T12E29 - Desmistificando Paulo Freire
Resumo
Este episódio do Fronteiras da Ciência é dedicado a Paulo Freire no seu centenário, com o objetivo de desmistificar sua figura e obra. A conversa com a especialista Fernanda dos Santos Paulo percorre a trajetória pessoal e intelectual de Freire, desde sua infância pobre em Jaboatão até sua formação como advogado e posterior dedicação ao magistério. São destacadas as influências filosóficas que moldaram seu pensamento, como o marxismo, a fenomenologia e a teologia da libertação, e a criação do método Paulo Freire de alfabetização de adultos, exemplificado pela cartilha ‘Viver é Lutar’.
O episódio aborda o contexto político brasileiro dos anos 60, com o envolvimento de Freire no Plano Nacional de Alfabetização do governo Jango e o abrupto interrompimento com o golpe militar de 1964. Sua prisão e exílio forçado são discutidos como um paradoxo que, ao afastá-lo do Brasil, catapultou seu reconhecimento internacional. Freire trabalhou em países como Chile, Estados Unidos e nações africanas, através de organizações como o Conselho Mundial das Igrejas, espalhando suas ideias de educação libertadora e popular.
A entrevista também trata do retorno de Freire ao Brasil após a anistia, sua atuação como secretário municipal de educação em São Paulo e sua produção intelectual tardia, com obras como ‘Pedagogia da Esperança’ e ‘Pedagogia da Autonomia’. São apresentadas críticas à sua obra, como as de Vanilda Paiva, que contextualizam as limitações de acesso a bibliografia em sua formação inicial, e defesas de seu legado frente aos ataques ideológicos contemporâneos.
Por fim, são destacados dados impressionantes sobre o impacto acadêmico de Freire, como o fato de ‘Pedagogia do Oprimido’ ser o terceiro livro mais citado em ciências sociais no mundo e o único brasileiro entre os 100 mais citados em educação em países de língua inglesa. O episódio encerra reforçando a relevância de seu pensamento para a educação crítica e a luta por humanização em tempos de adversidade política.
Indicações
Books
- Pedagogia do Oprimido — Obra mais conhecida de Paulo Freire, escrita durante o exílio no Chile, que apresenta suas ideias sobre educação libertadora e foi proibida no Brasil até 1974.
- Viver é Lutar — Cartilha de alfabetização para adultos criada por Freire em 1963, que exemplifica seu método através de frases como ‘Viver é lutar’, promovendo a cidadania.
- Pedagogia da Esperança — Livro onde Freire desenvolve a noção de esperança como motor para a mudança educacional e social, denunciando desumanizações e anunciando novas possibilidades.
- Pedagogia da Autonomia — Obra que enfatiza a autonomia do educando no processo de aprendizagem, parte da evolução do pensamento freireano em direção a uma pedagogia crítica.
- A Sombra Dessa Mangueira — Livro onde Freire explora sua concepção ético-política da educação, discutindo mobilização popular, liderança democrática e a importância da utopia.
People
- Elza Maria Costa de Oliveira — Primeira esposa de Paulo Freire, professora primária que contribuiu significativamente para o desenvolvimento de seu método de alfabetização.
- Hernane Maria Fiori — Intelectual gaúcho que escreveu o prefácio da primeira edição de ‘Pedagogia do Oprimido’ e foi um dos primeiros expurgados da UFRGS pela ditadura.
- Vanilda Paiva — Crítica de Freire que contextualizou as limitações de acesso a literatura em sua formação inicial, explicando que ele lia ‘leitores dos clássicos’ por falta de recursos.
- Baldwin Andreola — Pesquisador citado por fornecer detalhes sobre a cronologia de Freire no Rio Grande do Sul e seu envolvimento com o Conselho Mundial das Igrejas.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução à cartilha ‘Viver é Lutar’ de Paulo Freire — O episódio inicia apresentando a primeira página da cartilha de alfabetização para adultos criada por Paulo Freire em 1963, intitulada ‘Viver é Lutar’. É destacada a abordagem humanista e respeitosa do método, que visa não apenas ensinar letras, mas promover a cidadania. A cartilha foi apreendida antes do golpe militar, simbolizando a repressão às suas ideias.
- 00:02:27 — Início da discussão sobre a vida e trajetória de Paulo Freire — Fernanda dos Santos Paulo começa a detalhar a vida de Paulo Freire, dividindo-a em aspectos pessoais, intelectuais e militantes. Ela menciona a escrita de ‘Pedagogia do Oprimido’ durante o exílio no Chile e a proibição da obra no Brasil até 1974. São citadas algumas de suas influências teóricas, como John Dewey, Karl Marx e Martin Buber.
- 00:05:13 — Infância pobre e questionamentos sociais de Freire em Jaboatão — A conversa aborda a infância de Paulo Freire em Jaboatão, Recife, onde vivenciou dificuldades financeiras após a morte do pai. Essa experiência o levou a se questionar sobre a fome e a desigualdade social, motivando sua luta por um mundo melhor. Sua mãe lutou para que ele pudesse estudar, conseguindo uma bolsa no Colégio Oswaldo Cruz.
- 00:09:06 — Experiência bem-sucedida de alfabetização em Angicos — É relatada a experiência de Freire no Rio Grande do Norte, onde alfabetizou 300 trabalhadores rurais em 40 horas, um marco do sucesso de seu método. Isso levou ao seu convite para pensar o Plano Nacional de Alfabetização no governo Jango, com a meta de alfabetizar 5 milhões de adultos, interrompido pelo golpe militar.
- 00:09:55 — Prisão e exílio de Freire após o golpe militar de 1964 — Com o golpe militar consolidado, Paulo Freire foi preso por 60 dias e acusado de subversão. Após ser interrogado, foi aconselhado a pedir exílio, indo primeiro para a Bolívia e depois para o Chile. No Chile, trabalhou no Departamento de Reforma Agrária e publicou a primeira edição de ‘Pedagogia do Oprimido’ em 1968.
- 00:11:30 — Reconhecimento internacional e impacto do exílio na fama de Freire — Discute-se como o exílio forçado catapultou Freire para o reconhecimento mundial, com centros de estudo dedicados a ele em universidades como a da Califórnia. É mencionada a ironia de que os militares, sem querer, ajudaram a divulgar suas ideias globalmente. Freire é mais citado e estudado no exterior do que no Brasil.
- 00:20:26 — Estatísticas de citações e impacto acadêmico global de Freire — São apresentados dados que confirmam o impacto internacional de Paulo Freire: ‘Pedagogia do Oprimido’ é o terceiro livro mais citado em ciências sociais no mundo. Em países de língua inglesa, é o 99º mais citado em pedagogia, sendo o único brasileiro entre os 100 primeiros, destacando sua relevância acadêmica apesar de barreiras ideológicas.
- 00:24:14 — Exemplo prático da gestão de Freire como secretário de educação — Quando secretário municipal de educação em São Paulo, Freire priorizou a escuta sensível dos estudantes. Em uma visita, um aluno pediu papel higiênico nos banheiros, e Freire viu isso como uma questão de humanização. Sua gestão investiu em infraestrutura escolar e conselhos populares, aplicando seus princípios ético-políticos na prática.
Dados do Episódio
- Podcast: Fronteiras da Ciência
- Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
- Categoria: Science
- Publicado: 2021-09-21T22:00:00Z
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/fronteiras-da-ci%C3%AAncia/fb4669d0-4a98-012e-1aa8-00163e1b201c/t12e29-desmistificando-paulo-freire/b3c0a2b1-a27b-418a-8967-2f0fe5fb7835
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Dados do Podcast
- Nome: Fronteiras da Ciência
- Site: http://frontdaciencia.ufrgs.br
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Transcrição
[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, onde discutiremos os limites entre o que é ciência e o que é mito.
[00:00:10] Eu vivo e luto. Pedro vive e luta. O povo vive e luta. Eu, Pedro e o povo vivemos. Eu, Pedro e o povo lutamos.
[00:00:24] Lutamos para viver. Viver é lutar. Essa é a primeira página da cartilha de alfabetização para adultos que foi criada por Paulo Freire no ano de 1963.
[00:00:37] Logo adiante, na página da frente, começa a explicar o alfabeto. Nosso alfabeto tem 23 letras, 5 são as vogais, as demais são consoantes.
[00:00:46] Exercícios. Risca as vogais na seguinte frase. Isso é uma forma excelente, ao meu ver, de introduzir um pouco do que é o legado à obra desse grande filósofo educador,
[00:00:58] um dos personagens mais importantes da história do nosso país, que completa 100 anos nesse dia 19 de setembro de 2021.
[00:01:06] Essa cartilha tinha sido apreendida na gráfica na Guanabara e estava proibida, isso antes do golpe. Por que essa cartilha?
[00:01:13] Eu recomendo que quem puder leia na íntegra. É uma forma muito eficiente de compreender, ao meu ver, parte do chamado método Paulo Freire.
[00:01:21] Um exemplo concreto, frase a frase, de um tratamento digno do aprendiz, de respeito e mesmo carinho pelo ser humano.
[00:01:28] Ele não ensina, ele ajuda a aprender. Através da compreensão da palavra escrita, então, com alfabetização, esse indivíduo, que é parte do povo antes alijado dos assuntos todos da humanidade,
[00:01:38] é alçado pela primeira vez a condição de cidadania mínima, começando a entender e a tomar parte desse mundo. Por que viver é lutar? Esse é o nome da cartilha.
[00:01:47] No Fronteiros de hoje, nós conversaremos sobre a vida e obra desse grande mestre, Paulo Freire, no seu aniversário.
[00:01:53] E para falar sobre ele, a Fernanda dos Santos Paulo, graduada em Pedagogia e Filosofia, ela é professora pesquisadora dos cursos de mestrado,
[00:02:01] mestrado, doutorado, programa de pós-graduação em educação da Universidade do Oeste de Santa Catarina, especialista em educação popular e movimentos sociais,
[00:02:10] fez o mestrado na URGES, seu doutorado nos ensinos, uma especialista em temas freianos, militante do Movimento de Educação Popular, da Associação de Educadores Populares de Porto Alegre
[00:02:20] e também no Fórum Educação de Jovens e Adultos do Rio Grande do Sul. Conta pra gente um pouco quem é esse homem, Paulo Freire.
[00:02:27] Quero começar por uma outra curiosidade que muitas vezes as pessoas não conhecem da vida e obra do Paulo Freire.
[00:02:36] Então eu vou fazer um movimento de contando um pouquinho o Paulo Freire pessoa, o Paulo Freire um intelectual, o Paulo Freire um militante da educação.
[00:02:47] O livro Pedagogia do Oprimido é muito curioso, é uma obra que Freire escreve durante o seu exílio no Chile.
[00:02:56] O livro foi publicado em 1968, é um dos livros mais conhecidos do Paulo Freire, o nosso patrono da educação aqui no Brasil.
[00:03:06] Assim como a cartilha Viver é Lutar foi apreendida e proibida, o livro do Paulo Freire Pedagogia do Oprimido também foi.
[00:03:15] Que no Brasil apenas em 1974 os brasileiros puderam conhecer uma versão da obra que já tinha sido ou que já tem inclusive muito mais de 30 idiomas.
[00:03:30] Que é a originalidade dessa obra e das outras tantas obras de Paulo Freire.
[00:03:35] São mais de 50 obras no total, sendo autor único, autor com outros companheiros e companheiras.
[00:03:43] Na Pedagogia do Oprimido, por exemplo, o Paulo Freire nos apresenta suas influências teórico-epistemológicas.
[00:03:51] Nesta obra do Paulo Freire, na Pedagogia do Oprimido, a gente vai observar que ele cita John Dewey, Karl Marx, por exemplo, Eric Fromm, enfim, o Martin Buber que influenciou ele inclusive no conceito de diálogo.
[00:04:10] Jean-Paul Sartre?
[00:04:11] Também é citado no Paulo Freire. Em 22 obras que nós analisamos no grupo do Danilo, ele tem mais de 500 referências e essas referências nos mostram que ele tem uma originalidade no seu pensamento.
[00:04:26] E ele não fica apenas numa raiz filosófica, ele bebe do marxismo sim, ele bebe da fenomenologia, ele bebe do existencialismo, sobretudo cristão, ele bebe da teologia da libertação, enfim.
[00:04:41] Ele passou, durante a sua infância, por momentos de perder o pai, a família dele, teve uma crise financeira, a mãe precisou lutar, inclusive lutar pelo direito ao estudo do Paulo Freire.
[00:04:57] A mãe não tinha condições de pagar uma escola. Então, Paulo Freire conclui aquilo que se chamava de escola primária, e depois foi para o ginaseal, onde ele pôde, inclusive, ter suas primeiras experiências como professor.
[00:05:13] Lembro que Paulo Freire mora em Jaboatão, que é bem conhecido lá em Recife, em Pernambuco. Ele vai trazer, por exemplo, para nós que ali, na sua juventude, em Jaboatão, é que quando é muito jovem, ele vivençou essa experiência de dificuldades financeiras, de uma vida muito pobre.
[00:05:37] Foi ali que ele começou a se questionar por que existia fome, por que existia diferença social. E, a partir deste momento, ele começa a lutar, se questionar por um mundo, dizer que nós precisávamos ter um mundo bem melhor.
[00:05:52] No finalzinho dos anos 30, ele vai para o Colégio Oswaldo Cruz, lá de Recife. Paulo Freire foi bolsista nesse colégio, pedindo da mãe dele, que bateu na porta da escola, pedindo uma bolsa.
[00:06:04] E ele termina seus estudos, então, secundários, vai fazer o curso de Direito. Paulo Freire não teve uma formação em licenciatura, Jorge.
[00:06:15] Só que é muito interessante que a primeira vez que Paulo Freire pega uma causa para trabalhar enquanto advogado, como profissional do Direito, ele desiste da advogacia e se dedica ao magistério por conta das questões éticopolíticas que ele trazia da sua trajetória ainda muito jovem.
[00:06:36] Ele achou muito injusta a causa que ele havia perto. E na década de 40, antes mesmo dele concluir os seus estudos em nível universitário, ele se casou com a Elza Maria Costa de Oliveira.
[00:06:48] E tu comentava sobre o método Paulo Freire. A Elza, a primeira esposa do Freire, contribuiu muito para o método. Pena que as mulheres são pouco citadas, né? Mas o Freire cita bastante a Elza nas suas obras.
[00:07:03] Ele agradece muito fortemente a ela, que, aliás, estaria comemorando 105 anos agora, né?
[00:07:09] Perfeito, Jorge. E o mais bacana, a Elza era professora dos anos iniciais, que a gente chama hoje, né? E na época se falava professora primária.
[00:07:20] Paulo Freire, com a Elza, teve cinco filhos e depois iniciou a sua trajetória como professor. E aí ele lecionou a língua portuguesa.
[00:07:30] Depois, ainda nos anos 40, ele teve uma primeira experiência com educação de jovens e adultos. Também atuou no Conselho de Educação de Recife.
[00:07:41] Pouca gente sabe que o Freire tem, sim, uma trajetória nas políticas educacionais. Ele é um filósofo da educação, mas ele é um filósofo teórico-prático.
[00:07:52] Ele trabalhou no SESI, um setor da educação, diretor da Cultura e Recreação da Prefeitura Municipal de Recife.
[00:08:01] Um pouco antes de 59, Freire presta, isso é bem interessante, um concurso para uma disciplina que era Filosofia e História da Educação na então Universidade de Recife, que hoje é de Pernambuco.
[00:08:15] Com esse concurso, ele recebe o título de doutora, ele fica em segundo lugar. E a tese dele, Educação e Atualidade Brasileira, então defende essa tese.
[00:08:26] E depois, então, foi um dos fundadores do Movimento de Cultura Popular, o que a gente chama de MCT.
[00:08:33] Freire começa, no final de 59 e principalmente nos anos 60, a atuar fortemente em Movimento de Educação Popular.
[00:08:43] Nesse período é que se destaca o método Paulo Freire, que ele também trabalha nesse período para assessoramento a campanhas de alfabetização de jovens e adultos.
[00:08:53] Na verdade, na época, nem se falava jovens, era educação de adultos.
[00:08:58] E o Freire teve uma experiência muito bacana que todo mundo conhece lá do Rio Grande do Norte, 40 horas em Angicos.
[00:09:06] Ele faz alfabetização nesse prazo, 40, 45 dias, de 300 trabalhadores, e é um sucesso.
[00:09:13] Ele depois foi convidado para conduzir a ideia do Plano Nacional de Alfabetização no governo Jango, que tinha um plano bem arrojado.
[00:09:21] Ele teve uma atuação muito forte nos anos 50 e no início dos anos 60 até ter que sair.
[00:09:26] Ele foi convidado pelo ministro da Educação, que se chamava Paulo de Tarso de Santos, para pensar uma política nacional de alfabetização.
[00:09:35] E Paulo Freire, nesse período dos anos 60, esteve muito presente em Brasília e a meta era, de fato, alfabetizar 5 milhões de adultos em todo o Brasil.
[00:09:47] Mas com o golpe militar, não só os círculos de cultura foram impedidos, mas todo o avanço que se tinha, né, foi proibido.
[00:09:55] Em golpe consolidado, Freire foi preso, ficou preso por 60 dias. Ele foi interrogado e acusado como subversivo.
[00:10:05] Ele foi preso como traidora. O Paulo Freire, ele era muito católico, né? Como é que é essa parte da vida dele?
[00:10:12] Eu aprendi muito com o Baldwin Andreolas sobre o Conselho Mundial das Igrejas.
[00:10:17] Foi um período que Freire também pôde ser reconhecido, né?
[00:10:21] Freire conheceu muitos países por conta dessa atuação.
[00:10:25] E ele proferiu palestra, curso, seminário, assessoria com o tema da educação libertadora.
[00:10:33] Que está nessa vertente cristã do Paulo Freire.
[00:10:36] A partir dos anos 70, principalmente, quando ele foi trabalhar no Departamento de Educação e Formação Ecumênica, lá em Genebra,
[00:10:45] Freire conheceu a África, a Ásia, países que ele também realizou um trabalho de educação de adultos, né?
[00:10:53] Inclusive fundou um instituto de educação popular que se chamava IDAC.
[00:10:58] E a equipe do IDAC buscavam, então, organizar sistemas de educação nesses países africanos,
[00:11:05] contribuindo aí para os processos de emancipação.
[00:11:09] Da experiência do Paulo Freire no CMI, ele teve uns 10 anos,
[00:11:15] conheceu vários autores e que trabalhavam com essa vertente da teologia da libertação.
[00:11:21] Duas coisas importantes. O Paulo Freire adquiriu o renome mundial.
[00:11:25] E ele é extremamente reconhecido lá fora, eu diria, até mais que no Brasil.
[00:11:30] Eu me lembro que eu estava em 1990, 91, na Universidade da Califórnia, em Irvine, fazendo doutorado de sanduíche.
[00:11:37] Lá tinha um centro que se dedicava a estudar Paulo Freire. Hoje tem um centro Paulo Freire na Universidade de Los Angeles,
[00:11:42] mas em Irvine tinha e ele era professor visitante, ele ia de vez em quando lá.
[00:11:46] Nem conhecia essa universidade antes de ir para lá e o Paulo Freire vinha aqui.
[00:11:50] É interessante que os meios acadêmicos, intelectuais, pensadores, ativos,
[00:11:55] fazem esse reconhecimento, mas governos e outros em geral têm outros projetos e eles se chocam muitas vezes.
[00:12:01] E a segunda coisa é o que a ditadura fez para ele.
[00:12:05] Eu tenho uma tese que, graças aos militares, ele também teve o reconhecimento mundial,
[00:12:09] porque senão ele não teria tempo para sair fazer essas andanças pelo mundo,
[00:12:13] já que ele era extremamente ocupado desde os anos 50,
[00:12:16] postos em municípios, estados, no governo depois.
[00:12:20] Mesmo quando ele voltou do exílio e esteve com a Irundina em São Paulo, ele sempre estava muito engajado aqui.
[00:12:26] Então o exílio, ao qual ele foi forçado depois da prisão dele, depois do golpe,
[00:12:31] que levou ele para Bolívia, depois para o Chile, ele trabalhou cinco ou seis anos no Chile,
[00:12:36] lá no final dos anos 60, antes inclusive do governo Aliente,
[00:12:40] foi lá que foi publicada a primeira edição da Pedagogia do Primito.
[00:12:43] Ou seja, os militares sem querer ajudaram a catapultar ele para o mundo.
[00:12:48] E é mais, a alfabetização é uma coisa que não passava pela consciência de administradores até então.
[00:12:53] E eles se deram conta, não. Nesse novo cenário econômico é importante o trabalhador ser alfabetizado,
[00:12:59] para poder fazer mais e melhor e tal. Tanto então que eles pegaram e adaptaram o programa de alfabetização e criaram o MoBral.
[00:13:05] Os legados silenciosos, obviamente não com o mesmo método, era mais uma instrução alfabetizadora,
[00:13:10] mas é o fragmento que sobrou disso.
[00:13:12] Sobre esse período da ditadura militar, realmente o Freire se torna conhecido porque sai do Brasil,
[00:13:19] então é a partir do exílio e do CMI, que ele se torna de fato reconhecido internacionalmente.
[00:13:27] Ele fica preso e aí foi aconselhado a pedir exílio no Chile.
[00:13:32] Aí ele chega no Chile, ele é convidado pelo governo da época, que era Eduardo Freire,
[00:13:38] para trabalhar no Departamento de Reforma Agrária, onde ele faz também um trabalho de educação de adultos.
[00:13:44] E aí ele ficou trabalhando até 68, no período que ele lançou a pedagogia do oprimido.
[00:13:51] Aí Freire conhece lá lideranças políticas intelectuais, inclusive do Brasil, que tinha também pedido exílio.
[00:13:59] E ele se aproxima com o Hernane Maria Fiore, que é um gaúcho, faz o prefácio da pedagogia do oprimido.
[00:14:07] E que foi um dos professores da primeira leva de expurgados da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
[00:14:13] E ele escreveu o prefácio do livro, que é uma jóia.
[00:14:15] Para ele diz que era melhor do que o livro dele, mas só para não esquecer,
[00:14:19] antes da ditadura, em 63, por conta dos círculos de cultura, do programa nacional de alfabetização,
[00:14:27] o Freire conhece então o Hernane Maria Fiore antes do exílio.
[00:14:32] Lá ele amplia a amizade, mas Freire teve em Porto Alegre, em 63, junto com o ministro da Educação da época,
[00:14:41] para tratar junto com o Hernane Maria Fiore, sobre a criação de um instituto que se chamaria de cultura popular.
[00:14:50] Esses dados é do Baldwin Andreola, a gente tem um texto que é a cronologia do Paulo Freire no Rio Grande do Sul.
[00:14:59] E aqui no Rio Grande do Sul, a criação seria de mais de 600 círculos de cultura.
[00:15:05] Já tinham as escolas do Brizola instaladas, já tinha uma rede voltada à educação, agora é a camada da educação de adultos.
[00:15:14] Antes do golpe civil-militar, o Freire esteve aqui em março de 64,
[00:15:21] e aí ele faz uma palestra para professores do estado do Rio Grande do Sul sobre o método Paulo Freire.
[00:15:28] Então veja que ele circulava, e não foi só aqui em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em vários estados,
[00:15:35] eu fiz o mapeamento, ele circulou, foi o período em que vai circulando pelo Brasil,
[00:15:41] ou seja, embora não tenha sido tão reconhecido no Brasil e tão valorizado enquanto educador,
[00:15:48] intelectual, filósofo da educação, ele tinha uma circulação antes do exílio,
[00:15:54] mas ele se torna um intelectual com reconhecimento internacional, como tu bem colocou, a partir então do exílio.
[00:16:03] Ele circulava muito, ele nacionalizou a ideia com um esforço brutal de movimentação, de conversas,
[00:16:10] de preparação, de fundação, de estudos, e com os contatos certos, ou seja, foi muita coisa,
[00:16:15] e ele serve sempre muito ativo, se não fosse o golpe que teria feito nos anos 60, 70,
[00:16:20] só dá pra imaginar uma história contrafatual que seria um outro planeta.
[00:16:25] Inclusive o Balduíno conta uma história que eles tiravam a capa do livro Pedagogia do Oprimido
[00:16:32] e levavam o livro pra dentro da URGES, escondido, eu chamo isso de educação popular clandestina,
[00:16:40] na época da ditadura militar, educação popular nunca morreu, ela foi clandestina por um tempo,
[00:16:46] dentro do Brasil. Mas Jorge, só pra lembrar algumas coisas interessantes aqui que eu acho que vale a pena,
[00:16:53] na década de 70 tem algumas publicações do Paulo Freire, que eu inclusive gosto muito,
[00:17:00] como por exemplo, Educação e Mudança, eu gosto muito dessa obra, e ela é da década de 70,
[00:17:06] ele tem aí a Cartas a Guiné-Bissau, que é ótima, Relação, Educação e Trabalho, tá nessa carta,
[00:17:13] Conscientização é uma obra muito legal, Ação Cultural para a Liberdade, ele vai ser um período
[00:17:20] também de fortalecimento, eu digo assim, da própria concepção de educação que ele tem.
[00:17:28] E quando Paulo Freire volta, como tu colocou ao Brasil, e tinha toda aquela questão da anistia
[00:17:36] de exilados políticos, enfim, Freire concedeu uma entrevista aqui, e ele diz que eu acho muito bonito
[00:17:44] que ele volta pro Brasil com muita vontade de reaprender o seu país, e também de trabalhar
[00:17:51] a favor da educação do povo, né? Então ele vai pra PUC São Paulo, ser professor, e pra Unicamp,
[00:18:00] e aí na PUC de São Paulo ele vai trabalhar no programa de pós-graduação, e ele trabalha até o final da sua vida.
[00:18:07] Lá ele conhece a Ana Maria Saúl, que é da PUC, eu entrevistei ela, por isso que eu vou contar esse pequeno trecho.
[00:18:15] Ela conta que o Freire tava sentado na mesa dos professores, e ela chega e ele pergunta
[00:18:23] Ah, tu me ajuda aqui pra encher o plano de aula, que ele não sabia mexer com essas coisas burocráticas, né?
[00:18:29] Sei, daí ela sentou, ajudou, e eles começaram uma amizade a partir do plano de aula.
[00:18:35] Aí a outra coisa que tinha é a Vanilda Paiva critica o Paulo Freire, e algumas coisas têm razão,
[00:18:43] as primeiras leituras do Paulo Freire, o Freire realmente ele vai se tornando um educador mais crítico depois, né?
[00:18:52] As primeiras leituras do Paulo Freire ele ainda não tem assim, na verdade não é que ele não tem uma distinção epistemológica.
[00:19:00] O que acontece? Eu fui entrevistar a Vanilda Paiva pra saber essa história.
[00:19:04] O que a Vanilda Paiva contou? Então eu entendo muito bem o Paulo Freire porque já passei por isso.
[00:19:09] Ela dizia assim, nos anos 50, 60, não tinha bibliotecas públicas pelo país. Quem conseguia comprar livro é quem tinha dinheiro.
[00:19:20] Quem não tinha dinheiro lia o livro dos companheiros. Só que o Freire tá lá no Nordeste, ela tá lá no Rio de Janeiro.
[00:19:26] Ela era uma pessoa que tinha condições, então ela comprava, ela mandava ver livros do México, enfim,
[00:19:33] e ela lia os livros e depois circulavam esses livros. E ela diz que Paulo Freire vai ter contato com uma ampla literatura a partir do Izeb.
[00:19:48] Inicialmente o Paulo Freire não teria lido os clássicos, porque não tinha condições de comprar.
[00:19:54] Ele lia os leitores dos clássicos.
[00:19:56] Ou seja, ele é um lutador que teve que lutar também. Ele começou, ele tem a experiência pessoal de não ter podido estudar.
[00:20:04] Muitos dos irmãos dele parece que não completaram a escola, foram trabalhar.
[00:20:08] Os irmãos mais velhos, ele agradece aos irmãos mais velhos, não sei em que momento lá, por eles terem feito isso,
[00:20:13] porque eles ajudaram a sustentar e permitiram que ele estudasse, mesmo assim em condições limitadas na região,
[00:20:20] sem muito material. E sobreviveu, eu acho incrível isso.
[00:20:26] Eu queria enfatizar um pouco nessa questão do impacto internacional dele, do reconhecimento.
[00:20:31] Tem alguns números, eu não sei se confere, mas…
[00:20:34] Realmente ele é o terceiro autor mais citado em nível internacional, os livros dele, sobretudo A Pedagogia do Oprimido.
[00:20:42] Na Wikipédia, que é uma fonte geralmente confiável, e é mesmo, inclusive eu trabalho com ela,
[00:20:48] Londo School of Economics descobriu que A Pedagogia do Oprimido é o terceiro livro mais citado mundialmente na área de ciências sociais.
[00:20:56] E antes disso, um outro grupo pesquisou nas versidades de língua inglesa, Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia,
[00:21:04] e descobriu que, nesses países, que A Pedagogia do Oprimido é o 99º livro mais citado na área de pedagogia,
[00:21:11] ou de ensino, e é o único brasileiro entre os 100 mais citados no campo da educação.
[00:21:18] Ou seja, ele é o único brasileiro entre os 100 mais citados no campo da educação nos principais países de língua inglesa,
[00:21:24] onde tu espera aí, inclusive, uma rejeição ideológica e tudo mais. Esses números conferem?
[00:21:30] Conferem, conferem sim. Agora tu tava falando disso, o atual desgoverno do país tá querendo, de novo, colocar o pensamento do Freire no exílio.
[00:21:42] Ah, nem falamos do fato dele ser o patrono, né?
[00:21:46] Em 2012 ele recebe por lei o título de patrono da educação brasileira.
[00:21:54] O Freire, ele foi presidente do SEAL, o primeiro presidente, né, que era do Conselho Latino-Americano de Educação Popular e Educação de Jovens e Adultos.
[00:22:06] Hoje não tem mais adultos, é de Educação Popular da América Latina e Caribe.
[00:22:11] Eu também tô participando dessa campanha, porque, na verdade, a EEPA é filiada ao SEAL, a EEPA é a Associação dos Educadores Populares de Porto Alegre,
[00:22:19] que também faz parte do Café Paulo Freire, dessas coisas assim.
[00:22:23] E aí eu lembro que o SEAL, né, fez um movimento amplo desde 2019 pra construir, então, uma campanha latino-americana e caribenha em defesa do legado Paulo Freire.
[00:22:37] Aqui no Rio Grande do Sul, nós temos um nome que eu vi no REC, e ele representa pelo Rio Grande do Sul o SEAL.
[00:22:46] E aí o que acontece? Essa campanha, aqui no Brasil em especial, ela é importante em defesa do legado do Paulo Freire,
[00:22:54] sobretudo pelo enfrentamento adverso que a gente vem vivendo, que é marcado por quê? Primeiro, né, em nível mais macro.
[00:23:01] A desigualdade social, desigualdade educacional, os processos históricos de opressão, as mortes, a negação da ciência, enfim.
[00:23:12] A gente acredita, e aí seria um outro debate, que essa crise, ela é uma crise política, mas também é uma crise estrutural do próprio sistema.
[00:23:24] E aí por que eu tô colocando isso, né? Eu acho que é importante, em particular aqui no nosso país, pra dizer assim, com tudo isso, a gente tem o quê?
[00:23:34] O pensamento crítico do Freire sendo perseguido. O principal inimigo desse atual governo é o Paulo Freire.
[00:23:42] A gente tem dito que depois de tudo isso, o Freire tá vivendo seu segundo exílio. Precisamos expulgar o Paulo Freire.
[00:23:50] Então não vamos esquecer dessa frase, não vamos esquecer das fake news ideológicas da extrema-direita,
[00:23:59] dizendo que o Paulo Freire é um dou-trenador, que Paulo Freire é um perigo pra educação.
[00:24:06] Então entrevistando professores e professoras do município de São Paulo, quando Paulo Freire foi secretário de educação,
[00:24:14] a primeira coisa que ele foi fazer quando assume a gestão municipal é ir escutar os estudantes da comunidade escolar.
[00:24:22] E aí ele pergunta o que escola temos e que escola queremos. E um estudante diz assim, que gostaria que tivesse papel higiênico no banheiro.
[00:24:30] E o Freire vai dizer que isso é uma desumanização não ter papel higiênico no banheiro.
[00:24:35] Então o Paulo Freire escutava os sujeitos, a escuta sensível. Então não só escuta, mas era a palavra ação.
[00:24:44] Então ele colocava na ação e foi o período em que ele investiu na infraestrutura da escola, em conselhos populares.
[00:24:53] Enfim, não poderia esquecer de dizer isso, porque eu acho que é importante a gente também se posicionar.
[00:25:00] E recebemos crítica perfeitamente ao Paulo Freire, não tem problema.
[00:25:04] Sim, ele é um ser humano, ele também tem suas limitações, mas Paulo Freire tem um legado muito importante.
[00:25:09] Ele foi um intelectual teórico prático que escreveu, mas também buscou colocar na prática a sua concepção de educação.
[00:25:18] E eu penso que isso também não pode ser descartado nos nossos livros de História da Educação,
[00:25:24] porque normalmente ele aparece como um pensador da educação de jovens e adultos.
[00:25:28] Paulo Freire não é só um pensador da educação de jovens e adultos, é também.
[00:25:33] E o Paulo teve essa trajetória de muita atividade no Brasil, o exílio, então muita atividade no exterior,
[00:25:39] o retorno e mais atividade no Brasil.
[00:25:42] Nessa coisa de viajar para a África e outros, ele tomou consciência de uma segunda dimensão,
[00:25:46] além da questão da conscientização e da humanização, que é a questão da descolonização.
[00:25:53] Elaire, um pouco com a Milca Cabral, com outros, com, sobretudo, França, compreendeu perfeitamente que não é só isso,
[00:26:01] tem também uma colonização cultural e isso também tinha consciência muito clara.
[00:26:06] Eu acho interessante que ao longo dos anos ele foi usando, digamos, slogans um pouco diferentes.
[00:26:12] Ele começou com Pedagogia do Oprimido, em outro momento ele falou na Pedagogia da Esperança,
[00:26:17] ele fala em Pedagogia da Autonomia, mas o movimento se chama Pedagogia Crítica,
[00:26:21] paralelizando movimentos análogos que existem na crítica literária, filosofia política e filosofia da sociologia.
[00:26:28] Nos últimos anos de vida do Paulo Freire, ele produziu as suas pedagogias.
[00:26:34] A partir da Pedagogia do Oprimido, nós temos a Pedagogia da Esperança e a Pedagogia da Autonomia,
[00:26:41] que eu acredito que são duas obras que são necessárias para compreender esse pensamento intelectual,
[00:26:49] pedagógico de Paulo Freire, porque a palavra educação ao Paulo Freire é uma palavra que não é neutra.
[00:26:56] É uma palavra cheia de intencionalidades, ela é uma palavra que é acompanhada pela luta ético-política.
[00:27:08] Então a educação que se dá para além do espaço da escola, a educação que se dá de uma forma emancipatória, popular.
[00:27:18] Freire tem um livro que é a Sombra Dessa Mangueira.
[00:27:22] Neste livro a gente vai encontrar a concepção ético-política da educação, da mobilização popular,
[00:27:28] da intervenção ético-política, de uma liderança lúcida, de uma liderança democrática, esperançosa,
[00:27:35] porque nunca vai abandonar a esperança. E aqui é importante que Freire diz,
[00:27:40] mas Freire é utópico, a utopia para o Paulo Freire é a denúncia daquilo que nos desumaniza
[00:27:47] e o anúncio de novas possibilidades, ou seja, ele nunca perdeu a esperança, que era pedagogia da indignação.
[00:27:55] Em pedagogia da indignação a gente consegue enxergar o Paulo Freire um militante da educação popular crítica libertadora.
[00:28:03] Já que nós mencionamos o prefácio do Hernandes Maria Fiori, eu termino com palavras dele,
[00:28:09] o final desse prefácio ele diz o seguinte, talvez seja pertinente nesse momento que nós estamos vivendo.
[00:28:14] No último parágrafo do prefácio a pedagogia do oprimido em 1968.
[00:28:44] Difícil, porém imprescindível aprendizado. Essa é a pedagogia do oprimido.
[00:28:51] Esse foi o Fronteiras da Ciência, hoje nós falamos sobre Paulo Freire no seu centenário,
[00:28:55] com homenagem à Patrona da Educação Brasileira.
[00:28:58] Conversamos com a Fernanda Paulo da Universidade do Oeste de Santa Catarina,
[00:29:02] e também integrante do Movimento de Educação Popular e Associação de Educadores Populares de Porto Alegre.
[00:29:08] Com ela estive conversando o Jorge Kiufo do Departamento de Geofísica, Instituto de Ciências da URGES.
[00:29:14] O programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGES.