POSITIVIDADE NÃO-TÓXICA


Resumo

O episódio investiga o fenômeno da “positividade tóxica”, definida como a pressão social para se manter otimista a todo custo, reprimindo emoções negativas e ignorando problemas. Os hosts, ambos psicanalistas, traçam a evolução histórica desse conceito, desde o tratamento psiquiátrico inicial até o surgimento da psicologia positiva e sua popularização na cultura de massa, exemplificada pelo filme “O Segredo”.

Eles analisam como essa busca compulsiva pela felicidade se mistura com lógicas neoliberais de auto-otimização e consumo, criando uma “indústria do desamparo”. São discutidas reações a essa positividade, como o “otimismo reprimido” e o “pessimismo defensivo”, que também carregam riscos de paralisia e cinismo.

Como alternativas, são apresentados conceitos como o “pessimismo propositivo” (ou “pessimismo vivo”) da artista Jota Mombasa, que reconhece as dificuldades sem abrir mão da esperança ativa, e a ideia de “esperançar” de Paulo Freire. A conversa também critica a “espiritualidade mercantil” (Mystic Mall), onde práticas espirituais são consumidas como produtos em um grande buffet, expulsando o conflito e a negatividade.

Os hosts alertam para o papel dos algoritmos das redes sociais, que podem criar “tocas de coelho” (rabbit holes) alimentando visões distorcidas da realidade, seja através de um catastrofismo paralisante ou de uma positividade alienante. Eles argumentam que tanto a positividade tóxica quanto a “negatividade tóxica” (catastrofismo) são formas de exteriorizar o mal, colocando-o sempre “lá fora” e evitando a implicação pessoal.

A conclusão aponta para uma “positividade não-tóxica” pró-Eros, que reconhece a dança eterna entre pulsão de vida e pulsão de morte, prazer e desprazer, como constitutiva da experiência humana. O caminho sugerido é permitir a leveza da alegria sem a obrigação da felicidade constante, aceitando a falta e a complexidade como partes inerentes da existência.


Indicações

Conceitos

  • Mystic Mall — Tendência estudada pelos hosts há quase dez anos, referente ao “shopping da espiritualidade”, onde as pessoas consomem práticas e rituais espirituais de diferentes tradições como um buffet, escolhendo o que mais combina, mas expulsando a energia negativa e o conflito.
  • Doomscrolling — Comportamento de consumir compulsivamente notícias difíceis ou deprimentes, mencionado por André como um ciclo vicioso e estranhamente gratificante que flerta com a negatividade tóxica.
  • Medo do colapso (Winnicott) — Conceito psicanalístico mencionado por Lucas, referente ao medo de um acontecimento passado que ainda não foi experienciado, uma sensação de que algo terrível está prestes a arruinar tudo.

Filmes

  • O Segredo — Filme de 2006 citado por Lucas como um marco cultural que popularizou a “lei da atração” (pedir, crer, receber) na cultura de massa com uma roupagem pseudo-científica, representando uma face da positividade tóxica.

Perfis

  • Espiritualidade Mercantil — Perfil no Instagram mencionado e com trecho de depoimento reproduzido. Definido como ex-mística, anticapitalista e sarcástico contra a capitalização da fé no movimento novaerista. Critica a positividade como imperativo e alerta para charlatanismo.

Pessoas

  • Christian Dunker — Professor citado por Lucas, que associa a positividade tóxica a um capítulo preliminar do negacionismo e à lógica do condomínio (separar o que fica dentro e fora).
  • Jota Mombasa — Escritora e artista mencionada por André, que propõe o conceito de “pessimismo propositivo” ou “pessimismo vivo”, que reconhece dificuldades mas mantém esperança ativa (movença).
  • Conceição Evaristo — Escritora citada por André através da frase “o sonho fecunda a vida e vinga a morte”, usada para ilustrar a potência do sonho e da proposta.
  • Paulo Freire — Educador mencionado por André em relação ao conceito de “esperançar”, diferenciando esperança ativa da espera passiva.
  • Luiz Cláudio Figueiredo — Psicanalista citado por Lucas, que diz que a esperança nos defende contra angústias desesperadas e a sensação de cair pra sempre.
  • Byung-Chul Han — Filósofo citado por Lucas em referência ao livro “Sociedade Paliativa”, que discute como as pessoas tendem a espiritualidades que não exigem sacrifício na cultura do “seja feliz”.
  • Hélio Pelegrino — Psicanalista citado por Lucas através de uma frase sobre a luta entre Eros e Thanatos se decidindo dentro de cada um a cada instante.
  • Gwyneth Paltrow / Goop — Mencionada por André como exemplo de guru aspiracional ligado à cultura do wellness e da positividade tóxica.

Linha do Tempo

  • 00:02:02Definindo a positividade tóxica e suas características — Lucas inicia a discussão definindo positividade tóxica como não se autorizar a refletir sobre problemas, não reconhecer sentimentos negativos e a necessidade compulsiva de encontrar o lado bom de tudo. Ele cita Christian Dunker, que a associa a um capítulo preliminar do negacionismo, e destaca como ela pode levar à perda de empatia e à culpa por sentir emoções indesejadas.
  • 00:03:24Evolução histórica: da psiquiatria à psicologia positiva — Lucas traça uma linha do tempo, partindo do tratamento psiquiátrico inicial dos “loucos”, passando pela psicanálise (que lida com sofrimentos neuróticos do cotidiano), até chegar à psicologia positiva do início dos anos 2000. Esta última promove ir de uma “normalidade” (zero) para um estado “super positivo”, focando em felicidade, qualidade de vida e auto-otimização, o que facilmente escorrega para a positividade tóxica ao ignorar a falta constitutiva do ser humano.
  • 00:06:08O Segredo e a crítica psicanalítica ao “desejar é poder” — É citado o filme “O Segredo” (2006) como marco da popularização da “lei da atração” na cultura de massa. A psicanálise é apresentada como um contraponto realista, argumentando que o desejo é indestrutível e insiste, não sendo aniquilado pela satisfação. Além disso, destaca-se que não sabemos tudo o que desejamos e desejamos coisas contraditórias, complexificando a lógica simplista do “eu desejo, eu consigo”.
  • 00:08:07Consequências da cultura do wellness e reações: otimismo reprimido e pessimismo defensivo — André comenta sobre a “sociedade do curtir” e da cultura do wellness, onde tudo deve provocar bem-estar, levando a uma vida sem tristeza ou conflito. Ele menciona estudos que mostram que evitar sentimentos negativos piora a saúde mental. Como reações, surgem o “otimismo reprimido” (um meio-termo cauteloso) e o “pessimismo defensivo” (entregar-se à negatividade e esperar sempre o pior), que também é arriscado por levar à apatia e ao definhamento.
  • 00:11:08Para além da dicotomia: pessimismo propositivo e lógica paraconsistente — Diante do impasse entre positividade absoluta, negatividade e neutralidade, André propõe pensar com a “lógica paraconsistente”, que abraça paradoxos e ambiguidades. Ele cita a artista Jota Mombasa e seu conceito de “pessimismo propositivo” ou “pessimismo vivo”, que reconhece dificuldades mas mantém uma esperança ativa (“movença”), e a frase de Conceição Evaristo: “o sonho fecunda a vida e vinga a morte”.
  • 00:13:07Esperança como verbo ativo (esperançar) e seus riscos — A discussão segue sobre a esperança, não como espera passiva, mas como “esperançar” (Paulo Freire), uma força motora vinculada à pulsão de vida. É citada uma pesquisa que mostra otimismo crescente entre brasileiros, mas alerta-se para o risco da esperança virar passividade se a realização do desejo for terceirizada. Expectativas muito altas também são apontadas como fonte de frustração, enquanto perder a esperança pode, paradoxalmente, ser um momento de virada criativa.
  • 00:15:26A aceleração capitalista da positividade e a indústria do desamparo — Lucas critica a operação da positividade na velocidade do capital e do consumo (“torne-se um otimista em três passos”), que explora o desamparo humano. Ele relembra a tendência “Mystic Mall” (shopping da espiritualidade), onde práticas espirituais são consumidas como um buffet, e cita Byung-Chul Han sobre espiritualidades que não exigem sacrifício. O risco é criar uma cultura de “Good Vibes Only” que expulsa o conflito e o outro.
  • 00:18:55Depoimento da Espiritualidade Mercantil sobre positividade como imperativo — É apresentado um depoimento do perfil “Espiritualidade Mercantil”, que define a positividade como um novo “modus operandi” imperativo da sociedade, um jeito de se colocar no mundo. Ela alerta para o charlatanismo e falsas promessas de cura em tempos de pós-verdade, e defende que uma positividade não-tóxica deve passar pelo bem-estar social e coletivo, fugindo de respostas simplistas.
  • 00:22:38A negatividade tóxica: catastrofismo, doomscrolling e a exteriorização do mal — André descreve o “catastrofismo” ou “negatividade tóxica” como o oposto da positividade tóxica: a sensação de que tudo está acabando, que gera paralisia e desprezo pelo outro. Ele menciona o “doomscrolling” (consumo compulsivo de notícias ruins) como um ciclo vicioso que dá uma estranha sensação de alívio comparativo. Tanto a positividade quanto a negatividade tóxicas exteriorizam o mal (“está lá fora”), impedindo a corresponsabilidade e comprometendo a coletividade.
  • 00:27:22O papel dos algoritmos e o medo do colapso — Lucas discute um estudo do Wall Street Journal sobre algoritmos (como do TikTok) que criam “tocas de coelho” (rabbit holes) alimentando usuários com conteúdo depressivo ou conspiratório em poucos minutos, alienando a experiência de realidade. Ele pondera, porém, que não se pode terceirizar toda a culpa para o “algoritmo”, lembrando que o “medo do colapso” (conceito de Winnicott) é anterior a essas tecnologias e está ligado a uma ansiedade difusa sobre algo terrível prestes a acontecer.
  • 00:31:28Conclusão: Em busca de uma positividade não-tóxica pró-Eros — Os hosts concluem refletindo sobre o lugar de Eros (pulsão de vida, desejo, conexão) em nosso tempo. Uma positividade não-tóxica seria “pró-Eros”, mas sem virar antipositividade. É necessário um exercício de trazer de volta a euforia e a alegria no tempo certo, aceitando que a saúde mental requer a presença simultânea do positivo e do negativo. A vida é uma dança entre Eros e Thanatos, prazer e desprazer. A proposta final é “se permitir a leveza da alegria sem a obrigação da felicidade”, existindo sem a pressão do pensamento positivo constante.

Dados do Episódio

  • Podcast: vibes em análise
  • Autor: floatvibes
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2021-09-09T00:06:05Z
  • Duração: 00:36:04

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] E aí, tudo bem? Não, não tá tudo bem. Mas e fora dos stories? Você tá bem? Não. E tudo bem, não tá tudo bem. Mas vai ficar tudo bem, né? Será que vai mesmo?

[00:00:13] Segundo um estudo da Consumoteca de 2020, o Brasil lidera o índice de insatisfação com a vida na América Latina.

[00:00:21] Parece que o país do carnaval e dessa suposta alegria boa praça não anda tão pra cima assim.

[00:00:27] Por um lado, a era do seja feliz e da gratiluz parece que transformou a positividade em sinônimo de alienação.

[00:00:37] É de bom tom ser otimista? Ou será que a gente tá reprimindo o otimismo?

[00:00:42] Por outro lado, tem muita gente que também vem se entregando a um pessimismo defensivo.

[00:00:49] Mas e aí, tem solução esse impasse?

[00:00:52] Positividade tóxica é um conceito que tomou conta da pauta na cultura de massa nos últimos tempos.

[00:00:56] Só pra ter uma ideia, a busca no Google por esse termo cresceu 760% no ano passado.

[00:01:04] Mas o que será que essa tendência quer dizer sobre o tempo em que a gente vive?

[00:01:08] E o que a gente pode pensar pra além da positividade tóxica?

[00:01:11] Uau, vamos lá. Eu sou o André Alves, escritor, pesquisador e psicanalista.

[00:01:16] Eu sou o Lucas Lid, que também é psicanalista e pesquisador de cultura e comportamento.

[00:01:20] E esse é o Vibes e Análise, o podcast da Float.

[00:01:23] Pra quem não conhece, a gente faz o arroba Float Vibes.

[00:01:26] Onde a gente conta um pouco dos fenômenos culturais e comportamentais

[00:01:32] que a gente vem descobrindo nas nossas pesquisas.

[00:01:35] Aliás, pra quem gosta de pesquisa, os links e as referências que a gente citar aqui no episódio

[00:01:41] vão estar todos na descrição.

[00:01:56] Então vamos lá.

[00:02:02] Lucas, o que vem à sua mente quando a gente fala sobre positividade tóxica?

[00:02:07] Bom, acho que vale a gente começar por algum tipo de definição, né?

[00:02:11] Só pra gente ficar mais ou menos na mesma página.

[00:02:13] Tem algumas coisas que, em geral, caracterizam essa tal da positividade tóxica,

[00:02:18] que é não se autorizar a pensar e refletir sobre os seus problemas e os problemas do mundo.

[00:02:25] Não reconhecer ou não falar recentemente.

[00:02:26] Respeito dos seus sentimentos negativos.

[00:02:29] E uma necessidade de precisar, a todo custo, o tempo todo, encontrar o lado bom das coisas.

[00:02:36] O lado bom de tudo.

[00:02:37] A gente perde, inclusive, a capacidade de ter empatia.

[00:02:40] Como diz o professor Christian Dunker,

[00:02:42] a positividade tóxica é um capítulo preliminar do negacionismo.

[00:02:47] Porque é o caminho das pedras pra lógica do condomínio.

[00:02:51] Tem o que fica aqui dentro, tem o que fica aqui fora.

[00:02:54] E tudo que parece ser negativo,

[00:02:56] a gente tenta manter do lado de fora.

[00:02:58] A positividade tóxica é também se sentir culpado ou se achar um perdedor

[00:03:04] por ter que conviver com alguma emoção que você simplesmente não queria sentir.

[00:03:09] E ter que se forçar a aceitar as coisas como são.

[00:03:12] No sentido de que a gente tem que estar sempre grato pelo privilégio de estar vivo,

[00:03:17] de ter tudo que a gente tem, agradecer, etc, etc.

[00:03:21] Se a gente for olhar pelo viés da saúde mental,

[00:03:24] eu acho que tem uma certa…

[00:03:26] uma certa recapitulação histórica que eu aprendi com o Gicovati,

[00:03:30] que a gente pode usar pra posicionar esses movimentos da positividade tóxica na clínica.

[00:03:35] A caminhada começa lá na história da psiquiatria,

[00:03:38] que surge primeiramente pra tratar os loucos,

[00:03:41] as pessoas que estão em surto, que sofrem muito,

[00:03:44] que fazem mal aos outros e a si mesmas, que não conseguem conviver em sociedade,

[00:03:48] e que no início eram basicamente aprisionadas e tratadas como animais.

[00:03:52] Depois, a gente vê um desenvolvimento mais recente,

[00:03:56] como a psicanálise,

[00:03:57] pra um caminho de tratamentos de sintomas neuróticos,

[00:04:00] ou seja, sofrimentos que não são tão agudos assim,

[00:04:04] mas que atrapalham a nossa vida,

[00:04:06] que fazem parte do nosso cotidiano,

[00:04:09] do cotidiano de qualquer pessoa.

[00:04:10] Você não precisa ser louco pra fazer análise,

[00:04:13] fazer uma análise do seu psiquismo

[00:04:15] e tentar entender como lidar melhor com os seus desafetos,

[00:04:17] com as suas crises, os seus sofrimentos.

[00:04:20] Mas aí, quando a gente avança mais um século aí

[00:04:24] e pensa no início dos anos 2000,

[00:04:27] surge, principalmente nos Estados Unidos,

[00:04:29] a corrente da psicologia positiva.

[00:04:32] Ou seja, a gente foi evoluindo de uma abordagem

[00:04:34] que lutava muito contra o que é negativo,

[00:04:37] quase assim como sair do buraco,

[00:04:38] pra uma busca maior por mais felicidade.

[00:04:43] Algo que possa ser até mais assim democrático,

[00:04:46] uma promessa que é mais interessante enquanto produto

[00:04:48] por um número maior de pessoas.

[00:04:50] Quem não quer ser mais feliz?

[00:04:54] A psicologia positiva e as suas variações,

[00:04:56] é um olhar da psicologia que não está tão focado

[00:04:59] no tratamento de doenças ou de transtornos,

[00:05:02] mas sim em levar o sujeito do zero,

[00:05:05] que seria uma normalidade,

[00:05:07] pra algo positivo ou pra algo super positivo.

[00:05:11] Tem uma progressão aí nessa história,

[00:05:13] numa trajetória de negativo pro positivo,

[00:05:16] sendo que o positivo é a promessa de algo a mais.

[00:05:19] Só que quando a gente começa a ignorar a falta

[00:05:22] que é constituinte do ser humano,

[00:05:23] a gente vai escorregando,

[00:05:25] indo pra uma positividade tóxica.

[00:05:27] É muito fácil, porque é sobre buscar mais qualidade de vida,

[00:05:31] sobre aprender a focar melhor nos nossos potenciais,

[00:05:34] aprimorar o nosso ego, o self-improvement,

[00:05:37] a auto-otimização.

[00:05:39] E assim a gente começa a esbarrar nas premissas neoliberais

[00:05:42] que a gente conhece muito bem,

[00:05:44] e que começa também a expandir pra outros conhecimentos

[00:05:46] e áreas da cultura do mercado.

[00:05:48] Então não é mais só sobre técnicas de psicoterapia,

[00:05:52] é também sobre atividades de relaxamento, de meditação,

[00:05:55] uma visão mais holística sobre bem-estar, atividade física,

[00:05:58] nutrição, espiritualidade, mais, mais, mais, mais,

[00:06:00] sempre pra gente poder chegar mais longe,

[00:06:03] alcançar mais coisas,

[00:06:04] e positivar todos os aspectos da vida.

[00:06:08] Tem um fato cultural marcante, assim, que todo mundo vai lembrar,

[00:06:12] que foi em 2006, ou seja, 15 anos atrás,

[00:06:15] de um filme que fez muito sucesso no mundo todo.

[00:06:18] Esse filme se chamava O Segredo.

[00:06:21] Basicamente, trazia pra cultura de massa com uma linguagem

[00:06:24] mais ou menos científica,

[00:06:26] uma coisa que as religiões já fazem há milênios,

[00:06:28] que é a história da lei da atração, né?

[00:06:31] Pedir, crer, receber e agradecer.

[00:06:33] Uma fórmula relativamente meio mágica, assim,

[00:06:36] que tem o seu sentido, que a gente até sabe que funciona

[00:06:38] de um jeito meio estranho,

[00:06:40] mas que a gente vai ter que problematizar ela,

[00:06:43] porque a gente sabe que isso também gera muita confusão.

[00:06:46] Basicamente porque desejar não é poder.

[00:06:50] Ou seja, não é que você não conseguiu alguma coisa

[00:06:52] porque você não está desejando direito.

[00:06:55] Se a gente pega a ajuda da nossa querida psicanálise,

[00:06:58] que tem um jeitinho um pouco mais realista e até,

[00:07:01] às vezes, mais duro de encarar a vida,

[00:07:04] a gente percebe que o desejo, ele insiste e persiste

[00:07:07] porque ele é indestrutível.

[00:07:09] Ou seja, é duro mesmo, né?

[00:07:11] Tem essas metáforas, assim, das pedras, do rochedo da castração.

[00:07:18] O fato é que a gente é sujeito do desejo,

[00:07:20] a gente está sujeito ao nosso desejo,

[00:07:22] e não é uma satisfação uma realização que vai aniquilar isso.

[00:07:26] E tem mais alguns argumentos bem psicanalíticos

[00:07:29] que também complexificam muito essa lógica do

[00:07:32] eu desejo, eu consigo.

[00:07:34] Primeiro, que a gente não sabe exatamente tudo o que a gente deseja.

[00:07:38] E segundo, que a gente também deseja coisas contraditórias ao mesmo tempo.

[00:07:42] Então essa matemática não é tão simples assim.

[00:07:45] Mas voltando para a positividade tóxica,

[00:07:49] eu queria perguntar para você, André, com certeza, é muito verdade, né?

[00:07:51] Com certeza, é muito verdade, né? Com certeza, é muito verdade, né?

[00:07:52] É muito válido e próspero a gente focar no que nos faz bem, né?

[00:07:56] O princípio do prazer, função de vida.

[00:07:59] Mas aí, onde que vai parar o que não está bem?

[00:08:02] Como é que está dando para navegar hoje em dia

[00:08:04] esse dualismo aí entre otimismo e pessimismo?

[00:08:07] Eu acho muito interessante essa pequena análise sócio-histórica.

[00:08:11] Rolou até o segredo.

[00:08:13] Acho que tudo isso é muito simbólico,

[00:08:16] essa sociedade do curtir em que a gente está.

[00:08:20] Em que tudo é sobre…

[00:08:22] Bem-estar ou, já que você foi buscar a evolução da psicologia nos Estados Unidos,

[00:08:27] essa cultura do wellness.

[00:08:29] Todo mundo tem que se sentir bem.

[00:08:32] E aí o resultado é isso que você falou muito bem, né?

[00:08:35] De uma vida que a gente vai tentando aparar os cantos, as arestas,

[00:08:41] os conflitos, as contradições.

[00:08:43] Nada pode provocar dor.

[00:08:45] E a gente também sabe que não dá para viver uma vida sem tristeza.

[00:08:50] Muitos estudos,

[00:08:51] tanto na psicologia quanto na psiquiatria,

[00:08:55] mostram que sujeitos que conseguem evitar o contato com sentimentos negativos,

[00:09:01] na verdade, vão apresentar mais problemas de saúde mental

[00:09:04] do que aqueles que costumam aceitar todas as suas emoções.

[00:09:09] E na clínica, você sabe, é didático.

[00:09:10] Quanto mais fundo a gente recalca alguma coisa no psiquismo,

[00:09:14] mais forte esse conteúdo volta.

[00:09:16] Essa violência do recalque é proporcional à violência da alienação.

[00:09:20] Qual que é a questão?

[00:09:22] A questão é que a banalização da gratiluz, da gratidão,

[00:09:26] também foi gerando uma certa náusea na nossa cultura.

[00:09:30] E aí, ficou impossível de dissociar positividade e privilégio.

[00:09:35] Só que se de um lado, essa positividade tóxica formou uns gurus meio aspiracionais,

[00:09:41] tipo a Gwyneth Paltrow, da Goop e esse povo,

[00:09:44] também foi gerando uma sombra que parece meio Regina Duarte.

[00:09:50] Dizendo que a gente não precisa carregar um cemitério nas costas,

[00:09:54] que a gente tem que focar nas coisas boas pra falar.

[00:09:57] Daí a gente vem escutando, tanto nas nossas pesquisas quanto na clínica,

[00:10:02] as pessoas adotando um certo otimismo reprimido,

[00:10:06] que é um meio do caminho entre não se entregar à negatividade

[00:10:10] e também não perder muito a noção.

[00:10:13] E aí, por outro lado, a gente também vê uma outra estratégia

[00:10:17] que a gente chama de pessimismo defensivo,

[00:10:19] que é uma postura que explica que a gente tem que se entregar à negatividade.

[00:10:20] espera sempre pelo pior.

[00:10:23] Só que ela também é um jogo arriscado,

[00:10:26] porque o risco aqui é migrado,

[00:10:29] eu não espero mais nada,

[00:10:31] porque eu não quero mais nada.

[00:10:33] Ou mesmo eu não me importo com mais nada.

[00:10:35] Que é uma postura meio cínica até, né?

[00:10:38] E apática.

[00:10:39] Exato.

[00:10:39] E é muito boa essa palavra que você falou,

[00:10:41] porque aí as pessoas vão aceitando o definhamento,

[00:10:45] que é esse nome de um artigo

[00:10:48] que deu uma bombada no começo do ano

[00:10:50] do Adam Grant no New York Times,

[00:10:52] foi traduzido no Brasil por vários veículos.

[00:10:56] E aí a gente fica meio preso

[00:10:58] entre desautorizar a positividade absoluta,

[00:11:02] autorizar a negatividade,

[00:11:03] a gente condena a neutralidade,

[00:11:06] sobra espaço pra quê?

[00:11:08] Aí eu acho muito legal que você foi buscar o Dunker,

[00:11:10] porque quando ele fala sobre positividade tóxica,

[00:11:14] ele traz essa perspectiva

[00:11:15] de que a gente fica tentando amputar

[00:11:18] uma das partes,

[00:11:20] uma das partes da vida.

[00:11:21] Então tira a parte negativa,

[00:11:24] ou tira a parte que é positiva.

[00:11:27] Como se a existência não fosse

[00:11:28] uma dança eterna

[00:11:30] entre coisas que são boas,

[00:11:32] más, e simultaneamente boas e más.

[00:11:35] E aí eu acho que dá pra gente pensar

[00:11:37] num conceito que eu gosto bastante,

[00:11:40] que é a lógica paraconsciente,

[00:11:42] segundo a qual

[00:11:43] não é uma questão de bom ou mal,

[00:11:47] certo ou errado,

[00:11:48] mas sim que,

[00:11:49] que abraça um pouco mais

[00:11:51] essa realidade que é super paradoxal,

[00:11:53] muito ambígua,

[00:11:55] e que vai muito além de verdadeiro ou falso,

[00:11:58] ou de positivo e negativo.

[00:12:00] Eu gosto muito

[00:12:01] de uma fala da Jota Mombasa,

[00:12:04] escritora e artista,

[00:12:06] em que ela propõe

[00:12:08] um pessimismo propositivo,

[00:12:09] ou um pessimismo vivo,

[00:12:11] que é uma estratégia

[00:12:13] que reconhece as dificuldades,

[00:12:15] mas também mantém algum tipo

[00:12:17] de esperança no futuro.

[00:12:18] Mas não é uma esperança

[00:12:20] que está esperando alguma coisa acontecer

[00:12:22] e nem ilusoriamente acreditando

[00:12:24] que, ok,

[00:12:26] vai ficar tudo bem de forma mágica.

[00:12:29] Mas é uma perspectiva

[00:12:31] de aceitar

[00:12:32] que existem dificuldades,

[00:12:34] que esses desafios trazem aprendizados,

[00:12:37] e que isso não necessariamente

[00:12:38] precisa ou vai esmagar

[00:12:40] o nosso espírito.

[00:12:42] Como ela fala, é movença no lugar de descrença.

[00:12:46] E eu acho bom

[00:12:46] isso porque também

[00:12:48] nos ajuda a continuar sonhando

[00:12:50] ou propondo.

[00:12:52] Como escreveu a Conceição Evaristo,

[00:12:54] o sonho fecunda a vida e vinga a morte.

[00:12:57] Então acho que a gente pode ir por aí.

[00:13:07] Essa ideia da esperança,

[00:13:09] não como esperar, mas como caminhar.

[00:13:12] A esperança do verbo esperançar,

[00:13:13] lá do Paulo Freire.

[00:13:15] Exato.

[00:13:15] Eu acho importante pensar

[00:13:17] na esperança, né?

[00:13:18] Não como uma disposição só otimista,

[00:13:20] mas como essa força motor.

[00:13:22] É muito vinculada à pulsão de vida,

[00:13:25] que é capaz de fazer a vida brotar

[00:13:26] mesmo nas condições mais adversas.

[00:13:28] Então não é sobre esperar um milagre,

[00:13:31] mas seguir em movimento,

[00:13:32] apesar do contexto desfavorável.

[00:13:34] Acreditar no possível

[00:13:35] e no improvável.

[00:13:38] Tem um estudo aí da Poder 360,

[00:13:40] de julho agora, que mostra que metade dos brasileiros

[00:13:42] acha que a vida vai melhorar

[00:13:44] nos próximos seis meses.

[00:13:46] E esse número era de 36%,

[00:13:48] em janeiro.

[00:13:50] Agora,

[00:13:52] tem nas entrelinhas aí da esperança

[00:13:53] um risco de passividade.

[00:13:57] Principalmente se a gente deixa

[00:13:59] a realização do nosso desejo

[00:14:01] inteiramente na mão do outro.

[00:14:03] Ou no acaso, ou pro destino,

[00:14:05] entregue a Deus, a quem quer que seja.

[00:14:07] Esse otimista corre o risco

[00:14:08] de uma positividade tão delirante

[00:14:10] que desautoriza o seu sofrimento.

[00:14:13] E produz até mais sintoma

[00:14:15] e mais distanciamento do seu desejo.

[00:14:18] Tem vários estudos, inclusive,

[00:14:19] que comprovam como a felicidade é

[00:14:21] inversamente proporcional às expectativas

[00:14:24] que a gente cria.

[00:14:25] Quanto menor a expectativa, maior a felicidade.

[00:14:28] Quanto mais a gente cria ideações,

[00:14:30] maior vai ser a frustração.

[00:14:32] Então, perder a esperança pode ser

[00:14:34] muito doloroso, mas também pode

[00:14:36] representar um momento de giro,

[00:14:37] o final de uma crise,

[00:14:39] onde você possa fazer algum salto criativo,

[00:14:42] mesmo que seja muito pequeno,

[00:14:43] muito lento, pra sair de uma condição

[00:14:46] de impotência. Eu acho interessante,

[00:14:48] uma fala do

[00:14:49] Luiz Cláudio Figueiredo, que ele diz que a esperança

[00:14:52] nos defende contra as

[00:14:54] angústias desesperadas,

[00:14:55] contra a sensação de cair pra sempre.

[00:14:58] E que assim a gente consegue

[00:14:59] seguir levantando todos os dias.

[00:15:02] Isso tem muito a ver

[00:15:03] quem não espera, desespera.

[00:15:06] Tem muito a ver com o tempo,

[00:15:08] tem muito a ver com paciência,

[00:15:10] com resiliência,

[00:15:11] e algo aí sobre a velocidade,

[00:15:14] sobre a pressa.

[00:15:15] A coisa começa a ficar um pouco sinistra

[00:15:17] quando a gente tenta operar

[00:15:19] a nossa predisposição

[00:15:21] à positividade na velocidade

[00:15:23] do capital e do consumo.

[00:15:26] Torne-se um otimista

[00:15:27] em três passos. Compre

[00:15:29] aqui a sua esperança no e-commerce,

[00:15:31] receba em casa. A gente começa

[00:15:33] a ficar ainda mais vulnerável quando

[00:15:35] a gente se deixa ser influenciado por uma

[00:15:37] indústria que se constrói

[00:15:39] exatamente em cima do nosso desamparo.

[00:15:42] E que não vai ter como

[00:15:43] calar esse desamparo completamente.

[00:15:45] E que se aproveita muito

[00:15:47] do fato de que a gente já está atrasado

[00:15:49] para estar se sentindo bem ou estar se sentindo

[00:15:51] melhor. Tem uma tendência,

[00:15:53] André, que você vai lembrar, que a gente estudou

[00:15:55] já faz uns quase dez anos,

[00:15:57] que a gente chamava de Mystic Mall,

[00:15:59] o shopping da espiritualidade.

[00:16:03] Eu sei que a gente já esgotou a quantidade de vezes

[00:16:05] que a gente cita o Bill Churran,

[00:16:08] mas no último livro

[00:16:09] dele, que fala sobre a dor,

[00:16:12] como a dor

[00:16:14] é colocada como um sinal de fraqueza

[00:16:16] que a gente tem que eliminar.

[00:16:17] Então, seja triste, seja smart.

[00:16:19] O mais importante é focar no seu desempenho,

[00:16:21] na escalada de recuperação.

[00:16:23] Atravessar um trauma, sair de uma depressão.

[00:16:27] Essa pressa

[00:16:27] de que a gente tem que rapidamente

[00:16:29] superar a crise, aproveitar essa crise

[00:16:31] como uma oportunidade de evolução,

[00:16:33] de aprimoramento,

[00:16:35] para conseguir voltar

[00:16:36] a participação ativa na sociedade,

[00:16:39] no giro do capital, que é um tanto maníaco,

[00:16:41] é que é um grande problema.

[00:16:43] O problema não é a positividade. O problema é quando

[00:16:45] ela entra nessa lógica,

[00:16:47] e que começa, inclusive,

[00:16:49] a se misturar cada vez mais

[00:16:51] com o mercado

[00:16:53] e com a espiritualidade.

[00:16:55] Para ficar na fala do Hã,

[00:16:57] no Sociedade Paliativa, ele também

[00:16:59] fala de como as pessoas vão

[00:17:01] tender nessa cultura do

[00:17:03] seja feliz e seja positivo

[00:17:05] a se identificar com formas de

[00:17:07] espiritualidade que não exigem

[00:17:09] nenhum tipo de sacrifício,

[00:17:11] que trazem respostas para questões

[00:17:13] existenciais, mas que vão

[00:17:15] entrando exatamente nisso que você

[00:17:17] tocou, de uma lógica do consumo.

[00:17:20] E aí, quando a gente escreveu

[00:17:22] Mystic Mall há bastante tempo,

[00:17:24] era sobre essa ideia

[00:17:25] do grande buffet,

[00:17:27] do grande shopping das espiritualidades.

[00:17:30] Você escolhe

[00:17:31] os códigos e rituais que mais

[00:17:33] combinam com você.

[00:17:35] Celebra o Natal, mas não se define

[00:17:37] como católico. Medita

[00:17:39] todo dia, mas isso não te faz

[00:17:41] necessariamente budista.

[00:17:43] Acende velas para o universo, mas

[00:17:45] você não é necessariamente uma feiticeira.

[00:17:47] Ou uma bruha.

[00:17:49] E é isso que a gente chama de Mystic Mall.

[00:17:51] Por que que pode, ou é potencialmente

[00:17:53] tóxico?

[00:17:55] Primeiro porque quando a gente entra numa lógica

[00:17:57] de que

[00:17:59] o outro é

[00:18:00] infiel, pecador,

[00:18:03] descrente, e por isso ele é

[00:18:05] invalidável,

[00:18:06] ou ele pode e deve ser

[00:18:09] eliminado, a gente tem uma

[00:18:11] cultura de indiferença, ou até

[00:18:13] de expulsão do outro, que é

[00:18:15] meio grave. E também,

[00:18:17] é tóxico quando cai nessa

[00:18:19] armadilha do hashtag

[00:18:20] Good Vibes Only, ou apenas Boas

[00:18:23] Vibes, em que de novo

[00:18:25] a gente tá tirando o conflito.

[00:18:27] Parece que no shopping das espiritualidades

[00:18:29] entra tudo, menos energia

[00:18:31] negativa. Sim. Bom, pra gente

[00:18:33] colocar mais combustível nessa

[00:18:35] fogueira, eu queria chamar a fala de uma

[00:18:37] pessoa que é uma grande entusiasta desse tema

[00:18:39] e que tem um perfil muito interessante

[00:18:41] no Instagram, que chama Espiritualidade

[00:18:43] Mercantil. Ela se

[00:18:45] define como ex-mística, anticapitalista,

[00:18:47] e sarcástica contra a capitalização

[00:18:49] da fé no movimento

[00:18:50] nova-airista. Então, com vocês,

[00:18:53] a palavra da Admin do

[00:18:55] Espiritualidade Mercantil.

[00:19:01] Eu acho que, pra além do óbvio

[00:19:03] que é fácil a gente constatar

[00:19:05] olhando as redes sociais,

[00:19:07] com as pessoas fazendo sinalizações

[00:19:09] de virtude constantemente, assim,

[00:19:11] nos posts, e a quantidade

[00:19:13] de perfil que tem como objetivo

[00:19:15] passar uma lição de positividade

[00:19:17] uma coisa que me assusta

[00:19:19] muito é como que

[00:19:21] a positividade virou um imperativo

[00:19:23] no nosso dia-a-dia.

[00:19:25] A sensação que eu tenho é que

[00:19:27] ser positivo é um novo

[00:19:29] modus operandi da sociedade.

[00:19:31] É o novo normal do comportamento.

[00:19:34] É um jeito que

[00:19:35] a gente se coloca no mundo

[00:19:37] e diz quem eu sou.

[00:19:39] E eu acho muito triste ver

[00:19:41] como que a gente tem fugido de debate

[00:19:43] e de conflito, que eles são super

[00:19:45] necessários em nome da

[00:19:47] positividade, né, de manter o

[00:19:49] pensamento positivo. Eu diria

[00:19:51] que o charlatanismo é o maior risco

[00:19:53] que a gente tem quando

[00:19:55] essas ideias se cruzam,

[00:19:57] sabe? A gente tá em

[00:19:59] 2021 e ainda a gente

[00:20:01] vê muita gente

[00:20:03] sendo enganada por falsa

[00:20:05] promessa de cura, que vai desde

[00:20:07] cura física, emocional,

[00:20:09] financeira, material, etc.

[00:20:11] A gente tá vivendo numa era de

[00:20:13] pós-verdade, negacionista

[00:20:16] e tudo isso,

[00:20:17] virou um campo extremamente

[00:20:19] fértil pra esse tipo de profissão

[00:20:21] que explora a fé das

[00:20:23] pessoas. Eu acredito

[00:20:25] que a positividade tinha

[00:20:27] que ser acompanhada de coisas muito

[00:20:29] boas, assim, como perspectiva

[00:20:31] e segurança.

[00:20:33] Mas isso deu lugar pra

[00:20:35] um tipo de pensamento que tenta

[00:20:37] forçar esse sentimento dentro

[00:20:39] do indivíduo, né, em

[00:20:41] troca de algum benefício.

[00:20:44] Eu acredito que

[00:20:45] não só é possível

[00:20:47] mas como é muito importante

[00:20:49] e é fundamental

[00:20:50] a gente viver uma

[00:20:53] positividade que não seja

[00:20:55] tóxica e que

[00:20:57] provavelmente o caminho pra gente

[00:20:59] encontrar esse equilíbrio entre

[00:21:01] a alienação e

[00:21:03] o pessimismo, ele

[00:21:05] vai passar pela elaboração

[00:21:07] do que aconteceu

[00:21:09] e do que tá acontecendo

[00:21:11] dentro

[00:21:13] e fora da gente.

[00:21:16] E, além disso,

[00:21:17] fugir de resposta

[00:21:19] muito simples

[00:21:21] e muito

[00:21:22] reducionista. Eu sei que lá

[00:21:25] no meu perfil eu pareço ser muito

[00:21:26] negativa e muito pessimista

[00:21:29] mas é que

[00:21:31] a minha intenção

[00:21:32] com essa negatividade

[00:21:34] é provocar uma reflexão,

[00:21:37] né, é pra incomodar mesmo.

[00:21:39] Não é pra dar uma resposta

[00:21:40] simples e fácil. Eu acho que

[00:21:43] a resposta pra esse equilíbrio, ela não

[00:21:45] tá dada pra gente. A gente tem que

[00:21:47] construir ela juntos, assim,

[00:21:49] com muito diálogo

[00:21:50] e acho que a gente tem muita coisa

[00:21:52] pra falar disso ainda.

[00:21:55] Só pra finalizar, eu queria

[00:21:57] falar que a positividade é uma coisa

[00:21:59] muito boa, sim, quando ela é

[00:22:01] coerente e quando ela faz

[00:22:03] sentido. Se a sua positividade,

[00:22:06] se o teu pensamento positivo,

[00:22:07] ele não passar pelo

[00:22:09] bem-estar social,

[00:22:11] pelo bem-estar de

[00:22:13] todos, pela política,

[00:22:15] aí sim, é só alienação.

[00:22:17] É alienação mesmo.

[00:22:19] Eu gosto muito

[00:22:21] do que a espiritualidade mercantil fala

[00:22:23] porque, de novo,

[00:22:25] nos convida a transcender

[00:22:27] um pouco dessas dicotomias

[00:22:28] positivo-negativo, bem e mal,

[00:22:30] certo e errado,

[00:22:32] você é nova erista ou você não é

[00:22:35] nova erista o suficiente.

[00:22:37] Então, vamos lá.

[00:22:38] De um lado, tem essa postura

[00:22:40] super afirmativa.

[00:22:43] Tudo é lindo.

[00:22:43] Por outro, a gente tem

[00:22:46] uma postura,

[00:22:47] que é meio

[00:22:48] colapsista, que é quase

[00:22:51] tudo está acabado

[00:22:53] ou tudo está acabando.

[00:22:55] Essa sensação que a gente tem

[00:22:57] de que está tudo desmoronando,

[00:22:59] mas é um sentimento

[00:23:00] que gera muita paralisia

[00:23:02] e até um desprezo pelo outro.

[00:23:05] Eu vou cuidar do meu, afinal, o mundo está

[00:23:06] acabando mesmo. Eu acho

[00:23:09] que flerta demais com uma posição

[00:23:11] melancólica.

[00:23:13] E esse discurso apocalíptico,

[00:23:15] eu gosto de pensar

[00:23:17] que ele é a negatividade tóxica.

[00:23:19] É a tentação de

[00:23:20] achar que está tudo uma catástrofe.

[00:23:23] Então, em catástrofe, ficaremos.

[00:23:25] É a gente acordar e dormir

[00:23:27] com essa sensação de que,

[00:23:29] como canta a Clarice Falcão em A Linda Quebrada,

[00:23:31] bem-vindos ao after do after

[00:23:33] do after do fim do mundo.

[00:23:35] Esse, sim, é o exato oposto

[00:23:37] da positividade tóxica.

[00:23:38] E é interessante porque

[00:23:40] no ano passado, quando

[00:23:43] estourou a pandemia em 2020,

[00:23:46] a internet

[00:23:47] começou a falar muito de

[00:23:48] hashtag doomscrolling, comportamento

[00:23:50] de consumir compulsivamente

[00:23:52] notícias difíceis ou notícias

[00:23:55] muito deprimentes.

[00:23:58] E esse ciclo

[00:23:58] vicioso, ele é

[00:24:01] estranhamente gratificante

[00:24:02] porque parece que a gente vai ficando

[00:24:04] mais atraído pela negatividade

[00:24:06] e pelo ódio, pelas caixas de comentários

[00:24:09] super combativas,

[00:24:11] pelos memes das celebridades

[00:24:13] canceladas, e isso vai dando

[00:24:14] pra gente um certo alívio.

[00:24:17] Que é quase

[00:24:18] ah, beleza, então eu acho que

[00:24:20] eu não tô tão mal assim.

[00:24:22] E aí, de novo, a gente não sai

[00:24:24] desse ciclo. Só que o

[00:24:26] catastroficismo coloca a gente

[00:24:28] nessa posição

[00:24:30] de eu não tenho nada a ver com isso.

[00:24:32] Ou eu realmente não tenho nada

[00:24:34] a fazer. E aí, essa passividade

[00:24:36] ela expulsa o mal

[00:24:38] pra fora. Ela coloca

[00:24:40] essa ideia de, ah, eu tô fazendo

[00:24:42] aqui a minha parte, eu tô tocando a minha vida,

[00:24:44] mas não tenho o que fazer sobre o mundo.

[00:24:47] E a gente fica

[00:24:48] individualmente otimista

[00:24:51] e coletivamente

[00:24:52] muito pessimista. É um pouco daquilo

[00:24:54] que a gente faz também quando a gente compartilha

[00:24:56] uma imagem de horror.

[00:24:58] Antes que a gente seja invadido pela desgraça

[00:25:01] do que uma imagem de horror

[00:25:02] representa, eu fico indignado,

[00:25:05] eu compartilho, e eu digo

[00:25:07] alguém tem que fazer alguma coisa.

[00:25:09] Alguém tem que lidar com essa catástrofe.

[00:25:11] Alguém tem que ver que tá acabando.

[00:25:13] Mas é sempre o outro,

[00:25:15] tá sempre pra fora. E nunca…

[00:25:17] nunca pra dentro.

[00:25:18] Talvez uma parte fundamental

[00:25:20] de uma positividade não tóxica

[00:25:22] seja a gente sair dessa posição

[00:25:24] de que o mal tá fora.

[00:25:26] De que eu tenho que manter o mal fora.

[00:25:29] Ou melhor, nem pensar que isso

[00:25:30] atrai, como você falou do segredo.

[00:25:33] Sim, eu tenho a sensação de que

[00:25:34] essa é uma tendência que vem se agravando

[00:25:37] nesses tempos, né? Que é esse risco

[00:25:38] da exteriorização absoluta do mal.

[00:25:41] O mal tá sempre lá fora.

[00:25:43] É o vírus, é o governo,

[00:25:45] são os haters, são as imprensas,

[00:25:47] é o capitalismo,

[00:25:49] o mal não tá em mim.

[00:25:51] Tem muita verdade nisso,

[00:25:52] mas tem também

[00:25:53] um grande risco da gente não se implicar

[00:25:56] como corresponsável

[00:25:58] pelos nossos desprazeres

[00:26:00] e insatisfações. Tem um estudo

[00:26:02] do psicólogo Dean McKay, que ele

[00:26:04] comprova que tem uma sensação muito estranha

[00:26:07] de segurança quando a gente

[00:26:09] se aprofunda numa notícia ruim

[00:26:10] porque a gente faz isso do conforto

[00:26:13] do nosso sofá, do nosso celular.

[00:26:14] É um efeito que nos aterroriza,

[00:26:17] ao mesmo tempo que nos acalma

[00:26:19] porque você acredita que o mal

[00:26:21] tá lá fora e que, como você disse,

[00:26:23] talvez eu não tenha nada a ver com isso.

[00:26:24] Ou o que eu posso fazer

[00:26:26] a respeito disso? É uma passividade um tanto

[00:26:28] assustadora e perigosa,

[00:26:30] porque expulsa o mal pra fora,

[00:26:33] pra longe do sujeito

[00:26:34] e confirma que existem

[00:26:36] outras pessoas em piores condições

[00:26:38] materiais ou emocionais do que a gente.

[00:26:41] Isso pode nos apavorar,

[00:26:42] nos entristecer, mas em alguma

[00:26:44] medida inconsciente, também nos tranquiliza

[00:26:47] não tô tão mal assim.

[00:26:50] Só que ficar sabendo

[00:26:50] desse grande mal-estar generalizado

[00:26:52] mas não viver isso na pele

[00:26:54] faz com que a gente se feche

[00:26:56] ainda mais nessa mentalidade bunker

[00:26:58] ou nesse condomínio, onde

[00:27:00] cada um se defende, compete

[00:27:02] pela sua própria sobrevivência, no lugar de

[00:27:04] pensar em objetivos mais

[00:27:06] cívicos, pelo bem mais comum

[00:27:08] e coletivo. Como você disse,

[00:27:10] compromete o nosso senso de coletividade

[00:27:12] e ainda passa

[00:27:14] uma falsa sensação de conscientização,

[00:27:17] não? Ah, repostei,

[00:27:19] militei. Exatamente.

[00:27:21] Só que, além

[00:27:22] de tudo, também a gente fica emburacado

[00:27:25] nesse lugar, porque é uma das

[00:27:26] coisas que a gente tá descobrindo que a internet

[00:27:28] faz. O Wall Street Journal fez

[00:27:30] um estudo muito interessante

[00:27:32] esse ano e, simplificando

[00:27:34] bastante, eles basicamente colocaram

[00:27:36] 100 bots

[00:27:38] com perfis específicos assistindo

[00:27:40] vídeos no TikTok, pra entender

[00:27:42] mais ou menos quanto tempo o algoritmo

[00:27:44] da plataforma ia levar pra

[00:27:46] descobrir quais os interesses

[00:27:49] de cada bot

[00:27:50] e começar a entregar

[00:27:52] mais e mais vídeos relacionados àqueles

[00:27:54] interesses. No artigo,

[00:27:57] dá pra gente ver que o TikTok

[00:27:58] levou, em muitos casos,

[00:28:00] mais ou menos 40 minutos

[00:28:02] pra identificar esses interesses.

[00:28:05] E aí começou a servir

[00:28:06] mais e mais vídeos relacionados àqueles

[00:28:08] tópicos. E vão se criando esses

[00:28:10] rabbit holes, ou as tocas do coelho,

[00:28:13] em que, por exemplo,

[00:28:14] 93% do

[00:28:16] cento dos vídeos recebidos por um usuário

[00:28:18] são vídeos depressivos.

[00:28:20] Ou de conteúdo muito entristecedor.

[00:28:23] Ou mesmo

[00:28:24] conteúdo sobre conspirações eleitorais.

[00:28:27] Qual que é o problema aqui?

[00:28:28] Quando grande parte da realidade

[00:28:30] passa a ser mediada por esses algoritmos,

[00:28:32] também aumentam as chances

[00:28:34] da nossa experiência de realidade

[00:28:35] ser super alienante.

[00:28:38] Você vai ver tantos conteúdos

[00:28:40] deprimentos que você acha que o mundo realmente tá acabando.

[00:28:43] Ou tantas notícias

[00:28:44] ruins que você vira quase um

[00:28:45] hater, um troll, disposto

[00:28:48] até as últimas consequências. No limite, você vai

[00:28:50] invadir o Capitólio Norte-Americano

[00:28:52] em busca de alguma resposta.

[00:28:54] Ou de alguma mudança.

[00:28:55] Porque não dá pra aguentar mais.

[00:28:58] Ou você vai achando

[00:29:00] que as coisas estão tão positivas

[00:29:01] e tão legais que você acaba

[00:29:03] passando bastante vergonha e dizendo

[00:29:05] por exemplo que a pandemia foi uma bênção.

[00:29:08] Só pra falar de algumas caricaturas, né?

[00:29:10] Sim. Então você tá

[00:29:12] querendo dizer que existe um

[00:29:14] grande mal externo

[00:29:15] no quadro de tudo isso, que é o algoritmo?

[00:29:20] Claro. Não. Claro que não.

[00:29:24] Até porque não existe o algoritmo.

[00:29:26] Existem vários algoritmos.

[00:29:28] Existem vários mecanismos.

[00:29:30] E também várias empresas que estão por trás

[00:29:32] desses algoritmos.

[00:29:33] Mas também vários indivíduos.

[00:29:35] E também a gente ainda tem algum senso

[00:29:38] de agência. Não vai dar

[00:29:40] pra gente também terceirizar

[00:29:41] toda essa relação pro algoritmo, né?

[00:29:44] Como a gente bem sabe.

[00:29:45] Porque senão a gente acaba caindo nessa

[00:29:47] grande distopia cognitiva.

[00:29:50] Tá tudo errado, tá todo mundo pensando

[00:29:52] do jeito errado. E assim,

[00:29:54] o medo do colapso

[00:29:56] é algo bem antigo

[00:29:57] e bem humano e que

[00:30:00] precede essas tecnologias

[00:30:01] da informação ou da desinformação.

[00:30:05] Eu gosto bastante

[00:30:05] desse conceito do Winnicott

[00:30:08] que é o medo do colapso.

[00:30:10] Esse medo de um acontecimento passado

[00:30:12] que ainda, na verdade, não foi

[00:30:13] experienciado.

[00:30:15] A sensação que o sujeito tem

[00:30:17] que tem sempre alguma coisa

[00:30:19] prestes a acontecer é uma coisa

[00:30:21] terrível

[00:30:22] e que vai arruinar com tudo.

[00:30:26] Vai acabar com tudo.

[00:30:28] E a gente sabe

[00:30:29] que o medo na psicanálise

[00:30:32] é constitutivo

[00:30:33] da psique. A gente precisa temer

[00:30:36] pra gente conseguir existir, sobreviver.

[00:30:39] Só que o medo

[00:30:39] geralmente tá ligado a uma experiência que a gente

[00:30:41] consegue saber o que nos dá medo.

[00:30:44] O que tá nos amedrontando.

[00:30:45] Se não é angústia.

[00:30:47] Exato. Quando o objeto vai esfumaçando

[00:30:49] a gente não vai mais entendendo muito

[00:30:51] da onde vem, mas a gente continua

[00:30:53] sentindo esse temor

[00:30:55] aí a gente tá falando de ansiedade

[00:30:57] que é um sintoma bem presente

[00:30:59] no nosso tempo. Só que

[00:31:01] talvez essa sociedade da informação

[00:31:04] tenha deixado o cenário

[00:31:05] mais complexo. Parece

[00:31:07] que viver nesses tempos tão

[00:31:09] conectados é sentir

[00:31:11] que a gente tem sofrimento demais

[00:31:13] pra processar e que

[00:31:15] o tempo todo tem algo muito ruim

[00:31:17] a acontecer.

[00:31:28] Bom, tem aí uma pergunta

[00:31:29] fundamental então pra essa discussão

[00:31:31] que é onde que tá o Eros

[00:31:34] no nosso tempo?

[00:31:37] Acho que a gente pode lembrar da definição

[00:31:40] de Eros pra psicanálise.

[00:31:42] O mito grego

[00:31:43] coloca Eros como o deus do desejo.

[00:31:45] Aquele que dirige a alma.

[00:31:49] Eros é sempre

[00:31:49] a busca do outro, é a conexão,

[00:31:51] é o que te move.

[00:31:53] O Freud vai chamar isso

[00:31:55] ou vai associar tudo isso

[00:31:57] à pulsão de vida.

[00:31:59] Essa fantasia que

[00:32:01] pode se corporificar num

[00:32:03] objeto, que pode te mover,

[00:32:05] que pode te preencher e te fazer andar.

[00:32:08] É o grande impulso.

[00:32:10] E pra mim, uma positividade

[00:32:12] não tóxica é

[00:32:13] aquela que é pró-Eros.

[00:32:15] Porque ainda que a gente esteja mais

[00:32:19] atento a respeito da positividade tóxica,

[00:32:22] a gente não pode virar

[00:32:23] antipositividade. A gente tem

[00:32:25] que talvez fazer um exercício,

[00:32:28] um esboço aí do que seria

[00:32:29] essa positividade não tóxica.

[00:32:31] Qual espaço dá pra construir isso

[00:32:33] e em qual tempo, de que jeito?

[00:32:35] Como é que a gente pode trazer de volta

[00:32:37] a euforia e a alegria

[00:32:40] no tempo certo,

[00:32:42] mesmo considerando tudo o que

[00:32:43] aconteceu e segue

[00:32:45] acontecendo?

[00:32:46] É, e viver uma vida que é

[00:32:48] um pouco mais do que suportar

[00:32:50] estar vivo. Porque

[00:32:52] quem só sobrevive, eu acho

[00:32:54] que deixa de estar efetivamente

[00:32:56] vivo. Vira um pouco morto

[00:32:58] vivo, sabe? Eu acho que

[00:33:00] pela ótica da psicanálise,

[00:33:03] sempre dá pra lembrar que

[00:33:04] ser humano

[00:33:06] ou passar por essa existência

[00:33:09] é, de alguma forma,

[00:33:10] ser o tempo inteiro capaz de destruir

[00:33:12] e de amar. Essa dança

[00:33:14] entre Eros e Eros,

[00:33:15] Eros e Tânatos, pulsão de morte,

[00:33:18] pulsão de vida,

[00:33:19] estagnação e destruição

[00:33:21] e movimento.

[00:33:23] Tem uma frase do Hélio Pelegrino que eu acho muito

[00:33:25] bonita, inclusive, sobre isso, que é

[00:33:27] a luta entre Eros e Tânatos,

[00:33:29] vida e morte, se decide dentro

[00:33:31] de cada um de nós a cada instante.

[00:33:34] A psicanálise tem

[00:33:35] umas danças que eu acho muito bonitas.

[00:33:37] Por exemplo, a nossa

[00:33:39] psique é fundada em prazer

[00:33:41] e desprazer.

[00:33:43] Se pro inconsciente

[00:33:45] as coisas são prazerosas,

[00:33:47] isso talvez seja desprazeroso

[00:33:49] pra nossa consciência.

[00:33:52] E vai rolar esse

[00:33:53] abafamento, recalcamento,

[00:33:56] sublimação,

[00:33:57] enfim, toda essa

[00:33:59] valsa mesmo.

[00:34:02] O que isso nos ensina?

[00:34:04] Que não tem vida

[00:34:05] ou saúde mental sem a presença

[00:34:07] simultânea do que é positivo e do que é negativo.

[00:34:10] Sem negatividade,

[00:34:12] só vai existir um certo

[00:34:14] tipo de…

[00:34:15] apatia mesmo, né?

[00:34:17] Vai ficar tudo meio igual,

[00:34:19] meio monotonal, sabe?

[00:34:21] E isso também é, de alguma forma,

[00:34:24] tentar ignorar a falta.

[00:34:26] Tentar ignorar que a gente também é falho.

[00:34:28] E aí, é exatamente

[00:34:30] essa tentativa,

[00:34:32] essa estratégia, que faz com que

[00:34:34] tantos sujeitos se sintam

[00:34:36] constantemente em ruína.

[00:34:37] Positividade demais

[00:34:39] leva a esse culto da mesmice,

[00:34:42] a esse inferno do igual.

[00:34:43] Pra provocar um pouco

[00:34:45] mais, quando a gente se entrega

[00:34:47] a essa mesmice, não tem conexão com o

[00:34:49] outro. Não tem amor.

[00:34:51] Porque aí, a gente não tá conhecendo

[00:34:53] o outro nas suas dimensões.

[00:34:55] A gente só tá conhecendo o outro

[00:34:57] naquilo que reafirma quem a gente é.

[00:34:59] Daí acabou, né? E aí, nesse

[00:35:01] furacão de desejo

[00:35:03] e desconforto,

[00:35:05] quem sabe, assim,

[00:35:07] a gente não consegue bancar

[00:35:09] o negócio que eu gosto muito, que a gente escreveu

[00:35:11] no Saídas de 2020,

[00:35:13] que é

[00:35:15] se permitir a leveza da alegria

[00:35:17] sem a obrigação da felicidade.

[00:35:20] E isso passa

[00:35:21] por existir sem a obrigação

[00:35:23] de estar sempre no

[00:35:25] pensamento positivo.

[00:35:26] Peraí, eu acho que a gente pode deixar por aqui, né?

[00:35:29] Pode ser.

[00:35:31] Acho que a gente fica pensando pra nossa próxima

[00:35:33] conversa. Então a gente se vê

[00:35:35] ou se escuta num

[00:35:36] próximo episódio. Fechado.

[00:35:39] Até lá, um abraço. Tchau.

[00:35:45] Transcrição e Legendas Pedro Ribeiro Carta