#27 - Musk e Wonka


Resumo

O episódio realiza uma análise crítica e antropológica, utilizando o filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (1971) como lente para examinar a figura do bilionário na sociedade contemporânea. Os participantes traçam um paralelo direto entre o personagem Willy Wonka, interpretado por Gene Wilder, e o empresário Elon Musk, argumentando que ambos representam uma continuação moderna do sistema de realeza, baseado em exploração, colonialismo e violência estrutural.

A discussão detalha como a fortuna e o poder de Wonka/Musk são construídos sobre cadeias de violência e exploração, desde a escravidão dos Oompa Loompas (ou, no caso de Musk, a segregação racial nas fábricas da Tesla e a exploração de recursos como o lítio na Bolívia) até a pauperização de comunidades inteiras, exemplificada pela figura do Vovô Joe, um ex-funcionário demitido por Wonka. O filme é interpretado como uma alegoria do neoliberalismo, onde a terceirização da pobreza e a demissão de trabalhadores locais em prol de mão de obra escravizada é a regra.

Os participantes debatem a ideologia por trás da narrativa, criticando a noção de caridade condicional e meritocracia presente no final do filme, onde Charlie “ganha” a fábrica por ser “moralmente superior”. Eles argumentam que isso reflete uma visão liberal-protestante que ignora fatores estruturais e perpetua a ideia de que os pobres precisam se provar dignos da benevolência dos ricos. A conversa também aborda a interpretação de Gene Wilder, que conscientemente retratou Wonka como um personagem não confiável e vilanesco, em contraste com a adaptação posterior de Tim Burton/Johnny Depp.

Por fim, a análise conclui que a existência de bilionários é inerentemente imoral dentro do capitalismo, pois o sistema depende da pobreza e da violência para se reproduzir. O episódio rejeita a visão progressista de que o capitalismo pode ser reformado para incluir a todos, defendendo que qualquer fortuna bilionária é indissociável de uma cadeia de exploração e que a fantasia de um capitalismo “renovado” e moral, simbolizada pelo final do filme, é impossível na realidade.


Indicações

Canais

  • Hats Off Entertainment (YouTube) — Canal do YouTube recomendado por conter um mini-documentário sobre a vida e carreira de Gene Wilder, feito com imagens de arquivo, que emocionou o participante durante a pandemia.

Filmes

  • Willy Wonka and the Chocolate Factory (1971) — O filme principal discutido no episódio, dirigido por Mel Stuart e estrelado por Gene Wilder, é analisado como uma crítica subliminar ao capitalismo e uma alegoria do neoliberalismo.
  • Jovem Frankenstein — Mencionado como outro trabalho brilhante de Gene Wilder, em colaboração com Mel Brooks, destacando o talento do ator além do papel de Willy Wonka.
  • Gung Ho (Fábrica de Loucuras) — Filme de Ron Howard com Michael Keaton, citado como um exemplo que retrata a aquisição de uma fábrica americana por japoneses e as tensões culturais e econômicas resultantes, ilustrando a desindustrialização.
  • 8 Mile — Citado como um retrato pontual da pauperização e do abandono de Detroit após o fechamento das fábricas, consequência das políticas neoliberais.

Livros

  • Charlie and the Chocolate Factory (Roald Dahl) — O livro original de 1964, que deu origem ao filme. Menciona-se que Dahl escreveu o roteiro da adaptação de 1971, mas não gostou do resultado final. Também é citada a informação (não confirmada no episódio) de que o protagonista original no livro seria uma criança negra.

Pessoas

  • Gene Wilder — Ator celebrado por sua interpretação de Willy Wonka e por sua carreira em comédias como as de Mel Brooks. Sua escolha de tornar o personagem não confiável desde a primeira cena é destacada como um golpe de genialidade.
  • Marshall Sahlins — Antropólogo citado como base para a discussão antropológica sobre a função da realeza, que é comparada à posição dos bilionários na sociedade moderna.
  • David Graeber — Antropólogo anarquista citado como outra referência fundamental para a análise da realeza e das estruturas de poder, embasando a crítica aos bilionários.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução: Bilionários como a Realeza Moderna — O episódio começa apresentando a tese central: bilionários são a realeza contemporânea, vistos como salvadores e gênios incompreendidos. É anunciada uma análise antropológica baseada em Marshall Sahlins e David Graeber, comparando a função da realeza com figuras como Willy Wonka e Elon Musk. O tom é de crítica à beatificação dessas figuras no imaginário moderno.
  • 00:02:04A Fantástica Fábrica de Chocolate e Gene Wilder — Apresentação do filme de 1971, “Willy Wonka and the Chocolate Factory”. Destaca-se a genialidade de Gene Wilder na construção do personagem, especialmente na cena de entrada onde ele manca e dá uma cambalhota, criando imediatamente uma aura de desconfiança. A interpretação é contrastada com a de Johnny Depp na versão de Tim Burton, considerada inferior e afetada.
  • 00:06:50Primeiro Paralelo: Wonka e Musk como Industrialistas — Início da comparação explícita entre Willy Wonka e Elon Musk. Ambos são apresentados como industrialistas famosos, vistos como especiais e isolados em seus “castelos”. A discussão introduz a questão da segurança: assim como as crianças sofrem “acidentes” na fábrica de Wonka, as fábricas da Tesla têm uma taxa de acidentes muito acima da média, com Musk sendo contra sinalizações de segurança obrigatórias.
  • 00:11:52Exploração, Colonialismo e a Origem das Fortunas — Profundização nas bases violentas das fortunas. A escravidão dos Oompa Loompas por Wonka é comparada às acusações de segregação racial nas fábricas da Tesla (chamadas informalmente de “plantations”) e à exploração do lítio na Bolívia por Musk. A fortuna de Musk é vinculada às minas de diamante do pai na África do Sul durante o apartheid, estabelecendo uma linhagem de exploração.
  • 00:14:34Apagamento das Cadeias de Produção: Chocolate e Carros Elétricos — Análise do apagamento das redes de produção violenta por trás de produtos de luxo. Assim como o chocolate é associado à Suíça e apaga a escravidão infantil na colheita do cacau (especialmente no Brasil), os carros elétricos da Tesla são vendidos como “limpos” enquanto ignoram a violência na mineração do lítio e de outros componentes. A fortuna de ambos, Wonka e Musk, é assentada nesta cadeia de violências.
  • 00:21:09A Loteria dos Bilhetes Dourados e a Exploração Laboral — Análise do plot do filme como crítica social. A cena em que uma trabalhadora acha um bilhete dourado e tem ele confiscado para ser dado à filha do patrão é destacada como uma ilustração perfeita e singela da exploração do trabalhador. A figura do Vovô Joe é discutida: ele é um ex-funcionário demitido por Wonka, cuja pobreza foi diretamente causada pelo fechamento da fábrica para a população local.
  • 00:30:07Neoliberalismo, Desindustrialização e Pauperização — Expansão do debate para o contexto histórico do neoliberalismo. O fechamento da fábrica de Wonka e a demissão dos trabalhadores locais (como o Vovô Joe) são comparados ao processo de desindustrialização nos EUA e Reino Unido (ex: Detroit), onde fábricas foram fechadas ou transferidas para países com mão de obra mais barata, criando pobreza visível no quintal das nações ricas. Wonka é apresentado como o neoliberalismo em uma casca de noz.
  • 00:35:48Caridade Condicional e a Crítica à Meritocracia — Crítica ao final do filme e à ideologia que o sustenta. Charlie “ganha” a fábrica não por mérito real, mas por se provar “moralmente superior” (não cometer pecados capitais, apenas curiosidade). Isso é comparado à caridade condicional e à lógica de programas como “Se Vira nos 30”, onde o pobre precisa se humilhar ou realizar truques para receber ajuda. É uma exposição da crueldade inerente à ideia de meritocracia no capitalismo.
  • 00:41:04A Ética Protestante e o Gaslighting Final — Discussão sobre as raízes filosóficas da meritocracia no pensamento de Locke e na ética protestante do trabalho, que posteriormente se transforma em uma “marra moral”. A cena final em que Wonka grita com Charlie (gaslighting) e depois o presenteia com a fábrica é analisada como a recompensa do “Deus capitalista” ao sujeito comportado, perpetuando a fantasia de um capitalismo renovado e moral, que os participantes rejeitam como impossível.
  • 00:46:47Conclusão: A Impossibilidade de um Capitalismo Moral — Conclusão do raciocínio. O final do filme é uma fábula onde o capitalismo se reconecta com o povo através da figura do pequeno burguês (Charlie), dissolvendo temporariamente a figura do bilionário. No entanto, os participantes argumentam que isso é uma fantasia, pois o capitalismo necessita da pobreza e da miséria para se reproduzir. A existência de bilionários é, portanto, conceitualmente imoral. Um prólogo fictício e cínico é lido, sugerindo que Charlie venderia a empresa para uma multinacional como a Unilever, perpetuando o ciclo.

Dados do Episódio

  • Podcast: Popcult
  • Autor: Atabaque Produções
  • Categoria: TV & Film Film Reviews
  • Publicado: 2022-04-06T09:00:04Z
  • Duração: 00:49:36

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Um bilionário, o ápice de um sistema exploratório e colonizador, se vê como uma grande esperança

[00:00:10] para a próxima geração.

[00:00:12] Ele usa seu poder e influência para criar uma imagem de salvador, gênio incompreendido,

[00:00:18] inovador, um ser único e especial.

[00:00:21] O louco não é só o indigente que acredita ser um rei, mas também o rei que acredita

[00:00:26] ser um rei.

[00:00:28] Dentro das teologias humanas, a menos estudada é a religião moderna que beatifica esses

[00:00:32] insanos reizinhos.

[00:00:34] Aqui, bancado por George Soros, está ele, Orlando Calheiros, para falar sobre isso comigo.

[00:00:41] Que malé, George Soros, cara, eu sou bancado pela Merkel, porra, esqueceu?

[00:00:44] Ah, é verdade, desculpa.

[00:00:45] É Merkel que nunca me pagou, porque eu sou otário, trabalho para ONGs internacionais,

[00:00:51] mas nunca recebi um puto, sou o pior tipo de empregado, mas enfim, estou aqui hoje para

[00:00:56] reclamar da existência de bilionários.

[00:00:59] Sim.

[00:00:59] Primeiro de tudo.

[00:01:00] E fazer toda uma elaboração antropológica sobre a existência de realezas, sobre a

[00:01:07] existência da função realeza baseada no trabalho do finado Marshall Siles e do também

[00:01:14] finado David Graeber, o antropólogo anarquista.

[00:01:17] Então, assim…

[00:01:18] E acho que de uma maneira que a gente vai tratar como realeza algo que a gente no dia

[00:01:24] a dia não reconhece ou não chama como tal.

[00:01:28] Mas que é só a continuação desse sistema feudal aí.

[00:01:34] É, acho que nem feudal.

[00:01:36] Eu estou falando daquela passagem ali, tipo, ali já para a era moderna, pensando naqueles

[00:01:43] da burguesia francesa, já sabe, no momento que você tinha uma burguesia estabelecida,

[00:01:47] enfim, da época ali do filme do Barry Lyndon, já que a gente é um podcast que a gente

[00:01:51] fala muito de cinema aqui, né?

[00:01:52] Mas a gente tem um filme principal, né, George?

[00:01:54] A gente tem um filme principal hoje.

[00:01:56] Ah, tem.

[00:01:56] Tem.

[00:01:56] E eu vou falar dele agora, esse filme maravilhoso de 1971, que eu conheci da infância e revisitei

[00:02:04] a todos os momentos desde então, Willy Wonka and the Chocolate Factory, né, a fantástica

[00:02:10] fábrica de chocolate aqui no Brasil, dirigido pelo Mel Stewart, escrito…

[00:02:14] Olha só, você sabia disso?

[00:02:15] Eu não sabia disso, eu acabei de ler aqui, que o roteiro do filme é escrito pelo próprio

[00:02:21] Roald Dahl, que escreveu o livro, que tinha sido lançado em 64.

[00:02:24] Eu não sabia disso.

[00:02:26] Mas ele ficou bolado com a adaptação, ele não gostou.

[00:02:29] Correto ele.

[00:02:30] Eu já li esse livro, você já leu esse livro?

[00:02:32] Não.

[00:02:33] O filme é muito melhor, eu também ficaria bolado.

[00:02:35] Se eu tivesse escrito o livro, eu tivesse feito um filme melhor.

[00:02:37] Por isso então que o filme do Tim Burton, que é fiel ao livro, mas fiel ao livro, é

[00:02:42] uma merda.

[00:02:42] E ele não é fiel ao livro.

[00:02:44] Eu preciso…

[00:02:44] Ele diz que ele é.

[00:02:45] Ele diz que, assim, talvez alguma coisa seja mais fiel, mas assim, tipo, cara, toda aquela

[00:02:49] parada do Willy Wonka com o pai ali, eu não lembro daquilo no livro, não.

[00:02:53] Mas de qualquer jeito, é…

[00:02:55] O…

[00:02:56] O grande…

[00:02:57] A grande estrela desse filme é o Gene Wilder, né?

[00:03:00] Não, mas o Gene Wilder é a grande estrela de qualquer filme de onde ele esteja.

[00:03:03] Sim, mas é que foi o meu primeiro contato com o Gene Wilder, como criança.

[00:03:07] E ele é essencial pra caracterização do Willy Wonka como ele é nesse filme, né?

[00:03:14] Ele mesmo que trouxe alguns toques, né?

[00:03:16] A história famosa, né?

[00:03:17] De que aquela…

[00:03:19] A introdução do personagem que ele sai mancando e aí ele dá uma cambalhota e tal.

[00:03:23] E foi uma invenção do…

[00:03:26] O Gene Wilder.

[00:03:27] Porra, ele era foda.

[00:03:28] Porque ele fala assim, não, eu preciso que isso role porque é o seguinte, eu preciso

[00:03:32] que desde o primeiro momento o espectador não saiba se ele pode confiar nesse cara.

[00:03:38] Eu quero criar essa onda desde a hora que o personagem é impresso na tela.

[00:03:43] E é muito…

[00:03:45] Funciona, né?

[00:03:46] Esse cara sabia o que tava fazendo, né?

[00:03:48] Pô, mas é…

[00:03:49] É impressionante, assim, quando você pega…

[00:03:52] Quando você tem duas versões, né?

[00:03:53] Porque a gente não precisa explicar o que é…

[00:03:55] O…

[00:03:56] A Fantástica do Chocolate.

[00:03:57] Eu não queria nem falar da versão recente do Fantástica do Chocolate.

[00:03:59] Não, não, mas a gente não precisa explicar o que é o filme.

[00:04:01] Porque se as pessoas não assistiram isso…

[00:04:02] Não, não, até porque eu vou fazer um cena a cena fazendo comparações entre o Willy Wonka e o Elon Musk.

[00:04:08] Então eu vou meio que dar uma estrutura do filme.

[00:04:11] Mas assim…

[00:04:12] Porque assim…

[00:04:12] Mas se não viu, pausa o podcast.

[00:04:14] Vai ver o filme e volta.

[00:04:15] E corrija esse seu erro de caráter, tá ligado?

[00:04:17] Corrija.

[00:04:18] Uma informação básica.

[00:04:20] Eu lembro até hoje de quando saiu esse filme em DVD, eles reeditaram.

[00:04:25] Porque ia sair a versão do Johnny Depp lá.

[00:04:28] E aí eu ganhei de Natal a edição especial do DVD que vinha com uma barrinha do Chocolate Wonka.

[00:04:34] Era um Hershey’s com a embalagem do Wonka, né?

[00:04:37] Mas é tipo, cara…

[00:04:38] Naquele momento eu quase me senti o Charlie.

[00:04:40] Mas enfim, Orlando, por favor.

[00:04:42] Não, porque assim…

[00:04:44] Só porque aqui nessa casa eu louvamo o Gene Wilder, sabe?

[00:04:47] Tipo assim, o jovem Frankenstein, cegos, sudos e loucos.

[00:04:52] Cara, assim…

[00:04:52] Eu vou deixar uma dica pra quem gosta de ver…

[00:04:55] Documentários, assim, sobre atores e tal.

[00:04:57] Tem um canal que eu gosto no YouTube chamado Hats Off Entertainment.

[00:05:02] E eles fizeram um mini-doc, só com imagem de arquivo do Gene Wilder,

[00:05:06] mas narrando a vida e a carreira do cara, assim.

[00:05:09] E eu assisti durante a pandemia, assim, no YouTube.

[00:05:11] E eu, cara…

[00:05:12] Eu chorei, assim.

[00:05:14] Esse cara era um puta artista.

[00:05:15] Não, não.

[00:05:16] E é engraçado como é que ele é um artista que foi…

[00:05:19] Ele só sobrevive na memória do Willy Wonka.

[00:05:21] Porque é o, talvez, seja o personagem dele mais conhecido, né?

[00:05:24] Mas eu sinto…

[00:05:25] Eu sinto que ele sobrevive muito na memória também dos filmes do Mel Brooks, né?

[00:05:28] O Jovem Frankenstein e tudo mais.

[00:05:30] Cara, o Jovem Frankenstein é muito bom, cara.

[00:05:32] Meu Deus do céu.

[00:05:33] Sim.

[00:05:33] Filme bom, cara.

[00:05:34] Que filme bom.

[00:05:36] Mas é o que eu queria dizer, assim.

[00:05:37] Porque você vê o quanto o Gene Wilder, ele é genial

[00:05:41] quando você compara ele com o Johnny Depp.

[00:05:45] Porque eles estão fazendo o mesmo papel.

[00:05:47] E aí tu vê, assim, cara.

[00:05:48] É como se você visse um jogo, pra quem gosta de futebol,

[00:05:50] pra entender a referência.

[00:05:52] Entre o Chelsea, sabe qual é?

[00:05:54] Ou, sei lá.

[00:05:55] O Barcelona e, no outro lado, você tá com um 15 de Piracicaba.

[00:06:00] Porque, assim, cara, é isso.

[00:06:02] Tipo, o Johnny Depp é um 15 de Piracicaba.

[00:06:04] Em frente ao Gene Wilder.

[00:06:06] É impressionante.

[00:06:07] Ele só faz um papel afetado.

[00:06:09] O Gene Wilder não…

[00:06:10] Tu vê?

[00:06:11] Essa sutileza da cambalhota.

[00:06:13] Sabe?

[00:06:14] Ele não fica…

[00:06:14] É, eu sou doidão.

[00:06:16] Eu sou doidão.

[00:06:16] Não é isso.

[00:06:17] Não, e você falou sutileza.

[00:06:19] Eu preciso…

[00:06:20] O sutil desdém que ele tem para com as crianças que ganharam o prêmio.

[00:06:24] Menos o Charlie, né?

[00:06:27] Então, tipo assim, o jeito com que ele aterroriza as crianças com uma leveza…

[00:06:35] É, porque, assim, ele é tudo blasé.

[00:06:38] É, é blasé, mas ele é totalmente cruel, mas sem esforço nenhum, assim.

[00:06:45] É, tipo, é incrível.

[00:06:47] Eu quero fazer um paralelo aqui entre Willy Wonka e Elon Musk.

[00:06:50] Então, isso que a gente tá falando, eu acho que é o primeiro ponto, assim.

[00:06:53] O Gene Wilder…

[00:06:54] O Gene Wilder, ele é tão carismático, tão genial na criação do personagem que

[00:06:59] ele fez ali, que ele consegue trazer algo likeable, né?

[00:07:06] Algo gostável para esse bilionário, que não é necessariamente um bilionário ajustado

[00:07:11] pela inflação lá pelos anos 70, mas hoje em dia seria.

[00:07:15] Para esse grande industrialista, colonizador, escravizante de umpa-lumpas…

[00:07:20] Escravocrata.

[00:07:21] Não, escravocrata.

[00:07:22] Escravocrata.

[00:07:22] Sim, ele é um…

[00:07:23] Rapidinho, só um detalhe.

[00:07:24] Só um detalhe, porque isso vai ser importante, porque eu vou falar aqui depois.

[00:07:27] Tá.

[00:07:28] Na história do filme, o Willy Wonka, ele demite os funcionários por medo de…

[00:07:36] Por causa de uma paranoia que os funcionários roubariam, né, a propriedade intelectual dele,

[00:07:41] o segredo, o chocolate, e aí ele fecha a fábrica, e dentro da fábrica, os umpa-lumpas

[00:07:47] vivem ali.

[00:07:49] Ele só tem aquela vida ali dentro da fábrica.

[00:07:50] É.

[00:07:51] Um detalhe, um detalhe.

[00:07:52] No livro original, que eu não li, mas…

[00:07:54] Essa história eu sei.

[00:07:56] Os personagens seriam pigmeus africanos.

[00:08:00] Isso, isso é.

[00:08:00] E aí o editor achou que seria, tipo assim, muito na cara que era a escravidão, tá ligado?

[00:08:08] Sim.

[00:08:08] Então, muda um pouco.

[00:08:09] Aí ele muda no livro, né, pra uns caras meio hippie, branco, né?

[00:08:12] Assim, meio barbudão.

[00:08:14] E aí, desculpa, eu não queria falar da versão do Johnny Depp, mas eu preciso falar sobre isso.

[00:08:16] A versão do Johnny Depp deixa muito mais óbvio que eles são pigmeus, né, tipo, na caracterização,

[00:08:23] e dá o backstory.

[00:08:24] O backstory dele como explorador indo até a terra desses caras, e aí, tipo, falando assim,

[00:08:28] agora eu vim aqui escravizar vocês.

[00:08:31] Mas só que torna isso glamouroso e legal e divertido e…

[00:08:35] Só que não é, entendeu?

[00:08:37] Não é.

[00:08:38] E aí, tipo, pelo menos o filme do Gene Wilder não tende a tornar isso legal.

[00:08:41] É só, tipo…

[00:08:43] É 1971, a gente ainda meio que tem colônias, então meio que isso passa.

[00:08:48] O apartheid ainda existe na África do Sul, então meio que a gente pode fazer isso.

[00:08:51] Não, e tem uma coisa que é meio assim…

[00:08:54] Ele joga muito pro…

[00:08:59] Tem uns seres aqui, tá ligado?

[00:09:01] Exato, o filme nunca vira e explica o que aconteceu.

[00:09:03] Porque assim, no filme, se você ignora o livro, né, e se o filme existe como algo por si só,

[00:09:10] você pode…

[00:09:11] Você não sabe de onde saíram aquelas criaturas.

[00:09:14] Ele fala, ele fala, tipo, ah, eles vieram da Oompa Loompa Land, sei lá, um negócio assim, no filme.

[00:09:18] Aí alguém fala, isso nem existe.

[00:09:20] Isso nem existe.

[00:09:20] E ele é um personagem que tá mentindo o tempo inteiro.

[00:09:23] Então, assim…

[00:09:23] As far as you know, ele pode ter criado aqueles bichos em laboratório.

[00:09:27] Eu sempre pensei, na minha cabeça…

[00:09:28] Não tornam o que ele está fazendo correto.

[00:09:31] Não, não.

[00:09:31] Ok, essa cara já…

[00:09:32] Não, na minha cabeça…

[00:09:34] Não tô brincando.

[00:09:35] Na minha cabeça, até, sei lá, até eu já fui adulto mesmo,

[00:09:39] eles eram criações do Uli Wonka.

[00:09:42] Tipo assim, autômatos, sabe?

[00:09:44] Golems, alguma coisa assim.

[00:09:45] Sim, eu te digo que eu tinha essa impressão também, quando eu era menor.

[00:09:48] Acho que, não sei se eu prestei atenção ou não na fala ou não,

[00:09:50] mas porque eles são…

[00:09:53] Da caracterização, da direção de arte ali,

[00:09:55] que eles parecem feitos dos doces que estão na fábrica.

[00:09:59] Exatamente, exatamente.

[00:10:00] São doces recientes, sabe qual é?

[00:10:02] Exato, porque, tipo, o cabelo deles parece feito da mesma coisa

[00:10:04] da balinha lá que eles chupam, e a roupa tem as listras.

[00:10:08] Eles parecem seres de doce que ele criou.

[00:10:11] Mas tudo bem, a gente não precisa ser apologista do Uli Wonka aqui.

[00:10:15] A gente pode gostar do filme mesmo.

[00:10:16] Não, não, pelo contrário.

[00:10:16] Só pra deixar claro.

[00:10:17] Porque, assim, eu acho que isso é uma coisa deliberada no filme,

[00:10:20] até pra fugir um pouco dessa discussão,

[00:10:23] mas, ao mesmo tempo,

[00:10:23] quando você…

[00:10:24] Porque, assim, a minha grande discussão,

[00:10:25] porque hoje eu te mandei a mensagem,

[00:10:26] foi assim, cara, vamos gravar sobre Fantastic Five Chocolate,

[00:10:30] o Uli Wonka é o Elon Musk,

[00:10:32] e vamos falar mal do milionário.

[00:10:33] Porque quando você começa a entender

[00:10:34] que o Uli Wonka, ele não é só o vilão do filme,

[00:10:37] ele é o vilão daquele mundo,

[00:10:39] porque ele é o vilão do mundo.

[00:10:41] Ele é o vilão daquele mundo.

[00:10:43] Então, assim, você fala, cara, esse cara é um vilão.

[00:10:45] E ele é o narrador não confiável, né?

[00:10:47] Só que, como ele não tá narrando,

[00:10:48] ele é o personagem não confiável em todos os momentos.

[00:10:51] Por isso que a interpretação do Gene Wilder

[00:10:52] é sensacional.

[00:10:53] É sensacional pra isso,

[00:10:54] porque ele não só tá tentando transformar o cara

[00:10:56] num lado legal do cara, não.

[00:10:58] Ele tá o tempo inteiro fazendo isso e mostrando.

[00:11:00] Esse cara não é confiável.

[00:11:02] Ele não liga pras crianças que podem estar morrendo.

[00:11:04] Ele não liga pra vida de ninguém.

[00:11:06] O que ele liga, o quê?

[00:11:07] Pro tédio dele.

[00:11:09] É um ser entediado.

[00:11:10] Ele é um ser entediado.

[00:11:12] Exatamente.

[00:11:13] E tudo existe pro entretenimento dele só.

[00:11:16] Inclusive as crianças que podem ou não ter morrido.

[00:11:19] E é aí que a gente entra nos meus paralelos com o Elon Musk.

[00:11:22] Primeira coisa,

[00:11:23] ele é um industrialista famoso.

[00:11:25] As pessoas acham muito especial

[00:11:29] tudo que ele faz.

[00:11:30] E que ele é uma grande mente

[00:11:31] isolado lá em seu castelo de mármore.

[00:11:36] Mas aí a gente tem o primeiro contato

[00:11:38] das crianças com ele.

[00:11:40] E aí o que passa?

[00:11:41] Acontecem diversos acidentes na fábrica

[00:11:44] que matam ou não as crianças,

[00:11:47] mas no mínimo não são saudáveis pra elas.

[00:11:49] E aí esse é o primeiro paralelo com o Elon Musk.

[00:11:51] Elon Musk,

[00:11:52] ele que,

[00:11:52] que não é o inventor da Tesla,

[00:11:54] não inventou nada do carro elétrico,

[00:11:56] ele que só comprou uma fábrica de carros elétricos

[00:11:59] e fez no contrato que ele tivesse incluído

[00:12:02] como fundador da empresa que ele não fundou.

[00:12:04] Algo que ele já tinha feito quando foi saído do PayPal,

[00:12:08] mas isso é outra história.

[00:12:10] Ele é um cara que,

[00:12:12] ele é um cara que é contra

[00:12:14] várias sinalizações de segurança obrigatórias nas suas fábricas

[00:12:17] porque ele não gosta da cor amarela.

[00:12:19] E o, o,

[00:12:20] são frequentes, frequentes,

[00:12:22] lesões,

[00:12:23] inclusive, assim,

[00:12:24] tipo,

[00:12:24] lesões de amputar

[00:12:26] um funcionário ou outro,

[00:12:28] assim,

[00:12:29] a quantidade de acidentes nas fábricas da Tesla nos Estados Unidos

[00:12:32] é muito acima da média.

[00:12:34] Ele é totalmente,

[00:12:35] assim,

[00:12:36] ele não tem um Palumpas ainda,

[00:12:38] mas,

[00:12:38] colonialista

[00:12:39] e,

[00:12:40] que ele é,

[00:12:41] a fortuna que ele tem

[00:12:43] vem do pai,

[00:12:45] que era dono de minas de diamantes

[00:12:46] na África do Sul,

[00:12:47] no Apartheid.

[00:12:49] E,

[00:12:49] só pra encerrar esse último paralelo,

[00:12:51] ele,

[00:12:52] ele,

[00:12:52] ele,

[00:12:52] ele,

[00:12:52] pode não ter contratado um Palumpas ainda,

[00:12:54] mas ele já sabotou

[00:12:55] todos os esforços de sindicalização

[00:12:57] de seus funcionários

[00:12:59] que buscavam melhores condições de trabalho.

[00:13:02] Pior,

[00:13:03] pior,

[00:13:04] mais do que isso,

[00:13:04] além disso,

[00:13:06] há,

[00:13:06] há,

[00:13:07] dois dias atrás,

[00:13:09] hoje mesmo,

[00:13:11] foi ontem que foi anunciado,

[00:13:13] a empresa dele é,

[00:13:14] a Tesla,

[00:13:15] é acusada de segregação racial

[00:13:18] na sua fábrica.

[00:13:19] Verdade.

[00:13:20] onde, por exemplo,

[00:13:21] é,

[00:13:21] pro,

[00:13:22] trabalhadores negros

[00:13:24] são colocados apartados dos outros

[00:13:27] numa,

[00:13:28] num lugar onde

[00:13:29] é chamado de maneira informal

[00:13:32] de plantations.

[00:13:34] Que eram,

[00:13:35] é claro,

[00:13:35] as,

[00:13:35] as fazendas onde trabalhavam os escravos

[00:13:37] no,

[00:13:37] no,

[00:13:38] nos Estados Unidos,

[00:13:39] colhendo algodão e,

[00:13:40] e tudo mais.

[00:13:41] Ahm,

[00:13:42] e…

[00:13:43] Só isso,

[00:13:43] pra não deixar isso claro.

[00:13:44] Exato.

[00:13:45] Aí,

[00:13:45] sem contar também que se você quiser ampliar isso,

[00:13:48] os carros que a Tesla produz também matam pessoas,

[00:13:51] né?

[00:13:52] Não é infrequente que o,

[00:13:54] o,

[00:13:54] as baterias nos carros explodam

[00:13:56] e,

[00:13:57] e,

[00:13:57] e aí façam o carro se incendiar rapidamente,

[00:14:00] muito mais rápido

[00:14:00] do que um carro a gasolina.

[00:14:02] Ah,

[00:14:03] e,

[00:14:03] e,

[00:14:04] e mais do que isso,

[00:14:04] o filme,

[00:14:06] ah,

[00:14:07] enquadra

[00:14:07] o,

[00:14:08] o nosso querido William

[00:14:09] como se praticamente só ele fizesse doces no mundo,

[00:14:12] né?

[00:14:12] Tipo assim,

[00:14:12] os outros doces não importam,

[00:14:14] os que importam são os doces Wonka.

[00:14:16] Como se também no mundo real,

[00:14:18] o único fabricante de carro elétrico fosse a Tesla.

[00:14:20] Só um detalhe,

[00:14:21] né?

[00:14:21] Tu tava falando da coisa da originalidade,

[00:14:23] né?

[00:14:24] Existe a ideia de que a receita de chocolate ele pega,

[00:14:27] não é nem,

[00:14:28] ele vai bruxar em algum lugar,

[00:14:29] né?

[00:14:29] Não é nem,

[00:14:30] exatamente dele,

[00:14:31] né?

[00:14:32] Até porque se a gente parar pra pensar,

[00:14:34] o,

[00:14:34] o,

[00:14:34] o filme se passa,

[00:14:36] ah,

[00:14:37] numa cidade dos Estados Unidos,

[00:14:38] basicamente,

[00:14:39] mas ele,

[00:14:40] mas tem uma cara de cidade europeia,

[00:14:41] enfim,

[00:14:42] mas ele se passa no norte global,

[00:14:44] né?

[00:14:45] Que,

[00:14:45] ah,

[00:14:45] é,

[00:14:46] é,

[00:14:46] um,

[00:14:47] não é o lugar onde cresce cacau,

[00:14:49] dois,

[00:14:49] é o lugar onde as pessoas que enriquecem,

[00:14:51] porque,

[00:14:51] ah,

[00:14:51] são do cacau,

[00:14:52] estão.

[00:14:52] Então,

[00:14:53] a gente pode presumir que nesse mundo aí,

[00:14:55] o Iri Wonka foi atrás de cacau aqui no Hemisfério Sul,

[00:14:59] achou um palumpas criando cacau e falou,

[00:15:02] levo o cacau e vocês.

[00:15:05] Não,

[00:15:06] é,

[00:15:07] e quem ainda planta o cacau?

[00:15:08] Vamos,

[00:15:08] vamos,

[00:15:09] vamos pegar aqui,

[00:15:09] porque provavelmente ele não escravizou um palumpa.

[00:15:12] Ele escraviza pessoas na ponta da produção de cacau.

[00:15:15] Exato,

[00:15:16] porque se a produção de cacau do mundo deles é qualquer coisa parecida com a nossa,

[00:15:19] que a gente não tem nenhuma razão pra crer que não é,

[00:15:21] porque o mundo deles é bem similar ao nosso,

[00:15:23] a escravidão,

[00:15:24] e inclusive a escravidão de crianças,

[00:15:26] é muito comum,

[00:15:27] inclusive no Brasil,

[00:15:29] na produção de chocolate,

[00:15:30] tanto na colheita do cacau,

[00:15:32] até o processo que você tem que fazer ali,

[00:15:34] de fermentar o cacau e tudo mais,

[00:15:36] extrair a pasta,

[00:15:38] a manteiga de cacau e a pasta de cacau,

[00:15:39] pra fazer chocolate lá,

[00:15:41] e os suíços botarem os Alpes ali na etiqueta do chocolate,

[00:15:46] porque o leite veio de uma vaquinha lá.

[00:15:48] E isso é engraçado,

[00:15:49] porque isso faz parte,

[00:15:51] de todo um apagamento das redes de produção, né?

[00:15:54] É isso que…

[00:15:55] Não, a associação que a gente tem do chocolate como algo europeu,

[00:15:59] e sofisticado e tal,

[00:16:02] não quero dizer que não é sofisticado só porque é nosso,

[00:16:06] mas é muito…

[00:16:08] É um apagamento, tipo…

[00:16:10] Exatamente isso,

[00:16:11] é um apagamento da origem das coisas, né?

[00:16:14] O tomate é italiano,

[00:16:16] o macarrão é italiano,

[00:16:18] tudo é italiano,

[00:16:19] nada é nosso.

[00:16:20] É, não,

[00:16:20] mas é porque também tem uma coisa que é muito típica,

[00:16:23] por que tem um ponto importante disso?

[00:16:26] Porque, por exemplo,

[00:16:26] quando a gente tava falando da fortuna de um bilionário,

[00:16:29] tipo o Elon Musk,

[00:16:31] que é o dono da Tesla, né?

[00:16:33] É, e o Willy Wonka.

[00:16:34] Por exemplo,

[00:16:35] aí as pessoas falam,

[00:16:36] ah, os carros da Tesla são carros de energia limpa.

[00:16:40] Cara,

[00:16:40] você sabe como é produzido,

[00:16:42] sabe, você sabe como é produzido,

[00:16:44] o chip,

[00:16:46] o material que produz,

[00:16:47] o que sabe que tá ativo nos carros?

[00:16:49] Cara, não é…

[00:16:49] O tipo de mineração que é produzida,

[00:16:50] é que ele…

[00:16:51] Eu não vou nem falar do silício no chip,

[00:16:54] a gente pode,

[00:16:54] a gente tem um exemplo concreto do…

[00:16:57] Toda bateria que você usa hoje é de lítio, né?

[00:16:59] O principal material dentro dela é de íons de lítio.

[00:17:02] Da onde vem a maior parte do lítio do mundo?

[00:17:04] Se eu te contar que vem da Bolívia, meu amigo,

[00:17:08] aquele lugar que, né,

[00:17:09] aí rolou uma tentativa de golpe temporária ali

[00:17:13] contra o Evo Morales, né?

[00:17:16] O Evo Morales teve que fugir pro México ali e tal.

[00:17:19] E, na época,

[00:17:20] alguém tava falando que, né,

[00:17:23] tipo, o…

[00:17:25] Eu não lembro quem tweetou,

[00:17:26] se foi alguém do governo…

[00:17:27] Foi o Musk, foi o Musk que falou,

[00:17:29] vamos dar um golpe em quem quiser.

[00:17:30] Não, não, exato.

[00:17:30] Alguém tweetou, tipo,

[00:17:32] vocês não podem dar golpe

[00:17:33] só porque vocês querem o lítio da Bolívia.

[00:17:36] E o Elon Musk retweetou falando,

[00:17:38] a gente dá golpe em quem a gente quiser.

[00:17:40] Ou seja, né, nada é…

[00:17:42] Lide com isso.

[00:17:44] Lide com isso.

[00:17:45] Ou seja, assim,

[00:17:46] tá bem claro, assim,

[00:17:47] tipo, não é nem a gente dizendo, tipo,

[00:17:49] olha,

[00:17:49] essa gente se comporta bem em público,

[00:17:51] mas, na verdade,

[00:17:52] o que eles estão fazendo é isso.

[00:17:52] Tipo, não.

[00:17:53] Tá escancarado o que é.

[00:17:56] Então,

[00:17:57] o Elon Musk,

[00:17:59] ele vê…

[00:18:02] Ele pode não ter um palumpas ainda de verdade,

[00:18:04] mas ele vê

[00:18:05] os seus trabalhadores que ele segrega racialmente,

[00:18:08] a população da Bolívia que minera o seu lítio,

[00:18:11] como seus um palumpas.

[00:18:13] Não, mas é isso que eu queria mostrar.

[00:18:15] Porque a gente tem essa ideia

[00:18:16] do chocolate como algo, né,

[00:18:18] que vem dos álbuns,

[00:18:19] que vem dos álbuns suíços, né,

[00:18:20] que é o artesanato.

[00:18:20] É, o melhor chocolate é aquele chocolate suíço.

[00:18:23] Isso, que é algo…

[00:18:24] Aquela vaquinha preta e branca,

[00:18:26] que não tem o cupim do nosso boi Zebu aqui.

[00:18:32] Não, não.

[00:18:33] É o leite extraído, sabe,

[00:18:36] pelas freiras.

[00:18:38] Isso é o que…

[00:18:39] Cara, só que a gente esquece

[00:18:41] toda a cadeia de violência

[00:18:42] que dá origem a esse tipo de consumo de luxo.

[00:18:45] É a mesma coisa que é os carros da Tesla.

[00:18:48] Ou seja,

[00:18:49] tanto a fortuna do Willy Wonka

[00:18:53] quanto a fortuna do Elon Musk,

[00:18:54] ela está assentada

[00:18:56] numa cadeia de violências

[00:18:58] da qual ela é indissociável.

[00:19:02] Sim.

[00:19:02] E eu estou dizendo isso…

[00:19:02] Que é geracional, como eu já disse.

[00:19:04] Vem da exploração dos mineradores de diamante na África

[00:19:07] para o pai dele, para ele…

[00:19:10] Não, mas a gente pode até…

[00:19:11] Porque a gente podia falar de outro bilionário,

[00:19:13] sei lá, que não nasceu bilionário,

[00:19:14] tipo, sei lá, o Zuckerberg, sabe?

[00:19:17] Sim.

[00:19:19] Isso não quer dizer que ele é menos pior.

[00:19:21] Mas o que eu quero dizer é o seguinte,

[00:19:23] que toda a fortuna de um bilionário,

[00:19:25] toda a fortuna de um bilionário,

[00:19:27] de todos os bilionários,

[00:19:29] ela está assentada

[00:19:31] numa cadeia de violências.

[00:19:33] Mesmo se você…

[00:19:35] Se você é uma pessoa que gosta de análises profundas,

[00:19:37] se você não gosta de aprender sobre como o mundo funciona,

[00:19:40] você ainda tem que entender

[00:19:42] que a fortuna de qualquer bilionário nesse mundo,

[00:19:45] ela depende pelo menos de uma continuação de violência,

[00:19:48] que é a continuação da violência

[00:19:49] do status quo.

[00:19:50] Porque você é incapaz de negar que

[00:19:52] a sociedade onde a gente vive,

[00:19:54] local e globalmente,

[00:19:55] é violenta

[00:19:56] e reproduz violência, né?

[00:19:59] Tipo assim, a gente tem violência sistêmica,

[00:20:01] violência que não acaba.

[00:20:02] Pessoas morrendo o tempo inteiro

[00:20:04] por problemas que não são resolvidos.

[00:20:06] E que o fato de que ela segue inalterada

[00:20:11] em seus grandes pilares

[00:20:12] é essencial para as pessoas terem esse dinheiro.

[00:20:14] E a razão pela qual

[00:20:16] caras como o Musk e o Zuckerberg,

[00:20:19] apoiam exatamente os políticos

[00:20:21] e o Willy Wonka apoiam políticos que…

[00:20:23] Tu acha que o Willy Wonka não votava no Trump?

[00:20:26] Votava por quê?

[00:20:27] Porque no final das contas,

[00:20:28] o que eles querem é

[00:20:30] pagar menos imposto,

[00:20:33] acumular mais capital,

[00:20:35] ter menos obrigação social.

[00:20:37] Então, num país justo,

[00:20:42] o que aconteceria é o seguinte,

[00:20:44] os trabalhadores teriam formado uma cooperativa

[00:20:47] para tomar conta,

[00:20:49] daquela fábrica de doces.

[00:20:50] E eles, sim, seriam donos coletivamente

[00:20:53] das receitas

[00:20:54] e da receita,

[00:20:58] no sentido do dinheiro proveniente

[00:21:01] do trabalho deles fazendo doces.

[00:21:04] Mas aí que tá.

[00:21:04] Tu quer ainda falar do Elon Musk,

[00:21:06] porque eu vou falar depois da parte do Populacho aí.

[00:21:09] Não, pode ir, pode ir.

[00:21:11] Porque, assim, pra quem não lembra,

[00:21:13] o plot inicial do filme era,

[00:21:14] do original, né?

[00:21:16] Era o Willy Wonka,

[00:21:19] que bota um monte de…

[00:21:21] Como é que é? Cupons dourados, né?

[00:21:23] Isso, ah, verdade.

[00:21:25] Tem uma loteria, tem a meritocracinha da sorte.

[00:21:29] Pra quem vai visitar a fábrica dele,

[00:21:31] que tá fechada há sei lá quantos anos.

[00:21:34] Exato, desde que ele demitiu todo mundo.

[00:21:36] Desde que ele demitiu todos os funcionários,

[00:21:39] porque ele tinha medo,

[00:21:40] ele tava paranoico,

[00:21:41] ele tinha medo de que roubassem

[00:21:44] o segredo, né?

[00:21:46] Das receitas dele.

[00:21:49] E, gente, é todo um mito.

[00:21:50] Cara, o presidente dos Estados Unidos

[00:21:52] comprou um carro, assim,

[00:21:54] cara, o começo do filme é muito doido.

[00:21:56] Assim, o presidente dos Estados Unidos

[00:21:58] comprou um carro de chocolate,

[00:22:00] um carregamento de chocolate,

[00:22:02] pra ver se ele próprio pode visitar o Willy Wonka

[00:22:04] pra entender o que é que acontece.

[00:22:06] Aí, falando de industrialistas,

[00:22:08] uma das crianças que vai,

[00:22:10] vai porque o pai é dono de uma fábrica,

[00:22:13] e aí para a produção

[00:22:14] pra botar todos os funcionários a abrir chocolates.

[00:22:17] É o pai da viruca?

[00:22:18] É o pai da viruca.

[00:22:18] É o pai da viruca.

[00:22:19] E aí uma das funcionárias acha o bilhete dourado

[00:22:23] e tenta fingir que não achou

[00:22:25] pra ela ou a filha dela poder ir,

[00:22:27] ou o filho dela.

[00:22:28] E aí um dos seguranças

[00:22:31] vê e pega e fala,

[00:22:32] não, vai pra filha do dono.

[00:22:35] Então, ou seja,

[00:22:36] o filme, ele ilustra

[00:22:39] as relações trabalhistas

[00:22:42] de uma maneira tão singela

[00:22:44] que eu acho que ninguém nunca fez, assim.

[00:22:46] Acho que nunca você, em tão poucos frames,

[00:22:48] deixou tão claro a relação de exploração

[00:22:50] do trabalhador, quanto a

[00:22:52] trabalhadora da fábrica que acha

[00:22:54] o bilhete dourado e imediatamente

[00:22:56] o vê retirado de suas mãos.

[00:22:58] Mas aí que tem, tem um personagem ainda mais

[00:23:00] crucial isso.

[00:23:02] Que é um personagem odiado

[00:23:04] na internet.

[00:23:06] Odiado na internet. Porque, assim,

[00:23:08] tem uma galera na internet que

[00:23:09] virou um meme, óbvio, é brincadeira da galera,

[00:23:12] mas criou-se a ideia de que o

[00:23:14] Grandpa Joe, né, o vovô Joe,

[00:23:15] ele é o grande vilão.

[00:23:17] Porque ele, ele

[00:23:19] tá lá, né, ele só, ele canta uma canção

[00:23:21] de que ele achou o bilhete

[00:23:23] dourado, que ele vai visitar.

[00:23:25] Ele tá lá doente, né, ele fica lá encostado

[00:23:27] enquanto a mãe lá do, esqueci o nome do

[00:23:29] rapaz lá, do principal.

[00:23:31] Ninguém lembra. É Charlie, né?

[00:23:33] A gente lembra, na verdade, porque é o nome

[00:23:35] do livro. Do livro. Charlie e a Fábrica

[00:23:37] Fantástica e a Fábrica de Chocolate. Mas é, então, mas essa é uma mudança

[00:23:39] muito interessante, né, do filme pro livro.

[00:23:41] Porque o livro

[00:23:43] se chama Charlie and the Chocolate Factory

[00:23:45] e o filme é Willy Wonka.

[00:23:47] Willy Wonka and the Chocolate Factory, o original.

[00:23:49] Esse foi um dos motivos que o

[00:23:51] autor não gostou do filme.

[00:23:53] Mas, mas eu acho que

[00:23:55] tá aí a percepção

[00:23:57] muito boa de quem mudou

[00:23:59] esse título de tipo, cara, esse filme é sobre

[00:24:01] Willy Wonka, esse filme não é sobre o Charlie.

[00:24:03] Mas também não tem como comparar. Quando tem o Willy Wonka

[00:24:05] é o Gene Wilder, assim…

[00:24:07] Se o Gene Wilder foi o Charlie,

[00:24:09] seria Charlie…

[00:24:10] Se o Willy Wonka fosse

[00:24:14] o Oompa Loompa

[00:24:16] número 3, ia se chamar

[00:24:17] Oompa Loompa número 3 and the Chocolate Factory.

[00:24:19] Exatamente, porque o Gene Wilder

[00:24:21] ia arrebentar onde ele estivesse.

[00:24:23] Mas, assim, o ponto é

[00:24:25] o

[00:24:27] vovô Joe,

[00:24:29] um detalhe que as pessoas esquecem,

[00:24:31] ele tá naquela condição de enfermo

[00:24:33] a família dele tá pobre

[00:24:36] porque ele era um dos

[00:24:37] trabalhadores da fábrica que foram

[00:24:39] demitidos. Sim, sim.

[00:24:41] E toda aquela miséria existencial

[00:24:43] é causada

[00:24:45] porque o lugar onde,

[00:24:47] o lugar onde eles vivem, é tipo

[00:24:49] assim, aquelas cidades…

[00:24:51] Tipo, sei lá, Chicago,

[00:24:53] Detroit, depois que a fábrica de Chicago foi embora.

[00:24:54] Só que, na verdade, é muito mais uma Liverpool

[00:24:57] do que uma Detroit, né?

[00:24:58] Sim, mas parece mais uma Liverpool mesmo.

[00:25:00] Ela tem uma cara de, tipo, velho mundo, assim, né?

[00:25:03] É, mas eu sempre achei que, inclusive, o filme se passava

[00:25:05] na Inglaterra. Só que, por isso que pra mim

[00:25:07] sempre era estranho quando aparecia a cena do

[00:25:09] presidente dos Estados Unidos, não da rainha.

[00:25:11] Sabe qual é? Então, assim…

[00:25:12] Eu acho que ele foi filmado na Inglaterra

[00:25:15] e, por isso, a gente tem todas aquelas locações,

[00:25:17] lá. E aí, é tipo, o Gene Wilder é americano,

[00:25:20] então, meio que… E o filme é uma produção

[00:25:21] americana, então, acho que ele se passa nos

[00:25:23] Estados Unidos, ali. Mas o livro é inglês?

[00:25:26] O livro é do Roald Dahl,

[00:25:27] que é inglês.

[00:25:29] Ah, então deve ser isso. A adaptação ficou

[00:25:31] no meio… No meio do caminho.

[00:25:33] Sabe? Mas, assim…

[00:25:35] Ele nasceu no

[00:25:37] País de Gales, britânico.

[00:25:39] É que é Inglaterra, é Inglaterra, é Inglaterra.

[00:25:41] Tudo é inglês. Não fala assim, hein? Vai criar um

[00:25:43] acidente diplomático. Foda-se! Pode vir!

[00:25:45] País de Gales. Vem aqui chupar meu pau,

[00:25:47] País de Gales.

[00:25:49] Porra, não, cara.

[00:25:50] Who the fuck speaks Welsh?

[00:25:52] Cara, pior que eu tinha… Pô, eu tinha

[00:25:55] um grande amigo escocese que faleceu recentemente, né?

[00:25:57] Mas ele não falava Welsh, ele falava

[00:25:59] Scottish. Não. Exatamente.

[00:26:01] Não, e a Escócia não é Inglaterra, não.

[00:26:03] A Escócia existe. Não, não.

[00:26:05] Mas, enfim, e aí o que acontece? Eles…

[00:26:07] O… Toda aquela miséria

[00:26:09] daquela Liverpool… Porque, assim,

[00:26:10] teve um fenômeno, ali, a partir

[00:26:13] da década de 60, 70, 80,

[00:26:15] que eram essas cidades, especialmente

[00:26:17] tanto na Inglaterra, quanto nos Estados Unidos,

[00:26:19] cidades que dependiam de uma fábrica.

[00:26:21] E aí a fábrica, por conta da emergência

[00:26:23] do neoliberalismo, essas fábricas vão ser

[00:26:24] transferidas pra onde? Para, sei lá,

[00:26:27] pro Congo,

[00:26:29] pro Brasil, sabe? Que você pode

[00:26:31] produzir ou pra China. Na época, inclusive, tava começando

[00:26:32] indo pra China, já. Já em 71, ali.

[00:26:36] Então, assim, as fábricas

[00:26:37] começam a ser terceirizadas, e a

[00:26:39] pobreza, que até então era terceirizada,

[00:26:41] né, a pobreza desses lugares,

[00:26:43] ela passa a ser uma pobreza local.

[00:26:45] Porque essa que é a grande questão.

[00:26:47] Porque sempre há pobreza.

[00:26:49] É isso. Os Estados Unidos, especialmente,

[00:26:51] eu acho que os Estados Unidos é um retrato muito maior

[00:26:53] disso do que a própria Inglaterra,

[00:26:55] mas é que os Estados Unidos… Mais ou menos.

[00:26:57] Mais ou menos, Guedes. Mais ou menos.

[00:26:58] Calma. Você não completou meu pensamento.

[00:27:00] Movimento punk, vai lá aí. Não, do que eu tô falando

[00:27:03] é o seguinte. Essas sociedades,

[00:27:05] por mais que elas fossem imperiais

[00:27:07] e tivessem no topo da

[00:27:09] cadeia alimentar

[00:27:11] do capitalismo, elas ainda

[00:27:13] tinham a sua economia local

[00:27:15] muito sustentável,

[00:27:17] muito importada pela própria produção, né?

[00:27:18] Porque eles exploravam o terceiro mundo

[00:27:20] por matéria-prima e

[00:27:22] manufaturavam

[00:27:25] localmente. Então, os Estados Unidos produziam

[00:27:26] muito carro e produziam

[00:27:28] tudo que eles consumiam e tal.

[00:27:30] E quando eles começam a exportar

[00:27:33] essa produção de carros,

[00:27:34] especialmente, recentemente, nos anos

[00:27:36] 90, com a nafta,

[00:27:38] exportam a produção de carros pro México,

[00:27:41] começam a importar carro do Japão,

[00:27:43] nos anos 80. Eles…

[00:27:45] 70, na verdade, nos anos 60,

[00:27:47] a Honda entra nos Estados Unidos só com moto e tal.

[00:27:49] Então, nos anos 70, começa realmente o carro

[00:27:51] importado a chegar nos Estados Unidos e tomar algum mercado

[00:27:53] e nos anos 80 ele vira uma ameaça. O Japão vira uma ameaça

[00:27:55] econômica e aí…

[00:27:57] Só bem pra lembrar que tem um filme

[00:27:58] que exemplifica isso muito bem, que se chama

[00:28:00] Gang Ho

[00:28:01] Fábrica de Loucuras aqui no Brasil.

[00:28:05] Que é…

[00:28:06] É, cara. Tipo, esse filme

[00:28:09] é um filme que é

[00:28:10] do Michael Keaton,

[00:28:12] que eles vão construir carros,

[00:28:15] sabe? Qual é? Tipo, na Pensilvânia,

[00:28:17] uma fábrica de carros,

[00:28:18] ela é comprada pelos japoneses,

[00:28:21] sabe? Que é uma coisa muito doida.

[00:28:22] Os japoneses compram a fábrica de carros e eles

[00:28:24] têm que bater… Aí os Estados Unidos têm que bater uma meta.

[00:28:27] Aí tem aquela coisa… Mas rola isso. Rolou.

[00:28:28] Tipo, as antigas fábricas de várias montadoras foram

[00:28:30] compradas, tipo, pela Toyota, pela Honda, nos Estados Unidos.

[00:28:34] Sim, mas aí… Eles só, tipo, pegaram

[00:28:35] a infraestrutura que já tinha e continuaram tocando.

[00:28:37] Não. Aí, tipo, é que acontece. Só que

[00:28:38] nesse momento, os caras têm que mostrar

[00:28:40] pros acionistas japoneses

[00:28:42] que eles são tão bons quanto os japoneses.

[00:28:45] Sim, e eles não são. Assim, eu já ouvi várias

[00:28:47] reportagens sobre a dificuldade

[00:28:48] que os japoneses tiveram ao

[00:28:50] produzir carros nos Estados Unidos. É o filme do Ron Howard.

[00:28:53] O filme do Ron Howard. Olha só, o Ron Howard

[00:28:55] é o picolé de chuchu

[00:28:57] dos diretores de cinema.

[00:28:58] Mas aí,

[00:29:00] um diretor de cinema

[00:29:02] cujo maior trabalho foi narrar R.S.A. Development.

[00:29:04] Então, parabéns.

[00:29:07] Não, mas… Me perdi aqui.

[00:29:08] Não, e aí, por exemplo, só nos anos 90

[00:29:11] que começa a

[00:29:12] inundação do que os americanos chamavam

[00:29:14] na época do chip

[00:29:16] Chinese Plastic Crap,

[00:29:19] né? Que é esses… Os bens

[00:29:20] manufaturados em sua maioria de

[00:29:22] plástico, né? Ou pequenos eletrônicos

[00:29:24] simples, muito baratos

[00:29:26] que começam a vir da China e aí minam toda

[00:29:28] a indústria de fabricação

[00:29:30] de coisas inúteis. Porque a

[00:29:32] sociedade de consumo americana e a nossa,

[00:29:34] né? Mas a deles já estava muito mais avançada

[00:29:36] nesse processo, ela só pode

[00:29:38] existir como uma sociedade de consumo.

[00:29:40] Né? Então, você consumir

[00:29:42] coisas inúteis o tempo inteiro e você

[00:29:44] criar falsas

[00:29:46] necessidades… Chocolate.

[00:29:49] O chocolate ainda é alimento.

[00:29:50] Eu não vou botar na mesma coisa.

[00:29:52] Depende. Até porque a Hershey’s

[00:29:54] produz chocolate até hoje localmente

[00:29:56] em Hershey, nos Estados Unidos. Não, não, mas depende

[00:29:58] do chocolate.

[00:30:00] Tudo bem, tá bom. Tem luxos

[00:30:02] inúteis que… É.

[00:30:04] Tá. Mas, enfim. Aí,

[00:30:07] o que acontece

[00:30:08] é o seguinte. Essas pessoas,

[00:30:10] elas começam a consumir da China.

[00:30:12] Então, todas essas fábricas que não eram

[00:30:14] de, tipo, coisas que precisam…

[00:30:16] continuar sendo produzidas nos Estados Unidos, fecham.

[00:30:19] E aí, essas pessoas que

[00:30:20] eram empregadas por esse ciclo

[00:30:22] econômico, deixam

[00:30:24] de ter qualquer

[00:30:26] funcionalidade social e viram

[00:30:28] pessoas tipo o Grandpa Joe. E o que acontece

[00:30:30] hoje nos Estados Unidos é extrema.

[00:30:33] É o extremo disso

[00:30:34] aí, porque é o seguinte. A única coisa que se

[00:30:36] fabrica nos Estados Unidos hoje é

[00:30:38] material

[00:30:40] bélico.

[00:30:42] A economia americana,

[00:30:44] ela não tem nada de

[00:30:46] neoliberal e

[00:30:48] terceirizada.

[00:30:50] Toda a economia americana são empresas

[00:30:52] privadas, contratadas

[00:30:54] pelo governo pra produzir

[00:30:56] tecnologias que são

[00:30:58] utilizadas pelo

[00:31:00] exército, pelas forças armadas

[00:31:02] e pelo governo americano. E é assim que surge

[00:31:04] a internet. E aí, agora eu fui

[00:31:06] longe demais do tema, por favor, traz a gente de volta.

[00:31:08] Foi, foi, foi. Não, mas eu queria dizer

[00:31:10] que nesse processo de fechamento

[00:31:12] de fábricas ou de aquisição de fábrica por matriz,

[00:31:14] internacionais, você tem um processo

[00:31:16] de pauperização de cidades

[00:31:18] que eram, digamos, o diamante

[00:31:20] do capitalismo nos Estados Unidos

[00:31:21] na década de 50.

[00:31:24] Detroit é um caso clássico disso.

[00:31:26] Detroit é como é que é? A cidade

[00:31:28] dos carros, a cidade das fábricas dos carros?

[00:31:30] Cara, Detroit, hoje em dia, é uma cidade

[00:31:32] fantasma. Cara, eu acho que

[00:31:34] um ótimo filme pra você ver o que é Detroit.

[00:31:36] Como Detroit chegou no que é

[00:31:38] hoje, assim, o 8 Mile Dominion.

[00:31:40] O 8 Mile Dominion é um retrato muito pontual

[00:31:42] ali, assim, tipo, quando realmente acabou tudo.

[00:31:44] Porque o golpe

[00:31:46] final em Detroit foi realmente

[00:31:48] nos anos 90 a nafta

[00:31:50] que aí levou todos os carros a serem

[00:31:52] produzidos no México, porque aí eles podem ser importados

[00:31:54] sem imposto. E aí a mão de obra

[00:31:56] do mexicano é muito mais barata do que a do americano

[00:31:58] e aí, enfim. E aí, aquele momento

[00:32:00] ali é o momento que, tipo, putz, acabou a esperança

[00:32:02] que aí vai culminar ali

[00:32:04] depois na crise

[00:32:05] econômica de 2008.

[00:32:08] Então, mas é por isso que a gente volta pro ponto original.

[00:32:10] Porque é o chocolate.

[00:32:11] O chocolate, ele não é produzido pela vaquinha

[00:32:14] e pelo leite colhido pelas freiras.

[00:32:16] Né? Não é isso.

[00:32:18] Não é isso.

[00:32:19] O chocolate, ele depende de uma cadeia de violências

[00:32:22] que tem lá o cacau como sua base

[00:32:24] e tudo mais. Inclusive, você tem uma relação

[00:32:26] disso, a própria Hershey já teve

[00:32:28] acusações com relação a isso, com cacau.

[00:32:30] Nestlé. Nestlé. Enfim.

[00:32:33] A grande questão é que

[00:32:34] o capitalismo como um todo, e é até

[00:32:36] hipocrisia, porque assim, o microfone

[00:32:38] que eu tô gravando isso, sabe?

[00:32:40] A rede, o computador, todos eles são

[00:32:42] baseados em cadeias de violência

[00:32:44] e exploração.

[00:32:46] E exploração

[00:32:48] que tem como seu intuito,

[00:32:50] né? Assim, você pode não tá vendo,

[00:32:52] mas existe uma pobreza acontecendo…

[00:32:53] Não, não é só você pode não tá vendo, é tipo,

[00:32:55] nós faremos de tudo pra você não tá vendo.

[00:32:57] Pra você esquecer, porque você precisa consumir.

[00:33:00] É, esses

[00:33:01] países capitalistas desenvolvidos,

[00:33:04] eles são os países que conseguem

[00:33:05] terceirizar a pobreza da colhe. Depende,

[00:33:08] por exemplo, a Suécia, que todo mundo

[00:33:09] adora. Ah, a Suécia tinha Simens.

[00:33:12] Cara, onde que era extraído

[00:33:14] o metal pra produção de chips

[00:33:16] de celular, né?

[00:33:17] Como é que funcionava?

[00:33:20] Quem é que tava comprando

[00:33:21] tecnologia de telecomunicação e pra

[00:33:23] quê? Se não os

[00:33:25] grandes governos que estavam em guerra.

[00:33:28] Não, então, e esse que é um ponto.

[00:33:30] Todo, por isso que assim,

[00:33:31] a gente vai voltar pra esse ponto. Todo,

[00:33:33] todo, o capitalismo ele necessita de

[00:33:35] pobres. Não existe capitalismo sem pobreza.

[00:33:37] Você pode não estar vendo a pobreza.

[00:33:39] A grande diferença que os lordes

[00:33:42] do capitalismo, os bilionários,

[00:33:44] eles são pessoas que a vida deles

[00:33:46] não encosta na pobreza

[00:33:47] em nenhuma instância.

[00:33:49] Toda a vida dele depende,

[00:33:52] não encosta, porque ele não encosta,

[00:33:54] mas a existência dele é porque ele tá muito

[00:33:55] por cima daquilo, tá ligado?

[00:33:57] Os substratos da vida dele

[00:33:59] são a pobreza. Ele tá por cima da pobreza.

[00:34:02] Ele depende da pobreza pra existir.

[00:34:03] Por isso que todo bilionário

[00:34:05] é imoral. A existência conceitual

[00:34:08] de bilionários é imoral.

[00:34:09] E o que que você vai acontecer com o neoliberalismo,

[00:34:12] com essa destruição,

[00:34:14] que ele vai operar ali nos anos

[00:34:15] 80, 90? A pobreza

[00:34:18] passa

[00:34:19] a ser visível para as nações

[00:34:21] ricas, porque ela começa a acontecer

[00:34:23] no quintal de casa.

[00:34:26] Você vai ver isso na Inglaterra,

[00:34:28] você vai ver isso nos Estados Unidos,

[00:34:29] você vai ver isso na fantástica fábrica de chocolate.

[00:34:33] Porque assim, no momento que

[00:34:33] o Ilionka, ele pega,

[00:34:35] porque assim, no fundo, no fundo,

[00:34:37] no fundo, no fundo,

[00:34:39] o filme, se segura,

[00:34:41] se segura, Gaslanzeta, o filme

[00:34:44] é, digamos, o neoliberalismo

[00:34:46] numa casca de nós.

[00:34:47] O que que acontece? Você demite

[00:34:50] os trabalhadores locais e

[00:34:52] escraviza uma população

[00:34:54] de um país periférico,

[00:34:56] que tá na periferia do capitalismo.

[00:34:58] É basicamente o que

[00:34:59] 99% das empresas fizeram.

[00:35:02] Só que o cara, ao invés de fazer isso, ele leva

[00:35:04] os umpa-umpa,

[00:35:05] os umpa-lumpa, ele escraviza os umpa-lumpa no país deles.

[00:35:08] Ele transforma a fábrica

[00:35:09] no país dos umpa-lumpas.

[00:35:11] E o que que a Inglaterra tinha feito antes do Brexit?

[00:35:14] A mesma coisa com o leste europeu.

[00:35:16] Aí agora, deixa eu voltar um negócio aqui.

[00:35:18] E com paquistaneses, indianos e tudo mais.

[00:35:20] Aí agora, mas eu vou mais longe que você então.

[00:35:22] Concordo com tudo que você falou

[00:35:23] e digo mais. O filme expõe

[00:35:26] a face mais cruel

[00:35:28] e falsa desse

[00:35:30] neoliberalismo com o próprio

[00:35:32] Ilionka, fazendo algo que é

[00:35:34] muito comum até hoje e que é muito

[00:35:36] aceito no mainstream, que é o seguinte.

[00:35:38] Que é a caridade

[00:35:40] como redenção

[00:35:43] e mais do que isso.

[00:35:44] A caridade condicional.

[00:35:48] Por quê?

[00:35:49] Por quê? O Charlie

[00:35:50] tem que se provar

[00:35:52] especial,

[00:35:55] mais moral

[00:35:56] que o homem comum,

[00:35:58] mais interessado

[00:36:01] e mais esforçado que o

[00:36:02] homem comum. Então sim,

[00:36:04] ele merece a benevolência

[00:36:06] do grande senhor Willionka

[00:36:08] que estava lá acumulando riquezas

[00:36:10] na mesma cidade em que os avós dele

[00:36:12] morriam de tuberculose sem emprego.

[00:36:15] Eu não vou parar agora não.

[00:36:16] Eu não vou parar agora não.

[00:36:18] Não, mas é isso. Essa ideia de que, tipo,

[00:36:20] é aquela ideia que vem do, tipo, que é muito comum

[00:36:22] nos Estados Unidos, mas cada vez mais aparece aqui

[00:36:24] no Legislativo aquelas coisas de, tipo,

[00:36:26] não, não, não. Você dá uma, é tipo assim,

[00:36:28] não, é, é, você dá uma ajuda,

[00:36:30] mas a pessoa tem que fazer isso aqui.

[00:36:32] É, tipo, a gente só paga

[00:36:34] seguro-desemprego se a pessoa fizer teste de urina

[00:36:36] pra ver que não tá usando droga. Ah, se a pessoa

[00:36:38] fizer isso, faz aquilo. É, é, esse,

[00:36:40] tomar, é o, é o, é fazer,

[00:36:42] é, é basicamente a filosofia que tá por trás

[00:36:44] do Se Vira nos 30 lá do, do, do

[00:36:46] Luciano Huck, de, tipo, o pobre tem

[00:36:48] que fazer um truquezinho aqui pra mim pra eu poder dar alguma

[00:36:50] coisa pra ele. O pobre tem que, tem que se provar

[00:36:52] melhor pra eu poder dar alguma coisa

[00:36:54] pra ele. Tem que mostrar que ele mereceu alguma coisa.

[00:36:56] É, é, é, é realmente assim,

[00:36:58] é expor a crueldade

[00:37:00] inata na ideia de meritocracia.

[00:37:02] Obrigado, esse foi o meu ponto.

[00:37:05] Deixa eu só botar uma coisa extra.

[00:37:07] Dá uma coisa extra. Porque

[00:37:08] esse filme, é que é o que eu tô falando, esse filme tem,

[00:37:10] ele, ele, assim, porque a gente fica olhando,

[00:37:12] pro, pro lugar errado. A gente fica

[00:37:14] olhando pro carisma do Will Wilder,

[00:37:16] o Gene Wilder, e foi assim, não, esse é um personagem legal.

[00:37:19] Não, ele é um vilão. O Gene Wilder

[00:37:20] sabia disso, encarna ele como um vilão. Sim.

[00:37:22] E toda aquela representação. E o Gene Wilder,

[00:37:24] ele vem das artes dramáticas e o que que ele exibe,

[00:37:26] inclusive, né, esse filme, ele também

[00:37:28] tem, ah, familiaridade com

[00:37:30] prestidigitação, com mágica. E a, e o

[00:37:32] que é um, um dos elementos mais essenciais

[00:37:34] na mágica? Exato. Exatamente isso.

[00:37:36] Exato. A, a, como é que se diz a, a,

[00:37:38] a, a, a, o desvio

[00:37:40] do foco, né?

[00:37:42] Você acha que você tá olhando

[00:37:44] pra onde a ação está acontecendo, mas não, não, não.

[00:37:46] You’re missing it, né? É a,

[00:37:48] é a, é a, é a misdirection.

[00:37:51] Sim. Cara, mas

[00:37:52] eu vou, eu vou chegar, vou chegar longe.

[00:37:54] O Fantástica Fábrica de Chocolate

[00:37:55] é uma crítica,

[00:37:58] como é que é, é, como é que você,

[00:38:00] como é que, como é que chama aquela,

[00:38:02] minha subliminar

[00:38:03] ao capitalismo. Sim. Porque, assim,

[00:38:06] no fim das contas, aqui, a gente já

[00:38:08] provou como o Elon Musk, ele é

[00:38:10] a toda aquela situação da fábrica,

[00:38:12] é, é uma, é o, digamos,

[00:38:14] o neoliberalismo em casca de nós.

[00:38:17] Porém, todavia, entretanto,

[00:38:18] toda a inserção do rapaz

[00:38:20] indo lá pra fábrica, na loteria,

[00:38:22] é o quê? E ele vai, ele depois

[00:38:24] ele ganha a fábrica. O final do filme, spoiler,

[00:38:26] gente, ele ganha a fábrica. Mas, posso só

[00:38:28] fazer um parênteses que eu pensei agora?

[00:38:30] Peraí, peraí, peraí. Aquela cena, um toque aí, ok.

[00:38:32] Vai lá, despega, que você não perde o fim da meada.

[00:38:34] Tá. Até o, assim, o que que

[00:38:36] ele, ele deixa claro? Que

[00:38:38] por méritos

[00:38:40] próprios, você nunca vai conseguir

[00:38:42] porra nenhuma no capitalismo. Sim!

[00:38:43] Não existe meritocracia. Sim! Só se você ganhar

[00:38:46] a porra do bilhete goteado. Você tem que o quê?

[00:38:47] O que que o Charlie é? O Charlie… Ou ser decidente.

[00:38:50] O Charlie, desde o começo do filme, ele abaixa

[00:38:52] a cabeça, ele

[00:38:53] é o mais contrito, o mais humilde,

[00:38:56] o mais calado, o mais que

[00:38:58] fica no seu lugar.

[00:39:00] Né? Ele é o pobre que não incomoda.

[00:39:02] Mas não, mas tem um… Não, não, não, não.

[00:39:04] Tem um equívoco. Quando ele toma a água… Então, mas é isso.

[00:39:06] Quando ele toma

[00:39:07] a, a, a, o refrigerante

[00:39:10] que faz você voar,

[00:39:12] é o único momento que ele se deixa

[00:39:13] indulge em algo, e é isso que o

[00:39:15] Willy Wonka usa pra, pra dizer que foi o único erro

[00:39:17] dele. Então, mesmo quando o Willy Wonka

[00:39:19] fala que ele ganhou a fábrica, ele não diz

[00:39:22] aquilo não era um erro. Ele diz, tipo, apesar

[00:39:23] disso, você é lindo e perfeito, e eu vou te dar

[00:39:25] a fábrica porque você é loiro de olhos azuis.

[00:39:27] Isso tá implícito. Mas, ó… Não, rapidinho, rapidinho.

[00:39:29] Tu sabe que, tu sabe que no original, o protagonista

[00:39:31] era negro, do livro. Ah, é?

[00:39:34] E eles não deixaram.

[00:39:36] Hum… É, bom… Uma das mudanças…

[00:39:38] Hollywood, não é o 61, né?

[00:39:39] Não, não, não, não. Do livro mesmo.

[00:39:42] Ah, no livro não é? Ah, porque no livro…

[00:39:44] O protagonista seria negro. O protagonista seria negro.

[00:39:46] Ó, não sabia. Mas olha só.

[00:39:48] E o editor não achou legal. Olha só.

[00:39:50] Eu só quero fazer mais uma pontuação, assim,

[00:39:52] pra ficar muito insuportável esse episódio

[00:39:54] de, tipo, assim, nossa, como eles são

[00:39:56] problematizadores. Aquela última cena

[00:39:58] em que ele grita com a criança,

[00:40:00] que em primeiro lugar é assédio moral,

[00:40:03] e depois vira e fala assim,

[00:40:04] eu te dou a fábrica, você é lindo,

[00:40:06] é gaslighting.

[00:40:08] É gaslighting, porque a criança aí

[00:40:10] não pode ficar braba, que

[00:40:12] foi uma puta bronca nada a ver,

[00:40:13] que ele faz a criança chorar.

[00:40:15] A criança chora, ele é um bilionário,

[00:40:17] ele é uma criança pobre,

[00:40:19] um desequilíbrio de poder total.

[00:40:22] Aí ele grita com a criança, chama a criança de tudo,

[00:40:24] faz a criança introjetar várias

[00:40:26] nóias, e aí vira e fala assim,

[00:40:27] ah, mas eu sou muito legal porque eu te dei uma fábrica.

[00:40:30] E aí a criança não pode se permitir nem

[00:40:31] desgostar do cara, e aí o mundo inteiro gosta dele

[00:40:34] porque ele é o Gene Wilder e esse filme é ótimo.

[00:40:36] E aí a criança ali, o Charlie,

[00:40:38] sofreu gaslighting. Era só isso

[00:40:40] que eu queria encerrar.

[00:40:42] Eu acho que tem

[00:40:44] quase uma coisa

[00:40:46] do mérito moral,

[00:40:48] não do mérito…

[00:40:50] Porque tem uma coisa que, sabe o que é esse mérito moral?

[00:40:52] Aí que vem…

[00:40:54] Porque

[00:40:55] esse filme é uma crítica

[00:40:57] ao capitalismo, mas não

[00:40:59] uma crítica comunista

[00:41:02] anarquista. Ele é uma crítica

[00:41:04] no melhor

[00:41:05] estilo

[00:41:06] do pensamento liberal

[00:41:10] tradicional,

[00:41:12] onde a ética

[00:41:14] a ética protestante

[00:41:16] era o espírito do capitalismo, como diria

[00:41:18] Weber.

[00:41:19] O seu comportamento,

[00:41:22] como você expressa a sua ética,

[00:41:25] se você age de maneira ética ou não,

[00:41:27] é determinado só pela

[00:41:28] sua força de vontade,

[00:41:30] e nunca por fatores externos.

[00:41:32] Por isso que ela pode ser um julgamento de valor.

[00:41:34] E aí é isso,

[00:41:35] é o pensamento de tipo,

[00:41:38] quando a polícia mata

[00:41:40] alguém numa,

[00:41:42] numa comunidade, numa favela,

[00:41:44] as pessoas irem e falam assim,

[00:41:46] e nem era traficante, era trabalhador,

[00:41:48] tava indo pra escola, é tipo,

[00:41:50] bicho, não importa o que a pessoa tá fazendo,

[00:41:52] podia tá voltando do bar, com a cara cheia

[00:41:54] de cachaça, não é pra matar ninguém,

[00:41:56] porra, entendeu?

[00:41:57] Tem tanto direito de viver, quanto qualquer outro.

[00:42:00] Isso aí é uma outra discussão,

[00:42:02] porque a gente vai ter que falar do trabalhismo,

[00:42:03] essa questão do vídeo começa

[00:42:06] no trabalhismo de vacas,

[00:42:08] inclusive o malandro, a figura

[00:42:10] da malandragem, que eu tanto aprecio,

[00:42:12] pra quem me conhece das redes,

[00:42:13] vem como um movimento de resistência a isso.

[00:42:16] Ela emerge como um movimento de resistência

[00:42:18] a esse pensamento trabalhista,

[00:42:19] de que só era gente quem era trabalhador.

[00:42:21] Isso começa nos anos 20 no Brasil.

[00:42:23] Mas assim, eu acho que tem uma origem

[00:42:26] nisso sim. Essa ética

[00:42:28] do trabalho, o trabalho

[00:42:29] dignifica o homem, e sei lá o que,

[00:42:32] que lá no capitalismo

[00:42:34] vai ser a origem, vai ser a origem

[00:42:35] dessa, você não

[00:42:37] você não tinha o consumo

[00:42:40] conspico, você não tinha essa coisa

[00:42:41] da burguesia, do pequeno burguês

[00:42:43] trabalhador, que pegava o dinheiro,

[00:42:46] guardava o dinheiro, sabe, investia

[00:42:47] só na propriedade. Isso, por exemplo,

[00:42:50] tá em Locke, sabe?

[00:42:51] Isso é o espírito do capitalismo tal

[00:42:53] como colocado por Locke. Sim, Locke

[00:42:55] que é tipo um filósofo extremamente

[00:42:57] tipo, noiado

[00:42:58] na ideia de meritocracia.

[00:43:01] Na ideia de tipo, de trabalho

[00:43:04] que… Não, tipo

[00:43:05] dessa coisa do trabalho como

[00:43:07] o essencial pra você ter qualquer direito.

[00:43:10] Pra você querer ser a pessoa,

[00:43:11] porque basicamente você é

[00:43:13] um ser de

[00:43:15] propriedade. Mas não só

[00:43:17] você é a soma. O próprio

[00:43:19] Locke dizia que tipo, a única coisa que realmente

[00:43:21] garante o direito de um homem sobre

[00:43:23] a terra, é quando ele

[00:43:25] trabalha nela. É porque

[00:43:27] é esse que é o ponto, o Locke você é um ser,

[00:43:29] o ser, a origem do ser é a ser

[00:43:31] propriedade, a primeira propriedade que você tem é a vida.

[00:43:34] Então que Deus te deu, que é

[00:43:35] o dom de Deus. E depois as outras propriedades

[00:43:38] você vai obter

[00:43:39] por meio do trabalho.

[00:43:41] Então se você trabalha numa terra, a terra torna-se

[00:43:43] sua. Então você está crescendo enquanto ser,

[00:43:46] acumulando propriedades.

[00:43:48] Então assim, só que aí

[00:43:49] tem uma ética moral.

[00:43:51] Uma ética moral, porque depois vai ser convertido com

[00:43:53] protestantismo, vai se

[00:43:55] fixar no protestantismo na ideia do não excesso.

[00:43:59] Porque o que

[00:43:59] é o consumo conspícuo? Aquela coisa tipo

[00:44:01] o NFT, por exemplo. O NFT,

[00:44:03] essas coisas, é o consumo conspícuo. Você está comprando qualquer coisa

[00:44:05] porque você tem dinheiro. Você está esbanjando,

[00:44:07] está produzindo extinção. A lógica original

[00:44:09] do capitalismo, desse capitalismo

[00:44:11] extante, tal como descrita pelo

[00:44:13] Weber, não comportava esse

[00:44:15] tipo de coisa. Você não

[00:44:18] esbanjava.

[00:44:19] Não existia esbanjar.

[00:44:21] E isso tinha uma relação direta

[00:44:23] com a prosperidade na terra, porque Deus não

[00:44:25] gosta dos luxos. Você tem

[00:44:27] que ser um trabalhador. Você pega o teu dinheiro,

[00:44:30] investe no seu negócio e você vai crescendo enquanto

[00:44:31] capitalista nesse sentido. Você vive

[00:44:33] o reino dos céus na terra.

[00:44:35] A teologia da prosperidade que a gente

[00:44:37] tanto escuta ouvir falar hoje,

[00:44:39] dentro das neopentecostais, tem uma

[00:44:41] relação direta com isso. Só que

[00:44:43] eles vão se colocar como uma moral,

[00:44:45] então você vai ser recompensado por Deus

[00:44:47] na vida. Ah, se eu

[00:44:49] me comportar direito, Deus vai me dar uma oportunidade.

[00:44:52] Entendeu? Você

[00:44:53] perde o foco na ideia

[00:44:55] de trabalho e vai ganhar o foco

[00:44:57] na ideia da, digamos,

[00:44:59] da marra moral.

[00:45:01] E aí que a gente chega no ponto final dessa história.

[00:45:04] Porque, assim, de fato, o personagem lá do

[00:45:05] Charlie, ele é o mais comportado

[00:45:07] das crianças. Ele não é a criança mimada,

[00:45:10] ele não tem os pecados,

[00:45:11] né? Ele não tem os pecados. Ele não tem o pecado

[00:45:13] da ira, ele não tem o pecado da gula, ele não tem o…

[00:45:15] Sabe? Ele não comete os pecados capitais.

[00:45:17] Qual é o pecado dele? A curiosidade.

[00:45:20] Ele só é curioso. Ele bebe

[00:45:21] pela curiosidade, sabe?

[00:45:23] Que é um pecado perdoável, não é um pecado

[00:45:25] capital. É, exatamente.

[00:45:28] E porque tem uma certa questão

[00:45:29] do perigo em que ele se bota ali, né?

[00:45:31] Tipo, nossa, você quase morreu ali porque você foi

[00:45:33] pra turminha. Foi uma irresponsabilidade ali e tal.

[00:45:35] É, não. Todas as crianças que…

[00:45:37] Todas as crianças que rodam

[00:45:39] no filme, né? Tipo, rodam por causa de algum tipo

[00:45:41] de pecado. E aí que vem

[00:45:43] o meu ponto. Porque, assim,

[00:45:45] é como se o Willy Wonka, no fim das contas,

[00:45:48] ele fosse a representação do

[00:45:49] Deus capitalista que

[00:45:51] recompensa o sujeito,

[00:45:54] né? É meio que

[00:45:55] aquilo ali é o quê? O capitalismo acreditando

[00:45:57] na sua renovação.

[00:45:59] De que em algum momento ele é capaz de se reconectar

[00:46:01] com o mundo, se reconectar com essa base

[00:46:03] moral que fora perdida

[00:46:05] pela existência dos bilionários. É como

[00:46:07] se o capitalismo, e isso é uma crença muito

[00:46:09] comum dos aceleracionistas,

[00:46:11] da galera que acha… dos progressistas,

[00:46:14] né? Dos progressistas, porque é sempre bom

[00:46:15] separar os progressistas da esquerda.

[00:46:18] Os progressistas são essa galera que

[00:46:19] acha que o capitalismo pode abarcar todo mundo.

[00:46:21] Ah, o capitalismo é uma merda? É uma merda.

[00:46:24] Ah, por que ele é uma merda? Ah, porque ele

[00:46:25] oprime mulheres. Ah, porque ele oprime pobres.

[00:46:27] Ah, porque ele oprime negros. Ah, porque ele oprime indígenas.

[00:46:30] Então o que a gente tem que fazer? Acabar com

[00:46:31] o capitalismo? Não. A gente tem que expandir

[00:46:33] o capitalismo para que ele possa abarcar essas

[00:46:35] pessoas dentro de si. Fundar

[00:46:37] o mundo da meritocracia. O meritocrata

[00:46:39] é o cara que acha que isso já aconteceu.

[00:46:41] Que acha que essa fantasia é possível

[00:46:43] que… Não que apenas que é possível, que ela

[00:46:45] já aconteceu.

[00:46:47] O progressista é o cara que acha que

[00:46:49] não. Peraí.

[00:46:51] Ainda não aconteceu. A gente tem que lutar para que isso aconteça.

[00:46:53] Da minha visão, ambos estão errados.

[00:46:55] Porque isso é impossível que aconteça

[00:46:57] porque o capitalismo precisa do

[00:46:59] pobre, do miserável, para se reproduzir.

[00:47:01] Por isso que o final do filme,

[00:47:03] enquanto uma fábula moral, ele é

[00:47:05] uma fábula… É quase

[00:47:07] como se o capitalismo fosse destruído

[00:47:09] e ele ressurge

[00:47:10] mais uma vez.

[00:47:11] Pela iniciativa do

[00:47:13] povo. Ele ressurge como

[00:47:15] reconectado com o povo. Com o quê?

[00:47:17] A dissolução do bilionário

[00:47:19] na figura do pequeno burguês. E é por isso

[00:47:21] que é essencial a gente não ver o Charlie

[00:47:23] cuidando da fábrica.

[00:47:26] Porque senão aí você vê que, tipo…

[00:47:28] Ou ele faz algo que

[00:47:29] nega o Willy Wonka,

[00:47:31] ou ele perpetua o mesmo ciclo.

[00:47:33] Mas você não vê lá… Ele vai libertar os umpalumpas.

[00:47:35] Mas você vê aqui. Eu tenho

[00:47:37] aqui o direto… Eu

[00:47:39] psicografei do Roald Dahl, o nosso

[00:47:41] prólogo, que eu vou ler aqui.

[00:47:43] Isso aqui é exclusivo dos ouvintes

[00:47:45] do Pop Cult, tá?

[00:47:47] Não tem mais lugar nenhum.

[00:47:48] Os pais de Charlie o afastaram da fábrica com a ajuda do serviço social

[00:47:51] americano, alegando o trabalho infantil do pequeno

[00:47:53] CEO. Quando ele retornou ao cargo, já

[00:47:55] com 18 anos, ele tinha 10 MBAs

[00:47:57] e se dedicou a revolucionar a Wonka Candies

[00:47:59] Incorporated. Depois de três

[00:48:01] péssimos anos fiscais, com 21 anos

[00:48:03] ele vendeu a empresa pra Unilever e nunca

[00:48:05] mais foi visto. Umpalumpas lutam

[00:48:07] até hoje por cidadania e direitos.

[00:48:09] Então você vê que realmente é um destino

[00:48:11] cruel. Você não assistiu essa porra?

[00:48:13] Eu escrevi enquanto você tava falando.

[00:48:20] Eu acho que essa é uma ótima

[00:48:21] conclusão. É. Porra,

[00:48:23] perfeito, cara. Perfeito.

[00:48:27] O…

[00:48:27] Caralho, que imbecil.

[00:48:30] Então, o que a gente precisa falar

[00:48:31] aqui é que se você não sabe ainda,

[00:48:33] a gente tem um apoia-se. Tá aqui

[00:48:35] na descrição. Apoia.se barra

[00:48:37] Pop Cult, que é uma campanha de financiamento

[00:48:39] coletivo. Se você puder, se você quiser,

[00:48:40] você pode nos dar uns caraminguás

[00:48:43] aí todo mês. E tem benefícios, né?

[00:48:45] Tem conteúdo bônus,

[00:48:47] tem um grupo no Discord pra conversar

[00:48:49] conosco e com os outros ouvintes

[00:48:51] sobre os temas que a gente discute aqui, pra

[00:48:52] recomendar filmes um pro outro e tal.

[00:48:54] E a gente vai ter também lá pelo Discord

[00:48:57] as sessões

[00:48:59] coletivas, assim, tipo eu e Orlando

[00:49:00] vendo filmes com vocês e a gente

[00:49:02] comentando. E vocês

[00:49:04] no chat ali e tal, todo mundo

[00:49:06] muito bacana, todo mundo com seu balde de pipoca em casa.

[00:49:10] Tecnicamente,

[00:49:10] deve ser legal, mas

[00:49:12] enquanto os advogados de ninguém entrarem em contato,

[00:49:15] tamo limpo.

[00:49:17] É isso.

[00:49:18] É isso, gente. Muito obrigado e até o próximo

[00:49:20] episódio.

[00:49:24] Half-Death