SENTIDOS DO TRABALHO
Resumo
O episódio inicia contextualizando a crise do trabalho no Brasil, com altas taxas de desemprego e desalento, contrastando com o fenômeno da “grande renúncia” global. Os apresentadores criticam as visões utópicas sobre o futuro do trabalho que ignoram a realidade da maioria da população.
A discussão se aprofunda no conceito de “cansaço compulsivo”, inspirado na obra de Byung-Chul Han, onde a tecnologia multitarefa e a cultura da conveniência produzem exaustão. Analisam como o burnout se tornou um significante inflado, quase um produto cultural, e como as soluções oferecidas pela indústria do bem-estar (como mindfulness corporativo) muitas vezes mascaram problemas estruturais, criando uma “positividade tóxica” institucionalizada.
O trabalho remoto é examinado como uma transição do sonho do home office para o pesadelo do “hell office”, com jornadas estendidas, confusão entre vida pessoal e profissional, e a perda de conexões humanas espontâneas. Discutem a glamorização do nômade digital e como essa realidade é inacessível para a maioria dos trabalhadores brasileiros, especialmente em profissões manuais e presenciais.
Por fim, questionam a carga excessiva de expectativas depositadas no trabalho contemporâneo – que deve fornecer propósito, identidade, comunidade e crescimento – e propõem a necessidade de diversificar as fontes de significado na vida. Refletem sobre a dinâmica entre desejo e gozo, sugerindo que é preciso criar espaço para a auto-reflexão e reposicionar o trabalho como uma parte, mas não a totalidade, da existência.
Indicações
Books
- A Sociedade do Cansaço — Ensaio do filósofo Byung-Chul Han, mencionado como o texto que melhor batizou o nosso tempo, discutindo como a tecnologia multitarefa e a cultura da conveniência produzem sintomas de exaustão.
- Sociedade Paliativa — Outro livro de Byung-Chul Han citado, que analisa como a sociedade contemporânea cria formas eficientes de administrar o sofrimento em vez de solucionar suas fontes.
- Psicopolítica — Também de Byung-Chul Han, discutido para contrastar a violência aberta do capitalismo dos anos 80/90 com a postura predatória sorridente e inclusiva do CEO de startup contemporâneo.
- Depressão, uma biografia — Livro de Christian Dunker citado para mostrar como o aumento do diagnóstico de depressão e a medicalização caminharam paralelamente ao avanço do experimento neoliberal desde os anos 70.
- Extended Mind (Mente Expandida) — Livro da jornalista Annie Murphy Paul, mencionado por aprofundar estudos cognitivos que mostram como o cérebro funciona de forma muito diferente de um computador, precisando de pausas, movimento e ambientes variados.
Companies_Organizations
- Float — Empresa dos apresentadores, responsável pelo podcast e pelo relatório ‘Sentidos do Trabalho’ discutido no episódio. Também mantém o perfil @floatvibes no Instagram.
- GRID — Estúdio de RH fundado por Lelys, que pensa soluções criativas para pessoas e culturas. Sua fala é reproduzida no episódio comentando os novos sentidos do trabalho nas empresas.
People
- Byung-Chul Han — Filósofo coreano-alemão frequentemente citado, autor de ‘A Sociedade do Cansaço’, ‘Sociedade Paliativa’ e ‘Psicopolítica’, cujas ideias fundamentam a discussão sobre exaustão e sofrimento contemporâneos.
- Christian Dunker — Psicanalista e professor brasileiro, autor de ‘Depressão, uma biografia’, citado na discussão sobre como o sofrimento vira recurso para produtividade e a relação entre depressão e neoliberalismo.
- Vladimir Safatle — Filósofo e professor brasileiro, mencionado junto com Dunker na discussão sobre como o sofrimento é usado como gatilho para aumentar a produtividade.
- Rollo May — Psicólogo existencialista citado por Lucas, que fala sobre pessoas que obtêm um pseudo senso de vivacidade ao correr de um lado para o outro, como prova de sua importância.
- Esther Perel — Psicoterapeuta belga citada por Lucas em uma entrevista ao The Cut, onde ela discute como nunca depositamos tantas expectativas no trabalho (pertencimento, identidade, crescimento).
- Vera Iaconelli — Psicanalista brasileira, citada por sua frase sobre o paradoxo contemporâneo: ‘diga-me como gozar para que eu me sinta livre’.
- Milton Santos — Geógrafo brasileiro elogiado por André como um dos maiores acadêmicos do país, por entender como as dinâmicas espaciais alteram as dinâmicas sociais e psíquicas.
Studies_Reports
- Relatório Sentidos do Trabalho (Float) — Relatório amplo da Float sobre relações, condições, ambições e sentidos do trabalho, baseado em pesquisas da empresa. O episódio é um recorte de algumas ‘vibes’ discutidas no relatório completo.
- Dados do FMI e IBGE sobre desemprego — Citados na abertura: Brasil passou do 22º para o 14º lugar no ranking mundial de desemprego (FMI); quase 15 milhões de desempregados e 6 milhões de desalentados (IBGE).
- Pesquisa da McKinsey sobre bem-estar — Mencionada por André: a indústria do bem-estar movimenta 1,5 trilhão de dólares e não para de crescer, inclusive no Brasil.
- Pesquisa americana sobre influenciadores (2019) — Citada por André: 54% dos americanos de 13 a 38 anos se tornariam um influenciador se tivessem chance, e 12% já se consideravam um.
- Estudo da Bloomberg sobre jornada de trabalho — Mencionado por Lucas: em países como Reino Unido, Canadá e EUA, as jornadas de trabalho aumentaram em média 2,5 horas por dia desde o início da pandemia.
- Estudo da McKinsey sobre trabalho híbrido — Citado por Lucas: a grande maioria prefere um modelo híbrido, mas 47% dos entrevistados estão mais ansiosos porque as empresas não deixaram claro como será esse modelo pós-pandemia.
- Estudo do PNAD com FGV sobre home office — Citado por Lucas: mostra a desigualdade no acesso ao trabalho remoto no Brasil - cerca de 30% da classe AB pode alterar o local de trabalho, contra 10% da classe C e 7,5% das classes D/E.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução à crise do trabalho no Brasil e no mundo — André e Lucas apresentam o episódio, contextualizando a alta taxa de desemprego no Brasil e o fenômeno global da “grande renúncia”. Criticam as visões utópicas e futuristas sobre o trabalho que ignoram a realidade concreta da população. Anunciam que vão discutir o relatório “Sentidos do Trabalho” desenvolvido pela Float.
- 00:03:47 — A sociedade do cansaço compulsivo e a indústria do bem-estar — Lucas introduz o tema do cansaço compulsivo, citando Byung-Chul Han e a ideia de que a tecnologia multitarefa produz exaustão. André complementa discutindo o paradoxo da indústria do bem-estar, que movimenta trilhões mas muitas vezes serve para lembrar que ninguém está bem. Criticam o “bem-estar corporativo” como uma forma de positividade tóxica institucionalizada que administra, mas não resolve, o sofrimento.
- 00:09:28 — O cansaço como marcador identitário e a glorificação da ocupação — Lucas questiona se o cansaço se tornou um marcador identitário, citando o movimento “Stop the glorification of busy” e a frase de Sócrates sobre “o vazio de uma vida ocupada”. Discutem como a pressa e a indisponibilidade são vistas como sinais de importância e vivacidade, criando um ciclo onde estar ocupado é sinônimo de ser produtivo.
- 00:15:08 — Criadores de conteúdo como arquétipo do cansaço contemporâneo — André analisa os criadores de conteúdo/influenciadores como um arquétipo sintomático do nosso tempo. Comenta dados sobre a aspiração de ser influenciador e como essa carreira, aparentemente divertida, opera sob a lógica de um algoritmo que penaliza o silêncio. Os criadores vivem em um ciclo de ansiedade e produção constante, microcosmo de uma dinâmica social mais ampla.
- 00:20:09 — A transição para o trabalho remoto e a perda da conexão humana — É reproduzida uma fala da Lelys, da GRID, sobre os desafios da transição para o trabalho remoto. Ela alerta que replicar um modelo já cansativo no formato online piora as coisas, destacando a perda dos momentos espontâneos de conexão humana (como o cafezinho) e como a comunicação ficou restrita a demandas de trabalho, aumentando o risco de burnout.
- 00:22:09 — Do home office ao hell office: a realidade do trabalho remoto — Lucas discute como o sonho do home office virou o pesadelo do “hell office” para muitos, com jornadas de trabalho aumentando em média 2,5 horas por dia em alguns países. Aborda as reuniões encavaladas, a gestão interminável do WhatsApp, o esgotamento no Zoom e o impacto especialmente perverso sobre as mulheres com a jornada tripla.
- 00:27:05 — Limitações humanas e a metáfora errada do cérebro-computador — André critica a metáfora do cérebro como uma máquina ou computador, citando o livro “Extended Mind” de Annie Murphy Paul. Argumenta que o cérebro precisa de pausas, movimento e diferentes ambientes. A pandemia cristalizou uma visão descorporificada do trabalho, ignorando que somos corpos e que as dinâmicas espaciais afetam as psíquicas.
- 00:33:07 — A fantasia do nômade digital e as desigualdades do trabalho remoto — Lucas desmonta a fantasia do nômade digital, mostrando como ela se tornou “ansiedade em qualquer lugar”. Apresenta dados que revelam a enorme desigualdade no acesso ao home office no Brasil: apenas uma pequena parcela das classes AB pode adotar esse modelo, enquanto é inacessível para a maioria dos trabalhadores de classes CDE e para profissões manuais.
- 00:36:05 — Crise de sentido: excesso de expectativas no trabalho — Os apresentadores questionam a crise de sentido no trabalho. Lucas cita Esther Perel sobre como hoje depositamos expectativas excessivas no trabalho (pertencimento, identidade, crescimento). André argumenta que precisamos de fontes diversificadas de significado (arte, natureza, comunidade) e que depositar tudo no trabalho é uma estratégia totalitária que leva ao esgotamento.
- 00:39:29 — Desejo vs. Gozo: repensando nossa relação com o trabalho — André propõe uma reflexão sobre a dinâmica entre desejo (que se move por uma falta) e gozo (que acolhe um excesso repetitivo). No ritmo acelerado do trabalho contemporâneo, dominado pelo “império do gozo” com suas recompensas dopamínicas curtas, não sobra espaço para a formulação do desejo e para a pergunta fundamental “o que eu quero?“.
- 00:43:01 — Conclusão: dar novos contornos ao trabalho na vida — Os apresentadores concluem que é hora de questionar e dar novos contornos ao trabalho. A paixão pelo trabalho não precisa ser cega ou monogâmica. Propõem uma mudança de perspectiva: de “eu sou o que eu faço” para “o que eu faço é uma parte de quem eu sou”. O trabalho não deve ser a única fonte de sobrevivência (que se torna mortífera) nem o sentido absoluto da existência.
Dados do Episódio
- Podcast: vibes em análise
- Autor: floatvibes
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2021-08-24T16:57:17Z
- Duração: 00:44:47
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/90f830c0-f4cb-0139-d4ee-0acc26574db2/episode/85c999ff-9fff-4c3f-8c42-4f62a76ef659/
- UUID Episódio: 85c999ff-9fff-4c3f-8c42-4f62a76ef659
Dados do Podcast
- Nome: vibes em análise
- Tipo: episodic
- Site: https://vibes-em-analise.zencast.website
- UUID: 90f830c0-f4cb-0139-d4ee-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Bom, para começar, é bom lembrar que enquanto muitos de nós estamos sobrecarregados no trabalho,
[00:00:05] outros tantos de nós estamos sem trabalho.
[00:00:09] Esse ano o Brasil passou de 22º para 14º lugar no ranking mundial de países
[00:00:13] com a maior taxa de desemprego, segundo dados do FMI.
[00:00:17] E pelo IBGE, são quase 15 milhões de desempregados e 6 milhões de desalentados,
[00:00:23] aqueles que simplesmente já desistiram de buscar vagas.
[00:00:25] Ao mesmo tempo, várias pesquisas no Brasil e no mundo mostram que milhões de pessoas
[00:00:31] querem trocar de emprego por causa da pandemia.
[00:00:34] A grande renúncia, como alguns veículos vêm chamando.
[00:00:38] Parece que as relações e as condições de trabalho não estão indo muito bem no nosso tempo.
[00:00:43] Mas grande parte do mercado da cultura vão insistir em idealizar o futuro do trabalho.
[00:00:50] Mas quem consegue enxergar futuro quando o presente está tão soterrado?
[00:00:55] Pois é, essas previsões sobre o futuro do trabalho costumam ser altamente otimistas,
[00:01:00] focar muitas vezes em vender a potência dos avanços tecnológicos,
[00:01:04] o milagre da automação, do trabalho remoto,
[00:01:07] e às vezes apostam em visões utópicas demais,
[00:01:10] que beiram a ficção científica e não correspondem à realidade da população.
[00:01:15] Até porque também costumam excluir muitas profissões desse olhar,
[00:01:19] e não olham com profundidade para a subjetividade dessas transformações
[00:01:23] na economia.
[00:01:25] Na sociedade e no sujeito.
[00:01:27] Bom, vamos lá que hoje vai dar bastante trabalho.
[00:01:31] Eu sou o André Alves, escritor, pesquisador e psicanalista.
[00:01:34] E eu sou o Lucas Littke, também psicanalista e pesquisador de cultura e comportamento.
[00:01:38] E esse é o primeiro episódio do Vibes em Análise, podcast da Float.
[00:01:42] Pra quem não nos conhece, muito prazer.
[00:01:45] O Lucas e eu, a gente faz o arroba Float Vibes no Instagram,
[00:01:50] onde a gente conta um pouco dos fenômenos culturais e comportamentais
[00:01:53] que a gente vem descobrindo.
[00:01:55] Nos nossos estudos e até escutando um pouco na clínica.
[00:01:58] Vocês sabem que a gente gosta de compartilhar as fontes,
[00:02:01] então não se preocupem que os links, as referências que a gente citar
[00:02:03] vão estar aqui na descrição do episódio.
[00:02:25] Bom, então vamos lá que entrando no tema,
[00:02:28] a gente tá chamando esse episódio de Sentidos do Trabalho.
[00:02:33] Acho que é legal a gente falar,
[00:02:35] a gente tá lançando um relatório bem amplo sobre esse tema,
[00:02:39] falando de várias vibes sobre as relações, as condições, as ambições
[00:02:45] e os sentidos do trabalho com base nas pesquisas que a gente tem feito aqui na Float.
[00:02:50] O reporte completo e todo o conteúdo sobre relações de trabalho,
[00:02:54] sobre relações de trabalho, sobre relações de trabalho, sobre relações de trabalho,
[00:02:55] tá disponível no site da Float, que é ufloat.co, vai estar na descrição também.
[00:03:01] E hoje a gente separou algumas dessas vibes pra discutir e pra elaborar por aqui.
[00:03:06] Lucas, começando aqui a nossa análise,
[00:03:09] quando a gente fala em trabalho, o que te vem à mente?
[00:03:12] Bom, a minha percepção, e eu sei que você compartilha dessa visão, André,
[00:03:16] é de que mesmo com todas as crises que a gente tá vivendo,
[00:03:20] e talvez até por causa delas,
[00:03:21] o trabalho parece hoje menos idealizado.
[00:03:24] Menos aquela discussão de propósito que tomou conta da cultura de massa uns 10 anos atrás.
[00:03:30] Parece que hoje o trabalho virou um assunto mais real,
[00:03:33] a discussão ficou mais real e mais séria, menos romantizada.
[00:03:36] O que nos leva a cultuar o trabalho talvez de uma outra forma.
[00:03:40] Nem pior, nem melhor, mas de outra forma.
[00:03:42] A primeira coisa que me vem à cabeça ao falar e pensar em trabalho, sem dúvida, é o cansaço.
[00:03:47] É algo que tá vibrando aí há tempos e que não dá pra deixar de lado,
[00:03:52] que é uma espécie de cansaço compulsivo.
[00:03:54] Essa compulsão pelo cansaço, é quase como se você não tá sentindo que tá num moedor de carne,
[00:04:01] será que você tá trabalhando direito?
[00:04:03] Rola um pouco essa dúvida.
[00:04:04] O mais famoso ensaio do filósofo Byung-Chul Han,
[00:04:09] A Sociedade do Cansaço, do Burnout Society, já completou 10 anos,
[00:04:13] e ainda é o texto que de muitas formas melhor batizou o tempo que a gente vive.
[00:04:17] É muito interessante porque ele discute muito bem como a tecnologia multitarefa,
[00:04:21] teoricamente amigável, e a cultura da conveniência,
[00:04:24] produzem sintomas de exaustão no mundo contemporâneo.
[00:04:27] A gente pode pensar que a tecnologia possibilita uma espécie de terceirização cognitiva,
[00:04:33] mas que não necessariamente faz a gente relaxar e descansar mais.
[00:04:37] O neurologista Leonardo Telles falou pra uma matéria da Gama esses dias algo muito interessante.
[00:04:44] Ele diz assim,
[00:04:45] Esse bombardeio de informação e de aparatos tecnológicos tem provocado um adoecimento coletivo.
[00:04:50] Pessoas cada vez mais ansiosas, com insônia, depressão,
[00:04:53] e a gente tem que entender que o cérebro é um órgão limitado.
[00:04:58] Venderam pra gente essa história de que o cérebro não tem limite,
[00:05:01] ou que a gente só usa 10% da sua capacidade.
[00:05:04] Tudo isso é mentira, não é comprovado cientificamente.
[00:05:06] É o que ele diz.
[00:05:07] Até é bom ouvir um especialista científico de vez em quando,
[00:05:11] porque nessa onda que a gente vive, é como se a ideia de burnout fosse se tornando um significante
[00:05:21] com significados tão acumulados, tão inflados.
[00:05:23] …com significados tão acumulados, tão inflados.
[00:05:23] …com significados tão acumulados, tão inflados.
[00:05:23] quase que nem a gente fala de depressão,
[00:05:26] que virou um termo que tenta dar conta de muitas formas de sofrimento da atualidade.
[00:05:30] Como se o burnout em si tivesse virado um produto cultural, um meme até.
[00:05:36] Esse mantra do perigo do burnout ficou tão cansativo quanto o próprio burnout em si,
[00:05:42] nos colocando sempre num estado de alerta, mas e aí, até onde eu consigo ir?
[00:05:46] Se o limite não vem de fora, eu preciso descobrir esse limite aqui dentro.
[00:05:49] E aí a gente vem sendo tomado também pelas fórmulas do anti-cansaço.
[00:05:55] Se medicando com o que o setor farmacêutico nos oferece,
[00:05:58] lidando com várias soluções, às vezes meio duvidosas, da indústria do bem-estar.
[00:06:03] André, você como grande estudioso da indústria do bem-estar, tem algo a acrescentar aí?
[00:06:08] Nossa, tô fora que eu vou encarar esse título.
[00:06:12] Mas é interessante, né?
[00:06:15] Várias coisas que você falou que eu acho que são legais de comentar,
[00:06:17] mas o paradoxo do bem-estar, pra mim, começa nesse lugar de que, de repente,
[00:06:24] são tantos passos pra se sentir bem que você se vê estressado ou estressada por tentar se desestressar.
[00:06:32] Os quantos passos de skincare uma pessoa é capaz de fazer todos os dias,
[00:06:37] mais a meditação, mais o suco, mais exercício físico,
[00:06:40] quando a gente obviamente tá falando de um certo nível de privilégio, né?
[00:06:43] Mas nunca vou esquecer o que uma entrevistada em um dos projetos da Float disse pra nós,
[00:06:47] que, pra ela, bem-estar significava uma indústria que existe pra nos lembrar de que ninguém tá bem.
[00:06:53] E é uma indústria que, no caso, movimenta 1,5 trilhões de dólares, segundo a McKinsey,
[00:06:58] e não para de crescer, inclusive no Brasil.
[00:07:01] E eu acho interessante a gente pensar que as empresas também foram incorporando práticas de bem-estar ao longo do tempo.
[00:07:09] O colaborador pode meditar, tomar suco verde no bar de smoothies, fazer terapia, usar floral.
[00:07:17] Mas, assim, parar de trabalhar ninguém para, né? Diminui o ritmo muito menos.
[00:07:24] E tem uma fala aparecendo com um pouco mais de frequência,
[00:07:28] que é essa de que o bem-estar corporativo mostra pra gente que essa positividade tóxica
[00:07:35] foi meio que sendo institucionalizada.
[00:07:38] Do que que tudo isso deriva?
[00:07:40] Acho que, aí pegando o gancho do Han, né, do Byung-Chul Han,
[00:07:45] essa sociedade paliativa, que é um dos livros mais interessantes dele, na minha opinião,
[00:07:53] que é essa sociedade que, no lugar de tentar solucionar as fontes de sofrimento em excesso,
[00:08:00] vai criar formas muito eficientes de administrar esse sofrimento.
[00:08:05] Aí o Dunker, o Safatle, muita gente muito interessante,
[00:08:10] vai falar de como o sofrimento acaba virando um recurso ou um gatilho para aumentar a produtividade.
[00:08:15] Manda 20% do departamento ir embora, porque quem ficar vai trabalhar mais dedicado ou com mais medo.
[00:08:22] Sim.
[00:08:22] E aí, fazendo outro gancho do Han ainda, o que ele vai falar muito bem no Psicopolítica
[00:08:28] é que, se nos anos 80 ou nos anos 90, o lobo de Wall Street fazia isso com uma postura abertamente violenta,
[00:08:38] nos anos 20, o CEO da startup faz isso com um sorriso no rosto.
[00:08:43] É uma postura predatória.
[00:08:45] Predatória com um discurso positivo e até inclusivo.
[00:08:50] E aí, no final das contas, esse bem-estar corporativo acaba entrando numa lógica
[00:08:56] de que, nossa, você está sofrendo? Mas como assim? Eu fiz tudo para você se sentir bem.
[00:09:02] Te dei até uma sala de soneca.
[00:09:04] É entregadora, eu te dei até uma bag muito bonita.
[00:09:07] Quer dizer, eu te fiz pagar por ela, mas isso é mero detalhe, ela é muito descolada.
[00:09:12] Então, é uma batida que, se a gente não tomar muito cuidado,
[00:09:15] os departamentos de recursos humanos vão acabar se tornando áreas de gestão de distúrbios humanos.
[00:09:22] Sim, eu acho que um grande ponto dessa discussão sobre o cansaço compulsivo
[00:09:28] é, será que a gente não está se apegando a esse cansaço como um marcador identitário?
[00:09:34] E o quanto isso nos faz bem?
[00:09:35] Eu gosto muito daquele movimento tão antigo, já que dizia
[00:09:38] Stop the glorification of busy.
[00:09:40] Ou como Sócrates, mais antigamente, ainda dizia
[00:09:43] Cuidado com o vazio de uma vida ocupada.
[00:09:45] Que é esse lugar muito fálico da indisponibilidade, da pressa,
[00:09:50] de que eu tenho muita coisa para fazer, muita mensagem para responder,
[00:09:53] muita gente me procurando, com demandas, pessoas querendo coisas de mim.
[00:09:58] Todas as cobranças de quem está conectado integralmente com a vida moderna,
[00:10:02] desfrutando do máximo que a tecnologia pode nos oferecer.
[00:10:05] Tem que ser essa vida corrida e agitada, senão é como se a gente não estivesse vivendo direito.
[00:10:09] E se a gente está calmo e devagar, será que a gente está triste ou com depressão?
[00:10:14] Não é?
[00:10:15] E é verdade, tudo é verdade.
[00:10:18] É tudo verdade isso.
[00:10:19] Mas o quanto será que a gente não está gozando nesse lugar?
[00:10:21] Reclamando, se queixando, porém gostando de alguma forma.
[00:10:25] Eu adoro um psicólogo existencialista que se chama Rollo May, e ele fala o seguinte
[00:10:30] Há pessoas que obtêm um pseudo e temporário senso de vivacidade ao correr de um lado para o outro,
[00:10:37] como se estivessem realizando algo, como se o fato de estarem ocupadas e se movimentando
[00:10:41] fosse uma prova da sua importância.
[00:10:43] Mas que cansaço, né?
[00:10:46] Ser produtivo, então, é estar sempre ocupado.
[00:10:49] É sobre resolver pseudo-urgências e muitas vezes deixar projetos importantes parados
[00:10:54] porque não vai dar tempo, porque não tem tempo.
[00:10:58] Então, é inegável que a gente vive uma crise financeira, social, terrível, há uns bons anos no Brasil.
[00:11:06] E que a pandemia só agravou isso para boa parte da população.
[00:11:09] Mas independente da realidade material de cada um,
[00:11:12] a gente vive uma crise financeira, social, terrível, há uns bons anos no Brasil.
[00:11:12] Mas independente da realidade material de cada um,
[00:11:12] a gente vive uma crise financeira, social, terrível, há uns bons anos no Brasil.
[00:11:13] A gente tem que se questionar também o que acontece pelo viés subjetivo, psicológico,
[00:11:18] quando a gente pensa sobre esses ideais aí de onipotência, de onipresença, de onisciência,
[00:11:24] que eu preciso dar conta de tudo, saber de tudo, não perder nada, nenhuma oportunidade.
[00:11:29] Está tudo na minha mão, né?
[00:11:29] Como dizem os mestres do coaching, se você perder o ônibus, seja o seu próprio ônibus.
[00:11:36] Que absurdo!
[00:11:38] Só que isso é um veneno para a nossa cabeça, né?
[00:11:40] Faz muito mal, assim.
[00:11:41] Tem um aspecto muito cruel da forma como o sistema…
[00:11:43] O sistema capitalista e corporativo operam, que é que a máquina não pode parar.
[00:11:48] Então, se você está cansado, se você está mal, está passando por um luto,
[00:11:51] se está com transtorno de ansiedade, com síndrome do pânico,
[00:11:54] a saída vai ser trocar essa engrenagem.
[00:11:56] Ou seja, trocar você.
[00:11:58] Pelo menos enquanto a medicação não está fazendo efeito.
[00:12:01] Ou essa lógica que você falou, de estar cansado.
[00:12:03] Então, você precisa meditar mais.
[00:12:05] Esse mindfulness corporativo, que a gente tem que olhar com atenção também.
[00:12:09] Porque é só olhar para essas cabines de descanso da Amazon, né?
[00:12:13] Amazon.
[00:12:13] Eles chamam.
[00:12:15] Para ver que tem uma coisa meio errada nessa cena.
[00:12:17] Isso é o melhor de positividade?
[00:12:18] Espera aí, como é que é?
[00:12:20] Amazém?
[00:12:21] É, são umas cabines de descanso para os funcionários meditarem no meio do caos.
[00:12:26] Como uma entrega de positividade.
[00:12:27] Só que isso é o melhor que a gente pode fazer?
[00:12:40] Não tem como a gente não fundar uma sociedade…
[00:12:43] Uma sociedade depressiva, quando tem dois mecanismos fundamentais em jogo, né?
[00:12:49] Que é esse império da felicidade, ou do gozo.
[00:12:52] E esse sujeito performático narcísico.
[00:12:56] Não tem com essa receita como dar certo.
[00:12:58] E aí, o livro do Dunker, Depressão, uma biografia,
[00:13:03] acho que é muito didático em mostrar como o aumento dessa depressão como diagnóstico,
[00:13:08] a medicalização, vai andando paralelamente ao avanço,
[00:13:13] do experimento neoliberal.
[00:13:15] Estamos falando aí de anos 70, né?
[00:13:18] E aí, do que a gente está falando?
[00:13:20] De, como você muito bem disse, dessa máquina de moer gente,
[00:13:25] mas também de deixar a gente deprimida, ansiosa, irritada, violenta, compulsiva.
[00:13:31] E aí, como é que a sociedade paliativa lida com tudo isso?
[00:13:35] Anestesia.
[00:13:37] Chapa.
[00:13:37] Chapa a mente.
[00:13:39] Chapa o ego com beleza, moda.
[00:13:43] E essas indústrias…
[00:13:43] E essas indústrias…
[00:13:43] E essas indústrias…
[00:13:43] E essas indústrias…
[00:13:43] E essas indústrias relacionadas a Narciso.
[00:13:46] Chapa a subjetividade com a indústria do entretenimento.
[00:13:51] E é disso que, quando a gente entrevista um adolescente,
[00:13:56] ele está falando, quando nos diz que gosta de pegar um intervalo de 30 minutos
[00:14:02] e assistir 30 vídeos de um minuto cada.
[00:14:05] É maratona de microalívio.
[00:14:07] E aí, joga nisso e-mail, séries, jogos, enfim.
[00:14:12] E aí…
[00:14:13] E aí…
[00:14:13] E aí vai tentando se convencer de que está tudo bem.
[00:14:16] Só que é um sistema tão rápido, como você estava falando,
[00:14:20] que até isso vai virando negócio.
[00:14:23] E aí eu vou criando novos slogans.
[00:14:26] Tudo bem não estar tudo bem.
[00:14:28] E aí, até isso vira um gatilho de consumo.
[00:14:31] Até isso vira um gatilho de fingir que a gente vai conseguir descansar e se recuperar,
[00:14:38] sem nunca discutir quais são as fontes.
[00:14:39] Eu acho que, até assim, pensando no relatório,
[00:14:42] aqui a gente está fazendo um recorte, mas no relatório que a gente montou,
[00:14:46] a gente desenhou alguns arquétipos também para cada uma das vibes.
[00:14:49] E para essa, do cansaço compulsivo, eu acho que nada resume melhor
[00:14:54] esse imperativo de que não dá para parar, do que um arquétipo muito atual,
[00:14:58] que eu vou pedir para o André falar a respeito, porque ele adora arquétipos,
[00:15:01] que é um perfil que tem tudo a ver com o cansaço compulsivo,
[00:15:03] que são os creators, ou seja, os influenciadores, criadores de conteúdo.
[00:15:08] E de como eles não aguentam mais produzir sem parar
[00:15:10] para um algoritmo que ninguém sabe.
[00:15:12] Você sabe que eu acho que criadores de conteúdo
[00:15:17] são um sintoma de tudo isso que a gente está discutindo.
[00:15:20] Muita gente quer ser criador ou criadora.
[00:15:23] O aspiracional está dado.
[00:15:25] Tem um dado muito bom de 2019 que mapeou que 54% dos americanos
[00:15:31] de 13 a 38 anos se tornariam, se tiverem chance,
[00:15:35] um influenciador nas mídias sociais.
[00:15:37] 54.
[00:15:39] Metade dessa faixa etária é bem ampla.
[00:15:41] E 12%.
[00:15:42] E 12% afirmava que já era um influenciador.
[00:15:47] Claro que o Brasil não é os Estados Unidos,
[00:15:49] mas como a Fabiana Moraes escreveu muito bem no Intercept mais cedo esse ano,
[00:15:55] histórias como a do Whindersson, do Carlinhos Maia,
[00:15:58] vão se solidificando como uma forma ou um sonho
[00:16:01] de ascensão social muito grande no Brasil.
[00:16:04] Resumindo, o arquétipo está posto.
[00:16:06] E por isso que eu defendo a ideia do criador
[00:16:08] como um arquétipo muito do tempo que a gente está vivendo.
[00:16:13] Mas a gente sabe que os criadores também não estão muito bem.
[00:16:18] Os números relacionados à exaustão, cansaço, depressão deles
[00:16:23] também são números que não param de crescer.
[00:16:27] A ansiedade e o desespero dessas grandes estrelas das redes sociais
[00:16:31] é um microcosmos do que já está ou possivelmente vai acontecer com muitos de nós.
[00:16:36] Porque se a gente parar para analisar, os criadores seguem lá.
[00:16:40] Empolgados, esforçados, meditando.
[00:16:42] Até fazendo terapia para tentar entender
[00:16:45] o que é o sentido da vida nessa vida entre posts,
[00:16:52] entre hits e entre flops.
[00:16:55] E eu acho que é um ciclo muito difícil.
[00:16:57] Porque é um ciclo que promete ser muito divertido.
[00:17:01] Vai ser tudo regado a stickers, emojis, gifs.
[00:17:04] Vai ser tudo muito animado.
[00:17:05] Os efeitos vão ser ótimos.
[00:17:06] Os filtros são muito engraçados.
[00:17:08] Mas, como você introduziu muito bem,
[00:17:10] está todo mundo trabalhando para um algoritmo
[00:17:12] que penaliza o silêncio.
[00:17:15] E aí, é claro que a cultura vai entrar nessa
[00:17:17] pegada altamente histérica
[00:17:21] na qual desacelerar a produção
[00:17:24] significa correr o risco de desaparecer.
[00:17:27] E se tem uma coisa que está clara no mundo que a gente está vivendo
[00:17:30] é que ninguém pode desaparecer, assim como ninguém pode parar.
[00:17:33] Sim.
[00:17:34] Acho interessante puxar isso que você falou também
[00:17:35] da questão do narcisismo, né?
[00:17:37] Que combina muito com esse arquétipo.
[00:17:39] Porque, claro que o imperativo vem de fora,
[00:17:42] vem do algoritmo,
[00:17:42] vem dos seguidores, do que for, assim,
[00:17:46] do dinheiro que isso movimenta,
[00:17:47] mas também vem de dentro, né?
[00:17:49] Porque também entra num ritmo que pode ser compulsivo,
[00:17:52] de otimização e de performance,
[00:17:54] como se o sujeito se perguntasse o tempo todo
[00:17:56] será que eu já estou em chamas?
[00:17:58] Será que eu já estou pegando fogo?
[00:18:00] Ou falta pouco?
[00:18:01] Ou eu tenho que gostar desse calor todo?
[00:18:04] E aí eu queria citar uma frase do meu colega de podcast,
[00:18:06] André Alves,
[00:18:08] para ele comentar a respeito, que é
[00:18:09] narciso pode ter se afogado no lago,
[00:18:12] mas não é o mesmo.
[00:18:12] Mas no burnout, o sujeito arde
[00:18:14] nas chamas da pulsão de morte
[00:18:16] e nas labaredas do inferno do eu.
[00:18:19] André, comenta essa imagem, por favor.
[00:18:21] Nem eu sei o que eu queria dizer
[00:18:22] quando eu escrevi essa frase.
[00:18:25] Mas o mito do narciso original
[00:18:28] é esse mito em que
[00:18:30] narciso se olha tanto no reflexo
[00:18:32] na superfície do lago
[00:18:34] que acaba se apaixonando,
[00:18:35] o narciso era muito bonito,
[00:18:37] cai ali dentro, morre afogado,
[00:18:38] fim da história, uma das histórias mais tristes já contadas.
[00:18:41] Mas eu sempre costumo
[00:18:42] defender o narcisismo.
[00:18:44] O sujeito precisa de narcisismo para poder se constituir.
[00:18:47] Sem narcisismo, não tem psique.
[00:18:49] Mas eu também acho muito curioso
[00:18:52] que esse significante que você estava puxando
[00:18:54] do burnout é sobre
[00:18:55] queimar.
[00:18:57] Essa temperatura muito alta,
[00:18:59] super excitante,
[00:19:00] um ritmo acima do que a gente consegue tolerar.
[00:19:03] Só que eu também acho
[00:19:05] que isso está ligado com
[00:19:07] essa cultura narcísica da qual a gente estava falando,
[00:19:10] porque no final das contas
[00:19:12] fica todo mundo com medo.
[00:19:12] Fica todo mundo meio preso nessa libido de ego.
[00:19:15] Fica ali, alimentando
[00:19:16] o próprio perfil,
[00:19:18] alimentando a própria imagem
[00:19:19] ou o próprio ideal
[00:19:21] de si mesmo.
[00:19:23] Só que é um ciclo meio mortífero,
[00:19:25] porque a gente não consegue sair
[00:19:28] desse ciclo.
[00:19:29] Enquanto a gente está distraindo com tudo isso,
[00:19:32] o sistema continua operando numa velocidade
[00:19:33] que é insuportável para todo mundo.
[00:19:37] Antes da gente passar
[00:19:38] para a próxima vibe,
[00:19:39] eu queria abrir um espaço para a gente escutar
[00:19:41] a Lelys. Ela é fundadora
[00:19:43] da GRID, que é um estúdio de RH que pensa
[00:19:45] soluções criativas para pessoas
[00:19:47] e para culturas. E a gente pediu
[00:19:49] para ela comentar um pouco sobre como
[00:19:52] ela e o time dela têm
[00:19:53] identificado esses novos sentidos do trabalho
[00:19:56] nas empresas e o que
[00:19:57] dá para fazer diante de desafios
[00:20:00] tão grandes. Porque, claro que
[00:20:01] tudo isso que a gente está discutindo é muito
[00:20:03] complexo e não vai se desmontar da noite
[00:20:05] para o dia.
[00:20:09] Acho
[00:20:09] que tem um lugar da transição
[00:20:11] do trabalho
[00:20:13] presencial para o remoto,
[00:20:15] para os negócios que conseguiram fazer essa
[00:20:17] transição, que muitas
[00:20:19] vezes não era simplesmente pegar
[00:20:21] um formato de
[00:20:23] trabalho que já estava sendo questionado,
[00:20:25] que a gente já estava super cansado,
[00:20:27] que não estava mais fazendo muito sentido
[00:20:29] e simplesmente replicar ele
[00:20:31] num formato remoto,
[00:20:33] sem pensar em como que a cultura
[00:20:35] vai se criar nesse formato,
[00:20:37] quais vão ser os processos,
[00:20:39] porque é diferente, é outra dinâmica.
[00:20:41] E eu acho que a gente está trabalhando na real
[00:20:43] muito mais do que a gente trabalhava antes
[00:20:45] e perdendo
[00:20:47] também a questão da conexão
[00:20:49] humana, porque
[00:20:51] no físico a gente tinha esses
[00:20:53] símbolos de espontaneidade,
[00:20:55] de naturalidade, que era
[00:20:57] tomar um cafezinho para fofocar,
[00:20:59] para falar da vida,
[00:21:01] o almoço de todo mundo,
[00:21:03] as reuniões onde a gente se
[00:21:05] via, se
[00:21:07] tinha espaço para isso. E hoje
[00:21:09] a gente é um e-mail, a gente é
[00:21:11] um chat no Hangout
[00:21:13] e a gente
[00:21:15] só fala de trabalho, a gente
[00:21:17] às vezes nem pergunta se a pessoa está bem,
[00:21:19] a gente só chega passando uma
[00:21:21] demanda ou cobrando ou
[00:21:23] sabe, está muito num automático
[00:21:25] assim. E se a gente não tem
[00:21:27] esse espaço para subjetividade,
[00:21:29] a gente também não
[00:21:31] consegue ter uma expressão
[00:21:33] genuína das pessoas ali, porque
[00:21:35] acho que esse espaço da gente falar como a gente está,
[00:21:37] da gente
[00:21:39] ser vulnerável,
[00:21:41] da gente conseguir ser
[00:21:43] quem a gente tem que ser,
[00:21:45] ele tem que ser aberto, porque se a gente
[00:21:47] ficar só no trabalho, vai ser cada vez
[00:21:49] mais burnout, vai ser cada vez
[00:21:51] mais exaustão e a gente
[00:21:53] nunca vai sair desse loop.
[00:21:57] Eu acho muito legal isso que a Lelis falou,
[00:21:59] porque se conecta
[00:22:01] muito com a vibe que a gente queria
[00:22:03] puxar, que
[00:22:05] a gente vem chamando carinhosamente
[00:22:07] de mais um dia de Hell Office.
[00:22:09] Eu acho que o trabalho remoto é um dos
[00:22:11] temas centrais das relações de trabalho nos anos
[00:22:13] 20. Esse assunto
[00:22:15] ficou acho que ainda mais importante
[00:22:17] depois da pandemia, porque
[00:22:19] a pandemia foi e é esse
[00:22:21] grande portal que transformou
[00:22:23] o sonho de muita gente de trabalhar
[00:22:25] de casa ou o sonho do home office
[00:22:27] no pesadelo do Hell Office.
[00:22:29] Isso está muito ligado a
[00:22:31] a expectativa era trabalhar
[00:22:33] de casa e ter uma vida um pouco mais
[00:22:35] equilibrada e relaxada.
[00:22:37] A realidade de muitas pessoas
[00:22:39] que têm esse privilégio de poder trabalhar
[00:22:41] de casa acabou se tornando
[00:22:43] trabalhar o tempo todo.
[00:22:45] E aí tem muitos estudos recentes
[00:22:47] que vão mostrar como
[00:22:49] desde o começo da pandemia as jornadas
[00:22:51] de trabalho aumentaram muito.
[00:22:53] A Bloomberg, por exemplo, publicou
[00:22:55] um dado recente de que
[00:22:57] em países como Reino Unido,
[00:22:59] Canadá, Estados Unidos,
[00:23:01] que são teoricamente países mais
[00:23:03] desenvolvidos, as jornadas
[00:23:05] de trabalho chegaram a crescer
[00:23:07] em média 2,5 horas
[00:23:09] a mais todos os dias.
[00:23:11] E a gente sabe qual que é a realidade
[00:23:13] disso. A gente escuta muito isso
[00:23:15] na clínica, inclusive, que são
[00:23:17] as reuniões encavaladas, uma
[00:23:19] gestão interminável do WhatsApp,
[00:23:21] crise de choro com a câmera
[00:23:23] desligada porque não aguenta mais ficar
[00:23:25] olhando para outras pessoas do trabalho
[00:23:27] no Zoom, sem falar
[00:23:29] na jornada tripla das mulheres,
[00:23:31] que é talvez uma das coisas mais
[00:23:33] perversas de tudo isso que a gente vem
[00:23:35] vivendo. E é
[00:23:37] um pouco
[00:23:39] impressionante, eu diria até
[00:23:41] um pouco assustador a gente pensar
[00:23:43] que isso se torne,
[00:23:45] usando o termo que a gente detesta,
[00:23:47] o novo normal do trabalho. E aí eu te faço
[00:23:49] uma pergunta, Lucas Littke.
[00:23:51] Quem consegue
[00:23:53] trabalhar ou manter esse ritmo
[00:23:55] de trabalho, por exemplo, por mais
[00:23:57] cinco ou dez anos?
[00:23:59] Pois é, sobre essa realidade do trabalho remoto,
[00:24:01] tem uma promessa, assim, meio de
[00:24:03] reuniões em realidade virtual, de hologramas,
[00:24:05] mas, assim, o que a gente tem é o Zoom.
[00:24:07] A gente tem
[00:24:09] mostrado essas ferramentas, basicamente,
[00:24:11] e nem todo mundo tem as melhores ferramentas.
[00:24:13] São ferramentas que
[00:24:15] supostamente nos ajudam a trabalhar,
[00:24:17] mas também são ferramentas que nos distraem muito,
[00:24:19] nos cansam muito,
[00:24:21] misturam demais as coisas, né?
[00:24:23] A monotarefa ficou algo tão escasso,
[00:24:25] quase um luxo, algo tão difícil de
[00:24:27] realizar.
[00:24:29] A gente tem ainda um contexto de
[00:24:31] empresas que autorizam o trabalho remoto
[00:24:33] e aquelas que incentivam essa modalidade
[00:24:35] e as que acham que os colaboradores,
[00:24:37] por trabalhar em casa, devem ganhar menos por isso.
[00:24:39] Então, tem uma certa
[00:24:41] glamorização do empacotamento
[00:24:43] do trabalho remoto
[00:24:45] que fica até meio nesse lugar
[00:24:47] parecido do faça o que ama
[00:24:49] e nunca se sentirá trabalhando, né?
[00:24:51] Como se você, por estar em casa,
[00:24:53] não vai estar trabalhando, não vai sentir que está trabalhando.
[00:24:55] O não se sentir
[00:24:57] que está trabalhando é um engodo,
[00:24:59] porque
[00:25:01] significa também que você vai se sentir
[00:25:03] sempre trabalhando
[00:25:05] e nunca vai sentir que parou.
[00:25:07] Esse é um paradoxo meio complicado
[00:25:09] quando a gente começa a misturar tanto
[00:25:11] a vida pessoal com a profissional.
[00:25:13] A gente trazer o trabalho para dentro de casa,
[00:25:15] colocar o trabalho para conviver junto com a família.
[00:25:17] E parece que a gente
[00:25:19] quer mesmo fazer isso, desde que isso
[00:25:21] não seja 100% impositivo.
[00:25:23] Tem um estudo mais recente da McKinsey
[00:25:25] que diz que entre o home office
[00:25:27] e o escritório, a grande maioria
[00:25:29] prefere um modelo híbrido.
[00:25:31] Só que esse híbrido também pode ser
[00:25:33] algo meio impermanente,
[00:25:35] esses lugares também que não tem muita
[00:25:37] pessoalidade, que é algo também
[00:25:39] que é importante para os espaços
[00:25:41] de trabalho, para esses lugares
[00:25:43] físicos. E as pessoas
[00:25:45] não sabem muito bem como que vai funcionar.
[00:25:47] Esse estudo fala que 47%
[00:25:49] dos entrevistados estão
[00:25:51] se sentindo mais ansiosos porque as empresas
[00:25:53] em que eles trabalham não deixaram
[00:25:55] muito claro ainda como que vai ser esse trabalho
[00:25:57] depois da pandemia, como que é
[00:25:59] esse modelo híbrido. E as pessoas que
[00:26:01] estão sofrendo com essa ansiedade
[00:26:03] têm três vezes mais
[00:26:05] chances de sentir algum sintoma
[00:26:07] de burnout, de esgotamento.
[00:26:09] Então, de qualquer
[00:26:11] forma, trabalhar em casa não significa que você
[00:26:13] não corre o risco de ficar saturado
[00:26:15] e cansado.
[00:26:17] É claro que tem mudanças
[00:26:19] muito legais acontecendo, acho que
[00:26:21] a questão até das viagens corporativas
[00:26:23] que se promete que vão diminuir radicalmente,
[00:26:25] todo o estresse
[00:26:27] de deslocamento para algo tão funcional
[00:26:29] que não faz tanto sentido,
[00:26:31] sem falar na poluição, tem estudos que falam que essas viagens
[00:26:33] vão cair em 35%.
[00:26:35] Então, ao mesmo tempo, fica um pouco a pergunta
[00:26:37] de até onde
[00:26:39] será que a gente sabe como separar
[00:26:41] a vida pessoal da profissional
[00:26:43] e como criar esses
[00:26:45] lugares, esses espaços para que
[00:26:47] as coisas não fiquem tão confusas
[00:26:49] na nossa cabeça. Acho interessante
[00:26:51] isso que você falou, porque tem muito a ver
[00:26:53] com questões espaciais,
[00:26:55] mas acho que também tem a ver com a gente
[00:26:57] reconhecer algumas das nossas próprias
[00:26:59] limitações. Ou até a gente
[00:27:01] trocar de metáfora.
[00:27:03] Eu acho
[00:27:05] que, como cultura, a gente é muito
[00:27:07] apaixonado por
[00:27:09] essa metáfora de que o cérebro
[00:27:11] é uma máquina, ou o cérebro
[00:27:13] é um computador muito poderoso,
[00:27:15] tão poderoso que nem usa a sua capacidade máxima.
[00:27:17] A gente já escutou isso muitas vezes,
[00:27:19] mas o cérebro não é
[00:27:21] um computador. O cérebro também
[00:27:23] não é um músculo que dá para você
[00:27:25] trabalhar ele à exaustão.
[00:27:27] E aí tem um livro
[00:27:29] que eu cruzei recentemente
[00:27:31] muito interessante,
[00:27:33] chamado Extended
[00:27:35] Mind, ou Mente Expandida,
[00:27:37] de uma jornalista chamada Annie
[00:27:39] Murphy Paul, em que ela faz um
[00:27:41] aprofundamento em muitos estudos
[00:27:43] cognitivos, e aí
[00:27:45] a conclusão de muitos desses estudos
[00:27:47] é que, óbvio, o cérebro
[00:27:49] funciona de uma forma muito diferente
[00:27:51] de um computador.
[00:27:53] Precisa de pausas muito mais
[00:27:55] do que um computador.
[00:27:57] Precisa de diferentes ambientes,
[00:27:59] precisa de movimento. Uma série
[00:28:01] de coisas que a gente não contempla
[00:28:03] ou não pensa muito. Uma coisa que me
[00:28:05] assusta um pouco nesse
[00:28:07] modelo híbrido de trabalho,
[00:28:09] que é muito
[00:28:11] herdeiro do que aconteceu
[00:28:13] para muitas pessoas durante a pandemia,
[00:28:15] é que a gente esquece, por
[00:28:17] exemplo, como
[00:28:19] a carga cognitiva
[00:28:21] de nos manter sentados
[00:28:23] e concentrados, sem estar
[00:28:25] andando, ou sem estar em pé, ou
[00:28:27] sem estar indo de um lugar para o outro, é muito
[00:28:29] grande. Porque
[00:28:31] biologicamente, os humanos
[00:28:33] são essas criaturas que
[00:28:35] são destinadas a se mover.
[00:28:37] Mas existe muito
[00:28:39] tempo, muita energia, uma
[00:28:41] estrutura social inteira e até muito
[00:28:43] dinheiro público investidos nessa
[00:28:45] tentativa de fazer a gente sentar quieto a maior
[00:28:47] parte do tempo.
[00:28:49] Qualquer pessoa que tem uma criança
[00:28:51] em casa e tentou fazê-la
[00:28:53] passar pelas aulas remotas
[00:28:55] sabe do que eu estou falando.
[00:28:57] Mas eu acho que a pandemia
[00:28:59] também ajudou a
[00:29:01] cristalizar um pouco mais
[00:29:03] essa imagem de
[00:29:05] que a gente é um cérebro
[00:29:07] em frente a uma tela.
[00:29:09] Tem essa pequena ou
[00:29:11] grande descorporificação
[00:29:13] do trabalho e dos sujeitos.
[00:29:15] E aí eu acho
[00:29:17] que esse é mais um dos dualismos
[00:29:19] que está em crise. Essa separação
[00:29:21] corpo e mente, razão e emoção,
[00:29:23] não faz muito
[00:29:25] sentido. E
[00:29:27] para o trabalho híbrido
[00:29:29] ou para qualquer nova forma de
[00:29:31] trabalho, ou velha forma de trabalho
[00:29:33] que a gente vai encarar,
[00:29:35] eu acho que não dá para a gente
[00:29:37] melhorar todo esse
[00:29:39] cenário que a gente está discutindo sem
[00:29:41] reconhecer que o cérebro humano tem limitações
[00:29:43] e que as pessoas não são máquinas.
[00:29:45] E acho que essa
[00:29:47] discussão inclusive está muito presente
[00:29:49] na clínica.
[00:29:51] Com certeza a clínica,
[00:29:53] falando aqui do meu lugar
[00:29:55] de fala,
[00:29:57] e que a gente escuta muito de colegas analistas
[00:29:59] de como esse um ano e meio
[00:30:01] de atendimentos virtuais
[00:30:03] tem
[00:30:05] suas grandes limitações,
[00:30:07] os seus cansaços,
[00:30:09] como você falou de concentração, com certeza
[00:30:11] é mais fácil se distrair no atendimento
[00:30:13] remoto.
[00:30:15] E creio que se perde alguma coisa
[00:30:17] da conexão com o analisando.
[00:30:19] Ainda que essa palavra conexão seja meio problemática,
[00:30:21] e fala tanto de internet
[00:30:23] também, mas tem
[00:30:25] alguma coisa aí.
[00:30:27] O que se perde
[00:30:29] eu não sei dizer, porque
[00:30:31] a gente sempre
[00:30:33] evita elaborar a perda inclusive.
[00:30:35] Tem alguma coisa meio sagrada
[00:30:37] que existe na criação de um lugar,
[00:30:39] do setting analítico, um espaço,
[00:30:41] um tempo específico, intransferível
[00:30:43] para aquela clínica, para aquela sessão,
[00:30:45] e que não seja um lugar
[00:30:47] que é a mesma cadeira que você está
[00:30:49] sentado, usando as mesmas
[00:30:51] ferramentas que você usa para fazer
[00:30:53] tantas outras coisas na sua vida, de trabalhar,
[00:30:55] pedir comida, falar com o amor
[00:30:57] da sua vida. Tem tanta coisa que
[00:30:59] acontece por esses mesmos
[00:31:01] canais que
[00:31:03] é complexo essa questão.
[00:31:05] Acho que o antes e o depois da sessão também
[00:31:07] fica um tanto atrofiado,
[00:31:09] comprimido. É óbvio que o online
[00:31:11] tem suas praticidades. Dá para atender
[00:31:13] pessoas que moram em outra cidade, em outro país,
[00:31:15] mas essa praticidade pode
[00:31:17] sair meio cara também, porque
[00:31:19] carece alguns rituais
[00:31:21] simbólicos e pessoais
[00:31:23] para você sentir
[00:31:25] o seu corpo entrando e saindo
[00:31:27] da análise. Tem a ver com
[00:31:29] esses ritos de entrar e sair do trabalho também.
[00:31:31] Então, pensando na análise
[00:31:33] até como um tipo de trabalho. Então eu
[00:31:35] acredito um pouco nessa história de que
[00:31:37] mesmo à distância
[00:31:39] a gente tem que conseguir fazer alguma coisa
[00:31:41] ser presencial.
[00:31:43] O atendimento presencial, o atendimento à distância,
[00:31:45] porque a gente está falando de presença,
[00:31:47] de corporificação, de consciência, independente
[00:31:49] do trabalho que você está fazendo, para não virar
[00:31:51] realmente essa máquina tão
[00:31:53] automatizada. É que é meio cafona,
[00:31:55] eu não sou muito fã desse
[00:31:57] pensamento
[00:31:59] transhumanista de vamos fazer o
[00:32:01] download do cérebro para máquinas
[00:32:03] e as pessoas vão estar livres dos seus
[00:32:05] corpos. Acho que é tudo muito…
[00:32:07] Acho que é tudo meio ingênuo até.
[00:32:09] No sentido de
[00:32:11] esquecer que não é que a gente precisa
[00:32:13] de um corpo, a gente é um corpo.
[00:32:15] Não é que a gente precisa
[00:32:17] do espaço, a gente também é o espaço.
[00:32:19] Por isso que talvez o Milton Santos
[00:32:21] seja um dos maiores acadêmicos brasileiros
[00:32:23] que a gente tenha tido, porque ele era
[00:32:25] geógrafo. No limite,
[00:32:27] alguém que entendia muito como as dinâmicas
[00:32:29] espaciais alteram as dinâmicas
[00:32:31] sociais e
[00:32:33] num outro nível também as dinâmicas
[00:32:35] psíquicas.
[00:32:37] E acho que a pandemia também foi muito boa
[00:32:39] nessa direção de
[00:32:41] até reforçar
[00:32:43] essa ideia de que
[00:32:45] a gente não precisa
[00:32:47] estar em um lugar ou que a gente não precisa
[00:32:49] de espaços
[00:32:51] físicos específicos,
[00:32:53] em que a gente pode fazer tudo de todos
[00:32:55] os lugares.
[00:32:57] E aí entra na sala
[00:32:59] mais um dos arquétipos
[00:33:01] atuais muito importantes
[00:33:03] nessa discussão que eu acho
[00:33:05] que é o nômade digital.
[00:33:07] Quem é esse sujeito?
[00:33:09] A ideia era boa até.
[00:33:11] Viajar para um lugar
[00:33:13] paradisíaco, intercalar
[00:33:15] passeios com as reuniões
[00:33:17] e claro, tudo se você pudesse
[00:33:19] pagar por isso.
[00:33:21] E aí, o ideal de trabalhar
[00:33:23] de qualquer lugar pode até ter
[00:33:25] parecido bom, mas
[00:33:27] o que a gente vem ouvindo
[00:33:29] é que pra muita gente
[00:33:31] acabou virando
[00:33:33] uma ansiedade em qualquer lugar.
[00:33:35] Ou quase uma
[00:33:37] versão meio distópica de férias com o ex.
[00:33:39] Porque o mantra
[00:33:41] do nômade digital é trabalho remoto
[00:33:43] pra todes.
[00:33:45] Mas isso também está muito longe de ser a realidade
[00:33:47] brasileira. Se a gente pegar
[00:33:49] a conta é matemática.
[00:33:51] Se o Brasil tem mais ou menos
[00:33:53] 92 milhões de trabalhadores
[00:33:55] e segundo o IBGE
[00:33:57] 3.8 milhões
[00:33:59] faziam home office em 2018
[00:34:01] a gente tem um problema
[00:34:03] que essa conta não está fechando.
[00:34:05] O que acontece com o serviço físico,
[00:34:07] braçal, manual,
[00:34:09] substancialmente presencial
[00:34:11] nessa utopia do trabalho remoto?
[00:34:13] E aí vale a gente
[00:34:15] lembrar que tem um
[00:34:17] estudo do PNAD com FGV
[00:34:19] de que mais ou menos
[00:34:21] 30% da classe AB pode
[00:34:23] alterar o lugar de trabalho durante a pandemia.
[00:34:25] Se a gente desce pra classe C
[00:34:27] isso vai pra 10%
[00:34:29] e pra classes D e E isso vai pra 7,5%.
[00:34:31] Então acho que
[00:34:33] essa fantasia
[00:34:35] do home office
[00:34:37] romantizado, que é
[00:34:39] muito legal e que faz muito bem
[00:34:41] pra nossa
[00:34:43] cérebro, máquina, computador
[00:34:45] e que vai
[00:34:47] dar pra todo mundo entrar nessa
[00:34:49] e que esse é o futuro do trabalho
[00:34:51] acho que tudo isso
[00:34:53] caiu por terra ou se mostrou
[00:34:55] muito mais limitado do que a gente achava.
[00:34:57] Porque assim, vou te dizer
[00:34:59] trabalhar de casa, da praia
[00:35:01] do Airbnb
[00:35:03] junto de um monte de amigos
[00:35:05] pet, comida gostosa
[00:35:07] tudo vai dar
[00:35:09] umas imagens ótimas
[00:35:11] pro Instagram, talvez um belíssimo vídeo
[00:35:13] pro YouTube. Mas o que
[00:35:15] eu me questiono é se faz
[00:35:17] sentido vender essa
[00:35:19] utopia do trabalho flexível
[00:35:21] quando a taxa de desemprego
[00:35:23] bate o maior patamar da história
[00:35:25] no país. Eu diria
[00:35:27] que insistir nesse produto
[00:35:29] porque é um produto
[00:35:31] é no mínimo fora do tom.
[00:35:35] Eu fico pensando
[00:35:37] o que será que vem
[00:35:39] depois dessa queda
[00:35:41] do ideal
[00:35:43] milenial, né, de propósito
[00:35:45] de trabalho com o que você ama
[00:35:47] e nunca mais trabalhará na vida
[00:35:49] e que a internet hoje tem dito
[00:35:51] cada vez mais coisas como
[00:35:53] trabalhe com o que você gosta
[00:35:55] e você nunca mais gostará de nada
[00:35:57] e que a internet hoje tem dito
[00:35:59] cada vez mais coisas como
[00:36:01] trabalhe com o que você gosta
[00:36:03] .
[00:36:05] Uma massa tão volumosa
[00:36:07] de pessoas trabalhando com o que dá
[00:36:09] e não com o que mais ama
[00:36:11] do jeito que mais ama e gostaria
[00:36:13] qual que é o sentido do trabalho
[00:36:15] na vida? É só sobrevivência?
[00:36:17] Eu me pergunto se
[00:36:19] essa suposta crise de sentido
[00:36:21] diz respeito a uma falta
[00:36:23] de sentido ou um excesso
[00:36:25] de sentidos que vem sendo
[00:36:27] colocados pra gente
[00:36:29] à disposição, mas que não necessariamente
[00:36:31] estão fazendo muito sentido. Eu não sei
[00:36:33] se faz sentido isso.
[00:36:35] Acho que a gente não pode mais usar a palavra
[00:36:37] sentido. Eu lembrei de uma
[00:36:39] entrevista da Esther Perel,
[00:36:41] aquela psicanalista meio guru das relações
[00:36:43] que ela deu pro The Cut
[00:36:45] há uns meses atrás
[00:36:47] em que ela fala como a gente nunca
[00:36:49] depositou tantas expectativas
[00:36:51] no trabalho. Hoje a gente trabalha
[00:36:53] em busca de pertencimento, identidade,
[00:36:55] crescimento, autodesenvolvimento,
[00:36:57] significado,
[00:36:59] comunidade.
[00:37:01] Cara, é muita coisa.
[00:37:03] Porque se o trabalho
[00:37:05] estrutura a sua vida
[00:37:07] a esse ponto,
[00:37:09] quando você não
[00:37:11] consegue atender essas demandas,
[00:37:13] você vai se esgotar
[00:37:15] e vai trabalhar loucamente
[00:37:17] pra tentar atingir todas as
[00:37:19] expectativas. E ao mesmo tempo,
[00:37:21] eu também acho
[00:37:23] um pouco estranha essa
[00:37:25] ideia de a gente querer ser tão
[00:37:27] apaixonado pelo trabalho.
[00:37:29] Claro que é muito legal gostar do que faz,
[00:37:31] mas como você muito bem disse, Lucas,
[00:37:33] não dá pra todo mundo estar nessa.
[00:37:35] Mas a gente também sabe que
[00:37:37] pra uma relação ser saudável,
[00:37:39] por exemplo,
[00:37:41] a gente precisa
[00:37:43] de uma diversidade
[00:37:45] um pouco maior de sentimentos e afetos.
[00:37:47] Sabe,
[00:37:49] o sujeito precisa inclusive de diferentes
[00:37:51] fontes de significado.
[00:37:53] Arte, natureza,
[00:37:55] comunidade, educação,
[00:37:57] ativismo.
[00:37:59] Tem uma série de esferas da vida
[00:38:01] que trazem esse significado pra vida
[00:38:03] de um sujeito. Só que quando
[00:38:05] você trabalha o tempo todo, você vai
[00:38:07] cortando essas conexões,
[00:38:09] você vai cortando esses
[00:38:11] dutos de significado.
[00:38:13] Ironicamente,
[00:38:15] parece que a gente nunca se sentiu tão sozinho.
[00:38:17] Mas é claro, a gente tá depositando
[00:38:19] tudo num duto só.
[00:38:21] E a gente acaba se fechando dentro
[00:38:23] dessa câmara
[00:38:25] de
[00:38:27] trabalho até não aguentar mais.
[00:38:29] E aí é interessante, porque enquanto
[00:38:31] você tava falando, eu lembrei do
[00:38:33] doutor Freud e daquela ideia
[00:38:35] de que dá pra gente
[00:38:37] pensar no final de uma análise
[00:38:39] exatamente como devolver
[00:38:41] pro sujeito a capacidade de amar
[00:38:43] e trabalhar. Eu costumo dizer
[00:38:45] que a gente tá apostando
[00:38:47] em estratégias muito
[00:38:49] totalitárias, tanto no amor
[00:38:51] quanto no trabalho. Sabe essa ideia
[00:38:53] de que a gente espera que, por exemplo,
[00:38:55] um parceiro amoroso seja
[00:38:57] família, sexo, amizade,
[00:38:59] tudo junto e misturado,
[00:39:01] sócio e tal?
[00:39:03] A gente também tá fazendo isso com o trabalho.
[00:39:05] Como se o trabalho fosse
[00:39:07] a grande fonte, ou talvez a única
[00:39:09] fonte de eros.
[00:39:11] Eros no sentido de se sentir
[00:39:13] vivo, de pulsão de vida mesmo.
[00:39:15] Só que o que eu acho,
[00:39:17] e aí provocando um pouco mais, é que
[00:39:19] a pulsão de vida pode
[00:39:21] ser muito mais do que bater uma
[00:39:23] meta ou ganhar um bônus.
[00:39:25] Eu gosto de pensar também naquilo que a gente vem
[00:39:27] conversando, assim, sobre essa dança
[00:39:29] muito complexa entre desejo
[00:39:31] e gozo na nossa relação
[00:39:33] com o trabalho. De um lado,
[00:39:35] o desejo é a expressão
[00:39:37] de uma falta que faz o sujeito
[00:39:39] se movimentar de objeto em
[00:39:41] objeto em busca de satisfação.
[00:39:43] Enquanto isso, o gozo é aquilo
[00:39:45] que acolhe o excesso,
[00:39:47] a repetição incessante
[00:39:49] da qual se torna impossível
[00:39:51] renunciar. O desejo,
[00:39:53] então, tem mais a ver com aquele
[00:39:55] questionamento tão incrível que nos tira o chão
[00:39:57] em um momento tão específico
[00:39:59] daquele break do café no meio
[00:40:01] da tarde, numa terça-feira,
[00:40:03] em que você se pergunta, afinal, o que eu quero
[00:40:05] fazer da minha vida?
[00:40:07] Mas onde que cabe essa
[00:40:09] formulação de desejo,
[00:40:11] que nunca acaba,
[00:40:13] no meio das maratonas de produção
[00:40:15] tão desenfreadas, ou mesmo no
[00:40:17] consumo, quando é um consumo
[00:40:19] compulsório e compensatório,
[00:40:21] não tem muitas brechas
[00:40:23] para fazer essa análise desses conflitos,
[00:40:25] conflitos internos,
[00:40:27] e para fazer uma auto-reflexão, se a gente
[00:40:29] ficar afogando tudo contra
[00:40:31] o trabalho. É, a gente vai entrando
[00:40:33] nesse circuito infernal
[00:40:35] da demanda em que a gente se enfiou,
[00:40:37] né? E acho que
[00:40:39] o império do gozo é exatamente isso
[00:40:41] que tantos analistas falam,
[00:40:43] que parece que é mais eficaz
[00:40:45] inundar o psiquismo
[00:40:47] com atividades que vão trazendo
[00:40:49] esses prazeres dopamínicos,
[00:40:51] que são meio curtos,
[00:40:53] irresistíveis, próximo episódio,
[00:40:55] mais um gole, mais um trago,
[00:40:57] mais um date, mais um like,
[00:40:59] outro e-mail, mais uma reunião,
[00:41:01] Lady Gaga,
[00:41:03] another club, plane, no sleep,
[00:41:05] e aí não para, a gente vai
[00:41:07] nessa. Só que
[00:41:09] a gente não sabe muito para onde
[00:41:11] a gente está indo, e aí
[00:41:13] o pequeno
[00:41:15] circuito de gozo que o mercado
[00:41:17] criou para cada um,
[00:41:19] vou te dizer,
[00:41:21] é uma cilada da qual a gente vai ter que
[00:41:23] conseguir sair. A Vera Iaconelli tem
[00:41:25] uma frase que eu gosto muito, que ela fala
[00:41:27] que a gente criou um curioso paradoxo,
[00:41:29] que é, diga-me como gozar
[00:41:31] para que eu me sinta livre.
[00:41:33] E
[00:41:35] aí
[00:41:37] o gozo também tem essa
[00:41:39] função
[00:41:41] de não deixar a gente se confrontar
[00:41:43] com o vazio.
[00:41:45] E aí a gente cai nessa cultura do muito,
[00:41:47] do exagero, da sobrecarga,
[00:41:49] e aí enquanto a gente segue
[00:41:51] soterrado de demanda
[00:41:53] e meta, nessa ciranda
[00:41:55] do gozo, não sobra espaço
[00:41:57] para o desejo, não sobra espaço para essa imagem
[00:41:59] tão bonita que você trouxe, da pergunta
[00:42:01] que te tira o chão.
[00:42:03] Para a pergunta que tira o chão de qualquer
[00:42:05] analisando em qualquer clínica, inclusive,
[00:42:07] que é tão simples
[00:42:09] e tão perfurante quanto o que
[00:42:11] você quer. E aí
[00:42:13] nessa velocidade, porque
[00:42:15] o império do gozo é meio isso,
[00:42:17] a gente é a Sandra Bullock dentro
[00:42:19] de velocidade máxima, num ônibus,
[00:42:21] tem uma bomba relógio ali dentro, não pode diminuir,
[00:42:23] tem que continuar correndo, vai, vai,
[00:42:25] vai, vai. E aí
[00:42:27] a gente acaba sendo movido também
[00:42:29] por essa ideia, e as empresas são
[00:42:31] ótimas nessa ideia, e o trabalho
[00:42:33] de uma forma geral também,
[00:42:35] de que a mudança, a inovação,
[00:42:37] o futuro, não esperam por ninguém.
[00:42:39] E aí o que a gente faz?
[00:42:41] A gente sai correndo, desesperadamente
[00:42:43] na direção do futuro.
[00:42:45] O futuro já aconteceu.
[00:42:47] Já foi. E aí a gente acaba
[00:42:49] esquecendo que, assim,
[00:42:51] a gente também pode ser
[00:42:53] agente de mudança.
[00:42:55] A gente também pode criar o futuro.
[00:42:57] Se não nós, quem?
[00:42:59] Só que aí,
[00:43:01] se a sensação generalizada
[00:43:03] é que o trabalho não devia ser
[00:43:05] tudo na nossa vida, então
[00:43:07] qual que é o lugar do trabalho?
[00:43:09] Talvez seja essa hora da gente
[00:43:11] finalmente tentar dar
[00:43:13] novos contornos pro trabalho.
[00:43:15] Embarcar mesmo num questionamento
[00:43:17] pra que a gente consiga se reposicionar
[00:43:19] melhor como sujeito
[00:43:21] e como sujeito dos nossos próprios
[00:43:23] desejos.
[00:43:25] Ou, pelo menos, a gente entender um pouquinho
[00:43:27] melhor que sofrimento
[00:43:29] é esse e porque que a gente continua
[00:43:31] vou provocar,
[00:43:33] gozando nesse sofrimento.
[00:43:35] E atualizar algumas dessas premissas
[00:43:37] contemporâneas que a gente falou
[00:43:39] tanto aqui. É muito bom
[00:43:41] amar o que se faz,
[00:43:43] mas a paixão pelo trabalho não precisa ser
[00:43:45] cega e nem monogâmica.
[00:43:47] Eu sou o que eu faço versus
[00:43:49] o que eu faço é uma parte
[00:43:51] de quem eu sou. Nem só a fonte
[00:43:53] de sobrevivência, que ironicamente
[00:43:55] se torna mortífera, e nem um
[00:43:57] sentido absoluto da existência.
[00:43:59] Parece que uma coisa é você
[00:44:01] buscar propósito no trabalho e outra
[00:44:03] é fazer do trabalho o seu
[00:44:05] único propósito da vida.
[00:44:07] Eu acho que a gente pode deixar
[00:44:09] aqui. Seguir pensando.
[00:44:11] Pode ser mesmo. Até porque
[00:44:13] tão bom quanto trabalhar é saber parar
[00:44:15] de trabalhar. Mas acho que no próximo
[00:44:17] episódio a gente segue
[00:44:19] esse trabalho de analisar mais vibes.
[00:44:21] Pode ser? Beleza.
[00:44:23] Até lá. Até. Tchau.
[00:44:25] Tchau.
[00:44:29] Transcrição e Legendas Pedro Ribeiro Carta