EU, VC e MAIS NINGUÉM?
Resumo
André Alves e Lucas Lid, psicanalistas e pesquisadores, inauguram a segunda temporada do podcast Vibes em Análise discutindo as configurações contemporâneas do amor e dos relacionamentos. O episódio parte da constatação de que os brasileiros estão casando menos e se divorciando mais, questionando se existe uma pressão social contra o casamento tradicional e a favor de formatos como relacionamentos abertos e poliamor.
Os hosts traçam um panorama histórico da monogamia, entendendo-a como uma invenção humana ligada ao controle da reprodução e à transmissão de bens materiais dentro do sistema capitalista. Eles discutem como o amor romântico, popularizado por Hollywood, criou expectativas irreais de fusão total entre os parceiros, uma ideia que hoje parece entrar em crise. A conversa aborda a função da monogamia no controle da sexualidade feminina e no patriarcado, e como revoluções como a sexual, feminista e LGBTQIAP+ dissociaram sexo de procriação, abrindo espaço para questionar normas universais.
O episódio detalha diferentes formatos de relacionamento, definindo termos como poligamia (com suas variantes poliginia e poliandria), poliamor (entendido como um movimento social recente que defende relações sexuais e afetivas múltiplas com consentimento e transparência) e relacionamentos abertos. Eles alertam para o risco de esses formatos serem cooptados por uma lógica de performance, onde se busca parecer uma pessoa “evoluída” e desapegada, suprimindo afetos constitutivos como ciúme e insegurança.
A psicanalista convidada Ana Sui contribui com a perspectiva de que toda relação é sempre uma relação a três, pois existe um espaço entre os dois que dá dignidade ao vínculo. Ela fala sobre a importância de poder estar tanto dentro quanto fora da relação, e que o amor implica necessariamente em perda – perdemos narcisismo, ideais, e outras possibilidades ao escolher um caminho. O desejo, na psicanálise, é entendido como algo que busca apenas mais desejo, não se fixando em um único objeto.
A discussão final aborda a apropriação do amor pela lógica do consumo, especialmente através de aplicativos de relacionamento, que funcionam como tecnologias de escolha, comparação e idealização. Os hosts refletem sobre ciúme, traição e a dificuldade de definir pactos claros, citando que 70% das pessoas não discutem com os parceiros o que consideram uma traição. Eles concluem que talvez alguma traição sempre exista, nem que seja no plano do pensamento, e que o desafio é negociar contrato a contrato, desejo a desejo, em meio a uma cultura que cultua o ego e tem dificuldade de lidar com a falta.
Indicações
Conceitos
- Compersão — Termo discutido como o sentimento de ficar feliz ou excitado pelo fato do parceiro estar realizando seu desejo com outra pessoa, visto como um difícil exercício de alteridade.
Obras
- Totem e Tabu (Freud) — Texto de Freud mencionado por detalhar o mito do pai da horda primitiva e pela discussão sobre a interdição do incesto como fundadora da civilização.
- Introdução ao Narcisismo (Freud) — Texto freudiano citado por conter a famosa frase ‘amar ou adoecer’, discutida no contexto de que amar é uma forma de se livrar do excesso de si mesmo.
- O Banquete (Platão) — Diálogo de Platão mencionado como a origem do mito das ‘almas gêmeas’ ou das ‘metades que se completam’, um modelo que está em crise nos relacionamentos atuais.
Pessoas
- Sigmund Freud — Mencionado por sua teoria do complexo de Édipo, do pai da horda primitiva em ‘Totem e Tabu’, e pela frase ‘amar ou adoecer’ do texto ‘Introdução ao Narcisismo’.
- Judith Butler e Paul Preciado — Citados como teóricos que provocam a entender a interdição à homoafetividade como um trauma de gênero profundo, abrindo portas para rearranjos e subversões das normas.
- Regina Navarro — Psicanalista referenciada por sua fala de que, após as revoluções recentes, ‘amar virou um verbo mais plural’, abrindo possibilidades para explorar esse significante.
- Christian Dunker — Psicanalista citado por sua análise em um vídeo onde define o casamento como uma ‘perversão consentida’, por entregar ao outro poder sobre o uso do nosso corpo e desejo.
- Bruce Fink e Alexandre Kojève — Referenciados na discussão sobre o desejo. Fink fala do desejo como uma ‘sede por vagar’ (wanderlust), e Kojève afirma que ‘o desejo humano não deseja objetos, ele deseja desejos’.
- Paul Valéry — Poeta citado com a frase: ‘o que há de melhor numa coisa nova é aquilo que satisfaz um desejo antigo’, usada para refletir sobre a atração por novas pessoas em relacionamentos.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução ao tema: relacionamentos na contemporaneidade — André e Lucas apresentam o episódio, questionando o significado de namorar ou ter um relacionamento nos dias de hoje. Eles citam dados do IBGE sobre a diminuição dos casamentos e o aumento dos divórcios, e perguntam se existe uma pressão social para não casar ou para viver relacionamentos abertos. O tema é lançado como uma reflexão sobre as mudanças culturais e o culto ao ego.
- 00:02:25 — Origens históricas e função social da monogamia — Os hosts retomam a história da monogamia, explicando que é uma invenção humana, não um arranjo natural eterno. Eles a vinculam a mudanças socioeconômicas e ao capitalismo, como uma forma de controlar a reprodução e assegurar a herança de bens materiais. A monogamia é apresentada como uma estratégia social de evolução, mas questiona-se se ainda faz sentido hoje.
- 00:04:20 — A crise do amor romântico e a busca por novos pactos — André discute como o amor romântico, inventado no século XVII e massificado por Hollywood, está em crise. As pessoas estão tentando ser mais criativas nos pactos relacionais, pois o modelo do “para sempre” e da “metade da laranja” (inspirado no Banquete de Platão) não faz mais sentido para muitos. No entanto, a cultura ainda bombardeia com imagens que reforçam esse ideal.
- 00:06:03 — Monogamia, patriarcado e controle da sexualidade feminina — Lucas argumenta que a monogamia é uma forma de manter o patriarcado e controlar a sexualidade feminina. Ele cita um tweet famoso que diz “a monogamia mata”, relacionando-o aos altos índices de feminicídio por suspeita de traição. Ele contrasta isso com a maior abertura à não-monogamia em relacionamentos entre homens gays, destacando o vínculo da monogamia heterossexual com a heteronormatividade compulsória.
- 00:08:29 — Revoluções que questionaram a norma monogâmica — Os hosts listam as revoluções que dissociaram sexo de procriação e abriram espaço para questionar a norma universal do amor monogâmico e heterossexual: revolução sexual, pílula anticoncepcional, movimentos feminista e LGBTQIAP+. Eles conectam isso à interdição à homoafetividade, discutida por teóricos como Judith Butler e Paul Preciado.
- 00:10:30 — Glossário das relações: poligamia, poliamor e relacionamento aberto — André e Lucas definem termos. Poligamia é um sistema com vínculo legal (poliginia, poliandria). Poliamor é um movimento social mais recente que defende relações múltiplas com consentimento, ligado à fluidez de gênero e orientação sexual. Relacionamento aberto é uma expressão mais difundida que pode incluir até monogamias que sustentam uma abertura para o desejo circular.
- 00:15:44 — A pressão para ser “evoluído” e a supressão dos afetos — Os hosts alertam para a roupagem de autoajuda ou coaching que pode acompanhar propostas de relacionamento aberto, criando uma pressão para ser uma pessoa desapegada, não ciumenta e “evoluída”. Eles criticam a ideia de que é possível uma relação sem crise, destacando que afetos como ciúme e insegurança são constitutivos e vêm do nosso complexo de Édipo e história psíquica.
- 00:18:47 — Participação da psicanalista Ana Sui: a relação sempre é a três — Ana Sui argumenta que numa relação a dois, as pessoas tentam fazer um, mas sempre há um terceiro elemento: o espaço entre elas. Esse espaço dá dignidade ao vínculo. Ela conecta isso ao complexo de Édipo, que ensina a ficar de fora. Para ela, a possibilidade de terminar ressignifica o relacionamento, e amar implica em perder (narcisismo, ideais).
- 00:23:31 — Compersão, desejo e a lógica do consumo nos aplicativos — Os hosts discutem a compersão (felicidade pela realização do desejo do parceiro com outro) como um exercício difícil de alteridade. Eles então analisam como o mercado se apropriou do desejo errante (wanderlust) através de aplicativos de relacionamento, que são tecnologias de escolha, comparação e idealização, promovendo uma lógica de consumo do outro como produto.
- 00:31:42 — Ciúme, traição e a negociação dos pactos — Lucas discute o ciúme como algo que pode fazer parte das relações, não sendo apenas uma construção social a ser erradicada. Ele fala sobre ciúmes projetivos e a importância de saber suportar a posição de não ser a fonte absoluta de prazer. A conversa termina refletindo sobre traição, citando que 70% das pessoas não discutem o que a consideram, e concluindo que talvez alguma traição (mesmo no pensamento) sempre exista.
Dados do Episódio
- Podcast: vibes em análise
- Autor: floatvibes
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2021-11-03T09:30:00Z
- Duração: 00:37:17
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/90f830c0-f4cb-0139-d4ee-0acc26574db2/episode/2fae729b-6a62-460e-b045-98c3ddac54be/
- UUID Episódio: 2fae729b-6a62-460e-b045-98c3ddac54be
Dados do Podcast
- Nome: vibes em análise
- Tipo: episodic
- Site: https://vibes-em-analise.zencast.website
- UUID: 90f830c0-f4cb-0139-d4ee-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] O que significa namorar ou ter um relacionamento a dois nos dias de hoje?
[00:00:04] Que tipo de compromisso amoroso está ganhando força ou talvez perdendo a relevância?
[00:00:09] Se até pouco tempo atrás a exclusividade sexual ou afetiva talvez fosse a principal característica de uma relação,
[00:00:16] o que será que configura hoje um pacto de namoro ou casamento diante de tantos novos formatos de relacionamento?
[00:00:30] Segundo o IBGE, os brasileiros estão casando menos e ficando menos tempo casados.
[00:00:37] Sem falar que o número de divórcios no país cresceu 75% em cinco anos.
[00:00:42] Existe hoje um estímulo ou até uma pressão social para a gente não casar?
[00:00:46] Ou para a gente viver relacionamentos abertos, poliamorosos?
[00:00:50] E o que tudo isso tem a dizer sobre as mudanças culturais que a gente está vivendo?
[00:00:55] Para complicar um pouco, tudo indica que a gente vive uma época onde o eu, o ego,
[00:00:59] vem sendo muito cultuado e idealizado.
[00:01:02] Nos dias de hoje, ficou mais difícil abrir espaço para o outro e para o amor?
[00:01:07] Ou será que o amor mudou? Virou o quê?
[00:01:10] Bom, vamos lá. Eu sou o André Alves, escritor, pesquisador e psicanalista.
[00:01:14] E eu sou o Lucas Lid, que também é psicanalista e pesquisador de cultura e comportamento.
[00:01:18] E esse é o primeiro episódio da segunda temporada do nosso podcast Vibes em Análise.
[00:01:23] Para quem não conhece a gente, o Lucas e eu fazemos o Arroba Float Vibes no Instagram,
[00:01:28] onde a gente conta um pouco dos fenômenos que a gente anda estudando e pesquisando.
[00:01:32] A gente já falou isso antes, mas vale ressaltar,
[00:01:34] todas as referências que a gente citar vão estar na descrição do episódio.
[00:01:55] Música
[00:01:55] Então vamos lá.
[00:01:56] O tema desse episódio é para a gente falar sobre a cultura e o amor.
[00:01:58] E para a gente refletir um pouco sobre o que acontece com todo o resto do mundo
[00:02:02] quando a gente embarca em um relacionamento a dois.
[00:02:05] Esse foi um tema, inclusive, que várias pessoas pediram para a gente falar a respeito.
[00:02:09] Então existe esse interesse de pensar o momento atual dos relacionamentos
[00:02:16] e talvez até imaginar um pouco do que pode ser o futuro.
[00:02:19] Mas antes disso, vale a gente retomar um pouquinho da história e talvez da função
[00:02:25] do que a gente conhece por monogamia.
[00:02:28] Apesar da monogamia ser um tipo de arranjo muito comum hoje em dia,
[00:02:33] ela não existiu desde sempre.
[00:02:35] É uma invenção humana.
[00:02:37] Dá até para dizer que é uma invenção religiosa,
[00:02:39] mas a religião também é uma invenção humana.
[00:02:41] Então, como um tipo de estrutura familiar,
[00:02:44] a monogamia surgiu para acompanhar as mudanças socioeconômicas.
[00:02:49] Ou seja, a monogamia está atravessada pela história do capital
[00:02:52] como uma forma de controlar a reprodução e assegurar o legado dos bens materiais.
[00:02:57] Música
[00:02:57] Música
[00:02:57] Música
[00:02:57] Música
[00:02:57] Música
[00:02:57] Música
[00:02:57] Música
[00:02:57] Música
[00:02:57] Música
[00:02:58] Música
[00:02:58] Música
[00:02:58] É sobre promover a filiação e controlar a ordem e o progresso, talvez,
[00:03:04] nas questões de herança e hereditariedade.
[00:03:06] O capital nos organizou nesse sentido monogâmico.
[00:03:10] E antes disso, a gente pode até viajar naquele modelo da tribo,
[00:03:15] do mito do pai da horda primitiva,
[00:03:17] que o Freud detalhou muito bem naquele longo texto.
[00:03:22] Nossa, longuíssimo.
[00:03:23] Tem o tabu, mas que dá para ver no Game of Thrones também.
[00:03:26] Show!
[00:03:27] Começamos bem.
[00:03:29] Mas é isso, a monogamia acaba sendo uma estratégia social de evolução do ser humano.
[00:03:35] Por mais que a gente esteja aqui, talvez, questionando um pouco,
[00:03:39] pensando, será que hoje ainda faz sentido essa estratégia?
[00:03:43] Necessariamente faz tanto sentido assim, como já fez?
[00:03:46] O que você acha, André?
[00:03:47] Eu acho que o que está tensionado é exatamente isso.
[00:03:50] Se o casamento e até o amor romantizado continuam sendo instituições
[00:03:56] Se o casamento e até o amor romantizado continuam sendo instituições
[00:03:57] por conta das nossas subjetividades e da nossa organização.
[00:04:00] E é curioso a gente pensar que parece que a gente também não tem nada melhor para colocar no lugar.
[00:04:06] E é aí que a gente se instala numa crise.
[00:04:09] Porque o amor romântico é um tipo de amor.
[00:04:11] Um tipo de amor que foi inventado lá no século XVII,
[00:04:14] mas nos foi enfiado goela abaixo, principalmente dos anos 40 para cá, por Hollywood.
[00:04:20] O que eu acho é que as pessoas estão tentando ser um pouco mais criativas
[00:04:23] na forma como a gente estabelece os pactos, já que,
[00:04:27] casamento e amor romântico, estamos juntos para sempre,
[00:04:31] príncipe e princesa, tal, não está fazendo muito sentido.
[00:04:35] Mas é claro que essa desconstrução não é simples, né?
[00:04:39] Ainda mais considerando que a gente é bombardeado por imagens, filmes, músicas, propaganda, série, meme,
[00:04:45] o que mais vier sobre o crush perfeito, casamento às cegas, are you the one?
[00:04:51] Tudo fica insistindo para que a gente remonte essa ideia de que sou eu e você,
[00:04:57] você e eu, e nada mais existe, e a gente está juntos até o fim.
[00:05:00] O que está em crise, no final das contas, é o modelo do banquete do Platão,
[00:05:04] que é uma história muito antiga e muito interessante,
[00:05:07] de duas metades se encontrando e virando uma só.
[00:05:11] Os deuses colocando a gente nessa sacanagem de tentar achar a sua metade,
[00:05:17] e a partir daí, nada mais importa, há uma gêmea.
[00:05:21] E é curioso, porque a gente escuta e lê isso até hoje, né?
[00:05:25] De ninguém vai precisar de mais nada.
[00:05:27] Quem ama não sente tesão por mais ninguém.
[00:05:29] Quando encontrar aquela pessoa, a gente vai construir uma família, viajar o mundo,
[00:05:33] casais inteligentes se enriquecem juntos, né?
[00:05:35] São várias alegorias que a gente vai enfiando nessa história e anabolizando as expectativas, né?
[00:05:43] De que esse relacionamento tem que dar conta de muita coisa,
[00:05:46] de uma estrutura comunitária, religiosa, social.
[00:05:49] É como no trabalho, um pouco, voltando à nossa primeira temporada.
[00:05:53] Parece que o amor tem que dar conta de tudo.
[00:05:55] Você não acha?
[00:05:56] Sim, e dar conta também de controlar a sexualidade humana, mas principalmente das mulheres.
[00:06:03] Porque quando a gente pensa na monogamia, com certeza existe aí uma forma de tentar fazer a manutenção do patriarcado.
[00:06:12] É uma tentativa muito bem sucedida de controlar a sexualidade feminina, mas também não funciona muito bem.
[00:06:18] Funciona muito mal, na verdade, porque tem aquele tweet da socióloga Moscovitch, há uns anos atrás,
[00:06:25] que ficou bem famoso, que dizia simplesmente assim,
[00:06:27] a monogamia mata.
[00:06:29] Pensando que 70% dos feminicídios acontecem porque envolvem algum caso de traição ou suspeita de traição, né?
[00:06:35] Então, se a gente pensa que hoje procriação não tem mais tanta relação com o exercício da sexualidade,
[00:06:41] e pra muita gente esses domínios já estão bem diferenciados um do outro,
[00:06:46] a monogamia tá tão ligada ao controle da sexualidade feminina,
[00:06:51] que se a gente pensa que os homens gays são menos adeptos,
[00:06:54] a monogamia, porque é muito mais comum entre homens que eles permitam que os homens com quem eles se relacionam
[00:07:00] possam se relacionar com outros homens também, né?
[00:07:02] A monogamia heterossexual, ela é muito vinculada a essa heteronormatividade um tanto compulsória, assim.
[00:07:09] Porque pra mulher a gente sabe que, até muito pouco tempo atrás, ela era colocada exclusivamente em dois lugares, né?
[00:07:14] Ou pra casar ou pra transar.
[00:07:15] Sendo que essas, geralmente, pra transar, são mulheres que já eram marginalizadas na sociedade,
[00:07:21] ou que viriam a ser marginalizadas justamente porque tinham uma conduta sexual,
[00:07:24] mas libertária.
[00:07:26] Uma mulher casada que transa com vários homens ou com várias pessoas é o ápice do escândalo.
[00:07:31] Não cabe, assim.
[00:07:32] É, e aí a gente tem um século de quebradeira nessa história toda.
[00:07:36] Um pouco mais que isso, mas pelo menos um século em que a monogamia, a família, esse lugar da mulher,
[00:07:43] não é necessariamente o que garante mais a sobrevivência da espécie.
[00:07:48] Aí, vamos lá.
[00:07:49] Revolução sexual, pílula anticoncepcional, terapia hormonal, pornografia,
[00:07:54] os movimentos contra a cultura, feminista, hippie, LGBTQIAP+,
[00:07:58] tudo isso dissociou, né, sexo da procriação.
[00:08:02] E foi jogar o sexo dentro da esfera do prazer com tudo.
[00:08:07] Pra complicar, acho que a gente ainda coloca aí viagra, vibrador, sugador de clitóris.
[00:08:14] Os organismos, tecnicamente, impedem igualdade, né?
[00:08:18] Ou, pelo menos, a vivência desses corpos num patamar meio parecido.
[00:08:24] Sem falar na revolução de gênero, que a gente já vai entrar.
[00:08:27] Mas qual que é o saldo?
[00:08:29] Eu acho que a gente tá criando um espaço pra questionar essa norma universal do amor monogâmico.
[00:08:38] Assim como a gente também pode questionar a norma universal do amor heterossexual.
[00:08:44] Achei muito curioso você falar de totem e tabu no começo,
[00:08:47] porque totem e tabu fala dessa interdição do incesto, que é isso que funda a civilização.
[00:08:53] Não pode transar com o irmão.
[00:08:55] Não pode casar com a prima, necessariamente.
[00:08:58] Pai e a mãe.
[00:08:58] Pai e a mãe.
[00:08:59] Aí, a gente vai ver Judith Butler, o Paul Preciado,
[00:09:04] muita gente que tá nessa interseção entre questões de gênero e questões queer,
[00:09:10] nos provocando a entender que talvez exista uma interdição ainda mais profunda,
[00:09:15] que é a interdição à homoafetividade.
[00:09:17] Esse trauma de gênero como sendo ainda mais profundo que o incesto.
[00:09:22] E aí, nos abrindo as portas pra achar rearranjos, frestas na norma, subversão, fissura.
[00:09:30] É nesse lugar que a gente tá.
[00:09:32] É, nesse contexto ocidental, católico, cristão, judaico,
[00:09:37] a gente pensa que a poligamia acaba sendo algo mais pecaminoso, assim.
[00:09:42] Ao mesmo tempo, é muito curioso, tem no vídeo do Christian Dunker sobre traição,
[00:09:47] como ele fala que o casamento é uma espécie de perversão consentida.
[00:09:51] Porque a gente tá entregando pro outro um grande poder sobre o uso e o abuso do nosso corpo e do nosso desejo.
[00:09:58] Como assim agora você manda o meu desejo?
[00:10:00] Então, em contrapartida, eu também vou mandar no seu.
[00:10:08] Eu acho que dá pra gente definir algumas coisas nisso que a gente tá conversando, né?
[00:10:12] Por exemplo, monogamia, poligamia.
[00:10:15] Como é que a gente abre um pouco desse glossário das relações?
[00:10:18] Porque se tá em crise, acho que as pessoas estão…
[00:10:21] experimentando novas possibilidades, experimentando novas configurações.
[00:10:26] Bom, a gente falou um pouco sobre a monogamia, e a gente pode pensar, então, sobre a poligamia
[00:10:30] como um sistema comum em várias culturas, mas não na nossa,
[00:10:34] onde existe o direito de casar com mais de uma pessoa, né?
[00:10:38] Tem a ver com esse vínculo legal, assim, com uma estrutura que é socialmente aceita.
[00:10:42] Aí, dentro disso, existe a poliginia, a relação de um homem com duas ou mais mulheres,
[00:10:46] ou a poliandria, a relação de uma mulher com dois ou mais homens.
[00:10:50] Tem um outro tema… Tem um outro tema… Tem um outro tema…
[00:10:51] Tem um outro termo aí que é legal a gente destrinchar um pouquinho, que é o poliamor,
[00:10:55] que surge como uma reação contrária à cultura da monogamia,
[00:10:59] e que parece falar ainda mais do desejo, e menos necessariamente de normas sociais,
[00:11:05] ou de questões jurídicas, ilegais e tudo mais.
[00:11:09] Vamos pensar um pouco, então, sobre o que que é poliamor?
[00:11:14] Enquanto um movimento social mais recente, o poliamor é um termo que foi cunhado,
[00:11:19] alguns dizem ali nos anos 90,
[00:11:21] alguns dizem ali nos anos 80, mas que ganhou força mesmo mais recentemente com o advento da internet.
[00:11:26] Porque está muito ligado a um movimento que defende uma possibilidade mais livre
[00:11:32] de relacionamentos sexuais e afetivos com várias pessoas simultaneamente,
[00:11:37] puxando mais o tema para as questões de consentimento, de transparência
[00:11:42] e também para uma fluidez maior de gênero e de orientação sexual.
[00:11:46] Dá para pensar no poliamor como uma manifestação
[00:11:50] da emergência da bissexualidade na cultura.
[00:11:53] Porque tem a ver com conciliar relações amorosas com experiências sexuais
[00:11:57] de uma forma que seja mais ampla, até mais livre de todo esse crepúsculo da heteronormatividade,
[00:12:04] do dois, do homem e da mulher.
[00:12:07] A Regina Navarro, que está bem debruçada sobre essas questões, uma psicanalista,
[00:12:11] ela tem uma fala muito boa, que é depois de todas essas revoluções que a gente vem listando,
[00:12:16] amar virou um verbo mais plural.
[00:12:18] Abriu esse significante, abriu as possibilidades da gente viver e explorar esse significante.
[00:12:24] Quase como várias formas de tentar conciliar relações amorosas ou relações afetivas
[00:12:30] com experiências sexuais que sejam mais amplas e mais livres.
[00:12:33] Acho bom essa história de tentativa de conciliação.
[00:12:37] É, nisso dos formatos, me lembrou os adeptos ou estudiosos teóricos do poliamor
[00:12:42] falam dos formatos, desses acordos geométricos, que tem as letras, que tem o V, onde você tem tudo.
[00:12:48] Tem três pessoas ali com aquela relação, ou um N, onde você coloca quatro pessoas com diferentes vínculos.
[00:12:55] Tem um T também, que coloca diferentes níveis de intensidade entre cada um desses sujeitos nessa relação.
[00:13:02] E tem a velocidade também desses vínculos.
[00:13:04] Alguma coisa pode durar duas semanas, ou dois meses, ou mudar, ou durar uma noite,
[00:13:10] criando esse abecedário de diferentes formas de se conectar com as pessoas.
[00:13:15] Bonita essa imagem que você trouxe,
[00:13:17] parece um abecedário do entrelaçamento,
[00:13:20] como se a gente estivesse tentando criar novos vocabulários para o amor,
[00:13:24] ou novas articulações para o ato de amar.
[00:13:27] Mas também acho que é importante a gente falar como sair do armário como poliamorista é difícil.
[00:13:34] É um grande enfrentamento diário.
[00:13:36] É lidar com muitos paradigmas e desconstruções que estão presentes na nossa sociedade.
[00:13:42] Várias pessoas que são abertamente poliamoristas ou poliamorosas
[00:13:47] vão relatar como as pessoas criam umas defesas bem difíceis de transpor.
[00:13:53] E eu acho que isso tudo que a gente está conversando também é um grande convite
[00:13:56] a gente pensar numa pergunta muito fundamental e muito existencial,
[00:14:01] que é o que é uma relação?
[00:14:03] Que construção eu quero fazer com o outro?
[00:14:06] O que é uma relação?
[00:14:08] Aí também, já que o poliamor talvez assuste um pouco,
[00:14:11] dê essa impressão de que é uma grande suruba,
[00:14:14] que eu não sei como é que eu vou entrar nessa história,
[00:14:16] tem uma outra expressão um pouco mais amigável e difundida também,
[00:14:21] que é o relacionamento aberto.
[00:14:23] O que será que a gente pode pensar sobre o que significa um relacionamento aberto?
[00:14:29] Pode abrir um pouco essa expressão.
[00:14:32] Porque um relacionamento monogâmico também pode ser aberto,
[00:14:36] no sentido de que ele sustente uma abertura, um respiro,
[00:14:41] para que meu desejo e o desejo do outro circulem para além dessa relação.
[00:14:46] Ficar naquele sufocamento de cobrança,
[00:14:49] de tentar chegar em uma disponibilidade absoluta de si e do outro,
[00:14:53] porque aí é uma grande cilada.
[00:14:55] Então talvez aberto e fechado são termos que a gente usa,
[00:14:58] mas também a gente pode olhar com cuidado,
[00:15:00] o que quer dizer, não é exatamente monogâmico ou poligâmico.
[00:15:05] E aí vale a pena também chamar atenção para um ponto,
[00:15:08] que tem uma roupagem que acompanha a proposta de uma relação aberta,
[00:15:13] que é essa imagem de parecer ser uma pessoa mais evoluída,
[00:15:16] de não ser uma pessoa possessiva,
[00:15:19] alguém que consegue performar um tipo de desapego muito radical.
[00:15:23] Tem até um aspecto meio espiritual, não religioso, mas espiritual,
[00:15:28] como se o religioso garantisse a boa moral
[00:15:30] e o espiritual garantisse uma alma que é desprendida e transcendental,
[00:15:34] que você vai transcender o seu incômodo, o seu ciúme, a sua inveja, a sua insegurança, tudo.
[00:15:39] Aí começa a ficar até um quê meio de autoajuda, de coach,
[00:15:44] se a gente pensa que tudo é uma questão,
[00:15:46] de mindset, tudo é uma questão de autocontrole,
[00:15:49] de que você vai conseguir ser a melhor versão de si mesmo,
[00:15:52] e essa versão não vai sentir nenhum sofrimento,
[00:15:55] vai conseguir lidar com uma relação sem passar por nenhuma crise,
[00:16:00] sem nenhuma discussão, sem nenhum momento de ciúmes, de insegurança.
[00:16:04] Eu acho que aí a gente pode puxar para uma pressão social,
[00:16:07] que eu acredito que exista,
[00:16:09] por ser um sujeito moderno, assim, ou pós-moderno, líquido, né?
[00:16:14] Falma, Falma e coaches.
[00:16:17] É interessante esse sujeito, né? Ele pode ser muito interessante,
[00:16:20] mas também acho interessante a gente não ficar muito identificado
[00:16:24] com essa ideia de querer ser uma pessoa bacana, progressista, desconstruída,
[00:16:29] não conservadora, porque isso são ideais também, né?
[00:16:33] E no fim a gente pode estar jogando para baixo do tapete
[00:16:35] alguns afetos que são importantes e que são constituintes nossos, né?
[00:16:39] Que fazem parte da nossa estrutura psíquica e que vêm de casa,
[00:16:42] que vêm da infância, que vêm da filogenia,
[00:16:45] que vêm da relação que os nossos pais tinham ou têm,
[00:16:48] que vêm do nosso édipo.
[00:16:49] Porque não importa quanto post de Instagram sobre poliamor a gente leia e compartilhe,
[00:16:54] o nosso complexo de édipo está encrustado lá nas entranhas da nossa mente,
[00:16:58] do nosso inconsciente, então a gente vai ter que se haver com isso.
[00:17:01] Cada relação também vai convocar, talvez, um tipo novo de contrato
[00:17:06] ou uma possibilidade de contrato.
[00:17:08] Se a gente falou no comecinho que, bem,
[00:17:11] beleza, o amor romântico e o casamento monogâmico
[00:17:14] não estão mais servindo para todo mundo como nota de corte,
[00:17:19] a gente vai ter que negociar contrato a contrato e relação a relação,
[00:17:22] porque é quase desejo a desejo,
[00:17:25] ou como é que o desejo está configurado ou está implicado naquela junção
[00:17:29] de dois, três, quatro.
[00:17:31] É interessante isso que você trouxe porque chega muito tensionada na clínica
[00:17:36] essa história do relacionamento aberto.
[00:17:38] Vem toda essa expectativa,
[00:17:40] e quantos analisandos chegam nesse lugar de
[00:17:43] eu deveria ter um relacionamento aberto? Interrogação.
[00:17:47] E claro que o nosso trabalho é também a gente conseguir chegar na pergunta
[00:17:52] mas espera aí, quer um relacionamento aberto?
[00:17:54] Eu acho importante a gente conseguir investigar
[00:17:58] o que está depositado nesse significante do relacionamento aberto
[00:18:02] ou do relacionamento fechado.
[00:18:04] Quer exclusividade? Para quê?
[00:18:06] Quer pegar geral? Para quê?
[00:18:08] Está tentando evitar o quê?
[00:18:09] Está tentando garantir o quê?
[00:18:12] Sabe, fazer um pouco desse jogo
[00:18:15] de ir abrindo essas expectativas que estão colocadas
[00:18:20] para que a gente consiga no final
[00:18:22] talvez fazer uma separação entre intimidade e controle.
[00:18:26] Pelo menos a gente tentar fazer isso.
[00:18:35] Bom, para aprofundar essa discussão com um bom embasamento teórico
[00:18:38] de quem pesquisa e escreve muito sobre amor e relacionamentos
[00:18:42] a gente vai ter a honra de escutar agora um pouco da nossa querida colega
[00:18:45] psicanalista Ana Sui.
[00:18:47] Ana, fala para a gente o que você acha dessa história toda aí
[00:18:50] de monogamia, poliamor, relacionamento aberto, ciúmes, paixão, traição.
[00:18:59] Eu tento pensar que essa questão dos números
[00:19:01] é a própria questão amorosa, né?
[00:19:04] Numa relação a dois,
[00:19:07] a gente teria duas pessoas tentando fazer um, né?
[00:19:11] Porque esse é o empuxo que a gente tem no campo do amor.
[00:19:14] De desaparecer subjetivamente e fazer um com o outro.
[00:19:19] Então é uma tensão entre o um e o dois.
[00:19:23] E que haja alguma coisa entre o um e o dois
[00:19:27] já é um terceiro elemento, né?
[00:19:29] E acho que a psicanálise nos demonstra muito isso.
[00:19:32] Quanto existe um espaço entre um e outro,
[00:19:36] que faz com que esse espaço dê dignidade para a coisa.
[00:19:42] Então acho que, de certo modo,
[00:19:44] não existe uma relação a dois.
[00:19:47] A relação é sempre três.
[00:19:49] Sempre a três.
[00:19:50] Porque há um espaço, há um intervalo entre um e outro.
[00:19:53] Talvez a gente possa pensar que o poliamor
[00:19:55] seja uma forma de ampliar esse espaço entre um e o outro.
[00:20:01] Que, enfim, a gente pode pensar que ampliar esse espaço pode afastar,
[00:20:05] que ampliar esse espaço pode aproximar,
[00:20:07] mas, sobretudo, que esse espaço muda as coisas.
[00:20:11] O aproveitamento desse espaço.
[00:20:13] De todo modo, sempre se trata de uma relação a dois.
[00:20:16] Porque, sabe do complexo de édipo que Freud passa lá?
[00:20:20] Porque tem a criança, mãe e o pai, né?
[00:20:22] Que a gente pode pensar hoje, criança, pai e pai, mãe e mãe, o que seja.
[00:20:25] Mas são três. Por que são três?
[00:20:27] Porque o que a gente aprende com o complexo de édipo
[00:20:30] é a ficar de fora.
[00:20:32] Então às vezes a gente está dentro, às vezes a gente está fora.
[00:20:35] As pessoas que são muito, muito, muito ciumentas,
[00:20:38] elas angustiam seus parceiros e se angustiam
[00:20:41] porque elas não suportam estar fora, elas querem estar sempre dentro.
[00:20:44] E isso gera uma série de problemas.
[00:20:46] Acho que quando a gente pode estar fora, pode estar dentro,
[00:20:50] pode estar fora, pode estar dentro,
[00:20:52] a gente deixa o outro também poder estar fora, poder estar dentro,
[00:20:55] poder estar fora, poder estar dentro.
[00:20:57] E acho que a possibilidade que a gente tem de romper,
[00:21:00] a possibilidade que a gente tem de se separar,
[00:21:02] a possibilidade que a gente tem de terminar um relacionamento,
[00:21:05] isso ressignifica o próprio relacionamento.
[00:21:07] Então a gente fica sabendo que pode ir.
[00:21:10] Embora eu acho isso muito mais digno,
[00:21:12] ficar porque quer ficar mesmo sabendo que possa ir,
[00:21:15] isso pode chegar para algumas pessoas com uma angústia,
[00:21:20] porque eu estou perdendo alguma coisa
[00:21:24] quando eu estou nesse relacionamento e não em outro.
[00:21:26] E tá.
[00:21:28] Claro que tá, porque é disso que se trata.
[00:21:31] A gente poder escolher
[00:21:33] onde é que a gente vai perder.
[00:21:35] É isso a vida.
[00:21:36] É isso o amor.
[00:21:37] A gente sempre perde alguma coisa.
[00:21:40] O Freud tem uma frase muito famosa nesse texto do Introdução ao Narcisismo,
[00:21:45] que é o…
[00:21:46] A gente só tem duas opções.
[00:21:48] Amar ou adoecer.
[00:21:50] Se a gente tira a frase do texto,
[00:21:53] pode ser entendida romanticamente, defendendo o amor,
[00:21:56] mas o que o Freud está defendendo, na verdade,
[00:21:58] é que a gente só tem um jeito de nos livrar do excesso da gente mesmo,
[00:22:02] que é pela via do interesse pelo outro.
[00:22:04] Amar está mais difícil
[00:22:06] porque amar é perder narcisismo,
[00:22:09] amar é perder ideal,
[00:22:11] amar é poder inventar alguma coisa que não existia antes com alguém.
[00:22:17] Então a gente pensa que vai ganhar alguma coisa com o amor, né?
[00:22:20] E sim, a gente ganha,
[00:22:22] mas a gente só ganha porque topa perder.
[00:22:24] Então se trata muito mais de um risco de uma aposta
[00:22:27] do que do consumo de alguma coisa.
[00:22:30] O amor não é um objeto circundante.
[00:22:31] O amor não é um objeto a ser consumido.
[00:22:37] Nossa, eu acho muito legais esses pontos que a Ana trouxe.
[00:22:39] É o drama do terceiro, né?
[00:22:41] Se o outro enquanto o número dois já complica o nosso desejo,
[00:22:45] o outro enquanto o número três, ele complica ainda mais.
[00:22:48] Porque ele significa que a gente pode desejar duas pessoas ao mesmo tempo
[00:22:52] ou que essas duas outras pessoas podem desejar uma outra.
[00:22:56] E aí como que a gente fica nessa?
[00:22:58] Tudo isso é sobre a gente não ter o nosso desejo,
[00:23:01] rigorosamente realizado pelo outro o tempo todo.
[00:23:04] A própria constituição familiar mais tradicional que exista
[00:23:08] de mãe, pai e criança já não é monogâmica.
[00:23:11] Porque uma hora a mãe dessa criança não vai estar dando amor e atenção e prazer pra ela.
[00:23:16] A menos que seja uma mãe psicotizante, né?
[00:23:19] Uma hora essa mãe vai estar dando isso pra outra pessoa.
[00:23:21] Ou mesmo pra ela própria, né?
[00:23:23] Como sair pra trabalhar, deixar a criança aos cuidados de outra pessoa.
[00:23:27] Tem um termo aí interessante que é a história da compersão.
[00:23:31] O que que é a compersão?
[00:23:34] Seria o sentimento de ficar feliz pelo fato do outro estar realizando o seu desejo com outra pessoa.
[00:23:42] Ficar excitado com isso, né? De ficar inspirado.
[00:23:44] Olha que interessante esse meu parceiro.
[00:23:46] O parceiro é como ele realiza o desejo dele, ainda que nesse momento não seja comigo.
[00:23:50] E aí André, você acha que é possível sentir essa tal de compersão
[00:23:54] ou você faz mais o tipo rancoroso?
[00:23:59] Aí complicou.
[00:24:00] Porque isso que você tá trazendo é um certo exercício de alteridade, né?
[00:24:05] De conseguir se realizar de alguma forma conhecendo o outro ou descobrindo junto com o outro o que o outro é.
[00:24:13] Ou o que o outro quer.
[00:24:14] E respeitando o desejo do outro, né?
[00:24:16] Acho super possível, mas vai dar um trabalho hercúleo pra chegar lá.
[00:24:20] Vai ser difícil.
[00:24:22] Na minha opinião, puxando um pouco pra nós aqui, muita análise.
[00:24:27] Vai longe aí. Vai ter que elaborar bastante.
[00:24:29] Porque eu também acho muito legal quando a Ana fala sobre perda e falta.
[00:24:36] Como o amor também é perda e falta.
[00:24:38] Como a vida é perda e falta.
[00:24:40] Porque nesses tempos de felicidade, você merece tudo, você pode tudo.
[00:24:44] Você merece, inclusive, ser seguido e admirado por muitos.
[00:24:48] Não tá muito fácil bancar a falta, né?
[00:24:50] Não tá muito fácil bancar a perda.
[00:24:53] E acho que isso tá muito ligado a, por exemplo, entender que o outro não vai ser tudo.
[00:24:58] O outro não vai ter tudo.
[00:25:00] E muito menos você vai ser tudo pro outro.
[00:25:03] Tem que faltar alguma coisa.
[00:25:05] A gente vai perder.
[00:25:07] Como a Ana muito bem falou, isso é a vida.
[00:25:16] Assim, o desejo fala muito da indestrutibilidade do desejo.
[00:25:22] Você não vai conseguir destruir ele.
[00:25:24] E a dialética do desejo, né?
[00:25:25] Onde você quer e não quer alguma coisa.
[00:25:27] Quer e não quer alguma coisa ao mesmo tempo.
[00:25:29] Isso é totalmente normal, natural e neurótico.
[00:25:32] Então, sempre vai existir algum conflito psíquico.
[00:25:35] Isso é constitutivo do sujeito.
[00:25:37] Você pode estar desejando duas pessoas ao mesmo tempo.
[00:25:40] Ou desejando uma pessoa proibida.
[00:25:43] E desejando não desejar ela.
[00:25:45] Seja um conflito de id com id, de id com superego.
[00:25:50] No senso comum, quando a gente fala de desejo, a gente pensa sempre em desejar algo.
[00:25:55] É ter um alvo, né? É ter uma meta.
[00:25:57] É um lugar.
[00:25:59] Eu desejo conhecer tal lugar.
[00:26:01] Eu desejo ter esse objeto.
[00:26:02] Eu desejo ter essa pessoa.
[00:26:04] Mas pra psicanálise, o desejo é um fim em si mesmo.
[00:26:07] O desejo busca apenas mais desejo.
[00:26:10] E ele não vai se contentar em ficar fixo em um único objeto.
[00:26:14] Aí a gente vai ter que abrir mão de algumas demandas específicas
[00:26:17] pra poder deslizar com esse desejo de um jeito mais ou menos livre e desimpedido.
[00:26:21] A história do wanderlust, assim.
[00:26:23] Que o Bruce Fink fala do desejo como esse…
[00:26:26] Uma sede por estar vagando.
[00:26:29] Wandering, assim.
[00:26:30] Apenas pelo próprio desejo de continuar vagando.
[00:26:33] Como diz o Alexandre Kojève, o desejo humano não deseja objetos.
[00:26:37] Ele deseja desejos.
[00:26:39] É o desejo puro.
[00:26:42] É interessante essa imagem que você trouxe, Lucas, sobre o desejo que vai vagando.
[00:26:48] Porque eu também acho que o mercado se apropriou disso de um jeito bem perigoso.
[00:26:55] Porque você foi falando disso e eu fui pensando nessa imagem do dedo na tela do celular
[00:27:02] vagando num aplicativo de paquera ou de relacionamento.
[00:27:06] Esse encaixe quase perfeito que parece que aconteceu entre amor e consumo.
[00:27:12] Mas, de novo, o amor não é um objeto a ser consumido.
[00:27:16] Mas eu acho que tá difícil a gente entender essa distinção.
[00:27:19] Até esse nome de aplicativos de relacionamento.
[00:27:23] Porque, no fundo, o que eles são, são tecnologias de escolha, comparação e idealização.
[00:27:30] Ou, pelo menos, têm esses âmbitos muito presentes.
[00:27:34] Não tô falando saiam dos aplicativos, desistam disso.
[00:27:38] Não tô levantando essa bandeira. Longe de mim.
[00:27:40] Até porque eles estão aí presentes e são uma parte do tempo que a gente tá.
[00:27:45] Mas eu acho importante a gente se perguntar se quando a gente tá nesses aplicativos,
[00:27:49] nesse deslizamento incessante,
[00:27:51] a gente tá ali pra querer consumir.
[00:27:53] Consumir o outro que tá na vitrine, se exibindo.
[00:27:56] Ou, talvez, a gente tá ali pra conhecer o que não está sendo dito ou exposto.
[00:28:03] O que é misterioso naquele outro.
[00:28:05] Ou até o que é estranho naquele outro.
[00:28:07] Acho que aí a gente faz uma diferença entre gozo e desejo.
[00:28:10] Acho que aí a gente faz uma diferença entre
[00:28:13] Wanderlust, como você falou, e consumo.
[00:28:16] O Brasil, você sabe, que é o segundo maior mercado desses aplicativos, inclusive.
[00:28:21] Então, a gente tá bem no meio.
[00:28:22] Então, a gente tá bem enganchado nessa história.
[00:28:25] Porque quando a gente cai na lógica do consumo,
[00:28:27] é muito fácil a gente querer trocar de produto.
[00:28:30] Não corresponder às minhas expectativas.
[00:28:32] Então, tô cheio de match no Tinder,
[00:28:35] tá cheio de nude na minha caixa de entrada das DMs.
[00:28:39] O problema aí é um pouco também de escala.
[00:28:41] Porque são tantas opções que estão disponíveis nas vitrines
[00:28:45] que tem que haver alguém perfeito pra mim.
[00:28:48] E aí, no lugar de lidar com a realidade,
[00:28:50] a gente fica meio preso nesse fantasma do ideal.
[00:28:53] Me vem muito aquela imagem da máquina de bichinhos do shopping, sabe?
[00:28:56] Que você tem que pegar o gancho, escolher alguma coisa e descer.
[00:28:59] Mas aí você tá tão preso nos ideais que você mal consegue mexer o gancho.
[00:29:04] Ou sente que tá o tempo inteiro lá em cima escolhendo um pobre mortal
[00:29:08] ou um pobre objeto que você vai esgotar, consumir e jogar fora.
[00:29:12] Ou pior, né?
[00:29:13] Você pode ser também um objeto que tá lá largado à espera de uma garra milagrosa
[00:29:18] que vai te olhar.
[00:29:20] Te fazer se sentir olhado.
[00:29:22] Te fazer se sentir escolhido.
[00:29:24] Mas nessa história dessa lógica meio de consumo e de produto, de novidade,
[00:29:30] não é nem sobre o culto à novidade, eu acho.
[00:29:33] Eu acho que muitas vezes é sobre conseguir realizar um desejo que é anterior.
[00:29:38] Tem um poeta que a gente gosta muito, né, André?
[00:29:41] Que é o Paul Valéry.
[00:29:42] E ele diz assim,
[00:29:43] o que há de melhor numa coisa nova é aquilo que satisfaz um desejo antigo.
[00:29:47] Então, se com você eu tenho isso, né?
[00:29:49] Faço sexo assim, digo eu te amo desse jeito.
[00:29:52] Mas aí surge um outro que vai satisfazer um desejo que eu nem sabia que eu tinha.
[00:29:57] Que tava mais escondido.
[00:29:58] Putz, que interessante, né?
[00:30:00] Aí deu jogo, né?
[00:30:02] E acho que provocando esse jogo, ele tá bem mais além do match.
[00:30:07] Dessa compatibilidade.
[00:30:08] Porque talvez ele esteja exatamente no incompatível.
[00:30:11] É, no que tá oculto. No que você não sabia que você gostava.
[00:30:15] Vamos lá. Aula 1 da psicanálise.
[00:30:17] A gente não sabe tudo sobre nós mesmos porque a gente é cindido,
[00:30:21] a gente é ego, superego, id.
[00:30:23] E simplificando, tem esse inconsciente, tem esse estranho.
[00:30:28] E se a gente não sabe tudo sobre si, a gente também não sabe tudo sobre o outro.
[00:30:32] E é exatamente essa falta de transparência que mantém viva a relação.
[00:30:38] Claro que tem um acordo.
[00:30:40] Mas na clínica, pelo menos, a gente escuta que
[00:30:43] quando se cria essa ilusão de que eu sei tudo sobre esse outro,
[00:30:47] tá muito translúcido, tá muito cristalino,
[00:30:50] tudo que aquele outro me oferece, perde a graça.
[00:30:54] Já vi, já entendi, não tem mais nada aqui, ficou meio árido.
[00:30:58] Porque, de novo, não tem amor sem mistério.
[00:31:00] E eu acho que a gente não quer necessariamente dormir com o inimigo.
[00:31:04] Mas, se a gente der sorte numa relação,
[00:31:07] eu acho que a gente vai estar sempre dormindo com um estranho.
[00:31:10] E aí é interessante porque
[00:31:13] quando as pessoas falam sobre relacionamentos não monogâmicos,
[00:31:17] também vem uma fala ou uma resposta muito constante que é
[00:31:21] mas e o ciúme?
[00:31:23] Como se fosse possível evitar o ciúme?
[00:31:25] Como se fosse possível garantir a exclusividade?
[00:31:28] Muitas pesquisas sobre como várias pessoas estão em relações monogâmicas
[00:31:33] traindo ou sendo traídas ou enfim.
[00:31:36] E aí eu te pergunto, Lucas,
[00:31:38] você acha que ciúmes é sinônimo de amor?
[00:31:42] Ou existe relação sem ciúme?
[00:31:44] Acredito que pode fazer parte
[00:31:46] de alguns pacotes em algumas relações,
[00:31:49] talvez com mais intensidade ou menos.
[00:31:52] De algum jeito vai ter que saber lidar com esses ciúmes.
[00:31:55] E lidar não é exatamente tentar destruir
[00:32:00] ou dizer que não existe.
[00:32:02] A gente vê muito o povo mais desconstruído
[00:32:06] alegando que ciúmes é uma construção social.
[00:32:09] Eu discordo porque um animal enciumado
[00:32:11] é capaz de matar outro animal numa disputa.
[00:32:14] Ou mesmo os nossos animais de estimação
[00:32:16] que dão vários shows de ciúmes
[00:32:18] interessantíssimos na relação com os humanos.
[00:32:20] E mesmo que os ciúmes fossem uma construção social,
[00:32:23] não é porque é uma construção que a gente vai ter que
[00:32:26] conseguir abrir mão totalmente disso.
[00:32:28] Beleza, ninguém quer ficar numa posição subjetiva de desvalor.
[00:32:32] Mas a gente tem que saber conseguir suportar essa posição um pouco também.
[00:32:36] Sem sucumbir completamente por causa disso.
[00:32:39] É uma história de saber ocupar para também saber desocupar.
[00:32:42] Porque é muito interessante reconhecer que
[00:32:45] um terceiro tem alguma coisa que eu não tenho
[00:32:48] e que eu gostaria de ter.
[00:32:50] Isso não vai tirar nenhum pedaço.
[00:32:51] E reconhecer que isso desperta a atenção da minha parceira ou do meu parceiro.
[00:32:55] Ou que desperta a minha atenção acima de tudo.
[00:32:59] Às vezes mais inclusive do que da minha dupla.
[00:33:02] Por isso que os ciúmes no estágio 3,
[00:33:04] que é aquele delirante paranoico,
[00:33:06] tem tanto a ver com a homossexualidade.
[00:33:09] A velha e boa teoria do Freud
[00:33:11] que ligava a psicose paranoide com a homossexualidade.
[00:33:14] Porque você está nesse momento enfeitiçado ali pelo seu rival,
[00:33:18] pelo seu concorrente.
[00:33:19] E tem os ciúmes projetivo também.
[00:33:21] Que é quando você não reconhece e admite a sua própria vontade de ficar com um terceiro.
[00:33:26] E aí você projeta isso no dois.
[00:33:29] No parceiro ou na parceira.
[00:33:30] E aí por isso que é tão bom fazer análise.
[00:33:32] Porque assim, não resolve a vida, mas nos evita muita confusão.
[00:33:35] Que pode ser evitada.
[00:33:37] E isso é uma dessas.
[00:33:38] É interessante porque aí a gente pensar como
[00:33:41] o ciúme pode nos ajudar
[00:33:43] a nos posicionar em relação ao nosso desejo e o desejo do outro.
[00:33:46] E também lembrar que o ciúme é traiçoeiro.
[00:33:49] Porque ele é esse cutucão na ferida narcísica.
[00:33:52] Como assim eu não sou fonte absoluta de prazer,
[00:33:55] admiração, amor?
[00:33:57] Como ousas?
[00:33:58] Se alguém fala não sinto ciúme, estou acima disso.
[00:34:01] Aí a gente tem que ouvir ainda mais.
[00:34:03] Porque tem uma repressão severa que está acontecendo aí.
[00:34:07] Ou um recalque violento que a gente sabe que vai voltar
[00:34:10] passando por cima de tudo e de todos.
[00:34:12] Mas o que eu acho que também dá pra gente pensar
[00:34:15] é um pouco sobre essa dor que se sente
[00:34:20] quando a confiança é fissurada.
[00:34:23] Quando algum tipo de traição do pacto acontece.
[00:34:26] Uma possibilidade é esta pessoa que está comigo
[00:34:30] vai lá e fica com outra pessoa ou dá mole pra outra pessoa.
[00:34:34] Mas enfim, pode ter assistido o episódio da série sem mim.
[00:34:38] E aí já tem uma traição aí em jogo.
[00:34:40] Agora, o que eu acho muito interessante
[00:34:43] ou talvez bem problemático
[00:34:46] tem um número que eu cruzei essa semana que eu achei muito bom
[00:34:49] que é mais ou menos 70% das pessoas não discutem com os parceiros
[00:34:53] o que se considera uma traição naquela relação.
[00:34:56] Por exemplo, baixar um aplicativo de encontros,
[00:34:59] trocar umas mensagens mais apimentadas.
[00:35:02] Conta ou não conta?
[00:35:04] E eu estava lendo uma pesquisa que o título da pesquisa
[00:35:07] queria muito que quem está nos ouvindo pudesse ver a sua cara.
[00:35:09] Agora quando eu vou falar é
[00:35:11] O pecado da infidelidade.
[00:35:13] E aí é uma pesquisa de um site de relacionamentos extraconjugais
[00:35:19] e dos brasileiros que estão nessa plataforma
[00:35:22] 83% procuram satisfação sexual em casos extraconjugais
[00:35:28] ou fora dos seus casamentos.
[00:35:30] Mais de 70% dos entrevistados acreditam que a religião
[00:35:33] tem que seguir ensinando as pessoas que o sexo é só pra procriação.
[00:35:37] Então olha que interessante.
[00:35:38] A psicanálise arqueou sobrancelhas há mais de 100 anos atrás
[00:35:45] falando que sexualidade não é só procriação,
[00:35:49] não é só genital,
[00:35:51] está presente na gente desde a infância
[00:35:53] e a gente ainda está nesse impasse do pecado.
[00:35:56] Ainda mais num país profundamente conservador como o Brasil.
[00:35:59] Então acho que a gente tem muita coisa pra discutir,
[00:36:03] muita coisa pra elaborar e muita coisa pra conversar.
[00:36:06] O que é traição nessa relação em que eu estou?
[00:36:09] Ou o que seria uma traição nessa relação que eu quero começar a construir?
[00:36:13] Sim, porque se tem um combinado vai ter algum desentendimento,
[00:36:17] vai ter que atualizar em algum momento, vai ter uma mudança.
[00:36:20] A gente não tem controle total do desejo.
[00:36:23] O que seria uma fidelidade total e absoluta?
[00:36:26] Seria ser fiel ao seu desejo, ao desejo do outro,
[00:36:29] ao pacto, ao gozo, tem tanta coisa em jogo.
[00:36:33] Não é tão simples assim.
[00:36:35] A gente pode, talvez, orientar e escolher um pouco
[00:36:40] onde trair mais e onde trair menos.
[00:36:43] Mas talvez alguma traição sempre exista,
[00:36:45] nem que seja na nossa cabeça.
[00:36:47] Eu olho com bastante suspeita pra essas falas imaculadas de
[00:36:51] eu nunca traí.
[00:36:52] Vamos deixar aqui?
[00:36:54] Então vamos seguir pensando e a gente se vê na próxima sessão.
[00:36:57] Até lá.
[00:36:58] Até semana que vem.
[00:37:05] Transcrição e Legendas Pedro Ribeiro Carta