Frontdaciência - T12E14 - O problema dos três corpos II
Resumo
Este episódio do Fronteiras da Ciência é uma continuação da discussão sobre o ‘Problema dos Três Corpos’, focando na análise da trilogia de ficção científica ‘Lembranças do Passado da Terra’ do autor chinês Cixin Liu. Os participantes conversam sobre o primeiro volume, que serve como ponto de partida para uma epopeia que se estende por mais de 1300 páginas, abordando o contato e conflito entre a humanidade e uma civilização alienígena avançada, os trissolarianos, que habitam um planeta em um sistema estelar triplo caótico.
A discussão explora a premissa central do livro: a instabilidade orbital inerente a um sistema de três corpos (estrelas) e como isso molda uma civilização que vive sob a constante ameaça de extinção, levando-a a buscar um novo lar – a Terra. Os participantes destacam elementos como a ‘humanização’ da cultura chinesa apresentada na narrativa, a abordagem poética e lírica do autor, e o realismo na representação das distâncias e limitações cósmicas, como a velocidade da luz, contrastando com clichês comuns da ficção científica.
Um dos conceitos tecnológicos centrais debatidos é o dos ‘softons’, partículas enviadas pelos trissolarianos para espionar e sabotar o progresso científico da Terra, especificamente atacando a ciência básica. A conversa avalia a plausibilidade científica dessa ideia, seu papel como dispositivo narrativo (às vezes visto como um ‘deus ex machina’) e sua função simbólica em destacar a importância fundamental da pesquisa científica básica para o desenvolvimento tecnológico.
Os participantes também analisam outros temas da obra, como o pessimismo em relação à humanidade, a ‘Hipótese da Floresta Escura’ sobre a natureza do contato interestelar, a desconfiança na ciência retratada no livro e seus paralelos com a realidade contemporânea. A trilogia é elogiada por sua densidade, complexidade e sucessão de ideias ‘malucas e geniais’, sendo comparada favoravelmente ao trabalho de Arthur Clarke e ao livro ‘Contato’ de Carl Sagan.
Por fim, o episódio reforça a recomendação da leitura da trilogia, celebrando-a como uma grande obra de ‘ficção científica dura’ que mistura conceitos científicos robustos com uma narrativa poética e filosófica, deixando como mensagem final a defesa crucial da ciência básica como alicerce para o futuro.
Indicações
Books
- O Problema dos Três Corpos (e a trilogia Lembranças do Passado da Terra) — Trilogia de ficção científica de Cixin Liu, composta por ‘O Problema dos Três Corpos’ (2006), ‘A Floresta Escura’ (2008) e ‘O Fim da Morte’ (2010). A obra é considerada excepcional pelos participantes, que a elogiam por sua densidade, ideias geniais, abordagem poética e por humanizar a cultura chinesa para o leitor ocidental.
- Contato (Carl Sagan) — Mencionado como livro favorito na temática de ficção científica realista sobre contato alienígena, sendo colocado ao lado da trilogia de Liu em termos de qualidade e cuidado com a verossimilhança científica.
Concepts
- Hipótese da Floresta Escura — Conceito filosófico central nos volumes seguintes da trilogia (a partir do segundo livro). Sugere que o universo é como uma floresta escura onde civilizações se escondem para não serem detectadas e destruídas por outras, tornando o contato interestelar extremamente perigoso.
People
- Cixin Liu (Liu Cixin) — Autor chinês da trilogia ‘Lembranças do Passado da Terra’. É descrito como tendo uma formação em computação, tratando de temas científicos complexos com naturalidade e construindo narrativas poéticas e líricas.
- Arthur Clarke — Autor clássico de ficção científica citado como uma das grandes inspirações de Cixin Liu. O estilo de ‘ficção científica dura’ de Liu é comparado ao de Clarke, sendo Liu chamado por alguns de ‘Arthur Clarke asiático’.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução ao Problema dos Três Corpos e à trilogia — O episódio começa relembrando o problema físico da imprevisibilidade orbital em sistemas de três corpos. Apresenta a trilogia ‘Lembranças do Passado da Terra’ de Cixin Liu, focando no primeiro volume ‘O Problema dos Três Corpos’, que usa essa instabilidade como premissa. Explica que a civilização trissolariana, originária de um sistema triplo como Alpha Centauri, vive em um planeta com órbitas caóticas e busca migrar para a Terra, desencadeando o conflito central da história.
- 00:04:07 — Apreciações iniciais dos participantes sobre a obra — Os participantes compartilham suas primeiras impressões sobre a trilogia. Destacam-na como excepcional e marcante, elogiando sua densidade, complexidade e escrita poética. Comentam sobre o impacto de apresentar uma ‘humanização’ da cultura chinesa, algo novo para muitos leitores ocidentais. Também notam o realismo na abordagem de distâncias cósmicas e a sucessão de ideias geniais que constroem um conflito verossímil entre civilizações.
- 00:08:34 — O jogo de realidade virtual e o recrutamento — A discussão aborda o mecanismo narrativo do jogo de realidade virtual criado pelos trissolarianos (ou pela organização ETO na Terra) para recrutar simpatizantes. O jogo permite que os jogadores vivenciem e tentem resolver os problemas da civilização trissolariana, familiarizando-se com sua existência e dificuldades. É destacado como um método inteligente de expor elementos da cultura alienígena sem revelar muitos detalhes, mantendo o mistério.
- 00:10:40 — A importância da ciência básica e a sabotagem via softons — Este é um ponto central do livro: os trissolarianos entendem que o verdadeiro progresso tecnológico nasce da ciência básica. Para impedir que a humanidade avance tecnologicamente nos 400 anos de viagem da frota, eles atacam diretamente a pesquisa fundamental. O mecanismo para isso são os ‘softons’, partículas que interferem em experimentos científicos (como aceleradores de partículas) e tornam os resultados imprevisíveis, paralisando o avanço do conhecimento físico.
- 00:12:36 — Discussão sobre a plausibilidade científica dos softons — Os participantes debatem a plausibilidade dos softons. Por um lado, a ideia é fantástica: partículas de múltiplas dimensões desdobradas em superfícies planetárias para criar supercomputadores, usando emaranhamento quântico para comunicação instantânea. Por outro, reconhecem que é um ‘plot device’ poderoso, quase um ‘deus ex machina’, que permite aos trissolarianos monitorar e sabotar tudo. A comunicação mais rápida que a luz via emaranhamento é apontada como uma liberdade criativa, já que a física atual não permite transmissão de informação assim.
- 00:15:12 — A evolução biológica em um ambiente caótico — Surge uma crítica à premissa biológica: como uma civilização poderia evoluir e se tornar tecnologicamente avançada em um planeta com estações e condições totalmente imprevisíveis? A seleção natural darwiniana requer certa regularidade ambiental. É levantada a hipótese de uma ‘janela’ de estabilidade suficientemente longa para permitir esse desenvolvimento, uma coincidência necessária para o ‘plot’. Também se discute a adaptação trissolariana de desidratação/reidratação.
- 00:23:00 — Outras tecnologias impressionantes e influências — A conversa menciona outras tecnologias marcantes da trilogia, como o uso de nanotecnologia (fios capazes de fatiar um navio) que é uma homenagem a Arthur Clarke, uma grande influência para Liu. Comentam sobre o elevador espacial que aparece nos volumes seguintes. Discutem o estilo do autor, considerado uma fusão de ‘Hard SF’ no estilo Clarke com elementos de ‘Soft SF’ mais poéticos e filosóficos, sendo por vezes chamado de ‘Arthur Clarke asiático’.
- 00:24:18 — Contexto cultural e profundidade dos personagens — Os participantes avaliam o aspecto cultural do livro. Embora a introdução sobre a Revolução Cultural Chinesa (presente na tradução americana) seja impactante para ocidentais, alguns acham a humanização dos personagens chineses não tão profunda, comparável à superficialidade típica de Clarke. O impacto da obra é atribuído em parte ao momento histórico de ascensão da China. Discutem também o pessimismo e a misantropia de alguns personagens humanos que facilitam a quinta-coluna.
- 00:27:19 — Paralelos com a realidade e a ‘Hipótese da Floresta Escura’ — São traçados paralelos entre elementos do livro e a realidade atual, como a perda de confiança na ciência e a desinformação (similar aos efeitos ilusórios dos softons). A ‘Hipótese da Floresta Escura’ – a ideia de que o universo é um lugar perigoso onde civilizações se escondem para não serem destruídas – é apresentada como premissa filosófica central nos livros seguintes. Discute-se a falácia de esperar por um ‘salvador externo’ (os trissolarianos) e a lição de que tecnologia avançada não implica superioridade moral.
- 00:29:27 — Recomendação final e mensagem da obra — Os participantes encerram recomendando fortemente a leitura da trilogia, definindo-a como uma grande obra que mistura ficção científica dura com poesia e uma narrativa bem construída. A mensagem final destacada é a defesa da importância crucial da ciência básica como fundamento de todo progresso tecnológico futuro. Encerram com uma citação do livro: ‘Frente à loucura, a racionalidade é impotente’ (‘In the face of madness, rationality was powerless’).
Dados do Episódio
- Podcast: Fronteiras da Ciência
- Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
- Categoria: Science
- Publicado: 2021-06-07T08:00:00Z
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/fronteiras-da-ci%C3%AAncia/fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c/frontdaci%C3%AAncia-t12e14-o-problema-dos-tr%C3%AAs-corpos-ii/f028f7e3-6cf1-4c2b-ac73-d1538b1c1431
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Dados do Podcast
- Nome: Fronteiras da Ciência
- Site: http://frontdaciencia.ufrgs.br
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Transcrição
[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, onde discutiremos os limites entre o que é ciência e
[00:00:09] o que é mito. Quando três ou mais corpos interagem gravitacionalmente, essas órbitas
[00:00:15] são imprevisíveis, exceto em alguns casos bem específicos, um conjunto bem restrito de
[00:00:21] condições iniciais, mas isso já foi discutido no episódio anterior dessa mesma temporada.
[00:00:26] Se esses três corpos interagindo gravitacionalmente forem estrelas, como é que pode surgir vida? Como
[00:00:33] é que pode uma civilização se desenvolver num planeta que orbita ao redor delas? Esse foi
[00:00:39] justamente o ponto de partida do Xi Jinping para escrever o primeiro volume da trilogia chamado
[00:00:46] O Problema de Três Corpos, que foi lançado em 2006 na China. Logo em seguida ganhou o Prêmio
[00:00:53] Ugo, que é um dos mais importantes da ficção científica. O tema de hoje é justamente a trilogia,
[00:01:06] que é chamada Lembranças do Passado da Terra, formada também por outros dois volumes,
[00:01:11] A Floresta Escura de 2008 e O Fim da Morte de 2010. E o pessoal reunido aqui para conversar
[00:01:18] sobre o problema dos três corpos é o Daniel Olivier, o Sandro Duarte, o Jorge Kieffel e eu,
[00:01:25] Jeffery Sorenson. A gente já avisa agora que é inevitável que alguns spoilers vão aparecer,
[00:01:32] mas a gente como vai se focar mais no primeiro volume da trilogia? Isso não vai estragar a
[00:01:39] surpresa de quem for ler os três volumes, pelo contrário, a gente incentiva que vocês façam isso.
[00:01:44] Voltando ao Problema de Três Corpos, um planeta existir num sistema desses com três estrelas pode
[00:01:51] ter órbitas muito complexas. E a estrela mais próxima do nosso sistema solar, a Alpha Centauri,
[00:01:58] Próxima Centauri, é na verdade um sistema triplo. São três estrelas e é justamente o berço dessa
[00:02:05] civilização, a civilização trissolariana, que tem uma vida miserável, apesar de superavançada
[00:02:11] logicamente. O planeta, às vezes, orbita uma única estrela, mas pode ficar muito perto,
[00:02:17] aquecer demais, ou ele pode ficar muito longe, que ele orbita as três como se fosse uma só e aí
[00:02:23] ficar frio demais, ou ele ainda pode transitar, passar de um tipo de órbita para outras e ter uma
[00:02:29] órbita essencialmente caótica. Inclusive, um dia ele pode acabar sendo engolido por uma dessas
[00:02:36] estrelas, esse é o medo da civilização, como aconteceu com os outros planetas daquele sistema.
[00:02:42] Isso no livro, porque no mundo real, alguns anos depois do livro ter sido lançado,
[00:02:48] se descobriu que de fato existem planetas no sistema, pelo menos dois foram já confirmados,
[00:02:54] mas pode ser que tenha mais. Mas no livro, então, o planeta dos trissolarianos é o
[00:02:59] último remanescente e eles temem, então, que ele seja engolido por alguma das estrelas e também
[00:03:05] para evitar essa mudança entre fases estáveis e fases caóticas, pelo fato das órbitas serem
[00:03:14] muito complicadas, eles procuram um novo lado. Então, com esse sistema caótico e essas
[00:03:20] possibilidades infinitas de órbitas, elas acabam, invariavelmente, levando a repetidas
[00:03:27] destruições da civilização trissolariana. Eles têm que recomeçar muitas vezes, nada comparado
[00:03:34] a essa estabilidade monótona que a gente tem aqui na nossa órbita elíptica. Então,
[00:03:41] esse é justamente o motivo principal do livro, a vontade da civilização trissolariana de abandonar
[00:03:47] o seu sistema natal e se mudar aqui para a Terra. Então, os três livros do Lio, eles contam nas
[00:03:53] suas 1300 páginas, toda essa epopeia, como é que a humanidade lida com isso. Bom, só para começar,
[00:03:59] uma rápida rodada para que vocês dessem as suas apreciações sobre o livro, só para criar o clima.
[00:04:07] Realmente foi um livro que me marcou muito, foi um livro que eu considero excepcional, está na lista
[00:04:12] dos melhores livros de ficção que eu já li. Também, eu acho que ele traz elementos muito
[00:04:16] diferentes do que a gente está acostumado, talvez pelo estilo do Lio mesmo. Foi a primeira vez que eu
[00:04:20] li um livro onde eu consegui estabelecer uma relação mais próxima com a cultura chinesa,
[00:04:25] com a humanização da cultura chinesa. Eu acho que é um livro que a gente espera que seja um
[00:04:30] livro de ficção, mas ele é um livro muito poético. Eu acho que, sobretudo, o segundo livro,
[00:04:35] acho que nesse ponto é ainda mais impactante. Ele trata de temas complexos e o Lio não tem
[00:04:41] uma formação acadêmica, ele é um gênero de computação e ele até se descreve como uma
[00:04:45] formação não tão sólida. Mas ele trata de temas complexos com muita naturalidade e acho que ele
[00:04:50] tem uma história incrível, com muita coisa interessante. Só consegui parar de ler quando
[00:04:57] eu terminei o terceiro livro e foi uma coisa muito intensa mesmo. Eu achei também um livro
[00:05:01] sensacional. É um livro que no meu Goodreads tem cinco estrelas, muito poucos livros têm cinco
[00:05:07] estrelas na minha lista. Ele é um livro muito denso, a história é bem complexa, é bem escrita
[00:05:13] e isso que o Dani falou é uma coisa que eu também tinha pensado. É a primeira vez que você consegue
[00:05:18] considerar os chineses como algo além dos chineses. Essa humanização deles é uma coisa que
[00:05:25] realmente não tinha pensado e me marcou bastante. A trilogia em si é uma coisa muito legal e eu
[00:05:32] recomendo a todos que têm algum interesse nessa área, que gastem energia porque não é pouca coisa
[00:05:37] para ler. São mais de mil páginas da trilogia, mas vale a pena. Eu sou o que menos volumes leu
[00:05:43] dos quatro. Estou na metade do segundo e não terminei ainda, portanto eu vou ficar aqui patrulhando
[00:05:48] para que não haja estraga prazeres. Seria a tradução que eu uso para spoiler, mas assim a brincadeira é
[00:05:54] que o livro é diferente. Ele realmente vem como um marco, é um livro extenso, mas não é porque é
[00:05:59] extenso que ele é ruim ou pesado. Ele tem uma linguagem, como foi dito aqui para os colegas também,
[00:06:04] bastante poética, lírica. A parte que ele, digamos, traz o ângulo desconhecido para nós aqui no
[00:06:11] ambiente, que é o lado exótico de descrever um povo em uma cultura diferente, não foi a parte
[00:06:16] que mais me impressionou. Eu realmente gostei mais a sucessão de ideias malucas, geniais, concatenadas,
[00:06:22] para criar uma relação, digamos, de um conflito entre civilizações e o seu desdobramento, que em
[00:06:29] vários aspectos é muito mais realista que qualquer desses filminhos aí, onde uma nave gigante
[00:06:34] sai desintegrando tudo com raios, soltando ETs malvados que despedaçam as pessoas, enfim,
[00:06:39] isso é um cenário nesse sentido mais realista. Mas é mais verosímil mesmo, né? É, e tem aquela
[00:06:45] questão que ele respeita as distâncias, que é uma coisa que, na ficção científica, o pessoal ignora
[00:06:49] a velocidade da luz, abusa de variantes pouco e mal explicadas, né, do transporte de dobra, o uso
[00:06:56] de buracos negros e buracos de minhoca, que na verdade esses caras viagem numa velocidade subluz,
[00:07:01] como a gente inclusive sabe fazer e tá fazendo só, aqui bem mais sub que eles, né? E eu acho que
[00:07:05] isso é o mais interessante de tudo. O romance todo acontece criando e descrevendo um ambiente
[00:07:10] de expectativa e antecipação. Nada acontece. Eu tive um cara que escreveu lá como é um épico,
[00:07:16] e é mais épico onde nada acontece. É mais ou menos isso que o cara disse, eu gostei da ideia.
[00:07:20] E aí, durante um bom tempo, a única coisa que você sabe é que houve uma mensagem de rádio, né?
[00:07:25] Nada mais, e fica aquela expectativa. Isso é bem legal, nesse sentido eu coloco ele junto com
[00:07:30] o rádio do Carl Sagan, que é o meu livro favorito nessa temática, por várias razões,
[00:07:35] mas o filme também tá entre os meus favoritos, porque o filme é muito, muito cuidadoso. Ele deixa
[00:07:40] em aberto o que tem que ficar em aberto. Ele respeita aquele princípio que eu chamo de princípio 2001.
[00:07:44] Tu não precisa contar tudo e detalhar tudo pra fazer um filme inteligente. Pelo contrário,
[00:07:49] nas lacunas que ele fica inteligente. Mas ele disse uma coisa legal numa entrevista, que ele falou assim,
[00:07:53] não tem como um bom escritor antecipar a interpretação do leitor. É sempre uma surpresa. E é verdade,
[00:07:59] tipo assim, a gente pensa em algumas interpretações, aí vem um cara da interpretação, 10 milhão de criaturas.
[00:08:04] Não, mas as interpretações são uma parte super interessante também, né? Sem dar spoilers,
[00:08:10] aí tem uma parte super interpretativa depois, mas tem várias interpretações muito loucas
[00:08:14] rolando na internet, e uma delas, inclusive, é que o livro é uma metáfora, né? E que os
[00:08:18] tris-solarianos são os chineses e os chineses são os americanos, enfim. Tem muita coisa rolando aí,
[00:08:24] assim. Tem que falar também, eu acho que é uma parte importante do livro, assim, eu acho que muita
[00:08:28] gente gosta dessa parte e se interessa pelo livro por essa parte, porque é um mecanismo que os
[00:08:34] tris-solarianos pensaram em como explicar aquela civilização deles, foi criando um jogo de realidade
[00:08:40] virtual e fazendo pessoas se interessarem por jogar esse jogo, e aí vivenciando esse jogo, a pessoa tinha
[00:08:47] uma ideia de como era aquela civilização lá. Eu achei uma ideia muito boa, assim. É, foi vivenciar um
[00:08:52] pouco da realidade tris-solarianas, porque ele foi usado para captar, assim, né, os integrantes do
[00:08:57] NCO lá, então era para, tipo, aquele filme lá, O Último Guerreiro das Galáxias lá, então eles
[00:09:02] puseram um joguinho para ver quem é que ia para o lado deles, assim, e é muito, muito interessante.
[00:09:06] É interessante porque é, digamos, uma maneira diferente de fazer a narrativa, toda ela de dentro
[00:09:13] da Terra. Então, ele consegue passar alguns elementos da civilização tris-solariana sem revelar
[00:09:19] muito, a gente continua no mistério total de como eles são exatamente, mas ele passa aquilo
[00:09:27] que eles consideram relevante para que a gente saiba. Para que a gente possa entender um pouco, né,
[00:09:32] da civilização, sem também dar muito detalhe, né. Nisso eu coloco uma pergunta que talvez revele
[00:09:37] alguns detalhes, mas não todos, que eu me lembre, foi o único personagem ocidental que tem o Mike
[00:09:42] Evans, que é um CEO, um milionário meio maluco lá, que patrocida uma série de coisas, foi o grupo
[00:09:48] dele, a ETO, né, a Earth Tris-Solaris Organization, né, que foi criada para receber os caras,
[00:09:56] opa, contei demais, ele que criou o programa com o intuito de recrutar, mas esse programa veio meio
[00:10:03] pronto, chegou de alguma forma aqui, como ele chegou? Eu, honestamente, eu li há tanto tempo que eu não me
[00:10:07] lembro, tipo assim, quem fez afinal o programa? Não, eles não dizem, mas ao mesmo tempo eles conseguem
[00:10:13] interferir com uma série de tecnologias que a gente tem, né, então um desses mecanismos de manipulação
[00:10:20] são os sófons. Aí a discussão dos sófons abre toda uma gama de possibilidades, né, desde a maneira
[00:10:28] como eles são construídos, a maneira como eles funcionam para mandar informações em tempo real
[00:10:34] e como eles atrapalham a tecnologia humana. Então aqui tem um ponto que eu acho que é fundamental,
[00:10:40] que permeia todo o livro, que é a importância que é dada à ciência básica. A ciência básica,
[00:10:47] ela é tão importante, ela é tão fundamental que a única maneira de garantir que quando a frota chegar,
[00:10:53] que os 400 anos que a terra tem de desenvolvimento tecnológico não vão levar a um estágio que possa
[00:10:59] destruir essa frota, é impedir o desenvolvimento de novas tecnologias. Então a única maneira que
[00:11:07] eles têm de fazer isso é fazer com que a ciência básica feita aqui pare. Esse momento é muito,
[00:11:13] muito forte, né, assim eu acho que é muito bonito o jeito com que ele se apega a isso e
[00:11:17] constrói todo o universo dele em volta desse tema fundamental aí, né, tem uma hora que os caras
[00:11:23] falam, né, a gente tem que fazer alguma coisa para acabar com a ciência desse planeta, senão isso aí
[00:11:27] não vai ser mais uma expedição, vai ser um funeral. Isso, porque o que que acontece no mundo hoje,
[00:11:32] né, quando um país quer impedir que outro se desenvolva tecnologicamente, eles vão lá e
[00:11:39] o parque tecnológico eles destróem a aplicação da ciência nesses países. Aqui não.
[00:11:46] Tu tá querendo dizer que nós estamos sob invasão trissolariana no Brasil?
[00:11:49] Ah, muito bem observado.
[00:11:51] Então ao contrário do que é feito hoje na Terra, né, para impedir o desenvolvimento,
[00:11:57] atacar a ciência aplicada e tecnologia, aqui não. Os trissolarianos eles sabem a origem da ciência
[00:12:05] e da tecnologia, né, que tá na ciência básica. E eles sabem que, bom, se eu interrompo a ciência
[00:12:10] básica, eles talvez consigam tirar o último suco ali da ciência que eles têm hoje, mas dali eles
[00:12:16] não passam. Eles estão impedindo uma revolução tecnológica. E o mecanismo que eles têm para fazer
[00:12:23] isso são os softons. O livro introduz um monte de maravilhas tecnológicas, né, mas o softon é uma
[00:12:32] das tecnologias que basicamente sustentam a história, né.
[00:12:36] É, eu acho que vale a pena falar um pouquinho sobre como é que o softon é montado lá.
[00:12:39] Gostaria muito de ouvir vocês dizerem se existe algum grau de realidade nesse tipo de conjectura.
[00:12:47] Eu vou dizer que eu fiquei, na verdade, meio dividido. Porque os softons, por um lado,
[00:12:52] eles são uma proposta fantástica. Eles funcionam como, ao mesmo tempo, espiões, usando um
[00:12:57] entrelaçamento quântico. Eles mandam tudo que acontece na Terra lá para os trissolarians. Eles
[00:13:01] usam a nossa percepção da realidade porque eles manipulam a luz e a gente não pode confiar no que
[00:13:05] a gente enxerga mais. E, por fim, como o Jeff falou, ele impede qualquer avanço na física básica,
[00:13:11] porque ele interfere nos resultados de qualquer experimento com acelerador de partículas. Então
[00:13:16] eles não sabem o que pode confiar e tal. Mas, por outro lado, é um plot device, assim, às vezes,
[00:13:20] meio Deus Ex Machina, porque pode tudo. Qualquer ideia que a gente tenha para poder contrapor os
[00:13:25] trissolarianos não dá, porque tem os softons e a gente não pode confiar em nada. Ele tem esse
[00:13:30] problema também. Na verdade, eu gostei, mas ele é mais uma referência vaga a algumas coisas da
[00:13:36] ciência. Ele fala do colapso de dimensões. Seus softons seriam um objeto de 11 dimensões,
[00:13:42] colapsados em três dimensões num corpo do tamanho de um próton. E ele pode ser expedido em uma
[00:13:47] velocidade muito próxima da velocidade da luz. Portanto, chegando antes aqui, eles embarcaram
[00:13:52] super dispositivos, máquinas, que seriam supercomputadores capazes de fazer isso,
[00:13:56] com monitoramento e sabotagem tecnológica aqui, e colapsaram ele num próton, cuspiram ele para terra,
[00:14:02] mandaram alguns. Não está claro se foi um deles que trouxe o programa do jogo, do game. Eu acho
[00:14:08] que o game é só uma coincidência. Ele é feito pela imaginação do pessoal de como seria esse povo lá,
[00:14:12] porque o objetivo dele é estimular os jogadores a tentar encontrar uma solução a ele, mas ao mesmo
[00:14:19] tempo se acostumar com a ideia de que existiria essa civilização lá e tal. Por isso que é tão estranho
[00:14:23] que as descrições no momento do jogo são pra lá de oníricas. E em um momento ele fala que o jogo
[00:14:30] não reflete totalmente a realidade. Poucas coisas do jogo são reais. Eu acho que ele não reflete,
[00:14:36] eles não sabem qual é, mas eles colocam algo para estimular a imaginação, porque são organizos
[00:14:41] praticamente materiais. O cara resseca e vira um pergaminho. É um negócio pra lá de doido.
[00:14:47] Eu gostei da ideia, é muito bonito. Tudo dentro dessa linha poética que ele conseguiu construir,
[00:14:52] dessas metáforas, está muito interessante. Isso traz um outro problema, que com essa destruição
[00:14:58] recorrente da civilização, é estranho que eles tenham chegado a uma civilização tão mais avançada
[00:15:05] do que a nossa, porque bem ou mal a gente nunca teve uma destruição até hoje em larga escala.
[00:15:12] Mas eu não lembro, eles falam sobre isso? Sobre como eles preservariam a memória de entre uma
[00:15:17] geração e outra? Eles perdem um pouco, mas eles têm uns cofres, umas coisas que eles guardam e tal.
[00:15:22] Eles chegam a falar sobre isso e eu acho que esse é o grande problema, porque eles com essas eras
[00:15:27] caóticas, eles passam muito tempo naquela hibernação desidratados lá, e ao passo que a humanidade estava
[00:15:34] progredindo cada vez mais rápido. Ele fala lá, cem mil anos para sair de caçadores, coletores até
[00:15:39] agricultura, e depois alguns milhares para ir para a revolução industrial, e agora a gente dominou a
[00:15:45] energia atômica, está na era da informação, quer dizer, a gente está muito rápido. Aqueles 400 anos
[00:15:51] Eles têm que percorrer todas as etapas para chegar, o que já inclui uma premissa bem complicada, que é
[00:15:56] típica talvez do otimismo tecno-científico chinês, e que é parecido com o ocidental, de que
[00:16:02] tipo, está predeterminado isso, enquanto que tem um animal inteligente como um humano, uma inteligência
[00:16:08] desse tipo, ele necessariamente vai arrumar para uma civilização tecnológica sempre, o que é uma premissa
[00:16:13] ruim. É tudo uma questão de probabilidades, é claro, mas se considera muito menos provável que vidas
[00:16:19] hoje se estabilize, e certamente que percorra passos até chegar numa etapa tão complexa, que
[00:16:25] precisaria muito tempo, num ambiente pouco regular ou estável. Ou seja, um planeta que é irregular,
[00:16:31] que tem estações imprevisíveis, por exemplo, seria para lá de hostil a vida. A vida precisa de alguma
[00:16:37] regularidade, porque a seleção darwiniana vai se dar em função dessas regularidades. Tu vai
[00:16:42] selecionar para algo que tu tem que esperar, mas tu vai selecionar para algo que tu não sabe que vai ser.
[00:16:46] Então, não é possível uma evolução do tipo darwiniana num ambiente aleatório, no ponto de vista
[00:16:50] biológico. Então, essa regularidade das variações é fundamental. Eu dou um exemplo aqui, se considera
[00:16:57] que a terra, por exemplo, é um lugar ideal para o surgir vida, até porque tem vida, porque nós temos
[00:17:02] a lua grande e próximo o suficiente, e ela exerce um prazer de estabilização da rotação do eixo, e as
[00:17:08] outras variações do eixo. Não é só rotação em torno deles, se não é com as vibrações, nas precessões,
[00:17:13] então é muito regular. Mesmo que varie ao longo de milênios, varie de forma regular também.
[00:17:18] Marte, por exemplo, que é menor que a terra, oito vezes menor, mas não tem uma lua desse porte, ele tem
[00:17:23] um eixo que oscila de forma bem aleatória. Ou seja, se acredita que, mesmo que possa ter surgido vida,
[00:17:30] pode ser que seja um evento bem rápido, tudo leva aquele que sim, se parece que em menos de 100
[00:17:35] milhões de anos tu poderia ter surgimento e uma certa diversificação de vida, já as ideias de hoje
[00:17:40] estão nessa linha, Marte não seria um lugar propício para muita história, porque essas
[00:17:44] imprevisibilidades tornaria impossível a coisa em muito adiante. No caso do planeta Trisolariano,
[00:17:49] é muito mais louco o negócio, porque eles têm eras de tamanhos curtos ou longos, é muito mais
[00:17:55] improvável. Tu pode ter uma janela larga o suficiente onde aconteça um episódio, depois tu vai ter várias
[00:18:01] janelas onde não dá tempo de acontecer, e se tu quer que na próxima janela, replique as mesmas passos,
[00:18:07] é um determinismo quase místico, que ele vai chegar a uma civilização com a mesma meta e inclusive
[00:18:12] planejar uma invasão. Só para terminar, o que deve ter acontecido aqui é uma coisa incrível,
[00:18:18] uma coincidência de uma janela suficientemente larga de estabilidade no planeta de lá, que coincidiu
[00:18:24] com o período tecnológico nosso e com a distância curta de 4 anos-luz, em 8 anos permitiu mensagem
[00:18:30] e volta. Então a chance de contato fica muito influenciada por isso, é uma coincidência muito
[00:18:37] grande, mas tudo bem, isso sim é um device plot, fazer as coisas dar certo. Tem um problema nessa
[00:18:42] hipótese da janela grande o suficiente que é o seguinte, eles desenvolveram supostamente por algum
[00:18:49] tipo de seleção natural e não por cirurgia plástica como os vogons, eles desenvolveram a
[00:18:56] de ressecarem e reidratarem, ou seja, isso significa que o período de evolução tem que passar por
[00:19:03] instabilidades, porque a instabilidade é um fator de pressão seletiva, se não passasse eles não
[00:19:10] seriam selecionados para terem essas características. Com detalhe que essa reidratação tem que ser ativa,
[00:19:16] alguém tem que fazer, não está embutido no processo. Bom, mas eles são capazes de passar por isso,
[00:19:22] talvez no início a reidratação fosse algum processo natural, ou seja, o surgimento da vida
[00:19:29] ali, a maneira como foi selecionada, embora siga os mesmos mecanismos, os mais importantes pelo
[00:19:35] menos aqui da Terra, ela seguiu um caminho diferente e chegou a um ponto completamente diferente,
[00:19:41] mas ele não explora muito isso, a gente sabe muito pouca coisa sobre a biologia trissolaiana.
[00:19:49] Acho que esse é um ponto que o tempo todo eles escondem, a gente não sabe, a gente fica o tempo
[00:19:54] todo até o terceiro livro tentando imaginar como é que eles são, é uma das belezas do livro talvez.
[00:19:59] É, e isso é fundamental, isso é um dos ensinamentos da sociologia cósmica, qualquer
[00:20:06] informação a mais que tu passar é um risco a mais que tu corre, mas eu queria voltar, a gente deixou
[00:20:12] o tema dos sófons pela metade, então eu queria responder um pouco o que o Daniel e o Sandro
[00:20:18] no início sobre a plausibilidade. Então um dos pontos importantes que é difícil de explicar
[00:20:26] dos sófons é o mecanismo de transmissão de informação. Quando o sófon é criado,
[00:20:32] ele é criado um par, e esse par ele está entrelaçado, existe um emaranhamento quântico
[00:20:40] e esses dois prótons eles compartilham do mesmo estado, um deles é enviado para a Terra,
[00:20:47] como Jorge disse, chega muito rápido porque ele consegue ser acelerado a velocidade da
[00:20:53] luz praticamente, a massa é infina, e o outro permanece lá. Mas o que se sabe hoje de emaranhamento
[00:20:59] é que esse processo ele não é capaz de transmitir informação, e isso é jogado para baixo do tapete,
[00:21:06] então dentro da liberdade que um autor de ficção científica tem, eu acho a ideia sensacional de
[00:21:13] pegar uma partícula que vive nesse mundo de 11 dimensões e ela ser desdobrada em dimensões menores,
[00:21:21] então ele dá o exemplo do cubo, se a gente quiser desdobrar um cubo que é tridimensional
[00:21:27] em duas dimensões, a gente corta ali todas as faces e desdobra ele, a superfície que ele ocupa
[00:21:35] é muito grande, então ele diz que se eu desdobrar uma partícula que vive em 11 dimensões em menos
[00:21:43] dimensões do que isso, cada vez ela vai ocupar uma superfície maior, tanto que o único próton
[00:21:49] desdobrado tem uma superfície que engloba todo o planeta, e aí eles passam um tempo ali trabalhando,
[00:21:55] colocando circuitos, equipamentos nessa superfície, criam um computador do tamanho de um planeta,
[00:22:02] e depois eles dobram de novo e tudo aquilo volta a ocupar o tamanho de um próton, então como a gente
[00:22:08] agora tem esse computador em escala planetária, isso explica um pouco os superpoderes desses
[00:22:14] sófons, porque são eles que decidem o que interromper, o que monitorar, o que atrapalhar,
[00:22:20] então ali tem uma super inteligência artificial, supostamente, além da transmissão instantânea via
[00:22:27] o emaranhamento, supondo que pudesse transmitir informação. Eu vou confessar que essa parte foi
[00:22:33] uma parte que me deixou um pouco triste com o livro, porque eu pensei assim, ele podia ter feito tudo
[00:22:37] aquilo ali, ter feito o sófon desdobrado, etc, e ter feito uma inteligência artificial que se comunicava
[00:22:44] com os terráqueos lá, não precisava fazer aquela comunicação instantânea mais rápida do que a luz,
[00:22:50] Bom, então os sófons é uma das tecnologias mirabolantes, inventadas, e o livro é uma sucessão
[00:23:00] de tecnologias, então acho que nesse pouco tempo que a gente tem, que outras tecnologias vocês
[00:23:06] ficarem impressionados no livro. Aquela cena onde com nanotecnologia os caras cortam um navio no
[00:23:14] meio em vários pedaços é incrível, eu acho que é muito gráfica aquela cena. Mas ela já tem um
[00:23:19] filme, inclusive, de terror, que faz isso, usa exatamente essa cena, porque todo mundo é cortado
[00:23:24] e ainda leva um tempinho pra cair, pra fazer aquele charminho. Esse fio que ele usa é uma homenagem
[00:23:29] no fundo ao Arthur Clarke, ele mesmo diz que o Clarke foi uma das grandes inspirações e essa
[00:23:36] é a mesma tecnologia que nos próximos volumes da trilogia vai ser usada pra levantar o famoso
[00:23:44] elevador espacial, que a gente fica nessa discussão se é possível ou não, mas eles têm ali.
[00:23:50] É, parece muito mesmo, acho que ele bebe muito do Clarke, daí ele fala isso o tempo todo,
[00:23:54] foi um grande influenciador. Então o lado do Lil de Hard Science Fiction, da ficção científica dura,
[00:24:02] ela é muito parecida com Arthur Clarke, só que ele consegue misturar com Soft Science Fiction também.
[00:24:07] Eu li umas 5 ou 6 reviews e todos eles tendem a concordar com isso, que ele é uma espécie
[00:24:14] do Arthur Clarke asiático. Mas é engraçado que vocês estavam comentando lá no início como ele
[00:24:18] traz esse lado humano e do chinês e mostra o desconhecido, eu estava falando antes e não
[00:24:22] terminei, que na verdade ele está surfando num momento histórico do planeta em que nós estamos,
[00:24:28] digamos, descobrindo a China que se levanta e possivelmente é a mesma que o Napoleão temia,
[00:24:33] que o dia que ela se erguer o mundo tremerá, não dizia ele, porque ele sabia da força histórica,
[00:24:39] da densidade cultural que tem lá. Mas assim, a descrição humana não é tão densa assim não,
[00:24:46] ao meu ver. Eu achei inclusive aquela parte inicial do livro, que muita gente acha interessante,
[00:24:50] eu também achei meio, não sei se porque eu já tinha leu algumas outras coisas sobre o assunto,
[00:24:53] assim, parecia um pouco espesso. E essa entrada talvez dificulta chegar nas coisas mais ficção
[00:25:00] científica, aqueles ganchos, aqueles anzóis finais na minha leitura. Como a China é a novidade do
[00:25:05] Então todo mundo está aberto a receber isso e esse foi parte do impacto que as pessoas sentiram,
[00:25:09] mas no fundo, no fundo, os personagens não são muito indescritos, que nem o Clark.
[00:25:13] Clark também não vai a fundo, é tudo meio superficial. O que funciona é os eventos.
[00:25:17] Esse início do livro, que trata da revolução cultural da China lá,
[00:25:21] na verdade ele foi trazido por início da tradução americana. Na chinesa ele não era lá, ele era um
[00:25:27] assunto muito sensível, a questão da censura, então ele estava mais por meio do livro. A tradução
[00:25:32] americana trouxe por início pra servir como uma introdução pra gente, pra nós ocidentais,
[00:25:35] pra essa cultura assim, pra contextualizar melhor. É pra gente entender lá o que que a maluca tava
[00:25:40] na cabeça quando apertou o botão lá e disse, ah, beleza, vem invadir a gente, vem mesmo.
[00:25:45] É, exatamente, ficou muito bom isso aí, eu não tô dizendo que é ruim, mas eu digo assim,
[00:25:48] um pouco tem um encanto da novidade na Oba, estão descobrindo esse mundo desconhecido e tal,
[00:25:53] e de fato eu tinha que encontrar uma justificativa pro que que a pessoa vai ser tão, digamos assim,
[00:25:58] tem uma misoginia total, tipo assim, o cara, por exemplo, esse empresário CEO ali, ele é um
[00:26:03] espessista, ele acha que tem que eliminar a humanidade pra salvar as demais espécies,
[00:26:06] isso é usado pra justificar a revolta, né, mas ao mesmo tempo tem um pessimismo ao longo
[00:26:11] de toda a história, é sempre assim, muito sombrio tudo, tipo, não temos futuro, isso aqui não vale
[00:26:15] a pena, aqui é tudo sombrio, triste, sem esperança, então que entre esses cara aqui e tome conta,
[00:26:22] né, ou seja, quinta coluna com discurso filosófico. Exato, exato. Isso é mais do primeiro,
[00:26:27] nos outros volumes esse humor da humanidade como um todo ele oscila, a gente passa por períodos
[00:26:34] sombrios, como nesse primeiro, mas depois a gente passa por períodos de euforia também. Quando a
[00:26:39] gente acha que vai conseguir, tem uma hora que a gente acredita, conseguimos, conseguimos. É,
[00:26:43] tem tantas reveravoltas que a gente passa, mas a gente volta depois pra outro período sombrio,
[00:26:48] então no fundo ele mostra que a humanidade ela também tem uma falta de estabilidade, só que,
[00:26:56] diferente da estabilidade que os trisolarianos tinham lá, lá é uma estabilidade orbital,
[00:27:01] né, aqui a gente passa por uma estabilidade em relação ao coletivo, ao destino da humanidade,
[00:27:08] então às vezes a gente tá doomed, né, a nossa civilização vai falir completamente e outras vezes
[00:27:13] a gente tá achando que tudo de bom. E aí, nós falamos há pouco das paralelas que tem com a
[00:27:19] realidade atual, não só do Brasil, mas também do Brasil, né, que tem um momento lá que aquelas
[00:27:23] imagens dos sófons, né, as pessoas têm ilucinações, confundem tudo, tem informação vazando e tal,
[00:27:29] tem um momento que a humanidade começa a perder, eu acho que até usam essas palavras,
[00:27:33] perder confiança nos cientistas. Meu, nós estamos vivendo um momento muito parecido, dá pra pensar.
[00:27:38] Tem uma hora que eles falam isso também, que é recorrente em ficção também, mas eu achei muito
[00:27:43] legal quando os trisolarianos estão descrevendo a Terra e eles descrevem a Terra como um lugar
[00:27:48] paradisíaco, né, um lugar, o clima menos, varia pouco, as órbitas são estáveis, os
[00:27:53] trisolarianos têm uma espécie de paraíso lá, como é que esses caras são tão ruins, sabe? E é coisa
[00:27:58] assim de que não adianta esperar pelo salvador externo, né, assim, isso durante um tempo a
[00:28:03] humanidade depositou as esperanças na religião ou na filosofia, enfim, como uma maneira de salvação,
[00:28:09] né, e aí no livro ela começa a depositar as esperanças nos trisolarianos, como se, bom, eles
[00:28:15] vão vir e com uma inteligência superior e uma tecnologia superior eles vão resolver os nossos
[00:28:19] problemas, mas eu acho muito legal a discussão quando fala que não necessariamente uma ciência
[00:28:26] superavançada e uma tecnologia superavançada são um bom indicativo de que aquela simplicização vai
[00:28:31] ser moralmente superior mesmo, seja lá o que quer ser moralmente superior, mas não adianta esperar
[00:28:36] por essa intervenção externa, tem que partir da gente, né, então isso pra mim foi muito forte,
[00:28:40] muito bonito também. Mas só falando antes assim, nós já estamos chegando ao fim, né, mas só falando
[00:28:44] das tecnologias que impressionaram mais, pessoalmente achei a parte mais bacana mesmo é o fato de ela
[00:28:49] conseguir desenvolver um método de transmitir amplificadamente o sinal de forma tão certeira,
[00:28:55] né, como ela conseguiu fazer usando, bom, vamos fazer mais um spoiler, cavidades intrasolares, né,
[00:29:02] de ressonância para amplificar o sinal lá. Talvez tem um spoiler que vale a pena falar, que é o
[00:29:06] conceito ou premissa da floresta escura, ou seja, aqui temos duas civilizações que vão entrar em
[00:29:11] Então isso faz a gente uma pergunta, será que isso é sempre necessário? É inevitável ou existem
[00:29:17] alternativas que enfim, nós não sabemos, né? Então por tudo que vocês ouviram aqui, né, a gente
[00:29:21] obviamente recomenda a leitura da trilogia, né, do Cixin Liu, O Problema dos Três Corpos, né,
[00:29:27] é uma grande obra da chamada ficção científica dura, mas também intermediada com elementos da
[00:29:34] ficção científica mais poética, né, mais soft, juntando uma ótima história muito bem contada com
[00:29:43] ideias mirabolantes e bem discutidas, né? E como mensagem final fica essa defesa da importância da
[00:29:52] ciência básica, que a gente sabe que é sempre o ponto de partida para todas as aplicações e
[00:29:57] tecnologias que a gente tem e que um dia vai ter. E para fechar uma frase do livro, que é bem adaptada
[00:30:03] também aos nossos tempos, que é a seguinte,
[00:30:05] In the face of madness, rationality was powerless.
[00:30:08] Frente à loucura, a racionalidade é impotente. Então participaram dessa conversa hoje o Sando
[00:30:15] Duarte, o Daniel Nunes de Oliveira, o Jorge Kieffeld e eu, Jefferson Lorenzo.
[00:30:20] O Programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGES.