POLÍTICA E PSICANÁLISE
Resumo
Neste episódio, André Alves e Lucas Littke exploram as interseções entre psicanálise e política, partindo do contexto brasileiro de polarização e eleições. Eles questionam a ideia de neutralidade do analista e discutem como o inconsciente é formado socialmente, sendo atravessado pela cultura e pela política.
Os psicanalistas examinam como a psicanálise pode ser um recurso para lidar com afetos como ódio e medo que permeiam o debate político. A conversa aborda a relação histórica da psicanálise com movimentos sociais, sua possível inclinação à esquerda, e os riscos de uma clínica que ignora fatores sociais ou, ao contrário, reduz o sujeito a questões identitárias.
Eles discutem a importância da palavra e do simbólico na política, contrastando com a tendência atual à violência e ao autoritarismo. O episódio também reflete sobre a ‘depressão cívica’ e a necessidade de elaboração coletiva dos traumas políticos para projetar um futuro diferente.
André e Lucas citam autores como Christian Dunker, Vladimir Safatle, Maria Rita Kehl e outros, que fazem leituras psicanalíticas da realidade brasileira. Eles argumentam que a psicanálise oferece ferramentas para analisar relações de poder, laços sociais e a formação do desejo, elementos centrais tanto para a clínica quanto para a vida política.
Indicações
Books
- Política e Psicanálise — Livro de Ricardo Goldenberg, citado por Lucas, que define política como a arte de organizar e dirigir uma coletividade, lidando com as tensões entre o individual e o coletivo.
- Lacan e a Democracia — Último livro de Christian Dunker, mencionado como uma grande inspiração para este episódio, que expande as visões sobre psicanálise e política.
- O Eu Soberano — Livro polêmico de Elisabeth Roudinesco, discutido no contexto do debate sobre políticas identitárias versus identitarismo na psicanálise.
- Provocações para a Psicanálise no Brasil — Livro organizado por Paula Peron e Pedro Ambra, que aborda racismo, políticas identitárias, violências e colonialismo, citado por André.
- A Psicanálise na Encruzilhada — Livro de Emiliano David, mencionado por André, que discute os desafios e paradoxos da psicanálise perante o racismo no Brasil.
Concepts
- Depressão Cívica — Termo discutido por André, retomado de um artigo de Eduardo Losso na revista Cult. Refere-se a um estado de desinvestimento e anedonia no espaço coletivo, um ‘labirinto de absurdos’ onde o mundo parece em chamas, mas as pessoas seguem com suas vidas individuais, afastando-se do trabalho democrático por ser desgastante.
- Síndrome da Classe Média Brasileira — Fenômeno psíquico coletivo mencionado por André, onde há um recalque da proximidade com a pobreza e uma ilusão identitária de proximidade com a minúscula classe alta do país.
Media
- Canal ‘Falando Nisso’ no YouTube — Canal do psicanalista Christian Dunker, mencionado como uma fonte de expansão de visões sobre psicanálise.
- Projeto Querino (Rádio Novelo) — Projeto de Tiago Rogério citado por Lucas como um exemplo de iniciativa que busca a rememoração e elaboração do passado político e histórico do Brasil.
- Passado a Quente — Projeto com Rodrigo Vizeu, mencionado como parte de um movimento de projetos que tentam dar conta de entender ‘como chegamos até aqui’ na política brasileira.
- Politiquês (Nexo Jornal) — Projeto do Nexo Jornal citado como um dos exercícios de elaboração da memória política.
- Retrato Narrado (Rádio Novelo) — Projeto de Carol Pires, também pela Rádio Novelo, mencionado na lista de iniciativas de rememoração histórica.
People
- Christian Dunker — Psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP, criador do canal ‘Falando Nisso’ no YouTube. Sua fala é reproduzida no episódio, discutindo as intersecções entre psicanálise e política e a inclinação histórica de muitos psicanalistas à esquerda.
- Vladimir Safatle — Filósofo e psicanalista citado por sua análise do fascismo, especialmente um vídeo de 2018 onde define o fascismo de forma incisiva, destacando a brutalização das relações e o uso do medo como afeto político central.
- Maria Rita Kehl — Psicanalista e escritora brasileira mencionada. André cita sua hipótese de que a onda de extrema-direita no Brasil é fruto de um recalque violento e de uma não-elaboração do passado traumático.
- Clarissa Metzger — Psicanalista citada por Lucas, que alerta para o risco de reduzir o sintoma neurótico à questão social, enfatizando a necessidade de escutar o sujeito em todos os significantes que o marcam, incluindo elementos políticos e sociais.
- Elisabeth Roudinesco — Psicanalista e historiadora francesa, autora de ‘O Eu Soberano’, cujo livro é central no debate sobre políticas identitárias e identitarismo discutido no episódio.
Linha do Tempo
- 00:02:30 — Introdução ao tema e confissão pessoal — André expressa seu interesse pessoal pelo tema, mencionando que começou a falar mais sobre política em seu perfil pessoal e enfrentou críticas. Ele comenta sobre a oscilação de Freud em relação à influência da política na clínica e cita Joel Birman, que aponta um mal-entendido histórico na relação entre psicanálise e política, com movimentos que defendiam uma suposta neutralidade do analista.
- 00:07:51 — Definição ampliada de política — Lucas propõe sair de uma visão restrita de política como partidos ou politicagem. Ele cita Ricardo Goldenberg, que define política como a arte de organizar e dirigir uma coletividade, lidando com as tensões entre o individual e o coletivo. A política é sobre cidadania, reconhecer e exercer um lugar de sujeito dentro de um coletivo, e saber como se organizar socialmente.
- 00:10:06 — O inconsciente como política — Os hosts discutem a famosa afirmação de Lacan de que ‘o inconsciente é a política’. Eles exploram o significado: a formação do inconsciente é um processo social, é o discurso do outro, e se forma com a cultura e a linguagem, que são sempre atravessadas por premissas políticas. Isso destaca a impossibilidade de separar o psíquico do social.
- 00:14:37 — A psicanálise e o social: sintomas coletivos — André argumenta que a função do analista não se reduz ao tratamento individual, mas inclui pensar sobre a sociedade e a cultura. Ele dá o exemplo da ‘síndrome da classe média brasileira’, um fenômeno psíquico coletivo onde há um recalque da proximidade com a pobreza e uma ilusão identitária de proximidade com a classe alta. Isso mostra como mecanismos psíquicos também acontecem em massa.
- 00:23:07 — Entrevista com Christian Dunker — É reproduzido um trecho de Christian Dunker, que fala sobre as intersecções históricas entre psicanálise e democracia, ambas lidando com conflitos através da palavra e da simbolização. Dunker discute como a psicanálise historicamente não é toda de esquerda, mas aqueles que olham para o sofrimento humano e suas causas estruturais tendem a se ocupar da política. Ele critica a ideia de neutralidade política do analista.
- 00:29:51 — Políticas identitárias vs. identitarismo na clínica — André e Lucas abordam o debate contemporâneo sobre políticas identitárias dentro da psicanálise. Eles discutem o risco de reduzir o sujeito a um predicativo identitário, eclipsando sua singularidade. No entanto, reconhecem a importância de acolher sofrimentos específicos de grupos marginalizados na clínica, sem cair na armadilha de colocar todo o mal para fora (no social), ignorando a responsabilidade subjetiva.
- 00:41:47 — Psicanálise e extrema-direita: uma incompatibilidade? — Os hosts questionam se um psicanalista pode ser de extrema-direita. Eles argumentam que a psicanálise é baseada na associação livre e na liberdade de expressão, valores incompatíveis com governos ditatoriais e censura. O fascismo é descrito como antipolítico, que incita violência, agride minorias e opera através do medo do outro – afetos difíceis de conciliar com a prática analítica, que requer escuta e acolhimento da diferença.
- 00:49:29 — Ódio, medo e depressão cívica — A conversa se volta para os afetos que permeiam a paisagem política brasileira: ódio e medo. André lê um trecho sobre ‘depressão cívica’, um estado de desinvestimento e anedonia no espaço coletivo, resultante do desgaste de viver em meio ao ódio. Eles discutem como a psicanálise pode ajudar a analisar esses comportamentos em massa e a elaborar os lutos e traumas políticos não processados, que ressurgem no presente.
- 00:55:17 — Esperança e projetos de rememoração — Lucas menciona projetos recentes de mídia (como Projeto Querino, Passado a Quente) que buscam elaborar a memória e a história política recente do Brasil. Ele vê nisso um sinal de esperança ativa, uma tentativa coletiva de entender ‘como chegamos até aqui’ para poder se mover e não rumar ao fim da democracia. A defesa da democracia é fundamental para a psicanálise, por garantir a liberdade de expressão e a circulação da palavra.
Dados do Episódio
- Podcast: vibes em análise
- Autor: floatvibes
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2022-08-31T09:00:00Z
- Duração: 00:57:39
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/90f830c0-f4cb-0139-d4ee-0acc26574db2/episode/ee07789b-203d-4c40-b356-b31338d5c43b/
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Dados do Podcast
- Nome: vibes em análise
- Tipo: episodic
- Site: https://vibes-em-analise.zencast.website
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Transcrição
[00:00:00] Na última década, a polarização política foi se tornando um assunto complicado.
[00:00:04] Melhor não falar no trabalho, evitar o tema no almoço de família,
[00:00:08] e na internet, e na análise.
[00:00:11] Essas separações, elas são possíveis?
[00:00:13] Até porque todo sujeito é profundamente atravessado pelo outro,
[00:00:18] pelo grande outro, pela cultura e pela política.
[00:00:22] Pois é, 7 de setembro tá logo aí, 2 de outubro também,
[00:00:25] e a gente começou a ser atravessado pelos discursos apaixonados dos candidatos.
[00:00:30] E como era de se esperar, a gente retomou os conflitos sobre as diferenças partidárias
[00:00:34] e todas as suas variações ideológicas.
[00:00:37] Mas o que será que a psicanálise tem a ver com isso?
[00:00:40] Ela pode nos ajudar a transformar a relação que a gente tem com esse assunto?
[00:00:44] Historicamente, muitos analistas e institutos de psicanálise
[00:00:47] adotaram uma postura de suposta neutralidade,
[00:00:50] o que pra alguns significa um encastelamento ou mesmo alienação do campo social,
[00:00:56] como se fosse possível praticar e pensar a psicanálise
[00:00:59] de uma forma isolada.
[00:01:00] isolada da política.
[00:01:01] Só que ela pode ser um ótimo recurso,
[00:01:04] um campo de pensamento que nos ajuda a navegar o ódio,
[00:01:07] o medo, a intolerância e as vibes pessimistas
[00:01:10] que pairam no ar quando o tema é política.
[00:01:13] Bom, o que a gente fala em análise entre quatro paredes no consultório
[00:01:16] é sigiloso, confidencial.
[00:01:18] E o nosso voto?
[00:01:20] Sim, ele é secreto, mas cada vez mais a gente vem sendo estimulado
[00:01:23] a se posicionar politicamente.
[00:01:25] E se você é uma figura influente, então você é pressionado a fazer isso publicamente.
[00:01:29] Publicamente.
[00:01:30] E isso cabe também à figura do analista?
[00:01:32] Como a gente pode lidar com eventuais posições políticas do nosso analista
[00:01:36] ou dos nossos analisandos?
[00:01:38] E mais, como será que a psicanálise se posiciona nesse espectro entre esquerda e direita?
[00:01:44] Aí complicou, hein?
[00:01:45] Eu sou o André Alves.
[00:01:46] E eu sou o Lucas Littke.
[00:01:48] E esse é o Vibes em Análise, um podcast onde a gente busca analisar
[00:01:51] algumas vibes que estão submersas no inconsciente coletivo.
[00:01:54] O Lucas e eu somos psicanalistas e pesquisadores.
[00:01:57] As nossas análises e pesquisas
[00:02:00] estão no perfil
[00:02:00] no Instagram, no TikTok.
[00:02:03] E alguns dos nossos novos estudos
[00:02:05] estão na nossa newsletter que você assina no Substack.
[00:02:08] Os links estão todos na descrição do episódio.
[00:02:10] Então vamos nessa, André.
[00:02:11] Estou animado que a gente topou
[00:02:13] o desafio de entrar nesse tema que é complicado
[00:02:16] e que sempre gera muita polêmica.
[00:02:18] Mas a gente não vai fugir
[00:02:20] desse debate. Por onde você quer começar?
[00:02:30] Eu vou começar fazendo uma pequena confissão.
[00:02:41] Esse é talvez o tema
[00:02:43] que eu mais estou esperando a gente chegar
[00:02:44] em toda a temporada.
[00:02:46] O tema que eu venho estudando há mais tempo,
[00:02:49] inclusive. Você sabe que já faz
[00:02:51] um tempo que eu soltei mais o verbo,
[00:02:53] principalmente no meu perfil pessoal.
[00:02:54] E comecei a falar bastante sobre política.
[00:02:56] E articular esse tema que ele é tão
[00:02:58] difícil e tão…
[00:02:59] espinhoso. E volta e meia
[00:03:01] alguém me diz que eu não devia falar sobre isso.
[00:03:04] E lendo alguns, muitos
[00:03:06] textos, acho que fica claro
[00:03:08] que pelo menos no campo clínico
[00:03:10] o Freud oscilou bastante
[00:03:12] entre
[00:03:13] recusar fortemente a influência
[00:03:16] da política na clínica
[00:03:18] e também admitir essa influência como
[00:03:20] inevitável. Quase um alerta a tensão.
[00:03:22] O Joel Biermann, um dos
[00:03:24] maiores psicanalistas que a gente tem no Brasil,
[00:03:26] tem um texto muito interessante
[00:03:29] em que
[00:03:29] ele marca como a relação entre
[00:03:32] psicanálise e política sempre foi contornada
[00:03:34] por um certo mal entendido na história
[00:03:36] da psicanálise. Tem um movimento
[00:03:38] psicanalítico aí que sempre tentou
[00:03:40] afastar ou mesmo repudiar
[00:03:42] qualquer tipo de engajamento.
[00:03:44] Sempre defendendo uma suposta
[00:03:46] neutralidade na figura do analista,
[00:03:49] na experiência clínica,
[00:03:50] enfim. Uma moral mesmo
[00:03:52] da neutralidade
[00:03:53] que aposta num inconsciente
[00:03:56] ah histórico. Ou retirado
[00:03:58] da história, ou retirado
[00:03:59] da política de alguma forma.
[00:04:02] E isso a gente sabe qual é a consequência
[00:04:04] numa psicanálise que não
[00:04:06] encarnaria ou não se sujaria
[00:04:08] com práticas sociais de forma
[00:04:10] alguma. Eu queria, talvez, antes
[00:04:12] de a gente entrar na psicanálise, falar um pouco
[00:04:14] de política. E numa associação
[00:04:16] livre mesmo, assim, bem do senso comum.
[00:04:19] Que, em geral, a primeira
[00:04:20] coisa que a gente normalmente
[00:04:22] pensa quando ouve a palavra
[00:04:24] política é em partido político.
[00:04:26] Ou até em umas derivações que trazem
[00:04:28] uma conotação bem pejorativa.
[00:04:29] Como politicagem.
[00:04:31] Foi isso que a história acabou fazendo
[00:04:33] com o significado
[00:04:35] desse significante política.
[00:04:37] E isso é péssimo, porque vem aí também
[00:04:39] umas declarações meio esdrúxulas
[00:04:41] assim, tipo, política, futebol,
[00:04:43] religião, a gente não discute.
[00:04:45] Como se a gente tivesse
[00:04:47] só que aceitar algumas coisas
[00:04:49] como elas são.
[00:04:51] Não fazer questionamentos, como se
[00:04:53] a gente não conseguisse dialogar
[00:04:55] e argumentar sobre política
[00:04:57] sem acabar entrando numa briga.
[00:04:59] Só que aí, já puxando um pouco
[00:05:01] na psicanálise, parece que é um tipo
[00:05:03] de vitória do imaginário
[00:05:05] sobre o simbólico. É aquela
[00:05:07] visão míope de que as nossas escolhas,
[00:05:10] inclinações,
[00:05:12] ou tradições, ou as nossas
[00:05:13] diferenças, são simplesmente
[00:05:16] ou melhores ou piores
[00:05:17] umas que as outras.
[00:05:20] E que a gente precisa sempre entrar
[00:05:21] em guerra pra se defender.
[00:05:23] E tentar destruir o nosso opositor.
[00:05:26] Só que isso é a guerra política.
[00:05:27] Isso é a guerra religiosa.
[00:05:29] A política não é necessariamente sobre guerra política.
[00:05:32] Inclusive ela é, ou deveria ser,
[00:05:34] exatamente o seu contrário.
[00:05:36] É sobre a capacidade de não guerrear
[00:05:38] e conseguir articular
[00:05:39] relações melhores, até onde for possível.
[00:05:42] Através da negociação
[00:05:43] e principalmente através da palavra.
[00:05:45] E de ações que cumpram as nossas palavras.
[00:05:48] E isso tem muito a ver com psicanálise.
[00:05:50] Com certeza, porque sem palavra
[00:05:52] e sem circulação da palavra
[00:05:53] não tem psicanálise. Nem política.
[00:05:55] Nem política. E ao mesmo tempo
[00:05:57] é interessante a gente pensar
[00:05:59] que a gente está em que tem algo
[00:06:01] de tão mortífero na cultura
[00:06:03] que tenta o tempo inteiro lacrar
[00:06:06] e cancelar o debate. No sentido de
[00:06:08] quantas coisas não estão
[00:06:10] protegidas pela barreira
[00:06:12] do recalque que é
[00:06:14] mas essa é a minha opinião.
[00:06:15] Mas a minha opinião política é a minha opinião política.
[00:06:18] E isso não pode ser mudado.
[00:06:19] E aí as caixas de comentários estão repletas
[00:06:22] dos maiores absurdos, protegidos por
[00:06:24] esse argumento, de novo,
[00:06:26] mortífero, de essa é a minha opinião.
[00:06:28] Como se a gente tivesse,
[00:06:29] na opinião política ou na posição
[00:06:31] política, lacrada dentro do imaginário
[00:06:34] como você muito bem trouxe, né?
[00:06:35] Não dá pra mudar. Essa é a minha.
[00:06:37] Você fica com a sua, ponto e acabou.
[00:06:39] A gente não vai discutir. A gente não vai se provocar.
[00:06:42] A gente não vai permitir que algo
[00:06:43] de estranho entre nessa conversa.
[00:06:46] O Foucault vai dizer que
[00:06:47] falar é sempre um ato político.
[00:06:50] Tem também uma expressão que ganhou
[00:06:51] muita atração nos últimos anos, que é
[00:06:53] aquela que diz que existir
[00:06:56] muitas vezes é um ato político.
[00:06:59] Essas frases,
[00:06:59] nos deixam até um pouco
[00:07:01] confusos, assim, porque elas tornam
[00:07:03] tão amplo, também tão abstrato,
[00:07:05] como se tudo fosse política.
[00:07:07] E aí parece que também nada é política. E aí, de novo,
[00:07:10] peraí, o que é política?
[00:07:11] Isso que a gente tem que fazer mesmo, esse movimento de
[00:07:13] ir e voltar,
[00:07:15] pra ir dando algum contorno, assim.
[00:07:17] Essas noções de política
[00:07:19] são interessantes porque nos abrem
[00:07:21] um pouco a cabeça pra sair
[00:07:23] dessa mediocridade
[00:07:25] na forma de pensar sobre política.
[00:07:27] Quando a gente diz, eu não gosto
[00:07:29] de política, normalmente o que
[00:07:31] tá por trás é, eu tenho muita
[00:07:33] dificuldade de lidar com os políticos
[00:07:35] que nos representam e que nos governam.
[00:07:37] Ou como se diz muito hoje em dia,
[00:07:39] nos desgovernam.
[00:07:41] Aí a gente tá falando de administração pública,
[00:07:43] da gestão do Estado, de formas
[00:07:45] de governar, mas a política
[00:07:47] é mais do que isso.
[00:07:49] O Ricardo Goldenberg tem um livro que chama
[00:07:51] Política e Psicanálise, e ele fala da política
[00:07:53] da seguinte forma, a arte de
[00:07:55] organizar e dirigir uma coletividade,
[00:07:57] de lidar com os
[00:07:59] classes entre o individual e o coletivo.
[00:08:02] Ou seja,
[00:08:03] alguma coisa que tem por objetivo
[00:08:05] um certo acordo entre a minha felicidade
[00:08:07] e a felicidade do outro.
[00:08:09] É uma forma de regulamentar as relações.
[00:08:12] A política
[00:08:13] é sobre ser
[00:08:15] e existir na polis,
[00:08:17] na cidade. Ou seja, é sobre
[00:08:19] cidadania, é sobre reconhecer e
[00:08:21] exercer um lugar de sujeito
[00:08:23] dentro de um coletivo.
[00:08:25] Saber como se organizar socialmente,
[00:08:27] como lidar com essas regras de convivência,
[00:08:29] participar da sociedade.
[00:08:31] O voto entra aí,
[00:08:33] nesse fazer política, mas
[00:08:35] é só um exemplo. Tem muito mais
[00:08:37] além do voto.
[00:08:38] É, e eu acho que também uma capacidade
[00:08:40] que a gente tem de viver
[00:08:42] na diferença e de ter essa diferença
[00:08:44] mediada pela palavra.
[00:08:46] Ou pelos acordos que a gente vai fazendo e sustentando
[00:08:48] pela palavra, pela cultura,
[00:08:50] pela lei e, em última instância,
[00:08:53] por algum tipo de punição.
[00:08:54] Mas parece que a gente está meio atropelado.
[00:08:56] Está tudo meio misturado.
[00:08:57] Até no tempo que a gente está, parece que é
[00:08:59] assim, a primeira coisa é o violento.
[00:09:01] A primeira coisa é a força física,
[00:09:02] é a brutalidade. Isso está tampando
[00:09:05] ou tamponando a palavra, de alguma forma.
[00:09:08] Mas acho que, voltando nisso que você está falando,
[00:09:11] não dá pra gente pensar na sociedade como algo
[00:09:14] totalitário, harmonioso,
[00:09:16] tudo igual, homogêneo.
[00:09:18] Assim como o sujeito.
[00:09:20] Trazendo de volta pra psicanálise,
[00:09:22] a gente está profundamente investido
[00:09:24] na ideia de que nem a gente é homogêneo.
[00:09:28] A gente é cindido.
[00:09:29] A gente é formado por diferentes instâncias
[00:09:32] e a gente, pra complicar,
[00:09:34] é formado por diferentes desejos
[00:09:36] que são, inclusive, flutuantes.
[00:09:38] E aí eu acho que, se não tem psicanálise
[00:09:39] sem inconsciente,
[00:09:41] a gente não pode esquecer que inconsciente
[00:09:43] não é individual.
[00:09:44] O inconsciente, ele se forma com o outro,
[00:09:48] com o olhar do outro.
[00:09:49] Claro que, numa análise, o sujeito
[00:09:51] vai falar de si, mas também
[00:09:53] vai falar sobre os atravessamentos
[00:09:55] que sofre do outro.
[00:09:57] E pelo grande outro, e pela cultura,
[00:09:59] enfim, isso que a gente falou um pouco no começo.
[00:10:01] É, o Lacan vai bem longe quando diz
[00:10:03] que o inconsciente é a política.
[00:10:05] Exato.
[00:10:06] O que será que isso quer dizer, né?
[00:10:07] Talvez que a formação do inconsciente
[00:10:10] seja um processo social.
[00:10:13] Que o inconsciente é o discurso do outro.
[00:10:16] Que o inconsciente também é político
[00:10:18] porque se forma com o outro.
[00:10:20] Esse grande outro que é a cultura,
[00:10:22] que é a linguagem.
[00:10:23] E que não existem culturas ou linguagens
[00:10:25] que não sejam atravessadas por premissas políticas.
[00:10:29] Então, acho que é muito válido
[00:10:30] a gente fazer essas investigações
[00:10:32] e perceber um pouco dessas conexões
[00:10:34] que estão aí, né?
[00:10:36] Tem muitos autores e psicanalistas
[00:10:37] contemporâneos que fazem leituras
[00:10:40] psicanalíticas bem interessantes
[00:10:42] sobre a política brasileira.
[00:10:43] O Dunker, Safatle, a Maria Rita.
[00:10:46] A gente vai deixar umas boas dicas
[00:10:48] bibliográficas aqui na descrição do episódio.
[00:10:51] Agora, se a gente retoma lá do começo
[00:10:53] com Freud, que você até começou a falar um pouco,
[00:10:55] ele não fala muito de política
[00:10:57] propriamente.
[00:10:58] Mas tem muita coisa lá.
[00:11:01] Tem muita coisa nessa articulação
[00:11:02] bastante complexa
[00:11:04] da relação entre o individual e o coletivo.
[00:11:07] Principalmente no mal-estar
[00:11:08] na cultura, que é escrito durante a
[00:11:10] Grande Depressão de 1929.
[00:11:12] No Psicologia das Massas, Análise do Eu, de 1921.
[00:11:15] Que é onde ele diz
[00:11:16] que toda psicologia individual
[00:11:18] é também social, porque sempre inclui
[00:11:20] essa presença inevitável do outro.
[00:11:23] Enquanto objeto
[00:11:24] ou enquanto adversário.
[00:11:25] Tem o Porquê da Guerra, também,
[00:11:27] de 1933.
[00:11:28] E toda uma discussão
[00:11:30] que ele traz da noção do líder.
[00:11:33] Do líder político, religioso,
[00:11:34] militar, de como esse sujeito
[00:11:36] é colocado num lugar de
[00:11:38] ideal de eu pelos membros de um grupo.
[00:11:41] Agora, um ponto que eu acho
[00:11:42] que a gente tem que reforçar, assim, é que
[00:11:44] existe um risco da psicanálise
[00:11:46] também escorregar para um contraponto
[00:11:48] entre social e individual.
[00:11:51] Como se o indivíduo fosse
[00:11:52] o mesmo que sujeito, que é isso que você estava falando.
[00:11:55] O individualismo,
[00:11:56] como diz a Maria Rita Kell,
[00:11:58] é uma falácia da sociedade burguesa.
[00:12:00] É uma ideologia.
[00:12:02] O sujeito não é indivíduo porque ele é dividido.
[00:12:05] Ele não é uma partícula indivisível.
[00:12:07] É interessante isso que você está trazendo,
[00:12:09] porque a psicanálise, ela é fruto
[00:12:10] de uma sociedade burguesa.
[00:12:12] Tem um livro do Emiliano Davi
[00:12:14] que eu gosto muito, inclusive do título,
[00:12:16] que é a Psicanálise na Encruzilhada.
[00:12:18] E parece que essa encruzilhada
[00:12:20] está colocada faz um bom tempo.
[00:12:22] O livro do Emiliano é um pouco
[00:12:24] sobre os desafios e paradoxos
[00:12:26] perante o racismo no Brasil.
[00:12:28] E como isso representa para a psicanálise
[00:12:31] muitos questionamentos.
[00:12:33] Principalmente para uma psicanálise
[00:12:34] que, segundo alguns bons autores,
[00:12:37] se posicionou fora desse debate
[00:12:39] durante muito tempo.
[00:12:41] Inclusive,
[00:12:42] muitos discursos de o inconsciente
[00:12:44] não tem cor, de o inconsciente
[00:12:46] não tem gênero.
[00:12:48] Uma série de discussões
[00:12:50] que são espinhosas para a gente dizer o mínimo.
[00:12:53] Mas eu acho que também
[00:12:54] tem uma outra parte dessa conversa
[00:12:57] sobre psicanálise.
[00:12:58] E sociedade burguesa,
[00:12:59] que é, durante muito tempo,
[00:13:02] a psicanálise profundamente
[00:13:04] voltada para as elites econômicas.
[00:13:06] E eu acho que isso
[00:13:07] muda bastante
[00:13:09] ao longo dos últimos anos
[00:13:11] ou das últimas décadas.
[00:13:13] Eu acho que essa é toda uma conversa bem de corredor também.
[00:13:16] Eu já ouvi muitas vezes
[00:13:17] essas problemáticas e não necessariamente
[00:13:19] elas estão em todos os textos
[00:13:21] ou nos livros. Elas muitas vezes estão
[00:13:23] nos intervalos
[00:13:25] das aulas, nos seminários,
[00:13:28] naquela conversa um pouco mais informal,
[00:13:30] nos grupos de estudos.
[00:13:32] Essa é a hora que
[00:13:33] parece que a gente começa
[00:13:35] a discutir política
[00:13:37] dentro da psicanálise.
[00:13:39] Encontrar essas diferenças, que são muito
[00:13:41] interessantes de escutar e elaborar.
[00:13:44] Tem algo aí que eu
[00:13:45] acredito que todo mundo mais ou menos
[00:13:47] concorda, que é
[00:13:48] a psicanálise não é um tratamento
[00:13:51] para o social. É um tratamento
[00:13:53] para o sujeito. A ideia
[00:13:55] de uma sócio-psicanálise,
[00:13:58] é bastante controversa.
[00:13:59] Agora, isso não significa que
[00:14:01] o psicanalista ou um teórico da psicanálise
[00:14:04] pode fechar os olhos
[00:14:05] para as questões sociopolíticas.
[00:14:07] Tem uma diferença também de objeto de estudo
[00:14:09] e objeto de tratamento.
[00:14:12] Eu, pessoalmente, acredito que a função
[00:14:13] do analista não se reduz
[00:14:15] só ao tratamento do sujeito.
[00:14:18] É também sobre fazer críticas,
[00:14:20] elaborar, pensar sobre a sociedade,
[00:14:22] a cultura e tentar
[00:14:23] compreender a subjetividade do nosso tempo.
[00:14:27] Porque os mecanismos
[00:14:27] psíquicos também acontecem
[00:14:30] em massa. A gente tem
[00:14:31] exemplos que são amplamente
[00:14:33] discutidos por psicanalistas que são
[00:14:35] muito interessantes. Tem um que é
[00:14:37] a famosa síndrome da classe média
[00:14:39] brasileira, que recalca
[00:14:41] a proximidade que tem com a pobreza
[00:14:43] e nutre aquela ilusão
[00:14:45] identitária de que tem
[00:14:47] muito mais proximidade com a minúscula
[00:14:50] classe alta do país.
[00:14:52] Esse é um fenômeno que a gente vê
[00:14:53] muito gritante. Só porque uma vez
[00:14:55] ela conseguiu parcelar
[00:14:57] uma viagem pra Miami, ela já
[00:14:59] acha que tá lá. Isso é muito interessante
[00:15:02] a gente colocar essas vibes
[00:15:03] em análise. E isso não
[00:15:05] só pra tentar entender, junto
[00:15:08] com o nosso analisando, o que que tá
[00:15:09] atravessando ele, o que que tá fazendo ele sofrer,
[00:15:12] mas porque isso é de interesse
[00:15:13] geral da sociedade. Tem uma frase
[00:15:16] do Contardo Caligari que é muito boa
[00:15:17] que diz assim, o psicanalista
[00:15:19] não é alguém que caminha com as obras de
[00:15:21] Freud debaixo do braço. O psicanalista
[00:15:24] é um sujeito da cultura.
[00:15:25] Você trouxe essa posição pessoal e eu também
[00:15:27] tenho uma crença um pouco radical
[00:15:30] até e meio fanoniana
[00:15:31] no sentido de que eu não acho
[00:15:33] que exista cura
[00:15:35] possível só entre quatro
[00:15:37] paredes. Eu acho que
[00:15:39] algum tipo de engajamento social
[00:15:41] ou de mobilização do social
[00:15:43] é um caminho
[00:15:45] imprescindível pra
[00:15:47] atravessar algumas questões de um sujeito.
[00:15:50] Sim, concordo.
[00:15:51] Mas isso não significa um tratamento
[00:15:53] do social, não significa?
[00:15:55] Não necessariamente. Um tratamento do
[00:15:57] social. Mas eu acho que tem uma questão
[00:15:59] de se implicar
[00:16:01] exatamente nesses sintomas
[00:16:04] que o social
[00:16:05] gera e que o tratamento
[00:16:08] do sujeito de alguma forma potencializa.
[00:16:10] Porque você falou desse
[00:16:11] sintoma brasileiro tão
[00:16:13] fascinante, pra não dizer trágico.
[00:16:16] A psicanálise, de certa
[00:16:17] forma, ela também foi empurrada pra fora
[00:16:20] da clínica, no sentido de
[00:16:21] ter que olhar pra algumas questões.
[00:16:24] Acho que muitas coisas aconteceram nas últimas
[00:16:25] décadas pra isso. Os movimentos sociais,
[00:16:27] ganharam uma força inegável.
[00:16:30] Eu acho que muitos psicanalistas
[00:16:31] foram retomar textos básicos
[00:16:33] e reinterpretar as posturas de alguns
[00:16:35] cânones da psicanálise.
[00:16:38] Fazer retomadas, fazer
[00:16:39] releituras mesmo e
[00:16:41] trazer pra uma outra
[00:16:43] ótica ou pra outras discussões.
[00:16:46] E eu acho que tem duas coisas muito
[00:16:47] interessantes. A própria psicanálise
[00:16:50] e os psicanalistas passaram
[00:16:52] nos últimos 30 anos por um processo
[00:16:54] de proletarização
[00:16:55] social. Acho que é
[00:16:57] essa precariedade social
[00:16:59] promovida pelo neoliberalismo, de uma
[00:17:01] forma geral, também
[00:17:03] bateu na psicanálise de alguma forma.
[00:17:06] As elites econômicas não
[00:17:07] sustentam mais a psicanálise
[00:17:09] sozinha e também, obviamente,
[00:17:12] muitos psicanalistas se
[00:17:13] colocam mais interessados em fazer a
[00:17:15] psicanálise circular, no lugar
[00:17:17] de deixá-la concentrada num extrato
[00:17:19] socioeconômico. A grande questão
[00:17:21] é que, assim, também da metade
[00:17:23] do século passado pra cá,
[00:17:25] acho que muita gente
[00:17:27] foi se dando conta de que
[00:17:29] as formas de sofrimento
[00:17:31] que foram aparecendo ou
[00:17:33] sendo potencializadas, ou
[00:17:35] na sociedade como um todo, também
[00:17:37] não conseguiam ser mais
[00:17:38] resolvidas pela psicanálise
[00:17:40] clássica ou por algumas visões
[00:17:42] um pouco mais puristas, por
[00:17:45] dizer assim, da psicanálise.
[00:17:47] Tô falando de pacientes limite,
[00:17:49] de depressão, de ansiedade,
[00:17:51] enfim, de tudo isso que
[00:17:52] dos anos 80 pra cá,
[00:17:55] um pouco nessa cultura de desempenho
[00:17:57] de idade, e como tudo isso
[00:17:59] precisou e precisa
[00:18:01] de uma articulação com outros
[00:18:03] campos de pensamento, se a gente quer pensar
[00:18:05] algum tipo de tratamento ou de
[00:18:07] desadoecimento dos sujeitos.
[00:18:09] Eu concordo, André,
[00:18:11] e não precisa nem ir tão longe.
[00:18:13] Você trouxe uma visão
[00:18:15] interessante, assim, sobre o que tá acontecendo agora,
[00:18:17] mas a gente pode pensar até de um
[00:18:19] jeito mais simples, que é
[00:18:20] a psicanálise nos ajuda a entender,
[00:18:23] nos dá algum repertório
[00:18:25] conceitual, que nos ajuda a analisar
[00:18:27] relações de poder que estão
[00:18:29] em curso. E não só as relações
[00:18:31] de poder e de conflito,
[00:18:33] dentro da gente mesmo. Então, você pode ter
[00:18:35] um supereu que é tirânico,
[00:18:38] herdado do supereu
[00:18:39] do seu pai, que hoje age como
[00:18:41] uma espécie de ditador
[00:18:43] pro meu ego, que tá lá subordinado,
[00:18:45] pobre coitado. Mas a psicanálise
[00:18:47] também vai além. Você pode olhar
[00:18:48] pra um tipo de psicanálise política
[00:18:50] que nos ajuda a pensar sobre os nossos lugares
[00:18:53] sociais,
[00:18:55] de vulnerabilidade,
[00:18:57] de exclusão, de impotência,
[00:18:59] ou de opressão, de abuso,
[00:19:02] todos esses lugares e funções
[00:19:03] que a gente vai ocupando
[00:19:05] em diferentes contextos sociais.
[00:19:07] Porque, assim como a psicanálise,
[00:19:09] a política é também
[00:19:11] uma tentativa de acordo
[00:19:13] entre desejos. Um tipo de
[00:19:15] busca de resolução
[00:19:16] que seja menos violenta, menos trágica
[00:19:19] e menos traumática
[00:19:21] pra algum conflito que tá posto
[00:19:23] diante de nós.
[00:19:25] E tem mais uma coisa também
[00:19:27] que eu acho que a psicanálise ajuda, que é
[00:19:29] que nem todo
[00:19:30] mal-estar psíquico é
[00:19:33] consequência dos males
[00:19:35] da cultura. Mas também
[00:19:37] tem um pouco do contrário.
[00:19:39] Ele pode ser a causa
[00:19:40] do mal-estar na cultura.
[00:19:43] Isso é muito importante, porque assim,
[00:19:45] muito do que acontece hoje na sociedade
[00:19:47] é consequência de um psiquismo
[00:19:49] de um sujeito
[00:19:50] que tá dominado por uma pulsão de morte
[00:19:52] e que acaba sendo direcionada pro social.
[00:19:56] Quando a gente assiste esse
[00:19:57] bate-bocas nos congressos,
[00:19:59] fica muito claro que tem políticos que parecem
[00:20:01] não ter condições mentais
[00:20:03] emocionais pra fazer política.
[00:20:05] E isso vai, obviamente, esquentando
[00:20:07] e se tornando uma barbárie,
[00:20:09] fica muito selvagem e a gente perde
[00:20:11] aquilo que nos humaniza, que é a capacidade
[00:20:13] de articulação simbólica e de escuta.
[00:20:16] Um pouco de psicanálise nessa hora
[00:20:17] seria bom. Psicodrama no congresso?
[00:20:20] Será? Não, com certeza,
[00:20:22] porque você tava falando e me veio essa imagem
[00:20:23] de como a gente realmente
[00:20:25] fala bastante sobre democracia,
[00:20:27] no Brasil, e a gente frequentemente
[00:20:29] ignora o fato de que, assim, a democracia
[00:20:31] não opera em todos os Brasis,
[00:20:33] muito pelo contrário,
[00:20:34] o que opera em muitos Brasis
[00:20:36] é a brutalidade, e mesmo
[00:20:39] nessa política institucional,
[00:20:41] a gente vê muitos
[00:20:43] dos debates serem não só
[00:20:45] permeados, mas
[00:20:46] uma certa supremacia
[00:20:48] da Bíblia e da bala.
[00:20:50] Debates políticos que são colocados sempre
[00:20:53] nessa esfera de Deus que é isso,
[00:20:55] Deus pensa assim,
[00:20:57] como se o Estado laico fosse, assim,
[00:20:59] algo minoritário,
[00:21:01] uma nota de rodapé,
[00:21:02] e ao mesmo tempo, essa
[00:21:04] violência, essa postura meio
[00:21:06] miliciana, meio
[00:21:08] da punição a qualquer
[00:21:11] custo, ou acima de tudo,
[00:21:14] calando a palavra,
[00:21:15] ou sentando em cima
[00:21:16] da palavra. A palavra é quase
[00:21:19] o segundo recurso,
[00:21:21] ou a palavra é quase um recurso
[00:21:22] um pouco mais cotidiano, mas o que
[00:21:25] vale mesmo é
[00:21:27] a Bíblia e a bala. Acho que a gente tem que
[00:21:29] falar de Brasil, de como é que a gente
[00:21:31] tá vendo
[00:21:32] política, psicanálise e Brasil.
[00:21:35] Acho que essa triangulação é
[00:21:36] impossível da gente escapar.
[00:21:45] A polarização que a gente tá
[00:21:47] vendo no Brasil dos anos
[00:21:49] 20 é um sintoma
[00:21:51] pra gente escutar e prestar
[00:21:52] muita atenção, porque
[00:21:54] diz de um momento
[00:21:56] muito infantilizado
[00:21:58] que a gente vem vivendo.
[00:22:00] Esse momento em que a gente só consegue resolver
[00:22:02] na base da violência. Por que que eu tô falando
[00:22:05] que é infantilizado? Porque o processo
[00:22:07] de subjetivação
[00:22:08] é simbólico. Dificilmente
[00:22:11] a gente muda
[00:22:12] o jeito que o outro pensa na porrada.
[00:22:15] Dá muito mais trabalho.
[00:22:17] A gente pode conseguir conter
[00:22:18] o outro, mas não necessariamente
[00:22:20] movimentar, mudar,
[00:22:23] expandir. E aí,
[00:22:25] nesse processo, a gente vem apelando,
[00:22:26] olhando pra soluções
[00:22:28] bem precárias. Tudo isso que tá acontecendo
[00:22:31] é culpa do PT.
[00:22:33] Ou é culpa do Bolsonaro.
[00:22:34] Ou é culpa da esquerda, ou é culpa da direita.
[00:22:36] Enfim, é uma longa discussão.
[00:22:38] Ou a gente vai até pro nenhum nem outro.
[00:22:40] Nosso grande problema são esses dois.
[00:22:42] Vamos pro nenhum nem outro. Tudo isso
[00:22:44] eu acho que fala exatamente de um momento
[00:22:46] político muito empobrecido
[00:22:49] do ponto de vista simbólico.
[00:22:51] Agora vamos escutar
[00:22:52] o psicanalista Christian Dunker,
[00:22:54] autor de diversos livros que
[00:22:56] versam sobre esse tema, professor
[00:22:58] titular do Instituto de Psicologia da USP
[00:23:00] e o criador do famoso canal
[00:23:01] Falando Nisso no YouTube.
[00:23:07] Política psicanálise tem vários pontos
[00:23:10] de intersecção. Primeiro, é de natureza
[00:23:12] histórica. A ideia
[00:23:14] de distribuir o poder
[00:23:16] pela palavra, lidar com os
[00:23:18] conflitos pela palavra,
[00:23:19] produzir uma
[00:23:21] igualdade artificial, vamos chamar assim,
[00:23:23] pela palavra. Tudo isso que caracteriza
[00:23:26] a democracia, desde os gregos
[00:23:27] até o nosso momento, é
[00:23:29] um dispositivo
[00:23:31] que é homólogo
[00:23:34] ao da psicanálise. Também na psicanálise
[00:23:36] a gente lida com conflitos em
[00:23:37] relação, Freud chamou isso de
[00:23:39] transferência, a gente passa
[00:23:41] os conflitos para a palavra,
[00:23:44] a gente simboliza, a gente
[00:23:45] se recria, a gente se transforma
[00:23:48] nesse
[00:23:49] processo que, inclusive,
[00:23:51] envolve você reconstruir história
[00:23:54] e, no fundo, a grande
[00:23:56] união entre psicanálise e política
[00:23:57] se dá em torno do desejo.
[00:24:00] São duas práticas definidas
[00:24:02] pela recuperação, recomposição
[00:24:04] e relançamento do desejo.
[00:24:07] Historicamente, nem
[00:24:08] toda a psicanálise é de esquerda.
[00:24:10] Toda uma discussão sobre o caráter
[00:24:12] elitista, conservador,
[00:24:15] inclusive
[00:24:15] da psicanálise como extensão
[00:24:17] de práticas que têm
[00:24:19] uma implantação historicamente conservadora,
[00:24:22] como a medicina, como a psiquiatria,
[00:24:24] como o trabalho, vamos
[00:24:26] dizer assim, certas instituições.
[00:24:28] Mas, aqueles que
[00:24:29] olham para o sofrimento
[00:24:31] humano e tentam dirimir
[00:24:33] algumas das suas causas estruturais
[00:24:36] vão se ocupar da política
[00:24:38] no sentido de que há
[00:24:39] mudanças sociais, há mudanças
[00:24:42] culturais que são absolutamente
[00:24:43] necessárias para a gente também pensar
[00:24:46] em elementos que tomam parte,
[00:24:48] ainda que não exclusivamente,
[00:24:50] da etiologia
[00:24:51] dos sintomas. Então,
[00:24:54] por exemplo, a forma
[00:24:56] como a gente culturalmente
[00:24:57] tematiza e lida com a sexualidade,
[00:25:00] a maneira como a gente pensa a família,
[00:25:02] a maneira como a gente pensa
[00:25:04] o próprio processo de representação
[00:25:06] coletiva e de
[00:25:08] igualdade social, tudo isso
[00:25:10] sem falar na luta
[00:25:12] contra o racismo, na
[00:25:14] luta pela equidade de gênero
[00:25:16] e de orientação sexual,
[00:25:18] tudo isso faz parte
[00:25:20] de um anseio de que
[00:25:22] o mundo se transforme
[00:25:24] também, que os indivíduos, que as
[00:25:26] pessoas mudem, mas esse desejo
[00:25:28] de mudança, esse desejo de
[00:25:30] igualdade, esse desejo de liberdade,
[00:25:32] ele só se efetiva
[00:25:34] quando ele se coletiviza, ele se
[00:25:36] realiza num estado
[00:25:38] de mundo. Então, é muito compreensível
[00:25:40] que os psicanalistas
[00:25:42] tenham uma inclinação
[00:25:43] à esquerda, porque a esquerda
[00:25:46] historicamente também é
[00:25:47] esse agrupamento político que
[00:25:49] quer mais velocidade
[00:25:51] na equidade social, na redução
[00:25:54] da injustiça, na inclusão
[00:25:56] de mais pessoas na
[00:25:57] democracia, no fim das
[00:26:00] relações hegemônicas de
[00:26:01] opressão, de dominação, tudo
[00:26:04] isso faz mal para as pessoas,
[00:26:06] assim como faz mal certas formas de
[00:26:07] estar no trabalho, na linguagem e no
[00:26:10] desejo. Em vários sentidos
[00:26:11] é equívoca essa ideia da
[00:26:13] neutralidade, engajamento político
[00:26:15] dos psicanalistas. Primeiro porque isso
[00:26:18] acontece assim,
[00:26:20] a regra da abstinência
[00:26:22] vale para os tratamentos,
[00:26:23] e aqui a gente fala
[00:26:25] vamos dizer assim, da psicanálise em extensão,
[00:26:28] da psicanálise no mundo, da psicanálise
[00:26:29] na pólice. Mas mesmo dentro dos tratamentos
[00:26:32] a gente poderia observar
[00:26:33] que ali há uma economia de poder
[00:26:35] e que justamente Freud
[00:26:37] tematizou essa economia
[00:26:39] ao inventar a associação livre
[00:26:41] e ao desenvolver o conceito de resistência
[00:26:43] e de defesa, ao falar
[00:26:45] da interpretação, ao procurar
[00:26:47] vamos dizer assim, ultrapassar a censura
[00:26:50] na interpretação dos sonhos e dos
[00:26:51] sintomas. A ideia de que
[00:26:53] os psicanalistas não deveriam
[00:26:55] se posicionar politicamente, ela é também
[00:26:57] muito ruim, porque a política
[00:26:59] é uma das formas de ocupar o espaço
[00:27:01] público, ao lado da ciência, ao lado
[00:27:03] do debate público, ao lado das instituições.
[00:27:06] Porque a gente já viu
[00:27:07] ao longo da história, formações
[00:27:09] psicanalíticas muito
[00:27:11] verticais acabam produzindo
[00:27:13] modelos de tratamento verticalizados,
[00:27:15] modelos de tratamento subservientes,
[00:27:17] modelos de tratamento orientados para
[00:27:19] conformação, para adequação,
[00:27:21] para a reprodução ideológica
[00:27:23] da situação que a gente
[00:27:25] tem.
[00:27:25] No mundo, eu acho que é uma das
[00:27:27] coisas indiscutíveis, é como
[00:27:29] os psicanalistas se organizaram
[00:27:31] já desde 2016,
[00:27:34] a gente mesmo participou
[00:27:35] do Psicanalistas pela Democracia
[00:27:37] na Universidade de São Paulo,
[00:27:39] mas inúmeros outros movimentos
[00:27:41] de clínicas públicas, clínicas
[00:27:43] marginais, de inclusão
[00:27:45] e participação da psicanálise no
[00:27:47] espaço público, isso tudo
[00:27:49] torna hoje o Brasil um
[00:27:51] fenômeno de interesse mundial,
[00:27:53] pelo fato da psicanálise ser transformada
[00:27:55] num movimento que ultrapassa
[00:27:57] em muitas escolas de formação,
[00:27:59] foi impulsionado pelas redes
[00:28:01] sociais, foi impulsionado
[00:28:03] pela situação política precária
[00:28:05] do Brasil. Eu acho que isso mostra
[00:28:07] que é um agrupamento que não
[00:28:09] funciona exatamente como
[00:28:11] uma instituição unificada,
[00:28:14] onde você poderia ter
[00:28:15] lideranças conduzindo
[00:28:17] o processo, mas é um
[00:28:19] movimento relativamente espontâneo
[00:28:21] que reflete a presença antiga
[00:28:23] e contundente da psicanálise e da cultura
[00:28:25] brasileira.
[00:28:26] Escutar o Dunker sempre nos ajuda a expandir
[00:28:29] inclusive as nossas visões sobre
[00:28:31] psicanálise. E eu confesso
[00:28:33] que Lacan e a Democracia, o último livro
[00:28:35] do Christian, foi uma grande
[00:28:37] inspiração para esse episódio.
[00:28:39] E uma outra leitura desse momento
[00:28:41] um pouco regredido
[00:28:43] é exatamente esse debate
[00:28:45] que inclusive dentro da psicanálise
[00:28:47] a gente anda tendo com tanta frequência
[00:28:49] de políticas identitárias
[00:28:51] versus identitarismos.
[00:28:52] Não vai dar pra gente não falar sobre isso.
[00:28:55] A política passa por muitas questões
[00:28:56] e aí tem esses termos aí de políticas
[00:28:59] identitárias versus
[00:29:01] identitarismo, que seria uma crítica
[00:29:03] política identitária.
[00:29:05] E isso tem aparecido no campo da psicanálise
[00:29:07] com bastante força ultimamente.
[00:29:09] Tem uma discussão bem complexa
[00:29:11] em curso que a gente anda acompanhando,
[00:29:13] testemunhando alguns
[00:29:15] psicanalistas discutindo
[00:29:17] sobre isso, alguns brigando,
[00:29:19] se cancelando, depois se descancelando.
[00:29:22] Mas enfim, a gente tem que discutir
[00:29:23] mesmo. E em linhas bem gerais,
[00:29:25] mas enxergo da seguinte forma.
[00:29:27] Você me disse se você está mais ou menos alinhado comigo.
[00:29:29] De um lado,
[00:29:31] existe uma crítica
[00:29:32] com relação a essa crescente
[00:29:35] excitação e às vezes
[00:29:37] uma certa inflamação que a gente tem vivido
[00:29:39] com relação às lutas
[00:29:41] por direitos de grupos
[00:29:43] minoritários ou marginalizados
[00:29:45] que são alavancadas
[00:29:47] principalmente por uma esquerda
[00:29:48] progressista. Ninguém,
[00:29:51] espero eu, vai duvidar da relevância
[00:29:53] dessas lutas.
[00:29:55] Das críticas que se faz
[00:29:56] é que, de alguma forma, esses tais
[00:29:59] traços de identificação
[00:30:00] podem estar eclipsando
[00:30:03] e se sobrepondo
[00:30:04] à singularidade do sujeito.
[00:30:07] Ou criando
[00:30:08] essa tal soberania do eu,
[00:30:11] como diz o título do polêmico livro
[00:30:13] da Rodinesco.
[00:30:14] Bom, aí você foi buscar o que há
[00:30:17] de mais quente nesse debate no momento.
[00:30:19] Eu sinto que,
[00:30:21] em um certo sentido, basicamente é quando
[00:30:23] a gente se reduz
[00:30:25] talvez com algum
[00:30:27] excesso a um predicativo
[00:30:29] que é aquilo que confere
[00:30:31] ao sujeito uma característica.
[00:30:33] É uma diferença muito sutil
[00:30:34] entre dizer
[00:30:35] Oi, eu sou o Lucas e eu sou
[00:30:38] homossexual. Ou
[00:30:40] eu sou um homossexual
[00:30:42] que, por sinal, se chama Lucas
[00:30:44] e tem essa ou aquela biografia. Faz sentido?
[00:30:47] Meio gay governador, governador gay
[00:30:49] como é que é?
[00:30:50] Isso tem muito a ver com a forma como o sujeito
[00:30:53] entra na clínica e como
[00:30:55] as questões identitárias
[00:30:56] aparecem ou não aparecem.
[00:31:00] Existem,
[00:31:01] sem sombra de dúvida, os padecimentos
[00:31:03] que são específicos e estruturais
[00:31:05] por você ser
[00:31:07] mulher, por você ser LGBT,
[00:31:09] por você não ser branco,
[00:31:11] por ter alguma deficiência física, por ter uma
[00:31:13] certa idade. Tudo isso está aí.
[00:31:15] Mas quando a gente pensa na clínica,
[00:31:17] a gente não pode também se contentar
[00:31:19] com a parte desse padecimento
[00:31:21] que vem
[00:31:23] emprestada por um viés
[00:31:24] estritamente político.
[00:31:26] Eu acredito que cabe, sim,
[00:31:28] um tanto de militância no divã.
[00:31:31] Inclusive, cabe também um analista
[00:31:32] fazer essa escuta e, às vezes, inclusive
[00:31:34] também tomar alguma posição,
[00:31:36] considerando um efeito positivo
[00:31:38] que isso pode ter numa transferência.
[00:31:41] E, principalmente, cabe também
[00:31:42] acolher o sofrimento desse sujeito,
[00:31:44] que está invisibilizado, que foi excluído,
[00:31:47] que foi violentado.
[00:31:49] Mas isso não é
[00:31:50] o todo pra gente analistas.
[00:31:53] Isso é uma parte.
[00:31:54] Sabe que você começou pelo
[00:31:56] Eu Soberano, da Rudinesco?
[00:31:57] Então, aquele bom parênteses.
[00:32:00] Rudinesco, psicanalista
[00:32:02] francesa, muito importante,
[00:32:04] uma das biógrafas mais importantes
[00:32:06] do Freud, inclusive.
[00:32:07] Vem pensando a depressão há um tempo, de um jeito
[00:32:10] interessante, enfim.
[00:32:12] Então, muito difícil psicanalistas que se formaram
[00:32:14] sem ouvir falar ou sem ler
[00:32:16] a Rudinesco. Eu estava lendo
[00:32:18] uma resenha muito boa
[00:32:20] da Ana Carolina Beleu Martins,
[00:32:21] na revista Lacuna, sobre o Eu Soberano,
[00:32:24] a partir de um olhar um pouco mais
[00:32:26] de democratização da psicanálise,
[00:32:28] ou dessa abertura da psicanálise.
[00:32:31] Porque, vamos lá, se trouxe
[00:32:32] esse ponto da clínica, e eu concordo
[00:32:34] com ele. Acho que o papel
[00:32:36] do analista é conseguir
[00:32:38] furar a moral do sujeito
[00:32:40] e expandir a moral
[00:32:42] do sujeito, que às vezes é muito fechada.
[00:32:45] E pode ser fechada, inclusive,
[00:32:46] num discurso de militância.
[00:32:48] A questão é quando, nessa,
[00:32:50] no lugar de furar a moral,
[00:32:52] o analista fura o sujeito.
[00:32:54] Ou desmente o sofrimento
[00:32:55] do sujeito. Ou, de alguma forma,
[00:32:58] ignora os fatores
[00:33:00] sociais e políticos que estão em jogo,
[00:33:02] inclusive dentro da clínica, deitados
[00:33:04] no divã, junto com o nosso analisando.
[00:33:07] Mas, enfim, eu queria
[00:33:08] traçar um paralelo disso
[00:33:10] com toda a discussão ao redor
[00:33:12] do livro da Rudinesco.
[00:33:14] Li alguns trechos, confesso que não terminei
[00:33:16] ele. Mas tem uma
[00:33:18] conversa, assim, sobre como
[00:33:20] ela critica mesmo
[00:33:22] alguns estudos queer,
[00:33:24] interseccionais,
[00:33:26] Detona Butler, por exemplo.
[00:33:29] E eu acho
[00:33:30] que tem uma parte dessa resenha que eu
[00:33:32] estava falando que eu gosto muito, que diz
[00:33:34] assim, em tempos de debate
[00:33:36] sobre a democratização da psicanálise
[00:33:38] e a formação pública do psicanalista,
[00:33:41] a recepção acrítica
[00:33:42] das teses da historiadora francesa
[00:33:44] só reitera a velha negação
[00:33:46] do nosso eu suburbano,
[00:33:48] periférico, inevitavelmente
[00:33:50] atravessado pelas questões de classe,
[00:33:52] de raça e de gênero.
[00:33:54] Aqueles que estão entre as margens.
[00:33:57] Acho que tem uma questão, assim,
[00:33:58] de tentar se voltar para uma psicanálise
[00:34:00] purista e dizer que
[00:34:02] quem está tentando questionar
[00:34:05] a psicanálise é porque não leu direito,
[00:34:08] que acaba, no lugar
[00:34:09] de furar essa moral
[00:34:10] dos psicanalistas ou da psicanálise,
[00:34:14] acaba por, na verdade,
[00:34:15] fechar de alguma forma.
[00:34:17] O que eu penso sobre tudo isso?
[00:34:19] Eu acho que tem um ponto
[00:34:21] muito importante da gente escutar
[00:34:23] que é,
[00:34:24] uma frase belíssima do Dunker,
[00:34:26] que é,
[00:34:27] identidade é algo que a gente sofre.
[00:34:31] No sentido de que
[00:34:32] a identidade é para onde a gente foge
[00:34:34] para conseguir lidar com a falta e com a castração.
[00:34:37] Então, de alguma forma,
[00:34:38] a gente vai negar contradições,
[00:34:40] a gente vai negar conflitos
[00:34:41] em nome da nossa identidade.
[00:34:44] E isso tudo nos distrai, muitas vezes,
[00:34:46] da pergunta que realmente importa,
[00:34:48] que é o que eu quero?
[00:34:50] Do que eu estou afim?
[00:34:51] Então, no lugar de bancar o desconforto dessa pergunta,
[00:34:54] a gente vai construir
[00:34:56] um mood board perfeito de quem sou eu.
[00:34:59] Que, no lugar de a gente afirmar,
[00:35:00] a gente tem que sustentar a pergunta.
[00:35:02] As políticas identitárias acabam
[00:35:04] se contaminando pelo narcisismo?
[00:35:06] Ou como a gente luta para não eliminar
[00:35:08] o outro e não excluir a diferença,
[00:35:11] mesmo quando a gente está lutando
[00:35:12] por algum tipo de reconhecimento, visão e transformação?
[00:35:15] Para mim, tem uma história, assim,
[00:35:16] de que a análise, a gente sabe,
[00:35:18] é interminável. Mas isso não significa
[00:35:20] que ela não deva chegar em algumas conclusões.
[00:35:22] E tem uma conclusão que é,
[00:35:24] a gente assumir mais responsabilidade
[00:35:26] pelo nosso próprio sofrimento.
[00:35:29] Mesmo que exista
[00:35:30] um contexto social
[00:35:31] extremamente desfavorável
[00:35:33] para muitos de nós. Um sistema
[00:35:36] violento, tóxico,
[00:35:38] que nos atormenta, que é, sim,
[00:35:40] responsável por boa parte
[00:35:42] do nosso mal-estar. A gente não vai conseguir
[00:35:44] mudar isso sozinho, a gente não vai conseguir
[00:35:46] mudar isso também só desabafando
[00:35:48] com o nosso analista. Porque o mal-estar
[00:35:50] está dado, está na cultura.
[00:35:52] O que não quer dizer também que a gente
[00:35:54] deva se acostumar totalmente a isso.
[00:35:56] Essa é uma questão muito delicada, porque
[00:35:58] sempre que a gente começa a falar sobre esse assunto,
[00:36:01] a tendência é a gente se posicionar
[00:36:03] muito rapidamente
[00:36:04] com algum tipo de extremismo.
[00:36:06] Mas ainda sobre essa questão,
[00:36:08] eu gosto quando
[00:36:10] a psicanalista Clarissa Metzger
[00:36:11] fala assim, o risco
[00:36:13] é reduzir o sintoma neurótico
[00:36:15] à questão social. O que a gente tem que fazer
[00:36:18] é escutar o sujeito no que diz respeito
[00:36:20] a todos os significantes
[00:36:22] que o marcam. E isso vai incluir,
[00:36:24] sim, elementos políticos,
[00:36:26] sociais. Mas a gente não vai
[00:36:28] poder cair nessa armadilha de
[00:36:30] colocar todo o mal pra fora.
[00:36:32] A história do mal externo que a gente tanto fala.
[00:36:34] Sim, o mal também é interno.
[00:36:36] E a gente vai ter que conseguir fazer
[00:36:37] alguns acordos políticos com a gente
[00:36:40] mesmo. Até porque a gente só consegue
[00:36:42] lidar com o racismo,
[00:36:44] com a LGBTfobia,
[00:36:46] com o machismo, com as
[00:36:48] formas de opressão, a partir do
[00:36:50] momento que a gente lida com
[00:36:51] todas essas questões que estão dentro
[00:36:53] de nós. O fascista que habita
[00:36:55] em nós. Inclusive
[00:36:57] o analista opressor.
[00:37:00] Porque o analista não tá fora
[00:37:01] desse jogo. Se a gente não consegue
[00:37:03] escutar o nosso fascismo,
[00:37:05] a gente não consegue ouvir o do outro.
[00:37:08] Porque a gente vai desimplicar
[00:37:09] o sujeito. Ou a gente vai
[00:37:11] entrar nessa de denunciar,
[00:37:15] cancelar,
[00:37:16] matar. Certo?
[00:37:18] E eu achei muito bom isso que você falou
[00:37:19] um pouquinho antes sobre o extremismo.
[00:37:22] Porque a psicanálise,
[00:37:23] não sei se
[00:37:25] nasceu, mas desde o começo
[00:37:28] tá muito implicada
[00:37:29] nessa história de pensar
[00:37:31] o extremismo. De novo,
[00:37:33] uma das grandes viradas da psicanálise
[00:37:35] vem exatamente com a guerra.
[00:37:37] Vem com o nazismo.
[00:37:39] Vem com o Freud tentando dar
[00:37:41] conta dessa força muito mortífera
[00:37:43] que o Lacan radicaliza mais pra frente.
[00:37:46] Então vamos lá. Vamos à pergunta
[00:37:47] que não quer calar. Existe
[00:37:49] orientação política na psicanálise?
[00:37:51] A psicanálise seria de esquerda?
[00:37:53] Eu não tenho uma resposta.
[00:37:56] Tenho algumas coisas pra
[00:37:57] colocar na mesa pra gente pensar a respeito.
[00:38:00] Como você tava muito bem
[00:38:01] dizendo, a gente estuda
[00:38:03] na psicanálise sobre a psicologia das massas
[00:38:05] e sobre como
[00:38:07] os discursos conservadores
[00:38:09] são repressores
[00:38:11] e visam manter o
[00:38:13] sujeito reprimido.
[00:38:16] Tem um livro bem interessante que
[00:38:17] se chama Provocações para a Psicanálise no Brasil
[00:38:20] Racismo, Políticas
[00:38:21] Identitárias, Violências e Colonialismo.
[00:38:23] Que é organizado pela
[00:38:25] Paula Peron e pelo Pedro Ambra.
[00:38:27] Nesse livro, onde participam vários
[00:38:29] autores, a Priscila de Souza e a
[00:38:31] Miriam Rosa articulam sobre
[00:38:33] as resistências frente às violências
[00:38:35] cotidianas do Estado burguês.
[00:38:37] Elas trazem um ponto que é bem interessante
[00:38:39] com relação a esse mal-estar
[00:38:41] na civilização que é proposto por Freud.
[00:38:44] O Freud diz que
[00:38:45] a civilização impõe restrições
[00:38:47] à nossa sexualidade e agressividade
[00:38:49] em troca
[00:38:51] de uma pertença e
[00:38:53] proteção da vida em comum.
[00:38:55] Ou seja, a gente abre mão de uma parcela do nosso
[00:38:57] prazer imediato por uma
[00:38:59] parcela de segurança.
[00:39:01] Mas ele também afirma que
[00:39:03] nem todo mundo paga o mesmo preço
[00:39:05] pela civilização.
[00:39:07] São taxas diferentes.
[00:39:09] Tem uma parcela que sim
[00:39:11] tem mais proteção e
[00:39:13] tem menos restrições e infortunios
[00:39:16] e tem outra
[00:39:17] que tem mais restrições e menos
[00:39:19] proteção. Ou seja,
[00:39:22] existem grupos que
[00:39:23] são mais explorados pelo coletivo
[00:39:25] o que marca
[00:39:27] aí uma desigualdade
[00:39:29] no sofrimento. Como você estava
[00:39:31] falando, o Freud, como pai
[00:39:33] da psicanálise, enquanto um saber
[00:39:35] que era libertário,
[00:39:37] foi perseguido pelo regime nazista,
[00:39:39] teve suas obras queimadas, conseguiu fugir
[00:39:41] para Londres, as quatro irmãs
[00:39:43] dele foram mortas em campos
[00:39:45] de concentração. Tem um outro
[00:39:47] ponto também que é interessante
[00:39:49] a gente ressaltar, que é
[00:39:51] mais pra frente, uma relação muito
[00:39:53] significativa de influência
[00:39:55] entre o Lacan
[00:39:56] e o Maio de 68, que é um
[00:39:59] movimento jovem liberal que
[00:40:01] reivindicava por novos valores sociais, inclusive
[00:40:03] de sexualidade, e que também
[00:40:05] andava em linha com o marxismo francês.
[00:40:08] A mais-valia de Marx,
[00:40:09] inclusive, é um conceito que inspira
[00:40:11] o Lacan a criar
[00:40:13] o mais de gozar.
[00:40:15] Ao mesmo tempo, como a gente estava falando
[00:40:17] antes, se a gente olha hoje
[00:40:19] pra essa psicanálise mais francesa,
[00:40:22] ela muitas vezes torce,
[00:40:23] o nariz, e é avessa
[00:40:25] a forma como as pautas mais
[00:40:27] progressistas se articulam nos dias de hoje.
[00:40:30] É, não dá pra esquecer
[00:40:31] anos 2000, cânones da
[00:40:33] psicanálise francesa se colocando publicamente
[00:40:35] contra uniões homoafetivas,
[00:40:37] e famílias homoafetivas, na verdade.
[00:40:40] Por outro lado, a gente
[00:40:41] escuta muito também, num ponto
[00:40:43] bem contemporâneo assim, como se discute
[00:40:45] hoje sobre alienações
[00:40:48] sintomáticas do nosso
[00:40:49] psiquismo diante das modalidades
[00:40:51] neoliberais, do trabalho
[00:40:53] Então, tem muitas
[00:40:55] questões aí que a gente precisa saber
[00:40:56] diferenciar também, né, do que que é
[00:40:59] política no sentido de atuação do Estado,
[00:41:02] o que que são orientações
[00:41:03] econômicas, aquele
[00:41:05] espectro político, né, que tem aqueles
[00:41:07] quatro quadrantes
[00:41:09] da direita, esquerda, libertário,
[00:41:11] autoritário, que formam aquelas
[00:41:13] quatro combinações, né. É uma matriz interessante
[00:41:15] pra gente pensar a respeito
[00:41:17] e ir se localizando.
[00:41:19] Agora, o que eu acho
[00:41:21] que a gente consegue dizer,
[00:41:23] e articular aqui com um pouco mais
[00:41:25] de respaldo, é sobre
[00:41:27] a extrema-direita.
[00:41:29] O fascismo é historicamente ligado a uma abordagem
[00:41:31] ultraconservadora,
[00:41:33] ultradireitista e muito avessa
[00:41:35] a qualquer tipo de
[00:41:37] igualitarismo, ou de igualdade, ou até
[00:41:39] de equidade, né. Então, há um tempo
[00:41:41] atrás, a internet, ou pelo menos a minha bolha
[00:41:43] na internet, foi bastante tomada
[00:41:45] por uma discussão sobre a seguinte
[00:41:47] questão. Será que um psicanalista pode
[00:41:49] ser de extrema-direita?
[00:41:50] Foram muitos posts, comentários
[00:41:52] e vídeos a respeito.
[00:41:54] A minha ideia nem é retomar o detalhe
[00:41:56] dessa discussão ou ter uma conclusão.
[00:41:59] Pra quem se interessa,
[00:42:00] dá pra se aprofundar nesse ponto que tem bastante
[00:42:02] conteúdo, mas algumas coisas me chamam a atenção.
[00:42:05] Primeiro, que a psicanálise
[00:42:06] é sobre associação livre.
[00:42:09] E nada fala melhor sobre o poder
[00:42:10] da liberdade de expressão do que isso.
[00:42:13] A gente fala pra analista
[00:42:14] coisas que a gente não fala nem
[00:42:16] pra um grande amor da nossa vida,
[00:42:18] nem pra nossa família, nem pra gente mesmo.
[00:42:20] É que dirá num ambiente público, num palanque,
[00:42:22] a liberdade de expressão, então,
[00:42:24] é uma premissa básica.
[00:42:26] E isso, a gente sabe, não combina com um governo
[00:42:28] ditatorial que ameaça
[00:42:30] censurar ou derrubar os meios
[00:42:32] midiáticos. O fascismo
[00:42:34] é antipolítico. É não respeitar
[00:42:36] a constituição. É fugir do debate.
[00:42:39] É incitar a violência.
[00:42:41] É agredir as minorias.
[00:42:43] É a necropolítica. E por mais
[00:42:44] impoliticamente correto
[00:42:47] que seja o inconsciente,
[00:42:49] um psicanalista não tem como
[00:42:50] ter essas ideologias,
[00:42:52] ou comportamentos
[00:42:54] como base, né?
[00:42:56] É, acho que essa conversa toda sobre
[00:42:58] psicanálise política
[00:43:00] várias vezes envereda pra um caminho
[00:43:02] de uma psicanálise isentona,
[00:43:04] meio Juliana Paz.
[00:43:06] Mas nesse pensamento de que
[00:43:08] a neutralidade é possível.
[00:43:10] Até porque tem muitas pessoas que se
[00:43:12] identificam no espectro político
[00:43:14] mais próximas de ideais
[00:43:16] de direita. E também, talvez
[00:43:18] busquem analistas de direita.
[00:43:20] Ou priorizem algum tipo de
[00:43:22] inclinação. Mas, de novo,
[00:43:24] o amor transferencial ou a transferência
[00:43:27] é uma relação em que
[00:43:28] cabe a diferença.
[00:43:31] Da mesma forma que
[00:43:32] uma clínica muito saturada
[00:43:34] pelo politicamente correto, pela matriz
[00:43:36] identitária, é uma clínica
[00:43:38] muito narcísica. É uma clínica que
[00:43:40] não anda. Tem um vídeo
[00:43:42] do Safatle, lá
[00:43:44] na época da eleição de 2018,
[00:43:46] em que ele define o fascismo
[00:43:48] de um jeito muito incisivo,
[00:43:50] quase cortante.
[00:43:52] Essa ideia que o fascismo tem
[00:43:54] e que a outra direita também tem
[00:43:56] de brutalizar as relações
[00:43:58] e criar uma sociedade à imagem
[00:44:00] e semelhança de quem está no poder.
[00:44:02] O Freud diz, não são os povos
[00:44:04] que criam seus governos, são os governos
[00:44:07] que criam seus povos.
[00:44:08] Segundo ponto é
[00:44:10] o fascismo sustenta
[00:44:12] um Estado-nação paranoico.
[00:44:15] O medo como afeto político
[00:44:16] central é algo que está
[00:44:18] profundamente mobilizado
[00:44:20] pela extrema direita. Especialmente,
[00:44:22] esse medo do outro.
[00:44:24] E um analista e o medo
[00:44:26] do outro são duas coisas que não combinam muito.
[00:44:28] Uma análise e o medo do outro
[00:44:30] são duas coisas muito difíceis de se sustentar.
[00:44:33] Tem uma outra
[00:44:34] questão que é
[00:44:35] uma insensibilidade absoluta
[00:44:38] com o vulnerável.
[00:44:39] Essa divisão de quem
[00:44:42] venceu e quem perdeu.
[00:44:43] Quem pode e quem não pode. Separa.
[00:44:46] Quem merece fica, quem não merece
[00:44:48] está fora. Poder,
[00:44:50] dinheiro, enfim.
[00:44:52] Tem que se ferrar mesmo.
[00:44:54] Curiosamente, os exemplos
[00:44:56] que a gente tem sobre
[00:44:58] extrema direita até aqui
[00:45:00] são exemplos de líderes
[00:45:02] que muitas vezes estão fora da lei.
[00:45:05] Falam de ordem, falam de
[00:45:06] leis, se colocam acima dela.
[00:45:08] Ou recorrem a Deus.
[00:45:10] Exato. Eu ia buscar Hitler,
[00:45:12] Mussolini, Trump, Bolsonaro,
[00:45:15] Le Pen, enfim.
[00:45:16] Tem aí vários exemplos de
[00:45:18] líderes que não têm culpa,
[00:45:21] líderes que não têm vergonha,
[00:45:22] de trazer os desejos
[00:45:24] mais baixos de violência
[00:45:26] como expressão de liberdade.
[00:45:28] É por isso que, e aí o Safatle
[00:45:30] tem uma leitura brilhante
[00:45:32] na minha opinião,
[00:45:34] esses líderes precisam parecer
[00:45:35] cômicos. Essa mistura de
[00:45:38] militar e palhaço.
[00:45:40] É através dessa ironia e
[00:45:42] desse disfarce de piada
[00:45:43] que as convicções mais nefastas
[00:45:46] ou nojentas podem circular
[00:45:48] sem muita resistência.
[00:45:49] É brincadeira, não é sério,
[00:45:51] é só uma opinião,
[00:45:53] pelo menos é uma pessoa autêntica.
[00:45:55] Então é uma mistura
[00:45:57] de lei e ausência
[00:45:59] de lei. E que vai exatamente
[00:46:01] nessa chave do humor pra conseguir
[00:46:04] barrar algum tipo
[00:46:05] de censura
[00:46:07] da nossa consciência social
[00:46:10] coletiva.
[00:46:11] E aí, voltando finalmente
[00:46:13] pro teu ponto, acho que
[00:46:15] é por isso que é tão difícil
[00:46:17] a gente aproximar
[00:46:20] um psicanalista desse
[00:46:21] campo. Porque no final das contas
[00:46:24] é muito possível
[00:46:25] de ser uma clínica
[00:46:27] meio tirânica.
[00:46:29] Ou meio aprisionadora
[00:46:31] de alguma forma. Um analista
[00:46:33] de extrema direita. Mas claro,
[00:46:35] o espectro político, ele é rico,
[00:46:38] ele é extenso, vasto
[00:46:39] e ele muda o tempo inteiro.
[00:46:42] Então acho que isso também a gente
[00:46:43] não pode tirar do radar pra também
[00:46:45] não cair numa cilada de
[00:46:47] esquerda messiânica.
[00:46:51] Como a gente disse no começo,
[00:47:01] a psicanálise pode ser um grande recurso
[00:47:03] pra nos ajudar a navegar.
[00:47:05] Toda política é uma questão de circuito
[00:47:07] de afetos e estruturas de visibilidade.
[00:47:10] O que que pode nos afetar?
[00:47:12] Com qual intensidade?
[00:47:13] Em qual velocidade?
[00:47:15] E eu acho que falando sobre afetos,
[00:47:17] tem alguns bem complexos
[00:47:19] e que estão pairando
[00:47:21] na nossa paisagem
[00:47:24] social brasileira
[00:47:25] que a gente precisa discutir e elaborar
[00:47:27] bastante, que é o ódio e o medo.
[00:47:30] Podemos fazer um episódio sobre isso.
[00:47:32] Sobre o ódio, acho que a gente já escreveu
[00:47:33] bastante, inclusive, sobre o que a gente chamou de ódio SA.
[00:47:36] Vamos linkar aqui na descrição.
[00:47:38] Mas é um pouco dessa
[00:47:39] paisagem midiática,
[00:47:41] principalmente, que tem imagens
[00:47:43] muito fortes de violência,
[00:47:45] racismo, misoginia, impunidade,
[00:47:48] enfim. Parece que assim,
[00:47:49] o dia tá bom até que vem uma manchete gatilho,
[00:47:51] e aí acaba com tudo,
[00:47:53] e deixa a gente naquele estado de indignação
[00:47:55] e fúria. Tudo é
[00:47:57] politizável, tudo é polarizante,
[00:48:00] a gente vai sendo
[00:48:01] vítima do ódio dos outros,
[00:48:03] do nosso próprio ódio,
[00:48:05] e o ódio é extremamente viralizável, né?
[00:48:08] Eu fico pensando que
[00:48:09] a gente sabe que o ódio também é uma
[00:48:11] forma de sustentar vínculo.
[00:48:13] Odiar o Brasil, odiar a política,
[00:48:15] odiar os políticos, os eleitores,
[00:48:17] os brasileiros, a família que
[00:48:19] vota em X ou Y, enfim.
[00:48:21] É uma forma muito precária,
[00:48:24] muito desgastante,
[00:48:25] inclusive muito mortífera
[00:48:27] da gente sustentar o pacto
[00:48:29] social. E aí a gente escutou
[00:48:31] em uma das pesquisas
[00:48:33] que a gente fez, sobre como
[00:48:35] viver no meio do ódio só faz
[00:48:37] sentir medo. E o medo é
[00:48:39] exatamente o outro afeto que tá
[00:48:41] permeando muitas das relações e
[00:48:43] muitas das discussões
[00:48:45] políticas. Acho que a Rita Von Hunt
[00:48:47] fez um vídeo muito interessante
[00:48:49] no canal dela no YouTube sobre medo.
[00:48:51] Ela mobiliza alguns autores
[00:48:53] muito legais e que nos ajudam
[00:48:55] bastante a pensar. Mas vou pular
[00:48:57] pro final. Eu acho que o saldo
[00:48:59] disso tudo, de uma política
[00:49:01] mediada por medo e ódio,
[00:49:04] é um certo receio
[00:49:05] do trabalho democrático.
[00:49:07] A gente vai se retirando do trabalho democrático
[00:49:09] porque é muito desgastante. A gente sai
[00:49:11] muito chamuscado ou
[00:49:13] muito desinvestido.
[00:49:15] Ou muito deprimido. E se
[00:49:17] instala uma depressão cívica
[00:49:19] que é algo que a gente escreveu a
[00:49:21] respeito na newsletter da Float
[00:49:23] no Substack. O link também tá na descrição
[00:49:25] e a gente também falou um pouquinho no nosso Instagram.
[00:49:27] Vou ler só um trecho, tá?
[00:49:29] Depressão cívica é o labirinto de
[00:49:31] absurdos, desumanidades e a
[00:49:33] anedonia em que muitos de nós
[00:49:35] nos encontramos. É a sensação de que
[00:49:37] o mundo está em chamas, mas seguimos
[00:49:39] comprando air fryers. É desistir
[00:49:41] da esfera coletiva, porque mal
[00:49:43] se dá conta da esfera individual.
[00:49:45] Depressão cívica é um termo um pouco
[00:49:47] mais antigo, que inclusive surgiu no contexto
[00:49:49] do fascismo italiano, mas o
[00:49:51] Eduardo Losso, num artigo da
[00:49:53] Cult, trouxe de volta a depressão
[00:49:55] cívica pra dar um pouco de conta
[00:49:57] do momento que a gente tá. Esse momento
[00:49:59] de o embrulho no estômago não
[00:50:01] passa e como é que a gente faz passar
[00:50:03] tem um luto, ou
[00:50:05] muitos lutos, muito profundos
[00:50:07] que a gente não tá dando conta e que a gente tá
[00:50:09] se afastando muitas
[00:50:11] vezes. Por que que tudo isso importa
[00:50:13] pra uma discussão sobre psicanálise
[00:50:15] política? Porque a gente
[00:50:17] não anda elaborando, só
[00:50:19] trocando de afeto, tocando a boiada,
[00:50:21] e sendo consumido por esse
[00:50:23] contexto. Acho que várias
[00:50:25] vezes a gente escuta aquela pergunta
[00:50:27] o Brasil tem jeito?
[00:50:29] E aí a Carmen Silva falou esses dias
[00:50:31] algo que eu achei muito interessante,
[00:50:33] que ela disse, só tem jeito se a gente
[00:50:35] começar uma grande autópsia,
[00:50:37] que é a gente lidar com os esqueletos que
[00:50:39] tão no armário, embaixo da terra
[00:50:41] e ao nosso redor, e esses
[00:50:43] lutos que tão todos empilhados,
[00:50:45] embutidos, esmagados.
[00:50:48] É, nesse sentido a psicanálise
[00:50:49] é uma base teórica
[00:50:51] sobre o nosso psiquismo
[00:50:52] e sobre esses comportamentos
[00:50:54] em massa, que pode nos ajudar
[00:50:57] bastante a fazer uma análise de
[00:50:59] comportamentos, de discurso,
[00:51:01] talvez até tentar identificar
[00:51:03] os discursos desses agentes
[00:51:05] aí que tratam o outro muitas
[00:51:07] vezes como objeto, ou como
[00:51:09] mestre, ou como escravo,
[00:51:11] e não como sujeito. Esses aí são
[00:51:13] diferentes laços sociais que se fazem
[00:51:15] e desfazem o tempo todo, e a gente pode
[00:51:17] estar um pouco mais atento assim pra isso nos
[00:51:19] orientar a fazer melhores
[00:51:21] escolhas de como navegar, e até
[00:51:23] transformar um pouco da realidade. O Dunker
[00:51:25] diz que a luta social e política é
[00:51:27] travada não apenas na arena pública,
[00:51:29] mas também no espaço mais íntimo de cada
[00:51:31] sujeito, no inconsciente.
[00:51:33] Isso me faz pensar que talvez
[00:51:35] colocar-se em processo
[00:51:37] de análise também possa ser um ato
[00:51:39] político, e talvez até
[00:51:41] um analista que atua
[00:51:43] na sociedade também esteja fazendo
[00:51:45] um ato político. Agora, que atos
[00:51:47] são esses? Atos que talvez
[00:51:49] nos direcionem pra uma melhor relação,
[00:51:51] com os nossos pares, com os nossos
[00:51:53] semelhantes, com os nossos diferentes,
[00:51:55] que desmantelem
[00:51:57] um pouco desse ódio aí compulsivo
[00:51:59] que você fala. E não só com o outro
[00:52:01] que tá aqui fora,
[00:52:03] mas com quem a gente convive, mas também
[00:52:05] o outro que a gente tem
[00:52:06] internalizado em nós. Quantas histórias
[00:52:09] a gente não escutou há quatro anos
[00:52:11] atrás, que agora estão voltando com
[00:52:13] tudo sobre esses laços familiares
[00:52:15] estremecidos ou destruídos
[00:52:17] por diferenças partidárias, ideologias
[00:52:19] políticas e tudo mais. Isso
[00:52:21] tende a ser um grande sofrimento pra todo mundo.
[00:52:23] E eu acredito que uma análise
[00:52:25] pode sim nos ajudar a lidar melhor
[00:52:27] com esses impasses. Tem algo aí
[00:52:29] que, quando a gente pensa em política,
[00:52:31] não é só sobre o eu.
[00:52:33] Por mais que a gente queira sempre defender os nossos
[00:52:35] interesses, o nosso ponto de vista,
[00:52:37] é também sobre o outro e essa convivência.
[00:52:40] É, e é sobre
[00:52:41] as histórias, ou
[00:52:43] usando aquela palavra difícil,
[00:52:45] as narrativas que a gente vai topar,
[00:52:47] ou os discursos que a gente vai topar, como você bem disse.
[00:52:49] Acho que a psicanálise nos ajuda,
[00:52:51] a pensar que a memória
[00:52:53] é algo reeditado
[00:52:55] constantemente. A memória é o mais
[00:52:57] puro suco do ctrl-c, ctrl-v.
[00:52:59] Porque a gente vai copiando e colando
[00:53:01] acontecimentos pra formar novas imagens,
[00:53:03] conexões, redes de significado
[00:53:05] e a gente faz isso o tempo todo.
[00:53:07] O que a gente tá vendo na paisagem
[00:53:09] política nesse momento? A memória
[00:53:11] tentando ser reeditada de várias formas
[00:53:13] diferentes. Primeiro, a gente
[00:53:15] tá sendo obrigado, de uma vez
[00:53:17] por todas, a abrir mão dessa fantasia de
[00:53:19] país do futuro. Segundo,
[00:53:21] tem, por um lado, uma grande
[00:53:23] discussão sobre voltar
[00:53:25] a um passado glorioso, que não foi glorioso.
[00:53:27] E, por outro lado,
[00:53:29] o que a gente vai criar
[00:53:30] pra além de combater o mal. Enfim,
[00:53:33] só pra citar alguns. Mas eu acho que tudo isso
[00:53:35] é sobre exatamente o que você tá dizendo, que é
[00:53:37] que articulações coletivas
[00:53:39] a gente vai fazer da nossa memória
[00:53:41] pra gente conseguir projetar algum tipo
[00:53:43] de futuro e a gente parar de se sentir
[00:53:45] tão presos no presente.
[00:53:47] Ou atormentados pelo passado.
[00:53:49] Também é sobre isso, assim, né?
[00:53:51] Sobre memória e esquecimento
[00:53:53] e história.
[00:53:55] A política tem tudo a ver com isso, né?
[00:53:57] Como é que a gente consegue elaborar os acontecimentos?
[00:54:00] Os traumas
[00:54:01] antigos, mas também
[00:54:03] do ano passado, do ano retrasado.
[00:54:05] O que fizeram
[00:54:07] com a gente? E o que a gente fez
[00:54:09] daquilo que fizeram com a gente? Enquanto
[00:54:11] sujeito, enquanto grupo,
[00:54:13] enquanto um
[00:54:15] marcador identitário aí, e enquanto
[00:54:17] sociedade. A gente fala muito que
[00:54:19] o eleitor brasileiro tem memória
[00:54:21] curta. Porque tem coisas que a gente
[00:54:23] prefere tentar esquecer mesmo.
[00:54:25] Então a gente vai ter que relembrar
[00:54:27] tanto dos fatos como das
[00:54:29] versões e narrativas
[00:54:31] dos fatos. E fazer algum tipo
[00:54:33] de leitura crítica
[00:54:35] de tudo isso. Pra tomar
[00:54:37] decisões com um pouco mais
[00:54:39] de responsabilidade, consciência.
[00:54:41] A Maria Reitaquel tem essa hipótese de que
[00:54:43] essa onda de extrema-direita
[00:54:45] que a gente vem vivendo no Brasil
[00:54:47] há alguns anos é exatamente
[00:54:49] fruto de um recalque,
[00:54:51] de um recalque violento e de uma
[00:54:53] não-elaboração de um passado que
[00:54:55] segue nos atormentando, como você disse.
[00:54:57] E é isso que você falou, né?
[00:54:59] A elaboração, ela é sempre coletiva.
[00:55:01] O sujeito não consegue
[00:55:03] dar conta do luto sozinho. Vai
[00:55:05] precisar ir pra outras relações,
[00:55:07] vai precisar, nem que seja com um
[00:55:09] analista, lidar com algum tipo de
[00:55:11] perda e de significação pra
[00:55:13] essa perda. Sabe que tem uma coisa
[00:55:15] que me dá esperança, atualmente?
[00:55:17] No sentido de esperançar mesmo.
[00:55:19] De ser uma esperança ativa,
[00:55:21] que é essa quantidade
[00:55:23] e qualidade de projetos
[00:55:25] de rememoração, de elaboração
[00:55:27] do nosso passado político, da nossa história.
[00:55:29] Fazendo uma conta rápida,
[00:55:31] o Projeto Querino, do Tiago Rogério, a Rádio Novelo,
[00:55:34] o Passado a Quente,
[00:55:35] com o Rodrigo Vizeu, o Politiquês,
[00:55:37] do Nexo Jornal, o Retrato Narrado,
[00:55:39] da Carol Pires, também pela Rádio Novelo,
[00:55:41] o livro da Malu Gaspar,
[00:55:43] a série Junho de 2013,
[00:55:45] o Começo do Avesso, que tá na Globoplay,
[00:55:47] enfim, uma série de exercícios
[00:55:49] que estão tentando dar conta de
[00:55:51] peraí, quando foi
[00:55:53] colocado, gestado
[00:55:55] e aberto o tal ovo
[00:55:57] da serpente? Como é que a gente
[00:55:59] chegou até aqui? E qual
[00:56:01] é o lugar em que a gente se encontra?
[00:56:03] Claro, eu ainda acho que muitas dessas conversas
[00:56:05] estão limitadas a algumas bolhas,
[00:56:06] definitivamente tá na minha bolha da internet.
[00:56:09] Interessante pensar que tem muita gente
[00:56:11] buscando essas
[00:56:13] possibilidades reparadoras, de
[00:56:15] vamos então enxergar o que aconteceu
[00:56:17] pra que a gente consiga
[00:56:18] se mover e não ir
[00:56:21] numa direção de, por exemplo,
[00:56:22] o fim da democracia, ou
[00:56:24] derrubar essa democracia tão jovem na qual a gente
[00:56:27] vive. E a defesa da democracia
[00:56:29] é fundamental pra psicanálise, como a gente
[00:56:31] já disse. Pela liberdade de expressão,
[00:56:33] pela circulação da palavra
[00:56:34] e também por uma luta
[00:56:37] contra a normatização.
[00:56:39] Se é só na base da norma, não
[00:56:41] tem psicanálise. Nós, analistas,
[00:56:43] a gente não tá imune
[00:56:45] à reprodução de formas de violência
[00:56:47] e de opressão, porque a gente tá
[00:56:48] inserido nessa sociedade, mas
[00:56:51] é exatamente a partir dessa
[00:56:52] investigação das formas de opressão
[00:56:54] que estão em curso e como é que a gente faz
[00:56:57] esse trânsito da política
[00:56:59] dentro e fora da clínica,
[00:57:00] que a gente consegue entender
[00:57:03] um pouco de como tudo isso
[00:57:04] influencia o campo clínico.
[00:57:07] E eu acho que tudo isso nos convoca
[00:57:09] inclusive a sair de uma posição defensiva,
[00:57:11] a aceitar e abrir,
[00:57:13] construir novas possibilidades,
[00:57:15] recriar a psicanálise, recriar
[00:57:16] a política, exercitar uma
[00:57:18] capacidade imaginativa radical.
[00:57:21] Me parece que a gente pode
[00:57:22] encerrar por aqui, né, André?
[00:57:25] Vamos seguir elaborando. Vamos nessa.