141 - Neoliberalismo e Sofrimento Psíquico
Resumo
O episódio discute a relação entre o neoliberalismo e o sofrimento psíquico, com foco especial no ambiente universitário. Eribaldo Maia, autor do livro “Neoliberalismo e Sofrimento Psíquico”, explica como sua pesquisa surgiu de experiências pessoais e observações durante a graduação, onde percebeu altos índices de estresse, ansiedade e depressão entre estudantes. Ele apresenta dados alarmantes, como o aumento de 27% para 86% no número de estudantes que relatam abalos emocionais devido à atividade acadêmica entre 2004 e 2018, coincidindo com reformas neoliberais no Estado brasileiro.
A conversa explora como o neoliberalismo internaliza uma lógica empresarial na subjetividade, transformando o indivíduo em gestor de sua própria vida. Isso resulta em uma “sana produtivista” e culpabilização, onde o sujeito se sente responsável por gerir seu tempo e projetos como um investimento, sem possibilidade de folga. A depressão é analisada como um “cansaço de ser si mesmo”, um abandono da empreitada de ser o gestor da própria vida em um sistema que exige crescimento contínuo.
Os participantes discutem como essa dinâmica se manifesta na universidade através de sistemas de avaliação como o Lattes, que criam concorrência desenfreada e cobrança interna, destruindo vínculos éticos e de solidariedade. A ansiedade é entendida como um estado de preparação contínua para perigos futuros em uma sociedade de escassez fabricada, enquanto a procrastinação é uma tentativa de enganar a culpa.
O episódio também aborda respostas possíveis ao sofrimento. É enfatizado que a organização política coletiva, embora não substitua a terapia, funciona como uma “terapia social” que permite narrar o sofrimento de outra forma, criando uma contracultura do reconhecimento. Experiências em movimentos como o MTST e MST mostram como o compartilhamento coletivo do sofrimento atenua sintomas e dilata a existência individual para além de si mesma. A conclusão aponta para a necessidade de “coragem da desesperança” – reconhecer que dentro da sociabilidade neoliberal não há esperança, exigindo ação coletiva para construir novas formas de vida.
Indicações
Books
- Neoliberalismo e Sofrimento Psíquico — Livro de Eribaldo Maia, lançado pela editora Ruptura, que é o tema central do episódio. Discute o mal-estar nas universidades a partir de uma crítica social ao neoliberalismo.
- Realismo Capitalista — Livro de Mark Fisher mencionado como uma referência importante para entender a psicopolítica do neoliberalismo e a sensação de que ‘não há alternativa’.
- O Caminho da Servidão — Livro de Friedrich Hayek mencionado como um texto fundador do pensamento neoliberal, que embate a concepção keynesiana de Estado.
Movies
- Cosmópolis — Filme com Robert Pattinson mencionado para ilustrar o vazio e a falta de sentido na vida de um milionário no mundo das finanças, exemplificando a desmesura e a busca infinita do neoliberalismo.
- Vá e Veja — Filme soviético citado em uma metáfora para descrever como o trabalho no neoliberalismo ‘paira eternamente sobre a cabeça’ como uma tensão contínua.
- Mentes Perigosas — Filme com Michelle Pfeiffer citado como exemplo da narrativa neoliberal do ‘professor herói’ que individualmente muda uma escola, criando expectativas irreais e culpabilizadoras para os educadores.
Organizations
- PCB (Partido Comunista Brasileiro) — Partido político ao qual Eribaldo Maia, Gustavo e Zamiliano são filiados. É apresentado como uma forma de organização política coletiva que oferece uma resposta à individualização neoliberal.
- MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) — Movimento social citado como exemplo onde pesquisas (como a dissertação de Guilherme Boulos) mostram a atenuação de sintomas depressivos através da organização coletiva e do compartilhamento do sofrimento.
- MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) — Mencionado por experiências de psicanálise de grupo conduzidas por Maria Rita Kehl, mostrando formas heterodoxas de cuidado coletivo.
People
- Mark Fisher — Autor de ‘Realismo Capitalista’, referência para discutir a psicopolítica e o mal-estar no capitalismo contemporâneo.
- Gary Becker — Economista da Escola de Chicago citado como exemplo da racionalidade neoliberal que reduz todas as ações humanas a um cálculo de custo-benefício, abandonando considerações éticas.
- Christophe Dejours — Psicanalista francês fundador da psicodinâmica do trabalho, mencionado por seu trabalho que relaciona suicídio no trabalho com a dinâmica do processo laboral.
- Maria Rita Kehl — Psicanalista citada por sua frase: ‘É somente numa sociedade em que todos são obrigados a ser feliz que a depressão se torna possível’.
- Guilherme Boulos — Mencionado por sua dissertação que estuda a atenuação de sintomas depressivos nas ocupações urbanas do MTST, mostrando o efeito terapêutico social da organização coletiva.
Linha do Tempo
- 00:01:45 — Origem da pesquisa e experiência pessoal na universidade — Eribaldo Maia conta como a ideia do livro surgiu de sua experiência na graduação, onde percebeu muitos relatos de estresse, ansiedade e sintomas depressivos entre colegas. Ele mesmo passou por um processo de adoecimento mental que o fez pausar o curso. A pesquisa começou como uma forma de elaborar o que vivenciava e via ao seu redor, incluindo o suicídio de um colega durante a graduação.
- 00:04:57 — Dados alarmantes sobre sofrimento psíquico nas universidades — Eribaldo apresenta dados dos relatórios da Andifes mostrando que o número de estudantes que relatam abalos emocionais decorrentes da atividade acadêmica saltou de 27% em 2004 para 86% em 2018. Esse crescimento coincide com a reforma neoliberal do Estado brasileiro e seu impacto nas universidades, CAPES e CNPq. Ele destaca a falta de pesquisas amplas sobre o tema e a resistência de alguns professores, que acusaram sua abordagem de ‘politizar o sofrimento’.
- 00:09:50 — Neoliberalismo e a quebra da barreira entre trabalho e vida — Zamiliano compara a dinâmica do trabalho universitário com a do home office e do trabalho em plataformas digitais, onde não há mais um espaço físico delimitado para o trabalho. O trabalho se torna contínuo, seguindo o indivíduo para casa através de celulares, e-mails e a pressão por produção constante. Isso gera um sofrimento contínuo, diferente do operário que pode deixar a fábrica.
- 00:12:00 — Sociedade de controle e modulação do indivíduo — A discussão avança para o conceito de sociedade de controle de Deleuze, onde o controle não é mais exercido por um intermediário externo, mas internalizado pelo próprio indivíduo. Em uma sociedade de escassez fabricada, o sujeito se modula e se vigia para produzir, temendo a exclusão. Na universidade, isso se traduz na lógica do Lattes e na necessidade constante de publicar para não ficar para trás.
- 00:17:59 — O indivíduo como empresa e a gramática do investimento — Eribaldo explica como o neoliberalismo faz o indivíduo internalizar a gramática da empresa, tornando-se gestor de si mesmo. A educação é vista como um investimento em capital humano para ter retorno no mercado de trabalho ou na carreira acadêmica. Isso destrói a barreira entre trabalho e vida, criando um dilema onde, como seu próprio patrão, você não concede folga a si mesmo. A depressão é analisada como um cansaço de ser si mesmo, um abandono desse projeto de gestão da própria vida.
- 00:39:10 — Destruição dos vínculos éticos e a lógica do cálculo — É discutido como o neoliberalismo destrói vínculos morais e éticos onde se estabelece. O exemplo do economista Gary Becker, que estacionou em local proibido calculando o risco da multa versus o benefício de chegar na hora, ilustra a racionalidade de custo-benefício que permeia todas as ações humanas. Na universidade, isso leva à não partilha de informações e à competição, em detrimento da solidariedade e da ética.
- 00:48:04 — Procrastinação, culpa e a desmesura neoliberal — A procrastinação é analisada como uma tentativa de enganar momentaneamente a culpa, que está sempre presente. O neoliberalismo cria uma desmesura sem ponto final: a gratificação por entregar um artigo é curta, rapidamente substituída pela obrigação de produzir o próximo. O exemplo do filme ‘Cosmópolis’ ilustra o vazio e a falta de sentido nessa busca infinita por mais. A depressão surge como uma interrupção do desejo, uma apatia em contraste com a sociedade maníaca do ‘mais gozar’.
- 01:05:56 — Organização política como terapia social e nova linguagem — Eribaldo argumenta que a organização política coletiva, embora não seja terapia no sentido clínico, funciona como uma terapia social. Em movimentos como o MTST e MST, o compartilhamento do sofrimento em espaços coletivos (como cozinhas comunitárias) permite que as pessoas percebam que seus problemas não são individuais, mas sociais. Isso cria uma ‘contracultura do reconhecimento’ e uma nova linguagem para narrar a si mesmo, fugindo da negatividade do ‘eu sou fracassado’.
- 01:17:48 — A coragem da desesperança e a necessidade de ação coletiva — Gustavo e Zamiliano concluem que dentro da sociabilidade neoliberal não há mais esperança. É necessária a ‘coragem da desesperança’ (Zizek) para reconhecer que o sistema está esgotado e que a única saída é a ação política coletiva para destruí-lo e construir algo novo. A organização política, apesar de trazer novos problemas e desapontamentos, oferece novos horizontes de resposta e uma forma de existência dilatada para além do indivíduo isolado.
Dados do Episódio
- Podcast: Revolushow
- Autor: Revolushow
- Categoria: News Politics
- Publicado: 2022-02-25T09:00:00Z
- Duração: 01:28:38
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/revolushow/ca3a2360-cb21-0134-10da-25324e2a541d/141-neoliberalismo-e-sofrimento-ps%C3%ADquico/fe9eedd2-aea7-4c3d-872f-04fc27511412
- UUID Episódio: fe9eedd2-aea7-4c3d-872f-04fc27511412
Dados do Podcast
- Nome: Revolushow
- Tipo: episodic
- Site: https://revolushow.com/
- UUID: ca3a2360-cb21-0134-10da-25324e2a541d
Transcrição
[00:00:00] 🎵
[00:00:00] Olá, pessoas! Estamos começando mais um RevoluShow,
[00:00:17] o seu podcast de esquerda, mas sem perder a ternura.
[00:00:20] E no episódio de hoje, como eu sempre falo,
[00:00:21] que você está vendo o título que está em cima,
[00:00:23] nós vamos falar sobre neoliberalismo e sofrimento psíquico.
[00:00:26] Para falar desse tema extremamente importante
[00:00:29] que a gente está fazendo em conjunto com o pessoal da editora Ruptura,
[00:00:33] nosso querido Cauêzão. Um abraço, Cauê.
[00:00:35] Patrão Cauê, um abraço para você que está nesse momento nos ouvindo também.
[00:00:38] Nós trouxemos aqui o autor do livro, Eribaldo Maia.
[00:00:41] Diga olá, Eribaldo, quem é você? Para onde vem? Para onde vai?
[00:00:44] Olá, Zamiliano. Prazer estar aqui no RevoluShow para falar do livro.
[00:00:49] Eu sou Eribaldo, faço parte do Mimesis,
[00:00:52] professor do curso da classe esquerda,
[00:00:53] e agora estou lançando o livro Neoliberalismo e Sofrimento Psíquico,
[00:00:57] o mal-estar nas universidades,
[00:00:58] onde a gente vai debater sofrimento, mas com ternura, obviamente,
[00:01:01] para tentar trazer também um pouco de alegria nesse debate tão triste, né?
[00:01:05] Muito bom, muito bom.
[00:01:07] E ao lado esquerdo de Eribaldo, nós temos o nosso querido Gustavo aí, do História Cabeluda.
[00:01:12] E aí, Zami, e aí, ouvintes do RevoluShow, tudo bem?
[00:01:15] Queria muito agradecer aí o convite, a minha estreia aí neste programa maravilhoso,
[00:01:20] financiado pela China de Xi Jinping.
[00:01:23] Um grande abraço aí para Xi Jinping.
[00:01:24] E muito feliz aí de fazer parte do debate junto com o Eribaldo,
[00:01:28] para falar do livro dele.
[00:01:29] Vamos dali.
[00:01:31] Muito bom, muito bom, muito bem.
[00:01:33] Vamos lá, então, a este grande episódio aí,
[00:01:36] que eu tenho certeza que será muito proveitoso para todos nós,
[00:01:38] enquanto pessoas que estão participando e das pessoas que estão nos ouvindo agora,
[00:01:42] nesse exato momento.
[00:01:43] Eribaldo, vamos começar por você.
[00:01:45] Você um dia acordou e falou assim,
[00:01:46] pô, vou escrever sobre o neoliberalismo e o sofrimento,
[00:01:48] ou é um tema de pesquisa que você já vem pesquisando há um bom tempo
[00:01:53] e relacionado também à questão da universidade?
[00:01:55] Como é que foi, assim, essa ideia de produção,
[00:01:58] de um livro?
[00:01:59] Afinal de contas, todo mundo sabe que escrever não é uma coisa muito fácil.
[00:02:02] Você revisa mais de uma vez, olha uma vez, olha outra.
[00:02:05] Tanto é que tem uma piada, né, que é comum,
[00:02:07] que é do tipo assim, se você fica olhando o seu texto toda hora,
[00:02:09] você vai mudar ele tantas vezes que no final,
[00:02:11] você vai ficar lá, né, muda aqui, melhora um pouquinho lá, etc e tudo mais.
[00:02:15] Então, como é que foi o processo de escrever
[00:02:17] e, principalmente, como é que foi o processo de pesquisar
[00:02:19] esse tema tão complexo que você está trazendo para a gente nesse livro?
[00:02:22] Descobrir da pior maneira possível que você não termina,
[00:02:25] você abandona, né, para não pegar mais,
[00:02:27] porque se você…
[00:02:28] Se você pegar mil vezes, você nunca vai terminar ele, né?
[00:02:32] Mas é uma pesquisa que surgiu quando eu estava na graduação ainda.
[00:02:37] Então, eu estava na graduação ainda e eu percebia,
[00:02:40] conversando com as pessoas e por mim mesmo, né,
[00:02:43] por experiência própria, que haviam muitos relatos
[00:02:47] de pessoas que estavam muito estressadas ou ansiosas
[00:02:51] ou com… não depressivas, mas pelo menos com sintomas
[00:02:55] de depressão, assim, em espaço, né,
[00:02:57] numa tristeza, numa tristeza, numa tristeza,
[00:02:58] numa tristeza profunda, uma sensação de inadequação,
[00:03:00] uma sensação de… que não é capaz de dar conta
[00:03:03] da dinâmica universitária, por N motivos, né?
[00:03:06] Enfim, eu estudava à noite, né?
[00:03:08] Então, à noite tem os alunos mais precarizados da universidade, né?
[00:03:13] Então, tem que dar conta de trabalho, estudo,
[00:03:15] e a dinâmica da universidade pública é uma dinâmica que exige muita leitura,
[00:03:18] participação de monitoria, participar de congressos, etc.
[00:03:22] Então, havia muito essa sensação de um sufocamento.
[00:03:25] Por um lado, isso, né?
[00:03:28] Por outro, eu mesmo comecei a passar por um processo
[00:03:30] de adoecimento mental durante a graduação,
[00:03:33] que me fez praticamente pausar o curso por um tempo.
[00:03:36] Uma das coisas que eu faço quando eu tô sem respostas é
[00:03:40] ler sobre o que eu tô passando, né?
[00:03:42] Então, eu fui atrás de ler e o assunto terminou me interessando, né?
[00:03:46] Então, eu comecei a conversar com alguns professores
[00:03:48] que me indicaram caminhos de estudo que terminou fazendo
[00:03:51] com que eu chegasse nesse objeto, questão do sofrimento.
[00:03:54] E, óbvio, que de maneira não um sofrimento
[00:03:57] de uma perspectiva liberal, né?
[00:03:59] Uma coisa meio individualizada, mas com viés social, né?
[00:04:03] Como crítica social também.
[00:04:05] Então, é um projeto que surgiu na universidade
[00:04:07] e que, no TCC, eu abordei também esse tema.
[00:04:11] E, no livro, eu venho pra aprofundar,
[00:04:14] pra trazer alguns detalhes e alguns arcabouços teóricos
[00:04:18] que eu vim trabalhando nos últimos tempos, né?
[00:04:20] Pós da universidade.
[00:04:21] Por exemplo, o livro do Dardot, do Mark Fischer,
[00:04:24] assim como algumas outras pesquisas.
[00:04:27] Eu acho que um dos pontos intrigantes, né?
[00:04:30] É que havia muito poucos dados.
[00:04:32] Há muitas pesquisas, principalmente artigos, etc.,
[00:04:36] sobre o sofrimento nas universidades,
[00:04:38] mas nenhuma grande pesquisa que, por assim dizer,
[00:04:43] tenha um teor tão universal, né?
[00:04:45] De capturar muitos alunos, uma quantidade enorme, né?
[00:04:48] O mais próximo disso que tem são os relatórios da UNDIPS
[00:04:51] que a gente vai analisar no livro, né?
[00:04:52] Então, só pra gente iniciar o debate aqui,
[00:04:54] pra colocar um ponto, por exemplo,
[00:04:57] e o de 27% pra 86%
[00:05:00] o número de estudantes que se dizem
[00:05:02] com abalos emocionais, afetivos ou psíquicos
[00:05:05] em decorrência da atividade acadêmica, né?
[00:05:08] Isso de 2004 até 2018.
[00:05:11] Ou seja, um número que cresceu assustadoramente
[00:05:14] e coincide com o que a gente vai também analisar no livro,
[00:05:19] que é a reforma neoliberal do Estado brasileiro,
[00:05:22] que vai impactar nas universidades, na CAPES, na CNPq,
[00:05:27] e assim por diante.
[00:05:27] Então, foi uma pesquisa que tinha muito a ver
[00:05:29] com o que eu passava na universidade,
[00:05:31] com o que eu via de colegas.
[00:05:34] Teve um colega que se suicidou durante a graduação.
[00:05:37] Então, foi meio que uma espécie de elaboração
[00:05:41] do que eu passava e do que eu vi também,
[00:05:43] essa pesquisa, né?
[00:05:45] E, por outro lado, pra tentar colocar, né?
[00:05:47] Porque, por exemplo, quando eu fui,
[00:05:48] quando eu comecei essa pesquisa na universidade,
[00:05:50] teve professor que disse
[00:05:51] você tá querendo politizar o sofrimento.
[00:05:52] Então, foi uma forma de tentar colocar esse debate
[00:05:55] que, apesar de…
[00:05:57] e haver ainda uma percepção de que é um problema,
[00:06:00] ainda pouco divulgado pesquisas, por assim dizer, mais largas, né?
[00:06:06] Que tentem dar uma abrangência pra além de um curso,
[00:06:09] um departamento ou uma universidade específica.
[00:06:11] Porra, esse professor aí do…
[00:06:12] você tá querendo politizar o sofrimento,
[00:06:14] tá de sacanagem, né?
[00:06:15] Foi foda, foi foda, porque…
[00:06:16] O foda é que quando é professor, né?
[00:06:18] É isso, né?
[00:06:18] Você não pode virar e falar assim,
[00:06:19] porra, você tá…
[00:06:20] É, tá de sacanagem.
[00:06:21] O que você comeu no café da manhã?
[00:06:22] Você tá de sacanagem?
[00:06:23] A vontade é de meter ali o Gilbrado e falar
[00:06:26] cala a boca!
[00:06:27] Não, e ele era o coordenador do departamento na época.
[00:06:30] Fazia igual o Crack Neto.
[00:06:31] Mas tá de sacanagem!
[00:06:32] Eu tive sorte que, como eu fazia licenciatura,
[00:06:35] eu poderia fazer a apresentação de trabalhos,
[00:06:38] conclusão de curso, etc., sobre esse tema,
[00:06:40] também em outro departamento.
[00:06:41] Eu podia fazer tanto no departamento de História
[00:06:43] como no de Educação.
[00:06:44] Então, eu fiz assim, ó, vou pra Educação,
[00:06:46] conversei com a professora do departamento de Educação
[00:06:48] e minha pesquisa foi recebida pelo departamento de Educação.
[00:06:51] No departamento de História eu tive esse problema, né?
[00:06:53] O professor não gostou…
[00:06:54] Sim.
[00:06:54] Do tom que eu dei, né?
[00:06:56] É, pois é, né? Impressionante.
[00:06:59] Esse tema que você tá trazendo,
[00:07:00] que é um tema que eu acho extremamente essencial, né?
[00:07:03] A gente discutir neoliberalismo e sofrimento.
[00:07:06] Você e o Gustavo têm discutido bastante isso.
[00:07:08] Vocês têm grupos, né, de estudo.
[00:07:09] De vez em quando eu vejo vocês pontuando isso, né?
[00:07:12] Como, por exemplo, vocês tiveram um grupo de estudo
[00:07:14] do livro do Mark Fisher, né?
[00:07:16] Como é o nome do livro mesmo?
[00:07:16] Eu sou péssimo com nomes.
[00:07:18] Realismo Capitalista.
[00:07:19] Isso, Realismo Capitalista.
[00:07:20] Que, inclusive, tá aqui no meu estante aqui
[00:07:22] pra uma leitura futura.
[00:07:23] Pô, baita livro.
[00:07:24] É muito bom.
[00:07:25] E eu acho assim,
[00:07:26] essa temática é extremamente interessante
[00:07:28] porque, assim, como assistente social,
[00:07:30] eu vejo muito essa dinâmica
[00:07:32] que o neoliberalismo impõe
[00:07:34] em todos os âmbitos do trabalho.
[00:07:35] A gente, obviamente, tá falando aqui também
[00:07:37] no âmbito da academia.
[00:07:38] E eu lembrei de um texto
[00:07:39] que eu li há muito tempo atrás,
[00:07:41] que era uma entrevista com…
[00:07:43] Eu não lembro se era psicanalista ou psiquiatra.
[00:07:44] Que foi um dos fundadores da escola
[00:07:46] da psicodinâmica do trabalho.
[00:07:48] Enfim, dá pra discutir os problemas dessa linha também.
[00:07:51] Que é o Cristófilo de Dejó.
[00:07:53] Provavelmente o Leribaldo
[00:07:54] deve ter passado por algum momento
[00:07:56] por essa figura com um cabelo maravilhoso.
[00:07:58] Tem um cabelo fantástico.
[00:08:02] Parece que ele vai tocar numa orquestra.
[00:08:04] Reger uma orquestra.
[00:08:06] E ele tava falando
[00:08:07] numa matéria específica,
[00:08:09] uma matéria, acho que de Portugal,
[00:08:10] numa revista em Portugal,
[00:08:12] sobre o suicídio no trabalho.
[00:08:14] E ele tava discutindo como a questão
[00:08:16] do suicídio no trabalho é uma mensagem extremamente importante.
[00:08:19] É sobre a dinâmica do processo de trabalho.
[00:08:21] Sobre o sofrimento no trabalho.
[00:08:23] O sujeito, ele faz ali
[00:08:25] até aquele…
[00:08:26] Termina no momento uma escolha política
[00:08:28] de uma certa forma
[00:08:29] de se matar no âmbito do trabalho.
[00:08:32] E que isso pode…
[00:08:33] Ou escolha política objetivamente, ou não.
[00:08:36] E que isso pode ter uma relação direta.
[00:08:38] Inclusive o trabalho dele foi utilizado
[00:08:40] até mesmo
[00:08:41] dentro de um processo judicial
[00:08:43] trabalhista que ocorreu na França, se eu me lembro bem.
[00:08:46] Em relação a um
[00:08:48] executivo da Peugeot que se matou no Brasil.
[00:08:50] A Peugeot não queria pagar o seguro pra família
[00:08:51] porque falou, não, não foi no âmbito do trabalho.
[00:08:53] Entendendo que trabalho era somente…
[00:08:56] Como executivo na Peugeot
[00:08:57] na França. E através desse trabalho
[00:08:59] do Cristóvão de Jó, foi discutido
[00:09:02] que na verdade ele se mata no Brasil.
[00:09:03] E ele estava no Brasil a trabalho.
[00:09:05] Então o trabalho dele era
[00:09:07] todo o momento e minuto em que ele
[00:09:09] estava aqui no Brasil.
[00:09:11] Afastado da sua família, afastado do convívio
[00:09:13] dos seus amigos, etc e tudo mais.
[00:09:15] Isso é uma coisa bem interessante
[00:09:17] dessa questão. Nessa questão da universidade,
[00:09:19] por exemplo,
[00:09:21] quando o universitário
[00:09:24] está lá, como nós fomos,
[00:09:26] universitários, ou nós somos ainda,
[00:09:27] quem está ouvindo aqui também. Quando você está no processo
[00:09:29] de estudo, você está num processo contínuo de trabalho.
[00:09:32] De desgaste físico, de desgaste
[00:09:34] mental, que também é um desgaste físico.
[00:09:36] A gente não pode parar de esquecer
[00:09:38] esse tipo de coisa.
[00:09:39] Porque você só trabalha pensando.
[00:09:41] Porque pra sustentar o cérebro, você não tem que comer nada.
[00:09:44] Enfim, ele não gasta energia do seu corpo.
[00:09:46] Mas, como tem esse desgaste,
[00:09:48] tem uma coisa que eu acho muito parecida
[00:09:50] da dinâmica que a gente está vivendo no processo pandêmico
[00:09:52] na universidade, que é o trabalho
[00:09:53] a 24 horas. Sete dias por semana, porque
[00:09:56] você está toda hora pensando no
[00:09:57] que você tem que produzir, no como você tem que produzir,
[00:10:00] no que você tem que fazer. Então, quando você vai
[00:10:02] pra casa, a parede da faculdade
[00:10:04] não termina, você continua estudando
[00:10:06] na sua casa. Então,
[00:10:07] não tem muito esse
[00:10:09] espaço específico, como a gente
[00:10:12] fala de um operário, por exemplo. O operário
[00:10:14] vai pra fábrica, ele sai da fábrica e acabou
[00:10:16] o processo de trabalho. Se o cara ligar
[00:10:18] pra ele, tanto faz. Ele não está operando
[00:10:19] a máquina no momento, porque ele está muito longe dela.
[00:10:22] Pro universitário,
[00:10:23] pro trabalhador em home office,
[00:10:26] por exemplo, essa parede
[00:10:27] ela é quebrada. E no neoliberalismo, isso é
[00:10:30] quebrado de uma forma fantástica.
[00:10:32] Eu acho que um dos primeiros momentos que a gente
[00:10:33] tem disso,
[00:10:35] se é que a gente pode expandir isso
[00:10:38] também, nesse sentido, é quando a gente
[00:10:40] fala, por exemplo, do trabalhador que
[00:10:41] naquele primeiro momento, na década de 90, recebe um celular
[00:10:44] da empresa e continua
[00:10:46] em casa a qualquer momento,
[00:10:47] ligar. Não era todo trabalhador que recebia
[00:10:49] isso naquele momento, na década de 90, não era todo mundo que tinha
[00:10:51] uma linha telefônica, enfim. Ou,
[00:10:54] até mesmo, não pensando só nisso, mas aquele
[00:10:56] trabalhador que na década de 90 tinha um computador e no computador
[00:10:58] tinha um e-mail, mesmo que seja arcaico,
[00:11:00] mesmo que seja, naquele
[00:11:02] período, o trabalho segue ele,
[00:11:04] começa a seguir. O trabalho se torna
[00:11:06] assim como, no filme
[00:11:08] Vá e Veja, não sei se
[00:11:10] vocês já assistiram,
[00:11:12] o nazista pairando
[00:11:13] eternamente sobre a cabeça
[00:11:15] da resistência.
[00:11:18] Então, aquela tensão contínua
[00:11:20] está sempre ali, o trabalho vai pra onde
[00:11:22] eu for, e etc.
[00:11:23] E isso vai gerando
[00:11:25] um sofrimento contínuo.
[00:11:29] Falei pra caramba.
[00:11:30] E acho que uma coisa que
[00:11:33] é interessante a gente observar
[00:11:35] é que essa dinâmica
[00:11:37] que está inserida hoje no mundo
[00:11:39] digital, nas plataformas
[00:11:41] de produção de conteúdo, ela é algo que está
[00:11:43] muito próxima mesmo
[00:11:45] da realidade da universidade,
[00:11:48] acho que principalmente da universidade
[00:11:49] pública, que mantém ainda uma linha
[00:11:51] de pesquisa, que mantém isso,
[00:11:53] e como essa lógica
[00:11:55] de trabalho contínua, ela está ligada
[00:11:57] a um conceito que é muito
[00:11:59] interessante, que o
[00:12:00] Deleuze trabalha, que é a ideia de
[00:12:03] sociedade não
[00:12:04] mais da disciplina. O Iribadon já
[00:12:07] debateu sobre isso, que na verdade a disciplina não
[00:12:09] acabou, os seus moldes
[00:12:11] Foucaultianos, etc.
[00:12:12] Mas como a gente tem agora muito mais uma sociedade
[00:12:15] que é
[00:12:17] pautada por esse
[00:12:18] por essa modulação.
[00:12:21] Então você não precisa
[00:12:23] ser controlado por ninguém.
[00:12:25] Por um intermediário, ou por
[00:12:27] um gerente,
[00:12:29] ou por um apito de fábrica.
[00:12:31] Esse controle é sobre
[00:12:33] você mesmo. Você se
[00:12:35] modula para se controlar
[00:12:37] e o quanto isso está próximo de uma
[00:12:39] etapa… O capataz
[00:12:41] está na sua mente.
[00:12:43] Exato, porque acho que
[00:12:46] dentro das dinâmicas
[00:12:47] socioeconômicas
[00:12:49] do neoliberalismo, a gente percebe
[00:12:51] que existe um desmonte de uma estrutura
[00:12:53] de segurança do trabalho.
[00:12:55] Então, na verdade,
[00:12:57] a gente lida com uma
[00:12:59] escassez fabricada.
[00:13:01] Uma escassez que é artificial.
[00:13:03] Então você não sabe se você vai ter emprego
[00:13:05] amanhã. Você não sabe se você vai ter recurso.
[00:13:08] Então você apela para esse
[00:13:09] tipo de… Você é obrigado a apelar
[00:13:11] para esse tipo de lógica.
[00:13:13] Se eu não trabalhar além das horas,
[00:13:15] eu posso perder meu emprego. E aí como é que eu vou pagar
[00:13:17] o meu aluguel que só aumenta? Como é que eu vou pagar
[00:13:19] as coisas que só aumentam? Como é que
[00:13:21] eu vou fazer tudo isso?
[00:13:23] E acho que na universidade,
[00:13:25] a gente caminha um pouco por isso.
[00:13:27] Eu e o Eribaldo, a gente conversou sobre isso na live que a gente
[00:13:29] fez. É disso,
[00:13:31] de existir uma sana produtivista
[00:13:33] e uma sana de
[00:13:35] culpabilização do sujeito.
[00:13:37] Bom, eu devia estar estudando,
[00:13:39] eu devia estar fazendo. Se eu não estou
[00:13:41] fazendo, se eu não estou trabalhando,
[00:13:44] pois,
[00:13:45] eu sou um merda mesmo. Eu sou um merda.
[00:13:47] E aí você fica nessa
[00:13:48] constante vigilância para produzir.
[00:13:52] Que é uma parada
[00:13:52] que eu acho que é a mais…
[00:13:55] Adoecedora, exatamente.
[00:13:57] É o que acho que provoca esse grande
[00:13:59] mal-estar. Trabalho continuado, né?
[00:14:01] Tem um ponto que eu acho que é fundamental,
[00:14:03] que o neoliberalismo é muito ardiloso
[00:14:05] nesse sentido. Ele consegue
[00:14:08] fazer algo, e na universidade
[00:14:09] isso se expressa muito através
[00:14:11] do látice. Eu entendo que
[00:14:13] todo mundo parte de lugares
[00:14:15] diferentes. O neoliberalismo, ele tem
[00:14:17] um cinismo. Ele não
[00:14:19] diz que todo mundo é necessariamente
[00:14:21] igual. Ele reconhece que as pessoas
[00:14:23] são diferentes, mas ele diz, ó,
[00:14:25] a partir do momento que você está
[00:14:27] aqui, velho, cabe a você fazer
[00:14:29] de algum jeito e gerir
[00:14:31] a sua vida de forma
[00:14:33] a você alcançar
[00:14:35] os resultados que os outros também estão alcançando.
[00:14:37] Porque, de alguma forma,
[00:14:39] o seu futuro depende do que você
[00:14:41] exclusivamente está fazendo.
[00:14:43] Então, seu futuro,
[00:14:45] no caso, por exemplo, eu acho que um exemplo
[00:14:47] emblemático disso é o Uber. Então, você está
[00:14:49] lá no seu Uber,
[00:14:51] você escolhe quanto tempo
[00:14:53] você vai trabalhar, quantos passageiros você vai trabalhar,
[00:14:55] vai pegar que corrida, vai pagar… É, escolhe
[00:14:57] entre aspas, né? Mas,
[00:14:59] subjetivamente, o que aparece é isso.
[00:15:01] Não tem ninguém colocando a arma na cabeça do
[00:15:03] trabalhador, obrigando a ele ser
[00:15:05] Uber, obrigando ele pegar a corrida,
[00:15:07] obrigando ele pegar a corrida pra tal,
[00:15:10] ainda que,
[00:15:11] obviamente, o grande
[00:15:13] segredo seja a construção de um
[00:15:15] modelo social em que,
[00:15:17] na verdade, a gente está vivendo uma guerra de todos
[00:15:19] contra todos. E caso você
[00:15:21] opte por não pegar, a exclusão
[00:15:23] é responsabilidade sua.
[00:15:25] E é por isso que é fundamental
[00:15:27] para o neoliberalismo destruir as dinâmicas
[00:15:29] de solidariedade social como o SUS,
[00:15:31] como escola pública,
[00:15:33] como dinâmicas
[00:15:35] da previdência, da seguridade
[00:15:37] social, porque essa
[00:15:39] ameaça da exclusão faz com que você,
[00:15:42] como o
[00:15:43] Biong Suhari diz uma coisa interessante,
[00:15:45] quando você não tem outra alternativa a não ser
[00:15:47] a sobrevivência, você faz qualquer coisa.
[00:15:50] Você faz qualquer coisa
[00:15:51] irrefletidamente, você apenas faz pra sobreviver.
[00:15:53] Na universidade, essa
[00:15:55] dinâmica vai sendo inserida de um modo
[00:15:57] de que, se todo o seu percurso universitário
[00:15:59] é guiado por dois
[00:16:01] caminhos, ou a inserção no mundo
[00:16:03] do trabalho, que pede cada vez
[00:16:05] mais qualificação, cada vez
[00:16:07] mais preparo,
[00:16:09] ou seja, cada vez mais o trabalhador tem que ser
[00:16:11] super preparado,
[00:16:13] que nem aquele meme, você tem que ter
[00:16:15] tanta classificação, tantas qualificações
[00:16:17] pra trabalhar, que o patrão provavelmente não seria
[00:16:19] aprovado na seleção de emprego
[00:16:21] que ele mesmo monta.
[00:16:23] Então você tem que ter tantas qualificações,
[00:16:25] isso aqui especialmente pros alunos de universidade
[00:16:27] privada, que estão muito mais preocupados
[00:16:29] com ir direto pra um mercado
[00:16:31] de trabalho, ou, por exemplo,
[00:16:33] a maioria dos estudantes de escola
[00:16:34] da universidade pública, que tem um caminho
[00:16:37] mais acadêmico, de seguir uma
[00:16:39] carreira acadêmica.
[00:16:41] Pra você seguir a carreira acadêmica, você tem
[00:16:43] que também ter um número de qualificações
[00:16:45] de X,
[00:16:47] que tá, no caso, do
[00:16:49] Lattes, né? Você tem que pontuar, publicar
[00:16:51] numa revista Qualis, não sei o quê,
[00:16:53] e assim por diante. E veja,
[00:16:55] não vai ter nenhum professor lhe obrigando a publicar,
[00:16:57] nenhum diretor
[00:16:59] lhe obrigando a publicar, e assim por diante.
[00:17:01] Você tem que publicar por quê?
[00:17:03] Caso você não publique, você está fora.
[00:17:07] E aí,
[00:17:07] independente de se você veio
[00:17:09] de uma
[00:17:10] comunidade no extremo
[00:17:14] da região
[00:17:15] metropolitana do Recife, você
[00:17:17] precisa fazer uma
[00:17:19] trajetória de quatro horas
[00:17:21] e fique sem comer na universidade,
[00:17:23] porque você não tem grana de
[00:17:25] bolsa de manutenção,
[00:17:28] ou se você é filho de uma
[00:17:29] família rica,
[00:17:32] os parâmetros
[00:17:33] são iguais, e as responsabilidades
[00:17:36] são iguais.
[00:17:37] Então você cria um contexto
[00:17:39] em que não há mais,
[00:17:41] como antigamente,
[00:17:43] aquele meme do burguês rico, gordo,
[00:17:45] que ficava caindo comida,
[00:17:47] enquanto embaixo dele ficavam os pobres pegando
[00:17:49] migalha. Essa figura central
[00:17:51] da opressão, ela some
[00:17:53] em troca do,
[00:17:55] você se torna
[00:17:57] o gestor da sua própria empresa.
[00:17:59] E no que se traduz isso?
[00:18:01] Se traduz, por exemplo, na ideia de capital
[00:18:03] cultural, ou então de capital pessoal,
[00:18:06] ou então da educação
[00:18:07] enquanto investimento em si próprio.
[00:18:09] Vou fazer um idioma porque eu vou investir em mim mesmo.
[00:18:12] E a ideia do investimento
[00:18:13] é para você ter um retorno. Retorno o quê?
[00:18:15] Na carreira acadêmica, na inserção
[00:18:17] do mundo do trabalho. Você começa
[00:18:19] a gerenciar o seu tempo, a sua
[00:18:21] vida, em torno de metas
[00:18:23] e objetivos, em torno
[00:18:25] de ganhos, custos e benefícios
[00:18:28] como a empresa.
[00:18:29] Ou seja, é a gramática da empresa que você
[00:18:31] internaliza de tal modo que
[00:18:33] faz com que você perca
[00:18:35] essa barreira que o Zé Miliano
[00:18:37] falou, essa barreira do trabalho.
[00:18:39] Porque se você, a partir de agora,
[00:18:41] é o seu próprio gestor,
[00:18:43] você deve explicar só a você mesmo, como diz
[00:18:45] Agostinho Carrara. Se você é o seu próprio
[00:18:47] patrão, você é o seu próprio empregado.
[00:18:49] E se você é o seu próprio empregado, você deve
[00:18:51] satisfação a você mesmo. Então você não tem
[00:18:53] como pedir folga porque você, como patrão,
[00:18:55] não vai dar folga para o seu empregado.
[00:18:57] Então você fica nesse dilema de
[00:18:59] Agostinho Carrara,
[00:19:01] internalizado as últimas consequências.
[00:19:03] Você não vai conseguir sair disso facilmente.
[00:19:06] E aí vem um ponto
[00:19:06] que é interessante. A depressão,
[00:19:09] o termo depressão, ele surge
[00:19:11] na psicologia e na psiquiatria,
[00:19:13] mas é um termo emprestado da economia.
[00:19:16] É um termo que surge na economia
[00:19:17] e a psiquiatria e a
[00:19:19] psicologia roubam
[00:19:21] esse conceito. E o que
[00:19:23] é a ideia da depressão? Você projeta
[00:19:25] um crescimento econômico, você projeta um ideal,
[00:19:27] por assim dizer, um ideal
[00:19:29] de progresso, de desenvolvimento.
[00:19:32] E caso esse ideal não seja
[00:19:33] alcançado, você entra em depressão.
[00:19:35] A empresa entra em depressão, o Estado entra em depressão.
[00:19:38] A mesma coisa a partir
[00:19:39] do momento que a gente assume a lógica empresarial.
[00:19:41] A gente assume essa lógica de gestão.
[00:19:44] A gente assume um
[00:19:45] projeto de vida, essa ideia de projeto
[00:19:47] de vida é muito boa também. Ou então
[00:19:49] a revista que tem no Brasil. O Brasil é a terra de
[00:19:51] Paulo Freire e, portanto, é didática.
[00:19:53] A revista Você S.A.
[00:19:55] Você se assume enquanto esse sujeito
[00:19:57] e caso esse ideal que você
[00:19:59] projete não seja alcançado
[00:20:01] por N motivos, porque a gente
[00:20:03] no Brasil tem todos os motivos para não alcançar,
[00:20:05] enfim, a gente
[00:20:07] entra em depressão.
[00:20:09] É por isso que um sociólogo que é amigo
[00:20:11] do DeJorges, que é o
[00:20:12] Alan Arenberg, diz o seguinte. A depressão é
[00:20:15] um cansaço de
[00:20:17] ser si mesmo. Você desistiu dessa empreitada
[00:20:19] de ser o gestor
[00:20:21] da sua própria vida. Você abre mão.
[00:20:22] O quanto isso está ligado mesmo a uma forma de gestão?
[00:20:25] É meio pós-disciplinar, né?
[00:20:28] Acho que
[00:20:29] existe, principalmente ali nos
[00:20:30] economistas da Escola de Chicago, do qual
[00:20:33] o senhor Paulo Nuguedes
[00:20:35] faz parte, essa ideia
[00:20:37] de que passa
[00:20:39] para o sujeito e o indivíduo
[00:20:40] todo o peso e a responsabilidade
[00:20:43] para investir sobre si mesmo.
[00:20:45] Como o Eribaldo falou,
[00:20:46] existe um certo capital humano. Então,
[00:20:49] você deve gerenciar todas as
[00:20:51] suas ações e todos os seus
[00:20:52] modelos de desenvolvimento de forma
[00:20:55] que eles te gerem
[00:20:56] vantagens, de que eles te gerem
[00:20:59] interesse.
[00:21:00] Não é à toa que o termo
[00:21:02] interest,
[00:21:03] por inglês, é justamente
[00:21:07] essa ideia de algo que
[00:21:08] rende no futuro.
[00:21:10] O quanto da sua ação pode render
[00:21:13] para você, o quanto ela pode ser
[00:21:14] valiosa e você tem
[00:21:17] que estar disposto a pagar esse preço.
[00:21:19] Puro e simplesmente.
[00:21:21] Quem pensa muito nessa questão
[00:21:22] é um dos filósofos da Escola de Chicago,
[00:21:25] Harry Becker.
[00:21:26] Essa ideia de que
[00:21:28] o sujeito, nessa colocação
[00:21:30] de autovalorização,
[00:21:32] ele mesmo se converte em capital.
[00:21:35] Numa sociedade que está totalmente
[00:21:37] desprovida de um bem-estar,
[00:21:39] de uma rede de amparo social,
[00:21:42] é isso, é todos contra
[00:21:43] todos, porque eu não sei o que eu vou
[00:21:44] comer na semana que vem, não sei se eu vou
[00:21:47] ter emprego, eu não sei o que vai acontecer.
[00:21:48] Então, se cria justamente essa falsa
[00:21:51] ideia de que
[00:21:52] é uma escolha,
[00:21:55] é simplesmente uma escolha
[00:21:57] pessoal, o quanto
[00:21:58] essa dinâmica que promove esse
[00:22:00] adoecimento, esse mal-estar, está ligado
[00:22:02] também a uma forma patologizadora
[00:22:05] e moralista,
[00:22:07] do tipo, pô, se você não
[00:22:08] conseguiu, é porque você
[00:22:11] não quis.
[00:22:12] Se você não conseguiu, é porque você não
[00:22:14] estava afim. E aí não é à toa que
[00:22:16] hoje a gente vê proliferar por aí
[00:22:18] esse tanto de discurso
[00:22:21] de coach quântico,
[00:22:22] programação de DNA,
[00:22:24] e o caralho a quatro,
[00:22:26] porque ele
[00:22:27] subverte essa ideia
[00:22:30] no âmago, ele fala
[00:22:31] o problema é você,
[00:22:34] que não se reprogramou, que não se
[00:22:36] repensou, que não despertou o
[00:22:38] leão em si, que
[00:22:39] não dá o seu grito da masculinidade,
[00:22:42] porque todo mundo
[00:22:44] aqui quer ouvir,
[00:22:45] fala aí, Fortean!
[00:22:48] Caraca, muito bom, esse negócio do grito da
[00:22:50] masculinidade é um dos momentos
[00:22:51] mais memoráveis da história brasileira.
[00:22:54] Cara, e um parênteses rápido sobre
[00:22:55] isso, eu acho impressionante, né, porque ele
[00:22:57] manda todos os homens levantarem,
[00:22:59] as mulheres ficam sentadas olhando, eu fico pensando,
[00:23:01] mano, o que que passou?
[00:23:03] Sério, eu pagaria
[00:23:05] a alma do Olavo de Carvalho, que agora não dá
[00:23:07] mais, pra ver,
[00:23:09] pra acessar o que que
[00:23:11] aquelas mulheres estavam pensando vendo aquela cena,
[00:23:13] falando, meu, o que que é isso? Os caras gritando
[00:23:15] igual uns gorilas no auditório.
[00:23:17] Eu acho que dá pra saber
[00:23:20] o que que elas estavam pensando naquele momento ali,
[00:23:21] só de olhar elas rindo, né? Os caras com o cara
[00:23:24] sério, aí elas tipo assim, pô, tá de sacanagem,
[00:23:26] né, velho?
[00:23:28] Paguei pra estar aqui?
[00:23:29] Porra, homem é um bicho que só,
[00:23:32] porra, é zoado demais, né?
[00:23:34] Homem é foda. Mas, cara,
[00:23:35] essa questão,
[00:23:38] né, quando a gente fala do neoliberalismo,
[00:23:40] né, dessa individualização, inclusive
[00:23:41] no serviço social, quando eu tava no processo de formação,
[00:23:43] a gente falava muito o termo psicologização
[00:23:45] da questão social, né?
[00:23:49] Eu acho que
[00:23:49] não necessariamente, não é um
[00:23:51] termo muito bom, né, pra ser utilizado, mas, enfim,
[00:23:53] utilizava muito e tudo mais, mas, na verdade, é a questão da
[00:23:55] individualização ao máximo, né,
[00:23:57] da questão social, das expressões da questão
[00:23:59] social, lembrando a todo mundo,
[00:24:01] atenção pra nós, já rodar pé no meio do podcast,
[00:24:03] que a questão social é o embate entre o capital,
[00:24:06] né, o patronado e
[00:24:07] os trabalhadores, né, e
[00:24:09] luta dos trabalhadores contra isso
[00:24:11] que gera suas expressões, né, como
[00:24:13] pauperismo, né, como a violência
[00:24:16] das mais variadas formas
[00:24:17] possíveis dentro do capitalismo, como
[00:24:19] as expressões, né, as
[00:24:21] milhares de expressões da xenofobia,
[00:24:23] do racismo, etc., como a
[00:24:25] questão agrária, né, como a não
[00:24:27] divisão da
[00:24:28] terra, né, enfim, a concentração
[00:24:31] de terras aí na mão de
[00:24:33] poucos e o que isso gera na nossa política,
[00:24:35] etc., etc., etc.,
[00:24:37] e
[00:24:38] quando a gente falava, né, e discutia
[00:24:41] isso, era uma coisa muito interessante
[00:24:43] porque, veja, neoliberalismo
[00:24:45] enquanto
[00:24:46] racionalidade, né, a gente tem
[00:24:49] que lembrar, a racionalidade irracional,
[00:24:51] né, enfim,
[00:24:52] enquanto racionalização
[00:24:55] do processo político
[00:24:56] na nossa sociedade, né,
[00:24:59] acompanhando o modo
[00:25:01] de produção e a mudança
[00:25:03] do modo de produção ali, principalmente
[00:25:05] na década de 70, apesar do neoliberalismo
[00:25:07] ter as suas raízes antes
[00:25:09] da década de 70, né,
[00:25:10] e as suas expressões mais
[00:25:12] profícuas, né, assim, mais relatadas
[00:25:15] antes da década de 70, quando a gente pensa, por exemplo,
[00:25:17] no livro do
[00:25:19] Frederic Hayek, né, que é
[00:25:20] O Caminho da Servidão, que ele faz
[00:25:23] um embate ali, a concepção keynesiana
[00:25:25] de execução do Estado, etc., e tudo mais,
[00:25:27] e aí, naquele momento do processo
[00:25:29] de produção de massa,
[00:25:30] que tem no início
[00:25:33] do século XX,
[00:25:34] e quando ele monta ali a sociedade
[00:25:37] de Monte Pelerin, né, que, inclusive,
[00:25:39] estava Milton Friedman, né, essas
[00:25:41] figuras execráveis,
[00:25:43] Milton Friedman, o próprio Ludwig
[00:25:45] von Mises, né, estava na sociedade
[00:25:46] de Monte Pelerin também, né, enfim,
[00:25:48] mas era uma pessoa mais apagada ali, porque,
[00:25:50] era meio abelolado, né,
[00:25:52] inclusive, né,
[00:25:54] continua sendo um cara abelolado, ninguém liga pra ele
[00:25:56] na universidade,
[00:25:59] no mundo, né, enfim,
[00:26:00] tem esse fenômeno aí
[00:26:01] dessa galera que a gente sabe quem é.
[00:26:05] Enquanto esse processo
[00:26:06] de individualização, que ele expressa
[00:26:08] muito bem ali, naquele livro,
[00:26:10] quando ele vira e fala assim que
[00:26:12] o desemprego, a taxa natural de desemprego
[00:26:15] é extremamente necessária, porque assim
[00:26:16] você produz uma competição
[00:26:18] dos trabalhadores, entre os trabalhadores,
[00:26:20] e, por sua vez, através dessa
[00:26:22] competição dos trabalhadores, entre os
[00:26:24] trabalhadores, você vai gerar um trabalhador melhor,
[00:26:27] né, um trabalhador mais
[00:26:28] capacitado, etc.,
[00:26:31] enfim, né, que acaba se gerando aí,
[00:26:33] é um trabalhador cada vez mais necessitado,
[00:26:34] mais desesperado, por uma posição
[00:26:36] no mercado de trabalho, formal ou
[00:26:38] informal, né, e uma precarização
[00:26:41] do trabalho, uma precarização da vida,
[00:26:43] uma precarização
[00:26:43] da mente
[00:26:47] humana, uma precarização
[00:26:48] da saúde mental, uma precarização da saúde física,
[00:26:50] enfim, quando a gente
[00:26:52] quando a gente pensa no neoliberalismo enquanto isso,
[00:26:54] e a gente vive o neoliberalismo da melhor
[00:26:56] forma possível, né, nesse momento,
[00:26:59] eu, o Zamiliano, produzindo aqui na
[00:27:00] Twitch, fazendo a produção ali
[00:27:02] no Revoluchow,
[00:27:05] né, enfim, produzindo
[00:27:06] no meu processo de trabalho como assistente
[00:27:08] social no Estado brasileiro também,
[00:27:10] obviamente, é uma produção completamente diferente,
[00:27:12] né, quando a gente fala do servidor público
[00:27:14] no Estado, né, são uns 500,
[00:27:16] não é a mesma coisa que o operário que está produzindo mais valia,
[00:27:18] eu estou ali, né, operando a
[00:27:20] máquina estatal para produzir consenso
[00:27:23] e para produzir
[00:27:24] formas de que o capitalismo não caia, né,
[00:27:27] naquele momento,
[00:27:28] olha a contradição aí contínua, né,
[00:27:30] na nossa existência,
[00:27:32] né, enquanto eu estou aqui produzindo
[00:27:34] tudo isso e etc, eu estou me culpando
[00:27:36] por esse processo, por esse processamento também,
[00:27:38] né, isso é muito interessante, porque, por exemplo,
[00:27:40] quando eu estou no processo de trabalho, como no Estado,
[00:27:43] né, no Estado,
[00:27:44] eu não tenho essa pressão, eu não volto para casa
[00:27:46] quando eu saio do trabalho e fico pensando assim,
[00:27:48] de vez em quando eu fico, só quando o caso é mais pesado, né,
[00:27:50] putz, eu tenho que fazer um relatório,
[00:27:52] eu tenho que fazer tal coisa, eu tenho que produzir não sei o que,
[00:27:54] mas enquanto produtor de
[00:27:56] conteúdo
[00:27:58] na internet, né, no RevoluShow,
[00:28:00] na Twitch, eu fico com essa coisa
[00:28:02] assim de, putz, eu tenho que produzir conteúdo,
[00:28:04] qual o tema que eu vou trazer para essa semana,
[00:28:06] o que eu vou fazer, como é que eu vou
[00:28:08] produzir isso, etc, então assim, tem
[00:28:10] o cansaço, que é o
[00:28:12] cansaço não visto, né,
[00:28:14] e isso é uma coisa assim que
[00:28:16] é desesperador,
[00:28:18] né, e eu acredito profundamente que
[00:28:20] que
[00:28:20] para a pessoa que está na universidade,
[00:28:22] que está no processo ali do mestrado,
[00:28:24] que está no processo do doutorado, que está na graduação,
[00:28:27] né, na graduação ali,
[00:28:28] não sei se dá para falar sobre
[00:28:30] num nível
[00:28:32] um pouco menor, enfim, porque
[00:28:34] parece que para mim, né, o mestrado e o doutorado
[00:28:36] é mais amaldiçoado, né,
[00:28:39] no processo
[00:28:41] de formação
[00:28:42] acadêmica, ele está ali
[00:28:44] num processo em que está
[00:28:46] esse sofrimento não visto, né, o operário,
[00:28:48] você, né,
[00:28:50] tem o sofrimento não visto também,
[00:28:52] porque o operário está ali pensando assim, porra,
[00:28:53] meu salário está uma merda, eu tenho que resolver as questões
[00:28:55] aqui da minha casa, eu tenho que resolver isso,
[00:28:58] e ao mesmo tempo você tem
[00:28:59] um processo de sofrimento visto mais diretamente
[00:29:01] que você vê o cara lá levantando não sei quantos
[00:29:03] quilos de aço, levando
[00:29:05] para uma determinada esteira, você olha
[00:29:07] para a cara do maluco e fala assim, porra, esse maluco vai cair duro aí
[00:29:09] daqui a pouco, hein, e esse sofrimento
[00:29:11] não visto na universidade, eu acho que deve ter
[00:29:13] um nível de desespero, né,
[00:29:16] muito grande, porque
[00:29:17] é, é, e de
[00:29:19] tortura, né,
[00:29:20] e de tortura contínua, e aí a gente entra num processo
[00:29:22] quando a gente discute, por exemplo, o assédio
[00:29:24] moral, né,
[00:29:26] eu estava lembrando esse,
[00:29:29] deu uma aula agora na Universidade
[00:29:30] Federal Fluminense, né, sobre
[00:29:32] o processo de trabalho do assistente social,
[00:29:35] essa semana, aliás, né,
[00:29:36] acho que foi na segunda-feira, dia 25,
[00:29:39] ou foi na terça, acho que foi na terça,
[00:29:40] e aí
[00:29:42] eu estava lembrando de um
[00:29:45] texto, né, Marildo Yamamoto,
[00:29:46] uma autora muito conhecida do serviço social,
[00:29:48] que ela vai falar sobre
[00:29:50] sobre a tortura que ela sofreu na ditadura militar,
[00:29:53] né, e até
[00:29:54] 2013, 2014, ela nunca tinha falado sobre isso,
[00:29:57] ela nunca tinha falado, nunca tinha falado
[00:29:58] nenhuma vez sobre isso, e ela conversando
[00:30:01] com um amigo psicanalista, né, falando sobre isso
[00:30:03] e tudo mais, falou assim, não, mas eu nunca toquei
[00:30:04] nesse assunto da tortura, etc, e ele falou uma coisa
[00:30:06] que eu achei interessantíssima, que foi o que fez
[00:30:09] ela, ela
[00:30:10] decidir por falar, que era
[00:30:12] que era o seguinte, né, mas é pra isso que serve
[00:30:15] a tortura, é pra você não falar,
[00:30:16] não é pra você falar,
[00:30:18] é pra você ficar na sua, é pra isso que ela
[00:30:21] existe, e aí ela falou assim, não,
[00:30:23] bom, se não é pra não falar, então eu vou falar, né,
[00:30:25] e aí ela escreve sobre isso,
[00:30:27] então tem muito dessa coisa do assédio moral
[00:30:29] e dessa pressão contínua na cabeça
[00:30:30] do trabalhador, né, acadêmico,
[00:30:33] do trabalhador, enfim,
[00:30:35] da área de tecnologia,
[00:30:36] das demais áreas profissionais
[00:30:39] aí que também estão nessa,
[00:30:40] não tem esse limite do espaço de trabalho,
[00:30:43] né, delimitado, tipo, é aquela casa
[00:30:45] ali que eu trabalho, quando eu saio dali eu não consigo
[00:30:46] fazer mais nada,
[00:30:48] ele tem esse processo de tortura
[00:30:51] contínua, e por ter esse processo de
[00:30:53] tortura contínua, por muitas
[00:30:54] vezes ele não fala,
[00:30:57] ele não fala, porque vem toda uma
[00:30:58] pressão moral do trabalho, que é do tipo
[00:31:00] assim, você tem que agradecer pelo trabalho que você tem,
[00:31:03] tem muita gente desempregada, e aí vem o
[00:31:04] neoliberalismo, né, tem muita gente desempregada, tem duzentos
[00:31:06] aí na porta querendo entrar, né,
[00:31:09] você tem que agradecer a Deus que você tem esse negócio
[00:31:10] aí, sabe, então vem todo esse
[00:31:12] processo na cabeça
[00:31:14] gerando um sofrimento tão contínuo
[00:31:16] na vida dele, né, tão
[00:31:18] contínuo na cabeça dele,
[00:31:20] né, que isso pode
[00:31:22] explodir das mais variadas formas,
[00:31:24] não à toa, né, nós temos aqui no nosso
[00:31:26] país, uma das maiores taxas
[00:31:28] de ansiedade do mundo,
[00:31:30] né, de transtorno de ansiedade,
[00:31:33] de uso de
[00:31:34] medicações como o Rivotril, por exemplo,
[00:31:36] um dos maiores consumidores de Rivotril no mundo
[00:31:38] é o Brasil, ah, mas o Brasil é um país
[00:31:40] alegre, aí tem isso também, né, pra ter a opressão do
[00:31:42] país alegre, o país é todo alegre,
[00:31:44] carnaval é massa e eu tô triste, será que eu tô errado?
[00:31:46] Sabe?
[00:31:48] Tá toda hora na mídia falando que, porra, tem que ser
[00:31:51] feliz, tem que gozar, é gostoso
[00:31:53] demais, nossa, porra, é foda,
[00:31:55] é um país de todo, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá,
[00:31:57] mas eu tô triste, será que eu tô errado?
[00:32:00] Né, e aí, isso soma
[00:32:01] mais ali uma, mais uma, mais um tijolo
[00:32:03] no muro da desgraça, né, do sofrimento
[00:32:05] psíquico.
[00:32:07] A Maria Rita Kelton tem uma frase muito boa,
[00:32:09] né, que é, ela fala o seguinte,
[00:32:11] é somente numa sociedade
[00:32:13] em que todos são obrigados a ser
[00:32:15] feliz que a depressão se torna possível,
[00:32:18] porque você
[00:32:18] termina moralizando a tristeza
[00:32:20] como algo
[00:32:21] é, intrinsecamente negativo
[00:32:24] e, e, isso é um problema,
[00:32:26] é claro que o sofrimento, que a tristeza
[00:32:29] e a dor é algo negativo,
[00:32:31] é um afeto negativo,
[00:32:32] mas isso não significa que isso não faça parte
[00:32:35] da existência humana
[00:32:37] e que isso não tenha uma dimensão
[00:32:39] de crítica
[00:32:41] pra, da própria vida, de autocrítica,
[00:32:43] mas também de crítica
[00:32:44] dos vínculos sociais, crítica do mundo
[00:32:47] que nos cerca,
[00:32:48] um afeto potencialmente crítico,
[00:32:52] dizendo que ele não,
[00:32:54] não deve ser ouvido,
[00:32:56] portanto, seja feliz, o tempo inteiro.
[00:32:59] Então, silencia
[00:33:00] o seu sofrimento com o Rivotril, com o Prozac
[00:33:02] e assim por diante, então você termina
[00:33:04] Vendo a timeline do Instagram dos outros
[00:33:06] Exatamente, aí você entra
[00:33:08] nessa espiral que é interessante
[00:33:10] que Lacan, ele vai dizer que Marx
[00:33:12] foi o primeiro cara que inventou o sintoma
[00:33:14] Marx foi o inventor do sintoma
[00:33:16] Ele vai dizer, ó, não foi Hipócrita,
[00:33:18] não foi
[00:33:19] os médicos, não foram os anatomistas
[00:33:23] foi Marx que inventou o sintoma
[00:33:24] porque Marx percebeu que
[00:33:26] na produção humana, na forma
[00:33:28] do ser humano fazer a sua vida, a sua existência
[00:33:31] escapa algo
[00:33:32] que retorna
[00:33:34] sobre a forma de um sintoma que Marx
[00:33:36] chamou lá de, da alienação
[00:33:39] também do fetichismo, né
[00:33:40] esses, esses
[00:33:41] conceitos que Marx trabalhou tão bem, né
[00:33:44] e Lacan vai dizer, ó
[00:33:46] o Lacan, ele começa
[00:33:48] a perceber a mudança do neoliberalismo
[00:33:50] ele vai dizer, ó, isso
[00:33:51] que tá sobrando, a gente pode chamar também de
[00:33:53] mais gozar, ou seja
[00:33:55] de uma linguagem que sai da porta da fábrica
[00:33:58] e ele não leva tanto
[00:34:00] trabalho pra casa, mas o que é que o neoliberalismo
[00:34:02] faz nesses casos? Tem, por exemplo,
[00:34:04] demissões em massas, tem nenhuma
[00:34:06] causa, então, por exemplo
[00:34:08] de tanto em tanto tempo a empresa vai
[00:34:10] reduzir o quadro de funcionário aleatoriamente
[00:34:12] isso gera um
[00:34:14] medo e uma ansiedade, uma concorrência
[00:34:16] interna na qual os trabalhadores
[00:34:18] ao invés de se unir
[00:34:20] pra pautar politicamente, eles
[00:34:22] nem se unem, porque há um exército de
[00:34:24] reserva gigantesco
[00:34:25] e por outro lado, eles também estão
[00:34:27] competindo entre si pra não serem demitidos
[00:34:30] é uma engenharia
[00:34:34] ardilosa ao extremo
[00:34:36] do mesmo jeito, isso vai
[00:34:38] sendo transpassado
[00:34:40] pra, quem
[00:34:41] fala muito disso é o Ricardo Antunes
[00:34:44] falando da transição do
[00:34:46] Fordismo pro Toyotismo, né
[00:34:48] com aquele jeitinho fofo que ele fala
[00:34:50] né
[00:34:50] ele é bem fofinho falando, eu acho
[00:34:55] mas enfim, na universidade
[00:34:58] eu queria ter os
[00:35:00] áudios até hoje, do Ricardo Antunes
[00:35:02] mandando o áudio pra mim, a passão que a gente fez
[00:35:04] Zabiniano, aqui é o Ricardo
[00:35:06] muito bom
[00:35:07] Ricardo é fofo demais, tá maluco
[00:35:09] é muito fofo, e a universidade adere
[00:35:12] isso, de certa forma
[00:35:13] e eu acho que o coração disso
[00:35:16] é o sistema de avaliação
[00:35:18] o que é que acontece, né
[00:35:19] tanto universidades
[00:35:22] enfim, a partir
[00:35:24] de um certo momento, as universidades privadas
[00:35:26] passam a receber dinheiro público
[00:35:28] passam a receber
[00:35:29] massivamente dinheiro público
[00:35:32] mas as universidades públicas
[00:35:34] elas entram numa lógica
[00:35:35] de gestão neoliberal
[00:35:37] e aí entra um ponto que é
[00:35:39] isso, rapidamente
[00:35:42] isso que você falou, né, é só lembrar aí
[00:35:44] pra quem tá ouvindo a gente, porra, 5S
[00:35:46] sabe
[00:35:48] esses mecanismos de gestão do trabalho
[00:35:50] e aí entra aquela, né
[00:35:54] se o professor, ele não
[00:35:56] produz o que ele deve
[00:35:59] produzir, ele ganha
[00:36:00] um salário X, se ele produz
[00:36:02] um pouco mais, ele vai ter uma bonificação
[00:36:04] e assim por diante
[00:36:05] essa produção dele, por outro lado, não tem só
[00:36:08] um cunho individual
[00:36:09] tem também um cunho de
[00:36:12] a produção dele impacta na
[00:36:14] produção do departamento e impacta
[00:36:16] no quanto diverbe esse departamento
[00:36:18] vai receber
[00:36:19] assim como a produção dos
[00:36:22] orientandos, doutorandos, mestrandos
[00:36:24] e graduandos de iniciação científica
[00:36:26] etc, também a produção
[00:36:28] deles impacta no quanto
[00:36:30] de repasso de verba
[00:36:32] o departamento vai receber
[00:36:34] e a produção do conjunto
[00:36:36] dos departamentos vai impactar
[00:36:38] na quantidade de verba que a
[00:36:40] universidade vai receber
[00:36:41] ou seja, isso cria uma lógica
[00:36:44] de uma concorrência
[00:36:45] desenfreada e de autoconfiança
[00:36:48] e de cobrança do seu coleguinha
[00:36:50] do seu companheiro, do seu camarada
[00:36:52] interna, que é brutal
[00:36:54] que é brutal, ou seja
[00:36:56] o departamento não vai querer
[00:36:58] perder dinheiro, portanto vai haver uma cobrança
[00:37:00] interna, os professores vão cobrar
[00:37:02] se cobrar entre si, vão cobrar os alunos
[00:37:04] abandonando
[00:37:06] algo que é muito importante, que é
[00:37:08] o neoliberalismo, ele
[00:37:10] destrói todo tipo
[00:37:12] de vínculo moral e ético
[00:37:14] onde ele se estabelece
[00:37:16] é interessante que o Gary Becker
[00:37:18] é um exemplo muito bom disso que eu chamo
[00:37:20] de abandono moral e ético
[00:37:21] o Gary Becker disse, eu estava atrasado para uma palestra um dia
[00:37:24] e
[00:37:26] poxa, quando eu passei na frente do local
[00:37:28] que eu estava fazendo palestra, eu estava chegando já
[00:37:30] em cima da hora
[00:37:31] e tinha uma vaga de estacionamento que era um local
[00:37:34] proibido para estacionamento de ambulância
[00:37:36] perto do hidrômetro, algo assim
[00:37:38] ele disse, eu tinha duas opções
[00:37:41] me atrasar e procurar
[00:37:42] uma vaga legal
[00:37:44] ou estacionar
[00:37:46] numa vaga proibida
[00:37:48] e arcar com a multa
[00:37:50] que eu poderia levar ou não, a depender
[00:37:52] se tem um guarda passando, etc
[00:37:53] mas chegar na hora
[00:37:56] eu optei por estacionar
[00:37:58] na vaga proibida, cheguei
[00:38:00] na hora e não levei uma multa
[00:38:01] ele fez, isso aqui explica
[00:38:04] bem a racionalidade
[00:38:06] neoliberal, e tu falou exatamente
[00:38:08] isso, Zé Mileto, a racionalidade
[00:38:10] neoliberal, ou seja, o neoliberalismo é lógico
[00:38:12] que o capitalismo é um sistema
[00:38:14] produtivo, como o Marx
[00:38:16] nos coloca, mas também é um
[00:38:18] sistema de produção de subjetividade
[00:38:20] ou seja, o que é que o Becker
[00:38:22] está dizendo? A ação humana
[00:38:24] é permeada por um cálculo de custo-benefício
[00:38:26] não importa
[00:38:27] a moralidade não está
[00:38:30] nesse cálculo, então se
[00:38:32] ele levar uma multa ou não, ele
[00:38:33] vamos dizer assim, correu o risco
[00:38:36] faz parte do cálculo
[00:38:38] de custo e benefício, ele achou que
[00:38:40] bem, poderia ser
[00:38:41] isso serve pra você
[00:38:43] na universidade
[00:38:45] participar ou não de um coletivo político
[00:38:48] participar ou não de uma luta
[00:38:49] coletiva, participar
[00:38:52] ajudar ou não o seu
[00:38:54] colega de curso com um texto
[00:38:56] porque eu já vi gente que se negava
[00:38:58] da informação, etc, porque
[00:39:00] claro, você quer guardar aquela fonte
[00:39:02] você quer guardar aquele
[00:39:03] aquela informação que você tem pra sua
[00:39:06] pesquisa e não compartilhar
[00:39:08] e etc, né
[00:39:10] cria-se um sistema de produção
[00:39:11] que o ético ficou de lado
[00:39:14] o moral ficou de lado
[00:39:16] e o que é que sobra da educação?
[00:39:18] nesse processo da pesquisa
[00:39:19] uma incessante bola de neve
[00:39:22] produtiva de artigo mais artigo
[00:39:24] mais artigo que você tem que produzir
[00:39:25] o professor tem que produzir 2, 3, o aluno
[00:39:27] 2, 3 por ano e etc
[00:39:29] mas ao mesmo tempo, e eu coloco isso no livro
[00:39:32] paradoxalmente não surgiu nenhum
[00:39:34] Marx, não surgiu nenhum
[00:39:36] Nietzsche, não surgiu nenhum
[00:39:37] Wittgenstein
[00:39:39] pra dar exemplo de 3 intelectuais
[00:39:42] independente da gente gostar ou não
[00:39:43] mas de 3 intelectuais
[00:39:46] que se hoje
[00:39:48] tivessem um lado, seriam um fracasso
[00:39:50] Marx, Wittgenstein
[00:39:52] Nietzsche, por exemplo
[00:39:53] seriam intelectuais que seriam
[00:39:56] fracassados no mundo acadêmico
[00:39:58] Marx não entregava nada no prazo
[00:40:00] não entregava
[00:40:02] nada no prazo
[00:40:03] Nietzsche escrevia em aforismas
[00:40:06] Wittgenstein escreveu
[00:40:08] 2, 3 livros e parou
[00:40:10] foi fazer jardinagem
[00:40:11] então
[00:40:13] bem, seria um fracasso
[00:40:15] no entanto, você tem intelectuais
[00:40:18] que mudaram a história
[00:40:19] do pensamento
[00:40:20] ou impactaram de alguma forma
[00:40:23] a produção intelectual
[00:40:25] o debate público, como esses autores
[00:40:27] impactaram pro bem ou pro mal
[00:40:28] graças a esse sistema
[00:40:31] ultraprodutivista
[00:40:33] não, mas o que a gente tem em resposta a isso
[00:40:35] é
[00:40:36] professores, técnicos, alunos
[00:40:39] e terceirizados vivendo um ambiente
[00:40:41] de ameaça constante
[00:40:43] de disputa constante
[00:40:46] e de adoecimento
[00:40:47] como parte fundamental
[00:40:49] então você tem, e eu coloco inclusive
[00:40:51] a citação de uma professora
[00:40:53] em uma pesquisa
[00:40:55] que ela diz, a graduação ficou
[00:40:57] abandonada porque ela não dá nada
[00:40:59] pro professor
[00:41:00] a extensão ficou abandonada porque ela não dá nada
[00:41:03] pro professor e pro departamento, não dá grana
[00:41:05] a pós-graduação
[00:41:07] por outro lado, o professor se joga em cima
[00:41:09] numa sanha de cobrar o máximo
[00:41:11] o pós-graduando se cobra
[00:41:13] porque como mestrando ou doutorando
[00:41:15] ele quer entrar na carreira universitária
[00:41:17] ele quer entrar na carreira acadêmica
[00:41:19] então ele vai assumir aquela cobrança quanto dele
[00:41:21] criando um círculo vicioso
[00:41:23] onde, bem
[00:41:25] no Brasil a gente é um dos países
[00:41:28] que tem o maior número de ansiosos no mundo
[00:41:29] mas a média do Brasil é muito
[00:41:31] abaixo da média da universidade
[00:41:33] por exemplo
[00:41:35] então você tem, por exemplo, na graduação
[00:41:38] o índice
[00:41:40] de depressão acima dos
[00:41:41] 9%, que é
[00:41:44] muito alto
[00:41:44] o índice de ansiedade acima
[00:41:46] dos 19%
[00:41:47] é um índice muito alto
[00:41:49] depressão patológica
[00:41:51] não sintomas espaços
[00:41:53] ansiedade patológica
[00:41:55] e o índice de mal estar
[00:41:56] chegando a 87%
[00:41:59] ou seja, são números
[00:42:02] assustadores
[00:42:03] e isso óbvio
[00:42:04] a Andifes que fez
[00:42:07] esses relatórios
[00:42:09] a Andifes diz assim
[00:42:10] a universidade precisa urgentemente
[00:42:13] fazer alguma coisa
[00:42:14] ela alerta pra isso
[00:42:16] mas ao mesmo tempo a universidade
[00:42:19] tá passando por um desmonte
[00:42:21] tão grande que você pra isso
[00:42:22] precisaria de um investimento no serviço
[00:42:25] social da universidade
[00:42:26] num conjunto de formação
[00:42:28] de clínicas, escolas
[00:42:30] de bolsas
[00:42:33] de assistência
[00:42:33] porque só pra passar a fala
[00:42:36] alguns dos pontos que mais impactam
[00:42:38] o adoecimento mental na universidade
[00:42:40] segundo os estudantes são o excesso
[00:42:42] de provas e trabalhos
[00:42:44] com a incapacidade
[00:42:46] que eles sentem de que são capazes
[00:42:48] de dar conta desse excesso
[00:42:51] em paralelo com isso
[00:42:53] eles se sentem incapazes
[00:42:54] de dar conta do mundo do trabalho
[00:42:56] porque muitos estudantes trabalham e estudam
[00:42:58] até por conta
[00:43:00] das políticas de cotas
[00:43:02] entrou um perfil de estudante
[00:43:04] mais pobre
[00:43:05] democratizando mais a universidade
[00:43:08] e isso é maravilhoso, ótimo
[00:43:09] só que esses estudantes que entraram
[00:43:12] entraram num período que teve poucas
[00:43:14] bolsas e que foi diminuindo
[00:43:16] ou seja, eles entram sem condições
[00:43:18] de permanência e aí eles se sentem
[00:43:21] culpados e o Zé Miliano
[00:43:23] falou da culpa
[00:43:24] que é um afeto central no neoliberalismo
[00:43:26] é a culpa por você não dar conta
[00:43:29] de fazer algo que na verdade é inumano
[00:43:31] é impossível dar conta
[00:43:33] por isso que geralmente alguém vem no meu
[00:43:35] Instagram e fala assim, como é que eu faço pra dar conta de estudo
[00:43:37] militância, trabalho e relacionamento
[00:43:38] amigo, não dá conta
[00:43:40] a real é essa, você não vai dar conta
[00:43:42] você vai empurrar algumas coisas pra barriga
[00:43:44] vai fazer outras, enfim
[00:43:45] né
[00:43:45] e aí você vai fazer o que você quer fazer
[00:43:46] agora se você achar que vai dar conta
[00:43:48] porque é o que o neoliberalismo faz
[00:43:50] ele vende a ideia de que sim, é possível
[00:43:53] você vai dar conta
[00:43:54] exatamente
[00:43:56] pode falar Gustavo
[00:43:58] não, é isso, você entra numa cena
[00:44:01] produtivista
[00:44:01] o quanto essa cena produtivista
[00:44:04] tá ligado mesmo à forma de mania
[00:44:07] que a gente vive na nossa sociedade
[00:44:08] o quanto
[00:44:10] acho que uma coisa paradoxal
[00:44:13] o que o Heribaldo falou
[00:44:14] que o neoliberalismo ao mesmo tempo
[00:44:16] ele, eu acho que ele elimina
[00:44:19] um tipo de
[00:44:20] um tipo de possibilidade de pensamento ético
[00:44:23] né, que é o exemplo do Gary Becker
[00:44:25] por exemplo, vou pegar um exemplo ainda melhor
[00:44:27] na Irlanda
[00:44:29] o dono de uma companhia aérea
[00:44:31] comprou uma companhia de táxi
[00:44:33] inteira
[00:44:34] e aí ele deixou a companhia de táxi
[00:44:37] com um táxi só, não me lembro agora o nome
[00:44:39] mas procurar isso tem aí na internet
[00:44:41] e ele comprou essa companhia de táxi
[00:44:43] pra deixar com um carro só pra que ele pudesse
[00:44:45] usar o táxi na faixa de ônibus
[00:44:47] então o quanto
[00:44:50] é bizarro
[00:44:52] é muito maluco
[00:44:54] mas o quanto existe
[00:44:56] uma perversão da moralidade
[00:44:58] pública, por assim dizer
[00:45:00] de uma moralidade ligada à comunidade
[00:45:02] que acontece uma coisa reversa
[00:45:04] que é
[00:45:06] classificar o sujeito
[00:45:09] e a sua
[00:45:10] o seu valor de vida
[00:45:12] a partir da produção
[00:45:13] por uma via moral
[00:45:15] de você não estar fazendo o suficiente
[00:45:18] deveria estar fazendo isso
[00:45:19] você é o próprio culpado
[00:45:21] então como dizem os sábios
[00:45:24] uma faca de dois legumes
[00:45:25] que trabalha nessa perspectiva
[00:45:28] de que
[00:45:29] a gente vive essa contraposição
[00:45:33] entre uma sociedade
[00:45:33] de um tipo de mania específico
[00:45:36] e aí o que a gente vê
[00:45:38] é justamente o aumento
[00:45:40] da ansiedade
[00:45:41] o que é ansiedade, angústia
[00:45:44] é o que a gente vê
[00:45:45] é o aperto em relação ao futuro
[00:45:48] é aquilo que você não sabe
[00:45:51] o que vai acontecer
[00:45:51] inclusive a boa e velha ansiedade
[00:45:55] é um estado de preparação contínua
[00:45:57] exatamente
[00:45:58] de perigo
[00:46:00] inclusive eu falo isso
[00:46:01] o processo ansioso
[00:46:05] a ansiedade
[00:46:06] e como ela rebate no físico
[00:46:08] das mais variadas formas
[00:46:10] então tem gente que por exemplo
[00:46:11] está ouvindo a gente aqui agora
[00:46:13] e por a gente estar discutindo isso
[00:46:15] a gente está discutindo isso
[00:46:15] e aí tem a angústia também
[00:46:18] no meio desse caminho
[00:46:18] ela está por exemplo sentindo
[00:46:20] a musculatura das costas pressionada
[00:46:22] então presta atenção
[00:46:24] você que está ouvindo agora
[00:46:25] você está sentindo a musculatura
[00:46:26] das suas costas pressionada
[00:46:27] tensionada
[00:46:28] do ombro
[00:46:30] ou alguma coisa do gênero
[00:46:31] por quê?
[00:46:31] porque quando a gente está discutindo
[00:46:32] essas coisas
[00:46:33] isso vai te gerar
[00:46:34] uma angústia
[00:46:35] vai gerar um processo ansioso
[00:46:36] e seu corpo entende
[00:46:38] que é para você fugir daqui
[00:46:39] que sonho
[00:46:42] que é um estado de perigo
[00:46:43] então quantas vezes
[00:46:44] a gente já não participou
[00:46:45] de uma reunião
[00:46:46] de uma reunião
[00:46:48] seja ela qual fosse
[00:46:49] de trabalho etc
[00:46:50] que você estava com a vontade desgraçada
[00:46:54] de sair correndo
[00:46:54] desesperadamente do lugar
[00:46:56] só correr
[00:46:57] e você não consegue entender muito bem
[00:46:59] a vontade de sair correndo
[00:47:01] e você não pode
[00:47:01] aí tem esse peso e contrapeso
[00:47:03] está ali seu corpo falando assim
[00:47:05] corra
[00:47:05] fuja
[00:47:07] saia daqui
[00:47:08] vá para o mais longe que você puder
[00:47:10] ele está te dando vários sinais possíveis
[00:47:11] em relação a isso
[00:47:12] ao mesmo tempo o superego falando assim
[00:47:14] você não pode sair correndo
[00:47:15] você está trabalhando
[00:47:18] você tem que ficar
[00:47:19] tem um horário para cumprir
[00:47:20] e isso a gente está falando
[00:47:23] do espaço físico
[00:47:24] isso que eu acho foda
[00:47:25] a gente está falando do espaço físico
[00:47:27] então veja
[00:47:27] quando eu falo
[00:47:28] você está em uma reunião
[00:47:28] você tem um espaço na reunião
[00:47:29] você pode realmente sair correndo na reunião
[00:47:30] e quando você não tem um espaço físico
[00:47:32] você pode correr da sua mente
[00:47:34] saca
[00:47:35] quando a gente está falando
[00:47:36] por exemplo
[00:47:36] que a patada está na sua cabeça
[00:47:37] e você tem esse tensionamento todo
[00:47:40] você sai correndo de você mesmo
[00:47:41] não tem como
[00:47:41] não tem como
[00:47:44] né
[00:47:45] se você sair correndo
[00:47:46] do processo que você tem que fazer
[00:47:47] escrever um artigo
[00:47:48] saindo
[00:47:49] né
[00:47:49] equalizar mais
[00:47:50] né
[00:47:51] enfim etc e tudo mais
[00:47:52] se você sair correndo
[00:47:53] o artigo
[00:47:54] ele vai junto com você
[00:47:56] ele vai junto com você
[00:47:57] e não adianta você parar em qualquer lugar
[00:47:59] que você pare
[00:47:59] o artigo vai estar lá
[00:48:00] junto com você
[00:48:01] sabe
[00:48:02] cria aquela coisa
[00:48:03] que é a procrastinação
[00:48:04] né
[00:48:04] que é a culpa
[00:48:06] você dá um nome
[00:48:07] para vivenciar uma culpa
[00:48:09] que é a procrastinação
[00:48:11] então você
[00:48:12] está procrastinando
[00:48:13] porque você parou
[00:48:14] para assistir
[00:48:15] um filme
[00:48:15] você parou
[00:48:16] para tomar uma
[00:48:17] com os amigos
[00:48:18] você parou
[00:48:18] para assistir
[00:48:19] uma série
[00:48:20] e aí geralmente
[00:48:22] a pessoa pega e diz
[00:48:23] não, eu estou procrastinando
[00:48:24] etc
[00:48:24] a pessoa dá um nome
[00:48:25] para tentar vivenciar
[00:48:27] aquela culpa
[00:48:27] de maneira menos culpada
[00:48:29] mas na verdade
[00:48:30] a procrastinação
[00:48:31] é um pouco isso
[00:48:32] é só a tentativa
[00:48:34] de você
[00:48:34] enganar
[00:48:35] uma culpa
[00:48:36] que é exatamente isso
[00:48:37] como essa cobrança
[00:48:39] não pode sair
[00:48:39] da sua cabeça
[00:48:40] você cria um nome
[00:48:42] para fingir
[00:48:43] que ela não está ali
[00:48:44] momentaneamente
[00:48:45] mas na verdade
[00:48:45] ela está lá
[00:48:46] você se culpa depois
[00:48:48] e aí o grande ardil
[00:48:49] do neoliberalismo é
[00:48:51] se amanhã
[00:48:52] você não passou
[00:48:54] numa seleção
[00:48:55] numa chamada de emprego
[00:48:57] num concurso
[00:48:59] por um décimo
[00:49:00] esse momento
[00:49:01] que você procrastinou
[00:49:03] ele será o responsável
[00:49:05] por culpar você
[00:49:06] pelo seu fracasso
[00:49:07] porque você não fez
[00:49:08] o suficiente
[00:49:09] é interessante ter um filme
[00:49:10] que é o Cosmópolis
[00:49:11] que é aquele
[00:49:13] bicho
[00:49:14] Robert Pattinson
[00:49:15] ele é um milionário
[00:49:16] do mundo das finanças
[00:49:17] e ele quer cortar o cabelo
[00:49:19] num cabeleireiro
[00:49:20] que ele cortava
[00:49:21] na infância
[00:49:22] desde sempre
[00:49:22] porque rico
[00:49:23] tem dessas coisas
[00:49:24] e aí ele vai atravessar
[00:49:26] uma Nova York
[00:49:27] sitiada por movimentos
[00:49:29] e protestos
[00:49:30] antineoliberais
[00:49:31] mais ou menos
[00:49:32] como se fosse
[00:49:32] aqueles
[00:49:33] Pai Wall Street
[00:49:34] coisas do tipo
[00:49:35] e ele está recebendo
[00:49:36] durante o percurso
[00:49:37] do engarrafamento
[00:49:38] gurus
[00:49:39] e assessores
[00:49:41] etc
[00:49:41] no carro
[00:49:42] na limousine
[00:49:42] super preparada
[00:49:43] que ele tem para isso
[00:49:44] e aí ele vai
[00:49:45] e aí ele recebe
[00:49:45] um guru
[00:49:45] porque rico
[00:49:46] adora coisa mística
[00:49:47] ele recebe um guru
[00:49:48] mística
[00:49:49] e aí ele falando
[00:49:51] porque minha vida
[00:49:51] não faz sentido
[00:49:52] minha existência
[00:49:54] não faz sentido
[00:49:54] eu comprei uma casa
[00:49:56] botei um elevador
[00:49:57] panorâmico
[00:49:58] dentro da minha casa
[00:49:59] eu comprei uma igreja
[00:50:01] que ficava
[00:50:01] no terreno da frente
[00:50:02] então aí já
[00:50:03] velha
[00:50:04] abandonada
[00:50:04] comprei
[00:50:05] e tudo isso
[00:50:05] para quê?
[00:50:07] gastei
[00:50:07] 180 milhões
[00:50:09] de dólares
[00:50:10] para quê?
[00:50:10] aí a guru
[00:50:11] pega e diz
[00:50:12] você gastou
[00:50:13] 180 milhões de dólares
[00:50:14] para dizer
[00:50:15] que gastou
[00:50:15] 180 milhões de dólares
[00:50:16] e depois gastar mais
[00:50:17] ou seja
[00:50:18] o neoliberalismo
[00:50:19] ele não tem um ponto final
[00:50:21] ele cria uma desmesura
[00:50:23] então se você entregou
[00:50:24] um artigo
[00:50:25] você não se sente
[00:50:26] recompensado
[00:50:27] pelo artigo
[00:50:28] que você entregou
[00:50:29] mas você se sente
[00:50:30] na obrigação
[00:50:31] de continuar
[00:50:32] produzindo
[00:50:33] porque
[00:50:33] esse artigo
[00:50:34] não é suficiente
[00:50:35] ele rapidamente
[00:50:36] vai se tornar
[00:50:37] obsoleto
[00:50:38] o tiro
[00:50:39] de gratificação
[00:50:40] no neoliberalismo
[00:50:41] é muito curto
[00:50:41] você
[00:50:42] vivencia
[00:50:44] muito rapidamente
[00:50:45] aquele
[00:50:45] prazer
[00:50:46] da gratificação
[00:50:47] e rapidamente
[00:50:48] você já volta
[00:50:49] para uma posição
[00:50:50] de
[00:50:50] isso não é suficiente
[00:50:51] se você parar aqui
[00:50:52] você vai ficar
[00:50:53] para trás
[00:50:53] porque realmente
[00:50:54] as outras pessoas
[00:50:55] estão andando
[00:50:56] por assim dizer
[00:50:57] o mundo não parou
[00:50:58] quando você parou
[00:50:59] e se você parar ali
[00:51:01] outros currículos
[00:51:02] vão se tornar melhor
[00:51:03] do que você
[00:51:03] outras
[00:51:04] seletivas de emprego
[00:51:05] vão exigir mais coisas
[00:51:07] que você não tem agora
[00:51:08] e aí você fica
[00:51:09] para trás
[00:51:10] não é à toa
[00:51:11] que a depressão
[00:51:12] sendo
[00:51:12] uma das epidemias
[00:51:14] mais frequentes
[00:51:15] na nossa sociedade
[00:51:16] ela se dá
[00:51:17] justamente
[00:51:18] a partir do elemento
[00:51:20] de
[00:51:20] ausência de desejo
[00:51:22] é o sujeito
[00:51:24] que para de desejar
[00:51:25] não é aquele
[00:51:27] que fica triste
[00:51:28] porque a galera tem
[00:51:29] um pouco dessa percepção
[00:51:30] talvez o senso comum
[00:51:31] de que a depressão
[00:51:32] é você ficar tristinho
[00:51:33] cabisbaixo
[00:51:34] ali e tal
[00:51:35] assistir um jogo do esporte
[00:51:37] ou do São Paulo
[00:51:37] que é motivo de tristeza
[00:51:39] e desalegria
[00:51:41] mas
[00:51:42] a depressão
[00:51:43] ela se consiste
[00:51:44] justamente
[00:51:44] nessa
[00:51:45] nessa interrupção
[00:51:47] do desejo
[00:51:49] nessa ideia
[00:51:50] de que eu me coloco
[00:51:51] em um lugar de apatia
[00:51:52] e ela é
[00:51:54] e não é à toa
[00:51:55] esse lugar da apatia
[00:51:57] é a contraposição
[00:51:58] da sociedade maníaca
[00:51:59] que a gente vive
[00:52:00] nessa sociedade
[00:52:01] do que o Eribaldo falou
[00:52:02] do mais gozar
[00:52:04] da gente se ver
[00:52:05] enquanto uma mercadoria
[00:52:06] a ser valorizada
[00:52:08] todo mundo que está
[00:52:10] ouvindo a gente
[00:52:10] ou que está
[00:52:11] acompanhando aqui
[00:52:12] com certeza já sentiu
[00:52:14] culpa
[00:52:14] por num final de semana
[00:52:16] pós trabalho
[00:52:17] não está ouvindo
[00:52:18] um revolução
[00:52:19] pra se informar
[00:52:21] tá ligado
[00:52:21] não estava
[00:52:22] vendo uma live
[00:52:24] não estava lendo um livro
[00:52:25] não estava
[00:52:25] não estava fazendo
[00:52:27] alguma coisa
[00:52:28] pra que você pudesse
[00:52:29] gerar valorização
[00:52:30] né
[00:52:32] é
[00:52:33] desse
[00:52:34] capital humano
[00:52:35] tá ligado
[00:52:37] então isso é um negócio
[00:52:38] que
[00:52:38] que aparece
[00:52:40] muito né
[00:52:41] de que
[00:52:41] o sujeito
[00:52:42] ele é transformado
[00:52:43] mesmo em uma mercadoria
[00:52:44] passível de valorização
[00:52:46] e uma coisa que é interessante
[00:52:48] é o quanto
[00:52:48] esse é o pensamento
[00:52:50] neoliberal né
[00:52:50] o quanto isso pode
[00:52:51] te render
[00:52:52] e na verdade
[00:52:55] o quanto isso representa
[00:52:56] como o Eribaldo falou né
[00:52:57] do risco
[00:52:57] o Schumpeter
[00:52:59] que é um dos economistas
[00:53:00] neoliberais
[00:53:01] ele tem um termo
[00:53:02] pra designar
[00:53:03] aquele que arrisca
[00:53:04] né
[00:53:04] aquele que
[00:53:05] é o sujeito
[00:53:06] que contra
[00:53:08] as opressões
[00:53:09] do coletivo
[00:53:10] e
[00:53:11] toda aquela
[00:53:13] ladainha
[00:53:13] ancap né
[00:53:14] e
[00:53:14] que é isso né
[00:53:15] a sociedade de Mont Pelerin
[00:53:16] foi o primeiro fórum
[00:53:17] em céu da história
[00:53:18] mas
[00:53:19] o tudo que eles vão falar ali
[00:53:21] a palavra que o Schumpeter usa
[00:53:22] é essa palavra
[00:53:23] que
[00:53:24] designa aquele sujeito
[00:53:25] que empreende né
[00:53:27] o sujeito que busca mais
[00:53:29] que tenta mais
[00:53:30] qual palavra que é essa
[00:53:32] em alemão
[00:53:33] que ele usa
[00:53:33] a palavra Führer
[00:53:36] diz a palavra Führer né
[00:53:37] que é um negócio
[00:53:38] como tá conectado
[00:53:39] com essa ideia
[00:53:41] de alguém
[00:53:41] que vai buscar
[00:53:42] o algo a mais né
[00:53:44] e
[00:53:44] é curioso
[00:53:46] o quanto
[00:53:46] a sociedade neoliberal
[00:53:48] usa um termo né
[00:53:49] que a gente vê muito aí
[00:53:51] nesses podcasts
[00:53:52] nesses canais
[00:53:53] do youtube
[00:53:54] de investimento
[00:53:55] e tal
[00:53:55] que é
[00:53:56] pra você chegar lá
[00:53:58] tá ligado
[00:54:00] existe um chegar lá
[00:54:02] né
[00:54:03] mas ninguém fala
[00:54:04] qual que é o chegar lá
[00:54:05] então você vive
[00:54:06] constantemente
[00:54:07] numa produção
[00:54:08] de chegar lá
[00:54:09] e você não sabe
[00:54:10] o que é chegar lá
[00:54:11] e aí você
[00:54:12] bom
[00:54:12] eu não cheguei lá ainda né
[00:54:14] não tem hora de parar
[00:54:16] como o Eribaldo falou
[00:54:17] você não tem a hora do ócio
[00:54:18] você não tem a hora de parar
[00:54:19] imagina o Marx escreveu
[00:54:21] o Capital já
[00:54:21] muito idoso
[00:54:23] e teve que pedir pro Engels
[00:54:25] publicar os outros volumes
[00:54:26] porque ele não
[00:54:27] não terminou
[00:54:28] tá ligado
[00:54:29] e já numa dinâmica
[00:54:30] né
[00:54:31] problemática de produção
[00:54:33] hoje em dia ainda
[00:54:35] e aí acho que
[00:54:36] só pra
[00:54:37] finalizar
[00:54:37] uma coisa interessante
[00:54:38] que acontece é
[00:54:39] o quanto
[00:54:40] as coisas
[00:54:42] perdem valor qualitativo
[00:54:43] né
[00:54:44] o quanto elas perdem valor
[00:54:45] de aprofundamento
[00:54:46] porque não dá tempo
[00:54:47] de você se aprofundar
[00:54:49] porque você pensa
[00:54:50] não, eu tenho que produzir
[00:54:51] vários artigos
[00:54:51] tenho que produzir muita coisa
[00:54:52] tenho que fazer um monte de coisa
[00:54:53] e você corre o risco
[00:54:55] de não dar tempo
[00:54:56] de você se aprofundar
[00:54:57] no autor
[00:54:57] de você pensar
[00:54:59] mais elaboradamente
[00:55:00] de você
[00:55:01] fazer uma reflexão
[00:55:02] promover um debate
[00:55:03] né
[00:55:04] porque
[00:55:05] não dá tempo
[00:55:06] porque se você não fizer
[00:55:08] mais
[00:55:10] mais rápido
[00:55:11] você vai perder
[00:55:12] alguém vai tomar
[00:55:13] seu lugar
[00:55:13] né
[00:55:14] pô
[00:55:14] pra dividir uma experiência
[00:55:16] pessoal né
[00:55:18] essa empreitada
[00:55:19] de produção de conteúdo
[00:55:21] é um negócio
[00:55:22] muito maluco
[00:55:22] muito maluco
[00:55:24] porque o tempo inteiro
[00:55:26] a cabeça
[00:55:27] fica maquinando
[00:55:28] porque que você
[00:55:30] está jogando
[00:55:31] agora por exemplo
[00:55:32] e não está fazendo isso
[00:55:33] transmitindo numa live
[00:55:34] porque que você está
[00:55:36] agora assistindo um filme
[00:55:38] e não gravando
[00:55:39] um rios
[00:55:39] fazendo uma dancinha
[00:55:40] da britney spears
[00:55:41] tá ligado
[00:55:43] é um
[00:55:44] é um processo
[00:55:45] constante de culpabilização
[00:55:46] né
[00:55:47] e que vai levando a gente
[00:55:49] pra essa
[00:55:49] pra esse lugar
[00:55:50] né
[00:55:51] de uma ilusão
[00:55:52] de que bom
[00:55:52] se eu não fizer
[00:55:53] alguém vai fazer
[00:55:54] e numa economia
[00:55:56] de escassez
[00:55:57] né
[00:55:57] que é o que a gente
[00:55:58] pretensamente vive hoje
[00:56:00] é a mesma lógica
[00:56:01] do motorista
[00:56:01] tuberizado
[00:56:02] se eu não trabalhar
[00:56:03] 16 horas por dia
[00:56:05] 14 horas por dia
[00:56:06] alguém vai trabalhar
[00:56:07] e eu vou perder
[00:56:08] então o que que acontece
[00:56:10] é isso
[00:56:11] se torna
[00:56:11] uma grande selva
[00:56:14] né
[00:56:14] de sujeitos
[00:56:15] contra sujeitos
[00:56:16] e enfim
[00:56:18] free britney
[00:56:18] e é isso aí
[00:56:19] só pra fazer um adendo
[00:56:20] antes de passar
[00:56:21] pra Zé Miliano
[00:56:22] rapidinho
[00:56:23] é interessante
[00:56:23] que os neoliberais
[00:56:25] eu acho que foi o Hayek
[00:56:26] ele disse o seguinte
[00:56:27] não é que Darwin
[00:56:28] criou
[00:56:29] a seleção natural
[00:56:30] Darwin
[00:56:31] ele percebeu
[00:56:32] que o mundo social
[00:56:34] funciona como
[00:56:35] a seleção natural
[00:56:36] e ele transfere isso
[00:56:38] pra o mundo biológico
[00:56:40] ou seja
[00:56:40] o que os neoliberais
[00:56:41] estão assumindo pra eles
[00:56:42] é uma verdadeira
[00:56:43] seleção natural
[00:56:43] não é à toa
[00:56:45] que as duas
[00:56:46] dois pontos
[00:56:47] eixos
[00:56:48] da sociedade
[00:56:49] Montpelé-Ran
[00:56:50] e do colóquio
[00:56:52] Walter Lippmann
[00:56:53] que foi os dois
[00:56:53] foram em seu
[00:56:54] dois primeiros
[00:56:55] da humanidade
[00:56:56] eles tinham como eixo
[00:56:57] dois eixos de trabalho
[00:56:58] a psicologia
[00:57:00] e a pedagogia
[00:57:01] muito bom
[00:57:01] é muito bom
[00:57:02] e muito ruim né
[00:57:03] na verdade
[00:57:04] não é à toa
[00:57:06] que a frase
[00:57:06] da Tati
[00:57:07] é precisamos
[00:57:08] conquistar
[00:57:08] corações e mentes
[00:57:10] é isso aí
[00:57:11] mano se você pega
[00:57:12] pra olhar
[00:57:12] qualquer lógica
[00:57:13] neoliberal
[00:57:13] nenhuma dela
[00:57:14] tá baseada em cálculo
[00:57:15] não tem matemática né
[00:57:17] apesar de muitos
[00:57:18] economistas neoliberais
[00:57:19] dizer né
[00:57:20] que economia
[00:57:21] não é ideologia né
[00:57:22] é uma ciência técnica
[00:57:23] nossa eu tenho até
[00:57:24] um trelelê
[00:57:25] quando eu ouço
[00:57:26] alguém falar isso
[00:57:26] mas você vai ver
[00:57:28] os caras
[00:57:29] e é tudo
[00:57:30] juiz de valor
[00:57:31] é tudo lição de moral
[00:57:32] é pure ideology né
[00:57:34] é pura ideologia
[00:57:35] porque é isso
[00:57:36] você precisa
[00:57:36] suplantar
[00:57:38] moralmente né
[00:57:39] aquela ideia
[00:57:40] de você
[00:57:41] conquistar a mente
[00:57:42] do sujeito
[00:57:43] conquistar
[00:57:43] a mente
[00:57:43] é o coração dele né
[00:57:45] e aí
[00:57:46] os neoliberais
[00:57:47] contra
[00:57:48] e aí eles se
[00:57:48] revecem
[00:57:49] do argumento
[00:57:50] racional
[00:57:51] pretensamente
[00:57:52] racional né
[00:57:52] mais emoção
[00:57:54] opa
[00:57:55] olha o ato falho aí
[00:57:56] mais razão
[00:57:57] e menos emoção
[00:57:58] quando na verdade
[00:57:59] é o contrário né
[00:58:01] é só emoção
[00:58:02] e vai que vai
[00:58:04] cara
[00:58:04] e é isso né
[00:58:05] assim
[00:58:06] é
[00:58:06] essa
[00:58:07] é
[00:58:08] a crítica que o
[00:58:09] que o Gustavo faz né
[00:58:11] a gente tá aqui
[00:58:11] produzindo conteúdo
[00:58:12] por exemplo
[00:58:12] a gente tá fazendo
[00:58:13] essa
[00:58:13] gravação do Revolução
[00:58:15] ao mesmo tempo
[00:58:15] transmitindo
[00:58:16] pela Twitch
[00:58:16] usando o momento
[00:58:18] pra tudo
[00:58:18] ao mesmo tempo né
[00:58:19] cara isso é
[00:58:21] isso é uma parada foda né
[00:58:22] isso é uma parada foda né
[00:58:23] a gente vai sendo captado
[00:58:25] por essa lógica
[00:58:26] mas pelo menos
[00:58:26] a gente tá sendo captado
[00:58:27] por essa lógica
[00:58:28] e falando pra galera né
[00:58:29] e aí
[00:58:29] olha o negócio aí
[00:58:31] que isso me lembra também
[00:58:32] daquela série né
[00:58:33] o Black Mirror né
[00:58:35] o segundo episódio
[00:58:36] etc
[00:58:36] rapaz ali
[00:58:37] quando eu vi aquele
[00:58:38] segundo episódio na época
[00:58:39] tinha um canalzinho no YouTube
[00:58:39] eu falei assim
[00:58:40] cara vou fechar meu canal
[00:58:40] no YouTube
[00:58:41] foda-se
[00:58:41] exatamente
[00:58:42] hahaha
[00:58:43] hahaha
[00:58:43] eu não vou participar
[00:58:44] dessa merda não
[00:58:45] mas é uma resposta
[00:58:48] individual né
[00:58:48] é minha em relação a isso né
[00:58:50] não vai
[00:58:51] eu parar de produzir
[00:58:52] o conteúdo ali
[00:58:53] naquele momento ali
[00:58:54] pro YouTube
[00:58:54] quando eu tava produzindo
[00:58:55] naquele momento
[00:58:55] que eu vi a série né
[00:58:57] porra você acha que
[00:58:59] tipo sei lá
[00:58:59] o Niang achar
[00:59:00] que ele vai tirar
[00:59:01] as músicas dele
[00:59:01] do Spotify
[00:59:03] pro Spotify
[00:59:03] parar de ter conteúdo
[00:59:04] isso porque o Niang
[00:59:06] ele tem
[00:59:06] reverberação econômica né
[00:59:09] pro Spotify
[00:59:10] quando ele faz isso
[00:59:11] ele vai tirar as músicas dele
[00:59:12] e os caras vão parar
[00:59:13] de botar conteúdo
[00:59:14] anti-vacina né
[00:59:15] no Spotify né
[00:59:16] enfim
[00:59:17] o Spotify optou
[00:59:18] por tirar o conteúdo dele
[00:59:19] foda-se né
[00:59:19] não deixa o Joey Runger
[00:59:20] falando merda aqui mesmo né
[00:59:22] e chamando a gente merda
[00:59:23] pra participar desse negócio né
[00:59:25] enfim
[00:59:25] a Twitch tem o flow né
[00:59:27] e o YouTube também tem o flow né
[00:59:30] ali naquele processo
[00:59:31] o Spotify também tem o flow
[00:59:32] enfim
[00:59:32] tem toda essa
[00:59:33] tem toda essa
[00:59:33] essa dinâmica né
[00:59:35] e eu não vejo
[00:59:36] outra possibilidade
[00:59:36] que não é uma resposta
[00:59:37] política pra isso né
[00:59:38] no sentido coletivo mesmo né
[00:59:40] da gente conseguir
[00:59:41] tanto produzir o conteúdo
[00:59:42] e
[00:59:43] �irar pra pessoa
[00:59:43] que tá aqui
[00:59:44] no nosso processo
[00:59:45] de produção de conteúdo
[00:59:46] e falar assim
[00:59:46] olha tu tem que se organizar
[00:59:48] politicamente
[00:59:48] porque esse processo todo
[00:59:50] a gente não vai resolver né
[00:59:51] e eu tô aqui na verdade
[00:59:52] tentando captar você
[00:59:54] pra sair desse negócio
[00:59:54] saia daí
[00:59:55] vai pra lá né
[00:59:56] vamos dar uma resposta
[00:59:58] coletiva
[00:59:58] pra essa angústia individual
[01:00:00] que você tem
[01:00:00] né
[01:00:01] e você perceber
[01:00:02] que quanto mais você cai
[01:00:03] nessa dinâmica
[01:00:04] da individualização
[01:00:05] quanto mais você cai
[01:00:06] nessa dinâmica
[01:00:07] de entender
[01:00:08] que
[01:00:08] a sua existência
[01:00:10] solitária
[01:00:11] é capaz de fazer
[01:00:12] uma mudança
[01:00:13] megalomaníaca né
[01:00:14] no processo político
[01:00:16] então no seu processo
[01:00:17] de trabalho
[01:00:18] mais desesperado
[01:00:19] você fica
[01:00:19] porque você começa
[01:00:20] a perceber
[01:00:21] que não tá certo
[01:00:23] então você entra
[01:00:24] na lógica
[01:00:24] de botar a culpa
[01:00:25] em si mesmo
[01:00:26] até mesmo
[01:00:27] na concepção política
[01:00:28] da coisa né
[01:00:29] a Maria do Emaúto
[01:00:30] chama isso de messianismo
[01:00:31] aliás né
[01:00:31] da profissão
[01:00:32] do serviço social
[01:00:33] mas eu boto isso
[01:00:34] em outras relações
[01:00:35] contínuas também né
[01:00:36] então tem o messianismo
[01:00:37] principalmente na minha área
[01:00:38] como assistente social
[01:00:39] do serviço social
[01:00:41] que o profissional
[01:00:42] ele começa
[01:00:43] a entender
[01:00:43] que ele não consegue
[01:00:44] resolver os problemas
[01:00:45] primeiro ele começa
[01:00:45] a entender né
[01:00:46] e o messianismo
[01:00:47] ele vai do messianismo
[01:00:48] pro fatalismo né
[01:00:49] é muito interessante
[01:00:49] você começa
[01:00:51] a conceber
[01:00:53] que se você
[01:00:53] não resolver o problema
[01:00:54] de documentação
[01:00:55] daquela família
[01:00:56] ninguém vai resolver
[01:00:56] e se você não resolver
[01:00:58] aquilo você tá falhando
[01:00:59] em relação a conseguir
[01:01:00] uma possível assim
[01:01:01] chamada emancipação
[01:01:03] pelo Estado né
[01:01:04] tem uma coisa
[01:01:05] que o Estado
[01:01:05] não faz é emancipar
[01:01:06] o ser humano né
[01:01:08] da exploração
[01:01:09] das criaturas
[01:01:10] pelas criaturas né
[01:01:11] pela criatura humana
[01:01:12] pela criatura humana
[01:01:13] de você né
[01:01:14] fazer isso
[01:01:15] e quando você começa
[01:01:16] a bater
[01:01:18] e ver que
[01:01:20] não tá dando certo
[01:01:21] não tá dando certo
[01:01:21] não tá dando certo
[01:01:22] você cai no revés
[01:01:23] disso que é o fatalismo né
[01:01:24] e aí você entra
[01:01:25] na concepção
[01:01:25] de que é uma fatalidade
[01:01:26] que aquilo não tem jeito
[01:01:28] porque é assim mesmo
[01:01:29] que a sociedade
[01:01:29] produz essas relações
[01:01:31] etc
[01:01:31] e aí você
[01:01:32] em vez de coletivizar
[01:01:33] essa discussão
[01:01:34] e perceber que você
[01:01:34] tem que sair do âmbito
[01:01:35] do processo institucional
[01:01:38] de trabalho
[01:01:38] e entender
[01:01:40] que a política
[01:01:40] se faz fora
[01:01:41] do seu processo
[01:01:42] de trabalho também
[01:01:42] e que a realização
[01:01:44] de uma nova sociedade
[01:01:46] não vai fazer
[01:01:47] pela sua profissão
[01:01:48] né
[01:01:49] mas por todas
[01:01:50] as profissões
[01:01:51] por toda a coletividade
[01:01:52] do ser humano
[01:01:53] né
[01:01:54] você fica no fatalismo
[01:01:55] você fica travado
[01:01:56] naquele negócio ali
[01:01:57] né
[01:01:58] e isso gera
[01:01:59] um índice altíssimo
[01:02:00] por exemplo
[01:02:00] de profissionais
[01:02:01] de serviço social
[01:02:01] e isso eu acho
[01:02:03] muito interessante
[01:02:03] porque tem esse dado
[01:02:04] na minha região
[01:02:05] de que uma parte
[01:02:07] considerável
[01:02:07] dos profissionais
[01:02:08] de serviço social
[01:02:09] usam medicamentos
[01:02:09] de tarja preta
[01:02:10] seja isso qual for
[01:02:11] e dessa
[01:02:12] quantidade de profissionais
[01:02:13] apenas 1,2%
[01:02:14] é organizado
[01:02:15] politicamente alguma coisa
[01:02:16] acho que a sociedade
[01:02:17] neoliberal
[01:02:18] por ela
[01:02:18] ter realizado
[01:02:19] essa individualização
[01:02:20] de uma forma
[01:02:21] muito perspicaz
[01:02:22] muito astuta
[01:02:23] ela elimina
[01:02:25] qualquer tipo
[01:02:25] de vislumbre
[01:02:26] que não seja
[01:02:27] da mudança individual
[01:02:28] a gente olha
[01:02:29] por exemplo
[01:02:29] essas questões
[01:02:31] ligadas a
[01:02:32] que aparece
[01:02:32] de tome banho
[01:02:33] mais rápido
[01:02:34] sabe
[01:02:35] todas essas ladainhas
[01:02:36] que na verdade
[01:02:37] materialmente
[01:02:39] desliga a luz
[01:02:39] da sua casa
[01:02:40] nesse dia aqui
[01:02:40] pô
[01:02:42] é isso né
[01:02:43] e o quanto
[01:02:44] o neoliberalismo
[01:02:45] se empreendeu
[01:02:46] pra viabilizar
[01:02:47] sua epopeia
[01:02:49] econômica
[01:02:50] de enriquecimento
[01:02:51] dos grandes
[01:02:52] porque o neoliberalismo
[01:02:53] nada mais é do que isso
[01:02:53] é uma dinâmica econômica
[01:02:55] que visa
[01:02:56] realmentar as taxas
[01:02:57] de lucro
[01:02:57] dos grandes capitalistas
[01:02:59] a partir de uma dinâmica
[01:03:00] uma nova dinâmica
[01:03:01] econômica
[01:03:02] uma nova dinâmica
[01:03:02] subjetiva
[01:03:03] ele elimina
[01:03:04] qualquer traço
[01:03:05] de coletividade
[01:03:06] que é isso
[01:03:07] porque que
[01:03:08] eu não preciso
[01:03:08] de um partido
[01:03:09] eu não preciso
[01:03:10] me organizar
[01:03:11] porque eu faço
[01:03:12] a minha parte aqui
[01:03:13] eu vou postar coisa
[01:03:14] vou fazer
[01:03:15] tal tal tal
[01:03:15] e a gente vê isso mesmo
[01:03:17] na
[01:03:17] na universidade
[01:03:19] mas na escola
[01:03:20] por exemplo
[01:03:20] pô
[01:03:21] cara
[01:03:21] na escola
[01:03:22] isso é um negócio
[01:03:23] que aparece
[01:03:24] demais
[01:03:25] demais
[01:03:25] eu tô
[01:03:26] eu não faço mais parte
[01:03:28] tanto do ambiente acadêmico
[01:03:28] me formei há algum tempo
[01:03:29] mas trabalho como professor
[01:03:31] desde 2015
[01:03:32] e existe
[01:03:33] uma sana
[01:03:34] no discurso educacional
[01:03:35] que eu acho que tá
[01:03:36] na mesma esteira
[01:03:37] talvez da universidade
[01:03:38] por um outro aspecto né
[01:03:39] por uma outra linha
[01:03:40] de
[01:03:41] de
[01:03:42] , de
[01:03:42] análise
[01:03:43] mas algo próximo
[01:03:44] que é
[01:03:45] essa ideia de que
[01:03:47] o professor
[01:03:48] seria capaz
[01:03:49] de gerir
[01:03:50] 30 pessoas
[01:03:51] ao mesmo tempo
[01:03:52] personalizar tudo
[01:03:54] fazer tudo
[01:03:54] de maneira que ele possa
[01:03:56] garantir
[01:03:57] um melhor aprendizado
[01:03:58] mas sem recurso
[01:03:59] mas sem
[01:03:59] ou com recurso muito baixo
[01:04:01] ou
[01:04:01] com aquela velha coisa né
[01:04:03] metodologias inovadoras
[01:04:05] e blá blá blá
[01:04:07] maker
[01:04:08] e todas essas
[01:04:09] essas
[01:04:09] bladainha neoliberal
[01:04:11] que o
[01:04:11] Lehmann apoia
[01:04:12] né que
[01:04:13] se o Lehmann apoia
[01:04:14] eu sou contra
[01:04:15] ou quase contra né
[01:04:17] entro com os dois pés atrás
[01:04:19] cara você quer ver
[01:04:20] isso que você tá falando
[01:04:21] de uma forma
[01:04:21] muito interessante
[01:04:23] né pro professor
[01:04:24] cara o que
[01:04:25] aquele filme
[01:04:26] alguns filmes aliás né
[01:04:27] tem um filme com
[01:04:28] com Samuel Jackson
[01:04:29] tem um filme com
[01:04:30] agora com outra atriz
[01:04:31] que eu não consigo lembrar o nome agora
[01:04:32] mas é o nome do filme que eu lembro
[01:04:33] e um outro que é com
[01:04:34] com o Jim Belushi
[01:04:35] que são aqueles filmes
[01:04:36] de um professor mudando a escola
[01:04:37] sabe qual é
[01:04:38] que é o
[01:04:39] Mentes Perigosas né
[01:04:40] que é de 95
[01:04:41] né
[01:04:41] assim
[01:04:42] que porra
[01:04:43] enfim
[01:04:44] eu lembro até do rap
[01:04:45] que tocava no filme
[01:04:47] assim tá na minha cabeça
[01:04:47] aqui agora
[01:04:48] mas cara
[01:04:58] essa
[01:04:59] essa
[01:04:59] Coach Carter né
[01:05:00] alguém lembrou aqui
[01:05:01] o Salters lembrou né
[01:05:02] Coach Carter né
[01:05:03] enfim
[01:05:04] dessa coisa assim
[01:05:05] de tipo do professor
[01:05:06] né
[01:05:07] do
[01:05:07] do
[01:05:07] do James Belushi
[01:05:08] agora eu não consigo lembrar o nome do filme não
[01:05:10] mas uma hora eu vou lembrar
[01:05:11] que aí ele chega
[01:05:12] ele vai até de moto
[01:05:13] pra dentro do
[01:05:13] do
[01:05:14] do colégio
[01:05:15] o cara a quatro
[01:05:15] e briga com os moleque
[01:05:16] pra mostrar pra ele
[01:05:17] que a realidade
[01:05:18] não sei o que
[01:05:18] porra
[01:05:19] isso aí é uma desgraça
[01:05:20] sabe
[01:05:20] que deve produzir
[01:05:22] da subjetividade
[01:05:23] do professor
[01:05:24] que foi pro colégio
[01:05:24] e tava achando
[01:05:25] que ia fazer uma parada parecida com isso
[01:05:26] e se depara com uma realidade
[01:05:28] muito mais dura
[01:05:29] porque a realidade
[01:05:30] não tem script
[01:05:30] a realidade não tem diretor
[01:05:32] exatamente
[01:05:32] a realidade não tem
[01:05:35] não tem um
[01:05:36] um fio
[01:05:36] fechado
[01:05:37] que nem aquele do filme tem
[01:05:39] mas por que o Coach Carter
[01:05:40] por que você não consegue
[01:05:41] porque tá no script
[01:05:41] porra
[01:05:42] né
[01:05:42] exatamente
[01:05:42] tem um ponto que eu acho
[01:05:44] que pra dar um pouquinho
[01:05:44] de alegria pras pessoas
[01:05:46] um pouquinho de esperança
[01:05:47] né
[01:05:47] depois da gente falar
[01:05:48] tanta coisa triste
[01:05:49] o Zé Miliano falou muito
[01:05:51] dessa questão da
[01:05:52] organização política coletiva
[01:05:54] eu acho que é assim
[01:05:56] um ponto é
[01:05:57] não
[01:05:57] observe o que eu estou dizendo
[01:05:59] gente
[01:05:59] eu não estou dizendo
[01:06:00] que a organização
[01:06:02] política coletiva
[01:06:03] substitui terapia
[01:06:05] ou é
[01:06:06] cura seu sofrimento
[01:06:07] não vai fazer isso
[01:06:09] mas ainda
[01:06:10] isso há pesquisas
[01:06:12] que inclusive apontam
[01:06:13] por exemplo
[01:06:14] vou citar uma
[01:06:15] que é a dissertação
[01:06:17] do Guilherme Boulos
[01:06:17] é sobre
[01:06:18] atenuação
[01:06:20] de sintomas
[01:06:21] de sofrimento depressivo
[01:06:23] nas ocupações urbanas
[01:06:24] do MTST
[01:06:25] mas há outras pesquisas
[01:06:27] por exemplo
[01:06:28] a Maria Reitakel
[01:06:28] tem uma experiência
[01:06:29] belíssima no MST
[01:06:30] inclusive de psicanálise
[01:06:32] de grupo
[01:06:32] que é algo
[01:06:33] bem heterodoxo
[01:06:34] a psicanálise
[01:06:35] é bem rígida
[01:06:36] nesse modelo
[01:06:37] analista-paciente
[01:06:38] não
[01:06:39] de uma dinâmica
[01:06:40] de grupo
[01:06:40] Maria Reitakel
[01:06:42] implementou isso
[01:06:43] no MST
[01:06:44] que mostra que
[01:06:45] ainda que a pessoa
[01:06:46] continue sofrendo
[01:06:47] quando ela está
[01:06:49] em grupo
[01:06:49] quando ela fala
[01:06:51] do seu sofrimento
[01:06:52] porque por exemplo
[01:06:52] numa cozinha comunitária
[01:06:53] do MTST
[01:06:54] por exemplo
[01:06:55] numa ocupação
[01:06:57] ou em qualquer lugar
[01:06:58] nas cozinhas coletivas
[01:07:00] do início
[01:07:01] da União Soviética
[01:07:02] pronto
[01:07:02] exatamente
[01:07:03] se você for fazer
[01:07:04] qualquer coisa
[01:07:05] coletivamente
[01:07:05] enquanto você está
[01:07:06] sei lá
[01:07:07] cortando uma verdura
[01:07:08] chorando
[01:07:09] cortando uma cebola
[01:07:09] você está
[01:07:10] fazendo
[01:07:10] falando do seu filho
[01:07:12] do seu sobrinho
[01:07:13] da sua irmã
[01:07:14] do seu namorado
[01:07:16] da sua namorada
[01:07:16] do seu esposo
[01:07:17] da sua esposa
[01:07:18] você está falando
[01:07:18] dos seus problemas
[01:07:19] da sua casa
[01:07:20] da feira que está cara
[01:07:21] do transporte que está ruim
[01:07:23] da fila que pegou
[01:07:24] do posto de saúde
[01:07:25] do buraco
[01:07:25] as pessoas começam
[01:07:27] a falar das suas
[01:07:28] angústias pessoais
[01:07:29] isso cria um espaço
[01:07:31] onde um ouvindo
[01:07:33] o outro
[01:07:34] sobre o seu sofrimento
[01:07:35] ainda que o seu sofrimento
[01:07:36] não passe
[01:07:37] mas você começa
[01:07:38] a perceber
[01:07:39] que ele não é
[01:07:40] isolado do mundo
[01:07:40] que você não é
[01:07:42] um ser
[01:07:42] aquela coisa
[01:07:43] meio paranoica
[01:07:44] de que Deus
[01:07:44] está lhe punindo
[01:07:45] porque você é um ser
[01:07:46] incompetente
[01:07:47] ou porque você é um ser
[01:07:49] amaldiçoado
[01:07:50] por algum tipo
[01:07:51] na verdade
[01:07:53] que seus problemas
[01:07:53] eles têm muito mais
[01:07:54] em comum com as outras
[01:07:55] porque a lua
[01:07:56] retrógrada
[01:07:57] é exatamente
[01:07:58] na verdade
[01:07:59] seus problemas
[01:07:59] têm tanto em comum
[01:08:01] com os outros
[01:08:02] que você começa
[01:08:03] a narrar o seu sofrimento
[01:08:04] de outra forma
[01:08:05] então por exemplo
[01:08:06] na dissertação de Boulos
[01:08:07] ele começa a mostrar
[01:08:08] o quanto uma senhorinha
[01:08:09] que ele entrevistou
[01:08:10] obviamente
[01:08:11] não tem o nome dela
[01:08:12] na entrevista
[01:08:13] mas o quanto a senhorinha
[01:08:15] que ele entrevistou
[01:08:16] ela começa
[01:08:17] falando uma coisa
[01:08:18] e no final
[01:08:19] após o processo
[01:08:20] das ocupações
[01:08:21] ela está falando
[01:08:22] do mesmo sofrimento
[01:08:23] que ainda dói
[01:08:25] mas ela está falando
[01:08:26] de outro lugar
[01:08:27] então ela fala assim
[01:08:28] quando eu entrei aqui
[01:08:29] eu não valia
[01:08:30] nenhuma sandália velha
[01:08:31] hoje eu tenho valor
[01:08:33] então ela começa
[01:08:33] a perceber
[01:08:34] que aquele sofrimento dela
[01:08:35] é um sofrimento legítimo
[01:08:37] as pessoas reconhecem
[01:08:39] aquilo como sofrimento
[01:08:40] e ela começa a perceber
[01:08:40] que isso é muito importante
[01:08:42] a luta política organizada
[01:08:44] ela não é terapêutica
[01:08:47] no sentido clínico
[01:08:49] mas ela é terapêutica
[01:08:50] no sentido social
[01:08:52] ela é uma terapia social
[01:08:53] que cria
[01:08:54] o que um autor
[01:08:55] que eu usei muito no livro
[01:08:56] que o Axel Honneth chama
[01:08:58] uma contracultura
[01:08:59] do reconhecimento
[01:09:00] ou seja
[01:09:00] você sai daquela lógica
[01:09:03] que é a lógica
[01:09:03] puramente individual
[01:09:05] e entra numa lógica coletiva
[01:09:07] onde seus problemas
[01:09:08] coletivamente
[01:09:09] eles têm
[01:09:10] outra definição
[01:09:10] outra dimensão
[01:09:11] mas você
[01:09:13] e muitas vezes
[01:09:14] você percebe
[01:09:15] que seu problema
[01:09:15] é maior do que
[01:09:16] sua própria vida
[01:09:17] mas você também percebe
[01:09:18] que sua capacidade
[01:09:20] de agência
[01:09:21] e de ação
[01:09:22] sobre esse problema
[01:09:23] muda
[01:09:24] porque quando você
[01:09:25] está em coletivo
[01:09:27] se você por exemplo
[01:09:28] poxa Zamiliano
[01:09:30] estou triste hoje
[01:09:31] estou mal
[01:09:31] estou doente
[01:09:32] estou com alguma coisa
[01:09:33] não vou poder fazer
[01:09:34] essa tarefa militante
[01:09:35] mas
[01:09:36] enquanto camaradas
[01:09:38] Zamiliano vai continuar
[01:09:39] tocando
[01:09:40] e eu sei que
[01:09:40] aqui
[01:09:40] aquele problema
[01:09:41] que a gente está atacando
[01:09:42] vai continuar sendo atacado
[01:09:44] mesmo que eu não possa
[01:09:46] estar fazendo parte
[01:09:46] naquele momento
[01:09:47] e depois retorne
[01:09:48] ou seja
[01:09:49] percebe que
[01:09:50] minhas mãos
[01:09:51] e meus braços
[01:09:52] eles aumentaram de tamanho
[01:09:54] para tentar resolver
[01:09:55] o problema
[01:09:55] quando eu ajo
[01:09:57] coletivamente
[01:09:57] porque eu não estou mais
[01:09:59] ensimesmado
[01:10:01] eu não estou mais
[01:10:02] parado em mim mesmo
[01:10:04] ou seja
[01:10:05] minha
[01:10:05] inclusive a existência
[01:10:07] temporal
[01:10:07] quando se está
[01:10:09] coletivamente
[01:10:10] é uma existência
[01:10:10] temporária
[01:10:10] é uma existência temporal
[01:10:11] dilatada
[01:10:12] o seu fim
[01:10:13] não acaba
[01:10:14] na sua morte
[01:10:14] porque
[01:10:15] os seus camaradas
[01:10:16] vão continuar
[01:10:17] o partido vai continuar
[01:10:18] e aquilo pelo qual
[01:10:20] você viveu
[01:10:21] vai continuar
[01:10:21] tendo validade
[01:10:23] e a luta vai prosseguir
[01:10:24] ou seja
[01:10:25] a sua existência
[01:10:26] se dilata
[01:10:27] para além de você mesmo
[01:10:29] e isso tem uma sensação
[01:10:30] inclusive há pesquisas
[01:10:32] que mostram isso
[01:10:33] uma sensação
[01:10:34] de
[01:10:35] pertencimento
[01:10:36] de acolhimento
[01:10:38] de
[01:10:39] de
[01:10:40] de fugir
[01:10:42] dessa solidão
[01:10:43] ainda que
[01:10:44] não vai resolver
[01:10:45] o problema
[01:10:45] do produtivismo imediato
[01:10:47] etc
[01:10:47] de autonomia
[01:10:49] exatamente
[01:10:49] de autonomia
[01:10:51] eu já ouvi relato
[01:10:52] da galera
[01:10:52] assim
[01:10:53] quando você
[01:10:54] se organiza
[01:10:55] politicamente
[01:10:55] por exemplo
[01:10:56] ele tem uma sensação
[01:10:57] que é muito
[01:10:57] muito louca né
[01:10:58] que é do tipo assim
[01:10:59] pô camarada
[01:11:00] precisa fazer tal tarefa
[01:11:02] tem como você fazer
[01:11:03] não claro
[01:11:03] posso cumprir
[01:11:04] e aí ele volta
[01:11:05] e fala assim
[01:11:05] não mas o que eu tenho que fazer
[01:11:06] não camarada
[01:11:07] é com você
[01:11:07] pode fazer
[01:11:09] a gente vai
[01:11:10] vai
[01:11:10] a gente acredita
[01:11:11] na sua capacidade
[01:11:12] e a pessoa fica meio assim
[01:11:13] tipo
[01:11:15] caralho
[01:11:16] não pode fazer
[01:11:17] não faz aí
[01:11:17] sabe
[01:11:18] né
[01:11:19] de se sentir autônomo
[01:11:21] em relação a esse tipo de coisa
[01:11:22] de não ter ali o capataz
[01:11:23] exatamente
[01:11:24] saca
[01:11:25] tem que fazer
[01:11:25] tem que fazer desse jeito
[01:11:26] e também muda
[01:11:28] um pouco
[01:11:29] a forma como você
[01:11:30] refere-se a si mesmo
[01:11:31] ou seja
[01:11:33] cria
[01:11:33] por assim dizer
[01:11:35] uma
[01:11:35] outra
[01:11:36] um outro campo
[01:11:37] de
[01:11:38] palavras
[01:11:39] de semântica
[01:11:40] de
[01:11:41] possibilidades
[01:11:43] de narrar a si mesmo
[01:11:44] que fujam
[01:11:46] daquela
[01:11:46] negatividade
[01:11:47] do eu sou fracassado
[01:11:49] eu sou
[01:11:50] isolado
[01:11:51] eu estou sozinho
[01:11:52] no mundo
[01:11:52] ou seja
[01:11:53] possibilita
[01:11:54] que o sujeito
[01:11:55] reconstrua
[01:11:56] a sua própria biografia
[01:11:58] sobre outra linguagem
[01:12:00] é óbvio
[01:12:02] que
[01:12:02] acaba o sofrimento
[01:12:04] não
[01:12:04] mas
[01:12:05] Freud diz uma coisa
[01:12:06] que é muito importante
[01:12:07] que
[01:12:07] uma verdadeira terapia
[01:12:09] não acaba
[01:12:10] com o sofrimento
[01:12:10] mas faz você sofrer
[01:12:12] qualitativamente melhor
[01:12:13] faz você aprender
[01:12:15] a lidar com o seu sofrimento
[01:12:16] de uma maneira
[01:12:17] qualitativamente melhor
[01:12:18] talvez
[01:12:19] e esse é meu palpite
[01:12:21] que na
[01:12:21] relação de camaradagem
[01:12:23] na luta política
[01:12:25] no movimento político
[01:12:26] organizado
[01:12:27] seja ele em partido
[01:12:28] em movimentos sociais
[01:12:29] em coletivos
[01:12:30] a gente
[01:12:31] possa encontrar
[01:12:32] espaços
[01:12:33] onde a gente
[01:12:34] partilhando o nosso sofrimento
[01:12:35] perceba que a gente
[01:12:37] não é
[01:12:38] a última bolacha
[01:12:39] pisada
[01:12:40] de um papelão
[01:12:40] de pacote
[01:12:41] mas a gente faz parte
[01:12:42] de que
[01:12:43] se a gente juntar
[01:12:44] várias bolachas
[01:12:45] a gente pode
[01:12:46] juntos
[01:12:47] construir
[01:12:49] uma outra forma
[01:12:49] de narrar nós mesmos
[01:12:50] e uma outra forma
[01:12:51] de ação
[01:12:52] um outro horizonte
[01:12:54] de sujeito
[01:12:54] que não seja
[01:12:55] esse sujeito
[01:12:55] neoliberal
[01:12:56] que só produz
[01:12:58] como uma calculadora
[01:12:59] eu ia
[01:13:00] colocar isso mesmo
[01:13:02] que
[01:13:02] Erivaldo falou
[01:13:03] a gente
[01:13:04] junto com as demais bolachas
[01:13:05] faça um pacotão
[01:13:07] de bolacha
[01:13:07] e aí a gente
[01:13:08] afoga o patrão
[01:13:09] nas bolachas
[01:13:10] que somos nós
[01:13:11] mas assim
[01:13:12] cara
[01:13:13] é isso assim
[01:13:14] obviamente
[01:13:15] quando a gente fala
[01:13:15] também da questão
[01:13:16] da
[01:13:16] e eu acho
[01:13:18] que é o que o Erivaldo
[01:13:19] falou mesmo
[01:13:19] a produção
[01:13:20] de um sofrimento
[01:13:22] mais qualificado
[01:13:24] com a qualidade melhor
[01:13:26] em relação
[01:13:26] a tudo
[01:13:27] que a gente vive
[01:13:28] quando a gente fala
[01:13:29] de se organizar
[01:13:30] politicamente
[01:13:32] é uma coisa
[01:13:32] que a gente bate na tecla
[01:13:33] em todo podcast
[01:13:34] do Revolu Show
[01:13:35] enfim
[01:13:35] todas as vezes
[01:13:35] que eu estou fazendo live
[01:13:36] eu sempre estou discutindo
[01:13:37] isso com a galera
[01:13:37] é
[01:13:38] é
[01:13:39] é
[01:13:39] é
[01:13:39] é
[01:13:39] é
[01:13:39] é
[01:13:39] é
[01:13:39] é
[01:13:39] é
[01:13:39] é
[01:13:40] é
[01:13:40] é
[01:13:40] é
[01:13:40] é
[01:13:40] ,
[01:13:40] a gente tem que entender
[01:13:41] também que no processo
[01:13:42] organizativo
[01:13:43] a gente também
[01:13:44] vai ter desapontamentos
[01:13:45] né
[01:13:46] a gente
[01:13:47] isso é importante
[01:13:48] de ser entendido
[01:13:49] o quanto antes
[01:13:50] porque isso demonstra
[01:13:51] um amadurecimento político
[01:13:52] né
[01:13:53] é
[01:13:53] a gente tem que entender
[01:13:54] que porra
[01:13:54] a gente vai se deparar
[01:13:55] com camaradas
[01:13:55] que são problemas
[01:13:56] são problemáticos
[01:13:57] a gente vai se deparar
[01:13:58] é
[01:13:59] com concepções políticas
[01:14:00] que a gente vai discordar
[01:14:02] né
[01:14:02] com ações políticas
[01:14:03] que a gente vai achar
[01:14:04] que está sendo mal feito
[01:14:05] né
[01:14:05] você vai lá
[01:14:07] e olha aquela
[01:14:07] identidade visual do partido
[01:14:09] e fala assim
[01:14:09] nossa
[01:14:10] mas que lixo
[01:14:10] isso aqui
[01:14:11] mais alguém fez
[01:14:12] né
[01:14:13] que tristeza
[01:14:14] né
[01:14:15] ou então vai ver um texto
[01:14:16] e vai falar assim
[01:14:17] cara
[01:14:17] quem que escreveu isso aqui
[01:14:18] sabe
[01:14:18] então a gente vai ter
[01:14:19] esses problemas
[01:14:21] mas ao mesmo tempo
[01:14:21] a gente vai se deparar
[01:14:23] e entender
[01:14:24] né
[01:14:24] que a forma partido
[01:14:26] que a qual a gente fala
[01:14:27] no caso aqui
[01:14:28] a gente está discutindo
[01:14:29] a forma partido
[01:14:30] marxista-leninista
[01:14:31] né
[01:14:31] eu sou do PCB
[01:14:32] né
[01:14:33] Herbaldo do PCB
[01:14:34] nosso querido camarada
[01:14:35] Gustavo também
[01:14:36] né
[01:14:36] aí está no PCB também
[01:14:38] é
[01:14:39] é
[01:14:40] , tem seus problemas
[01:14:41] e tem as suas possibilidades
[01:14:43] né
[01:14:44] acho que
[01:14:45] e o problema
[01:14:45] de quando a gente entra
[01:14:46] nesse ambiente
[01:14:47] muitas vezes
[01:14:48] quando a gente é bem cru
[01:14:49] né
[01:14:49] a primeira vez
[01:14:50] que a gente está entrando
[01:14:50] num partido na vida
[01:14:51] ou em uma organização
[01:14:52] política na vida
[01:14:52] é uma forma
[01:14:54] de sociabilidade
[01:14:54] completamente diferente
[01:14:55] então primeiro
[01:14:55] você tem que
[01:14:56] tentar ler
[01:14:57] aquela forma de sociabilidade
[01:14:58] entender a dinâmica
[01:14:59] sabe quando você entra
[01:15:00] a primeira vez no trabalho
[01:15:00] por exemplo
[01:15:01] o horário para chegar
[01:15:02] etc e tudo mais
[01:15:02] mas tem uma coisa assim
[01:15:03] de entender a dinâmica
[01:15:04] como é que funciona
[01:15:05] o que está acontecendo
[01:15:06] no partido obviamente
[01:15:08] tem muito menos amarras
[01:15:09] do que o processo
[01:15:09] do trabalho né
[01:15:10] do assalariado
[01:15:11] que a gente está falando assim
[01:15:13] entender o que está acontecendo
[01:15:14] entender o processo histórico
[01:15:16] onde é que veio aquilo
[01:15:17] que concepção é essa
[01:15:18] os termos que são utilizados
[01:15:19] né
[01:15:20] o processo de decisão
[01:15:23] né
[01:15:23] de tomada de decisão
[01:15:24] que o processo de tomada de decisão
[01:15:26] não é só seu
[01:15:26] tem uma questão coletiva também
[01:15:28] que o seu posicionamento público
[01:15:30] em determinada rede social
[01:15:31] em determinada questão
[01:15:32] é um posicionamento
[01:15:33] que carrega também
[01:15:34] o posicionamento do seu partido
[01:15:36] ou da sua organização política
[01:15:37] que se você fizer uma merda
[01:15:38] enquanto indivíduo
[01:15:39] numa rede social
[01:15:39] alguma coisa
[01:15:40] isso rebate
[01:15:41] sobre a coletividade
[01:15:42] que está ali
[01:15:43] junto com você também né
[01:15:44] é uma
[01:15:45] é uma
[01:15:46] é um processo
[01:15:48] em que você
[01:15:50] sente uma responsabilidade
[01:15:52] que não é uma responsabilidade
[01:15:53] só pela sua existência
[01:15:55] mas uma responsabilidade
[01:15:55] pela sua existência coletiva também
[01:15:57] isso é muito bom
[01:15:58] no sentido de você
[01:16:00] se sentir parte de algo
[01:16:02] né
[01:16:03] se sentir parte
[01:16:04] de uma concepção
[01:16:07] que não existe só
[01:16:08] enquanto você
[01:16:09] você existe né
[01:16:10] que é aquilo que o Bertoldo Brecht fala
[01:16:12] no elogio ao partido
[01:16:13] que está lá
[01:16:15] na decisão
[01:16:17] naquela peça de teatro dele
[01:16:18] que o indivíduo
[01:16:21] tem dois olhos
[01:16:23] o partido tem muitos
[01:16:23] então assim
[01:16:27] essa coletividade
[01:16:28] é um momento
[01:16:29] de estranhamento inicial
[01:16:30] obviamente
[01:16:31] que a pessoa vai
[01:16:32] se organizar
[01:16:32] mas depois assim
[01:16:33] ela pegar a dinâmica
[01:16:35] pegar o entendimento
[01:16:35] entender que ela também
[01:16:36] pode ser propositiva
[01:16:37] entender que ela
[01:16:38] pode fazer discursos
[01:16:39] que ela pode ter abertamente
[01:16:41] embates internos
[01:16:45] embates externos
[01:16:46] e assim por diante
[01:16:46] desapontamentos
[01:16:48] apontamentos
[01:16:48] enfim
[01:16:49] mas isso é
[01:16:51] isso é muito bom
[01:16:51] isso é muito bom
[01:16:53] nesse sentido
[01:16:53] de você se encontrar
[01:16:55] para além
[01:16:55] dessa lógica neoliberal
[01:16:57] que trabalha
[01:16:58] inclusive
[01:16:59] e exclusivamente
[01:17:00] para que você
[01:17:01] caia nessa concepção
[01:17:02] e que você não se organize
[01:17:03] politicamente
[01:17:04] coletivamente
[01:17:06] cair nessa dinâmica
[01:17:08] de que
[01:17:09] você é um
[01:17:11] um grãozinho
[01:17:12] que você vai fazer a diferença
[01:17:14] sabe aquela
[01:17:14] aquela historiezinha
[01:17:15] horrorosa
[01:17:16] tipo
[01:17:16] ah eu peguei
[01:17:17] a estrela do mar
[01:17:19] que estava lá
[01:17:19] e tinha uns centenas
[01:17:20] de milhões de estrelas
[01:17:21] aí eu taquei
[01:17:21] mas parece que a estrela
[01:17:22] fez a diferença
[01:17:23] etc e tudo mais
[01:17:24] papo de coach do caralho
[01:17:27] etc
[01:17:28] mas que enfim
[01:17:29] imagina aquela criança
[01:17:30] se ela voltasse
[01:17:31] politicamente organizada
[01:17:32] com várias outras pessoas
[01:17:33] e falasse
[01:17:33] vamos pegar tudo de uma vez
[01:17:34] em vez de achar
[01:17:35] que é ela sozinha
[01:17:36] eu fiz a diferença
[01:17:37] para uma estrela
[01:17:37] todas as demais morreram
[01:17:38] foi um genocídio
[01:17:39] mas deu certo
[01:17:40] né
[01:17:40] assim
[01:17:40] então assim
[01:17:42] é muito
[01:17:43] é muito importante isso
[01:17:44] é muito importante
[01:17:45] isso que o Eribaldo aponta
[01:17:46] Gustavo?
[01:17:48] não
[01:17:48] só para complementar
[01:17:49] que eu acho que
[01:17:50] a organização política
[01:17:52] ela nos coloca de fronte
[01:17:54] com uma questão
[01:17:55] como o Eribaldo falou
[01:17:57] né
[01:17:57] de a gente se deparar
[01:17:58] com o mundo
[01:17:59] a partir de uma nova linguagem
[01:18:01] e consequentemente
[01:18:02] sobre uma nova ética
[01:18:03] do que essa linguagem
[01:18:04] significa
[01:18:04] né
[01:18:06] que é
[01:18:06] é pensar
[01:18:08] principalmente
[01:18:08] que eu acho
[01:18:09] você falou no começo da live
[01:18:10] né Zami
[01:18:11] sobre
[01:18:11] a tortura
[01:18:13] ser feita
[01:18:14] para você não falar
[01:18:15] sobre ela
[01:18:16] né
[01:18:16] e eu acho que existe
[01:18:18] no neoliberalismo
[01:18:20] uma
[01:18:21] perversidade
[01:18:22] muito grande
[01:18:23] porque
[01:18:24] ele silencia
[01:18:26] os sujeitos
[01:18:26] né
[01:18:27] você o tempo todo
[01:18:28] vive culpado
[01:18:29] e em silêncio
[01:18:30] você não pode
[01:18:32] narrar o seu sofrimento
[01:18:33] né
[01:18:34] você não pode
[01:18:34] narrar aquilo
[01:18:35] que você
[01:18:36] entende como
[01:18:37] contraditório
[01:18:39] ou aquilo que você
[01:18:40] entende como
[01:18:41] negativo
[01:18:42] ou como problemático
[01:18:43] esse lugar
[01:18:45] da
[01:18:45] da narrativa
[01:18:48] ele fica
[01:18:48] em segundo plano
[01:18:50] né
[01:18:50] e o quanto
[01:18:51] esse silenciamento
[01:18:54] é algo muito complicado
[01:18:55] né
[01:18:56] e muito difícil
[01:18:57] acho que você
[01:18:57] como assistente social
[01:18:58] deve ver isso
[01:19:00] muitas vezes né
[01:19:01] que a dificuldade
[01:19:02] da pessoa
[01:19:03] tá
[01:19:03] ela não consegue
[01:19:05] descrever um problema
[01:19:06] ela não consegue
[01:19:06] descrever o sofrimento
[01:19:08] descrever as questões
[01:19:09] que a circundam
[01:19:10] né
[01:19:10] e como essa forma
[01:19:11] de organização
[01:19:13] política
[01:19:13] ela parte
[01:19:15] de uma lógica
[01:19:15] contrária
[01:19:16] né
[01:19:17] ela parte
[01:19:17] do lugar
[01:19:19] da coletividade
[01:19:20] então
[01:19:20] o que você faz
[01:19:21] é compartilhar
[01:19:23] né
[01:19:23] você narra
[01:19:24] você fala
[01:19:25] sobre as coisas
[01:19:25] né
[01:19:26] você
[01:19:26] vivencia
[01:19:29] aquilo
[01:19:29] como uma unidade
[01:19:30] coletiva
[01:19:31] orgânica
[01:19:32] né
[01:19:32] que tem
[01:19:33] suas questões
[01:19:34] que tem
[01:19:34] seus problemas
[01:19:35] mas que
[01:19:36] permite com que
[01:19:37] se narre
[01:19:38] as coisas
[01:19:38] né
[01:19:39] e tem uma
[01:19:39] tem um texto
[01:19:41] muito bom
[01:19:43] de uma filósofa
[01:19:44] que eu gosto muito
[01:19:45] que é
[01:19:45] Jane Marie Ganebon
[01:19:46] uma especialista
[01:19:46] em Walter Benjamin
[01:19:47] e ela tem um texto
[01:19:49] muito legal
[01:19:49] num livro
[01:19:50] chamado
[01:19:50] limiar aura
[01:19:51] e rememoração
[01:19:52] que chama
[01:19:52] esquecer o passado
[01:19:53] e ela fala
[01:19:55] sobre como
[01:19:56] o Brasil
[01:19:56] tem dificuldade
[01:19:57] em lidar
[01:19:58] com o passado
[01:19:59] pela força
[01:20:01] da classe dominante
[01:20:02] em não falar
[01:20:03] sobre ele
[01:20:03] né
[01:20:03] em como a gente
[01:20:05] é incapacitado
[01:20:06] de falar
[01:20:07] sobre as coisas
[01:20:07] e permite
[01:20:08] com que
[01:20:08] atrocidades
[01:20:09] da história
[01:20:09] aconteçam de novo
[01:20:11] porque elas
[01:20:12] não são trazidas
[01:20:12] à tona
[01:20:13] né
[01:20:13] exatamente isso
[01:20:14] a tortura
[01:20:15] serve pra você
[01:20:15] não falar
[01:20:16] se ela serve
[01:20:17] pra eu não falar
[01:20:18] talvez eu deva
[01:20:19] falar sobre ela
[01:20:20] né
[01:20:20] se essa mania
[01:20:22] do neoliberalismo
[01:20:22] de produção
[01:20:23] de sofrimento
[01:20:24] nos impele
[01:20:25] a não falar
[01:20:26] talvez seja
[01:20:28] essa primeira coisa
[01:20:29] que a gente
[01:20:30] uma das
[01:20:30] primeira não
[01:20:31] mas talvez
[01:20:31] uma das primeiras
[01:20:32] coisas que a gente
[01:20:32] deva se preocupar
[01:20:33] em realizar
[01:20:34] né
[01:20:34] em compartilhar
[01:20:35] e falar
[01:20:36] aquilo que nos faz
[01:20:37] sofrer
[01:20:37] porque a gente
[01:20:37] vai perceber
[01:20:38] que a gente
[01:20:38] vai perceber
[01:20:38] que a depressão
[01:20:39] e a ansiedade
[01:20:40] elas não são
[01:20:40] só sintomas
[01:20:41] particulares
[01:20:42] né
[01:20:42] elas são
[01:20:42] sintomas
[01:20:43] sociais
[01:20:43] o mal-estar
[01:20:45] ele não é
[01:20:45] individual
[01:20:45] ele é
[01:20:46] partilhado
[01:20:47] ele é
[01:20:47] coletivo
[01:20:49] porra
[01:20:50] se ele é
[01:20:50] coletivo
[01:20:51] qual que é
[01:20:52] esse ponto
[01:20:53] comum
[01:20:53] o que que
[01:20:54] a gente pode
[01:20:55] fazer pra
[01:20:56] extirpar
[01:20:57] esse ponto
[01:20:57] comum
[01:20:58] da história
[01:20:58] né
[01:20:59] e aí
[01:21:00] por enquanto
[01:21:02] a gente tem visto
[01:21:03] que as experiências
[01:21:05] mais reais
[01:21:06] em relação a isso
[01:21:07] foram feitas
[01:21:08] através
[01:21:08] do
[01:21:09] do
[01:21:10] da organização
[01:21:11] política
[01:21:11] né
[01:21:12] e é
[01:21:12] essa esperança
[01:21:13] que a gente tem
[01:21:14] né
[01:21:14] é o
[01:21:15] pessimismo
[01:21:15] revolucionário
[01:21:16] né
[01:21:16] não vai ser
[01:21:18] apagar a luz
[01:21:19] fechar a torneirinha
[01:21:21] parará
[01:21:21] né
[01:21:22] esse podcast
[01:21:22] aqui é o choque
[01:21:23] de realidade
[01:21:24] né
[01:21:24] tá tudo uma desgraça
[01:21:26] tá tudo uma merda
[01:21:28] cara
[01:21:28] tá tudo uma merda
[01:21:29] e não vai melhorar
[01:21:31] vai melhorar
[01:21:31] substancialmente
[01:21:32] e aí
[01:21:33] o que a gente faz
[01:21:34] ficar sentado
[01:21:35] no apartamento
[01:21:36] com a boca
[01:21:37] cheia de dentes
[01:21:37] esperando a morte
[01:21:38] chegar né
[01:21:39] ó
[01:21:40] linda quebrada
[01:21:41] né
[01:21:41] lá no Big Brother
[01:21:41] ela falou algo
[01:21:42] zizequiano né
[01:21:44] que ela falou o seguinte né
[01:21:46] é
[01:21:46] e sometimes
[01:21:47] you know
[01:21:48] foi isso que ela falou
[01:21:49] ela falou algo
[01:21:51] eu não quero
[01:21:51] que as pessoas
[01:21:52] tenham esperança
[01:21:53] eu quero que as pessoas
[01:21:54] se desesperem
[01:21:55] ela disse
[01:21:56] é só assim
[01:21:56] que as pessoas
[01:21:57] podem agir politicamente né
[01:21:58] perder a esperança
[01:22:00] de que
[01:22:00] manejando
[01:22:01] dentro desse mundo
[01:22:02] que a gente tem
[01:22:03] é possível
[01:22:04] fazer mais alguma coisa
[01:22:05] a gente tem que manejar
[01:22:07] agora
[01:22:07] pra destruir
[01:22:08] esse mundo
[01:22:09] porque dentro desse mundo
[01:22:10] não há mais esperança
[01:22:11] acabou a esperança
[01:22:12] é a coragem
[01:22:14] é o Zizek
[01:22:14] que chama isso
[01:22:15] de a coragem
[01:22:15] da desesperança né
[01:22:17] tem a coragem
[01:22:18] de chegar e dizer
[01:22:18] ó
[01:22:19] está tudo destruído
[01:22:20] é acabado
[01:22:21] a gente precisa
[01:22:22] acabar com isso
[01:22:23] de vez
[01:22:23] enterrar essa sociabilidade
[01:22:25] porque ela gera
[01:22:26] entre outras coisas
[01:22:27] a destruição
[01:22:28] do meio ambiente
[01:22:29] a destruição
[01:22:30] da possibilidade
[01:22:31] do ser humano
[01:22:32] se reproduzir
[01:22:33] mas gera também
[01:22:34] como diz
[01:22:35] Mark Fisher
[01:22:36] a destruição
[01:22:37] psicológica
[01:22:37] do ser humano
[01:22:38] o ser humano
[01:22:39] não consegue viver
[01:22:40] como uma máquina
[01:22:42] ele não vai conseguir
[01:22:44] viver assim
[01:22:45] pra sempre
[01:22:46] ele está se esgotando
[01:22:47] não é à toa que
[01:22:48] segundo a OMS
[01:22:50] a depressão
[01:22:51] já é
[01:22:52] um dos
[01:22:53] maiores
[01:22:54] causas
[01:22:55] de afastamento
[01:22:56] do mundo
[01:22:56] do trabalho
[01:22:57] já
[01:22:58] o suicídio
[01:22:59] já é uma das
[01:23:00] maiores causas
[01:23:01] de mortalidade
[01:23:02] entre jovens
[01:23:03] do mundo
[01:23:03] enfim
[01:23:04] então acho que
[01:23:05] se organizar politicamente
[01:23:07] como o Zan Miliano
[01:23:08] falou
[01:23:08] né
[01:23:08] ,
[01:23:09] ainda que tenha
[01:23:10] todo esse aspecto
[01:23:11] por assim dizer
[01:23:12] de uma terapia social
[01:23:13] novas sociabilidades
[01:23:15] impõe novos problemas
[01:23:16] mas
[01:23:17] novos problemas
[01:23:19] eles também
[01:23:20] nos possibilitam
[01:23:21] novos horizontes
[01:23:22] de resposta
[01:23:23] então essa é a grande
[01:23:24] beleza da coisa
[01:23:25] muito bom
[01:23:28] e eu acho que
[01:23:29] a gente está
[01:23:30] encaminhando aqui
[01:23:31] pra uma
[01:23:31] eu sempre falo isso
[01:23:32] na gravação
[01:23:33] do podcast
[01:23:34] por um momento
[01:23:35] ótimo
[01:23:35] do podcast
[01:23:37] a gente conseguiu
[01:23:38] avançar
[01:23:38] muito nessa discussão
[01:23:39] sobre neoliberalismo
[01:23:40] e sofrimento psíquico
[01:23:41] seja no âmbito
[01:23:42] da universidade
[01:23:43] seja fora do âmbito
[01:23:44] da universidade
[01:23:44] lembrando a todo mundo
[01:23:46] que está nos ouvindo
[01:23:46] nesse exato momento
[01:23:47] que se você quiser
[01:23:48] contribuir com o Catarse
[01:23:50] do nosso querido
[01:23:51] Eribaldo Maia
[01:23:52] pela editora
[01:23:54] Ruptura
[01:23:55] é só você botar
[01:23:55] catarse.me
[01:23:56] barra
[01:23:57] eribaldo.me
[01:23:58] barra
[01:23:59] eribaldo
[01:24:00] no linkzinho
[01:24:02] que está aí
[01:24:03] aparecendo pra você
[01:24:03] também na nossa
[01:24:04] livezinha
[01:24:05] e no nosso
[01:24:05] podcast
[01:24:07] é
[01:24:08] , e a gente vai agora
[01:24:09] para os reclames
[01:24:10] do Plim Plim
[01:24:10] o grande momento
[01:24:11] aqui em que a gente
[01:24:12] fala sobre o
[01:24:13] Revolução existente
[01:24:14] e vamos também
[01:24:15] para nossas
[01:24:16] conclusões finais
[01:24:17] bom
[01:24:18] como
[01:24:19] eu vou fazer
[01:24:20] e eu estou aqui
[01:24:21] para fazer os reclames
[01:24:21] do Plim Plim
[01:24:22] eu queria agradecer
[01:24:22] mais uma vez
[01:24:23] a todos vocês
[01:24:24] que participaram
[01:24:25] e ouviram esse podcast
[01:24:26] até o presente momento
[01:24:27] e dizer que ele
[01:24:28] só é possível
[01:24:29] de ser feito
[01:24:29] graças a você
[01:24:30] que contribui aí
[01:24:31] no padrim.com
[01:24:32] barra revolução
[01:24:33] né
[01:24:34] ou no
[01:24:35] picpay do revolução
[01:24:36] arroba revolução
[01:24:37] aí no picpay
[01:24:38] ou até mesmo
[01:24:39] no aplicativo
[01:24:40] da orelo
[01:24:41] né
[01:24:41] se você
[01:24:42] dá o playzinho lá
[01:24:43] você dá uma
[01:24:44] quantidade de
[01:24:45] graninha pra gente
[01:24:45] e também
[01:24:46] pode
[01:24:47] pagar diretamente
[01:24:50] pelo aplicativo
[01:24:51] da orelo
[01:24:51] tem uma taxinha
[01:24:52] menor aí
[01:24:52] que a maioria
[01:24:52] das coisas
[01:24:53] que a gente
[01:24:53] utiliza
[01:24:54] e
[01:24:55] ouvir a gente
[01:24:57] da melhor forma
[01:24:58] possível
[01:24:59] na hora
[01:25:00] que você
[01:25:00] quiser
[01:25:01] então não se esqueça
[01:25:02] de auxiliar
[01:25:03] porque a gente
[01:25:04] também
[01:25:04] tem que pagar
[01:25:05] a continha de gás
[01:25:06] aí do fim do mês
[01:25:07] não está sendo fácil
[01:25:07] essa continha de gás
[01:25:08] não está sendo fácil
[01:25:09] essa continha de luz
[01:25:09] ok
[01:25:10] eu queria agradecer vocês
[01:25:12] e não esqueçam
[01:25:12] dá uma olhadinha
[01:25:13] aí
[01:25:15] no feed
[01:25:15] que tem um monte
[01:25:17] de cupom pra você
[01:25:18] tem o clube do livro
[01:25:19] da expressão popular
[01:25:21] que é muito bom
[01:25:21] aliás recebi aqui
[01:25:22] essa semana
[01:25:23] um livro muito bom
[01:25:25] sobre o Victor Yara
[01:25:25] né
[01:25:26] pra quem não conhece
[01:25:27] essa figura
[01:25:28] fantástica aí
[01:25:29] é
[01:25:30] chilena né
[01:25:31] esse cantor
[01:25:31] esse compositor
[01:25:32] chileno
[01:25:32] foi morto
[01:25:33] na época
[01:25:34] da ditadura
[01:25:35] do Pinochet
[01:25:36] e
[01:25:36] é também
[01:25:38] um livro muito bom
[01:25:38] que eu recomendo
[01:25:39] pra todos né
[01:25:40] sobre a comuna de Paris
[01:25:41] né
[01:25:41] da coleção
[01:25:43] assim lutou os povos
[01:25:44] né
[01:25:45] sobre a comuna de Paris
[01:25:45] de 1871
[01:25:46] escrita por um comunarde
[01:25:48] né
[01:25:49] que conheceu Marx
[01:25:50] né
[01:25:50] que conheceu Engels
[01:25:51] né
[01:25:52] que estava ali junto ali
[01:25:53] da família Marx também
[01:25:54] que fez uma boa reflexão
[01:25:56] e uma avaliação
[01:25:57] sobre os problemas
[01:25:58] da comuna de Paris
[01:25:58] de 1871
[01:25:59] então dá uma olhadinha aí
[01:26:00] no link
[01:26:01] e vê se você
[01:26:02] acha interessante
[01:26:03] auxiliar também
[01:26:04] a expressão popular
[01:26:06] aderindo
[01:26:07] ao clube
[01:26:07] do livro da expressão popular
[01:26:08] então vamos
[01:26:09] nos encaminhar
[01:26:10] agora nesse momento
[01:26:11] para as conclusões finais
[01:26:12] desse lindo
[01:26:13] maravilhoso podcast
[01:26:14] pra gente já ir
[01:26:15] indo
[01:26:16] né
[01:26:16] pra tomar aquela cervejinha
[01:26:17] afinal de contas
[01:26:18] sextou né
[01:26:18] então pra essa conclusão
[01:26:21] vou chamar aí
[01:26:21] nosso querido Gustavo
[01:26:22] sinta-se à vontade
[01:26:23] e logo depois
[01:26:24] Iribaldo Maia
[01:26:25] Primeiramente
[01:26:26] agradecer aí
[01:26:27] ao Zameliano
[01:26:28] pelo convite
[01:26:29] ao Iribaldo também
[01:26:30] pelo convite
[01:26:30] sempre bom aí
[01:26:31] a gente
[01:26:32] tá nessa parceria
[01:26:34] constante
[01:26:34] né
[01:26:35] a nova versão
[01:26:36] de Crise Greg
[01:26:37] é isso
[01:26:39] basicamente
[01:26:40] uma dupla simbiótica
[01:26:41] agradecer a todo mundo aí
[01:26:42] também que
[01:26:43] ouviu esse episódio
[01:26:45] e falar pra galera
[01:26:46] me seguir
[01:26:46] nas redes sociais
[01:26:47] é
[01:26:48] Instagram
[01:26:49] História Cabeluda
[01:26:50] Twitch
[01:26:50] História Cabeluda
[01:26:51] YouTube também
[01:26:52] só o Twitter
[01:26:53] que é
[01:26:53] Gaiofect
[01:26:54] eu sou um piadista
[01:26:56] né
[01:26:57] é uma grande
[01:26:57] jogada ali
[01:26:58] com meu sobrenome
[01:26:59] Gaiofect
[01:27:01] beleza
[01:27:02] e
[01:27:03] é isso aí
[01:27:03] vamos junto
[01:27:05] porque tem muito trabalho
[01:27:06] a ser feito
[01:27:06] vamos embora
[01:27:07] eu quero agradecer
[01:27:08] a Zameliano
[01:27:09] o espaço
[01:27:10] enfim
[01:27:10] dizer pra vocês
[01:27:11] irem ir lá no Catarse
[01:27:13] que Zameliano já
[01:27:14] pediu tanto
[01:27:15] comprar o livro
[01:27:16] tem várias versões
[01:27:17] com brindes
[01:27:18] inclusive com um post
[01:27:20] que tá maravilhoso
[01:27:21] é
[01:27:22] dizer pra vocês
[01:27:23] seguirem
[01:27:24] me seguirem
[01:27:24] nas redes sociais
[01:27:25] é Iribaldo Maia
[01:27:26] tanto no Twitter
[01:27:27] quanto no Instagram
[01:27:27] seguir lá o Mimes Esquete
[01:27:29] também no Instagram
[01:27:29] e no Spotify
[01:27:30] é
[01:27:31] e também
[01:27:32] eu e Gustavo
[01:27:33] tá com um curso
[01:27:35] de introdução
[01:27:36] a teoria crítica
[01:27:36] teoria crítica
[01:27:37] uma introdução
[01:27:38] vocês podem ter acesso
[01:27:40] tanto através
[01:27:41] da bio
[01:27:42] do meu Instagram
[01:27:43] ou de Gustavo
[01:27:45] e tá no precinho
[01:27:46] o curso vai ser maravilhoso
[01:27:47] além do meu curso
[01:27:48] também lá na classe esquerda
[01:27:50] o Desvendando a Dialética
[01:27:51] uma introdução
[01:27:52] ao pensamento de Hegel
[01:27:53] que faz parte
[01:27:53] do catálogo
[01:27:54] da classe esquerda
[01:27:55] e pra quem quiser
[01:27:55] se aventurar em Hegel
[01:27:57] vale muito a pena
[01:27:58] enfim
[01:27:58] é isso
[01:27:59] obrigado demais
[01:28:00] pelo espaço
[01:28:01] valeu
[01:28:01] muito bom
[01:28:02] obrigado a todo mundo
[01:28:03] que tá ouvindo esse podcast
[01:28:04] até o presente momento
[01:28:05] a gente se encontra
[01:28:06] na próxima
[01:28:07] e não se esqueça
[01:28:08] a gente tá muito bem
[01:28:09] e o Olavo
[01:28:09] tá daquele jeito
[01:28:10] um abraço
[01:28:11] e até a próxima
[01:28:12] tchau tchau
[01:28:13] sem fumar
[01:28:14] quatro dias
[01:28:37] tchau tchau
[01:28:38] tchau