:54:09] Eu acho que quando você tem isso em mente

[00:54:11] E aí você começa

[00:54:12] A se desenvolver

[00:54:13] A se desvincular disso

[00:54:14] Você começa a ver

[00:54:14] Que do lado

[00:54:15] Tem coisas muito tão

[00:54:18] Ou mais interessantes

[00:54:19] Se desenvolvendo né

[00:54:20] É então

[00:54:21] Por isso que eu levantei aquela questão

[00:54:22] Das ciências nativas

[00:54:24] Das

[00:54:24] Das

[00:54:24] Das culturas nativas

[00:54:26] E tudo mais

[00:54:27] Que tipo

[00:54:27] Não é

[00:54:28] A gente

[00:54:28] A gente nem lida com o fato de que

[00:54:31] A gente

[00:54:32] Só a gente inventou coisas

[00:54:33] É que qualquer coisa que foi inventada

[00:54:35] A gente absorveu

[00:54:35] Entendeu?

[00:54:36] Enfim

[00:54:37] Os números que a gente usa

[00:54:38] São

[00:54:39] Árabes né

[00:54:42] São os algoritmos

[00:54:42] Árabes

[00:54:43] Algoritmos árabes né

[00:54:44] O zero

[00:54:45] E tudo mais

[00:54:45] Não são os

[00:54:46] Os algoritmos gregos

[00:54:47] Que a gente tem dificuldade de ler

[00:54:48] Quando tem um título

[00:54:49] De Resident Evil novo

[00:54:51] Saindo né

[00:54:51] E que não dá pra fazer

[00:54:54] Conta fácil

[00:54:54] Então assim tipo

[00:54:56] É isso

[00:54:57] Tudo que é visto

[00:54:59] Como conveniente

[00:55:00] É absorvido

[00:55:00] E tudo que é

[00:55:01] Inconveniente

[00:55:03] Ou que

[00:55:03] Na época inconveniente

[00:55:04] Enfim

[00:55:05] É aquela coisa do outro

[00:55:06] Que tipo

[00:55:06] É por definição

[00:55:09] Passado

[00:55:10] E aí

[00:55:11] O que a gente tem

[00:55:12] É inevitável

[00:55:13] Inevitável

[00:55:13] E aí assistir Deadwood

[00:55:14] Eu acho

[00:55:15] É bom

[00:55:16] Por causa disso

[00:55:17] E assistir essas

[00:55:18] Essas

[00:55:18] Que a gente falou

[00:55:19] É

[00:55:20] Viram e falam assim

[00:55:21] Olha como não era inevitável

[00:55:23] Olha como o que aconteceu

[00:55:24] Aconteceu

[00:55:25] Porque

[00:55:25] Porque aconteceu

[00:55:27] Mas é o seguinte

[00:55:28] Tão

[00:55:29] Tão

[00:55:29] Tão bem aconteceu

[00:55:30] Que poderia não

[00:55:31] Não ter acontecido

[00:55:32] E tão bem

[00:55:34] Outro processo similar

[00:55:35] Pode acontecer de novo

[00:55:36] Pra mudar o que tá aí

[00:55:38] É

[00:55:39] É isso que é uma coisa assim

[00:55:40] Que

[00:55:41] Pra mim

[00:55:41] Sempre me dá muita

[00:55:42] Muito nervoso

[00:55:44] Assim

[00:55:44] Quando a gente

[00:55:44] Você olhar

[00:55:45] Você ver a história

[00:55:46] Porque tem vários momentos

[00:55:47] Você olha assim

[00:55:48] Caralho

[00:55:48] Podia ter dado tão certo né

[00:55:49] Podia ter acontecido

[00:55:51] Coisas tão legais

[00:55:51] De raspão

[00:55:52] De raspão

[00:55:53] Podia ter acontecido

[00:55:54] Coisas tão legais

[00:55:54] Na história da humanidade né

[00:55:56] Esse

[00:55:56] Deadwood não

[00:55:57] Esse momento da expansão

[00:55:58] Já é o momento

[00:55:58] Que a gente tava dando muito errado

[00:55:59] Mas tu falou assim

[00:56:00] Cara

[00:56:00] O ocidente

[00:56:02] Teve ideias tão legais

[00:56:03] No começo sabe

[00:56:04] Tipo

[00:56:04] E aí

[00:56:06] Rápido

[00:56:06] Mas foi muito rápido

[00:56:07] Mas foi muito

[00:56:08] Assim

[00:56:08] Foi um

[00:56:09] Sonho de uma noite de verão

[00:56:10] Sabe

[00:56:10] Tipo uma coisa assim

[00:56:11] Sim

[00:56:12] E aí a coisa

[00:56:13] Desenvolveu

[00:56:14] Virou tantas outras coisas

[00:56:15] Muito ruins

[00:56:16] Sabe

[00:56:17] E é isso

[00:56:17] Viram coisas tão ruins

[00:56:20] Que nos mantém dentro delas

[00:56:21] Tal qual você usando o Windows

[00:56:23] Tão somente

[00:56:24] Apenas por conta da comodidade

[00:56:26] Olha

[00:56:26] É

[00:56:26] É

[00:56:26] Mas só que aí

[00:56:29] É uma questão de tipo

[00:56:30] Ah é cômodo

[00:56:32] Porque realmente

[00:56:33] Um

[00:56:33] É cômodo porque você tá acostumado

[00:56:35] Com aquilo

[00:56:35] Então aquilo sempre vai ser

[00:56:37] Mais cômodo

[00:56:37] Porque é aquilo

[00:56:38] Que você já tá acostumado

[00:56:39] E logo

[00:56:40] Não tem uma barreira

[00:56:41] De aprendizado

[00:56:41] E de adequação

[00:56:42] E em segundo lugar

[00:56:45] Porque realmente

[00:56:47] Assim

[00:56:47] Pra suas expectativas

[00:56:49] E tudo mais

[00:56:50] Não existe algo melhor ainda

[00:56:52] Mas não

[00:56:53] Mas

[00:56:54] Exatamente aqui

[00:56:56] No pop culture

[00:56:57] A gente tava falando de filmes

[00:56:59] Games

[00:56:59] Músicas

[00:57:00] E das coisas que a gente inventa

[00:57:01] E que não precisam ser reais

[00:57:03] Não dependem de ninguém

[00:57:04] Nem ali

[00:57:06] A gente consegue construir algo

[00:57:09] Do zero

[00:57:09] Que é tipo

[00:57:11] Muito legal

[00:57:12] Então

[00:57:12] Principalmente RPG

[00:57:14] Então assim

[00:57:15] A questão é

[00:57:16] Um herói

[00:57:18] Não vai nos salvar

[00:57:19] Porque o herói não existe

[00:57:21] Mas também porque

[00:57:24] A gente é incapaz de imaginar

[00:57:26] O herói

[00:57:27] E agora que eu percebi

[00:57:28] Que no quadro do

[00:57:29] Que é o pôster do Carlitos

[00:57:30] O E atrás de mim

[00:57:31] Você vê a minha waveform

[00:57:32] Perfeitamente refletida

[00:57:34] Aqui

[00:57:34] Que tipo

[00:57:35] Se eu tivesse transmitido online

[00:57:36] Isso aqui

[00:57:36] Parecia efeito especial

[00:57:37] Sim, sim

[00:57:38] Tô vendo aqui mesmo

[00:57:39] Mas enfim

[00:57:40] O que eu queria dizer é

[00:57:41] Pra amarrar com o tema do herói

[00:57:42] Assim, tipo

[00:57:43] Eu acho que

[00:57:43] O arquétipo do herói moderno

[00:57:45] Que a gente discutiu tanto

[00:57:46] Em todas as suas variações aqui

[00:57:47] Tá totalmente espelhado

[00:57:49] E totalmente criado

[00:57:51] Do jeito que ele é hoje

[00:57:52] No xerife

[00:57:53] Eu acho que

[00:57:53] O homem de ferro

[00:57:54] É um xerife

[00:57:55] O super-homem

[00:57:56] É um xerife

[00:57:57] O Batman é um xerife

[00:57:58] E por isso

[00:57:59] Deadwood é um modelo

[00:58:00] Pra ver

[00:58:01] Como a sociedade se desenvolve

[00:58:03] As instituições modernas

[00:58:04] Se desenvolvem

[00:58:04] E você vê aquilo bem

[00:58:05] Mastigado ali

[00:58:07] E você

[00:58:08] Você fica com nojo

[00:58:09] Daquilo que você faz

[00:58:11] Porque você é

[00:58:12] Aquilo

[00:58:13] Aquela é a sua sociedade

[00:58:14] Mudando algumas

[00:58:16] Algumas

[00:58:17] Modas

[00:58:18] Que passaram

[00:58:19] E

[00:58:20] Você vê que tipo

[00:58:22] Ah, beleza

[00:58:23] Não tem

[00:58:24] Essa história pode se repetir

[00:58:26] No velho oeste

[00:58:26] No Mad Max

[00:58:28] No

[00:58:28] Quer ver um exemplo disso?

[00:58:30] Mas o problema é a história

[00:58:31] Westworld

[00:58:32] Né?

[00:58:33] Westworld

[00:58:33] Que as pessoas pagam

[00:58:34] Pra viver em Deadwood

[00:58:35] Né?

[00:58:35] Pra ir pra Deadwood

[00:58:36] E que é

[00:58:37] E que

[00:58:38] E que tá

[00:58:39] Totalmente amarrada

[00:58:40] Com esse imaginário americano

[00:58:41] Do

[00:58:41] Do

[00:58:42] Do

[00:58:42] Do

[00:58:42] Do

[00:58:42] Do

[00:58:42] Do

[00:58:42] Do

[00:58:42] Do

[00:58:42] , do

[00:58:44] Do homem independente

[00:58:45] Do homem que

[00:58:45] Que o sucesso

[00:58:46] Não depende da sociedade

[00:58:47] Estados Unidos é uma coisa

[00:58:49] Que pra mim eu acho muito

[00:58:50] Eu acho quase abominável

[00:58:51] Né?

[00:58:52] Que tem umas cidades

[00:58:52] Que vivem

[00:58:53] No personagem do velho oeste

[00:58:55] Né?

[00:58:55] São cidades

[00:58:56] Simulacros vivos

[00:58:57] Né?

[00:58:58] As pessoas

[00:58:58] É

[00:58:58] Que é muito doido

[00:59:00] Assim, pra que

[00:59:00] Eles tem xerifes até hoje

[00:59:01] Né?

[00:59:02] Não, não

[00:59:02] Mas tem cidade

[00:59:03] Tem um tipo de atração

[00:59:05] É

[00:59:06] Muito pro turismo interno

[00:59:08] Né?

[00:59:08] Deles

[00:59:08] Assim, eu não consigo

[00:59:09] Óbvio que deve ter

[00:59:10] Muita gente que vai pra lá

[00:59:11] Pra fazer isso também, né?

[00:59:12] Porque nunca duvide

[00:59:13] Da capacidade do turismo

[00:59:14] Brasileiro, né?

[00:59:15] Mas tipo assim

[00:59:16] É

[00:59:16] Tem uma cidade

[00:59:18] Pro ouvinte que não sabe

[00:59:19] Tem uma cidade nos Estados Unidos

[00:59:20] Que

[00:59:21] São cidades pequenas

[00:59:23] No interior

[00:59:23] Assim que

[00:59:23] As pessoas

[00:59:25] Na cidade

[00:59:26] Vivem 24 horas por dia

[00:59:28] 24 horas não

[00:59:28] Na hora que vão dormir

[00:59:29] Elas saem do personagem

[00:59:29] Mas tipo, fique lá

[00:59:30] 12 horas por dia

[00:59:32] 10 horas por dia

[00:59:33] Vivendo dentro de personagens

[00:59:34] Como se estivessem vivendo

[00:59:35] Dentro do velho oeste

[00:59:36] Pra receber visitantes

[00:59:38] As pessoas que gostam

[00:59:39] De recriar batalhas

[00:59:41] Da guerra civil americana

[00:59:42] Que é o que

[00:59:42] É antes do velho oeste, inclusive

[00:59:43] Cara, e as feiras da renascença?

[00:59:45] As feiras da renascença

[00:59:46] Nossa, cara

[00:59:49] Mas tudo isso, Orlando

[00:59:50] A gente olha

[00:59:51] Quando a gente olha

[00:59:51] E é algo que a gente

[00:59:52] Não está acostumado

[00:59:52] A gente fala

[00:59:53] Nossa, que estranho

[00:59:54] Mas aí você olha

[00:59:55] Para os filmes

[00:59:55] Que a gente discute aqui

[00:59:56] Os filmes que a gente gosta

[00:59:57] Os filmes que a gente não gosta

[00:59:58] Eles são as nossas

[00:59:59] Feiras da renascença

[01:00:00] Eles são as nossas

[01:00:01] Old west towns

[01:00:02] Eles são os nossos

[01:00:04] Recriadores da guerra civil

[01:00:06] Orlando

[01:00:07] Eu estou

[01:00:08] Pasmo

[01:00:10] Deixa eu te falar

[01:00:11] Por isso que eu falei

[01:00:12] Que eu gosto de RPG

[01:00:12] RPG de mesa

[01:00:14] RPG de mesa

[01:00:14] Porque assim

[01:00:15] Uma coisa que eu acho

[01:00:16] Que é interessante

[01:00:16] Do RPG de mesa

[01:00:17] Eu não estou aqui pagando

[01:00:18] Não porque, cara

[01:00:19] Eu falei

[01:00:19] Jogo Destiny

[01:00:20] Eu perco horas e horas lá

[01:00:22] Porque aquela atividade

[01:00:23] De ficar farmando

[01:00:24] O item exótico

[01:00:26] E tal

[01:00:26] Porra, beleza

[01:00:27] Eu gosto disso

[01:00:28] É um grind, né

[01:00:29] Mas assim

[01:00:31] O ponto pra mim

[01:00:32] Crucial é

[01:00:33] Por que que

[01:00:34] Quando você tem que

[01:00:35] A oportunidade

[01:00:35] Você está livre das amarras

[01:00:37] É aquilo que você está falando

[01:00:37] Está livre das amarras

[01:00:39] Você vai recriar o velho oeste

[01:00:40] Você vai recriar

[01:00:41] A era

[01:00:41] A era medieval

[01:00:42] Que nunca existiu

[01:00:43] Daquele jeito

[01:00:43] Porra

[01:00:43] A era medieval

[01:00:44] Era pra tu morrer

[01:00:45] Desenteria, sabe

[01:00:46] Que era como

[01:00:46] A maioria das pessoas morriam

[01:00:47] Pegava uma doença

[01:00:48] De pulga do rato

[01:00:49] Isso é viver

[01:00:50] Na era medieval, tá ligado

[01:00:51] Então assim

[01:00:52] A galera quer viver

[01:00:53] Numa idealização

[01:00:54] Isso

[01:00:55] Isso é outra coisa

[01:00:55] Que eu adoro

[01:00:56] No Deadwood

[01:00:57] É como ele retrata

[01:00:58] A medicina

[01:00:59] Através do personagem

[01:00:59] Do médico da cidade lá

[01:01:01] Que é uma coisa

[01:01:02] Que às vezes você perde

[01:01:03] De

[01:01:03] O fato de que a gente

[01:01:05] Tem um episódio

[01:01:05] Que lida com uma epidemia lá

[01:01:07] E a gente está vivendo

[01:01:07] Uma pandemia

[01:01:07] Deixa bem explícito

[01:01:08] Que é

[01:01:08] Cara, você tem que lembrar

[01:01:10] Que a medicina

[01:01:10] É também

[01:01:12] É só um processo

[01:01:13] Cultural

[01:01:14] Que está

[01:01:14] Evoluindo

[01:01:15] E ela é sempre o

[01:01:17] Olha, o melhor

[01:01:18] Que eu posso fazer é isso

[01:01:19] Então é isso

[01:01:20] Você vê umas soluções

[01:01:21] Que eles têm

[01:01:21] Para os problemas

[01:01:22] Assim

[01:01:22] Por exemplo

[01:01:25] Que não são

[01:01:26] Não é o meu aviso

[01:01:27] Minha avó

[01:01:27] Que nasceu em 1916

[01:01:30] Teve tuberculose

[01:01:31] E o tratamento

[01:01:32] Realmente era

[01:01:33] Vamos furar

[01:01:35] A sua caixa toráxica

[01:01:36] Para o ar entrar

[01:01:38] E fazer pressão

[01:01:39] E colapsar o seu pulmão

[01:01:40] E aí

[01:01:40] Não ficar mexendo

[01:01:42] Um tempo

[01:01:42] Para dar tempo

[01:01:43] De ele cicatrizar um pouco

[01:01:44] E aí uma vez por semana

[01:01:45] O médico vai vir aqui

[01:01:46] Furar você

[01:01:47] Para dar tempo

[01:01:48] Do seu tecido pulmonar

[01:01:49] Cicatrizar

[01:01:50] E é isso

[01:01:51] Por quê?

[01:01:52] Porque é o melhor

[01:01:52] Que a gente tem agora

[01:01:53] Se a gente conseguir

[01:01:54] Algo melhor

[01:01:54] A gente vai fazer

[01:01:55] Então

[01:01:56] Mas é isso

[01:01:56] E aí

[01:01:57] O tempo inteiro

[01:01:58] Você está vendo lá

[01:01:58] Técnicas medicinais

[01:02:00] Que já melhoraram

[01:02:02] Um pouco desde então

[01:02:02] Mas você entende

[01:02:03] Que é tipo

[01:02:03] Mas as nossas

[01:02:04] Vão parecer tão antiquadas

[01:02:06] Quanto em algum momento

[01:02:07] Nada do que a gente faz

[01:02:09] É bom

[01:02:09] Tem um

[01:02:10] Episódio de Star Trek

[01:02:11] Que é isso

[01:02:12] Aquele famoso Star Trek

[01:02:13] Que eles voltam no tempo

[01:02:14] E aí eles vão pegar

[01:02:15] Eles vão salvar a baleia

[01:02:18] E aí os caras

[01:02:19] Aí está o

[01:02:20] McCoy

[01:02:21] O médico

[01:02:21] E aí

[01:02:22] Ele está no hospital

[01:02:24] E está com um monte de médicos

[01:02:25] Não

[01:02:25] Porque eu operei

[01:02:26] Sei lá o quê

[01:02:26] E ele sai assim

[01:02:27] Todo horrorizado

[01:02:28] E fala assim

[01:02:28] Nossa

[01:02:29] Estou vivendo uma era

[01:02:30] De açougueiros

[01:02:30] Mas tipo assim

[01:02:32] Mas o que eu estava

[01:02:33] Sobre isso

[01:02:34] Especificamente

[01:02:35] Eu recomendo para o ouvinte

[01:02:36] Que dê uma olhada

[01:02:37] Na invenção

[01:02:38] Das ciências modernas

[01:02:39] Da tabela Stengers

[01:02:40] Que é a

[01:02:40] Que ela fala exatamente

[01:02:41] Sobre o nascimento

[01:02:42] Da medicina

[01:02:42] Como a

[01:02:43] A medicina

[01:02:44] A medicina não se tornou

[01:02:45] O tratamento médico

[01:02:47] Padrão

[01:02:47] Por ser mais eficaz

[01:02:49] Não

[01:02:49] Se tornou porque as pessoas

[01:02:50] Achavam que era feio

[01:02:51] Se rezar

[01:02:53] Basicamente era isso

[01:02:54] Né

[01:02:54] Era

[01:02:55] Era selvagem

[01:02:56] Era primitivo

[01:02:57] As palavras que se usavam

[01:02:58] Muito na época

[01:02:59] Mas o ponto

[01:03:00] Que eu queria chegar

[01:03:00] É o seguinte

[01:03:01] Cara

[01:03:01] Para mim o mais

[01:03:03] Entestecedor disso

[01:03:04] É que

[01:03:04] Até quando nós temos

[01:03:05] A liberdade

[01:03:06] De produzir nosso próprio

[01:03:07] Entretenimento

[01:03:07] No RPG de mesa

[01:03:08] Por exemplo

[01:03:09] As pessoas tendem

[01:03:10] A reproduzir os mesmos

[01:03:11] Arquétipos sempre

[01:03:12] Né

[01:03:13] Quando você vai olhar

[01:03:14] Para o RPG de mesa

[01:03:14] Ele te permite

[01:03:15] Inventar outras coisas

[01:03:17] De uma maneira muito livre

[01:03:18] Sabe

[01:03:18] E aí tu vê

[01:03:19] Como é que a nossa imaginação

[01:03:20] Até ali tá

[01:03:21] Sendo conformada

[01:03:22] Por isso que eu prefiro

[01:03:23] O RPG de mesa

[01:03:23] Porque aí a gente pode fazer

[01:03:24] Coisas um pouquinho diferentes

[01:03:25] Nesse aspecto

[01:03:26] Vamos jogar RPG agora

[01:03:28] É

[01:03:29] Aí eu vou descolar de você

[01:03:31] Não

[01:03:31] Eu tenho

[01:03:32] Na próxima temporada

[01:03:33] Se me pagarem muito dinheiro

[01:03:35] Eu faço um RPG com você

[01:03:36] Gravado

[01:03:37] Nossa

[01:03:38] Esse aí tem que ser assim

[01:03:39] Tipo

[01:03:40] É isso

[01:03:41] É isso

[01:03:42] Nossa

[01:03:42] Esse tem que ser assim

[01:03:42] 10 mil reais por mês

[01:03:44] Vamos jogar

[01:03:45] Vamos jogar RPG

[01:03:46] Porra cara

[01:03:46] Tem um compromisso bancário

[01:03:48] Inadiável

[01:03:48] Nesse dia

[01:03:49] Cara

[01:03:51] É maluco

[01:03:52] Desculpa

[01:03:52] Eu

[01:03:52] É tipo The Sims

[01:03:54] Eu adorava o primeiro

[01:03:55] Quando você ligava

[01:03:56] Para pessoas

[01:03:56] Que você não tinha

[01:03:57] Conexão social

[01:03:58] Alta o suficiente

[01:03:59] A pessoa

[01:03:59] Ah desculpa

[01:04:00] Estou vendo a tinta secar

[01:04:01] Não posso

[01:04:02] E é isso

[01:04:05] É isso

[01:04:05] Essa é a minha resposta

[01:04:06] Orlando muito obrigado

[01:04:07] Desculpa ouvintes

[01:04:08] Porque

[01:04:09] Esse

[01:04:09] Episódio foi mais caótico

[01:04:11] E fanho

[01:04:11] Do que o normal

[01:04:12] Mas aqui eu estou

[01:04:13] Muito mal

[01:04:13] Mas eu não queria

[01:04:14] Esperar mais

[01:04:15] Para gravar

[01:04:16] E

[01:04:16] Acontece

[01:04:18] Acontece

[01:04:19] Mas eu acho que

[01:04:20] Assim

[01:04:20] É que foi muito

[01:04:22] E o Orlando sabe

[01:04:24] O quão

[01:04:25] Chato eu fiquei

[01:04:25] Depois de ver Deadwood

[01:04:26] Porque eram vários temas

[01:04:28] Que a gente já estava discutindo

[01:04:29] Os dois

[01:04:29] Por causa dessa temporada

[01:04:30] E porque a gente é a gente

[01:04:31] E aí tipo

[01:04:32] Eu vi todos ilustrados

[01:04:34] E falei

[01:04:34] Caralho é isso

[01:04:35] É isso

[01:04:35] Isso aqui é o

[01:04:36] Tecido conectivo

[01:04:37] De todas essas porras

[01:04:38] Que a gente está falando

[01:04:38] A gente tem que falar sobre isso

[01:04:39] E

[01:04:41] E é isso

[01:04:42] Eu poderia falar a hora

[01:04:43] Sobre isso aqui

[01:04:43] Eu estou morrendo

[01:04:44] E eu tenho que gravar

[01:04:45] Outro podcast ainda

[01:04:46] E aí eu me sinto

[01:04:49] Aqui no nosso

[01:04:50] Último episódio da temporada

[01:04:51] Tal qual o Al

[01:04:52] No final dele

[01:04:54] Tal qual o Logan

[01:04:54] No final do filme

[01:04:55] Você está

[01:04:56] Também

[01:04:56] Também

[01:04:57] Eu nem tive energia

[01:04:58] De falar mal desse filme

[01:05:00] Cara

[01:05:01] É importante

[01:05:02] Porque de repente

[01:05:03] Vai que você

[01:05:03] Para ter que ir na madeira

[01:05:05] Você falece

[01:05:05] Mas ficou aqui registrado

[01:05:07] A sua decadência

[01:05:08] É

[01:05:09] É

[01:05:09] , eu acho que é bom

[01:05:10] Para um herói

[01:05:11] Eu só queria deixar

[01:05:12] Todo mundo em casa

[01:05:13] Tranquilo

[01:05:13] Que eu já

[01:05:14] Eu já me

[01:05:14] Eu já me

[01:05:15] Eu já fiz exame

[01:05:16] Não é nada grave

[01:05:17] Assim

[01:05:18] Aparentemente não é covid

[01:05:19] Pelo teste

[01:05:20] Eu estou só resfriado mesmo

[01:05:22] Minha namorada esteve resfriada

[01:05:23] Teve com a gripe

[01:05:24] E passou

[01:05:25] Já está melhor

[01:05:25] Mas eu

[01:05:26] Eu pareço ter sido infectado

[01:05:28] Com o mesmo vírus

[01:05:29] Pelo fato de que

[01:05:30] Nós somos afetuosos

[01:05:31] E temos contato próximo

[01:05:33] E eu estou

[01:05:35] Atravessando

[01:05:36] Esse

[01:05:36] Esse mar

[01:05:37] De catarro

[01:05:39] E eu estou

[01:05:39] Bem

[01:05:41] E fiquem ouvintes

[01:05:42] Com essa belíssima imagem

[01:05:43] Olha

[01:05:44] Você até tossiu em cima de mim

[01:05:45] Fiquem com essa belíssima imagem

[01:05:46] Voltaremos numa

[01:05:47] Será

[01:05:48] Será a quinta temporada?

[01:05:50] Quarta

[01:05:50] Quarta temporada

[01:05:50] Quarta temporada

[01:05:51] Quarta temporada

[01:05:52] Com um tema que ainda não decidimos

[01:05:54] Espero que tenha um cortinho

[01:05:55] Não

[01:05:55] Tem uma

[01:05:56] Tem uma sugestão de tema

[01:05:57] Que eu dei no nosso Telegram

[01:05:58] Que se a gente fizer

[01:05:59] Vai ser muito boa

[01:06:00] Que é só

[01:06:01] O filme esbancado pela CIA

[01:06:02] É verdade

[01:06:04] Mas isso aí tem o nosso plano

[01:06:05] Porque a gente vai ter

[01:06:06] Tem várias coisinhas ainda

[01:06:06] Tem financiamento coletivo

[01:06:07] A gente tem outros planos, ouvintes

[01:06:09] Mas é

[01:06:09] É isso

[01:06:10] A gente quer criar um plano

[01:06:11] Bem

[01:06:11] Bem

[01:06:11] Bem legal

[01:06:12] E bem

[01:06:13] Polido

[01:06:14] E trabalhado

[01:06:16] Pra propor pra vocês

[01:06:17] E

[01:06:18] Twitchar também, né?

[01:06:19] Twitchar

[01:06:19] Exato, é

[01:06:20] Tipo, expandir o pop cult

[01:06:21] Pra o grande império midiático

[01:06:24] Que ele sempre

[01:06:24] É

[01:06:25] Tinha que se tornar

[01:06:26] Porque é isso

[01:06:27] Tal qual

[01:06:27] A Oswerdian

[01:06:28] A gente tá aqui só construindo algo

[01:06:31] Pra ser cooptado

[01:06:32] Pelo Estado capitalista

[01:06:34] E manter

[01:06:34] O nosso poder

[01:06:35] Tal como o Rejagante Machine

[01:06:37] Vamos fazer música antifistema

[01:06:38] Até ser

[01:06:39] Seja

[01:06:39] Comprada por uma gravadora, né?

[01:06:41] E depois a gente continua igual

[01:06:42] Pum, peru, leu

[01:06:43] Pum, peru, leu

[01:06:44] Quack, pum, peru, leu

[01:06:46] Ha, ha, ha, ha, ha, ha