INVEJA, EU?


Resumo

Neste episódio do podcast Vibes em Análise, os psicanalistas e pesquisadores Lucas Liedtke e André Alves mergulham em uma discussão profunda sobre a inveja. Eles começam confessando suas próprias experiências com o sentimento, como a inveja de pessoas que parecem lidar bem com o tempo e as responsabilidades.

A conversa explora as origens psicanalíticas da inveja, desde as teorias de Melanie Klein sobre a inveja do seio na primeira infância até a polêmica teoria freudiana da inveja do pênis, que os hosts contextualizam como uma metáfora para os direitos e poderes fálicos na sociedade patriarcal. Eles discutem como a inveja é frequentemente recalcada - empurrada para o inconsciente - porque é um sentimento considerado socialmente inaceitável, associado a estados infantis e primários.

Os hosts então examinam como a internet e as redes sociais funcionam como uma “incubadora massiva” da inveja, criando um ambiente onde as comparações sociais são constantes e onde a visibilidade das conquistas alheias amplifica sentimentos de inadequação. Eles discutem o fenômeno do cancelamento como potencialmente alimentado por inveja, e como a lógica da escassez do capitalismo intensifica essas dinâmicas competitivas.

O episódio também traz reflexões sobre como a pandemia exacerbou essas dinâmicas, criando um “experimento de inveja coletiva” onde o sucesso alheio pode parecer uma ofensa em tempos de sofrimento generalizado. Os hosts oferecem perspectivas sobre como lidar com a inveja - não como algo a ser simplesmente eliminado, mas como uma pista valiosa sobre nossos próprios desejos e frustrações que merece ser escutada e elaborada.


Indicações

Books

  • Inveja e Gratidão — Livro de Melanie Klein mencionado pelos hosts, que contém a fábula sobre o homem invejoso que prefere perder um olho desde que seu vizinho perca dois, ilustrando a natureza destrutiva da inveja.
  • A Coragem de Ser Imperfeita — Livro de Brené Brown mencionado por uma das convidadas (Daniela Reis), que a ajudou a perceber que estava gastando tempo julgando a vida alheia no Instagram em vez de se colocar “na arena” e criar conteúdo.

Conceitos

  • Inveja do pênis — Conceito freudiano discutido como metáfora para os direitos e poderes fálicos que os homens têm na sociedade por terem nascido homens, com reconhecimento de seus aspectos defasados e machistas.
  • Inveja do seio — Conceito de Melanie Klein sobre como a inveja se forma na primeira infância durante a amamentação, quando o bebê experiencia amor, gratidão e inveja em relação ao seio materno.
  • Recalque — Mecanismo de defesa psicanalítico discutido como forma de empurrar a inveja para o inconsciente porque é socialmente inaceitável, levando a sintomas quando retorna.

Estudos

  • Pesquisa da Universidade de Warwick — Estudo com 18 mil pessoas mencionado no início, mostrando que as redes sociais escalam os efeitos negativos da inveja e afetam severamente a saúde mental a longo prazo.
  • Pesquisa do Datafolha — Pesquisa com 2 mil brasileiros citada, onde 90% concordam que ganhar mais dinheiro pode atrair inveja.
  • Estudo de Hideriko Takahashi — Pesquisa do neurocientista japonês do Instituto Nacional de Ciência e Radiologia de Tóquio mencionada, mostrando que a inveja e a dor são processadas em áreas cerebrais muito próximas.

People

  • Melanie Klein — Psicanalista mencionada como fundamental para entender as origens da inveja, especialmente sua teoria sobre a inveja do seio na primeira infância.
  • Sigmund Freud — Fundador da psicanálise, cuja teoria da inveja do pênis é discutida e contextualizada como metáfora para direitos e poderes fálicos na sociedade.
  • Jacques Lacan — Psicanalista francês mencionado em contraste com Freud, especialmente sobre o destino da sexualidade feminina na psicanálise.
  • Alexandre Patrício — Psicanalista citado por sua imagem sobre o ciumento que “aprendeu a contar até três” enquanto o invejoso “só conta até dois”.
  • Maria Rita Khel — Pesquisadora mencionada no contexto da discussão sobre ressentimento social no Brasil.
  • Friedrich Nietzsche — Filósofo citado por sua psicologia do ressentimento resumida na frase “alguém deve ser culpado por isso”, aplicada à dinâmica da inveja.

Linha do Tempo

  • 00:01:55Confissões pessoais sobre inveja e introdução ao tema — Os hosts começam confessando suas próprias experiências com inveja, como a inveja de pessoas que lidam bem com o tempo e responsabilidades. Eles introduzem o tema como espinhoso e desconfortável, questionando se a internet se tornou uma incubadora massiva da inveja e como a pandemia afetou esse sentimento.
  • 00:02:46Origens psicanalíticas da inveja: Melanie Klein e Freud — André discute as origens da inveja na psicanálise, citando Melanie Klein e a formação precoce do sentimento durante a amamentação. Lucas aborda a polêmica teoria freudiana da inveja do pênis, contextualizando-a como metáfora para direitos e poderes fálicos na sociedade patriarcal, e menciona também a “inveja do útero” que aparece na clínica contemporânea.
  • 00:07:08Recalque da inveja e seus mecanismos de defesa — Os hosts exploram como a inveja é frequentemente recalcada - empurrada para o inconsciente - porque é socialmente inaceitável. Eles discutem como um narcisismo dilatado não admite a inveja conscientemente, levando a um desconforto inexplicável. Lucas menciona uma pesquisa do Datafolha onde 90% dos brasileiros concordam que ganhar mais dinheiro pode atrair inveja.
  • 00:09:22Base neurológica da inveja e sua relação com a dor — Lucas cita um estudo do neurocientista japonês Hideriko Takahashi que mostra que a inveja e a dor são processadas em áreas cerebrais muito próximas, explicando por que a inveja causa desconforto físico real. Ele conecta isso com a herança cultural da inveja, como o primeiro assassinato bíblico de Caim contra Abel.
  • 00:10:30Internet como máquina de causar inveja e dinâmicas das redes — Os hosts desenvolvem a hipótese de que a internet é movida tanto pela inveja quanto pelo ódio, criando uma “incubadora massiva” desse sentimento. Eles discutem como as redes sociais colocam todos lado a lado em competição pela atenção, estimulando comparações constantes e a função escópica (do olhar).
  • 00:11:10Cancelamento, influenciadores e a lógica da escassez — A conversa explora como o cancelamento pode conter elementos de inveja e justiça vingativa. Os hosts discutem a arena invejosa dos influenciadores, onde pessoas querem ser copiadas mas também temem perder seu lugar, refletindo uma lógica capitalista de escassez que permeia as relações sociais contemporâneas.
  • 00:13:36A inveja como cegueira e as invejas imaginárias — Lucas menciona a imagem da Divina Comédia onde os invejosos têm os olhos costurados, conectando com a etimologia latina “invidere” (não ver). Eles discutem como as invejas são frequentemente imaginárias - invejamos rostos editados, vidas filtradas - e como é importante lembrar que a inveja é sempre de um aspecto, nunca do todo da pessoa.
  • 00:15:52Dinâmica do ciúme versus inveja e rivalidade narcísica — André cita o psicanalista Alexandre Patrício: “o ciumento aprendeu a contar até três” (eu, o outro, e o objeto), enquanto “o invejoso só conta até dois” (eu e o outro). Os hosts exploram como essa dinâmica binária cria rivalidade narcísica e um desejo de exclusividade, onde não parece caber espaço para dois.
  • 00:18:06Arquétipo da Rosa da Fortuna e a inveja destrutiva — Lucas traz o arquétipo tarot da Rosa da Fortuna para ilustrar que nada é puramente bom ou ruim, e que todos têm seus ciclos. Eles discutem como a inveja pode ser aprisionadora e destrutiva, citando a fábula de Melanie Klein onde um homem invejoso prefere perder um olho desde que seu vizinho perca dois.
  • 00:20:18Depoimentos sobre inveja digital e estratégias pessoais — Os hosts apresentam depoimentos de Daniela Reis e Luiza Brasil sobre como lidam com a inveja nas redes sociais. Elas discutem conceitos como “Irritagram” (seguir pessoas que irritam), usar as emoções como bússola, e como a inveja pode sinalizar desejos não realizados que merecem atenção.
  • 00:26:26Pandemia como experimento de inveja coletiva — Os hosts discutem como a pandemia criou um “experimento de inveja coletiva”, onde o sucesso alheio pode parecer uma ofensa em tempos de sofrimento generalizado. Eles exploram a vergonha de estar bem, o aumento do comércio eletrônico como tentativa de preencher vazios, e como a crise sanitária radicalizou elementos da relação invejosa.
  • 00:30:10Como lidar com a inveja: da negação à elaboração — Os hosts oferecem perspectivas sobre como lidar com a inveja: desde a saída neurótica de desmerecer o objeto invejado, até abordagens mais elaboradas como usar a inveja como pista do próprio desejo. Eles discutem a importância de não interditar o sentimento moralmente, mas sim escutá-lo como parte humana que precisa ser trabalhada.
  • 00:33:50Ressentimento social e elaboração coletiva — A conversa final conecta a inveja individual com o ressentimento social brasileiro, citando Maria Rita Khel. Os hosts discutem como a sociedade brasileira empurra traumas históricos como escravidão e ditadura para “debaixo do tapete do recalque”, criando uma dinâmica onde “alguém deve ser culpado por isso” - similar à lógica invejosa de culpar o outro pelo próprio mal-estar.

Dados do Episódio

  • Podcast: vibes em análise
  • Autor: floatvibes
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2021-09-15T10:22:00Z
  • Duração: 00:35:27

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Você acha que outras pessoas têm inveja da sua vida e das suas conquistas?

[00:00:04] Todo mundo já foi objeto da inveja alheia e até cria alguns rituais, truques para se proteger disso.

[00:00:10] Mas a verdade é que não é fácil admitir que você já sentiu ou que sente inveja.

[00:00:15] Pois é, esse é um tema espinhoso mesmo, que dá até um certo desconforto de falar a respeito.

[00:00:21] Historicamente, a inveja nunca foi bem-vinda na Bíblia, no cinema, no Instagram nova era,

[00:00:25] mas a inveja insiste e a gente se pergunta que será que a internet virou uma incubadora massiva da inveja?

[00:00:33] E como será que um contexto de pandemia vem mexendo com a nossa inveja?

[00:00:37] Segundo um estudo realizado com 18 mil pessoas pela Universidade de Warwick, no Reino Unido,

[00:00:42] as redes sociais escalam os efeitos negativos da inveja e, a longo prazo, afetam severamente a nossa saúde mental.

[00:00:50] Mais ansiedade, raiva e reações intempestivas.

[00:00:54] Será que a gente está ficando mais invejoso?

[00:00:56] Ou será que a inveja só está correndo a céu aberto?

[00:00:59] Afinal, o que a gente faz com a inveja?

[00:01:02] Eu sou o Lucas Liedtke, psicanalista e pesquisador de cultura e comportamento.

[00:01:05] E eu sou o André Alves, escritor e também pesquisador e psicanalista.

[00:01:09] Pra quem não nos conhece, o André e eu, a gente está por trás do Arroba Float Vibes,

[00:01:13] onde a gente conta dos fenômenos culturais e comportamentais que a gente vem pesquisando.

[00:01:18] Vale sempre lembrar que a gente adora uma referência e compartilhar as nossas fontes.

[00:01:22] Então não se preocupa, vai estar tudo listado na descrição desse episódio.

[00:01:25] Transcrição e Legendas Pedro Ribeiro Carvalho

[00:01:55] Olha só, aquele bom e velho convite a sair do lugar de analista

[00:02:02] e cair nessa demanda, nessa cilada de falar da minha vida pessoal, não é mesmo?

[00:02:08] Eu não estou conseguindo descer desse lugar agora, mas se você quiser falar a tua, eu topo.

[00:02:14] Pra mim, eu acho que pega um lugar assim, eu já tive e ainda tenho,

[00:02:18] muita inveja de quem parece que lida muito bem com o seu tempo.

[00:02:22] Quem, pelo menos parece, se organiza de um jeito que não fica sobrecarregado

[00:02:25] por tarefas, por compromissos, que consegue manter uma plenitude, assim,

[00:02:30] mesmo com uma vida cheia de responsabilidades.

[00:02:33] Eu tenho inveja.

[00:02:33] É, eu acho que agora eu fiquei com inveja disso também.

[00:02:37] Mas é interessante como a gente começa já uma valsa, né, assim, um receio de falar sobre inveja.

[00:02:46] E eu acho que isso está muito ligado às origens da inveja na psicanálise.

[00:02:49] Porque a inveja, segundo a Melanie Klein, ela se forma muito cedo,

[00:02:55] quando o bebê está sendo amamentado.

[00:02:57] A gente já começa a experimentar tanto o amor, quanto a gratidão, quanto a inveja.

[00:03:02] Tudo super intrincado, está super na raiz de tudo.

[00:03:06] A inveja também é um sentimento meio regredido, né, meio primário,

[00:03:11] em que parece que a gente volta a um estado muito infantil.

[00:03:14] E faz sentido se a gente pensar que o psiquismo é dinâmico.

[00:03:17] E aí, várias vezes, a gente vai voltar a um estado meio infantil de relação com as coisas ou mesmo dos afetos.

[00:03:23] Dá pra pensar na inveja como uma manifestação.

[00:03:25] Da pulsão de morte, onde o sujeito ataca um objeto bom, porque ele não consegue introjetar isso.

[00:03:35] É um reconhecimento muito tortuoso da nossa impotência, ou da nossa impossibilidade.

[00:03:42] Pra começar com polêmica no programa de hoje, não dá pra gente não pensar na inveja do pênis.

[00:03:49] Nossa!

[00:03:49] O polêmico tem muitos aspectos dessa teoria que são muito defasados,

[00:03:55] que são machistas demais pra gente levar em conta hoje.

[00:03:58] Então, feministas não nos cancelem.

[00:04:01] É uma teoria de mais de 100 anos e tudo mais.

[00:04:03] Mas essa proposta do Freud, a gente precisa levar pra um aspecto simbólico da coisa.

[00:04:09] É uma metáfora, que não diz respeito ao pênis em si, mas ao que ele representa.

[00:04:15] A inveja dos direitos e dos poderes fálicos que os homens têm na sociedade,

[00:04:20] simplesmente por terem nascido homens.

[00:04:23] Isso mudou um pouco, sim.

[00:04:24] Mas a gente sabe que ainda é muito pouco.

[00:04:27] Mas olhando por um outro lado, a gente pode pensar até numa discussão que vem aparecendo da inveja do útero,

[00:04:33] da quantidade de homens que na clínica manifestam o seu desejo de poder fazer a gestação de uma criança.

[00:04:40] Mas o que você estava falando também da Melanie Klein,

[00:04:42] a teoria onde ela fala da inveja do seio.

[00:04:45] O seio pro bebê é um outro que tem tudo aquilo que eu, bebê, não tenho e preciso.

[00:04:51] Eu tenho, mas não tenho o tempo todo.

[00:04:53] Não é sempre que eu chorar que eu vou ganhar o leite materno.

[00:04:56] Por mais que eu chore de raiva, de inveja, de fome.

[00:05:00] Então passa por aí também uma outra leitura do que pode ser essas invejas mais primárias que a gente começa a ter na nossa infância.

[00:05:08] Acho que você está ousado nesse episódio, porque a inveja é problemática pra psicanálise

[00:05:15] exatamente por causa dessa matriz inveja, ou dessa dialética, a inveja do pênis falo.

[00:05:21] Porque se a gente analisa um pouco mais friamente a teoria do Freud,

[00:05:26] parece que o destino da sexualidade feminina vai ser a inveja do pênis,

[00:05:29] enquanto o destino da sexualidade feminina no Lacan vai ser a mulher ser não toda, ou a mulher não existe.

[00:05:37] Em ambas articulações parece que o destino da mulher é o tempo inteiro estar fora, é ser excluída.

[00:05:44] Se o homem é o um, a mulher é o não um.

[00:05:47] Não dá pra gente ignorar, e aí tem muita gente muito boa a estudar,

[00:05:49] Não dá pra gente ignorar, e aí tem muita gente muito boa a estudar,

[00:05:50] Não dá pra gente ignorar, e aí tem muita gente muito boa a estudar,

[00:05:52] como em ambas as hipóteses, ou em ambas as teorias, e todas as articulações que os pós-freudianos vão fazer,

[00:05:59] e que os lacanianos vão fazer, vão localizar a mulher sempre do lado de fora,

[00:06:04] ou do lado que de alguma forma dá pra gente ler como um lado que é menos.

[00:06:07] E aí óbvio, levantam-se muitas pessoas falando, então cancelem o Freud, cancelem o Lacan.

[00:06:13] Mas como você muito bem disse, as teorias deles e de tantos outros,

[00:06:18] fruto de uma matriz cultural que é muito

[00:06:20] branca, que é muito burguesa, que é

[00:06:21] heteronormativa, que é eurocêntrica,

[00:06:24] mas que também nos tem

[00:06:26] muitos conceitos úteis. O pensamento

[00:06:28] do Fanon, ou da Lélia Gonzalez,

[00:06:30] ou da Judith Butler, por exemplo,

[00:06:33] vão articular com conceitos

[00:06:34] freudianos e conceitos lacanianos.

[00:06:36] Então, existem coisas aí nessa teoria

[00:06:38] que a gente precisa aproveitar,

[00:06:40] mas também existe uma questão

[00:06:42] aqui da gente usar

[00:06:44] o que precisa ser usado

[00:06:46] e também atualizar o que precisa ser atualizado.

[00:06:48] Como diz um grande professor meu,

[00:06:50] Freud e Lacan estão mortos,

[00:06:51] a psicanálise somos nós.

[00:06:54] Mas é muito interessante

[00:06:55] como até

[00:06:57] na psicanálise a inveja

[00:06:59] é altamente problemática.

[00:07:02] É um sentimento que a gente tenta empurrar

[00:07:03] para debaixo do tapete do recalque, ou diminuir.

[00:07:06] Nessa do recalque,

[00:07:08] eu acho que tem um bom caminho

[00:07:09] para a gente pensar, porque

[00:07:10] o risco de não se reconhecer

[00:07:13] como uma pessoa invejosa,

[00:07:15] recalcar a inveja

[00:07:16] nos deixa, no melhor estilo

[00:07:19] Valesca propôs o outro termo,

[00:07:21] recalcado.

[00:07:22] De Butler a Valesca.

[00:07:27] O que é o recalque para a psicanálise?

[00:07:29] É um mecanismo de defesa

[00:07:30] para proteger a nossa realidade psíquica.

[00:07:33] Então, existe uma função que a gente não dá conta,

[00:07:35] que a gente não quer nem ficar sabendo,

[00:07:37] que a gente vai jogar lá para o fundo do inconsciente.

[00:07:39] É algo que a gente guarda,

[00:07:41] ou esconde, ou ignora,

[00:07:43] ou simplesmente nem sabe que está lá.

[00:07:45] A gente não tem noção mais disso.

[00:07:46] A gente esquece.

[00:07:47] E aí só sabe quando volta.

[00:07:49] Quando volta, através de um sintoma.

[00:07:51] Ou quando a gente consegue falar sobre isso

[00:07:53] numa sessão de análise.

[00:07:55] Um narcisismo que está muito dilatado,

[00:07:57] muito cheio de si,

[00:07:58] ele não admite a inveja

[00:08:00] num nível consciente do eu.

[00:08:02] Então, a gente reprime,

[00:08:03] ou conscientemente,

[00:08:04] ou recalca, inconscientemente,

[00:08:07] a inveja.

[00:08:08] Fazendo de conta que ela não existe.

[00:08:10] Mas ela não deixa de existir.

[00:08:12] E isso se traduz num desconforto

[00:08:15] que é inexplicável.

[00:08:16] É, esse

[00:08:20] medo da inveja.

[00:08:22] Acho que esse talvez é um recorte

[00:08:24] importante para nós.

[00:08:26] E que está tão presente.

[00:08:27] Eu estava lendo essa semana uma pesquisa do Datafolha

[00:08:30] desse ano, com dois mil brasileiros,

[00:08:32] e 90% deles

[00:08:34] concorda que

[00:08:35] ganhar mais dinheiro pode atrair a inveja.

[00:08:39] Então tem,

[00:08:39] em muitos campos da nossa vida,

[00:08:42] uma ideia

[00:08:43] de que pode até ser bom ser

[00:08:45] invejado.

[00:08:46] Mas é bom você evitar.

[00:08:48] E ninguém quer, necessariamente,

[00:08:50] sentir a inveja.

[00:08:52] Quando a gente está falando de pessoas do mesmo sexo,

[00:08:54] o negócio é ainda mais complexo.

[00:08:56] Porque você também está correndo risco de

[00:08:58] invejar as pessoas pelas quais

[00:09:00] você está sendo atraído.

[00:09:02] Não dá pra esquecer a letra da música do Little Nas, que é

[00:09:04] I wanna f*** the ones I envy.

[00:09:06] Então tem uma ideia de

[00:09:08] eu te quero,

[00:09:10] eu quero ser você, eu quero roubar

[00:09:12] o que você tem, por um outro aspecto.

[00:09:14] Acho que esse medo da inveja,

[00:09:16] ele também é justificado, porque

[00:09:18] a inveja causa muita dor. Literalmente,

[00:09:20] inclusive. Tem um neurocientista japonês,

[00:09:22] o Hideriko Takahashi,

[00:09:24] do Instituto Nacional de Ciência e

[00:09:26] Radiologia de Tóquio, que publicou

[00:09:28] há uns 10 anos um estudo muito interessante

[00:09:30] sobre as relações

[00:09:32] neurais da inveja

[00:09:34] e da dor. Basicamente,

[00:09:36] a gente sente as duas coisas

[00:09:38] em áreas muito próximas do cérebro.

[00:09:40] No final das contas,

[00:09:42] a gente está entendendo

[00:09:44] que, quando eu sinto

[00:09:46] inveja, isso vai despertar uma reação

[00:09:48] corpórea mesmo,

[00:09:50] física, que é muito difícil

[00:09:52] de lidar, sem a gente falar

[00:09:54] em toda a herança cultural

[00:09:56] que a gente tem. O primeiro assassinato

[00:09:58] da Bíblia é Caim matou Abel

[00:10:00] por inveja. Mas,

[00:10:02] o que eu acho que é muito interessante

[00:10:04] para o nosso tema é que,

[00:10:06] por mais que esse medo da inveja

[00:10:08] seja histórico e muito antigo

[00:10:10] na nossa cultura, a gente

[00:10:12] criou um negocinho que parece

[00:10:14] uma máquina de causar

[00:10:16] inveja, que é a internet e as redes sociais.

[00:10:30] Muito se disse nos últimos anos

[00:10:32] que a internet é movida a ódio,

[00:10:34] mas eu tenho uma hipótese de que ela é

[00:10:36] igualmente movida pela inveja. A gente

[00:10:38] só não consegue admitir. Porque

[00:10:40] é mais fácil bancar que você sente raiva

[00:10:42] de alguém, do que assumir que você

[00:10:44] sente muita inveja de alguém.

[00:10:46] Eu gosto dessa imagem da internet como uma grande

[00:10:48] incubadora da inveja. E

[00:10:50] considerando que hoje a gente tem

[00:10:52] 3.6 bilhões de usuários de redes sociais

[00:10:54] no mundo, a gente tem um problemão

[00:10:56] nas mãos.

[00:10:58] Talvez por isso seja tão insuportável

[00:11:00] ser influenciador.

[00:11:02] Porque a promessa é que você vai ser amado por uma

[00:11:04] multidão, mas a realidade é que você vai ser

[00:11:06] invejado, criticado e até cancelado

[00:11:08] por muita gente. E acho que tem

[00:11:10] também no cancelamento

[00:11:12] uma outra pista.

[00:11:14] Porque, claro, o cancelamento tem

[00:11:16] uma dinâmica de responsabilização,

[00:11:18] mas eu acho que também tem uma larga

[00:11:20] parcela de inveja

[00:11:22] e de uma certa

[00:11:24] justiça vingativa aí, sabe?

[00:11:26] Você fez isso

[00:11:28] e você não pode fazer isso.

[00:11:30] E talvez tenha um subtexto aí de que

[00:11:32] você tem isso e eu não

[00:11:34] quero que você tenha isso. Porque

[00:11:36] essa é a inveja. A inveja

[00:11:38] não é só a cobiça. A inveja é destrutiva.

[00:11:40] Eu vou corroer

[00:11:42] isso que você tem. Eu me sinto triste

[00:11:44] porque você tem.

[00:11:46] E, portanto, eu quero acabar com

[00:11:48] isso que você tem. É, parece que tem uma

[00:11:50] arena invejosa dos influenciadores.

[00:11:52] E é muito engraçado porque tantas pessoas

[00:11:54] querem ser influenciadores,

[00:11:56] mas ao mesmo tempo é como se elas não quisessem

[00:11:58] influenciar. Porque elas também não

[00:12:00] querem ser copiadas.

[00:12:02] E ao invés de sentir um

[00:12:04] reconhecimento, elas ficam com raiva

[00:12:06] ou com inveja quando alguém faz

[00:12:08] alguma coisa parecida com elas.

[00:12:10] Ou quando alguém se inspira nelas.

[00:12:12] Será que vão roubar meu lugar?

[00:12:14] Tem lugar ao sol pra todo mundo?

[00:12:16] A gente é muito

[00:12:18] atravessado por essa lógica da escassez.

[00:12:20] É uma lógica do capital mesmo.

[00:12:22] Que faz a gente se perguntar

[00:12:24] mas e aí quais são essas nuances

[00:12:26] entre admiração,

[00:12:28] inveja, inspiração

[00:12:30] ou cópia?

[00:12:32] A gente que trabalha com pesquisa, André,

[00:12:34] vive o drama da batalha de referências o tempo todo.

[00:12:36] Com certeza existe um pouco disso

[00:12:38] que a gente chamou de curadoria predatória.

[00:12:40] Que é basicamente você se

[00:12:42] apropriar do que não é seu.

[00:12:44] Por inveja.

[00:12:46] É interessante isso que você está falando se a gente pensar nesse

[00:12:48] efeito de proximidade

[00:12:50] da inveja. Porque

[00:12:52] aí tem de novo muita pesquisa sobre como

[00:12:54] é muito mais provável que a gente

[00:12:56] tenha inveja das pessoas que são próximas

[00:12:58] a nós, que são semelhantes a nós

[00:13:00] do que pessoas que estejam

[00:13:02] muito distantes.

[00:13:04] E aí é por isso que as mídias sociais são

[00:13:06] um pesadelo tão grande.

[00:13:08] Porque ela coloca todo mundo meio

[00:13:10] a lado a lado. Você pode se comparar com

[00:13:12] todo mundo. Está todo mundo competindo

[00:13:14] pela atenção.

[00:13:16] E aí isso me lembra outra

[00:13:18] definição muito interessante da inveja.

[00:13:20] Tem uma imagem da

[00:13:22] Divina Comédia que eu acho muito

[00:13:24] perturbadora. Que o andar

[00:13:26] da inveja no inferno de Dante

[00:13:28] é um andar em que

[00:13:30] os invejosos estão com os olhos

[00:13:32] costurados. Que é pra eles não

[00:13:34] verem. Porque inveja vem do latim

[00:13:36] invidere. Que é não ver.

[00:13:38] É tipo uma cegueira. E é

[00:13:40] uma inveja vai deixando a gente

[00:13:42] cego de alguma forma.

[00:13:44] A gente não consegue enxergar mais nada.

[00:13:46] A gente fica meio paranóico. Enfim,

[00:13:48] uma série de coisas. E é curioso

[00:13:50] a gente pensar que as redes sociais

[00:13:52] estimulam tanto essa nossa

[00:13:54] função escópica. Em que a gente está

[00:13:56] olhando e vendo e quase

[00:13:58] não conseguindo se proteger

[00:14:00] do que a gente está vendo.

[00:14:02] E aí vem alguém e diz para de

[00:14:04] seguir. Deixa de olhar.

[00:14:06] Para de consumir. Que pode ser

[00:14:08] uma estratégia, claro. Mas eu acho

[00:14:10] que dizer isso para as pessoas é pouco.

[00:14:12] Porque aí também é dizer para as pessoas

[00:14:14] que você não vai mais poder ficar

[00:14:16] invejando ou cobiçando.

[00:14:18] E aí, nossa, aqui no conforto

[00:14:20] do meu sofá, ainda mais em tempos

[00:14:22] pandêmicos, talvez tudo que eu tinha era esse

[00:14:24] pedacinho de inveja no café da tarde.

[00:14:26] Você vai me tirar até isso? Aí é a barbárie, né?

[00:14:28] Dá pra pensar, talvez, nisso

[00:14:30] que você está falando, numa ideia de

[00:14:32] invejas inventadas.

[00:14:34] Eu acho que é válido a gente considerar que

[00:14:36] em uma boa medida, como você

[00:14:38] está dizendo, você trouxe a questão da

[00:14:40] visão e da imagem, as invejas são

[00:14:42] imaginárias. A gente

[00:14:44] inventa invejas.

[00:14:46] Inclusive de coisas que a gente

[00:14:48] sabe que não são verdadeiras.

[00:14:50] São falsas.

[00:14:52] A gente inveja um rosto,

[00:14:54] um corpo que foi manipulado, editado,

[00:14:56] reconstruído.

[00:14:58] Todo esse movimento estético

[00:15:00] que a gente tem visto ultimamente,

[00:15:02] do camp, do exagero,

[00:15:04] do filtro.

[00:15:06] Acho que isso reflete muito essa brincadeira

[00:15:08] também que a gente pode ter com a inveja.

[00:15:10] E lembrar que a inveja

[00:15:12] é de um aspecto só.

[00:15:14] Ela não é do todo.

[00:15:16] Será mesmo que aquela pessoa é tão feliz

[00:15:18] e bem sucedida como ela parece

[00:15:20] que é?

[00:15:22] A gente sabe que não. Mas ainda assim

[00:15:24] a gente cai nessa cilada da imagem.

[00:15:26] A gente não vai conseguir abrir mão totalmente

[00:15:28] da imagem, mas o importante é lembrar

[00:15:30] que é somente uma imagem.

[00:15:32] Não é o real.

[00:15:34] Em toda sua concretude.

[00:15:36] Em toda sua totalidade.

[00:15:38] Como a inveja seja tão

[00:15:40] venenosa mesmo.

[00:15:42] Ou capaz de envenenar a mente.

[00:15:44] Porque você vai ficando um pouco obcecado

[00:15:46] por aquela imagem.

[00:15:48] Entorpecido mesmo.

[00:15:50] Como se não tivesse como se livrar mais dela.

[00:15:52] O psicanalista Alexandre Patrício

[00:15:54] tem uma imagem que eu acho muito boa.

[00:15:56] Ele fala que o ciumento

[00:15:58] ele aprendeu a contar até três.

[00:16:00] Porque pra você ter o ciúme

[00:16:02] você precisa de três pessoas envolvidas.

[00:16:04] Eu gosto de fulano

[00:16:06] e eu tenho ciúmes desse triângulo.

[00:16:08] Agora,

[00:16:10] o invejoso só conta até dois.

[00:16:12] Só tem eu e o outro.

[00:16:14] E aí vai sendo consumido

[00:16:16] por esse mundo estreito.

[00:16:18] É bom você falar

[00:16:20] do número dois.

[00:16:22] Porque eu acho que o número dois fala dessa rivalidade

[00:16:24] e de uma dinâmica

[00:16:26] onde sempre parece

[00:16:28] que sempre tem um por cima e um por baixo.

[00:16:30] E aí qual que é o seu lugar?

[00:16:32] Como que a potência do outro faz você se sentir ansioso?

[00:16:34] Fica deprimido?

[00:16:36] Não se autoestima?

[00:16:38] Essa rivalidade vem sempre

[00:16:40] com um desejo de diferenciação.

[00:16:42] De exclusividade.

[00:16:44] Ou seja, de excluir o outro.

[00:16:46] Não vai caber os dois aqui. Fica muito apertado.

[00:16:48] Tem uma retomada muito narcísica

[00:16:50] de um eu ideal

[00:16:52] que é como se não pudesse haver espaço

[00:16:54] pra mais ninguém aqui parecido comigo.

[00:16:56] Só eu.

[00:16:58] Nossa noção de identidade tá muito

[00:17:00] e de originalidade supostamente

[00:17:02] ameaçada por esse intruso.

[00:17:04] O melhor exemplo é quando o irmão

[00:17:06] é o novo bebê da família.

[00:17:08] É um caçula.

[00:17:10] E aí o outro se torna alvo da nossa antipatia,

[00:17:12] da nossa intolerância,

[00:17:14] do incômodo de tá, e agora qual que é o meu lugar aqui?

[00:17:16] Eu era o favorito.

[00:17:18] Eu era o único. Agora não sou mais.

[00:17:20] A grande armadilha eu acho que é a gente ficar sempre preso

[00:17:22] nessa de que

[00:17:24] tem que tá ou por cima ou por baixo.

[00:17:26] Um eixo muito imaginário, assim, que parece meio absoluto.

[00:17:28] Ou você tá cheio de si, vaidoso, orgulhoso.

[00:17:30] Ou você já tá num estado

[00:17:32] de humilhação, diminuído,

[00:17:34] inferiorizado, prejudicado.

[00:17:36] Será que alguém

[00:17:38] sempre tem que sair ganhando ou perdendo?

[00:17:40] E muitas vezes a pessoa nem fez

[00:17:42] nada contra a gente, mas a gente já se sente

[00:17:44] diminuído pelo outro. Já tem a nossa vaidade

[00:17:46] ofendida e responde

[00:17:48] de uma forma muito agressiva. A menos

[00:17:50] que alguém tenha esfregado na nossa

[00:17:52] cara alguma coisa. Essa humilhação

[00:17:54] ela é imaginária.

[00:17:56] Não tem ninguém efetivamente

[00:17:58] nos humilhando, mas a gente pode cair nessa

[00:18:00] posição. Pra fazer uma coisa bem inusitada

[00:18:02] aqui, eu vou trazer uma carta

[00:18:04] do Tarô pra nossa conversa.

[00:18:06] É um arquétipo da Rosa da Fortuna.

[00:18:08] Eu gosto muito porque

[00:18:10] é um arquétipo que diz que nada

[00:18:12] é puramente bom ou ruim o tempo

[00:18:14] todo. E que ninguém tá ganhando

[00:18:16] ou perdendo o tempo todo.

[00:18:18] Tudo muda o tempo todo. Tem uma

[00:18:20] dança cósmica, assim que o mundo dá voltas,

[00:18:22] tem ciclos, tem reviravoltas. Então,

[00:18:24] se nada tá certo, nada é

[00:18:26] estático, nenhuma estátua grega

[00:18:28] perfeita continua perfeita por toda a eternidade

[00:18:30] porque a mora quebra um pedaço,

[00:18:32] a gente precisa também relativizar

[00:18:34] e entender que cada um vai ter o seu tempo,

[00:18:36] o seu ritmo, pras suas vivências,

[00:18:38] pras suas conquistas

[00:18:40] e pro seu próprio caminho. A inveja pode ser

[00:18:42] muito aprisionadora, né? Se a gente pensar

[00:18:44] que ela é destrutiva, ela também

[00:18:46] vai conduzindo a esse lugar de

[00:18:48] desespero. E, de certa

[00:18:50] forma, também de destruir

[00:18:52] o próprio bem-estar do invejoso.

[00:18:54] Tem isso que você falou de inveja

[00:18:56] do outro, que eu acho interessante,

[00:18:58] mas pensando na estátua que quebra

[00:19:00] um pedaço, também tem a auto-inveja.

[00:19:02] A inveja que você vai

[00:19:04] destruir a si mesmo, que você

[00:19:06] vai vorazmente

[00:19:08] querer tudo e muito,

[00:19:10] só que ninguém consegue querer tudo

[00:19:12] o tempo todo, ou ter tudo.

[00:19:14] É aquela experiência de que

[00:19:16] quem tem tudo, ou quem

[00:19:18] quer tudo, não quer nada.

[00:19:20] De novo, voltando na Melanie Klein,

[00:19:22] da fábula que ela conta quando ela abre

[00:19:24] o Inveja e Gratidão, que ela fala

[00:19:26] que, certa vez, um homem

[00:19:28] extremamente invejoso do seu vizinho

[00:19:30] recebeu a visita de uma fada, que ofereceu

[00:19:32] a chance de realizar um desejo.

[00:19:34] Você pode pedir o que quiser, desde que

[00:19:36] o seu vizinho receba o mesmo em dobro.

[00:19:38] O invejoso respondeu, então,

[00:19:40] que ele queria que ela arrancasse um olho

[00:19:42] dele.

[00:19:44] E, consequentemente, um do vizinho também.

[00:19:46] Porque a moral da história é um pouco

[00:19:48] essa de que o prazer de ver o outro

[00:19:50] ser prejudicado prevaleceu sobre

[00:19:52] qualquer vontade. E é

[00:19:54] com essa fábula que a gente pode

[00:19:56] pensar em como a inveja pode ser

[00:19:58] aprisionadora. Ela pode condenar

[00:20:00] a gente a sentir a mesma coisa

[00:20:02] por uma eternidade.

[00:20:04] A inveja é um ataque

[00:20:06] à criatividade

[00:20:08] e à produtividade do outro.

[00:20:10] Porque mais importante do que eu ter

[00:20:12] é o outro não ter. Essa é a pior parte

[00:20:14] da inveja.

[00:20:16] Pra aprofundar um pouco a discussão, a gente chamou duas pessoas

[00:20:18] que vivem nas trincheiras da inveja digital.

[00:20:20] Essa é uma forma da gente também exercitar

[00:20:22] um pouco de escuta por aqui.

[00:20:24] E, pra isso, a gente convidou a Daniela Reis,

[00:20:26] da Contente, e a Luiza Brasil,

[00:20:28] Mequetrefismos, pra falar um pouco sobre

[00:20:30] inveja.

[00:20:32] Talvez a gente

[00:20:34] sempre tenha vivido tempos de muita inveja.

[00:20:36] A diferença é que agora a gente vive

[00:20:38] na era das redes sociais, em que todo mundo

[00:20:40] compartilha tanto da vida todos

[00:20:42] os dias. Então, se a gente

[00:20:44] sentia inveja esporadicamente,

[00:20:46] hoje a gente pode sentir inveja

[00:20:48] diariamente. Tem até algumas

[00:20:50] frases já clássicas, tipo

[00:20:52] a grama do vizinho não é mais verde, ela foi photoshopada.

[00:20:54] Não compare seus

[00:20:56] bastidores com o palco de alguém.

[00:20:58] Aqui você só vê um pedaço da história.

[00:21:00] Tudo isso tentando dar

[00:21:02] conta de como é que a gente

[00:21:04] lida com essa

[00:21:06] avalanche de informação que a gente tem

[00:21:08] sobre o outro. Porque a gente,

[00:21:10] por mais que a gente saiba que a vida

[00:21:12] online é editada,

[00:21:14] ao mesmo tempo, a gente tem a questão

[00:21:16] do volume. Quando várias vidas editadas

[00:21:18] estão ali compartilhadas,

[00:21:20] a gente fica pensando

[00:21:22] caramba, sou só eu que não

[00:21:24] estou escrevendo um livro, participando

[00:21:26] de um TED Talk, viajando, mesmo

[00:21:28] na pandemia? E aí é melhor

[00:21:30] ser o que não viaja na pandemia, é lógico.

[00:21:32] Mas a internet

[00:21:34] vira esse lugar

[00:21:36] em que a gente olha o outro

[00:21:38] e olha para o que a gente está deixando

[00:21:40] de fazer. Então,

[00:21:42] fica até um pouco meio um clichê

[00:21:44] de autoajuda, dizer que

[00:21:46] quando a gente sente uma inveja

[00:21:48] da conquista do outro,

[00:21:50] é uma oportunidade que a gente tem

[00:21:52] de olhar para dentro e entender

[00:21:54] o que é que a gente está querendo fazer.

[00:21:56] Às vezes eu acho que é preto no branco demais. Não é

[00:21:58] só porque você olhou

[00:22:00] para alguém que teve uma conquista que você quer

[00:22:02] entender exatamente aquela conquista.

[00:22:04] Ao mesmo tempo, eu pegando uma história

[00:22:06] mais pessoal, eu percebi

[00:22:08] há uns anos atrás que eu estava julgando muito

[00:22:10] a vida alheia no Instagram.

[00:22:12] Eu rolava o feed e falava

[00:22:14] nossa, essa pessoa está se achando.

[00:22:16] Olha essa aqui colocando uma ideia como

[00:22:18] se fosse dela, mas eu li isso em algum lugar.

[00:22:20] Eu olhava e estava com aquele ranço.

[00:22:22] E aí eu fui perceber, eu me deparei

[00:22:24] com um livro da Brenda Brown,

[00:22:26] A Coragem de Ser Imperfeita. E logo no começo

[00:22:28] ela tem uma citação do Theodore Roosevelt

[00:22:30] que ele fala assim,

[00:22:32] só aceito críticas

[00:22:34] de quem está na arena. É uma citação

[00:22:36] muito maior que isso, mas o mote

[00:22:38] é esse. E esse livro,

[00:22:40] ele me ajudou a ver que eu estava

[00:22:42] com muita vontade de postar

[00:22:44] mais, escrever mais, falar

[00:22:46] mais. Sendo que a minha

[00:22:48] régua de julgamento estava tão alta

[00:22:50] que eu não estava fazendo isso. Eu só estava gastando

[00:22:52] meu tempo julgando a vida alheia.

[00:22:54] Então a partir dessa leitura eu comecei a

[00:22:56] pensar em um monte de coisa e tentei me colocar

[00:22:58] mais na arena. E quanto mais eu me coloco

[00:23:00] na arena, mais eu fico

[00:23:02] em paz comigo com o que eu quero fazer.

[00:23:04] Quando vem a inveja

[00:23:06] eu penso, será que isso aí

[00:23:08] não quer dizer que talvez eu queira fazer

[00:23:10] alguma coisa que eu não estou dando conta

[00:23:12] de fazer, que eu não estou achando tempo para fazer?

[00:23:14] Eu gosto muito de usar

[00:23:16] as emoções que eu sinto

[00:23:18] ao acessar as redes sociais como uma bússola.

[00:23:20] Eu olho, observo,

[00:23:22] tento entender, tento acolher

[00:23:24] e eventualmente

[00:23:26] tento transformar. Isso me faz

[00:23:28] bem, porque eu acho que muitas vezes a gente

[00:23:30] usa as redes sociais de uma maneira muito aleatória

[00:23:32] a gente abre

[00:23:34] e sente esse monte de coisa e a gente acha

[00:23:36] que é um problema só nosso, só a gente

[00:23:38] que está sentindo daquele jeito,

[00:23:40] só a gente que tem

[00:23:42] entre aspas, sentimentos ruins, sabe?

[00:23:44] Acho que também a internet dá essa parte teorizada

[00:23:46] parece que todo mundo tem que ser muito legal,

[00:23:48] muito bacana, que você não pode dar

[00:23:50] espaço para quando vem alguma coisa

[00:23:52] entre aspas negativa, quando é humana.

[00:23:54] O nosso mecanismo

[00:23:56] como ser humano não foi feito

[00:23:58] para lidar com tanto. Isso vale

[00:24:00] para uma catástrofe, isso vale também

[00:24:02] para conquistas. Definitivamente

[00:24:04] as redes sociais mudaram a forma como a gente

[00:24:06] se vê e como a gente vê o outro.

[00:24:08] E a gente achar que isso não nos afeta

[00:24:10] só mostra como a conversa

[00:24:12] sobre internet ainda está longe de chegar

[00:24:14] para mais gente.

[00:24:16] Uma coisa que podemos tirar de boa

[00:24:18] da inveja, para mim, é esse

[00:24:20] lugar de

[00:24:22] eu tentar destrinchar um pouco

[00:24:24] o que é que tem além da

[00:24:26] primeira camada. Sentir inveja,

[00:24:28] ok. Segundo ponto,

[00:24:30] caramba, essa pessoa está fazendo o que

[00:24:32] talvez eu quisesse fazer.

[00:24:34] Beleza, eu estou achando

[00:24:36] tempo, eu estou priorizando

[00:24:38] o que deveria ser a minha prioridade

[00:24:40] ou não. Então, para mim, geralmente

[00:24:42] bate aí. Eu falo, eu quero muito fazer uma coisa

[00:24:44] que essa outra pessoa está fazendo

[00:24:46] e eu não me coloco como prioridade.

[00:24:48] Então, quando eu sinto

[00:24:50] inveja,

[00:24:52] acaba sendo essa

[00:24:54] pequena sessão de autoanálise

[00:24:56] que me ajuda a tentar me colocar

[00:24:58] nos trilhos novamente.

[00:25:00] As pessoas que eu até

[00:25:02] criei um nome para isso, chama Irritagram.

[00:25:04] Tem algumas pessoas que eu sigo que eu nem sei porquê.

[00:25:06] Às vezes é só para me irritar, às vezes

[00:25:08] é, sei lá. Porque a gente é desse

[00:25:10] jeito, a gente não segue pessoas só para se

[00:25:12] inspirar, para aprender. A gente segue

[00:25:14] porque também a gente tem esse

[00:25:16] mecanismo meio turvo na cabeça.

[00:25:18] Então, quando eu estou muito

[00:25:20] com alguém específico em

[00:25:22] Irritagram, geralmente é alguém que está

[00:25:24] fazendo várias coisas ao mesmo

[00:25:26] tempo, que é muito organizada no seu

[00:25:28] tempo, sabe? Que é uma grande

[00:25:30] dificuldade para mim. Eu tento sempre me organizar

[00:25:32] mas eu ainda patino muito.

[00:25:36] Eu não sei se

[00:25:38] são tempos de mais ou menos inveja,

[00:25:40] mas eu acho muito bacana

[00:25:42] quando a gente não se

[00:25:44] distrai tanto com esse espaço da rede social

[00:25:46] e acaba

[00:25:48] criando mesmo nossos objetivos, nossas metas,

[00:25:50] a gente se perceber

[00:25:52] para que isso não vire um gatilho.

[00:25:54] A gente não fique achando

[00:25:56] que está todo mundo fazendo e a gente não faz

[00:25:58] e isso vira insegurança, isso vira

[00:26:00] insatisfação e aí

[00:26:02] a gente chega na inveja. Então,

[00:26:04] realmente acredito sim nesse poder

[00:26:06] de sermos estratégicos com nós mesmos

[00:26:08] para que isso não seja

[00:26:10] um problema. O sucesso

[00:26:12] do outro não seja um problema, o êxito do outro

[00:26:14] não seja um problema e sim as nossas

[00:26:16] realizações

[00:26:18] sejam a nossa grande preocupação,

[00:26:20] o nosso grande propósito

[00:26:22] nessa vida.

[00:26:26] É bem interessante escutar o que elas

[00:26:28] tem para dizer, principalmente nesse momento

[00:26:30] que a gente vive um contexto de

[00:26:32] pandemia. A pandemia pode ser

[00:26:34] até um experimento de inveja coletiva

[00:26:36] meio insuportável, da gente sentir

[00:26:38] inveja de quem não sofreu,

[00:26:40] de quem não se abalou

[00:26:42] ou como é que a gente vive com inveja de quem está

[00:26:44] bem, de quem está levando a vida normalmente

[00:26:46] com mais ou menos negacionismo,

[00:26:48] de quem conseguiu ou está

[00:26:50] conseguindo lidar com as coisas mantendo os seus

[00:26:52] ideais tão intactos.

[00:26:54] Se a grama do vizinho é mais verde,

[00:26:56] na pandemia a grama

[00:26:58] verde é quase uma ofensa, porque a gente

[00:27:00] sabe que tem tanta gente que perdeu completamente

[00:27:02] a grama. Então, você não sabe

[00:27:04] o que está acontecendo com os outros?

[00:27:06] Eu acho que muitos de nós entramos num modo

[00:27:08] que também não parece muito

[00:27:10] proveitoso, que é ter vergonha de estar bem,

[00:27:12] de estar feliz com

[00:27:14] as suas conquistas.

[00:27:16] Até onde dá para ostentar

[00:27:18] os seus feitos, os seus ganhos

[00:27:20] ou isso é uma falta de empatia com o outro?

[00:27:22] Em uma escala ainda pequena, eu

[00:27:24] acredito que isso vem mudando de algum jeito

[00:27:26] nas redes sociais, que é um lugar que sempre

[00:27:28] foi mais pautado pela vaidade,

[00:27:30] por não mostrar nenhuma fraqueza,

[00:27:32] nenhuma falta.

[00:27:34] Esse é um exercício diário

[00:27:36] e difícil, de sair

[00:27:38] desse jogo de espelhos das redes sociais

[00:27:40] ou mesmo de uma conversa com as pessoas,

[00:27:42] onde a gente é convocado o tempo todo

[00:27:44] a mensurar o narcisismo

[00:27:46] do outro com base em conteúdos

[00:27:48] e falas muito bem selecionadas

[00:27:50] e articuladas. E, no fim,

[00:27:52] o mais legal, o mais instigante, eu acho que é

[00:27:54] aquilo que o Instagram não mostra

[00:27:56] ou aquilo que alguém não mostra

[00:27:58] para você quando está só tentando te impressionar.

[00:28:00] Eu acho que é aí que está

[00:28:02] a nossa humanidade.

[00:28:04] Eu acho que a pandemia é quase, eu tenho chamado

[00:28:06] de Covid Gate.

[00:28:08] Se a gente pensar em Pizza Gate, Gamer Gate,

[00:28:10] esses grandes eventos que

[00:28:12] repolitizaram a internet,

[00:28:14] a pandemia também tem essa função.

[00:28:16] Porque eu acho que radicalizou muitos elementos

[00:28:18] da nossa relação. A gente vive nessa

[00:28:20] matriz muito invejosa do

[00:28:22] para você ser feliz, você tem que ter isso.

[00:28:24] Básico, super clichê.

[00:28:26] Mas, ao mesmo tempo,

[00:28:28] o que vai acontecendo ao longo das últimas décadas?

[00:28:30] A gente vai tendo que acelerar isso, porque

[00:28:32] o instante que dura

[00:28:34] a satisfação de ter adquirido algo é cada vez

[00:28:36] mais rápido, mais fugaz.

[00:28:38] A pandemia, em que

[00:28:40] todo mundo fica nesse estado de apatia

[00:28:42] generalizado, ou de desgraça

[00:28:44] generalizada para muita gente,

[00:28:46] de um grande luto, faz com que a gente

[00:28:48] tenha que ir ainda mais

[00:28:50] fundo para conseguir

[00:28:52] preencher esse suposto vazio.

[00:28:54] Ou a falta, como a gente leva

[00:28:56] para a psicanálise de novo.

[00:28:58] E talvez por isso que

[00:29:00] o comércio eletrônico tenha sido tão

[00:29:02] bem sucedido durante a pandemia.

[00:29:04] Air fryer, aspirador robô,

[00:29:06] celular, cosméticos,

[00:29:08] vendeu muito, de muita

[00:29:10] coisa. E eu acho

[00:29:12] muito curioso que, frente

[00:29:14] à maior crise sanitária que a gente teve

[00:29:16] em um século, as pessoas

[00:29:18] comprem mais. Não todo mundo.

[00:29:20] Tem um jogo de privilégios muito forte,

[00:29:22] mas é consistente em várias

[00:29:24] faixas de renda no Brasil,

[00:29:26] com toda a aceleração da pobreza

[00:29:28] que a gente está vendo, um aumento

[00:29:30] muito grande nas compras. E não estou

[00:29:32] fazendo o discurso do sinta-se culpado

[00:29:34] porque comprou, ou

[00:29:36] reconheça seus privilégios. Acho que a gente

[00:29:38] pode elaborar um pouco mais essa discussão.

[00:29:40] Mas, eu queria

[00:29:42] costurar isso de volta com a ideia

[00:29:44] de que parece que a gente está sentindo

[00:29:46] muita inveja.

[00:29:48] E que a gente não está conseguindo dar conta

[00:29:50] de empurrar essa inveja para baixo do tapete

[00:29:52] do recalque. Acho que a gente tem que conseguir

[00:29:54] bancar a nossa inveja, ou pelo menos

[00:29:56] escutar o que ela está tentando nos dizer.

[00:30:00] .

[00:30:10] O que fazer diante

[00:30:12] de um sentimento de inveja?

[00:30:14] Como você disse, primeiro é não ter medo

[00:30:16] da própria inveja. Melhor inveja

[00:30:18] do que apatia e indiferença.

[00:30:20] Sinal de que tem alguma coisa viva dentro da gente.

[00:30:22] A saída mais neurótica

[00:30:24] parece que é realmente desmerecer.

[00:30:26] Falar que não tem valor.

[00:30:28] Falar que aquilo não tem importância.

[00:30:30] Que não é tão bom assim. Que eu nem queria isso

[00:30:32] para mim mesmo.

[00:30:34] Quem desdenha quer comprar. É ridicularizar

[00:30:36] o que o outro tem ou o que o outro é

[00:30:38] para ver se a gente perde o interesse.

[00:30:40] Uma saída talvez

[00:30:42] menos neurótica seria

[00:30:44] reagir com um pouco de bom humor.

[00:30:46] Mais ou menos

[00:30:48] irônico. Pode ser um pouco mais sarcástico

[00:30:50] assim, mas às vezes

[00:30:52] tentando rebaixar o outro. Mas também

[00:30:54] conseguindo rir um pouco de si mesmo.

[00:30:56] Da sua própria inveja.

[00:30:58] Também dá para olhar

[00:31:00] como uma referência para nós.

[00:31:02] O que tem ali que eu quero tanto?

[00:31:04] E o que me impede de ter isso?

[00:31:06] A inveja é muito rica

[00:31:08] porque é uma pista do nosso desejo.

[00:31:10] É sair de uma

[00:31:12] atitude puramente queixosa

[00:31:14] e se haver

[00:31:16] com a responsabilidade pelo seu próprio desejo.

[00:31:18] O que parece muito simples,

[00:31:20] mas esse é basicamente o grande desafio

[00:31:22] de uma vida inteira em análise.

[00:31:24] Também convém

[00:31:26] eu acho, a gente ficar

[00:31:28] atento de que lugar o nosso

[00:31:30] interlocutor está falando.

[00:31:32] Eu acho que ninguém é obrigado

[00:31:34] a escutar alguém que está só tentando

[00:31:36] se vender, que está só querendo aparecer,

[00:31:38] que está querendo despertar inveja

[00:31:40] nos outros. Eu acho que a forma como a gente lida

[00:31:42] com a nossa inveja tem muito a ver

[00:31:44] com a forma como a gente escolhe as pessoas

[00:31:46] com quem a gente quer se relacionar.

[00:31:48] Cuidado para não querer despertar

[00:31:50] inveja em quem desperta inveja

[00:31:52] em você, porque aí é um cabo de guerra

[00:31:54] que não vai dar em nada. Cuidado também

[00:31:56] com essa ideia de que você não tem inveja.

[00:31:58] Acho que isso que você está falando

[00:32:00] é muito interessante nesse ângulo de fazer

[00:32:02] as pazes com a inveja e entender

[00:32:04] que assim como a raiva, assim como a violência

[00:32:06] existem muitas coisas

[00:32:08] dentro de nós que não são muito nobres

[00:32:10] e que a gente

[00:32:12] obviamente tem que tomar muito cuidado

[00:32:14] para não passar ao ato

[00:32:16] para não autorizar

[00:32:18] mas a gente também não pode

[00:32:20] simplesmente interditar ou achar

[00:32:22] que por um passe de mágica vai desaparecer.

[00:32:24] Ou tentar

[00:32:26] invalidar a inveja através de um

[00:32:28] julgamento moral.

[00:32:30] Uma superioridade moral, né?

[00:32:32] Acho uma péssima ideia também

[00:32:34] porque é você disfarçar

[00:32:36] um pouco e até se esconder

[00:32:38] atrás de um lugar da crítica.

[00:32:40] De um superego. Exato.

[00:32:42] Um superego altamente invejoso

[00:32:44] que vai interditar o outro.

[00:32:46] Então aquela pessoa está vivendo a sexualidade dela

[00:32:48] com muito mais liberdade do que eu.

[00:32:50] Eu não consigo suportar.

[00:32:52] Eu vou interditar. Eu vou destruir.

[00:32:54] Só que eu vou destruir através da crítica

[00:32:56] através da moral

[00:32:58] através do politicamente correto.

[00:33:00] E vou dizer que essa pessoa não pode fazer isso.

[00:33:02] O que ela está fazendo é errado.

[00:33:04] Muito presente essa história na clínica.

[00:33:06] O analisando ou a analisanda

[00:33:08] que é

[00:33:10] progressista, desconstruído

[00:33:12] uma série de coisas

[00:33:14] e aí fica detonando as pessoas que

[00:33:16] tem um corpo muito magro

[00:33:18] ou que tem um corpo muito gordo

[00:33:20] ou que tem um corpo muito sarado

[00:33:22] ou que tem um corpo muito flácido

[00:33:24] e vão aplicando muito dessa energia destrutiva

[00:33:26] em criticar o outro

[00:33:28] e ir atrás da crítica.

[00:33:30] Talvez um dos trabalhos mais difíceis dessas análises

[00:33:32] seja exatamente ajudar o sujeito

[00:33:34] a se escutar

[00:33:36] de uma outra forma.

[00:33:38] Está criticando tanto por quê?

[00:33:40] Quer esse corpo?

[00:33:42] Ou quer mudar a sua relação com o seu corpo?

[00:33:44] Onde é que está doendo?

[00:33:46] Vamos escutar um pouco de onde está vindo

[00:33:48] todo esse material.

[00:33:50] Acho que toda essa fala

[00:33:52] sobre escuta me faz pensar

[00:33:54] um pouco em

[00:33:56] uma epidemia de ressentimento

[00:33:58] que a gente vive no Brasil

[00:34:00] como coloca sempre a Maria Rita Kell.

[00:34:02] A gente é muito bom de empurrar as coisas

[00:34:04] para debaixo do tapete do recalque

[00:34:06] e muito ruim de tentar elaborar essas coisas.

[00:34:08] A escravidão, a ditadura militar

[00:34:10] a violência diária

[00:34:12] toda essa carga social

[00:34:14] histórica que a gente

[00:34:16] parece não querer se haver com

[00:34:18] ou a gente parece

[00:34:20] não querer nem escutar. É melhor fingir

[00:34:22] que não está acontecendo.

[00:34:24] O ressentimento não é um conceito psicanalítico

[00:34:26] mas ele aparece bastante na clínica.

[00:34:28] O Nietzsche talvez resuma muito bem

[00:34:30] a psicologia do ressentimento

[00:34:32] em uma frase

[00:34:34] que é

[00:34:36] alguém deve ser culpado por isso.

[00:34:38] E acho que com a inveja

[00:34:40] a gente está num lugar parecido.

[00:34:42] Eu tenho inveja

[00:34:44] e a culpa é do outro.

[00:34:46] Então eu preciso detonar esse outro.

[00:34:48] Vamos ficar por aqui, André.

[00:34:50] Pode ser?

[00:34:52] Esse corte eu não estava esperando.

[00:34:54] São 10 anos de análise lacraniana.

[00:34:56] Nunca me acostumei, eu acho.

[00:34:58] Ótimo.

[00:35:00] Então vamos ficar por aqui.

[00:35:02] Até uma próxima.

[00:35:04] Até. Tchau.

[00:35:26] Tchau.