Pistolando #151 - Literatura infantil russa
Resumo
O episódio explora o período considerado a “era de ouro” da literatura infantil russa, nas décadas de 1920 e 1930. A pesquisadora Daniela Montian, especialista no tema, explica como esse florescimento foi um fenômeno único, impulsionado pela convergência de artistas de vanguarda, poetas e o novo governo bolchevique, que via na educação e na literatura infantil ferramentas centrais para a construção do “novo homem” soviético.
A conversa detalha como grandes nomes da poesia e das artes visuais, como Vladimir Mayakovsky, Samuel Marchak, Kornei Tchukovsky e Vladimir Lebedev, se voltaram para a criação de livros infantis, resultando em obras onde texto e imagem eram concebidos em conjunto, de forma inovadora. Esse período viu o surgimento de livros com design gráfico arrojado, cores saturadas, tipografia experimental e temas que iam desde profissões e cadeias produtivas até releituras de contos populares russos.
É discutido o contexto histórico e político que permitiu essa efervescência, incluindo o papel de editoras estatais e a Nova Política Econômica (NEP), que abriu espaço para editoras privadas como a Raduga. O episódio também aborda as mudanças ocorridas a partir de meados dos anos 1930, com o fortalecimento do stalinismo, a centralização do poder, o surgimento do realismo socialista como estética oficial e a consequente repressão que levou ao fim dessa fase experimental, com muitos artistas sendo perseguidos, presos ou forçados a mudar seu estilo.
Por fim, a pesquisadora comenta sobre a recepção e o legado dessas obras, que são até hoje referências no design editorial, e sobre a dificuldade de acesso a essa produção no Brasil, onde a literatura russa infantil é pouco conhecida. Ela também menciona iniciativas, como a editora Kalinka, que buscam traduzir e publicar alguns desses clássicos no país.
Indicações
Cursos
- Curso sobre literatura infantil russa (USP) — Daniela menciona que ministrou um curso de inverno na USP sobre o tema, com quatro aulas disponíveis gratuitamente online, onde é possível ver as imagens dos livros discutidos.
Ferramentas
- Duolingo — Recomendado por Letícia como uma forma gamificada e acessível de estudar línguas, criando uma competição saudável com amigos.
Filmes
- Andrei Rublev, de Andrei Tarkovski — Indicado por Daniela, o filme retrata a Rússia medieval e a vida do pintor de ícones Andrei Rublev. Ela menciona que Tarkovski teria feito 90 anos recentemente.
Livros
- Cachorrinhos, de Vera Ermolaeva — Livro da artista vanguardista Vera Ermolaeva, mencionado como um exemplo da produção do período. Conta a história de um menino que desenha cachorros em uma exposição, com o número de animais aumentando progressivamente em cada página, criando uma composição visual interessante.
- O Que Eu Quero Ser Quando Crescer, de Vladimir Mayakovsky — Poema de Mayakovsky sobre profissões, onde uma criança debate o que quer ser. Daniela menciona que a primeira edição tinha uma feição gráfica muito moderna, com capa usando apenas tipos e caracteres, mas que depois ganhou roupagens mais tradicionais.
- House of Leaves, de Mark Z. Danielewski — Recomendado por Letícia como um livro com diagramação maluca e experimental, com páginas em branco, texto de cabeça para baixo e fontes variadas, considerado graficamente fantástico.
- O Diário de Viagem de Dona Francisca de Bragança — Recomendado por Thiago, é um livro histórico sobre a filha de Dom Pedro II que herdou as terras da região de Joinville, comprado por ele para entender melhor a história da cidade onde mora.
Musica
- O Pássaro de Fogo (balé) — Daniela e Letícia recomendam assistir ao balé O Pássaro de Fogo (Firebird), com coreografia de Fokine. Elas destacam a música poderosa, o figurino lindo com roupas tradicionais russas e a coreografia elétrica e diferente da bailarina que representa o pássaro.
Linha do Tempo
- 00:03:00 — Apresentação da convidada e seu tema de pesquisa — Daniela Montian se apresenta como pesquisadora de pós-doutorado sobre literatura infantil russa dos anos 20 e 30. Ela explica que chegou ao tema através de seus estudos sobre o escritor vanguardista Daniil Kharms, descobrindo todo um universo de artistas de vanguarda que se dedicaram à literatura infantil com apoio governamental, um fenômeno que ela descreve como sem precedentes em outros lugares do mundo.
- 00:10:10 — O que tornou esse período especial para a literatura infantil — Daniela explica que a singularidade do período reside na reunião de artistas que já buscavam uma nova linguagem com a literatura infantil, e no incentivo estatal que permitia grandes tiragens. Ela destaca a qualidade gráfica resultante da colaboração íntima entre poetas e artistas gráficos, que criavam os livros juntos. Do ponto de vista da poesia, nomes como Kornei Tchukovsky e Samuel Marchak modernizaram a poesia infantil russa, trazendo o fantástico e o nonsense.
- 00:16:35 — Como funcionava a edição e o mercado editorial — A pesquisadora descreve o cenário editorial do início dos anos 1920, marcado pela Nova Política Econômica (NEP) de Lênin, que permitiu a existência de editoras privadas como a Raduga. Foi nesse período que associações interessantes surgiram. A partir de 1928, a estrutura se tornou predominantemente estatal. A ideia de ‘construção’ de um novo país era a tônica da época e se expressava nos livros, que falavam de profissões e processos produtivos.
- 00:21:38 — A colaboração única entre escritor e ilustrador — Daniela enfatiza a novidade da colaboração profunda entre escritores e artistas visuais na criação dos livros infantis, algo que não existia na literatura infantil europeia ou norte-americana da época. Muitas vezes, a ilustração vinha antes do texto, e o trabalho era conjunto. Ela cita a parceria entre Samuel Marchak e Vladimir Lebedev como exemplo emblemático, resultando em livros com uma linguagem gráfica inovadora, cores saturadas e configurações espaciais ousadas que se tornaram referência mundial.
- 00:31:35 — Temas abordados na nova literatura infantil russa — Além da atualização dos contos populares russos, a literatura do período introduziu temas contemporâneos e ligados ao projeto de construção do novo país. Havia livros sobre profissões (médico, operário, construtor), sobre cadeias produtivas (como se faz um jornal) e sobre tecnologia (meios de locomoção como aeroplanos e locomotivas). A heroína da época era a tecnologia, e as crianças eram convidadas a participar da construção desse novo mundo.
- 00:45:57 — A presença de temas políticos: internacionalismo e guerra — Em resposta a uma pergunta, Daniela confirma que temas como a guerra civil, o internacionalismo e a união das nações sob o comunismo eram perceptíveis nos livros e revistas infantis dos anos 20. Havia livros sobre o Primeiro de Maio e canções de ninar em várias línguas, refletindo essa vertente. No entanto, essa temática deu lugar a um nacionalismo mais forte a partir dos anos 30 e 40.
- 00:48:21 — O fim da experimentação e o início da repressão stalinista — A conversa aborda a transição para os anos 1930, marcada pelo fortalecimento do poder de Stalin. Daniela explica que houve uma centralização total: associações de escritores e artistas foram unificadas, a censura se fortaleceu com burocratas não ligados à literatura, e qualquer criação de linguagem mais moderna ou experimental passou a ser criticada como ‘formalista’. Muitos artistas foram perseguidos, presos ou forçados a mudar radicalmente seu estilo, como Vladimir Lebedev.
- 00:56:03 — Por que essa literatura é pouco conhecida no Brasil — Daniela reflete sobre a pouca difusão da literatura infantil russa no Brasil de forma geral, não apenas deste período. Ela menciona a tradutora Tatiana Belinky como uma grande difusora, mas reconhece que é uma área pouco explorada tanto editorial quanto academicamente. Ela comenta o trabalho de sua editora, a Kalinka, que tem uma coleção dedicada a trazer algumas dessas obras, como livros da artista vanguardista Vera Ermolaeva.
- 01:06:57 — O trágico caso do escritor Daniil Kharms — Para ilustrar a repressão do período, Daniela conta a história de Daniil Kharms. Preso em 1941 e acusado de propagar derrotismo, ele foi declarado ‘inimigo do povo’ e morreu de fome em um hospital psiquiátrico em 1942, aos 36 anos. Ela menciona que, recentemente, uma discussão sobre um grafite em sua homenagem em São Petersburgo reviveu as mesmas acusações, mostrando como o passado pode retornar.
Dados do Episódio
- Podcast: Pistolando Podcast
- Autor: Leticia Dáquer e Thiago Corrêa
- Categoria: News Politics News News Commentary
- Publicado: 2022-04-13T06:05:00Z
- Duração: 01:31:10
Referências
- URL PocketCasts: https://podcast-api.pocketcasts.com/podcast/full/b6a05580-5917-0136-fa7c-0fe84b59566d/21108ff1-0111-45b5-a0da-67565ceab1b8
- UUID Episódio: 21108ff1-0111-45b5-a0da-67565ceab1b8
Dados do Podcast
- Nome: Pistolando Podcast
- Tipo: episodic
- Site: http://www.pistolando.com
- UUID: b6a05580-5917-0136-fa7c-0fe84b59566d
Transcrição
[00:00:00] MÚSICA
[00:00:26] Sejam muito bem-vindos Pistoleiros e Pistoleiras
[00:00:29] Esse é o Pistolando Podcast número 151
[00:00:35] Galo no Jogo do Bicho
[00:00:38] Ah, já não sei
[00:00:40] Eu sou o Thiago Corrêa
[00:00:42] E eu sou a Letícia D’Aquia
[00:00:44] E eu… a gente nem começou o episódio ainda
[00:00:47] A gente teve uma conversa bem curta aqui de pré-gravação
[00:00:52] E eu já tenho certeza de que esse episódio
[00:00:55] Vai entrar pra lista dos queridinhos, dos favoritos do pessoal
[00:00:59] Porque é meio que aquele negócio… é o Pistolando Signature, né?
[00:01:03] É aquele negócio que você jamais sequer pensou ou cogitar na sua vida
[00:01:08] E de repente você tem uma hora e meia de papo sobre o tema
[00:01:13] Pra começar a se interessar e se aprofundar
[00:01:16] Foi assim com música clássica brasileira
[00:01:19] Foi assim com…
[00:01:21] As letras que flutuam, né?
[00:01:24] As tipografias
[00:01:25] As letras que flutuam
[00:01:25] As letras que flutuam, né?
[00:01:25] São coisas completamente fora da realidade de todo mundo, assim
[00:01:29] E que acabam conquistando o seu público aqui conosco
[00:01:35] Temos muito orgulho de fazer esse tipo de coisa
[00:01:37] E eu vou contar um pouquinho da história desse episódio
[00:01:41] Porque esse episódio, antes dele ser concebido
[00:01:45] Ele passou pelo nosso grupo de apoiadores
[00:01:47] Pois a gente tava no ápice ali da ofensiva
[00:01:52] Entre Rússia e Ucrânia
[00:01:55] E naquele momento a gente já começava a cogitar
[00:01:58] A possibilidade desse tema virar um episódio
[00:02:01] Mas a gente tava vendo que tava tudo acontecendo
[00:02:05] Daquele jeito de pequenos cancelamentos
[00:02:08] De coisas relativas à cultura russa
[00:02:10] É, começou com o Stroganoff
[00:02:11] Começou com o Stroganoff
[00:02:13] Foi acabar em, tipo, o maestro da filarmônica de Berlim
[00:02:18] Isso
[00:02:18] Não tem nada a ver com a política do Putin
[00:02:22] Então resolvemos bater o pé e, ah, quer saber?
[00:02:25] A gente não pode deixar de falar coisas dessa cultura imensa
[00:02:30] E milenar que é a cultura russa
[00:02:32] Porque nesse momento tá acontecendo uma guerra
[00:02:36] Tudo que a gente vai falar aqui não tem qualquer tipo de ligação com o Putin
[00:02:41] Aconteceu há basicamente 100 anos atrás
[00:02:45] Então eu acho que não dá pra exatamente ligar ao Putin
[00:02:48] Então vamos falar hoje sobre literatura infanto-juvenil
[00:02:55] Da Rússia dos séculos, dos séculos
[00:02:58] Das décadas de 20 e 30
[00:03:00] É, claro que a gente não sabe nada
[00:03:03] Ou quase nada
[00:03:04] Sobre o assunto
[00:03:06] Então, por favor, seja muito bem-vinda, Daniela
[00:03:09] E se apresenta pra nossa audiência, por favor
[00:03:12] Oi, em primeiro lugar, obrigada pelo convite
[00:03:17] E me apresentar, como eu tava comentando
[00:03:21] Eu sou extremamente tímida
[00:03:23] Mas eu acho que vocês me convidaram
[00:03:25] Porque eu tô estudando a literatura russa infantil desse período
[00:03:29] Eu tô fazendo pós-doutorado já faz três anos sobre esse tema
[00:03:34] É um tema que eu me apaixonei completamente
[00:03:37] Eu já venho, minha trajetória já vem com a cultura russa
[00:03:41] Eu também não tenho nada a ver com o Putin
[00:03:42] Mas eu tenho tudo a ver com a literatura russa
[00:03:45] E eu trabalho tanto na editora
[00:03:48] Agora eu não tô na editora Kalinka por causa da pesquisa
[00:03:50] Mas eu tenho essas duas vertentes
[00:03:53] A pesquisa acadêmica
[00:03:55] E a editora Kalinka
[00:03:56] Que é dedicada à literatura russa
[00:03:58] E aí a coisa vai acontecendo
[00:04:01] E agora o que tá acontecendo na minha vida
[00:04:04] É a literatura russa infantil dos anos 20 e 30
[00:04:07] Eu acho que é bom começar explicando
[00:04:10] Como é que você foi parar nisso aí, né?
[00:04:13] Porque é um negócio muito específico, né?
[00:04:15] É meio que a pergunta que hoje
[00:04:17] Não tem como desviar dessa pergunta
[00:04:19] Porque a pessoa fala assim
[00:04:20] Ah, não, eu estudo literatura russa
[00:04:22] Tá, legal
[00:04:22] As pessoas têm uma certa ideia do que pode ser
[00:04:25] Mas você fala
[00:04:26] Não, eu pesquiso literatura infantil russa dos anos 20 e 30
[00:04:29] A pessoa fala
[00:04:30] Hã?
[00:04:31] Como que você foi parar nisso aí?
[00:04:33] Como é que você foi afunilando
[00:04:34] Até chegar numa coisa tão específica?
[00:04:37] Então, na verdade, assim
[00:04:38] Esse tema não fui eu que inventei
[00:04:40] Não descobri a América
[00:04:42] Não fiz nada disso
[00:04:43] Na verdade, eu tô trazendo
[00:04:46] O que já foi falado sobre o tema
[00:04:48] Mas, assim, eu encontrei esse tema
[00:04:50] Quando eu tava fazendo doutorado sobre um autor russo
[00:04:53] Que se chama
[00:04:54] Daniel Harms
[00:04:55] Ele é um vanguardista
[00:04:58] Bem excêntrico
[00:05:00] A gente pode considerar ele um precursor
[00:05:03] Da literatura do absurdo
[00:05:05] E ele aí
[00:05:05] Teve seus anos de desenvolvimento
[00:05:09] Na literatura nos anos 20 e 30
[00:05:11] E eu estudei no doutorado
[00:05:13] Os diários de Harms
[00:05:15] Mas eu não estudei
[00:05:17] O Harms, ele fazia
[00:05:19] Poemas e textos
[00:05:21] E peças para adultos
[00:05:23] Só que ele não podia
[00:05:24] Ele é um super vanguardista
[00:05:26] Ele não conseguia publicar a sua literatura
[00:05:29] E aí ele também se tornou um representante
[00:05:32] Da literatura russo infantil
[00:05:34] Desse período
[00:05:35] E foi por meio de Harms
[00:05:37] Que eu acabei descobrindo o universo inteiro
[00:05:39] Porque, na verdade, foi lendo
[00:05:41] Claro, a biografia de Harms
[00:05:43] Que eu entendi
[00:05:45] Que teve um florescimento
[00:05:47] Da literatura russo infantil
[00:05:49] Nos anos 20 e 30
[00:05:50] E aconteceu uma coisa sem precedentes
[00:05:52] Porque foi uma reunião desses artistas
[00:05:54] De vanguarda
[00:05:56] Super inovadores
[00:05:58] Com a literatura infantil
[00:06:00] E com apoio do governo
[00:06:02] Então isso não aconteceu em nenhum lugar do mundo
[00:06:05] Então eles deixaram o legado
[00:06:06] De livros que são obras de arte
[00:06:09] Feito por grandes poetas
[00:06:10] E por grandes pintores
[00:06:12] E foi assim que aconteceu
[00:06:14] Esse é o período
[00:06:15] E é o início, sim
[00:06:18] É o primeiro momento da literatura soviética
[00:06:21] Infantil
[00:06:22] E é considerado
[00:06:24] Um dos períodos mais formidáveis
[00:06:26] Da literatura russa
[00:06:28] Infantil
[00:06:29] Infanto-juvenil
[00:06:31] Curioso
[00:06:34] Eu pensei que
[00:06:35] Justamente por conta do seu sobrenome
[00:06:37] Seria alguma
[00:06:39] Alguma questão soviética
[00:06:42] Relacionada à família
[00:06:44] E tal
[00:06:44] Meu sobrenome é da Moldávia
[00:06:48] Minha família é da Moldávia
[00:06:50] E sim, tudo isso
[00:06:52] Moldávia era uma república
[00:06:54] Da União Soviética
[00:06:56] Obviamente que
[00:06:56] Toda essa minha relação com a cultura russa
[00:06:59] Tem a ver também com a questão da minha família
[00:07:01] Mas não foi por aí que eu cheguei
[00:07:04] A os livros russos infantis
[00:07:05] Eu trabalho mesmo com o meu pai
[00:07:07] Ele traduz também
[00:07:09] Mas os livros infantis
[00:07:11] Esse período nasceu
[00:07:13] Do meu doutorado
[00:07:15] Do trabalho que eu fiz sobre as cadernetas
[00:07:18] E o diário de Harms
[00:07:19] E aí que eu
[00:07:21] Enfim, acabei descobrindo
[00:07:24] Esse fenômeno mesmo
[00:07:26] É um negócio impressionante
[00:07:27] É difícil falar desse período
[00:07:30] A gente pode falar um ou outro
[00:07:31] Escritor, não sei se vocês vão comentar
[00:07:33] Sem mostrar os livros
[00:07:35] Porque é um período que realmente
[00:07:37] O design russo, soviético
[00:07:40] Ele se desenvolveu muito
[00:07:42] Nesses livros infantis
[00:07:43] Porque o governo russo
[00:07:44] Ele precisava, esse novo governo bolchevique
[00:07:47] Ele precisava de uma nova literatura
[00:07:49] Ele queria criar um novo homem
[00:07:51] Então
[00:07:52] Foi um período
[00:07:54] Efervescente
[00:07:55] Porque esses
[00:07:56] Artistas visuais, digamos
[00:08:00] Encontraram nesses livros infantis
[00:08:02] Uma possibilidade de uma criação
[00:08:04] Sem igual
[00:08:06] Então no momento em que
[00:08:08] O texto e a imagem começaram
[00:08:09] A se ligar de uma forma
[00:08:11] Que não acontecia
[00:08:13] Não era isso que estava acontecendo na Europa
[00:08:16] Não era isso que estava acontecendo nos Estados Unidos
[00:08:18] E mesmo a temática também foi inovadora
[00:08:21] Então assim
[00:08:22] Eles começaram a falar de
[00:08:24] De profissões
[00:08:25] Eles começaram a falar de cadeias produtivas
[00:08:29] Do carteiro, do enfim
[00:08:30] Então tem a ver com a União Soviética sim
[00:08:34] Não sei se eu respondi a tua pergunta
[00:08:36] Não entendi muito
[00:08:37] A relação do sobrenome com
[00:08:40] O meu sobrenome não é russo
[00:08:43] Mas enfim
[00:08:43] Eu pensei que fosse armeno
[00:08:45] Por causa desse ian no final
[00:08:47] A gente pensa
[00:08:50] Mas não
[00:08:51] É da Moldávia
[00:08:54] Ótimo
[00:08:54] Mas você fala russo, né?
[00:08:56] Sim
[00:08:57] Nesses anos de trabalho com a Rússia
[00:09:01] Eu já morei um tempo lá
[00:09:03] Morei, sei lá
[00:09:04] Ao todo uns três anos
[00:09:06] Ah, que legal
[00:09:08] Morei em São Petersburgo
[00:09:10] E falo russo, leio russo
[00:09:12] Até dou aula de russo
[00:09:13] É que assim, as ex-repúblicas soviéticas
[00:09:16] Isso tem a ver mais com meus pais
[00:09:19] Do que comigo
[00:09:20] Mas eles eram educados em russo
[00:09:22] Hoje
[00:09:24] Na Moldávia se fala
[00:09:27] Moldávia, que é o romeno
[00:09:28] Mas naquela época
[00:09:30] As escolas eram russas
[00:09:32] Então por isso a cultura
[00:09:33] Meus pais tiveram acesso
[00:09:37] A cultura russa, sobretudo
[00:09:39] A língua russa
[00:09:40] Daniela, você falou ali
[00:09:43] Sobre a
[00:09:44] Sobre a questão de esse período
[00:09:47] Anos 20, anos 30
[00:09:49] Ser meio que a era de ouro
[00:09:51] Da literatura infantil
[00:09:53] Russa
[00:09:54] A gente tem meio que aquela
[00:09:56] Noção na cabeça
[00:09:59] Que a era de ouro da literatura russa
[00:10:01] É ali
[00:10:01] 1880, alguma coisa assim
[00:10:05] Que vem
[00:10:07] As grandes obras e tal
[00:10:09] Mas
[00:10:10] Um pouco depois a gente tem esse florescer
[00:10:13] Da literatura infantil russa
[00:10:14] O que a literatura infantil
[00:10:17] Em específico, traz de tão diferente
[00:10:19] Quais foram os astros
[00:10:22] Que se alinharam nesse período histórico
[00:10:24] Para que isso tenha acontecido
[00:10:25] Você falou um pouquinho ali já
[00:10:27] Da questão de incentivo governamental
[00:10:30] E tal, mas
[00:10:31] Em termos mais
[00:10:34] Históricos, o que exatamente
[00:10:36] Tudo aconteceu ali
[00:10:38] Para que a gente tenha
[00:10:39] Uma obra tão rica
[00:10:41] Em história
[00:10:44] E também artisticamente
[00:10:45] Então, esse negócio
[00:10:47] A questão que você falou sobre a era de ouro é verdade
[00:10:50] Quando a gente, sei lá
[00:10:51] Estuda literatura russa, a gente sabe que a era
[00:10:54] De ouro está relacionada
[00:10:56] Com Dostoiévski
[00:10:58] Com Tolstói
[00:10:59] E com esses nomões
[00:11:01] Com esses clássicos
[00:11:03] Eu estou chamando a era de ouro
[00:11:05] Entre aspas, não sou eu que menciono
[00:11:07] Na verdade, eles estão até na era
[00:11:10] De prata
[00:11:11] Que é uma era que começa
[00:11:13] Didaticamente falando
[00:11:15] Ele começa
[00:11:18] Com simbolismo na virada do século XIX
[00:11:20] Para o XX
[00:11:21] E aí surgem aquelas
[00:11:24] Inúmeros ismos
[00:11:25] Eram vários grupos de vanguarda
[00:11:28] Vários
[00:11:28] E reunindo
[00:11:32] Artistas de várias áreas
[00:11:33] O que esse período infantil
[00:11:36] Trouxe de especial
[00:11:37] Então, em primeiro lugar, é o que você acabou de falar
[00:11:40] Essa relação entre esses artistas
[00:11:42] Que já estavam em busca de uma nova linguagem
[00:11:44] Com a literatura
[00:11:47] Infantil
[00:11:48] E com incentivo, ou seja
[00:11:49] Esses livros, como livros de Mayakovsky
[00:11:52] Livros de Marchak, livros de Tchukovsky
[00:11:54] Eles eram
[00:11:55] Eles eram impressos
[00:11:58] Em grandes tiragens
[00:11:59] Então, assim, isso é uma coisa que não aconteceu
[00:12:02] Em nenhum lugar
[00:12:02] Então, a qualidade gráfica tem a ver
[00:12:05] Com essa reunião entre um poeta
[00:12:08] E o artista gráfico
[00:12:09] Porque eles criavam juntamente
[00:12:11] Esses livros
[00:12:12] Então, assim, falar de forma muito genérica
[00:12:16] Eu teria que começar a falar
[00:12:17] Do ponto de vista da poesia
[00:12:19] E depois falar um pouco
[00:12:21] De ponto de vista do design
[00:12:24] Do ponto de vista da poesia
[00:12:26] Fique à vontade para fazer a organização
[00:12:29] Do jeito que você quiser
[00:12:30] Fique à vontade
[00:12:33] Para me interromper também
[00:12:35] Não, mas manda ver
[00:12:37] Eu até já ia perguntar, inclusive, sobre o Mayakovsky
[00:12:39] Que foi um negócio que eu cresci o olho
[00:12:42] Eu não sabia dessa veia dele
[00:12:44] E você olha fotos dele
[00:12:46] Ele não parece um cara que lide bem com crianças
[00:12:48] Mas eu acho que você tem um pouco de razão
[00:12:53] Eu não acho que ele tinha uma relação muito forte
[00:12:56] Com as crianças mesmo
[00:12:57] Eu acho que ele tinha uma questão ideológica ali
[00:13:01] Alguns escritores nessa época
[00:13:03] Bem comprometidos
[00:13:05] Com a ideia da revolução
[00:13:07] Com a ideia da construção de um novo país
[00:13:09] Enveredaram para a literatura infantil
[00:13:12] Por isso
[00:13:13] Outros não, como Daniel Harms
[00:13:15] Que não tinha nada a ver com isso
[00:13:17] Que vivia lá o mundo dele
[00:13:19] Eles usaram
[00:13:21] A literatura infantil
[00:13:23] Como sobrevivência
[00:13:24] Como um ganha-pão
[00:13:25] Porque eles ganhavam até que bem
[00:13:27] Estou falando
[00:13:27] O governo soviético depois de 1922
[00:13:31] Investia dinheiro nisso
[00:13:33] É estranho imaginar
[00:13:35] Mas para o governo
[00:13:36] Era questão central
[00:13:38] A literatura infantil
[00:13:40] A educação e a literatura infantil
[00:13:43] É curioso
[00:13:45] E naquele momento, pelo menos na Rússia
[00:13:48] Era realmente ponto nevral
[00:13:51] Para o
[00:13:53] Para eles
[00:13:54] A ideia de construção
[00:13:56] É uma ideia que ficou muito forte nos anos 20
[00:13:58] Início dos 30
[00:14:00] E os tijolos eram mesmo a educação
[00:14:03] E a literatura
[00:14:04] Eu acho impressionante
[00:14:05] Como a literatura assume um papel político
[00:14:08] Nesse momento
[00:14:10] E engraçado que
[00:14:14] Essa primeira literatura
[00:14:16] Essa literatura que surge nos anos 20
[00:14:18] Porque depois de 30 muda muita coisa
[00:14:20] Infelizmente
[00:14:21] Meados de 30
[00:14:23] Com o fortalecimento do poder de Stalin
[00:14:26] A coisa muda muito de figura
[00:14:27] Mas nesse momento
[00:14:29] Do ponto de vista poético
[00:14:32] Do ponto de vista da literatura
[00:14:34] Os grandes nomes
[00:14:36] Que não são muito conhecidos no Brasil
[00:14:38] Mas na Rússia são muito conhecidos
[00:14:41] É Kornetchukovsky
[00:14:42] E Samuel Marchak
[00:14:44] Eles são
[00:14:45] Enfim, eles são considerados
[00:14:48] Esses precursores
[00:14:50] Desse novo tipo de literatura infantil
[00:14:53] Que é a literatura infantil
[00:14:53] Uma literatura que tinha uma preocupação
[00:14:56] Muito forte
[00:14:57] Estética
[00:14:58] Uma literatura que buscava uma linguagem
[00:15:00] Mais próxima da criança
[00:15:02] O que não significa que não tinha um teor ideológico
[00:15:05] Mas assim, de qualquer forma
[00:15:07] Eles trouxeram novos sons
[00:15:09] Para a literatura russa infantil
[00:15:11] E uma coisa que é muito particular
[00:15:13] Na literatura desse período
[00:15:15] Aliás, em geral, na literatura russa
[00:15:17] É a proximidade que eles têm com a poesia
[00:15:19] Então, para vocês terem uma ideia
[00:15:21] Esses dois escritores
[00:15:23] Que eu estou falando
[00:15:24] São basicamente poetas para crianças
[00:15:26] E o Kornetchukovsky
[00:15:28] Que escreveu seus poemas e contos também
[00:15:31] Nos anos 20 para crianças
[00:15:32] É o escritor até hoje mais lido pelas crianças
[00:15:35] Eu estou falando de criancinhas
[00:15:36] Pequenas, em fase de pré-alfabetização
[00:15:40] Então, esse é mais um elemento
[00:15:42] Da literatura russa
[00:15:46] E desse período em particular
[00:15:47] Então, assim, eles modernizaram
[00:15:49] Digamos, a poesia russa infantil
[00:15:52] Eles trouxeram
[00:15:53] O Fantástico
[00:15:55] Eles trouxeram o Nocense
[00:15:57] Os dois tiveram uma relação forte com a Inglaterra
[00:16:00] E o mais legal
[00:16:01] Eles trouxeram vários escritores
[00:16:04] Junto
[00:16:05] Então, escritores que não necessariamente
[00:16:07] Estavam relacionados com literatura infantil
[00:16:11] Acabaram indo também
[00:16:13] Isso muito por conta de Marchak
[00:16:16] Ele foi escritor para crianças
[00:16:19] Mas também um grande editor soviético
[00:16:20] Editor de revistas infantis
[00:16:23] Enfim, ele era o editor-chefe
[00:16:25] De uma sede
[00:16:26] Do editor estatal
[00:16:29] Que ficava em São Petersburgo
[00:16:31] E agora, sobre essa parte de edição
[00:16:35] Como exatamente funcionava
[00:16:38] Esse tipo de edição?
[00:16:40] Porque você falou que eles abraçaram isso muito
[00:16:42] Até por uma questão ideológica
[00:16:44] Eles tinham esse incentivo do partido
[00:16:46] Então, eles faziam isso
[00:16:50] Como se fossem funcionários públicos mesmo?
[00:16:53] Ou esse tipo de incentivo
[00:16:56] Ele não passava
[00:16:57] Por uma questão burocrática?
[00:17:00] Era mais para que eles…
[00:17:01] No início
[00:17:02] Quando o governo
[00:17:05] Bolchevique ainda acabou de se formar
[00:17:07] As coisas estavam muito desestruturadas
[00:17:09] As organizações estavam ainda
[00:17:11] Se consolidando
[00:17:13] E a Rússia estava numa crise horrível
[00:17:15] Ela saiu
[00:17:16] Teve a guerra civil
[00:17:18] Ela saiu da primeira guerra mundial
[00:17:20] Eles estavam em um momento terrível
[00:17:22] E aí, eu estava me perguntando
[00:17:23] Por que o Lênin
[00:17:23] Ele criou a nova política econômica
[00:17:26] Então, essa nova política econômica
[00:17:28] Que também é um tanto paradoxal
[00:17:30] Como tudo nesse período
[00:17:32] Ele abria possibilidade
[00:17:34] De algumas editoras privadas
[00:17:37] Existirem
[00:17:38] Associações e editoras
[00:17:40] Então, foi durante esse período
[00:17:42] De 1922 a 1928
[00:17:43] Surgiram associações e editoras
[00:17:46] Muito interessantes
[00:17:47] Como a editora Raduga
[00:17:49] Que é arco-íris em russo
[00:17:52] Que foi ela que reuniu
[00:17:53] O Tchukovsky
[00:17:57] E trouxeram mais uma série
[00:17:59] De escritores juntos
[00:18:01] E artistas visuais
[00:18:02] Depois, com o tempo
[00:18:04] Os escritores e ilustradores
[00:18:07] Dessa editora arco-íris
[00:18:09] Eles foram absorvidos
[00:18:11] Pela editora estatal
[00:18:14] E aí, a partir de 1928
[00:18:16] Ficou uma estrutura estatal
[00:18:18] De forma geral
[00:18:19] Pense assim
[00:18:20] Os anos 20
[00:18:21] Tem muita cara do construtivismo
[00:18:23] A ideia de construção mesmo
[00:18:25] É construção de um novo país
[00:18:27] É construção
[00:18:28] Isso tudo era expresso nos livros
[00:18:32] Assim como também tinha algum espaço
[00:18:35] Porque a censura também estava se organizando
[00:18:37] Nesse período
[00:18:38] Para experimentações de linguagem
[00:18:40] Para uma linguagem non-sense
[00:18:41] Por exemplo, o Hamsky
[00:18:43] Ele não tinha nenhuma relação com essa ideologia
[00:18:46] Ele fazia contos
[00:18:48] Assim, hilários
[00:18:50] Os mais conhecidos
[00:18:53] Ele não é tão conhecido no Brasil
[00:18:55] Mas um conto dele muito conhecido
[00:18:57] São dois
[00:18:57] Dois rapazinhos de Leningrado
[00:18:59] Que fazem uma viagem fantástica pelo Brasil
[00:19:02] Então, é, pois é
[00:19:04] É genial
[00:19:06] É genial
[00:19:07] Eles brigam o conto inteiro
[00:19:09] Ele era um mestre do humor, o Hams
[00:19:11] Então, nesse período
[00:19:13] Houve possibilidade dessas coisas surgirem
[00:19:16] Entendeu?
[00:19:17] Então, é um período de consolidação
[00:19:19] É um período ainda
[00:19:21] Em que já havia ideologia
[00:19:22] Havia ideologia
[00:19:22] Mas ainda não havia uma censura
[00:19:25] Forte o suficiente
[00:19:26] Para que não
[00:19:28] Sabe, para esmagar
[00:19:30] Toda essa criatividade
[00:19:32] Porque assim, foi realmente impressionante
[00:19:34] O número de designers
[00:19:37] Artistas
[00:19:39] Indo para essa direção
[00:19:41] Eu, como editor
[00:19:43] Até, eu fico
[00:19:44] Pena que não dá para ver os livros
[00:19:47] Pelo podcast, mas assim
[00:19:48] É de uma riqueza
[00:19:49] Bota todos os links que você tiver
[00:19:51] É
[00:19:52] Pode deixar
[00:19:53] Vai mandando os links
[00:19:55] A gente bota tudo na pauta
[00:19:56] E depois o pessoal clica mesmo
[00:19:57] Porque depois quando o link está errado
[00:19:59] Eles vêm reclamar
[00:19:59] O pessoal olha mesmo
[00:20:00] Espe mladenets
[00:20:04] Moj prekrasny
[00:20:07] Pajushki baju
[00:20:13] Ticha smotrit
[00:20:17] Měsěc jasny
[00:20:19] V kalibě tvojí
[00:20:21] V kalibě tvojí
[00:20:22] Bajú
[00:20:26] Sanyuska zi
[00:20:30] Vatja skazki
[00:20:33] Piesenku
[00:20:35] Sbaju
[00:20:38] Ti stremliza
[00:20:42] Kripsi glasky
[00:20:45] Bajushki bajú
[00:20:49] Bajushki baju
[00:20:50] Bajushki baju
[00:20:50] Bajushki baju
[00:20:50] Bajushki bajú
[00:20:50] Bajushki baju
[00:20:51] Bajushki baju
[00:20:51] Eu fiquei bem
[00:20:52] Bem
[00:20:52] Bem
[00:20:52] bem interessada na parte
[00:20:55] ali, a gente está falando,
[00:20:56] a gente chegou em você, através
[00:20:58] de um artigo sobre
[00:21:00] esse assunto ali, da pesquisa, da
[00:21:02] FAPESP e tal, e você
[00:21:04] menciona, ou o texto menciona,
[00:21:06] essa coisa que você já falou também,
[00:21:09] da escrita
[00:21:10] trabalhar junto com
[00:21:12] a ilustração, das duas coisas serem
[00:21:14] feitas juntas, e não chegar um
[00:21:16] texto pronto na mão do ilustrador, toma
[00:21:18] e ilustra aí, pelo que eu
[00:21:20] entendi, como está no texto, era um trabalho
[00:21:23] realmente conjunto,
[00:21:24] e eu não sei até que ponto
[00:21:27] isso era uma novidade na época,
[00:21:29] ou se alguém mais estava fazendo uma coisa
[00:21:30] desse tipo, ou como é que era antes,
[00:21:33] como é que era esse esquema antes, por que
[00:21:34] isso é uma coisa diferente, que valeu
[00:21:36] a pena ser mencionada?
[00:21:38] Enfim, a relação do
[00:21:40] artista com o escritor, eu acho que até
[00:21:42] existia, mas não dessa forma e não
[00:21:44] na literatura infantil. Os livros
[00:21:47] que estavam saindo nesse mesmo
[00:21:48] período na Europa, eles seguiam os
[00:21:50] moldes bem mais tradicionais,
[00:21:52] capa dura, não eram livros
[00:21:54] totalmente ilustrados,
[00:21:56] não tinha uma relação tão forte
[00:21:58] entre o texto e a imagem.
[00:22:00] Em muitos livros, na verdade,
[00:22:02] a imagem é mais importante do que o texto.
[00:22:05] Eles têm, tudo que
[00:22:06] para a gente parece normal,
[00:22:08] essa configuração espacial
[00:22:11] da letra,
[00:22:12] a gente vê o título
[00:22:14] virado para cá, para lá,
[00:22:16] na diagonal, uma página
[00:22:18] em branco com o título, isso tudo não
[00:22:20] existia, gente. Os livros não eram
[00:22:22] assim, eles eram muito mais caretas.
[00:22:25] Então, nesse período, o que é
[00:22:27] impressionante é que foi
[00:22:28] se estabelecendo muito dessas
[00:22:30] características que hoje
[00:22:32] são definidoras do design editorial
[00:22:34] e do bom design editorial.
[00:22:37] E, na verdade, não é só como
[00:22:40] eles trabalhavam juntos,
[00:22:42] às vezes o ilustrador
[00:22:45] fazia ilustração antes.
[00:22:47] Então,
[00:22:48] era um negócio incrível.
[00:22:50] Assim, por exemplo,
[00:22:53] o Samuel Marchak,
[00:22:55] como eu falei, que é um grande
[00:22:56] editor soviético, ele convidou
[00:22:58] para ser, digamos, editor de arte,
[00:23:00] quando ele mesmo se tornou editor,
[00:23:03] o Marchak se tornou
[00:23:05] editor da sessão infantil,
[00:23:07] da editora estatal, da H6DAT,
[00:23:09] o Vladimir Lebedev.
[00:23:11] O Vladimir Lebedev,
[00:23:13] ele é um grande nome,
[00:23:15] ele fazia muitos daqueles cartazes
[00:23:16] soviéticos, se vocês
[00:23:18] olharem, vocês vão até reconhecer, mas,
[00:23:20] enfim, falando assim, talvez o nome não seja
[00:23:22] conhecido. Mas o Vladimir Lebedev,
[00:23:25] que foi
[00:23:26] um grande artista,
[00:23:29] um grande artista, ele fez
[00:23:31] essa parceria com o Marchak
[00:23:32] e, em várias ocasiões,
[00:23:34] o desenho veio antes.
[00:23:37] A gente tem, sei lá, um livro
[00:23:38] como O Circo, que
[00:23:40] o desenho veio antes e, depois,
[00:23:43] o Marchak entrava.
[00:23:44] E, muitas vezes, eles trabalhavam em conjunto.
[00:23:47] O Marchak podia, inclusive,
[00:23:49] adaptar o texto.
[00:23:50] Então, isso, a qualidade, o resultado
[00:23:53] dessa reunião, se vê nos livros.
[00:23:56] Vocês podem procurar
[00:23:56] Vladimir Lebedev,
[00:23:59] que escreve assim.
[00:24:01] E isso foi impressionante.
[00:24:03] Isso não existia na literatura infantil.
[00:24:05] Não existiam esses livros com essas
[00:24:07] cores, com essas… E, principalmente,
[00:24:09] que era uma linguagem muito gráfica, sabe?
[00:24:10] Com elementos, nesse momento,
[00:24:13] ainda que prevalece o
[00:24:15] construtivismo, que eram formas elementares,
[00:24:18] eram cores
[00:24:19] saturadas.
[00:24:20] Ninguém tinha visto nada assim.
[00:24:22] Tanto é que esses livros começaram
[00:24:24] a viajar pela Europa.
[00:24:27] E, já na época,
[00:24:30] os editores
[00:24:31] europeus e norte-americanos
[00:24:34] já ficaram impressionados, já na época.
[00:24:37] E continuam. Até hoje,
[00:24:38] esses livros são referência, esses livros
[00:24:40] fazem parte de acervo. Por isso que eu falei,
[00:24:42] não é uma novidade minha.
[00:24:44] Estou trazendo esses nomes,
[00:24:46] mas é um termo
[00:24:47] já consolidado, digamos,
[00:24:49] esses acervos.
[00:24:50] Os artistas. Tudo isso que eu estou falando
[00:24:52] não fui eu que descobri, não sou eu
[00:24:54] que estou considerando, porque, afinal, o que importa
[00:24:56] é o que eu considero. Realmente,
[00:24:58] é um momento muito…
[00:25:00] Como eu falei,
[00:25:02] sem igual
[00:25:03] na produção dos livros
[00:25:06] russos infantis.
[00:25:08] Era de ouro, entre aspas, de novo.
[00:25:10] A gente está na Era de Prata,
[00:25:12] mas a gente está falando de um período…
[00:25:14] Enfim.
[00:25:16] Se a gente for traçar um paralelo, no mesmo
[00:25:18] período, a gente tem
[00:25:20] aqui no Brasil
[00:25:21] a ascensão meteórica do Monteiro
[00:25:24] Lobato, que também foi
[00:25:26] durante décadas
[00:25:28] o principal expoente
[00:25:29] da literatura infantil brasileira.
[00:25:32] Talvez seja até mesmo, até hoje.
[00:25:35] Estou por fora desse mercado
[00:25:36] e não sei dizer.
[00:25:38] Então,
[00:25:39] se a gente for ver o que o Monteiro
[00:25:42] Lobato fez,
[00:25:43] vamos pular toda aquela discussão
[00:25:46] que a gente sempre tem de como ele é racista
[00:25:48] e isso e aquilo.
[00:25:49] Mas, assim, pegando a parte
[00:25:51] de temática, nos livros
[00:25:53] dele, nas histórias, você tem ali uma
[00:25:55] série de coisas que remetem a
[00:25:57] contos, que remetem a lendas
[00:25:59] antigas
[00:26:01] e coisas que
[00:26:03] já são passadas até pela
[00:26:05] própria mitologia indígena, etc.
[00:26:07] E tal. Na parte
[00:26:09] de conteúdo, do que
[00:26:11] exatamente se falava
[00:26:13] nessa
[00:26:15] produção russa da época?
[00:26:18] Então,
[00:26:19] é interessante você citar o Lobato.
[00:26:21] Lobato, sim, ele realmente foi um
[00:26:23] inovador da literatura infantil
[00:26:25] brasileira.
[00:26:27] Mas, assim, existem diferenças.
[00:26:30] Existe um grande
[00:26:31] momento, que é o modernismo.
[00:26:33] E, nesse sentido, Lobato estava
[00:26:35] integrado, o mundo
[00:26:37] estava integrado e havia uma série
[00:26:39] de experimentações também
[00:26:41] em todos os campos, como na educação.
[00:26:44] O que não existiu
[00:26:45] no Brasil nesse período, existia um
[00:26:47] Lobato também,
[00:26:49] atualizando esses contos,
[00:26:52] atualizando, eu digo,
[00:26:54] a linguagem. A linguagem
[00:26:56] era muito afastada da criança.
[00:26:59] Então, o Lobato,
[00:27:00] assim como o Tchukovsky,
[00:27:02] assim como
[00:27:03] o Marchak, eles
[00:27:06] entendiam que a literatura infantil
[00:27:08] tem que ser boa literatura, sabe?
[00:27:10] E tem que ser uma literatura que se
[00:27:12] comunica. O Tchukovsky, ainda mais
[00:27:14] ainda, ele buscava
[00:27:16] trazer o ponto de vista infantil.
[00:27:18] Então, nisso,
[00:27:19] eles podem ser comparados.
[00:27:21] Apesar do Lobato escrever, acho que, para as crianças
[00:27:23] um pouquinho mais velhas e ele tratar
[00:27:25] de prosa.
[00:27:27] Outra coisa que a gente pode pensar
[00:27:29] também é
[00:27:30] o Lobato editor.
[00:27:33] Ele foi um grande editor também.
[00:27:36] E ele teve essa preocupação
[00:27:37] formal, sabe? De fazer capas
[00:27:39] mais modernas.
[00:27:41] Mas o Lobato, ele não
[00:27:43] se dava muito bem ali com os
[00:27:45] modernistas.
[00:27:47] Enfim.
[00:27:48] Então, nesse momento
[00:27:49] no Brasil, houve
[00:27:51] grandes ilustradores
[00:27:53] vindos de
[00:27:54] jornais, sabe?
[00:27:58] Enfim, foi
[00:27:59] por um outro lugar.
[00:28:02] Mas, assim, a diferença
[00:28:04] é que na Rússia teve essa reunião
[00:28:05] com os artistas modernos.
[00:28:08] O que não aconteceu no Brasil,
[00:28:10] como eu estou te falando, não aconteceu
[00:28:11] não só no Brasil. E na Rússia tem
[00:28:14] esse… Eles estavam criando um novo
[00:28:16] país, do nada.
[00:28:18] Eles queriam começar do zero.
[00:28:20] Alguns queriam realmente
[00:28:22] começar do zero. Havia várias polêmicas
[00:28:24] na época, inclusive.
[00:28:27] Eu falei que o
[00:28:28] Marchak e o Tchukovsky, eles
[00:28:30] modernizaram os contos tradicionais,
[00:28:33] os contos populares
[00:28:34] russos, mas havia
[00:28:35] escritores e pedagogos
[00:28:38] e políticos que achavam que
[00:28:40] esses contos não serviam para nada.
[00:28:42] Então, assim, as polêmicas
[00:28:44] são ótimas.
[00:28:45] Ótimas para estudar.
[00:28:47] É ótimo.
[00:28:48] Quando você começou a falar desse negócio,
[00:28:50] eu achei, nossa, deve ter gente reclamando
[00:28:52] que foram revisitadas as histórias
[00:28:55] tradicionais, mas não.
[00:28:56] A pessoa não havia importância nenhuma,
[00:28:58] achava que não fazia sentido.
[00:28:59] Sim, uma parte
[00:29:01] como a Krupska, por exemplo,
[00:29:05] achava que esses contos,
[00:29:06] os contos tradicionais russos,
[00:29:09] os populares russos,
[00:29:11] a Babaia Há,
[00:29:12] toda essa bagagem,
[00:29:14] o Pássaro de Fogo,
[00:29:18] que é muito rico.
[00:29:20] Ah, é lindo o Pássaro de Fogo.
[00:29:22] É uma história muito legal.
[00:29:23] Mas o que aconteceu com esses contos populares russos
[00:29:26] é que eles foram reunidos,
[00:29:28] eles sempre existiram,
[00:29:30] porque eles eram passados oralmente.
[00:29:33] Mas aí, com o romantismo,
[00:29:34] no século XIX, eles foram reunidos.
[00:29:37] E eles começaram
[00:29:38] a ser anotados e coletados.
[00:29:41] Então, todas essas histórias,
[00:29:42] elas têm versões, digamos,
[00:29:44] assim. Então, depende de quem está
[00:29:46] recontando a história.
[00:29:48] E essas histórias
[00:29:51] são até hoje lidas
[00:29:52] pelos russos.
[00:29:55] Em várias versões. Você pode encontrar
[00:29:57] em vários livros. Tem os
[00:29:59] contadores mais famosos, como a
[00:30:01] Fanasiev, que é o que coletou,
[00:30:03] mas tem outros também.
[00:30:04] E você pode encontrar escritores
[00:30:07] contemporâneos falando também,
[00:30:09] fazendo uma versão nova
[00:30:10] de um conto tradicional,
[00:30:13] envolvendo,
[00:30:14] por exemplo, um pássaro de fogo,
[00:30:16] que normalmente está envolvido
[00:30:17] num outro grande
[00:30:19] enredo, envolvendo normalmente
[00:30:22] três… um tizar,
[00:30:25] uma filha,
[00:30:27] sempre um
[00:30:29] elemento mais fraco,
[00:30:30] a procura de…
[00:30:33] Enfim, tem um
[00:30:34] enredo padrão.
[00:30:36] É complexo falar sobre essa literatura
[00:30:38] popular russa, porque ela é muito
[00:30:40] rica e teve estudos de folcloristas
[00:30:42] muito interessantes e muito
[00:30:44] profundos. Então,
[00:30:47] o pássaro de fogo, ele
[00:30:48] aparece em vários,
[00:30:50] em várias histórias, entendeu?
[00:30:53] Eu só lembro do balé, gente, que é lindo.
[00:30:57] E balé tem toda a
[00:30:59] cara da Rússia, né? Então é muito possível
[00:31:01] que uma coisa já arrebenta a outra.
[00:31:03] Sim, sim, sim.
[00:31:03] E nesse caso, o figurino,
[00:31:06] o figurino é todo maravilhoso.
[00:31:09] Depois eu vou botar um link na pauta,
[00:31:11] porque vale a pena, é muito legal.
[00:31:12] E eu queria te perguntar sobre,
[00:31:14] a parte dos temas mesmo, né?
[00:31:17] Daí a gente tinha aquela questão do
[00:31:18] Lobato, que era mais voltado para
[00:31:20] as lendas,
[00:31:23] para a questão mitológica brasileira.
[00:31:25] E aí, nessa
[00:31:26] escola, basicamente,
[00:31:29] o que se tinha como temas
[00:31:30] dessa nova literatura infantil
[00:31:33] russa?
[00:31:35] Então, uma coisa interessante
[00:31:36] desse momento foi o que eu falei.
[00:31:38] Eles traziam temas
[00:31:41] mais contemporâneos.
[00:31:42] Então, eles falavam das
[00:31:44] profissões de pessoas,
[00:31:47] profissões produtivas,
[00:31:48] como eu falei, o médico,
[00:31:51] o construtor, o operário.
[00:31:53] Então, havia livros
[00:31:54] sobre profissões, havia livros
[00:31:56] sobre a produção de coisas.
[00:31:58] Por exemplo, como funciona um jornal,
[00:32:00] então, da cadeia produtiva.
[00:32:02] Então, era o que a gente chama de livros de produção,
[00:32:05] digamos. Então, esse é um tema
[00:32:06] que não existia, não se falava
[00:32:08] desse tipo de coisa nos livros infantis.
[00:32:11] Então, isso foi uma novidade.
[00:32:13] São essas mesmas pessoas,
[00:32:14] pessoas que achavam que esses contos
[00:32:15] tradicionais russos só serviam
[00:32:18] para desviar
[00:32:20] a atenção das crianças.
[00:32:22] Mas, em todo caso,
[00:32:26] esses livros
[00:32:27] desse momento dos anos 20,
[00:32:29] com essa temática,
[00:32:30] que inclusive Mayakovsky escreveu
[00:32:32] alguns livros sobre profissão,
[00:32:34] pelo menos dois,
[00:32:36] eles eram ilustrados por grandes artistas
[00:32:38] visuais construtivistas.
[00:32:40] Então, essas polêmicas
[00:32:42] já existiam, mas isso não significa que,
[00:32:44] esses livros não fossem interessantes.
[00:32:45] Eles eram interessantes.
[00:32:47] De outro lado, como eu falei,
[00:32:48] teve essa atualização desses contos populares
[00:32:52] e essa busca
[00:32:56] de uma linguagem poética
[00:32:58] mais contemporânea,
[00:33:00] mais próxima da criança de outro lado.
[00:33:02] Então, você tinha aí duas vertentes,
[00:33:04] digamos assim,
[00:33:06] acontecendo ao mesmo tempo,
[00:33:08] enquanto isso era possível.
[00:33:11] Então, essa questão
[00:33:13] da…
[00:33:14] das profissões e tal, era mais como
[00:33:16] um, sei lá, um enaltecimento
[00:33:18] do trabalhador, era isso?
[00:33:20] Sim, sim. Na verdade,
[00:33:22] todo esse momento
[00:33:23] dos anos 20,
[00:33:27] a ideia principal
[00:33:28] era a construção.
[00:33:30] E as crianças eram convidadas
[00:33:32] a construir esse mundo também.
[00:33:34] Então, tinha essa
[00:33:36] base produtiva mesmo.
[00:33:40] Mesmo na educação,
[00:33:41] tinha uma busca em aproximar
[00:33:44] tudo do ponto de vista
[00:33:46] da produção,
[00:33:48] da vida prática.
[00:33:50] Isso foi a tônica
[00:33:52] dos anos 20.
[00:33:54] Mudou muito depois, nos anos 30,
[00:33:56] meados de 30.
[00:33:57] Mas, nos anos 20, a ideia de construção
[00:34:00] é a ideia-chave
[00:34:02] para você entender esses livros.
[00:34:04] Então, por isso que tem livros explicando tudo.
[00:34:07] E também,
[00:34:08] a grande heroína
[00:34:10] desse momento,
[00:34:12] de muitos livros, é a tecnologia.
[00:34:14] É o…
[00:34:16] São os meios
[00:34:18] de locomoção. Então, às vezes,
[00:34:20] os livros, a questão não é a personagem,
[00:34:23] mas é o meio de locomoção,
[00:34:25] é o aeroplano,
[00:34:26] é a locomotiva.
[00:34:28] Então, eram livros que não eram matemática,
[00:34:30] eram livros que não existiam.
[00:34:33] Sim. A gente…
[00:34:34] Eu até, no começo do nosso
[00:34:36] papo aqui, eu falei até
[00:34:38] em literatura infanto-juvenil
[00:34:41] russa. E aqui a gente está
[00:34:42] falando de literatura infantil.
[00:34:44] Infanto-juvenil era um conceito que nem existia
[00:34:46] até o momento. Ou eu estou…
[00:34:48] Ou eu estou errado?
[00:34:50] Não, você não está errado.
[00:34:51] A ideia de…
[00:34:53] Até a ideia de adolescência,
[00:34:56] a ideia de infância, ela mudou muito.
[00:34:58] Então, se você for pensar bem,
[00:35:02] não existia essa ideia.
[00:35:05] No século XIX,
[00:35:06] as crianças eram pequeno-adultos.
[00:35:09] Não tinha
[00:35:10] essa ideia de adolescência.
[00:35:12] É muito recente.
[00:35:14] Essa visão da criança
[00:35:16] não como um mini-adulto,
[00:35:19] mas como uma coisa diferente.
[00:35:20] E o adolescente não como um jovem-adulto.
[00:35:24] É uma coisa
[00:35:24] bem recente.
[00:35:26] Que é meio assustador se você parar para pensar.
[00:35:29] Você saltava
[00:35:30] de bebê para já ter carteira de trabalho.
[00:35:33] Digamos assim.
[00:35:34] Não tinha esse espaço.
[00:35:35] Mas é que eram outros momentos.
[00:35:38] Era outro período.
[00:35:39] Sim, sim, sim.
[00:35:40] As pessoas, inclusive, viviam mesmo.
[00:35:42] Mas a passagem para a vida adulta
[00:35:44] era muito mais rápida.
[00:35:46] Mas aí, quando eu
[00:35:48] fiz essa pergunta, justamente por conta de que
[00:35:50] se a gente não tinha
[00:35:52] exatamente essa divisão,
[00:35:54] não existia de fato uma literatura
[00:35:56] infanto-juvenil russa,
[00:35:58] a gente pode considerar
[00:36:00] que essa literatura infantil aqui,
[00:36:04] até pela
[00:36:04] própria riqueza que ela tinha,
[00:36:06] que a gente já falou aqui sobre…
[00:36:08] Não era só um livro de alfabetização.
[00:36:10] Era um livro que realmente
[00:36:12] era bom em conteúdo.
[00:36:14] Era bom em história.
[00:36:16] Eles tinham esse tipo de preocupação.
[00:36:18] Então a gente pode imaginar que eles atingiam
[00:36:20] até que idade.
[00:36:22] Depende. Eu estou estudando mais os livros
[00:36:24] para criancinhas,
[00:36:26] sei lá, 4, 5, 6 anos.
[00:36:28] Mas também havia histórias
[00:36:30] para crianças mais velhas.
[00:36:32] É que esses livros ilustrados
[00:36:34] estavam mais voltados para
[00:36:36] crianças em fase de pré-alfabetização.
[00:36:39] Digamos assim.
[00:36:40] Mas havia literatura sendo feita
[00:36:42] para crianças mais velhas também.
[00:36:44] Eu que estou estudando,
[00:36:45] eu que me debrucei mais sobre essa produção.
[00:36:49] Sim.
[00:36:49] Eu fiquei curioso porque, assim,
[00:36:51] quando a gente fala nessa parte
[00:36:53] de trazer
[00:36:56] essa ideologia e esse convite
[00:36:58] à construção dessa nova
[00:37:00] geração que vai ajudar a construir
[00:37:01] junto, eu imagino que como
[00:37:04] emprego
[00:37:05] de
[00:37:06] ideologia seria até
[00:37:10] mais interessante as crianças um pouco
[00:37:12] mais velhas até.
[00:37:14] Mas, de fato, então existia.
[00:37:16] Mas isso acontecia também para as crianças
[00:37:18] mais velhas. Mas, assim, eles
[00:37:20] achavam que tinha que
[00:37:22] começar desde criancinha.
[00:37:25] Então, a criança
[00:37:26] tinha que desenvolver
[00:37:28] uma nova percepção do mundo.
[00:37:31] E os artistas
[00:37:32] desse momento, como é o Lissitz,
[00:37:34] que achavam que o livro tinha a capacidade
[00:37:36] de propiciar à criança uma nova
[00:37:38] relação com o espaço, uma nova
[00:37:40] relação com a cor.
[00:37:42] Então, eles achavam que tinha que começar com a cor.
[00:37:44] Com a base. Inclusive, foi nesse período
[00:37:46] também, logo no início, que eles criaram
[00:37:48] aquelas organizações
[00:37:49] juvenis, os pioneiros.
[00:37:54] Depois eles iam lá
[00:37:55] para a organização
[00:37:55] da juventude comunista,
[00:37:58] a Consomol.
[00:38:01] Então, assim, eles faziam
[00:38:02] um trabalho de base, mas continuavam.
[00:38:05] O que eu acho interessante
[00:38:07] nesses anos 20 é realmente
[00:38:09] essa ideia da experimentação
[00:38:11] e eles davam
[00:38:13] para a criança,
[00:38:14] a coautoria,
[00:38:16] digamos, na construção desse novo mundo.
[00:38:19] E isso aparece nos livros.
[00:38:21] Muitas vezes no livro
[00:38:23] aparece, a criança é convidada a continuar
[00:38:24] a história, a construir o mundo.
[00:38:28] Infelizmente, tudo isso
[00:38:29] desaparece depois, mas assim,
[00:38:31] nesse momento, ele
[00:38:33] traz elementos que hoje são muito
[00:38:34] atuais na educação atual.
[00:38:37] Então, isso eu acho
[00:38:38] interessante. Eu não estou querendo dizer que não
[00:38:41] havia problemas, que não foi uma época
[00:38:43] paradoxal.
[00:38:44] Mas, assim,
[00:38:45] a gente não pode negar que houve
[00:38:47] esse desenvolvimento
[00:38:50] e que eles deixaram esse legado
[00:38:52] e que isso aconteceu
[00:38:55] nesse período
[00:38:56] e na Rússia.
[00:38:58] Sim, sim.
[00:39:00] Até porque problemas
[00:39:01] são parte do aprendizado. Eles estão fazendo
[00:39:03] um negócio que nunca havia sido feito
[00:39:05] até então.
[00:39:06] Era de se esperar que tivesse
[00:39:09] falhas.
[00:39:11] Não, havia muitas questões,
[00:39:12] como essa mesmo.
[00:39:14] Você não pode deixar
[00:39:15] toda uma tradição
[00:39:19] dos contos tradicionais para trás.
[00:39:22] Então, assim, é evidente
[00:39:24] que não era assim
[00:39:26] e que nem todo mundo concordava
[00:39:28] com isso. Inclusive, Mayakovsky não concordava
[00:39:30] com isso, o Bork não concordava com isso.
[00:39:32] Mas,
[00:39:34] essas discussões existiam.
[00:39:36] Mas, assim, o interessante é que
[00:39:37] nos anos 20 elas podiam
[00:39:39] existir ainda. Porque
[00:39:41] depois, nos anos 30,
[00:39:44] de 1935 em diante,
[00:39:45] principalmente de 1937 em diante,
[00:39:48] teve uma centralização, uma concentração
[00:39:50] de tudo, em todas
[00:39:52] as esferas. Então, esse elemento
[00:39:54] mais experimental,
[00:39:56] essa busca da construção,
[00:39:58] esse convite
[00:40:00] à criança, ele não
[00:40:01] existe nos meados dos anos
[00:40:04] 30 para frente. Então, aí
[00:40:06] é desenvolvido um outro tipo
[00:40:07] de literatura.
[00:40:14] E, assim,
[00:40:34] na literatura
[00:40:36] infantil anterior a isso,
[00:40:39] até por conta do próprio
[00:40:40] czarismo, a gente tinha uma série
[00:40:42] de contos,
[00:40:44] a gente ainda tinha uma série de coisas que
[00:40:45] eram permeadas pela
[00:40:48] história de princesa.
[00:40:50] Era quase aquela história Disney
[00:40:52] mesmo, de príncipes, princesas
[00:40:54] e cenários idílicos
[00:40:56] que remetiam a uma certa monarquia.
[00:40:59] Como é que
[00:40:59] esse tipo de tradição
[00:41:02] anterior foi encarada?
[00:41:04] Eles simplesmente rejeitavam
[00:41:06] ou eles tentaram de alguma
[00:41:08] forma repaginar isso?
[00:41:10] Não, não podia.
[00:41:11] Veja, como eu falei,
[00:41:13] havia…
[00:41:13] Havia certa liberdade, mas, assim,
[00:41:17] ninguém mais escrevia
[00:41:18] sobre czares,
[00:41:20] czarinas…
[00:41:22] Nem se fosse para colocar eles como vilões?
[00:41:25] Era melhor negar a existência?
[00:41:28] Não, pode ser,
[00:41:29] mas, assim, agora
[00:41:31] os novos heróis são os
[00:41:32] carteiros, são os
[00:41:34] marceneiros,
[00:41:36] são as crianças pioneiras,
[00:41:39] pioneiras
[00:41:40] ligadas à organização,
[00:41:43] esse nome.
[00:41:43] Estou falando do adjetivo.
[00:41:47] Então, essa literatura
[00:41:49] realmente foi muito criticada.
[00:41:52] Então, assim,
[00:41:53] não se fazia mais.
[00:41:54] Mas, assim, o czar, a czarina,
[00:41:56] como eu falei, fazia parte também
[00:41:58] desses contos tradicionais.
[00:41:59] Não dá para você eliminar.
[00:42:01] Que a gente chama até de escasca.
[00:42:05] É o termo que se dá
[00:42:06] a esses contos tradicionais.
[00:42:08] Então, eles
[00:42:09] voltaram nos anos 30,
[00:42:12] como eu falei, a várias versões,
[00:42:13] versões das mesmas histórias
[00:42:15] que continuam sendo lidas e continuam
[00:42:17] sendo editadas. Não tem como
[00:42:19] eliminar isso. Então, normalmente,
[00:42:21] o Pássaro de Fogo, ele liberava uma
[00:42:23] pena e o filho mais
[00:42:25] novo do czar, normalmente,
[00:42:27] tinha que ir em busca delas,
[00:42:29] como eu falei, tinha versões, enredos fixos,
[00:42:31] né? E ele acabava chegando
[00:42:33] na princesa.
[00:42:36] Não é isso
[00:42:38] que eles estavam escrevendo
[00:42:39] nos anos 20, mas a Rússia
[00:42:41] não pode abrir mão de toda essa tradição,
[00:42:43] também, né? Não tem como.
[00:42:46] Apesar dos contos populares,
[00:42:47] também tem contos de animais,
[00:42:49] enfim. Como eu falei,
[00:42:51] é uma temática meio complexa.
[00:42:54] Eu comecei a gaguejar,
[00:42:55] porque, assim, é muita coisa.
[00:42:57] Teria que fazer um programa
[00:42:59] só sobre conto tradicional
[00:43:01] popular russo. Mas, assim,
[00:43:03] nesse momento, realmente, não era
[00:43:05] o que os pedagogos e os escritores
[00:43:07] estavam buscando fazer. Falar a história
[00:43:09] de czar, realmente. Isso ficou
[00:43:11] para trás, nesse momento, não.
[00:43:13] Então, mesmo o
[00:43:15] Harms, que não tinha
[00:43:17] essa maligação, não estava
[00:43:19] comprometido com a ideia
[00:43:21] de construção de um novo país, ele também
[00:43:23] não podia colocar lá
[00:43:24] czares e czarinas.
[00:43:27] Agora, os personagens deles eram
[00:43:29] as crianças pioneiras,
[00:43:31] esses jovens comunistas.
[00:43:34] Então, os personagens
[00:43:35] mudaram, os temas
[00:43:37] mudaram. Agora,
[00:43:39] também não podia
[00:43:41] haver religião, os feriados religiosos,
[00:43:43] eles foram substituídos pelo
[00:43:45] 1º de maio,
[00:43:47] pelo aniversário
[00:43:50] da Revolução.
[00:43:51] Então, realmente, é uma sociedade
[00:43:53] que estava se criando inteiramente.
[00:43:56] É uma situação
[00:43:57] que é difícil
[00:43:59] existir, se começar um país do nada.
[00:44:02] Então, eles estavam fazendo tudo
[00:44:03] de novo. É claro que
[00:44:05] esses artistas, eles vieram,
[00:44:08] estavam já
[00:44:09] produzindo antes disso.
[00:44:11] Então, eles trouxeram
[00:44:12] toda a bagagem dele.
[00:44:14] Inclusive, as vanguardas, elas não nascem nos anos 20.
[00:44:17] Elas já tinham nascido.
[00:44:18] Os grandes conceitos já tinham existido.
[00:44:22] O Harmes,
[00:44:23] ele vem dos anos 20,
[00:44:25] mas o Markovs, os anos 10.
[00:44:27] Todo mundo já tinha feito
[00:44:29] grandes descobertas e grandes
[00:44:31] buscas e deixado grandes trabalhos.
[00:44:33] Mas, depois,
[00:44:35] como isso se conformou
[00:44:37] nas páginas desses
[00:44:39] livrinhos infantis,
[00:44:40] coloridos, feitos,
[00:44:42] litografia?
[00:44:44] Eu não sei se eu respondi, eu me perdi inteiramente.
[00:44:47] Não, não tem problema.
[00:44:48] Eu achei isso muito curioso.
[00:44:50] Porque, realmente, é todo
[00:44:52] um novo paradigma que eles vão
[00:44:54] descobrindo como é que faz
[00:44:56] à medida que vão fazendo.
[00:44:58] E era justamente sobre
[00:45:00] aquela questão que você falou ali,
[00:45:02] que eu já ia perguntar também, de como foi encarada
[00:45:04] a parte de religião
[00:45:06] e de, assim, como você tem
[00:45:08] esse enaltecimento de
[00:45:10] trabalhadores de base e tal,
[00:45:12] um trabalhador de base que teve
[00:45:14] bastante
[00:45:15] evidência durante
[00:45:18] todo esse período, até por tudo
[00:45:19] que aconteceu na Rússia desses períodos,
[00:45:22] com guerra civil, guerra contra o Japão,
[00:45:24] Primeira Guerra Mundial, etc.
[00:45:25] É o próprio soldado.
[00:45:28] Então, eu ia até te perguntar se
[00:45:29] tinha algum tipo de narrativa
[00:45:32] bélica.
[00:45:34] Isso, de alguma forma, era
[00:45:35] como a gente tinha
[00:45:38] um pouco posterior,
[00:45:39] claro, essa divisão
[00:45:41] dentro do Partido Comunista, entre os
[00:45:43] internacionalistas e o pessoal que
[00:45:45] preferia
[00:45:47] consolidar a Revolução dentro da
[00:45:49] própria União Soviética. Isso era
[00:45:51] possível de se perceber
[00:45:53] em alguma entrelinha desses trabalhos?
[00:45:57] Não, porque
[00:45:57] era tudo muito visível nesses trabalhos.
[00:45:59] Nesse momento, o internacionalismo estava
[00:46:01] em voga. Então, isso é
[00:46:03] totalmente perceptível.
[00:46:05] A guerra civil era um tema.
[00:46:10] Nos anos 20,
[00:46:11] sim, depois deixou de ser, como você mesmo
[00:46:13] falou.
[00:46:16] Esses temas,
[00:46:18] a guerra civil, o internacionalismo,
[00:46:20] sempre a questão de
[00:46:21] várias nações e
[00:46:23] do comunismo ser uma coisa
[00:46:25] que reunisse
[00:46:28] várias nações,
[00:46:29] isso é uma coisa que estava mais presente nos anos 20,
[00:46:31] mas não mais nos anos
[00:46:33] 30 e 40.
[00:46:34] Tinha muito mais um
[00:46:37] nacionalismo forte.
[00:46:40] Era a União Soviética e
[00:46:41] seus grandes feitos.
[00:46:44] Enfim, entrou
[00:46:45] uma outra estética, uma nova
[00:46:47] temática, uma nova
[00:46:49] abordagem. Mas, nos anos 20,
[00:46:52] tudo o que você falou
[00:46:53] eram temas presentes.
[00:46:55] Os pioneiros estavam sempre marchando
[00:46:57] e eram temas presentes.
[00:46:59] Tudo isso era perceptível em vários
[00:47:02] livros, era perceptível
[00:47:04] nos cartazes,
[00:47:06] com armas, era perceptível
[00:47:08] nas revistas infantis, que também
[00:47:10] proliferaram nesse momento.
[00:47:11] Então, era a temática
[00:47:13] do momento mesmo.
[00:47:15] Além desses livros de construção,
[00:47:17] eu estou falando… Existiam alguns
[00:47:19] tipos de livro. Os livros
[00:47:21] construtivistas falavam dessa
[00:47:23] coisa da vida prática,
[00:47:26] de como as coisas são
[00:47:27] criadas, produzidas, vendidas.
[00:47:30] Mas também havia outros
[00:47:31] livros. O livro Primeiro de Maio,
[00:47:34] havia canções de Ninar
[00:47:35] em todas as línguas,
[00:47:37] havia livros buscando
[00:47:40] essa união internacional,
[00:47:41] mesmo, do comunismo. Então, havia
[00:47:43] tudo isso, havia tudo ao mesmo tempo.
[00:47:46] Por isso que eu falo, os anos
[00:47:47] 20 são
[00:47:49] um período
[00:47:52] interessante, porque
[00:47:53] havia uma coexistência
[00:47:55] de estilos, de temáticas,
[00:47:58] depois que a coisa
[00:47:59] começou a se unificar demais.
[00:48:02] E aí, a possibilidade
[00:48:04] de experimentação
[00:48:05] deixou de existir.
[00:48:09] Então…
[00:48:10] E como é que…
[00:48:11] Como que foi esse fim da autorização
[00:48:13] para inovar e fazer esse tipo
[00:48:17] de coisa? Como é que foi
[00:48:18] essa passagem?
[00:48:21] Você está falando da época
[00:48:23] do Stalin, quando ele começou a ganhar o poder?
[00:48:25] É, exato. Mas como é que
[00:48:27] foi o negócio? Foi uma
[00:48:29] canetada? Foi aos poucos?
[00:48:32] Teve um departamento
[00:48:33] responsável por
[00:48:35] acabar com isso? Como é que foi?
[00:48:36] Tinha um departamento de censura
[00:48:39] forte que foi se fortalecendo,
[00:48:41] o número de censores aumentou
[00:48:44] muito. Os censores
[00:48:46] que antes estavam ligados à literatura
[00:48:48] de alguma forma, nos anos
[00:48:49] meados, de 30 para frente,
[00:48:52] eles passaram a ser
[00:48:53] censores burocratas mesmo, não necessariamente
[00:48:55] ligados à literatura.
[00:48:58] Aí teve a criação
[00:48:59] dessas uniões soviéticas
[00:49:01] dos escritores, ou seja, agora
[00:49:03] tudo tinha que ser
[00:49:05] uma associação só, ou seja, as outras
[00:49:07] deixaram de existir.
[00:49:09] Isso também aconteceu,
[00:49:11] do ponto de vista da…
[00:49:13] Em todos, tinha associações dos
[00:49:15] pintores também.
[00:49:17] O direcionamento geral
[00:49:19] dos anos 30 e 40
[00:49:21] era a centralização.
[00:49:24] Desde que
[00:49:25] o Stalin, a posição de secretário
[00:49:27] geral, ganhou
[00:49:29] uma posição mais forte, isso foi
[00:49:31] se fortalecendo. Mas assim,
[00:49:33] foi uma série de medidas,
[00:49:35] uma série de
[00:49:37] associações que foram sendo criadas
[00:49:39] até que chegou a um ponto
[00:49:41] em que qualquer
[00:49:42] possibilidade de qualquer
[00:49:45] criação de linguagem mais
[00:49:47] moderna, não
[00:49:48] naturalista,
[00:49:51] foi criticada e levando
[00:49:53] muitos de seus autores à morte,
[00:49:55] à prisão, à imigração.
[00:49:57] Então, o problema é que
[00:50:00] começou a ser muito
[00:50:01] complicado você fazer essa arte
[00:50:03] mais experimental.
[00:50:05] Então, todos eles foram taxados de um nome
[00:50:07] genérico chamado de formalistas.
[00:50:10] E é muito curioso,
[00:50:11] porque muitos desses
[00:50:13] estavam totalmente aliados
[00:50:14] à ideia da Revolução
[00:50:17] e, mesmo assim, muitos
[00:50:19] foram criticados e
[00:50:21] punidos. Alguns conseguiram
[00:50:23] continuar trabalhando, como o próprio
[00:50:25] Lebedev,
[00:50:26] mas ele mudou completamente
[00:50:29] de estilo. Ele era
[00:50:31] o grande nome desses
[00:50:33] livros infantis e dessas…
[00:50:35] Sabe? Era o grande
[00:50:37] Lebedev. E ele foi um dos livros
[00:50:39] que hoje o
[00:50:41] consagram. Eles foram muito
[00:50:43] criticados. O que significa isso?
[00:50:45] Que alguém escrevia um artigo no
[00:50:47] Právida, entendeu?
[00:50:48] Era por aí que acontecia.
[00:50:51] Ou eles iam em
[00:50:53] congressos e havia uma comunicação
[00:50:55] e você podia ser muito
[00:50:57] criticado, só que nesse momento isso era um perigo
[00:50:59] de vida. Então, assim,
[00:51:01] houve momentos bem específicos,
[00:51:03] como o ano de
[00:51:05] 1932, a união dos escritores
[00:51:07] soviéticos, depois o ano
[00:51:09] de 1934, que, enfim,
[00:51:11] que teve o primeiro congresso. Então, tem
[00:51:13] esses marcos, sabe?
[00:51:15] Mas, de forma geral, é isso que aconteceu.
[00:51:17] Foi uma centralização de tudo.
[00:51:19] Todas as associações tinham que ser
[00:51:20] unificadas. As editoras
[00:51:23] estatais começaram a se unificar.
[00:51:25] O país começou a se unificar,
[00:51:27] a centralizar o poder. Por isso que o
[00:51:29] internacionalismo ficou para trás.
[00:51:31] E, nesse momento, não havia
[00:51:33] mais espaço para
[00:51:34] esse tipo de criação. Nem para
[00:51:37] esses livros construtivistas que eu estou
[00:51:39] falando, que estavam…
[00:51:40] Como eu falei, estavam alinhados à ideia da
[00:51:43] construção de um novo país, mas
[00:51:44] muitos desses
[00:51:46] artistas não podiam
[00:51:49] mais fazer esse tipo de arte.
[00:51:51] Não tinha mais
[00:51:53] espaço nesse momento.
[00:51:55] Muitos caíram também em esquecimento,
[00:51:57] enfim. Cada caso
[00:51:59] aí é um caso, né?
[00:52:02] Eu imagino
[00:52:03] até que, assim, quando a gente
[00:52:05] fala em literatura, claro que
[00:52:06] estamos falando de uma
[00:52:09] arte, e a arte, ela
[00:52:10] em certa medida, ela
[00:52:13] demanda a sua liberdade
[00:52:14] criativa, né? Então,
[00:52:17] por parte de
[00:52:18] outros escritores, ou por parte de, sei lá,
[00:52:22] seus
[00:52:23] pares em países vizinhos,
[00:52:25] coisas assim, eles eram bem
[00:52:27] vistos por estar fazendo um trabalho tão
[00:52:29] próximo do governo?
[00:52:30] Com relação mais aos autores
[00:52:33] mesmo. Existia
[00:52:35] alguma forma… Eles eram
[00:52:37] bem vistos, ou
[00:52:39] existia algum tipo de receio
[00:52:41] com relação à arte que eles estavam
[00:52:43] fazendo? A gente já falou aqui sobre
[00:52:44] as questões estéticas e tal,
[00:52:47] né, da literatura
[00:52:48] desse período, mas
[00:52:51] entretanto, a gente
[00:52:53] tem toda essa questão de que a
[00:52:55] União dos Escritores Soviéticos teve que
[00:52:57] se moldar algumas diretrizes,
[00:52:59] né, de escrita.
[00:53:00] Eu estava falando do Puan, exatamente.
[00:53:02] A escola de Marchak…
[00:53:04] Que época você está falando? Porque, assim, a escola de Marchak,
[00:53:07] desde que ela foi criada, sei lá,
[00:53:09] a gente chama de escola de Marchak, esse grupo
[00:53:11] de escritores que ficaram ao redor dele
[00:53:13] e artistas visuais também,
[00:53:15] eles eram criticados desde sempre.
[00:53:18] Só que a crítica
[00:53:19] do início dos anos 20, final
[00:53:21] dos anos 20, eles eram criticados, ou seja,
[00:53:23] escreviam em artigos contra
[00:53:25] o Harms, contra o Wiedensky, que é o melhor
[00:53:27] amigo do Harms e tal. Mas,
[00:53:29] assim, essa crítica ainda não tinha o poder
[00:53:31] de morte
[00:53:33] mesmo, desculpa falar, mas era isso.
[00:53:36] Que aconteceu
[00:53:37] em 37 e diante.
[00:53:39] Então, assim,
[00:53:41] a relação do governo
[00:53:43] com cada escritor variava muito.
[00:53:46] Se eu não me engano, foi em 34,
[00:53:47] a diretriz mesmo,
[00:53:49] que começou a padronizar
[00:53:51] a forma como eram escritas
[00:53:53] essas peças, certo?
[00:53:56] Sim, o que aconteceu
[00:53:57] foi que, a partir de
[00:53:59] 1934,
[00:54:01] criou-se uma estética oficial
[00:54:03] no país.
[00:54:05] Chamou o realismo socialista.
[00:54:06] Mas, gente, isso não significa que
[00:54:08] os escritores desapareceram da Rússia,
[00:54:11] que não havia gente talentosa.
[00:54:13] Então, a gente vai ter que…
[00:54:14] Assim, era muito difícil produzir nesse
[00:54:16] momento, mas, assim, a gente vai ter que ver
[00:54:18] caso a caso. Por exemplo, os livros
[00:54:21] do Mayakovsky, que eram dos anos 20,
[00:54:23] alguns livros sobre profissão,
[00:54:25] por exemplo, inclusive tem
[00:54:27] até tradução em português,
[00:54:29] eles saíram de moda.
[00:54:31] Mas o Mayakovsky sempre foi
[00:54:32] uma figura importante,
[00:54:35] cuja imagem foi enaltecida
[00:54:37] pelo governo.
[00:54:38] O Samuel Marchak,
[00:54:41] ele era um protegido
[00:54:43] do Gorky, que era uma figura
[00:54:45] muito importante
[00:54:46] nesse início da União Soviética, ele morre
[00:54:49] acho que em 1936,
[00:54:51] ele também conseguiu
[00:54:53] continuar produzindo.
[00:54:55] Ele era uma pessoa influente,
[00:54:57] mas esses poemas
[00:54:59] que são conhecidos
[00:55:01] hoje, essa linguagem
[00:55:03] mais interessante, ele deixou de fazer,
[00:55:06] ele começou a trabalhar mais como
[00:55:07] tradutor.
[00:55:08] Tchukovsky, basicamente, também,
[00:55:11] esses grandes, os contos, os poemas
[00:55:13] mais conhecidos, ele escreveu
[00:55:16] no início dos 20, até 25,
[00:55:18] 26, depois ele também
[00:55:20] abandona isso, ele era um grande
[00:55:22] crítico literário também.
[00:55:24] Então, cada caso é um caso.
[00:55:25] Aí tinham os escritores, obviamente,
[00:55:27] mais ligados ao partido, mais ligados
[00:55:29] à ideologia, e conseguiam produzir.
[00:55:32] Era bem complexo, assim, a história.
[00:55:34] Então, falar genericamente é difícil,
[00:55:36] vai depender. Cada caso é um caso.
[00:55:38] Aí tinham os casos trágicos também.
[00:55:41] Por exemplo, do Daniel Harms,
[00:55:43] do Wediensky, o melhor amigo dele,
[00:55:45] esses tiveram um fim muito cruel.
[00:55:47] Morreram precocemente,
[00:55:49] enfim, foram presos.
[00:55:51] E vários designers também,
[00:55:53] pintores, por serem
[00:55:55] taxados de contra-revolucionários,
[00:55:58] enfim. Foi complicado.
[00:56:00] Foi complicado.
[00:56:01] Certo. Por que
[00:56:03] essas obras são tão pouco
[00:56:05] conhecidas no Brasil? Você falou
[00:56:07] que na Europa fizeram sucessão,
[00:56:10] o pessoal se interessou,
[00:56:11] porque era uma parada diferente e tal.
[00:56:13] Por que no Brasil não tem
[00:56:14] muito isso?
[00:56:17] Olha, não sei. De forma geral, a literatura
[00:56:19] russa infantil do Brasil não é muito
[00:56:21] conhecida. Em geral.
[00:56:23] Não é só esse período.
[00:56:25] Em geral.
[00:56:27] Porque, não sei.
[00:56:29] Não sei por quê.
[00:56:31] Não sei.
[00:56:33] Será que é muito distante, assim,
[00:56:35] em termos culturais? Talvez não, porque a gente,
[00:56:37] a gente consome coisas
[00:56:39] de muitas coisas americanas
[00:56:42] e europeias que a gente
[00:56:44] se acha super ocidental no Brasil
[00:56:45] e esquece que a gente é ocidentalizado, né?
[00:56:47] Não é exatamente ocidental.
[00:56:49] E acaba consumindo muita coisa de fora também.
[00:56:51] Coisas que são completamente fora da nossa realidade.
[00:56:54] Basta pensar no tanto de príncipe,
[00:56:55] princesa, rei, rainha que a gente,
[00:56:58] que toda criança brasileira adora
[00:56:59] por motivos de Disney e que
[00:57:01] não tem nada a ver com
[00:57:02] a nossa realidade mesmo. Então,
[00:57:05] eu não sei explicar. Eu não tenho
[00:57:06] essa curiosidade mesmo.
[00:57:07] Porque é uma coisa tão rica,
[00:57:10] tão vasta, né? E tão interessante.
[00:57:12] Seria muito legal ter
[00:57:13] essa diversidade, né?
[00:57:15] E é triste que seja
[00:57:17] ignorado pelo mercado.
[00:57:20] Enfim.
[00:57:20] Realmente, pouca coisa foi publicada
[00:57:23] na área de literatura russa infantil.
[00:57:26] A gente tem a presença
[00:57:28] da Belinck, da Tatiana Belinck,
[00:57:30] que teria feito 100 anos
[00:57:31] em 2019,
[00:57:33] que a gente pode considerar
[00:57:36] a grande difusora dessa literatura,
[00:57:37] da literatura russa infantil juvenil.
[00:57:39] Mas, enfim, mas mesmo assim,
[00:57:41] é uma área muito
[00:57:43] pouco explorada mesmo,
[00:57:45] do ponto de vista editorial
[00:57:46] e do ponto de vista acadêmico.
[00:57:49] Das duas maneiras,
[00:57:51] é uma área pouco explorada.
[00:57:54] E…
[00:57:55] Eu não sei dizer o porquê.
[00:57:58] Eu também…
[00:57:59] Agora é chato eu ficar falando
[00:58:00] da minha própria editora, mas assim,
[00:58:03] a gente está tentando trazer também…
[00:58:05] É chato, né?
[00:58:07] Não, não é chato, não.
[00:58:08] O nome técnico é Jabá.
[00:58:10] Pode mandar ver.
[00:58:11] Eu falo porque a gente tem realmente
[00:58:13] uma coleção de literatura russa infantil juvenil
[00:58:17] na editora que se chama Bela.
[00:58:21] E aí a gente tem…
[00:58:22] A gente trouxe alguma coisa.
[00:58:24] A gente tem uma antologia de contos russos,
[00:58:27] que daí a gente pega
[00:58:28] o período anterior,
[00:58:30] a Revolução.
[00:58:33] A gente tem…
[00:58:35] Eu criei uma espécie de panorama,
[00:58:37] vai desde a Catarina II,
[00:58:40] que curiosamente é considerada
[00:58:42] a primeira escritora
[00:58:43] para crianças.
[00:58:46] Eu achei sensacional isso.
[00:58:48] E aí vai até o Raros.
[00:58:50] Eu achei fantástico.
[00:58:51] Então tem essa coletânea
[00:58:53] que tenta, de alguma forma,
[00:58:56] suprir um pouco
[00:58:57] essa lacuna, mas é tudo muito…
[00:59:01] Ainda precisa
[00:59:02] de muito mais, né?
[00:59:03] E a gente tem trazido também
[00:59:05] um pouco dessas…
[00:59:07] Dessa literatura infantil
[00:59:09] dos anos 20.
[00:59:11] Então, obviamente, que tudo isso está sendo ligado
[00:59:13] à minha pesquisa. Eu não posso editar,
[00:59:15] mas eu consigo organizar,
[00:59:18] escrever, e isso eu posso.
[00:59:20] Então a gente tem trazido.
[00:59:21] A gente trouxe livros da Vera Molaiva,
[00:59:24] que foi uma grande
[00:59:25] artista de vanguarda.
[00:59:27] Ela foi pintora, ela foi pedagoga,
[00:59:29] ela foi o braço direito de Casimir Malhevich,
[00:59:32] que criou o suprematismo.
[00:59:35] E ela deixou
[00:59:37] muitos livros para as crianças
[00:59:39] e com uma linguagem
[00:59:41] muito interessante.
[00:59:43] Ela misturava suprematismo com
[00:59:45] cubismo, com futurismo.
[00:59:47] Enfim, ela misturava uma série
[00:59:49] de estilos que…
[00:59:52] Uma série de tendências
[00:59:53] ela concentrou
[00:59:55] e expôs da sua maneira.
[00:59:57] Cada livro dela é único. Então a gente trouxe um livro dela
[00:59:59] para crianças, o Cachorrinhos,
[01:00:01] que é para criancinhas
[01:00:02] de 3, 4 anos.
[01:00:05] E a gente trouxe… Aquele que tem a capa no…
[01:00:07] Lindo, lindo, lindo.
[01:00:09] Que é linda, linda, sim. É lindíssima.
[01:00:11] É muito bonito esse livro. Os trabalhos dela…
[01:00:13] Eu sou muito
[01:00:15] admiradora da Vera Molaiva
[01:00:17] pelo todo o percurso dela.
[01:00:19] Ela foi uma
[01:00:21] mulher impressionante, porque ela
[01:00:23] sofreu uma queda de um cavalo
[01:00:24] quando ela era pequena.
[01:00:27] Ela perdeu o movimento das pernas.
[01:00:29] Mas assim…
[01:00:30] De uma vivacidade,
[01:00:34] ela fez parte de
[01:00:35] vários grupos
[01:00:37] de vanguarda. Ela mesma organizou
[01:00:39] um grupo muito interessante
[01:00:41] que se chama, por exemplo, Hoje,
[01:00:43] que eles faziam o que a gente entende hoje
[01:00:45] por livro de artista, com tiragens
[01:00:47] muito pequenas, já pensando
[01:00:49] um livro como um todo.
[01:00:51] Depois ela trabalhou… Ela era o braço
[01:00:53] direito de
[01:00:54] Malheb, de Como Eu Falei.
[01:00:57] Ela dava aula,
[01:00:59] dava aula sobre cor, ela ilustrava
[01:01:01] livros para adultos, livros para criança.
[01:01:03] Esse ela ilustrou e escreveu.
[01:01:06] Então o fim dela foi
[01:01:07] muito triste. Ela acabou sendo
[01:01:09] presa justamente por
[01:01:11] praticar esse tipo de arte
[01:01:13] e, enfim,
[01:01:16] foi presa e morreu
[01:01:17] num campo de prisioneiro.
[01:01:19] Mas até aí
[01:01:21] ela produziu muito.
[01:01:23] Então ela deixou livros importantes.
[01:01:26] Ela é uma dos nomes
[01:01:27] mais representativos desse
[01:01:29] período todo que eu estou falando. E um deles
[01:01:31] é esse Cachorrinhos.
[01:01:33] A história é muito simples,
[01:01:34] que é a história de um…
[01:01:37] menino que vai numa exposição de cachorros
[01:01:39] e quer desenhar todos num caderninho
[01:01:41] e aí eles começam a aumentar
[01:01:42] em progressão geométrica.
[01:01:45] Então cada página vai aumentando o número
[01:01:47] de cachorros até que eles não
[01:01:49] sabem mais na página.
[01:01:52] Que coisa!
[01:01:52] E aí no fim, assim, cada cachorro
[01:01:55] tem uma expressão, mas no fim você vê
[01:01:57] uma composição visual quando eles são muitos.
[01:02:00] Então essa
[01:02:01] simplicidade também é uma marca
[01:02:03] desse período. Então esse é um
[01:02:05] livro que a gente trouxe.
[01:02:07] Outro livro foi o livro
[01:02:09] da Wisterenberg,
[01:02:12] que daí já é mais
[01:02:13] forte na Escola de Moscou, que ele fez
[01:02:15] um… Naturezas Mortas
[01:02:17] para Crianças.
[01:02:19] Então, enfim, a gente está
[01:02:21] trazendo devagarinho.
[01:02:23] Outras editoras também têm
[01:02:25] alguma coisa de literatura russa infantil
[01:02:27] e os contos populares
[01:02:29] isso é mais fácil encontrar. Mas de
[01:02:31] forma geral é
[01:02:32] um pouquinho. Está indo devagarinho,
[01:02:35] mas vamos lá.
[01:02:37] Realmente é uma lacuna.
[01:02:40] E Daniela, sobre
[01:02:41] a escola
[01:02:44] do
[01:02:45] Marchak, por mais
[01:02:47] que depois ela
[01:02:49] tenha acabado entrando
[01:02:51] numa linha diferente, justamente
[01:02:53] por conta de como
[01:02:55] o partido começou a interferir
[01:02:57] na linguagem e tudo mais.
[01:03:00] Mas assim,
[01:03:00] o trabalho que havia sido feito
[01:03:03] nesses anos 20, assim, que foi
[01:03:05] o auge, o
[01:03:07] ápice do negócio, ele acabou
[01:03:09] sei lá, caindo
[01:03:11] em… Sendo relegado,
[01:03:13] caindo em esquecimento e depois
[01:03:15] foi reavivado? Ou como é
[01:03:17] que o período soviético continuou
[01:03:19] trabalhando essas obras desse período?
[01:03:22] Então vai variar.
[01:03:24] Os escritórios,
[01:03:25] alguns foram realmente afastados,
[01:03:27] mas isso não significava
[01:03:29] que as obras não continuavam sendo
[01:03:31] editadas. Então, cada
[01:03:33] obra vai ter o seu percurso.
[01:03:35] Então, sei lá, tem a obra,
[01:03:37] a obra muito conhecida do Tchokovsky,
[01:03:39] A Crocodilo,
[01:03:41] ele sofreu muitas
[01:03:43] críticas e aí, por um
[01:03:45] tempo, ele foi retirado
[01:03:47] das bibliotecas, mas depois voltou.
[01:03:50] Então, vai depender muito.
[01:03:52] De forma geral,
[01:03:53] essas obras, elas foram
[01:03:55] redescobertas depois, mas assim,
[01:03:57] muitas continuaram sendo editadas.
[01:04:00] Como eu falei,
[01:04:01] vai depender da obra.
[01:04:03] Mesmo que eles tivessem parado
[01:04:05] de escrever, mesmo que muitos tivessem
[01:04:07] se afastado, mesmo que muitos já estivessem
[01:04:09] na imigração, as obras podiam
[01:04:11] continuar sendo editadas.
[01:04:13] Vai depender. Algumas não mais,
[01:04:15] mas algumas sim. As obras
[01:04:17] do Mayakovsky, por exemplo,
[01:04:19] como o que saiu aqui é
[01:04:20] O Que Eu Quero Ser Quando Crescer,
[01:04:22] que é uma obra, que é um poema que vai falando de várias
[01:04:24] profissões, que a criança está em dúvida
[01:04:27] o que ela sei.
[01:04:30] Ela, por exemplo,
[01:04:30] ela saiu a primeira vez com uma roupagem
[01:04:33] muito mais
[01:04:34] ao livro, a feição do livro,
[01:04:37] muito mais moderna,
[01:04:38] a capa era só com
[01:04:41] cifras e
[01:04:43] só com
[01:04:44] tipos, caracteres,
[01:04:47] o que é muito atual.
[01:04:49] Mas depois ela foi ganhando
[01:04:50] roupagens mais tradicionais.
[01:04:53] Então isso acontecia, a obra
[01:04:54] ia mudando de cara,
[01:04:57] digamos. Então os traços
[01:04:59] iam ficando mais
[01:05:00] figurativos, mais naturalistas.
[01:05:03] Então é interessante você ver
[01:05:04] esse percurso.
[01:05:05] Depois muda também,
[01:05:07] depois da morte de Stalin muda, tem
[01:05:09] uma nova geração também importante
[01:05:11] depois. E vários temas
[01:05:13] vão acontecendo ao longo desse período.
[01:05:15] Eu estou estudando só os anos 20 e 30,
[01:05:18] mas assim, não é que a literatura
[01:05:20] russa parou de existir,
[01:05:21] ela continua, continua até hoje.
[01:05:24] Mas como as obras
[01:05:25] é assim, vai depender,
[01:05:28] mas hoje elas estão aí fortes.
[01:05:30] Não todos os nomes
[01:05:32] são tão fortes. Então,
[01:05:33] como eu falei, o Tchukovsky é muito forte,
[01:05:35] é o escritor mais vendido,
[01:05:37] vende mais até que esses escritores ingleses.
[01:05:40] O Marchak é forte.
[01:05:42] O Daniel Harms, ele é
[01:05:43] editado, é uma linguagem muito
[01:05:45] interessante, mas sei lá, não é o mais vendido.
[01:05:48] Mas assim, existe.
[01:05:51] Os pais
[01:05:51] mais alternativos vão procurar.
[01:05:54] Então assim, existe.
[01:05:55] Hoje em dia existe tudo.
[01:05:57] Não sei como vai ser agora, mas assim,
[01:06:00] até então existia.
[01:06:03] Que coisa a gente tem que pensar
[01:06:05] enquanto a coisa muda,
[01:06:07] quando acontece
[01:06:09] um grande evento
[01:06:11] político, tem uma mudança
[01:06:13] de pensamento
[01:06:15] predominante, e aí muda
[01:06:18] tudo até o livro que o seu filho
[01:06:19] tem acesso para ler.
[01:06:21] É meio assustador pensar
[01:06:23] essas coisas. É que eu não sei, porque agora
[01:06:25] está mudando a educação agora, por conta
[01:06:27] da situação atual. Então é
[01:06:29] muito cedo para dizer.
[01:06:33] Então…
[01:06:33] Mas enfim, de qualquer
[01:06:34] maneira, pelo menos,
[01:06:35] até 2020, até 2021,
[01:06:39] todos esses títulos, mas eles não vão
[01:06:41] deixar de ser editados. De qualquer forma,
[01:06:43] todos esses títulos agora são clássicos.
[01:06:45] Então, eu acho
[01:06:47] que eles estão aí seguros.
[01:06:49] Eles não vão desaparecer novamente.
[01:06:51] Mesmo com essa boicotação
[01:06:53] toda?
[01:06:54] Olha, eu vou te falar uma história muito curiosa
[01:06:57] que aconteceu com o Harms.
[01:06:59] O Daniel Harms, ele…
[01:07:01] Como eu falei, ele é um escritor, ele
[01:07:03] escreveu para crianças, ele é
[01:07:05] um dos nomes mais representativos
[01:07:07] dos anos 20, dentro dessa
[01:07:08] esfera infantil, mas hoje ele é mais conhecido
[01:07:11] por sua obra voltada para o público adulto.
[01:07:13] Digamos assim.
[01:07:15] E, normalmente, artistas
[01:07:16] mais alternativos vão buscar
[01:07:18] o Harms. Ele escrevia micro-contos,
[01:07:21] assim, são realmente
[01:07:23] muito bons.
[01:07:24] E uma linguagem muito contemporânea,
[01:07:27] ele é muito bom.
[01:07:29] Ele escreveu uma peça chamada Elisaveta
[01:07:30] Ban, que a personagem
[01:07:32] principal é acusada
[01:07:34] de assassinato pelo homem que
[01:07:36] o assassinou. Só para vocês terem
[01:07:38] uma ideia do…
[01:07:40] Do plot twist.
[01:07:42] Essa foi a peça que inaugurou
[01:07:45] o grupo que ele tinha, de Vanguardia Mabelio.
[01:07:47] Mas, enfim, o
[01:07:49] Daniel Harms, ele foi preso em
[01:07:50] 1941,
[01:07:52] acusado de
[01:07:53] propagar na população o estado derrotista.
[01:07:57] Porque estava durante a guerra
[01:07:58] e era uma época de muitas
[01:08:00] delações. Então, alguém disse
[01:08:02] que ele falou que a Alemanha,
[01:08:04] não sei, era uma coisa muito comum
[01:08:07] esse tipo de situação.
[01:08:09] E ele acabou sendo
[01:08:10] preso num hospital psiquiátrico
[01:08:13] e morreu de fome no ano seguinte.
[01:08:15] Ele tinha 36 anos.
[01:08:18] E aí
[01:08:19] ele ficou com o epíteto, nesse
[01:08:21] momento, de inimigo do povo,
[01:08:23] antipatriota.
[01:08:24] Enfim. E agora,
[01:08:26] no ano passado, essa história
[01:08:28] voltou, porque fizeram uma grafite
[01:08:30] em São Petersburgo
[01:08:32] e na rua onde
[01:08:34] ele morou. Hoje é a rua
[01:08:36] Mayakovski, uma grafite linda.
[01:08:38] E um tribunal resolveu
[01:08:40] que isso tinha que ser retirado
[01:08:42] e começou toda uma discussão de volta.
[01:08:45] E um dos temas,
[01:08:47] uma das acusações,
[01:08:48] porque a história é sempre mais complexa,
[01:08:50] sempre tem muitos elementos, inclusive alguns
[01:08:52] elementos puramente burocráticos,
[01:08:54] mas nessa discussão toda surgiu
[01:08:56] de novo a mesma questão
[01:08:58] dele ser um inimigo do povo.
[01:09:00] Então, é muito louco.
[01:09:02] Algumas coisas voltam, mas isso é o que eu acho.
[01:09:04] Isso aconteceu antes da situação atual.
[01:09:07] Nem sei por que eu falei isso,
[01:09:09] mas é para vocês falarem da volta.
[01:09:11] E eu também não estou batendo martelo,
[01:09:13] porque cada situação é uma situação
[01:09:15] e são sempre muitos elementos.
[01:09:17] Mas, assim, é muito triste
[01:09:19] ver o Harms sendo condenado
[01:09:21] duas vezes por um crime que ele não cometeu.
[01:09:34] Música
[01:10:02] Dona Letícia?
[01:10:03] Música
[01:10:03] Música
[01:10:04] Música
[01:10:04] Eu estou satisfeita.
[01:10:07] Então, vamos para a balada do pistoleiro?
[01:10:10] Sim, manda a venda aí.
[01:10:12] Então, tá.
[01:10:13] Então, tá.
[01:10:14] Daniela, eu tinha te falado que a gente pede
[01:10:16] umas dicas culturais no final do episódio
[01:10:18] que podem ser sobre qualquer coisa,
[01:10:21] não necessariamente o assunto do episódio.
[01:10:25] Eu vou passar para o seu Tiago primeiro.
[01:10:27] Ah, não!
[01:10:28] Você pensa na sua dica.
[01:10:31] Ai, minha cadeira que está quase queimando.
[01:10:32] Não faz isso, não.
[01:10:34] Não, você está desdicado hoje?
[01:10:36] Não, eu estou caçando aqui, eu estou caçando.
[01:10:38] Eu sei que eu anotei em algum lugar,
[01:10:39] mas eu não lembro onde.
[01:10:43] Olha, então,
[01:10:44] eu vou dar uma dica super batida,
[01:10:46] mas é o que está tendo
[01:10:49] nesse momento, tá?
[01:10:50] Vou dar duas dicas primeiro.
[01:10:52] Uma é essa dica super batida,
[01:10:54] que é simplesmente fazer,
[01:10:56] estudar uma língua com o aplicativo Duolingo.
[01:10:59] Só isso, que todo mundo sabe,
[01:11:00] todo mundo conhece, a corujinha verdinha lá,
[01:11:02] todo mundo está careca de saber,
[01:11:04] tem gente que faz até amigurumi
[01:11:06] de corujinha, do duo lá,
[01:11:09] porque todo mundo tem esse aplicativo.
[01:11:11] E é legal ver os amigos que estão lá
[01:11:14] e ver o que o pessoal está fazendo,
[01:11:15] que línguas que as pessoas estão estudando
[01:11:17] e há quanto tempo estão fazendo e tal.
[01:11:19] É legalzinho, assim,
[01:11:20] cria uma competiçãozinha saudável, né?
[01:11:22] Porque a gente sabe que quando o game fica,
[01:11:24] o negócio intensifica, certo?
[01:11:26] Então, é legal, podem me procurar lá,
[01:11:28] que eu estou lá, estou fazendo francês.
[01:11:30] E essa é a minha dica número um.
[01:11:32] A minha dica número dois,
[01:11:34] deixa eu até pegar ele aqui,
[01:11:35] que eu estou com ele aqui na minha frente,
[01:11:37] é um livro que,
[01:11:40] se não me engano,
[01:11:43] foi a Maggie que me sugeriu,
[01:11:45] se não foi ela, apareceu em algum outro lugar
[01:11:48] e aí eu comentei e a Maggie disse que conhecia.
[01:11:50] Eu sei que tem a Maggie no meio dessa história aí.
[01:11:51] Beijo, Maggie.
[01:11:53] E ele se chama House of Leaves,
[01:11:56] de um autor chamado Mark Z. Danielewski.
[01:12:00] E ele é um livro estranhíssimo.
[01:12:03] Eu estou, assim,
[01:12:03] super no começo.
[01:12:05] Eu já sabia que ele era estranhíssimo,
[01:12:06] porque eu não sou doida de comprar um negócio
[01:12:08] que eu não sei do que se trata.
[01:12:10] Ele é todo doido.
[01:12:12] A diagramação dele é toda maluca.
[01:12:13] Tem página em branco,
[01:12:14] tem página com uma palavra só,
[01:12:16] tem página com coisa escrita de cabeça para baixo,
[01:12:18] com recorte,
[01:12:19] com uma fonte tipográfica diferente.
[01:12:24] É uma coisa louquíssima.
[01:12:25] Eu ainda não entendi muito bem a que veio.
[01:12:28] Oi.
[01:12:29] Você deve estar mexendo com o livro e falando.
[01:12:33] Eu, a tua voz está dando umas variadas bem loucas aí.
[01:12:38] Ai, meu Deus.
[01:12:40] Tá, enfim, agora já era.
[01:12:42] Tem umas fotos estranhas, umas imagens estranhas.
[01:12:45] Ele é todo doido, tá?
[01:12:46] É um livro muito, muito esquisito.
[01:12:47] Eu ainda não entendi direito do que se trata,
[01:12:49] porque estou bem no começo.
[01:12:49] Como assim?
[01:12:50] Eu ia te perguntar isso agora.
[01:12:51] Afinal, de que se trata?
[01:12:55] É um romance, tá?
[01:12:56] Mas eu não sei te explicar ainda exatamente o que é a história.
[01:13:00] Eu sei que, assim, graficamente ele é fantástico.
[01:13:03] Ele é fantástico, porque ele é todo maluco, todo.
[01:13:08] Tem páginas com texto grifado,
[01:13:13] tem páginas que não tem nenhuma palavra,
[01:13:15] ou tem uma palavra com espaço,
[01:13:17] ou com uma diagramação maluca.
[01:13:20] Ele é todo doido, todo doido.
[01:13:23] E eu estou de olho nele já tem um tempinho.
[01:13:28] E aí, dessa vez, eu comprei.
[01:13:30] Quando eu cheguei agora aqui, ele estava aqui me esperando.
[01:13:32] E comecei a ler agora.
[01:13:33] Eu acabei o livro do Pistolendo do mês passado.
[01:13:38] Para quem não sabe, o Pistolendo é o nosso clube do livro que…
[01:13:42] Enfim, é o nosso grupo, o subgrupo de apoiadores para falar sobre livros.
[01:13:47] E a gente fala também, a gente tem esse clube do livro todo mês.
[01:13:49] A gente lê um livro diferente.
[01:13:51] Eu acabei o livro do mês passado.
[01:13:52] Não comecei ainda o desse mês, porque ainda não fui na biblioteca pegar.
[01:13:56] E comecei esse aqui, que eu nem sei se eu vou conseguir levar isso para Portugal,
[01:14:01] porque ele é um tarugão de capa dura, pesada.
[01:14:03] Eu acho que não sei o que eu vou fazer com ele.
[01:14:06] Mas é super diferente.
[01:14:08] Ele não foi barato.
[01:14:09] Eu não sei se tem em português, sinceramente.
[01:14:11] Mas ele é muito diferente, muito interessante.
[01:14:14] Se alguma vez aparecer na frente de vocês em alguma livraria, em algum lugar assim,
[01:14:17] nem que seja para folhear sentado na livraria só para ver a cara dele, vão lá.
[01:14:22] Porque é muito diferente.
[01:14:25] E eu gosto dessas coisas meio doidas assim.
[01:14:29] House of Leaves.
[01:14:30] Tá, tá.
[01:14:33] Como sempre, o link vai estar lá na pauta, né?
[01:14:35] Vocês sabem que a gente bota absolutamente tudo.
[01:14:38] Então, vai estar lá tudo bonitinho na pautinha.
[01:14:42] Já está com a sua dica aí, seu Tiago?
[01:14:44] Sim, senhora.
[01:14:44] Sim, senhora.
[01:14:45] Diga.
[01:14:46] Eu vou começar com a mais tosquinha delas, que é, faz-me um desenho animado.
[01:14:52] Imagina eu indicando desenho animado.
[01:14:55] Não é todo dia.
[01:14:56] What?
[01:14:57] Mas assim, o desenho animado de Cuphead é muito legalzinho.
[01:15:01] Ah, meu Deus.
[01:15:02] Está na Netflix.
[01:15:03] Sim, é da Netflix.
[01:15:05] Está lá.
[01:15:06] Se eu não me engano, é exclusivo Netflix.
[01:15:09] Eu não tenho Netflix e assistir?
[01:15:11] Sim.
[01:15:12] Como?
[01:15:13] Não direi.
[01:15:14] Mas vocês podem imaginar como.
[01:15:16] Se virem.
[01:15:17] Se virem.
[01:15:18] É bem interessante.
[01:15:20] É legalzinho.
[01:15:20] Eu pensei que era uma coisa completamente diferente quando eu vi, assim, a abertura,
[01:15:25] quando eu vi o primeiro episódio.
[01:15:27] Mas ele vai para um outro lado.
[01:15:30] Já garantiram que terá segunda temporada.
[01:15:32] E, ok, basicamente era essa.
[01:15:37] E aí, eu vou ter que contar uma historinha para a segunda dica.
[01:15:41] Porque vocês sabem, todo mundo que ouve o Pistolando sabe,
[01:15:46] que eu moro em Joinville e não sou orgulhoso disso, né?
[01:15:51] Eu odeio essa cidade.
[01:15:54] E aí, como eu não posso apenas odiar uma cidade,
[01:15:58] eu tenho que odiar uma cidade com propriedade.
[01:16:00] Então, tudo que puder…
[01:16:02] Consumir sobre Joinville,
[01:16:05] para poder usar contra ela depois,
[01:16:07] eu vou consumir.
[01:16:09] Eu preciso sempre de…
[01:16:10] De sempre ter mais estofo, né?
[01:16:13] Para reclamar dessa cidade.
[01:16:15] Então, qual não foi a minha surpresa
[01:16:18] quando, ao caminhar por Lisboa,
[01:16:21] eu encontrei um livro
[01:16:22] sobre Dona Francisca de Bragança,
[01:16:27] a filha de Dom Pedro II,
[01:16:29] que foi a herdeira da…
[01:16:32] das terras que hoje são a região de Joinville.
[01:16:36] Tanto é que a serra daqui de Joinville é a Serra Dona Francisca.
[01:16:40] E eu ainda não terminei o livro,
[01:16:42] mas eu fui obrigado a comprar essa caceta aqui para ler,
[01:16:45] para entender qual é que é a história dessa fulana,
[01:16:49] que, para mim, ela é só um busto, né?
[01:16:51] Eu não sei nada sobre a história dela.
[01:16:56] A cidade de Joinville tem esse nome
[01:16:58] por conta da terra do marido dela, né?
[01:17:01] Que era o príncipe de Joinville.
[01:17:02] Sendo que os dois jamais pisaram aqui.
[01:17:06] Esse é o nível do gado.
[01:17:10] Beleza, né?
[01:17:11] Então, eu ainda preciso chegar nessa parte aí.
[01:17:14] Mas deixo essa recomendação.
[01:17:18] Se alguém conseguir ter contato com esse livro,
[01:17:21] o nome é
[01:17:22] O Diário de Viagem de Dona Francisca de Bragança,
[01:17:25] 1842-1843.
[01:17:29] A Bela Chica,
[01:17:30] a Alteza Imperial do Brasil e Infanta de Portugal,
[01:17:32] a Princesa Real de França.
[01:17:35] Bela merda.
[01:17:38] Bela merda.
[01:17:38] Então, eu estou lendo isso aí.
[01:17:40] Não terminei ainda, mas já recomendo.
[01:17:42] Já aprendi uma cacetada de coisa.
[01:17:45] Umas paradas interessantes.
[01:17:47] Muito bem.
[01:17:48] Daniela,
[01:17:50] tua dica ou tuas dicas?
[01:17:52] Eu ia falar do Tarkovski,
[01:17:54] porque, como eu falei,
[01:17:56] ele teria feito 90 anos agora.
[01:17:58] Enfim, eu ia indicar o filme
[01:18:00] Andrei Rublovo,
[01:18:01] que é…
[01:18:02] que ultrapassa lá na Rússia Medieval,
[01:18:05] que fala do pintor Andrei Rublovo,
[01:18:07] de ícones, enfim.
[01:18:09] Vale a pena.
[01:18:11] Show.
[01:18:11] Achei aqui o filme.
[01:18:14] Está aqui, inteirinho.
[01:18:17] É, assistam também,
[01:18:18] já que vocês estão na vibe de assistir
[01:18:19] a coisa que a gente está falando para vocês assistirem.
[01:18:21] Aproveitem para ver, então, o balé
[01:18:23] do Pássaro de Fogo, o Firebird.
[01:18:25] É muito bonito.
[01:18:27] Maravilhoso, maravilhoso.
[01:18:29] O figurino é lindíssimo, lindíssimo, lindíssimo.
[01:18:32] E é uma coreografia
[01:18:34] muito maluca, porque
[01:18:36] ela claramente
[01:18:38] é a pássara de fogo, né?
[01:18:42] O personagem Pássaro de Fogo
[01:18:44] é uma bailarina.
[01:18:46] Então tem uma coreografia, assim, loucaça,
[01:18:48] bem de passarinho mesmo, que não sossega,
[01:18:50] que mexe a cabeça, que faz uns movimentos curtinhos.
[01:18:52] Qual que é a versão que você está indicando?
[01:18:55] Ah, eu botei aqui,
[01:18:56] olha, o que eu coloquei aqui é uma
[01:18:58] da… Cadê?
[01:19:00] Não, esse é uma…
[01:19:02] Ah, tá, é uma da
[01:19:04] Academia de Estado do Balé de Bolshoi.
[01:19:08] E
[01:19:08] lembrando que essa é uma coreografia
[01:19:11] do…
[01:19:14] Ai, meu Deus do céu, eu estou horrível hoje.
[01:19:16] Do Fokine, que também tinha umas coisas,
[01:19:18] fazia umas coisas super diferentes.
[01:19:20] E é um balé muito, muito
[01:19:22] doido, assim, como coreografia.
[01:19:25] Assim, é bem diferente do que a gente está
[01:19:26] acostumado a ver, que você pensa
[01:19:28] na bailarina toda fofinha, que não tem nada de fofinho.
[01:19:30] Ou esse pássaro todo elétrico,
[01:19:32] e você tem um figurino
[01:19:34] maravilhoso,
[01:19:36] com todas essas roupas tradicionais,
[01:19:39] russas e tal, não sei o que, é muito bonito,
[01:19:40] muito diferente, é uma música muito
[01:19:42] poderosa, assim.
[01:19:43] É lindo isso que você está falando, porque realmente,
[01:19:45] para 20 anos, 10, essa era
[01:19:48] de prata, e é o que eu estou te falando,
[01:19:51] é uma atualização dos contos populares,
[01:19:53] né? E é o que foi feito.
[01:19:55] Então, realmente, é uma…
[01:19:57] A primeira
[01:19:58] coreografia é impressionante, né?
[01:20:00] É, a primeira coreografia,
[01:20:02] a primeira vez que eu vi, eu fiquei, gente, o que é isso que eu estou vendo?
[01:20:05] Era tão diferente, sabe?
[01:20:06] Eu estava numa vibe de ver umas coisas, uns balés
[01:20:08] muito tradicionais, assim, aí…
[01:20:09] O tema é todo de personagens tradicionais,
[01:20:12] também, né? O pássaro de fogo,
[01:20:14] aí tem o príncipe, como eu falei,
[01:20:16] sempre tem o herói,
[01:20:19] que é o príncipe, que é
[01:20:20] normalmente o filho mais novo
[01:20:22] de três irmãos,
[01:20:24] tem o imortal cachê,
[01:20:26] assim, são personagens fixos, sabe?
[01:20:28] Os enredos são fixos, por isso que
[01:20:30] sempre depende da versão, né?
[01:20:32] É, é incrível.
[01:20:34] É, eu… O que eu tinha, o primeiro
[01:20:36] que eu vi, eu acho que era uma versão do Bolshoi mesmo,
[01:20:38] aí depois eu acabei vendo outras coisas, mas
[01:20:40] esse aqui que eu coloquei o link
[01:20:42] na pauta é um do Bolshoi também.
[01:20:45] Mas, de qualquer maneira, é muito legal
[01:20:46] e se vocês não quiserem ver o balé, procurarem sua música,
[01:20:48] tem um zilhão de versões diferentes, com
[01:20:50] todas as orquestras do mundo já tocaram esse negócio,
[01:20:53] não é difícil de achar. É só dar
[01:20:54] uma catada lá, as travinhas que vão aparecer
[01:20:56] logo de cara, não é difícil.
[01:20:59] Eu vou ter que ouvir, eu vou ter que ouvir
[01:21:00] porque eu não estou conseguindo
[01:21:02] remeter na minha cabeça.
[01:21:04] Eu tenho certeza que você vai reconhecer. É possível,
[01:21:06] mas agora, assim, de cabeça, não estou conseguindo
[01:21:08] associar as duas coisas. É, depois
[01:21:10] você vai lá e vai zoiar.
[01:21:13] O que mais?
[01:21:14] Então, acabaram as dicas, certo?
[01:21:16] Sim, senhora. Hora de…
[01:21:18] Jabá. Jabá.
[01:21:21] Daniela, quem quiser te achar
[01:21:22] nas redes, você está nas redes,
[01:21:24] você é uma pessoa que mora na internet, que nem eu,
[01:21:26] seu Tiago, você não tem rede,
[01:21:29] você publica coisas e
[01:21:30] prefere que as pessoas falem com você,
[01:21:32] por outros canais, como é que é a sua…
[01:21:34] É que eu não sou muito
[01:21:35] não sou muito internética, assim,
[01:21:38] eu tenho
[01:21:39] uma página no Facebook que raramente
[01:21:42] alimento, e para onde
[01:21:44] raramente vou, mas pode
[01:21:46] mandar mensagem lá, se for o caso,
[01:21:49] enfim, tem alguns trabalhos
[01:21:50] meus, tem e-mail,
[01:21:52] fico à vontade para alguém,
[01:21:54] se alguém precisar de alguma
[01:21:56] dica de russos, literatura
[01:21:58] russa, infantis,
[01:22:00] e se eu puder ajudar em alguma coisa,
[01:22:02] estou à disposição.
[01:22:05] E como é que o pessoal te acha?
[01:22:06] A donde?
[01:22:07] Eu tenho uma página.
[01:22:09] Essa página do Facebook você quase não acessa.
[01:22:10] É, mas se a pessoa deixar uma mensagem, eu vou ver.
[01:22:14] Ah, então tá bom.
[01:22:14] É o meu nome, Daniela Montian.
[01:22:16] Tá.
[01:22:18] Olha que maravilha. Então, quem quiser falar com a Daniela,
[01:22:21] já sabe, manda uma mensagem lá no Face,
[01:22:23] pede o e-mail,
[01:22:24] que ela passa o e-mail e vocês
[01:22:26] escrevam.
[01:22:28] Seu Tiago, recadinhos?
[01:22:30] Ai, peraí.
[01:22:32] Oi, voltei.
[01:22:33] Eu tava botando o livro no estante de volta.
[01:22:40] Fala aí os recadinhos.
[01:22:42] Recados? Vamos lá.
[01:22:44] Em linhas gerais, correndo.
[01:22:46] Se você quiser falar conosco
[01:22:47] nas redes sociais de arroba,
[01:22:49] somos arroba pistolando pode.
[01:22:51] Se quiser mandar um e-mail, contato
[01:22:53] arroba pistolando ponto com. Tudo que a gente
[01:22:55] situa aqui vai ter uma cacetada de links
[01:22:57] de referência e tal, junto
[01:22:59] da postagem desse episódio.
[01:23:01] Você consegue acompanhar tudo
[01:23:03] seja no seu agregador
[01:23:05] de podcast, na parte de descrição, vai estar
[01:23:07] tudo lá, ou então, ah, eu tô
[01:23:09] ouvindo na rua, então depois eu
[01:23:11] dou uma olhada com mais calma, aí depois
[01:23:13] você senta no seu computador e coloca em
[01:23:15] pistolando ponto com.
[01:23:17] É isso, dona Letícia?
[01:23:20] É isso. O que mais?
[01:23:21] O que mais? Nós temos uma
[01:23:23] parceria com a dona Veste Esquerda.
[01:23:26] Então, se você
[01:23:27] quiser adquirir
[01:23:29] umas camisas,
[01:23:31] com umas estampas legais, pra quem sabe ir
[01:23:33] votar, ou só pra
[01:23:34] irritar o síndico do seu condomínio,
[01:23:38] ou, sei lá,
[01:23:39] qualquer justificativa é válida,
[01:23:41] mas se você quiser, lá eles têm uma
[01:23:43] série de estampas
[01:23:44] de
[01:23:45] personalidades e de temática
[01:23:49] de liberdade
[01:23:51] e luta.
[01:23:53] Você encontra todas elas
[01:23:55] no site da Veste Esquerda, e se
[01:23:57] você quiser, com o nosso cupom
[01:23:59] PISTOLA10,
[01:24:01] você tem 10% de desconto
[01:24:03] em toda a loja.
[01:24:05] Isso aí.
[01:24:07] Sua vez agora, tô cansado.
[01:24:11] Rapidamente,
[01:24:11] muito rapidamente, nossos
[01:24:13] sites de financiamento coletivo, se vocês acham
[01:24:15] que a gente merece uns
[01:24:17] terecotecos aí por mês
[01:24:18] pra fazer esse trabalhão que a gente tem
[01:24:21] aqui pra botar esse programa no ar toda semana
[01:24:23] ou quase, a intenção
[01:24:25] nunca falta.
[01:24:27] Nós estamos no catarse.me
[01:24:29] barra pistolando,
[01:24:31] nós estamos no PicPay como Pistolando,
[01:24:33] vocês podem mandar um
[01:24:35] pix pra gente, contato
[01:24:37] arroba pistolando.com
[01:24:38] e que mais? E patreon.com
[01:24:41] barra pistolando pra quem estiver fora do Brasil,
[01:24:43] inclusive a gente gosta.
[01:24:47] Fora isso, mais nada.
[01:24:49] Fechou.
[01:24:50] Esse episódio…
[01:24:51] Sim, eu ia fazer isso agora, calma aí.
[01:24:55] Esse episódio é
[01:24:56] produzido, idealizado,
[01:24:59] apresentado e editado
[01:25:01] por Estopim Podcasts.
[01:25:03] Se você tem um projeto
[01:25:05] que gostaria de tirar do papel e transformar
[01:25:07] em um podcast, ou então se você
[01:25:09] já tem um podcast rodando, mas
[01:25:11] precisa dar uma recalchutada
[01:25:13] nele em questão de linguagem,
[01:25:15] fazer vinhetas, fazer uma capa nova,
[01:25:17] fazer um site, quem sabe,
[01:25:19] entre em contato conosco
[01:25:21] em contato
[01:25:22] arroba estopimpodcasts
[01:25:24] no plural, ponto com ponto br.
[01:25:28] Isso é exíssimo.
[01:25:30] Acabamos?
[01:25:30] Tudo?
[01:25:31] Sim, senhora, fechado.
[01:25:33] Então, fechadíssimo. Daniela, muito obrigada.
[01:25:36] Adoramos o papo.
[01:25:38] Esse episódio é bem a nossa cara
[01:25:39] de falar uma coisinha de nosso nome,
[01:25:41] mas tá falando.
[01:25:44] Não foi nada confuso, foi ótimo.
[01:25:48] Eu fico esquecendo as coisas,
[01:25:50] me dá um nervoso, mas espero que tenha
[01:25:51] ficado claro um pouco.
[01:25:53] Relaxa. Olha, próxima vez,
[01:25:55] você já leva um vinhozinho pra tua problema,
[01:25:57] entendeu? Durante a gravação.
[01:25:57] É, tem um pouco disso, mas aí
[01:25:59] quando eu entro no caos,
[01:26:01] normalmente eu deparo um pouco pra sair.
[01:26:03] Mas, enfim, eu espero que esse meu caos
[01:26:05] não tenha tornado toda a conversa
[01:26:07] um pouco caótica, mas
[01:26:08] tudo bem.
[01:26:10] Não, não ficou caótica, foi ótima.
[01:26:13] É uma coisa que eu esqueci,
[01:26:15] mas, assim, pra quem se interessar,
[01:26:18] eu dei um curso
[01:26:19] sobre literatura
[01:26:21] russo-infantil e sobre esse período
[01:26:23] que ficou disponível
[01:26:25] se alguém se interessar,
[01:26:27] porque foi um curso
[01:26:29] de inverno na USP,
[01:26:30] e eles disponibilizaram
[01:26:32] os links, eu posso te passar
[01:26:34] depois, se você quiser, porque é de graça,
[01:26:37] enfim.
[01:26:39] A ideia é essa mesmo,
[01:26:41] a ideia é democratizar esse
[01:26:42] conhecimento e
[01:26:44] eu achei legal a
[01:26:47] enfim,
[01:26:49] a USP disponibilizar esse trabalho.
[01:26:51] Então, se quiser, são quatro aulas
[01:26:52] e aí sim as pessoas vão conseguir
[01:26:54] ver as imagens e vão,
[01:26:57] enfim, e tem uma primeira aula
[01:26:59] inclusive que eu falo,
[01:27:00] um pouco, desses contos populares
[01:27:02] e da literatura russo-infantil,
[01:27:05] infanto-juvenil de forma geral.
[01:27:07] Então, eu deixo como
[01:27:09] uma dica sobre mim mesma,
[01:27:12] mas, enfim, é porque…
[01:27:13] É o jabá.
[01:27:14] Não, mas é que, não, eu acho que é de graça
[01:27:16] e tá aí, o trabalho foi feito
[01:27:19] e, assim, pra quem se interessar pelo assunto,
[01:27:21] é uma contribuição,
[01:27:22] uma pequena contribuição, mas tá aí.
[01:27:25] Esse é um episódio que
[01:27:26] as pessoas obrigatoriamente vão ter
[01:27:29] que ir na sessão de links,
[01:27:30] porque tem muita coisa aqui
[01:27:32] que a gente pode ficar falando mais
[01:27:34] umas três horas e a gente não vai conseguir
[01:27:36] transmitir
[01:27:37] a riqueza e
[01:27:39] a beleza desse trabalho
[01:27:42] enquanto projeto gráfico mesmo, né?
[01:27:44] Exato. Quando eu falo,
[01:27:46] realmente eu dou essas aulas
[01:27:48] eu tenho que necessariamente mostrar
[01:27:52] esses livros,
[01:27:53] porque eles são realmente impressionantes.
[01:27:57] Perfeito aí, ó.
[01:27:58] Mais um link que vai ser.
[01:28:00] Eu acho que é, quando vocês forem ouvir
[01:28:03] depois, eu acho que talvez mais importante
[01:28:05] do que eu tô falando é clicar nos links
[01:28:06] com as imagens.
[01:28:08] Acho que vai ser mais legal vocês olharem as imagens
[01:28:11] pra vocês, mesmo que os textos
[01:28:13] não estejam disponíveis,
[01:28:15] uma parte importante tá, né?
[01:28:16] Esse design gráfico.
[01:28:19] Que é bem diferente, né?
[01:28:20] Bem bacana. As imagens são muito bonitas.
[01:28:23] Tudo que eu vi tava muito legal.
[01:28:25] Gostei. Ah, mas é isso aí.
[01:28:26] Valeu, Daniela, foi muito legal.
[01:28:28] Obrigada, gente.
[01:28:29] Agora eu aprendo a falar sobre coisas que eu não conheço.
[01:28:33] Ficou feliz.
[01:28:34] Gente, então até
[01:28:35] semana que vem. Beijo.
[01:28:38] Sim, sim, senhora.
[01:28:39] Só reforçando da minha parte também,
[01:28:42] muito obrigado, Daniela.
[01:28:44] Qualquer coisa, se tiver, sei lá,
[01:28:46] uma pesquisa nova,
[01:28:47] uma parada legal pra trazer
[01:28:50] aí pra nossa audiência, ficamos
[01:28:51] de portas abertas e
[01:28:53] microfones ligados pra
[01:28:55] receber, não só você, mas todo
[01:28:57] o pessoal da Calinca pra
[01:28:58] falar sobre lançamentos, se quiserem,
[01:29:01] alguma coisa assim. E
[01:29:03] no mais é isso.
[01:29:05] Muito obrigado a todos. Dona Letícia,
[01:29:07] você ainda vai estar na base
[01:29:09] de improviso no próximo episódio?
[01:29:13] Como assim?
[01:29:13] Com esse microfone chechelento aí?
[01:29:17] Sim.
[01:29:17] Ok, tá. Então…
[01:29:20] É só pra saber,
[01:29:22] só pra saber.
[01:29:23] Porque senão eu já ia até falar isso no final, sabe?
[01:29:26] Então, até o próximo episódio
[01:29:28] em que a Letícia vai estar com o áudio melhor.
[01:29:31] Mas…
[01:29:31] Não, não vou. Vou estar com o meu áudio bosta dessa vez
[01:29:34] porque eu não tô em casa. Quer dizer, eu tô em casa, mas não tô na…
[01:29:36] Ah, nem tenta explicar.
[01:29:37] Minha vida é complicada, tá? Mas eu não tô com
[01:29:40] o meu equipamento, não tá comigo.
[01:29:42] É isso aí. Então é isso.
[01:29:44] Muito obrigado, gente. Estaremos aí. Semana que vem tem.
[01:29:46] Até semana que vem.
[01:29:48] Até semana que vem. Tchau, tchau.
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[01:29:58] www.estopimpodcasts.com.br
[01:29:59] O que foi isso?
[01:30:08] Foi um trovão, gente.
[01:30:10] Caramba!
[01:30:13] Isso aí eu não tinha como resolver.
[01:30:17] Não, eu tô só chocada.
[01:30:20] Que doido.
[01:30:22] Cacete, não. Vamos acabar.
[01:30:23] Vamos acabar pra poder desligar o disjuntor.
[01:30:26] Então,
[01:30:28] é… Caraca, me assisti.
[01:30:29] Tem bonito.
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