#28 - Matrix e Ressurreições


Resumo

O episódio analisa profundamente o filme Matrix Resurrections, contrastando-o com a trilogia original e o cenário cinematográfico contemporâneo. Os participantes discutem como o filme, dirigido por Lana Wachowski, é uma obra honesta e subversiva que critica a indústria da nostalgia, ao invés de simplesmente reproduzir os sucessos do passado. Eles destacam a coragem do filme em avançar a narrativa e lidar com temas como a conexão humana, a crença coletiva e a desconstrução de expectativas.

A conversa explora a evolução da franquia, os problemas percebidos em Matrix Reloaded e Revolutions, e como Resurrections melhora a compreensão dos filmes anteriores. É salientado que o filme reforça que o poder do Neo vem da crença que os outros têm nele, transformando a narrativa de uma jornada individual para uma sobre comunidade e conexão. A análise também aborda a estética deliberadamente “inferior” das cenas de ação, interpretada como um comentário sobre a impossibilidade de replicar o impacto original.

Os participantes debatem a apropriação do símbolo da “pílula vermelha” por movimentos de extrema-direita, argumentando que o filme reivindica seu significado original: uma narrativa sobre pessoas marginalizadas que desafiam um sistema opressor, e não sobre cinismo ou isolamento. Eles conectam isso aos temas de diversidade, aceitação e formação de comunidades no exílio, presentes desde o primeiro filme. A discussão também passa pela representação das máquinas, a evolução do Agente Smith como figura do fascismo, e a relação complementar entre ele e o sistema da Matrix.

Por fim, o episódio reflete sobre o impacto cultural do Matrix original nos anos 90, introduzindo conceitos filosóficos a uma geração, e como Resurrections dialoga com um público que pode consumir a franquia original a qualquer momento. A conclusão celebra o filme como uma declaração artística corajosa em um panorama midiático dominado por reboots nostálgicos, enfatizando suas mensagens sobre amor, esperança e o poder da crença coletiva.


Indicações

Filmes

  • Gremlins 2 — Citado como exemplo anterior de uma sequência que subverte as expectativas do público e do estúdio, brincando com a familiaridade da franquia.
  • Massacre da Serra Elétrica Parte 2 — Mencionado junto com Gremlins 2 como exemplo de continuação que usa a oportunidade para ser meta e subversiva em relação ao original.
  • Hora do Pesadelo 4: O Novo Pesadelo — Citado como um filme que quebra a quarta parede, mostrando os atores filmando um filme do Freddy Krueger dentro do filme, similar à abordagem meta de Matrix Resurrections.
  • Twin Peaks: O Retorno (3ª temporada) — Comparado ao novo Matrix por trazer discussões similares sobre nostalgia, realidade e a relação da obra com seu próprio passado e com o público.
  • Bill e Ted (trilogia) — Citada como outra franquia com Keanu Reeves que, segundo os participantes, conseguiu fazer uma boa continuação recente sem cair nos mesmos problemas de outras.

Jogos

  • Enter the Matrix — Jogo lançado junto com os filmes originais que continha parte importante da história (da Niobe e do Ghost), mas hoje é considerado injogável e de difícil acesso legal, exemplificando os problemas do ‘universo estendido’.
  • The Matrix: Path of Neo — O segundo jogo da franquia, citado por ter um final onde as Wachowski aparecem e subvertem a expectativa de uma batalha épica contra o Agente Smith, criando um gigante de carros, um clima de brincadeira similar ao do novo filme.

Obras-Literarias

  • Simulacros e Simulação (Jean Baudrillard) — Livro de filosofia/sociologia que era citado no primeiro filme do Matrix (o disquete estava escondido nele). Baudrillard odiava o filme, achando que ele subvertia suas ideias.

Series

  • Sense8 — Série das irmãs Wachowski na Netflix. Mencionada como uma obra posterior a Matrix que é bem vista por fãs do trabalho delas, embora com ressalvas sobre a perda de foco no plot com o tempo.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução: Nostalgia e o diálogo com o público — A discussão começa refletindo sobre a abertura do novo Matrix, onde o Morpheus fala sobre nostalgia. Os participantes questionam se o público realmente quer um diálogo com os cineastas ou apenas uma repetição confortável do passado. Eles introduzem a tese de que Lana Wachowski usou a franquia para conversar diretamente com a plateia em um momento em que o entretenimento virou repetição.
  • 00:07:06A honestidade revolucionária do novo Matrix — Um dos participantes revela que, apesar da descrença inicial, achou o novo Matrix tão honesto e bom quanto o primeiro filme. Eles argumentam que a honestidade do filme, ao não tentar corrigir as premissas furadas da trilogia original e ao não apelar apenas para a nostalgia, é algo revolucionário no cinema contemporâneo. É feita uma comparação com filmes como Gremlins 2, que também subverteram expectativas.
  • 00:10:49Comparação com o fracasso da nova trilogia de Star Wars — Os debatedores contrastam a abordagem do Matrix Resurrections com a última trilogia de Star Wars. Enquanto Star Wars desfaz arcos narrativos anteriores (como o sacrifício de Darth Vader) e parece não avançar a história, o novo Matrix lida corajosamente com as consequências dos eventos passados, afirmando que tudo importou e avançando a premissa. Eles citam a cena em que o Neo questiona seu sacrifício.
  • 00:14:27A ação deliberadamente ruim e o comentário sobre nostalgia — É levantada a crítica de que as cenas de ação do novo filme são mal feitas, com coreografia e cortes ruins. No entanto, isso é interpretado como uma escolha deliberada. O filme estaria comentando a impossibilidade de replicar a juventude dos atores e o impacto original, chegando ao ponto de inserir clipes do primeiro filme durante as lutas, como se dissesse: “Era isso que você queria, né?“.
  • 00:23:35Keanu Reeves como ‘vaso’ e a força da crença coletiva — Discute-se o papel de Keanu Reeves como ator, definindo-o como um “vaso” ou “tela em branco” que permite ao público se projetar. Isso se conecta à tese central do episódio: o poder do Neo não vem dele mesmo, mas da crença que os outros (Trinity, Morpheus) depositam nele. O filme explora isso ao mostrar um Neo decadente e fraco quando separado da Trinity, enfatizando que ele precisa da conexão com os outros.
  • 00:28:31Animatrix e a perspectiva das máquinas — A conversa se volta para o Animatrix, especificamente os curtas “A Segunda Renascença”, que mostram a guerra entre humanos e máquinas do ponto de vista das máquinas. Isso revela os humanos como opressores iniciais, complexificando a narrativa de vítimas dos filmes originais. O novo Matrix avança nisso ao incluir robôs e softwares conscientes entre os rebeldes, lutando pela liberdade de todos os seres.
  • 00:40:47O inimigo difuso: microfascismos e a servidão voluntária — Analisa-se a evolução da opressão na Matrix. Se antes eram os Agentes, agora são as próprias pessoas, em seus corpos, que policiam umas às outras para manter o sistema. Isso representa uma discussão sobre microfascismos. As pessoas querem estar na Matrix, e o sistema é reconfigurado para ser mais confortável, tornando a servidão voluntária e a resistência mais difícil.
  • 00:44:29O Analista e a metalinguagem sobre a existência do filme — O personagem do Analista é discutido como a personificação das forças que levaram à criação do filme. Sua explicação diegética – de que a Matrix é mais eficiente com o Neo e a Trinity perto, mas separados – é lida como um comentário metalinguístico: o estúdio tentou não fazer outro Matrix, mas as pessoas ficam mais felizes (a Matrix é mais eficiente) quando ele existe. Ele engendra sua própria derrota ao tentar controlar o poder do amor/coneção que eles representam.
  • 00:48:28Reapropriação da ‘pílula vermelha’ e a mensagem original — Os participantes abordam a apropriação do símbolo da “pílula vermelha” por grupos de extrema-direita. Eles argumentam veementemente que o filme, especialmente Resurrections, bate de volta e reivindica o significado original: é sobre pessoas marginalizadas (uma narrativa criada por mulheres trans) despertando para um sistema opressor e formando comunidades baseadas na diferença. A verdadeira mensagem é sobre esperança, amor e luta coletiva, o oposto radical do cinismo narcisista associado a esses grupos.
  • 00:51:48Conclusão: Um filme sobre comunidade e diferença — A discussão se encerra reforçando que a franquia Matrix, e especialmente o novo filme, é sobre a força que vem da comunidade e da aceitação das diferenças. O poder não é hierárquico (com o Neo no topo), mas simbólico e distribuído. A crença dos outros é que empodera o escolhido. O filme celebra a aliança entre os diferentes no exílio do padrão normativo, uma mensagem que se contrapõe diretamente a qualquer leitura individualista ou reacionária.

Dados do Episódio

  • Podcast: Popcult
  • Autor: Atabaque Produções
  • Categoria: TV & Film Film Reviews
  • Publicado: 2022-05-04T08:30:02Z
  • Duração: 00:57:03

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Nada alivia a ansiedade como um pouco de nostalgia.

[00:00:07] Com essas palavras, o novo Morpheus recebe Neo e a plateia na sua encenação de Matrix.

[00:00:12] O que é autêntico? O que é real?

[00:00:14] Queremos só um repeteco de quando imaginamos que fomos felizes?

[00:00:17] Queremos histórias de Ninar a 24 quadros por segundo

[00:00:20] ou fazer parte de um diálogo proposto pelos cineastas?

[00:00:24] Lana Wachowski usou de todo o seu arsenal profissional

[00:00:26] uma franquia global gigantesca, um estúdio lendário,

[00:00:30] e condizente orçamento para conversar com sua plateia.

[00:00:33] Mas a plateia queria conversar?

[00:00:36] Me diz, Orlando, queria?

[00:00:37] Provavelmente não.

[00:00:38] Isso é porque eu concordo com você.

[00:00:41] As pessoas, no fim das contas, o cinema,

[00:00:44] o entretenimento no geral virou uma espécie de repetição do mesmo, né?

[00:00:48] É impressionante, né?

[00:00:50] As pessoas ficam repetindo, não tem novidade, não tem novidade.

[00:00:52] Aí quando tem uma novidade, não querem a novidade,

[00:00:53] não queremos a novidade, não queremos a novidade.

[00:00:56] Eu acho que o Matrix toca essas teclas aí.

[00:00:59] Eu acho que sim.

[00:01:01] E eu acho que assim, enxerguei com muito…

[00:01:05] Foi refrescante para a minha cabecinha ver um filme desses,

[00:01:09] uma continuação de uma grande franquia de estúdio hollywoodiano,

[00:01:13] que foi lá e fez algo tão diferente, sabe?

[00:01:17] Uma coisa que eu acho que comparado aos filmes que eu considero

[00:01:20] os piores filmes dos estúdios americanos dos últimos tempos,

[00:01:23] que eu não vou ter que nomear aqui para não causar revertérios,

[00:01:26] mas eu acho que assim, perto desses filmes,

[00:01:29] é quase cinema francês, assim, é de uma…

[00:01:31] É assim, é um filme nada sutil,

[00:01:34] mas que perto de outras coisas tem uma sutileza ímpar.

[00:01:38] É, é porque a gente está acostumado com elefante em loja de cristal, né?

[00:01:42] Exatamente.

[00:01:42] É isso, que a gente está acostumado com entretenimento.

[00:01:45] E nem sempre foi assim, porque 20 anos atrás tinha um filme chamado Matrix,

[00:01:50] que era um grande filme de estúdio, era tipo um lançamento global,

[00:01:53] era muita grana, era um produto comercial

[00:01:55] sem nenhum cinismo no que eu estou falando.

[00:01:58] Mas levantou questões, fez muitas crianças da minha idade

[00:02:05] saberem o que era o mito da caverna de Platão.

[00:02:09] Ele foi a introdução de filosofia de muita gente.

[00:02:13] Tinha Matrix, segunda filosofia, o Jean Baudrillard,

[00:02:16] que era citado, para quem não sabe, Jean Baudrillard é um sociólogo francês,

[00:02:20] ele era citado no filme, se eu não me engano,

[00:02:24] o Neil guardava, eu acho que o disquete, alguma coisa,

[00:02:26] o primeiro filme, dentro de um…

[00:02:28] um exemplar de simulacros e simulação do Jean Baudrillard,

[00:02:31] que odiava o Matrix, deixa claro, ele morreu odiando o filme,

[00:02:35] ele achava que o filme subvertia as ideias dele de uma forma que não era…

[00:02:38] Ele era meio que um jijé dessa geração atual, tá ligado?

[00:02:42] Tipo, da geração anterior.

[00:02:44] Mas assim, de fato teve um impacto muito grande,

[00:02:48] e é interessante pensar nisso, né?

[00:02:50] Como Matrix, ele era um filme simples, honesto,

[00:02:57] eu acho que o Matrix…

[00:02:58] Imaginar um filme simples, honesto, grandioso,

[00:03:02] e eu digo grandioso no sentido positivo do termo, né?

[00:03:05] Porque, cara, eu lembro da experiência de assistir o Matrix no cinema,

[00:03:08] eu lembro da experiência de ver um bullet time pela primeira vez,

[00:03:11] tipo, no cinema.

[00:03:13] E eu não sei se as pessoas que estão nos ouvindo sabem,

[00:03:15] mas naquela época o filme não era verde.

[00:03:18] É!

[00:03:18] O filme que passou no cinema não era verde.

[00:03:20] É verdade, né?

[00:03:21] Todo mundo conhece o filme que saiu em DVD,

[00:03:23] e depois vários trânsitos,

[00:03:25] e eles fizeram aquela correção de cor

[00:03:26] para ele parecer…

[00:03:27] com a correção de cor das continuações, né?

[00:03:30] Do Reloaded e do Revolutions.

[00:03:31] Mas o filme original não era verde.

[00:03:34] É, você tinha uns tons demais,

[00:03:36] você tinha uma tendência de tom diferente.

[00:03:37] Ele não era todo puxado para o verde, né?

[00:03:39] Nos tons médios, principalmente.

[00:03:40] E nos escuros.

[00:03:42] Mas…

[00:03:42] Inclusive, eu acho que agora saiu uma versão em Blu-ray 4K

[00:03:46] que volta para esse tratamento de cor.

[00:03:48] Por original?

[00:03:48] Por original, é.

[00:03:50] Porque, assim, mas daí é o que eu ia falar.

[00:03:51] Porque tem uma coisa,

[00:03:52] e eu acho que a gente vai ter que botar a bola no chão, assim,

[00:03:56] para organizar melhor o jogo.

[00:03:57] Porque…

[00:03:58] Que é o seguinte…

[00:03:59] E eu sou uma pessoa chata.

[00:04:02] Eu já era chato naquela época, sabe?

[00:04:04] Ô, Dando, quem ouve esse podcast nunca vai negar isso.

[00:04:07] Nunca vai negar isso?

[00:04:07] Com certeza.

[00:04:08] Então, acho que não precisa nem falar,

[00:04:09] estou perdendo tempo com redundâncias.

[00:04:11] Mas, tipo…

[00:04:12] E eu lembro do efeito…

[00:04:13] Uou!

[00:04:14] Da primeira vez que eu vi Matrix.

[00:04:15] Eu lembro exatamente do efeito.

[00:04:17] Primeira vez que eu vi aquilo, eu falei assim,

[00:04:18] cara, isso é doideira.

[00:04:21] Isso é uma coisa que…

[00:04:22] Isso é um entretenimento do cinema, né?

[00:04:23] Para isso que você paga o ingresso de cinema.

[00:04:25] Porque, assim…

[00:04:27] A experiência de ver um filme no cinema

[00:04:28] é um pouco diferente de assistir a um filme.

[00:04:31] Eu não tenho muita vontade de assistir um Tarkovski no cinema.

[00:04:34] Eu não tenho muita vontade de assistir um David Init no cinema.

[00:04:36] É melhor esse caso,

[00:04:37] onde você pode pegar um negocinho na cozinha,

[00:04:39] pausar para ir no banheiro.

[00:04:40] É!

[00:04:40] Você pode pausar para pensar…

[00:04:41] Por mais que algumas pessoas sejam contra.

[00:04:44] Não, então.

[00:04:44] Mas você pode pausar para pensar.

[00:04:46] Óbvio, a experiência original…

[00:04:48] As pessoas não tinham acesso.

[00:04:50] Quando o Tarkovski fez,

[00:04:51] as pessoas não tinham acesso a um DVD,

[00:04:53] a uma fita cassete.

[00:04:55] É…

[00:04:55] Sorry.

[00:04:56] Sorry, not sorry.

[00:04:57] É, mas eu acho que…

[00:04:57] Eu acho que as pessoas entendem isso muito bem

[00:05:00] quando a gente transporta para outras coisas.

[00:05:02] Como, por exemplo,

[00:05:03] tem música que eu quero ouvir num estádio

[00:05:06] e tem música que eu quero ouvir sentado numa mesa.

[00:05:09] Entendeu?

[00:05:10] Sim!

[00:05:11] É isso, sim.

[00:05:12] Tem momentos para duas…

[00:05:13] Qualquer produto cultural,

[00:05:16] qualquer expressão artística,

[00:05:18] tem níveis de energia e de reações que ela vai gerar.

[00:05:22] E aí, tem ambientes que funcionam melhor

[00:05:24] para esse tipo de coisa.

[00:05:25] É, e eu…

[00:05:27] Eu acho que, assim…

[00:05:29] Depois a gente pode falar disso em outro episódio, né?

[00:05:31] De que, como hoje em dia,

[00:05:32] você tem melhores possibilidades de consumir coisas

[00:05:35] que foram feitas há muitos anos atrás, né?

[00:05:37] Então, você não tem que assistir as coisas de uma maneira precária

[00:05:39] só porque elas foram feitas em outro momento.

[00:05:42] Mas…

[00:05:42] O ponto que eu quero chegar é que Matrix,

[00:05:46] para mim, nos anos 90,

[00:05:47] ele foi o filme que melhor exemplificou cinema.

[00:05:51] Ele era cinema.

[00:05:52] Ele gritava cinema em todas as instâncias dele, né?

[00:05:55] Tipo…

[00:05:55] E…

[00:05:56] E era um cinema de qualidade.

[00:05:57] É, o primeiro Matrix é um filme de muita qualidade.

[00:06:00] Eu acho que é um filme que se tivesse virado um stand-alone, né?

[00:06:03] Aquele filme sozinho,

[00:06:05] ele teria sido…

[00:06:05] Ele tem começo, meio, fim, muito perfeito.

[00:06:07] E ele, ao mesmo tempo que ele é um filme grandioso,

[00:06:10] que é o que geralmente as pessoas lembram dele,

[00:06:12] ele é um filme muito simples na sua premissa, né?

[00:06:15] Ele é um filme de assalto.

[00:06:17] Ele é um filme de assalto.

[00:06:18] É um filme de heist, né?

[00:06:19] Tipo assim, que você tem…

[00:06:20] Você tem no primeiro ato…

[00:06:23] Ah, isso aqui são as pessoas que vão cometer o crime, né?

[00:06:25] Vão cometer o assalto.

[00:06:26] E depois, enfim…

[00:06:27] Tem o desenvolvimento daquilo, né?

[00:06:28] Olha, a gente tem que ir lá e pegar aquele objeto

[00:06:30] e depois as consequências disso.

[00:06:32] Simples.

[00:06:32] Simples.

[00:06:33] É tipo 11 homens e um segredo.

[00:06:34] Tem todo um gênero aí, né?

[00:06:36] Sobre isso.

[00:06:38] Inclusive, tem um episódio do Rick Morty

[00:06:39] que faz uma paródia desse tipo de coisa, né, cara?

[00:06:43] Tipo…

[00:06:44] Nunca vi esse episódio.

[00:06:44] É verdade.

[00:06:45] Eu acho que…

[00:06:46] Eu vi, mas faz muito tempo.

[00:06:48] É, ele faz uma paródia dos clichês do gênero.

[00:06:50] Mas, enfim…

[00:06:51] O Matrix original era isso.

[00:06:53] Só que é interessante ver como que as pessoas lembram.

[00:06:55] Primeiro, da polêmica do que foi o Matrix.

[00:06:57] Já vai falar disso.

[00:06:58] Mas também da grandiosidade da saga.

[00:07:01] Era um efeito secundário.

[00:07:03] Mas depois se tornou um efeito prioritário nas continuações.

[00:07:05] E esse filme…

[00:07:06] Eu já vou adiantar, assim, pras pessoas.

[00:07:08] O que que o Orlando…

[00:07:08] Muita gente me manda uma mensagem perguntando

[00:07:10] o que você achou do novo Matrix?

[00:07:11] O que você achou do novo Matrix?

[00:07:12] Porque eu disse abertamente que eu tava, assim,

[00:07:14] zero animado pra ver o filme.

[00:07:16] Zero.

[00:07:17] Zero.

[00:07:17] Falei, ah…

[00:07:18] Eu acho que ele é tão honesto quanto o primeiro filme.

[00:07:22] E tão bom quanto o primeiro filme.

[00:07:25] Ele tem os mesmos problemas do primeiro filme,

[00:07:27] inclusive.

[00:07:28] Ele tem os mesmos problemas.

[00:07:29] Ele não se esforça,

[00:07:30] que eu acho que isso é interessante,

[00:07:31] de tentar corrigir algumas coisas

[00:07:33] que dos primeiros filmes ele não tá nem aí pra isso.

[00:07:35] Ele pega e fala, ah,

[00:07:36] isso aqui é a nossa diegésia,

[00:07:38] isso aqui é o nosso universo,

[00:07:39] e bola pra frente, filhote.

[00:07:41] Bola pra frente, você vai ter que aceitar isso.

[00:07:42] É tipo, sei lá,

[00:07:43] explosão no espaço de Star Wars.

[00:07:45] Você tem que aceitar, por exemplo,

[00:07:46] que as máquinas se comportam que nem seres humanos no Matrix,

[00:07:48] sendo que isso não vai fazer muito sentido.

[00:07:50] Ou as pessoas tendem baterias humanas.

[00:07:52] Era melhor usar vacas.

[00:07:53] Mas, tipo, o…

[00:07:54] Problema.

[00:07:55] O filme não quer consertar isso.

[00:07:56] Ele quer jogar,

[00:07:57] ele quer jogar aquele jogo ali, pronto.

[00:07:58] E eu acho que é um filme muito honesto.

[00:08:00] E isso…

[00:08:02] É revolucionário no cinema de hoje em dia.

[00:08:04] Esse que é o ponto, né, cara?

[00:08:05] Isso é revolucionário no cinema de hoje em dia, né?

[00:08:08] Cara, ser honesto,

[00:08:08] fazer um filme desse,

[00:08:10] honesto,

[00:08:11] que não vai apelar só pra sua nostalgia boba das coisas,

[00:08:15] sua nostalgia poeril daquilo,

[00:08:17] é revolucionário no entretenimento de hoje em dia,

[00:08:19] que hoje tudo é nostalgia, né?

[00:08:21] Cara, eu acho que é muito interessante você falar que hoje isso é revolucionário,

[00:08:25] porque antes de gravar,

[00:08:27] a gente tava comparando com alguns outros filmes

[00:08:29] que, às vezes, fizeram coisas similares na sua época.

[00:08:32] E é isso, assim, eu lembrei muito de Gremlins 2,

[00:08:35] Massacre da Serra Elétrica Parte 2,

[00:08:38] e o…

[00:08:40] Eu acho que é o Hora do Pesadelo 4, o novo pesadelo,

[00:08:43] que é o que eles estão filmando um filme do Fred Krueger,

[00:08:45] dentro do filme do Fred Krueger.

[00:08:47] Então, eu acho que, tipo, é isso.

[00:08:49] A gente já viu antes autores pegarem suas franquias cinematográficas

[00:08:55] e usarem a oportunidade de uma…

[00:08:57] Uma continuação pra subverter as expectativas do público e do estúdio,

[00:09:03] exatamente porque aquilo já é familiar, né?

[00:09:05] Então, é tipo, a gente já sabe que você quer isso de novo,

[00:09:08] e a gente já sabe tudo que você gostou da primeira vez,

[00:09:10] então, a gente sabe exatamente que repetecos você quer,

[00:09:13] e aí eu vou brincar com te dar ou não te dar o que você quer,

[00:09:17] e também tirar sarro dessa relação, assim,

[00:09:20] de que a gente tá preso nisso quando não é necessário.

[00:09:23] E, especialmente, esse filme, ele sai como…

[00:09:27] Você falou, Orlando?

[00:09:28] Numa época em que a gente pode rever o primeiro

[00:09:31] quantas vezes a gente quiser o tempo todo.

[00:09:32] A gente tá cercado não só de poder rever o filme a qualquer momento,

[00:09:36] mas de usar gifs do filme o tempo inteiro,

[00:09:39] e ter qualquer imagem do filme que você lembrar,

[00:09:42] você faz puff e aparece na busca.

[00:09:44] Então, tipo, todos os elementos estéticos

[00:09:48] e qualquer tipo de prazer primário que um filme pode te dar,

[00:09:54] que uma experiência audiovisual pode te dar,

[00:09:56] pode ser destilado ao seu frame, assim.

[00:09:59] Então, você querer mais do mesmo

[00:10:02] de uma produção cinematográfica que envolve o trabalho

[00:10:04] de centenas de pessoas e movimenta toda essa energia,

[00:10:10] é um pouco…

[00:10:13] É sonhar baixo, né?

[00:10:14] É, na verdade, tem várias coisas aí no que você disse.

[00:10:18] A primeira delas é que tem um…

[00:10:21] Eu acho que dá pra comparar, por exemplo,

[00:10:22] esse novo Matrix com a nova trilogia do Star Wars,

[00:10:26] a última trilogia do Star Wars, né?

[00:10:29] Que, na minha perspectiva, é um fracasso,

[00:10:31] porque eles não apenas são filmes ruins,

[00:10:34] como eles pioram os outros filmes.

[00:10:37] Pioram porque, por exemplo…

[00:10:39] Isso não é nem um spoiler,

[00:10:41] todo mundo sabe, ah, o Imperador volta,

[00:10:43] no último episódio 9, o Imperador ressuscita.

[00:10:46] É, e beleza, então isso desfaz todo o arco da redescensão do Darth Vader,

[00:10:49] joga no lixo a redescensão do Darth Vader,

[00:10:51] porque aquilo não serviu de nada.

[00:10:52] Darth Vader se matou meio que à toa ali naquele momento,

[00:10:54] porque nada aconteceu.

[00:10:55] Feijoada.

[00:10:56] Inclusive, isso é brincado no filme do Matrix, né?

[00:10:59] Porque o Neo começa, ah, então se eu me sacrifiquei

[00:11:01] e ainda tem essa coisa com as bactérias, nada mudou.

[00:11:03] E a mulher, não, peraí, fica na moral.

[00:11:05] Muita coisa mudou.

[00:11:06] Relaxa.

[00:11:07] Tudo importa.

[00:11:08] E esse é um ponto interessante do filme,

[00:11:09] como é que ele lida diferente com isso.

[00:11:11] Ele fala assim, ele não tem medo.

[00:11:13] Eu achei muito corajoso.

[00:11:15] Ele não tem medo, ele tá contando uma história parecida,

[00:11:18] mas ele também não tem medo de avançar na história.

[00:11:21] Então, olha só, o universo que as coisas estão acontecendo,

[00:11:23] as coisas que estão em jogo agora,

[00:11:25] não são exatamente as mesmas coisas que estavam em jogo antes.

[00:11:28] Nós avançamos, sim.

[00:11:29] Não é que o Neo Star Wars…

[00:11:30] Não, parece que nada avançou.

[00:11:31] Nada aconteceu.

[00:11:32] E aí tem um ponto que você…

[00:11:34] Que é isso, né?

[00:11:35] Tem esse jogo de dar e não dar aquilo que as pessoas…

[00:11:39] A expectativa do público.

[00:11:41] E fazer uma certa troça com isso, uma certa piada.

[00:11:44] Um dos…

[00:11:45] Pra mim, o melhor elemento da nova trilogia do Star Wars

[00:11:47] é o Kyle Ram.

[00:11:49] Por quê?

[00:11:50] Porque ele não é o Darth Vader.

[00:11:52] Ele é o fã de Guerra das Estrelas.

[00:11:53] Não, esse é o mote do personagem.

[00:11:54] Ele é o fã de Guerra das Estrelas.

[00:11:55] Ele é o fã de Guerra das Estrelas.

[00:11:55] Ele é o fã de Guerra das Estrelas.

[00:11:55] Ele não é o Darth Vader.

[00:11:56] Ele quer ser o Darth Vader.

[00:11:57] Porque os caras falam…

[00:11:58] Você é um produtor de Star Wars, sabe?

[00:12:00] Cara, como é que eu vou fazer um novo filme de Star Wars

[00:12:01] sem o Darth Vader?

[00:12:03] Todo vilão que eu colocar ali, ele não vai ser o Darth Vader.

[00:12:05] Então, vamos fazer uma…

[00:12:07] Vamos botar justamente uma pessoa que ele não é o Darth Vader.

[00:12:10] E o problema dele é esse.

[00:12:10] Ele não é o Darth Vader.

[00:12:11] Ele nunca vai ser o Darth Vader.

[00:12:13] Isso é interessante.

[00:12:14] Só que no Star Wars, isso acaba desse jeito.

[00:12:17] No Matrix, isso se torna o próprio princípio do roteiro.

[00:12:21] Olha, esse não é…

[00:12:25] Esse não é o filme do Matrix que vocês esperavam ver.

[00:12:26] Vamos voltar aqui.

[00:12:27] Eu quero falar assim…

[00:12:28] Vamos voltar ao básico.

[00:12:30] O que é o básico do filme do Matrix?

[00:12:32] O básico do filme do Matrix é um filme de ação.

[00:12:34] E é um filme de assalto.

[00:12:36] Vamos fazer um outro filme de assalto

[00:12:37] que, inclusive, faz uma certa brincadeira com isso

[00:12:42] do que as pessoas esperam.

[00:12:43] Porque dentro do filme vai ter uma outra continuação do Matrix.

[00:12:46] E aí, tipo…

[00:12:47] E os caras falam assim…

[00:12:48] Não, o que vai ser o Matrix novo?

[00:12:50] Porque no filme…

[00:12:51] Isso não é um spoiler, gente.

[00:12:52] Enfim, é o começo do filme.

[00:12:53] Você tá no começo do filme.

[00:12:55] O Matrix é vendido como um jogo, né?

[00:12:59] Que foi um jogo que mudou o mundo.

[00:13:01] Foi um jogo, sei lá…

[00:13:01] Deve ter sido o Doom deles, né?

[00:13:03] Sim.

[00:13:05] E aí, o Warner Bros.

[00:13:07] quer fazer uma nova continuação do jogo, né?

[00:13:09] Cara, tipo assim…

[00:13:10] E aí, tem uma série de reuniões

[00:13:12] que, às vezes, eu tinha um momento que eu falava assim…

[00:13:14] Cara, eu acho que eu tô assistindo um reality show

[00:13:16] de como foram as reuniões

[00:13:17] pra feitura do roteiro do novo Matrix.

[00:13:20] O filme, tá ligado?

[00:13:21] Porque as pessoas falam assim…

[00:13:22] Não, o que define Matrix é um filme revolucionário.

[00:13:25] Não, é bullet time.

[00:13:26] A outra, não.

[00:13:27] É discussão…

[00:13:28] É um filme sobre direitos de pessoas trans.

[00:13:30] A outra, não.

[00:13:31] É sobre criptofascismo.

[00:13:32] Uma discussão que é a discussão da internet.

[00:13:35] Imagina, assim…

[00:13:36] E aí, o que a diretora vai e faz é…

[00:13:39] Não, vamos pegar…

[00:13:39] O filme pode ser sobre tudo isso.

[00:13:41] Mas, antes de tudo e sobretudo,

[00:13:43] ele é um filme de ação.

[00:13:44] E um filme de ação que é setado sobre essa plataforma.

[00:13:46] É uma base sólida, né?

[00:13:48] Mas aí é que eu acho interessante, assim…

[00:13:49] Que ela aumenta nesse filme…

[00:13:55] Os argumentos pra esses paralelos, né?

[00:13:58] Tipo…

[00:13:58] A gente tem a questão do Neo lá…

[00:14:02] Que ele se enxerga de uma maneira que os outros não enxergam ele, né?

[00:14:05] Então, tipo, ele tem uma desmorfia de corpo ali, né?

[00:14:10] Tipo, a Matrix faz com que você pareça essa pessoa aqui pra gente.

[00:14:13] Mas você, internamente, você se sente essa pessoa aqui e tal.

[00:14:17] E que teria sido uma grande oportunidade ali

[00:14:20] pra eles mudarem o gênero dos personagens e tal.

[00:14:24] Enfim.

[00:14:24] E aí, eu acho que tem a outra coisa aqui.

[00:14:27] A ação desse filme é péssima.

[00:14:30] Ela é mal feita.

[00:14:32] E eu acho que é um pouco de propósito.

[00:14:35] É, mas eu já não sei…

[00:14:36] Eu não me diria tão…

[00:14:36] Eu não sei, mas…

[00:14:38] Quero ouvir seu argumento.

[00:14:38] Eu achei bem ruim.

[00:14:39] Eu achei muito ruim.

[00:14:41] Eu achei que, assim…

[00:14:41] Tipo assim, tem…

[00:14:43] O timing dos cortes nas cenas de luta está ruim.

[00:14:46] Sabe?

[00:14:46] A coreografia não está tão boa.

[00:14:48] E aí, entendo também.

[00:14:49] Os atores estão 20 anos mais velhos.

[00:14:51] E aí…

[00:14:52] Mas só que isso tudo dentro…

[00:14:54] Você parava pra pensar, tipo assim…

[00:14:55] Essas lutas não estão tão boas quanto.

[00:14:57] Eles não têm mais idade pra isso.

[00:14:59] Tudo isso, tipo…

[00:15:01] Alimenta o simples fato de, tipo…

[00:15:03] Tá, mas como é que ia ser melhor, assim?

[00:15:04] Você não quer só voltar e ver o filme?

[00:15:06] E aí, ela faz exatamente isso.

[00:15:08] E no meio das cenas,

[00:15:09] ela começa a botar as cenas do primeiro filme.

[00:15:11] Era isso que você queria, né?

[00:15:12] Ele e ele brincando de novo.

[00:15:14] Tá aqui, ó.

[00:15:14] Tá aqui, ó.

[00:15:15] Toma.

[00:15:15] É a mesma coisa de novo.

[00:15:16] E isso fica muito imperceptível

[00:15:18] quando eles emulam o começo do…

[00:15:20] Porque o filme começa emulando o começo do primeiro filme.

[00:15:23] É.

[00:15:24] Mas esse filme é a simulação da primeira cena do outro filme.

[00:15:27] Só que com tudo um pouquinho pior, assim.

[00:15:29] A roupa não tá igual.

[00:15:31] É tipo…

[00:15:31] É aquele Uncanny Valley, assim.

[00:15:33] Aquela coisa, tipo…

[00:15:33] Eu já vi isso antes,

[00:15:35] mas tá diferente o suficiente

[00:15:36] pra eu não me sentir confortável.

[00:15:38] E aí, eu juro pra você, cara,

[00:15:39] que uma das coisas que eu pensei que parecia

[00:15:41] quando eu tava assistindo,

[00:15:42] era que…

[00:15:43] Ah, nossa, parece que eles fizeram

[00:15:44] como seria essa cena na paródia pornô do filme, sabe?

[00:15:47] Cara, eu pensei algo semelhante,

[00:15:49] mas não foi paródia pornô, sabe o que eu pensei?

[00:15:51] É Matrix série da TV.

[00:15:53] Tá ligado?

[00:15:54] Então, sabe o que me fez pensar em Matrix série da TV muito?

[00:15:57] Quando eles vão pro mundo real

[00:15:59] e tem lá a Niobe velha,

[00:16:00] com aquela maquiagem de velha, toda prostética.

[00:16:03] Rapidinho, vamos fazer um som adendo aqui.

[00:16:05] É impressionante como a indústria cinematográfica

[00:16:08] consegue rejuvenescer as pessoas,

[00:16:11] consegue ressuscitar as pessoas pra fazerem papéis,

[00:16:14] mas não consegue produzir um papel de velho decente,

[00:16:17] envelhecer as pessoas de velho decente.

[00:16:18] Porque Hollywood tem medo de velho,

[00:16:19] eles nunca viram um velho.

[00:16:20] Exato.

[00:16:20] Não sabe lidar com a velhice.

[00:16:22] Não sabe lidar com a velhice.

[00:16:23] Exato.

[00:16:23] Mas…

[00:16:24] Esse problema.

[00:16:25] Agora Matrix, milionários…

[00:16:28] Cara, você não acredita que a Niobe envelheceu.

[00:16:31] E…

[00:16:31] Porra, as novelas da Record também passam pelo mesmo problema, cara.

[00:16:34] Adorei o patamar.

[00:16:36] Mas…

[00:16:37] Não, mas essa cena toda dele, tipo,

[00:16:40] criando aquela nova equipezinha

[00:16:42] e a nova cidade dos humanos, a Iowa e tal,

[00:16:45] me lembrou muito o destino que filmes como Matrix tinham

[00:16:48] num cenário midiático antigamente,

[00:16:50] que é…

[00:16:51] Eles viravam uma série de TV, sabe?

[00:16:53] Tipo assim, eu pensei, cara,

[00:16:54] esse é o seriado do Robocop,

[00:16:56] se o Matrix tivesse saído em 91,

[00:16:58] ele teria um seriado, tipo, do Robocop, sabe?

[00:17:01] E aí é isso, é esse orçamento menor.

[00:17:04] Não, total.

[00:17:04] E assim, tem uma coisa,

[00:17:05] você estava falando disso,

[00:17:06] que eu acho que é pra…

[00:17:08] Matrix, as continuações do Matrix,

[00:17:10] eu digo, o primeiro filme do Matrix é sensacional.

[00:17:13] E eu sou chato.

[00:17:15] O 2 e o 3, eu acho filmes horrorosos.

[00:17:18] Eu assisti recentemente…

[00:17:19] Não me divertem.

[00:17:19] O terceiro, o terceiro, inclusive, é um filme que…

[00:17:24] É um filme ofensivo.

[00:17:25] É um filme ofensivo, em sentido de, cara,

[00:17:27] porque toda aquela sequência da batalha lá no…

[00:17:30] Em Zion, né?

[00:17:31] Zion.

[00:17:32] Ela é uma…

[00:17:32] É aquele tipo de parte do roteiro

[00:17:35] que você depende da burrice dos personagens,

[00:17:37] tanto dos robôs, quanto dos humanos, pra acontecer.

[00:17:39] Aquilo só faz sentido porque os humanos e os robôs são burros.

[00:17:42] Né?

[00:17:42] Tipo assim, olha, nada daqui faz sentido.

[00:17:45] Assim, só que uma coisa que mais me irrita no Matrix,

[00:17:48] nas continuações do Matrix,

[00:17:50] foi justamente um fenômeno que é o universo estendido, né?

[00:17:53] Então, por exemplo,

[00:17:54] pra você entender, por exemplo,

[00:17:55] a broca que é um elemento central do roteiro,

[00:17:59] dos dois, da continuação,

[00:18:01] você tem que assistir o Animatrix, né?

[00:18:03] Sim.

[00:18:04] E aí, o fato é que tem um problema aqui também,

[00:18:06] que a gente tava falando de hoje em dia,

[00:18:07] dá pra gente consumir ótimo…

[00:18:09] Isso da melhor forma possível.

[00:18:11] No caso do Matrix, tem um porém.

[00:18:14] Porque tem um jogo, Enter the Matrix, né?

[00:18:16] Que é a história da Niobe e do Ghost.

[00:18:19] É, exatamente.

[00:18:20] Que é injogável hoje em dia.

[00:18:21] Você não tem como baixar e jogar isso de maneira legal.

[00:18:23] Acho que em nenhum lugar vende.

[00:18:25] Legalmente, acho que não.

[00:18:26] Mas, é, assim, você poderia…

[00:18:29] Mas você não tem por que fazer isso.

[00:18:31] Não, o que é real é que a gente descobriu

[00:18:33] que a gente não tinha por que fazer isso nem naquela época, né?

[00:18:35] Exato, esse que é o ponto.

[00:18:37] O jogo é injogável.

[00:18:38] Que bom que você falou de jogos do Matrix,

[00:18:40] porque me lembrou…

[00:18:41] Tem um certo clima nesse filme,

[00:18:44] especialmente no terceiro ato, ali no fim,

[00:18:46] que me lembra muito o que as irmãs Wachowski fizeram no Path of Neo,

[00:18:51] que foi o segundo jogo.

[00:18:53] O videogame do Matrix.

[00:18:57] E aí, você revive momentos do Neo durante a trilogia toda.

[00:19:03] E no final vai ter a batalha com o Agente Smith.

[00:19:06] Agente Smith gigante, né?

[00:19:08] Exato.

[00:19:08] E aí, aparecem as Wachowski falando

[00:19:12] não, não, não, isso não ia ser divertido

[00:19:14] se a gente fizesse igual.

[00:19:17] Então, aqui vai ser um pouco diferente.

[00:19:19] E aí, o Agente Smith vira um gigante feito de carros.

[00:19:23] E aí, esse é o clima que eu senti muito de tipo

[00:19:29] ah, isso é nosso, a gente pode brincar com isso

[00:19:32] e a gente tá chamando você junto pra brincadeira.

[00:19:36] Que é um pouco do negócio de tipo assim

[00:19:38] pelo amor de Deus, é só um filme.

[00:19:40] Não leve tão a sério.

[00:19:43] Nada disso aqui é tão sério assim.

[00:19:45] É só tipo um jeito da gente explorar temas

[00:19:47] que a gente acha legais

[00:19:49] e estéticas que a gente acha legais.

[00:19:51] É, eu acho que sim.

[00:19:53] Porque tem uma frase clássica, né?

[00:19:55] Cara, se você quer falar muita coisa,

[00:19:57] escreve uma carta, sabe?

[00:19:59] Se você quer passar muito conceito,

[00:20:00] você escreve um tratado filosófico.

[00:20:02] Eu acho que um dos maiores problemas do Matrix 2 e 3

[00:20:05] é justamente isso, né?

[00:20:06] Chegou um momento que elas queriam falar muita coisa, né?

[00:20:11] E uma interpretação de forma mais sólida.

[00:20:13] Eu acho que exatamente o problema do Matrix 2 e 3

[00:20:16] que esse aqui não conserta,

[00:20:18] mas ele não cai nesse erro,

[00:20:21] é o seguinte,

[00:20:22] é que criou-se essa expectativa,

[00:20:23] por Matrix ser um filme considerado mais inteligente

[00:20:27] que a média dos filmes de ação da época

[00:20:28] e cheio de referências,

[00:20:31] que aí com mais tempo e dinheiro,

[00:20:33] eu acho que a pressão, às vezes,

[00:20:36] interna mesmo, das criadoras,

[00:20:38] virou tipo, como é que a gente faz mais?

[00:20:40] Mais disso, né?

[00:20:41] A gente tem que dar mais referências,

[00:20:42] a gente tem que dar mais cenas de ação

[00:20:44] e mais budget time,

[00:20:46] e mais isso,

[00:20:47] e mais temas.

[00:20:49] E aí, esse é o filme de alguém que aprendeu.

[00:20:53] Tentou, e aprendeu, e falou assim,

[00:20:56] não, não era isso que eu tinha que ter feito.

[00:20:57] O que eu tinha que ter feito era isso aqui, ó.

[00:20:59] É, porque é interessante,

[00:21:01] porque isso é justamente o contrário…

[00:21:06] É impressionante, porque assim,

[00:21:07] quando eu tava falando do Star Wars, né?

[00:21:08] Porque o Star Wars é a continuação pior dos filmes anteriores.

[00:21:10] Esse filme, ele melhora os filmes anteriores, né?

[00:21:13] Ele melhora, porque quando você para e pensa assim,

[00:21:16] aí eu não vou…

[00:21:17] Gente, dá um spoilerzinho?

[00:21:19] Pode, eu deixo.

[00:21:20] Porque isso aqui só vai sair em janeiro, entendeu?

[00:21:23] Então…

[00:21:23] E aí já foi um tempo.

[00:21:24] É, porque assim,

[00:21:25] tem uma coisa que eu achei interessante, né?

[00:21:28] Você não tem certeza…

[00:21:31] O filme que você assistia era o jogo.

[00:21:33] Esse que é o ponto, né?

[00:21:34] Isso que eu achei bem legal, assim.

[00:21:35] Você não tem acesso ao evento original.

[00:21:38] Você não viu o evento original.

[00:21:39] Então, todas aquelas cagadas que a gente viu nos filmes,

[00:21:43] aquilo podia ser um jogo, pronto.

[00:21:44] Exato.

[00:21:45] Mas é assim…

[00:21:47] E a história é que se propaga.

[00:21:48] E existe meio que essa noção no filme,

[00:21:50] porque o que a gente, né,

[00:21:52] é levado a entender é que, assim,

[00:21:54] é que os eventos da primeira trilogia acontecem

[00:21:57] e quando eles resetam a Matrix,

[00:21:59] meio que existe, tipo, uma memória, né?

[00:22:02] Um traço de memória ali em todo mundo,

[00:22:04] porque é um evento cataclísmico, vamos dizer.

[00:22:07] E que aí o jeito, tipo, da Matrix digerir aquilo

[00:22:10] e daquela memória reprimida não conflitar

[00:22:13] com a nova realidade que eles estabelecem

[00:22:15] é que aquilo tem que ser um elemento da nova realidade.

[00:22:17] Então, a maneira daquilo ser um elemento…

[00:22:19] Ah, não, isso aí é um jogo.

[00:22:20] Você tá lembrando daquele jogo.

[00:22:21] Aquele jogo que todo mundo conhece.

[00:22:22] Pois é, hein?

[00:22:23] Do mesmo jeito que na nossa realidade seria o…

[00:22:26] Não, você tá lembrando daquele filme de 99.

[00:22:29] Não, então, mas eu acho que é interessante

[00:22:31] porque isso tem uma coisa, que eu acho que…

[00:22:34] Isso abre…

[00:22:35] Eu acho perfeito isso, porque…

[00:22:37] Tá entre aquele recurso horroroso do cinema, né?

[00:22:41] Isso era tudo um sonho,

[00:22:42] que acontece, por exemplo, no…

[00:22:46] Na saga Crepúsculo, tem um filme inteiro

[00:22:48] que é um sonho do Crepúsculo, né, cara?

[00:22:50] Qual?

[00:22:50] É aquele da guerra.

[00:22:52] Que tem a guerra lá do filme.

[00:22:54] Aquela guerra não acontece.

[00:22:55] Eu não vi, eu só vi os três primeiros.

[00:22:57] Não, tem uma guerra que…

[00:22:58] O momento que o filme parece que ficou bom,

[00:23:00] de repente as pessoas começam a se matar,

[00:23:01] de repente aquilo nada disso aconteceu.

[00:23:02] Achei que esse filme tinha ficado bom.

[00:23:04] Não, foi só um sonho.

[00:23:05] É, claro que a gente não vai fazer isso com esse filme, tá ligado?

[00:23:08] Basicamente foi isso.

[00:23:09] E ele fica entre ser um sonho e ser aquilo.

[00:23:12] Isso aqui é o canônico, sabe?

[00:23:14] Que é o pior.

[00:23:15] Não, ele fala assim, cara,

[00:23:15] isso aqui que você viu é uma representação do evento.

[00:23:18] Saca?

[00:23:19] Então, assim, tem distorções, tem um monte de coisa.

[00:23:20] Porque tudo que você tem,

[00:23:22] eu acho que esse que é um tema que é muito interessante,

[00:23:24] por isso que eu falo que fica mais interessante ainda.

[00:23:26] Porque, assim, a descrença do Neil…

[00:23:29] Vamos tocar num ponto aqui.

[00:23:32] O Keanu Reeves não é um grande ator.

[00:23:35] Não.

[00:23:35] O Keanu Reeves, a gente tem que separar o ator de sua obra.

[00:23:38] Não, não, não.

[00:23:39] Eu preciso falar, assim…

[00:23:41] Mas ele é perfeito com o filme.

[00:23:44] Exatamente.

[00:23:44] Por que ele é perfeito com esse filme?

[00:23:46] É porque o Keanu Reeves, ele é um vaso

[00:23:50] pronto para ser preenchido por todos nós, da plateia.

[00:23:55] Sim!

[00:23:56] E o Keanu Reeves é o protagonista, né, cara?

[00:23:58] Exato!

[00:23:58] E quem melhor pra ser o protagonista de um videogame

[00:24:01] do que o Keanu Reeves, entendeu?

[00:24:03] É!

[00:24:04] Eu, cara, fiquei até com vontade de jogar o Cyberpunk 2077

[00:24:07] por causa disso aí, cara.

[00:24:08] Não fica, não.

[00:24:08] Eu tentei fazer isso em novembro e foi decepcionante.

[00:24:11] Foi decepcionante?

[00:24:12] Tá bom, obrigado.

[00:24:13] Nem Keanu Reeves salvou esse jogo.

[00:24:15] Mas, então…

[00:24:15] Mas a grande questão é…

[00:24:17] Tipo…

[00:24:19] O…

[00:24:19] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:20] O…

[00:24:25] O…

[00:24:25] O…

[00:24:26] O…

[00:24:26] O…

[00:24:26] O…

[00:24:26] O…

[00:24:26] O…

[00:24:26] O…

[00:24:26] O…

[00:24:26] Então…

[00:24:26] Porque…

[00:24:28] O tempo inteiro, tudo que vai passar…

[00:24:31] Tudo…

[00:24:31] Exatamente isso.

[00:24:32] Ele é uma fone em branco do filme.

[00:24:34] Ele é uma fone em branco.

[00:24:35] Só que, então, isso tem um efeito bom e um efeito ruim.

[00:24:37] O efeito bom disso é que permite justamente isso, né?

[00:24:40] Isso foi de proposital.

[00:24:41] Elas falavam disso na época que escolheram ele, né?

[00:24:43] Porque ele é o cara que tá meio…

[00:24:44] Parece que tá meio chapado no momento.

[00:24:46] Sei lá o que ele tá ali…

[00:24:47] Ele não…

[00:24:47] Ele, assim…

[00:24:47] Ele não…

[00:24:48] Ele não esboça emoções muito exageradas.

[00:24:52] E ele…

[00:24:52] Ele esboça o mínimo possível pra que você consiga imprimir nele a sua reação que você

[00:24:58] tá tendo naquele momento.

[00:24:59] E aí, uma coisa que é interessante, porque ele nunca…

[00:25:01] Isso fica meio perceptível nos filmes, que ele nunca foi muito apaixonado pela ideia

[00:25:05] de ele ser o escolhido, sabe?

[00:25:06] Qual é…

[00:25:07] Sim, que já é um problema…

[00:25:08] Que é o problema que o Reloaded e o Revolutions tratam, né?

[00:25:13] Mas não tratam tão bem quanto esse.

[00:25:14] Então, aí que é o ponto.

[00:25:17] Justamente, tipo, talvez…

[00:25:18] Por um pouco das limitações do Ken Reeves enquanto ator, a ideia de que ele, pô…

[00:25:24] De que ele não tava muito crente nisso, não ficou…

[00:25:28] Ou até, pô…

[00:25:29] Talvez problema de montagem, roteiro…

[00:25:30] Não fica tão perceptível nos outros filmes.

[00:25:32] Porque tem um momento que ele abraça…

[00:25:33] Não, porque na verdade, nos outros filmes…

[00:25:34] A ideia de que ele é o Neo-Jesus.

[00:25:36] Exato.

[00:25:36] Então, porque nos outros filmes o problema é esse.

[00:25:38] É que ele não confia necessariamente, mas o filme o tempo todo martelo nas cabeças.

[00:25:43] Não, mas ele é, sim, o escolhido.

[00:25:44] É, ele tá sempre…

[00:25:45] Nesse filme, fica muito perceptível…

[00:25:48] De que, na verdade, tudo aquilo acontece porque ele era uma ideia.

[00:25:52] A ideia, tipo assim, ele começa…

[00:25:54] Ele tem uma relação com a ideia.

[00:25:56] Então, a força que ele extrai daquilo é a crença que a Trinity tem na ideia.

[00:25:59] Do Morpheus tem na ideia.

[00:26:00] Então, ele extrai aquela crença dele da força que as outras pessoas têm daquilo.

[00:26:04] Então, ele se comunica.

[00:26:05] É um filme sobre comunicação.

[00:26:07] Sabe?

[00:26:07] Você pode…

[00:26:08] Sobre conexão humana.

[00:26:10] Isso, isso.

[00:26:11] E esse filme fica isso muito mais explícito.

[00:26:13] Porque o Neo, ele já não é mais o mesmo Neo.

[00:26:16] Ele consegue fazer as paradinhas dele.

[00:26:17] Mas ele…

[00:26:18] Ele é claramente um objeto em decadência, né?

[00:26:21] Um ser em decadência, né?

[00:26:22] Tipo, física, mental…

[00:26:24] E parte dessa decadência, né?

[00:26:25] O filme explora como ele também…

[00:26:28] É porque ele tá separado da Trinity, né?

[00:26:30] Então, tipo assim…

[00:26:31] É do mesmo jeito que ela foi na primeira…

[00:26:33] Da primeira vez que isso aconteceu.

[00:26:35] O Stoppin e quem realmente, tipo…

[00:26:39] Cuja fé nele deu o impulso pra ele.

[00:26:42] Dessa vez, como eles estão separados…

[00:26:44] Ele tá muito…

[00:26:45] Ele tá fraco.

[00:26:46] Ele precisa dela.

[00:26:48] E aí que vem o ponto que eu queria chegar.

[00:26:50] Porque, assim…

[00:26:50] Por que que eu falo…

[00:26:50] Acho que esse filme é um dos melhores filmes anteriores.

[00:26:53] Porque quando você assiste isso…

[00:26:55] Reassiste, pensa nesses filmes…

[00:26:57] A partir da perspectiva que é explicitada…

[00:26:59] Melhor explicitada a partir desse quarto filme…

[00:27:01] De que ele era uma ideia…

[00:27:02] E de que tudo ali é por conta da crença que as pessoas têm na ideia…

[00:27:06] Justamente isso que o filme o tempo todo faz.

[00:27:08] Ele tá descrente.

[00:27:09] Mas o filme…

[00:27:09] Não, mas ele é o escolhido.

[00:27:11] Não, mas ele é o cara.

[00:27:11] Mas ele é o cara.

[00:27:12] É porque a gente é uma representação daquele evento.

[00:27:15] Então, as pessoas que estão contando aquele evento…

[00:27:17] Acreditavam naquilo.

[00:27:18] Então, a gente tem que…

[00:27:18] Ele dizia, mas…

[00:27:19] A gente sabe o que ele era.

[00:27:20] Então, isso melhora o filme.

[00:27:21] Quando você sabe que aquilo não é, digamos…

[00:27:23] O relato direto, né?

[00:27:24] É como se você tivesse um…

[00:27:26] Como é que é aquele…

[00:27:27] É um narrador não confiável, mas confiável.

[00:27:29] Sabe o que é?

[00:27:30] Tipo…

[00:27:30] Você não pode confiar muito nele…

[00:27:32] Mas você pode confiar, sabe?

[00:27:33] No final das contas.

[00:27:34] E aí que eu acho que a gente tem que fazer uma tangente aqui…

[00:27:37] Pra mencionar Animatrix.

[00:27:40] Que é…

[00:27:41] Que tem na Animatrix aqueles dois curtas…

[00:27:43] Da Segunda Renascença.

[00:27:45] Que contam…

[00:27:46] A partir do…

[00:27:48] Do ponto de vista das máquinas.

[00:27:50] Por que que se deu…

[00:27:52] A guerra entre as máquinas e os humanos?

[00:27:55] E mostra…

[00:27:56] Os humanos…

[00:27:57] Perseguindo as máquinas.

[00:27:59] E abusando das máquinas.

[00:28:02] E como que…

[00:28:03] O ódio dos humanos isola os robôs.

[00:28:06] E aí, eventualmente, os humanos…

[00:28:08] Jogam bombas atômicas nos robôs.

[00:28:10] E fodem com o meio ambiente.

[00:28:13] Pra tentar matar os robôs.

[00:28:14] E sucumbem…

[00:28:16] A exploração…

[00:28:18] Do problema ambiental…

[00:28:19] Gerado…

[00:28:20] Pela essa tentativa de acabar com os robôs.

[00:28:22] E que a partir daí os robôs vêm…

[00:28:23] Bom, beleza.

[00:28:23] Não tem como colaborar.

[00:28:25] Então a gente vai…

[00:28:26] Dominar a parada.

[00:28:27] Então, tipo, é isso.

[00:28:27] Beleza.

[00:28:28] Não tem como coexistir.

[00:28:29] Não vamos coexistir, então.

[00:28:31] E aí, acabou.

[00:28:31] E é muito doido.

[00:28:32] Porque aí…

[00:28:33] Você vê a evolução dos robôs ali como…

[00:28:35] Né?

[00:28:35] Seres quase humanoides.

[00:28:37] Pra depois, né?

[00:28:37] Eles começarem a cada vez mais não precisarem ser humanoides.

[00:28:40] Porque eles, né?

[00:28:40] Não tem nenhuma interação com os humanos.

[00:28:43] Mas é muito interessante.

[00:28:44] Porque ele…

[00:28:44] Ele faz um retrato…

[00:28:47] Muito…

[00:28:47] Geopolítico.

[00:28:48] Muito completo, assim.

[00:28:49] De como degringola essa situação.

[00:28:51] E que é algo que você nunca vê nos filmes.

[00:28:53] Porque no ponto de vista dos humanos…

[00:28:55] Eles são as vítimas.

[00:28:57] O que…

[00:28:57] O conflito existe a partir do momento que as máquinas dominaram eles.

[00:29:00] E não antes.

[00:29:01] E aí…

[00:29:02] Eu gostei muito que nesse filme…

[00:29:04] Eles superam isso, de certa maneira.

[00:29:07] Com o fato de que agora, dentre os rebeldes, há robôs também.

[00:29:10] E há…

[00:29:10] Softwares.

[00:29:12] Né?

[00:29:13] Softwares conscientes.

[00:29:15] E que aí eles…

[00:29:16] Tipo…

[00:29:16] A gente não tava lutando…

[00:29:17] Pelos humanos.

[00:29:18] A gente tá lutando pela liberdade dos seres, né?

[00:29:22] Então…

[00:29:23] Faz sentido a gente estar junto.

[00:29:25] É…

[00:29:25] Aí tem algumas coisas que…

[00:29:27] Esse que é, pra mim, justamente, um dos problemas…

[00:29:30] Ah, agora você vai ser contra a liberdade dos robôs.

[00:29:32] É isso?

[00:29:32] Tô total contra a liberdade.

[00:29:34] Não, contra a liberdade de todo mundo.

[00:29:35] Eu sou a favor…

[00:29:36] Você, você, você…

[00:29:38] É um antirrobocista?

[00:29:40] Antirrobocista!

[00:29:41] Eu sou, eu sou.

[00:29:42] Agora, finalmente, já narco fino exposto.

[00:29:44] Não, o meu problema maior…

[00:29:45] O meu problema maior é o seguinte.

[00:29:47] Que é um problema…

[00:29:47] O problema é que eu sempre tenho com os primeiros filmes do Matrix.

[00:29:50] Tem a premissa furada das pessoas como baterias.

[00:29:52] Isso é uma premissa péssima, né?

[00:29:54] Tipo, que originalmente seria…

[00:29:56] Seria uma rede neural como a internet, né?

[00:29:59] Depois mudaram.

[00:29:59] Não, não vou botar pra bateria porque o público pode não entender o que que é isso.

[00:30:02] E aí, tipo…

[00:30:03] Fizeram uma…

[00:30:04] Mas, Orlando, você não acha que…

[00:30:06] Não acha que tem algo meio poético?

[00:30:09] No…

[00:30:09] No ser humano ser a bateria?

[00:30:13] Podem, mas assim…

[00:30:14] Porque você não diria que…

[00:30:15] Porque você não diria que fossem vacas, né?

[00:30:16] Você não diria que…

[00:30:17] Que…

[00:30:17] Que…

[00:30:17] Que os outros seres humanos são a bateria de nós mesmos?

[00:30:21] E que só porque a gente tem a conexão com outros seres humanos que a gente segue vivendo?

[00:30:25] E que é isso que o Matrix representa no fim?

[00:30:27] É…

[00:30:28] Não sei.

[00:30:29] Agora eu acho que você foi longe demais.

[00:30:30] Mas é que…

[00:30:31] Eu tô pensando…

[00:30:32] Na época, eu tô pensando na diegésia do filme.

[00:30:34] Na diegésia do filme…

[00:30:35] Ah, tá.

[00:30:35] Mas eu…

[00:30:36] Mas é uma decidição em vacas.

[00:30:37] Eu acho que…

[00:30:38] Eu acho que analisar diegésia de ficção científica não faz sentido.

[00:30:40] É tudo uma grande metáfora.

[00:30:42] Mas então…

[00:30:42] Mas aí é que…

[00:30:43] Aí você segue adiante porque é tipo explosão no espaço, sabe?

[00:30:46] Isso, exatamente.

[00:30:47] Explosão científica.

[00:30:48] Beleza.

[00:30:48] Show.

[00:30:48] É a premissa.

[00:30:50] As máquinas fizeram um erro e ninguém quis corrigir.

[00:30:53] Ninguém chegou naquela reunião, né?

[00:30:55] Do…

[00:30:55] No brainstorm e falou assim…

[00:30:57] E se a gente usasse vacas?

[00:30:59] Ninguém fez isso.

[00:30:59] Ó, pode assistir o negócio?

[00:31:01] Vaca ocupa muito mais espaço.

[00:31:04] Porra, mas gera muito mais energia.

[00:31:06] É?

[00:31:07] É.

[00:31:07] É um negócio assim desproporcional, tá ligado?

[00:31:09] Assim, muito desproporcional.

[00:31:11] Mas não…

[00:31:11] Mas elas também…

[00:31:12] Elas soltam muito metano, não?

[00:31:14] Que também pode ser utilizado pra fazer…

[00:31:16] Pra queimar o metano.

[00:31:17] É, então é só…

[00:31:19] É só lazer, tá ligado?

[00:31:20] Ô, ô.

[00:31:21] Orlando.

[00:31:22] Agora só eu entrei em você aqui.

[00:31:23] Os ouvintes não estão nos ouvindo porque eu botei a boca na frente do microfone.

[00:31:26] É o seguinte.

[00:31:28] Pega um dinheiro e a gente vai lançar um filme.

[00:31:31] É…

[00:31:31] Tipo…

[00:31:33] Paródia, assim.

[00:31:34] Chamado Caltex.

[00:31:35] Porra, pensei…

[00:31:36] Caralho, maluco.

[00:31:38] Já é isso.

[00:31:38] Caltex.

[00:31:39] Essa é a rede neural, maluco.

[00:31:40] É, é uma rede neural, hein, cara.

[00:31:41] Porque…

[00:31:42] E sabe o que pode ser o ator principal?

[00:31:44] Lembra daquela…

[00:31:46] Como é que é?

[00:31:47] Cowboys?

[00:31:50] Cowboys?

[00:31:50] Ah, não, tá.

[00:31:51] Mas eu achei que eu tinha que lembrar de algum cowboy específico, não.

[00:31:53] Ótimo.

[00:31:53] Mas tinha.

[00:31:54] Tinha aquele desenho que tinha os…

[00:31:56] Os cowboys de búfalo mesa.

[00:31:58] Como é que era?

[00:31:59] Era um desenho…

[00:32:00] Peraí, peraí.

[00:32:01] Peraí, deixa eu…

[00:32:02] Cowboys…

[00:32:04] Os cowboys de búfalo mesa.

[00:32:05] Uma coisa assim.

[00:32:07] É um desenho animado.

[00:32:07] Wild West.

[00:32:08] Os cowboys de búfalo mesa.

[00:32:11] Caralho, irmão.

[00:32:12] Eu não lembrava desse…

[00:32:14] Mas sim, não.

[00:32:15] Perfeito.

[00:32:15] Eles são o zero da resistência.

[00:32:16] No nosso universo estendido, o filme…

[00:32:20] Porque eles vivem numa eterna simulação de velho oeste.

[00:32:22] Ah, não é de búfalo.

[00:32:23] É Cowboys of Moo Mesa.

[00:32:26] Moo Mesa.

[00:32:27] Ah, isso, isso.

[00:32:28] Mas acho que em português ficou búfalo mesa, eu acho.

[00:32:31] Talvez, talvez.

[00:32:32] Tem uns ali que parecem búfalos.

[00:32:33] Mas enfim, todos os animais daquele estilo…

[00:32:36] Então, a gente pode falar que a nossa simulação é aquilo ali.

[00:32:40] É um mundo de desertos.

[00:32:41] E as vacas e os bois ficam se vendo a merda toda.

[00:32:44] Porque quando eles são libertos, eles são vacas e bois normais.

[00:32:46] Tá ligado?

[00:32:47] E aí nada dá certo.

[00:32:48] Hum, porra.

[00:32:49] Mas é bom.

[00:32:50] Porque é a mesma coisa.

[00:32:51] Tipo, quando você é liberto da matrícula, você não consegue voar.

[00:32:53] Você, tipo, come aquela comida ruim.

[00:32:56] Então, aí, tipo…

[00:32:57] E a vaca e o boi ficam assim…

[00:32:58] Moo.

[00:32:59] Ah, eu sei o que eu tô fazendo.

[00:33:01] Sim, vai ser só, tipo, um monte de vaca com óculos de VR, assim, na cara.

[00:33:05] Porque a gente não tem budget pra fazer os pods e tal.

[00:33:07] É.

[00:33:08] Mas enfim, porra, até perdi agora que eu ia falar sobre isso.

[00:33:11] Porque a gente tava antes da vaca.

[00:33:13] Ah, tá.

[00:33:13] Das convenções.

[00:33:14] Da DSS, lá.

[00:33:15] Não sei a bateria.

[00:33:16] Mas, mas o…

[00:33:20] Um dos pontos que me incomoda é justamente o seguinte.

[00:33:24] A possibilidade…

[00:33:26] Porque, assim, é o mesmo problema que eu tenho com Star Wars, né?

[00:33:29] Porque, cara, você não importa se você tá em Tatooine, se você tá na…

[00:33:32] Sei lá, tipo, todo mundo se comporta e pensa como um cidadão médio dos Estados Unidos.

[00:33:37] E a gravidade é igual, né?

[00:33:38] É, tem isso também, né?

[00:33:40] Tipo, então todo mundo é aquele humanoide que pode ter uma…

[00:33:42] Que tá saindo tentáculos da boca, mas pensa como um cidadão médio dos Estados Unidos.

[00:33:46] Mas aí…

[00:33:46] Mas aí, Orlando, será que não é um comentário sobre o fato de que a gente sempre se homonegeiza culturalmente?

[00:33:53] Mas isso não acontece.

[00:33:55] Mas você não acha que é um artefato, assim, de, tipo, de você querer comentar a globalização?

[00:34:04] Que existe um império central do universo naquela realidade?

[00:34:08] É, mas eu não acho, não acho.

[00:34:10] Eu não acho que vai pra esse ponto, não.

[00:34:11] Mas mesmo se fosse…

[00:34:11] Ah, mas eu tinha que perguntar, né?

[00:34:13] É, não, mas foi bem fraco.

[00:34:15] Porque, assim…

[00:34:16] A grande questão é que existe, né?

[00:34:18] O universal robótico, e depois fica muito claro com isso,

[00:34:21] depois quando eles vão interagir com os robôs, né?

[00:34:24] Os robôs têm aquele tipo de humor…

[00:34:26] Como é que é?

[00:34:27] É kinky, não?

[00:34:27] Como é que chama?

[00:34:28] É bem estadunidense, né?

[00:34:30] Uma coisa meio…

[00:34:30] É, não, a cultura ali é, tipo…

[00:34:33] É?

[00:34:33] E, assim…

[00:34:34] E, não, lembrando que, assim, o George Lucas tem a capacidade de imaginação de uma ameba, né?

[00:34:41] Então, tudo surge daí.

[00:34:42] Ele dá pra desenhar bem.

[00:34:43] Ele…

[00:34:43] É?

[00:34:44] Eu nunca vi ele…

[00:34:45] É, não, os devênios dele…

[00:34:46] As coisas são legais.

[00:34:47] Ah, ele que fez os contos, eu não sabia.

[00:34:49] Mas é isso, tipo, no final das contas, a base daqueles negócios…

[00:34:51] A base que eles têm pra trabalhar é muito pequenininha.

[00:34:54] É, porque é isso, é…

[00:34:55] Você tem um…

[00:34:57] E tem um outro filme das irmãs Wachowski, que é bem ruim.

[00:35:02] Que é aquele Júpiter Ascendente, eu acho que é esse o nome do filme.

[00:35:04] Meu Deus.

[00:35:05] Meu Deus.

[00:35:06] Que é um…

[00:35:06] É um super…

[00:35:07] Cara, o design do livro, o filme é lindo, mas o filme é vazio.

[00:35:10] E eu acho que…

[00:35:12] Ah, mas…

[00:35:12] E aí?

[00:35:12] E, bom, isso eu vou te dizer que é a especialidade delas, né?

[00:35:15] Speed Racer.

[00:35:16] É, Speed Racer.

[00:35:18] Eu…

[00:35:18] Eu digo, assim, que eu acho que a filmografia delas é…

[00:35:24] Não é das melhores, né?

[00:35:25] E eu acho que por uma série de motivos, né?

[00:35:27] Por uma série de motivos, inclusive.

[00:35:28] Sobretudo pelo sucesso de Matrix, né?

[00:35:30] E eu acho, assim, que pelo que eu vi, das pessoas que gostam mais da obra delas,

[00:35:36] as pessoas se referem muito a Sense8, que foi a série que elas fizeram no Netflix,

[00:35:39] mas nunca assisti.

[00:35:41] É, eu cheguei a assistir, eu acho que é uma série que…

[00:35:45] Começa muito bem.

[00:35:46] Começa muito bem, mas depois vai se perdendo um pouco no próprio plot, assim.

[00:35:50] Que é meio que também normal de série hoje em dia, né?

[00:35:52] Mas o…

[00:35:54] Mas o ponto…

[00:35:54] Porque imagina como deve ser produzir alguma coisa tendo produzido Matrix, né?

[00:35:57] A quantidade de dinheiro que vão botar e, portanto, de intervenção de estúdio

[00:36:02] é um negócio, assim, absurdo.

[00:36:04] Mas um dos pontos que me incomoda um pouco na saga Matrix

[00:36:08] é justamente essa limitação na hora de imaginar a subjetividade das máquinas, né?

[00:36:14] Porque, no fundo, as máquinas…

[00:36:16] São capazes de serem individuais e tal.

[00:36:19] E aí, no fundo, no fundo, o que está se discutindo ali

[00:36:21] é o conceito de liberdade e tal como colocado na esfera ocidental, né?

[00:36:26] Para a esfera ocidental, tipo, muito típico do debate nos Estados Unidos, especificamente, né?

[00:36:31] Então, é um filme que faz muito sentido dentro do pensamento liberal estadunidense

[00:36:36] e é sempre bom lembrar que os democratas nos Estados Unidos são os liberais,

[00:36:40] são liberais, não estou falando dos conservadores republicanos,

[00:36:42] porque aí já entra em outra instância.

[00:36:44] Mas quando você coloca desse jeito,

[00:36:45] e aí você começa a entender, por exemplo,

[00:36:47] que alguns movimentos do Matrix não são tão revolucionários assim, né?

[00:36:51] Tipo, o conceito de liberdade não é tão…

[00:36:54] Mas, enfim, não vamos entrar nesse específico, porque aí estamos indo longe demais.

[00:36:58] Mas uma coisa que eu acho que é interessante aqui desse filme também,

[00:37:01] esse filme não corrige isso e ele toma de barato, problema.

[00:37:04] Mas, ao mesmo tempo, uma coisa que ele faz,

[00:37:07] ele ressalta uma espécie de oposição complementar do agente Smith com a própria Matrix.

[00:37:13] Porque, assim, o agente Smith,

[00:37:15] ele era o fascismo, né?

[00:37:17] O agente Smith sempre foi o fascismo.

[00:37:19] É, e a cara do fascismo em 1999 ali era muito aquela coisa, tipo,

[00:37:23] o agente da lei, né?

[00:37:25] A mão opressora do Estado, a burocracia, né?

[00:37:29] Eles levam o Neil para um quarto, uma sala de interrogatório.

[00:37:34] Essa é a figura deles.

[00:37:36] Inclusive, uma coisa que…

[00:37:37] Um dos pontos negativos para mim é a mudança do ator do agente Smith.

[00:37:40] Não que eu quisesse que fosse o mesmo ator,

[00:37:41] mas eu achei o ator atual muito abaixo do ator original.

[00:37:45] Acho que ele também tem menos com o que trabalhar ali

[00:37:48] do que o Hugo Weaving teve no primeiro.

[00:37:51] Mas aí eu quero fazer…

[00:37:53] Mas o Hugo Weaving é um grande ator, impressionante.

[00:37:54] Não, não, ele é muito bom.

[00:37:56] Mas eu digo assim, eu acho que o material que ele tinha nesse filme,

[00:37:59] o personagem, era menor do que o que ele já teve em todos os outros.

[00:38:03] Mas, eu queria dizer que eu achei muito interessante

[00:38:06] a decisão de mudar o ator do Morpheus,

[00:38:09] porque no filme ele é…

[00:38:11] Na verdade, ele não é o Morpheus, né?

[00:38:12] O Morpheus morreu.

[00:38:13] E ele é um simulacro do Morpheus,

[00:38:15] que o próprio Neo criou

[00:38:18] pra treinar ele numa instância isolada do jogo Matrix,

[00:38:23] pra conseguir achar o Neo, né?

[00:38:25] Então, tipo, você vai ficar treinando como se você fosse um agente,

[00:38:27] pra você ficar muito bom de me achar,

[00:38:29] pra quando você sair daí, você me achar.

[00:38:31] E aí, você mudar o ator tem tudo a ver com o que esse filme é,

[00:38:36] que é, olha, é o que você queria, mas não exatamente, né?

[00:38:40] Que é a mesma coisa da Trinity, que não é a Trinity na primeira cena e tal.

[00:38:43] Que é tipo, olha só, a gente recriou,

[00:38:45] da maneira que a gente conseguia, né?

[00:38:46] Mas não é a mesma coisa, né?

[00:38:47] Não é a mesma coisa.

[00:38:48] E não tem como, né?

[00:38:49] Isso é interessante.

[00:38:51] O Twin Peaks faz muito isso de outra forma, né?

[00:38:54] Eu acho que esse novo Matrix, ele é muito próximo

[00:38:56] das discussões que a terceira temporada do Twin Peaks traz à tona.

[00:39:00] Depois a gente vai falar disso, né?

[00:39:01] Mas o ponto que eu achei interessante,

[00:39:05] porque quando ele mostra essa complementar…

[00:39:08] Vai voltar pro agente Smith.

[00:39:09] Ele mostra essa oposição complementar, né?

[00:39:11] Porque o agente Smith, ele é um perigo pra própria Matrix.

[00:39:15] A Matrix…

[00:39:15] A Matrix é, digamos, como se fosse o sistema liberal, sabe?

[00:39:19] E o agente Smith, ele é o capitalismo…

[00:39:22] O agente Smith, ele é o consumo do fascismo, né?

[00:39:26] São instâncias que se complementam.

[00:39:29] O agente Smith nasce no seio da Matrix.

[00:39:31] Ele é um programa de controle da Matrix.

[00:39:33] Porém, ele sai do controle ali dentro, né?

[00:39:35] Ou seja, ele é, digamos, uma função do próprio programa, né?

[00:39:40] Saca?

[00:39:41] E que depois quer dominar o próprio programa.

[00:39:43] E eu tô dizendo isso não pra mostrar que são dois inimigos

[00:39:45] diferentes, mas pra mostrar que são dois inimigos

[00:39:47] complementares, né? Porém, distintos.

[00:39:50] Sim. Não, e agora a representação dele ali

[00:39:52] é o sócio do Neo, né?

[00:39:54] Ele é o cara, tipo, ah, de blazer e camiseta,

[00:39:56] de calça jeans e tal.

[00:39:58] É um homem branco.

[00:39:59] Exato, e ele tá sempre só querendo, tipo,

[00:40:02] ei, que isso, né?

[00:40:03] Tipo, deixa disso. Aceite, né?

[00:40:06] O status quo, de certa maneira.

[00:40:07] E a Matrix, né? Usa eles dois.

[00:40:11] O que, né? Fica claro ali no final.

[00:40:12] Que eles meio que não existem um sem o outro, né?

[00:40:15] De que a própria existência do Neo

[00:40:17] é o que gera o Agente Smith,

[00:40:19] mas que o Agente Smith, né?

[00:40:20] Ele só pode existir enquanto o Neo existe, né?

[00:40:23] Então ele acaba ali

[00:40:24] ajudando o Neo

[00:40:27] a sobreviver ao fim desse filme

[00:40:28] exatamente por isso.

[00:40:30] Porque pra ele sobreviver

[00:40:32] aí chega um ponto em que, né?

[00:40:35] A autopreservação

[00:40:37] se torna mais importante do que

[00:40:38] o próprio sistema. Que também é um repeteco

[00:40:41] de um tema do primeiro filme.

[00:40:42] Da primeira trilogia, né?

[00:40:45] E esse, ao mesmo tempo, é uma coisa

[00:40:47] interessante, porque

[00:40:48] nesse filme, aquilo que a gente tava até

[00:40:51] conversando antes, né?

[00:40:53] O inimigo agora é difuso, né?

[00:40:55] Todos fazemos parte da opressão. Porque acho que tem uma coisa que é interessante

[00:40:57] também. Ainda que o

[00:40:59] conceito deles de liberdade

[00:41:02] seja muito americano,

[00:41:03] mas o conceito de servidão não é tanto.

[00:41:06] As pessoas querem estar na Matrix, né?

[00:41:08] As pessoas querem estar lá.

[00:41:08] Sim, essa é a grande diferença dessa Matrix.

[00:41:11] Vamos dizer, de que

[00:41:12] fica implícito que é sempre o problema que faz

[00:41:14] a Matrix recetada. Tipo, a nossa

[00:41:17] opressão agora tem cara,

[00:41:19] tem muita cara de opressão. Então a gente

[00:41:20] rebuta pra algo que as pessoas fiquem mais

[00:41:23] confortáveis e queiram

[00:41:25] tomar parte. E não só queiram tomar parte.

[00:41:27] É que elas viram a ferramenta

[00:41:29] de policiamento dos outros, pra que ninguém

[00:41:30] deixe de fazer parte. Que aquela

[00:41:32] última cena representa, aquele último

[00:41:35] confronto no café

[00:41:36] representa muito bem, que é

[00:41:38] a tecnologia agora não é

[00:41:40] os agentes podem dominar o corpo

[00:41:43] de quem quiserem aparecer. Não!

[00:41:44] Pessoas em seus próprios corpos são os agentes.

[00:41:47] Elas fazem a vontade

[00:41:49] do sistema. E isso

[00:41:50] vai numa discussão muito boa sobre

[00:41:52] microfascismos, né? Tipo, o que é o microfascismo?

[00:41:55] O microfascismo, ele não tem rosto. Ele não é

[00:41:57] só o PM, ele não é só

[00:41:58] o policial. Ele é todo mundo, né? Ele

[00:42:00] atravessa todo mundo e ninguém está imune. Eu acho que esse

[00:42:02] é um ponto importante, né? E aí

[00:42:04] vem um ponto que eu acho que é…

[00:42:06] E aí, mais uma vez, o agente

[00:42:08] Smith, ele representa um pouco isso, né? Porque ele

[00:42:10] é um homem branco, narcisista

[00:42:12] pra caralho, né? Ele se torna isso.

[00:42:14] E aí que entra uma coisa de humorzinho que já

[00:42:16] me complicou. Eu falei, ah… Entra um humorzinho

[00:42:19] que no

[00:42:20] Matrix Original eu achei melhor trabalhar,

[00:42:22] que era uma coisa muito cínica, né? Tipo, o agente Smith, ele tinha

[00:42:24] um humor muito cínico, muito ácido

[00:42:26] com as coisas, né? Nesse, ele é só uma coisa

[00:42:28] meio narcisista. Não, você acha que

[00:42:30] eu tô perfeito até demais, porque agora

[00:42:32] eu tenho olhos azuis penetrantes.

[00:42:35] Eu tô falando, ah… Que coisa

[00:42:37] chata, tá ligado? Tipo, ok,

[00:42:39] a gente entendeu que você é narcisista,

[00:42:40] ok, a gente entendeu esse humor e tal.

[00:42:43] Eu acho que esse foi um dos pontos positivos,

[00:42:44] só que isso chegou no agente Smith, e eu achei

[00:42:46] que não ficou tão bom assim.

[00:42:49] E o outro ponto que eu achei que é legal,

[00:42:50] que é o novo arquiteto, né?

[00:42:52] É, que é o analista, agora.

[00:42:55] Que é o analista que quer normatizar

[00:42:57] as pessoas, né? Eu acho que eu achei

[00:42:58] meio… Eu achei meio, assim…

[00:43:02] Como é que eu posso dizer…

[00:43:03] Na cara demais a crítica

[00:43:05] que tava sendo feita ali. Mas ok, tem que ser, né?

[00:43:06] Mas ok, não. Mas é que eu adorei, porque

[00:43:08] o analista, ele é, de certa

[00:43:10] maneira,

[00:43:13] a personificação

[00:43:14] da existência

[00:43:16] do filme, do que que leva o filme a existir

[00:43:18] no nosso mundo. Porque ele

[00:43:20] fala, né, que tipo, olha, eu tentei

[00:43:22] rodar a Matrix sem vocês

[00:43:25] e não era tão eficiente.

[00:43:27] Se eu manter… Se vocês…

[00:43:28] Eu ressuscitei vocês, porque se eu

[00:43:30] ressuscito vocês e plugo vocês dois de volta na Matrix,

[00:43:33] a eficiência de todos os outros

[00:43:34] seres humanos melhora um pouquinho. Então

[00:43:36] o meu negócio é botar vocês dois, mas nunca deixar

[00:43:38] vocês se encostarem. Porque aí

[00:43:40] vocês se tornam perigosos. E aí

[00:43:42] isso é basicamente ele dizendo,

[00:43:44] olha, eu tentei não fazer outro filme do Matrix.

[00:43:47] Mas as pessoas ficam tão

[00:43:48] felizes quando eu faço, né?

[00:43:50] Boto o Neo e a Trinity

[00:43:52] aqui, que aí fica… Mas ele, tipo,

[00:43:55] e aí ele engendra

[00:43:56] o germe da própria derrota. Porque aí no final

[00:43:58] eles vão lá e tomam o poder

[00:44:00] e falam assim, não, não, isso aqui

[00:44:02] é colorido, isso aqui é amor

[00:44:04] e céus pintados de arco-íris

[00:44:06] e agora…

[00:44:08] É, mas ao mesmo tempo ele fica, ele é

[00:44:10] o analista querendo

[00:44:12] normalizar as pessoas o tempo inteiro, né?

[00:44:14] Olha, você é uma pessoa extraordinária. Sim, ele dá a pílula azul

[00:44:16] pro Neo o tempo inteiro. O Neo o tempo inteiro, é.

[00:44:18] Mantendo ele na…

[00:44:21] Sem a ciência da própria

[00:44:22] da própria ilusão.

[00:44:24] Ganho, agora pra gente começar o nosso

[00:44:26] terceiro ato aqui.

[00:44:29] Porque eu vou falar sobre a recepção

[00:44:30] do filme. Eu quero que você fale, porque você

[00:44:32] é mais novo que eu. E o

[00:44:34] Matrix teve um impacto na sua

[00:44:37] geração, né? Sim, não,

[00:44:38] foi muito… Eu vi, eu tinha 10 anos

[00:44:40] de idade, né, quando o Matrix saiu. Então, tipo,

[00:44:42] foi muito legal, assim.

[00:44:44] Eu já adorava filmes de ação

[00:44:46] e tirinhos e coisas. E aí, tipo, veio o Bullet Time

[00:44:49] e veio toda essa coisa de, tipo,

[00:44:51] de você… Da introdução

[00:44:52] à filosofia mesmo, como você falou, assim, de tipo

[00:44:54] Ah, mas e se

[00:44:56] a gente tiver numa simulação?

[00:44:58] E como você saberia? E aí, eventualmente

[00:45:00] você cai no fato de que

[00:45:02] essa questão nem é tão interessante assim,

[00:45:04] porque não faz diferença nenhuma.

[00:45:06] Então, se tudo que você conhece

[00:45:08] é a simulação, tudo bem.

[00:45:10] E as outras questões que ainda influenciam a sua vida

[00:45:12] são questões ainda.

[00:45:14] Então, mas é isso, assim,

[00:45:16] eu acho que foi o primeiro passo

[00:45:18] em seguida desse pensamento.

[00:45:20] E eu lembro que foi uma época que, eu não sei se foi

[00:45:22] por causa do Matrix, mas foi

[00:45:24] uma época que começou, tipo, a haver muito interesse

[00:45:26] tipo de pop

[00:45:28] pop filósofe, assim, aquela coisa

[00:45:30] bem ralé, porque eu lembro que eu tinha

[00:45:32] tipo, Seinfeld e a filosofia,

[00:45:35] sei lá o que, e a filosofia. Tinha um monte desses

[00:45:36] livros de, tipo, ah, vamos pegar

[00:45:38] a cultura pop e falar sobre filosofia

[00:45:41] com isso. E aí era, no geral,

[00:45:43] tudo meio patético.

[00:45:44] Mas é exatamente

[00:45:46] daí que a gente bebe. O pop cult

[00:45:48] é exatamente a versão disso.

[00:45:51] O pop cult

[00:45:52] é o Seinfeld

[00:45:55] e a filosofia rebutado

[00:45:56] Resurrections pra 2021.

[00:45:58] Porque é formato podcast, né? Ninguém quer ouvir.

[00:46:01] Exato, então, tipo, é isso. Parece novo,

[00:46:03] parece novo, mas é o quê?

[00:46:04] É tudo a mesma coisa de novo.

[00:46:08] É, porque

[00:46:08] eu ia falar disso, porque, assim,

[00:46:10] pra quem não sabe, o

[00:46:12] Ken Rivers deu uma entrevista bem interessante,

[00:46:14] né? Ele falando sobre…

[00:46:16] Você acha claro? Eu adoro o Ken Rivers.

[00:46:18] Inclusive, tem outro filme que a gente pode fazer

[00:46:20] um episódio dessa temporada, que é sobre

[00:46:22] Bill e Ted.

[00:46:23] A trilogia…

[00:46:26] E o novo filme da trilogia, ele também

[00:46:28] não cai no mesmo problema

[00:46:30] do Matrix. Sim, ele é uma boa continuação.

[00:46:33] Ken Rivers é o cara das continuações.

[00:46:35] E pra quem

[00:46:36] quer ver ele fazendo filme de ação,

[00:46:38] ele ainda faz Joe Wick, que é muito legal também.

[00:46:41] Pois é, mas enfim…

[00:46:43] Esse Pois É eu não senti firmeza.

[00:46:44] Não, mas eu gosto de Joe Wick. É porque eu nunca assisti

[00:46:46] todos os Joe Wick. Eu assisti o primeiro e eu

[00:46:48] parei de assistir por causa do cachorro.

[00:46:50] Ah, entendi. Eu tenho problema

[00:46:52] com… Morreu o cachorro, eu fico bolado.

[00:46:55] Mas só morre cachorro no primeiro,

[00:46:56] fica tranquilo. Pois é, então, mas eu sei

[00:46:58] que o cachorro tá morto, eu fico puto. Eu fico assim,

[00:47:00] caralho, me desperta o sentimento de falta.

[00:47:01] Mas você sabe que o cachorro tá morto mesmo sem ver o filme,

[00:47:04] então você pode só ver o filme. Pois é, mas

[00:47:06] me desperta sentimentos negativos que eu não quero ter que lidar

[00:47:08] com eles agora. Mas o…

[00:47:11] Mas enfim… Me faz um

[00:47:12] analista, hein?

[00:47:14] Pior que a minha me deu um ghosting. Mas o…

[00:47:17] Mas o ponto,

[00:47:19] o ponto que eu acho, o ponto crucial

[00:47:20] dessa história

[00:47:21] é que Matrix foi um

[00:47:24] fenômeno, né, pras pessoas mais novas,

[00:47:26] né? E aí o Ken Lewis tava falando assim que ele foi

[00:47:28] contar Matrix pras pessoas que não

[00:47:30] viveram isso, que eram muito mais novas.

[00:47:33] Cara, se parar pra pensar que gente que nasceu

[00:47:34] em 2000 tá com 20 anos

[00:47:36] e que a gente tem algumas dessas pessoas ouvindo

[00:47:39] o nosso podcast,

[00:47:40] as pessoas não assistiram Matrix na época, não entenderam

[00:47:42] o que foi aquilo.

[00:47:44] Sabe? Que você via gente andando que nem o Neil

[00:47:46] em Bangu.

[00:47:49] Bangu, calor de 40 graus,

[00:47:50] as pessoas andando com aquele sobretudo. Aquilo virou moda,

[00:47:52] tudo… Aquela estética tava em todos os lugares.

[00:47:55] Você assistia filmes, sei lá,

[00:47:56] a cada 10 filmes que saiam pro cinema,

[00:47:58] 5 emulavam aquilo de alguma forma.

[00:48:00] Ou tinha um Bud Time, ou tinha alguém usando

[00:48:02] vinil, sabe? Tinha uma… Sabe? Tudo…

[00:48:04] E aquilo… Isso chegou

[00:48:06] ao ponto de que você tem

[00:48:08] nos Estados Unidos, né, o massacre de Columbine,

[00:48:11] pessoas atribuem

[00:48:13] aquilo ali ao Matrix.

[00:48:14] Foi uma discussão,

[00:48:16] foi um pânico moral absurdo com relação

[00:48:18] àquilo. Mas o…

[00:48:20] E é interessante quando você olha

[00:48:22] e você vê como, por exemplo,

[00:48:26] o filme acabou

[00:48:26] sendo apropriado, porque essa coisa de Red Pill,

[00:48:28] por exemplo, é uma…

[00:48:30] É um símbolo de uma galera extrema-direita.

[00:48:33] E parte do que esse

[00:48:34] filme faz é realmente

[00:48:36] tipo, bater de volta na década de

[00:48:38] tipo, não, ó, Red Pill, eu que criei.

[00:48:40] Eu aqui, uma mulher trans com a minha irmã,

[00:48:42] criei isso aqui e é isso que significa.

[00:48:44] Não é…

[00:48:45] O Red Pill não é de vocês, assim.

[00:48:48] Uma nave cheia de…

[00:48:50] É tipo assim, de pessoas

[00:48:52] marginalizadas pelo sistema opressor,

[00:48:54] né, tipo, de pessoas de minorias.

[00:48:57] Né, cara? Tipo assim,

[00:48:58] não é um monte de homem branco,

[00:49:00] nerdão e caralho, com o avatar do Iron Maiden

[00:49:02] fazendo isso. Não é isso, tá ligado?

[00:49:04] Tipo assim, a parada aqui é sobre outras pessoas,

[00:49:06] sobre outras existências.

[00:49:08] Toda aquela discussão sobre se os filmes originais

[00:49:10] são sobre direitos de pessoas trans

[00:49:12] são, sim.

[00:49:14] Tem muito sobre isso.

[00:49:14] E sobre, assim, como essa coisa da existência

[00:49:18] dentro e fora da Matrix tem a ver

[00:49:20] com essa própria

[00:49:22] desmorfia do Neo, de todas as pessoas ali,

[00:49:24] de tipo, de você

[00:49:25] de sair da Matrix ser uma alusão

[00:49:28] ao processo de transição de gênero também, né?

[00:49:30] Sim, é, mas

[00:49:32] também tem sobre tantas

[00:49:34] outras coisas ali, que eu não tô diminuindo

[00:49:35] essa percepção, mas nenhuma delas

[00:49:38] vai cair, vai bater na tecla

[00:49:40] desses pensamentos de extrema-direita,

[00:49:43] sabe? Tipo assim,

[00:49:44] se tudo é uma ilusão. Cara,

[00:49:45] a questão toda é que, assim,

[00:49:47] falar sobre a opressão que as pessoas vivem,

[00:49:50] a opressão que, a diferença

[00:49:52] de a gente ser programado pra repetir

[00:49:53] padrões, é sobre a normatização

[00:49:55] da existência. Todos os filmes originais

[00:49:57] são isso. Esse filme chega e fala assim, cara,

[00:50:00] olha só, isso é muito claro, se você não viu,

[00:50:02] se você não entendeu isso, me desculpa, mas tu é burro.

[00:50:04] Tá ligado?

[00:50:05] E eu acho que então, como tu acha que tu é…

[00:50:07] O Red Pill acabou sendo

[00:50:10] usado, acho que, muito como

[00:50:11] um…

[00:50:14] como essa definição desse cinismo,

[00:50:16] que não tem nada a ver com o que o filme

[00:50:17] passa, nem os originais, nem esse.

[00:50:19] E não o cinismo é cínico, né?

[00:50:20] Exatamente, que é tipo, não, cara, a primeira coisa

[00:50:23] que a gente tem que fazer é tomar consciência

[00:50:24] do sistema que tá nos oprimindo, pra poder

[00:50:26] sair fora e lutar contra.

[00:50:28] E aí, quando, na verdade, o pensamento

[00:50:30] dessa galera reacionária

[00:50:33] hoje, tem muito mais a ver com

[00:50:34] o personagem

[00:50:36] cujo nome eu esqueci no primeiro filme, que é o cara

[00:50:38] que quer tomar…

[00:50:40] O Cypher, que quer tomar a pílula azul de novo.

[00:50:42] Ele falou, eu não quero.

[00:50:44] Eu não quero mais lidar com

[00:50:44] as dificuldades da realidade. Eu quero fingir que tá tudo bem

[00:50:48] porque tá confortável pra mim.

[00:50:50] E é uma coisa que eu acho que, assim, porque eu

[00:50:51] reassisti dos primeiros filmes, né?

[00:50:53] É muito óbvio, porque, assim,

[00:50:55] não tem nada

[00:50:58] a ver com cinismo.

[00:50:59] Não tem nada a ver com essa coisa

[00:51:01] ateia do… Não.

[00:51:04] Cara, tem a ver com ter esperança,

[00:51:05] sobre crença, né? Sobre amor.

[00:51:08] Os filmes são sobre isso.

[00:51:09] Cara, a mensagem, a mensagem dos

[00:51:12] primeiros filmes, dos três,

[00:51:14] dos filmes, né? Porque esse fica muito na cara

[00:51:16] que é isso, de fato. Já que vocês

[00:51:18] não entenderam, vamos desenhar aqui

[00:51:19] pra vocês, né? Que é um filme sobre amor.

[00:51:22] É um filme que você precisa de outras pessoas.

[00:51:24] É um filme que… Porque, assim, você não se salva

[00:51:25] sozinho. Sabe? Assim, você precisa

[00:51:27] de outras pessoas. Você precisa formar uma comunidade

[00:51:30] num lugar onde as pessoas não estão

[00:51:31] se julgando. Sabe? As pessoas se aceitam

[00:51:34] enquanto diferentes.

[00:51:36] E que do mesmo jeito que o Morpheus e a

[00:51:38] Trinity precisavam acreditar

[00:51:39] na profecia do Neo,

[00:51:42] ele precisava que os outros

[00:51:43] acreditassem nisso, senão ele não era nada.

[00:51:46] Exato! Exato!

[00:51:48] E é interessante que…

[00:51:50] Isso é uma coisa que eu achei muito interessante

[00:51:51] nesse último filme, e que fica bem

[00:51:53] explícito nos outros, mas, assim, nesse

[00:51:55] deixa muito claro, porque a Trinity literalmente

[00:51:57] voa por causa disso,

[00:51:59] de que os outros personagens,

[00:52:02] a relação de acreditar no

[00:52:04] Neo não era uma hierarquia.

[00:52:07] Não é uma hierarquia.

[00:52:08] Eles não são acessórios da narrativa

[00:52:09] do Neo, da trajetória. Não! Eles têm seus

[00:52:11] próprios poderes, eles têm seus próprios

[00:52:13] papéis. Eles traem sua força

[00:52:16] daquela crença. Na verdade,

[00:52:18] a pessoa que é o acessório

[00:52:19] delas é o Neo.

[00:52:22] Não o contrário. Saca?

[00:52:24] Então, quando você começa a ver isso

[00:52:25] de outras perspectivas, tu fala assim, caralho, cara,

[00:52:27] tipo assim, sempre foi um filme sobre o Neo e a

[00:52:29] Trinity. Sempre foi um filme sobre o Morpheus.

[00:52:32] Sempre foi um filme, sabe, tipo assim,

[00:52:34] sobre a Naiobi e tal,

[00:52:35] eles não estão tanto no filme assim, mas sempre foi um filme sobre

[00:52:37] outros personagens, né, cara? Sim, sobre a raça

[00:52:39] humana que queria, né,

[00:52:41] sobreviver e vencer as máquinas ali, né?

[00:52:44] É, uma aliança entre os diferentes,

[00:52:46] porque esse é o ponto. O Morpheus era um homem negro,

[00:52:48] a Trinity uma mulher, o Neo

[00:52:49] era o padrãozão ali, porque ele tinha que ser aquele

[00:52:51] blank state mesmo, né, tipo, mas

[00:52:53] ao mesmo tempo era uma aliança entre os diferentes.

[00:52:55] Aí tu ia olhar pras naves, as naves tinham

[00:52:58] um monte de, tipo assim, cara,

[00:53:00] você tem, você olha pras naves,

[00:53:02] pra Nostromo, que era

[00:53:03] Nostromo era o original?

[00:53:07] Nabucodonosor,

[00:53:08] eu acho que é. Nostromo é do…

[00:53:09] É, Nabucodonosor é a original do…

[00:53:11] Do Morpheus, aí…

[00:53:13] É, e aí a…

[00:53:15] Nostromo é a do Animatrix.

[00:53:18] Não, é do Alien. Ah, não?

[00:53:19] É Alien. Osiris é a do

[00:53:22] Animatrix. Last Flight of the Osiris.

[00:53:24] É.

[00:53:25] Do Alien é o Nostromo.

[00:53:28] Cara, você tinha um

[00:53:29] cast de pessoas, você tinha um cast de pessoas

[00:53:32] não de atores, diferentes, diversos,

[00:53:34] era sobre aceitar a diversidade,

[00:53:36] viver na diversidade, aquelas pessoas que formavam,

[00:53:38] reformavam uma família,

[00:53:40] reformavam uma família no exílio,

[00:53:41] no exílio do padrão normativo.

[00:53:44] Então, assim, onde os diferentes

[00:53:46] se encontram, e se

[00:53:48] encontram de fato.

[00:53:49] O filme é sobre isso. E isso jamais

[00:53:51] pode ser algo sobre

[00:53:53] o pensamento de extrema-direita, que essa galera masculinista

[00:53:56] fica acionando pra fazer a leitura

[00:53:58] do primeiro filme, que é justamente o oposto

[00:53:59] radical disso. As pessoas acionam

[00:54:02] essa porra, você não é Red Pill,

[00:54:04] você tá querendo ser o Agent Smith, filho.

[00:54:06] Sim. Você não entendeu…

[00:54:08] O…

[00:54:09] O Neil e a Trinity,

[00:54:11] e toda aquela galera no primeiro filme, eles são terroristas, né?

[00:54:14] Eles são os caras…

[00:54:16] Eles estão chocando o sistema,

[00:54:18] eles estão entrando em combate com o sistema

[00:54:20] pra tentar tirar

[00:54:22] as pessoas dali e tentar

[00:54:24] tipo, né, mesmo sendo

[00:54:26] em menor número

[00:54:28] e com menos recursos,

[00:54:30] enfrentarem um sistema muito maior.

[00:54:33] É, é

[00:54:33] interessante, né, porque

[00:54:35] eu fico sempre lembrando disso, né, como que

[00:54:38] o filme

[00:54:39] foi lido,

[00:54:41] nessa chave

[00:54:43] masculinista de extrema-direita,

[00:54:46] né, tipo, se tornou um símbolo

[00:54:47] do… de alguns

[00:54:49] redes, né, de redes como

[00:54:51] a Rede em Céu, essas coisas todas.

[00:54:53] E aí quando tu vai ver, assim, cara, mas o filme

[00:54:55] tá lá. É um filme sobre pessoas

[00:54:57] fugindo do padrão normativo, sendo

[00:54:59] tomada como inimigos, por esse padrão

[00:55:01] que você tá defendendo. Ah, mas eu sou contra

[00:55:03] o sistema que rouba. Meu, meu, você é o Agent Smith.

[00:55:06] Você tá transitando.

[00:55:08] O que você acha que tomar o Red Pill

[00:55:09] é ser o Agent Smith. Ser um cínico,

[00:55:11] como o Agent Smith.

[00:55:13] Você não tem… Nenhum momento você se enquadra com

[00:55:15] umas pessoas que tão ali recuperando a esperança,

[00:55:18] como tão ali, sabe, querendo…

[00:55:19] E o final do Agent Smith lá no

[00:55:22] Revolutions é

[00:55:23] uma ilustração muito triste do que

[00:55:25] é o resultado final de um fascismo

[00:55:27] bem-sucedido, né. Ele é

[00:55:29] o mundo inteiro. É, exatamente, você não tem

[00:55:31] diferença. Não tem mais nada.

[00:55:33] Perfeito, porque justamente é essa oposição,

[00:55:35] né. O mundo do Agent Smith é

[00:55:37] um mundo sem outro, hein. O mundo do Neil

[00:55:39] é um mundo só com diferença,

[00:55:41] e as diferenças produzem cidades,

[00:55:43] as diferenças produzem a vida.

[00:55:46] Sabe? Essa oposição do final do

[00:55:47] Matrix, Revolution, é maravilhosa.

[00:55:49] É o melhor momento. E agora,

[00:55:51] eu digo pra você, eu acho que

[00:55:53] nessa discussão, eu

[00:55:55] reformatei

[00:55:56] a minha opinião sobre a cena da Rave na caverna.

[00:56:00] Eu acho que, na real, a cena da Rave

[00:56:01] na caverna é essencial pra aqueles filmes.

[00:56:03] É! Só é mal feita.

[00:56:06] Sim. Não, isso é… Só é mal feita.

[00:56:07] Só é mal executada, mas é uma cena essencial

[00:56:09] mesmo, porque mostra as pessoas vivendo a diferença ali,

[00:56:11] fazendo aquela carnaval.

[00:56:13] Fazendo carnaval ali, cara. É isso aí, cara, que funciona.

[00:56:16] Mas é isso. E eu acho que

[00:56:17] esse filme deixa isso ainda mais explícito, né.

[00:56:20] Sim.

[00:56:21] Acho que foi. É isso, cara.

[00:56:23] Pô, Matrix. É isso aí, né.

[00:56:26] É… Então…

[00:56:26] É, bom. A gente vai…

[00:56:31] A gente vai botar

[00:56:33] nossos sobretudos, ouvir Rob Zumbi, entendeu?

[00:56:35] É isso que a gente vai fazer.

[00:56:38] O que a gente entendeu.

[00:56:39] Eu tatuei um coelho branco no meu ombro.

[00:56:41] Eu super entendi tudo.

[00:56:42] Yeah, yeah, yeah.

[00:56:44] Isso aí.

[00:56:51] Half-Death.