#29 - Caçadores de velozes aventuras furiosas


Resumo

O episódio parte da ideia de que o “amor entre dois homens héteros” (o bromance) é um motor narrativo central em Hollywood, muitas vezes mais complexo e emocionalmente significativo do que os romances heterossexuais colocados como centro dos filmes de ação. A partir disso, os apresentadores estabelecem o paralelo direto entre Caçadores de Emoção e Velozes e Furiosos, defendendo que o segundo funciona como uma “refilmagem” do primeiro ao trocar o universo do surf e assaltos por corridas e roubos com carros.

A conversa amplia o foco para como filmes e séries constroem o herói masculino: a mulher aparece como apêndice, obstáculo ou “dama em apuros”, enquanto o vínculo realmente transformador do protagonista tende a ser com outro homem. Eles conectam isso a exemplos de TV como Breaking Bad (onde o relacionamento Walt/Jesse é apontado como o mais significativo) e Mad Men (o individualismo do sonho americano e o “herói do capitalismo”), discutindo como a narrativa frequentemente pede empatia por protagonistas destrutivos.

Ao entrar nos detalhes dos filmes, eles destacam o arco do “homem da lei relutante” seduzido pelo fora da lei: Brian O’Connor se sente mais acolhido na “família” de Dominic Toretto do que no aparato policial, enquanto Johnny Utah encontra sentido e tesão ao se aproximar de Bodhi e do estilo de vida do grupo. Ao mesmo tempo, a rebeldia apresentada é entendida como algo que o próprio capitalismo e Hollywood conseguem absorver e vender — uma válvula de escape que reafirma valores do sistema.

Por fim, o episódio faz uma crítica à fantasia de inconsequência e à estética de liberdade vendida por essas obras: a violência e os custos reais (como acidentes, vítimas ou poluição) são despersonalizados, e a “liberdade” é isolada, não coletiva. Eles também ligam a idealização da masculinidade e do “outsider” a discursos políticos contemporâneos e à cultura de extrema-direita, e encerram divulgando o Apoia-se do podcast e as recompensas para apoiadores.


Indicações

Filmes

  • Caçadores de Emoção — Tratado como um filme “sensacional” e a matriz narrativa de Velozes e Furiosos: policial infiltrado, gangue com estilo de vida radical e um vínculo homoerótico central entre Johnny Utah e Bodhi.
  • Velozes e Furiosos — Discutido como refilmagem/variação de Caçadores de Emoção, com foco em família escolhida, fetiche do carro e a transformação do policial (Brian) em fora da lei.
  • Clube da Luta — Citado como exemplo de jornada de pertencimento a uma subcultura que promete libertação e “resgate do macho”, conectando masculinidade e reação ao mundo corporativo.
  • Hackers — Mencionado como filme que os apresentadores gostam e que dialoga com a ideia de desajustados formando uma família própria.
  • Don’t Look Up — Usado como exemplo de crítica social que também vira produto de consumo, oferecendo ao espectador a sensação de inconformismo sem exigir mudança concreta.
  • Matrix Resurrections — Referenciado ao discutir a diferença entre agentes e “bots”, e também por detalhes de elenco/produção conectados ao universo de Keanu Reeves.

Series

  • Breaking Bad — Usada para discutir a narrativa do protagonista que diz agir “pela família” e como o vínculo central e mais significativo é Walt/Jesse, não o núcleo familiar.
  • Better Call Saul — Orlando comenta que está revendo e afirma que a série faz melhor do que Breaking Bad a jornada de degradação do protagonista e o impacto em quem está ao redor.
  • Mad Men — Citada como retrato do herói do capitalismo e do sonho americano individualista; o final é lembrado como exemplo de comoditização da rebeldia em forma de publicidade.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Bromance como tema central da arte — A abertura define o bromance como um dos temas mais explorados, especialmente em sociedades machistas onde é mais fácil reconhecer como “igual” quem merece amor e companheirismo. Os apresentadores anunciam que vão discutir duas obras icônicas dessa dinâmica. Orlando entra na brincadeira comparando a amizade deles aos duos dos filmes.
  • 00:02:42Dois filmes “idênticos”: Point Break e Fast — Eles estabelecem a tese do episódio: Velozes e Furiosos seria uma refilmagem de Caçadores de Emoção, mudando o métier (surf/assaltos por carros/rachas). A conversa aponta que a análise vai além da ação, focando em como o bromance estrutura os relacionamentos. Surge a crítica de que romances heteros em filmes de ação costumam ser mais rasos do que as relações entre homens.
  • 00:03:22Mulher como apêndice no cinema de ação — Orlando comenta que, em filmes de ação, a mulher frequentemente aparece como “dama em apuros” ou obstáculo narrativo. Eles citam a figura do herói incapaz de manter família e relacionamento duradouro (como John McClane). A conversa liga essa lógica ao valor social do aventureiro/renegado acima do “pai de família”.
  • 00:04:38Breaking Bad, Mad Men e empatia pelo anti-heroi — Eles usam Breaking Bad para discutir a racionalização do protagonista (“faço isso pela família”) e como a série revela essa mentira. Observam que o vínculo mais significativo é Walt/Jesse, não com esposa e filhos, e como a audiência é levada a antagonizar Skyler. Em paralelo, Mad Men entra como exemplo do indivíduo moldado pelo sonho americano e pelo capitalismo.
  • 00:08:00Sonho americano e individualismo como religiao — A conversa descreve o sonho americano como individual por definição, ligado a uma ética protestante e à ideia de “não depender dos outros”. Don Draper é citado como arquétipo do sujeito que pisa em todos para atingir seus objetivos. Eles conectam isso a narrativas de ambição em que alianças e vínculos são corroídos.
  • 00:10:30Deleuze, o “rosto” e a negacao da alteridade — Orlando traz a ideia de “rosto” (associada ao rosto de Jesus/homem branco) como máquina de julgamento colonialista e racista. A partir disso, explica como o diferente é lido como “não-homem”, “não-branco”, “não-adulto”, etc. O ponto serve para reforçar por que esses filmes constroem relações verdadeiras apenas entre sujeitos considerados “iguais” na hierarquia.
  • 00:12:39Diretores, James Cameron e uma teoria sobre Avatar — Eles comentam que pretendem falar sobre diretores “problemáticos”, citando Catherine Bigelow e o Hurt Locker. Aparece o vínculo com James Cameron (roteiro e relação com Bigelow) e a ideia provocativa de que Caçadores de Emoção estaria “na base do Avatar”. O coapresentador volta ao foco: como a jornada do policial infiltrado rompe e ao mesmo tempo reafirma certos moldes do herói americano.
  • 00:16:48A polícia “emasculada” em Velozes e Furiosos — O coapresentador descreve a base policial como uma mansão hollywoodiana, contrastando com a imagem dura do policial. Ele destaca a cena dos cafés gigantes com chantilly como decisão estética que simboliza a polícia como algo corporativo e sem a “masculinidade real” do filme. A partir daí, reforçam que os símbolos de virilidade ficam com o fora da lei (Dominic/Bodhi), não com o Estado.
  • 00:19:11Resumo de Caçadores de Emoção e seus simbolos — Eles explicam a trama: Johnny Utah, ex-jogador de futebol americano lesionado, vai ao FBI e investiga uma gangue que assalta bancos usando máscaras de ex-presidentes. O episódio lê isso como metáfora de governo/Estado roubando dinheiro das pessoas, e comenta o arquétipo do assaltante como fora da lei “heroico”. A infiltração leva à aproximação entre Utah e Bodhi, culminando num final tratado como “honra” de filme de samurai.
  • 00:28:28Homoerotismo e triangulo “seguro” em Velozes — Eles argumentam que Velozes e Furiosos suaviza o homoerotismo pela relação de Brian com a irmã de Dominic, mas que isso não vira conflito: funciona como símbolo de aproximação e integração à família. O ciúme e antagonismo ficam deslocados para Vince, lido como o antigo melhor amigo substituído. A “consumação” do vínculo entre os homens aparece mediada pelo romance com Mia.
  • 00:34:03Rebeldia comoditizada e a critica virar produto — Eles discutem como estilos de vida rebeldes acabam cooptados pelo capitalismo, citando o final de Mad Men (iluminação transformada em anúncio de Coca-Cola). O coapresentador traz Don’t Look Up como exemplo de crítica que já funciona como parte do próprio mecanismo que critica. A conclusão é que Hollywood vende a rebeldia como consumo confortável, sem transformação real.
  • 00:40:23Fetiche do carro e separacao da realidade climatica — A conversa aponta que Velozes e Furiosos trata o carro como objeto fantástico, evitando ligar a ação a gasolina, poluição e aquecimento global (não se vê abastecimento, consequências ou vítimas). Eles comentam como destruição é despersonalizada e citam a perseguição com carros autônomos controlados à distância como forma de eliminar “inocentes” do quadro moral. O ponto se conecta à crítica da inconsequência como fantasia vendida ao público.
  • 00:44:31Masculinidade, coaches e radicalizacao politica — Eles conectam o resgate de masculinidade vendido por filmes e cultura pop a válvulas de escape alinhadas ao sistema. Discutem a escalada de discursos do macho alfa, pick-up artists, men’s rights activists, Gamergate e alt-right, citando Proud Boys e Steve Bannon chegando ao Brasil via influência cultural. Também mencionam a retórica de “emasculação” ligada a armas, violência e extrema-direita.
  • 00:50:26Continuacoes, Patrick Swayze, Ghost e logica de franquia — Eles contam que Caçadores de Emoção teria uma continuação planejada, com Bodhi sobrevivendo de forma implausível e um novo agente indo atrás dele. O plano teria mudado/estagnado por questões de carreira e cachê após Swayze virar “o homem mais sexy da América” por Ghost, e mais tarde pela morte do ator. A conversa amplia para a lógica de Hollywood pós-anos 90 de produzir pensando em franquias, citando até teasers em VHS como Velocidade Máxima 2.
  • 01:00:44Apoia-se do PopCult e recompensas — No encerramento, eles anunciam o Apoia-se do PopCult e explicam os níveis de apoio. Falam de conteúdos exclusivos, episódio bônus mensal e acesso a um Discord para conversar com os apresentadores e ouvintes. Também prometem sessões coletivas de filme com comentários ao vivo e votação de temas/filmes pelos apoiadores.

Dados do Episódio

  • Podcast: Popcult
  • Autor: Atabaque Produções
  • Categoria: TV & Film Film Reviews
  • Publicado: 2022-06-02T14:29:55Z
  • Duração: 01:02:45

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] O amor entre dois homens héteros é, talvez, um dos temas mais explorados da arte, especialmente

[00:00:08] desde a Renascença.

[00:00:10] Isso porque em sociedades machistas é mais fácil e aceitável reconhecer como indivíduo

[00:00:14] digno de seu amor e companheirismo aquele que você vê como igual e não inferior.

[00:00:19] Eles podem ter seus conflitos, como todo casal.

[00:00:21] Eles podem nem concordar em qual filme discutir no próximo episódio do podcast.

[00:00:25] E por isso, hoje vamos discutir duas obras icônicas do Bromance.

[00:00:30] O amor platônico que leva policiais a tirarem seus distintivos quando seus corações entumecidos

[00:00:34] crescem vrum vrum e swish swish.

[00:00:38] Keanu Reeves, Dominic Toretto, Paul Walker, Johnny Utah, Patrick Swayze, Brian O’Connor,

[00:00:42] Bodhi e Vin Diesel.

[00:00:43] E como a adrenalina, esportes radicais e a paixão por uma mulher amada por ambos é

[00:00:47] o único jeito de consumar o amor entre dois caras héteros.

[00:00:51] Você concorda com isso, Orlando?

[00:00:54] Porra, eu concordo, cara.

[00:00:55] Eu concordo.

[00:00:56] Você sente que a gente tá numa dinâmica…

[00:01:00] Ou de Johnny Utah, Dominic Toretto e Brian O’Connor?

[00:01:03] Eu e você?

[00:01:04] É.

[00:01:05] Ah, eu não tenho.

[00:01:06] Eu sou da turma da…

[00:01:10] Não tem esses problemas heteronormativos, não, guys.

[00:01:13] Não, mas eu não digo porque a gente só pode expressar nosso afeto dessa maneira que eles…

[00:01:20] Mas que a gente…

[00:01:21] Que do mesmo jeito que eles fazem corridas de carro ou andam de pulo de paraquedas e surfam,

[00:01:28] o nosso esporte radical é o podcast?

[00:01:32] Cara, que tristeza!

[00:01:35] O nosso esporte radical ser um podcast, cara.

[00:01:37] Mas é, assim, que essa é a nossa desculpa pra conversar toda semana e tudo mais, assim, tipo…

[00:01:43] É que a gente decidiu…

[00:01:45] Não, a gente vai fazer isso.

[00:01:46] Esse é o nosso crime que a gente comete.

[00:01:48] É o podcast.

[00:01:49] Pô, acho que você tá dando muita importância em ser um podcast, cara.

[00:01:53] Tipo…

[00:01:53] É uma atividade boa.

[00:01:54] Não, mas é porque…

[00:01:55] Desculpa aí, você…

[00:01:58] É um homem que…

[00:01:59] Praticamente um dos percussores do podcast no Brasil.

[00:02:02] Mas eu diria, assim, que…

[00:02:03] Pô, saindo da Forbes pra fazer podcast.

[00:02:05] Pois é, cara.

[00:02:06] Mas pensa que a gente tá comparando com surf e corridas ilegais de carros, tá ligado?

[00:02:12] Assim, a emoção não é a mesma, sabe?

[00:02:14] Com essa que eu tô falando, né?

[00:02:14] A emoção nem de longe é a mesma, cara.

[00:02:16] Pô, eu não saberia dizer, por isso pensei a própria…

[00:02:18] A gente pode morrer fazendo podcast, tá ligado?

[00:02:20] Tipo, assim, vamos morrer agora.

[00:02:21] Só se tocar no microfone tiver desencapado?

[00:02:23] Não, mas eu acho que dá pra morrer fazendo podcast se a gente…

[00:02:27] É…

[00:02:27] Um dos meus grandes sonhos…

[00:02:28] É…

[00:02:29] É bater o recorde de podcast ao vivo mais longo da história.

[00:02:33] O recorde, por enquanto, se não me engano, são cinco dias ao vivo.

[00:02:36] Então a gente pode morrer tentando bater esse recorde.

[00:02:38] Eu tô legal.

[00:02:40] Beleza.

[00:02:40] Eu tô bem…

[00:02:40] É…

[00:02:41] Ok.

[00:02:42] Bom, a gente vai falar hoje de dois filmes que são praticamente idênticos.

[00:02:46] E muito importantes, acho que pra geração de pessoas…

[00:02:51] Pra gerações de pessoas que inclui o Orlando, eu e muitos dos nossos ouvintes.

[00:02:55] Que é o Caçadores de Aventuras, Velozes e Furiosos.

[00:02:58] Velozes e Furiosos, que é só uma refilmagem de Caçadores de Aventuras mudando o métier da coisa.

[00:03:03] E eu acho que tem muitas coisas pra serem exploradas aí.

[00:03:05] Não só o bromance no meio dos dois.

[00:03:08] Mas vamos começar com essa questão, assim.

[00:03:10] Como que Hollywood usa o bromance pra desenvolver relacionamentos, às vezes, normalmente, muito mais complexos

[00:03:17] do que os romances héteros que eles botam como central a maioria dos filmes.

[00:03:22] Mesmo aqueles que não tem nada a ver com romance.

[00:03:24] É, isso…

[00:03:25] Eu acho que o que você falou é uma coisa crucial, assim.

[00:03:28] Porque, se você for pra pensar, de fato, quando você vai construir nos filmes de ação.

[00:03:33] Vamos lá, filmes de ação.

[00:03:35] Relação homem-mulher.

[00:03:37] Geralmente, a mulher é um apêndice, né?

[00:03:39] Ela é uma personagem que, no máximo, ela tá ali…

[00:03:42] Como é que é?

[00:03:43] A dama em apuros.

[00:03:45] É, a dama em apuros, a princesa em perigo, né?

[00:03:48] Tipo…

[00:03:48] E aí, ela tá ali pra fazer o papel da pessoa que vai criar dificuldades para o herói de ação resgatá-la.

[00:03:56] Sim.

[00:03:56] Tanto que…

[00:03:57] Tanto que você pega, assim, a figura dos heróis de ação clássicos.

[00:04:01] Eles são…

[00:04:02] Eles não conseguem ter relacionamentos duradouros.

[00:04:06] Vide John McClane.

[00:04:07] Né?

[00:04:08] Porque ter uma família, ter um relacionamento é impeditivo para que ele possa ser um super-herói.

[00:04:15] Inclusive, ela só…

[00:04:16] Está aquém.

[00:04:16] Está aquém do potencial daquele herói, né?

[00:04:19] O potencial dele de ser um salvador do mundo, um aventureiro, um renegado, um fora da lei.

[00:04:25] É tudo sempre…

[00:04:26] Mais importante, mais valioso diante da sociedade do que, né?

[00:04:31] Ser um pai de família, um marido presente.

[00:04:36] É, isso, isso, isso…

[00:04:38] É engraçado isso.

[00:04:39] Porque, assim, você tem dois…

[00:04:41] Você tem uma virada nisso nas séries, tipo, vamos lá, Mad Men e Breaking Bad.

[00:04:47] Eu ia falar de Breaking Bad nesse momento.

[00:04:50] É porque o Breaking Bad, ele leva a família toda para aquela redenção do macho branco dele, né, cara?

[00:04:55] Exato.

[00:04:56] E a desculpa do Breaking Bad desde o começo, que é uma desculpa que ele dá para si mesmo

[00:05:02] e que, ao final da série, a gente já sabe e ele finalmente admite, tipo, que é mentira,

[00:05:08] é, não, eu estou fazendo isso pela minha família.

[00:05:10] Eu estou fazendo isso porque eu preciso deixar dinheiro para eles, eu preciso protegê-los,

[00:05:15] eu preciso isso, aquilo, eu preciso aquilo.

[00:05:16] E no final, é tipo, não, você só piorou a vida de todos ao seu redor,

[00:05:19] você acabou com a vida das pessoas ao seu redor.

[00:05:23] E você…

[00:05:24] E se a gente for pensar no bromance como…

[00:05:26] Contraponto a isso, é tipo, o relacionamento mais honesto e significativo,

[00:05:32] por mais que não tenha sido honesto, tenha sido manipulativo e sádico,

[00:05:37] foi entre o Walt e o Jesse, né?

[00:05:39] Não entre o Walt e a mulher dele e o Walt e os filhos dele.

[00:05:44] Então…

[00:05:44] E aí você vê como na cabeça…

[00:05:46] Que na cabeça dele, ele é o herói e a gente está assistindo aquela série do ponto de vista dele

[00:05:50] e sendo levado, muitas vezes, a sentir empatia por ele e simpatizar com ele

[00:05:55] e antagonizar aqueles que são vistos como obstáculos dele,

[00:05:59] especialmente a Skyler, a esposa dele.

[00:06:01] Mas é tudo para, tipo, esse exercício de mudar a nossa perspectiva é só para mostrar, tipo,

[00:06:06] ah, o quanto que você pode comprar essa narrativa sem nenhuma justificativa real, assim.

[00:06:12] Quanto o cara pode ser um vilão e totalmente errado

[00:06:16] e a gente comprar essa ideia de que, tipo, não, está certo.

[00:06:20] As prioridades dele estão corretíssimas.

[00:06:22] Não, e aí você tem um outro ponto que…

[00:06:25] Essa do Breaking Bad a gente vai voltar para o próximo episódio sobre a ideia de doença, né?

[00:06:30] Porque, de fato, a ambição dele se torna uma doença que vai contagiando todos ao redor dele.

[00:06:35] E, aliás, eu estou revendo o Better Call Saul, né?

[00:06:38] Que é o spin-off da série.

[00:06:40] E eu acho que ela faz o que Breaking Bad se propõe a fazer muito melhor, inclusive.

[00:06:44] Acho que é uma série melhor.

[00:06:46] Mas que é a mesma jornada de como que o personagem principal, o Jimmy McGill, o Saul,

[00:06:52] ele passa por uma transformação que piora totalmente.

[00:06:55] Todo mundo ao redor dele.

[00:06:58] Mas exatamente dentro da mesma justificativa de, tipo, olha como eu fui vitimizado.

[00:07:02] E olha como esse é o único jeito de eu me dar bem nesse mundo.

[00:07:07] E você vê que é, tipo, toda racionalização, toda criação de narrativa ao redor desse tipo de situação é válida.

[00:07:16] Mas não quer dizer que ninguém está certo, não é?

[00:07:19] E aí, ou seja, esse mesmo tipo de narrativa, quando a gente está olhando para heróis de Hollywood,

[00:07:25] não é necessariamente o único jeito de interpretar aquela situação.

[00:07:28] E nem é o jeito correto, entre aspas, né?

[00:07:31] Não, então, tem várias coisas aí.

[00:07:33] Porque a gente está, no fundo, no fundo, a gente está olhando para a essência do que é o herói, né?

[00:07:39] Que foi o tema da temporada passada.

[00:07:41] Mas, assim, porque eu acho que tem uma coisa que é interessante aí.

[00:07:44] Porque quando a gente vai falar, por exemplo, do Mad Men.

[00:07:47] Tipo, tu vê que a existência do Don Draper, ele não comporta outras pessoas ao redor dele.

[00:07:52] Não comporta.

[00:07:53] Porque ele é justamente, ele é o apêndice.

[00:07:55] Ele é o ápice disso, né?

[00:07:56] Ele é o ápice desse herói do capitalismo, né?

[00:07:58] Ele é o ápice desse herói da sociedade.

[00:08:00] O herói real, né?

[00:08:01] Da sociedade dos Estados Unidos, né?

[00:08:02] Exato.

[00:08:02] E que todo o objetivo da existência do personagem, do Don Draper,

[00:08:06] que é um personagem mesmo dentro da série, porque ele, na verdade, roubou aquela identidade de outra pessoa,

[00:08:10] para criar, para poder ter uma chance de realizar o sonho americano.

[00:08:16] E o sonho americano é, por definição, totalmente individual.

[00:08:19] Sim.

[00:08:20] Ele é protestante, ele é sobre a sua relação individual com Deus

[00:08:22] e como que Deus permite que você faça qualquer coisa.

[00:08:25] Para atingir os seus sonhos.

[00:08:28] E no caso dele, é tipo, é o arquétipo do mundo de negócios americano,

[00:08:33] que é o, eu vou pisar em cima de todo mundo para conseguir o que eu quero.

[00:08:37] E o que eu quero é supremo, acima de todas as outras coisas.

[00:08:42] Isso, isso tem aquela coisa que eu tenho que falar aqui, né?

[00:08:45] A verdadeira religião dos Estados Unidos é não depender dos outros.

[00:08:49] Essa é a verdadeira, o princípio religioso do estadunidense.

[00:08:52] Mas isso que eu ia falar, porque assim, por exemplo,

[00:08:54] a gente tem outro exemplo disso,

[00:08:55] que é o Lobo de Wall Street.

[00:08:57] São todas histórias onde os sujeitos,

[00:09:00] eles não conseguem ter aliança com outras pessoas.

[00:09:04] Por quê?

[00:09:04] Porque eles têm uma ambição.

[00:09:05] Eles são pessoas assim, eles são indivíduos extraordinários.

[00:09:09] Quando a gente vai pegar esses filmes de ação,

[00:09:12] que é o Buddy Cop, que é o clássico, né?

[00:09:14] Sim.

[00:09:14] Tu vai ver, esses sujeitos, eles só conseguem ter

[00:09:18] relações realmente significativas, como você bem disse,

[00:09:22] com outros sujeitos que, dentro dessa diegésia,

[00:09:25] esse patriarcal, machista, misógina,

[00:09:28] são capazes de ascender a algo mais de um patamar que eles.

[00:09:32] Então, não é uma mulher que vai aparecer nesses filmes, né?

[00:09:35] É um outro homem.

[00:09:36] É o parceiro dele, né?

[00:09:39] Não é, tipo assim, não é a filha, uma amiga.

[00:09:42] Não.

[00:09:42] É sempre assim, uma filha, uma amiga,

[00:09:44] qualquer outro tipo de mulher, né?

[00:09:46] É sempre vista como um empencilho.

[00:09:48] Ou, no máximo, como uma espécie de conexão entre os dois.

[00:09:52] Sim, exatamente.

[00:09:53] Por exemplo, no caso do Velozes e Furiosos.

[00:09:54] E também no caso do Caçadores de Emoção.

[00:09:57] E aí, esse que é o ponto, né?

[00:09:59] Porque isso que você botou no começo foi perfeito.

[00:10:03] É como, sei lá, como na Grécia Antiga, aquela coisa assim,

[00:10:05] só cidadãos de primeira ordem podem ser homens, sabe?

[00:10:08] Aquela coisa…

[00:10:09] Isso, a gente sabe que o patriarcado, ele coloca isso

[00:10:13] e vai recolocando isso.

[00:10:15] E aí você vai ver isso sendo recolocado continuamente

[00:10:18] nos filmes de ação,

[00:10:19] ao ponto que, de fato, a única relação significativa,

[00:10:24] só pode ser construída com esse tipo de par, né?

[00:10:28] E aí que vem um ponto crucial disso aí também.

[00:10:30] Porque aí você vê como…

[00:10:33] Aí, no momento, eu citei Deleuze no podcast, né?

[00:10:36] Porque é a ideia do rosto.

[00:10:38] O Deleuze tem uma ideia de rosto.

[00:10:39] O que é o rosto?

[00:10:40] Ele vai falar do rosto de Jesus,

[00:10:41] o rosto do homem branco, né?

[00:10:42] E que todos os outros seres,

[00:10:44] dentro dessa máquina do juízo euro-americano,

[00:10:47] colonialista, racista,

[00:10:49] todos os outros seres são julgados a partir desse rosto.

[00:10:52] Então, por exemplo, o rosto,

[00:10:54] essa máquina racista, machista, enfim,

[00:10:57] ele não reconhece a alteridade,

[00:10:59] ele não reconhece o diferente.

[00:11:01] Ele reconhece aquele que não é o igual.

[00:11:04] Ele fala assim, olha só,

[00:11:05] a mulher, nessa perspectiva,

[00:11:07] ela é um não-homem, né?

[00:11:09] Tipo, o negro, ele é um não-branco.

[00:11:11] E por aí vai.

[00:11:12] A criança é um não-adulto.

[00:11:14] Então, porque assim,

[00:11:15] tudo que o outro é, é o ser em negativa.

[00:11:19] Então, por isso que esses filmes

[00:11:21] trazem esse arquétipo como um arquétipo central,

[00:11:23] eles só vão conseguir reconhecer

[00:11:24] relações verdadeiras

[00:11:26] entre sujeitos que estão ali colados

[00:11:29] no rosto, né?

[00:11:30] São os rostos de Cristo, né?

[00:11:34] Então, e aí,

[00:11:35] o tema que eu queria entrar agora

[00:11:37] é que eu vou ilustrar

[00:11:39] com Velozes e Furiosos, porque dos dois

[00:11:41] é o que eu tenho mais

[00:11:43] de cor, né? E lembrando que a expressão

[00:11:45] de cor significa saber de coração,

[00:11:48] né? Então, não é só

[00:11:49] memorizar, é saber aqui, ó.

[00:11:50] Saber aqui. Não só saber aqui em cima

[00:11:52] na cabeça.

[00:11:53] Sabe que isso é o nosso…

[00:11:56] Eu sou completamente oposto com caçadores de emoção, né?

[00:11:59] É? Olha que bonito.

[00:12:01] Olha como se complementa.

[00:12:04] Depois a gente vai falar

[00:12:04] sobre como os diretores desse filme são totalmente

[00:12:06] problemáticos, né? A Catherine Bigelow

[00:12:09] fazendo propaganda do exército americano

[00:12:11] com o Hurt Locker.

[00:12:12] Tu sabe que quem escreveu o roteiro,

[00:12:15] tem o roteirista, né?

[00:12:17] Do caçador de emoção, mas é o James Cameron, né?

[00:12:20] Que é ex-marido

[00:12:21] da Catherine Bigelow. Exatamente.

[00:12:23] E eu tenho certeza, e eu tenho pra mim a teoria

[00:12:25] de que vários desses caçadores

[00:12:27] de emoção é…

[00:12:29] Eu vou ser ousado aqui. Vou ser ousado aqui

[00:12:31] e vou falar uma coisa séria.

[00:12:33] Ele tá na base do Avatar.

[00:12:36] Olha só. Interessante.

[00:12:38] Quero ouvir mais sobre isso.

[00:12:39] Mas antes, eu queria falar sobre

[00:12:41] como eu acho que a jornada

[00:12:42] dos dois filmes, mas, né,

[00:12:45] ilustrando aqui com o Velazos e Furiosos,

[00:12:47] ela quebra um pouco

[00:12:49] esse molde

[00:12:51] estadunidense do herói,

[00:12:53] porque a jornada

[00:12:55] dos dois primeiros, assim, os dois são homens

[00:12:57] da lei relutantes, né?

[00:12:59] Que, através

[00:13:01] do enredo do filme,

[00:13:04] vão percebendo o quanto eles são

[00:13:05] peças descartáveis

[00:13:06] no aparato

[00:13:09] da polícia, né, e do

[00:13:10] Estado, e que

[00:13:13] se veem como mais do que isso

[00:13:15] dentro dos grupos desses foras

[00:13:17] da lei que eles infiltram, né?

[00:13:19] Então, que o Brian se vê como

[00:13:21] parte ali da família do Dominic

[00:13:23] Toretto, né? Ele se vê acolhido

[00:13:25] e ele se vê como parte de

[00:13:27] um grupo que tem empatia e se

[00:13:29] importam com os outros, e aí

[00:13:31] eventualmente a virada dele é exatamente

[00:13:33] essa, é trair, vamos dizer,

[00:13:35] a polícia e ser

[00:13:37] e ajudar

[00:13:38] o Dominic e a família dele

[00:13:41] e é por isso que, pra mim, os filmes

[00:13:43] menos interessantes da franquia são

[00:13:45] o 2 e o 4, que são exatamente

[00:13:47] sobre esse processo. No 4, se repetindo

[00:13:49] e no 2, esse processo sendo ignorado

[00:13:51] e ele, de novo, sendo só mais um

[00:13:53] policial relutante.

[00:13:55] Mas eu adoro, esses filmes

[00:13:57] eles vêm da tradição, que é uma

[00:13:59] tradição muito americana também,

[00:14:01] do endeusamento do fora da lei, né?

[00:14:03] Que aí tem a ver com essa coisa

[00:14:05] de, tipo, o Supremo fazer

[00:14:07] aquilo que você quer e não depender dos outros.

[00:14:09] E que isso vem na forma do fora

[00:14:11] da lei também, de que, tipo, o fora da lei

[00:14:12] ele tanto não precisa de ninguém que ele não

[00:14:15] precisa das regras do Estado e do coletivo, né?

[00:14:17] Então, Bonnie e Clyde,

[00:14:19] Jesse James e tudo mais.

[00:14:21] Mas, e aí eu mostrar

[00:14:23] o policial sendo seduzido

[00:14:24] e o policial sendo seduzido por esse lado

[00:14:27] e, eventualmente, o arco

[00:14:29] dele se concretizando em

[00:14:31] eu não sou mais um policial, eu sou parte

[00:14:33] desse grupo,

[00:14:35] ele é interessante desse lado.

[00:14:37] Desse lado, ele acaba indo contra

[00:14:39] certos instintos da narrativa

[00:14:41] do herói protestante americano,

[00:14:44] mas, ao mesmo tempo, a gente

[00:14:45] entende que, porque ele tá indo

[00:14:47] pra uma interpretação

[00:14:49] do fora da lei que ainda se encaixa muito

[00:14:51] nesse tipo de visão.

[00:14:53] Sabe o que eu tava pensando aqui?

[00:14:54] A gente tava falando que Velozes e Furiosos é o mesmo filme

[00:14:57] que Caçadores de Emoção, isso é óbvio.

[00:14:59] Mas quer ver um outro exemplo? Um pouco menos,

[00:15:01] talvez, óbvio. Clube da Luta.

[00:15:03] Clube da Luta tem essa mesma jornada

[00:15:05] de alguém que vai

[00:15:07] pertencer, de uma certa forma, a relutante

[00:15:09] a uma espécie de subcultura

[00:15:11] criminosa, subcultura que

[00:15:13] liberta, e aí tem uma questão do resgate

[00:15:15] do macho, que também é outra questão

[00:15:17] que a gente vai ver.

[00:15:19] Exato, é porque o Clube da Luta, ele se estabelece

[00:15:21] ali, o Clube da Luta,

[00:15:23] dentro do filme Clube da Luta, ele se estabelece

[00:15:25] exatamente como um jeito

[00:15:27] de se reconectar com uma

[00:15:29] masculinidade agressiva,

[00:15:32] cheia de testosterona, que eles sentem

[00:15:33] que não existe na sociedade capitalista

[00:15:35] dos anos 90, em que eles foram

[00:15:37] todos emasculados, mas eu acho que uma diferença

[00:15:39] relevante aí do Clube da Luta pra esses filmes é que

[00:15:41] o personagem principal começa

[00:15:43] já como esse

[00:15:45] protagonista emasculado do mundo corporativo

[00:15:47] americano, e não como

[00:15:49] uma peça do

[00:15:51] policiamento, que é o que reforça,

[00:15:53] que é a mão forte do Estado, que existe pra reforçar

[00:15:55] a existência desse

[00:15:57] lado corporativo.

[00:15:59] Mas aí é o que é o ponto que eu queria

[00:16:01] chegar, é a diferença do

[00:16:03] primeiro Matrix pro novo

[00:16:05] Matrix, que é a ideia de que

[00:16:08] enquanto você tinha o agente

[00:16:09] Smith, né, o agente, agora

[00:16:11] você tem os bots, todo mundo é virtualmente

[00:16:13] um agente da Matrix, então assim…

[00:16:15] Eu acho que sim, você vai fazer Clube da Luta

[00:16:17] hoje, sim, mas eu acho que na época ele ainda era

[00:16:19] muito…

[00:16:21] ainda num mundo em que é isso, assim, que na verdade

[00:16:23] os seres humanos estavam… Mas o pessoal se reconhece,

[00:16:25] eles se reconhecem como um agente

[00:16:27] dessa história. Eles se reconhecem como

[00:16:29] parte dessa…

[00:16:31] Mas eu acho que eles veem que…

[00:16:34] Mas eles ainda reconhecem

[00:16:35] em todos um desejo de se libertar disso,

[00:16:37] por isso que ele acaba… Por isso que é tão fácil

[00:16:39] recrutar pra aquele culto que é o Clube da Luta.

[00:16:41] Mas aí tem uma cena que eu acho fascinante

[00:16:43] no primeiro Velazos Furiosos,

[00:16:45] que fala sobre isso de uma maneira muito sutil,

[00:16:47] que é…

[00:16:48] São duas coisas, a primeira não é uma cena, é um aspecto,

[00:16:51] do filme, que é o seguinte, que a base dos policiais

[00:16:53] onde eles operam não é uma delegacia,

[00:16:55] é uma mansão dos anos 50

[00:16:57] em Hollywood, que foi

[00:16:59] apreendida de um traficante e tal,

[00:17:01] de alguém, então, tipo, toda vez que a gente vai pra base

[00:17:03] de operações dos policiais, a gente tá, na verdade, numa

[00:17:05] mansão Art Deco,

[00:17:07] totalmente, tipo, longe da ideia do

[00:17:09] policial feroz e tal,

[00:17:11] é uma versão totalmente hollywoodiana,

[00:17:14] Los Angeles

[00:17:15] superficial da coisa,

[00:17:17] e dentro dessa

[00:17:18] dessa mansão é que rola

[00:17:20] uma cena que eu acho fascinante,

[00:17:21] e muito curta do Velazos Furiosos,

[00:17:23] que é o seguinte, primeira vez, ou segunda vez

[00:17:25] que o Brian vai lá falar com os seus superiores da polícia,

[00:17:28] que ele tá falando, eu não acho

[00:17:29] que o Dominic é o responsável por esses roubos

[00:17:31] e tal, não sei o que, ele fala assim,

[00:17:33] você quer um café? E aí ele, não, valeu,

[00:17:35] e aí daqui a pouco corta pra um dos outros policiais

[00:17:37] trazendo dois cafés numa bandeja,

[00:17:39] só que não são duas xicrinhas de café,

[00:17:41] são duas xícaras de café gigantes

[00:17:43] com gelo,

[00:17:45] leite e chantilly e uma cerejinha

[00:17:47] em cima, tipo assim, a coisa mais

[00:17:50] mocadinho,

[00:17:51] assim, exato, a coisa menos

[00:17:53] menos máscula e

[00:17:55] e assim, e menos

[00:17:56] eficiente possível, assim, sabe,

[00:17:59] tipo, imaginar que tem um policial ali

[00:18:01] que passa, assim, metade do dia, tipo,

[00:18:03] pô, fazer um frappuccino show aqui

[00:18:05] pros meus colegas,

[00:18:06] essa grande xicrona, assim,

[00:18:08] frappuccino eu não quero, sei lá,

[00:18:10] mas um bom cara que faz café eu quero,

[00:18:12] não, não, mas esse cara não, esse cara, tipo, porque claramente

[00:18:15] tem um café com leite, aí chantilly

[00:18:17] e não sei o que, e aí é tipo,

[00:18:18] cara, por que, assim, tipo, e isso é uma decisão

[00:18:20] consciente, assim, tipo, existe

[00:18:22] um diretor de arte, existe um diretor, todo mundo

[00:18:24] dá um ok pra isso ser feito, então, pra mim

[00:18:27] isso significa um pouco também o quanto

[00:18:28] os símbolos

[00:18:31] de masculinidade real dentro dos filmes

[00:18:33] são o Bode e o

[00:18:34] Dominic Toretto, né, tipo, a própria

[00:18:36] polícia é vista como, tipo, algo

[00:18:38] que perdeu sua essência e virou

[00:18:40] corporativo, né,

[00:18:43] é, é, é, é, é masculado

[00:18:45] e tudo mais. Que na verdade sempre foi um tema

[00:18:47] de todos os filmes de ação, pega John McClane,

[00:18:49] pega Máquina Mortífera,

[00:18:50] é sempre isso, é o policial que

[00:18:52] o próprio Dutty Harry, né,

[00:18:55] Sim, é, eu não vou seguir as regras,

[00:18:57] as regras são

[00:18:58] são, são, é, é, elas

[00:19:00] são castradores, e aí a gente vai

[00:19:03] entrar nisso, tem outro episódio dessa temporada

[00:19:05] que a gente vai falar de tropa de elite, assim,

[00:19:06] que é uma ilustração ápice disso.

[00:19:08] E tem, como você não lembra,

[00:19:11] o Caçador de Emoção

[00:19:13] tem uma cena que isso fica muito claro

[00:19:14] que é quando ele vai pegar a onda à noite,

[00:19:17] tem uma cena que eles estão pegando a onda à noite

[00:19:19] e aí quando ele termina, a cena inclusive

[00:19:20] é do primeiro beijo do personagem do

[00:19:22] Keanu Reeves, pra quem não sabe, acho que

[00:19:25] é bom explicar, porque tem muita gente, muita gente

[00:19:26] que conhece o

[00:19:27] Velozes e Furiosos, mas não conhece

[00:19:30] o Caçador de Emoção. Sim. O Caçador de Emoção

[00:19:33] ele é um filme que

[00:19:34] que segue os passos

[00:19:36] do cara que tem o nome mais real possível

[00:19:38] Johnny Utah. Johnny Utah.

[00:19:40] Cara, assim… E é muito bom

[00:19:42] porque esse não é o nome dele

[00:19:44] infiltrado, né, esse é o nome real do personagem, né?

[00:19:47] É, é, exatamente,

[00:19:48] mas ele tem uma vida pregressa, que ele era

[00:19:50] jogador de…

[00:19:52] E aí tu vê, ele era um quarterback

[00:19:54] que machuca o joelho e não

[00:19:56] pode seguir a carreira de jogar profissionalmente,

[00:19:58] então ele vai ter que cair pra um trabalho burocrático

[00:20:01] no FBI. E aí eles

[00:20:02] começam a investigar uma gangue

[00:20:05] de assaltantes

[00:20:07] surf, de assaltantes que vão

[00:20:09] roubar, eu acho o detalhe maravilhoso,

[00:20:10] eles roubam bancos com

[00:20:12] máscaras de ex-presidente, tipo

[00:20:14] Nixon, sabe qual é?

[00:20:16] Tipo, que eu acho que isso é uma metáfora muito boa

[00:20:18] de que é o governo roubando

[00:20:20] dinheiro das pessoas, sabe qual é? Tipo assim,

[00:20:22] estamos roubando o dinheiro de vocês, isso é um jogo

[00:20:24] do governo. Só que…

[00:20:26] Tem aquele discurso clássico

[00:20:28] acho que do Heat com o Al Patino

[00:20:30] e o Danilo, que

[00:20:32] os assaltantes falam assim, a gente tá roubando o dinheiro

[00:20:34] do banco, o seu dinheiro tá assegurado

[00:20:37] pelo governo, você não está perdendo dinheiro,

[00:20:38] quando a gente tira dinheiro do banco não é o seu dinheiro,

[00:20:40] é um dinheiro do banco. Então que

[00:20:42] o assaltante a banco, de novo, que aí

[00:20:44] entra na clássica onda

[00:20:46] do Jesse James e desses

[00:20:48] do fora da lei americano

[00:20:50] herói, exatamente porque ele não tá roubando

[00:20:52] você, então ele tá roubando

[00:20:54] um abstrato coletivo, e o abstrato coletivo

[00:20:56] é uma merda, o indivíduo é o que importa.

[00:20:59] É, porque o Estado te rouba,

[00:21:00] porque tem outra coisa, os Estados Unidos é imposto e roubo,

[00:21:03] não tô dizendo que é, não estou aqui

[00:21:04] não, não, é que é a visão tradicional

[00:21:06] dos Estados Unidos que o imposto é roubo,

[00:21:08] então eles estão só fazendo justiça social.

[00:21:10] Inclusive tem um detalhe crucial,

[00:21:12] porque nunca ninguém foi ferido

[00:21:14] nos assaltos, e os caras não são

[00:21:16] gananciosos, eles roubam o dinheiro dos castos

[00:21:18] e vão embora, eles fizeram isso, olha,

[00:21:20] nunca ninguém foi ferido nos assaltos,

[00:21:22] eles são profissionais e tal, e no fundo

[00:21:24] a gente descobre que é uma gangue de surfistas,

[00:21:27] né, é uma quadrilha

[00:21:28] de surfistas que eles roubam

[00:21:30] pra viver um verão eterno, então eles estão sempre se mudando

[00:21:32] pelo mundo pra poder financiar o verão,

[00:21:35] de tempos em tempos eles voltam pra Califórnia,

[00:21:36] se não me engano é Califórnia, e assaltam

[00:21:38] os bancos lá. E aí tem

[00:21:40] um momento em que o personagem do Keanu Reeves,

[00:21:43] numa interpretação que eu só

[00:21:44] posso dizer,

[00:21:47] eu nem sei qualificar,

[00:21:48] porque assim, ele,

[00:21:50] eu já disse que a gente tem que separar o Keanu Reeves

[00:21:53] da obra, tá ligado? Assim, o autor

[00:21:55] da obra. O Keanu Reeves, o cara

[00:21:57] Keanu Reeves, eu acho que deve ser uma pessoa do caralho,

[00:21:59] tá ligado? Agora,

[00:22:01] ele interpretando é muito ruim.

[00:22:03] Tipo assim, todos os filmes…

[00:22:03] Eu acho que ele é um ator cujo estilo de interpretação

[00:22:07] Não, aí já foi longe.

[00:22:09] Que a gente já conversou

[00:22:11] um pouco no Nintendo Matrix, é

[00:22:12] ele é singular

[00:22:14] e se você souber

[00:22:17] utilizar ele no seu filme

[00:22:19] como diretor, ele pode…

[00:22:20] pode ser muito

[00:22:21] produtivo e muito útil

[00:22:25] pra narrativa que você tá construindo e pra

[00:22:27] comunicação que você tá criando com o espectador.

[00:22:29] Mas se você só tá tentando botar

[00:22:31] ele ali como mais um ator que vai ler

[00:22:33] umas falas e dar uma cara pra um personagem,

[00:22:36] não, não é pra isso

[00:22:37] que você usa Keanu Reeves.

[00:22:39] Inclusive, uma coisa que é notória,

[00:22:42] uma das minhas

[00:22:43] críticas ao último filme é do Bill e Ted.

[00:22:45] Porque o Keanu Reeves…

[00:22:47] O Keanu Reeves, ele

[00:22:49] se interpreta, vamos ser sinceros.

[00:22:50] Ele só se interpreta. E o Keanu Reeves

[00:22:52] hoje em dia, ele já não é mais o…

[00:22:54] Ele é o Bill, né? Ele já não é mais o Bill.

[00:22:57] Ele já é… Porque ele era o Bill.

[00:22:59] Aquele cara adolescente, maconheiro.

[00:23:01] Sim, sim.

[00:23:03] Talvez o último personagem que ele interpretou

[00:23:04] dando uma voz específica e uma

[00:23:06] cara específica. E desde então ele tem sido

[00:23:09] só o Keanu Reeves dentro desses filmes.

[00:23:11] Exato. Então ele é o cara mais zen, tá ligado?

[00:23:13] Exato. Quando ele volta pro personagem

[00:23:15] mais velho, ele tenta

[00:23:17] interpretar o personagem da maneira que ele interpreta

[00:23:19] personagens hoje em dia e não do jeito que ele é.

[00:23:20] Que ele interpretava nos primeiros Bill e Ted. Entendo, entendo.

[00:23:22] É, parece o Neil, pô. É um

[00:23:24] Bill que virou Neil, tá ligado?

[00:23:26] Esse que é o meu problema do último Bill e Ted. Mas vamos voltar aqui.

[00:23:29] E aí o Keanu Reeves vai lá e se infiltra

[00:23:31] nessa gangue… Mas talvez o Bill

[00:23:33] só vamos lá. Talvez o Bill e Ted

[00:23:35] seja uma das versões da Matrix

[00:23:36] em que eles usam o Neil

[00:23:38] e mudam a vida dele pra ele ser

[00:23:40] um músico falido pra ver se assim

[00:23:42] ele não se rebela contra a Matrix.

[00:23:44] Mas mesmo assim, ao final do terceiro

[00:23:46] Bill e Ted, ele liberta a Matrix

[00:23:48] com aquela música coletiva.

[00:23:50] E aí estão as filhas dele, na verdade.

[00:23:52] Exato, mas as filhas dele podem ser só

[00:23:54] softwares que ele criou dentro da Matrix.

[00:23:56] Elas podem nem existir fora da Matrix.

[00:23:58] É verdade. Tem que pensar, essa é uma boa teoria.

[00:24:00] O universo expandido de Keanu Reeves, né, cara?

[00:24:02] Porque essa temporada tá voltando muito

[00:24:04] no universo expandido. Não, essa temporada

[00:24:07] é temática, né?

[00:24:09] O herói dessa temporada é Keanu Reeves

[00:24:10] e seu universo expandido. Porque

[00:24:12] no John Wick

[00:24:13] tem os mesmos atores,

[00:24:17] né, cara? Tipo,

[00:24:18] se eu não me engano,

[00:24:20] o Shad, que é o marido

[00:24:23] da…

[00:24:23] Ele é diretor do primeiro

[00:24:26] John Wick, e acho que

[00:24:28] eu não lembro se é do segundo também.

[00:24:31] Eu acho que sim, porque o primeiro é co-dirigido

[00:24:33] entre o Shad e mais um

[00:24:35] cara, e os dois se separaram depois.

[00:24:37] O Shad continuou no John Wick e o outro

[00:24:39] diretor foi fazer Deadpool 2, foi fazer

[00:24:40] Atômica e tudo mais. E aí

[00:24:42] o Shad Staleski começou sua carreira como

[00:24:44] dublê e diretor de segunda unidade

[00:24:47] e ele foi o dublê do

[00:24:48] Keanu Reeves nos Matrix.

[00:24:50] Os originais. E aí

[00:24:52] ele se juntou com o Shad Staleski e o outro

[00:24:54] diretor, cujo nome me escapa agora, pra fazer

[00:24:56] John Wick, exato, porque eles já tinham trabalhado juntos,

[00:24:59] já tinha esse relacionamento. Por causa

[00:25:01] do Matrix.

[00:25:02] E aí o Shad volta como ator

[00:25:04] no Matrix Resurrection pra ser o marido da Carrie Ann Moss.

[00:25:07] Não, e é muito bom.

[00:25:07] Do Keanu Reeves. Porra, esse é um detalhe maravilhoso.

[00:25:11] Sim, não, é muito bom.

[00:25:12] É muito bom. É um detalhe sensacional.

[00:25:15] Quando eu vi essa porra, eu falei, não é possível, tá ligado?

[00:25:17] O cara é… Sim, não, não.

[00:25:18] A Lana pensou… Aí você vê, tipo, o Wachowski,

[00:25:20] pensa, né? Tipo, o Lana Wachowski tava lá

[00:25:22] tipo, meu… Eu tava

[00:25:24] falando sobre esse filme esses dias no Twitter, falando assim,

[00:25:26] se você viu um filme e pensou assim, será que

[00:25:28] isso é de propósito? Sim, foi de propósito.

[00:25:30] Porque você viu o filme por duas horas e alguém ficou

[00:25:32] fazendo aquele filme por anos.

[00:25:34] As pessoas fazendo o filme,

[00:25:36] elas têm mais tempo pra pensar sobre o filme do que você.

[00:25:39] Às vezes também, às vezes

[00:25:40] não, né? Tá bom, ok.

[00:25:42] Tem situações que não, mas a gente pode pegar vários filmes

[00:25:44] do Mark Dacascos, que claramente… Porra,

[00:25:46] porra, que ele chegou ali, cara,

[00:25:48] o que tem que fazer? Esse aqui, pai, bate nessa pessoa.

[00:25:50] O Mark Dacascos, que aliás, tá ótimo no John Wick 3.

[00:25:53] Outro aí, outro aí.

[00:25:54] Mas enfim, mas vamos lá.

[00:25:57] E aí, vou voltar aqui

[00:25:58] atrás. Aí ele se infiltra na gangue

[00:26:01] dos surfistas, né?

[00:26:03] E aí ele tem que conter os surfistas.

[00:26:05] Cara, e o filme é sensacional.

[00:26:07] Vou dar um spoiler aqui, mas isso não

[00:26:09] perde pra vocês assistirem. É um filme

[00:26:11] sensacional. É um filme que é

[00:26:12] o tempo inteiro, é o tempo inteiro.

[00:26:15] Ele é um vetor, porque ele tenta recuperar

[00:26:16] a masculinidade do seu parceiro.

[00:26:19] Tem toda uma cena disso, porque o parceiro

[00:26:20] que tinha… Ele acabou de ser introduzido na polícia.

[00:26:23] É uma cena, assim, completamente sem sentido.

[00:26:25] Que o parceiro

[00:26:27] dele, que é um cara veterano,

[00:26:29] chegou e tem… Ele que tem a teoria

[00:26:31] de que os caras são surfistas.

[00:26:32] Só que o cara tem vergonha de falar isso e todo mundo

[00:26:34] fica zoando ele, sei lá o que. Aí o

[00:26:37] John Yu tá, chega pra ele

[00:26:38] Qual é a sua teoria? Aí ele, eu tô com raiva.

[00:26:41] Tá com raiva? Então você tá se sentindo vivo.

[00:26:42] Então me diz a teoria. Aí eles vão lá e…

[00:26:44] É, eles são surfistas. Aí o cara passa assim

[00:26:46] Pô, eles são surfistas? É. Aí começa

[00:26:48] todo um plano esdrúxulo pra se infiltrar na

[00:26:50] gangue dos surfistas. Beleza. Eles se

[00:26:52] infiltram. E aí, quando eles

[00:26:55] se infiltram, o John Yu tá, ele

[00:26:56] se apaixona pelo personagem,

[00:26:58] pelo personagem do Patrick Schweiss.

[00:27:01] Que é o… Não lembro o nome do

[00:27:02] personagem dele agora. O…

[00:27:04] Eu anotei aqui. Bodhi.

[00:27:07] Bodhi. E ele

[00:27:08] tipo assim, que é o chefe da gangue dos surfistas

[00:27:11] que roubam as pessoas. Tá ligado?

[00:27:12] Rouba os bancos. E aí no final eles vão

[00:27:14] lá se resolver sobre isso. Vão ter umas cenas

[00:27:16] muito sem sentido, como eles pulando de

[00:27:18] paraquedas pra resolver as

[00:27:20] diferenças dele. E no final

[00:27:22] de tudo, o John Yu

[00:27:24] tá e deixa. Não, ele não

[00:27:26] ele não prende. Eu não vou dizer o que acontece

[00:27:28] porque é uma cena muito boa. Aqui é mula, inclusive

[00:27:30] os filmes de samurai do Akira Kurosawa.

[00:27:32] Olha só, ele é um grande fã de filmes

[00:27:34] de filmes de ação japoneses

[00:27:36] e é o próprio Keanu Reeves.

[00:27:39] Sim. Ele é um grande fã

[00:27:40] do Bita Keshi, dessa galera.

[00:27:43] Então, aí tipo assim, o final

[00:27:44] do filme é um filme de samurai, tá ligado?

[00:27:46] É muito louco, assim, porque tem aquela coisa

[00:27:48] da honra e tal. Mas enfim, o filme é

[00:27:50] sobre isso. Só que assim, quando você vai olhar

[00:27:52] pro filme

[00:27:53] no fundo, no fundo, é um filme sobre

[00:27:56] como o personagem do Keanu Reeves

[00:27:58] John Yu tá, ele reencontra o sentido

[00:28:00] da vida dele que tinha se perdido quando ele

[00:28:02] se machucou e não pôde seguir a carreira de

[00:28:05] astro do futebol

[00:28:06] e ele se reapaixona

[00:28:08] pelo mar e pelo personagem

[00:28:10] do Bode.

[00:28:12] Do Bode, do Patrick Swayze.

[00:28:14] É, porque é o ponto de que ele se torna incapaz

[00:28:17] incapaz

[00:28:18] de prendê-lo.

[00:28:20] Sim, do mesmo jeito que o Brian

[00:28:22] é incapaz de prender o

[00:28:24] Dominic e deixa ele escapar.

[00:28:28] Mas aí,

[00:28:28] no Velozes e Furiosos,

[00:28:30] é aí que eu acho que esse contexto homoerótico é um pouco

[00:28:32] suavizado, porque tem a relação

[00:28:34] dele com a

[00:28:36] com a irmã do Dominic.

[00:28:39] Mas, em

[00:28:40] momento nenhum, esse relacionamento

[00:28:42] com a irmã é um

[00:28:44] conflito entre ele e o Dominic. Na verdade,

[00:28:46] é um dos símbolos que a gente tem

[00:28:48] no filme de que eles estão se aproximando.

[00:28:50] É o fato de que ele está

[00:28:52] se aproximando do Dominic

[00:28:54] os dois através dos carros ali

[00:28:56] e que ele também está se tornando

[00:28:58] parte da família do Dominic, oficialmente,

[00:29:01] porque ele se torna o

[00:29:02] como é que se diz?

[00:29:06] O cunhado do Dominic.

[00:29:08] Que é assim que a gente vê

[00:29:10] que esse relacionamento está consumado

[00:29:12] é quando ele consuma

[00:29:14] o relacionamento carnal. É porque a gente vai ter uma cena de mamação entre eles.

[00:29:17] Exato. Então, a

[00:29:18] mamação é entre ele e a Mia

[00:29:20] e isso é

[00:29:22] isso agrada a ambos, entende?

[00:29:24] Essa proximidade. Não é um

[00:29:26] obstáculo entre os dois e tipo, ei, você

[00:29:28] e a minha irmã e não e tal. Não, tipo

[00:29:30] o tempo inteiro. Não, tem no começo, no começo.

[00:29:32] Na primeira cena tem isso.

[00:29:34] Mas não é porque…

[00:29:35] Mas quem fica revoltado

[00:29:38] quem fica revoltado por causa

[00:29:40] disso é o Vince.

[00:29:42] E como o Vince é parte da família, o Dominic

[00:29:44] prioriza ele e fala assim, cara, não aparece mais

[00:29:46] aqui porque, tipo, você irrita meus amigos.

[00:29:48] Você dando em cima da minha irmã, irrita meus amigos.

[00:29:50] Diga essa interpretação, mas tudo bem, pode ser.

[00:29:51] Porque a partir do primeiro dia que ele

[00:29:54] respeita o Brian, que é o dia da corrida

[00:29:56] que o Brian salva ele, ele

[00:29:57] já corta o Vince

[00:30:00] em qualquer antagonismo. Ele fala assim, ó

[00:30:01] você não gosta do cara, mas o cara é o

[00:30:04] cara que me salvou, é o cara que foi atrás de mim, eu tô

[00:30:06] aqui por causa dele. Então você deixa ele em paz.

[00:30:08] Mas eu…

[00:30:09] Tudo bem. Porque aí, na verdade, o ciúmes

[00:30:12] que existe ali é do Vince.

[00:30:14] Que o Vince era o

[00:30:16] o BFF

[00:30:18] do Dominic antes do Brian.

[00:30:20] Mas aí é o ponto que eu ia chegar, porque assim

[00:30:21] porque depois o Filosofos e Furiosos

[00:30:24] a partir do 4, 5, ele vira uma coisa

[00:30:26] sobre família, fato. Família

[00:30:27] uma coisa de… Sim, mas só que isso já tá no primeiro.

[00:30:30] Sim, mas depois do negócio vira o

[00:30:32] foco mesmo da parte da família. Ah, porque

[00:30:33] no 2 e no 3, eles não

[00:30:36] estão juntos, o

[00:30:38] Brian e o Dominic, né? E aí

[00:30:39] eles se reúnem novamente e viram uma família

[00:30:41] de novo, é no 4. Mas o 3

[00:30:43] já tem esse conceito com outros personagens, que é

[00:30:45] o Han criando a própria família ali em Tóquio

[00:30:47] com o Sean e o Bow Wow. Sim.

[00:30:50] E o primeiro já mostra isso

[00:30:52] de tipo assim, cara, nós somos todos

[00:30:54] uns desajustados que criam a própria família

[00:30:56] que é um tema muito comum, inclusive

[00:30:58] em Hollywood

[00:31:00] porque eu acho, assim, outro filme que eu amo

[00:31:01] e que tem um paralelo muito grande com esse aspecto

[00:31:03] do Belfast e Furiosos é o Hackers.

[00:31:06] Que eles criam a própria família de Hackers

[00:31:08] ali, né?

[00:31:09] É porque eu acho que na verdade isso é uma coisa

[00:31:11] interessante porque foge

[00:31:13] de um padrão, porque assim, tem um momento que eu acho interessante

[00:31:15] Foge da família nuclear, que é parte do sonho americano.

[00:31:18] Eu sei, mas depois tem um certo

[00:31:20] resgate disso com o filho, o irmão

[00:31:21] aí começa a ter umas coisas que é mais linha de parentesco

[00:31:24] meio doido ali. Mas ao mesmo tempo

[00:31:26] sempre de uma maneira não

[00:31:27] convencional e de tipo, por exemplo, quando a Mia

[00:31:30] fica grávida, todo mundo se une

[00:31:32] ao redor, assim, né? Tipo, todo mundo existe

[00:31:34] ali unido ao redor. Não é tipo

[00:31:36] assim, ah, o casal tem o filho e aí agora eles

[00:31:38] se retiram daqui. Tipo, não. Nós temos, né?

[00:31:40] Um de nós está… Rede de apoio.

[00:31:42] Rede de apoio. It takes a village

[00:31:44] to raise a child e tal.

[00:31:45] É uma visão muito mais

[00:31:47] complexa e

[00:31:50] inteligente de família do que a versão

[00:31:52] simples, ah, família

[00:31:54] nuclear, papai, mamãe, subúrbio. É, porque assim

[00:31:56] mas é isso que eu queria dizer, porque por exemplo

[00:31:57] no caso do Caçador de Emoção… E que o Brian

[00:31:59] quando o Paul Walker morre na vida real

[00:32:01] essa é a morte do personagem

[00:32:03] no Universo Diegético.

[00:32:05] No Universo Diegético o Brian ainda está vivo

[00:32:07] mas a morte dele é que ele decide ir

[00:32:10] para os subúrbios e se tornar um pai

[00:32:11] de família nuclear. Então ele não pode

[00:32:14] mais fazer parte dessa família.

[00:32:16] Mas eles acabam

[00:32:17] refazendo…

[00:32:20] Reforçando a própria ideia de que

[00:32:22] ser um pai de família, sabe?

[00:32:24] Ter uma vida normal é oposto…

[00:32:26] Tipo assim, o cara se separou

[00:32:28] entre o Walter White, né? Aquela vida

[00:32:30] do professor, sei lá o quê. Sim.

[00:32:32] A vida medíocre e a vida do herói.

[00:32:34] Exato, mas aí ele… Só que no

[00:32:36] Velados e Furiosos a vida medíocre é realmente

[00:32:38] essa morte, essa tipo, ó, infelizmente ele morreu. Sim!

[00:32:40] Então ele não pode mais viver. E o que é viver de verdade?

[00:32:42] Viver de verdade é ser o fora da lei, correndo

[00:32:44] com seus carros, tendo aventuras com uma

[00:32:46] família não tradicional.

[00:32:48] Essa que é a questão pra mim, o viver de verdade.

[00:32:50] Porque, por exemplo, o…

[00:32:52] Por isso que eu tava falando do…

[00:32:54] Como é que é o… Clube da Luta.

[00:32:56] Porque tem essa coisa da reconstrução

[00:32:58] do sujeito, da vida do sujeito.

[00:33:01] No…

[00:33:01] No Caçador de Emoção,

[00:33:04] o Johnny Utah, ele vai reconstruir

[00:33:06] a existência dele, a masculinidade

[00:33:08] dele, o tesão dele pra existir

[00:33:10] justamente por isso. No momento em que ele

[00:33:12] passa a integrar, que ele se apaixona

[00:33:14] pelo personagem do Bode, né?

[00:33:16] Ele se apaixona por ele. E aí, tipo assim,

[00:33:18] ele fala assim, agora… Tipo, tem um momento que ele

[00:33:20] tá surfando e sei lá o quê, e aí

[00:33:22] todo… Ele reencontra o sentido

[00:33:24] dele naquela relação homerótica

[00:33:26] não efetivada de uma relação efetivamente sexual.

[00:33:29] Mas tem ali.

[00:33:30] A relação dele é extravasada.

[00:33:33] Cara, no filme fica muito claro

[00:33:34] isso. Ele tá extravasando meio que

[00:33:36] a tensão sexual dele

[00:33:38] com a mina lá, tá ligado?

[00:33:39] Sim, e com a ideia de

[00:33:42] viver uma vida não tradicional.

[00:33:45] Que vai… Não só

[00:33:46] tem a ver com, tipo, como que eles conseguem

[00:33:48] dinheiro sendo fora da lei, mas como…

[00:33:50] Tipo, o que é a vida deles? A vida deles não é

[00:33:51] ir pro escritório de segunda a sexta

[00:33:54] e viver no fim de semana. A ideia deles é essa também

[00:33:56] de, tipo, isso sim é viver

[00:33:58] porque eu não estou dentro das

[00:33:59] estafantes normas sociais.

[00:34:03] Só que aí que acontece.

[00:34:04] É isso que eu falo. Como

[00:34:06] tudo tá dentro de um contexto,

[00:34:08] né? É aquilo.

[00:34:10] O surf… Você vai ver o que vai acontecer com o surf

[00:34:12] depois. Vai se tornar um estilo de vida

[00:34:13] pro empresário que depois vai lá

[00:34:16] e saca isso, foi no fim de semana.

[00:34:18] Todos esses estilos de vida

[00:34:20] são cooptados eventualmente

[00:34:22] pelo capitalismo porque toda

[00:34:24] rebeldia cabe

[00:34:25] ser comoditizada dentro do capitalismo

[00:34:28] que inclusive é o final

[00:34:30] do Mad Men.

[00:34:32] Que é toda aquela

[00:34:34] jornada do Don Draper em se

[00:34:36] desvencilhar da sociedade

[00:34:37] normal e do sonho dele americano

[00:34:40] que era destrutivo a ele e todos ao seu redor

[00:34:42] chega num

[00:34:43] momento de pseudo

[00:34:46] iluminação que ele

[00:34:48] transforma num anúncio de Coca-Cola.

[00:34:50] Então, esse que é o ponto crucial

[00:34:52] porque aí quando a gente entende isso

[00:34:54] o próprio filme

[00:34:55] já é essa comoditização.

[00:34:58] Já? Sim, sim.

[00:34:59] É Hollywood que é um dos braços

[00:35:02] do Estado

[00:35:04] e da sociedade normatizadora e do imperialismo

[00:35:06] americano e dessa

[00:35:07] exportação, da globalização, dessa

[00:35:10] única visão de mundo e dessa ideologia

[00:35:12] dizendo tipo

[00:35:13] toma, o seu sonho

[00:35:16] de rebeldia tá aqui,

[00:35:18] entre você e o filme. Do mesmo jeito

[00:35:20] que, por exemplo, hoje em dia a gente tem

[00:35:22] o Don’t Look Up

[00:35:24] lá, que é o filme do Meteoro

[00:35:26] lá do Netflix, que as pessoas falam, ai, nossa, que legal

[00:35:28] que tá falando sobre como a gente

[00:35:30] não se importa com

[00:35:31] o aquecimento global

[00:35:34] e tudo mais, mas ele é por si só

[00:35:36] parte daquilo que ele

[00:35:37] aponta e critica do filme

[00:35:40] que é, pronto, vem aqui ver

[00:35:42] o filme e aqui está espiada

[00:35:44] a sua, o quanto

[00:35:46] você está inconformado com isso,

[00:35:48] o quanto que você quer que tudo mude, tudo isso

[00:35:50] pode ser atingido através do simples

[00:35:52] consumo desse produto comercial

[00:35:54] de Hollywood, que é, seja

[00:35:56] o Keanu Reeves surfando,

[00:35:59] o Paul Walker correndo

[00:36:00] de carro na rua, tirando racha

[00:36:02] e tunando o carro, e

[00:36:04] o Leonardo DiCaprio falando, nossa, como

[00:36:06] que vocês não enxergam que vocês têm que agir e não sei

[00:36:08] o que, é você vendo o filme e falando, nossa,

[00:36:10] tá certo mesmo, o que eu vou jantar hoje?

[00:36:13] Não, então, isso,

[00:36:14] e aí que ele cria duas coisas aí,

[00:36:16] uma delas é o seguinte, quer ver,

[00:36:18] é justamente esse momento entre os

[00:36:20] rapazes, tá ligado? O momento que o cara

[00:36:22] consegue escapar da sua vida estafante,

[00:36:24] incluindo-se aí sua esposa,

[00:36:26] esse é o ponto, cara, porque assim, como

[00:36:27] são lógicas excludentes

[00:36:29] do patriarcado, machistas, né,

[00:36:32] o cara assim, não, eu só consigo ser

[00:36:33] verdadeiro com meus brother,

[00:36:36] tá ligado? É o filme da broderagem, né, o filme da broderagem.

[00:36:38] Sim, o Bromance, o Bromance é o ápice da broderagem.

[00:36:40] É, e aí, tipo assim, como se

[00:36:42] a vida do cara só pudesse ser isso,

[00:36:44] e aí, tipo assim, aí você cria desde

[00:36:46] da insatisfação, porque é uma vida inalcançável,

[00:36:48] né, e daí você cria

[00:36:50] uma série de recalques que vão ser,

[00:36:52] digamos, atualizados

[00:36:54] dos microfascismos, eu tô falando isso é muito sério,

[00:36:56] tipo assim, o sujeito olha pra um Johnny Utah,

[00:36:58] olha pra um, ele não consegue ser,

[00:37:00] sei lá, o Dominique Toretto,

[00:37:02] ele vai criar ali toda uma repressão,

[00:37:04] tô falando assim, como a sociedade funciona, não tô falando

[00:37:06] do indivíduo pra isentá-lo de responsabilidade,

[00:37:08] não, como você vai

[00:37:10] criar naquilo ali uma promessa

[00:37:12] pro masculino, que é

[00:37:13] irrealizável, é irrealizável,

[00:37:16] e dessa irrealização,

[00:37:18] você, e pela

[00:37:19] irrealização disso, né, porque

[00:37:21] quer dizer, ó, você não consegue ter essa

[00:37:23] vida, porque, olha só, porque o nosso

[00:37:25] governo, ele prioriza

[00:37:28] você ter salários iguais pras

[00:37:29] mulheres, você não consegue ter essa

[00:37:32] vida porque, pô, tem cota na universidade,

[00:37:34] você não consegue ter essa vida, sabe,

[00:37:35] e mais do que isso, eu acho que

[00:37:37] mesmo quando ele não ataca

[00:37:39] questões específicas,

[00:37:42] é o que diferencia, por exemplo, esses filmes

[00:37:44] de um day leave ou de um próprio Matrix

[00:37:46] Resurrections, né, ou do próprio primeiro

[00:37:48] Matrix, que é o seguinte, que o day leave

[00:37:50] e o Matrix, eles reconhecem que, tipo, ó,

[00:37:52] nem todo mundo quer ser

[00:37:54] retirado desse sistema, mas faz

[00:37:55] parte do nosso esforço

[00:37:57] fazer a pessoa enxergar porque que esse sistema é ruim

[00:38:00] pra ela, e ela querer

[00:38:01] ser liberta, e aí a gente ajudar essas pessoas

[00:38:03] a se libertarem desse sistema, e a gente derrubar esse sistema.

[00:38:06] Em filmes como

[00:38:08] o Caçadores de Aventuras e

[00:38:09] Velados e Furiosos, é sobre

[00:38:12] como eles não querem ser parte

[00:38:13] desse sistema, mas que o sistema pode

[00:38:15] perdurar. Eles só querem ser

[00:38:18] excluídos disso, que aí encaixa com aquilo que você

[00:38:19] tava falando da coisa do, da visão

[00:38:22] estadunidense primária,

[00:38:24] que é, me deixa em paz.

[00:38:25] Que é, tipo, e aí, ou seja, ele não tá

[00:38:27] interessado, o Johnny Utah e o Brian O’Connor

[00:38:30] não tão interessados em dizer, tipo, nossa,

[00:38:31] da mesma maneira que eu me libertei dessas expectativas

[00:38:34] desse sistema, e vim aqui fazer

[00:38:35] parte desse grupo de Foras da Lei, eu quero

[00:38:37] que todo mundo se liberte, é tipo, não, eu quero

[00:38:39] continuar sendo o outsider

[00:38:41] do status quo, mas o status quo

[00:38:44] existindo, pouco me importa.

[00:38:45] Quer ver um só exemplo disso? No fim das contas,

[00:38:48] a gente tá falando de dois filmes

[00:38:49] que são o comercial da Camel,

[00:38:52] o comercial da Malboro,

[00:38:54] sabe, do cowboy,

[00:38:55] eu sou o Fora da Lei, a galera mais nova não vai

[00:38:58] lembrar disso, mas Cigarro,

[00:39:00] Cigarro, depois que

[00:39:02] você consolidou a ideia

[00:39:03] de que Cigarro era um produto nocivo, perigoso,

[00:39:06] então falou assim, então,

[00:39:08] você transformou o fumar

[00:39:09] em um ato, assim, heróico,

[00:39:12] então você fuma, você afirma…

[00:39:14] É, você fuma, você afirma a sua independência,

[00:39:16] e inclusive isso,

[00:39:18] é algo que, quando você vai ver o Olavo de Carvalho,

[00:39:21] o Olavo de Carvalho

[00:39:22] reintroduziu o cigarro das pessoas.

[00:39:24] Sim, o Olavo de Carvalho

[00:39:26] vem daquela

[00:39:27] linhagem Dennis Leary,

[00:39:30] aquela coisa de tipo,

[00:39:31] ah, eu sou o homem à moda antiga,

[00:39:34] eu bebo café

[00:39:36] sem o chantilly do Velozes e Furiosos,

[00:39:39] né, eu fumo

[00:39:40] cigarro, e eu não bebo.

[00:39:41] Eu não me importo, é isso, entendeu?

[00:39:44] E aí, cara, tipo assim, então a gente tá vendo um grande

[00:39:46] comercial de

[00:39:47] de

[00:39:47] , do Malboro, tá ligado? Um grande comercial

[00:39:50] de cigarro. Enquanto, e aí tu vê,

[00:39:52] o cara vai pra, pra,

[00:39:54] o cara vive aventuras, pula de paraquedas,

[00:39:56] surfa, pega a racha

[00:39:58] de carro, troca tiro, e sei lá o quê,

[00:40:01] os filmes são sobre isso,

[00:40:02] os filmes são sobre isso, são pra você criar uma

[00:40:04] experiência masculinista

[00:40:05] pra que o público possa se sentir bem

[00:40:08] com aquilo, né, é aquilo,

[00:40:10] eu e com meus brothers, e sei lá o quê,

[00:40:12] é o, o, o, a morte do

[00:40:14] do Paul Walker, como é que é o personagem dele?

[00:40:16] O Brian.

[00:40:17] O Brian é basicamente o momento que o cara

[00:40:19] vai embora do fim de semana pra voltar pra casa,

[00:40:22] tá ligado? Tipo assim…

[00:40:23] E do mesmo jeito que o cigarro, quando ele começou a ser visto

[00:40:26] universalmente como nocivo, ele vira uma figura

[00:40:28] de rebeldia, o Velozes e Furiosos tem que lidar

[00:40:30] com isso, com o fato de que o seu objeto

[00:40:32] de fetiche principal é o carro,

[00:40:34] e que ele é o, o, o fim

[00:40:36] da cultura do fetiche do carro, que é tão

[00:40:38] central pro, pra cultura americana,

[00:40:40] porque ele ainda, ele, ele é

[00:40:42] permitido ser um

[00:40:44] filme que fetichiza o carro, porque ele é tão

[00:40:45] fantástico e descolado da realidade,

[00:40:47] que aquelas máquinas são extensões

[00:40:49] dos seus personagens, e por exemplo, a gente nunca

[00:40:51] vê um carro sendo abastecido

[00:40:53] num, num, num Velozes e Furiosos, porque

[00:40:55] você nunca pode

[00:40:57] relacionar aqueles heróis

[00:40:59] com quem você tem empatia e tem razão

[00:41:01] e aquelas máquinas que são tão excitantes

[00:41:03] de serem vistos na tela

[00:41:05] com o fato de que elas são máquinas poluentes

[00:41:07] que causam o, o, o

[00:41:09] aquecimento global. É, o carro do

[00:41:11] Velozes e Furiosos, ele não tem nada a ver com a extração de

[00:41:13] petróleo e, e, e a

[00:41:15] mudança climática. Ele é um carro totalmente…

[00:41:17] Realmente fantástico. Por mais que ele

[00:41:19] acaba servindo pra fetichizar o carro

[00:41:21] real, que é sim parte dessa máquina,

[00:41:23] né? Então é muito interessante

[00:41:25] como o filme, ele tem que separar

[00:41:27] o carro da tela do carro real,

[00:41:29] assim, é isso. Tipo, aquele carro,

[00:41:31] você nunca vê ninguém abastecendo um carro, ninguém

[00:41:33] botando gasolina num carro, falando que tá faltando

[00:41:35] combustível ou que o, o, não pode

[00:41:37] ficar ali muito tempo que o escapamento vai

[00:41:39] sufocar as pessoas com monóxido de carbono.

[00:41:41] Não, não, não. É tipo,

[00:41:43] aquele carro… Acende carro de pessoas morrendo,

[00:41:46] sabe? Também não, também não.

[00:41:47] Acontece das vítimas, por exemplo. Exato.

[00:41:49] Os caras fazem

[00:41:51] racha, mas nunca bateram

[00:41:53] em um local, apelado a ninguém.

[00:41:55] Tudo bem, porque todos eles sobrevivem,

[00:41:57] eles são super humanos, mas é aquilo,

[00:41:59] quando eles batem em outros carros, né?

[00:42:01] Quando eles destroem metade do Rio de Janeiro

[00:42:03] com um cofre amarrado, é

[00:42:05] ou carro de polícia, ou

[00:42:07] passageiros que a gente não vê, e é isso.

[00:42:09] É tudo muito despersonalizado, por isso que até

[00:42:11] no oitavo Velozes e Furiosos, a

[00:42:13] grande cena de perseguição com os carros sendo destruídos

[00:42:15] é especificamente sobre carros,

[00:42:17] carros autônomos, que estão sendo controlados

[00:42:19] pela Charlize Theron

[00:42:21] à distância. Então, não tem pessoas dentro daqueles carros.

[00:42:23] Então, você pode destruir aqueles carros, porque não

[00:42:25] existem inocentes para serem machucados.

[00:42:27] É tipo, a destruição daquele carro é totalmente

[00:42:29] amoral, assim.

[00:42:31] Ela não é certa nem errada,

[00:42:33] ela só é.

[00:42:34] É uma existência… E esse que é um ponto

[00:42:37] que eu acho também importante,

[00:42:40] é porque você

[00:42:41] cria, e eu tô falando,

[00:42:43] eu acho feriamente mesmo, você

[00:42:45] cria uma certa… As pessoas falam, ah, você é muito chato

[00:42:47] com isso. Não é fechado, mas você cria nas pessoas

[00:42:49] uma certa sensação de inconsequência

[00:42:51] num estilo de vida.

[00:42:53] Porque é isso, cara. Por exemplo,

[00:42:56] inclusive a gente vê muito

[00:42:57] isso hoje por causa de pandemia, né? As pessoas

[00:42:59] tentando… O que eu tenho que

[00:43:01] fazer isso? Cara, entender

[00:43:03] a dificuldade que as pessoas têm de entender

[00:43:05] um pacto coletivo, né?

[00:43:07] Vim muito dessa…

[00:43:09] Pensa o seguinte, ouvinte,

[00:43:11] pra não achar que eu tô exagerando.

[00:43:13] A gente tá falando de filmes que

[00:43:14] tão bombardeando

[00:43:17] o nosso entendimento desde sempre, né?

[00:43:19] A gente já falou aqui no Pop Cult sobre

[00:43:21] como, por exemplo, projeções amorosas

[00:43:23] hoje em dia são

[00:43:25] permeadas pela expectativa

[00:43:27] de coisas que as pessoas aprenderam nos filmes de Hollywood.

[00:43:30] Sabe? A ideia de amor romântico

[00:43:31] vem disso. Então, assim, a própria

[00:43:33] ideia de como nós

[00:43:34] poderíamos realizar, resgatar

[00:43:37] uma certa masculinidade

[00:43:39] perdida… Porque é esse que é o ponto.

[00:43:41] Gente, o capitalismo, ele não é bom pra ninguém.

[00:43:43] Ele não é bom pra ninguém. A não ser que você

[00:43:45] seja um bilionário, o capitalismo,

[00:43:47] o cara que, sei lá, o maluco que…

[00:43:49] O cara que é o bolsonarista

[00:43:51] classe média, que sonha ter um carro tunado

[00:43:53] ou que tem um carro tunado, não é bom pra ele.

[00:43:55] Porque ele tem que se fuder pra trabalhar.

[00:43:56] Isso e aquilo, sei lá o quê. O que uma revolta nesse cara.

[00:43:59] Então, o que você faz?

[00:44:01] Como é que o sistema faz? Ele sabe que as pessoas

[00:44:03] vão ficar revoltadas porque estão sendo oprimidas.

[00:44:05] Então, ele tem que criar uma realização pra aquelas pessoas.

[00:44:07] Uma válvula de escape.

[00:44:09] Sabe? E essa válvula de escape,

[00:44:11] quanto mais essa válvula de escape for alinhada

[00:44:13] com os próprios valores do sistema opressivo, melhor.

[00:44:15] Essa que é a grande questão.

[00:44:17] Então, quando você está afirmando a masculinidade

[00:44:19] como uma válvula de escape,

[00:44:20] essa recuperação da masculinidade

[00:44:23] como uma válvula de escape, você está

[00:44:25] simplesmente afirmando a própria

[00:44:27] base patriarcal do sistema

[00:44:29] que está na origem de tudo.

[00:44:31] Basicamente, não é à toa

[00:44:33] que na sequência disso

[00:44:35] você vai ver a explosão, sei lá,

[00:44:37] a partir dos anos 2000, da quantidade

[00:44:39] desses coaches marombeiros,

[00:44:41] tá ligado? Que é o coach

[00:44:43] que tenta resgatar a sua masculinidade perdida

[00:44:45] porque por causa da vida capitalista,

[00:44:47] porque você tem lá a vida…

[00:44:48] A ideia de macho alfa e tudo mais.

[00:44:51] Sim.

[00:44:51] Que está na base de um monte de movimento

[00:44:55] de extrema-direita.

[00:44:57] Gente, esses movimentos de extrema-direita nos Estados Unidos,

[00:44:59] todos têm isso como base.

[00:45:00] É, a evolução é muito linear

[00:45:03] entre os

[00:45:04] pick-up artists e os

[00:45:07] men’s right activists

[00:45:09] na internet

[00:45:10] pro Gamergate e a infiltração

[00:45:13] desses pensamentos ultradireitistas,

[00:45:14] ultramachistas, dentro da…

[00:45:17] do fértil chão

[00:45:18] da cultura gamer, que já estava muito

[00:45:21] preparada pra receber esse tipo de infusão de ideia.

[00:45:23] E aí vem a radicalização desse público

[00:45:25] pra um público trumpista

[00:45:27] de extrema-direita, de alt-right,

[00:45:28] que hoje tá aí em grupos

[00:45:30] como os Proud Boys

[00:45:32] e tudo mais, e que é o que desce

[00:45:34] pra cá, com o Steve Bannon e tudo mais,

[00:45:36] desce pro Brasil, até por

[00:45:38] a gente ser um quintal

[00:45:40] dos Estados Unidos e sofrer esse tipo de influência cultural

[00:45:42] generalizada.

[00:45:44] Então é natural que isso desça pra cá.

[00:45:47] Há uma relação direta entre isso.

[00:45:49] Toma detalhe,

[00:45:50] que eu falo dos grupos que eu acompanho.

[00:45:53] Cara, tem

[00:45:54] uma galera que fala…

[00:45:57] Uma galera, quando eu digo assim, a gente tá falando de filho do

[00:45:59] presidente, tá ligado?

[00:46:00] Tá falando de gente, um doidão da rua,

[00:46:03] sei lá, não. De presidente.

[00:46:05] Que vai falar que o aumento da violência no Brasil

[00:46:07] tem uma relação direta

[00:46:08] com a emasculação

[00:46:11] dos homens.

[00:46:12] Que tá totalmente relacionado àquele discurso

[00:46:15] de que, pra diminuir a violência,

[00:46:17] você precisa armar as pessoas.

[00:46:18] Porque a arma é uma maneira de você se sentir

[00:46:21] mais homem.

[00:46:23] De você se sentir mais poderoso

[00:46:25] e agressivo e capaz

[00:46:26] de se defender, entre aspas,

[00:46:31] que na verdade é atacar o outro.

[00:46:33] Então,

[00:46:34] alimenta esse discurso, que é um discurso que

[00:46:36] beneficia exatamente

[00:46:38] esse tipo de pessoa.

[00:46:40] O interesse, o lobby das armas

[00:46:42] e essa ultradireita.

[00:46:44] E aí, de volta,

[00:46:46] só pra terminar,

[00:46:47] com essa história,

[00:46:48] porque, por exemplo, no caso do

[00:46:49] primeiro filme,

[00:46:52] e também do Velados e Furiosos,

[00:46:54] ele, porque é aquela coisa, né?

[00:46:57] É uma crítica,

[00:46:59] é o cara assim, é como a gente olha

[00:47:00] pro bolsonarismo e eles viviam o tempo inteiro.

[00:47:03] Nós somos o outsider,

[00:47:05] nós estamos lutando contra o establishment.

[00:47:07] Só que eles são o establishment.

[00:47:08] Eles são o próprio core duro, né?

[00:47:10] Exato, é aquilo que a gente sempre fala aqui,

[00:47:12] que é, tipo, eles tem que ser ao mesmo tempo extremamente

[00:47:14] superiores, poderosos, armados,

[00:47:16] viris,

[00:47:18] e estar sob completa ameaça.

[00:47:20] Ao mesmo tempo.

[00:47:21] Sim, mas é por isso que eu tava falando, porque, por exemplo,

[00:47:23] no caso do Caçadores de Emoção, os caras roubam

[00:47:26] bancos, dentro de toda aquela

[00:47:28] história, assim, eles são vistos como pessoas legais

[00:47:30] porque eles roubam bancos,

[00:47:32] e aqui não estamos falando mal de pessoas que roubam bancos,

[00:47:34] mas também não estamos falando bem.

[00:47:35] Não estamos falando bem.

[00:47:37] E muito menos estamos falando bem de banco.

[00:47:39] Também, jamais, jamais, jamais.

[00:47:42] Aqui, realmente, bem de banco não.

[00:47:44] Não, inclusive aqui, antes de a gente começar,

[00:47:46] começar a gravar, o Orlando estava se falando especificamente

[00:47:48] mal de um banco específico, porque ele estava

[00:47:49] sofrendo como cliente.

[00:47:51] Estou puto, estou gravando esse programa puto como cliente de banco.

[00:47:54] Mas, enfim,

[00:47:55] e aí o que acontece?

[00:47:58] Só que, tu vê, esses sujeitos,

[00:48:00] eles estão recuperando

[00:48:02] seus dinheiros, porque nos Estados Unidos tem muito isso,

[00:48:04] os bancos, os bancos roubam.

[00:48:06] Sim, só que aí o que acontece?

[00:48:08] Mas aqui também tem, mas

[00:48:10] exatamente as pessoas que falam que imposto é roubo,

[00:48:12] elas nunca percebem que o verdadeiro roubo não é o imposto.

[00:48:14] É o fato de que o banco,

[00:48:16] tipo, te rouba e não paga imposto.

[00:48:18] É, e aí, tipo,

[00:48:19] esses caras estão fazendo justiça com as

[00:48:22] próprias mãos contra o sistema financeiro,

[00:48:24] tá ligado? E aí, tu vê, no final,

[00:48:26] o filme

[00:48:28] é sobre a derrocada

[00:48:30] do Johnny Utah, que não

[00:48:32] consegue se tornar, digamos,

[00:48:34] o macho alfa de verdade,

[00:48:36] falando dentro dessa diegésia masculinista,

[00:48:38] né, porque no final,

[00:48:40] ele não consegue, assim, o máximo que ele consegue

[00:48:42] é dar uma derrota honrosa, não vou dar o spoiler aí,

[00:48:45] mas, por exemplo, dar uma derrota honrosa,

[00:48:46] honrosa ao

[00:48:47] ao… ao… Bory.

[00:48:50] Tipo, porque, assim, no final

[00:48:52] das contas, ele não consegue não realizar

[00:48:53] o intuito dele. De alguma forma ou de outra,

[00:48:56] ele vai parar os assaltos a banco.

[00:48:58] Sabe qual é? Esse que é o ponto. Ele vai impedir

[00:49:00] que outras pessoas que estão fazendo a verdadeira justiça

[00:49:02] sobrevivam, porque é isso.

[00:49:04] Que é diferente do final do…

[00:49:06] do Veloso e Furioso.

[00:49:08] Porque o

[00:49:09] Brian só revela

[00:49:11] o fato de que ele é um policial

[00:49:13] e

[00:49:13] e tenta

[00:49:16] impedir o último roubo

[00:49:17] dos Toretto, porque

[00:49:20] ele sabe que os

[00:49:22] os caminhoneiros agora estão armados

[00:49:24] e vão, e eles vão correr o risco

[00:49:26] de serem mortos pelos caminhoneiros,

[00:49:28] né, e ele precisa avisar

[00:49:30] o Dominic salvar ele, e aí

[00:49:32] ele se desfaz

[00:49:34] dos seus laços com a polícia pra

[00:49:36] salvar o Dominic, né, ele

[00:49:38] sabe que ele tá, ao momento que ele dá o carro

[00:49:40] pro Dominic e fala, não, foge e tal,

[00:49:42] ele, ele tá

[00:49:43] se ferrando, assim, ele tá dizendo, bom,

[00:49:46] eu não posso voltar e continuar sendo um policial

[00:49:48] depois disso, que é exatamente o que a gente vê

[00:49:50] depois, ele vira o próprio Fora da Lei.

[00:49:52] O segundo Veloso e Furioso

[00:49:54] é ele encarnando o papel do Dominic

[00:49:56] de Fora da Lei, né.

[00:49:57] Ele é quase o reverso

[00:50:00] do Don Draper, ele quase, ele assume

[00:50:02] a identidade do amigo

[00:50:03] que ali tá

[00:50:05] diegeticamente desaparecido, logo

[00:50:08] morto, então ele

[00:50:10] diz, bom, então eu vou ser esse

[00:50:12] Fora da Lei pra eu ter essa liberdade que eu não podia ter

[00:50:14] enquanto o policial, e

[00:50:16] a gente vê um pouco do que a gente tinha visto no primeiro

[00:50:18] filme, que é, ele na verdade era um Fora da Lei

[00:50:19] que virou um policial que agora voltou a ser um Fora da Lei.

[00:50:22] Não, é, e isso

[00:50:24] é uma coisa que eu acho que é interessante também

[00:50:26] porque

[00:50:27] eu acho que também tem

[00:50:30] muito a ver com a mudança de filmes, né,

[00:50:32] a mudança da percepção

[00:50:34] do próprio cinema.

[00:50:36] Sabe que o Caçadores de Emoções

[00:50:37] tinha uma continuação, né, que não foi filmada

[00:50:40] porque o Patrick Chase morreu.

[00:50:42] Ah, ia ter uma continuação, mas foi

[00:50:44] bem depois, ele morreu muito tempo depois.

[00:50:46] É, ia ser uma continuação que acontece

[00:50:48] que o personagem dele, a gente, vou dar o spoiler,

[00:50:50] ele deixa o

[00:50:51] Patrick Chase, ele morre,

[00:50:55] o Johnny O’Tay, no lugar de

[00:50:56] prender ele, deixa ele surfar

[00:50:58] uma onda que só acontece

[00:50:59] de dois em dois séculos, sabe qual é?

[00:51:01] Que é a onda perfeita e tudo mais, e ele

[00:51:04] vai lá, deixa o cara surfar, não prende o cara, o cara vai

[00:51:06] surfa e morrem na onda.

[00:51:07] A onda vai lá, engole ele, o filme termina com a onda engolindo ele.

[00:51:11] É, por isso que é a metáfora

[00:51:12] dos filmes de samurais,

[00:51:14] deixa a morte honrosa do inimigo.

[00:51:16] E o enterro viking, aquela coisa

[00:51:18] de você ser enterrado no mar, e você

[00:51:19] morrer de uma maneira honrosa

[00:51:22] e tudo mais. Só que tinha um filme em produção

[00:51:24] que era, depois,

[00:51:26] que foi um roteiro que eles fizeram, eles não puderam fazer

[00:51:27] na sequência, porque

[00:51:28] no meio da gravação do filme,

[00:51:32] no meio da gravação do filme, na verdade, assim,

[00:51:34] entre todas as etapas do cinema,

[00:51:36] porque é isso, você aprova o roteiro, começa a

[00:51:38] produzir, sei lá o que, até começar a filmar,

[00:51:40] são anos, às vezes.

[00:51:42] Entre um ponto e outro do filme,

[00:51:43] o Patrick Chase se tornou o homem mais sexy

[00:51:45] da América.

[00:51:46] Por causa de Ghost.

[00:51:47] Ah, sim, sim. E aí ele tava

[00:51:49] acima de fazer mais um…

[00:51:52] Mais um filme. É,

[00:51:53] na verdade, assim, mas o pior que o cara falou assim,

[00:51:55] o roteirista, eu ouvi o roteirista falar isso,

[00:51:57] o cara era do caramba, sabe?

[00:51:59] Tinha que ter segurança pras mulheres

[00:52:02] no poder, porque imagina, ele deu algum depoimento,

[00:52:03] ele tava sem camisa na praia, sabe?

[00:52:06] Depois do Ghost. E aí

[00:52:07] ele falou assim, cara,

[00:52:09] só que eles não tinham mais como

[00:52:11] bancar o salário do cara.

[00:52:13] Então ele foi fazer outras paradas.

[00:52:14] Então esperou ele entrar, mas até

[00:52:16] cadência, né, da carreira

[00:52:18] dele, pra poder começar a reproduzir

[00:52:20] o filme, só que ele morreu. E ele

[00:52:22] sobreviveria, né? Ele iria sobreviver

[00:52:24] vivendo debaixo, ele se

[00:52:26] escondeu numa caverna submarina

[00:52:28] e depois ele seria, ele

[00:52:30] viveria, sei lá, em Maui, uma coisa assim,

[00:52:32] tipo, e aí seria mandado de novo

[00:52:34] um agente federal. Vendendo um estangue na praia.

[00:52:36] É, vivendo das coisas

[00:52:38] que a natureza dá. E aí sim,

[00:52:40] então teria uma continuação, só que ele seria

[00:52:42] o personagem principal.

[00:52:44] Entendeu? Porque assim, o único personagem

[00:52:45] que… Porque aí que vem o ponto. O único

[00:52:47] que eu acho que combina bem com isso que você

[00:52:49] falou. Porque como

[00:52:52] o… A partir da década

[00:52:54] de 90, todo filme foi feito já pensando

[00:52:56] na sua continuação. Sim. Cara,

[00:52:58] era muito difícil. Hoje em dia

[00:53:00] ainda é muito difícil, mas é muito difícil você ter

[00:53:02] um filme que é um stand-alone. Não tem

[00:53:03] como. Os caras já investem pra querer criar uma franquia.

[00:53:06] Já tem filme que já nasce franquia,

[00:53:08] né? Isso que é a doideira, né? Sim.

[00:53:10] Tipo, pra falar do Keanu Reeves,

[00:53:12] o Velocidade Máxima. Que o VHS

[00:53:14] já vinha com

[00:53:15] um teaser do Velocidade Máxima 2.

[00:53:18] E é mó doideira.

[00:53:19] É um mó doideira. É um barco.

[00:53:22] É um barco. Inclusive não tem o Keanu Reeves,

[00:53:23] né? Não tem o Keanu Reeves, mas tem a Sandra Bullock,

[00:53:26] né, cara? Que porra, que azar.

[00:53:28] E aí, tipo…

[00:53:29] Ela tá sempre num porra, sempre sequestrando

[00:53:31] as minhas paradas aqui.

[00:53:34] Cara, mas assim,

[00:53:35] que é a ideia de que a gente volta

[00:53:37] pro começo do programa. Que

[00:53:39] só esse personagem

[00:53:41] contra a lei ou que vive na margem da lei pode viver

[00:53:43] aventuras, de fato. Porque, por exemplo,

[00:53:45] tanto que você fala…

[00:53:46] Pra você viver qualquer tipo de vida

[00:53:51] com esse tipo de liberdade,

[00:53:53] você tem que abdicar

[00:53:54] dos confortos e privilégios

[00:53:57] da vida em sociedade, que encaixa

[00:53:59] com o velho bom discurso de que tudo que é bom

[00:54:01] na sociedade se deve ao capitalismo.

[00:54:04] Então você não pode ter um celular

[00:54:05] se você é anticapitalista, né?

[00:54:08] Não, mas nem é isso, cara.

[00:54:09] Sabe o que eu acho? Que, assim, a verdadeira

[00:54:11] nessa diegese

[00:54:13] masculinista, patriarcal,

[00:54:15] a única história que vale a pena ser contada

[00:54:17] é a sonha dos homens que vivem o sonho da masculinidade.

[00:54:20] É esse que é o ponto.

[00:54:21] É a cena clássica.

[00:54:24] Eu não vou poder pegar um exemplo concreto

[00:54:25] aqui, mas você vai pensar em mil filmes que tem essa cena.

[00:54:28] Que é, a gente tem o herói que vive

[00:54:29] a margem da sociedade. Ele é, de certa maneira,

[00:54:31] um não conformista, se não

[00:54:33] fora da lei. E aí ele, sei lá,

[00:54:35] come um hambúrguer

[00:54:37] do McDonald’s e ele fala

[00:54:38] eu tinha saudade disso e tal.

[00:54:41] Sempre tem uma representação física

[00:54:43] do capitalismo enquanto…

[00:54:45] o maior provedor de prazeres.

[00:54:48] Demolidor.

[00:54:49] É, exatamente.

[00:54:51] Cara, demolidor é um exemplo disso. Porque o demolidor, por exemplo,

[00:54:53] é uma sociedade onde

[00:54:55] o Johnny e o Tassi tornou padrão.

[00:54:57] Sim, e que o Dennis Leary é um personagem

[00:54:59] que é só o Dennis Leary, que é o cara

[00:55:01] que fala assim, ah, hambúrguer de rato, isso sim que é bom

[00:55:03] e tal.

[00:55:05] É, é isso, né, cara.

[00:55:07] O cara, assim, os caras que a verdadeira liberdade

[00:55:09] é poder ser oprimido pelo capitalismo.

[00:55:11] E que tem a ver com

[00:55:13] o cowboy da Malboro,

[00:55:15] a verdadeira liberdade é a liberdade

[00:55:17] de eu me matar.

[00:55:19] Sim, mas é isso. O capitalismo é a grande religião

[00:55:21] sacrificial, cara.

[00:55:24] Ninguém é mais mártir

[00:55:25] do que o

[00:55:27] ser que aceita se subjugar ao

[00:55:29] capitalismo, porque ele é

[00:55:31] a virgem no vulcão do capitalismo.

[00:55:34] Só que achando que é

[00:55:35] do caralho aqui, ó.

[00:55:37] E achando que ele tá sendo privilegiado. Não é nem como

[00:55:39] uma pensamento de, tipo, assim, eu vou

[00:55:41] me sacrificar muito aqui, trabalhando e me matando

[00:55:44] e sacrificando o meu corpo e a minha

[00:55:45] mente pelo bem do capitalismo, porque o capitalismo

[00:55:47] é bom pro coletivo. Não.

[00:55:50] É porque eu

[00:55:51] estou tomando a decisão certa

[00:55:53] e estou tomando essa decisão

[00:55:55] de total livre-arbítrio. Nada no

[00:55:57] capitalismo me encaminha pra

[00:55:59] decisão que eu tô tomando de me submeter a ele.

[00:56:02] No final do Caçador de Emoções, você tem

[00:56:03] dois personagens submergindo, né.

[00:56:06] Um é o

[00:56:08] Bori, que vai ser fundado

[00:56:09] na onda, e o outro é o Johnny Utah, que

[00:56:11] se rende ao sistema e vai voltar

[00:56:13] pra ser do FB.

[00:56:15] Não por coincidência, Utah

[00:56:17] o estado dos mórmons, né.

[00:56:20] Que são

[00:56:20] a super

[00:56:23] parte do estado

[00:56:25] americano, especialmente do

[00:56:27] Departamento de Defesa e da CIA.

[00:56:29] É uma religião que ideologicamente

[00:56:31] muito encaixada com a ideologia

[00:56:33] americana

[00:56:35] estadista e

[00:56:37] capitalista e imperialista.

[00:56:39] Então, é muito interessante

[00:56:41] pensar se o nome dele tem

[00:56:43] um pouco a ver com o estado de Utah.

[00:56:45] Que é a base de operação

[00:56:47] dos mórmons.

[00:56:47] Na verdade, tinha a ver com um jogador

[00:56:49] real de futebol americano.

[00:56:52] Ah, olha só.

[00:56:53] Eu escrevi um podcast inteiro

[00:56:55] com o roteirista do filme.

[00:56:58] Escrevi a parte, se não me engano,

[00:57:00] o nome do podcast.

[00:57:01] E aí que veio um ponto

[00:57:03] que é interessante disso.

[00:57:05] Que é justamente isso, né, cara.

[00:57:07] O personagem que ia ter uma história

[00:57:09] que valia a pena ser contada,

[00:57:11] não era o Johnny Utah,

[00:57:12] que continuou trabalhando.

[00:57:14] Não, era o cara que…

[00:57:15] que submergiu. Então, o mundo tem que ressuscitar o cara

[00:57:17] pra poder… Porque essa história

[00:57:19] do homem que submergiu, ninguém quer ver um homem

[00:57:21] castrado, né, tá ligado?

[00:57:23] Tipo assim, ninguém quer ver, por exemplo,

[00:57:25] ninguém quer ver uma temporada inteira

[00:57:27] da aventura do Walter White

[00:57:29] antes dele se revoltar e começar a vender…

[00:57:32] Sim, ninguém quer ver ele só dando aula de química.

[00:57:34] Exatamente, tá ligado?

[00:57:35] Assim, porque eu acho… E esse que é um ponto.

[00:57:38] Como se as pessoas não pudessem ter

[00:57:39] felicidade nas coisas, sabe?

[00:57:40] Mas elas, no final das contas,

[00:57:42] elas não podem. Porque, de certa maneira, por mais que

[00:57:44] esses filmes enxerguem ou não, eles estão mostrando

[00:57:47] o quanto é impossível ter felicidade dentro

[00:57:48] desse sistema, né?

[00:57:50] O Walter White, ele é incapaz de ser feliz

[00:57:52] por causa do papel

[00:57:54] que ele tem que ter na sociedade em geral,

[00:57:56] mas porque também, quando ele descobre que ele tem

[00:57:58] câncer, ele descobre que, tipo,

[00:58:00] ele ter câncer e ser pobre, significa

[00:58:02] que ele tem que morrer desse câncer o mais rápido possível.

[00:58:04] Ele descobre que é descartável

[00:58:07] no capitalismo. Exatamente.

[00:58:08] Então, ele diz, bom, eu tenho que virar alguém

[00:58:10] no capitalismo. E como que eu viro alguém no capitalismo?

[00:58:12] Abrindo mão de todo o resto da minha vida.

[00:58:14] E sendo um traficante, porque é isso.

[00:58:16] Exato. Se alguém é um capitalista, você é um criminoso.

[00:58:19] E, de novo, vai ser um

[00:58:20] sociopata. É a sociedade

[00:58:22] que é um sistema que beneficia

[00:58:24] quanto mais você for

[00:58:26] capaz de descartar

[00:58:28] os outros e se ver como

[00:58:30] um indivíduo cujas necessidades

[00:58:32] e vontades estão acima dos outros,

[00:58:34] você vai se dar melhor nesse sistema.

[00:58:36] E aí é o ponto que eu quero chegar

[00:58:38] pra gente finalizar. Porque é aí que é o ponto.

[00:58:40] Porque você…

[00:58:42] O capitalismo pra você ser alguém

[00:58:44] no capitalismo, você tem que ser um sociopata.

[00:58:47] É isso. Você tem que ser um criminoso.

[00:58:49] Você tem que ser um criminoso. Cara, porque

[00:58:50] assim, porra, vamos ser sinceros.

[00:58:52] Só o fato de você ter uma fortuna bilionária,

[00:58:54] não existe bilionário que em si não seja um crime.

[00:58:57] Tá ligado? Sim, porque assim,

[00:58:58] se tem pessoas passando necessidade, fome,

[00:59:00] sem acesso à saúde, escola, vida digna,

[00:59:03] entretenimento, e você tem

[00:59:04] um excesso de

[00:59:06] dinheiro tão grande que você pode

[00:59:08] ter mil vidas subsequentes

[00:59:10] sem nunca ganhar mais nada, você

[00:59:12] automaticamente tá dizendo, tipo, eu

[00:59:14] esse acúmulo de recursos é mais

[00:59:17] importante do que essas pessoas terem

[00:59:18] uma vida ou uma vida digna.

[00:59:20] E assim, o próprio acúmulo

[00:59:22] já gera essa vida. Esse que é o ponto pronto, né?

[00:59:24] O capitalismo… Sim, o acúmulo, ele é um resultado também

[00:59:27] dessa desigualdade e você

[00:59:29] ter…

[00:59:30] você tomar parte disso perpetua

[00:59:32] essa desigualdade. Aí que vem o meu ponto

[00:59:35] no final. Porque esses filmes,

[00:59:37] eles criam a ideia de que

[00:59:39] você pode ser alguém no capitalismo

[00:59:41] e ser um nice guy, tá ligado?

[00:59:43] Tipo assim, você pode ser um dominante… Sim, e que você

[00:59:44] pode separar as duas coisas.

[00:59:46] Você pode separar as duas coisas. Que é também

[00:59:48] outro ponto que o Filósofo e o Furioso

[00:59:50] se esquiva,

[00:59:52] que é o fato de que a partir do

[00:59:54] final do quinto filme, todos os protagonistas são

[00:59:56] milionários e não precisam

[00:59:58] de dinheiro, mas ao mesmo

[01:00:01] tempo eles também não são…

[01:00:03] eles acumulam esse dinheiro,

[01:00:05] né? Eles são foras da lei,

[01:00:06] mas eles são multimilionários

[01:00:09] cujo

[01:00:10] o perpetuamento do status quo faz

[01:00:12] sentido pra eles, então por isso que eles também não são,

[01:00:14] contra esse status quo, como eu falei antes.

[01:00:16] Eles estão vivendo aventuras no sistema, né?

[01:00:18] Exato, eles estão vivendo aventuras na periferia

[01:00:21] do sistema, mas porque eles podem ter esse

[01:00:22] privilégio e não porque o sistema é ruim

[01:00:24] pra todos, né? As aventuras

[01:00:27] deles só podem existir enquanto houver um sistema

[01:00:29] pra maioria e eles puderem

[01:00:30] se fazer parte de uma minoria que fica

[01:00:33] à parte disso. Eles são tipo

[01:00:34] Batman. Eles são tipo

[01:00:36] Batman, que o Batman pode ser um herói e um bilionário

[01:00:39] ao mesmo tempo, porque se você parar pra pensar

[01:00:40] nas duas coisas e como elas são incompatíveis, a ficção

[01:00:43] não funciona. É, é isso.

[01:00:44] Esse é um Batman. A gente tá falando de filmes do Batman.

[01:00:47] Batman é o protótipo original disso.

[01:00:49] A gente vai chegar lá, quando sair o novo filme do

[01:00:50] Batman, a gente faz um episódio. Você que tá

[01:00:52] ouvindo isso e ainda não sabe, a gente tem

[01:00:55] um apoia-se agora, que é uma

[01:00:56] campanha de financiamento coletivo

[01:00:58] aqui pro PopCult, pra gente continuar fazendo.

[01:01:01] E aí, lá você pode não só apoiar

[01:01:02] a gente do bem do seu coração, porque você

[01:01:04] gosta de ouvir o programa, mas como a gente tem

[01:01:06] conteúdos novos e exclusivos para os apoiadores.

[01:01:09] A gente tem um

[01:01:10] tier lá em que você pode ter

[01:01:12] um episódio bônus por mês, né?

[01:01:14] Discussões especialíssimas aqui

[01:01:16] dos seus dois

[01:01:17] apresentadores, com convidados às vezes

[01:01:21] também. A gente tem também

[01:01:22] outro nível de apoio

[01:01:25] em que você pode fazer parte de um Discord,

[01:01:26] de um servidor de chat com a gente,

[01:01:29] no qual você vai poder conversar

[01:01:31] conosco e com outros ouvintes sobre os temas que a gente

[01:01:33] fala aqui, os filmes que a gente fala aqui.

[01:01:35] E dentro desse Discord, a gente vai

[01:01:36] ter isso, eu acho que é a

[01:01:39] coisa mais legal do nosso apoia-se, que vai ser

[01:01:41] as festinhas de assistir filme,

[01:01:43] que pelo menos uma vez por mês também,

[01:01:44] a gente vai escolher um filme que

[01:01:46] a gente vai assistir com vocês. Então vocês vão ver

[01:01:48] o filme online com a gente,

[01:01:51] com a gente comentando

[01:01:52] do filme ao vivo e a cores, né?

[01:01:55] E depois vai ter acesso a essa faixa de comentários,

[01:01:56] se você não pôde assistir na hora com a gente, você pode assistir depois,

[01:01:58] igual a gente fez com o Liga da Justiça.

[01:02:01] E aí, por último, se você é

[01:02:02] muito apoiador, muito legal, muito

[01:02:04] bacana, você vai poder

[01:02:06] votar em filmes pra gente

[01:02:09] discutir aqui no podcast e poder

[01:02:10] dizer pros outros, assim, tipo, ó, eu escolhi

[01:02:13] que eles iam falar desse filme, eu vou

[01:02:14] ter nesse filme pra eles falarem disso, eu mando

[01:02:16] nesses caras, esses dois caras são fantoches

[01:02:19] na minha mão. Então,

[01:02:20] apoia.se

[01:02:22] barra popcult, tá na descrição o link

[01:02:24] e é isso, né, Orlando?

[01:02:27] É isso aí, é isso aí.

[01:02:28] Então tá, gente. Um beijo e até o próximo episódio.