Popcult Extra 1 - A precarização do acesso à cultura
Resumo
O episódio discute a crescente dificuldade de acesso a produtos culturais na era digital, apesar da promessa inicial de democratização. Os participantes Gus e Orlando analisam como grandes corporações de mídia e plataformas de streaming, através da produção artificial de escassez e do controle centralizado de catálogos, estão limitando o que pode ser consumido. Eles argumentam que a situação atual representa um retrocesso, comparável ao período pré-videocassete, onde o acesso era restrito ao que estava disponível na televisão ou nos catálogos das plataformas.
A conversa explora exemplos concretos em diversas mídias: filmes antigos ou fora do eixo americano que desaparecem dos streamings, álbuns musicais que nunca são licenciados para plataformas como o Spotify, e jogos clássicos que não são relançados de forma acessível. Eles destacam a importância de ferramentas como o Plex para compartilhar conteúdo inacessível, e da pirataria e de arquivos digitais pessoais como formas de preservação contra o apagamento cultural promovido por decisões comerciais.
Os participantes criticam o modelo de negócio das plataformas, que centralizam o controle e a remuneração, beneficiando acionistas e grandes gravadoras em detrimento dos artistas e criadores. Eles também condenam fenômenos como os NFTs como uma extensão lógica da fabricação de escassez em bens digitais, e apontam a ação agressiva de empresas como Nintendo e Disney para controlar e monetizar rigidamente a propriedade intelectual, muitas vezes sufocando comunidades de fãs e preservação.
A discussão conclui que a internet, que poderia ser uma ferramenta perfeita para o compartilhamento cultural de baixo custo, foi cooptada por interesses capitalistas que buscam centralizar e controlar o acesso. Eles enfatizam a necessidade de habilidades de pesquisa e “pirataria” não apenas para acessar cultura, mas como uma forma de preservação histórica e resistência contra o apagamento de obras e contextos culturais que não são considerados lucrativos pelas grandes corporações.
Indicações
Conceitos
- Produção de Escassez — Estratégia deliberada das corporações de entretenimento (como a Disney) de limitar o acesso a conteúdos de catálogo para criar valor artificial, fidelizar clientes às suas próprias plataformas e controlar o ecossistema de consumo.
Ferramentas
- Plex — Servidor de mídia pessoal usado pelos participantes para armazenar e compartilhar filmes e séries que não estão disponíveis em plataformas de streaming comerciais, funcionando como uma locadora digital pessoal.
- Stremio — Aplicativo que faz streaming de torrents, mencionado como uma solução para quem não sabe usar torrents diretamente, mas criticado por só funcionar bem para conteúdo muito popular.
- Internet Archive — Arquivo digital sem fins lucrativos citado como imprescindível para a preservação de conteúdo cultural que está sendo perdido ou deliberadamente retirado de circulação por decisões comerciais.
Linha do Tempo
- 00:01:45 — Introdução à mudança no consumo cultural — Gus inicia a conversa afirmando que o consumo de cultura é totalmente diferente hoje, citando que o Netflix tem majoritariamente conteúdo novo e ‘tosco’ e que plataformas como o Spotify pagam a maior parte de seus royalties para catálogos antigos (anos 90 para trás), deixando pouco espaço para novos músicos. Ele sugere que os jovens migraram para plataformas como Bandcamp e SoundCloud.
- 00:02:45 — A volta ao mundo pré-videocassete — Orlando propõe que estamos voltando a uma era pré-videocassete, onde o acesso era restrito ao que estava passando na TV. Hoje, os catálogos das plataformas de streaming (Netflix, Amazon, Disney) funcionam como o novo ‘ar’, e o que não está ali praticamente ‘não existe’. Isso limita drasticamente a descoberta e o acesso.
- 00:03:29 — Plex como solução para conteúdo inacessível — Gus explica que começou a usar o Plex para assistir seus DVDs ripados em diferentes dispositivos. A principal utilidade hoje, porém, é compartilhar com amigos filmes e séries que não estão disponíveis em nenhuma plataforma de streaming, preenchendo a lacuna deixada pela extinção das locadoras de bairro.
- 00:04:17 — Disney e a produção de escassez — Eles discutem como a Disney, após comprar a Fox, parou de licenciar filmes de catálogo para exibições em cinemas, preferindo criar escassez para controlar o acesso através de suas próprias plataformas (Disney+, Hulu). O objetivo mudou de faturar com licenciamentos para controlar o ecossistema de consumo e fidelizar a clientela.
- 00:06:18 — A geração que não conhece o torrent e o problema do Stremio — Conversam sobre a geração que não sabe usar torrents e depende de apps como o Stremio, que faz streaming de torrents. O problema é que o Stremio reproduz a lógica das plataformas: só funciona bem para conteúdo muito popular, com muitos seeders. Para filmes mais antigos ou obscuros, é necessário recorrer ao download direto via torrent, que pode ser muito lento ou impossível.
- 00:08:30 — Dificuldades fora do eixo americano e problemas de distribuição regional — Eles abordam a dificuldade extra para brasileiros e para conteúdo fora do eixo cultural americano. Os estúdios vendem direitos de distribuição regional para terceiros, criando situações absurdas onde uma série da HBO (como ‘How To With John Wilson’) não está disponível na HBO brasileira, simplesmente porque a empresa decidiu não investir em legendas ou acha que o público não iria gostar.
- 00:09:43 — Músicas e discos que desapareceram das plataformas — Discutem como muitos discos, especialmente de música brasileira e de artistas de fora dos EUA, simplesmente ‘sumiram’ porque nunca foram licenciados para plataformas digitais. Isso ocorre quando os artistas ou herdeiros não negociaram com grupos de direitos autorais. Dão o exemplo do Psy, cujas músicas anteriores ao ‘Gangnam Style’ não estão no Spotify devido a licenças regionais coreanas.
- 00:11:40 — A perda massiva de conteúdo e a importância da preservação — Gus relata uma entrevista com a locadora Zil Video, que possui um vasto acervo de VHS, incluindo produções que nunca foram para DVD, Blu-ray ou streaming. Eles destacam a quantidade absurda de conteúdo que se perde e enfatizam a importância crucial de esforços de preservação como o Internet Archive para evitar que oligopólios de mídia decidam o que sobrevive.
- 00:13:25 — Problemas com mashups, remixes e a coleção pessoal — Gus explica que nunca assinou o Spotify porque sempre teve muita música de mashup e remix em sua coleção pessoal (MP3s), gêneros que são comercialmente inviáveis nas plataformas devido aos complexos direitos autorais. Ele defende a manutenção de uma biblioteca digital pessoal e de streaming caseiro, pois o capitalismo não oferece uma solução para um acesso democrático à cultura.
- 00:14:12 — NFTs como fabricação máxima de escassez — Criticam os NFTs como o exemplo máximo da fabricação artificial de escassez em bens digitais, que são naturalmente duplicáveis sem perda. A ideia é criar uma barreira artificial baseada em dinheiro para o acesso a itens culturais. Eles desmontam a lógica dos NFTs, comparando a posse de um a ser ‘dono de um documento que prova que é dono de outro documento’, sem garantir a posse do item em si.
- 00:17:34 — A falácia de que as plataformas ajudam os artistas — Discutem como a justificativa inicial das plataformas de streaming e, posteriormente, dos NFTs, era de que ajudariam a remunerar os artistas. Na realidade, os grandes acordos do Spotify foram com acionistas de gravadoras, garantindo lucro para as corporações, não para os artistas. O modelo é comparado ao do YouTube e Twitch, onde milhões criam conteúdo de graça e apenas uma minúscula fração é remunerada significativamente.
- 00:23:14 — Controle corporativo e governamental sobre a internet — Argumentam que a dificuldade crescente de achar e piratear conteúdo é resultado de um esforço ativo de corporações, com apoio de governos (especialmente o dos EUA), para controlar o que se vê na internet. Isso força o uso de VPNs, adblocks e outras ferramentas para burlar o controle. Citam o caso de um hacker de jogos de Switch preso pela Nintendo como tática de intimidação.
- 00:25:41 — Exemplos de controle agressivo: Rockstar e Konami — Usam os exemplos da Rockstar, que ameaçou judicialmente criadores de mods para GTA antes de lançar uma versão remasterizada de má qualidade, e da Konami, que não disponibiliza legalmente clássicos como ‘Castlevania: Symphony of the Night’ de forma acessível. Isso demonstra como as empresas preferem lucrar com produtos inferiores a permitir o acesso a versões comunitárias melhores e gratuitas.
- 00:29:34 — A pirataria como ferramenta de preservação histórica — Levam a discussão para um nível histórico, lembrando que clássicos do cinema como ‘Nosferatu’ e ‘Metrópolis’ só sobreviveram e têm suas versões ‘completas’ hoje graças a cópias piratas. Eles temem que, sem esforços de preservação independentes, a história se repita e grande parte da produção cultural contemporânea seja perdida, especialmente obras independentes ou fora do mainstream.
- 00:34:30 — A necessidade de um ‘curso de pirataria’ e habilidades de pesquisa — Concluem que um ‘curso de pirataria’ é essencial, não apenas para acessar cultura, mas como um treinamento para pesquisar na internet além das bolhas dos algoritmos e das grandes plataformas. Enfatizam a importância de saber usar arquivos, blogs antigos e o Internet Archive para encontrar informações e cultura que foram apagadas ou nunca indexadas pelos sistemas comerciais atuais, preservando o contexto e a história.
Dados do Episódio
- Podcast: Popcult
- Autor: Atabaque Produções
- Categoria: TV & Film Film Reviews
- Publicado: 2022-02-11T21:57:36Z
- Duração: 00:36:27
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/popcult/57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2/a247d281-f802-4589-af9c-3478ddca21a2
- UUID Episódio: a247d281-f802-4589-af9c-3478ddca21a2
Dados do Podcast
- Nome: Popcult
- Tipo: episodic
- Site: https://www.spreaker.com/podcast/popcult—4416630
- UUID: 57529740-86a3-0138-ee33-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] A festa de ofertas de Primavera da Amazon está a chegar com ofertas incríveis.
[00:00:04] Para o Zé poder ir caçar ofertas e fugir das tarefas domésticas.
[00:00:10] Ele merece! É o momento ideal para poupar em granta, em eletrónica, ar livre, casa e muito mais.
[00:00:16] Cuidado, Zé! Volta ao trabalho!
[00:00:18] Só mais uma espreitadela rápida às ofertas da Amazon antes que…
[00:00:21] Uuuuh! Que grande oferta!
[00:00:24] Prepare-se para as ofertas de Primavera da Amazon de 10 a 16 de Março.
[00:00:27] Mais informações em Amazon.es
[00:00:30] Olá, caros apoiadores!
[00:00:37] Eu sei que vocês estavam esperando episódios mais cedo e a gente também estava.
[00:00:41] A gente teve alguns problemas técnicos aqui produzindo esses episódios.
[00:00:44] A gente já está produzindo mais episódios.
[00:00:46] A gente deve estrear a nova temporada em breve.
[00:00:48] Em primeira mão para vocês que são tão queridos e já estão nos apoiando aí.
[00:00:52] Então esse é o primeiro bônus que vocês recebem.
[00:00:54] Eu e o Orlando tivemos uma maravilhosa discussão de por que a gente acha importante o nosso trabalho
[00:00:59] de trazer para o PopCult obras, questões, referências.
[00:01:04] Porque a gente vê hoje que está cada vez mais difícil acessar as coisas quando deveria estar mais fácil.
[00:01:11] Porque a tecnologia caiu nas mãos de pessoas que não querem o seu bem.
[00:01:15] E isso nos revolta um pouco.
[00:01:17] Então a gente teve essa discussão maravilhosa antes de gravar um dos episódios da temporada.
[00:01:21] E eu achei muito legal empacotar com esse primeiro extra para vocês que estão aqui.
[00:01:26] E vou começar a adicionar vocês lá no nosso Discord para a gente poder conversar.
[00:01:29] Todos juntos sobre esse tema.
[00:01:31] Então muito obrigado e fique ligado que em breve estreia a nova temporada do PopCult.
[00:01:42] Tá, vou gravar essa conversa já.
[00:01:45] Mas é isso, né cara.
[00:01:46] O consumo de cultura é totalmente diferente hoje.
[00:01:50] Então, tipo assim, o Netflix só tem coisa nova e tosca.
[00:01:53] Tirando algumas coisas grandes.
[00:01:55] Aí eu estava vendo hoje que 60…
[00:01:59] 60%, sei lá quantos por cento do que as plataformas de streaming, tipo Spotify, pagam para músicos,
[00:02:05] que já é quase nada, é para catálogo, tipo, dos anos 90 para trás, entendeu?
[00:02:11] Então, tipo assim, os novos músicos hoje têm pouquíssimo espaço aí.
[00:02:14] E também acho que tem a ver com os hábitos de consumo da galera jovem que teve que fugir disso.
[00:02:18] E tá, tipo, no Bandcamp, tá no SoundCloud, tá ouvindo artista que nem bota as coisas lá.
[00:02:22] E também porque tem muito artista de remix, mashup, essas coisas.
[00:02:26] Mas enfim, eu acho que, como você disse antes da gente começar a gravar,
[00:02:30] nós somos criaturas em extinção, tipo, da maneira que a gente aprendeu a se relacionar com esses produtos culturais.
[00:02:37] Cara, sabe qual é a grande questão?
[00:02:39] Papo reto.
[00:02:40] Sabe o que eu acho que a gente tá voltando?
[00:02:45] Pro mundo pré-videocassete.
[00:02:50] Porque o que acontece?
[00:02:52] Basicamente, quando você não tinha videocassete, é porque tu era muito novo nessa época, né?
[00:02:57] Tu já nasce na época do videocassete.
[00:02:58] Sim, eu nasci na época.
[00:03:00] Cara, basicamente você estava confinado a assistir aquilo que estava passando na televisão.
[00:03:07] Aquilo que estava no ar, né?
[00:03:08] Então, assim, o que que está no ar agora realmente é mais múltiplo,
[00:03:11] porque são os catálogos da Netflix, da Amazon Prime, da Disney, sei lá o que, papapá.
[00:03:17] Só que, cara, é muito louco, porque, assim, o que não está ali, não existe.
[00:03:22] Exato.
[00:03:22] Não existe, não existe.
[00:03:23] Então, a gente conversa muito do Plex, mas é isso, assim, tipo,
[00:03:29] eu comecei a gravar, eu comecei a gravar, eu comecei a gravar, eu comecei a gravar, eu comecei a gravar,
[00:03:29] eu comecei a usar o Plex, principalmente, assim, eu comecei a usar porque eu queria poder assistir os filmes em casa
[00:03:35] sem ter um DVD player, né?
[00:03:37] Porque eu comecei, tipo, ripando meus DVDs, porque era isso, assim, tipo,
[00:03:39] ah, tinha TV no quarto, TV na sala, e, tipo, sei lá, se eu não tivesse com um videogame plugado ali,
[00:03:44] não tinha um DVD player, né?
[00:03:45] Então, a primeira coisa que eu fiz foi, tipo, ah, beleza, eu vou usar esse app,
[00:03:47] porque aí é um app que eu posso assistir meus filmes ripados, né, no meu celular, no tablet, na TV, beleza.
[00:03:53] Mas depois, a grande utilidade dele virou, e é hoje em dia, tipo, assim,
[00:03:57] ah, vê esse filme, vê essa série, tipo, tá, Netflix?
[00:03:59] Não, tá na Amazon? Não.
[00:04:02] Aí eu sei que a pessoa não vai ver, então eu vou lá e falo assim,
[00:04:04] tá aqui no meu Plex, eu boto você lá, amigo, e você assiste.
[00:04:08] Porque é isso, assim, não tem outra opção, não tem alocadora do seu bairro pra você ir pegar, entendeu?
[00:04:13] Não tem um cinema passando e, tipo, reprisando filme.
[00:04:17] Cara, isso é um dos grandes crimes da Disney, que, assim, são vários,
[00:04:20] mas você lembra daquele negócio que depois que eles compraram a Fox,
[00:04:23] eles começaram a não licenciar mais os filmes de catálogo pra cinema.
[00:04:29] Então, tipo, a galera gostava de licenciar, tipo, ah, vou pegar o Alien,
[00:04:33] fazer uma exibição de Alien aqui e tal.
[00:04:35] E aí a Fox sempre deixou, como todo estúdio sempre deixa.
[00:04:38] E aí, tipo, você paga, né, pro estúdio fazer isso.
[00:04:40] Tipo, é uma fonte de renda do estúdio.
[00:04:41] Mas a Disney prefere criar escassez e prefere que você não possa, por exemplo,
[00:04:46] exibir um print de Alien num cinema pra ela controlar, tipo, se tá no Disney+, se tá no Hulu e tal.
[00:04:52] Porque é uma questão, tipo assim, deixa de ser a questão de, tipo, ah, vou faturar fazendo cinema.
[00:04:57] Não, não, não.
[00:04:57] Eu vou faturar controlando.
[00:04:59] É totalmente o ecossistema de consumo de cultura das pessoas.
[00:05:03] E, ou seja, é aí que a mão invisível do mercado realmente só funciona pra enfiar o dedo no cu da gente, né.
[00:05:08] Cara, mas é isso que você falou que eu acho que é importante, Gays.
[00:05:12] É produção de escassez.
[00:05:13] Os caras, basicamente hoje, entretenimento é produção de escassez
[00:05:17] pra que você fidelize a sua clientela.
[00:05:21] Porque é isso, né.
[00:05:21] Quem é que tem aquilo que pode, sabe, é esse que é o ponto, né.
[00:05:24] Porque, por exemplo, e também tem isso, né.
[00:05:27] Eles estão muito mais…
[00:05:29] É, porque hoje em dia é tudo propriedade intelectual, né.
[00:05:34] É, exato.
[00:05:34] Propriedade intelectual.
[00:05:35] Então, assim, você não quer que os filmes do Alien passem.
[00:05:38] Você quer manter o Alien quanto propriedade intelectual
[00:05:40] pra poder fazer licenciamento pra algumas coisas
[00:05:43] e pra poder fazer novos filmes, uma nova série que não vai acrescentar em porra nenhuma, sabe.
[00:05:47] Você vai ficar reponendo aquilo ali.
[00:05:50] E aí, vira esse negócio de você quer mais Alien,
[00:05:53] então você tem que vir ver o novo Alien que você pode ver no cinema
[00:05:57] ou você pode ver aqui pagando 10 dólares a mais
[00:06:01] depois de assinar o Disney Plus, entendeu.
[00:06:04] E até isso, né.
[00:06:06] Já, já.
[00:06:06] Então, tipo assim, já tem uns lançamentos da Disney que ela fez isso, assim.
[00:06:09] Tipo, tá na plataforma, mas mesmo você assinando, você não pode ver ainda.
[00:06:13] Você tem que pagar a mais, assim.
[00:06:14] E isso é pra uma geração de pessoas que não conhece os caminhos do Torrent, né.
[00:06:18] Não que eu seja a favor, né, tal, porque…
[00:06:20] Não, mas é assim.
[00:06:21] Mas, ó, eu digo, cara, mesmo os amigos que eu tenho, assim,
[00:06:25] que não são super dos computers que nem a gente.
[00:06:27] Mas que já conhecem um Torrent, eles conhecem o Streamio.
[00:06:31] E o Streamio tem um meio…
[00:06:33] Ele reproduz…
[00:06:34] Pra quem não sabe, o Streamio é um app que faz streaming…
[00:06:38] Ele acha torrents, né, que é tipo um protocolo de compartilhamento peer-to-peer e tal,
[00:06:44] que a galera usa pra piratear todo tipo de coisa.
[00:06:46] E aí, então, você procura lá o filme ou o episódio da série que você quer ver
[00:06:48] e ele conecta num desses torrents pra, ao invés de fazer o download,
[00:06:52] ele fazer o streaming direto pra você.
[00:06:55] Só que, pra você ter velocidade suficiente pra fazer um streaming,
[00:06:57] tem que ter muita gente compartilhando aquele mesmo filme,
[00:07:00] aquela mesma série.
[00:07:01] Ou seja, ele reproduz exatamente o que essas plataformas já sabem,
[00:07:04] que é, aquilo que já é popular, é acessível.
[00:07:08] Mas você quer achar um filme antigo, dos anos 70 e tal, no Streamio, vai achar.
[00:07:11] Mas ele não vai tocar.
[00:07:12] Nem a pau.
[00:07:13] Então você tem que apelar pro torrent.
[00:07:15] Quando você acha, tem coisa que é muito difícil de achar.
[00:07:18] Tem coisa que, tipo, que eu baixei e que eu salvo até hoje, assim,
[00:07:21] vou passando de um HD pro outro e tal.
[00:07:23] Porque é isso, assim, que eu sei que, tipo, se eu quiser baixar de novo, não vai ser fácil.
[00:07:27] Talvez eu não ache.
[00:07:27] Talvez eu não ache.
[00:07:29] Aquela coisa do torrent que você deixa aí duas semanas pra ele completar o download,
[00:07:33] você fala, nossa, agora que eu tenho isso, eu preciso nunca mais perder, sabe?
[00:07:36] Nunca mais apagar.
[00:07:37] Não, você, cara, você tá, você tá,
[00:07:39] chegou numa época que é, basicamente, tá recolecionando DVD,
[00:07:42] mas é arquivo.
[00:07:44] Tipo assim, cara, eu tenho um monte de filme,
[00:07:46] um monte de filme, assim, que tá um HD antigo meu.
[00:07:49] Tipo assim, foi o meu primeiro HD de 1TB, assim.
[00:07:52] Que é filme, assim, cara, que são filmes não fora do eixo,
[00:07:56] Estados Unidos.
[00:07:57] E, sei lá, Estados Unidos.
[00:07:59] Então, que aí já fica mais difícil eu achar mesmo o pirata.
[00:08:02] Tipo, tanto faz, né?
[00:08:04] Exato.
[00:08:04] E aí, o…
[00:08:07] E, pô, e aí, isso,
[00:08:08] esse ponto que você tocou é muito bom,
[00:08:10] que é, tipo, saindo do eixo americano, também é isso,
[00:08:12] parece que tudo existe pirata, né?
[00:08:15] Mas aí você começa, tipo, ah, putz,
[00:08:17] aquele filme francês lá, que eu lembro que passou no cinema do Unibanco lá,
[00:08:22] vou procurar.
[00:08:24] Não tô achando, não tô achando.
[00:08:25] E não é assim, não tô achando pra piratinha,
[00:08:26] não tô achando pra lugar.
[00:08:27] Ah, não tô achando pra nada.
[00:08:29] Entendeu?
[00:08:30] E aí a gente entra noutra questão, que a gente é brasileiro,
[00:08:34] então a gente tá fora do eixo principal da distribuição das coisas, né?
[00:08:38] Então, tipo, todos esses estúdios,
[00:08:40] eles vendem os direitos de distribuição global pra um terceiro,
[00:08:43] pra faturar mais ainda.
[00:08:44] Então é aquela coisa, assim, tipo, ah, filme tal saiu, está na HBO Max.
[00:08:47] Bom, está na HBO Max nos Estados Unidos.
[00:08:49] Aqui não tá.
[00:08:50] Por exemplo, falando de filme, não,
[00:08:52] mas, tipo, uma série dessa, que, tipo, é muito a série que eu falo assim,
[00:08:55] tá, então vem no meu Plex.
[00:08:56] Porque é How To With John Wilson,
[00:08:59] que é uma série da HBO que passa nos Estados Unidos
[00:09:00] e não tá na HBO brasileira.
[00:09:02] E não é nem que a HBO vendeu pra outro lugar,
[00:09:04] é só porque eles, como existe a possibilidade teórica
[00:09:07] de que alguém poderia um dia comprar os direitos de distribuição
[00:09:09] da série no Brasil, eles não deixam a gente ver.
[00:09:11] E porque eles não querem investir em legendar.
[00:09:13] Sabe? Esse que é o negócio, tipo assim,
[00:09:15] alguém decidiu lá dentro que o público brasileiro
[00:09:17] não ia gostar, então as únicas pessoas
[00:09:19] que eu conheço que assistiram aqui no Brasil
[00:09:20] são amigos meus que sabem piratear
[00:09:22] ou que têm acesso ao meu Plex.
[00:09:24] E tá parecendo uma propaganda do Plex,
[00:09:26] esse negócio. Então eles tinham que pagar, gente.
[00:09:28] Cara, mas isso eu vejo com música, sabe qual é?
[00:09:31] Porque, assim, música brasileira
[00:09:32] é impressionante tu ver
[00:09:34] a dificuldade de você ter
[00:09:36] é… eu acho que um dos
[00:09:38] motivos, assim,
[00:09:40] discos sumiram, tem discos que sumiram.
[00:09:43] Sumiram, você não consegue escutar em lugar nenhum.
[00:09:45] Não é no Disney, não é no Spotify,
[00:09:47] não é em lugar nenhum.
[00:09:48] Aí eu vou entrar numa questão que é pra além da música,
[00:09:51] é muito interessante.
[00:09:52] Porque é isso, tem muita música de lugares, especialmente
[00:09:54] que não são nos Estados Unidos, que nunca
[00:09:56] foi licenciada pra ir pro Spotify,
[00:09:58] porque basicamente essas plataformas, não é só o Spotify,
[00:10:01] mas ele é o principal, né?
[00:10:02] Eles negociam com gravadoras e grupos
[00:10:05] de direitos,
[00:10:07] grupos que administram direitos autorais.
[00:10:10] Então,
[00:10:10] você tem um artista lá que nunca vendeu
[00:10:12] os direitos, ou nunca contratou um grupo desses
[00:10:14] pra ficar cuidando dos seus direitos,
[00:10:16] ou que os herdeiros nunca fizeram isso,
[00:10:19] ele não vai pra lá.
[00:10:20] O que tem de artista que eu ouço
[00:10:22] não americano, que é isso, nunca tá no Spotify,
[00:10:25] ou demorou anos pra tá no
[00:10:26] Spotify. E mesmo coisa famosa,
[00:10:28] vou dar um exemplo que parece
[00:10:30] cômico, mas não é, que é o Psy,
[00:10:32] lembra? Que ficou muito famoso com o Gangnam Style.
[00:10:35] E aí, na época ele ficou famoso
[00:10:36] e eu comecei a ouvir umas músicas dele
[00:10:38] de antes do Gangnam Style
[00:10:40] e tal, tinha os clipes no YouTube, essas coisas.
[00:10:42] Até hoje essas músicas não estão no YouTube,
[00:10:44] tá ligado? Porque elas eram tipo de uma gravadora
[00:10:46] coreana que nunca licenciou pra fora.
[00:10:49] Você nunca vai ouvir no Spotify,
[00:10:50] você só vai ouvir pirateando.
[00:10:52] E isso acontece com filmes, cara.
[00:10:55] Eu,
[00:10:56] uma vez eu gravei
[00:10:58] uma extensa entrevista
[00:11:00] e tal, e fiz meio que uma história
[00:11:02] da Zil Video, que é uma locadora
[00:11:04] lá em Porto Alegre, que são três andares
[00:11:06] e é a maior coleção de VHS
[00:11:08] pornô do Brasil. Mas antes de ser
[00:11:10] uma locadora só de pornô, do Brasil não, da América Latina,
[00:11:12] são 45 mil VHS pornô.
[00:11:15] E aí,
[00:11:16] antes de ser uma locadora só focada em pornô
[00:11:18] por causa de questões econômicas,
[00:11:20] ela era uma locadora de VHS em geral.
[00:11:22] E lá ele tem ainda muito VHS
[00:11:24] que ele fala assim, cara, que quem vem atrás
[00:11:26] são colecionadores, porque são filmes
[00:11:28] e produções de coisas que nunca foram nem pro DVD.
[00:11:31] E aí tem coisa que nunca
[00:11:32] foi do DVD pro Blu-ray, pra essas coisas,
[00:11:34] e que, muito mais que isso, nunca foi do DVD
[00:11:36] pra nenhum streaming e pra nenhum
[00:11:38] video on demand digital.
[00:11:40] Então, assim, a quantidade de coisa que se perde
[00:11:42] é absurda. Então coisas
[00:11:44] tipo, hoje em dia, assim, tipo, é imprescindível
[00:11:46] coisas como o Internet Archive
[00:11:48] e esses tipos de esforços, tipo,
[00:11:50] pra segurar as coisas, assim, que
[00:11:51] porque não é, assim, uma questão
[00:11:54] só de, tipo, a gente tem que preservar tudo que já foi feito,
[00:11:56] tempo inteiro. Não, é que a gente não pode deixar
[00:11:58] que quem decide isso são esses
[00:11:59] oligopólios de mídia, né?
[00:12:02] Cara, e isso com filme,
[00:12:04] é, por exemplo, cinema nacional,
[00:12:06] então, é óbvio. Cinema nacional,
[00:12:08] você vai lembrar daquelas 10 produções,
[00:12:10] o que tá represervado, que sai em
[00:12:12] Blu-ray, o que vai parar numa plataforma, sei lá o que é,
[00:12:14] é o que tem na Globo, é Globo
[00:12:16] Produções. É o acervo do
[00:12:18] Canal Brasil. E é o que eles
[00:12:20] querem que solte, entendeu? Tipo,
[00:12:21] o filme da Xuxa
[00:12:24] transando com uma criança lá, não sei qual é,
[00:12:25] mas esse aí não sai.
[00:12:27] Que não é um filme pornô.
[00:12:28] Não, as pornô chanchadas,
[00:12:31] o Canal Brasil permanece passando e tal.
[00:12:34] Mas, é,
[00:12:34] é isso, assim, é, tipo,
[00:12:37] até hoje, assim, a melhor cópia que eu
[00:12:39] tenho de, de, de,
[00:12:41] muito além do Cidadão Kane é, tipo, um VHS
[00:12:43] caseiro, assim, que alguém
[00:12:45] digitalizou.
[00:12:47] Não, mas é isso, porque, cara,
[00:12:49] outro dia eu tava conversando, pô, D2,
[00:12:52] o D2 tem discos que não estão em plataforma nenhuma,
[00:12:53] que é uma coisa recente.
[00:12:55] O acústico dele da MTV, o acústico da MTV
[00:12:57] dele não está em plataforma nenhuma.
[00:12:59] É isso.
[00:13:00] E as pessoas não sabem que esse disco saiu.
[00:13:03] Pessoas mais jovens não sabem que esse disco saiu.
[00:13:07] É…
[00:13:07] Cara, assim, porque o…
[00:13:10] Eu tenho CDs, assim,
[00:13:11] então, é esse, tipo, é um bagulho assim, eu tenho um CD aqui
[00:13:13] que eu posso te falar, assim, não tá em plataforma
[00:13:15] nenhuma. Tipo, não tá, e eu sei
[00:13:17] que não vai tá nunca, assim, porque era um artista
[00:13:19] independente, que ninguém vai, ninguém tem os direitos
[00:13:21] e, tipo, não vai, não vai tá.
[00:13:23] E, além do mais, assim, tipo, a questão,
[00:13:25] por exemplo, uma das coisas que me fez, eu nunca
[00:13:27] assinei Spotify na vida, assim, nem antes
[00:13:29] de eu trabalhar com eles, nem depois e tal.
[00:13:32] Por quê? Porque eu
[00:13:33] sempre tive muita música
[00:13:35] de cara que faz, tipo, mashup, remix,
[00:13:38] que nunca pode aparecer lá,
[00:13:40] né, porque é comercialmente inviável você lançar
[00:13:41] um mashup, né, tipo, você teria que pagar tantos direitos
[00:13:43] que você ia terminar
[00:13:45] pagando pra fazer música.
[00:13:47] E, então, tipo, já tinha muita coisa na minha coleção
[00:13:49] que eu ficava sem ouvir, então eu sempre gostei de ter
[00:13:51] um MP3 e, eventualmente, tipo, só ter a MP3
[00:13:54] no meu celular e, hoje em dia,
[00:13:55] fazendo o meu próprio streaming caseiro aqui e tal.
[00:13:58] E é isso, assim, tipo, não tem,
[00:14:00] o capitalismo não tem
[00:14:01] uma solução pra isso.
[00:14:04] Pro acesso da cultura ser
[00:14:05] mais fácil, mais democrático.
[00:14:07] E ainda tá piorando, né, porque agora estão
[00:14:09] lançando NFT de música, né?
[00:14:12] É, não, é, que é, de novo,
[00:14:13] aquilo que a gente tá falando, que é o
[00:14:15] NFT é um ótimo exemplo
[00:14:17] de fabricar
[00:14:19] escassez, né, é tipo, o cara olha
[00:14:21] pra, ah, putz, bens digitais
[00:14:23] são infinitamente duplicados.
[00:14:25] São duplicáveis, né, você não perde nada
[00:14:27] na duplicagem digital de um item. Eu te copiar
[00:14:29] uma música MP3 que eu tenho no meu HD,
[00:14:31] um flac, um filme,
[00:14:33] a minha cópia não perde nada e a sua cópia é exatamente
[00:14:35] a minha, entendeu? Então, assim, não tem
[00:14:37] degradação, né? E não existe
[00:14:39] um investimento, né? Eu não preciso, tipo,
[00:14:41] eu não preciso gastar óleo, tinta
[00:14:43] e tela pra copiar o quadro que você fez.
[00:14:45] Você copia a JPEG pra mim, eu vejo e tal.
[00:14:47] Então, é por isso que
[00:14:49] o Louvre pode ter no site dele lá
[00:14:51] a Monalisa. E não importa quantas pessoas acessarem
[00:14:53] o site do Louvre,
[00:14:54] a Monalisa.
[00:14:55] Não vai ter um momento que vai, tipo,
[00:14:57] não cabe tanta gente aqui, ou acabou,
[00:14:59] não dá. E aí,
[00:15:02] a ideia por trás de
[00:15:03] NFT, essas coisas, é exatamente
[00:15:05] tipo, tá, mas e se eu pudesse
[00:15:07] criar uma barreira artificial, baseada
[00:15:10] em dinheiro,
[00:15:11] pra acesso a
[00:15:13] um item cultural, né? E começou com imagens
[00:15:16] e agora vai pra tudo, claro. Até
[00:15:17] porque, tecnicamente, no final
[00:15:20] das contas, é tão patético o que é, né?
[00:15:21] Que é o blockchain da NFT
[00:15:23] é só o fato de que, tipo, ah, eu
[00:15:25] posso botar nesse blockchain do
[00:15:27] Ethereum aqui, eu posso botar uma URL,
[00:15:29] um código hexadecimal
[00:15:31] que pode apontar pra esse item
[00:15:33] hoje e amanhã, se esse servidor
[00:15:35] cair, se o IP mudar e tal, já não aponta
[00:15:37] mais nem pra isso. Então,
[00:15:39] a prova de propriedade
[00:15:42] ali do NFT não é nem isso.
[00:15:43] É uma prova de que…
[00:15:44] É como se você tivesse, ao invés de ter
[00:15:46] a escritura da sua casa,
[00:15:50] você tivesse um documento
[00:15:51] que prova que você é dono da escritura.
[00:15:53] É isso.
[00:15:55] Mas você vai pra ser sempre dono
[00:15:58] daquela primeira escritura.
[00:15:59] A casa em primeiro lugar
[00:16:02] pode nem existir.
[00:16:04] E eu posso roubar a casa.
[00:16:06] Na verdade, é como se você fosse dono da planta da casa.
[00:16:09] O fato da casa existir ou não
[00:16:10] é outro de 500.
[00:16:11] E mesmo se você falar pra mim,
[00:16:13] não, mas Gus, eu amo NFTs, eu gosto de ser dono
[00:16:16] de um documento que prova que eu sou dono de outro documento.
[00:16:18] Eu falo, tudo bem, vai com Deus,
[00:16:21] faça o mal ao meio ambiente
[00:16:22] que você quer, porque claramente você não se importa com isso.
[00:16:24] Mas aí você entra num outro problema
[00:16:26] que é, todo dia
[00:16:28] tem pelo menos um otário
[00:16:30] desse que se meteu em NFT
[00:16:31] perdendo a porra do NFT
[00:16:33] pelo qual ele pagou muito dinheiro
[00:16:35] porque ele clicou num link, saca?
[00:16:37] Porque é claro, onde tem esses caras
[00:16:39] já apareceu todo mundo que…
[00:16:41] Você clica num link
[00:16:43] e o cara pode ter o acesso
[00:16:46] à sua carteira e
[00:16:47] surrupia o seu item que já não valia
[00:16:50] nada desde o começo.
[00:16:50] Mas sabe o que eu acho que é importante com isso?
[00:16:54] Ah, desculpa, do…
[00:16:56] Porque toda essa história é impressionante
[00:16:58] quando isso surgiu, não só o NFT,
[00:17:00] mas as plataformas de streaming
[00:17:02] falando que seria bom pro artista.
[00:17:04] Ah, mas é sempre assim,
[00:17:06] o…
[00:17:08] Vou esperar o Orlando voltar pra continuar falando.
[00:17:11] Peraí.
[00:17:17] Falou.
[00:17:18] Falou.
[00:17:19] Falou.
[00:17:19] Falou.
[00:17:19] Falou.
[00:17:24] Deixa eu puxar de novo.
[00:17:28] Mas então…
[00:17:29] Fala do artista, aí tu…
[00:17:30] Ah, fala, beleza.
[00:17:32] Cara, mas sabe o que eu acho que é muito doido dessa história?
[00:17:34] É que vem sempre a desculpa do artista, né?
[00:17:36] Quando surgiram as plataformas de streaming, falavam que era boa
[00:17:39] pra remunerar os artistas.
[00:17:41] É, tipo, estão pirateando sua música
[00:17:43] e você não tá recebendo nada.
[00:17:44] Aqui você vai receber pelo Play, né?
[00:17:46] Mesma coisa com o cinema, né?
[00:17:48] Tipo assim, ah, o catálogo fica reaquecido.
[00:17:50] Porque no começo era isso.
[00:17:52] No começo até você…
[00:17:53] Sim.
[00:17:54] Netflix tinha um monte de filme antigo, sabe?
[00:17:56] Cara, Netflix em 2007, ali.
[00:17:58] De 2007 a 2010.
[00:17:59] Era muito bom.
[00:18:01] E não só pra catálogo foda de filme bom,
[00:18:03] mas assim, pra descobrir documentário.
[00:18:06] E não esse documentário, tipo, tabloidão deles.
[00:18:09] Era tipo um documentário bom, assim.
[00:18:10] Um documentário que, tipo, feito pra…
[00:18:12] Que é isso, assim?
[00:18:13] Tipo, o documentário não foi feito pro Netflix,
[00:18:14] mas era um documentariozinho e tal, pequeno,
[00:18:17] de uma galera que qualquer dinheirinho ele valia alguma coisa.
[00:18:19] Eu vi muita coisa disso.
[00:18:21] E aí uma coisa que eu acho muito doido,
[00:18:22] porque quando chega no FT…
[00:18:23] Porque é muito…
[00:18:24] Você ajuda o artista.
[00:18:25] Falei, cara, por que não entra no apoia-se do artista?
[00:18:27] Tá ligado?
[00:18:28] Não, e assim…
[00:18:29] Sabe?
[00:18:29] Não apoia…
[00:18:30] A gente…
[00:18:31] No momento que a gente tá gravando isso,
[00:18:33] saiu há poucos dias o dado de que, o quê?
[00:18:37] 80% do acervo de NFTs lá no OpenSea,
[00:18:42] que é o maior mercado de NFTs do mundo,
[00:18:46] é de arte roubada, né?
[00:18:47] Não é do próprio artista que listou.
[00:18:50] Então, assim, nunca foi pra isso.
[00:18:52] Do mesmo jeito que,
[00:18:54] as plataformas de streaming nunca foram pra remunerar o artista.
[00:18:57] Tanto que os grandes acordões que permitiram, por exemplo,
[00:18:59] o Spotify deixar de ser um serviço local e virar um serviço global,
[00:19:04] foram acordões com os acionistas das gravadoras,
[00:19:07] pra garantir que quem ia ser bem remunerado iam ser as gravadoras.
[00:19:10] E que o artista fique nessa situação.
[00:19:13] E que, Orlando, é a mesma situação do criador nosso,
[00:19:18] tipo o cara que faz um vídeo no YouTube, no Twitch.
[00:19:20] O que é o YouTube?
[00:19:21] O YouTube é milhões de pessoas,
[00:19:24] trabalhando de graça pro YouTube,
[00:19:26] e aí algumas têm tanta audiência,
[00:19:29] que é impossível o YouTube não remunerar direito, entendeu?
[00:19:33] É basicamente isso.
[00:19:35] E o Twitch é a mesma coisa,
[00:19:37] e qualquer plataforma criativa desse,
[00:19:40] é isso, o SoundCloud, enfim.
[00:19:42] Só um detalhe sobre isso,
[00:19:46] é porque é engraçado quando a gente fala isso,
[00:19:48] porque as pessoas não entendem, por exemplo,
[00:19:49] que a Spotify, o Adizero, sei lá,
[00:19:54] for a plataforma, não remunera a gente por play.
[00:19:57] Ah não, o podcast é pior ainda.
[00:19:59] Mas, por exemplo, agora chegou aqui no Brasil
[00:20:02] essa coisa do anúncio programático no podcast, né?
[00:20:07] O Anchor faz isso e tal, o Speaker faz se você quiser.
[00:20:10] E aí é a mesma coisa, é o tipo,
[00:20:11] deixa a gente botar um anúncio aqui,
[00:20:13] e cada play do anúncio você ganha dois centavos.
[00:20:17] E aí é isso, então beleza.
[00:20:18] Se você for o dono do podcast mais escutado do país,
[00:20:22] assim,
[00:20:23] talvez esteja…
[00:20:24] O dinheiro de verdade vai vir do Merchan,
[00:20:28] vai vir de parcerias, comerciais e tudo mais.
[00:20:30] Mas isso aí vai valer alguma coisa.
[00:20:32] Mesma coisa no YouTube.
[00:20:33] O cara que é, meu, tem tipo bilhões de views,
[00:20:36] assim, né, milhões de views,
[00:20:37] beleza, ele tira lá, tipo, três mil reais
[00:20:39] só no AdSense do YouTube.
[00:20:41] Beleza.
[00:20:43] Mas quantas pessoas tem que produzir conteúdo
[00:20:45] pra aquele site ter aquele nível de tráfego,
[00:20:47] pra X% desse nível de tráfego ser desse cara
[00:20:51] e ele ser remunerado nisso?
[00:20:52] E aí digo mais,
[00:20:53] o cara que tá ganhando dez mil reais por mês do YouTube que seja,
[00:20:57] ele tá sendo roubado pelo YouTube.
[00:21:00] Porque pra ele ganhar dez mil reais do YouTube,
[00:21:03] ele tá gerando tanta receita pro YouTube.
[00:21:08] É a mesma coisa, enfim,
[00:21:09] mesma coisa da Twitch,
[00:21:10] mesma coisa de tudo.
[00:21:11] Exato, o modelo de negócio dessa plataforma é esse,
[00:21:14] seja o Google ou outra empresa por trás.
[00:21:18] Mas é isso, que a gente tá morrendo.
[00:21:19] A gente é de uma época que a gente tinha…
[00:21:22] Por que a gente fala isso, pessoal?
[00:21:22] Eu acho que é saudosismo puro.
[00:21:24] Eu falo isso porque, por exemplo,
[00:21:25] eu gosto de colecionar vinil.
[00:21:27] Eu gosto de colecionar vinil.
[00:21:27] Sim, e eu tô vendo aqui, ó.
[00:21:29] Eu tô gravando aqui, eu vejo o webcam do Orlando
[00:21:31] e eu vejo aqui no fundo da tela,
[00:21:33] já tem um box do Horror Noir,
[00:21:35] tem uma capa de uma edição do Titãs aqui,
[00:21:39] do Titãs numa banda, o quadrinho.
[00:21:41] Exato, então, tipo assim.
[00:21:43] Aqui, mesma coisa, assim.
[00:21:44] Tipo, tem a minha…
[00:21:45] Se eu apontar meu webcam ali, ó.
[00:21:47] Tem um monte de livro, Blu-ray,
[00:21:48] tem disco de vinil na parede aqui.
[00:21:50] Enfim, eu gosto…
[00:21:52] Assim…
[00:21:52] Mas não é fetiche, assim.
[00:21:54] O meu consumo de mídia hoje é totalmente digital.
[00:21:57] Por mil e umas questões, assim.
[00:21:59] Especialmente, tipo assim, pô, livro…
[00:22:01] Acho muito melhor do que ter que importar um livro
[00:22:03] é eu clicar num botão ali e pronto,
[00:22:04] a edição em inglês tá no meu Kindle, pronto.
[00:22:06] Paguei menos do que eu pagaria importando.
[00:22:11] Mas…
[00:22:11] Não, jogo.
[00:22:12] A digitalização da mídia não é o problema.
[00:22:13] É isso que eu quero dizer, assim.
[00:22:14] Pra dizer que, tipo, não é saudosismo.
[00:22:16] O meu problema é que…
[00:22:19] Houve uma época que a internet
[00:22:21] e a digitalização…
[00:22:22] E a mídia digital
[00:22:24] se mostrou como perfeita
[00:22:26] pra gente poder compartilhar a cultura
[00:22:28] com o menor custo de entrada possível.
[00:22:31] Certo?
[00:22:32] E ela é ainda isso.
[00:22:33] O problema é que cada vez mais
[00:22:35] a nossa presença digital
[00:22:37] é controlada por corporações
[00:22:39] com fins capitalistas e lucrativos.
[00:22:43] Então,
[00:22:44] a razão pela qual
[00:22:46] é mais difícil pra você hoje
[00:22:48] achar um filme
[00:22:49] e achar o álbum que você quer e tudo mais
[00:22:52] e piratizar…
[00:22:52] Piratear coisas e tudo mais
[00:22:54] é porque existe um esforço ativo
[00:22:56] de corporações
[00:22:58] junto de governos,
[00:23:00] especialmente o governo americano,
[00:23:01] pra controlar o que você vê na internet, assim.
[00:23:03] Não é por essas e outras
[00:23:05] que você, tipo, precisa usar
[00:23:07] VPN, adblock, tracker block, não sei o quê,
[00:23:10] pra poder, tipo,
[00:23:11] piratear coisas em paz, por exemplo.
[00:23:14] Porque…
[00:23:15] É isso, porque, tipo, cara,
[00:23:17] hoje que a gente tá gravando isso,
[00:23:19] a Nintendo conseguiu, tipo, botar
[00:23:20] um hacker,
[00:23:22] que pirateava jogos de Switch
[00:23:24] na cadeia nos Estados Unidos.
[00:23:27] E aí, queira você ou não
[00:23:29] dizer que, tipo, ah, o que ele fez foi errado,
[00:23:31] ele tava cobrando
[00:23:32] por acesso a ROMs e, tipo,
[00:23:34] e se você quer, realmente,
[00:23:37] você não deveria fazer isso. Não deveria fazer isso.
[00:23:39] Quem cobra por pirataria é um merda.
[00:23:41] E tá sendo tão merda quanto essas corporações.
[00:23:43] Porque tá lucrando com trabalho que não é dele.
[00:23:45] Mas,
[00:23:46] você acha que a solução pra isso é botar alguém na cadeia?
[00:23:50] E, claramente, sim,
[00:23:51] botar um cara na cadeia pra ser
[00:23:52] de exemplo e todo mundo ficar com medo.
[00:23:54] É só isso, né? Tipo, assim, é uma tática de intimidação.
[00:23:58] Enfim, é tudo uma merda.
[00:24:00] A Nintendo é a rainha disso, né?
[00:24:01] A Nintendo é a…
[00:24:01] Na indústria de games, ninguém vence a Nintendo nessa paranoia.
[00:24:05] Cara, ela derrubou
[00:24:06] o site de ROM. Ela basicamente acabou com o mundo das ROMs.
[00:24:09] Não só o site de ROM. Pô, pô, a gente tem outro
[00:24:10] exemplo aí do ano passado, agora,
[00:24:12] que foi a GTA Collection,
[00:24:15] o GTA Trilogy Definitive Edition,
[00:24:17] que, nos meses antes de sair
[00:24:18] aquele grande fiasco mal feito
[00:24:20] da Rockstar,
[00:24:22] eles mandaram
[00:24:24] avisos extrajudiciais
[00:24:27] pra todo mundo
[00:24:29] que fazia mod de GTA,
[00:24:30] que fazia adaptação de, tipo,
[00:24:33] vamos fazer mod
[00:24:34] pro GTA 3 do PC rodar direito
[00:24:36] no Windows 10, vamos fazer
[00:24:38] gráfico melhor, fazer rodar em widescreen
[00:24:41] e tal. Tudo que eles estavam fazendo nas coxas,
[00:24:43] a comunidade tinha feito,
[00:24:44] sem visar lucro, de uma maneira muito mais
[00:24:46] tranquila e muito melhor. E durante anos,
[00:24:48] era o trabalho… Pô, gente que realmente gostava do jogo,
[00:24:50] se dedicando anos ali pra aquele negócio.
[00:24:52] Essa aí é a mod de GTA 3 até hoje.
[00:24:54] Exato, não, meu, é uma comunidade muito ativa
[00:24:57] e que tinha… E aí que no final,
[00:24:59] eles usaram do poder
[00:25:00] deles e da influência que eles têm
[00:25:02] no governo e tudo mais,
[00:25:04] pra isso, pra, tipo, derrubar
[00:25:06] a concorrência que eles iam como desleal,
[00:25:10] porque eles iam lançar
[00:25:10] uma versão pior, por dinheiro, entendeu?
[00:25:12] Tipo, ah, esses caras tão dando de graça
[00:25:14] pro cara que… Né, você podia ter comprado
[00:25:16] uma cópia do GTA 3 de PC lá
[00:25:18] quando saiu, em 2004, sei lá,
[00:25:21] e continuar o jogo,
[00:25:22] usando mods gratuitos até hoje pra fazer ele continuar
[00:25:24] rodando, pra ele ficar bonito, pra ele rodar em 4K
[00:25:26] e o caralho é 4, mas ele, tipo, não, eu quero poder
[00:25:28] cobrar de novo desse cara. Então eu vou lá
[00:25:30] e eu vou, tipo, ameaçar judicialmente
[00:25:32] essas pessoas
[00:25:33] pra que eu possa lucrar com o que
[00:25:36] a gente viu aí que é
[00:25:38] a pior versão possível do jogo.
[00:25:41] Porra, cara, nem vamos falar disso,
[00:25:42] a gente tava falando disso da Konami agora.
[00:25:44] É, essa é outra grande
[00:25:46] exploradora aí do…
[00:25:48] Que pra mim era a minha empresa preferida,
[00:25:50] junto com a Capcom, né, cara, porque eu sou um grande fã
[00:25:52] de Castlevania. E, cara, tipo assim, outro dia
[00:25:54] eu tava pensando assim, cara, como é que eu posso
[00:25:56] jogar Castlevania? Eu queria jogar Symphony
[00:25:58] of the Night. Eu pensei, cara, como é que eu posso
[00:26:00] jogar Symphony of the Night
[00:26:02] de maneira legal hoje?
[00:26:05] Porque eu gosto de ter, eu gosto de ter meus jogos
[00:26:06] legais, jogos legais. Ainda tem como?
[00:26:09] Eu não me lembro.
[00:26:10] Não, Ron tem, Ron tem. Não, não, não, legalmente,
[00:26:13] eu tô tentando lembrar aqui.
[00:26:14] Tem o de 360, tem
[00:26:16] uma ponte pro 360.
[00:26:18] E o de 360 roda no One
[00:26:20] e no Xbox Series ou não?
[00:26:22] Deixa eu rodar no 360. Eu não sei, eu não sei, porque no Brasil
[00:26:24] não tem ele.
[00:26:26] Tá, é porque eu tinha a conta da Live Green,
[00:26:28] eu lembro que eu comprei quando saiu no 360,
[00:26:31] mas não, porque quando eu entro lá
[00:26:32] na minha conta pra ver tudo que eu posso
[00:26:34] instalar no Xbox, no One,
[00:26:36] no Series X, ele não
[00:26:38] aparece, então ele, tipo, não tem a licença,
[00:26:40] você não pode. Não tem a licença no Brasil.
[00:26:42] Eu acho que tá, ele saiu pra Play 3
[00:26:44] também, né?
[00:26:46] Ah, eu não sei. Saiu pra Play 3.
[00:26:48] Se ele tivesse saído pra Play 4, ele rodaria no Play 5
[00:26:50] também, mas eu não sei, eu acho que não
[00:26:52] teve um port.
[00:26:54] Mas e aí, você tem que comprar um Playstation.
[00:26:57] Outro, não, outro, outro,
[00:26:58] como é o, aquele, o anterior,
[00:27:00] que é o prequel, como é que é o…
[00:27:03] O Castlevania…
[00:27:05] O Draconex.
[00:27:05] O Draconex. Ah, é só
[00:27:07] do Saturno e hoje tem uma versão pra PSP?
[00:27:10] Tem uma versão pra PSP.
[00:27:11] Tem uma versão pra PSP. Tá.
[00:27:12] Tipo assim, você não tem como jogar. São jogos
[00:27:15] que você não tem como jogar de maneira legal.
[00:27:17] Não tem como jogar de maneira legal.
[00:27:18] Cara, assim, eu faço questão, tava com assim, quando eu comprei,
[00:27:21] comprei ontem,
[00:27:22] todos os jogos de Mega Man, todas as coletâneas de jogos de Mega Man
[00:27:25] que foram lançados. Os gás tem um, sei lá,
[00:27:26] cento e pouco reais, tava na promoção.
[00:27:28] Tipo, e eu gosto de jogar, eu gosto de ver lá,
[00:27:30] o museuzinho que o pessoal faz, eu acho do caralho,
[00:27:32] às vezes eu me divirto muito mais jogando jogo retrô
[00:27:35] do que jogo atual.
[00:27:36] Ah, eu também, eu especialmente, tipo,
[00:27:38] pra jogo antes de dormir, assim,
[00:27:40] o meu Switch eu desbloqueei pra poder usar emulador.
[00:27:43] Porque pra jogar antes de dormir, pra mim,
[00:27:44] nada melhor, eu zerei de novo o Super Mario 3,
[00:27:47] zerei de novo o Super Mario World.
[00:27:49] Joguinho mais simples, assim, adoro.
[00:27:51] Pois é, cara, não tem que ver,
[00:27:52] é toda uma história, não tem que estar investido na história,
[00:27:54] eu só quero pular nas tartarugas.
[00:27:56] E aí a Nintendo, a solução da Nintendo é tipo,
[00:27:58] se você me pagar três dólares
[00:28:00] todo mês, você pode jogar Mario World
[00:28:02] do Super Nintendo.
[00:28:04] Ah, e aí tem online, tem co-op,
[00:28:06] não, não tem nada.
[00:28:07] É igualzinho o do emulador.
[00:28:08] É tipo, é, e aí eu falo assim,
[00:28:12] bom, entendeu, eu não sou trouxa, tipo,
[00:28:14] eu sei que eu posso, tipo, com a minha própria
[00:28:15] engenhosidade,
[00:28:18] burlar esses problemas.
[00:28:20] Não, mas é que tá falando, os esportes,
[00:28:22] cara, por exemplo, a
[00:28:23] a Neo Geo, né,
[00:28:26] a CNK, porra, cara, os esportes
[00:28:27] da CNK, até bem pouco tempo,
[00:28:30] maluco, era assim, era melhor você
[00:28:32] pegar o marrom,
[00:28:34] botar lá no
[00:28:35] caralho, como é o nome lá, o
[00:28:37] no Mami, no Final Burn,
[00:28:39] sei lá, qualquer coisa. Não, no Final Burn, e jogar
[00:28:41] online por ali, tá ligado? Porque se você
[00:28:43] jogar, até agora,
[00:28:45] eles mudaram o netcode agora, né,
[00:28:48] sei lá, cinco anos, seis anos
[00:28:49] depois de soltar o esporte.
[00:28:52] Você não conseguia jogar online.
[00:28:54] Eu adoro jogar Virtua Fighter 3, né,
[00:28:56] e Virtua Fighter 3 nunca foi relançado, ele existe
[00:28:58] no Arcade, na Model 3
[00:29:00] da SEGA, e
[00:29:02] no Dreamcast, e só.
[00:29:04] E aí, beleza, as duas versões
[00:29:06] hoje em dia são emuladas, e aí
[00:29:08] hoje em dia, a SEGA
[00:29:10] nunca relançou o jogo, e
[00:29:12] no emulador,
[00:29:14] hoje, você consegue, no Flycast Dojo,
[00:29:16] jogar com o netcode melhor
[00:29:18] do que o Virtua Fighter 5, que eles relançaram
[00:29:20] pro Play 4. Porque aí,
[00:29:22] é o netcode baseado
[00:29:24] em GGPO e tal. Então,
[00:29:26] é isso, assim, e pra quem
[00:29:27] acha que isso é um fenômeno da era
[00:29:30] digital, não é, porque
[00:29:31] filmes passaram por isso.
[00:29:34] O Nosferatu, que é tipo um clássico,
[00:29:37] ninguém discute
[00:29:38] que é um clássico, do terror, do
[00:29:40] Murnau, só existe
[00:29:42] porque foi pirateado, porque não
[00:29:44] sobraram cópias do
[00:29:46] filme depois, porque os filmes
[00:29:48] passavam em circuito e eram jogados fora,
[00:29:50] eram vistos como descartáveis.
[00:29:52] E ele só existe porque
[00:29:53] um cara,
[00:29:55] eu não lembro onde, ele fez uma cópia
[00:29:58] da película, ele copiou, né,
[00:30:00] então já é uma cópia de segunda geração e tal,
[00:30:01] não é tão pristina, mas é isso,
[00:30:04] todas as vezes que você assistiu o Nosferatu,
[00:30:06] você que está ouvindo esse podcast,
[00:30:08] você assistiu uma
[00:30:09] digitalização, né,
[00:30:11] ou pelo menos uma versão telecine, na época do VHS,
[00:30:14] de uma película
[00:30:15] pirata. Você só
[00:30:17] tem hoje a edição completa do
[00:30:20] Metrópolis por causa disso,
[00:30:21] porque a edição que foi
[00:30:23] lançada do Metrópolis nos Estados Unidos
[00:30:25] era diferente do Reino Unido,
[00:30:27] que é diferente da versão que o diretor queria ter feito,
[00:30:29] enfim, tem todo um trabalho
[00:30:31] fascinante de arqueologia
[00:30:33] por trás da
[00:30:35] versão do Metrópolis que se tem hoje e tal.
[00:30:38] Enfim, e
[00:30:39] é isso, eu acho que o que a gente
[00:30:41] quer fazer com as outras
[00:30:43] coisas da vida é que não acontece
[00:30:45] o que aconteceu no começo da vida do cinema, que é isso,
[00:30:47] os primeiros 20, 30 anos do cinema
[00:30:49] 99% que foi produzido não existe.
[00:30:51] Não é só 20, 30, cara, é só você pensar
[00:30:53] por exemplo, do
[00:30:55] cinema independente que se forma
[00:30:57] a gente é muito fã dos anos 80
[00:30:59] que vai culminar no cinema de terror, tá ligado?
[00:31:01] Sim. Porque é o começo
[00:31:02] do cinema independente que vai pra VHS.
[00:31:05] É, não, e você falou cinema independente,
[00:31:07] eu pensei, pô, John Waters, pô, tudo que o John Waters
[00:31:09] fez a gente tem, porque ele virou o John Waters,
[00:31:11] mas quantos proto-John Waters
[00:31:13] não eram conterrâneos
[00:31:15] e contemporâneos, e aí você
[00:31:17] perde a noção de
[00:31:19] o que aquela obra significava,
[00:31:21] no seu contexto, né?
[00:31:23] Tipo, quem eram os criadores que estavam dialogando
[00:31:25] com aquilo naquela época, né?
[00:31:27] Quer ver um exemplo disso?
[00:31:29] Um exemplo disso? O próprio
[00:31:30] David Lynch.
[00:31:32] O David Lynch, daqueles
[00:31:35] autores, ele foi o cara que se tornou proeminente,
[00:31:37] mas na mesma época dele tinham diretores,
[00:31:39] tinham produtores de cinema, que estavam
[00:31:41] flertando com ideias muito parecidas,
[00:31:43] e fazendo filmes meio parecidos.
[00:31:44] Um desses exemplos é aquele filme Fantasma.
[00:31:47] Tipo, o primeiro filme
[00:31:49] Fantasma é completamente surreal,
[00:31:51] sabe qual é? Lembra muito o Razorhead.
[00:31:53] E ali, da mesma, mais ou menos, da mesma época.
[00:31:56] Saca? Só que o diretor do Fantasma
[00:31:57] foi um cara que, porra, ficou
[00:31:59] a resta da vida fazendo filme com
[00:32:00] cem mangos. O David Lynch foi fazer
[00:32:03] Duna, porra, em algum momento.
[00:32:04] E é que leva a
[00:32:07] uma compreensão
[00:32:09] muito rasa das coisas, né?
[00:32:10] Se você não tem essa…
[00:32:12] Se você vê um bagulho isolado
[00:32:14] no vácuo, você é incapaz de entender
[00:32:17] se aquilo foi influenciado por alguma
[00:32:19] coisa, se aquilo é…
[00:32:20] Você não tem como fazer pesquisa.
[00:32:21] Você não tem como puxar o fio
[00:32:24] da coisa. Por exemplo, você vai ver o David Lynch.
[00:32:26] Aí você vai ver lá. Cineastas
[00:32:28] contemporâneos do David Lynch. Você não vai achar
[00:32:30] nenhum nos serviços de streaming.
[00:32:31] Você não vai achar nenhum. Você não tem Fantasma
[00:32:34] em nenhum serviço de streaming. Nenhum.
[00:32:35] E você só tem, tipo, o Razorhead
[00:32:38] em algum serviço de streaming, se tiver, não sei.
[00:32:40] Porque ele
[00:32:42] fez tudo o que fez depois.
[00:32:43] E tá fazendo ainda Twin Peaks, The Return,
[00:32:46] não sei o que, e tá dirigindo filme até hoje.
[00:32:48] Porque é isso, assim. A quantidade de
[00:32:50] criadores que são só esquecidos, assim,
[00:32:53] de obras
[00:32:54] mais do que criadores, né? Que são esquecidas.
[00:32:56] Porque é isso. Porque
[00:32:57] tudo só é preservado aquilo que tem
[00:33:00] o potencial de dar bastante
[00:33:02] lucro.
[00:33:04] Nem lucro. Nem pouco.
[00:33:05] Porque tem muita coisa que poderia…
[00:33:07] Por exemplo, durante uma época, a Warner teve
[00:33:09] aquele serviço on-demand
[00:33:11] lá deles, que era, tipo, filmes muito antigos
[00:33:14] que eles não lançavam em DVD porque não valia
[00:33:15] a pena produzir uma leva.
[00:33:18] Então você podia ir lá
[00:33:19] e encomendar da Warner um DVD
[00:33:22] que era, tipo, um DVD gravado, assim,
[00:33:23] com o nome do negócio escrito, assim.
[00:33:25] Não tinha capa. Eles não tinham que produzir arte nova, nada.
[00:33:28] Mas é, tipo, você quer o filme, a gente
[00:33:29] deixa comprar um DVD lá por, sei lá,
[00:33:31] 20 dólares. E nem isso eles fazem
[00:33:34] mais, entendeu? Porque, tipo, esforço demais
[00:33:36] ter um cara ali pra gravar os DVDs.
[00:33:38] Então, é claro, assim,
[00:33:40] tipo,
[00:33:41] existe um problema.
[00:33:43] E se discute muito pouco, especialmente
[00:33:46] dentro da indústria,
[00:33:48] porque a gente depende desses
[00:33:49] estúdios, né? Tipo, assim, você tá fazendo audiovisual,
[00:33:51] você precisa vender pra alguém. Você precisa que o
[00:33:53] Netflix compre, que a Globo compre,
[00:33:55] que a Amazon compre. Você tá fazendo
[00:33:57] música, você precisa tentar ver se o Spotify
[00:33:59] vai promover. Você tá
[00:34:01] fazendo games, você precisa botar nas plataformas
[00:34:03] grandes. Então,
[00:34:06] é muito difícil, assim, que as
[00:34:07] pessoas mais afetadas e que
[00:34:09] mais compreendem isso por dentro
[00:34:11] não tenham a liberdade de falar sobre isso o tempo
[00:34:13] inteiro e
[00:34:15] de se unir pra tentar
[00:34:17] achar uma solução.
[00:34:19] Mas não tem como, porque é aquilo.
[00:34:22] Hoje em dia,
[00:34:23] a pessoa não sabe nem mais baixar um filme, nem clicar
[00:34:25] num link e baixar. Esse é o ponto.
[00:34:26] Eu ainda acho que curso de pirataria é essencial.
[00:34:30] Não, mas é, cara.
[00:34:31] Porque o curso de pirataria é mais do que pirataria. É um curso de, tipo,
[00:34:34] saber usar a internet
[00:34:35] pra pesquisa, tipo, e sair da
[00:34:37] bolha de, tipo, da bolha que eu não quero dizer
[00:34:39] a bolha que a gente…
[00:34:40] Não, sair da bolha de, tipo, eu preciso pesquisar um bagulho
[00:34:43] e eu vou pesquisar algo que não foi publicado
[00:34:45] nos últimos cinco anos, nesses mesmos três
[00:34:47] jornais ou no Facebook, entendeu?
[00:34:49] Tipo, poder cavar, e é, tipo assim, eu vou saber
[00:34:51] cavar o Internet Arcaia, eu vou saber
[00:34:53] arquivo de jornal, blogs
[00:34:55] relevantes da época, assim, tipo, a quantidade de
[00:34:57] coisa que, por exemplo, ouvindo material
[00:34:59] hoje sobre cultura, seja de
[00:35:01] games, de filmes, assim, de coisas, tipo, ah, eu
[00:35:03] achei uma entrevista com o diretor
[00:35:05] num blog antigo. Ah,
[00:35:07] tinha uma época que esse cara, produtor,
[00:35:09] postava nesse fórum, e aí
[00:35:11] eu achei esses posts e ele contou várias
[00:35:13] coisas da produção. Só um detalhe,
[00:35:15] eu até hoje, eu até hoje, muito de música
[00:35:17] que eu tenho, eu tenho um disco,
[00:35:19] eu tenho discos aqui em casa que não existem,
[00:35:21] não existem samba, que não existem
[00:35:23] nenhum de streaming, mas
[00:35:25] tem blogs que
[00:35:27] os caras fizeram, assim, tipo assim, você pega
[00:35:29] ripa e joga lá, sabe?
[00:35:31] Tipo assim, cara, e os caras fazem um compilado,
[00:35:33] o blog sumiu, sumiu o blog.
[00:35:35] Some, porque, cara, é hospedado num
[00:35:37] blogspot, aí o blogspot some e tal,
[00:35:39] então por isso que você tem…
[00:35:41] E aí, por exemplo, essa coisa de pesquisa, por exemplo,
[00:35:43] cara, muita coisa que eu
[00:35:45] aprendi de música,
[00:35:47] de cinema, de videogame, de
[00:35:49] anarquismo, de antropologia, de filosofia,
[00:35:51] muito disso era em blogs, o cara pegava
[00:35:53] assim, ah, transcrição da revista tal,
[00:35:55] sabe? Tipo assim, pegava, escaneava
[00:35:57] as coisas, colocava lá. Essa cultura acabou.
[00:36:00] Você depende agora
[00:36:01] de uma coisa que tá…
[00:36:03] Porque assim, ah, é o internet archive, tem que estar indexado,
[00:36:06] tem que estar um monte de…
[00:36:07] Sabe? É bizarro.
[00:36:09] Acabou, acabou, acabou.
[00:36:11] A gente tem muita coisa, mas não tem nada nas contas.
[00:36:14] Reclamamos.
[00:36:15] Então, a conclusão é
[00:36:17] essas empresas querem centralizar tudo
[00:36:19] quando o grande trunfo da internet
[00:36:21] é a descentralização das coisas.
[00:36:23] E a real descentralização não cai
[00:36:25] nesse papo de que blockchain e NFT
[00:36:26] é descentralização. Elas são muito mais centralizadoras
[00:36:29] do que qualquer outra tecnologia que a gente tem
[00:36:31] hoje. E eu vou encerrar aqui.
[00:36:33] Muito obrigado, Orlando.
[00:36:36] Ele agradeceu.
[00:36:37] Eu prometo pra vocês.
[00:36:38] Agora deixa eu gravar a introdução disso, porque eu já encaixei
[00:36:41] tudo na minha cabeça. Olha como você…
[00:36:49] Olha como você…
[00:36:51] Olha como você…
[00:36:53] Olha como você…