FERVO & LUTO


Resumo

Os psicanalistas Lucas Liedtke e André Alves analisam o momento pós-pandêmico, questionando se a busca por festa e euforia (o ‘fervo’) é uma forma saudável de lidar com o luto coletivo. Eles traçam paralelos históricos com os ‘Loucos Anos 20’ que sucederam a Gripe Espanhola, mas destacam as particularidades do contexto atual brasileiro, marcado por crise econômica, desigualdade e um desejo ambíguo por calma e excitação.

A discussão explora a importância dos encontros presenciais e da ‘efervescência coletiva’ (conceito de Durkheim) para a saúde psíquica e o tecido social. Os hosts refletem sobre o que se perdeu nas interações digitais, como os ‘laços fracos’ (relações casuais com vizinhos, conhecidos) e a fisicalidade do corpo na dança e na música, vistas como sublimações da vida erótica e formas de reinscrever a existência após uma fratura histórica.

O episódio também aborda os riscos de transformar a retomada em uma ‘lógica de lazer desempenho’ ou ‘hedonismo compulsivo’, onde a euforia pode virar afobação e a busca por felicidade, uma nova forma de opressão. Eles alertam para os imperativos sociais de ‘ser feliz’ e ‘aproveitar’, que podem apagar a singularidade do luto de cada um. A participação do antropólogo Michel Alcoforado acrescenta perspectivas sobre mudanças na sociabilidade, como mais planejamento nos encontros, a distinção clara entre amigos e colegas, e a busca por ‘checks de estabilidade’ em grandes eventos.

Por fim, os hosts ponderam sobre a necessidade de abrir espaços para o sonho e o imaginário, fugindo dos circuitos de gozo ininterrupto. A conclusão sugere que o processo de luto envolve fazer com que as perdas se tornem parte de nós para que possamos seguir, equilibrando o fervo com a reflexão.


Indicações

Books

  • O corpo lembra — Livro de Bessel van der Kolk mencionado por Lucas, sobre como o trauma tira as pessoas de sintonia e como práticas corporais sincronizadas (como a marcha militar) podem ajudar a restabelecer uma harmonia interna e externa.
  • Testo Junkie — Livro de Paul B. Preciado citado por Lucas, que descreve a era ‘farmacopornográfica’, um regime disciplinar amplo e altamente drogado que maximiza a produção e o gozo.

Concepts

  • Objeto a (psicanálise) — Conceito psicanalítico lacaniano introduzido por Lucas. É descrito como algo inominável, causa do desejo, que nos move a sair de casa, gastar dinheiro, nos apaixonar e buscar encontros, mesmo que não saibamos explicar direito o que é.
  • Efervescência coletiva — Conceito de Emile Durkheim explorado no episódio. Refere-se a eventos que excitam os indivíduos e unificam um grupo através de uma emoção compartilhada, como em experiências religiosas, festas ou shows, proporcionando um sentimento de pertencimento e sincronia.
  • Laços fracos — Discussão sobre a importância das relações sociais casuais e superficiais (como com um vizinho ou conhecido no ponto de ônibus). Esses vínculos, enfraquecidos na pandemia, são considerados fundamentais para o exercício da comunidade e para combater a solidão e o narcisismo.

People

  • Clarice Lispector — Mencionada por André, que contou uma história onde a escritora, quando estava deprimida, usava uma água de colônia chamada ‘Imprevisto’. A anedota é usada como metáfora para buscar alegria no inesperado.
  • Michel Alcoforado — Antropólogo e fundador da Consumoteca, convidado do episódio. Ele traz uma análise sobre as transformações na sociabilidade pós-pandemia, focando em planejamento, distinção entre amigos/colegas e a busca por ‘checks de estabilidade’.
  • Thales Absaber — Psicanalista brasileiro citado por André e Lucas. Ele é mencionado por sua análise de que a música e a dança sublimam a vida erótica, e por sua crítica, no livro ‘Tempo Infinito’, à cultura de gozo ininterrupto e afirmativa.
  • Emile Durkheim — Sociólogo francês fundamental para a discussão. Seu conceito de ‘efervescência coletiva’ – a união em emoção compartilhada que excita e unifica um grupo – é central para entender o desejo por festas e encontros massivos.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução: Paralelos entre 1921 e 2021 pós-pandemia — Os hosts apresentam o tema, questionando se o desejo atual de festa e extravaso (‘fervo’) é uma forma de lidar com o luto da pandemia. Eles traçam um paralelo histórico com a efervescência cultural e econômica dos anos 1920, que sucedeu a Gripe Espanhola e a Primeira Guerra. No entanto, destacam que o contexto brasileiro atual é de crise econômica e política, levantando dúvidas sobre uma retomada uniforme de prosperidade.
  • 00:04:18Os estágios não lineares do luto e o desejo por calma — André discute como os estágios do luto (negação, raiva, depressão, aceitação) não são lineares. Ele cita uma pesquisa global da Gallup onde 72% das pessoas, após a pandemia, disseram preferir uma vida calma a uma vida excitante. Isso contrasta com a narrativa dos ‘novos anos 20 loucos’ e aponta para um desejo conservador pela estabilidade, levantando a questão sobre a oportunidade de repensar estruturas sociais opressivas que a pandemia escancarou.
  • 00:06:49A estranheza da retomada e o que falta no virtual — Lucas comenta sobre a sensação ambígua de retomar a vida social, citando uma crônica de Leandro Sarmatis que mistura desejo e autocensura. A pandemia mostrou que podemos viver sem coisas que pareciam essenciais, como eventos presenciais, mas que algo falta nas experiências digitais. Ele introduz o conceito psicanalítico de ‘objeto a’ – algo inominável que nos move, causa desejo e que nos faz buscar encontros e celebrações.
  • 00:10:08A importância dos laços fracos e a crise de sociabilidade — Os hosts discutem a saudade não apenas de amigos próximos, mas dos ‘laços fracos’ ou relações casuais (vizinho, pessoa no ponto de ônibus). Esses vínculos, aparentemente insignificantes, são fundamentais para o exercício da comunidade e para driblar a solidão. Eles alertam para uma ‘apatia social’ ou crise na disposição de socializar, um sentimento de ‘será que ainda sei me importar com o outro?’, que pode aprofundar a indiferença.
  • 00:12:37Efervescência coletiva, corpo e dança como sublimação — André introduz o conceito sociológico de ‘efervescência coletiva’ de Durkheim: a união em emoção compartilhada que excita e unifica o grupo. Ele e Lucas discutem como a música e a dança, especialmente no contexto brasileiro como o carnaval, são sublimações da vida erótica e formas de reinscrever o corpo no mundo após um trauma. A fisicalidade e a sincronia corporal são antídotos para a experiência 2D e mental do virtual.
  • 00:17:01O grupo como apaziguador e os riscos do hedonismo compulsivo — Baseando-se em Freud e Durkheim, discutem como o espírito coletivo em grupos (festas, protestos, shows) pode suspender as dúvidas que atormentam o ego solitário, oferecendo um alívio temporário. No entanto, alertam para a transformação do lazer em ‘lazer desempenho’ e para os imperativos sociais neoliberais de ‘ser feliz’, ‘curtir a vida’ e ‘work hard, play harder’. Essa euforia imposta pode se tornar opressiva e tapar o vazio de forma ansiosa.
  • 00:25:35Entrevista com Michel Alcoforado: Três transformações na sociabilidade — O antropólogo Michel Alcoforado analisa a retomada pós-pandemia. Ele identifica três mudanças principais: 1) Mais planejamento e menos espontaneidade nos encontros, devido à necessidade de combinar protocolos; 2) A clara distinção entre amigos (vínculos mantidos) e colegas (vínculos que perderam importância); 3) Uma queda na ‘gourmetização’ da vida cotidiana. Ele também vê a busca por grandes eventos como um ‘check de estabilidade’ em meio ao trauma coletivo.
  • 00:33:49Gozo ininterrupto, cultura afirmativa e a perda do espaço para sonhar — Retomando a discussão, Lucas reflete sobre a crítica de Thales Absaber a uma cultura de ‘gozo ininterrupto’ e afirmativa, presente na música eletrônica, maratonas de série e feeds de TikTok. Esse regime ‘farmacopornográfico’ (como descrito por Preciado) de produção e consumo sem pausa não deixa espaço para o inconsciente e para a capacidade de sonhar. O desafio é abrir brechas para o imaginário e para uma temporalidade diferente, permitindo o verdadeiro trabalho do luto.

Dados do Episódio

  • Podcast: vibes em análise
  • Autor: floatvibes
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2021-11-10T09:30:00Z
  • Duração: 00:37:42

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] 1921 ou 2021. Parece uma grande coincidência numérica, mas muito vem se especulando sobre a semelhança entre esses dois períodos históricos,

[00:00:08] onde a gente enxerga não exatamente o início do fim da pandemia, mas pelo menos o fim do seu início.

[00:00:14] Diversão, festa, extroversão. As pandemias costumam ser seguidas por períodos de grande efervescência criativa e interações coletivas.

[00:00:22] A gente sabe, inclusive, como o convívio e a socialização são importantes para a gente atravessar esses períodos.

[00:00:28] De acordo com historiadores e infectologistas, a pandemia possivelmente ainda está longe de acabar,

[00:00:34] mas, ao mesmo tempo, os brasileiros sentem cada vez mais saudade de extravasar e comemorar.

[00:00:40] Encontrar pessoas, se divertir, se distrair. Será que o fervo é uma forma de lidar com o luto? É a melhor forma? É a única forma?

[00:00:49] Bom, vamos lá. Eu sou o Lucas Liedtke.

[00:00:51] E eu sou o André Alves. Esse é o sexto episódio do nosso podcast, o Vibes em Análise.

[00:00:55] O André e eu somos psicanalistas e pesquisadores.

[00:00:58] E a gente está por trás do perfil Float Vibes no Instagram, onde a gente conta um pouco dos fenômenos culturais e comportamentais que a gente anda estudando.

[00:01:06] Lucas, por onde a gente começa?

[00:01:25] Bom, André, para a gente se situar um pouco assim, né?

[00:01:28] A gente sabe que, historicamente, a década de 1920 foi um momento de crescimento das artes, um boom econômico nos Estados Unidos, em boa parte da Europa e também no Brasil.

[00:01:39] Tem muitas expressões de vanguardismo na arte, na cultura, o próprio surgimento do carnaval, das escolas de samba.

[00:01:47] É um momento de consolidação da modernidade e de muitos movimentos que nos influenciam até hoje.

[00:01:53] E tudo isso veio depois da gripe espanhola e da Primeira Guerra Mundial.

[00:01:58] É um momento que localiza o começo que vem a partir de algum fim.

[00:02:04] O que se diz muito é que as guerras levam a um enorme prejuízo e uma destruição do capital e que as pandemias levam à destruição do capital humano.

[00:02:14] Mas como que anda o nosso capital?

[00:02:16] A gente está, no Brasil, em um momento econômico e político tão crítico, com a inflação com a maior alta nos últimos 20 anos, um grande aumento na desigualdade social.

[00:02:26] Será que a gente vai ter pela frente um tempo de paz?

[00:02:28] Será que a gente vai ter pela frente um tempo de prosperidade e de alegria?

[00:02:31] Mas isso vem acontecendo de um jeito muito diferente para cada um.

[00:02:34] É curioso, porque essa narrativa dos novos anos 20, ou dos Roaring Twenties, dos loucos anos 20, parece que foi tipo uma narrativa compensatória.

[00:02:45] Vamos passar por tudo isso que vem uma grande euforia depois.

[00:02:49] Imagina a festa que vai ser depois que a gente puder voltar a circular ou voltar à vida.

[00:02:53] E definitivamente, eu estava lendo um livro bem interessante chamado

[00:02:58] Que é um livro de um sociólogo chamado

[00:03:00] Ele é um dos maiores especialistas da pandemia no mundo todo, super bem falado.

[00:03:07] E ele é muito contundente uma opinião de como a gente não está no fim da pandemia.

[00:03:12] Talvez a gente, como você muito bem disse, esteja no fim do começo.

[00:03:16] E aí ele fala de como, depois de pandemias, a gente geralmente passa por períodos de grande libertinagem sexual e gastança desenfreada.

[00:03:26] Que eu acho um jeito muito interessante.

[00:03:28] De falar sobre como nos últimos dois mil anos, quando acaba um momento como esse, vem uma festa.

[00:03:34] E a gente provavelmente vai viver isso no século 21 também.

[00:03:37] Agora, o que você acha desse desamparo material e concreto que a gente está vivendo também?

[00:03:45] Porque no nosso psicológico, a gente vê no ar um clima de euforia.

[00:03:49] Uma predisposição à alegria e ao prazer.

[00:03:53] Ao mesmo tempo, isso tem acontecido também de uma forma bem diferente para cada um.

[00:03:56] Tem umas variações.

[00:03:57] Tem umas variações.

[00:03:58] Tem muitas pessoas que não estão nesse clima de euforia.

[00:04:02] Que estão ainda num certo definhamento ou numa inibição social.

[00:04:06] Numa grande preocupação com emprego, com dinheiro, com saúde.

[00:04:12] Com o preço das coisas.

[00:04:14] E aí, vai dar para sair gastando e se divertindo.

[00:04:18] Eu acho que primeiro sempre vale a gente lembrar que os estágios do luto não são uma linha reta.

[00:04:25] Não são uma promessa de evolução.

[00:04:27] Então, negação, raiva, negociação, depressão, aceitação.

[00:04:32] São, na verdade, estados simultâneos e, às vezes, concomitantes.

[00:04:36] E a gente vai e volta nessa jornada.

[00:04:39] E aí é curioso, né?

[00:04:41] Porque saiu um estudo da Gallup, super recente, em 116 países.

[00:04:47] Perguntando para as pessoas se elas preferiam ter uma vida excitante ou uma vida calma.

[00:04:52] Depois de tudo isso que a gente viveu.

[00:04:54] 72% respondeu que é uma vida calma.

[00:04:57] Então, tem aí uma reação que é a promessa dos novos loucos anos 20.

[00:05:04] Tem também esse desejo por calma.

[00:05:07] Quase um amor infinito e altamente conservador pela vida como ela é.

[00:05:12] E aí é curioso.

[00:05:13] Porque se depois de tudo que a gente tem vivido.

[00:05:16] A gente tem uma grande oportunidade de rediscutir ou repensar o que não faz sentido.

[00:05:22] O que oprime.

[00:05:23] O que violenta.

[00:05:24] O que exaure.

[00:05:25] Que a pandemia ajudou a escancarar.

[00:05:27] Muita gente vai dizer não.

[00:05:29] Volta para como estava.

[00:05:31] Chama de novo o normal.

[00:05:33] Não mexe no meu queijo encantado que eu juro ser a realidade.

[00:05:36] Se a gente pensar na alegria como algo um pouco mais momentâneo.

[00:05:40] Temporário.

[00:05:41] E menos ligado a um objeto.

[00:05:43] Dinheiro.

[00:05:44] Casamento.

[00:05:45] Família.

[00:05:46] Alegria como uma sensação um pouco mais atingível.

[00:05:49] Talvez a gente esteja num caminho mais interessante.

[00:05:52] Assim.

[00:05:53] De que no meio de tanta desigualdade.

[00:05:55] Tanta dor.

[00:05:56] Tantos vais e vens.

[00:05:58] A gente ainda consegue alcançar de vez em quando algum tipo de alegria.

[00:06:02] Mas eu acho que aí tem uma história que eu sou muito apaixonado.

[00:06:05] Que é uma vez a Clarice Lispector descobriu uma água de colônia chamada imprevisto.

[00:06:10] E aí sempre que ela estava deprê.

[00:06:12] Ela colocava essa colônia.

[00:06:14] Colocava um pouco de imprevisto.

[00:06:16] E eu acho que todo esse jogo passa por a gente conseguir encontrar alegria e imprevisto.

[00:06:21] Como o método da Clarice.

[00:06:23] Ou a alegria do imprevisto.

[00:06:33] É isso que você estava dizendo.

[00:06:34] Assim.

[00:06:35] É como se alguns de nós.

[00:06:36] Ou uma parte de nós.

[00:06:37] Também.

[00:06:38] Afirmasse que a gente estava acostumado já com algumas restrições.

[00:06:41] E que agora não sei se eu quero voltar.

[00:06:43] Se eu quero voltar para os encontros.

[00:06:45] Para o trabalho presencial.

[00:06:46] Para os eventos.

[00:06:47] O Leandro se sentiu acostumado.

[00:06:49] Com algumas restrições.

[00:06:50] O Leandro Sarmatis escreveu na Gama uma crônica.

[00:06:53] Assim.

[00:06:54] Bem interessante.

[00:06:55] Que ele fala o seguinte.

[00:06:56] Uma sensação estranha.

[00:06:57] Que misturou.

[00:06:58] Desde a véspera.

[00:06:59] Desejos permissivos.

[00:07:00] E uma autocensura violenta.

[00:07:02] Voltar à vida social.

[00:07:04] Agora parece alternadamente cedo e tarde demais.

[00:07:07] Fui tomado por uma espécie de ansiedade.

[00:07:09] Que trazia doses iguais de euforia.

[00:07:11] E autocondenação.

[00:07:13] A sensação que dá é que a pandemia nos ensinou.

[00:07:15] Que a gente consegue ficar sem muitas coisas.

[00:07:18] Que nos faziam bem.

[00:07:19] E que pareciam essenciais.

[00:07:22] Mas que não eram exatamente essenciais.

[00:07:24] Mas eram importantes.

[00:07:26] A história do presencial.

[00:07:27] Ele é desejável.

[00:07:28] Mas ele talvez não seja essencial.

[00:07:30] Ir num estádio de futebol.

[00:07:32] Ou ir num show.

[00:07:33] A gente consegue viver sem isso.

[00:07:35] Mas talvez seja meio chato.

[00:07:36] E aí fica uma pergunta.

[00:07:38] Qual é a diferença de ver um filme no cinema.

[00:07:41] Ou ver em casa numa TV gigante.

[00:07:43] Ou qual é a diferença de pedir um delivery.

[00:07:45] Ou ir até o restaurante.

[00:07:47] Ou mesmo.

[00:07:48] Qual é a diferença de fazer terapia.

[00:07:50] Pelo telefone.

[00:07:51] Deitado na sua cama.

[00:07:52] Ou ir até o consultório do seu analista.

[00:07:54] Tem várias diferenças aí.

[00:07:56] Mas que é difícil de dizer quais são.

[00:07:58] Cada um vai saber dizer de si.

[00:08:00] Porque mesmo no real.

[00:08:02] Fica faltando alguma coisa.

[00:08:04] Mas com certeza no virtual.

[00:08:05] Fica faltando ainda mais.

[00:08:07] Tem uma parte aí da presença.

[00:08:09] Do calor humano.

[00:08:10] Do olhar.

[00:08:11] Do relance.

[00:08:13] Que me lembra uma coisa meio.

[00:08:15] Objeto A.

[00:08:16] O que é objeto A?

[00:08:18] É aquilo que é inominável.

[00:08:20] É uma coisa que não pertence.

[00:08:22] Exatamente.

[00:08:23] Ao pequeno outro.

[00:08:24] Mas passa por ele.

[00:08:26] É uma coisa que nos escapa.

[00:08:28] Assim.

[00:08:29] Mas que nos move.

[00:08:30] Que nos faz sair de casa.

[00:08:32] Que nos faz gastar dinheiro.

[00:08:34] Faz a gente se apaixonar.

[00:08:36] Mais do que um objeto do desejo.

[00:08:38] É o objeto causa do desejo.

[00:08:40] É algo que nos faz querer alguma coisa.

[00:08:42] E esses movimentos.

[00:08:44] De sair de casa.

[00:08:45] E encontrar as pessoas.

[00:08:47] E ter momentos de diversão.

[00:08:49] De celebração.

[00:08:50] Traz alguma coisa boa para a gente.

[00:08:52] Que a gente não sabe explicar direito o que é.

[00:08:55] É muito bom isso que você está falando.

[00:08:56] Porque eu passei os últimos dias pesquisando.

[00:08:58] Sobre do que as pessoas mais sentem falta.

[00:09:01] Do que elas mais têm saudade.

[00:09:03] Tem uma amiga nossa.

[00:09:04] A Dania Reis.

[00:09:05] Que escreveu um texto lindo inclusive.

[00:09:07] No meio da pandemia.

[00:09:08] Saudades das suas pernas.

[00:09:09] Sobre essa falta que as pessoas têm.

[00:09:11] De ver inteiros.

[00:09:13] Se é que a gente é inteiro.

[00:09:14] Mas eu cruzei com uma pesquisa da Orbit Data Science.

[00:09:20] Que é um estudo chamado.

[00:09:22] Quando eu me vacinar.

[00:09:24] Que foi um estudo sobre menções online.

[00:09:26] Que as pessoas fizeram ao longo da pandemia.

[00:09:28] Desde fevereiro do ano passado.

[00:09:30] Até junho de 2021.

[00:09:32] Sobre o que as pessoas planejavam fazer.

[00:09:34] Assim que elas tivessem a segunda dose da vacina no braço.

[00:09:37] E aí claro que extravasar.

[00:09:39] Foi a primeira opção.

[00:09:41] A que mais apareceu.

[00:09:43] Apareceu.

[00:09:44] Mas também frequentar lugares.

[00:09:46] Passar tempo fora de casa.

[00:09:48] Festejar.

[00:09:49] Beber.

[00:09:50] Estar com as pessoas.

[00:09:51] Que é um pouco desse.

[00:09:53] O que está faltando.

[00:09:54] O que a live.

[00:09:55] Ou o jogo online.

[00:09:57] Ou os infinitos episódios.

[00:09:59] Não estão dando conta de me entregar.

[00:10:01] Pois é.

[00:10:02] O que será que essas experiências de encontro.

[00:10:04] Ou de comunhão.

[00:10:06] Podem proporcionar para a gente.

[00:10:08] Tem alguma coisa aí do.

[00:10:10] Do senso de comunidade.

[00:10:11] Do.

[00:10:12] Juntos somos mais fortes.

[00:10:14] Com o estreitamento dos laços.

[00:10:16] A gente também perdeu muitos contatos.

[00:10:18] Será que a gente perdeu também.

[00:10:20] Algumas categorias inteiras de relacionamento.

[00:10:22] De laços que são mais casuais.

[00:10:24] Que são mais superficiais.

[00:10:26] Ou sobre conhecer novas pessoas.

[00:10:28] Laços que são mais fracos até.

[00:10:30] E impessoais.

[00:10:32] Mas que são importantes para nossa convivência.

[00:10:34] As pessoas que ocupam a periferia.

[00:10:36] Da nossa vida social.

[00:10:38] O vizinho.

[00:10:39] Pessoa no ponto de ônibus.

[00:10:40] O conhecido na fila da balada.

[00:10:41] Que você nem lembra o nome.

[00:10:43] O colega no elevador da empresa.

[00:10:45] São alguns vínculos.

[00:10:47] Que parecem insignificantes.

[00:10:49] Mas que são muito importantes.

[00:10:51] Para o nosso exercício de comunidade.

[00:10:53] E se importar com alguém.

[00:10:55] Que não é especificamente tão importante.

[00:10:57] É uma forma também de preservar.

[00:10:59] A nossa humanidade.

[00:11:01] E driblar a nossa solidão existencial.

[00:11:03] A nossa liberdade.

[00:11:05] A nossa liberdade.

[00:11:07] A nossa liberdade.

[00:11:09] Até porque.

[00:11:11] A gente escreveu um pouco sobre isso.

[00:11:13] Sobre apatia social.

[00:11:15] E como paira no ar também.

[00:11:17] Para muitas pessoas.

[00:11:19] Um sentimento de.

[00:11:21] Será que eu ainda sei socializar?

[00:11:23] Será que eu ainda me importo com o outro?

[00:11:25] Acho que é importante esse assunto.

[00:11:27] Para a gente prestar atenção.

[00:11:29] Porque sem alteridade não tem eu também.

[00:11:31] Esse quartinho apertado.

[00:11:33] Do narcisismo que a gente.

[00:11:35] Cria para a gente.

[00:11:37] E jura para o mundo inteiro que é um palácio.

[00:11:39] Mas na verdade é um cativeiro.

[00:11:41] Um pequeno cativeiro que cada um cria para si.

[00:11:43] E acho que essa crise também.

[00:11:45] Na disposição social.

[00:11:47] Ela é importante porque ela também é fundante.

[00:11:49] Da nossa história.

[00:11:51] Essa coisa de brasileiro é assim mesmo.

[00:11:53] Ou brasileiro não pensa no próximo.

[00:11:55] Ou brasileiro não está nem aí.

[00:11:57] E assim.

[00:11:59] Não importa se você é negacionista.

[00:12:01] Nova erista.

[00:12:03] Ou o nome que você queira dar para si mesmo.

[00:12:05] Esse contexto que a gente está.

[00:12:07] Também passa por um certo.

[00:12:09] Desvelamento das relações.

[00:12:11] E uma decepção muito grande.

[00:12:13] Com o coletivo.

[00:12:15] O que a gente tem que tomar cuidado.

[00:12:17] É para que a gente não vá aprofundando.

[00:12:19] A indiferença.

[00:12:21] Agora sobre isso que está faltando.

[00:12:23] E o que não necessariamente a gente está conseguindo ter.

[00:12:25] Com todas as experiências digitais.

[00:12:27] Ou até pela metade.

[00:12:29] Eu acho que dá para a gente.

[00:12:31] Dar um passeio ali.

[00:12:33] Pela galera da sociologia.

[00:12:35] E trazer o Durkheim.

[00:12:37] E o conceito de efervescência coletiva.

[00:12:39] Efervescência coletiva.

[00:12:41] É a união em emoção compartilhada.

[00:12:43] É um termo do sociólogo francês.

[00:12:45] Emile Durkheim.

[00:12:47] Que se refere a um evento.

[00:12:49] Que excita os indivíduos.

[00:12:51] E serve para unificar um grupo.

[00:12:53] Ele inclusive.

[00:12:55] Fala bastante sobre experiências religiosas.

[00:12:57] Nesse sentido.

[00:12:59] A gente está, ao longo do tempo.

[00:13:01] Fazendo atividades mais profanas.

[00:13:03] Ou mais cotidianas, corriqueiras.

[00:13:05] Mas existem alguns eventos.

[00:13:07] Que colocam a gente em um estado de ebulição.

[00:13:09] Fervura, agitação.

[00:13:11] Excitação.

[00:13:13] É aquele sentimento brilhante.

[00:13:15] Que deixa a gente até meio tonto.

[00:13:17] De autoafrouxamento.

[00:13:19] De ceder.

[00:13:21] De se identificar.

[00:13:23] De pertencer.

[00:13:25] De sincronizar.

[00:13:27] De ser para o outro.

[00:13:29] O Thales Absaber.

[00:13:31] Aquele psicanalista brasileiro.

[00:13:33] Que eu gosto bastante.

[00:13:35] Ele fala que do mesmo jeito que o esporte.

[00:13:37] É a sublimação da competição e da guerra.

[00:13:39] A música e a dança.

[00:13:41] Proporcionam uma sublimação da vida erótica.

[00:13:43] E do sexo.

[00:13:45] Existe alguma coisa aí.

[00:13:47] De trazer para o corpo.

[00:13:49] E de fazer o corpo vibrar.

[00:13:51] Em uma frequência semelhante ao do outro.

[00:13:53] E aí.

[00:13:55] Para a gente isso é muito importante.

[00:13:57] Porque desde os primórdios do Brasil.

[00:13:59] A música é um espaço.

[00:14:01] De representação possível.

[00:14:03] Para muitas pessoas.

[00:14:05] Que foram oprimidas.

[00:14:07] Escravizadas.

[00:14:09] Marginalizadas.

[00:14:11] E a música proporciona algum tipo de nova comunhão.

[00:14:13] Ou até reconfiguração.

[00:14:15] O filósofo francês.

[00:14:17] Garroudi falou assim.

[00:14:19] Procura-se uma nova maneira de dançar.

[00:14:21] Quando uma fratura da história.

[00:14:23] Obriga o homem a procurar uma nova maneira de existir.

[00:14:25] Se a gente pensa.

[00:14:27] Que o psiquismo é dinâmico.

[00:14:29] E foi feito para se mover.

[00:14:31] De alguma forma.

[00:14:33] Em sincronia com as pessoas ao nosso redor.

[00:14:35] Também o nosso corpo.

[00:14:37] A dança é um tipo de fala com o corpo.

[00:14:39] De escrever com o corpo.

[00:14:41] E a gente está precisando voltar a escrever com o nosso corpo.

[00:14:43] E se inscrever com o corpo também.

[00:14:45] Então o virtual deixou tudo muito mental.

[00:14:47] Muito 2D.

[00:14:49] É necessário a gente voltar para o 3D.

[00:14:51] Ou mesmo até para o 5D.

[00:14:53] Se tudo der certo.

[00:14:55] Mas por isso que o carnaval.

[00:14:57] Seja uma parte tão fundamental.

[00:14:59] Do tecido social e cultural brasileiro.

[00:15:01] Parece que nessa experiência tão fragmentada.

[00:15:03] Injusta, desigual.

[00:15:05] Tem pelo menos a promessa de que em uma semana do ano.

[00:15:07] A gente reinstaura a coletividade.

[00:15:09] A gente volta de alguma forma.

[00:15:11] A dançar minimamente juntos.

[00:15:13] Eu lembrei daquele psicanalista.

[00:15:15] O Bessel van der Kolk.

[00:15:17] Ele escreveu aquele livro.

[00:15:19] O corpo lembra.

[00:15:21] Um trabalho muito interessante sobre pacientes que viveram traumas.

[00:15:23] Ele tem toda uma análise.

[00:15:25] Sobre como quando você fica traumatizado.

[00:15:27] Você fica fora de sintonia.

[00:15:29] Ou fora de sincronia.

[00:15:31] Em vários níveis.

[00:15:33] E aí porque que os militares.

[00:15:35] Colocam os soldados para marchar.

[00:15:37] Porque essa movimentação.

[00:15:39] Junto.

[00:15:41] Faz com que eles voltem a minimamente.

[00:15:43] Encontrar uma harmonia.

[00:15:45] Para fora e para dentro.

[00:15:47] E aí eu estava ouvindo uma fala muito boa do Dunker.

[00:15:49] Sobre como.

[00:15:51] Em um dos raros momentos que o Freud fala.

[00:15:53] Sobre a formação da consciência.

[00:15:55] Ele fala sobre uma certa percepção.

[00:15:57] De ritmo.

[00:15:59] Como se fosse entendendo.

[00:16:01] O endorritmo.

[00:16:03] Que a gente construísse alguma forma.

[00:16:05] De consciência.

[00:16:07] Você falou de soldados.

[00:16:09] E eu lembrei que o êxtase foi desenvolvido por soldados.

[00:16:11] Olha só.

[00:16:13] Nesse lugar de energia e de catarse.

[00:16:15] E pensando assim na festa.

[00:16:17] Como esse ambiente que permita.

[00:16:19] O assentamento da psique no corpo.

[00:16:21] E dessa nova psique.

[00:16:23] De um novo corpo.

[00:16:25] E de um corpo que possa estar aberto.

[00:16:27] Que possa se abrir.

[00:16:29] Depois de a gente ficar tão fechados.

[00:16:31] E tão enclausurados.

[00:16:33] Mas que ele possa se abrir para a formação de novos sentidos.

[00:16:35] Muito bom isso.

[00:16:37] Nossa muito bom.

[00:16:39] Porque você sabe que o Durkheim.

[00:16:41] Tem um trabalho extenso sobre suicídio.

[00:16:43] O Durkheim pai da sociologia.

[00:16:45] Um dos pais da sociologia.

[00:16:47] Construiu muita coisa importante.

[00:16:49] Inclusive para posicionar a sociologia.

[00:16:51] Ele tem um trabalho sobre suicidas.

[00:16:53] Ele faz uma relação muito direta.

[00:16:55] Entre suicídio.

[00:16:57] E falta de integração social.

[00:16:59] Então.

[00:17:01] Quanto menos integradas.

[00:17:03] Ou se sentindo parte de um todo.

[00:17:05] As pessoas estão.

[00:17:07] Mais propensas elas estão talvez.

[00:17:09] A tirarem a própria vida.

[00:17:11] A passar o ato.

[00:17:13] Claro que na psicanálise.

[00:17:15] Eu acho que a gente vai complexificar isso muito.

[00:17:17] Mas você falou.

[00:17:19] Uma das massas do Freud.

[00:17:21] Aquele texto de 1921.

[00:17:23] Em que ele fala um pouco do.

[00:17:25] Até do conceito do Le Bon.

[00:17:27] Da alma coletiva.

[00:17:29] Mas de como.

[00:17:31] Em certas situações de grupo.

[00:17:33] Esse espírito coletivo.

[00:17:35] Faz com que o sujeito se entregue.

[00:17:37] Se solte.

[00:17:39] Vai com a galera mesmo.

[00:17:41] E aí é por isso que o grupo.

[00:17:43] Vai até se tornando mais certo de si.

[00:17:45] Como se essa comunhão.

[00:17:47] Eliminasse ou suspendesse.

[00:17:49] Pelo menos por um tempo.

[00:17:51] As dúvidas que enlouquecem o ego.

[00:17:53] Quando o sujeito está sozinho.

[00:17:55] O coletivo apazigua.

[00:17:57] Dissolve.

[00:17:59] Pelo menos por uns segundos.

[00:18:01] Acho muito bonita essa imagem.

[00:18:03] E a gente vai ver isso em experiências coletivas.

[00:18:05] Como protestos.

[00:18:07] Festas.

[00:18:09] Jogos esportivos.

[00:18:11] Shows.

[00:18:13] Esses momentos de coletividade e espaço.

[00:18:15] Para brincar.

[00:18:17] Entretenimento que possa ser vivo de novo.

[00:18:19] Porque vale a gente refletir um pouco.

[00:18:21] Sobre lazer e entretenimento.

[00:18:23] Festas.

[00:18:25] Festivais. Shows.

[00:18:27] O turismo.

[00:18:29] Que tragam deslocamentos e investimentos.

[00:18:31] O imprevisto.

[00:18:33] O perfume da Clarice que você trouxe.

[00:18:35] Porque o lazer não pode ser só.

[00:18:37] Assistir streaming no sofá.

[00:18:39] E a comunhão não pode ser só.

[00:18:41] Passar horas no Twitter.

[00:18:43] Tem uma parte da efervescência.

[00:18:45] Que vai muito além disso.

[00:18:47] A fisicalidade faz falta.

[00:18:49] Essa possibilidade.

[00:18:51] De viver isso.

[00:18:53] No mundo físico.

[00:18:55] É muito fundamental.

[00:18:57] Tem vários estudos que mostram que a pandemia.

[00:18:59] Fez com que as pessoas sentissem.

[00:19:01] Que a vida é muito curta.

[00:19:03] Esse despertar para a vitalidade.

[00:19:05] Para a nossa pulsão de vida.

[00:19:07] Pulsão de vida é essa força urgente.

[00:19:09] Que nos faz correr atrás do que a gente quer.

[00:19:11] Do que nos dá prazer.

[00:19:13] Do que nos faz bem.

[00:19:15] Do que nos dá esperança.

[00:19:17] Que é a conexão com o outro.

[00:19:19] A socialização.

[00:19:21] O amor.

[00:19:23] A amizade.

[00:19:25] E já que a gente está falando de deuses.

[00:19:27] Eu jogaria um baco aí também.

[00:19:29] Dionísio.

[00:19:31] Que é o deus do vinho.

[00:19:33] Das festas.

[00:19:35] Da diversão.

[00:19:37] Da loucura.

[00:19:39] E do exagero.

[00:19:41] Agora o exagero.

[00:19:43] Da parcimônia também.

[00:19:45] E como a gente estava falando.

[00:19:47] Não esquecer que existem várias crises em curso.

[00:19:49] Ou tentar tapar o vazio.

[00:19:51] A todo custo.

[00:19:53] Os nossos ouvintes adoraram quando eu citei uma carta de tarô.

[00:19:55] Num episódio.

[00:19:57] Então eu vou puxar outra aqui.

[00:19:59] Que é o arquétipo da temperança.

[00:20:01] Um pé na água e outro na terra.

[00:20:03] É sobre bem estar.

[00:20:05] Mas é um bem estar com moderação.

[00:20:07] Porque essas saídas compulsórias.

[00:20:09] Muito maníacas.

[00:20:11] É só mais ansioso.

[00:20:13] Tem aqueles acrônimos lá bem conhecidos.

[00:20:15] Que é beleza.

[00:20:17] A gente não precisa mais ficar preso no fear of going out.

[00:20:19] Ou no fear of dating again.

[00:20:21] Mas também.

[00:20:23] A gente não precisa voltar para o nosso velho e antigo fear of missing out.

[00:20:25] O medo de ficar de fora.

[00:20:27] Eu acho que a gente pode ser mais amistoso.

[00:20:29] Com a gente nesse momento.

[00:20:31] E com os outros também.

[00:20:33] E respeitar que o seu ritmo não é o mesmo do mundo.

[00:20:35] Dos seus amigos.

[00:20:37] Do seu parceiro ou parceira.

[00:20:39] Dos seus colegas de trabalho.

[00:20:41] Dos seus lutos em curso.

[00:20:43] Que a gente não pode apressar só porque é fim de ano.

[00:20:45] No fim eu acho que é tentar operar menos numa lógica.

[00:20:47] Neoliberal.

[00:20:49] De oportunidades que não podem ser desperdiçadas.

[00:20:51] Que é não posso perder esse evento.

[00:20:53] Não posso perder esse crush.

[00:20:55] Não posso perder esse emprego.

[00:20:57] Custe o que custar.

[00:20:59] Talvez você possa sim.

[00:21:01] Se você estiver sacrificando demais.

[00:21:03] A temporalidade na sua subjetividade.

[00:21:05] E o seu bem estar emocional.

[00:21:07] O mais difícil agora parece ser entender.

[00:21:09] Que cada um.

[00:21:11] Tem que lidar com relação a essa retomada.

[00:21:13] E respeitar essas diferenças.

[00:21:15] Com menos julgamento.

[00:21:17] Com menos acusação.

[00:21:19] Com menos culpa.

[00:21:21] E com menos pressa também.

[00:21:23] Porque senão a euforia pode virar afobação.

[00:21:25] E aí entra numa lógica de lazer desempenho.

[00:21:27] Exato.

[00:21:29] E a gente corre o risco de sair de um estado deprimido.

[00:21:31] E mergulhar de cabeça em um estado frenético e ansioso.

[00:21:33] Tem uma frase da Maria Homem.

[00:21:35] Do Lupa da Alma.

[00:21:37] Sobre as grandes revelações da quarentena e da pandemia.

[00:21:39] Que eu acho belíssima.

[00:21:41] Que ela diz assim.

[00:21:43] Se a gente tiver um tiquinho de coragem.

[00:21:45] E aprender a sustentar o silêncio.

[00:21:47] Talvez.

[00:21:49] Dê pra escutar algumas notas.

[00:21:51] De uma possível nova melodia.

[00:21:53] Por que tanta falação no mundo?

[00:21:55] Pra que tanta barulheira?

[00:21:57] Pra fugir desse encontro.

[00:21:59] Ficar olhando pra fora.

[00:22:01] Pra fora. Pro outro.

[00:22:03] Mais feio do que eu. Mais belo do que eu.

[00:22:05] É sempre uma distração.

[00:22:07] E é uma distração da falta.

[00:22:09] Isso que você falou é muito bom.

[00:22:11] E eu acho que a lógica do lazer do desempenho.

[00:22:13] Passa por cima da falta.

[00:22:15] Que nem um trator.

[00:22:17] E cria esse tempo.

[00:22:19] Que não é presente, passado e futuro.

[00:22:21] É só presente.

[00:22:23] E a gente fica preso na mesmice.

[00:22:25] E aí a gente cria esse presente compulsivo.

[00:22:27] Em que a gente fica repetindo.

[00:22:29] E reencenando o que já existe.

[00:22:31] O que já sabe.

[00:22:33] Como se a gente estivesse preso na mesma festa.

[00:22:35] Essa euforia não pode se tornar opressiva.

[00:22:37] Na pandemia a gente já discutia

[00:22:39] em várias rodas sobre

[00:22:41] positividade tóxica, sobre o império do gozo.

[00:22:43] O empuxo ao gozo.

[00:22:45] E como a obsessão por felicidade

[00:22:47] virou um tipo de tristeza.

[00:22:49] Se há 100 anos atrás

[00:22:51] a nossa repressão neurótica

[00:22:53] era principalmente

[00:22:55] controle-se, não sinta prazer.

[00:22:57] Não, você não pode.

[00:22:59] Hoje o nosso super eu

[00:23:01] e o grande outro cultural e mercadológico

[00:23:03] ao nosso redor fala principalmente o contrário.

[00:23:05] Seja feliz.

[00:23:07] Você sobreviveu à pandemia.

[00:23:09] Você pode ser ainda mais feliz.

[00:23:11] Aproveite o momento. Curta a vida.

[00:23:13] Work hard, play harder.

[00:23:15] Esses são os imperativos.

[00:23:17] O hedonismo já estava muito em alta

[00:23:19] e agora parece que ele vai ganhar ainda mais força.

[00:23:21] Então vale a gente ficar esperto com essas

[00:23:23] coibições pra sair e socializar

[00:23:25] pro movimento, pro fervo.

[00:23:27] Porque a sociedade nos empurra

[00:23:29] a produzir muito

[00:23:31] pra consumir muito.

[00:23:33] O varejo nos empurra o natal goela abaixo.

[00:23:35] O ano novo nos empurra

[00:23:37] a viajar.

[00:23:39] As redes sociais dão um recado muito explícito

[00:23:41] de que a gente é mais importante.

[00:23:43] Se a gente tiver muitos amigos.

[00:23:45] Se a gente tiver uma vida que for muito instagramável.

[00:23:47] De que a gente tem que aparecer, senão a gente é esquecido.

[00:23:49] No fim, você pode ter tido um dia

[00:23:51] maravilhoso, sozinho em casa.

[00:23:53] Com o seu gato, cozinhando.

[00:23:55] Lendo um livro.

[00:23:57] Ouvindo a chuva.

[00:23:59] Mas o que ganha mais status são os encontros.

[00:24:01] É o prato do restaurante.

[00:24:03] São as risadas.

[00:24:05] É a viagem.

[00:24:07] É a dança coreografada.

[00:24:09] Que é muito legal.

[00:24:11] Mas assim, vamos combinar que a felicidade

[00:24:13] não tá só nessas expressões.

[00:24:15] Eu acho que vale a gente olhar também com atenção

[00:24:17] pra nostalgia com relação a algumas vivências

[00:24:19] que agora a gente retomou.

[00:24:21] Porque a nostalgia é um tipo de saudade

[00:24:23] mas também é um tipo de idealização do passado.

[00:24:25] E exclui a parte ruim.

[00:24:27] No jogo de futebol também tem briga.

[00:24:29] Na festa tem fila.

[00:24:31] No date tem o azar

[00:24:33] de ter sido péssimo.

[00:24:35] Será que a gente tá preparado pra encarar

[00:24:37] todo o pacote dessas experiências?

[00:24:47] A gente não viveu uma grande

[00:24:49] suspensão, pausa no mundo.

[00:24:51] A gente pode até ter tido essa sensação.

[00:24:53] Mas a gente também se transformou

[00:24:55] durante esses quase dois anos.

[00:24:57] Então

[00:24:59] talvez você não goste mais da festa.

[00:25:01] Talvez você não esteja mais tão afim

[00:25:03] de sair com seus amigos.

[00:25:05] Ou sim,

[00:25:07] você queira ir em mais festas

[00:25:09] e ver mais pessoas e sair mais de casa.

[00:25:11] Escutar

[00:25:13] essa transformação é muito importante.

[00:25:15] Pra aprofundar um pouco essas questões

[00:25:17] a gente convidou o Michel Alcoforado

[00:25:19] pra trazer um pouco das perspectivas

[00:25:21] dele que passam sempre

[00:25:23] por antropologia,

[00:25:25] comportamento e antropologia

[00:25:27] do consumo. Michel

[00:25:29] ele é fundador da Consumoteca,

[00:25:31] colunista da CBN e também do UOL.

[00:25:35] O grande desafio dessa retomada

[00:25:39] com a queda do número de mortos

[00:25:41] e de infectados por conta da pandemia

[00:25:43] do novo coronavírus, eu acho

[00:25:45] que é uma questão central no debate hoje

[00:25:47] não só porque ela determina

[00:25:49] a maneira como os indivíduos vão

[00:25:51] interagir uns com os outros no presente

[00:25:53] mas sobretudo que modelo de sociedade

[00:25:55] é esse que a gente está construindo pro futuro.

[00:25:57] Eu tenho olhado

[00:25:59] pra essa questão muito preocupado

[00:26:01] em entender esse choque

[00:26:03] de expectativas entre

[00:26:05] o que é esse mundo pós-pandêmico

[00:26:07] e o nosso imaginário

[00:26:09] sobre o que é a vida

[00:26:11] social tal como a gente

[00:26:13] aprendeu no período pré-pandêmico.

[00:26:15] Você tem ali um choque

[00:26:17] de um indivíduo que sai de um trauma

[00:26:19] coletivo como uma pandemia é

[00:26:21] completamente olhando pra si

[00:26:23] ou pro mundo de outra forma,

[00:26:25] mas sem um vocabulário claro

[00:26:27] de que novo mundo é esse que ele quer

[00:26:29] construir, sem essa consciência.

[00:26:31] E aí esse choque

[00:26:33] entre um ser, um indivíduo

[00:26:35] que olha pra si e se vê diferente

[00:26:37] porque enfrentou anos muito

[00:26:39] duros, de muitas mudanças

[00:26:41] e de muitas transformações.

[00:26:43] Mas o modelo de sociedade que ele acostumou

[00:26:45] a ter como base, eu acho que

[00:26:47] esse conjunto de tensões aqui

[00:26:49] vai ser determinante desse mundo

[00:26:51] pós-pandêmico.

[00:26:53] E nessa tensão, nessa fricção

[00:26:55] entre aquilo que a gente aprendeu e aquilo que a gente

[00:26:57] virou depois da pandemia

[00:26:59] eu acredito que três

[00:27:01] pontos são decisivos

[00:27:03] nessa transformação. Um primeiro

[00:27:05] é o que eu chamo de mais planejamento

[00:27:07] e menos espontaneidade.

[00:27:09] As sociedades marcadas por uma

[00:27:11] colonização ibérica, sobretudo

[00:27:13] na América Latina,

[00:27:15] havia ao contrário do modelo de

[00:27:17] colonização ou de aculturamento mais

[00:27:19] anglo-saxão, uma predominância

[00:27:21] muito grande do que alguns sociólogos chamavam

[00:27:23] de tempo ibérico. O que era o tempo

[00:27:25] ibérico? Era o tempo das relações

[00:27:27] sociais onde você pode entrar em contato

[00:27:29] com o outro sem um determinado

[00:27:31] fim claro, sem um determinado

[00:27:33] objetivo final.

[00:27:35] Não é a lógica típica

[00:27:37] nos Estados Unidos, por exemplo, do

[00:27:39] Times Money, onde todo mundo só dá

[00:27:41] até bom dia para o vizinho do lado

[00:27:43] se souber muito claramente o que é que ganha

[00:27:45] com essa associação.

[00:27:47] De uma maneira muito clara,

[00:27:49] esse tempo ibérico era

[00:27:51] determinado por uma espontaneidade

[00:27:53] muito grande nas relações

[00:27:55] sociais, mas sobretudo nos

[00:27:57] encontros. Essa espontaneidade

[00:27:59] tende a

[00:28:01] diminuir e isso vai impactar

[00:28:03] sobretudo uma

[00:28:05] um novo tipo de relação

[00:28:07] marcado fortemente pelo planejamento.

[00:28:09] E o que isso implica?

[00:28:11] Isso implica sobretudo

[00:28:13] numa noção clara e

[00:28:15] pragmática de um conjunto

[00:28:17] de acordos que os indivíduos precisam

[00:28:19] fazer para se encontrar.

[00:28:21] Como eu e você,

[00:28:23] apesar de vacinados, estamos

[00:28:25] em relações diferentes com a pandemia,

[00:28:27] uns acham que precisa de álcool em gel,

[00:28:29] outros acham que não precisa, uns

[00:28:31] acham que precisam de máscara, outros acham que não

[00:28:33] precisa, uns acham que precisam ficar em casa,

[00:28:35] outros acham que não precisa.

[00:28:37] Todo esse encontro que

[00:28:39] era natural, com muitas

[00:28:41] aspas aí, e agora eles precisam

[00:28:43] ser combinados. E

[00:28:45] isso faz com que eles

[00:28:47] entendam que há tipos

[00:28:49] de relação que vale

[00:28:51] a pena você se planejar para encontrar

[00:28:53] e há outros tipos de relação

[00:28:55] que não vale nem a pena perder

[00:28:57] tempo com isso. E aí uma conversa

[00:28:59] no WhatsApp resolve. Segundo aspecto,

[00:29:01] duas categorias de relação

[00:29:03] que são típicas da sociabilidade

[00:29:05] nas sociedades modernas. Você

[00:29:07] tem os amigos, que são

[00:29:09] aquelas pessoas que você confia, que você

[00:29:11] conta seus segredos, que estão ali

[00:29:13] contigo para todo momento que você

[00:29:15] viva, seja bom ou seja mal.

[00:29:17] E você tinha os colegas, que eram

[00:29:19] tipo um conjunto de pessoas que fazem

[00:29:21] parte do seu círculo comum de

[00:29:23] sociabilidade, mas eles

[00:29:25] não eram frequentes no seu dia a dia.

[00:29:27] Então, mesmo sem eles serem seus

[00:29:29] amigos, eles inseridos dentro

[00:29:31] do seu círculo de sociabilidade,

[00:29:33] você se sentia obrigado a ir

[00:29:35] no aniversário, a comprar uma lembrança,

[00:29:37] a mandar um presente para o filho,

[00:29:39] a mandar uma mensagem de vez em quando

[00:29:41] e por aí vai. O que

[00:29:43] a pandemia fez foi

[00:29:45] romper essa confusão

[00:29:47] que tinha entre amigos e colegas

[00:29:49] por aqui. A gente, desde

[00:29:51] que ficou preso em casa, manteve

[00:29:53] e reforçou muitas das vezes

[00:29:55] os vínculos que tínhamos com os amigos,

[00:29:57] mas os colegas perderam a importância.

[00:29:59] E o terceiro aspecto dessa

[00:30:01] retomada também nos encontros,

[00:30:03] está relacionado a uma queda da

[00:30:05] gourmetização. Nos últimos anos,

[00:30:07] sobretudo desde os anos de 2010

[00:30:09] para cá, o mundo, de certa forma,

[00:30:11] viveu um processo intenso

[00:30:13] de gourmetização da vida cotidiana.

[00:30:15] A alta cultura

[00:30:17] desceu, de certa forma, para aquilo

[00:30:19] que a gente convencionalmente chamava de baixa

[00:30:21] cultura, e você não teve mais a

[00:30:23] possibilidade de consumir

[00:30:25] nada sem um quê

[00:30:27] de gourmetização. Então, esse

[00:30:29] aumento do afeto e essa

[00:30:31] queda da gourmetização, eu acho

[00:30:33] também que é um terceiro aspecto importante

[00:30:35] dessa retomada.

[00:30:37] Eu tenho olhado com muita graça

[00:30:39] e bastante interesse para essa

[00:30:41] excitação de todo mundo pela

[00:30:43] retomada dos grandes eventos de encontro.

[00:30:45] O Rock in Rio vendeu todos

[00:30:47] os ingressos com uma velocidade gigantesca,

[00:30:49] o Lollapalooza mobilizou

[00:30:51] as redes sociais por causa do

[00:30:53] line-up, todo mundo desesperado,

[00:30:55] quando é que o Caetano vai fazer o novo show,

[00:30:57] o novo CD, sei lá do quê, e todo

[00:30:59] mundo preocupado em saber quando será

[00:31:01] a próxima aglomeração.

[00:31:03] Eu tenho dito que as pessoas

[00:31:05] estão em busca desses momentos de encontro

[00:31:07] por um negócio que eu

[00:31:09] chamo de check de estabilidade.

[00:31:11] Diante de tanta transformação,

[00:31:13] diante de tanta mudança, diante de

[00:31:15] mais de 5 milhões de motos no mundo,

[00:31:17] 600 mil no Brasil,

[00:31:19] a gente quisesse retomar um encontro

[00:31:21] desse, quisesse retomar

[00:31:23] uma aglomeração dessa,

[00:31:25] para imaginar e para saber

[00:31:27] que, apesar de tudo, tudo continua mais ou

[00:31:29] menos do mesmo jeito. Então,

[00:31:31] eu vejo essa saudade

[00:31:33] de aglomerar

[00:31:35] como uma saudade da gente

[00:31:37] mesmo, mais do que

[00:31:39] uma crença de que

[00:31:41] a sociedade ainda vale a pena.

[00:31:43] Eu acho bastante anacrônico

[00:31:45] as comparações que

[00:31:47] muitos têm feito entre a gripe

[00:31:49] espanhola e o coronavírus,

[00:31:51] e os desdobramentos que isso teve

[00:31:53] e terá em cada uma das sociedades.

[00:31:55] Eu gosto sempre de uma

[00:31:57] frase do Caetano, quando em junho

[00:31:59] de 2013 perguntaram para ele

[00:32:01] se aquilo era igual mais de 68,

[00:32:03] e ele disse que para ser igual tem que

[00:32:05] ser diferente. Está claro

[00:32:07] de que pandemias destravam

[00:32:09] sociedades, criam novas

[00:32:11] saídas criativas e permitem

[00:32:13] que a gente vire outra coisa,

[00:32:15] duplo de nós mesmos,

[00:32:17] mas não será do mesmo

[00:32:19] jeito. O que a gente já tem

[00:32:21] indícios muito claros aqui

[00:32:23] é que essa pandemia do coronavírus

[00:32:25] vai marcar, de certa

[00:32:27] forma, as forças e

[00:32:29] os elementos fundamentais

[00:32:31] do neoliberalismo, desse capitalismo

[00:32:33] transformacional inventado nos anos 80.

[00:32:35] Então, acho que saímos

[00:32:37] ou sairemos cada

[00:32:39] vez mais digitalizados

[00:32:41] ou achando que tudo pode virar imagem

[00:32:43] ou informação ou código.

[00:32:45] Acho que

[00:32:47] há uma clareza muito grande sobre

[00:32:49] o fortalecimento do indivíduo

[00:32:51] e essa ideia de que somos heróis da nossa

[00:32:53] própria história. Os

[00:32:55] pactos sociais continuarão

[00:32:57] esfacelados. Não vejo também aquela

[00:32:59] força coletiva

[00:33:01] ou de movimento, de manada,

[00:33:03] que tinha nos anos 20 do

[00:33:05] século passado. E acho

[00:33:07] que, sobretudo, a gente sai

[00:33:09] com o desafio de

[00:33:11] tentar entender

[00:33:13] como vamos nos encaixar dentro

[00:33:15] de um modelo de sociedade.

[00:33:17] Eu não vejo saída coletiva,

[00:33:19] não. Acho que vamos nos

[00:33:21] debater durante muito tempo ainda

[00:33:23] para encontrar saídas juntos,

[00:33:25] porque

[00:33:27] o que eu tenho visto é

[00:33:29] cada vez mais gente sozinho

[00:33:31] disputando

[00:33:33] qual vai ser a solução que vai entregar para o mundo.

[00:33:39] É, isso que o Michel falou é muito legal,

[00:33:41] para a gente poder considerar diferentes ângulos

[00:33:43] desse mesmo momento de

[00:33:45] retomada. Eu acho que indo nessa direção

[00:33:47] também sempre dá para a gente polemizar um pouco.

[00:33:49] Eu estava relendo a música

[00:33:51] do Tempo Infinito, do Thales Absaber,

[00:33:53] que é um livro em que ele fala bastante

[00:33:55] sobre esse imaginário

[00:33:57] geral de celebração

[00:33:59] festiva, aceitação do que

[00:34:01] existe. Parece que esse mundo

[00:34:03] criado pela indústria cultural universal,

[00:34:05] do entretenimento, dos games,

[00:34:07] dos episódios, da diversão

[00:34:09] sem fim, tem um subtexto

[00:34:11] que é

[00:34:13] tudo que existe é bom.

[00:34:15] Ou a vida deve ser celebrada o tempo

[00:34:17] inteiro. Aproveite cada

[00:34:19] minuto. E tudo que se deseja

[00:34:21] é viver em festa,

[00:34:23] viver em gozo. É ter acesso

[00:34:25] a essa felicidade, verdadeira

[00:34:27] ou falsa, tanto faz.

[00:34:29] O princípio é de uma cultura

[00:34:31] muito afirmativa,

[00:34:33] muito positiva. E que vai

[00:34:35] gerar um tipo de homogeneidade

[00:34:37] cultural. Um gozo

[00:34:39] planejado demais. Um gozo

[00:34:41] forçado. E aí é interessante

[00:34:43] que o Thales faz uma

[00:34:45] correlação entre esse gozo

[00:34:47] ininterrupto e a

[00:34:49] pulsão da música eletrônica.

[00:34:51] Essa batida que coloca a gente

[00:34:53] em êxtase, de preferência

[00:34:55] com a ajuda de drogas sintéticas.

[00:34:57] Um grande produto cultural de uma

[00:34:59] era pós-industrial.

[00:35:01] Que vai nos convencendo de que

[00:35:03] tudo que a gente tem pra fazer é

[00:35:05] dançar e gozar sem parar.

[00:35:07] Esse movimento até meio

[00:35:09] redundante. Essa lógica…

[00:35:11] E assim,

[00:35:13] esse gozo infinito tem

[00:35:15] muito a ver também com as maratonas de séries

[00:35:17] ou com o feed do TikTok.

[00:35:19] Essa reprodução

[00:35:21] compulsiva.

[00:35:23] E aí, quando eu falo em drogas,

[00:35:25] eu não tô falando só das drogas ilícitas.

[00:35:27] Eu também tô falando das drogas

[00:35:29] lícitas que maximizam

[00:35:31] a nossa produção. E aí

[00:35:33] a gente fecha essa era

[00:35:35] farmacopornográfica que o Preciado descreve

[00:35:37] tão bem no Testo Junk.

[00:35:39] Mas, é um regime

[00:35:41] amplo, disciplinar

[00:35:43] e altamente drogado.

[00:35:45] Entorpecido. Não dá pra parar.

[00:35:47] E aí eu acho que essas falas são interessantes

[00:35:49] pra gente pensar que

[00:35:51] quando tá infinito, ininterrupto

[00:35:53] e não tem brecha, não sobra

[00:35:55] brecha pra talvez uma das

[00:35:57] coisas mais importantes que a gente tem

[00:35:59] a fazer, que é sonhar. Quando você tá

[00:36:01] tantas horas, sem parar, fazendo a mesma

[00:36:03] coisa, e aí fica exausto, toma

[00:36:05] remédio pra dormir, toma remédio pra acordar, toma

[00:36:07] droga pra sair, aí toma droga pra se divertir,

[00:36:09] anestesia, chapa, vai de novo,

[00:36:11] mais um pouco. Fica um pouco

[00:36:13] sem espaço pro inconsciente falar.

[00:36:15] E eu acho que a nossa capacidade de sonhar

[00:36:17] é talvez uma das coisas mais

[00:36:19] valiosas que a gente ainda tenha.

[00:36:21] De pensar

[00:36:23] num outro tipo de temporalidade,

[00:36:25] num outro tipo de existência.

[00:36:27] Eu acho que quando a gente consegue criar

[00:36:29] mais espaços imaginativos

[00:36:31] e até sonhadores,

[00:36:33] talvez a gente consiga libertar

[00:36:35] eros. Ou pelo menos

[00:36:37] diminuir um pouco da

[00:36:39] agonia. Eu fiquei pensando nessa

[00:36:41] imagem de que

[00:36:43] quando a gente tá

[00:36:45] nos circuitos do gozo,

[00:36:47] tá queimando, né? Não é efervescência.

[00:36:49] É borbulha

[00:36:51] pura. Gasto, né? Consumo.

[00:36:53] É uma temperatura insuportável.

[00:36:55] Parece destruição mais do que criação.

[00:36:57] Uhum. Talvez a gente consiga

[00:36:59] abrir mais espaços pra sonhar,

[00:37:01] pensar, escutar.

[00:37:03] A gente consiga fazer a operação

[00:37:05] central do luto, né? Que é

[00:37:07] pegar um pouco daquilo que se

[00:37:09] foi, fazer com que aquilo

[00:37:11] seja nosso e seguir.

[00:37:13] Essa festa acaba aqui, André.

[00:37:15] Vamos seguir num próximo

[00:37:17] episódio? Então a gente se vê semana

[00:37:19] que vem. Tchau. Até. Até mais.

[00:37:21] Tchau, tchau.

[00:37:29] Tchau, tchau.