#161 – Descartes, com Marcia Cavalcante
Resumo
A professora Marcia Cavalcante retorna ao Filosofia Pop para uma discussão profunda sobre René Descartes, partindo da crítica às interpretações reducionistas que o pintam como o pai de todos os males da modernidade. Ela apresenta as imagens clássicas de Descartes: o demolidor que rompe com a tradição, o fundador da subjetividade moderna com seu ‘cogito ergo sum’, e o cientista que estabeleceu as bases para as ciências da natureza. São discutidas as críticas severas de Heidegger, que vê em Descartes a origem de uma racionalidade desencarnada e de uma técnica planetária antropomorfizante, e a leitura mais generosa de Husserl, que enxerga no gesto cartesiano um prenúncio da epoché fenomenológica.
Marcia Cavalcante então revela seu interesse pessoal por Descartes, motivado pela busca de uma dimensão criadora e de liberdade mesmo dentro de um pensamento frequentemente acusado de ser insensível e desmundanizado. Ela propõe uma releitura que enfatiza Descartes como um grande escritor, fundador da prosa francesa moderna, cujo ‘cogito’ é menos uma substância e mais um ato performativo de pensar (‘ego cogitans existo’). Esta releitura destaca a dimensão emocional e quase epifânica do ‘estar pensando’, que toca o filósofo antes mesmo de qualquer intuição racional.
A conversa explora aspectos biográficos e textuais frequentemente negligenciados: os sonhos de Descartes, seu interesse pela pintura e pelo desenho, seu trânsito entre línguas, e suas cartas de amor (especialmente para a Princesa Elizabeth da Boêmia), onde emerge um verbo raro, ‘s’entr’aimer’ (entreamar-se). Cavalcante sugere que a relação entre corpo e alma em Descartes é menos um dualismo rígido e mais uma paixão mútua. A discussão conclui refletindo sobre a relevância de repensar Descartes no contexto brasileiro atual, não como um ícone a ser cancelado, mas como um provocador que pode nos ajudar a redescobrir o que significa pensar, sentir e existir em meio a uma crise de sensibilidade e controle.
Indicações
Filmes
- D’ailleurs, Derrida (Ou Outrem, ou Derrida) — Filme da poetisa egípcia Safaa Fathy, que leva Jacques Derrida de volta ao Norte da África. É recomendado por dialogar com questões de língua, identidade e desconstrução.
Livros
- Fascismo da Ambiguidade — Livro da própria Marcia Cavalcante, mencionado como parte de seu percurso de pensamento que a levou a se interessar por Descartes, ligando questões da técnica, niilismo e capitalismo.
- Coração Máquina — Livro de Juvan Foga, citado por fazer uma leitura da vontade do infinito e da técnica, conectando-se à crítica heideggeriana do antropomorfismo incondicional.
- Ego Sum — Livro de Jean-Luc Nancy sobre Descartes, descrito como difícil e inovador. Marcia Cavalcante brinca que nele ‘faltou falar sobre o amor’.
- O Monolinguismo do Outro — Livro de Jacques Derrida, recomendado por tratar da questão da língua, da identidade e do colonialismo, a partir da experiência de ser um judeu argelino que só fala francês.
- Cantar de Labirinto — Livro de poesia de Afonso Henriques Neto, indicado por sua escrita precisa em um contexto de avassalamento dos sentidos.
- Fim de Verão — Livro de poesia de Paulo Henriques Brito, também indicado como exemplo de uma busca por precisão na palavra poética.
- O Chão da Mente — Livro de Luiz Costa Lima, indicado por pensar a ficção e a substantivação da subjetividade, trazendo-o como um filósofo da literatura para o diálogo.
Pessoas
- Elisabeth da Boêmia — Princesa com quem Descartes manteve uma longa e profunda correspondência filosófica e afetiva. Marcia Cavalcante discute a possibilidade de um amor entre eles e cita a premiação da professora Michele Seixas, que estuda Émilie du Châtelet, com um prêmio que leva o nome da princesa.
- Simone Brantes — Poetisa premiada com o Jabuti, autora de uma dissertação de mestrado ‘absolutamente preciosa’ sobre a autoconsciência, trabalhando com Descartes e Hegel.
- Alexandre Koyré — Historiador da ciência citado por seu trabalho sobre a dimensão científica de Descartes e sua tese de que o homem moderno perde seu lugar no mundo e é lançado numa solidão cósmica com a invenção do infinito.
Linha do Tempo
- 00:02:00 — Introdução e crítica às interpretações reducionistas de Descartes — Marcia Cavalcante é apresentada e a conversa inicia questionando as visões simplistas sobre Descartes, frequentemente visto como o ‘pai de tudo que é problemático na modernidade’. Ela menciona um meme brasileiro que brinca com a ideia de ‘descartar’ Descartes. São listadas as imagens clássicas: o demolidor da tradição, o fundador da subjetividade com o ‘cogito’, e o cientista por trás da ‘mathesis universalis’.
- 00:11:00 — Descartes como cientista e a invenção do infinito — Discute-se a contribuição científica de Descartes para a geometria analítica, óptica, astronomia e a quantificação da natureza. É levantada a questão paradoxal da modernidade: como o homem, deslocado do centro do cosmos pelo heliocentrismo, tornou-se o ‘mestre e possuidor da natureza’? A resposta aponta para a ‘invenção do infinito’ e a solidão cósmica do homem, que perde seu mundo finito e é lançado num universo infinito, separando mundo e natureza.
- 00:21:00 — O dualismo corpo-alma e a crítica de Heidegger — Aborda-se a acusação de que Descartes instaurou um dualismo nocivo entre corpo (res extensa) e alma (res cogitans), levando a uma razão desencarnada e desmundanizada. Essa visão é associada à técnica planetária e ao ‘antropomorfismo incondicional’. A crítica de Heidegger é detalhada: ele acusa Descartes de ter coisificado o pensamento e de ter dito ‘eu penso, logo existo’, quando deveria ter dito ‘eu existo, logo penso’.
- 00:28:00 — A leitura de Husserl e a quase epoché cartesiana — Contrapondo-se a Heidegger, explora-se a leitura mais positiva de Husserl. Ele vê em Descartes, especialmente na dúvida metódica que põe o mundo entre parênteses, um prenúncio da redução fenomenológica (epoché). Husserl acredita que Descartes quase chegou à pergunta fundamental ‘como o mundo é?’, em vez de ‘o que o mundo é?’, mas teria parado no caminho ao não considerar a temporalidade desse ‘ser’ do mundo.
- 00:36:00 — O interesse pessoal de Marcia Cavalcante por Descartes — Marcia explica sua motivação para estudar Descartes, vinda de seu interesse de longa data pela questão da técnica. Ela se pergunta se, dentro de um pensamento aparentemente tão técnico e desencarnado, não haveria uma dimensão criadora ou um vestígio de liberdade. Ela também reflete sobre a ideia de que a filosofia começa perdendo-se a si mesma, e que a própria subjetividade cartesiana pode conter em si a semente de sua autodemolição.
- 00:47:00 — Descartes como escritor e a descoberta do ‘cogitans’ — A partir de sua experiência dando aulas na Suécia, Marcia descobriu Descartes como um grande escritor, fundador da prosa francesa moderna, ao lado de Shakespeare e Cervantes. Ela propõe ler o ‘cogito’ não como uma substância, mas como um ato: ‘ego cogitans existo’ (eu pensando existo). Esta formulação, encontrada em respostas a objeções, revela um ‘estar pensando’ que é uma performance, uma emoção filosófica de se flagrar no ato de pensar.
- 01:00:00 — Os sonhos de Descartes e a emoção filosófica — São narrados os famosos sonhos de Descartes, ocorridos na noite de sua ‘eureka’ sobre os fundamentos de uma ciência maravilhosa. O último sonho, em que ele vê uma antologia de poetas e conclui que os poetas exprimem o pensamento melhor que os filósofos, é destacado. Isso se conecta à ideia de uma ‘emoção filosófica’ em Descartes, um ser tocado pelo ato de pensar antes mesmo de qualquer racionalização.
- 01:08:00 — Descartes barroco, o método como autobiografia e o amor — Descartes é apresentado como um pensador barroco, interessado nas passagens (entre corpo e alma, razão e paixão, sono e vigília). Seu ‘Discurso do Método’ é lido como uma autobiografia, não um manual a ser aplicado. A conversa culmina na discussão sobre o ‘amor cartesiano’, especialmente nas cartas à Princesa Elizabeth, onde Descartes usa o verbo raro ‘s’entr’aimer’ (entreamar-se). Marcia sugere que a relação corpo-alma em Descartes é uma relação de paixão mútua.
- 01:33:00 — Descartes, mulheres e a relevância para o Brasil atual — Discute-se a abertura de Descartes às mulheres leitoras e sua correspondência com Elizabeth da Boêmia. Reflete-se sobre a falsa associação entre cartesianismo e colonização do Brasil, que foi muito mais barroca e cristã. A conversa então conecta a dúvida cartesiana sobre outras mentes com o ceticismo e a insensibilidade contemporâneos. A releitura proposta de Descartes é vista como um convite para redescobrir o que é pensar, sentir e existir em um momento de penúria sensível e controle generalizado.
- 01:49:00 — Indicações de leitura e considerações finais — São feitas indicações de livros de poesia (Afonso Henriques Neto, Paulo Henriques Brito) e de filosofia (Juvan Foga, Derrida). Marcia comenta a apropriação distorcida do termo ‘desconstrução’ na política atual. Ela finaliza com um apelo à luta democrática no Brasil, enfatizando que esta não se resume a derrotar Bolsonaro, mas envolve uma grande transformação na maneira de pensar, criticar e, sobretudo, na sensibilidade para o ‘quase imperceptível’ da existência.
Dados do Episódio
- Podcast: Filosofia Pop
- Autor: Filosofia Pop
- Categoria: Society & Culture Philosophy Education Arts Books
- Publicado: 2022-08-22T09:00:00Z
- Duração: 02:02:37
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/filosofia-pop/56aa96e0-d74d-0132-0356-059c869cc4eb/161-descartes-com-marcia-cavalcante/f52520b9-b345-4101-adfe-981c1a6942b7
- UUID Episódio: f52520b9-b345-4101-adfe-981c1a6942b7
Dados do Podcast
- Nome: Filosofia Pop
- Tipo: episodic
- Site: https://filosofiapop.com.br/inicial/
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Transcrição
[00:00:00] Filosofia Pop
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[00:01:07] A gente precisa muito dessa força
[00:01:09] Marcia Saka Valkand Schubach é filósofa, professora titular da Universidade de Södertörn em Estocolmo, Suécia
[00:01:17] E autora de diversos livros de filosofia
[00:01:20] Como tradutora, é responsável por importantes traduções em português, como Ser e Tempo de Martin Heidegger
[00:01:25] É organizadora e tradutora do livro
[00:01:28] A Arte de Pensar, Ensaios Filosóficos de Paul Valéry
[00:01:31] Que saiu pela Bazar do Tempo em 2021
[00:01:34] E publicou recentemente o livro Fascismo da Ambiguidade
[00:01:38] Pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
[00:01:40] Ela também conversou com a gente no episódio 127
[00:01:43] Sobre Ser e Tempo de Martin Heidegger
[00:01:46] Vamos para a nossa conversa com Marcia Kavalkant sobre René Descartes
[00:01:58] Marcia Kavalkant, de novo, prazer em receber a senhora
[00:02:11] Agradeço muito a possibilidade de conversar
[00:02:13] E novamente a gente vai falar sobre autores canônicos
[00:02:17] A gente vai falar hoje sobre Descartes
[00:02:19] E eu vou começar com uma pergunta que remete à nossa conversa anterior sobre Heidegger
[00:02:26] Onde a gente conversou sobre Heidegger?
[00:02:28] E Ser e Tempo?
[00:02:30] A senhora deixou claro que não concordava com a interpretação que Heidegger dava para Descartes
[00:02:35] Eu queria começar por aí, pra gente começar falando de Descartes
[00:02:38] Comentando essas interpretações reducionistas
[00:02:41] Que são muitas, né?
[00:02:44] Obrigada, Marcos
[00:02:46] Obrigada também pelo convite
[00:02:47] E a oportunidade de realmente pensar junto e discutir
[00:02:54] O filósofo que é considerado
[00:02:58] O pai, o inventor, o representante maior
[00:03:02] Da idade moderna
[00:03:04] E de tudo
[00:03:06] De certa forma
[00:03:08] Problemático e ruim da modernidade
[00:03:13] Então, eu até outro dia recebi um meme
[00:03:18] Onde tinha um caminhão de lixo
[00:03:21] Escrito Descartes
[00:03:23] E a brincadeira de que no Brasil
[00:03:26] O…
[00:03:28] Você já nasce com PHD
[00:03:32] Porque até na hora de você jogar o lixo fora
[00:03:36] Você lembra do Descartes
[00:03:38] E tinha o rosto do Descartes
[00:03:40] Então, Descartes que se escreve
[00:03:43] Como a gente diz em português
[00:03:45] Descartes
[00:03:46] Para muitos é o filósofo que precisa ser descartado
[00:03:50] Agora
[00:03:52] Existem muitas imagens de Descartes
[00:03:58] Né?
[00:03:58] É importante a gente lembrar
[00:03:59] E inclusive interessante
[00:04:01] É que Descartes é um dos filósofos
[00:04:03] Que foi mais retratado na história da pintura
[00:04:07] Existem inúmeros quadros
[00:04:10] Com o rosto
[00:04:12] A fisionomia, o busto de Descartes
[00:04:15] Ele é, vamos dizer assim
[00:04:18] O grande filósofo francês
[00:04:19] Inaugurador da modernidade
[00:04:21] Mas, estranhamente, não existe
[00:04:24] Nenhum monumento a Descartes
[00:04:27] Sério?
[00:04:28] em Paris, por exemplo.
[00:04:29] É bem estranho.
[00:04:31] Mas vamos lá às imagens clássicas do Descartes
[00:04:34] para a gente poder ir na crítica desses filósofos
[00:04:38] que você diz reducionistas.
[00:04:41] Então, a gente conhece Descartes nos manuais de filosofia,
[00:04:44] na Wikipédia, como pai do racionalismo e idealismo modernos.
[00:04:52] Ele é o filósofo que tem uma frase muito célebre de Hegel,
[00:04:58] nas lições sobre a história da filosofia,
[00:05:01] que o Hegel diz assim,
[00:05:03] com Descartes entramos em rigor,
[00:05:07] desde a escola neoplatônica e tudo que guarda uma relação com ela,
[00:05:11] em uma filosofia própria e independente,
[00:05:15] que sabe que procede substantivamente da razão
[00:05:20] e que a consciência de si é um momento essencial da verdade.
[00:05:27] Aqui já podemos notar,
[00:05:28] nos sentir em nossa casa e gritar ao fim,
[00:05:33] como navegante depois de uma larga e perigosa travessia
[00:05:36] por tubulentos mares, terra.
[00:05:40] Ou seja, Descartes dá à terra o fundamento da modernidade.
[00:05:48] E isso está ligado a esses dois, vamos dizer assim,
[00:05:52] acontecimentos filosóficos que Hegel define
[00:05:55] como proceder substantivamente da razão,
[00:05:58] e ter a consciência de si como um momento essencial da verdade.
[00:06:04] Ou seja, Descartes, ele é considerado,
[00:06:08] e mesmo no vocabulário que ele mesmo usa,
[00:06:11] como o demolidor.
[00:06:13] Ele é aquele que interrompe, que demole,
[00:06:16] ele usa muitos verbos ligados à demolição,
[00:06:21] ele é o primeiro desconstrutor, vamos dizer,
[00:06:24] que é uma ruptura com todo o passado,
[00:06:28] filosófico e científico.
[00:06:30] Não há mais um fiador divino,
[00:06:33] ou seja,
[00:06:35] Deus não é mais o fiador divino do real,
[00:06:41] e a tradição não é mais a garantia de nenhum sentido ou valor.
[00:06:47] Então, Descartes, demolidor, destruidor,
[00:06:51] ele rompe com a força do tempo humano
[00:06:56] e com o espaço concretamente,
[00:06:58] com a força do objeto do homem.
[00:07:00] Por isso se diz que Descartes,
[00:07:02] ele é um filósofo que tanto interrompe de maneira cabal,
[00:07:08] que é demolir todos os preconceitos,
[00:07:12] o mundo já dado, todos os fundamentos
[00:07:16] sobre os quais nós pensamos, sentimos,
[00:07:20] organizamos o nosso mundo,
[00:07:22] e esse grande preconceito, que é uma coisa assim muito estranha,
[00:07:27] e esse grande preconceito, que é uma coisa assim muito estranha,
[00:07:28] é o preconceito de que ser é algo absolutamente evidente,
[00:07:38] está dado e que é sobre ele que toda nossa filosofia,
[00:07:42] nosso pensamento, nossos sentimentos,
[00:07:45] nossas crenças estão baseadas.
[00:07:47] Então, Descartes vai interromper,
[00:07:50] vai realmente demolir,
[00:07:52] vai balançar essa confiança,
[00:07:57] essa confiança num sentido de ser
[00:08:00] que vem herdado pela tradição.
[00:08:03] Existe um trabalho muito bom
[00:08:06] que foi feito há vários anos já no IFIX,
[00:08:09] uma dissertação de mestrado
[00:08:12] de uma poetisa muito conhecida também,
[00:08:17] Prêmio Jabuti, chamada Simone Brantz,
[00:08:20] que escreveu uma dissertação de mestrado absolutamente preciosa,
[00:08:26] sobre a autoconsciência,
[00:08:29] onde ela trabalha Descartes e Hegel,
[00:08:32] um trabalho de pensamento, vamos dizer assim,
[00:08:35] e não um trabalho de erudição,
[00:08:38] por isso ainda melhor,
[00:08:40] e ela trabalha justamente essa demolição
[00:08:43] do fundamento ontológico.
[00:08:45] Então, Descartes interrompe e traz uma nova coisa.
[00:08:49] Ele é o grande transformador de sentido da verdade,
[00:08:55] então se diz também que Descartes,
[00:08:59] com Descartes a verdade mudou de essência,
[00:09:03] não só de aparência,
[00:09:05] mas de essência,
[00:09:07] porque a verdade se torna sinônima de certeza.
[00:09:12] O Descartes também virou proverbial.
[00:09:15] Todo mundo sabe que o Descartes disse
[00:09:18] eu penso, logo existo.
[00:09:20] Ninguém sabe muito bem
[00:09:23] de onde vem essa frase,
[00:09:25] mas isso é dito proverbialmente por toda parte,
[00:09:29] eu penso, logo existo.
[00:09:31] Todo mundo sabe,
[00:09:32] Descartes está na ponta da língua de todo mundo,
[00:09:35] não precisa ser filósofo para dizer isso.
[00:09:38] Sobre esse eu penso, logo existo,
[00:09:43] que é a famosa formulação do cogito.
[00:09:49] Descartes é o inventor, o pai do cogito.
[00:09:53] Na verdade,
[00:09:54] é estranha a formulação,
[00:09:56] porque cogito significa em latim eu penso.
[00:09:59] Então, eu cogito,
[00:10:01] a gente fala em português cogitar,
[00:10:04] mas esse fundamento de verdade,
[00:10:10] o fundamento da verdade que é uma certeza,
[00:10:14] é não mais o ser,
[00:10:16] mas a autoconsciência.
[00:10:18] O eu penso, logo existo.
[00:10:20] É um novo fundamento.
[00:10:22] E sobre esse fundamento,
[00:10:24] Descartes também é muito conhecido,
[00:10:26] porque ele queria construir uma ciência universal,
[00:10:30] onde todas as ciências e saberes poderiam estar conectados,
[00:10:36] ele usa o verbo conectar,
[00:10:40] que partindo do simples para o complexo,
[00:10:44] é possível ter uma totalidade de todos os saberes
[00:10:50] e todos os conhecimentos que podiam ser construídos
[00:10:53] a partir desse fundamento.
[00:10:55] E ele usou então uma expressão
[00:10:58] que permaneceu na língua em latim,
[00:11:01] que é a matesis universalis.
[00:11:04] Descartes também é muito conhecido
[00:11:06] por ter sido um grande cientista também,
[00:11:09] ele foi só um filósofo,
[00:11:11] ele foi um grande cientista,
[00:11:13] ele desenvolveu muito.
[00:11:15] Primeiro, ele deu um novo fundamento,
[00:11:18] ele estava ali bem próximo de Galileu,
[00:11:21] ele estava, vamos dizer assim,
[00:11:23] já colocando as sementes para um Newton.
[00:11:26] Tem todo o trabalho do Alexandre Coiré
[00:11:30] sobre essa dimensão científica e filosófica de Descartes,
[00:11:35] que deu a base para as modernas ciências da natureza,
[00:11:40] que rompe completamente com a física aristotélica,
[00:11:47] toda a herança, vamos dizer assim,
[00:11:49] grega da ciência desenvolvida
[00:11:53] ao longo da Antiguidade e da Idade Média.
[00:11:57] Eu faria um parênteses aí,
[00:12:00] só para lembrar que muitas vezes nessa narrativa
[00:12:04] que a gente escuta sobre quem era
[00:12:06] essa grande figura do René Descartes,
[00:12:09] a gente esquece que a ciência da natureza moderna,
[00:12:13] toda essa modernidade,
[00:12:15] ela seria impensável,
[00:12:17] sem a contribuição dos árabes.
[00:12:20] A gente sabe que a Idade Média
[00:12:23] era um tremendo caldeirão de várias culturas,
[00:12:27] a cultura árabe importantíssima,
[00:12:29] a cultura judaica.
[00:12:31] Então, a gente tem um encontro dessas três grandes religiões
[00:12:35] adâmicas, do deserto, como se diz, monoteístas,
[00:12:39] e trabalhando sobre,
[00:12:42] não só filosoficamente a questão do fundamento,
[00:12:45] mas, igualmente, trazendo contribuições científicas.
[00:12:50] E a Europa estava atrasada naquela época, vamos dizer isso.
[00:12:54] Bom, Descartes, vamos dizer assim,
[00:12:58] desenvolve a geometria analítica,
[00:13:01] a aritmética, a perspectiva,
[00:13:04] a metafísica, claro, mas a ótica,
[00:13:07] a astronomia, a medicina.
[00:13:10] Ele dá bases também para a célebre quantificação
[00:13:14] da natureza, que seria uma característica
[00:13:17] também da ciência moderna.
[00:13:20] E pode-se dizer que Descartes,
[00:13:24] ele interrompe, mais uma vez,
[00:13:29] uma tradição de entender a filosofia e a metafísica
[00:13:32] como vita contemplativa,
[00:13:35] para usar a expressão da Hannah Arendt,
[00:13:38] para colocar o homem numa espécie de vida,
[00:13:41] a vida teórica, uma vida ativa,
[00:13:44] porque ela está preocupada em possuir,
[00:13:47] em dominar, em controlar a natureza,
[00:13:52] o mundo.
[00:13:54] Bom, esse pai da modernidade,
[00:13:58] que traz para muitos um avanço,
[00:14:01] quer dizer, libera o homem das superstições,
[00:14:04] das crenças, do engano,
[00:14:07] da manipulação do poder, etc.,
[00:14:11] traz um sentido de liberdade,
[00:14:13] mais moderno, de autonomia,
[00:14:16] embora o conceito de liberdade em Descartes
[00:14:19] seja bem complexo,
[00:14:22] não é a mesma coisa que Kant,
[00:14:24] mas tem pontos.
[00:14:27] Mas ele avança a racionalidade,
[00:14:33] avança a autonomia da razão,
[00:14:37] e avança a ciência, os saberes.
[00:14:42] A ciência, que a gente deve sempre fazer,
[00:14:47] eu acho que uma distinção,
[00:14:49] embora se toquem,
[00:14:51] proposta pelo poeta Paul Valéry,
[00:14:54] que existe uma ciência-poder
[00:14:56] e uma ciência-saber,
[00:14:58] que eles se tocam até pela frase
[00:15:00] célebre de Bacon de que saber é poder.
[00:15:03] Mas há ali um imbricamento
[00:15:06] do que é ciência, conhecimento, saber, poder.
[00:15:12] E célebre por essa frase
[00:15:17] de entender o homem como mestre
[00:15:20] possuidor da natureza.
[00:15:23] Então, quando Descartes é
[00:15:26] ou bem louvado por isso,
[00:15:28] ou é criticado por isso,
[00:15:30] por ser ele também, nesse sentido,
[00:15:33] pai, porque das ciências modernas da natureza,
[00:15:37] do seu fundamento filosófico,
[00:15:39] é também da técnica,
[00:15:41] uma compreensão do pensamento
[00:15:45] e da racionalidade desencarnada,
[00:15:48] desprendida, desgarrada do mundo,
[00:15:52] quer dizer, do tempo humano, do seu espaço.
[00:15:55] Ele é o inventor das coordenadas,
[00:15:58] do cálculo, a gente vai lá.
[00:16:01] E também o pai, então,
[00:16:03] da possibilidade de objetivação,
[00:16:06] da representação,
[00:16:08] da reificação
[00:16:10] de toda existência e todo real.
[00:16:13] Então, nessa cadeia de coisas,
[00:16:16] a gente pode até dizer que ele é,
[00:16:18] embora o capitalismo não tivesse
[00:16:21] definido no momento,
[00:16:23] Descartes é, digamos, um barroco,
[00:16:27] ele nasce em 1596,
[00:16:29] ele morre em 1650,
[00:16:31] mas ele já teria dado, vamos dizer assim,
[00:16:34] os elementos a partir dessa possibilidade
[00:16:38] de entender todo o real
[00:16:41] como uma reapresentação
[00:16:44] para um sujeito racional,
[00:16:47] uma estrutura de objetivação
[00:16:49] e reificação de todo o real.
[00:16:51] Existe uma coisa interessante
[00:16:53] para começar a levantar os problemas,
[00:16:56] que é o seguinte,
[00:16:58] nessa época,
[00:17:00] a gente tem uma mudança
[00:17:03] da própria visão cosmológica,
[00:17:05] a gente tem
[00:17:07] uma mudança
[00:17:09] que é a virada copernicana,
[00:17:12] vamos dizer assim,
[00:17:14] copérnico,
[00:17:15] que é o heliocentrismo,
[00:17:17] ou seja,
[00:17:18] se deixa de achar, de supor
[00:17:21] que tudo gira em volta da Terra
[00:17:24] para entender que é a Terra
[00:17:26] que gira em torno do Sol.
[00:17:28] A isso corresponde estranhamente
[00:17:32] uma subjetivação,
[00:17:35] a imanência da consciência.
[00:17:37] A consciência deixa de ser
[00:17:39] o derivado de uma consciência divina
[00:17:42] para ser a autoconsciência,
[00:17:44] coloca o homem no centro.
[00:17:46] Então, como a gente vai entender
[00:17:48] que uma cosmologia científica,
[00:17:51] uma nova física, etc.,
[00:17:53] vê o mundo como girando em torno do Sol,
[00:17:57] não mais em torno da Terra,
[00:17:59] e ao mesmo tempo,
[00:18:00] o homem passando a ser
[00:18:02] o centro absoluto,
[00:18:04] esse mestre possuidor da natureza?
[00:18:06] Como é que isso combina
[00:18:08] uma coisa com a outra?
[00:18:10] Quer dizer,
[00:18:12] eu acho que uma boa interpretação
[00:18:15] que foi proposta por Alexandre Coiré,
[00:18:18] que eu já citei,
[00:18:20] é de dizer que o homem
[00:18:22] perde na modernidade
[00:18:24] o seu lugar no mundo,
[00:18:26] ele se desloca da Terra,
[00:18:29] ele perde o seu mundo
[00:18:32] e é lançado
[00:18:33] numa solidão cósmica.
[00:18:38] Ele passa a ser
[00:18:40] o grande solitário
[00:18:43] e, com isso,
[00:18:46] o homem se depara,
[00:18:48] que isso é uma coisa fundamental
[00:18:51] na filosofia de Descartes,
[00:18:53] ele se depara com a grande invenção
[00:18:56] do infinito.
[00:18:58] Até isso é uma colocação
[00:19:00] feita por Edmundo Russel,
[00:19:02] na crise da ciência europeia,
[00:19:05] que é o pai da Fenomenologia,
[00:19:07] que diz que o grande,
[00:19:09] vamos dizer assim,
[00:19:11] característica,
[00:19:12] a grande característica da modernidade
[00:19:14] é a invenção do infinito.
[00:19:19] E Coiré,
[00:19:21] que tentou fazer o doutorado com Russel,
[00:19:23] o Russel não aceitou,
[00:19:24] mas ele fez mesmo assim.
[00:19:26] Ele acreditava no trabalho dele,
[00:19:28] graças a Deus,
[00:19:29] que bom,
[00:19:30] porque ele fez um trabalho muito bonito.
[00:19:31] Ele tem uma tese
[00:19:33] de que com Descartes,
[00:19:36] já com alguns predecessores,
[00:19:39] até Giordano Bruno,
[00:19:42] Nicolau de Cusa, etc.,
[00:19:45] mas na voz,
[00:19:47] vamos dizer assim,
[00:19:48] potente na tradição de Descartes,
[00:19:50] há uma quebra do mundo finito,
[00:19:54] da experiência do mundo como finito,
[00:19:57] para se entender agora
[00:19:59] o universo infinito.
[00:20:01] E o homem,
[00:20:03] como esse ponto de solidão
[00:20:05] nesse universo infinito.
[00:20:09] Então, com isso,
[00:20:11] um dos grandes,
[00:20:13] vamos dizer assim,
[00:20:14] presentes,
[00:20:15] presentes de grego,
[00:20:17] presentes de Descartes,
[00:20:18] presentes de francês,
[00:20:19] eu não sei,
[00:20:20] presentes difíceis,
[00:20:22] foi a separação moderna
[00:20:24] entre mundo e natureza,
[00:20:26] que isso é uma coisa
[00:20:27] que a ideia antiga de Cosmo
[00:20:29] não dissociava.
[00:20:30] E eu acho que hoje
[00:20:31] muito do que a gente sofre,
[00:20:33] seja na nossa crise climática,
[00:20:37] na nossa própria questão
[00:20:41] da colonização,
[00:20:42] está ligada a essa também,
[00:20:45] esse corte muito,
[00:20:51] vamos dizer assim,
[00:20:52] sangrento mesmo
[00:20:53] de separar o mundo da natureza.
[00:20:56] Bom, isso aqui
[00:20:58] é uma…
[00:21:00] uma colocação bem genérica
[00:21:03] dessa figura de Descartes.
[00:21:05] Ainda tem mais alguns.
[00:21:07] A outra imagem muito famosa de Descartes
[00:21:11] é ter sido aquele
[00:21:13] que instalou
[00:21:15] um dualismo nocivo,
[00:21:18] tremendo,
[00:21:19] que a filosofia tenta
[00:21:21] se recuperar desse golpe,
[00:21:23] que é o dualismo,
[00:21:25] a separação do corpo e da alma.
[00:21:28] Né?
[00:21:29] Então,
[00:21:31] o intelecto racional,
[00:21:33] a alma racional,
[00:21:35] que passa a ser esse fundamento,
[00:21:37] né,
[00:21:38] vamos dizer assim,
[00:21:40] incontornável,
[00:21:43] absoluto da verdade,
[00:21:46] ele significa um desenraizamento,
[00:21:50] um desencarnar, né,
[00:21:56] da razão do mundo,
[00:21:58] a razão sai do mundo, né?
[00:22:00] Então,
[00:22:01] é uma razão, digamos,
[00:22:03] insensível,
[00:22:05] alienada da finitude, né?
[00:22:08] Desmundanizado.
[00:22:11] Então,
[00:22:12] vai tentar pensar,
[00:22:15] agir sobre o mundo,
[00:22:18] governar o mundo,
[00:22:19] controlar e possuir o mundo
[00:22:21] sob uma perspectiva exterior,
[00:22:24] uma distância,
[00:22:26] mas uma distância, assim,
[00:22:27] vamos dizer assim,
[00:22:29] não é a distância trágica da vida,
[00:22:32] não é a distância trágica entre vida e morte,
[00:22:35] é uma distância de um distanciamento
[00:22:38] que faz da razão das ações humanas,
[00:22:44] vamos dizer assim,
[00:22:45] ela é movida por um ponto absoluto,
[00:22:49] um ponto arquimediano.
[00:22:52] É a famosa parábola do Kafka,
[00:22:56] que Hannah Arendt usa
[00:22:58] para descrever a modernidade,
[00:23:00] que é você ter um ponto firme e imóvel
[00:23:04] fora do mundo, fora da Terra,
[00:23:06] de onde você pode girar
[00:23:09] toda a Terra e todo o mundo.
[00:23:11] Só que o Kafka lembra
[00:23:13] que a condição para encontrar
[00:23:15] esse ponto arquimediano
[00:23:17] dessa alma racional,
[00:23:18] desse intelecto desencarnado,
[00:23:21] desmundanizado, né,
[00:23:23] foi
[00:23:24] que essa visão do mundo
[00:23:29] se volta contra o homem,
[00:23:31] ou seja, o preço que o homem paga
[00:23:33] por ser o controlador
[00:23:35] e possuidor da natureza
[00:23:37] é perder-se de si, né,
[00:23:42] é querer possuir tudo, né,
[00:23:45] que se dispossessa,
[00:23:47] tira completamente a posse
[00:23:49] de si mesmo enquanto
[00:23:51] uma vida finita,
[00:23:53] por se fazer uma ser,
[00:23:55] um poder ser, né,
[00:23:57] como diria Heidegger.
[00:23:59] É um pouco, eu acho,
[00:24:01] essa visão e essa dimensão
[00:24:03] do pensamento de Descartes,
[00:24:05] do Córdito, é como, assim,
[00:24:07] uma refabulação moderna
[00:24:09] do mito do rei Midas.
[00:24:11] Lembra do rei Midas que ele,
[00:24:13] tudo que ele toca vira ouro?
[00:24:15] Então, se diz assim, nesse momento
[00:24:17] em que o homem é essa solidão
[00:24:19] absoluta nesse universo infinito,
[00:24:22] esse universo infinito,
[00:24:24] tudo que o homem toca
[00:24:26] vira humano.
[00:24:28] Ele antropomorfiza,
[00:24:30] ele antropos…
[00:24:32] né,
[00:24:34] ele antropomorfiza tudo.
[00:24:36] E o Heidegger,
[00:24:38] na crítica à técnica
[00:24:40] e aos estudos dele,
[00:24:42] bem no segundo volume
[00:24:44] do livro dele sobre Nietzsche,
[00:24:46] tem vários, mas o clássico,
[00:24:48] vamos dizer assim, ele fala
[00:24:50] da técnica planetária como sendo
[00:24:52] um movimento
[00:24:54] do antropomorfismo
[00:24:56] incondicional.
[00:24:58] Digamos que o que
[00:25:00] o homem tocou virou já humano
[00:25:02] e já está cheio dessa
[00:25:04] vontade de
[00:25:06] controle e poder.
[00:25:08] Essa vontade do
[00:25:10] infinito, né?
[00:25:12] Até um tema muito
[00:25:14] abordado pelo
[00:25:16] professor Givão Foga no seu último
[00:25:18] livro, Coração Máquina.
[00:25:20] Ele faz uma leitura
[00:25:22] de Álvaro de Campos, como essa
[00:25:24] vontade do infinito,
[00:25:26] o poeta da técnica.
[00:25:28] Bom,
[00:25:30] a gente pode dizer assim,
[00:25:34] bom, tudo isso é
[00:25:36] o Descartes.
[00:25:38] O Descartes
[00:25:40] está ligado
[00:25:42] a todas essas
[00:25:44] questões da modernidade,
[00:25:46] ele para muitos, ele libera
[00:25:48] o homem, ele é promessa
[00:25:50] de liberdade, de avanço, de
[00:25:52] progresso técnico, científico,
[00:25:54] de controle.
[00:25:56] O
[00:25:58] instaurador e fundador
[00:26:00] da subjetividade,
[00:26:02] da subjetivação,
[00:26:04] ou seja, tudo que é
[00:26:06] em relação ao homem,
[00:26:08] ao olhar do homem, esse
[00:26:10] antropomorfismo,
[00:26:12] mas por isso mesmo ele é
[00:26:14] então o pai
[00:26:16] das nossas misérias,
[00:26:18] de todas as nossas
[00:26:20] misérias modernas.
[00:26:22] Se a gente for para
[00:26:24] a crítica que
[00:26:26] Husserl faz a Descartes,
[00:26:30] que Heidegger faz
[00:26:32] a Descartes,
[00:26:34] basicamente,
[00:26:36] o Husserl vai dizer assim,
[00:26:38] olha, o Descartes
[00:26:40] ele descobriu uma coisa extraordinária,
[00:26:44] ele descobriu
[00:26:46] o…
[00:26:48] não…
[00:26:50] tudo depende de como a gente entende o cogito,
[00:26:52] vai ser a chave fundamental
[00:26:54] do pensamento do Descartes.
[00:26:56] Então ele diz assim,
[00:26:58] o cogito é
[00:27:00] eu penso, ou seja,
[00:27:02] ele é o ato mesmo
[00:27:04] de pensar.
[00:27:06] Enquanto ato,
[00:27:08] ele tem uma dinâmica,
[00:27:10] uma dinâmica
[00:27:12] que não é só
[00:27:14] a dinâmica da representação,
[00:27:16] ou seja, da maneira
[00:27:18] como esse pensar
[00:27:20] idealiza
[00:27:22] ou
[00:27:24] representa, apresenta para si
[00:27:26] conteúdos,
[00:27:28] o real,
[00:27:30] questões,
[00:27:32] âmbitos ontológicos,
[00:27:34] mas tem uma…
[00:27:36] algo que Descartes
[00:27:38] descobriu que está ligado
[00:27:40] a sua dúvida metódica
[00:27:42] quando ele coloca tudo
[00:27:44] em suspenso,
[00:27:46] não acredita em nada,
[00:27:48] reduz
[00:27:50] a tese natural,
[00:27:52] o nosso
[00:27:54] senso comum
[00:27:56] de que ser
[00:27:58] é o que existe.
[00:28:00] Descartes
[00:28:02] coloca isso, vamos dizer assim,
[00:28:04] numa questão radical,
[00:28:06] muito
[00:28:08] discutido por muitos como
[00:28:10] o ceticismo de Descartes,
[00:28:12] embora o seu ceticismo seja diverso
[00:28:14] do ceticismo antigo,
[00:28:16] e Rousseau vai ver nisso,
[00:28:18] que ele também é um grande pensador
[00:28:20] dessa interrupção,
[00:28:22] o pensador como
[00:28:24] fenomenólogo, ele coloca
[00:28:26] o mundo em parênteses,
[00:28:28] ele
[00:28:30] parentetiza a existência
[00:28:32] do mundo, então ele diz assim,
[00:28:34] vamos fazer
[00:28:36] como se o mundo
[00:28:38] não existisse,
[00:28:40] e ele vê que Descartes faz isso,
[00:28:42] vamos fazer como se
[00:28:44] o mundo não existisse,
[00:28:46] para quê?
[00:28:48] Para se dar conta
[00:28:50] que
[00:28:52] mundo
[00:28:54] existe? Eu vou tentar
[00:28:56] fazer uma distinção que aparece
[00:28:58] no Rousseau,
[00:29:00] para a gente entender como ele
[00:29:02] reclama do Descartes, ele diz, Descartes,
[00:29:04] você estava quase lá sendo eu,
[00:29:06] você quase foi Rousseau,
[00:29:08] mas você parou no meio do caminho,
[00:29:10] então ele vai ver,
[00:29:12] Descartes abriu a possibilidade
[00:29:14] de quase chegar
[00:29:16] naquilo que a fenomenologia chamou de
[00:29:18] epoque,
[00:29:20] que suspende
[00:29:22] coloca em
[00:29:24] suspenso,
[00:29:26] suspenso significa, fica ali,
[00:29:28] oscilando,
[00:29:30] a tese de
[00:29:32] que ser a existência, ou seja,
[00:29:34] da própria existência do mundo,
[00:29:36] para
[00:29:38] não mais pensar o mundo
[00:29:40] a partir dos conteúdos
[00:29:42] e da maneira filosófica de
[00:29:44] perguntar o que é
[00:29:46] isso, mas para
[00:29:48] perguntar como
[00:29:50] isso é,
[00:29:52] essa pergunta como isso é,
[00:29:54] ela pressupõe
[00:29:56] que você não mais
[00:29:58] olhe, pense,
[00:30:00] teoretize,
[00:30:04] realize a atitude teórica
[00:30:06] se perguntando pelo
[00:30:08] o que é isso,
[00:30:10] mas se dando conta
[00:30:12] que mundo é.
[00:30:14] Então, ao fazer
[00:30:16] essa pequena diferença de não colocar o
[00:30:18] artigo definido, o que é o mundo,
[00:30:20] mas que mundo é,
[00:30:22] uma outra
[00:30:24] visão, uma outra perspectiva
[00:30:26] do real se dá,
[00:30:28] que é para Rússio
[00:30:30] a experiência fundamental
[00:30:32] ontológica de que ser é
[00:30:34] aparecer, que mundo é,
[00:30:36] que mundo se dá,
[00:30:38] que a vida se dá,
[00:30:40] e ele acha
[00:30:42] que Descartes chegou pertinho
[00:30:44] dali, mas que ele não
[00:30:46] deu conta da
[00:30:48] própria temporalidade
[00:30:50] desse que o mundo é,
[00:30:52] então, quando Descartes
[00:30:54] suprime o mundo,
[00:30:56] ele não suprime
[00:30:58] o mundo, o conteúdo
[00:31:00] do mundo, ele está fazendo um certo
[00:31:02] experimento de pensamento
[00:31:04] que vai dar na representação,
[00:31:06] na objetivação,
[00:31:08] mas que tem um momento lá fundamental
[00:31:10] onde ele abre
[00:31:12] para o que seria
[00:31:14] a virada fenomenológica da
[00:31:16] filosofia, então Rússio
[00:31:18] vê, nossa Descartes,
[00:31:20] ele escreve as meditações cartesianas
[00:31:22] que ele vai apresentar em Paris,
[00:31:24] não é, então
[00:31:26] que Coiré assiste,
[00:31:28] Alessandro Coiré, e
[00:31:30] fica encantado, quer estudar com ele,
[00:31:32] Rússio falou, não quero
[00:31:34] ser seu orientador,
[00:31:36] não, rejeitou
[00:31:38] o Coiré,
[00:31:40] mas a crítica
[00:31:42] de Heidegger já é
[00:31:44] diversa, assim, ela
[00:31:46] sem dúvida, ela é muito mais
[00:31:48] severa, porque Rússio,
[00:31:50] claro, ele também critica
[00:31:52] as ciências modernas
[00:31:54] da natureza, na crise
[00:31:56] da ciência europeia, ele
[00:31:58] vê o problema da,
[00:32:00] vamos dizer assim, da
[00:32:02] naturalização da
[00:32:04] consciência operando na
[00:32:06] filosofia, tem uma série de
[00:32:08] coisas aí para discutir,
[00:32:10] mas o
[00:32:12] Rússio tem um momento assim
[00:32:14] de uma certa epifania cartesiana,
[00:32:16] que ele vê, aqui tem um
[00:32:18] barato, vamos dizer assim,
[00:32:20] na própria metafísica de
[00:32:22] cartes, depois a questão
[00:32:24] da ciência, a questão da
[00:32:26] técnica, que é
[00:32:28] a questão de formalização
[00:32:30] do pensamento,
[00:32:32] formalização
[00:32:34] que é
[00:32:36] uma perda de mundo,
[00:32:38] e também de não dar conta,
[00:32:40] que é isso que ele vai reclamar de
[00:32:42] Heidegger, de não se dar conta
[00:32:44] de que toda a ciência,
[00:32:46] a mais abstrata, a mais
[00:32:48] quântica, a mais especulativa,
[00:32:50] ela está
[00:32:52] fincada no
[00:32:54] mundo da vida, não tem
[00:32:56] como, a ciência
[00:32:58] se exerce dentro de um mundo,
[00:33:00] a ciência, ela é
[00:33:02] administrada dentro de um mundo,
[00:33:04] e não só isso,
[00:33:06] mas numa estrutura de mundo
[00:33:08] vivido e experimentado
[00:33:10] como
[00:33:12] tendo por fundamento
[00:33:14] o que o Rússio chamou de
[00:33:16] intersubjetividade,
[00:33:18] agora o Heidegger, ele é mais radical,
[00:33:22] ele vai realmente criticar
[00:33:24] o Descartes, o Descartes não é o herói
[00:33:26] do Heidegger,
[00:33:28] Platão não é,
[00:33:30] mas até que Platão vai
[00:33:32] uns pontos ali, questão da
[00:33:34] verdade importante,
[00:33:36] mas sobretudo porque
[00:33:38] para Heidegger,
[00:33:40] o problema do Descartes foi ter
[00:33:42] definido,
[00:33:44] ter feito uma
[00:33:46] distinção, uma separação
[00:33:48] entre corpo e alma,
[00:33:50] entre res cogitans
[00:33:52] e res extensa,
[00:33:54] mas na verdade foi ter
[00:33:56] coesificado
[00:33:58] o pensamento
[00:34:00] a racionalidade, ou seja,
[00:34:02] Heidegger entende que o grande problema
[00:34:04] da filosofia do Descartes é esse
[00:34:06] egosumo
[00:34:08] que ele devia ter dito,
[00:34:10] eu sou, logo eu penso, e não eu penso,
[00:34:12] logo eu sou,
[00:34:14] eu existo, por isso eu penso,
[00:34:16] e não eu penso, logo eu existo,
[00:34:18] o Heidegger tem até uma formulação,
[00:34:20] e também a crítica
[00:34:22] a, vamos dizer assim,
[00:34:24] a desespacialização
[00:34:26] que o
[00:34:28] sentido matemático
[00:34:30] físico
[00:34:32] do espaço infinito
[00:34:34] traz, a
[00:34:36] destemporalização que o sentido
[00:34:38] de um tempo infinito
[00:34:40] também trouxe,
[00:34:42] ou seja, é a desmundanização
[00:34:46] do pensamento
[00:34:48] e da experiência
[00:34:50] mesmo do que que
[00:34:52] é ser, então
[00:34:54] para Heidegger essa crítica
[00:34:56] que o Descartes faz
[00:34:58] a evidência,
[00:35:00] o senso comum de que ser existe,
[00:35:02] ele fala,
[00:35:04] não, ele não entende é que ser
[00:35:06] existe, ou seja,
[00:35:08] ser não é o existente,
[00:35:10] mas ser é um verbo,
[00:35:12] ser é uma dinâmica
[00:35:14] de realização,
[00:35:16] e o Descartes
[00:35:18] não dá conta disso,
[00:35:20] ele reifica, e o Descartes
[00:35:22] vamos dizer assim,
[00:35:24] a coisa bem
[00:35:26] terrível do Descartes para Heidegger
[00:35:28] uma delas é ele ser
[00:35:30] o pai dessa dinâmica
[00:35:32] de um pensamento
[00:35:34] representacional,
[00:35:36] reificante, objetivante,
[00:35:38] que é
[00:35:40] o coração
[00:35:42] sem coração para usar
[00:35:44] o coração de máquina
[00:35:46] para usar o título do Juvain de Nouveau
[00:35:48] da técnica moderna,
[00:35:50] da técnica planetária,
[00:35:52] do antropomorfismo
[00:35:54] incondicional, então
[00:35:56] essas são as críticas
[00:35:58] de uma maneira muito sumária
[00:36:00] eu não sei se eu fui clara
[00:36:02] e aí você me diz
[00:36:04] se precisa
[00:36:06] de mais algum esclarecimento
[00:36:08] eu acho que já tem um perfil
[00:36:10] desse horizonte
[00:36:12] de críticas
[00:36:14] aí eu vou te perguntar
[00:36:16] então pelo dado positivo
[00:36:18] porque
[00:36:20] eu vou te perguntar
[00:36:22] porque que você resolveu escrever
[00:36:24] sobre Descartes
[00:36:26] que imagem do Descartes
[00:36:28] que a senhora
[00:36:30] procura resgatar
[00:36:32] dos trabalhos
[00:36:34] porque eu fui procurar
[00:36:36] Descartes é uma novidade
[00:36:38] na sua produção de certa forma
[00:36:40] um mergulho em Descartes
[00:36:44] olha
[00:36:46] essa pergunta
[00:36:48] é boa pergunta
[00:36:50] eu vou ficar animada de
[00:36:52] entender porque ninguém
[00:36:54] aqui no Brasil sobretudo
[00:36:56] na verdade
[00:36:58] eu escrevi um livro
[00:37:00] junto com uma colega da área de estética
[00:37:02] chamada Cecília
[00:37:04] e
[00:37:06] esse livro está saindo
[00:37:08] vai sair em inglês
[00:37:10] mas ainda não saiu
[00:37:12] ele está um pouco demorado
[00:37:14] mas eu vou te dizer
[00:37:16] nessa questão toda
[00:37:18] da crítica
[00:37:20] você sabe que eu escrevi sobre
[00:37:22] assim desde que
[00:37:24] isso talvez você não saiba
[00:37:26] desde que eu comecei na filosofia
[00:37:28] a questão da técnica
[00:37:30] uma questão importante
[00:37:32] foi um dos primeiros textos que eu publiquei
[00:37:34] muito assim nervosa
[00:37:36] na revista do IFIX
[00:37:38] que era dirigida na época
[00:37:40] pelo Gerd Bornheim
[00:37:42] que foi meu professor
[00:37:44] e amigo
[00:37:46] e em toda essa
[00:37:48] questão
[00:37:50] da contemporaneidade
[00:37:52] que eu trabalhei do exílio
[00:37:56] do sem
[00:37:58] fundamento
[00:38:00] como
[00:38:02] uma nova
[00:38:04] forma de convivência
[00:38:06] que é não ter fundamento nenhum
[00:38:08] não ter nada em comum
[00:38:12] a questão
[00:38:14] da técnica
[00:38:16] está sempre presente
[00:38:18] então o último livro sobre o fascismo
[00:38:20] da ambividade
[00:38:22] que está acontecendo
[00:38:24] tem a ver com isso
[00:38:26] e
[00:38:28] eu pongo
[00:38:30] nesses anos
[00:38:32] uma coisa que sempre me chamou a atenção
[00:38:34] é o seguinte
[00:38:36] é que em muitos estudos
[00:38:38] o que eu estudei
[00:38:40] sobre Heidegger
[00:38:42] a questão da técnica
[00:38:44] e por exemplo
[00:38:46] a crítica marxista ao capital
[00:38:48] eu dei cursos
[00:38:50] sobre o marxismo
[00:38:52] heideggeriano do Marcuse
[00:38:56] estudei muito
[00:38:58] a relação entre niilismo
[00:39:00] e capitalismo
[00:39:02] assim
[00:39:04] coisas
[00:39:06] me interessou pensar muito
[00:39:08] é a questão da técnica
[00:39:10] de maneira ampla
[00:39:12] ou seja mantendo
[00:39:14] uma inspiração grande de Heidegger
[00:39:16] porque ele no meu entender
[00:39:18] é o primeiro pensador
[00:39:20] da globalização
[00:39:22] com a sua noção de técnica planetária
[00:39:24] e ele tem uma visão
[00:39:26] profunda
[00:39:28] do que nós vivemos
[00:39:30] hoje sobre
[00:39:32] o nome técnica
[00:39:34] que não é simplesmente
[00:39:36] o domínio dos aparelhos técnicos
[00:39:38] ou da tecnologia
[00:39:40] de informação etc
[00:39:42] mas é uma
[00:39:44] reinterpretação
[00:39:46] do sentido de ser
[00:39:48] então a técnica
[00:39:50] e o que
[00:39:52] o Pasolini veio a chamar
[00:39:54] de genocídio
[00:39:56] ontológico
[00:39:58] de mutação ontológica
[00:40:00] de genocídio cultural etc
[00:40:02] estão interligados
[00:40:04] por isso o meu interesse
[00:40:06] em estudar essas várias coisas
[00:40:08] mas em tudo isso
[00:40:10] fica muito presente
[00:40:12] uma experiência
[00:40:14] e uma ideia
[00:40:16] do sem saída
[00:40:18] tá
[00:40:20] apocalípticos
[00:40:22] que são manipulativos
[00:40:24] usados
[00:40:26] por toda parte
[00:40:28] o fim do mundo para lá e para cá
[00:40:30] porque isso serve bem
[00:40:32] a grandes manipulações políticas
[00:40:34] politiqueiras etc
[00:40:36] então a minha pergunta é
[00:40:38] o que que é
[00:40:40] estar nessa situação
[00:40:42] de sem saída
[00:40:44] eu escrevi até um texto sobre
[00:40:46] Kafka e Heidegger
[00:40:48] sobre a técnica
[00:40:50] de construção do Kafka
[00:40:52] que tem a ver com isso
[00:40:54] e
[00:40:56] para mim está claro que
[00:40:58] se nada mais resta
[00:41:00] porque tudo foi
[00:41:02] expropiado
[00:41:04] por essa avalanche
[00:41:06] epocal
[00:41:08] ontológica
[00:41:10] né
[00:41:12] resta uma única
[00:41:14] coisa talvez
[00:41:16] não vou dizer a única
[00:41:18] mas resta o fato
[00:41:20] bruto
[00:41:22] simples
[00:41:24] de que existência existe
[00:41:26] existe o existir
[00:41:30] e isso eu pensei muito
[00:41:32] em termos do
[00:41:34] sendo ou de um sentido
[00:41:36] gerundivo né de ser
[00:41:38] bom por conta desses
[00:41:40] interesses
[00:41:42] eu me perguntei
[00:41:44] mas será
[00:41:46] possível
[00:41:48] se Rousseau tem razão
[00:41:50] para um pensamento mais
[00:41:52] desencarnado
[00:41:54] mais desmundanizado
[00:41:56] mais vamos dizer assim
[00:41:58] técnico
[00:42:00] ele não
[00:42:02] traz dentro dele
[00:42:04] uma dimensão
[00:42:06] criadora
[00:42:08] um
[00:42:10] vestígio
[00:42:12] de
[00:42:14] de liberdade
[00:42:16] então eu comecei
[00:42:18] a desconfiar dos meus próprios
[00:42:20] conceitos digamos
[00:42:22] e me dei conta também
[00:42:24] de uma coisa que
[00:42:26] desde que eu traduzi Ser e Tempo
[00:42:28] sempre me chamou a atenção
[00:42:30] e todas as discussões que o Heidegger
[00:42:32] quer voltar para os gregos e que não sei o que
[00:42:34] e o pré-socrático e o grego do Heidegger
[00:42:36] e tal
[00:42:38] nas primeiras linhas do Ser e Tempo eu falei isso
[00:42:40] da outra vez que a gente esteve no nosso
[00:42:42] podcast ele fala
[00:42:44] que a filosofia começa perdendo-se
[00:42:46] da filosofia
[00:42:48] o começo da filosofia
[00:42:50] é a perda dela
[00:42:52] é um pouquinho
[00:42:54] como a gente pensa uma revolução
[00:42:56] que na hora que
[00:42:58] a revolução é vitoriosa
[00:43:00] ela se perde dela
[00:43:02] né
[00:43:04] é um pouco como o horizonte
[00:43:06] a democracia
[00:43:08] precisa se
[00:43:10] instituir, institucionalizar
[00:43:12] ela precisa
[00:43:14] fortalecer as suas instituições
[00:43:16] as suas
[00:43:18] práticas que a democracia
[00:43:20] tem de prática social
[00:43:22] mas
[00:43:24] guardando sempre
[00:43:26] que a democracia
[00:43:28] nunca se pode dizer
[00:43:30] que somos absolutamente democratas
[00:43:32] porque nesse momento já seríamos tiranos
[00:43:34] ou seja
[00:43:36] ela é sempre como Derrida disse
[00:43:38] por vir no sentido, não que ela nunca existiu
[00:43:40] está por vir, messiânica, etc
[00:43:42] mas ela precisa
[00:43:44] ser sempre de novo conquistada
[00:43:46] né
[00:43:48] ela nunca está
[00:43:50] locupletada, ela não tem uma forma
[00:43:52] perfeita no sentido de acabada
[00:43:54] ela é
[00:43:56] sempre em aberto
[00:43:58] sempre se fazendo
[00:44:00] então
[00:44:02] eu me dei conta também
[00:44:04] que se a filosofia
[00:44:06] se instaura
[00:44:08] como a sua própria perda
[00:44:10] a perda do eclat
[00:44:12] perda desse brilho
[00:44:14] desse susto de que ser é
[00:44:16] a existência existe
[00:44:18] sem porque
[00:44:20] sem razão, sem causa
[00:44:22] sem fundamento
[00:44:24] e não dá conta de se sintonizar
[00:44:26] se viver
[00:44:28] afinada
[00:44:30] na vibração
[00:44:32] desse impacto
[00:44:34] desse susto
[00:44:36] desse aparecer de ser
[00:44:38] vamos dizer assim
[00:44:40] ela se perde
[00:44:42] então ela é a história dessa perdição
[00:44:44] vamos dizer assim a filosofia
[00:44:46] e eu acho que
[00:44:48] a própria instituição
[00:44:50] instauração
[00:44:52] da subjetividade moderna
[00:44:54] pelo Descartes
[00:44:56] com todos os
[00:44:58] terrores que isso pode significar
[00:45:00] com todos os problemas
[00:45:02] ela também se
[00:45:04] demole ela própria
[00:45:06] no momento mesmo
[00:45:08] entende, não é
[00:45:10] uma força que vem de fora
[00:45:12] que vai dizer para o Descartes
[00:45:14] olha, existe um
[00:45:16] um ser no mundo
[00:45:18] autêntico ou puro
[00:45:20] ou isso, não
[00:45:22] essa própria estrutura de subjetividade
[00:45:24] que esquece
[00:45:26] o mundo
[00:45:28] essa finitude humana
[00:45:30] ela se trai
[00:45:32] nela própria
[00:45:34] então é como se
[00:45:36] o olhar cartesiano
[00:45:38] vamos dizer assim
[00:45:40] esquece
[00:45:42] o fundamental
[00:45:44] da vida se fazendo
[00:45:46] para dizer de maneira simples
[00:45:48] então vamos olhar esse esquecer
[00:45:50] para ver se nesse esquecer
[00:45:52] vamos olhar não o que ela esquece
[00:45:54] esqueceu isso, esqueceu aquilo
[00:45:56] o Heidegger fala esqueceu isso, não viu isso
[00:45:58] então eu quero olhar esse esquecer
[00:46:00] porque a minha pergunta é
[00:46:02] como é possível isso se dar
[00:46:04] como foi possível
[00:46:06] esse corte da modernidade
[00:46:08] como foi possível
[00:46:10] essa faca terrível
[00:46:12] essa espada
[00:46:14] que cortou
[00:46:16] o mundo da vida
[00:46:18] a vida do mundo
[00:46:20] mundo e natureza
[00:46:22] que invadiu
[00:46:24] que se expandiu
[00:46:26] que massacrou
[00:46:28] que
[00:46:30] devastou
[00:46:32] que exterminou
[00:46:34] como é possível
[00:46:36] esse esquecimento acontecer
[00:46:38] então eu fui movida por isso
[00:46:40] e aí eu me dei conta
[00:46:42] de várias coisas
[00:46:44] eu me dei conta, por exemplo
[00:46:46] eu não sei, talvez pelo fato
[00:46:48] de eu morar na Suécia
[00:46:50] eu sou professora na Suécia
[00:46:52] foi lá que o Descartes morreu
[00:46:54] tadinho de frio, congelado
[00:46:56] é
[00:46:58] ninguém fala muito do Descartes
[00:47:00] ninguém estuda Descartes
[00:47:02] eu montei um departamento de filosofia continental
[00:47:04] lá com meu colega
[00:47:06] quando eu saí do IFIX
[00:47:08] e nesses anos todos
[00:47:10] de repente eu me dei conta
[00:47:12] nossa, ninguém nunca deu
[00:47:14] um curso sobre Descartes aqui
[00:47:16] a gente dá um pouquinho de Descartes
[00:47:18] num curso básico
[00:47:20] a prova ontológica
[00:47:22] da existência de Deus
[00:47:24] essa questão do córdito
[00:47:26] da dúvida
[00:47:28] aí eu falei assim
[00:47:30] bom, que estranho
[00:47:32] mas aí eu
[00:47:34] eu me dei conta que Descartes
[00:47:36] era
[00:47:38] um grande escritor
[00:47:40] e isso eu devo dizer
[00:47:42] que foi
[00:47:44] por causa dos meus alunos
[00:47:46] que eu tive a oportunidade
[00:47:48] de falar com eles
[00:47:50] e eu falei
[00:47:52] o que é Descartes?
[00:47:54] é uma língua suécia
[00:47:56] a língua suécia é uma língua
[00:47:58] muito pragmática
[00:48:00] não é pragmática
[00:48:02] ela é uma língua assim
[00:48:04] frases muito curtas
[00:48:06] é uma língua que não permite
[00:48:08] as ambiguidades
[00:48:10] e as polissemias
[00:48:12] ricas de várias outras línguas
[00:48:14] porque você tem que escolher
[00:48:16] atos
[00:48:18] e não o sentido, vamos dizer assim
[00:48:20] mais poético da poesia
[00:48:22] mas assim, de escrever frases breves
[00:48:24] concisas, claras
[00:48:28] e as traduções
[00:48:30] da filosofia para o sueco
[00:48:32] ficam muito confusas
[00:48:34] porque as vezes a língua sueca
[00:48:36] é força contra ela
[00:48:38] sobretudo quando vem do francês
[00:48:40] fica fosca, tudo assim
[00:48:42] cheio de areste
[00:48:44] parece porco e espinho
[00:48:46] e eu noto toda vez que eu dava curso
[00:48:48] que eu sempre dei curso de metafísica
[00:48:50] curso de introdução à filosofia
[00:48:52] isso no curso básico
[00:48:54] que os alunos ficavam
[00:48:56] tão felizes quando liam Descartes
[00:48:58] porque eles
[00:49:00] e a tradução para o sueco muito bonita
[00:49:02] e eu de repente
[00:49:04] que eu até nem gosto muito de ler
[00:49:06] prosa sueca
[00:49:08] eu gosto mais de ler a poesia sueca
[00:49:10] nossa que bonito esse texto
[00:49:12] eu nunca tinha me dado conta
[00:49:14] que Descartes
[00:49:16] é um escritor
[00:49:18] aí eu me dei conta de várias coisas
[00:49:20] bem com simplicidade
[00:49:22] sem pretensões
[00:49:24] filosóficas, metafísicas
[00:49:26] muito profundas
[00:49:28] nossa
[00:49:30] o Descartes de repente
[00:49:32] ele estava na Europa
[00:49:34] durante 20 anos
[00:49:36] ele conviveu sem conviver
[00:49:38] ele existia
[00:49:40] no mesmo continente
[00:49:42] com Shakespeare e Cervantes
[00:49:44] nossa
[00:49:46] Shakespeare morre
[00:49:48] dia 23 de abril
[00:49:50] 1616
[00:49:52] Cervantes morre um dia antes
[00:49:54] dia 22 de abril do mesmo ano
[00:49:56] Descartes tinha 20 anos
[00:50:00] ele já era naquela época com 20 anos
[00:50:02] ou seja, quase formado
[00:50:04] alma formada
[00:50:06] então
[00:50:08] os três
[00:50:10] e Descartes é o fundador
[00:50:12] da prosa
[00:50:14] do francês moderno
[00:50:16] ele é
[00:50:18] importantíssimo para a literatura francesa
[00:50:20] e eu de repente
[00:50:22] me dei conta que três grandes
[00:50:24] os grandes inventores
[00:50:26] das línguas modernas
[00:50:28] literárias
[00:50:30] Shakespeare, Cervantes
[00:50:32] e Descartes
[00:50:34] e que
[00:50:36] ao ler o código
[00:50:38] por exemplo
[00:50:40] com o Hamlet
[00:50:42] com o Don Quixote
[00:50:44] eu descobri
[00:50:46] um novo mundo
[00:50:48] ali, só para começar
[00:50:50] então vamos para o Descartes para conversar
[00:50:52] não com os cartesianos
[00:50:54] não com o cartesianismo
[00:50:56] com seus objetores
[00:50:58] ou com seus críticos
[00:51:00] vamos para o Descartes
[00:51:02] começou ali
[00:51:04] depois eu me dei conta
[00:51:06] lendo também a biografia
[00:51:08] do Descartes
[00:51:10] sabe que o Descartes queria vir para o Brasil
[00:51:12] viajava muito
[00:51:14] viajava de ficar em Paris
[00:51:16] o Descartes
[00:51:18] ele nunca foi professor
[00:51:20] da universidade
[00:51:22] essa coisa
[00:51:24] dele vir para o Brasil
[00:51:26] a gente tem a aula que o Leminski estava dando
[00:51:28] Paulo Leminski estava dando aula sobre o Brasil
[00:51:30] falando de maior
[00:51:32] ensinação e deu um insight
[00:51:34] e se Descartes tivesse vindo para o Brasil?
[00:51:36] aí ele fez o Descartes
[00:51:38] com lentes que virou Catatau depois
[00:51:40] exatamente
[00:51:42] só para dar
[00:51:44] foi ótimo
[00:51:46] lembrar do Paulo Leminski
[00:51:48] que aliás é maravilhoso
[00:51:50] tem cada coisa genial mesmo
[00:51:52] e de fato
[00:51:54] o Descartes ele queria
[00:51:56] ele nunca ficou na universidade
[00:51:58] ele morou muito tempo
[00:52:00] na Holanda
[00:52:02] porque a Holanda era Nova York
[00:52:04] não é à toa que Nova York foi chamada Nova Amsterdam
[00:52:06] porque da época
[00:52:08] a Nova York
[00:52:10] na época que Nova York era Nova York
[00:52:12] porque agora não é mais
[00:52:14] Nova York
[00:52:16] é uma cidade
[00:52:18] de reunião mesmo
[00:52:20] dos acontecimentos
[00:52:22] filosóficos
[00:52:24] você está com espinosa
[00:52:26] você está com as lentes
[00:52:28] você está
[00:52:30] uma indústria gráfica
[00:52:32] a gravura
[00:52:34] o desenvolvimento do telescópio
[00:52:36] das lentes
[00:52:38] a companhia das índias
[00:52:40] nós temos
[00:52:42] tudo está acontecendo em Nova York
[00:52:44] em Amsterdam
[00:52:46] na época
[00:52:48] e o Descartes ele conversava
[00:52:50] com os sábios
[00:52:52] os matemáticos
[00:52:54] os músicos
[00:52:56] o primeiro trabalho do Descartes
[00:52:58] foi um tratado de música
[00:53:00] um compêndio sobre música
[00:53:02] então você vê
[00:53:04] que ele como Sócrates
[00:53:06] vamos dizer assim
[00:53:08] não era acadêmico
[00:53:10] mas a diferença total de Sócrates
[00:53:12] Descartes só
[00:53:14] escreveu
[00:53:16] Descartes não dava aulas
[00:53:18] orais
[00:53:20] palestras
[00:53:22] conferências
[00:53:24] Descartes só escreveu
[00:53:26] e eu me dei conta
[00:53:28] que o cogito
[00:53:30] era um cogito
[00:53:32] do escritor
[00:53:34] ele pensa escrevendo
[00:53:36] a escrita dele
[00:53:38] é um modo de pensar
[00:53:40] isso foi uma coisa que
[00:53:42] me deu
[00:53:44] um pouco claro
[00:53:46] lendo Descartes dessa forma
[00:53:48] ou seja lutando contra todos os meus preconceitos
[00:53:50] e tentando prestar atenção
[00:53:52] em como o texto
[00:53:54] cartesiano
[00:53:56] é escrito
[00:53:58] eu me dei conta que Descartes está escrevendo
[00:54:00] o ato de pensar
[00:54:02] isso para ele é o mais importante
[00:54:04] assim
[00:54:06] o primeiro movimento
[00:54:08] claro que ele é interessado na ciência
[00:54:10] ele é interessado na matemática
[00:54:12] ele era geninho
[00:54:14] basicamente você colocava problemas
[00:54:16] de geometria, álgebra
[00:54:18] no post
[00:54:20] em vez de colocar propaganda
[00:54:22] nefasta
[00:54:24] de política nefasta
[00:54:26] ele colocava uns problemas
[00:54:28] e ele olhava e dizia
[00:54:30] tá bom
[00:54:32] vou resolver
[00:54:34] era um pouco assim
[00:54:36] e ao fazer isso
[00:54:38] claro que ele também se interessava
[00:54:40] mas ele estava muito interessado
[00:54:42] é no escrever
[00:54:44] no ato de pensar
[00:54:46] e eu me dei conta
[00:54:48] que nas leituras que eu fiz
[00:54:50] sobretudo
[00:54:52] dessa veia crítica
[00:54:54] ao cartesianismo
[00:54:56] a modernidade
[00:54:58] a técnica
[00:55:00] ao racionalismo
[00:55:02] insensível
[00:55:04] a reificação, objetivação
[00:55:06] representação etc
[00:55:08] eu me dei conta
[00:55:10] que ninguém
[00:55:12] fala muito
[00:55:14] na primeira
[00:55:16] mas ninguém fala muito
[00:55:18] presta muita atenção
[00:55:20] que a grande oposição cartesiana
[00:55:22] entre res cogitans e res extensa
[00:55:24] é um pouco desequilibrada
[00:55:26] ela não é simétrica
[00:55:28] porque?
[00:55:30] porque o res extensa
[00:55:32] a coisa extensa
[00:55:34] e a coisa
[00:55:36] pensante
[00:55:38] cogitans
[00:55:40] o cogito cartesiano
[00:55:42] ele é
[00:55:44] pensante
[00:55:46] ele é um participante
[00:55:48] ele é na verdade
[00:55:50] gerundivo
[00:55:52] estou pensando
[00:55:54] cogito
[00:55:56] poderia ser uma
[00:55:58] maneira, a gente usa o presente
[00:56:00] indicativo
[00:56:02] num sentido muitas vezes
[00:56:04] gerundivo
[00:56:06] estou pensando, eu penso
[00:56:08] e encontrei
[00:56:10] em certas cartas
[00:56:12] sobretudo a resposta
[00:56:14] de Descartes
[00:56:16] as objeções
[00:56:18] que ele recebeu de Hobbes
[00:56:20] por exemplo, entre outros
[00:56:22] que ele fala
[00:56:24] de fato
[00:56:26] ego cogitans existo
[00:56:28] eu pensando existo
[00:56:32] não só
[00:56:34] ego cogito ergo sum
[00:56:36] mas ego cogitans existo
[00:56:38] eu pensando existo
[00:56:40] e
[00:56:42] me dei conta então
[00:56:44] que existe
[00:56:46] nesse movimento da escrita
[00:56:48] pensante de Descartes
[00:56:50] ele querendo escrever esse movimento
[00:56:52] do pensar
[00:56:54] que é a coisa mais difícil
[00:56:56] ele tem
[00:56:58] inúmeras passagens sobre o ato de escrever
[00:57:00] sobre como
[00:57:02] você fixa
[00:57:04] assim a própria tinta
[00:57:06] na mão, ele pensa sobre isso
[00:57:08] eu estou com a caneta na minha mão
[00:57:10] escrevendo o que está
[00:57:12] passando e que parece
[00:57:14] um pouco poeril para uns
[00:57:16] ou um pouco físico químico
[00:57:18] demais para outros
[00:57:20] é uma experiência
[00:57:22] existencial extraordinária
[00:57:24] desse
[00:57:26] estar pensando
[00:57:28] que é
[00:57:30] o que significa
[00:57:32] no meu entender
[00:57:34] eu
[00:57:38] o Reagan
[00:57:40] que não era
[00:57:42] assim bobo
[00:57:44] Reagan que era
[00:57:46] fera, ele era
[00:57:48] tão especulativo que muitas vezes
[00:57:50] ninguém entende o Reagan
[00:57:52] e todo mundo gosta de mostrar que entende
[00:57:54] mas é difícil o Reagan
[00:57:56] o Reagan disse nessas mesmas lições
[00:57:58] da história da filosofia
[00:58:00] que o eu
[00:58:02] significa em Descartes
[00:58:04] das denkende
[00:58:06] o pensante
[00:58:08] o pensando
[00:58:10] e não
[00:58:12] das denken, o pensamento
[00:58:14] Então
[00:58:16] esse ego
[00:58:18] digamos
[00:58:20] ele é
[00:58:22] estar pensando
[00:58:24] e o teor
[00:58:26] de
[00:58:28] realidade
[00:58:30] que isso tem
[00:58:32] que é totalmente diferente
[00:58:34] de um sentido de existência
[00:58:36] essa garrafa da água
[00:58:38] existe na minha frente
[00:58:40] eu pego nela
[00:58:42] eu posso perceber ou o famoso exemplo da
[00:58:44] madeira
[00:58:46] e completamente diferente
[00:58:48] de um sentido de sonho
[00:58:54] ou seja de quimera
[00:58:56] do não existir da irrealidade
[00:58:58] então esse
[00:59:00] eu estou pensando
[00:59:02] esse aqui agora não é
[00:59:04] nem aqui nem agora
[00:59:06] esse estou pensando
[00:59:08] ele
[00:59:10] não é nem real nem irreal
[00:59:12] é muito estranho
[00:59:14] ele é
[00:59:16] mais real que real
[00:59:18] estou pensando
[00:59:20] é assim de uma
[00:59:22] vamos dizer assim
[00:59:24] de uma dose de
[00:59:26] existencialidade
[00:59:28] eu estou usando um termo que é heideggeriano
[00:59:30] é
[00:59:32] é
[00:59:34] mas
[00:59:36] que
[00:59:38] eu acho que o Descartes está querendo
[00:59:40] é
[00:59:42] ele foi encontrado ele foi
[00:59:44] tocado
[00:59:46] por isso ele se flagrou
[00:59:48] pensando então
[00:59:50] o Descartes é interessante porque
[00:59:52] ele até
[00:59:54] no começo das paixões da alma
[00:59:56] ele fala de uma
[00:59:58] emoção racional
[01:00:00] ele fala
[01:00:02] de uma
[01:00:04] é
[01:00:06] um ser tocado antes mesmo
[01:00:08] da intuição
[01:00:10] então
[01:00:12] eu tentei desenvolver
[01:00:14] interpretar
[01:00:16] reinterpretar reler não vou dizer
[01:00:18] reinterpretar mas reler
[01:00:20] esse cogito cartesiano
[01:00:22] a partir desse cogitans
[01:00:24] a partir desse ser
[01:00:26] tocado quando
[01:00:28] a gente está pensando e de repente
[01:00:30] se flagra
[01:00:32] estou pensando
[01:00:36] e essa clareza
[01:00:40] que nos toca ou seja uma
[01:00:42] emoção
[01:00:44] filosófica
[01:00:46] descobri em Descartes
[01:00:48] um filósofo que se
[01:00:50] emociona filosoficamente
[01:00:52] não emocionei
[01:00:54] me emocionei e vou exprimir
[01:00:56] isso em pensamentos
[01:00:58] ou vou conceitualizar
[01:01:00] a minha emoção mas tem uma emoção
[01:01:02] filosófica que não tem
[01:01:04] a ver com os conteúdos
[01:01:06] do que eu penso imediatamente
[01:01:10] e essa emoção filosófica é engraçada
[01:01:12] que tem uns sonhos
[01:01:14] os famosos
[01:01:16] sonhos de Descartes
[01:01:18] até isso Descartes também
[01:01:20] sonha
[01:01:22] então até o pessoal
[01:01:24] é muito fácil a gente levar
[01:01:26] a famosa gravura
[01:01:28] do Goya
[01:01:30] que a razão
[01:01:32] quando sonha produz
[01:01:34] monstros
[01:01:36] mas sonho em espanhol
[01:01:38] quer dizer também o sono então você pode dizer
[01:01:40] quando a razão dorme também produz monstros
[01:01:42] mas
[01:01:44] esse sonho em Descartes
[01:01:46] é muito interessante porque ele
[01:01:48] é anotado
[01:01:50] por ele, o Descartes
[01:01:52] faz questão de anotar os sonhos dele
[01:01:54] e o grande biógrafo dele
[01:01:56] logo pouco depois
[01:01:58] da morte dele
[01:02:00] Bayer
[01:02:02] ele então
[01:02:04] preservou isso ele resguardou
[01:02:06] e
[01:02:08] mas ele conta assim
[01:02:10] olha eu estava
[01:02:12] na noite de 10 de novembro
[01:02:14] devia ser frio escuro para burro
[01:02:16] lá perto de Frankfurt
[01:02:18] que ele foi lá para a coroação
[01:02:20] do rei alemão
[01:02:22] e dizem que o
[01:02:24] Descartes gostava de fumar xixi
[01:02:26] eu não sei se ele estava meio sagacinho
[01:02:28] se ele estava de barato
[01:02:30] mas ele de repente
[01:02:32] ele teve uma eureta
[01:02:34] ele teve um entusiasmo
[01:02:36] acordado
[01:02:38] e descobriu os fundamentos
[01:02:40] de uma ciência maravilhosa
[01:02:42] a ciência fundamenta
[01:02:44] teve um barato
[01:02:46] ai ele dorme
[01:02:48] e no sonho dele
[01:02:50] ele tem 3 sonhos
[01:02:52] ele sonha 3 vezes
[01:02:54] ele interpreta os sonhos dele
[01:02:56] no final do sonho dele
[01:02:58] eu não vou me estender sobre os 3 sonhos
[01:03:00] do Descartes
[01:03:02] a gente tem várias coisas para falar
[01:03:04] mas é tão interessante que
[01:03:06] o Descartes sonha
[01:03:08] pode falar professora
[01:03:10] não tem problema não
[01:03:12] agora já foi
[01:03:14] é engraçado
[01:03:16] que o primeiro sonho do Descartes
[01:03:18] ele sonha que ele está morrendo de medo
[01:03:20] que ele está tremendo
[01:03:22] que ele vê uns fantasmas
[01:03:24] ele morre de medo
[01:03:26] ele é derrubado por uma tempestade
[01:03:28] ele vê
[01:03:30] umas pessoas passando
[01:03:32] ele fica assim meio culpado
[01:03:34] que ele era para ter cumprimentado
[01:03:36] e não cumprimentou
[01:03:38] ele volta
[01:03:40] é um sonho de uma angústia
[01:03:42] ele tem também
[01:03:44] nesse primeiro sonho
[01:03:46] alguém que ia entregar para ele uma coisa
[01:03:48] que parece que era um melão
[01:03:50] que veio de uma terra estrangeira
[01:03:52] o Descartes tem uns pensamentos
[01:03:54] assim ele achava até que o canibal
[01:03:56] é uma forma de
[01:03:58] pensamento
[01:04:00] o Descartes achava isso
[01:04:02] ele não achava que o canibal era um primitivo
[01:04:04] ele achava que o canibal tinha uma outra forma
[01:04:06] de pensar
[01:04:08] como ele achava também que sentir
[01:04:10] amar odiar tudo eram formas de pensar
[01:04:12] pensamento
[01:04:14] não era só pensar contra isso
[01:04:16] a gente tem que ler
[01:04:18] esse é o começo da terceira meditação
[01:04:20] mas aí
[01:04:22] ele tem esse sonho
[01:04:24] acorda
[01:04:26] aí quando ele acorda
[01:04:28] ele vê
[01:04:30] ele dormiu de um lado
[01:04:32] então ele ficou com dor de um lado
[01:04:34] aí ele se vira para o outro lado
[01:04:36] aí ele continua sonhando
[01:04:38] com coisas bem apavorantes
[01:04:40] aí depois ele acorda
[01:04:42] e ele vê
[01:04:44] uns
[01:04:48] assim como
[01:04:50] flechas de luzes
[01:04:52] no quarto dele
[01:04:54] e ele acha que ele está tendo umas certas alucinações
[01:04:56] ele começa a piscar os olhos
[01:04:58] como a gente pisca
[01:05:00] para ver se era isso
[01:05:02] aí depois
[01:05:04] isso é acordado
[01:05:06] aí depois ele dorme de novo
[01:05:08] e o último sonho dele é bem interessante
[01:05:10] que ele sonha que na mesinha dele
[01:05:12] tem uma encilopédia
[01:05:16] tem um livro
[01:05:18] sobre uma antologia
[01:05:20] de poetas
[01:05:24] e ele
[01:05:26] chega à conclusão no sonho
[01:05:28] que os poetas
[01:05:30] pensam e exprimem muito melhor
[01:05:32] que os filósofos os pensamentos
[01:05:34] olha o sonho do Descartes
[01:05:36] o barato quando ele descobriu
[01:05:38] o fundamento dos fundamentos
[01:05:40] entende?
[01:05:42] ele sonha com um poeta latino
[01:05:44] chamado Ausonio
[01:05:46] que escreveu Sim e Não
[01:05:48] escreveu
[01:05:52] um poema muito interessante
[01:05:54] para ler
[01:05:56] descobria, não conhecia
[01:05:58] e li por causa do Descartes
[01:06:00] então aí ele depois faz
[01:06:02] uma interpretação do sonho dele todo
[01:06:04] que aquilo era o espírito
[01:06:06] que aquilo era isso e aquilo
[01:06:08] e um francês
[01:06:10] contemporâneo do Freud
[01:06:12] mandou e falou
[01:06:14] Freud, você sabia que o Descartes
[01:06:16] tem um sonho?
[01:06:18] não, não, você quer dar uma olhada?
[01:06:20] mandou o sonho para o Freud
[01:06:22] não tem nada para dizer
[01:06:24] porque ele já interpretou o sonho dele
[01:06:26] então eu não vou poder interpretar
[01:06:28] então você vê que coisa interessante
[01:06:30] que o Descartes ele conta
[01:06:32] narra a eureka
[01:06:34] dele
[01:06:36] o entusiasmo
[01:06:38] ele dedica várias reflexões
[01:06:40] a entusiasmo e a admiração
[01:06:42] nas paixões da alma
[01:06:44] e outra coisa também
[01:06:46] que a gente consegue ver
[01:06:48] se a gente vai lendo o Descartes
[01:06:50] com essa perspectiva
[01:06:52] ou essa boa vontade
[01:06:54] ou esse interesse
[01:06:56] a gente descobre
[01:06:58] que ele é um pensador
[01:07:00] barroco
[01:07:02] num certo ponto
[01:07:04] pré-moderno até
[01:07:06] mas ele é barroco porque
[01:07:08] ele pensa as passagens
[01:07:10] ele tem muitos dualismos
[01:07:12] a gente poderia dizer
[01:07:14] imagem, coisa, corpo e alma
[01:07:16] razão, paixão
[01:07:18] interior, exterior, sono, vigília, consciência
[01:07:20] vestígios reprimidos até
[01:07:22] mas o
[01:07:24] o que ele
[01:07:26] ele está interessado é na passagem
[01:07:28] de um para o outro, como é que você vai de um para o outro
[01:07:30] como é que
[01:07:32] o que acontece no meu corpo
[01:07:34] influencia a minha maneira de pensar
[01:07:36] o que eu penso
[01:07:38] nós temos
[01:07:40] inúmeras passagens do Descartes
[01:07:42] que ele diz, olha
[01:07:44] o que acontece no corpo
[01:07:46] fisicamente, fisiologicamente
[01:07:48] gera
[01:07:50] eu penso
[01:07:52] assim por causa disso
[01:07:54] então
[01:07:56] eu fiquei interessada
[01:07:58] nessas passagens
[01:08:00] e de um para o outro
[01:08:02] que eu acho que
[01:08:04] foi por ali talvez
[01:08:06] que ele tenha se esquecido de algumas coisas
[01:08:08] mas ele
[01:08:10] faz isso
[01:08:14] outra coisa
[01:08:16] que a gente pode
[01:08:18] dizer é que
[01:08:20] Descartes
[01:08:22] ele
[01:08:24] escreve aquele
[01:08:26] discurso
[01:08:28] discurso
[01:08:30] de la méthode
[01:08:32] pour bien conduire sa raison
[01:08:34] et chercher la vérité
[01:08:36] dans les sciences
[01:08:38] discurso de méthode
[01:08:40] pour bien conduire sa raison
[01:08:42] et chercher la vérité
[01:08:44] dans les sciences
[01:08:46] esse discurso de méthode
[01:08:48] é uma autobiografia
[01:08:50] como é possível
[01:08:52] esse Cartesiano
[01:08:54] que é assim, o pai do método
[01:08:56] que inclusive, como diz Nietzsche
[01:08:58] o grande mal da modernidade
[01:09:00] é a coisa do método
[01:09:02] é você passar
[01:09:04] por cima da experiência
[01:09:06] você reduzir a experiência
[01:09:08] a experimento, é você
[01:09:10] reduzir
[01:09:12] como Diderot chamava
[01:09:14] a técnica de apressar
[01:09:16] você apressa, você passa por cima
[01:09:18] da ação
[01:09:20] dura, paciente
[01:09:22] como Van Gogh
[01:09:24] descrevia a pintura
[01:09:26] é como o boi, é uma paciência
[01:09:28] você fica lá
[01:09:30] você não corre, você sofre
[01:09:32] tudo isso
[01:09:34] que é o fazer
[01:09:36] então o fazer do se fazer
[01:09:38] então vamos dizer assim
[01:09:40] o método
[01:09:42] tira tudo isso e coloca
[01:09:44] você aplica isso
[01:09:46] ali você não precisa fazer nada
[01:09:48] você pode até duvidar
[01:09:50] que jogando da torre
[01:09:52] de Pisa
[01:09:54] um pedaço de ferro é uma pena
[01:09:56] você pode
[01:09:58] claro que o ferro que é a primeira
[01:10:00] pena vai assim
[01:10:02] vai pairando no ar
[01:10:04] mas Galileu vai dizer, não
[01:10:06] se tivesse vácuo aqui, realmente ia chegar
[01:10:08] pode tirar completamente
[01:10:10] as condições de temperatura
[01:10:12] pressão, de ar
[01:10:14] de vida, de tempo e espaço
[01:10:16] mas o Descartes
[01:10:18] escreve uma autobiografia
[01:10:20] muito bonita
[01:10:22] e escreve
[01:10:24] também em francês
[01:10:26] e a gente tem que lembrar
[01:10:28] que Descartes, ele escreve
[01:10:30] ele transita
[01:10:32] não só entre essas
[01:10:34] dualismos, as passagens
[01:10:36] mas ele transita entre
[01:10:38] línguas, ele
[01:10:40] pensa a língua
[01:10:42] ele está escrevendo a língua escrita
[01:10:44] ele vai entre o latim
[01:10:46] e o francês e o pensamento
[01:10:48] dele também está assim
[01:10:50] andando um pouco de uma
[01:10:52] língua para outra
[01:10:54] e ele diz textualmente
[01:10:56] que método não é
[01:10:58] para ser aplicado, ele diz
[01:11:00] você não pode fazer o percurso
[01:11:02] do pensamento que eu estou fazendo
[01:11:04] você pode ler
[01:11:06] o leitor dele como eu estou fazendo
[01:11:08] o meu percurso
[01:11:10] e você vai fazer o seu
[01:11:12] você pode ver ali
[01:11:14] uma possibilidade
[01:11:16] né?
[01:11:18] Parsifal?
[01:11:20] Meio Parsifal?
[01:11:22] Sim
[01:11:24] Como assim
[01:11:26] o Parsifal?
[01:11:28] Como você pensou?
[01:11:30] É porque o Parsifal do Wagner
[01:11:32] tem essa coisa do
[01:11:34] mito antigo
[01:11:36] e ele consegue chegar ao santo grau
[01:11:38] porque ele
[01:11:40] não segue ninguém
[01:11:42] ele vai pelo próprio caminho
[01:11:44] pelo meio do vale
[01:11:46] por meio do vale, o Parsifal
[01:11:48] quando a pessoa
[01:11:50] quer seguir a outra
[01:11:52] que está próxima, ela se perde
[01:11:54] cada um tem que fazer o seu próprio caminho
[01:11:56] tem que ter a ingenuidade
[01:11:58] para fazer isso
[01:12:00] Olha
[01:12:02] ele é uma certa
[01:12:04] tem uma certa semelhança
[01:12:06] com o motivo antigo do
[01:12:08] bem a ser o que tu és
[01:12:10] ou conhece-te a ti mesmo
[01:12:12] esses modos, mas ele tem
[01:12:14] sem dúvida uma diferença
[01:12:16] e talvez isso possa ajudar se a gente pensar
[01:12:18] mesmo na escrita
[01:12:20] a gente aprende a escrever
[01:12:22] a gente tem regras para escrever
[01:12:24] a gente aprende gramática
[01:12:26] a gente aprende caligrafia
[01:12:28] mas na hora que
[01:12:30] você vai escrever
[01:12:32] nem mesmo o que você
[01:12:34] sabe claramente na sua cabeça
[01:12:36] né?
[01:12:38] toda vez que a gente vai escrever um texto
[01:12:40] os alunos sofrem muito ao escrever
[01:12:42] suas dissertações, suas teses
[01:12:44] porque as vezes você tem o texto
[01:12:46] claro na sua cabeça
[01:12:48] na hora que você vai começar a escrever
[01:12:50] você empaca
[01:12:52] existe uma tradução
[01:12:54] da escrita que está
[01:12:56] na mente, no coração
[01:12:58] ou onde é que a gente quiser situar
[01:13:00] mas que está
[01:13:02] acontecendo no que a gente chama de
[01:13:04] pensamento, que não tem lugar
[01:13:06] que a gente não sabe onde ele é
[01:13:08] e a escrita
[01:13:10] então essa escrita é única
[01:13:12] eu posso ensinar
[01:13:14] alguém que vai aprender a nadar
[01:13:16] dizer que você faz assim, você levanta o braço
[01:13:18] você tem que se jogar na água
[01:13:20] não tem jeito
[01:13:22] então
[01:13:24] esse pensamento tem regras
[01:13:26] ele não é
[01:13:28] tão caminho silvestre
[01:13:30] vamos dizer assim
[01:13:32] que é cartesiano, ou seja
[01:13:34] tem uma metodologia
[01:13:36] tem regras de condução
[01:13:38] mas todas as regras
[01:13:40] cartesianas
[01:13:42] você ir do simples para o complexo
[01:13:44] você
[01:13:46] sempre partir de uma
[01:13:48] verdade de uma evidente
[01:13:50] que seja evidente essa verdade para você
[01:13:52] etc
[01:13:54] elas são muito
[01:13:56] amplas e você
[01:13:58] tem que conquistar cada um
[01:14:00] cada sentido de cada uma
[01:14:02] dessas regras
[01:14:04] então só ter a regra não resolve
[01:14:06] você precisa conquistar
[01:14:08] então
[01:14:18] o que eu acho que
[01:14:20] Descartes fez
[01:14:22] do ponto de vista da passagem
[01:14:24] dessa epifania
[01:14:26] dessa eureka
[01:14:28] muito existencial
[01:14:30] que é estou pensando
[01:14:32] e flagrar isso
[01:14:34] e como vou escrever isso
[01:14:36] porque no momento que eu escrevo com a minha
[01:14:38] neta esse estou pensando
[01:14:40] já passou
[01:14:42] que teor que é esse
[01:14:44] a gente vê isso
[01:14:46] muito claramente eu acho que
[01:14:48] o que ele faz com as ciências
[01:14:50] ele quer conquistar
[01:14:52] um teor de evidência
[01:14:54] da verdade que tenha
[01:14:56] essa mesma força
[01:14:58] de flagrar
[01:15:00] dessa eureka
[01:15:02] existencial
[01:15:04] talvez aí seja a loucura dele
[01:15:06] talvez ele se perdeu
[01:15:08] seja uma experiência
[01:15:10] estética da epifania
[01:15:12] que ele tenta reproduzir dentro das meditações
[01:15:14] e que toda a literatura moderna
[01:15:16] tenta reproduzir
[01:15:18] que todos os escritores estão tentando reproduzir
[01:15:20] e que é o
[01:15:22] Proust encontra
[01:15:24] exatamente
[01:15:26] inclusive
[01:15:28] porque os dois adoravam escrever deitados
[01:15:30] o Descartes só escrevia deitado
[01:15:32] na alcova dele e o Proust também
[01:15:34] ele escrevia na cama dele
[01:15:36] então eles gostavam
[01:15:38] de escrever deitado
[01:15:40] então
[01:15:42] você tem toda razão
[01:15:44] mas eu acho que a loucura dele
[01:15:46] de se perder foi tentar
[01:15:48] encontrar um teor
[01:15:50] de certeza
[01:15:52] que tenha a mesma força
[01:15:54] de tocar
[01:15:56] você fica completamente tomado
[01:15:58] por essa certeza objetiva
[01:16:00] científica que esse teor
[01:16:02] de evidência da epifania
[01:16:04] estou pensando
[01:16:06] talvez ali tenha tido
[01:16:08] justamente o equívoco
[01:16:10] o desvio
[01:16:12] desse gesto
[01:16:14] cartesiano
[01:16:16] a gente tem que lembrar outra coisa muito interessante
[01:16:18] quando a gente fala do eu
[01:16:20] a gente xinga o eu
[01:16:22] o Nietzsche fala muito disso
[01:16:24] o eu é uma perspectiva
[01:16:26] que acha que
[01:16:28] é a origem de todas as perspectivas
[01:16:32] mas o eu
[01:16:34] é muito estranho o eu escrito
[01:16:36] porque
[01:16:38] quando você escreve
[01:16:40] se a gente escreve no quadro negro
[01:16:42] o que acontece
[01:16:44] todo mundo na sala
[01:16:46] eu estou falando na sala de aula porque a gente fica na sala de aula
[01:16:48] mas podia ser em outro lugar
[01:16:50] no livro que a gente está lendo
[01:16:52] a gente
[01:16:54] se identifica
[01:16:56] com aquele eu
[01:16:58] a gente acha que aquele eu que está no quadro negro sou eu
[01:17:00] e você
[01:17:02] que está vendo o mesmo eu no meu
[01:17:04] vamos supor que a gente estivesse na mesma sala
[01:17:06] você acha que o eu é você
[01:17:08] o eu
[01:17:10] Hegel viu isso muito claramente
[01:17:12] ele falou o eu é o mais abstrato do que lê qualquer um
[01:17:14] e ele é só eu
[01:17:16] então
[01:17:18] é o ponto
[01:17:20] onde o mais
[01:17:22] abstrato
[01:17:24] e universal
[01:17:26] se encontra com o mais concreto
[01:17:28] e singular
[01:17:30] então é um ponto de toque
[01:17:32] então o mais infinito
[01:17:34] com o mais finito
[01:17:36] então o eu ele é como uma
[01:17:38] uma ponta de lança
[01:17:40] muito estranho
[01:17:42] então ele
[01:17:44] em inglês a gente fala
[01:17:46] I, o olho, I, eu
[01:17:48] então é uma coisa assim
[01:17:50] meio
[01:17:52] pirada mesmo de como no eu
[01:17:54] se tocam
[01:17:56] isso
[01:17:58] o que então eu persegui
[01:18:00] e tentei
[01:18:02] entender o mais possível
[01:18:04] né
[01:18:06] é
[01:18:08] esse estar pensando
[01:18:10] que é
[01:18:12] a definição que define
[01:18:14] o eu
[01:18:16] então o eu não sou eu
[01:18:18] não é o eu empírico
[01:18:20] também não é o eu transcendental
[01:18:22] ele é um outro eu
[01:18:24] é o ato de pensar
[01:18:26] enquanto
[01:18:28] ele está se dando
[01:18:30] e
[01:18:32] é
[01:18:34] eu percebi
[01:18:36] também
[01:18:38] a gente
[01:18:40] a partir daí
[01:18:42] que o cósido
[01:18:44] ele é performativo
[01:18:46] ele é uma performance
[01:18:48] ou seja
[01:18:50] ele está
[01:18:52] partindo ele está mostrando
[01:18:54] eu estou pensando
[01:18:56] né
[01:18:58] eu estou pensando
[01:19:00] que estou pensando
[01:19:02] então um outro problema
[01:19:04] que faz parte da interpretação
[01:19:06] que o Heidegger faz de Descartes
[01:19:08] que eu acho que realmente tenho
[01:19:10] tem um problema até textual
[01:19:12] porque
[01:19:14] o Heidegger insiste
[01:19:16] que o Descartes sempre fala
[01:19:18] ego cogito
[01:19:20] cogito me cogitare
[01:19:22] né então
[01:19:24] eu penso
[01:19:26] que eu penso
[01:19:28] mas
[01:19:30] essa frase não existe
[01:19:32] no Descartes
[01:19:34] acho que os grandes especialistas
[01:19:36] como Marcel Guerrou
[01:19:38] etc eles falaram
[01:19:40] olha isso aí
[01:19:42] não tem
[01:19:44] eu estou pensando
[01:19:46] e me dando conta
[01:19:48] então esse estou pensando
[01:19:50] do Descartes
[01:19:52] é um momento isso é também uma outra
[01:19:54] forma de interpretar
[01:19:56] essa suspensão do mundo que ele opera
[01:19:58] é que Descartes quer ver
[01:20:00] o ver o mundo
[01:20:02] ele não quer ver o mundo
[01:20:04] ele quer ver
[01:20:06] eu vendo o mundo
[01:20:08] ele pensa eu pensando
[01:20:10] ele pensa o pensando
[01:20:12] o mundo
[01:20:14] né então
[01:20:18] por isso a partir daí
[01:20:20] por isso uma performance
[01:20:22] e a partir daí
[01:20:24] que eu fiz uma
[01:20:26] interpretação disso
[01:20:28] eu reli
[01:20:30] as meditações
[01:20:32] e me dei conta
[01:20:34] que
[01:20:36] o
[01:20:38] as provas né que ele faz
[01:20:40] que é o argumento
[01:20:42] da loucura
[01:20:44] o argumento do sono
[01:20:46] né sonho
[01:20:48] depois
[01:20:50] a dúvida que é a dúvida
[01:20:52] universal né então é a dúvida
[01:20:54] de tudo esse é o método
[01:20:56] e essa dúvida significa
[01:20:58] colocar em parênteses
[01:21:00] duvidar que ser
[01:21:02] existe duvidar
[01:21:04] do ser de ser
[01:21:06] vamos dizer assim né ser do mundo
[01:21:08] ser do mundo
[01:21:10] então ele
[01:21:12] ele fala assim puxa
[01:21:14] é
[01:21:18] ele não diz assim
[01:21:20] existe uma dúvida
[01:21:22] que o próprio
[01:21:24] sentidos duvidam
[01:21:26] onde é que os sentidos duvidam
[01:21:28] não é só dúvida racional
[01:21:30] sobre os sentidos é bem interessante
[01:21:32] isso no primeiro argumento
[01:21:34] ele fala não
[01:21:36] é o sentido duvidando dele
[01:21:38] próprio
[01:21:40] é a sensação duvidando
[01:21:42] dela própria então daí
[01:21:44] ele não vai falar de ilusão ótica
[01:21:46] ele fala da loucura que a loucura
[01:21:48] o que que é louco ele diz
[01:21:50] ué minha mão não é minha mão
[01:21:52] o que eu tô sentindo eu não tô sentindo
[01:21:54] né
[01:21:56] então
[01:21:58] ele mostra ali um outra
[01:22:00] modalidade
[01:22:02] de ser
[01:22:04] e não ser
[01:22:06] depois no sonho é a mesma
[01:22:08] coisa porque você não
[01:22:10] consegue definir
[01:22:12] a diferença entre ser e não ser
[01:22:14] porque você está dormindo
[01:22:16] está pensando então
[01:22:18] ele depois você tem a dúvida
[01:22:20] das verdades
[01:22:22] abstratas
[01:22:24] geométricas
[01:22:26] o que que é a figura o que que é a
[01:22:28] extensão né
[01:22:30] depois você tem a dúvida
[01:22:32] metafísica duvidar se deus
[01:22:34] existe etc e eu acho
[01:22:36] assim na interpretação que eu fiz
[01:22:38] eu tô tentando sumarizar
[01:22:40] é que
[01:22:42] Descartes está mostrando em todos esses
[01:22:44] níveis onde
[01:22:46] a gente estaria lidando com
[01:22:48] não ser
[01:22:50] não ser da loucura não ser
[01:22:52] do sonho
[01:22:54] o não ser do abstrato
[01:22:56] e o não ser
[01:22:58] dessa coisa mais infinita e
[01:23:00] abstrata que é deus
[01:23:02] ele está mostrando
[01:23:04] querendo mostrar o teor
[01:23:06] de
[01:23:08] ser desse
[01:23:10] estar pensando
[01:23:12] que é entre ser
[01:23:14] e não ser
[01:23:16] porque ele é e não é
[01:23:18] não é e é então
[01:23:20] esse estar pensando tem um teor
[01:23:22] ontológico
[01:23:26] digamos assim que é
[01:23:28] não ontológico também é
[01:23:30] nem ontológico ontológico digamos
[01:23:32] né e foi
[01:23:34] mais ou menos isso que eu fiz nessa
[01:23:36] brincadeira de
[01:23:38] essa releitura das
[01:23:40] meditações eu até
[01:23:42] descobri no argumento do
[01:23:44] sonho descobri assim
[01:23:46] sugeri propus
[01:23:48] eu tenho certeza que os
[01:23:50] cartesianos ortodoxos vão achar que eu sou
[01:23:52] uma louca os cartesianos
[01:23:54] anti cartesianos ortodoxos
[01:23:56] também vão achar que eu tô delirando
[01:23:58] ou seja tô delirando nos dois campos
[01:24:00] né analítico continental
[01:24:02] tudo
[01:24:04] é no argumento do sonho
[01:24:06] do sono e depois a gente fazer
[01:24:08] uma leitura da décima segunda
[01:24:10] regra para a direção
[01:24:12] do espírito a gente vê que
[01:24:14] Descartes tem um tratado
[01:24:16] não escrito de pintura
[01:24:18] porque
[01:24:20] Descartes ele não gostava
[01:24:22] de pintura o Merleau-Ponty
[01:24:24] reclama dele diz
[01:24:26] que ele não entendeu nada de pintura
[01:24:28] não o Descartes
[01:24:30] amava o desenho claro
[01:24:32] ele é um escritor
[01:24:34] ele é um escritor que presta atenção
[01:24:36] na pena desenhando no papel
[01:24:38] então ele
[01:24:40] fazia gravuras
[01:24:42] ele ilustrava
[01:24:44] ele ia prestava muita
[01:24:46] atenção como era feita as
[01:24:48] ilustrações ele cuidava
[01:24:50] dos desenhos
[01:24:52] então ele tem um
[01:24:54] tratado não escrito da pintura
[01:24:56] ele tem ele era um crítico da representação
[01:24:58] na pintura ele não gostava de pintura
[01:25:00] imitativa
[01:25:02] então ele propõe três tipos
[01:25:04] uma pintura que é ficcional
[01:25:06] uma pintura que é
[01:25:08] naturalista quase abstrata
[01:25:10] ele tem um dos três
[01:25:12] modos de
[01:25:14] digamos de pintar
[01:25:16] porque para ele o sonho é uma pintura
[01:25:18] é pintar só a cor
[01:25:22] sabe ele fica próximo
[01:25:24] ele tem uma noção de ritmo
[01:25:26] das cores
[01:25:28] ele coloca que ele entende
[01:25:30] a extensão nas
[01:25:32] regras para a direção
[01:25:34] do espírito ele entende
[01:25:36] a extensão
[01:25:38] como figura
[01:25:40] e a figura bem
[01:25:42] abstrata uma figura sem figura
[01:25:44] sem figuração ele entende isso como
[01:25:46] cor
[01:25:48] então existem
[01:25:50] assim pode
[01:25:52] ter acontecido que ele sem querer
[01:25:54] pensou essas coisas ou então
[01:25:56] ele pensou todo
[01:25:58] esse monumento da
[01:26:00] ciência da racionalidade da técnica
[01:26:02] meio sem querer
[01:26:04] to brincando não é bem assim
[01:26:06] mas digamos que existe
[01:26:08] um Descartes
[01:26:10] escritor inclusive
[01:26:12] um amor cartesiano
[01:26:14] então
[01:26:16] eu finalizei a minha
[01:26:18] parte do livro propondo
[01:26:20] que a diferença
[01:26:22] Descartes nunca
[01:26:24] fala de separação de corpo e alma
[01:26:26] ele fala que o corpo rapta a alma
[01:26:28] a alma rapta o corpo
[01:26:30] essa
[01:26:32] distinção entre corpo e alma
[01:26:34] que é
[01:26:36] o famoso dualismo dele
[01:26:38] eu sugiro
[01:26:40] que o corpo e a alma em Descartes
[01:26:42] eles são apaixonados
[01:26:44] eles tem uma relação de amor entre eles
[01:26:46] é um pouco eros e psique
[01:26:48] e isso aparece
[01:26:50] nas cartas dele
[01:26:52] nas cartas a Elizabeth
[01:26:54] mas por serem cartas
[01:26:56] disfarçadas de amor
[01:26:58] porque ele mesmo diz
[01:27:00] ele se trai ele confessa
[01:27:02] ele diz que
[01:27:04] a gente quando ama muito uma pessoa
[01:27:06] que está num nível
[01:27:08] muito mais elevado
[01:27:10] como a princesa da boêmia
[01:27:12] eu não posso dizer eu te amo
[01:27:14] então eu fico dizendo
[01:27:16] venerável princesa Elizabeth
[01:27:18] quero muito que você leia meus escritos
[01:27:20] mas na verdade ele estava dizendo
[01:27:22] confessando seu amor
[01:27:24] e
[01:27:26] então tem escrever carta
[01:27:28] porque que
[01:27:30] amor pede palavras
[01:27:32] não precisa
[01:27:34] mas pede palavras
[01:27:36] porque que se escrevem cartas de amor
[01:27:38] e o Descartes
[01:27:40] ele usa um verbo muito
[01:27:42] raro
[01:27:44] no francês
[01:27:46] usado só uma vez
[01:27:48] eu acho por Cornelis
[01:27:50] que ele usa o verbo
[01:27:52] se entreamar
[01:27:54] entreamar-se
[01:27:56] é um verbo muito bonito
[01:27:58] então eu faço uma
[01:28:00] uma colocação sobre
[01:28:02] isso e eu organizei em
[01:28:04] Estocolmo
[01:28:06] em 2018
[01:28:08] acho que
[01:28:10] agora até estou esquecendo
[01:28:12] bem a data
[01:28:14] porque a pandemia desestabilizou
[01:28:16] nossa cronologia
[01:28:18] um seminário
[01:28:20] com música
[01:28:22] com leitura das cartas sobre
[01:28:24] o amor de Descartes
[01:28:26] porque ele escreve essas cartas
[01:28:28] para o embaixador francês na Suécia
[01:28:30] que o levou para a Suécia
[01:28:32] na verdade que o levou para a morte dele
[01:28:34] o Chanu
[01:28:36] e organizei
[01:28:38] um seminário muito bonito sobre o amor cartesiano
[01:28:40] convidei
[01:28:42] Jean-Luc Nancy
[01:28:44] meu amigo, filósofo
[01:28:46] que faleceu no ano passado
[01:28:48] e que escreveu um livro
[01:28:50] muito bonito sobre Descartes
[01:28:52] difícil, muito inovador
[01:28:54] chamado Ego Sum
[01:28:56] e
[01:28:58] eu falei para ele, Jean-Luc, olha
[01:29:00] faltou falar sobre o amor, vamos embora
[01:29:02] aí ele veio
[01:29:04] e
[01:29:06] escreveu ele mesmo uma carta como se fosse
[01:29:08] para a esposa dele
[01:29:10] que leu isso
[01:29:12] minha filha mais velha Helena Cantora
[01:29:14] cantou letra amorosa
[01:29:16] do Monteverdi
[01:29:18] e fizemos uma discussão
[01:29:20] só três pessoas fizeram a colocação
[01:29:22] sobre o amor
[01:29:24] em Descartes
[01:29:26] com conversa com os alunos
[01:29:28] então foi um negócio bem bacana
[01:29:30] então só para contar
[01:29:32] infelizmente não foi gravado
[01:29:34] não foi filmado
[01:29:36] não tem vestígio
[01:29:38] disso
[01:29:40] assim
[01:29:42] mas ficou
[01:29:44] essa narração
[01:29:46] eu acho que eu já falei tanto
[01:29:48] mas eu tenho mais uma pergunta
[01:29:50] essa pergunta é quase
[01:29:52] eu vou ter que fazê-la
[01:29:54] é porque
[01:29:58] estou pensando que é uma pergunta
[01:30:00] talvez sejam duas
[01:30:02] vou tentar me conter
[01:30:04] mas uma
[01:30:06] é uma questão da Elizabeth
[01:30:08] da Bohemia também
[01:30:10] eu fiquei pensando
[01:30:12] você citou essa questão da relação amorosa
[01:30:14] entre eles
[01:30:16] afetiva
[01:30:18] etc
[01:30:20] o fato de ser uma mulher na Suécia
[01:30:22] resgatando Descartes
[01:30:24] eu acho muito marcante
[01:30:26] e a pouco tempo saiu um livro em português
[01:30:28] eu esqueci o nome
[01:30:30] depois eu vou colocar o nome do livro certinho
[01:30:32] mas é um quadrinho
[01:30:34] em que ele conta como o pessoal
[01:30:36] não acreditava que Elizabeth de Bohemia
[01:30:38] era uma mulher
[01:30:40] para conversar com Descartes
[01:30:42] ela devia ser a hermafrodita
[01:30:48] então tinha dúvidas
[01:30:50] sobre a possibilidade de uma mulher
[01:30:52] conversar com Descartes
[01:30:56] e eu acho que tem uma coisa
[01:30:58] talvez até dá para conectar as duas coisas
[01:31:00] tem uma coisa que eu acho muito interessante
[01:31:02] no Descartes
[01:31:04] na questão do ceticismo
[01:31:06] que é pensado como uma experiência cotidiana
[01:31:08] quando você duvida de outras mentes
[01:31:10] duvida que o outro existe
[01:31:12] e deixa de atribuir sentimentos
[01:31:14] ou respeito ao outro
[01:31:16] como dado cotidiano
[01:31:18] eu gosto de falar para os meus alunos
[01:31:20] quando eu estou dando aula
[01:31:22] falando das meditações
[01:31:24] a gente pode pensar naquela situação
[01:31:26] do apaixonado que levam fora
[01:31:28] você não pode pensar assim
[01:31:30] você não pensa assim
[01:31:32] você nega totalmente o outro
[01:31:34] nega a existência do outro
[01:31:36] que de certa forma
[01:31:38] é cotidiana
[01:31:40] e aí você trouxe esse verbo
[01:31:42] entre amar-se
[01:31:44] eu queria
[01:31:46] pensar
[01:31:48] como o Descartes
[01:31:50] é diferente dos cartesianos
[01:31:52] como Platão
[01:31:54] é diferente dos platônicos
[01:31:56] então a gente reificou muito o Descartes
[01:31:58] e deixou de pensá-lo
[01:32:00] inclusive
[01:32:02] o pessoal gosta de falar
[01:32:04] que descolonizar o Brasil com Descartes
[01:32:06] tirar o cartesianismo do Brasil
[01:32:08] esse é um problema
[01:32:10] porque o Descartes não é a base da nossa colonização
[01:32:12] a gente foi colonizado pelos portugueses
[01:32:14] se a gente tivesse
[01:32:16] tipo
[01:32:18] a nossa colonização é muito cristã
[01:32:20] muito barroca
[01:32:22] nosso pensamento não é tão
[01:32:24] metódico assim
[01:32:26] também
[01:32:28] mas eu queria
[01:32:30] o ponto que eu queria chegar
[01:32:32] é esse ponto que a gente está hoje
[01:32:34] professora
[01:32:36] do Brasil
[01:32:38] essa situação do ceticismo em relação ao outro
[01:32:40] essa situação
[01:32:42] do desrespeito para as mulheres
[01:32:44] e eu acho que o Descartes
[01:32:46] pode ajudar muito
[01:32:48] se a gente pensar com ele
[01:32:50] inclusive esse livro
[01:32:52] as paixões da alma
[01:32:54] que é um livro muito esquecido
[01:32:56] o pessoal esquece que o Descartes
[01:32:58] pensou as emoções
[01:33:00] você tem que pensar o Descartes
[01:33:02] como negando totalmente o corpo
[01:33:04] então deixa esse livro para lá
[01:33:06] inclusive foi meu orientador
[01:33:08] não foi meu orientador
[01:33:10] foi meu professor na UFG
[01:33:12] o Jordinho Marques que traduziu
[01:33:14] as paixões da alma pela primeira vez
[01:33:16] era um trabalho interessante na época
[01:33:18] eu queria que o senhor comentasse um pouco
[01:33:20] sobre o Descartes hoje no Brasil
[01:33:22] assim como o Lemis
[01:33:24] que trouxe ele na época do Maurício Nassau
[01:33:26] como é que
[01:33:28] esse livro do Descartes se dialoga
[01:33:30] com o seu livro sobre a ambiguidade
[01:33:32] do fascismo
[01:33:34] nossa é bom
[01:33:36] vamos ver o que eu consigo falar sobre isso
[01:33:38] primeira coisa Descartes e as mulheres
[01:33:40] o Descartes diz
[01:33:42] em determinado momento
[01:33:44] que ele escreve em português
[01:33:46] em francês
[01:33:48] ele quer escrever em francês
[01:33:50] porque ele quer que as mulheres o leiam
[01:33:52] então vamos ler Descartes mesmo
[01:33:54] o texto dele
[01:33:56] ele fala isso
[01:33:58] porque as mulheres não liam
[01:34:00] talvez mais latim
[01:34:02] ou não sei como estava a situação
[01:34:04] da educação das mulheres né
[01:34:06] as mulheres que tinham acesso a educação
[01:34:08] mas ele queria
[01:34:10] que fosse lido pelas mulheres
[01:34:12] eu até hoje não encontrei
[01:34:14] ninguém duvidando muito
[01:34:18] de jeito nenhum da existência
[01:34:20] da Elisabeth e eu ainda não encontrei
[01:34:22] duvidando da
[01:34:24] sexualidade da Elisabeth
[01:34:26] mas
[01:34:28] hermafrodita possivelmente era a Cristina
[01:34:30] isso a Cristina
[01:34:32] talvez haja uma confusão
[01:34:34] de personagens
[01:34:36] a Cristina da Suécia
[01:34:38] talvez sim
[01:34:40] e a Cristina da Suécia foi uma mulher
[01:34:42] muito muito
[01:34:44] vamos dizer assim difícil
[01:34:46] ela foi educada como um homem
[01:34:48] ela foi educada para ser rei
[01:34:50] e ela teve uma mãe
[01:34:52] que a detestava
[01:34:54] ela foi realmente muito rejeitada pela mãe
[01:34:56] e de certo e bom a história da Cristina
[01:34:58] é outra
[01:35:00] mas uma coisa é certa
[01:35:02] é que quando Descartes
[01:35:04] nas cartas a Chenoux
[01:35:06] está falando de amor
[01:35:08] ele
[01:35:10] ele faz referência
[01:35:14] a uma história latina
[01:35:16] de amor entre dois homens
[01:35:18] então Descartes era muito aberto
[01:35:20] esse
[01:35:22] se entreamar
[01:35:24] certamente um amor
[01:35:26] homossexual
[01:35:28] ou um amor polimórfico
[01:35:30] pode ser ele está falando
[01:35:32] desse se entreamar
[01:35:34] e na
[01:35:36] vamos dizer assim
[01:35:38] no círculo
[01:35:40] de amizades da Elizabeth da Bohemia
[01:35:42] que estava
[01:35:44] em ostracismo
[01:35:46] não podia ficar na Bohemia
[01:35:48] haviam pessoas muito conhecidas
[01:35:50] como Constantine Huygens
[01:35:52] eu não sei muito bem pronunciar o nome dele
[01:35:54] em holandês
[01:35:56] que era um poeta
[01:35:58] e ele escreveu para Descartes
[01:36:00] não sei o que tinha entre eles
[01:36:02] ele falava
[01:36:04] amigo
[01:36:06] ergo cogito
[01:36:08] ergo sumtus
[01:36:10] ele fala
[01:36:12] ah meu amigo
[01:36:14] eu penso logo eu sou teu
[01:36:16] então
[01:36:18] essa solidariedade
[01:36:20] do cogito
[01:36:22] é interessante que
[01:36:24] isso foi uma variação
[01:36:26] porque essa fórmula
[01:36:28] quase de conjuração mágica
[01:36:30] como diz o Valéry
[01:36:32] ergo sum
[01:36:34] tem várias
[01:36:36] sofreu inúmeras variações
[01:36:38] ergo sum ergo cogito
[01:36:40] e sofreu essa
[01:36:42] ergo cogito
[01:36:44] ergo sumtus
[01:36:46] eu penso logo eu sou teu
[01:36:48] então
[01:36:50] pode ser entendido como uma
[01:36:52] eu acho assim
[01:36:54] esse Descartes
[01:36:56] assim
[01:36:58] meio
[01:37:00] a gente colocando em parênteses
[01:37:02] o protagonismo
[01:37:04] a gente
[01:37:06] deixando um pouco em suspenso
[01:37:08] todas as interpretações
[01:37:10] lendo Descartes como
[01:37:12] esse pensador
[01:37:14] de uma emoção filosófica
[01:37:16] que é aquela onde
[01:37:18] o pensamento
[01:37:20] se depara com
[01:37:22] o seu próprio ato de pensar
[01:37:26] o que isso pode nos
[01:37:28] trazer
[01:37:30] o que isso pode nos trazer
[01:37:32] eu acho que
[01:37:34] ele pode realmente
[01:37:36] fazer aparecer
[01:37:38] a urgência
[01:37:40] que nós temos hoje
[01:37:42] de
[01:37:44] eu não vou dizer aprender a pensar
[01:37:48] eu vou dizer
[01:37:50] descobrir
[01:37:56] o que é pensar
[01:37:58] né
[01:38:00] e descobrir também
[01:38:02] que o exercício do pensamento
[01:38:04] é tão múltiplo e variado
[01:38:06] ou
[01:38:08] o cartesianismo
[01:38:10] como colonizador
[01:38:12] de certa forma sim
[01:38:14] porque o cartesianismo
[01:38:16] esse ismo
[01:38:18] é uma ideologia
[01:38:20] até podemos dizer
[01:38:22] todo ismo é uma
[01:38:24] certa ideologia
[01:38:26] esse cartesianismo
[01:38:28] ele
[01:38:30] racionalizou de uma certa
[01:38:32] forma o mundo
[01:38:34] a modernidade
[01:38:36] o próprio conceito
[01:38:38] de infinito não é possível
[01:38:40] pensar a expansão
[01:38:42] do poder a Hannah Arendt tem
[01:38:44] um texto que até
[01:38:46] parte
[01:38:48] de um dos seus livros é um texto que ela
[01:38:50] publicou como um paper
[01:38:52] sobre a expansão do poder
[01:38:54] que é
[01:38:56] o poder mesmo da expansão
[01:38:58] é o expansionismo
[01:39:00] do ocidente isso eu acho
[01:39:02] que a invenção do infinito
[01:39:04] isso deve ser
[01:39:06] pensado juntos
[01:39:08] né mas
[01:39:10] uma coisa é dizer
[01:39:12] eu não quero nunca mais ouvir falar
[01:39:14] vamos cancelar Kant
[01:39:16] vamos cancelar Descartes vamos cancelar tudo
[01:39:18] sim
[01:39:20] nós queremos cancelar o nosso mundo
[01:39:22] enquanto o mundo
[01:39:24] que provoca tanto sofrimento tanta
[01:39:26] miséria tanta injustiça tanto
[01:39:28] terror
[01:39:30] mas
[01:39:32] a gente
[01:39:34] precisa entender
[01:39:36] isso
[01:39:38] entender onde
[01:39:40] como isso se estrutura de que maneira
[01:39:42] isso se dá porque
[01:39:44] muito facilmente a nossa crítica
[01:39:46] reforça
[01:39:48] aquilo que a gente
[01:39:50] critica porque usa
[01:39:52] da mesma estrutura
[01:39:54] de pensar contra
[01:39:56] o pensamento então
[01:39:58] como descobrir
[01:40:00] novas formas de pensar
[01:40:02] é a mesma pergunta
[01:40:04] descobrir novas formas de vida
[01:40:06] porque as formas de vida são formas de pensar
[01:40:08] se a gente
[01:40:10] aceitar como Descartes disse
[01:40:12] tem até uma passagem aqui separada
[01:40:14] que pela palavra
[01:40:16] pensamento entendo
[01:40:18] tudo quanto ocorre em nós de tal
[01:40:20] maneira que o notamos imediatamente
[01:40:22] por nós próprios
[01:40:24] por isso que compreender
[01:40:26] querer imaginar mas também
[01:40:28] sentir são a mesma coisa que pensar
[01:40:30] então
[01:40:32] é como se a gente tivesse
[01:40:34] num momento da história
[01:40:36] desse ocidente
[01:40:38] que ficou com a sua história
[01:40:40] incubada sua história assim
[01:40:42] assim aquele
[01:40:44] morfo
[01:40:46] da consciência
[01:40:48] que fica lá no subsolo
[01:40:50] do Dostoiévski
[01:40:52] crescendo
[01:40:54] que é
[01:40:56] a vontade de
[01:40:58] controle a vontade
[01:41:00] do extermínio
[01:41:02] do outro e todo outrar-se
[01:41:04] porque outrar-se é a vida
[01:41:06] e a vida é
[01:41:08] múltipla, multivocal
[01:41:10] a vida é múltipla
[01:41:12] então
[01:41:14] a gente precisa
[01:41:16] vamos dizer assim
[01:41:18] se encontra num momento
[01:41:20] que é como se a gente tivesse que começar
[01:41:22] a aprender
[01:41:24] eu não queria usar aprender porque fica tão pedagógico
[01:41:26] mas tivesse que fazer
[01:41:28] experiência
[01:41:30] né
[01:41:32] de
[01:41:34] o descobrir
[01:41:36] o redescobrir
[01:41:38] como se vê
[01:41:40] então como se sente
[01:41:42] não é o que se sente
[01:41:44] o que se vê
[01:41:46] mas nós estamos num tal estado de
[01:41:48] penúria
[01:41:50] penúria de vida
[01:41:52] que a gente
[01:41:54] precisa descobrir
[01:41:56] o que é sentir
[01:41:58] porque a nova forma de sensibilidade
[01:42:00] é a insensibilidade
[01:42:02] né
[01:42:04] a gente só
[01:42:06] vive num mundo que só vê
[01:42:08] mas não vê nunca mais
[01:42:10] não sabe mais o que é uma imagem
[01:42:12] não sabe mais o que é um quadro
[01:42:14] eu me lembro de dar
[01:42:16] uma
[01:42:18] uma palestra uma vez e falei
[01:42:20] vamos ler esse quadro
[01:42:22] juntos
[01:42:24] e um aluno falar ah eu preciso das referências
[01:42:26] porque isso daí não é possível
[01:42:28] porque assim não se faz
[01:42:30] não sei o que
[01:42:32] eu falei assim nossa
[01:42:34] vamos ver o ver
[01:42:36] sentir o sentir
[01:42:38] escutar a escuta
[01:42:40] eu acho
[01:42:42] que a gente tem um momento muito
[01:42:44] muito radical muito necessário
[01:42:46] então nesse ponto
[01:42:48] também a gente
[01:42:50] é
[01:42:52] não é descobrir um Descartes novo
[01:42:54] e bom que agora a gente pode usar
[01:42:56] no nosso momento
[01:42:58] brasileiro não de jeito nenhum
[01:43:00] né
[01:43:02] isso não existe
[01:43:04] mas a gente também
[01:43:06] aprende de certa forma
[01:43:08] eu estou usando de novo essa palavra aprender
[01:43:10] que eu não estou querendo usar
[01:43:12] mas a gente descobre
[01:43:14] o que é ler
[01:43:16] né
[01:43:18] essa leitura
[01:43:20] então o Descartes tem uma passagem maravilhosa
[01:43:22] ele fala assim como é que vocês vão me ler
[01:43:24] ele fala assim olha
[01:43:26] você lê tudo como se fosse um conto
[01:43:28] como se fosse uma fábula
[01:43:30] como se fosse um romance
[01:43:32] você lê tudo como se fosse um romance
[01:43:34] aí
[01:43:36] vai ter umas coisas que você vai reagir
[01:43:38] então você relê
[01:43:40] e aí você começa a anotar
[01:43:42] as coisas que você achou difíceis
[01:43:44] mas
[01:43:46] não para muito não
[01:43:48] só anota ali do lado
[01:43:50] o que você achou difícil
[01:43:52] se não entendeu
[01:43:54] aí depois se você não conseguir resolver isso sozinho
[01:43:56] você então relê de novo
[01:43:58] a terceira vez
[01:44:00] olha que bacana
[01:44:02] ele está falando
[01:44:06] sabe o que eu estou falando
[01:44:08] é uma
[01:44:10] olha o Borges dizia
[01:44:12] que a filosofia é um ramo da literatura
[01:44:14] fantástica
[01:44:16] por isso a literatura
[01:44:18] a filosofia
[01:44:20] ela é
[01:44:22] o problema da filosofia
[01:44:24] é que ela tem
[01:44:26] uma
[01:44:28] uma terrível
[01:44:30] terrífica
[01:44:32] terríficante
[01:44:34] assombrosa
[01:44:36] força de sedução
[01:44:38] essa palavra
[01:44:40] que começa
[01:44:42] negando a ela mesma
[01:44:44] negando a si mesma
[01:44:46] esse susto
[01:44:48] esse espanto
[01:44:50] de que ser é
[01:44:52] nega
[01:44:54] criando um sistema
[01:44:56] um monumento de justificativas
[01:44:58] legitimações
[01:45:00] eu tenho que explicar
[01:45:02] que a existência é
[01:45:04] ela é
[01:45:06] né
[01:45:08] toda a literatura da Clarice Lispector
[01:45:10] eu sempre falo isso por causa do meu livro
[01:45:12] me prometeram que ia sair
[01:45:14] vamos ver
[01:45:16] é
[01:45:18] ela
[01:45:20] ela tem que justificar
[01:45:22] ela tem que legitimar
[01:45:24] ela tem que dar conta
[01:45:26] ela tem que
[01:45:28] que racionalizar
[01:45:30] ela tem que explicar
[01:45:32] ela tem que esclarecer
[01:45:36] ela tem que absolutamente
[01:45:38] negar
[01:45:40] esse sem porque
[01:45:42] essa gratuidade
[01:45:44] né
[01:45:46] e com isso inaugurar
[01:45:48] desde sempre não é só na modernidade
[01:45:50] um sistema de poder
[01:45:52] uma
[01:45:54] apropriação do real
[01:45:56] mas eu noto assim que hoje
[01:45:58] voltando a esse sem saída
[01:46:00] onde a vontade
[01:46:02] de controle controla
[01:46:04] tudo
[01:46:06] né
[01:46:08] controla tudo de uma forma
[01:46:10] rede social etc etc
[01:46:12] que
[01:46:14] cada um o próprio sentido
[01:46:16] passou a ser o seu próprio sensor
[01:46:18] todo mundo
[01:46:20] se censura
[01:46:22] isso é uma forma de controle que o Bentham
[01:46:24] coitado
[01:46:26] nem podia imaginar que pudesse ser
[01:46:28] tanto Narciso ia morrer
[01:46:30] de vergonha porque ele nunca viu um Narcisismo
[01:46:32] ser uma estrutura
[01:46:34] de mundo onde
[01:46:36] Narciso virou um verbo
[01:46:38] eu te Narciso, você me Narcisa, a gente se Narcisa
[01:46:40] não é
[01:46:42] então
[01:46:44] nesse momento do sem saída
[01:46:46] a gente descobre um ponto
[01:46:48] fraco de que esse
[01:46:50] essa vontade de tudo controlar
[01:46:52] o controle de tudo
[01:46:54] não controla
[01:46:56] está descontrolado
[01:46:58] quer dizer não controla
[01:47:00] o seu próprio controle
[01:47:02] ao dizer isso tem uma coisinha
[01:47:04] que o controle não controla
[01:47:06] esse ponto
[01:47:08] a fragilidade
[01:47:10] essa singularidade
[01:47:12] é
[01:47:16] a singularidade
[01:47:18] de cada existência
[01:47:20] sempre
[01:47:22] conjunta
[01:47:24] não existe eu existo
[01:47:26] eu existo
[01:47:28] com tudo do lado
[01:47:30] porque
[01:47:32] o gesto
[01:47:34] dêitico da filosofia
[01:47:36] que sempre diz isso
[01:47:38] olha isso
[01:47:40] é um pássaro ou um avião
[01:47:42] não tem o superman
[01:47:44] é isso
[01:47:46] é o superman
[01:47:48] é o pássaro
[01:47:50] ao dizer isso você está dizendo
[01:47:52] e não o céu e não a árvore
[01:47:54] mas está dizendo também árvore
[01:47:56] tudo
[01:47:58] está dizendo
[01:48:00] então
[01:48:02] essa experiência
[01:48:04] de encontrar esse ponto
[01:48:06] da fragilidade
[01:48:08] que é
[01:48:10] estranhamente esse
[01:48:12] cada existir
[01:48:14] sem porque
[01:48:16] a sua
[01:48:18] depois claro temos as nossas
[01:48:20] explicações da miséria do mundo
[01:48:22] explicações sempre as
[01:48:24] explicações legitimações
[01:48:26] justificativas
[01:48:28] ligadas sempre a essa teodiceia
[01:48:30] do mal então
[01:48:32] é
[01:48:34] é isso então
[01:48:36] eu acho que o Descartes mostra
[01:48:38] o ponto
[01:48:40] esquecido nessa
[01:48:42] monumentalidade da modernidade
[01:48:44] fazendo aparecer
[01:48:46] que esse controle
[01:48:48] absoluto
[01:48:50] até a própria noção de absoluta
[01:48:52] é contraditório
[01:48:54] porque o absoluto
[01:48:56] é o que não está em relação
[01:48:58] mas o absoluto é que só está em relação
[01:49:00] consigo
[01:49:02] então ainda tem relação
[01:49:04] até no absoluto
[01:49:06] então é
[01:49:08] vamos dizer assim é uma provocação
[01:49:10] para o pensamento não para pensar
[01:49:12] como Descartes não para
[01:49:14] aplicar Descartes mas
[01:49:16] para ver o que que esse Descartes
[01:49:18] esquecido
[01:49:20] esse Descartes emocionado
[01:49:22] num momento
[01:49:24] ele pode
[01:49:26] provocar
[01:49:28] como questões
[01:49:30] para nós
[01:49:32] eu acho muito bom
[01:49:34] porque isso encaixa no seu gesto de
[01:49:36] pensamento tem um gesto de pensamento
[01:49:38] que é a sua obra
[01:49:40] que está sendo construída
[01:49:42] professora eu vou perguntar então indicações
[01:49:44] que você vai dar para nossos ouvintes
[01:49:46] para nossos ouvintes tem alguma
[01:49:48] coisa que você vai indicar um livro
[01:49:50] um filme
[01:49:52] do ponto de vista da poesia
[01:49:54] eu acabo de ler dois livros
[01:49:56] muito bonitos que acabaram de ser lançados
[01:49:58] então já que a gente vai fazer um pouquinho de propaganda
[01:50:00] de poesia
[01:50:02] que é
[01:50:04] Cantar de labirinto do Afonso Henriques Neto
[01:50:06] um livro lindo
[01:50:08] com coisas muito bonitas
[01:50:10] e o último livro
[01:50:12] do Paulo Brito
[01:50:14] Paulo Henriques Brito
[01:50:16] poeta nosso grande tradutor
[01:50:18] que chama Fim de Verão
[01:50:20] coisas muito bonitas
[01:50:22] porque são escritas
[01:50:26] poéticas
[01:50:28] que estão
[01:50:30] dentro desse fazia da poesia
[01:50:32] que é esse
[01:50:34] busca, não é busca
[01:50:36] é uma experiência de que a palavra
[01:50:38] é precisa
[01:50:40] e precisa ser precisa
[01:50:44] contra toda a ambiguidade
[01:50:46] né
[01:50:48] do
[01:50:50] dos sentidos que está
[01:50:52] vamos dizer assim avassalando
[01:50:54] arrebentando
[01:50:56] com o nosso mundo
[01:50:58] isso é uma coisa
[01:51:00] é claro que tem o livro do
[01:51:02] Jovan Foga sobre o
[01:51:04] coração máquina
[01:51:06] a questão da técnica
[01:51:08] onde ele coloca assim
[01:51:10] de uma maneira na leitura
[01:51:12] bem heideggeriana
[01:51:14] vamos dizer assim que o Jovan faz
[01:51:16] mas muito jovaniana
[01:51:18] própria né que tem esse livro
[01:51:20] e
[01:51:22] eu tenho lido
[01:51:24] muita coisa
[01:51:26] em outras línguas então por isso que eu estou
[01:51:28] hesitando um pouquinho
[01:51:30] do que vou dizer
[01:51:32] porque
[01:51:34] eu sei que tem saído muito
[01:51:36] livro teórico
[01:51:38] eu vi que acabou de sair um livro
[01:51:40] sobre o romantismo
[01:51:42] alemão
[01:51:44] das mulheres
[01:51:46] esquecidas do romantismo alemão traduzido
[01:51:48] por português com figuras
[01:51:50] bem interessantes
[01:51:52] é um texto
[01:51:54] muito bonito sobre a coragem das mulheres
[01:51:56] escrito por Didier Roux
[01:51:58] que não saiu mas é um texto lindo
[01:52:00] assim um texto muito
[01:52:02] bacana
[01:52:04] é
[01:52:06] e do ponto de vista da
[01:52:08] da filosofia
[01:52:10] é
[01:52:12] assim
[01:52:14] filosofia
[01:52:16] clássica tem muita coisa
[01:52:18] saindo sobre
[01:52:20] a decolonização
[01:52:22] sobre a desconstrução
[01:52:24] né e
[01:52:26] obviamente eu tenho até relido
[01:52:28] um pouco Derrida devo
[01:52:30] confessar né
[01:52:32] então eu daria como sugestão
[01:52:34] de um filme
[01:52:36] é isso porque é o seguinte
[01:52:38] é muito estranho
[01:52:40] que ao mesmo tempo
[01:52:42] é
[01:52:44] os neoliberais
[01:52:46] assim economistas mais
[01:52:48] tacanhos
[01:52:50] e mais profissionais
[01:52:52] vamos dizer assim brasileiros se
[01:52:54] reúnam mais ou menos em janeiro
[01:52:56] se não me engano
[01:52:58] eu acho que foi até no Paraná
[01:53:00] para fazer
[01:53:02] protesto contra a desconstrução
[01:53:06] muitos
[01:53:08] atacam a desconstrução
[01:53:10] por causa de estar
[01:53:12] ancorado nessa questão da
[01:53:14] vamos dizer
[01:53:16] assim até essa frase moto
[01:53:18] Nietzscheana de que não há fato só a
[01:53:20] interpretação achar que a
[01:53:22] desconstrução é a causa
[01:53:24] dos fake news
[01:53:26] isso uma reação
[01:53:28] positivista
[01:53:30] uma reação neoliberal
[01:53:32] uma reação na França
[01:53:34] com um
[01:53:36] coloque na Sorbonne que criou a maior
[01:53:38] celeuma
[01:53:40] porque foi para justamente
[01:53:42] tirar do currículo da
[01:53:44] filosofia de Descartes
[01:53:46] a Derrida
[01:53:48] incluiu Descartes por causa que ele gosta de
[01:53:50] demolir os preconceitos
[01:53:52] então a gente tem um movimento
[01:53:54] mesmo de
[01:53:56] manipulação do pensamento
[01:53:58] de tecnificação
[01:54:00] do pensamento onde o pensamento
[01:54:02] perdeu o sentido de pensar
[01:54:04] ele é só
[01:54:06] uma estratégia
[01:54:08] já de é uma
[01:54:10] racionalidade sem nenhum
[01:54:12] sem nenhuma sofisticação
[01:54:14] do racionalismo moderno
[01:54:16] sem nenhum tipo de
[01:54:18] escrita nem nada
[01:54:20] e inclusive
[01:54:22] o Bolsonaro diz
[01:54:24] temos que desconstruir tudo
[01:54:26] saiu a pouco tempo até um livro
[01:54:28] de
[01:54:30] três
[01:54:32] estudiosos, historiadores
[01:54:34] cientistas políticos no Brasil
[01:54:36] tendo essa epígrafe
[01:54:38] e me chamou a atenção que
[01:54:40] ninguém discutiu a desconstrução
[01:54:42] não falou de vamos destruir
[01:54:44] todas as coisas, vamos desconstruir
[01:54:46] então a palavra
[01:54:48] desconstrução ela agora
[01:54:50] é usada para
[01:54:52] destruí-la
[01:54:54] tá
[01:54:56] e eu acho que
[01:54:58] a gente precisa
[01:55:00] é
[01:55:02] descobrir
[01:55:04] novamente de outra forma
[01:55:06] o valor
[01:55:08] que teve
[01:55:10] esse movimento inteiro
[01:55:12] de
[01:55:14] desformalizar
[01:55:16] des
[01:55:18] fazer aparecer os fundamentos
[01:55:20] impensados
[01:55:22] de uma história
[01:55:24] que é uma história da filosofia
[01:55:26] e a história do ocidente
[01:55:28] então tem um filme bonito
[01:55:30] feito por uma
[01:55:32] amiga
[01:55:34] uma poetisa egípcia
[01:55:36] chamada Safa
[01:55:38] com dois A’s
[01:55:40] Fatih
[01:55:42] F A T H Y
[01:55:44] e o filme
[01:55:46] se chama, talvez eu escreva
[01:55:48] em francês
[01:55:50] mas ele é legendado por inglês
[01:55:52] Daier
[01:55:54] Derrida
[01:56:06] ou seja
[01:56:08] Ademais
[01:56:10] ou então
[01:56:12] Diallures
[01:56:14] ou Outrem
[01:56:16] ou Derrida
[01:56:18] que é um filme
[01:56:20] onde ela leva
[01:56:22] Derrida de volta para a África do Norte
[01:56:24] e ele tem um livro
[01:56:26] muito bacana
[01:56:28] Derrida chamado
[01:56:30] o monolinguismo
[01:56:32] do outro
[01:56:34] que eu acho que é uma coisa
[01:56:36] que tem a ver com o nosso momento
[01:56:38] porque ele diz
[01:56:40] eu sou um judeu
[01:56:42] nascido
[01:56:44] na Argélia
[01:56:46] não falo árabe
[01:56:48] não falo hebraico
[01:56:50] eu só falo uma língua que não é minha
[01:56:52] o francês
[01:56:54] é um protagonizador
[01:56:56] eu só tenho uma língua
[01:56:58] e essa língua não é minha
[01:57:00] então
[01:57:02] esse é uma
[01:57:04] vamos dizer assim
[01:57:06] um livro
[01:57:08] do ponto de vista
[01:57:10] da tradição europeia de filosofia
[01:57:12] que eu acho que tem
[01:57:14] coisas bem interessantes
[01:57:16] para nos dizer
[01:57:18] e tem também
[01:57:20] sobre a questão da língua
[01:57:22] porque eu acho que nós estamos nessa luta
[01:57:24] da linguagem
[01:57:26] por uma linguagem
[01:57:28] do pensamento
[01:57:30] por uma linguagem
[01:57:32] da sensibilidade
[01:57:34] para um mundo que seja múltiplo
[01:57:36] que seja
[01:57:38] vamos dizer assim
[01:57:40] mais rico
[01:57:42] índio não fala só tupi
[01:57:44] uma viagem pelas línguas
[01:57:46] dos povos originais no Brasil
[01:57:48] e que eu acho que
[01:57:50] isso daí traz
[01:57:52] na questão da linguagem
[01:57:54] a questão da tradução
[01:57:56] a questão da escuta
[01:57:58] e a questão
[01:58:00] do monolinguismo
[01:58:02] do plurilinguismo
[01:58:04] é como se a gente tivesse
[01:58:06] que aprender a falar
[01:58:08] e não só reproduzir
[01:58:10] fórmulas
[01:58:12] para o bem e para o mal
[01:58:14] de um lado ou de outro
[01:58:16] o que for
[01:58:18] eu vou fazer as minhas indicações
[01:58:20] já me corrigindo
[01:58:22] tem um livro
[01:58:24] na história cultural da vagina
[01:58:26] a vulva versus o patriarcado
[01:58:28] Liv Stormquist
[01:58:30] é quadrinho
[01:58:32] saiu em português
[01:58:34] em 2018
[01:58:36] e lá fala da história da rainha Cristina
[01:58:38] que foi exumada
[01:58:40] então eu estava
[01:58:42] misturando com a Elisabeth
[01:58:44] e aí eu acho que é bom
[01:58:46] citar a nossa colega
[01:58:48] que recebeu o prêmio Elisabeth
[01:58:50] da boêmia
[01:58:52] que é a professora Michele Seixas
[01:58:54] que estuda
[01:58:56] Emile de Châtelet
[01:59:00] você procura Michele Seixas
[01:59:02] vocês vão encontrar o trabalho dela
[01:59:04] ela foi premiada internacionalmente
[01:59:06] por esse trabalho
[01:59:08] sobre Emile de Châtelet
[01:59:10] então é outra indicação
[01:59:12] e também
[01:59:14] para complementar
[01:59:16] a sua indicação
[01:59:18] o livro Camões com Dendê
[01:59:20] que acabou de sair
[01:59:22] também
[01:59:24] que trata
[01:59:26] da professora Ieda
[01:59:30] Ieda Pessoa de Castro
[01:59:32] que fala da dimensão
[01:59:34] africana do português
[01:59:36] outro livro
[01:59:38] a última indicação para fechar
[01:59:40] O Chão da Mente
[01:59:42] do Luiz Costa Lima
[01:59:44] a pergunta pela ficção
[01:59:46] é um livro que eu li há pouco tempo
[01:59:48] que eu acho interessante pensar o Luiz Costa Lima
[01:59:50] como filósofo da literatura
[01:59:52] e trazê-la para esse diálogo
[01:59:54] sobre a substantivação
[01:59:56] da subjetividade
[01:59:58] ele vai pensar isso
[02:00:00] nesse livro O Chão da Mente
[02:00:02] professora
[02:00:04] então eu deixo o espaço aberto
[02:00:06] para a senhora dar seu recado final
[02:00:08] falar o que a senhora quiser falar
[02:00:10] para fechar nossa conversa
[02:00:12] muito obrigado agradeço
[02:00:14] bom obrigado a você
[02:00:16] e bom
[02:00:18] o que eu vou dizer
[02:00:20] a gente espera então
[02:00:22] citando
[02:00:24] o
[02:00:26] o
[02:00:28] o que eu ouvi
[02:00:30] na leitura da carta pela democracia
[02:00:32] lá na PUC
[02:00:34] que a democracia não será uma jovem
[02:00:36] assassinada então
[02:00:38] Marcelo Jasmine
[02:00:40] então eu vou
[02:00:42] citar isso aí
[02:00:44] a hora é grave
[02:00:46] é hora
[02:00:48] e a luta
[02:00:50] eu acho
[02:00:52] não é só
[02:00:54] em derrotar Bolsonaro nas eleições
[02:00:56] mas é uma luta
[02:00:58] de grande
[02:01:00] de grandes
[02:01:02] transformações eu acho
[02:01:04] não só na sociedade
[02:01:06] mas também na nossa maneira
[02:01:08] de pensar e sobretudo a nossa
[02:01:10] maneira de criticar
[02:01:12] e a nossa maneira
[02:01:14] de
[02:01:16] resistir porque está em jogo
[02:01:18] em questão
[02:01:20] novas formas de criação
[02:01:22] né então
[02:01:24] inventar
[02:01:26] mesmo novas formas
[02:01:28] de viver
[02:01:30] de existir
[02:01:32] né
[02:01:34] isso é uma tarefa muito difícil
[02:01:36] porque isso não depende aí da tal
[02:01:38] da subjetividade só
[02:01:40] né tem todos os trabalhos
[02:01:42] as lutas
[02:01:44] mas existe uma
[02:01:46] um trabalho de sensibilidade
[02:01:48] eu acho de
[02:01:50] encontrar novas formas
[02:01:52] sensíveis
[02:01:54] de escuta
[02:01:56] sobretudo de
[02:01:58] atenção
[02:02:00] ao
[02:02:02] quase imperceptível
[02:02:04] que é
[02:02:06] a maneira como
[02:02:08] a existência existe quase
[02:02:10] imperceptível é uma sensibilidade
[02:02:12] para o quase
[02:02:14] imperceptível
[02:02:16] então tá bom
[02:02:18] então obrigado a você
[02:02:22] Ei gostou do nosso episódio
[02:02:24] apoia a gente lá no Catarse é só
[02:02:26] cinco reais por mês o preço de um cafezinho
[02:02:28] ajuda a gente a continuar divulgando a filosofia no Brasil
[02:02:30] catarse.me
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