141 - Neoliberalismo e Sofrimento Psíquico


Resumo

O episódio discute a relação entre o neoliberalismo e o sofrimento psíquico, com foco especial no ambiente universitário. Eribaldo Maia, autor do livro “Neoliberalismo e Sofrimento Psíquico”, explica como sua pesquisa surgiu de experiências pessoais e observações durante a graduação, onde percebeu altos índices de estresse, ansiedade e depressão entre estudantes. Ele apresenta dados alarmantes, como o aumento de 27% para 86% no número de estudantes que relatam abalos emocionais devido à atividade acadêmica entre 2004 e 2018, coincidindo com reformas neoliberais no Estado brasileiro.

A conversa explora como o neoliberalismo internaliza uma lógica empresarial na subjetividade, transformando o indivíduo em gestor de sua própria vida. Isso resulta em uma “sana produtivista” e culpabilização, onde o sujeito se sente responsável por gerir seu tempo e projetos como um investimento, sem possibilidade de folga. A depressão é analisada como um “cansaço de ser si mesmo”, um abandono da empreitada de ser o gestor da própria vida em um sistema que exige crescimento contínuo.

Os participantes discutem como essa dinâmica se manifesta na universidade através de sistemas de avaliação como o Lattes, que criam concorrência desenfreada e cobrança interna, destruindo vínculos éticos e de solidariedade. A ansiedade é entendida como um estado de preparação contínua para perigos futuros em uma sociedade de escassez fabricada, enquanto a procrastinação é uma tentativa de enganar a culpa.

O episódio também aborda respostas possíveis ao sofrimento. É enfatizado que a organização política coletiva, embora não substitua a terapia, funciona como uma “terapia social” que permite narrar o sofrimento de outra forma, criando uma contracultura do reconhecimento. Experiências em movimentos como o MTST e MST mostram como o compartilhamento coletivo do sofrimento atenua sintomas e dilata a existência individual para além de si mesma. A conclusão aponta para a necessidade de “coragem da desesperança” – reconhecer que dentro da sociabilidade neoliberal não há esperança, exigindo ação coletiva para construir novas formas de vida.


Indicações

Books

  • Neoliberalismo e Sofrimento Psíquico — Livro de Eribaldo Maia, lançado pela editora Ruptura, que é o tema central do episódio. Discute o mal-estar nas universidades a partir de uma crítica social ao neoliberalismo.
  • Realismo Capitalista — Livro de Mark Fisher mencionado como uma referência importante para entender a psicopolítica do neoliberalismo e a sensação de que ‘não há alternativa’.
  • O Caminho da Servidão — Livro de Friedrich Hayek mencionado como um texto fundador do pensamento neoliberal, que embate a concepção keynesiana de Estado.

Movies

  • Cosmópolis — Filme com Robert Pattinson mencionado para ilustrar o vazio e a falta de sentido na vida de um milionário no mundo das finanças, exemplificando a desmesura e a busca infinita do neoliberalismo.
  • Vá e Veja — Filme soviético citado em uma metáfora para descrever como o trabalho no neoliberalismo ‘paira eternamente sobre a cabeça’ como uma tensão contínua.
  • Mentes Perigosas — Filme com Michelle Pfeiffer citado como exemplo da narrativa neoliberal do ‘professor herói’ que individualmente muda uma escola, criando expectativas irreais e culpabilizadoras para os educadores.

Organizations

  • PCB (Partido Comunista Brasileiro) — Partido político ao qual Eribaldo Maia, Gustavo e Zamiliano são filiados. É apresentado como uma forma de organização política coletiva que oferece uma resposta à individualização neoliberal.
  • MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) — Movimento social citado como exemplo onde pesquisas (como a dissertação de Guilherme Boulos) mostram a atenuação de sintomas depressivos através da organização coletiva e do compartilhamento do sofrimento.
  • MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) — Mencionado por experiências de psicanálise de grupo conduzidas por Maria Rita Kehl, mostrando formas heterodoxas de cuidado coletivo.

People

  • Mark Fisher — Autor de ‘Realismo Capitalista’, referência para discutir a psicopolítica e o mal-estar no capitalismo contemporâneo.
  • Gary Becker — Economista da Escola de Chicago citado como exemplo da racionalidade neoliberal que reduz todas as ações humanas a um cálculo de custo-benefício, abandonando considerações éticas.
  • Christophe Dejours — Psicanalista francês fundador da psicodinâmica do trabalho, mencionado por seu trabalho que relaciona suicídio no trabalho com a dinâmica do processo laboral.
  • Maria Rita Kehl — Psicanalista citada por sua frase: ‘É somente numa sociedade em que todos são obrigados a ser feliz que a depressão se torna possível’.
  • Guilherme Boulos — Mencionado por sua dissertação que estuda a atenuação de sintomas depressivos nas ocupações urbanas do MTST, mostrando o efeito terapêutico social da organização coletiva.

Linha do Tempo

  • 00:01:45Origem da pesquisa e experiência pessoal na universidade — Eribaldo Maia conta como a ideia do livro surgiu de sua experiência na graduação, onde percebeu muitos relatos de estresse, ansiedade e sintomas depressivos entre colegas. Ele mesmo passou por um processo de adoecimento mental que o fez pausar o curso. A pesquisa começou como uma forma de elaborar o que vivenciava e via ao seu redor, incluindo o suicídio de um colega durante a graduação.
  • 00:04:57Dados alarmantes sobre sofrimento psíquico nas universidades — Eribaldo apresenta dados dos relatórios da Andifes mostrando que o número de estudantes que relatam abalos emocionais decorrentes da atividade acadêmica saltou de 27% em 2004 para 86% em 2018. Esse crescimento coincide com a reforma neoliberal do Estado brasileiro e seu impacto nas universidades, CAPES e CNPq. Ele destaca a falta de pesquisas amplas sobre o tema e a resistência de alguns professores, que acusaram sua abordagem de ‘politizar o sofrimento’.
  • 00:09:50Neoliberalismo e a quebra da barreira entre trabalho e vida — Zamiliano compara a dinâmica do trabalho universitário com a do home office e do trabalho em plataformas digitais, onde não há mais um espaço físico delimitado para o trabalho. O trabalho se torna contínuo, seguindo o indivíduo para casa através de celulares, e-mails e a pressão por produção constante. Isso gera um sofrimento contínuo, diferente do operário que pode deixar a fábrica.
  • 00:12:00Sociedade de controle e modulação do indivíduo — A discussão avança para o conceito de sociedade de controle de Deleuze, onde o controle não é mais exercido por um intermediário externo, mas internalizado pelo próprio indivíduo. Em uma sociedade de escassez fabricada, o sujeito se modula e se vigia para produzir, temendo a exclusão. Na universidade, isso se traduz na lógica do Lattes e na necessidade constante de publicar para não ficar para trás.
  • 00:17:59O indivíduo como empresa e a gramática do investimento — Eribaldo explica como o neoliberalismo faz o indivíduo internalizar a gramática da empresa, tornando-se gestor de si mesmo. A educação é vista como um investimento em capital humano para ter retorno no mercado de trabalho ou na carreira acadêmica. Isso destrói a barreira entre trabalho e vida, criando um dilema onde, como seu próprio patrão, você não concede folga a si mesmo. A depressão é analisada como um cansaço de ser si mesmo, um abandono desse projeto de gestão da própria vida.
  • 00:39:10Destruição dos vínculos éticos e a lógica do cálculo — É discutido como o neoliberalismo destrói vínculos morais e éticos onde se estabelece. O exemplo do economista Gary Becker, que estacionou em local proibido calculando o risco da multa versus o benefício de chegar na hora, ilustra a racionalidade de custo-benefício que permeia todas as ações humanas. Na universidade, isso leva à não partilha de informações e à competição, em detrimento da solidariedade e da ética.
  • 00:48:04Procrastinação, culpa e a desmesura neoliberal — A procrastinação é analisada como uma tentativa de enganar momentaneamente a culpa, que está sempre presente. O neoliberalismo cria uma desmesura sem ponto final: a gratificação por entregar um artigo é curta, rapidamente substituída pela obrigação de produzir o próximo. O exemplo do filme ‘Cosmópolis’ ilustra o vazio e a falta de sentido nessa busca infinita por mais. A depressão surge como uma interrupção do desejo, uma apatia em contraste com a sociedade maníaca do ‘mais gozar’.
  • 01:05:56Organização política como terapia social e nova linguagem — Eribaldo argumenta que a organização política coletiva, embora não seja terapia no sentido clínico, funciona como uma terapia social. Em movimentos como o MTST e MST, o compartilhamento do sofrimento em espaços coletivos (como cozinhas comunitárias) permite que as pessoas percebam que seus problemas não são individuais, mas sociais. Isso cria uma ‘contracultura do reconhecimento’ e uma nova linguagem para narrar a si mesmo, fugindo da negatividade do ‘eu sou fracassado’.
  • 01:17:48A coragem da desesperança e a necessidade de ação coletiva — Gustavo e Zamiliano concluem que dentro da sociabilidade neoliberal não há mais esperança. É necessária a ‘coragem da desesperança’ (Zizek) para reconhecer que o sistema está esgotado e que a única saída é a ação política coletiva para destruí-lo e construir algo novo. A organização política, apesar de trazer novos problemas e desapontamentos, oferece novos horizontes de resposta e uma forma de existência dilatada para além do indivíduo isolado.

Dados do Episódio

  • Podcast: Revolushow
  • Autor: Revolushow
  • Categoria: News Politics
  • Publicado: 2022-02-25T09:00:00Z
  • Duração: 01:28:38

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] 🎵

[00:00:00] Olá, pessoas! Estamos começando mais um RevoluShow,

[00:00:17] o seu podcast de esquerda, mas sem perder a ternura.

[00:00:20] E no episódio de hoje, como eu sempre falo,

[00:00:21] que você está vendo o título que está em cima,

[00:00:23] nós vamos falar sobre neoliberalismo e sofrimento psíquico.

[00:00:26] Para falar desse tema extremamente importante

[00:00:29] que a gente está fazendo em conjunto com o pessoal da editora Ruptura,

[00:00:33] nosso querido Cauêzão. Um abraço, Cauê.

[00:00:35] Patrão Cauê, um abraço para você que está nesse momento nos ouvindo também.

[00:00:38] Nós trouxemos aqui o autor do livro, Eribaldo Maia.

[00:00:41] Diga olá, Eribaldo, quem é você? Para onde vem? Para onde vai?

[00:00:44] Olá, Zamiliano. Prazer estar aqui no RevoluShow para falar do livro.

[00:00:49] Eu sou Eribaldo, faço parte do Mimesis,

[00:00:52] professor do curso da classe esquerda,

[00:00:53] e agora estou lançando o livro Neoliberalismo e Sofrimento Psíquico,

[00:00:57] o mal-estar nas universidades,

[00:00:58] onde a gente vai debater sofrimento, mas com ternura, obviamente,

[00:01:01] para tentar trazer também um pouco de alegria nesse debate tão triste, né?

[00:01:05] Muito bom, muito bom.

[00:01:07] E ao lado esquerdo de Eribaldo, nós temos o nosso querido Gustavo aí, do História Cabeluda.

[00:01:12] E aí, Zami, e aí, ouvintes do RevoluShow, tudo bem?

[00:01:15] Queria muito agradecer aí o convite, a minha estreia aí neste programa maravilhoso,

[00:01:20] financiado pela China de Xi Jinping.

[00:01:23] Um grande abraço aí para Xi Jinping.

[00:01:24] E muito feliz aí de fazer parte do debate junto com o Eribaldo,

[00:01:28] para falar do livro dele.

[00:01:29] Vamos dali.

[00:01:31] Muito bom, muito bom, muito bem.

[00:01:33] Vamos lá, então, a este grande episódio aí,

[00:01:36] que eu tenho certeza que será muito proveitoso para todos nós,

[00:01:38] enquanto pessoas que estão participando e das pessoas que estão nos ouvindo agora,

[00:01:42] nesse exato momento.

[00:01:43] Eribaldo, vamos começar por você.

[00:01:45] Você um dia acordou e falou assim,

[00:01:46] pô, vou escrever sobre o neoliberalismo e o sofrimento,

[00:01:48] ou é um tema de pesquisa que você já vem pesquisando há um bom tempo

[00:01:53] e relacionado também à questão da universidade?

[00:01:55] Como é que foi, assim, essa ideia de produção,

[00:01:58] de um livro?

[00:01:59] Afinal de contas, todo mundo sabe que escrever não é uma coisa muito fácil.

[00:02:02] Você revisa mais de uma vez, olha uma vez, olha outra.

[00:02:05] Tanto é que tem uma piada, né, que é comum,

[00:02:07] que é do tipo assim, se você fica olhando o seu texto toda hora,

[00:02:09] você vai mudar ele tantas vezes que no final,

[00:02:11] você vai ficar lá, né, muda aqui, melhora um pouquinho lá, etc e tudo mais.

[00:02:15] Então, como é que foi o processo de escrever

[00:02:17] e, principalmente, como é que foi o processo de pesquisar

[00:02:19] esse tema tão complexo que você está trazendo para a gente nesse livro?

[00:02:22] Descobrir da pior maneira possível que você não termina,

[00:02:25] você abandona, né, para não pegar mais,

[00:02:27] porque se você…

[00:02:28] Se você pegar mil vezes, você nunca vai terminar ele, né?

[00:02:32] Mas é uma pesquisa que surgiu quando eu estava na graduação ainda.

[00:02:37] Então, eu estava na graduação ainda e eu percebia,

[00:02:40] conversando com as pessoas e por mim mesmo, né,

[00:02:43] por experiência própria, que haviam muitos relatos

[00:02:47] de pessoas que estavam muito estressadas ou ansiosas

[00:02:51] ou com… não depressivas, mas pelo menos com sintomas

[00:02:55] de depressão, assim, em espaço, né,

[00:02:57] numa tristeza, numa tristeza, numa tristeza,

[00:02:58] numa tristeza profunda, uma sensação de inadequação,

[00:03:00] uma sensação de… que não é capaz de dar conta

[00:03:03] da dinâmica universitária, por N motivos, né?

[00:03:06] Enfim, eu estudava à noite, né?

[00:03:08] Então, à noite tem os alunos mais precarizados da universidade, né?

[00:03:13] Então, tem que dar conta de trabalho, estudo,

[00:03:15] e a dinâmica da universidade pública é uma dinâmica que exige muita leitura,

[00:03:18] participação de monitoria, participar de congressos, etc.

[00:03:22] Então, havia muito essa sensação de um sufocamento.

[00:03:25] Por um lado, isso, né?

[00:03:28] Por outro, eu mesmo comecei a passar por um processo

[00:03:30] de adoecimento mental durante a graduação,

[00:03:33] que me fez praticamente pausar o curso por um tempo.

[00:03:36] Uma das coisas que eu faço quando eu tô sem respostas é

[00:03:40] ler sobre o que eu tô passando, né?

[00:03:42] Então, eu fui atrás de ler e o assunto terminou me interessando, né?

[00:03:46] Então, eu comecei a conversar com alguns professores

[00:03:48] que me indicaram caminhos de estudo que terminou fazendo

[00:03:51] com que eu chegasse nesse objeto, questão do sofrimento.

[00:03:54] E, óbvio, que de maneira não um sofrimento

[00:03:57] de uma perspectiva liberal, né?

[00:03:59] Uma coisa meio individualizada, mas com viés social, né?

[00:04:03] Como crítica social também.

[00:04:05] Então, é um projeto que surgiu na universidade

[00:04:07] e que, no TCC, eu abordei também esse tema.

[00:04:11] E, no livro, eu venho pra aprofundar,

[00:04:14] pra trazer alguns detalhes e alguns arcabouços teóricos

[00:04:18] que eu vim trabalhando nos últimos tempos, né?

[00:04:20] Pós da universidade.

[00:04:21] Por exemplo, o livro do Dardot, do Mark Fischer,

[00:04:24] assim como algumas outras pesquisas.

[00:04:27] Eu acho que um dos pontos intrigantes, né?

[00:04:30] É que havia muito poucos dados.

[00:04:32] Há muitas pesquisas, principalmente artigos, etc.,

[00:04:36] sobre o sofrimento nas universidades,

[00:04:38] mas nenhuma grande pesquisa que, por assim dizer,

[00:04:43] tenha um teor tão universal, né?

[00:04:45] De capturar muitos alunos, uma quantidade enorme, né?

[00:04:48] O mais próximo disso que tem são os relatórios da UNDIPS

[00:04:51] que a gente vai analisar no livro, né?

[00:04:52] Então, só pra gente iniciar o debate aqui,

[00:04:54] pra colocar um ponto, por exemplo,

[00:04:57] e o de 27% pra 86%

[00:05:00] o número de estudantes que se dizem

[00:05:02] com abalos emocionais, afetivos ou psíquicos

[00:05:05] em decorrência da atividade acadêmica, né?

[00:05:08] Isso de 2004 até 2018.

[00:05:11] Ou seja, um número que cresceu assustadoramente

[00:05:14] e coincide com o que a gente vai também analisar no livro,

[00:05:19] que é a reforma neoliberal do Estado brasileiro,

[00:05:22] que vai impactar nas universidades, na CAPES, na CNPq,

[00:05:27] e assim por diante.

[00:05:27] Então, foi uma pesquisa que tinha muito a ver

[00:05:29] com o que eu passava na universidade,

[00:05:31] com o que eu via de colegas.

[00:05:34] Teve um colega que se suicidou durante a graduação.

[00:05:37] Então, foi meio que uma espécie de elaboração

[00:05:41] do que eu passava e do que eu vi também,

[00:05:43] essa pesquisa, né?

[00:05:45] E, por outro lado, pra tentar colocar, né?

[00:05:47] Porque, por exemplo, quando eu fui,

[00:05:48] quando eu comecei essa pesquisa na universidade,

[00:05:50] teve professor que disse

[00:05:51] você tá querendo politizar o sofrimento.

[00:05:52] Então, foi uma forma de tentar colocar esse debate

[00:05:55] que, apesar de…

[00:05:57] e haver ainda uma percepção de que é um problema,

[00:06:00] ainda pouco divulgado pesquisas, por assim dizer, mais largas, né?

[00:06:06] Que tentem dar uma abrangência pra além de um curso,

[00:06:09] um departamento ou uma universidade específica.

[00:06:11] Porra, esse professor aí do…

[00:06:12] você tá querendo politizar o sofrimento,

[00:06:14] tá de sacanagem, né?

[00:06:15] Foi foda, foi foda, porque…

[00:06:16] O foda é que quando é professor, né?

[00:06:18] É isso, né?

[00:06:18] Você não pode virar e falar assim,

[00:06:19] porra, você tá…

[00:06:20] É, tá de sacanagem.

[00:06:21] O que você comeu no café da manhã?

[00:06:22] Você tá de sacanagem?

[00:06:23] A vontade é de meter ali o Gilbrado e falar

[00:06:26] cala a boca!

[00:06:27] Não, e ele era o coordenador do departamento na época.

[00:06:30] Fazia igual o Crack Neto.

[00:06:31] Mas tá de sacanagem!

[00:06:32] Eu tive sorte que, como eu fazia licenciatura,

[00:06:35] eu poderia fazer a apresentação de trabalhos,

[00:06:38] conclusão de curso, etc., sobre esse tema,

[00:06:40] também em outro departamento.

[00:06:41] Eu podia fazer tanto no departamento de História

[00:06:43] como no de Educação.

[00:06:44] Então, eu fiz assim, ó, vou pra Educação,

[00:06:46] conversei com a professora do departamento de Educação

[00:06:48] e minha pesquisa foi recebida pelo departamento de Educação.

[00:06:51] No departamento de História eu tive esse problema, né?

[00:06:53] O professor não gostou…

[00:06:54] Sim.

[00:06:54] Do tom que eu dei, né?

[00:06:56] É, pois é, né? Impressionante.

[00:06:59] Esse tema que você tá trazendo,

[00:07:00] que é um tema que eu acho extremamente essencial, né?

[00:07:03] A gente discutir neoliberalismo e sofrimento.

[00:07:06] Você e o Gustavo têm discutido bastante isso.

[00:07:08] Vocês têm grupos, né, de estudo.

[00:07:09] De vez em quando eu vejo vocês pontuando isso, né?

[00:07:12] Como, por exemplo, vocês tiveram um grupo de estudo

[00:07:14] do livro do Mark Fisher, né?

[00:07:16] Como é o nome do livro mesmo?

[00:07:16] Eu sou péssimo com nomes.

[00:07:18] Realismo Capitalista.

[00:07:19] Isso, Realismo Capitalista.

[00:07:20] Que, inclusive, tá aqui no meu estante aqui

[00:07:22] pra uma leitura futura.

[00:07:23] Pô, baita livro.

[00:07:24] É muito bom.

[00:07:25] E eu acho assim,

[00:07:26] essa temática é extremamente interessante

[00:07:28] porque, assim, como assistente social,

[00:07:30] eu vejo muito essa dinâmica

[00:07:32] que o neoliberalismo impõe

[00:07:34] em todos os âmbitos do trabalho.

[00:07:35] A gente, obviamente, tá falando aqui também

[00:07:37] no âmbito da academia.

[00:07:38] E eu lembrei de um texto

[00:07:39] que eu li há muito tempo atrás,

[00:07:41] que era uma entrevista com…

[00:07:43] Eu não lembro se era psicanalista ou psiquiatra.

[00:07:44] Que foi um dos fundadores da escola

[00:07:46] da psicodinâmica do trabalho.

[00:07:48] Enfim, dá pra discutir os problemas dessa linha também.

[00:07:51] Que é o Cristófilo de Dejó.

[00:07:53] Provavelmente o Leribaldo

[00:07:54] deve ter passado por algum momento

[00:07:56] por essa figura com um cabelo maravilhoso.

[00:07:58] Tem um cabelo fantástico.

[00:08:02] Parece que ele vai tocar numa orquestra.

[00:08:04] Reger uma orquestra.

[00:08:06] E ele tava falando

[00:08:07] numa matéria específica,

[00:08:09] uma matéria, acho que de Portugal,

[00:08:10] numa revista em Portugal,

[00:08:12] sobre o suicídio no trabalho.

[00:08:14] E ele tava discutindo como a questão

[00:08:16] do suicídio no trabalho é uma mensagem extremamente importante.

[00:08:19] É sobre a dinâmica do processo de trabalho.

[00:08:21] Sobre o sofrimento no trabalho.

[00:08:23] O sujeito, ele faz ali

[00:08:25] até aquele…

[00:08:26] Termina no momento uma escolha política

[00:08:28] de uma certa forma

[00:08:29] de se matar no âmbito do trabalho.

[00:08:32] E que isso pode…

[00:08:33] Ou escolha política objetivamente, ou não.

[00:08:36] E que isso pode ter uma relação direta.

[00:08:38] Inclusive o trabalho dele foi utilizado

[00:08:40] até mesmo

[00:08:41] dentro de um processo judicial

[00:08:43] trabalhista que ocorreu na França, se eu me lembro bem.

[00:08:46] Em relação a um

[00:08:48] executivo da Peugeot que se matou no Brasil.

[00:08:50] A Peugeot não queria pagar o seguro pra família

[00:08:51] porque falou, não, não foi no âmbito do trabalho.

[00:08:53] Entendendo que trabalho era somente…

[00:08:56] Como executivo na Peugeot

[00:08:57] na França. E através desse trabalho

[00:08:59] do Cristóvão de Jó, foi discutido

[00:09:02] que na verdade ele se mata no Brasil.

[00:09:03] E ele estava no Brasil a trabalho.

[00:09:05] Então o trabalho dele era

[00:09:07] todo o momento e minuto em que ele

[00:09:09] estava aqui no Brasil.

[00:09:11] Afastado da sua família, afastado do convívio

[00:09:13] dos seus amigos, etc e tudo mais.

[00:09:15] Isso é uma coisa bem interessante

[00:09:17] dessa questão. Nessa questão da universidade,

[00:09:19] por exemplo,

[00:09:21] quando o universitário

[00:09:24] está lá, como nós fomos,

[00:09:26] universitários, ou nós somos ainda,

[00:09:27] quem está ouvindo aqui também. Quando você está no processo

[00:09:29] de estudo, você está num processo contínuo de trabalho.

[00:09:32] De desgaste físico, de desgaste

[00:09:34] mental, que também é um desgaste físico.

[00:09:36] A gente não pode parar de esquecer

[00:09:38] esse tipo de coisa.

[00:09:39] Porque você só trabalha pensando.

[00:09:41] Porque pra sustentar o cérebro, você não tem que comer nada.

[00:09:44] Enfim, ele não gasta energia do seu corpo.

[00:09:46] Mas, como tem esse desgaste,

[00:09:48] tem uma coisa que eu acho muito parecida

[00:09:50] da dinâmica que a gente está vivendo no processo pandêmico

[00:09:52] na universidade, que é o trabalho

[00:09:53] a 24 horas. Sete dias por semana, porque

[00:09:56] você está toda hora pensando no

[00:09:57] que você tem que produzir, no como você tem que produzir,

[00:10:00] no que você tem que fazer. Então, quando você vai

[00:10:02] pra casa, a parede da faculdade

[00:10:04] não termina, você continua estudando

[00:10:06] na sua casa. Então,

[00:10:07] não tem muito esse

[00:10:09] espaço específico, como a gente

[00:10:12] fala de um operário, por exemplo. O operário

[00:10:14] vai pra fábrica, ele sai da fábrica e acabou

[00:10:16] o processo de trabalho. Se o cara ligar

[00:10:18] pra ele, tanto faz. Ele não está operando

[00:10:19] a máquina no momento, porque ele está muito longe dela.

[00:10:22] Pro universitário,

[00:10:23] pro trabalhador em home office,

[00:10:26] por exemplo, essa parede

[00:10:27] ela é quebrada. E no neoliberalismo, isso é

[00:10:30] quebrado de uma forma fantástica.

[00:10:32] Eu acho que um dos primeiros momentos que a gente

[00:10:33] tem disso,

[00:10:35] se é que a gente pode expandir isso

[00:10:38] também, nesse sentido, é quando a gente

[00:10:40] fala, por exemplo, do trabalhador que

[00:10:41] naquele primeiro momento, na década de 90, recebe um celular

[00:10:44] da empresa e continua

[00:10:46] em casa a qualquer momento,

[00:10:47] ligar. Não era todo trabalhador que recebia

[00:10:49] isso naquele momento, na década de 90, não era todo mundo que tinha

[00:10:51] uma linha telefônica, enfim. Ou,

[00:10:54] até mesmo, não pensando só nisso, mas aquele

[00:10:56] trabalhador que na década de 90 tinha um computador e no computador

[00:10:58] tinha um e-mail, mesmo que seja arcaico,

[00:11:00] mesmo que seja, naquele

[00:11:02] período, o trabalho segue ele,

[00:11:04] começa a seguir. O trabalho se torna

[00:11:06] assim como, no filme

[00:11:08] Vá e Veja, não sei se

[00:11:10] vocês já assistiram,

[00:11:12] o nazista pairando

[00:11:13] eternamente sobre a cabeça

[00:11:15] da resistência.

[00:11:18] Então, aquela tensão contínua

[00:11:20] está sempre ali, o trabalho vai pra onde

[00:11:22] eu for, e etc.

[00:11:23] E isso vai gerando

[00:11:25] um sofrimento contínuo.

[00:11:29] Falei pra caramba.

[00:11:30] E acho que uma coisa que

[00:11:33] é interessante a gente observar

[00:11:35] é que essa dinâmica

[00:11:37] que está inserida hoje no mundo

[00:11:39] digital, nas plataformas

[00:11:41] de produção de conteúdo, ela é algo que está

[00:11:43] muito próxima mesmo

[00:11:45] da realidade da universidade,

[00:11:48] acho que principalmente da universidade

[00:11:49] pública, que mantém ainda uma linha

[00:11:51] de pesquisa, que mantém isso,

[00:11:53] e como essa lógica

[00:11:55] de trabalho contínua, ela está ligada

[00:11:57] a um conceito que é muito

[00:11:59] interessante, que o

[00:12:00] Deleuze trabalha, que é a ideia de

[00:12:03] sociedade não

[00:12:04] mais da disciplina. O Iribadon já

[00:12:07] debateu sobre isso, que na verdade a disciplina não

[00:12:09] acabou, os seus moldes

[00:12:11] Foucaultianos, etc.

[00:12:12] Mas como a gente tem agora muito mais uma sociedade

[00:12:15] que é

[00:12:17] pautada por esse

[00:12:18] por essa modulação.

[00:12:21] Então você não precisa

[00:12:23] ser controlado por ninguém.

[00:12:25] Por um intermediário, ou por

[00:12:27] um gerente,

[00:12:29] ou por um apito de fábrica.

[00:12:31] Esse controle é sobre

[00:12:33] você mesmo. Você se

[00:12:35] modula para se controlar

[00:12:37] e o quanto isso está próximo de uma

[00:12:39] etapa… O capataz

[00:12:41] está na sua mente.

[00:12:43] Exato, porque acho que

[00:12:46] dentro das dinâmicas

[00:12:47] socioeconômicas

[00:12:49] do neoliberalismo, a gente percebe

[00:12:51] que existe um desmonte de uma estrutura

[00:12:53] de segurança do trabalho.

[00:12:55] Então, na verdade,

[00:12:57] a gente lida com uma

[00:12:59] escassez fabricada.

[00:13:01] Uma escassez que é artificial.

[00:13:03] Então você não sabe se você vai ter emprego

[00:13:05] amanhã. Você não sabe se você vai ter recurso.

[00:13:08] Então você apela para esse

[00:13:09] tipo de… Você é obrigado a apelar

[00:13:11] para esse tipo de lógica.

[00:13:13] Se eu não trabalhar além das horas,

[00:13:15] eu posso perder meu emprego. E aí como é que eu vou pagar

[00:13:17] o meu aluguel que só aumenta? Como é que eu vou pagar

[00:13:19] as coisas que só aumentam? Como é que

[00:13:21] eu vou fazer tudo isso?

[00:13:23] E acho que na universidade,

[00:13:25] a gente caminha um pouco por isso.

[00:13:27] Eu e o Eribaldo, a gente conversou sobre isso na live que a gente

[00:13:29] fez. É disso,

[00:13:31] de existir uma sana produtivista

[00:13:33] e uma sana de

[00:13:35] culpabilização do sujeito.

[00:13:37] Bom, eu devia estar estudando,

[00:13:39] eu devia estar fazendo. Se eu não estou

[00:13:41] fazendo, se eu não estou trabalhando,

[00:13:44] pois,

[00:13:45] eu sou um merda mesmo. Eu sou um merda.

[00:13:47] E aí você fica nessa

[00:13:48] constante vigilância para produzir.

[00:13:52] Que é uma parada

[00:13:52] que eu acho que é a mais…

[00:13:55] Adoecedora, exatamente.

[00:13:57] É o que acho que provoca esse grande

[00:13:59] mal-estar. Trabalho continuado, né?

[00:14:01] Tem um ponto que eu acho que é fundamental,

[00:14:03] que o neoliberalismo é muito ardiloso

[00:14:05] nesse sentido. Ele consegue

[00:14:08] fazer algo, e na universidade

[00:14:09] isso se expressa muito através

[00:14:11] do látice. Eu entendo que

[00:14:13] todo mundo parte de lugares

[00:14:15] diferentes. O neoliberalismo, ele tem

[00:14:17] um cinismo. Ele não

[00:14:19] diz que todo mundo é necessariamente

[00:14:21] igual. Ele reconhece que as pessoas

[00:14:23] são diferentes, mas ele diz, ó,

[00:14:25] a partir do momento que você está

[00:14:27] aqui, velho, cabe a você fazer

[00:14:29] de algum jeito e gerir

[00:14:31] a sua vida de forma

[00:14:33] a você alcançar

[00:14:35] os resultados que os outros também estão alcançando.

[00:14:37] Porque, de alguma forma,

[00:14:39] o seu futuro depende do que você

[00:14:41] exclusivamente está fazendo.

[00:14:43] Então, seu futuro,

[00:14:45] no caso, por exemplo, eu acho que um exemplo

[00:14:47] emblemático disso é o Uber. Então, você está

[00:14:49] lá no seu Uber,

[00:14:51] você escolhe quanto tempo

[00:14:53] você vai trabalhar, quantos passageiros você vai trabalhar,

[00:14:55] vai pegar que corrida, vai pagar… É, escolhe

[00:14:57] entre aspas, né? Mas,

[00:14:59] subjetivamente, o que aparece é isso.

[00:15:01] Não tem ninguém colocando a arma na cabeça do

[00:15:03] trabalhador, obrigando a ele ser

[00:15:05] Uber, obrigando ele pegar a corrida,

[00:15:07] obrigando ele pegar a corrida pra tal,

[00:15:10] ainda que,

[00:15:11] obviamente, o grande

[00:15:13] segredo seja a construção de um

[00:15:15] modelo social em que,

[00:15:17] na verdade, a gente está vivendo uma guerra de todos

[00:15:19] contra todos. E caso você

[00:15:21] opte por não pegar, a exclusão

[00:15:23] é responsabilidade sua.

[00:15:25] E é por isso que é fundamental

[00:15:27] para o neoliberalismo destruir as dinâmicas

[00:15:29] de solidariedade social como o SUS,

[00:15:31] como escola pública,

[00:15:33] como dinâmicas

[00:15:35] da previdência, da seguridade

[00:15:37] social, porque essa

[00:15:39] ameaça da exclusão faz com que você,

[00:15:42] como o

[00:15:43] Biong Suhari diz uma coisa interessante,

[00:15:45] quando você não tem outra alternativa a não ser

[00:15:47] a sobrevivência, você faz qualquer coisa.

[00:15:50] Você faz qualquer coisa

[00:15:51] irrefletidamente, você apenas faz pra sobreviver.

[00:15:53] Na universidade, essa

[00:15:55] dinâmica vai sendo inserida de um modo

[00:15:57] de que, se todo o seu percurso universitário

[00:15:59] é guiado por dois

[00:16:01] caminhos, ou a inserção no mundo

[00:16:03] do trabalho, que pede cada vez

[00:16:05] mais qualificação, cada vez

[00:16:07] mais preparo,

[00:16:09] ou seja, cada vez mais o trabalhador tem que ser

[00:16:11] super preparado,

[00:16:13] que nem aquele meme, você tem que ter

[00:16:15] tanta classificação, tantas qualificações

[00:16:17] pra trabalhar, que o patrão provavelmente não seria

[00:16:19] aprovado na seleção de emprego

[00:16:21] que ele mesmo monta.

[00:16:23] Então você tem que ter tantas qualificações,

[00:16:25] isso aqui especialmente pros alunos de universidade

[00:16:27] privada, que estão muito mais preocupados

[00:16:29] com ir direto pra um mercado

[00:16:31] de trabalho, ou, por exemplo,

[00:16:33] a maioria dos estudantes de escola

[00:16:34] da universidade pública, que tem um caminho

[00:16:37] mais acadêmico, de seguir uma

[00:16:39] carreira acadêmica.

[00:16:41] Pra você seguir a carreira acadêmica, você tem

[00:16:43] que também ter um número de qualificações

[00:16:45] de X,

[00:16:47] que tá, no caso, do

[00:16:49] Lattes, né? Você tem que pontuar, publicar

[00:16:51] numa revista Qualis, não sei o quê,

[00:16:53] e assim por diante. E veja,

[00:16:55] não vai ter nenhum professor lhe obrigando a publicar,

[00:16:57] nenhum diretor

[00:16:59] lhe obrigando a publicar, e assim por diante.

[00:17:01] Você tem que publicar por quê?

[00:17:03] Caso você não publique, você está fora.

[00:17:07] E aí,

[00:17:07] independente de se você veio

[00:17:09] de uma

[00:17:10] comunidade no extremo

[00:17:14] da região

[00:17:15] metropolitana do Recife, você

[00:17:17] precisa fazer uma

[00:17:19] trajetória de quatro horas

[00:17:21] e fique sem comer na universidade,

[00:17:23] porque você não tem grana de

[00:17:25] bolsa de manutenção,

[00:17:28] ou se você é filho de uma

[00:17:29] família rica,

[00:17:32] os parâmetros

[00:17:33] são iguais, e as responsabilidades

[00:17:36] são iguais.

[00:17:37] Então você cria um contexto

[00:17:39] em que não há mais,

[00:17:41] como antigamente,

[00:17:43] aquele meme do burguês rico, gordo,

[00:17:45] que ficava caindo comida,

[00:17:47] enquanto embaixo dele ficavam os pobres pegando

[00:17:49] migalha. Essa figura central

[00:17:51] da opressão, ela some

[00:17:53] em troca do,

[00:17:55] você se torna

[00:17:57] o gestor da sua própria empresa.

[00:17:59] E no que se traduz isso?

[00:18:01] Se traduz, por exemplo, na ideia de capital

[00:18:03] cultural, ou então de capital pessoal,

[00:18:06] ou então da educação

[00:18:07] enquanto investimento em si próprio.

[00:18:09] Vou fazer um idioma porque eu vou investir em mim mesmo.

[00:18:12] E a ideia do investimento

[00:18:13] é para você ter um retorno. Retorno o quê?

[00:18:15] Na carreira acadêmica, na inserção

[00:18:17] do mundo do trabalho. Você começa

[00:18:19] a gerenciar o seu tempo, a sua

[00:18:21] vida, em torno de metas

[00:18:23] e objetivos, em torno

[00:18:25] de ganhos, custos e benefícios

[00:18:28] como a empresa.

[00:18:29] Ou seja, é a gramática da empresa que você

[00:18:31] internaliza de tal modo que

[00:18:33] faz com que você perca

[00:18:35] essa barreira que o Zé Miliano

[00:18:37] falou, essa barreira do trabalho.

[00:18:39] Porque se você, a partir de agora,

[00:18:41] é o seu próprio gestor,

[00:18:43] você deve explicar só a você mesmo, como diz

[00:18:45] Agostinho Carrara. Se você é o seu próprio

[00:18:47] patrão, você é o seu próprio empregado.

[00:18:49] E se você é o seu próprio empregado, você deve

[00:18:51] satisfação a você mesmo. Então você não tem

[00:18:53] como pedir folga porque você, como patrão,

[00:18:55] não vai dar folga para o seu empregado.

[00:18:57] Então você fica nesse dilema de

[00:18:59] Agostinho Carrara,

[00:19:01] internalizado as últimas consequências.

[00:19:03] Você não vai conseguir sair disso facilmente.

[00:19:06] E aí vem um ponto

[00:19:06] que é interessante. A depressão,

[00:19:09] o termo depressão, ele surge

[00:19:11] na psicologia e na psiquiatria,

[00:19:13] mas é um termo emprestado da economia.

[00:19:16] É um termo que surge na economia

[00:19:17] e a psiquiatria e a

[00:19:19] psicologia roubam

[00:19:21] esse conceito. E o que

[00:19:23] é a ideia da depressão? Você projeta

[00:19:25] um crescimento econômico, você projeta um ideal,

[00:19:27] por assim dizer, um ideal

[00:19:29] de progresso, de desenvolvimento.

[00:19:32] E caso esse ideal não seja

[00:19:33] alcançado, você entra em depressão.

[00:19:35] A empresa entra em depressão, o Estado entra em depressão.

[00:19:38] A mesma coisa a partir

[00:19:39] do momento que a gente assume a lógica empresarial.

[00:19:41] A gente assume essa lógica de gestão.

[00:19:44] A gente assume um

[00:19:45] projeto de vida, essa ideia de projeto

[00:19:47] de vida é muito boa também. Ou então

[00:19:49] a revista que tem no Brasil. O Brasil é a terra de

[00:19:51] Paulo Freire e, portanto, é didática.

[00:19:53] A revista Você S.A.

[00:19:55] Você se assume enquanto esse sujeito

[00:19:57] e caso esse ideal que você

[00:19:59] projete não seja alcançado

[00:20:01] por N motivos, porque a gente

[00:20:03] no Brasil tem todos os motivos para não alcançar,

[00:20:05] enfim, a gente

[00:20:07] entra em depressão.

[00:20:09] É por isso que um sociólogo que é amigo

[00:20:11] do DeJorges, que é o

[00:20:12] Alan Arenberg, diz o seguinte. A depressão é

[00:20:15] um cansaço de

[00:20:17] ser si mesmo. Você desistiu dessa empreitada

[00:20:19] de ser o gestor

[00:20:21] da sua própria vida. Você abre mão.

[00:20:22] O quanto isso está ligado mesmo a uma forma de gestão?

[00:20:25] É meio pós-disciplinar, né?

[00:20:28] Acho que

[00:20:29] existe, principalmente ali nos

[00:20:30] economistas da Escola de Chicago, do qual

[00:20:33] o senhor Paulo Nuguedes

[00:20:35] faz parte, essa ideia

[00:20:37] de que passa

[00:20:39] para o sujeito e o indivíduo

[00:20:40] todo o peso e a responsabilidade

[00:20:43] para investir sobre si mesmo.

[00:20:45] Como o Eribaldo falou,

[00:20:46] existe um certo capital humano. Então,

[00:20:49] você deve gerenciar todas as

[00:20:51] suas ações e todos os seus

[00:20:52] modelos de desenvolvimento de forma

[00:20:55] que eles te gerem

[00:20:56] vantagens, de que eles te gerem

[00:20:59] interesse.

[00:21:00] Não é à toa que o termo

[00:21:02] interest,

[00:21:03] por inglês, é justamente

[00:21:07] essa ideia de algo que

[00:21:08] rende no futuro.

[00:21:10] O quanto da sua ação pode render

[00:21:13] para você, o quanto ela pode ser

[00:21:14] valiosa e você tem

[00:21:17] que estar disposto a pagar esse preço.

[00:21:19] Puro e simplesmente.

[00:21:21] Quem pensa muito nessa questão

[00:21:22] é um dos filósofos da Escola de Chicago,

[00:21:25] Harry Becker.

[00:21:26] Essa ideia de que

[00:21:28] o sujeito, nessa colocação

[00:21:30] de autovalorização,

[00:21:32] ele mesmo se converte em capital.

[00:21:35] Numa sociedade que está totalmente

[00:21:37] desprovida de um bem-estar,

[00:21:39] de uma rede de amparo social,

[00:21:42] é isso, é todos contra

[00:21:43] todos, porque eu não sei o que eu vou

[00:21:44] comer na semana que vem, não sei se eu vou

[00:21:47] ter emprego, eu não sei o que vai acontecer.

[00:21:48] Então, se cria justamente essa falsa

[00:21:51] ideia de que

[00:21:52] é uma escolha,

[00:21:55] é simplesmente uma escolha

[00:21:57] pessoal, o quanto

[00:21:58] essa dinâmica que promove esse

[00:22:00] adoecimento, esse mal-estar, está ligado

[00:22:02] também a uma forma patologizadora

[00:22:05] e moralista,

[00:22:07] do tipo, pô, se você não

[00:22:08] conseguiu, é porque você

[00:22:11] não quis.

[00:22:12] Se você não conseguiu, é porque você não

[00:22:14] estava afim. E aí não é à toa que

[00:22:16] hoje a gente vê proliferar por aí

[00:22:18] esse tanto de discurso

[00:22:21] de coach quântico,

[00:22:22] programação de DNA,

[00:22:24] e o caralho a quatro,

[00:22:26] porque ele

[00:22:27] subverte essa ideia

[00:22:30] no âmago, ele fala

[00:22:31] o problema é você,

[00:22:34] que não se reprogramou, que não se

[00:22:36] repensou, que não despertou o

[00:22:38] leão em si, que

[00:22:39] não dá o seu grito da masculinidade,

[00:22:42] porque todo mundo

[00:22:44] aqui quer ouvir,

[00:22:45] fala aí, Fortean!

[00:22:48] Caraca, muito bom, esse negócio do grito da

[00:22:50] masculinidade é um dos momentos

[00:22:51] mais memoráveis da história brasileira.

[00:22:54] Cara, e um parênteses rápido sobre

[00:22:55] isso, eu acho impressionante, né, porque ele

[00:22:57] manda todos os homens levantarem,

[00:22:59] as mulheres ficam sentadas olhando, eu fico pensando,

[00:23:01] mano, o que que passou?

[00:23:03] Sério, eu pagaria

[00:23:05] a alma do Olavo de Carvalho, que agora não dá

[00:23:07] mais, pra ver,

[00:23:09] pra acessar o que que

[00:23:11] aquelas mulheres estavam pensando vendo aquela cena,

[00:23:13] falando, meu, o que que é isso? Os caras gritando

[00:23:15] igual uns gorilas no auditório.

[00:23:17] Eu acho que dá pra saber

[00:23:20] o que que elas estavam pensando naquele momento ali,

[00:23:21] só de olhar elas rindo, né? Os caras com o cara

[00:23:24] sério, aí elas tipo assim, pô, tá de sacanagem,

[00:23:26] né, velho?

[00:23:28] Paguei pra estar aqui?

[00:23:29] Porra, homem é um bicho que só,

[00:23:32] porra, é zoado demais, né?

[00:23:34] Homem é foda. Mas, cara,

[00:23:35] essa questão,

[00:23:38] né, quando a gente fala do neoliberalismo,

[00:23:40] né, dessa individualização, inclusive

[00:23:41] no serviço social, quando eu tava no processo de formação,

[00:23:43] a gente falava muito o termo psicologização

[00:23:45] da questão social, né?

[00:23:49] Eu acho que

[00:23:49] não necessariamente, não é um

[00:23:51] termo muito bom, né, pra ser utilizado, mas, enfim,

[00:23:53] utilizava muito e tudo mais, mas, na verdade, é a questão da

[00:23:55] individualização ao máximo, né,

[00:23:57] da questão social, das expressões da questão

[00:23:59] social, lembrando a todo mundo,

[00:24:01] atenção pra nós, já rodar pé no meio do podcast,

[00:24:03] que a questão social é o embate entre o capital,

[00:24:06] né, o patronado e

[00:24:07] os trabalhadores, né, e

[00:24:09] luta dos trabalhadores contra isso

[00:24:11] que gera suas expressões, né, como

[00:24:13] pauperismo, né, como a violência

[00:24:16] das mais variadas formas

[00:24:17] possíveis dentro do capitalismo, como

[00:24:19] as expressões, né, as

[00:24:21] milhares de expressões da xenofobia,

[00:24:23] do racismo, etc., como a

[00:24:25] questão agrária, né, como a não

[00:24:27] divisão da

[00:24:28] terra, né, enfim, a concentração

[00:24:31] de terras aí na mão de

[00:24:33] poucos e o que isso gera na nossa política,

[00:24:35] etc., etc., etc.,

[00:24:37] e

[00:24:38] quando a gente falava, né, e discutia

[00:24:41] isso, era uma coisa muito interessante

[00:24:43] porque, veja, neoliberalismo

[00:24:45] enquanto

[00:24:46] racionalidade, né, a gente tem

[00:24:49] que lembrar, a racionalidade irracional,

[00:24:51] né, enfim,

[00:24:52] enquanto racionalização

[00:24:55] do processo político

[00:24:56] na nossa sociedade, né,

[00:24:59] acompanhando o modo

[00:25:01] de produção e a mudança

[00:25:03] do modo de produção ali, principalmente

[00:25:05] na década de 70, apesar do neoliberalismo

[00:25:07] ter as suas raízes antes

[00:25:09] da década de 70, né,

[00:25:10] e as suas expressões mais

[00:25:12] profícuas, né, assim, mais relatadas

[00:25:15] antes da década de 70, quando a gente pensa, por exemplo,

[00:25:17] no livro do

[00:25:19] Frederic Hayek, né, que é

[00:25:20] O Caminho da Servidão, que ele faz

[00:25:23] um embate ali, a concepção keynesiana

[00:25:25] de execução do Estado, etc., e tudo mais,

[00:25:27] e aí, naquele momento do processo

[00:25:29] de produção de massa,

[00:25:30] que tem no início

[00:25:33] do século XX,

[00:25:34] e quando ele monta ali a sociedade

[00:25:37] de Monte Pelerin, né, que, inclusive,

[00:25:39] estava Milton Friedman, né, essas

[00:25:41] figuras execráveis,

[00:25:43] Milton Friedman, o próprio Ludwig

[00:25:45] von Mises, né, estava na sociedade

[00:25:46] de Monte Pelerin também, né, enfim,

[00:25:48] mas era uma pessoa mais apagada ali, porque,

[00:25:50] era meio abelolado, né,

[00:25:52] inclusive, né,

[00:25:54] continua sendo um cara abelolado, ninguém liga pra ele

[00:25:56] na universidade,

[00:25:59] no mundo, né, enfim,

[00:26:00] tem esse fenômeno aí

[00:26:01] dessa galera que a gente sabe quem é.

[00:26:05] Enquanto esse processo

[00:26:06] de individualização, que ele expressa

[00:26:08] muito bem ali, naquele livro,

[00:26:10] quando ele vira e fala assim que

[00:26:12] o desemprego, a taxa natural de desemprego

[00:26:15] é extremamente necessária, porque assim

[00:26:16] você produz uma competição

[00:26:18] dos trabalhadores, entre os trabalhadores,

[00:26:20] e, por sua vez, através dessa

[00:26:22] competição dos trabalhadores, entre os

[00:26:24] trabalhadores, você vai gerar um trabalhador melhor,

[00:26:27] né, um trabalhador mais

[00:26:28] capacitado, etc.,

[00:26:31] enfim, né, que acaba se gerando aí,

[00:26:33] é um trabalhador cada vez mais necessitado,

[00:26:34] mais desesperado, por uma posição

[00:26:36] no mercado de trabalho, formal ou

[00:26:38] informal, né, e uma precarização

[00:26:41] do trabalho, uma precarização da vida,

[00:26:43] uma precarização

[00:26:43] da mente

[00:26:47] humana, uma precarização

[00:26:48] da saúde mental, uma precarização da saúde física,

[00:26:50] enfim, quando a gente

[00:26:52] quando a gente pensa no neoliberalismo enquanto isso,

[00:26:54] e a gente vive o neoliberalismo da melhor

[00:26:56] forma possível, né, nesse momento,

[00:26:59] eu, o Zamiliano, produzindo aqui na

[00:27:00] Twitch, fazendo a produção ali

[00:27:02] no Revoluchow,

[00:27:05] né, enfim, produzindo

[00:27:06] no meu processo de trabalho como assistente

[00:27:08] social no Estado brasileiro também,

[00:27:10] obviamente, é uma produção completamente diferente,

[00:27:12] né, quando a gente fala do servidor público

[00:27:14] no Estado, né, são uns 500,

[00:27:16] não é a mesma coisa que o operário que está produzindo mais valia,

[00:27:18] eu estou ali, né, operando a

[00:27:20] máquina estatal para produzir consenso

[00:27:23] e para produzir

[00:27:24] formas de que o capitalismo não caia, né,

[00:27:27] naquele momento,

[00:27:28] olha a contradição aí contínua, né,

[00:27:30] na nossa existência,

[00:27:32] né, enquanto eu estou aqui produzindo

[00:27:34] tudo isso e etc, eu estou me culpando

[00:27:36] por esse processo, por esse processamento também,

[00:27:38] né, isso é muito interessante, porque, por exemplo,

[00:27:40] quando eu estou no processo de trabalho, como no Estado,

[00:27:43] né, no Estado,

[00:27:44] eu não tenho essa pressão, eu não volto para casa

[00:27:46] quando eu saio do trabalho e fico pensando assim,

[00:27:48] de vez em quando eu fico, só quando o caso é mais pesado, né,

[00:27:50] putz, eu tenho que fazer um relatório,

[00:27:52] eu tenho que fazer tal coisa, eu tenho que produzir não sei o que,

[00:27:54] mas enquanto produtor de

[00:27:56] conteúdo

[00:27:58] na internet, né, no RevoluShow,

[00:28:00] na Twitch, eu fico com essa coisa

[00:28:02] assim de, putz, eu tenho que produzir conteúdo,

[00:28:04] qual o tema que eu vou trazer para essa semana,

[00:28:06] o que eu vou fazer, como é que eu vou

[00:28:08] produzir isso, etc, então assim, tem

[00:28:10] o cansaço, que é o

[00:28:12] cansaço não visto, né,

[00:28:14] e isso é uma coisa assim que

[00:28:16] é desesperador,

[00:28:18] né, e eu acredito profundamente que

[00:28:20] que

[00:28:20] para a pessoa que está na universidade,

[00:28:22] que está no processo ali do mestrado,

[00:28:24] que está no processo do doutorado, que está na graduação,

[00:28:27] né, na graduação ali,

[00:28:28] não sei se dá para falar sobre

[00:28:30] num nível

[00:28:32] um pouco menor, enfim, porque

[00:28:34] parece que para mim, né, o mestrado e o doutorado

[00:28:36] é mais amaldiçoado, né,

[00:28:39] no processo

[00:28:41] de formação

[00:28:42] acadêmica, ele está ali

[00:28:44] num processo em que está

[00:28:46] esse sofrimento não visto, né, o operário,

[00:28:48] você, né,

[00:28:50] tem o sofrimento não visto também,

[00:28:52] porque o operário está ali pensando assim, porra,

[00:28:53] meu salário está uma merda, eu tenho que resolver as questões

[00:28:55] aqui da minha casa, eu tenho que resolver isso,

[00:28:58] e ao mesmo tempo você tem

[00:28:59] um processo de sofrimento visto mais diretamente

[00:29:01] que você vê o cara lá levantando não sei quantos

[00:29:03] quilos de aço, levando

[00:29:05] para uma determinada esteira, você olha

[00:29:07] para a cara do maluco e fala assim, porra, esse maluco vai cair duro aí

[00:29:09] daqui a pouco, hein, e esse sofrimento

[00:29:11] não visto na universidade, eu acho que deve ter

[00:29:13] um nível de desespero, né,

[00:29:16] muito grande, porque

[00:29:17] é, é, e de

[00:29:19] tortura, né,

[00:29:20] e de tortura contínua, e aí a gente entra num processo

[00:29:22] quando a gente discute, por exemplo, o assédio

[00:29:24] moral, né,

[00:29:26] eu estava lembrando esse,

[00:29:29] deu uma aula agora na Universidade

[00:29:30] Federal Fluminense, né, sobre

[00:29:32] o processo de trabalho do assistente social,

[00:29:35] essa semana, aliás, né,

[00:29:36] acho que foi na segunda-feira, dia 25,

[00:29:39] ou foi na terça, acho que foi na terça,

[00:29:40] e aí

[00:29:42] eu estava lembrando de um

[00:29:45] texto, né, Marildo Yamamoto,

[00:29:46] uma autora muito conhecida do serviço social,

[00:29:48] que ela vai falar sobre

[00:29:50] sobre a tortura que ela sofreu na ditadura militar,

[00:29:53] né, e até

[00:29:54] 2013, 2014, ela nunca tinha falado sobre isso,

[00:29:57] ela nunca tinha falado, nunca tinha falado

[00:29:58] nenhuma vez sobre isso, e ela conversando

[00:30:01] com um amigo psicanalista, né, falando sobre isso

[00:30:03] e tudo mais, falou assim, não, mas eu nunca toquei

[00:30:04] nesse assunto da tortura, etc, e ele falou uma coisa

[00:30:06] que eu achei interessantíssima, que foi o que fez

[00:30:09] ela, ela

[00:30:10] decidir por falar, que era

[00:30:12] que era o seguinte, né, mas é pra isso que serve

[00:30:15] a tortura, é pra você não falar,

[00:30:16] não é pra você falar,

[00:30:18] é pra você ficar na sua, é pra isso que ela

[00:30:21] existe, e aí ela falou assim, não,

[00:30:23] bom, se não é pra não falar, então eu vou falar, né,

[00:30:25] e aí ela escreve sobre isso,

[00:30:27] então tem muito dessa coisa do assédio moral

[00:30:29] e dessa pressão contínua na cabeça

[00:30:30] do trabalhador, né, acadêmico,

[00:30:33] do trabalhador, enfim,

[00:30:35] da área de tecnologia,

[00:30:36] das demais áreas profissionais

[00:30:39] aí que também estão nessa,

[00:30:40] não tem esse limite do espaço de trabalho,

[00:30:43] né, delimitado, tipo, é aquela casa

[00:30:45] ali que eu trabalho, quando eu saio dali eu não consigo

[00:30:46] fazer mais nada,

[00:30:48] ele tem esse processo de tortura

[00:30:51] contínua, e por ter esse processo de

[00:30:53] tortura contínua, por muitas

[00:30:54] vezes ele não fala,

[00:30:57] ele não fala, porque vem toda uma

[00:30:58] pressão moral do trabalho, que é do tipo

[00:31:00] assim, você tem que agradecer pelo trabalho que você tem,

[00:31:03] tem muita gente desempregada, e aí vem o

[00:31:04] neoliberalismo, né, tem muita gente desempregada, tem duzentos

[00:31:06] aí na porta querendo entrar, né,

[00:31:09] você tem que agradecer a Deus que você tem esse negócio

[00:31:10] aí, sabe, então vem todo esse

[00:31:12] processo na cabeça

[00:31:14] gerando um sofrimento tão contínuo

[00:31:16] na vida dele, né, tão

[00:31:18] contínuo na cabeça dele,

[00:31:20] né, que isso pode

[00:31:22] explodir das mais variadas formas,

[00:31:24] não à toa, né, nós temos aqui no nosso

[00:31:26] país, uma das maiores taxas

[00:31:28] de ansiedade do mundo,

[00:31:30] né, de transtorno de ansiedade,

[00:31:33] de uso de

[00:31:34] medicações como o Rivotril, por exemplo,

[00:31:36] um dos maiores consumidores de Rivotril no mundo

[00:31:38] é o Brasil, ah, mas o Brasil é um país

[00:31:40] alegre, aí tem isso também, né, pra ter a opressão do

[00:31:42] país alegre, o país é todo alegre,

[00:31:44] carnaval é massa e eu tô triste, será que eu tô errado?

[00:31:46] Sabe?

[00:31:48] Tá toda hora na mídia falando que, porra, tem que ser

[00:31:51] feliz, tem que gozar, é gostoso

[00:31:53] demais, nossa, porra, é foda,

[00:31:55] é um país de todo, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá,

[00:31:57] mas eu tô triste, será que eu tô errado?

[00:32:00] Né, e aí, isso soma

[00:32:01] mais ali uma, mais uma, mais um tijolo

[00:32:03] no muro da desgraça, né, do sofrimento

[00:32:05] psíquico.

[00:32:07] A Maria Rita Kelton tem uma frase muito boa,

[00:32:09] né, que é, ela fala o seguinte,

[00:32:11] é somente numa sociedade

[00:32:13] em que todos são obrigados a ser

[00:32:15] feliz que a depressão se torna possível,

[00:32:18] porque você

[00:32:18] termina moralizando a tristeza

[00:32:20] como algo

[00:32:21] é, intrinsecamente negativo

[00:32:24] e, e, isso é um problema,

[00:32:26] é claro que o sofrimento, que a tristeza

[00:32:29] e a dor é algo negativo,

[00:32:31] é um afeto negativo,

[00:32:32] mas isso não significa que isso não faça parte

[00:32:35] da existência humana

[00:32:37] e que isso não tenha uma dimensão

[00:32:39] de crítica

[00:32:41] pra, da própria vida, de autocrítica,

[00:32:43] mas também de crítica

[00:32:44] dos vínculos sociais, crítica do mundo

[00:32:47] que nos cerca,

[00:32:48] um afeto potencialmente crítico,

[00:32:52] dizendo que ele não,

[00:32:54] não deve ser ouvido,

[00:32:56] portanto, seja feliz, o tempo inteiro.

[00:32:59] Então, silencia

[00:33:00] o seu sofrimento com o Rivotril, com o Prozac

[00:33:02] e assim por diante, então você termina

[00:33:04] Vendo a timeline do Instagram dos outros

[00:33:06] Exatamente, aí você entra

[00:33:08] nessa espiral que é interessante

[00:33:10] que Lacan, ele vai dizer que Marx

[00:33:12] foi o primeiro cara que inventou o sintoma

[00:33:14] Marx foi o inventor do sintoma

[00:33:16] Ele vai dizer, ó, não foi Hipócrita,

[00:33:18] não foi

[00:33:19] os médicos, não foram os anatomistas

[00:33:23] foi Marx que inventou o sintoma

[00:33:24] porque Marx percebeu que

[00:33:26] na produção humana, na forma

[00:33:28] do ser humano fazer a sua vida, a sua existência

[00:33:31] escapa algo

[00:33:32] que retorna

[00:33:34] sobre a forma de um sintoma que Marx

[00:33:36] chamou lá de, da alienação

[00:33:39] também do fetichismo, né

[00:33:40] esses, esses

[00:33:41] conceitos que Marx trabalhou tão bem, né

[00:33:44] e Lacan vai dizer, ó

[00:33:46] o Lacan, ele começa

[00:33:48] a perceber a mudança do neoliberalismo

[00:33:50] ele vai dizer, ó, isso

[00:33:51] que tá sobrando, a gente pode chamar também de

[00:33:53] mais gozar, ou seja

[00:33:55] de uma linguagem que sai da porta da fábrica

[00:33:58] e ele não leva tanto

[00:34:00] trabalho pra casa, mas o que é que o neoliberalismo

[00:34:02] faz nesses casos? Tem, por exemplo,

[00:34:04] demissões em massas, tem nenhuma

[00:34:06] causa, então, por exemplo

[00:34:08] de tanto em tanto tempo a empresa vai

[00:34:10] reduzir o quadro de funcionário aleatoriamente

[00:34:12] isso gera um

[00:34:14] medo e uma ansiedade, uma concorrência

[00:34:16] interna na qual os trabalhadores

[00:34:18] ao invés de se unir

[00:34:20] pra pautar politicamente, eles

[00:34:22] nem se unem, porque há um exército de

[00:34:24] reserva gigantesco

[00:34:25] e por outro lado, eles também estão

[00:34:27] competindo entre si pra não serem demitidos

[00:34:30] é uma engenharia

[00:34:34] ardilosa ao extremo

[00:34:36] do mesmo jeito, isso vai

[00:34:38] sendo transpassado

[00:34:40] pra, quem

[00:34:41] fala muito disso é o Ricardo Antunes

[00:34:44] falando da transição do

[00:34:46] Fordismo pro Toyotismo, né

[00:34:48] com aquele jeitinho fofo que ele fala

[00:34:50] né

[00:34:50] ele é bem fofinho falando, eu acho

[00:34:55] mas enfim, na universidade

[00:34:58] eu queria ter os

[00:35:00] áudios até hoje, do Ricardo Antunes

[00:35:02] mandando o áudio pra mim, a passão que a gente fez

[00:35:04] Zabiniano, aqui é o Ricardo

[00:35:06] muito bom

[00:35:07] Ricardo é fofo demais, tá maluco

[00:35:09] é muito fofo, e a universidade adere

[00:35:12] isso, de certa forma

[00:35:13] e eu acho que o coração disso

[00:35:16] é o sistema de avaliação

[00:35:18] o que é que acontece, né

[00:35:19] tanto universidades

[00:35:22] enfim, a partir

[00:35:24] de um certo momento, as universidades privadas

[00:35:26] passam a receber dinheiro público

[00:35:28] passam a receber

[00:35:29] massivamente dinheiro público

[00:35:32] mas as universidades públicas

[00:35:34] elas entram numa lógica

[00:35:35] de gestão neoliberal

[00:35:37] e aí entra um ponto que é

[00:35:39] isso, rapidamente

[00:35:42] isso que você falou, né, é só lembrar aí

[00:35:44] pra quem tá ouvindo a gente, porra, 5S

[00:35:46] sabe

[00:35:48] esses mecanismos de gestão do trabalho

[00:35:50] e aí entra aquela, né

[00:35:54] se o professor, ele não

[00:35:56] produz o que ele deve

[00:35:59] produzir, ele ganha

[00:36:00] um salário X, se ele produz

[00:36:02] um pouco mais, ele vai ter uma bonificação

[00:36:04] e assim por diante

[00:36:05] essa produção dele, por outro lado, não tem só

[00:36:08] um cunho individual

[00:36:09] tem também um cunho de

[00:36:12] a produção dele impacta na

[00:36:14] produção do departamento e impacta

[00:36:16] no quanto diverbe esse departamento

[00:36:18] vai receber

[00:36:19] assim como a produção dos

[00:36:22] orientandos, doutorandos, mestrandos

[00:36:24] e graduandos de iniciação científica

[00:36:26] etc, também a produção

[00:36:28] deles impacta no quanto

[00:36:30] de repasso de verba

[00:36:32] o departamento vai receber

[00:36:34] e a produção do conjunto

[00:36:36] dos departamentos vai impactar

[00:36:38] na quantidade de verba que a

[00:36:40] universidade vai receber

[00:36:41] ou seja, isso cria uma lógica

[00:36:44] de uma concorrência

[00:36:45] desenfreada e de autoconfiança

[00:36:48] e de cobrança do seu coleguinha

[00:36:50] do seu companheiro, do seu camarada

[00:36:52] interna, que é brutal

[00:36:54] que é brutal, ou seja

[00:36:56] o departamento não vai querer

[00:36:58] perder dinheiro, portanto vai haver uma cobrança

[00:37:00] interna, os professores vão cobrar

[00:37:02] se cobrar entre si, vão cobrar os alunos

[00:37:04] abandonando

[00:37:06] algo que é muito importante, que é

[00:37:08] o neoliberalismo, ele

[00:37:10] destrói todo tipo

[00:37:12] de vínculo moral e ético

[00:37:14] onde ele se estabelece

[00:37:16] é interessante que o Gary Becker

[00:37:18] é um exemplo muito bom disso que eu chamo

[00:37:20] de abandono moral e ético

[00:37:21] o Gary Becker disse, eu estava atrasado para uma palestra um dia

[00:37:24] e

[00:37:26] poxa, quando eu passei na frente do local

[00:37:28] que eu estava fazendo palestra, eu estava chegando já

[00:37:30] em cima da hora

[00:37:31] e tinha uma vaga de estacionamento que era um local

[00:37:34] proibido para estacionamento de ambulância

[00:37:36] perto do hidrômetro, algo assim

[00:37:38] ele disse, eu tinha duas opções

[00:37:41] me atrasar e procurar

[00:37:42] uma vaga legal

[00:37:44] ou estacionar

[00:37:46] numa vaga proibida

[00:37:48] e arcar com a multa

[00:37:50] que eu poderia levar ou não, a depender

[00:37:52] se tem um guarda passando, etc

[00:37:53] mas chegar na hora

[00:37:56] eu optei por estacionar

[00:37:58] na vaga proibida, cheguei

[00:38:00] na hora e não levei uma multa

[00:38:01] ele fez, isso aqui explica

[00:38:04] bem a racionalidade

[00:38:06] neoliberal, e tu falou exatamente

[00:38:08] isso, Zé Mileto, a racionalidade

[00:38:10] neoliberal, ou seja, o neoliberalismo é lógico

[00:38:12] que o capitalismo é um sistema

[00:38:14] produtivo, como o Marx

[00:38:16] nos coloca, mas também é um

[00:38:18] sistema de produção de subjetividade

[00:38:20] ou seja, o que é que o Becker

[00:38:22] está dizendo? A ação humana

[00:38:24] é permeada por um cálculo de custo-benefício

[00:38:26] não importa

[00:38:27] a moralidade não está

[00:38:30] nesse cálculo, então se

[00:38:32] ele levar uma multa ou não, ele

[00:38:33] vamos dizer assim, correu o risco

[00:38:36] faz parte do cálculo

[00:38:38] de custo e benefício, ele achou que

[00:38:40] bem, poderia ser

[00:38:41] isso serve pra você

[00:38:43] na universidade

[00:38:45] participar ou não de um coletivo político

[00:38:48] participar ou não de uma luta

[00:38:49] coletiva, participar

[00:38:52] ajudar ou não o seu

[00:38:54] colega de curso com um texto

[00:38:56] porque eu já vi gente que se negava

[00:38:58] da informação, etc, porque

[00:39:00] claro, você quer guardar aquela fonte

[00:39:02] você quer guardar aquele

[00:39:03] aquela informação que você tem pra sua

[00:39:06] pesquisa e não compartilhar

[00:39:08] e etc, né

[00:39:10] cria-se um sistema de produção

[00:39:11] que o ético ficou de lado

[00:39:14] o moral ficou de lado

[00:39:16] e o que é que sobra da educação?

[00:39:18] nesse processo da pesquisa

[00:39:19] uma incessante bola de neve

[00:39:22] produtiva de artigo mais artigo

[00:39:24] mais artigo que você tem que produzir

[00:39:25] o professor tem que produzir 2, 3, o aluno

[00:39:27] 2, 3 por ano e etc

[00:39:29] mas ao mesmo tempo, e eu coloco isso no livro

[00:39:32] paradoxalmente não surgiu nenhum

[00:39:34] Marx, não surgiu nenhum

[00:39:36] Nietzsche, não surgiu nenhum

[00:39:37] Wittgenstein

[00:39:39] pra dar exemplo de 3 intelectuais

[00:39:42] independente da gente gostar ou não

[00:39:43] mas de 3 intelectuais

[00:39:46] que se hoje

[00:39:48] tivessem um lado, seriam um fracasso

[00:39:50] Marx, Wittgenstein

[00:39:52] Nietzsche, por exemplo

[00:39:53] seriam intelectuais que seriam

[00:39:56] fracassados no mundo acadêmico

[00:39:58] Marx não entregava nada no prazo

[00:40:00] não entregava

[00:40:02] nada no prazo

[00:40:03] Nietzsche escrevia em aforismas

[00:40:06] Wittgenstein escreveu

[00:40:08] 2, 3 livros e parou

[00:40:10] foi fazer jardinagem

[00:40:11] então

[00:40:13] bem, seria um fracasso

[00:40:15] no entanto, você tem intelectuais

[00:40:18] que mudaram a história

[00:40:19] do pensamento

[00:40:20] ou impactaram de alguma forma

[00:40:23] a produção intelectual

[00:40:25] o debate público, como esses autores

[00:40:27] impactaram pro bem ou pro mal

[00:40:28] graças a esse sistema

[00:40:31] ultraprodutivista

[00:40:33] não, mas o que a gente tem em resposta a isso

[00:40:35] é

[00:40:36] professores, técnicos, alunos

[00:40:39] e terceirizados vivendo um ambiente

[00:40:41] de ameaça constante

[00:40:43] de disputa constante

[00:40:46] e de adoecimento

[00:40:47] como parte fundamental

[00:40:49] então você tem, e eu coloco inclusive

[00:40:51] a citação de uma professora

[00:40:53] em uma pesquisa

[00:40:55] que ela diz, a graduação ficou

[00:40:57] abandonada porque ela não dá nada

[00:40:59] pro professor

[00:41:00] a extensão ficou abandonada porque ela não dá nada

[00:41:03] pro professor e pro departamento, não dá grana

[00:41:05] a pós-graduação

[00:41:07] por outro lado, o professor se joga em cima

[00:41:09] numa sanha de cobrar o máximo

[00:41:11] o pós-graduando se cobra

[00:41:13] porque como mestrando ou doutorando

[00:41:15] ele quer entrar na carreira universitária

[00:41:17] ele quer entrar na carreira acadêmica

[00:41:19] então ele vai assumir aquela cobrança quanto dele

[00:41:21] criando um círculo vicioso

[00:41:23] onde, bem

[00:41:25] no Brasil a gente é um dos países

[00:41:28] que tem o maior número de ansiosos no mundo

[00:41:29] mas a média do Brasil é muito

[00:41:31] abaixo da média da universidade

[00:41:33] por exemplo

[00:41:35] então você tem, por exemplo, na graduação

[00:41:38] o índice

[00:41:40] de depressão acima dos

[00:41:41] 9%, que é

[00:41:44] muito alto

[00:41:44] o índice de ansiedade acima

[00:41:46] dos 19%

[00:41:47] é um índice muito alto

[00:41:49] depressão patológica

[00:41:51] não sintomas espaços

[00:41:53] ansiedade patológica

[00:41:55] e o índice de mal estar

[00:41:56] chegando a 87%

[00:41:59] ou seja, são números

[00:42:02] assustadores

[00:42:03] e isso óbvio

[00:42:04] a Andifes que fez

[00:42:07] esses relatórios

[00:42:09] a Andifes diz assim

[00:42:10] a universidade precisa urgentemente

[00:42:13] fazer alguma coisa

[00:42:14] ela alerta pra isso

[00:42:16] mas ao mesmo tempo a universidade

[00:42:19] tá passando por um desmonte

[00:42:21] tão grande que você pra isso

[00:42:22] precisaria de um investimento no serviço

[00:42:25] social da universidade

[00:42:26] num conjunto de formação

[00:42:28] de clínicas, escolas

[00:42:30] de bolsas

[00:42:33] de assistência

[00:42:33] porque só pra passar a fala

[00:42:36] alguns dos pontos que mais impactam

[00:42:38] o adoecimento mental na universidade

[00:42:40] segundo os estudantes são o excesso

[00:42:42] de provas e trabalhos

[00:42:44] com a incapacidade

[00:42:46] que eles sentem de que são capazes

[00:42:48] de dar conta desse excesso

[00:42:51] em paralelo com isso

[00:42:53] eles se sentem incapazes

[00:42:54] de dar conta do mundo do trabalho

[00:42:56] porque muitos estudantes trabalham e estudam

[00:42:58] até por conta

[00:43:00] das políticas de cotas

[00:43:02] entrou um perfil de estudante

[00:43:04] mais pobre

[00:43:05] democratizando mais a universidade

[00:43:08] e isso é maravilhoso, ótimo

[00:43:09] só que esses estudantes que entraram

[00:43:12] entraram num período que teve poucas

[00:43:14] bolsas e que foi diminuindo

[00:43:16] ou seja, eles entram sem condições

[00:43:18] de permanência e aí eles se sentem

[00:43:21] culpados e o Zé Miliano

[00:43:23] falou da culpa

[00:43:24] que é um afeto central no neoliberalismo

[00:43:26] é a culpa por você não dar conta

[00:43:29] de fazer algo que na verdade é inumano

[00:43:31] é impossível dar conta

[00:43:33] por isso que geralmente alguém vem no meu

[00:43:35] Instagram e fala assim, como é que eu faço pra dar conta de estudo

[00:43:37] militância, trabalho e relacionamento

[00:43:38] amigo, não dá conta

[00:43:40] a real é essa, você não vai dar conta

[00:43:42] você vai empurrar algumas coisas pra barriga

[00:43:44] vai fazer outras, enfim

[00:43:45] né

[00:43:45] e aí você vai fazer o que você quer fazer

[00:43:46] agora se você achar que vai dar conta

[00:43:48] porque é o que o neoliberalismo faz

[00:43:50] ele vende a ideia de que sim, é possível

[00:43:53] você vai dar conta

[00:43:54] exatamente

[00:43:56] pode falar Gustavo

[00:43:58] não, é isso, você entra numa cena

[00:44:01] produtivista

[00:44:01] o quanto essa cena produtivista

[00:44:04] tá ligado mesmo à forma de mania

[00:44:07] que a gente vive na nossa sociedade

[00:44:08] o quanto

[00:44:10] acho que uma coisa paradoxal

[00:44:13] o que o Heribaldo falou

[00:44:14] que o neoliberalismo ao mesmo tempo

[00:44:16] ele, eu acho que ele elimina

[00:44:19] um tipo de

[00:44:20] um tipo de possibilidade de pensamento ético

[00:44:23] né, que é o exemplo do Gary Becker

[00:44:25] por exemplo, vou pegar um exemplo ainda melhor

[00:44:27] na Irlanda

[00:44:29] o dono de uma companhia aérea

[00:44:31] comprou uma companhia de táxi

[00:44:33] inteira

[00:44:34] e aí ele deixou a companhia de táxi

[00:44:37] com um táxi só, não me lembro agora o nome

[00:44:39] mas procurar isso tem aí na internet

[00:44:41] e ele comprou essa companhia de táxi

[00:44:43] pra deixar com um carro só pra que ele pudesse

[00:44:45] usar o táxi na faixa de ônibus

[00:44:47] então o quanto

[00:44:50] é bizarro

[00:44:52] é muito maluco

[00:44:54] mas o quanto existe

[00:44:56] uma perversão da moralidade

[00:44:58] pública, por assim dizer

[00:45:00] de uma moralidade ligada à comunidade

[00:45:02] que acontece uma coisa reversa

[00:45:04] que é

[00:45:06] classificar o sujeito

[00:45:09] e a sua

[00:45:10] o seu valor de vida

[00:45:12] a partir da produção

[00:45:13] por uma via moral

[00:45:15] de você não estar fazendo o suficiente

[00:45:18] deveria estar fazendo isso

[00:45:19] você é o próprio culpado

[00:45:21] então como dizem os sábios

[00:45:24] uma faca de dois legumes

[00:45:25] que trabalha nessa perspectiva

[00:45:28] de que

[00:45:29] a gente vive essa contraposição

[00:45:33] entre uma sociedade

[00:45:33] de um tipo de mania específico

[00:45:36] e aí o que a gente vê

[00:45:38] é justamente o aumento

[00:45:40] da ansiedade

[00:45:41] o que é ansiedade, angústia

[00:45:44] é o que a gente vê

[00:45:45] é o aperto em relação ao futuro

[00:45:48] é aquilo que você não sabe

[00:45:51] o que vai acontecer

[00:45:51] inclusive a boa e velha ansiedade

[00:45:55] é um estado de preparação contínua

[00:45:57] exatamente

[00:45:58] de perigo

[00:46:00] inclusive eu falo isso

[00:46:01] o processo ansioso

[00:46:05] a ansiedade

[00:46:06] e como ela rebate no físico

[00:46:08] das mais variadas formas

[00:46:10] então tem gente que por exemplo

[00:46:11] está ouvindo a gente aqui agora

[00:46:13] e por a gente estar discutindo isso

[00:46:15] a gente está discutindo isso

[00:46:15] e aí tem a angústia também

[00:46:18] no meio desse caminho

[00:46:18] ela está por exemplo sentindo

[00:46:20] a musculatura das costas pressionada

[00:46:22] então presta atenção

[00:46:24] você que está ouvindo agora

[00:46:25] você está sentindo a musculatura

[00:46:26] das suas costas pressionada

[00:46:27] tensionada

[00:46:28] do ombro

[00:46:30] ou alguma coisa do gênero

[00:46:31] por quê?

[00:46:31] porque quando a gente está discutindo

[00:46:32] essas coisas

[00:46:33] isso vai te gerar

[00:46:34] uma angústia

[00:46:35] vai gerar um processo ansioso

[00:46:36] e seu corpo entende

[00:46:38] que é para você fugir daqui

[00:46:39] que sonho

[00:46:42] que é um estado de perigo

[00:46:43] então quantas vezes

[00:46:44] a gente já não participou

[00:46:45] de uma reunião

[00:46:46] de uma reunião

[00:46:48] seja ela qual fosse

[00:46:49] de trabalho etc

[00:46:50] que você estava com a vontade desgraçada

[00:46:54] de sair correndo

[00:46:54] desesperadamente do lugar

[00:46:56] só correr

[00:46:57] e você não consegue entender muito bem

[00:46:59] a vontade de sair correndo

[00:47:01] e você não pode

[00:47:01] aí tem esse peso e contrapeso

[00:47:03] está ali seu corpo falando assim

[00:47:05] corra

[00:47:05] fuja

[00:47:07] saia daqui

[00:47:08] vá para o mais longe que você puder

[00:47:10] ele está te dando vários sinais possíveis

[00:47:11] em relação a isso

[00:47:12] ao mesmo tempo o superego falando assim

[00:47:14] você não pode sair correndo

[00:47:15] você está trabalhando

[00:47:18] você tem que ficar

[00:47:19] tem um horário para cumprir

[00:47:20] e isso a gente está falando

[00:47:23] do espaço físico

[00:47:24] isso que eu acho foda

[00:47:25] a gente está falando do espaço físico

[00:47:27] então veja

[00:47:27] quando eu falo

[00:47:28] você está em uma reunião

[00:47:28] você tem um espaço na reunião

[00:47:29] você pode realmente sair correndo na reunião

[00:47:30] e quando você não tem um espaço físico

[00:47:32] você pode correr da sua mente

[00:47:34] saca

[00:47:35] quando a gente está falando

[00:47:36] por exemplo

[00:47:36] que a patada está na sua cabeça

[00:47:37] e você tem esse tensionamento todo

[00:47:40] você sai correndo de você mesmo

[00:47:41] não tem como

[00:47:41] não tem como

[00:47:44] né

[00:47:45] se você sair correndo

[00:47:46] do processo que você tem que fazer

[00:47:47] escrever um artigo

[00:47:48] saindo

[00:47:49] né

[00:47:49] equalizar mais

[00:47:50] né

[00:47:51] enfim etc e tudo mais

[00:47:52] se você sair correndo

[00:47:53] o artigo

[00:47:54] ele vai junto com você

[00:47:56] ele vai junto com você

[00:47:57] e não adianta você parar em qualquer lugar

[00:47:59] que você pare

[00:47:59] o artigo vai estar lá

[00:48:00] junto com você

[00:48:01] sabe

[00:48:02] cria aquela coisa

[00:48:03] que é a procrastinação

[00:48:04] né

[00:48:04] que é a culpa

[00:48:06] você dá um nome

[00:48:07] para vivenciar uma culpa

[00:48:09] que é a procrastinação

[00:48:11] então você

[00:48:12] está procrastinando

[00:48:13] porque você parou

[00:48:14] para assistir

[00:48:15] um filme

[00:48:15] você parou

[00:48:16] para tomar uma

[00:48:17] com os amigos

[00:48:18] você parou

[00:48:18] para assistir

[00:48:19] uma série

[00:48:20] e aí geralmente

[00:48:22] a pessoa pega e diz

[00:48:23] não, eu estou procrastinando

[00:48:24] etc

[00:48:24] a pessoa dá um nome

[00:48:25] para tentar vivenciar

[00:48:27] aquela culpa

[00:48:27] de maneira menos culpada

[00:48:29] mas na verdade

[00:48:30] a procrastinação

[00:48:31] é um pouco isso

[00:48:32] é só a tentativa

[00:48:34] de você

[00:48:34] enganar

[00:48:35] uma culpa

[00:48:36] que é exatamente isso

[00:48:37] como essa cobrança

[00:48:39] não pode sair

[00:48:39] da sua cabeça

[00:48:40] você cria um nome

[00:48:42] para fingir

[00:48:43] que ela não está ali

[00:48:44] momentaneamente

[00:48:45] mas na verdade

[00:48:45] ela está lá

[00:48:46] você se culpa depois

[00:48:48] e aí o grande ardil

[00:48:49] do neoliberalismo é

[00:48:51] se amanhã

[00:48:52] você não passou

[00:48:54] numa seleção

[00:48:55] numa chamada de emprego

[00:48:57] num concurso

[00:48:59] por um décimo

[00:49:00] esse momento

[00:49:01] que você procrastinou

[00:49:03] ele será o responsável

[00:49:05] por culpar você

[00:49:06] pelo seu fracasso

[00:49:07] porque você não fez

[00:49:08] o suficiente

[00:49:09] é interessante ter um filme

[00:49:10] que é o Cosmópolis

[00:49:11] que é aquele

[00:49:13] bicho

[00:49:14] Robert Pattinson

[00:49:15] ele é um milionário

[00:49:16] do mundo das finanças

[00:49:17] e ele quer cortar o cabelo

[00:49:19] num cabeleireiro

[00:49:20] que ele cortava

[00:49:21] na infância

[00:49:22] desde sempre

[00:49:22] porque rico

[00:49:23] tem dessas coisas

[00:49:24] e aí ele vai atravessar

[00:49:26] uma Nova York

[00:49:27] sitiada por movimentos

[00:49:29] e protestos

[00:49:30] antineoliberais

[00:49:31] mais ou menos

[00:49:32] como se fosse

[00:49:32] aqueles

[00:49:33] Pai Wall Street

[00:49:34] coisas do tipo

[00:49:35] e ele está recebendo

[00:49:36] durante o percurso

[00:49:37] do engarrafamento

[00:49:38] gurus

[00:49:39] e assessores

[00:49:41] etc

[00:49:41] no carro

[00:49:42] na limousine

[00:49:42] super preparada

[00:49:43] que ele tem para isso

[00:49:44] e aí ele vai

[00:49:45] e aí ele recebe

[00:49:45] um guru

[00:49:45] porque rico

[00:49:46] adora coisa mística

[00:49:47] ele recebe um guru

[00:49:48] mística

[00:49:49] e aí ele falando

[00:49:51] porque minha vida

[00:49:51] não faz sentido

[00:49:52] minha existência

[00:49:54] não faz sentido

[00:49:54] eu comprei uma casa

[00:49:56] botei um elevador

[00:49:57] panorâmico

[00:49:58] dentro da minha casa

[00:49:59] eu comprei uma igreja

[00:50:01] que ficava

[00:50:01] no terreno da frente

[00:50:02] então aí já

[00:50:03] velha

[00:50:04] abandonada

[00:50:04] comprei

[00:50:05] e tudo isso

[00:50:05] para quê?

[00:50:07] gastei

[00:50:07] 180 milhões

[00:50:09] de dólares

[00:50:10] para quê?

[00:50:10] aí a guru

[00:50:11] pega e diz

[00:50:12] você gastou

[00:50:13] 180 milhões de dólares

[00:50:14] para dizer

[00:50:15] que gastou

[00:50:15] 180 milhões de dólares

[00:50:16] e depois gastar mais

[00:50:17] ou seja

[00:50:18] o neoliberalismo

[00:50:19] ele não tem um ponto final

[00:50:21] ele cria uma desmesura

[00:50:23] então se você entregou

[00:50:24] um artigo

[00:50:25] você não se sente

[00:50:26] recompensado

[00:50:27] pelo artigo

[00:50:28] que você entregou

[00:50:29] mas você se sente

[00:50:30] na obrigação

[00:50:31] de continuar

[00:50:32] produzindo

[00:50:33] porque

[00:50:33] esse artigo

[00:50:34] não é suficiente

[00:50:35] ele rapidamente

[00:50:36] vai se tornar

[00:50:37] obsoleto

[00:50:38] o tiro

[00:50:39] de gratificação

[00:50:40] no neoliberalismo

[00:50:41] é muito curto

[00:50:41] você

[00:50:42] vivencia

[00:50:44] muito rapidamente

[00:50:45] aquele

[00:50:45] prazer

[00:50:46] da gratificação

[00:50:47] e rapidamente

[00:50:48] você já volta

[00:50:49] para uma posição

[00:50:50] de

[00:50:50] isso não é suficiente

[00:50:51] se você parar aqui

[00:50:52] você vai ficar

[00:50:53] para trás

[00:50:53] porque realmente

[00:50:54] as outras pessoas

[00:50:55] estão andando

[00:50:56] por assim dizer

[00:50:57] o mundo não parou

[00:50:58] quando você parou

[00:50:59] e se você parar ali

[00:51:01] outros currículos

[00:51:02] vão se tornar melhor

[00:51:03] do que você

[00:51:03] outras

[00:51:04] seletivas de emprego

[00:51:05] vão exigir mais coisas

[00:51:07] que você não tem agora

[00:51:08] e aí você fica

[00:51:09] para trás

[00:51:10] não é à toa

[00:51:11] que a depressão

[00:51:12] sendo

[00:51:12] uma das epidemias

[00:51:14] mais frequentes

[00:51:15] na nossa sociedade

[00:51:16] ela se dá

[00:51:17] justamente

[00:51:18] a partir do elemento

[00:51:20] de

[00:51:20] ausência de desejo

[00:51:22] é o sujeito

[00:51:24] que para de desejar

[00:51:25] não é aquele

[00:51:27] que fica triste

[00:51:28] porque a galera tem

[00:51:29] um pouco dessa percepção

[00:51:30] talvez o senso comum

[00:51:31] de que a depressão

[00:51:32] é você ficar tristinho

[00:51:33] cabisbaixo

[00:51:34] ali e tal

[00:51:35] assistir um jogo do esporte

[00:51:37] ou do São Paulo

[00:51:37] que é motivo de tristeza

[00:51:39] e desalegria

[00:51:41] mas

[00:51:42] a depressão

[00:51:43] ela se consiste

[00:51:44] justamente

[00:51:44] nessa

[00:51:45] nessa interrupção

[00:51:47] do desejo

[00:51:49] nessa ideia

[00:51:50] de que eu me coloco

[00:51:51] em um lugar de apatia

[00:51:52] e ela é

[00:51:54] e não é à toa

[00:51:55] esse lugar da apatia

[00:51:57] é a contraposição

[00:51:58] da sociedade maníaca

[00:51:59] que a gente vive

[00:52:00] nessa sociedade

[00:52:01] do que o Eribaldo falou

[00:52:02] do mais gozar

[00:52:04] da gente se ver

[00:52:05] enquanto uma mercadoria

[00:52:06] a ser valorizada

[00:52:08] todo mundo que está

[00:52:10] ouvindo a gente

[00:52:10] ou que está

[00:52:11] acompanhando aqui

[00:52:12] com certeza já sentiu

[00:52:14] culpa

[00:52:14] por num final de semana

[00:52:16] pós trabalho

[00:52:17] não está ouvindo

[00:52:18] um revolução

[00:52:19] pra se informar

[00:52:21] tá ligado

[00:52:21] não estava

[00:52:22] vendo uma live

[00:52:24] não estava lendo um livro

[00:52:25] não estava

[00:52:25] não estava fazendo

[00:52:27] alguma coisa

[00:52:28] pra que você pudesse

[00:52:29] gerar valorização

[00:52:30] né

[00:52:32] é

[00:52:33] desse

[00:52:34] capital humano

[00:52:35] tá ligado

[00:52:37] então isso é um negócio

[00:52:38] que

[00:52:38] que aparece

[00:52:40] muito né

[00:52:41] de que

[00:52:41] o sujeito

[00:52:42] ele é transformado

[00:52:43] mesmo em uma mercadoria

[00:52:44] passível de valorização

[00:52:46] e uma coisa que é interessante

[00:52:48] é o quanto

[00:52:48] esse é o pensamento

[00:52:50] neoliberal né

[00:52:50] o quanto isso pode

[00:52:51] te render

[00:52:52] e na verdade

[00:52:55] o quanto isso representa

[00:52:56] como o Eribaldo falou né

[00:52:57] do risco

[00:52:57] o Schumpeter

[00:52:59] que é um dos economistas

[00:53:00] neoliberais

[00:53:01] ele tem um termo

[00:53:02] pra designar

[00:53:03] aquele que arrisca

[00:53:04] né

[00:53:04] aquele que

[00:53:05] é o sujeito

[00:53:06] que contra

[00:53:08] as opressões

[00:53:09] do coletivo

[00:53:10] e

[00:53:11] toda aquela

[00:53:13] ladainha

[00:53:13] ancap né

[00:53:14] e

[00:53:14] que é isso né

[00:53:15] a sociedade de Mont Pelerin

[00:53:16] foi o primeiro fórum

[00:53:17] em céu da história

[00:53:18] mas

[00:53:19] o tudo que eles vão falar ali

[00:53:21] a palavra que o Schumpeter usa

[00:53:22] é essa palavra

[00:53:23] que

[00:53:24] designa aquele sujeito

[00:53:25] que empreende né

[00:53:27] o sujeito que busca mais

[00:53:29] que tenta mais

[00:53:30] qual palavra que é essa

[00:53:32] em alemão

[00:53:33] que ele usa

[00:53:33] a palavra Führer

[00:53:36] diz a palavra Führer né

[00:53:37] que é um negócio

[00:53:38] como tá conectado

[00:53:39] com essa ideia

[00:53:41] de alguém

[00:53:41] que vai buscar

[00:53:42] o algo a mais né

[00:53:44] e

[00:53:44] é curioso

[00:53:46] o quanto

[00:53:46] a sociedade neoliberal

[00:53:48] usa um termo né

[00:53:49] que a gente vê muito aí

[00:53:51] nesses podcasts

[00:53:52] nesses canais

[00:53:53] do youtube

[00:53:54] de investimento

[00:53:55] e tal

[00:53:55] que é

[00:53:56] pra você chegar lá

[00:53:58] tá ligado

[00:54:00] existe um chegar lá

[00:54:02] né

[00:54:03] mas ninguém fala

[00:54:04] qual que é o chegar lá

[00:54:05] então você vive

[00:54:06] constantemente

[00:54:07] numa produção

[00:54:08] de chegar lá

[00:54:09] e você não sabe

[00:54:10] o que é chegar lá

[00:54:11] e aí você

[00:54:12] bom

[00:54:12] eu não cheguei lá ainda né

[00:54:14] não tem hora de parar

[00:54:16] como o Eribaldo falou

[00:54:17] você não tem a hora do ócio

[00:54:18] você não tem a hora de parar

[00:54:19] imagina o Marx escreveu

[00:54:21] o Capital já

[00:54:21] muito idoso

[00:54:23] e teve que pedir pro Engels

[00:54:25] publicar os outros volumes

[00:54:26] porque ele não

[00:54:27] não terminou

[00:54:28] tá ligado

[00:54:29] e já numa dinâmica

[00:54:30] né

[00:54:31] problemática de produção

[00:54:33] hoje em dia ainda

[00:54:35] e aí acho que

[00:54:36] só pra

[00:54:37] finalizar

[00:54:37] uma coisa interessante

[00:54:38] que acontece é

[00:54:39] o quanto

[00:54:40] as coisas

[00:54:42] perdem valor qualitativo

[00:54:43] né

[00:54:44] o quanto elas perdem valor

[00:54:45] de aprofundamento

[00:54:46] porque não dá tempo

[00:54:47] de você se aprofundar

[00:54:49] porque você pensa

[00:54:50] não, eu tenho que produzir

[00:54:51] vários artigos

[00:54:51] tenho que produzir muita coisa

[00:54:52] tenho que fazer um monte de coisa

[00:54:53] e você corre o risco

[00:54:55] de não dar tempo

[00:54:56] de você se aprofundar

[00:54:57] no autor

[00:54:57] de você pensar

[00:54:59] mais elaboradamente

[00:55:00] de você

[00:55:01] fazer uma reflexão

[00:55:02] promover um debate

[00:55:03] né

[00:55:04] porque

[00:55:05] não dá tempo

[00:55:06] porque se você não fizer

[00:55:08] mais

[00:55:10] mais rápido

[00:55:11] você vai perder

[00:55:12] alguém vai tomar

[00:55:13] seu lugar

[00:55:13] né

[00:55:14] pô

[00:55:14] pra dividir uma experiência

[00:55:16] pessoal né

[00:55:18] essa empreitada

[00:55:19] de produção de conteúdo

[00:55:21] é um negócio

[00:55:22] muito maluco

[00:55:22] muito maluco

[00:55:24] porque o tempo inteiro

[00:55:26] a cabeça

[00:55:27] fica maquinando

[00:55:28] porque que você

[00:55:30] está jogando

[00:55:31] agora por exemplo

[00:55:32] e não está fazendo isso

[00:55:33] transmitindo numa live

[00:55:34] porque que você está

[00:55:36] agora assistindo um filme

[00:55:38] e não gravando

[00:55:39] um rios

[00:55:39] fazendo uma dancinha

[00:55:40] da britney spears

[00:55:41] tá ligado

[00:55:43] é um

[00:55:44] é um processo

[00:55:45] constante de culpabilização

[00:55:46] né

[00:55:47] e que vai levando a gente

[00:55:49] pra essa

[00:55:49] pra esse lugar

[00:55:50] né

[00:55:51] de uma ilusão

[00:55:52] de que bom

[00:55:52] se eu não fizer

[00:55:53] alguém vai fazer

[00:55:54] e numa economia

[00:55:56] de escassez

[00:55:57] né

[00:55:57] que é o que a gente

[00:55:58] pretensamente vive hoje

[00:56:00] é a mesma lógica

[00:56:01] do motorista

[00:56:01] tuberizado

[00:56:02] se eu não trabalhar

[00:56:03] 16 horas por dia

[00:56:05] 14 horas por dia

[00:56:06] alguém vai trabalhar

[00:56:07] e eu vou perder

[00:56:08] então o que que acontece

[00:56:10] é isso

[00:56:11] se torna

[00:56:11] uma grande selva

[00:56:14] né

[00:56:14] de sujeitos

[00:56:15] contra sujeitos

[00:56:16] e enfim

[00:56:18] free britney

[00:56:18] e é isso aí

[00:56:19] só pra fazer um adendo

[00:56:20] antes de passar

[00:56:21] pra Zé Miliano

[00:56:22] rapidinho

[00:56:23] é interessante

[00:56:23] que os neoliberais

[00:56:25] eu acho que foi o Hayek

[00:56:26] ele disse o seguinte

[00:56:27] não é que Darwin

[00:56:28] criou

[00:56:29] a seleção natural

[00:56:30] Darwin

[00:56:31] ele percebeu

[00:56:32] que o mundo social

[00:56:34] funciona como

[00:56:35] a seleção natural

[00:56:36] e ele transfere isso

[00:56:38] pra o mundo biológico

[00:56:40] ou seja

[00:56:40] o que os neoliberais

[00:56:41] estão assumindo pra eles

[00:56:42] é uma verdadeira

[00:56:43] seleção natural

[00:56:43] não é à toa

[00:56:45] que as duas

[00:56:46] dois pontos

[00:56:47] eixos

[00:56:48] da sociedade

[00:56:49] Montpelé-Ran

[00:56:50] e do colóquio

[00:56:52] Walter Lippmann

[00:56:53] que foi os dois

[00:56:53] foram em seu

[00:56:54] dois primeiros

[00:56:55] da humanidade

[00:56:56] eles tinham como eixo

[00:56:57] dois eixos de trabalho

[00:56:58] a psicologia

[00:57:00] e a pedagogia

[00:57:01] muito bom

[00:57:01] é muito bom

[00:57:02] e muito ruim né

[00:57:03] na verdade

[00:57:04] não é à toa

[00:57:06] que a frase

[00:57:06] da Tati

[00:57:07] é precisamos

[00:57:08] conquistar

[00:57:08] corações e mentes

[00:57:10] é isso aí

[00:57:11] mano se você pega

[00:57:12] pra olhar

[00:57:12] qualquer lógica

[00:57:13] neoliberal

[00:57:13] nenhuma dela

[00:57:14] tá baseada em cálculo

[00:57:15] não tem matemática né

[00:57:17] apesar de muitos

[00:57:18] economistas neoliberais

[00:57:19] dizer né

[00:57:20] que economia

[00:57:21] não é ideologia né

[00:57:22] é uma ciência técnica

[00:57:23] nossa eu tenho até

[00:57:24] um trelelê

[00:57:25] quando eu ouço

[00:57:26] alguém falar isso

[00:57:26] mas você vai ver

[00:57:28] os caras

[00:57:29] e é tudo

[00:57:30] juiz de valor

[00:57:31] é tudo lição de moral

[00:57:32] é pure ideology né

[00:57:34] é pura ideologia

[00:57:35] porque é isso

[00:57:36] você precisa

[00:57:36] suplantar

[00:57:38] moralmente né

[00:57:39] aquela ideia

[00:57:40] de você

[00:57:41] conquistar a mente

[00:57:42] do sujeito

[00:57:43] conquistar

[00:57:43] a mente

[00:57:43] é o coração dele né

[00:57:45] e aí

[00:57:46] os neoliberais

[00:57:47] contra

[00:57:48] e aí eles se

[00:57:48] revecem

[00:57:49] do argumento

[00:57:50] racional

[00:57:51] pretensamente

[00:57:52] racional né

[00:57:52] mais emoção

[00:57:54] opa

[00:57:55] olha o ato falho aí

[00:57:56] mais razão

[00:57:57] e menos emoção

[00:57:58] quando na verdade

[00:57:59] é o contrário né

[00:58:01] é só emoção

[00:58:02] e vai que vai

[00:58:04] cara

[00:58:04] e é isso né

[00:58:05] assim

[00:58:06] é

[00:58:06] essa

[00:58:07] é

[00:58:08] a crítica que o

[00:58:09] que o Gustavo faz né

[00:58:11] a gente tá aqui

[00:58:11] produzindo conteúdo

[00:58:12] por exemplo

[00:58:12] a gente tá fazendo

[00:58:13] essa

[00:58:13] gravação do Revolução

[00:58:15] ao mesmo tempo

[00:58:15] transmitindo

[00:58:16] pela Twitch

[00:58:16] usando o momento

[00:58:18] pra tudo

[00:58:18] ao mesmo tempo né

[00:58:19] cara isso é

[00:58:21] isso é uma parada foda né

[00:58:22] isso é uma parada foda né

[00:58:23] a gente vai sendo captado

[00:58:25] por essa lógica

[00:58:26] mas pelo menos

[00:58:26] a gente tá sendo captado

[00:58:27] por essa lógica

[00:58:28] e falando pra galera né

[00:58:29] e aí

[00:58:29] olha o negócio aí

[00:58:31] que isso me lembra também

[00:58:32] daquela série né

[00:58:33] o Black Mirror né

[00:58:35] o segundo episódio

[00:58:36] etc

[00:58:36] rapaz ali

[00:58:37] quando eu vi aquele

[00:58:38] segundo episódio na época

[00:58:39] tinha um canalzinho no YouTube

[00:58:39] eu falei assim

[00:58:40] cara vou fechar meu canal

[00:58:40] no YouTube

[00:58:41] foda-se

[00:58:41] exatamente

[00:58:42] hahaha

[00:58:43] hahaha

[00:58:43] eu não vou participar

[00:58:44] dessa merda não

[00:58:45] mas é uma resposta

[00:58:48] individual né

[00:58:48] é minha em relação a isso né

[00:58:50] não vai

[00:58:51] eu parar de produzir

[00:58:52] o conteúdo ali

[00:58:53] naquele momento ali

[00:58:54] pro YouTube

[00:58:54] quando eu tava produzindo

[00:58:55] naquele momento

[00:58:55] que eu vi a série né

[00:58:57] porra você acha que

[00:58:59] tipo sei lá

[00:58:59] o Niang achar

[00:59:00] que ele vai tirar

[00:59:01] as músicas dele

[00:59:01] do Spotify

[00:59:03] pro Spotify

[00:59:03] parar de ter conteúdo

[00:59:04] isso porque o Niang

[00:59:06] ele tem

[00:59:06] reverberação econômica né

[00:59:09] pro Spotify

[00:59:10] quando ele faz isso

[00:59:11] ele vai tirar as músicas dele

[00:59:12] e os caras vão parar

[00:59:13] de botar conteúdo

[00:59:14] anti-vacina né

[00:59:15] no Spotify né

[00:59:16] enfim

[00:59:17] o Spotify optou

[00:59:18] por tirar o conteúdo dele

[00:59:19] foda-se né

[00:59:19] não deixa o Joey Runger

[00:59:20] falando merda aqui mesmo né

[00:59:22] e chamando a gente merda

[00:59:23] pra participar desse negócio né

[00:59:25] enfim

[00:59:25] a Twitch tem o flow né

[00:59:27] e o YouTube também tem o flow né

[00:59:30] ali naquele processo

[00:59:31] o Spotify também tem o flow

[00:59:32] enfim

[00:59:32] tem toda essa

[00:59:33] tem toda essa

[00:59:33] essa dinâmica né

[00:59:35] e eu não vejo

[00:59:36] outra possibilidade

[00:59:36] que não é uma resposta

[00:59:37] política pra isso né

[00:59:38] no sentido coletivo mesmo né

[00:59:40] da gente conseguir

[00:59:41] tanto produzir o conteúdo

[00:59:42] e

[00:59:43] �irar pra pessoa

[00:59:43] que tá aqui

[00:59:44] no nosso processo

[00:59:45] de produção de conteúdo

[00:59:46] e falar assim

[00:59:46] olha tu tem que se organizar

[00:59:48] politicamente

[00:59:48] porque esse processo todo

[00:59:50] a gente não vai resolver né

[00:59:51] e eu tô aqui na verdade

[00:59:52] tentando captar você

[00:59:54] pra sair desse negócio

[00:59:54] saia daí

[00:59:55] vai pra lá né

[00:59:56] vamos dar uma resposta

[00:59:58] coletiva

[00:59:58] pra essa angústia individual

[01:00:00] que você tem

[01:00:00] né

[01:00:01] e você perceber

[01:00:02] que quanto mais você cai

[01:00:03] nessa dinâmica

[01:00:04] da individualização

[01:00:05] quanto mais você cai

[01:00:06] nessa dinâmica

[01:00:07] de entender

[01:00:08] que

[01:00:08] a sua existência

[01:00:10] solitária

[01:00:11] é capaz de fazer

[01:00:12] uma mudança

[01:00:13] megalomaníaca né

[01:00:14] no processo político

[01:00:16] então no seu processo

[01:00:17] de trabalho

[01:00:18] mais desesperado

[01:00:19] você fica

[01:00:19] porque você começa

[01:00:20] a perceber

[01:00:21] que não tá certo

[01:00:23] então você entra

[01:00:24] na lógica

[01:00:24] de botar a culpa

[01:00:25] em si mesmo

[01:00:26] até mesmo

[01:00:27] na concepção política

[01:00:28] da coisa né

[01:00:29] a Maria do Emaúto

[01:00:30] chama isso de messianismo

[01:00:31] aliás né

[01:00:31] da profissão

[01:00:32] do serviço social

[01:00:33] mas eu boto isso

[01:00:34] em outras relações

[01:00:35] contínuas também né

[01:00:36] então tem o messianismo

[01:00:37] principalmente na minha área

[01:00:38] como assistente social

[01:00:39] do serviço social

[01:00:41] que o profissional

[01:00:42] ele começa

[01:00:43] a entender

[01:00:43] que ele não consegue

[01:00:44] resolver os problemas

[01:00:45] primeiro ele começa

[01:00:45] a entender né

[01:00:46] e o messianismo

[01:00:47] ele vai do messianismo

[01:00:48] pro fatalismo né

[01:00:49] é muito interessante

[01:00:49] você começa

[01:00:51] a conceber

[01:00:53] que se você

[01:00:53] não resolver o problema

[01:00:54] de documentação

[01:00:55] daquela família

[01:00:56] ninguém vai resolver

[01:00:56] e se você não resolver

[01:00:58] aquilo você tá falhando

[01:00:59] em relação a conseguir

[01:01:00] uma possível assim

[01:01:01] chamada emancipação

[01:01:03] pelo Estado né

[01:01:04] tem uma coisa

[01:01:05] que o Estado

[01:01:05] não faz é emancipar

[01:01:06] o ser humano né

[01:01:08] da exploração

[01:01:09] das criaturas

[01:01:10] pelas criaturas né

[01:01:11] pela criatura humana

[01:01:12] pela criatura humana

[01:01:13] de você né

[01:01:14] fazer isso

[01:01:15] e quando você começa

[01:01:16] a bater

[01:01:18] e ver que

[01:01:20] não tá dando certo

[01:01:21] não tá dando certo

[01:01:21] não tá dando certo

[01:01:22] você cai no revés

[01:01:23] disso que é o fatalismo né

[01:01:24] e aí você entra

[01:01:25] na concepção

[01:01:25] de que é uma fatalidade

[01:01:26] que aquilo não tem jeito

[01:01:28] porque é assim mesmo

[01:01:29] que a sociedade

[01:01:29] produz essas relações

[01:01:31] etc

[01:01:31] e aí você

[01:01:32] em vez de coletivizar

[01:01:33] essa discussão

[01:01:34] e perceber que você

[01:01:34] tem que sair do âmbito

[01:01:35] do processo institucional

[01:01:38] de trabalho

[01:01:38] e entender

[01:01:40] que a política

[01:01:40] se faz fora

[01:01:41] do seu processo

[01:01:42] de trabalho também

[01:01:42] e que a realização

[01:01:44] de uma nova sociedade

[01:01:46] não vai fazer

[01:01:47] pela sua profissão

[01:01:48] né

[01:01:49] mas por todas

[01:01:50] as profissões

[01:01:51] por toda a coletividade

[01:01:52] do ser humano

[01:01:53] né

[01:01:54] você fica no fatalismo

[01:01:55] você fica travado

[01:01:56] naquele negócio ali

[01:01:57] né

[01:01:58] e isso gera

[01:01:59] um índice altíssimo

[01:02:00] por exemplo

[01:02:00] de profissionais

[01:02:01] de serviço social

[01:02:01] e isso eu acho

[01:02:03] muito interessante

[01:02:03] porque tem esse dado

[01:02:04] na minha região

[01:02:05] de que uma parte

[01:02:07] considerável

[01:02:07] dos profissionais

[01:02:08] de serviço social

[01:02:09] usam medicamentos

[01:02:09] de tarja preta

[01:02:10] seja isso qual for

[01:02:11] e dessa

[01:02:12] quantidade de profissionais

[01:02:13] apenas 1,2%

[01:02:14] é organizado

[01:02:15] politicamente alguma coisa

[01:02:16] acho que a sociedade

[01:02:17] neoliberal

[01:02:18] por ela

[01:02:18] ter realizado

[01:02:19] essa individualização

[01:02:20] de uma forma

[01:02:21] muito perspicaz

[01:02:22] muito astuta

[01:02:23] ela elimina

[01:02:25] qualquer tipo

[01:02:25] de vislumbre

[01:02:26] que não seja

[01:02:27] da mudança individual

[01:02:28] a gente olha

[01:02:29] por exemplo

[01:02:29] essas questões

[01:02:31] ligadas a

[01:02:32] que aparece

[01:02:32] de tome banho

[01:02:33] mais rápido

[01:02:34] sabe

[01:02:35] todas essas ladainhas

[01:02:36] que na verdade

[01:02:37] materialmente

[01:02:39] desliga a luz

[01:02:39] da sua casa

[01:02:40] nesse dia aqui

[01:02:40] pô

[01:02:42] é isso né

[01:02:43] e o quanto

[01:02:44] o neoliberalismo

[01:02:45] se empreendeu

[01:02:46] pra viabilizar

[01:02:47] sua epopeia

[01:02:49] econômica

[01:02:50] de enriquecimento

[01:02:51] dos grandes

[01:02:52] porque o neoliberalismo

[01:02:53] nada mais é do que isso

[01:02:53] é uma dinâmica econômica

[01:02:55] que visa

[01:02:56] realmentar as taxas

[01:02:57] de lucro

[01:02:57] dos grandes capitalistas

[01:02:59] a partir de uma dinâmica

[01:03:00] uma nova dinâmica

[01:03:01] econômica

[01:03:02] uma nova dinâmica

[01:03:02] subjetiva

[01:03:03] ele elimina

[01:03:04] qualquer traço

[01:03:05] de coletividade

[01:03:06] que é isso

[01:03:07] porque que

[01:03:08] eu não preciso

[01:03:08] de um partido

[01:03:09] eu não preciso

[01:03:10] me organizar

[01:03:11] porque eu faço

[01:03:12] a minha parte aqui

[01:03:13] eu vou postar coisa

[01:03:14] vou fazer

[01:03:15] tal tal tal

[01:03:15] e a gente vê isso mesmo

[01:03:17] na

[01:03:17] na universidade

[01:03:19] mas na escola

[01:03:20] por exemplo

[01:03:20] pô

[01:03:21] cara

[01:03:21] na escola

[01:03:22] isso é um negócio

[01:03:23] que aparece

[01:03:24] demais

[01:03:25] demais

[01:03:25] eu tô

[01:03:26] eu não faço mais parte

[01:03:28] tanto do ambiente acadêmico

[01:03:28] me formei há algum tempo

[01:03:29] mas trabalho como professor

[01:03:31] desde 2015

[01:03:32] e existe

[01:03:33] uma sana

[01:03:34] no discurso educacional

[01:03:35] que eu acho que tá

[01:03:36] na mesma esteira

[01:03:37] talvez da universidade

[01:03:38] por um outro aspecto né

[01:03:39] por uma outra linha

[01:03:40] de

[01:03:41] de

[01:03:42] , de

[01:03:42] análise

[01:03:43] mas algo próximo

[01:03:44] que é

[01:03:45] essa ideia de que

[01:03:47] o professor

[01:03:48] seria capaz

[01:03:49] de gerir

[01:03:50] 30 pessoas

[01:03:51] ao mesmo tempo

[01:03:52] personalizar tudo

[01:03:54] fazer tudo

[01:03:54] de maneira que ele possa

[01:03:56] garantir

[01:03:57] um melhor aprendizado

[01:03:58] mas sem recurso

[01:03:59] mas sem

[01:03:59] ou com recurso muito baixo

[01:04:01] ou

[01:04:01] com aquela velha coisa né

[01:04:03] metodologias inovadoras

[01:04:05] e blá blá blá

[01:04:07] maker

[01:04:08] e todas essas

[01:04:09] essas

[01:04:09] bladainha neoliberal

[01:04:11] que o

[01:04:11] Lehmann apoia

[01:04:12] né que

[01:04:13] se o Lehmann apoia

[01:04:14] eu sou contra

[01:04:15] ou quase contra né

[01:04:17] entro com os dois pés atrás

[01:04:19] cara você quer ver

[01:04:20] isso que você tá falando

[01:04:21] de uma forma

[01:04:21] muito interessante

[01:04:23] né pro professor

[01:04:24] cara o que

[01:04:25] aquele filme

[01:04:26] alguns filmes aliás né

[01:04:27] tem um filme com

[01:04:28] com Samuel Jackson

[01:04:29] tem um filme com

[01:04:30] agora com outra atriz

[01:04:31] que eu não consigo lembrar o nome agora

[01:04:32] mas é o nome do filme que eu lembro

[01:04:33] e um outro que é com

[01:04:34] com o Jim Belushi

[01:04:35] que são aqueles filmes

[01:04:36] de um professor mudando a escola

[01:04:37] sabe qual é

[01:04:38] que é o

[01:04:39] Mentes Perigosas né

[01:04:40] que é de 95

[01:04:41] né

[01:04:41] assim

[01:04:42] que porra

[01:04:43] enfim

[01:04:44] eu lembro até do rap

[01:04:45] que tocava no filme

[01:04:47] assim tá na minha cabeça

[01:04:47] aqui agora

[01:04:48] mas cara

[01:04:58] essa

[01:04:59] essa

[01:04:59] Coach Carter né

[01:05:00] alguém lembrou aqui

[01:05:01] o Salters lembrou né

[01:05:02] Coach Carter né

[01:05:03] enfim

[01:05:04] dessa coisa assim

[01:05:05] de tipo do professor

[01:05:06] né

[01:05:07] do

[01:05:07] do

[01:05:07] do James Belushi

[01:05:08] agora eu não consigo lembrar o nome do filme não

[01:05:10] mas uma hora eu vou lembrar

[01:05:11] que aí ele chega

[01:05:12] ele vai até de moto

[01:05:13] pra dentro do

[01:05:13] do

[01:05:14] do colégio

[01:05:15] o cara a quatro

[01:05:15] e briga com os moleque

[01:05:16] pra mostrar pra ele

[01:05:17] que a realidade

[01:05:18] não sei o que

[01:05:18] porra

[01:05:19] isso aí é uma desgraça

[01:05:20] sabe

[01:05:20] que deve produzir

[01:05:22] da subjetividade

[01:05:23] do professor

[01:05:24] que foi pro colégio

[01:05:24] e tava achando

[01:05:25] que ia fazer uma parada parecida com isso

[01:05:26] e se depara com uma realidade

[01:05:28] muito mais dura

[01:05:29] porque a realidade

[01:05:30] não tem script

[01:05:30] a realidade não tem diretor

[01:05:32] exatamente

[01:05:32] a realidade não tem

[01:05:35] não tem um

[01:05:36] um fio

[01:05:36] fechado

[01:05:37] que nem aquele do filme tem

[01:05:39] mas por que o Coach Carter

[01:05:40] por que você não consegue

[01:05:41] porque tá no script

[01:05:41] porra

[01:05:42] né

[01:05:42] exatamente

[01:05:42] tem um ponto que eu acho

[01:05:44] que pra dar um pouquinho

[01:05:44] de alegria pras pessoas

[01:05:46] um pouquinho de esperança

[01:05:47] né

[01:05:47] depois da gente falar

[01:05:48] tanta coisa triste

[01:05:49] o Zé Miliano falou muito

[01:05:51] dessa questão da

[01:05:52] organização política coletiva

[01:05:54] eu acho que é assim

[01:05:56] um ponto é

[01:05:57] não

[01:05:57] observe o que eu estou dizendo

[01:05:59] gente

[01:05:59] eu não estou dizendo

[01:06:00] que a organização

[01:06:02] política coletiva

[01:06:03] substitui terapia

[01:06:05] ou é

[01:06:06] cura seu sofrimento

[01:06:07] não vai fazer isso

[01:06:09] mas ainda

[01:06:10] isso há pesquisas

[01:06:12] que inclusive apontam

[01:06:13] por exemplo

[01:06:14] vou citar uma

[01:06:15] que é a dissertação

[01:06:17] do Guilherme Boulos

[01:06:17] é sobre

[01:06:18] atenuação

[01:06:20] de sintomas

[01:06:21] de sofrimento depressivo

[01:06:23] nas ocupações urbanas

[01:06:24] do MTST

[01:06:25] mas há outras pesquisas

[01:06:27] por exemplo

[01:06:28] a Maria Reitakel

[01:06:28] tem uma experiência

[01:06:29] belíssima no MST

[01:06:30] inclusive de psicanálise

[01:06:32] de grupo

[01:06:32] que é algo

[01:06:33] bem heterodoxo

[01:06:34] a psicanálise

[01:06:35] é bem rígida

[01:06:36] nesse modelo

[01:06:37] analista-paciente

[01:06:38] não

[01:06:39] de uma dinâmica

[01:06:40] de grupo

[01:06:40] Maria Reitakel

[01:06:42] implementou isso

[01:06:43] no MST

[01:06:44] que mostra que

[01:06:45] ainda que a pessoa

[01:06:46] continue sofrendo

[01:06:47] quando ela está

[01:06:49] em grupo

[01:06:49] quando ela fala

[01:06:51] do seu sofrimento

[01:06:52] porque por exemplo

[01:06:52] numa cozinha comunitária

[01:06:53] do MTST

[01:06:54] por exemplo

[01:06:55] numa ocupação

[01:06:57] ou em qualquer lugar

[01:06:58] nas cozinhas coletivas

[01:07:00] do início

[01:07:01] da União Soviética

[01:07:02] pronto

[01:07:02] exatamente

[01:07:03] se você for fazer

[01:07:04] qualquer coisa

[01:07:05] coletivamente

[01:07:05] enquanto você está

[01:07:06] sei lá

[01:07:07] cortando uma verdura

[01:07:08] chorando

[01:07:09] cortando uma cebola

[01:07:09] você está

[01:07:10] fazendo

[01:07:10] falando do seu filho

[01:07:12] do seu sobrinho

[01:07:13] da sua irmã

[01:07:14] do seu namorado

[01:07:16] da sua namorada

[01:07:16] do seu esposo

[01:07:17] da sua esposa

[01:07:18] você está falando

[01:07:18] dos seus problemas

[01:07:19] da sua casa

[01:07:20] da feira que está cara

[01:07:21] do transporte que está ruim

[01:07:23] da fila que pegou

[01:07:24] do posto de saúde

[01:07:25] do buraco

[01:07:25] as pessoas começam

[01:07:27] a falar das suas

[01:07:28] angústias pessoais

[01:07:29] isso cria um espaço

[01:07:31] onde um ouvindo

[01:07:33] o outro

[01:07:34] sobre o seu sofrimento

[01:07:35] ainda que o seu sofrimento

[01:07:36] não passe

[01:07:37] mas você começa

[01:07:38] a perceber

[01:07:39] que ele não é

[01:07:40] isolado do mundo

[01:07:40] que você não é

[01:07:42] um ser

[01:07:42] aquela coisa

[01:07:43] meio paranoica

[01:07:44] de que Deus

[01:07:44] está lhe punindo

[01:07:45] porque você é um ser

[01:07:46] incompetente

[01:07:47] ou porque você é um ser

[01:07:49] amaldiçoado

[01:07:50] por algum tipo

[01:07:51] na verdade

[01:07:53] que seus problemas

[01:07:53] eles têm muito mais

[01:07:54] em comum com as outras

[01:07:55] porque a lua

[01:07:56] retrógrada

[01:07:57] é exatamente

[01:07:58] na verdade

[01:07:59] seus problemas

[01:07:59] têm tanto em comum

[01:08:01] com os outros

[01:08:02] que você começa

[01:08:03] a narrar o seu sofrimento

[01:08:04] de outra forma

[01:08:05] então por exemplo

[01:08:06] na dissertação de Boulos

[01:08:07] ele começa a mostrar

[01:08:08] o quanto uma senhorinha

[01:08:09] que ele entrevistou

[01:08:10] obviamente

[01:08:11] não tem o nome dela

[01:08:12] na entrevista

[01:08:13] mas o quanto a senhorinha

[01:08:15] que ele entrevistou

[01:08:16] ela começa

[01:08:17] falando uma coisa

[01:08:18] e no final

[01:08:19] após o processo

[01:08:20] das ocupações

[01:08:21] ela está falando

[01:08:22] do mesmo sofrimento

[01:08:23] que ainda dói

[01:08:25] mas ela está falando

[01:08:26] de outro lugar

[01:08:27] então ela fala assim

[01:08:28] quando eu entrei aqui

[01:08:29] eu não valia

[01:08:30] nenhuma sandália velha

[01:08:31] hoje eu tenho valor

[01:08:33] então ela começa

[01:08:33] a perceber

[01:08:34] que aquele sofrimento dela

[01:08:35] é um sofrimento legítimo

[01:08:37] as pessoas reconhecem

[01:08:39] aquilo como sofrimento

[01:08:40] e ela começa a perceber

[01:08:40] que isso é muito importante

[01:08:42] a luta política organizada

[01:08:44] ela não é terapêutica

[01:08:47] no sentido clínico

[01:08:49] mas ela é terapêutica

[01:08:50] no sentido social

[01:08:52] ela é uma terapia social

[01:08:53] que cria

[01:08:54] o que um autor

[01:08:55] que eu usei muito no livro

[01:08:56] que o Axel Honneth chama

[01:08:58] uma contracultura

[01:08:59] do reconhecimento

[01:09:00] ou seja

[01:09:00] você sai daquela lógica

[01:09:03] que é a lógica

[01:09:03] puramente individual

[01:09:05] e entra numa lógica coletiva

[01:09:07] onde seus problemas

[01:09:08] coletivamente

[01:09:09] eles têm

[01:09:10] outra definição

[01:09:10] outra dimensão

[01:09:11] mas você

[01:09:13] e muitas vezes

[01:09:14] você percebe

[01:09:15] que seu problema

[01:09:15] é maior do que

[01:09:16] sua própria vida

[01:09:17] mas você também percebe

[01:09:18] que sua capacidade

[01:09:20] de agência

[01:09:21] e de ação

[01:09:22] sobre esse problema

[01:09:23] muda

[01:09:24] porque quando você

[01:09:25] está em coletivo

[01:09:27] se você por exemplo

[01:09:28] poxa Zamiliano

[01:09:30] estou triste hoje

[01:09:31] estou mal

[01:09:31] estou doente

[01:09:32] estou com alguma coisa

[01:09:33] não vou poder fazer

[01:09:34] essa tarefa militante

[01:09:35] mas

[01:09:36] enquanto camaradas

[01:09:38] Zamiliano vai continuar

[01:09:39] tocando

[01:09:40] e eu sei que

[01:09:40] aqui

[01:09:40] aquele problema

[01:09:41] que a gente está atacando

[01:09:42] vai continuar sendo atacado

[01:09:44] mesmo que eu não possa

[01:09:46] estar fazendo parte

[01:09:46] naquele momento

[01:09:47] e depois retorne

[01:09:48] ou seja

[01:09:49] percebe que

[01:09:50] minhas mãos

[01:09:51] e meus braços

[01:09:52] eles aumentaram de tamanho

[01:09:54] para tentar resolver

[01:09:55] o problema

[01:09:55] quando eu ajo

[01:09:57] coletivamente

[01:09:57] porque eu não estou mais

[01:09:59] ensimesmado

[01:10:01] eu não estou mais

[01:10:02] parado em mim mesmo

[01:10:04] ou seja

[01:10:05] minha

[01:10:05] inclusive a existência

[01:10:07] temporal

[01:10:07] quando se está

[01:10:09] coletivamente

[01:10:10] é uma existência

[01:10:10] temporária

[01:10:10] é uma existência temporal

[01:10:11] dilatada

[01:10:12] o seu fim

[01:10:13] não acaba

[01:10:14] na sua morte

[01:10:14] porque

[01:10:15] os seus camaradas

[01:10:16] vão continuar

[01:10:17] o partido vai continuar

[01:10:18] e aquilo pelo qual

[01:10:20] você viveu

[01:10:21] vai continuar

[01:10:21] tendo validade

[01:10:23] e a luta vai prosseguir

[01:10:24] ou seja

[01:10:25] a sua existência

[01:10:26] se dilata

[01:10:27] para além de você mesmo

[01:10:29] e isso tem uma sensação

[01:10:30] inclusive há pesquisas

[01:10:32] que mostram isso

[01:10:33] uma sensação

[01:10:34] de

[01:10:35] pertencimento

[01:10:36] de acolhimento

[01:10:38] de

[01:10:39] de

[01:10:40] de fugir

[01:10:42] dessa solidão

[01:10:43] ainda que

[01:10:44] não vai resolver

[01:10:45] o problema

[01:10:45] do produtivismo imediato

[01:10:47] etc

[01:10:47] de autonomia

[01:10:49] exatamente

[01:10:49] de autonomia

[01:10:51] eu já ouvi relato

[01:10:52] da galera

[01:10:52] assim

[01:10:53] quando você

[01:10:54] se organiza

[01:10:55] politicamente

[01:10:55] por exemplo

[01:10:56] ele tem uma sensação

[01:10:57] que é muito

[01:10:57] muito louca né

[01:10:58] que é do tipo assim

[01:10:59] pô camarada

[01:11:00] precisa fazer tal tarefa

[01:11:02] tem como você fazer

[01:11:03] não claro

[01:11:03] posso cumprir

[01:11:04] e aí ele volta

[01:11:05] e fala assim

[01:11:05] não mas o que eu tenho que fazer

[01:11:06] não camarada

[01:11:07] é com você

[01:11:07] pode fazer

[01:11:09] a gente vai

[01:11:10] vai

[01:11:10] a gente acredita

[01:11:11] na sua capacidade

[01:11:12] e a pessoa fica meio assim

[01:11:13] tipo

[01:11:15] caralho

[01:11:16] não pode fazer

[01:11:17] não faz aí

[01:11:17] sabe

[01:11:18] né

[01:11:19] de se sentir autônomo

[01:11:21] em relação a esse tipo de coisa

[01:11:22] de não ter ali o capataz

[01:11:23] exatamente

[01:11:24] saca

[01:11:25] tem que fazer

[01:11:25] tem que fazer desse jeito

[01:11:26] e também muda

[01:11:28] um pouco

[01:11:29] a forma como você

[01:11:30] refere-se a si mesmo

[01:11:31] ou seja

[01:11:33] cria

[01:11:33] por assim dizer

[01:11:35] uma

[01:11:35] outra

[01:11:36] um outro campo

[01:11:37] de

[01:11:38] palavras

[01:11:39] de semântica

[01:11:40] de

[01:11:41] possibilidades

[01:11:43] de narrar a si mesmo

[01:11:44] que fujam

[01:11:46] daquela

[01:11:46] negatividade

[01:11:47] do eu sou fracassado

[01:11:49] eu sou

[01:11:50] isolado

[01:11:51] eu estou sozinho

[01:11:52] no mundo

[01:11:52] ou seja

[01:11:53] possibilita

[01:11:54] que o sujeito

[01:11:55] reconstrua

[01:11:56] a sua própria biografia

[01:11:58] sobre outra linguagem

[01:12:00] é óbvio

[01:12:02] que

[01:12:02] acaba o sofrimento

[01:12:04] não

[01:12:04] mas

[01:12:05] Freud diz uma coisa

[01:12:06] que é muito importante

[01:12:07] que

[01:12:07] uma verdadeira terapia

[01:12:09] não acaba

[01:12:10] com o sofrimento

[01:12:10] mas faz você sofrer

[01:12:12] qualitativamente melhor

[01:12:13] faz você aprender

[01:12:15] a lidar com o seu sofrimento

[01:12:16] de uma maneira

[01:12:17] qualitativamente melhor

[01:12:18] talvez

[01:12:19] e esse é meu palpite

[01:12:21] que na

[01:12:21] relação de camaradagem

[01:12:23] na luta política

[01:12:25] no movimento político

[01:12:26] organizado

[01:12:27] seja ele em partido

[01:12:28] em movimentos sociais

[01:12:29] em coletivos

[01:12:30] a gente

[01:12:31] possa encontrar

[01:12:32] espaços

[01:12:33] onde a gente

[01:12:34] partilhando o nosso sofrimento

[01:12:35] perceba que a gente

[01:12:37] não é

[01:12:38] a última bolacha

[01:12:39] pisada

[01:12:40] de um papelão

[01:12:40] de pacote

[01:12:41] mas a gente faz parte

[01:12:42] de que

[01:12:43] se a gente juntar

[01:12:44] várias bolachas

[01:12:45] a gente pode

[01:12:46] juntos

[01:12:47] construir

[01:12:49] uma outra forma

[01:12:49] de narrar nós mesmos

[01:12:50] e uma outra forma

[01:12:51] de ação

[01:12:52] um outro horizonte

[01:12:54] de sujeito

[01:12:54] que não seja

[01:12:55] esse sujeito

[01:12:55] neoliberal

[01:12:56] que só produz

[01:12:58] como uma calculadora

[01:12:59] eu ia

[01:13:00] colocar isso mesmo

[01:13:02] que

[01:13:02] Erivaldo falou

[01:13:03] a gente

[01:13:04] junto com as demais bolachas

[01:13:05] faça um pacotão

[01:13:07] de bolacha

[01:13:07] e aí a gente

[01:13:08] afoga o patrão

[01:13:09] nas bolachas

[01:13:10] que somos nós

[01:13:11] mas assim

[01:13:12] cara

[01:13:13] é isso assim

[01:13:14] obviamente

[01:13:15] quando a gente fala

[01:13:15] também da questão

[01:13:16] da

[01:13:16] e eu acho

[01:13:18] que é o que o Erivaldo

[01:13:19] falou mesmo

[01:13:19] a produção

[01:13:20] de um sofrimento

[01:13:22] mais qualificado

[01:13:24] com a qualidade melhor

[01:13:26] em relação

[01:13:26] a tudo

[01:13:27] que a gente vive

[01:13:28] quando a gente fala

[01:13:29] de se organizar

[01:13:30] politicamente

[01:13:32] é uma coisa

[01:13:32] que a gente bate na tecla

[01:13:33] em todo podcast

[01:13:34] do Revolu Show

[01:13:35] enfim

[01:13:35] todas as vezes

[01:13:35] que eu estou fazendo live

[01:13:36] eu sempre estou discutindo

[01:13:37] isso com a galera

[01:13:37] é

[01:13:38] é

[01:13:39] é

[01:13:39] é

[01:13:39] é

[01:13:39] é

[01:13:39] é

[01:13:39] é

[01:13:39] é

[01:13:39] é

[01:13:39] é

[01:13:40] é

[01:13:40] é

[01:13:40] é

[01:13:40] é

[01:13:40] ,

[01:13:40] a gente tem que entender

[01:13:41] também que no processo

[01:13:42] organizativo

[01:13:43] a gente também

[01:13:44] vai ter desapontamentos

[01:13:45] né

[01:13:46] a gente

[01:13:47] isso é importante

[01:13:48] de ser entendido

[01:13:49] o quanto antes

[01:13:50] porque isso demonstra

[01:13:51] um amadurecimento político

[01:13:52] né

[01:13:53] é

[01:13:53] a gente tem que entender

[01:13:54] que porra

[01:13:54] a gente vai se deparar

[01:13:55] com camaradas

[01:13:55] que são problemas

[01:13:56] são problemáticos

[01:13:57] a gente vai se deparar

[01:13:58] é

[01:13:59] com concepções políticas

[01:14:00] que a gente vai discordar

[01:14:02] né

[01:14:02] com ações políticas

[01:14:03] que a gente vai achar

[01:14:04] que está sendo mal feito

[01:14:05] né

[01:14:05] você vai lá

[01:14:07] e olha aquela

[01:14:07] identidade visual do partido

[01:14:09] e fala assim

[01:14:09] nossa

[01:14:10] mas que lixo

[01:14:10] isso aqui

[01:14:11] mais alguém fez

[01:14:12] né

[01:14:13] que tristeza

[01:14:14] né

[01:14:15] ou então vai ver um texto

[01:14:16] e vai falar assim

[01:14:17] cara

[01:14:17] quem que escreveu isso aqui

[01:14:18] sabe

[01:14:18] então a gente vai ter

[01:14:19] esses problemas

[01:14:21] mas ao mesmo tempo

[01:14:21] a gente vai se deparar

[01:14:23] e entender

[01:14:24] né

[01:14:24] que a forma partido

[01:14:26] que a qual a gente fala

[01:14:27] no caso aqui

[01:14:28] a gente está discutindo

[01:14:29] a forma partido

[01:14:30] marxista-leninista

[01:14:31] né

[01:14:31] eu sou do PCB

[01:14:32] né

[01:14:33] Herbaldo do PCB

[01:14:34] nosso querido camarada

[01:14:35] Gustavo também

[01:14:36] né

[01:14:36] aí está no PCB também

[01:14:38] é

[01:14:39] é

[01:14:40] , tem seus problemas

[01:14:41] e tem as suas possibilidades

[01:14:43] né

[01:14:44] acho que

[01:14:45] e o problema

[01:14:45] de quando a gente entra

[01:14:46] nesse ambiente

[01:14:47] muitas vezes

[01:14:48] quando a gente é bem cru

[01:14:49] né

[01:14:49] a primeira vez

[01:14:50] que a gente está entrando

[01:14:50] num partido na vida

[01:14:51] ou em uma organização

[01:14:52] política na vida

[01:14:52] é uma forma

[01:14:54] de sociabilidade

[01:14:54] completamente diferente

[01:14:55] então primeiro

[01:14:55] você tem que

[01:14:56] tentar ler

[01:14:57] aquela forma de sociabilidade

[01:14:58] entender a dinâmica

[01:14:59] sabe quando você entra

[01:15:00] a primeira vez no trabalho

[01:15:00] por exemplo

[01:15:01] o horário para chegar

[01:15:02] etc e tudo mais

[01:15:02] mas tem uma coisa assim

[01:15:03] de entender a dinâmica

[01:15:04] como é que funciona

[01:15:05] o que está acontecendo

[01:15:06] no partido obviamente

[01:15:08] tem muito menos amarras

[01:15:09] do que o processo

[01:15:09] do trabalho né

[01:15:10] do assalariado

[01:15:11] que a gente está falando assim

[01:15:13] entender o que está acontecendo

[01:15:14] entender o processo histórico

[01:15:16] onde é que veio aquilo

[01:15:17] que concepção é essa

[01:15:18] os termos que são utilizados

[01:15:19] né

[01:15:20] o processo de decisão

[01:15:23] né

[01:15:23] de tomada de decisão

[01:15:24] que o processo de tomada de decisão

[01:15:26] não é só seu

[01:15:26] tem uma questão coletiva também

[01:15:28] que o seu posicionamento público

[01:15:30] em determinada rede social

[01:15:31] em determinada questão

[01:15:32] é um posicionamento

[01:15:33] que carrega também

[01:15:34] o posicionamento do seu partido

[01:15:36] ou da sua organização política

[01:15:37] que se você fizer uma merda

[01:15:38] enquanto indivíduo

[01:15:39] numa rede social

[01:15:39] alguma coisa

[01:15:40] isso rebate

[01:15:41] sobre a coletividade

[01:15:42] que está ali

[01:15:43] junto com você também né

[01:15:44] é uma

[01:15:45] é uma

[01:15:46] é um processo

[01:15:48] em que você

[01:15:50] sente uma responsabilidade

[01:15:52] que não é uma responsabilidade

[01:15:53] só pela sua existência

[01:15:55] mas uma responsabilidade

[01:15:55] pela sua existência coletiva também

[01:15:57] isso é muito bom

[01:15:58] no sentido de você

[01:16:00] se sentir parte de algo

[01:16:02] né

[01:16:03] se sentir parte

[01:16:04] de uma concepção

[01:16:07] que não existe só

[01:16:08] enquanto você

[01:16:09] você existe né

[01:16:10] que é aquilo que o Bertoldo Brecht fala

[01:16:12] no elogio ao partido

[01:16:13] que está lá

[01:16:15] na decisão

[01:16:17] naquela peça de teatro dele

[01:16:18] que o indivíduo

[01:16:21] tem dois olhos

[01:16:23] o partido tem muitos

[01:16:23] então assim

[01:16:27] essa coletividade

[01:16:28] é um momento

[01:16:29] de estranhamento inicial

[01:16:30] obviamente

[01:16:31] que a pessoa vai

[01:16:32] se organizar

[01:16:32] mas depois assim

[01:16:33] ela pegar a dinâmica

[01:16:35] pegar o entendimento

[01:16:35] entender que ela também

[01:16:36] pode ser propositiva

[01:16:37] entender que ela

[01:16:38] pode fazer discursos

[01:16:39] que ela pode ter abertamente

[01:16:41] embates internos

[01:16:45] embates externos

[01:16:46] e assim por diante

[01:16:46] desapontamentos

[01:16:48] apontamentos

[01:16:48] enfim

[01:16:49] mas isso é

[01:16:51] isso é muito bom

[01:16:51] isso é muito bom

[01:16:53] nesse sentido

[01:16:53] de você se encontrar

[01:16:55] para além

[01:16:55] dessa lógica neoliberal

[01:16:57] que trabalha

[01:16:58] inclusive

[01:16:59] e exclusivamente

[01:17:00] para que você

[01:17:01] caia nessa concepção

[01:17:02] e que você não se organize

[01:17:03] politicamente

[01:17:04] coletivamente

[01:17:06] cair nessa dinâmica

[01:17:08] de que

[01:17:09] você é um

[01:17:11] um grãozinho

[01:17:12] que você vai fazer a diferença

[01:17:14] sabe aquela

[01:17:14] aquela historiezinha

[01:17:15] horrorosa

[01:17:16] tipo

[01:17:16] ah eu peguei

[01:17:17] a estrela do mar

[01:17:19] que estava lá

[01:17:19] e tinha uns centenas

[01:17:20] de milhões de estrelas

[01:17:21] aí eu taquei

[01:17:21] mas parece que a estrela

[01:17:22] fez a diferença

[01:17:23] etc e tudo mais

[01:17:24] papo de coach do caralho

[01:17:27] etc

[01:17:28] mas que enfim

[01:17:29] imagina aquela criança

[01:17:30] se ela voltasse

[01:17:31] politicamente organizada

[01:17:32] com várias outras pessoas

[01:17:33] e falasse

[01:17:33] vamos pegar tudo de uma vez

[01:17:34] em vez de achar

[01:17:35] que é ela sozinha

[01:17:36] eu fiz a diferença

[01:17:37] para uma estrela

[01:17:37] todas as demais morreram

[01:17:38] foi um genocídio

[01:17:39] mas deu certo

[01:17:40] né

[01:17:40] assim

[01:17:40] então assim

[01:17:42] é muito

[01:17:43] é muito importante isso

[01:17:44] é muito importante

[01:17:45] isso que o Eribaldo aponta

[01:17:46] Gustavo?

[01:17:48] não

[01:17:48] só para complementar

[01:17:49] que eu acho que

[01:17:50] a organização política

[01:17:52] ela nos coloca de fronte

[01:17:54] com uma questão

[01:17:55] como o Eribaldo falou

[01:17:57] né

[01:17:57] de a gente se deparar

[01:17:58] com o mundo

[01:17:59] a partir de uma nova linguagem

[01:18:01] e consequentemente

[01:18:02] sobre uma nova ética

[01:18:03] do que essa linguagem

[01:18:04] significa

[01:18:04] né

[01:18:06] que é

[01:18:06] é pensar

[01:18:08] principalmente

[01:18:08] que eu acho

[01:18:09] você falou no começo da live

[01:18:10] né Zami

[01:18:11] sobre

[01:18:11] a tortura

[01:18:13] ser feita

[01:18:14] para você não falar

[01:18:15] sobre ela

[01:18:16] né

[01:18:16] e eu acho que existe

[01:18:18] no neoliberalismo

[01:18:20] uma

[01:18:21] perversidade

[01:18:22] muito grande

[01:18:23] porque

[01:18:24] ele silencia

[01:18:26] os sujeitos

[01:18:26] né

[01:18:27] você o tempo todo

[01:18:28] vive culpado

[01:18:29] e em silêncio

[01:18:30] você não pode

[01:18:32] narrar o seu sofrimento

[01:18:33] né

[01:18:34] você não pode

[01:18:34] narrar aquilo

[01:18:35] que você

[01:18:36] entende como

[01:18:37] contraditório

[01:18:39] ou aquilo que você

[01:18:40] entende como

[01:18:41] negativo

[01:18:42] ou como problemático

[01:18:43] esse lugar

[01:18:45] da

[01:18:45] da narrativa

[01:18:48] ele fica

[01:18:48] em segundo plano

[01:18:50] né

[01:18:50] e o quanto

[01:18:51] esse silenciamento

[01:18:54] é algo muito complicado

[01:18:55] né

[01:18:56] e muito difícil

[01:18:57] acho que você

[01:18:57] como assistente social

[01:18:58] deve ver isso

[01:19:00] muitas vezes né

[01:19:01] que a dificuldade

[01:19:02] da pessoa

[01:19:03] tá

[01:19:03] ela não consegue

[01:19:05] descrever um problema

[01:19:06] ela não consegue

[01:19:06] descrever o sofrimento

[01:19:08] descrever as questões

[01:19:09] que a circundam

[01:19:10] né

[01:19:10] e como essa forma

[01:19:11] de organização

[01:19:13] política

[01:19:13] ela parte

[01:19:15] de uma lógica

[01:19:15] contrária

[01:19:16] né

[01:19:17] ela parte

[01:19:17] do lugar

[01:19:19] da coletividade

[01:19:20] então

[01:19:20] o que você faz

[01:19:21] é compartilhar

[01:19:23] né

[01:19:23] você narra

[01:19:24] você fala

[01:19:25] sobre as coisas

[01:19:25] né

[01:19:26] você

[01:19:26] vivencia

[01:19:29] aquilo

[01:19:29] como uma unidade

[01:19:30] coletiva

[01:19:31] orgânica

[01:19:32] né

[01:19:32] que tem

[01:19:33] suas questões

[01:19:34] que tem

[01:19:34] seus problemas

[01:19:35] mas que

[01:19:36] permite com que

[01:19:37] se narre

[01:19:38] as coisas

[01:19:38] né

[01:19:39] e tem uma

[01:19:39] tem um texto

[01:19:41] muito bom

[01:19:43] de uma filósofa

[01:19:44] que eu gosto muito

[01:19:45] que é

[01:19:45] Jane Marie Ganebon

[01:19:46] uma especialista

[01:19:46] em Walter Benjamin

[01:19:47] e ela tem um texto

[01:19:49] muito legal

[01:19:49] num livro

[01:19:50] chamado

[01:19:50] limiar aura

[01:19:51] e rememoração

[01:19:52] que chama

[01:19:52] esquecer o passado

[01:19:53] e ela fala

[01:19:55] sobre como

[01:19:56] o Brasil

[01:19:56] tem dificuldade

[01:19:57] em lidar

[01:19:58] com o passado

[01:19:59] pela força

[01:20:01] da classe dominante

[01:20:02] em não falar

[01:20:03] sobre ele

[01:20:03] né

[01:20:03] em como a gente

[01:20:05] é incapacitado

[01:20:06] de falar

[01:20:07] sobre as coisas

[01:20:07] e permite

[01:20:08] com que

[01:20:08] atrocidades

[01:20:09] da história

[01:20:09] aconteçam de novo

[01:20:11] porque elas

[01:20:12] não são trazidas

[01:20:12] à tona

[01:20:13] né

[01:20:13] exatamente isso

[01:20:14] a tortura

[01:20:15] serve pra você

[01:20:15] não falar

[01:20:16] se ela serve

[01:20:17] pra eu não falar

[01:20:18] talvez eu deva

[01:20:19] falar sobre ela

[01:20:20] né

[01:20:20] se essa mania

[01:20:22] do neoliberalismo

[01:20:22] de produção

[01:20:23] de sofrimento

[01:20:24] nos impele

[01:20:25] a não falar

[01:20:26] talvez seja

[01:20:28] essa primeira coisa

[01:20:29] que a gente

[01:20:30] uma das

[01:20:30] primeira não

[01:20:31] mas talvez

[01:20:31] uma das primeiras

[01:20:32] coisas que a gente

[01:20:32] deva se preocupar

[01:20:33] em realizar

[01:20:34] né

[01:20:34] em compartilhar

[01:20:35] e falar

[01:20:36] aquilo que nos faz

[01:20:37] sofrer

[01:20:37] porque a gente

[01:20:37] vai perceber

[01:20:38] que a gente

[01:20:38] vai perceber

[01:20:38] que a depressão

[01:20:39] e a ansiedade

[01:20:40] elas não são

[01:20:40] só sintomas

[01:20:41] particulares

[01:20:42] né

[01:20:42] elas são

[01:20:42] sintomas

[01:20:43] sociais

[01:20:43] o mal-estar

[01:20:45] ele não é

[01:20:45] individual

[01:20:45] ele é

[01:20:46] partilhado

[01:20:47] ele é

[01:20:47] coletivo

[01:20:49] porra

[01:20:50] se ele é

[01:20:50] coletivo

[01:20:51] qual que é

[01:20:52] esse ponto

[01:20:53] comum

[01:20:53] o que que

[01:20:54] a gente pode

[01:20:55] fazer pra

[01:20:56] extirpar

[01:20:57] esse ponto

[01:20:57] comum

[01:20:58] da história

[01:20:58] né

[01:20:59] e aí

[01:21:00] por enquanto

[01:21:02] a gente tem visto

[01:21:03] que as experiências

[01:21:05] mais reais

[01:21:06] em relação a isso

[01:21:07] foram feitas

[01:21:08] através

[01:21:08] do

[01:21:09] do

[01:21:10] da organização

[01:21:11] política

[01:21:11] né

[01:21:12] e é

[01:21:12] essa esperança

[01:21:13] que a gente tem

[01:21:14] né

[01:21:14] é o

[01:21:15] pessimismo

[01:21:15] revolucionário

[01:21:16] né

[01:21:16] não vai ser

[01:21:18] apagar a luz

[01:21:19] fechar a torneirinha

[01:21:21] parará

[01:21:21] né

[01:21:22] esse podcast

[01:21:22] aqui é o choque

[01:21:23] de realidade

[01:21:24] né

[01:21:24] tá tudo uma desgraça

[01:21:26] tá tudo uma merda

[01:21:28] cara

[01:21:28] tá tudo uma merda

[01:21:29] e não vai melhorar

[01:21:31] vai melhorar

[01:21:31] substancialmente

[01:21:32] e aí

[01:21:33] o que a gente faz

[01:21:34] ficar sentado

[01:21:35] no apartamento

[01:21:36] com a boca

[01:21:37] cheia de dentes

[01:21:37] esperando a morte

[01:21:38] chegar né

[01:21:39] ó

[01:21:40] linda quebrada

[01:21:41] né

[01:21:41] lá no Big Brother

[01:21:41] ela falou algo

[01:21:42] zizequiano né

[01:21:44] que ela falou o seguinte né

[01:21:46] é

[01:21:46] e sometimes

[01:21:47] you know

[01:21:48] foi isso que ela falou

[01:21:49] ela falou algo

[01:21:51] eu não quero

[01:21:51] que as pessoas

[01:21:52] tenham esperança

[01:21:53] eu quero que as pessoas

[01:21:54] se desesperem

[01:21:55] ela disse

[01:21:56] é só assim

[01:21:56] que as pessoas

[01:21:57] podem agir politicamente né

[01:21:58] perder a esperança

[01:22:00] de que

[01:22:00] manejando

[01:22:01] dentro desse mundo

[01:22:02] que a gente tem

[01:22:03] é possível

[01:22:04] fazer mais alguma coisa

[01:22:05] a gente tem que manejar

[01:22:07] agora

[01:22:07] pra destruir

[01:22:08] esse mundo

[01:22:09] porque dentro desse mundo

[01:22:10] não há mais esperança

[01:22:11] acabou a esperança

[01:22:12] é a coragem

[01:22:14] é o Zizek

[01:22:14] que chama isso

[01:22:15] de a coragem

[01:22:15] da desesperança né

[01:22:17] tem a coragem

[01:22:18] de chegar e dizer

[01:22:18] ó

[01:22:19] está tudo destruído

[01:22:20] é acabado

[01:22:21] a gente precisa

[01:22:22] acabar com isso

[01:22:23] de vez

[01:22:23] enterrar essa sociabilidade

[01:22:25] porque ela gera

[01:22:26] entre outras coisas

[01:22:27] a destruição

[01:22:28] do meio ambiente

[01:22:29] a destruição

[01:22:30] da possibilidade

[01:22:31] do ser humano

[01:22:32] se reproduzir

[01:22:33] mas gera também

[01:22:34] como diz

[01:22:35] Mark Fisher

[01:22:36] a destruição

[01:22:37] psicológica

[01:22:37] do ser humano

[01:22:38] o ser humano

[01:22:39] não consegue viver

[01:22:40] como uma máquina

[01:22:42] ele não vai conseguir

[01:22:44] viver assim

[01:22:45] pra sempre

[01:22:46] ele está se esgotando

[01:22:47] não é à toa que

[01:22:48] segundo a OMS

[01:22:50] a depressão

[01:22:51] já é

[01:22:52] um dos

[01:22:53] maiores

[01:22:54] causas

[01:22:55] de afastamento

[01:22:56] do mundo

[01:22:56] do trabalho

[01:22:57] já

[01:22:58] o suicídio

[01:22:59] já é uma das

[01:23:00] maiores causas

[01:23:01] de mortalidade

[01:23:02] entre jovens

[01:23:03] do mundo

[01:23:03] enfim

[01:23:04] então acho que

[01:23:05] se organizar politicamente

[01:23:07] como o Zan Miliano

[01:23:08] falou

[01:23:08] né

[01:23:08] ,

[01:23:09] ainda que tenha

[01:23:10] todo esse aspecto

[01:23:11] por assim dizer

[01:23:12] de uma terapia social

[01:23:13] novas sociabilidades

[01:23:15] impõe novos problemas

[01:23:16] mas

[01:23:17] novos problemas

[01:23:19] eles também

[01:23:20] nos possibilitam

[01:23:21] novos horizontes

[01:23:22] de resposta

[01:23:23] então essa é a grande

[01:23:24] beleza da coisa

[01:23:25] muito bom

[01:23:28] e eu acho que

[01:23:29] a gente está

[01:23:30] encaminhando aqui

[01:23:31] pra uma

[01:23:31] eu sempre falo isso

[01:23:32] na gravação

[01:23:33] do podcast

[01:23:34] por um momento

[01:23:35] ótimo

[01:23:35] do podcast

[01:23:37] a gente conseguiu

[01:23:38] avançar

[01:23:38] muito nessa discussão

[01:23:39] sobre neoliberalismo

[01:23:40] e sofrimento psíquico

[01:23:41] seja no âmbito

[01:23:42] da universidade

[01:23:43] seja fora do âmbito

[01:23:44] da universidade

[01:23:44] lembrando a todo mundo

[01:23:46] que está nos ouvindo

[01:23:46] nesse exato momento

[01:23:47] que se você quiser

[01:23:48] contribuir com o Catarse

[01:23:50] do nosso querido

[01:23:51] Eribaldo Maia

[01:23:52] pela editora

[01:23:54] Ruptura

[01:23:55] é só você botar

[01:23:55] catarse.me

[01:23:56] barra

[01:23:57] eribaldo.me

[01:23:58] barra

[01:23:59] eribaldo

[01:24:00] no linkzinho

[01:24:02] que está aí

[01:24:03] aparecendo pra você

[01:24:03] também na nossa

[01:24:04] livezinha

[01:24:05] e no nosso

[01:24:05] podcast

[01:24:07] é

[01:24:08] , e a gente vai agora

[01:24:09] para os reclames

[01:24:10] do Plim Plim

[01:24:10] o grande momento

[01:24:11] aqui em que a gente

[01:24:12] fala sobre o

[01:24:13] Revolução existente

[01:24:14] e vamos também

[01:24:15] para nossas

[01:24:16] conclusões finais

[01:24:17] bom

[01:24:18] como

[01:24:19] eu vou fazer

[01:24:20] e eu estou aqui

[01:24:21] para fazer os reclames

[01:24:21] do Plim Plim

[01:24:22] eu queria agradecer

[01:24:22] mais uma vez

[01:24:23] a todos vocês

[01:24:24] que participaram

[01:24:25] e ouviram esse podcast

[01:24:26] até o presente momento

[01:24:27] e dizer que ele

[01:24:28] só é possível

[01:24:29] de ser feito

[01:24:29] graças a você

[01:24:30] que contribui aí

[01:24:31] no padrim.com

[01:24:32] barra revolução

[01:24:33] né

[01:24:34] ou no

[01:24:35] picpay do revolução

[01:24:36] arroba revolução

[01:24:37] aí no picpay

[01:24:38] ou até mesmo

[01:24:39] no aplicativo

[01:24:40] da orelo

[01:24:41] né

[01:24:41] se você

[01:24:42] dá o playzinho lá

[01:24:43] você dá uma

[01:24:44] quantidade de

[01:24:45] graninha pra gente

[01:24:45] e também

[01:24:46] pode

[01:24:47] pagar diretamente

[01:24:50] pelo aplicativo

[01:24:51] da orelo

[01:24:51] tem uma taxinha

[01:24:52] menor aí

[01:24:52] que a maioria

[01:24:52] das coisas

[01:24:53] que a gente

[01:24:53] utiliza

[01:24:54] e

[01:24:55] ouvir a gente

[01:24:57] da melhor forma

[01:24:58] possível

[01:24:59] na hora

[01:25:00] que você

[01:25:00] quiser

[01:25:01] então não se esqueça

[01:25:02] de auxiliar

[01:25:03] porque a gente

[01:25:04] também

[01:25:04] tem que pagar

[01:25:05] a continha de gás

[01:25:06] aí do fim do mês

[01:25:07] não está sendo fácil

[01:25:07] essa continha de gás

[01:25:08] não está sendo fácil

[01:25:09] essa continha de luz

[01:25:09] ok

[01:25:10] eu queria agradecer vocês

[01:25:12] e não esqueçam

[01:25:12] dá uma olhadinha

[01:25:13] aí

[01:25:15] no feed

[01:25:15] que tem um monte

[01:25:17] de cupom pra você

[01:25:18] tem o clube do livro

[01:25:19] da expressão popular

[01:25:21] que é muito bom

[01:25:21] aliás recebi aqui

[01:25:22] essa semana

[01:25:23] um livro muito bom

[01:25:25] sobre o Victor Yara

[01:25:25] né

[01:25:26] pra quem não conhece

[01:25:27] essa figura

[01:25:28] fantástica aí

[01:25:29] é

[01:25:30] chilena né

[01:25:31] esse cantor

[01:25:31] esse compositor

[01:25:32] chileno

[01:25:32] foi morto

[01:25:33] na época

[01:25:34] da ditadura

[01:25:35] do Pinochet

[01:25:36] e

[01:25:36] é também

[01:25:38] um livro muito bom

[01:25:38] que eu recomendo

[01:25:39] pra todos né

[01:25:40] sobre a comuna de Paris

[01:25:41] né

[01:25:41] da coleção

[01:25:43] assim lutou os povos

[01:25:44] né

[01:25:45] sobre a comuna de Paris

[01:25:45] de 1871

[01:25:46] escrita por um comunarde

[01:25:48] né

[01:25:49] que conheceu Marx

[01:25:50] né

[01:25:50] que conheceu Engels

[01:25:51] né

[01:25:52] que estava ali junto ali

[01:25:53] da família Marx também

[01:25:54] que fez uma boa reflexão

[01:25:56] e uma avaliação

[01:25:57] sobre os problemas

[01:25:58] da comuna de Paris

[01:25:58] de 1871

[01:25:59] então dá uma olhadinha aí

[01:26:00] no link

[01:26:01] e vê se você

[01:26:02] acha interessante

[01:26:03] auxiliar também

[01:26:04] a expressão popular

[01:26:06] aderindo

[01:26:07] ao clube

[01:26:07] do livro da expressão popular

[01:26:08] então vamos

[01:26:09] nos encaminhar

[01:26:10] agora nesse momento

[01:26:11] para as conclusões finais

[01:26:12] desse lindo

[01:26:13] maravilhoso podcast

[01:26:14] pra gente já ir

[01:26:15] indo

[01:26:16] né

[01:26:16] pra tomar aquela cervejinha

[01:26:17] afinal de contas

[01:26:18] sextou né

[01:26:18] então pra essa conclusão

[01:26:21] vou chamar aí

[01:26:21] nosso querido Gustavo

[01:26:22] sinta-se à vontade

[01:26:23] e logo depois

[01:26:24] Iribaldo Maia

[01:26:25] Primeiramente

[01:26:26] agradecer aí

[01:26:27] ao Zameliano

[01:26:28] pelo convite

[01:26:29] ao Iribaldo também

[01:26:30] pelo convite

[01:26:30] sempre bom aí

[01:26:31] a gente

[01:26:32] tá nessa parceria

[01:26:34] constante

[01:26:34] né

[01:26:35] a nova versão

[01:26:36] de Crise Greg

[01:26:37] é isso

[01:26:39] basicamente

[01:26:40] uma dupla simbiótica

[01:26:41] agradecer a todo mundo aí

[01:26:42] também que

[01:26:43] ouviu esse episódio

[01:26:45] e falar pra galera

[01:26:46] me seguir

[01:26:46] nas redes sociais

[01:26:47] é

[01:26:48] Instagram

[01:26:49] História Cabeluda

[01:26:50] Twitch

[01:26:50] História Cabeluda

[01:26:51] YouTube também

[01:26:52] só o Twitter

[01:26:53] que é

[01:26:53] Gaiofect

[01:26:54] eu sou um piadista

[01:26:56] né

[01:26:57] é uma grande

[01:26:57] jogada ali

[01:26:58] com meu sobrenome

[01:26:59] Gaiofect

[01:27:01] beleza

[01:27:02] e

[01:27:03] é isso aí

[01:27:03] vamos junto

[01:27:05] porque tem muito trabalho

[01:27:06] a ser feito

[01:27:06] vamos embora

[01:27:07] eu quero agradecer

[01:27:08] a Zameliano

[01:27:09] o espaço

[01:27:10] enfim

[01:27:10] dizer pra vocês

[01:27:11] irem ir lá no Catarse

[01:27:13] que Zameliano já

[01:27:14] pediu tanto

[01:27:15] comprar o livro

[01:27:16] tem várias versões

[01:27:17] com brindes

[01:27:18] inclusive com um post

[01:27:20] que tá maravilhoso

[01:27:21] é

[01:27:22] dizer pra vocês

[01:27:23] seguirem

[01:27:24] me seguirem

[01:27:24] nas redes sociais

[01:27:25] é Iribaldo Maia

[01:27:26] tanto no Twitter

[01:27:27] quanto no Instagram

[01:27:27] seguir lá o Mimes Esquete

[01:27:29] também no Instagram

[01:27:29] e no Spotify

[01:27:30] é

[01:27:31] e também

[01:27:32] eu e Gustavo

[01:27:33] tá com um curso

[01:27:35] de introdução

[01:27:36] a teoria crítica

[01:27:36] teoria crítica

[01:27:37] uma introdução

[01:27:38] vocês podem ter acesso

[01:27:40] tanto através

[01:27:41] da bio

[01:27:42] do meu Instagram

[01:27:43] ou de Gustavo

[01:27:45] e tá no precinho

[01:27:46] o curso vai ser maravilhoso

[01:27:47] além do meu curso

[01:27:48] também lá na classe esquerda

[01:27:50] o Desvendando a Dialética

[01:27:51] uma introdução

[01:27:52] ao pensamento de Hegel

[01:27:53] que faz parte

[01:27:53] do catálogo

[01:27:54] da classe esquerda

[01:27:55] e pra quem quiser

[01:27:55] se aventurar em Hegel

[01:27:57] vale muito a pena

[01:27:58] enfim

[01:27:58] é isso

[01:27:59] obrigado demais

[01:28:00] pelo espaço

[01:28:01] valeu

[01:28:01] muito bom

[01:28:02] obrigado a todo mundo

[01:28:03] que tá ouvindo esse podcast

[01:28:04] até o presente momento

[01:28:05] a gente se encontra

[01:28:06] na próxima

[01:28:07] e não se esqueça

[01:28:08] a gente tá muito bem

[01:28:09] e o Olavo

[01:28:09] tá daquele jeito

[01:28:10] um abraço

[01:28:11] e até a próxima

[01:28:12] tchau tchau

[01:28:13] sem fumar

[01:28:14] quatro dias

[01:28:37] tchau tchau

[01:28:38] tchau