Naruhodo #387 - Somos bons (ou maus) por natureza? - Parte 1 de 2
Resumo
Este episódio é a primeira parte de uma investigação sobre se os seres humanos são bons ou maus por natureza. Os apresentadores Ken Fujioka e Altair de Souza partem de perguntas de ouvintes que questionam a origem da bondade e da maldade, e se a sociedade corrompe o indivíduo ou se a maldade é uma característica inerente.
A discussão começa com uma análise das perspectivas filosóficas históricas. Jean-Jacques Rousseau defendia que o homem nasce bom e puro, sendo corrompido pela sociedade. Essa visão trouxe contribuições positivas, como o reconhecimento de que crianças são diferentes de adultos e a importância da educação infantil, mas também a problemática ideia da criança como uma ‘tábula rasa’.
Em oposição, Thomas Hobbes apresentava uma visão mais pessimista com sua famosa frase ‘homo homini lupus’ (o homem é lobo do homem), argumentando que os seres humanos são fundamentalmente egoístas e que a vida em estado natural seria uma guerra de todos contra todos. Immanuel Kant introduziu a ideia do ‘mal radical’ - uma tendência inata para a maldade - mas também desenvolveu a ética do dever, que defende regras universais como a Declaração dos Direitos Humanos, criando uma tensão em seu pensamento.
Friedrich Nietzsche oferece uma crítica radical a todas essas posições em sua ‘Genealogia da Moral’, argumentando que os conceitos de bem e mal surgem das relações de poder e dominação entre senhores (guerreiros e sacerdotes) e escravos, sendo fundamentalmente instrumentos de controle social rather than reflexões sobre a natureza humana.
O episódio conclui que essas diferentes perspectivas filosóficas continuam a ressoar no pensamento contemporâneo como ideologias que condicionam o discurso das pessoas. No entanto, a filosofia por si só não oferece respostas definitivas, sendo necessário recorrer a métodos interdisciplinares - como a teoria da seleção natural de Darwin, a teoria dos jogos e abordagens biológicas - para testar empiricamente essas hipóteses, o que será explorado na segunda parte do episódio.
Indicações
Episodios
- Naruhodo #135 e #136 — Episódios mencionados que tratam de como sabemos que os outros existem e não são apenas alucinações ou projeções nossas, abordando questões sobre a realidade e a existência do outro.
- Naruhodo #341 — Episódio anterior que aborda se a cooperação é algo inato nos seres humanos, que será retomado e expandido na segunda parte desta discussão.
Livros
- Emílio — Obra de Jean-Jacques Rousseau mencionada como fundamental para o desenvolvimento da educação infantil, onde ele argumenta que crianças precisam ser cuidadas e educadas de maneira diferente dos adultos.
- Genealogia da Moral — Livro de Friedrich Nietzsche que oferece uma crítica radical às concepções tradicionais de bem e mal, argumentando que surgem das relações de poder e dominação social rather than da natureza humana.
- Crítica da Razão Pura — Obra de Immanuel Kant onde ele desenvolve seus conceitos de imperativos categóricos e a ética do dever, incluindo a ideia problemática do ‘mal radical’.
- The General Theory of Natural Selection — Livro de Ronald Fisher (1930) que tentou dar uma sistematização matemática à seleção natural, introduzindo conceitos como ‘fitness’ evolutivo, mas que só foi amplamente reconhecido décadas após sua publicação.
Linha do Tempo
- 00:02:29 — Introdução à pergunta filosófica sobre bondade e maldade — Os apresentadores introduzem a questão central do episódio, baseada em perguntas de ouvintes: somos bons ou maus por natureza? Eles destacam que é uma pergunta que todos já se fizeram, mas que raramente se chega a uma conclusão satisfatória. A discussão será dividida em duas partes, começando pelas perspectivas filosóficas.
- 00:08:34 — Estrutura do episódio e abordagem filosófica — Altair explica a estrutura do episódio duplo. Esta primeira parte focará nas ‘causas eficientes’ - as diferentes explicações filosóficas sobre se nascemos bons ou maus. Ele destaca a importância de considerar que não somos onipotentes, não sabemos tudo sobre o mundo ou o que os outros pensam, e que existem contextos culturais, históricos e sociais que exercem pressão sobre os indivíduos.
- 00:13:14 — A perspectiva de Rousseau: o homem nasce bom — A discussão começa com Jean-Jacques Rousseau, que defendia que ‘o homem nasce bom e a sociedade o corrompe’. Esta ideia traz contribuições positivas como o reconhecimento de que crianças são diferentes de adultos e a importância da educação infantil. No entanto, também carrega a problemática noção da criança como ‘tábula rasa’ (pura e vazia), influenciada pelo pensamento cristão do pecado original.
- 00:17:13 — A perspectiva de Hobbes: o homem é lobo do homem — Em oposição a Rousseau, Thomas Hobbes apresenta a visão de que ‘homo homini lupus’ (o homem é lobo do homem). Hobbes argumentava que os seres humanos são fundamentalmente egoístas, buscando maximizar seus próprios interesses, resultando em um estado natural de guerra. Esta perspectiva reflete um pensamento mais protestante e competitivo, contrastando com a visão mais cristã de Rousseau.
- 00:21:13 — A perspectiva de Kant: mal radical e ética do dever — Immanuel Kant introduz a ideia do ‘mal radical’ - uma tendência inata para a maldade. No entanto, Kant também desenvolve a ‘ética do dever’, que defende regras universais (como os Direitos Humanos) que todos devem seguir independentemente de preferências pessoais. Esta ética exige que os indivíduos limitem seus interesses imediatos em benefício do coletivo, criando uma tensão em seu pensamento filosófico.
- 00:30:01 — A crítica radical de Nietzsche na Genealogia da Moral — Friedrich Nietzsche oferece uma crítica radical às posições anteriores em sua ‘Genealogia da Moral’. Ele argumenta que os conceitos de bem e mal não refletem a natureza humana, mas surgem das relações de poder entre senhores (guerreiros e sacerdotes) e escravos. Para Nietzsche, a moralidade é um instrumento de dominação social, particularmente do cristianismo, e a discussão sobre bondade e maldade mascara conflitos de classe e poder.
- 00:38:45 — Limitações da filosofia e necessidade de métodos interdisciplinares — Os apresentadores concluem que as diferentes perspectivas filosóficas se transformaram em ideologias que condicionam o discurso contemporâneo. No entanto, a filosofia por si só não oferece respostas testáveis à pergunta sobre nossa natureza. É necessário recorrer a métodos interdisciplinares - como a teoria da seleção natural de Darwin, que unificou a biologia no século XIX - para operacionalizar e testar essas hipóteses.
- 00:41:23 — Transição para a segunda parte: biologia e teoria dos jogos — O episódio prepara o terreno para a segunda parte, que explorará como a biologia evolutiva e a teoria dos jogos podem ajudar a responder a pergunta. Será discutido o trabalho de Ronald Fisher sobre fitness evolutivo na década de 1930, e como suas ideias foram desenvolvidas por William Hamilton na biologia e John von Neumann na economia/computação, criando ferramentas para estudar a cooperação e o altruísmo.
Dados do Episódio
- Podcast: Naruhodo
- Autor: B9, Naruhodo, Ken Fujioka, Altay de Souza
- Categoria: Science Social Sciences Science Life Sciences Education Self-Improvement
- Publicado: 2023-06-05T03:00:00Z
- Duração: 00:49:14
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/3f602eb0-4ae0-0134-ebfa-0d50f522381b/episode/dfa71035-d19f-48f3-9af5-a414719c8237/
- UUID Episódio: dfa71035-d19f-48f3-9af5-a414719c8237
Dados do Podcast
- Nome: Naruhodo
- Tipo: episodic
- Site: http://naruhodo.b9.com.br
- UUID: 3f602eb0-4ae0-0134-ebfa-0d50f522381b
Transcrição
[00:00:00] Somos bons ou maus por natureza? Parte 1
[00:00:05] Bem-vindo ao NARUHODO, podcast para quem tem fome de aprender. Eu sou Ken Fujioka.
[00:00:17] Eu sou Altair de Souza.
[00:00:18] E hoje é dia de quê?
[00:00:20] Ciência e senso comum.
[00:00:24] Você quer apoiar a ciência?
[00:00:27] Quer apoiar o pensamento científico?
[00:00:29] Quer ajudar o NARUHODO a se manter no ar?
[00:00:32] Ouvir os episódios e espalhar a palavra já é um grande passo.
[00:00:36] Mas existe um outro jeito.
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[00:00:41] Você escolhe um valor de contribuição mensal e tem acesso a conteúdos exclusivos, conteúdos antecipados e vantagens especiais.
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[00:01:21] E o momento Alura de hoje é diferente.
[00:01:24] Afinal, o uso de inteligência artificial, chamada também de IA, já é uma realidade.
[00:01:29] Profissionais que se adaptam melhor a esse novo cenário têm muito mais chances de crescer dentro de sua carreira.
[00:01:35] Por isso, a Alura criou a Imersão IA.
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[00:01:45] onde você vai entender como aplicar o uso da inteligência artificial em áreas como marketing, gestão, data science e até em desenvolvimento de software.
[00:01:53] Aproveite essa chance imperdível e gratuita de entrar nesse novo mundo.
[00:01:57] Isso mesmo que você ouviu.
[00:01:59] A Imersão IA é grátis.
[00:02:01] Mas atenção, as inscrições vão só até o dia 18 de junho.
[00:02:06] Então anota o URL aí.
[00:02:07] É bit.ly com Y no final, barra naruhodô, traço IA2023.
[00:02:16] Repetindo, bit.ly com Y, barra naruhodô, traço IA2023.
[00:02:24] Alura, mergulhe em tecnologia.
[00:02:29] Altaí, temos pergunta filosófica de ouvintes, Altaí.
[00:02:39] Sim, é uma pergunta que todo mundo alguma vez na vida já deve ter pensado e nunca chega numa conclusão satisfatória.
[00:02:46] Não sei se você tem uma resposta satisfatória para essa pergunta, hein, Kim?
[00:02:48] Olha, eu acho que não.
[00:02:53] Espero ter alguma resposta.
[00:02:57] Depois do final desse episódio duplo, Altaí.
[00:03:03] Isso, a ideia é a gente abrir vários caminhos.
[00:03:05] Então o importante quanto o final é o caminho até chegar lá.
[00:03:08] Tá certo, então a jornada ainda mais importante que o destino, é isso, Altaí?
[00:03:13] Exatamente.
[00:03:15] O primeiro e-mail, Altaí, veio do José Lucas, que é de Guaratinguetá, que é no interior de São Paulo,
[00:03:23] e é professor de História e Desenvolvimento de Games.
[00:03:27] E ele diz o seguinte, Altaí.
[00:03:29] Acabei de escutar todos os episódios do Narodô em quatro meses.
[00:03:36] E me veio um debate junto a um amigo, no qual somente vocês dois poderiam dar base teórica para a discussão.
[00:03:44] Afinal, o que é bondade e o que é maldade?
[00:03:48] Somos bons e maus?
[00:03:51] Ou é a sociedade quem define isso?
[00:03:53] Temos também o e-mail do Bruno Sérgio.
[00:03:57] E o Bruno diz o seguinte.
[00:04:14] Primeiramente, eu quero parabenizá-los pelo primoroso trabalho que realizam com o Narodô.
[00:04:18] Por meio deste podcast, eu tenho conseguido entender melhor alguns dos questionamentos que tenho e, confesso,
[00:04:26] vejo surgirem…
[00:04:27] outros a cada vez que os ouço.
[00:04:30] Ou seja, ouvi-los sempre me faz querer aprender mais.
[00:04:33] Olha só, tá isso que a gente quer, né?
[00:04:36] Essa é a ideia.
[00:04:37] O que eu queria perguntar tem relação com a defesa ou não dos direitos humanos.
[00:04:42] O que a ciência, talvez ainda mais a psicologia, a sociologia, a antropologia e mesmo a filosofia,
[00:04:49] tem a dizer sobre as pessoas que veem a necessidade de se defender os direitos humanos e aquelas que os refutam?
[00:04:56] Um exemplo.
[00:04:57] É alguns defenderem que bandido bom é bandido morto, aplicando a lei de Italião para crimes dos mais variados tipos.
[00:05:05] Outro seria a ideia de que o ser é bom e a sociedade é que o corrompe.
[00:05:10] Em que medida é a sociedade que de fato corrompe o ser e não é uma característica psicológica inerente ao ser?
[00:05:17] Ou, por outro lado, é possível acreditar que todo ser é bom por natureza e que se transforma devido ao meio em que vive?
[00:05:25] Talvez eu esteja utilizando…
[00:05:27] Exemplos extremos, mas acho que fica mais claro ilustrar dessa forma.
[00:05:31] O meu pensar é de que são ambos os fatores.
[00:05:34] São as características imanentes do ser associadas ao meio em que vive,
[00:05:39] bem como as oportunidades que definem se uma pessoa se tornará uma criminosa ou não.
[00:05:44] Se terá uma boa índole, conforme as definições sociais estabelecidas, ou não.
[00:05:50] O que me incomoda é ver pessoas sendo extremistas e pouco empáticas.
[00:05:54] Muitas provenientes de meios religiosos.
[00:05:57] Entendendo que as leis devem ser mais rígidas.
[00:05:59] Que criminosos devem levar tiro na cabeça para que o próximo perceba que aqui se faz, aqui se paga, etc.
[00:06:06] Isso é, pregam a eliminação sumária de pessoas que cometam delitos sem nem ao menos tentar entender
[00:06:13] as razões que levaram ela àquela vida e nem mesmo dar-lhes outra chance de mudar.
[00:06:20] Eu lembro do episódio em que vocês falam do modelo matemático estocástico
[00:06:24] em que há um conjunto de variáveis aleatórias
[00:06:27] que podem interferir na vida das pessoas
[00:06:29] e fiquei bastante interessado em ouvir mais a respeito.
[00:06:32] Eu não quero colocar em jogo o que é definido como certo ou o que é errado,
[00:06:36] mas tentar entender do ponto de vista das ciências o que define o ser.
[00:06:41] Na minha opinião, este assunto é mais complexo, embora seja interessante também discuti-lo.
[00:06:46] Quais as questões psicossociais e antropológicas definiram o certo e o errado e por quê?
[00:06:52] Mais uma vez, parabéns pela cena de trabalho e desejo vida longa ao podcast.
[00:06:57] Obrigado, Bruno César.
[00:07:04] E finalmente, Altair, o e-mail também do Rodrigo Benites,
[00:07:09] que é arquiteto de software do Rio de Janeiro.
[00:07:12] Ele diz o seguinte,
[00:07:13] em 2019 tivemos o que foi considerado o pior temporal da história do Estado
[00:07:18] que causou transtornos e mortes por aqui no Rio de Janeiro.
[00:07:22] Porém, diante desse cenário de destruição,
[00:07:25] vimos vários exemplos de pessoas destruídas.
[00:07:27] Desconhecidas se ajudando, fazendo o possível para salvar vidas
[00:07:31] ou ajudar os que precisam.
[00:07:33] Esses eventos de catástrofe despertam o melhor do ser humano
[00:07:37] que contrasta com tantos exemplos de maldade que vemos diariamente.
[00:07:42] Assim, eu pergunto, o que a psicologia tem a dizer sobre isso?
[00:07:45] O ser humano é inerentemente bom?
[00:07:48] Estamos seguindo nossa natureza ou sendo sufocados pelo comportamento imposto pela sociedade?
[00:07:54] Abraço a todos e continuem…
[00:07:57] Com um ótimo podcast!
[00:08:08] Altaí, o bem, o mal, o ser humano…
[00:08:12] O que a ciência tem a dizer sobre isso, Altaí?
[00:08:16] A gente vai ter que ir para além da ciência para responder essa pergunta.
[00:08:20] Por isso que ela demorou tanto para sair também,
[00:08:21] porque é uma coisa que surgiu em evidências mais modernas,
[00:08:25] mas é uma questão filosófica.
[00:08:27] E aí mostra por que tem que ser um episódio duplo.
[00:08:30] O que a gente vai ter em cada parte, fazendo o menu, mais ou menos?
[00:08:34] Nessa primeira parte, a gente vai atacar as causas eficientes
[00:08:37] desse suposto inatismo pela bondade ou a maldade,
[00:08:40] que são basicamente as questões filosóficas.
[00:08:42] As diferentes explicações filosóficas.
[00:08:44] Vai ser um pouco o tom desse primeiro episódio.
[00:08:47] A ideia é que no final desse primeiro episódio, a gente chegue num ponto
[00:08:50] que vai ser necessário certos métodos diferentes e interdisciplinares
[00:08:56] para atacar o problema.
[00:08:57] Então, uma coisa importante para tentar responder essa ideia,
[00:09:00] se a gente é bom ou mal por natureza, é pensar primeiro no indivíduo
[00:09:04] e, partindo do pressuposto que o indivíduo, eu, você, qualquer pessoa que estiver ouvindo,
[00:09:09] nós não somos seres onipotentes.
[00:09:11] Tudo bem, Ken?
[00:09:12] Isso dá para admitir, né?
[00:09:13] Que a gente não é onipotente e a gente não sabe tudo o que acontece
[00:09:16] ao mesmo tempo em todo lugar.
[00:09:18] É verdade, embora algumas pessoas parecem não aceitar isso, não, Altaí?
[00:09:23] Isso, eu tenho dificuldades de lidar com isso, né?
[00:09:25] Com a nossa falibilidade.
[00:09:27] Então, assim, pelo fato da gente não ser onipotente,
[00:09:30] a gente não sabe muitas das coisas que nos controlam do mundo
[00:09:33] e, mais do que isso, a gente não sabe o que o outro está pensando também, né?
[00:09:38] Assim, primeiro a gente tem que partir do pressuposto de que existe um outro
[00:09:41] e a existência desse outro, a gente já atacou num episódio duplo também, mais antigo,
[00:09:47] que é como eu sei que você é você e não eu.
[00:09:50] É o episódio 135 e 136, tá?
[00:09:52] Certo.
[00:09:53] Nesses dois episódios, a gente já explica, mostra, por que existe o outro.
[00:09:57] Porque você pode achar, o outro é uma alucinação completa,
[00:10:00] quem garante que a realidade existe.
[00:10:02] Aí tem o episódio 135 e 136.
[00:10:04] Então vamos assumir isso como dado.
[00:10:06] Dado isso, dado que existe um outro,
[00:10:08] e eu não sei o que esse outro está pensando, muitas vezes, em muitas interações,
[00:10:13] eu tenho que lidar com essa incerteza.
[00:10:15] Então, como é que eu lido com isso?
[00:10:16] Outra questão é que, além das pessoas, existe um contexto.
[00:10:21] E esse contexto é cultural, histórico, econômico, antropológico, enfim,
[00:10:26] que também exerce pressão sobre o indivíduo.
[00:10:29] E também exerce pressão sobre o outro.
[00:10:31] Então, o primeiro episódio é para contextualizar a questão filosófica.
[00:10:36] Colocar os diferentes discursos, que estão presentes, inclusive, nas perguntas das pessoas.
[00:10:40] As perguntas dos nossos ouvintes refletem muito isso.
[00:10:43] Será que o indivíduo nasce bom e a sociedade o corrompe?
[00:10:47] Ou o indivíduo é inerentemente mal e a sociedade que coloca limite
[00:10:51] nessa vontade que o indivíduo tem de maximizar seus próprios interesses?
[00:10:55] O próprio fato de você se indagar sobre isso é um discurso filosófico.
[00:11:00] Tem filósofos que estruturam isso.
[00:11:02] Então, a ideia é fazer uma genealogia disso.
[00:11:05] E mostrar que, no final, não tem muita resposta.
[00:11:08] A menos que a gente use outros métodos.
[00:11:10] E aí, um dos métodos que surgiu no começo do século,
[00:11:13] 20 para 21, é a teoria de jogos.
[00:11:17] Então, isso vai desembocar para o segundo episódio.
[00:11:19] Em que a gente vai falar das causas formais.
[00:11:22] Que aí entra um pouco, vou contar um histórico básico,
[00:11:24] das teorias de jogos.
[00:11:26] E também da causa final, que diz respeito ao aspecto evolutivo.
[00:11:29] Porque, assim, se eu sou bacana, vamos supor que eu sou uma pessoa boa.
[00:11:33] Eu nasci bom.
[00:11:34] Se uma pessoa nasce boa, ela ajuda os outros.
[00:11:38] Legal.
[00:11:38] Só que, muitas vezes, você vai ajudar os outros
[00:11:41] incorrendo num dano para você.
[00:11:44] Então, a gente tem que atacar a questão do altruísmo.
[00:11:47] Então, ser altruísta é ajudar o outro sem retorno.
[00:11:51] Ou, às vezes, infligindo um dano a você mesmo.
[00:11:54] E isso não faz sentido, a rigor, a primeira vista,
[00:11:59] do ponto de vista adaptativo, pensando na causa final.
[00:12:02] Se eu sou um organismo, e meu interesse é passar os genes para frente,
[00:12:06] interesse não do indivíduo, interesse da espécie.
[00:12:08] Se eu for legal com todo mundo, eu vou acabar me desfavorecendo,
[00:12:12] meus genes não passam.
[00:12:13] Então, não deve ser adaptativo ser altruísta.
[00:12:15] E a pergunta é, será?
[00:12:16] Será que não tem contextos em que o altruísmo pode florescer?
[00:12:19] A gente já tem um episódio anterior que a gente atacou essa questão.
[00:12:22] Que é o episódio 341.
[00:12:24] Se a cooperação é algo inato, a gente vai retomar esse episódio
[00:12:28] e trazer mais elementos para isso também, na segunda parte do episódio.
[00:12:33] E aí entra também questões de causa formal ligada ao nosso cérebro mesmo,
[00:12:38] ao desenvolvimento.
[00:12:40] Um pouco de causa formal, um pouco de causa eficiente.
[00:12:42] Será que bebês nascem bonzinhos?
[00:12:44] Os filósofos não estudavam bebês.
[00:12:46] Não estudavam crianças pequenas, não tinha método para isso.
[00:12:49] O quanto que estudos com crianças pequenas ou com outras culturas
[00:12:52] ajudam a gente a tentar colocar algum tipo de solução nessa questão.
[00:12:57] Se a gente é bom ou mal por natureza.
[00:12:59] Então, basicamente, esse é o roteiro geral da ideia do episódio.
[00:13:03] Mas vamos começar pelo começo.
[00:13:05] Vamos começar primeiro pela filosofia.
[00:13:06] Essa ideia que apareceu até nos comentários de alguns dos nossos ouvintes.
[00:13:11] Que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe.
[00:13:14] De quem vem?
[00:13:15] Quem começou com essa história?
[00:13:16] Rousseau.
[00:13:17] Rousseau começou com essa história.
[00:13:18] Ele claramente fala isso.
[00:13:19] Que o homem nasce puro.
[00:13:21] A ideia.
[00:13:22] Nasce bom e a sociedade corrompe.
[00:13:24] A sociedade impregna injustiças no indivíduo.
[00:13:28] E aí ele se sente coagido pela civilização e acaba se tornando mal.
[00:13:32] Essa ideia do Rousseau, ela é…
[00:13:34] Todo discurso filosófico é dialético.
[00:13:37] Tem coisas positivas e tem críticas.
[00:13:39] O lado positivo, aí leva muito em conta o cenário histórico que o Rousseau vivia.
[00:13:44] Que era um cenário da monarquia.
[00:13:46] E, sobretudo, crise do modelo monárquico.
[00:13:49] Ele veio um pouquinho antes da Revolução Francesa.
[00:13:51] Então, um pouquinho antes da dissolução da monarquia e estabelecimento dos estados-nação.
[00:13:58] Lembrando que o Rousseau defendia a monarquia.
[00:14:00] Ele era favorável.
[00:14:02] Um lado positivo desse pensamento, de você pensar que o ser humano é bom e a sociedade o corrompe,
[00:14:07] é essa ideia da pureza.
[00:14:09] Sabe isso que aparece nos discursos das pessoas?
[00:14:11] Que as crianças pequenas são puras.
[00:14:13] Sim.
[00:14:14] De onde veio essa lógica?
[00:14:15] De onde veio esse meme?
[00:14:16] Vem do Rousseau.
[00:14:17] De que a natureza é correta, é lógica.
[00:14:21] E gera seres puros.
[00:14:23] E aí há a interação dos indivíduos que gera os problemas e os conflitos.
[00:14:26] É do Rousseau também essa ideia de que as crianças, os bebês, as crianças nascem como uma tábula rasa.
[00:14:33] Que não tem nada.
[00:14:34] Ela é pura.
[00:14:35] Quando você pensa em pureza, você pensa no branco.
[00:14:37] Você pensa em algo sem nada.
[00:14:39] A ausência de alguma coisa.
[00:14:41] E aí a sociedade vai colocando coisas.
[00:14:43] O Rousseau, por exemplo, por um lado positivo desse pensamento, não é que ele é verdadeiro.
[00:14:47] Mas um lado positivo é que ele é o primeiro…
[00:14:51] Filósofo, por exemplo, que mostra que crianças são diferentes de adultos.
[00:14:55] A criança nasce e a sociedade precisa moldar ou dar competências para essa criança para ela se tornar um adulto.
[00:15:03] Então, por exemplo, ele era contra trabalho infantil.
[00:15:06] O trabalho infantil…
[00:15:08] Tipo, criança não é um adulto pequeno.
[00:15:11] Criança precisa ser cuidada.
[00:15:14] Ela tem que se desenvolver.
[00:15:15] Então, o lado muito positivo do Rousseau é o desenvolvimento da educação infantil.
[00:15:21] Menos…
[00:15:21] Mesmo.
[00:15:21] Que crianças precisam aprender.
[00:15:23] Elas têm uma lógica de cognição, de aprendizagem, diferente do adulto.
[00:15:27] Se você cuidar da criança, você gera um adulto melhor.
[00:15:31] Apesar de, à primeira vista, parecer meio inocente essa lógica do Rousseau,
[00:15:35] ela tem uma consequência importante, que é a criação da educação mesmo.
[00:15:38] Então, ele tem um texto fantástico, que é Emílio,
[00:15:41] que ele mostra a importância da educação.
[00:15:43] E da educação infantil.
[00:15:44] É muito melhor para o Estado, ou para a monarquia, para as cidades, enfim.
[00:15:49] É muito melhor para a coletividade você…
[00:15:51] educar uma criança, do que corrigir um problema de um adulto.
[00:15:55] Isso vem dele.
[00:15:56] É muito positivo.
[00:15:58] O lado regressivo do Rousseau é essa ideia de achar que a criança é uma tábua rasa.
[00:16:04] Que ela vem sem nada.
[00:16:05] O que faz sentido num contexto pré-seleção natural,
[00:16:09] pré-todo uma gama de desenvolvimentos biológicos,
[00:16:12] da biologia que veio só depois.
[00:16:14] Mas essa lógica do Rousseau, de que a criança nasce pura e a sociedade corrompe,
[00:16:20] tem um pouco a ver.
[00:16:21] Com um modelo cristão.
[00:16:23] É um modelo cristão de pensar.
[00:16:25] Do pecado original, de que os indivíduos nascem pelo pecado, mas não é culpa deles.
[00:16:31] Então já é uma herança que você carrega.
[00:16:34] Então você tem que viver como um ser em penitência.
[00:16:37] Algo do tipo.
[00:16:38] Faz sentido, Kim?
[00:16:40] Sim.
[00:16:40] Então, de novo, isso não é verdade.
[00:16:43] Mas é um discurso presente num certo período da civilização,
[00:16:47] que como uma pedra solta no mar, na água,
[00:16:51] num lago, você joga uma pedra num lago, gera aquelas ondas.
[00:16:54] Aquelas ondas, por mais fracos que sejam, estão chegando na gente ainda.
[00:16:58] Então as pessoas reproduzem, muitas vezes, esses tipos de discurso.
[00:17:02] É interessante esse discurso do Rousseau.
[00:17:03] Então, assim, pelo Rousseau, o Rousseau é do time que nascemos bons.
[00:17:06] E a culpa é dos outros.
[00:17:08] Mas claro que tem o time do outro lado.
[00:17:10] O time do outro lado.
[00:17:10] Quem que veste a camisa do outro lado?
[00:17:12] Thomas Hobbes.
[00:17:13] Thomas Hobbes, homo homini lupus.
[00:17:16] O homem é lobo do homem.
[00:17:17] Que ali é treta mesmo.
[00:17:19] Aqui o pau come.
[00:17:20] O bagulho quebra.
[00:17:22] Então, Thomas Hobbes é outro lance.
[00:17:24] Inclusive temos dois textos fantásticos de discussão do modelo de Thomas Hobbes
[00:17:30] sobre essa ideia do lobo.
[00:17:32] Porque assim, tudo bem, a ideia básica do Thomas Hobbes é que
[00:17:36] cada indivíduo com seus problemas,
[00:17:39] cada indivíduo vai tentar maximizar seu próprio interesse,
[00:17:42] e o negócio é guerra.
[00:17:43] É treta nervosa.
[00:17:44] O negócio é esse.
[00:17:46] Então você caiu na selva, mano, se vira aí.
[00:17:50] Claro que não é bem assim também.
[00:17:51] Mas muitas áreas hoje, principalmente áreas ligadas a um modelo de mercado, por exemplo,
[00:17:57] tem muito essa perspectiva de um querer comer o outro.
[00:18:00] O homem é o lobo do homem.
[00:18:02] Mas tem uma discussão filosófica interessante da figura do Thomas Hobbes mesmo,
[00:18:07] no contexto dele, desse discurso,
[00:18:10] que é a ideia do lobo.
[00:18:11] Por que o lobo?
[00:18:13] Por que não um outro bicho?
[00:18:14] É interessante isso, porque na época do Thomas Hobbes,
[00:18:19] existia um certo tipo de lobo,
[00:18:21] uma lógica, um discurso nessa época,
[00:18:24] que era meio que um conflito entre o homem e a natureza,
[00:18:29] ou entre o homem e o animal, sabe?
[00:18:31] Então tem muito pensamento cartesiano de separar mente e corpo.
[00:18:36] Então os homens têm uma mente diferente,
[00:18:40] que não habita outros organismos.
[00:18:43] Essa separação do que é homem e do que é animal,
[00:18:46] e qual parte dentro do homem está o animal.
[00:18:49] Sabe esse conflito?
[00:18:51] E entender o lobo como um animal que não tem valores,
[00:18:57] não tem regras morais,
[00:18:59] ele está ali só por ele mesmo, sabe?
[00:19:01] Do egoísmo mesmo, interno.
[00:19:03] Que, na verdade, depois do século XX,
[00:19:05] você vai estudar etologia,
[00:19:06] a última coisa que o lobo é é egoísta, sabe?
[00:19:09] Não tem nada a ver.
[00:19:10] Mas tudo bem, né?
[00:19:11] É mais a simbologia do lobo.
[00:19:14] Isso, exatamente.
[00:19:15] E aí, na época do Thomas Hobbes,
[00:19:17] existia muito uma lógica que é chamada licantropia,
[00:19:21] a licantropia, hoje, se você tem até no DSM,
[00:19:24] se você olhar, ela é um transtorno mental, tá?
[00:19:27] Na época não era, claro, é só um nome, né?
[00:19:29] Mas a licantropia, quando a pessoa tem isso, né?
[00:19:33] Um quadro dissociativo e tal,
[00:19:35] a pessoa tem uma autoilusão de que ela vai se transformar em um animal,
[00:19:39] ou ela acha que é um animal.
[00:19:41] Isso é uma doença, né?
[00:19:43] Aí é um quadro dissociativo.
[00:19:44] Quando que surgiu a ideia do lobisomem?
[00:19:47] Foi nessa época do Thomas Hobbes.
[00:19:48] Do Thomas Hobbes, né?
[00:19:49] A ideia do lobisomem,
[00:19:51] que numa certa situação se transforma em lobo, sabe?
[00:19:53] E aí tem atitudes diferentes, né?
[00:19:56] Então essa cisão homem-animal
[00:19:58] é muito presente no pensamento do Thomas Hobbes, assim.
[00:20:02] E é um pensamento cristão-protestante.
[00:20:05] Certo.
[00:20:06] Tem a ver com essa ideia protestante também, sabe?
[00:20:08] Do homem ser designado a ser aquilo que ele quer ser, sabe?
[00:20:13] De largar um pouco…
[00:20:14] Não tem nada do pensamento da monarquia, né?
[00:20:17] Não tem essa coisa de nascer com sangue azul.
[00:20:19] Todo mundo é meio igual.
[00:20:21] E exatamente por ser igual, você tá na treta.
[00:20:23] Você cai no meio da bagunça.
[00:20:25] Então a sua ideia é, tipo, fazer o melhor que você pode de você mesmo,
[00:20:28] porque os outros estão sempre querendo te passar a perna.
[00:20:31] Sabe?
[00:20:31] Qualquer semelhança com a agência de publicidade,
[00:20:33] bela coincidência, não é verdade?
[00:20:35] Thomas Hobbes impera, né?
[00:20:37] Tá ali, homem é lobo do homem.
[00:20:38] Veja que os dois discursos coexistem, né?
[00:20:40] Na sociedade, né?
[00:20:41] Tem o discurso do Rousseau, da pureza das coisas,
[00:20:44] que é mais cristão, assim, né?
[00:20:46] Tem o pensamento do Thomas Hobbes,
[00:20:48] que é aquela coisa mais de predestinação,
[00:20:50] que eu vou ser predestinado,
[00:20:51] a vencer.
[00:20:51] Aquela coisa mais competitiva, né?
[00:20:53] Que é mais protestante, tal, tal, tal, né?
[00:20:56] Então, é interessante que essa visão do inatismo,
[00:21:01] da bondade e da maldade, no Ocidente,
[00:21:04] é muito ligada à maneira como você vê a religião cristã.
[00:21:09] Aí tem um outro também que corre por fora,
[00:21:11] que é o Kant, né?
[00:21:13] O Kant é um pouquinho do time do Hobbes, tá?
[00:21:15] Ele tem um conceito que vem um pouco do cristianismo também,
[00:21:20] que é chamado de mal radical.
[00:21:22] Mal radical.
[00:21:23] As pessoas têm um mal radical.
[00:21:25] Então, ele era do time que as pessoas nasciam más.
[00:21:27] Que existe uma maldade, uma raiz da maldade, assim.
[00:21:31] Isso, isso.
[00:21:32] Existe uma tendência a ser mal.
[00:21:34] Sabe um a priori?
[00:21:36] Tipo, o a priori de todo indivíduo é ser mal.
[00:21:39] Tá?
[00:21:39] No pro Kant.
[00:21:40] Porque ele comenta mesmo, no Crítica da Razão Pura, né?
[00:21:43] Ele comenta que um dos imperativos categóricos,
[00:21:45] imperativo categórico,
[00:21:47] são as causas necessárias mínimas
[00:21:49] que todo indivíduo deve ter,
[00:21:51] todo ser humano deve ter,
[00:21:52] a causa necessária mínima para aquisição de conhecimento.
[00:21:55] E o que seria conhecimento para o Kant?
[00:21:57] Aquisição do pensamento lógico-matemático.
[00:22:00] É isso que ele define.
[00:22:01] Então, tem alguns imperativos categóricos.
[00:22:03] Um deles é a moral.
[00:22:04] Todo indivíduo nasce com a capacidade de ter moralidade.
[00:22:08] A questão é o que você vai fazer com isso.
[00:22:10] Certo.
[00:22:10] Mas ter moralidade, todo mundo tem.
[00:22:12] Assim como ter noção de causa, noção de tempo,
[00:22:16] noção de quantidade e coisas do tipo.
[00:22:18] São os imperativos.
[00:22:19] Então, a moralidade era um imperativo.
[00:22:22] Você já nascia com isso.
[00:22:24] Então, o Kant defendia muito que a moralidade era inata.
[00:22:28] Você nascia com a capacidade de ser moral.
[00:22:31] E aí, moral é ter a capacidade de ser bom ou mal.
[00:22:35] Mas o Kant defendia que você dava uma puxadinha maior para o mal.
[00:22:38] Que você tendia a ser meio ruim.
[00:22:41] Só que aí, o que acontece?
[00:22:43] Essa ideia do mal radical do Kant não colava muito bem.
[00:22:47] O Kant nunca explicou isso direito.
[00:22:48] Sabe?
[00:22:49] Os críticos a essa ideia.
[00:22:50] Por quê?
[00:22:51] Porque essa ideia do mal radical batia com outras ideias dele que eram melhor justificadas.
[00:22:57] Por exemplo, o Kant defendia muito a ideia da ética do dever.
[00:23:01] E o que é a ética do dever?
[00:23:03] O Kant foi o primeiro que separou a ética de moral.
[00:23:06] Então, assim, eu enquanto indivíduo sou moral, mas eu busco a ética.
[00:23:10] A ética não é do indivíduo.
[00:23:12] A ética é uma meta.
[00:23:14] Então, assim, a ética é o que você gostaria de ser.
[00:23:16] A moral é o que você consegue ser no dia a dia.
[00:23:19] Então, ele é o primeiro que separa isso.
[00:23:21] E aí, ele fala, no Crítica da Razão Pura, mesmo, abre aspas, ele fala que os indivíduos
[00:23:28] devem, uma regra que as pessoas devem ter,
[00:23:31] viva segundo uma máxima que você deveria ter por universal.
[00:23:35] Então, as regras éticas são as regras que possibilitam a vida em sociedade,
[00:23:39] porque todo mundo tem que aceitar.
[00:23:41] Não importa se você gosta ou não, você tem que aceitar.
[00:23:44] Isso tem a ver com o e-mail do Bruno, que fala, né?
[00:23:47] Por que tem pessoas que defendem, por exemplo,
[00:23:49] direitos humanos e outras não?
[00:23:51] O que é, por exemplo, a Declaração dos Direitos Humanos, né?
[00:23:54] A Declaração dos Direitos Humanos são regras que servem para qualquer pessoa.
[00:23:59] Todas as pessoas têm que seguir.
[00:24:01] É uma regra universal, tá?
[00:24:03] E de onde surgiu a ideia de que, socialmente, a gente deveria ter regras universais?
[00:24:09] Do Kant.
[00:24:10] Isso é a ética do dever.
[00:24:11] Porque você tem o dever de seguir aquela regra, né?
[00:24:14] Então, por exemplo, que está no…
[00:24:16] Na Declaração de Direitos Humanos.
[00:24:20] Primeira coisa.
[00:24:20] Toda pessoa tem direito à vida.
[00:24:23] Isso é uma regra geral.
[00:24:24] É uma regra universal.
[00:24:26] Essa é a regra ética.
[00:24:27] A gente tem que fazer o máximo possível para que todas as pessoas tenham o direito à vida.
[00:24:32] Tudo bem?
[00:24:33] E, de novo, se eu perguntar para você, Ken,
[00:24:36] você concorda ou não com essa afirmação?
[00:24:39] A pergunta é ruim.
[00:24:40] Eu não posso te perguntar isso.
[00:24:41] Tipo, é dado.
[00:24:42] É ético.
[00:24:43] É difícil discordar, né?
[00:24:45] Então, é…
[00:24:46] Essa é difícil de discordar, né?
[00:24:48] Mas tem várias situações.
[00:24:49] E aí, você vai pensar, né?
[00:24:51] Por que tem pessoas que vão contra isso?
[00:24:53] Que é essa ideia do bandido bom, bandido morto.
[00:24:55] Por quê?
[00:24:56] Porque tem certos grupos e contextos
[00:24:59] em que você teria um ganho maior, percebido, o indivíduo,
[00:25:03] se você quebrasse essa regra.
[00:25:05] Só que aí, o que acontece?
[00:25:07] Se tiver situações em que você quebra a regra,
[00:25:09] e situações que você não quebra,
[00:25:10] ela não é mais universal.
[00:25:11] Logo, ela não é ética.
[00:25:13] Verdade.
[00:25:13] Entende?
[00:25:14] Aí, o que o Kant faz?
[00:25:15] Ele separa a ética dos homens, né?
[00:25:19] Das pessoas.
[00:25:20] A ética fica algo etéreo mesmo.
[00:25:21] É uma coisa geral, né?
[00:25:23] Essa é a ética do dever.
[00:25:25] A vantagem de uma ética do dever é
[00:25:27] que você consegue criar direitos universais.
[00:25:30] Que é muito bom, né?
[00:25:31] Assim, pra coisas básicas, fantástico, né?
[00:25:34] Mas qual que é a desvantagem?
[00:25:36] O ser humano não vai ser mais feliz.
[00:25:38] Por quê?
[00:25:39] Porque se eu vivo sobre a égide de um dever,
[00:25:42] esse dever me limita.
[00:25:43] Só que me limita do ponto de vista individual,
[00:25:45] beneficiando o coletivo.
[00:25:48] Sim.
[00:25:48] Então, assim, todo ser humano tem direito à vida?
[00:25:51] Ótimo.
[00:25:52] Isso me favorece, no longo prazo.
[00:25:55] Mas, no curto prazo, eu quero matar o bandido que me roubou.
[00:25:58] Entende? O conflito.
[00:25:59] Sim.
[00:26:00] Então, é daí que mora o conflito.
[00:26:02] É um conflito entre quem pertence ao seu grupo
[00:26:04] e quem é do outro grupo.
[00:26:06] E o que você dá prioridade?
[00:26:07] Se é a sua perda próxima ou o ganho distante.
[00:26:11] E aí, a gente volta nessa ideia do altruísmo.
[00:26:14] Então, por exemplo,
[00:26:15] eu concordar com a ética do dever
[00:26:17] é um pensamento altruísta.
[00:26:19] Por que é altruísta?
[00:26:20] Porque, no curto prazo, às vezes, eu posso estar perdendo.
[00:26:23] Então, se alguém me assalta,
[00:26:25] se alguém me assalta,
[00:26:26] eu falo, não, essa pessoa não deve ser morta.
[00:26:28] Só por isso.
[00:26:30] Tem outros condicionantes.
[00:26:31] Quando você pensa assim,
[00:26:33] em certa medida, você está sendo altruísta.
[00:26:35] Por quê?
[00:26:36] Você está lidando diferente com uma perda local
[00:26:39] pensando num ganho coletivo.
[00:26:41] Sim.
[00:26:42] Tudo bem, Ken?
[00:26:43] Está fazendo sentido?
[00:26:44] Está.
[00:26:45] Então, se as pessoas agem,
[00:26:47] e o Kant falava isso,
[00:26:48] se as pessoas agem pela ética do dever,
[00:26:50] elas deveriam agir,
[00:26:52] não faz sentido pensar que o ser humano, em média, é bom?
[00:26:55] Sim.
[00:26:55] Deveria, pelo menos, ser boa praça?
[00:26:57] Sim.
[00:26:58] Não deveria ser o ápice da bondade,
[00:27:00] mas, pelo menos, a pessoa tem que ser boa praça.
[00:27:02] Sabe?
[00:27:03] Bacana com os outros.
[00:27:04] Sim.
[00:27:05] Pelo menos, não amolar o outro, a pessoa devia ser.
[00:27:08] Então, se eu acredito na ética do dever,
[00:27:11] eu acredito na declaração dos direitos humanos,
[00:27:13] eu estou abrindo mão de um pouquinho
[00:27:14] da minha liberdade
[00:27:15] para ter um ambiente mais seguro.
[00:27:18] Mais coletivo, mais plural, mais equânime,
[00:27:21] coisas do tipo.
[00:27:22] Se todas as pessoas são assim,
[00:27:24] e isso dá certo,
[00:27:25] em geral, deve ser que as pessoas são bacanas.
[00:27:28] Mas aí, o mesmo Kant fala que, na verdade,
[00:27:30] existe o mal radical,
[00:27:31] que é uma tendência das pessoas a ser más.
[00:27:33] Você vê que não bate?
[00:27:35] Sim.
[00:27:35] Então, o Kant fala disso,
[00:27:38] que os indivíduos são corruptos e tal,
[00:27:40] mas não cola muito bem, sabe?
[00:27:42] O povo não dá muita trela pra essa ideia.
[00:27:44] Aham.
[00:27:45] Então, na verdade, parece que o Kant
[00:27:48] tinha uma certa culpa católica.
[00:27:51] Sabe aquela culpa?
[00:27:52] Tipo, tudo bem, eu fiz toda essa teoria,
[00:27:55] mas cadê o pecado original?
[00:27:57] O pecado original tem que aparecer em algum lugar, entendeu?
[00:27:59] Aí vai aparecer porque o ser humano é cuzão mesmo.
[00:28:01] Sabe? Porque ele veio do pecado.
[00:28:03] E aí ele não consegue colocar muito bem isso na teoria.
[00:28:06] Aham.
[00:28:07] Mas você vê, Kant, Rousseau, Thomas Hobbes
[00:28:10] e uma galera que eu não citei aqui,
[00:28:12] só pra ser mais didático,
[00:28:14] todos eles têm,
[00:28:14] ideias, né?
[00:28:16] Esses discursos que as pessoas têm reverberam hoje em dia,
[00:28:19] né?
[00:28:19] Então, o que eles falam é como se fosse
[00:28:21] as pedras no lago, né?
[00:28:24] Que reverberam.
[00:28:25] As pessoas reproduzem esses discursos hoje, né?
[00:28:28] Ou seja, os discursos viraram ideologia
[00:28:31] e as ideologias condicionam
[00:28:33] os discursos que as pessoas reproduzem por aí.
[00:28:36] Tudo bem.
[00:28:37] Essa maldade radical aí,
[00:28:40] eu tô aí,
[00:28:41] ela seria um paralelo com
[00:28:44] o pecado original?
[00:28:44] O pecado original cristão?
[00:28:46] Não é um paralelo, mas
[00:28:48] seria uma decorrência, sabe?
[00:28:50] Certo.
[00:28:51] Então, é como assim,
[00:28:52] como nós nascemos do pecado, né?
[00:28:54] Na teoria, na lógica cristã, né?
[00:28:57] A gente nasce do pecado, a gente carrega isso
[00:28:59] de algum jeito, né?
[00:29:00] Mas se os indivíduos, todos os indivíduos
[00:29:02] seguirem a ética do dever, quer dizer que pelo menos
[00:29:04] eles são boa praça. Então, cadê o resultado
[00:29:07] do pecado original, né?
[00:29:09] Tem que estar em algum lugar. Aí ele meteu essa.
[00:29:11] Certo.
[00:29:11] Então, assim, pra eu não…
[00:29:13] Acho que ele nem ia ser…
[00:29:14] Exorcizado por causa disso, queimado, nada disso.
[00:29:17] Mas era só pra lidar com a culpa pessoal dele.
[00:29:19] É o mais provável, né?
[00:29:21] Mas é interessante, né?
[00:29:22] Que é um conflito entre a pessoa e a ideia
[00:29:25] e o contexto, né?
[00:29:28] Veja como que é uma questão complexa, né?
[00:29:30] Porque tem um ambiente,
[00:29:31] tem você como pensador, né?
[00:29:34] E tem a teoria que você gera também.
[00:29:36] A teoria se descola de você, né?
[00:29:37] E gera contradições.
[00:29:38] Sim, sim.
[00:29:39] E aí você começa a ficar bolado. A gente vai ver isso
[00:29:41] um caso terrível que aconteceu no segundo…
[00:29:43] Vai acontecer.
[00:29:44] Vamos falar sobre ele no segundo episódio, né?
[00:29:47] Mas, enfim. Então tinha esse salseiro aí, né?
[00:29:50] Chegou um pouquinho mais perto, século XIX.
[00:29:52] Veio um rapaz que se…
[00:29:53] Se eu não falasse dele, o povo ia me bater,
[00:29:56] certeza, né?
[00:29:57] Porque o livro é sobre isso.
[00:29:59] Genealogia da moral do Nietzsche, claro.
[00:30:01] O Nietzsche veio pra dar uma paulada nisso.
[00:30:03] Ele fala, ó, tudo isso aí que vocês estão falando,
[00:30:06] Kant, esse povo aí,
[00:30:07] tudo isso aí é culpa de vocês.
[00:30:09] Vocês deviam fazer uma terapia, sei lá.
[00:30:11] Nada disso aí tá certo.
[00:30:13] Aí ele vem com o pé no peito.
[00:30:14] Pra quem conhece, gosta do Nietzsche também,
[00:30:16] porque o Nietzsche era zoeiro, né?
[00:30:17] Eu tenho certeza, se o Nietzsche estivesse vivo e eu ouvisse o Naruhodô,
[00:30:20] ele ia detestar.
[00:30:21] Detestar, assim. Tá tudo errado, ele ia falar.
[00:30:24] E eu concordo com um pouco a crítica dele.
[00:30:27] Porque ele fala assim,
[00:30:28] que as pessoas têm que se afastar da razão.
[00:30:31] Sabe? As pessoas têm que se afastar
[00:30:32] desse modelo racional
[00:30:34] baseado em conceitos.
[00:30:35] Esses conceitos limitam as pessoas.
[00:30:37] Tornam as pessoas covardes.
[00:30:39] E aí, por isso que ele, nos textos, boa parte dos textos dele,
[00:30:42] ele falava muito por aforismo.
[00:30:45] Que eram frases meio soltas mesmo, né?
[00:30:47] Pra fazer, pra estimular suas emoções.
[00:30:49] Fazer você ficar bolado,
[00:30:50] ou pensativo, coisas do tipo.
[00:30:52] É uma técnica, né? É um método.
[00:30:54] Não deixa de ser um método
[00:30:55] até científico mesmo, né?
[00:30:58] Esse texto, Genealogia da Moral, não.
[00:31:00] Não era um texto em aforismos, era um texto mesmo.
[00:31:03] Diferentemente do método dele, né?
[00:31:04] E aí ele coloca…
[00:31:06] Esse texto, basicamente, ele tenta definir
[00:31:08] o que é bom e mal.
[00:31:10] A genealogia da moral.
[00:31:11] No prefácio, no prólogo
[00:31:14] Genealogia da Moral, o Nietzsche já coloca
[00:31:16] uma frase forte, né?
[00:31:18] Ele coloca um dos tratados
[00:31:21] do livro, né?
[00:31:22] Que é, abre aspas,
[00:31:23] em quais condições o homem inventou
[00:31:26] juízos de valor expressos
[00:31:28] nas palavras bem e mal.
[00:31:30] Então, assim, o objetivo do livro, do Genealogia da Moral,
[00:31:33] não é dizer se o ser humano
[00:31:34] é bom ou mal por natureza.
[00:31:37] É explicar quais os juízos
[00:31:38] de valor, quais são as valorações
[00:31:41] que as pessoas dão quando elas dizem
[00:31:42] bem ou mal.
[00:31:44] É tratar do cenário.
[00:31:46] E aí ele faz uma revisitação
[00:31:47] desses autores anteriores, o Kant, o Rousseau,
[00:31:50] o Thomas Hobbes e uns outros lá.
[00:31:52] E ele fala, ó, tudo isso aí é culpa católica.
[00:31:55] Toda essa discussão de bem e mal
[00:31:57] vem do modelo católico.
[00:31:59] E aí ele coloca uma coisa genial,
[00:32:00] que é boa mesmo. Sabe aquele modelo troll?
[00:32:03] Sabe? O jeito troll mesmo?
[00:32:04] Ele faz assim.
[00:32:05] A primeira parte de Genealogia da Moral, ele fala do primeiro tratado.
[00:32:08] Que é, tipo, a ideia não é
[00:32:10] se o ser humano é bom ou mal. Não é isso.
[00:32:13] É fazer uma psicologia,
[00:32:14] do cristianismo. Tudo começou com o cristianismo.
[00:32:17] Todas essas coisas aí, esses problemas.
[00:32:19] Aí ele
[00:32:20] fala o seguinte, que na verdade, na sociedade,
[00:32:22] tem duas lógicas.
[00:32:24] Tem dois discursos. E tem um conflito, né?
[00:32:26] Tem a lógica dos senhores e dos escravos.
[00:32:29] Escravo é tudo a mesma coisa.
[00:32:31] Não importa. O escravo.
[00:32:32] Os senhores tem dois tipos de senhores.
[00:32:35] Tem os guerreiros
[00:32:36] e os sacerdotes. Tudo bem?
[00:32:38] Esses são classe dominante.
[00:32:40] O guerreiro é quem promove a guerra.
[00:32:43] O guerreiro…
[00:32:44] O guerreiro é quem movimenta as coisas.
[00:32:45] Quebra pau, né?
[00:32:47] Garante segurança, tudo mais.
[00:32:49] O guerreiro é a classe dominante
[00:32:51] que se preocupa, em geral, com as virtudes
[00:32:54] do corpo, tá? Ele descreve.
[00:32:56] E o que que são os sacerdotes?
[00:32:58] Os sacerdotes são os guerreiros
[00:32:59] que deram errado. São os guerreiros covardes.
[00:33:02] São os sacerdotes. Aí eles fazem o seguinte,
[00:33:04] porque eles são classe dominante, né?
[00:33:05] Eles não querem virar escravo. Então o que que eles fazem?
[00:33:07] Pra garantir o sacerdote, né?
[00:33:09] Esse espaço, né?
[00:33:11] Porque eles não dão…
[00:33:12] Eles tomam o pau do guerreiro.
[00:33:14] Eles falam o seguinte.
[00:33:15] Os sacerdotes são guerreiros impotentes.
[00:33:18] Como eles não conseguem fazer nada,
[00:33:20] eles criam uma ilusão.
[00:33:22] E qual que é a ilusão? A existência de um espírito.
[00:33:24] E de que o espírito controla as pessoas.
[00:33:27] Certo.
[00:33:27] Só que os sacerdotes, por meio da ideologia
[00:33:30] do espírito, não controlam os guerreiros.
[00:33:32] Quem que eles controlam? Os escravos.
[00:33:35] Então assim, o sacerdote
[00:33:36] não consegue fazer nada.
[00:33:37] Então o que que ele faz? O sacerdote
[00:33:40] gera uma moral
[00:33:42] nos escravos,
[00:33:44] cria uma moral nos escravos, um senso
[00:33:46] de bom e mal. Baseado, ele tá falando
[00:33:48] da religião, baseado no pensamento religioso.
[00:33:51] O pensamento religioso não serve pro
[00:33:52] guerreiro, que é um senhor.
[00:33:54] Serve pro escravo, né?
[00:33:55] E uma vez o escravo imbuído dessa
[00:33:58] moral, né? Da moral
[00:34:00] religiosa, ele tenta
[00:34:02] se libertar, não atacando o
[00:34:04] sacerdote, atacando o guerreiro.
[00:34:06] Olha que interessante. Porque o sacerdote não dá conta
[00:34:08] de dar pau nele. Não é bacana?
[00:34:10] Opa!
[00:34:11] O cara troll demais. Muito bom.
[00:34:14] E aí ele mostra que o primeiro
[00:34:16] exemplo de que isso aconteceu e deu certo
[00:34:18] é o povo judeu.
[00:34:20] É a moral escrava aplicada
[00:34:22] ao povo judeu, que
[00:34:23] rebelou, Jesus, tal, tal, tal, e deu origem ao
[00:34:26] cristianismo, né? Que venceu,
[00:34:28] bateu nos guerreiros da época, os romanos
[00:34:30] e tudo mais, né?
[00:34:32] E essa lógica
[00:34:34] continua até hoje, né? Então a
[00:34:36] questão não é se as pessoas são boas ou más.
[00:34:37] Isso pouco importa. O fato de
[00:34:40] ser bom ou ruim, nasce da divisão
[00:34:42] de classes. Olha que foda.
[00:34:44] Olha só. Não é interessante?
[00:34:46] Nasce da divisão de classes.
[00:34:48] O fato de na sociedade existir
[00:34:50] o escravo e o senhor, né?
[00:34:52] E toda essa dinâmica, é o que
[00:34:54] gera a necessidade de você pensar
[00:34:56] em por que as pessoas são boas ou más.
[00:34:58] Porque, na verdade, tudo isso é calcado em desigualdade
[00:35:00] e dominação. Porra!
[00:35:02] Não é à toa que o povo gosta do Nietzsche,
[00:35:04] não é verdade? É.
[00:35:05] O Nietzsche foi longe. Nossa
[00:35:08] senhora. Não é à toa.
[00:35:10] E olha que isso é uma parte do livro
[00:35:12] só, né? Essa psicologia,
[00:35:14] a psicologia do cristianismo, né? Negócio fantástico.
[00:35:16] E aí ele fala, assim, tem uma solução?
[00:35:18] Ele é pessimista. Ele fala, não tem.
[00:35:20] Mas se tivesse, né?
[00:35:22] Seria uma transvaloração dos valores.
[00:35:25] Seria as pessoas perceberem esse
[00:35:26] conflito e vencer.
[00:35:28] Não importa se você é bom ou mal. A ideia é
[00:35:29] transcender isso. Beleza.
[00:35:32] Aí, um outro tratado do livro,
[00:35:34] ele fala sobre a noção da culpa.
[00:35:36] A culpa é algo muito presente
[00:35:38] na sociedade moderna, né? Que seria
[00:35:40] a psicologia da consciência, do indivíduo.
[00:35:42] E aí ele defende, ele pessoalmente,
[00:35:44] defende que o ateísmo é
[00:35:46] uma forma de não possuir dívidas com os
[00:35:48] deuses. Seria uma forma de
[00:35:50] segunda inocência. E aí ele resgata
[00:35:52] o Rousseau. Então o cara mais
[00:35:54] puro da sociedade é o ateu.
[00:35:56] Porque ele não se coaduna
[00:35:58] com essa lógica de
[00:36:00] dominação do sacerdote
[00:36:02] sobre o escravo pra atacar o guerreiro.
[00:36:04] Certo.
[00:36:05] Claro, faz todo sentido.
[00:36:07] Tá paulada nervosa.
[00:36:09] E aí, uma terceira parte do livro,
[00:36:11] que ele critica bastante também, é o
[00:36:13] ascetismo. Sabe?
[00:36:15] O que é ser asceta? Assetismo é um
[00:36:17] modo de vida, assim, né?
[00:36:20] Não chega a ser uma escola filosófica, mas
[00:36:21] é um modo de viver, né?
[00:36:23] Uma pessoa asceta é uma
[00:36:25] pessoa que vive em função
[00:36:28] de práticas que visam
[00:36:30] o desenvolvimento espiritual.
[00:36:32] Então, muitas vezes, são pessoas
[00:36:33] que abrem mão do
[00:36:35] prazer e não satisfação
[00:36:38] de algumas necessidades básicas
[00:36:39] pelo desenvolvimento espiritual.
[00:36:42] Ele era completamente
[00:36:43] contra isso. Não.
[00:36:45] Sabe? Não. Na verdade,
[00:36:47] o que você tá fazendo é só aglutinando
[00:36:49] o rancor em você mesmo.
[00:36:51] Seja pra expurgar uma culpa, seja
[00:36:53] pra separar grupos. Ah, eu sou mais
[00:36:55] evoluído espiritualmente, você que não é,
[00:36:57] você que se lasque. Não é verdade?
[00:37:00] Instagram tá cheio disso, não é verdade?
[00:37:02] Não tem humor de ser iluminado
[00:37:03] por aí? Pois é.
[00:37:05] O bagulho ia ser errado.
[00:37:07] Assim, o bagulho não ia ser Thomas Hobbes,
[00:37:09] o lobo é o nome do lobo do homem.
[00:37:11] Não. O homem é a depressão do homem.
[00:37:13] Agora você é todo mundo abraçado, junto, unido
[00:37:15] na depressão. Assim, porra,
[00:37:17] eu gosto do Nietzsche, velho. O Nietzsche
[00:37:18] me metia um louco massa, assim.
[00:37:21] É porque a pedra que ele
[00:37:23] jogou no lago tá muito mais perto da gente, né?
[00:37:25] Porque ele é mais recente. Então ressoa muito
[00:37:27] no que a galera pensa hoje, né?
[00:37:29] Muito interessante, né?
[00:37:31] Então, assim, é legal
[00:37:32] fazer uma apresentação
[00:37:35] desse salseiro todo, né?
[00:37:37] Porque cada uma dessas falas, desses teóricos,
[00:37:39] desses filósofos, apresentam um discurso
[00:37:42] que ressoa na
[00:37:43] fala das pessoas. A ideia não é
[00:37:45] você pensar que isso tá certo ou errado,
[00:37:47] mas é você pensar que esses discursos,
[00:37:49] hoje, na realidade atual,
[00:37:52] pós-moderna,
[00:37:53] se transformaram em ideologias
[00:37:56] que condicionam
[00:37:57] a fala das pessoas em vários contextos
[00:38:00] e, em última análise,
[00:38:01] faz com que as pessoas se
[00:38:03] dividam em grupos e usem
[00:38:05] pra justificar a existência desses grupos
[00:38:07] esses discursos.
[00:38:10] Então, o bom, o mal,
[00:38:12] o certo ou o errado é o que menos
[00:38:13] importa, né? O que importa é você entender
[00:38:15] a complexidade desses discursos
[00:38:18] e perceber, primeiro,
[00:38:19] onde você faz parte,
[00:38:21] que você tá dentro
[00:38:23] de algum deles, e o que você faz
[00:38:25] a partir disso, né? Enquanto a estratégia
[00:38:27] é individual. Eu não sei de vocês,
[00:38:29] mas é uma discussão fantástica, né?
[00:38:31] Sem dúvida.
[00:38:33] Essa é uma discussão de humanas, né?
[00:38:35] A gente tava, nos últimos episódios, fazendo
[00:38:37] o negócio de exatas, agora o povo das
[00:38:39] exatas tem que doer a cabeça deles
[00:38:41] também, não é verdade?
[00:38:43] Então, isso aqui é fantástico. E aí, tudo bem.
[00:38:45] Assim, tem essa questão, pá,
[00:38:47] né, da filosofia
[00:38:49] e tal, tal, tal, e pá. Tudo bem.
[00:38:52] Eu aqui, ouvindo esse episódio,
[00:38:54] entendi. Até tenho
[00:38:55] iluminações, tive algum insight, alguma
[00:38:57] coisa. Tudo bem. Não dá pra saber
[00:38:59] se o Rousseau tava certo, se o Hobbes tava certo.
[00:39:01] O Kant tava meio ali perdido. E aí
[00:39:03] veio o Nietzsche dar pra um lado
[00:39:05] de todo mundo, né? Fala que não é nada disso.
[00:39:07] E agora, o que que eu faço? Dá pra responder
[00:39:09] a pergunta? Então, até dá.
[00:39:11] Até dá. Mas não,
[00:39:13] só com uma vertente filosófica.
[00:39:15] A filosofia, ela estrutura os discursos,
[00:39:18] mas falta o método, né?
[00:39:20] Como é que eu testo isso? Porque
[00:39:21] todos esses discursos, eles
[00:39:23] controlam a pessoa, né, por meio das ideologias
[00:39:26] geradas pelos discursos,
[00:39:27] na causa eficiente.
[00:39:29] Então, a gente reproduz esse discurso.
[00:39:31] Quando você fala, bandido bom é bandido morto,
[00:39:34] você tá refletindo um discurso.
[00:39:36] Que é muito além de você.
[00:39:38] Que vem desse salseiro aqui.
[00:39:40] Quando você fala, não,
[00:39:41] tipo, não pode matar
[00:39:43] a pessoa, você tá refletindo outro discurso.
[00:39:45] Que tem seu caráter positivo e negativo,
[00:39:47] enfim. Mas a questão é, dá pra operacionalizar
[00:39:49] isso por meio de experimentos?
[00:39:51] Não na época até do…
[00:39:53] Porque o mais novo ali, aqui que a gente tá falando
[00:39:55] é o Nietzsche. Até a época dele não dava.
[00:39:58] O Nietzsche morreu, né, em
[00:39:59] 1900. Nasceu em
[00:40:01] 1844 e morreu em 1900.
[00:40:04] Ele, pelo menos,
[00:40:05] viu, né? Mas ele não pegou, assim,
[00:40:07] as aplicações disso, tá? Uma coisa
[00:40:09] que ajudou muito a tornar essa
[00:40:11] hipótese, se a gente é bom,
[00:40:13] ou mal por natureza, testável, né?
[00:40:15] Isso só foi possível ser testável,
[00:40:17] não no campo das ideias e da
[00:40:19] aplicação dedutiva
[00:40:21] de princípios, né? Isso só foi testado
[00:40:23] a partir do aparecimento
[00:40:25] da teoria da seleção natural. Darwin,
[00:40:27] né? Século XIX.
[00:40:29] Ali é um pouquinho no Nietzsche, né? Então,
[00:40:31] já tinha toda uma questão ali.
[00:40:33] Quando apareceu a ideia de seleção natural,
[00:40:35] a biologia, principalmente, conseguiu
[00:40:37] ser unificada enquanto
[00:40:39] escola do conhecimento, né?
[00:40:41] Então, pra quem faz biologia, sabe isso
[00:40:43] muito bem? Todas as disciplinas de um curso
[00:40:45] de biologia podem ser lidas
[00:40:47] e deveriam ser lidas à luz
[00:40:49] da evolução, da teoria da evolução, né?
[00:40:52] Genética, anatomia,
[00:40:53] fisiologia, zoologia,
[00:40:56] ecologia, tudo.
[00:40:57] É meio que um fio
[00:40:59] condutor da formação em biologia
[00:41:01] é a seleção natural. Apareceu no século XIX,
[00:41:04] né? Isso possibilitou
[00:41:05] fechar um pouco a questão.
[00:41:07] Não foi o Darwin que fez
[00:41:09] isso. Foram pessoas que vieram depois, tá?
[00:41:11] O Darwin criou o campo,
[00:41:13] e aí começou a surgir outras coisas.
[00:41:15] Aí, já século XX mesmo, começou
[00:41:17] a se estudar
[00:41:19] isso, né? E agora a gente cria o ponto
[00:41:21] pro próximo episódio. Vou começar com o começo da história
[00:41:23] e aí a gente conclui no próximo
[00:41:25] episódio. Assim,
[00:41:27] 1930, 30,
[00:41:29] 40, entra a Primeira e a Segunda Guerra.
[00:41:31] Então, veja lá, surgiu a seleção
[00:41:33] natural. A seleção natural surgiu
[00:41:35] num contexto também de discursos ligados
[00:41:37] um lado ao desenvolvimento
[00:41:39] do pensamento científico, aplicado
[00:41:41] à biologia. Então, a biologia entrava,
[00:41:43] entrava no hall de ciências. Por um outro lado,
[00:41:45] uma questão geopolítica, tinha
[00:41:47] o colonialismo, né? Então, sabe?
[00:41:49] Norte e Sul, lá, a dominação, né?
[00:41:51] As colônias, aquela coisa toda.
[00:41:53] As coisas não são separadas, tá tudo junto, né?
[00:41:55] Chega 1900,
[00:41:57] surge um grande desenvolvimento técnico,
[00:41:59] né? De recursos científicos.
[00:42:01] Por outro lado, surge um
[00:42:03] aumento da polarização,
[00:42:05] sobretudo na Europa, que
[00:42:07] deu origem ao pensamento eugênico e
[00:42:09] depois desembocou lá a Primeira Guerra
[00:42:11] e a Segunda Guerra. E essa coisa,
[00:42:13] né, da biologia
[00:42:15] como algo que determinava diferenças
[00:42:17] entre grupos por meio da raça,
[00:42:19] era muito forte ali no começo do século.
[00:42:21] O Darwin lutava contra isso, mas tinha
[00:42:23] lá o darwinismo social. Não foi culpa do
[00:42:25] Darwin, coitado.
[00:42:27] Foi culpa do primo dele, maldito Francis Galton.
[00:42:29] Também, que a gente já falou em outros episódios.
[00:42:31] É tudo dialético, tá, gente? Fazer o quê?
[00:42:33] Aí, teve um livro,
[00:42:35] né, que foi lançado aí já um pouco
[00:42:37] depois, né, nos anos 30. Um livro
[00:42:39] muito importante, que não foi entendido
[00:42:41] na época, que era a
[00:42:43] Teologia da Biologia.
[00:42:43] Teologia Geral da Seleção Natural.
[00:42:45] General Theory of Natural Selection.
[00:42:47] Não tem em português. 1930
[00:42:48] foi lançado esse livro. Cara, genial.
[00:42:51] Pense em uma pessoa inteligentíssima,
[00:42:53] genial, e o que ela tinha de inteligente,
[00:42:55] ela tinha de chata.
[00:42:57] Sabe? Era mais que nerdola,
[00:42:59] era um bicho chato mesmo.
[00:43:01] O criador da análise de variância
[00:43:03] é Ronald Fisher, né? Sir Ronald Fisher.
[00:43:05] Certo.
[00:43:06] Imagina um cara que escreveu um livro que era
[00:43:09] tão bom que ninguém entendeu na época dele.
[00:43:11] Ninguém. O livro só foi descoberto
[00:43:13] 40 anos depois. Depois que ele tinha morrido.
[00:43:15] Tá? Então ele escreveu o livro,
[00:43:17] ninguém entendeu. O que que o Fisher fez?
[00:43:19] Ele pegou essas
[00:43:21] ideias da seleção natural,
[00:43:23] né, de que existe
[00:43:25] transmissão de características pela reprodução
[00:43:27] e tal, tal, tal, e ele tentou
[00:43:29] dar uma sistematização matemática.
[00:43:31] Será que tem umas regras? A genética
[00:43:33] tava surgindo ainda.
[00:43:35] O DNA surgiu depois, tá?
[00:43:37] Tava surgindo. Mas já se sabia,
[00:43:40] principalmente por causa do modelo do Mendel
[00:43:41] e tal, tal, tal, que tinha coisas,
[00:43:43] que passavam de par pra filho.
[00:43:45] Tinha alguma coisa que passava, não sei
[00:43:47] o que era, mas passava.
[00:43:49] E aí o Fisher, ele escreveu
[00:43:51] nesse livro alguns princípios básicos.
[00:43:53] Não de reprodução entre
[00:43:55] indivíduos, mas de espécie.
[00:43:57] Pensando na espécie. Se existe um
[00:43:59] traço adaptativo, se existe uma
[00:44:01] certa característica do organismo que é adaptativa,
[00:44:04] ela tem que passar
[00:44:05] de algum jeito pra geração seguinte.
[00:44:07] E eu sei que passa pela reprodução.
[00:44:09] Então deve ter alguma unidade de informação.
[00:44:10] E aí o Fisher lançou uma ideia,
[00:44:13] que ele não soube matematizar, porque ele
[00:44:14] faltava, mas a ideia dele era fantástica.
[00:44:17] Ele cunhou um conceito que
[00:44:18] chama fitness. Fitness não é
[00:44:20] academia, tá? Não é ir na academia ficar sarado, isso não é
[00:44:22] fitness. É? Sabia não?
[00:44:25] Não é esse fitness.
[00:44:26] Não é esse fitness. Não, é outro, tá?
[00:44:29] Fitness é o, na biologia evolutiva,
[00:44:31] é o número de descendentes
[00:44:32] que você gera. Quanto mais filhos
[00:44:35] você tem, é que assim, você ter
[00:44:36] filho é uma parte do fitness, né?
[00:44:39] Tipo, eu tenho um filho.
[00:44:40] Se esse filho morre, eu perdi meu
[00:44:43] fitness. Porque o filho morreu, né?
[00:44:45] Agora, se o meu filho
[00:44:46] nasce e meu filho tem um filho,
[00:44:49] aí o meu fitness tá garantido.
[00:44:51] Por quê? Porque meu filho teve um filho.
[00:44:53] Tá? Então, eu
[00:44:55] ter um filho não é suficiente pra ter
[00:44:57] fitness. Quando o meu filho se
[00:44:59] reproduz, aí meu gene passou uma
[00:45:01] casinha pra frente. Aí o meu tá garantido.
[00:45:03] O fitness do meu filho,
[00:45:05] eu não sei, mas o meu tá. Tudo bem?
[00:45:07] Sim, sim. Tá? Então essa,
[00:45:08] a ideia, ele ficava estudando
[00:45:10] número de descendentes. Em que situação,
[00:45:13] em que situações você tinha mais ou menos descendentes?
[00:45:15] E aí ele começou, ele postulou
[00:45:17] uma teoria, né? Uma ideia, que
[00:45:19] falava o seguinte. Por exemplo, imagina que
[00:45:21] a gente é irmão, tá? Nós somos irmãos.
[00:45:23] Tá bom?
[00:45:25] Quanto mais filhos a gente tem,
[00:45:27] não quer dizer que um certo
[00:45:29] traço adaptativo tá diminuindo
[00:45:31] a variabilidade. Na verdade,
[00:45:33] ele tá aumentando. Porque
[00:45:35] seleção, seleção natural
[00:45:37] é seleção de variabilidade.
[00:45:39] Tá? Porque se a seleção natural
[00:45:42] selecionasse características,
[00:45:43] cada vez mais específicas, a gente
[00:45:45] já seria extinto. Por quê? Qualquer mudança
[00:45:47] ambiental, acabaria com todos.
[00:45:49] Sim. Tá? Então uma coisa muito importante
[00:45:51] pra quem não é da biologia, seleção
[00:45:53] natural não seleciona a média.
[00:45:55] Seleciona a variabilidade.
[00:45:57] Quanto mais variável um traço,
[00:46:00] mais você tem
[00:46:01] de jogo quando o ambiente muda.
[00:46:03] Porque uma coisa é o organismo, uma coisa é o
[00:46:05] ambiente. Você tem mais
[00:46:07] possibilidades, né?
[00:46:08] Isso. Você tem mais adaptabilidade.
[00:46:11] Essa é a ideia de adaptabilidade.
[00:46:13] Tá? Sim. Então a ideia é selecionar
[00:46:14] variação. Não muito, mas variação
[00:46:17] dentro de um espectro adaptativo.
[00:46:19] Ele postulou isso e deixou uma matematização
[00:46:21] pra isso. 1930.
[00:46:23] Beleza. Aí, dois caras
[00:46:25] pegaram essa ideia. Dois caras
[00:46:27] leram esse livro e entenderam um pouco.
[00:46:29] Um desses caras é o
[00:46:31] pai da computação, que é o Von Neumann.
[00:46:33] Von Neumann, do outro lado,
[00:46:35] ele escreveu um livro, aí já
[00:46:37] um pouquinho depois, 46,
[00:46:39] né? 1946.
[00:46:40] Ele escreveu um livro
[00:46:42] que é
[00:46:43] Teoria dos Jogos e Comportamento
[00:46:44] Econômico. Ou seja, ele pega
[00:46:46] um pouquinho desse espírito
[00:46:48] e vai aplicar na economia.
[00:46:50] Um outro cara pega já o livro,
[00:46:53] mais de um, né? Na biologia,
[00:46:54] pega esse livro do Fischer e começa
[00:46:56] a aplicar pro outro lado, que é o Hamilton.
[00:46:59] Sim. Então o Hamilton
[00:47:00] começa a correr na biologia
[00:47:02] e o Von Neumann
[00:47:04] começa a correr na economia e na computação,
[00:47:07] gerando duas áreas diferentes.
[00:47:08] E essas duas áreas vão conversar
[00:47:10] mais pra frente, gerando os estudos
[00:47:12] modernos de cooperação.
[00:47:14] E graças a esse ferramental
[00:47:16] metodológico, a gente começa a começar
[00:47:19] a responder a pergunta
[00:47:20] qual componente da
[00:47:22] bondade é inato e qual componente
[00:47:25] é cultural. Certo.
[00:47:27] É a junção só com base
[00:47:28] nesse contexto. A junção da
[00:47:30] biologia com a matemática, com
[00:47:32] um pouco da sociologia, um pouco da economia
[00:47:34] e um pouco da computação, a gente consegue
[00:47:37] começar a responder
[00:47:38] essa pergunta. E esse vai ser o menu
[00:47:40] para o próximo episódio. Como que se dá?
[00:47:42] Essa solução. E os resultados que temos
[00:47:44] até hoje, né? Por isso que temos artigos
[00:47:46] de 2023 e é o que
[00:47:48] possibilitou fechar os conceitos
[00:47:50] para que pudéssemos
[00:47:52] fazer o episódio hoje.
[00:47:54] Tudo bem, Gui? Tá certo.
[00:47:56] Então, tá aí. Chegamos ao final
[00:47:59] da parte 1, não é isso?
[00:48:01] Isso. E
[00:48:02] a gente se
[00:48:04] reencontra daqui uma
[00:48:06] semana com a parte 2
[00:48:08] pra que
[00:48:10] você esteja
[00:48:12] o mais munido possível
[00:48:14] pra responder filosoficamente
[00:48:16] a essa questão, não é isso, Antônio?
[00:48:18] É, a filosofia já foi, agora a gente vai pra
[00:48:20] prática. Vamos ver o que a gente tem
[00:48:22] de resultado mesmo.
[00:48:24] Tá bom, então. E
[00:48:26] Naruhodô Ilustríssimo 20!
[00:48:30] E você já sabe, aqui
[00:48:32] no Naruhodô, quem faz a pauta é você.
[00:48:35] Você tem alguma pergunta pra gente
[00:48:36] ou quer comentar algum episódio?
[00:48:38] Escreva pra nós.
[00:48:39] podcast.naruhodô.com.br
[00:48:42] Repetindo. podcast.naruhodô.com.br
[00:48:46] E lembre-se, mande nome completo,
[00:48:49] idade, profissão e a cidade
[00:48:50] de onde você está falando. É isso aí.
[00:48:52] Naruhodô.
[00:49:12] NARUHODO.COM.BR