180 - A Teoria da Libertação LGBT


Resumo

O episódio discute o livro ‘Sexualidade e Socialismo: História Política e Teoria da Libertação LGBT’ de Sherry Wolf, traduzido e publicado pelo Coletivo LGBT Comunista. Os participantes Matheus Gonçalves (tradutor e ilustrador) e Renan Lira (militante do coletivo) explicam a motivação da tradução: preencher uma lacuna teórica marxista sobre a questão LGBT, oferecendo uma análise materialista histórica da opressão.

A análise central do livro, apresentada na conversa, é que a homossexualidade e a heterossexualidade como identidades são produtos históricos do capitalismo. A Revolução Industrial e o assalariamento separaram a produção da reprodução, permitindo que as pessoas vivessem fora da unidade familiar produtiva feudal. Isso criou as condições para o surgimento de identidades sexuais, ao mesmo tempo em que a família nuclear burguesa se tornou a norma, patologizando e criminalizando os desvios. As guerras mundiais, ao retirar homens e mulheres de seus contextos familiares tradicionais, aceleraram essa experiência e conformação identitária.

O debate aborda a função econômica da LGBTfobia no capitalismo: dividir a classe trabalhadora, criar um exército industrial de reserva (como na precarização do trabalho de pessoas trans no telemarketing) e garantir a reprodução da força de trabalho através da família normativa. Os participantes criticam as abordagens pós-modernas e identitárias que, ao negar as metanarrativas e o protagonismo da classe, desmobilizam politicamente o movimento.

Por fim, o episódio enfatiza a impossibilidade de superar a LGBTfobia dentro do capitalismo, que a produz e reproduz estruturalmente. A única saída é a organização revolucionária conjunta da classe trabalhadora em suas múltiplas determinações (LGBT, negra, feminina). Eles alertam para o avanço internacional da extrema direita e a necessidade urgente de uma resposta organizada e propositiva, não apenas reativa, para defender a existência e avançar em direção a uma sociedade que supere a violência de classe.


Indicações

Books

  • Sexualidade e Socialismo: História Política e Teoria da Libertação LGBT — Livro de Sherry Wolf, traduzido pelo coletivo, que faz uma análise materialista histórica da opressão LGBT, desde suas origens no capitalismo até os movimentos contemporâneos.
  • Passagem para o Próximo Sonho — Livro autobiográfico de Herbert Daniel mencionado, que relata como ele negou seu amor por um camarada na guerrilha por medo de ser expulso, ilustrando a homofobia dentro de organizações de esquerda históricas.
  • Devassos no Paraíso — Livro de João Silvério Trevisan, líder autonomista no grupo SOMOS, mencionado no contexto das tensões internas no movimento LGBT brasileiro inicial.
  • Além do Carnaval — Livro de James Green, militante da Convergência Socialista no SOMOS, que analisa a homossexualidade ao longo da história do Brasil.

Concepts

  • Materialismo Histórico — Método de análise utilizado no livro para entender a opressão LGBT a partir de suas bases materiais e condições históricas, em oposição a perspectivas essencialistas ou pós-modernas.
  • Função Econômica da LGBTfobia — A ideia discutida de que a opressão LGBT serve ao capitalismo ao dividir a classe trabalhadora e criar um exército industrial de reserva (ex.: população trans no telemarketing), rebaixando o valor geral da força de trabalho.

Events

  • Revolta de Stonewall — Evento de 1969 em Nova York onde a população LGBT resistiu a uma batida policial, marcando o surgimento de um movimento de massa mais combativo, em contraste com os movimentos homófilos anteriores.
  • Ato do Primeiro de Maio no ABC (1980/81) — Ato histórico em que militantes do SOMOS, como James Green, participaram com faixas em defesa dos direitos dos trabalhadores homossexuais, sendo ovacionados, exemplificando uma articulação entre lutas classistas e LGBT.

Organizations

  • Coletivo LGBT Comunista — Coletivo do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que atua no movimento social LGBT, produz teoria, traduções e organiza núcleos em várias cidades do país.
  • SOMOS - Grupo de Afirmação Homossexual — Primeira organização significativa do movimento LGBT brasileiro, fundada nos anos 70/80, com tensões entre alas autonomistas e comunistas.
  • Mattachine Society — Uma das primeiras organizações homófilos nos EUA, fundada por Harry Hay, que tinha ligações com o Partido Comunista dos EUA e foi alvo do macartismo.
  • Daughters of Bilitis — Primeira organização lésbica nos EUA, também mencionada no contexto dos movimentos iniciais.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao episódio e apresentação dos convidados — Zami apresenta o episódio sobre o livro ‘Sexualidade e Socialismo’ de Sherry Wolf. Apresenta os convidados Matheus Gonçalves (tradutor e ilustrador) e Renan Lira (militante do Coletivo LGBT Comunista), que explicam o que é o coletivo e sua atuação dentro do PCB.
  • 00:05:56Motivação e processo de tradução do livro — Matheus explica o processo de tradução coletiva do livro, motivado pela necessidade de preencher uma lacuna teórica marxista sobre a questão LGBT. Ele destaca a importância de trazer uma análise materialista histórica para o movimento brasileiro, apontando os limites de transplantar a análise do contexto estadunidense, mas também os pontos de aproximação.
  • 00:13:00A homossexualidade como fenômeno histórico e produto do capitalismo — Renan e Matheus explicam a tese central do livro: a homossexualidade (e a heterossexualidade) são identidades historicamente construídas com o advento do capitalismo. A Revolução Industrial separou a produção da reprodução, permitindo que as pessoas vivessem fora da família feudal e experimentassem novas sociabilidades e sexualidades. As guerras mundiais foram catalisadoras desse processo.
  • 00:22:00A contradição capitalista: permite e reprime identidades LGBT — Os convidados detalham a contradição: o capitalismo cria as condições materiais para o surgimento das identidades LGBT (assalariamento, urbanização), mas simultaneamente as reprime como desviantes da norma familiar burguesa. Essa repressão se cristaliza nas esferas jurídica, biológica e psicológica, patologizando e criminalizando as identidades não normativas.
  • 00:39:00A repressão dos anos 50 e a eclosão do movimento nos anos 60 — Discute-se o reforço da família nuclear nos EUA pós-guerra para aumentar a natalidade, levando à perseguição macartista que colocava comunistas e homossexuais no mesmo bojo. Esse contexto de repressão elevou a consciência das LGBTs, culminando em revoltas como Stonewall (1969), que marcam o surgimento de um movimento LGBT de massa, em contraste com os movimentos homófilos anteriores, mais assimilacionistas.
  • 00:48:00É possível superar a LGBTfobia dentro do capitalismo? — Renan argumenta que não, pois a LGBTfobia cumpre funções econômicas (criar exército industrial de reserva, dividir a classe) e ideológicas no capitalismo. A superação só é possível com a superação da sociedade de classes, que permitiria relações afetivas não baseadas na violência. A revolução é condição necessária, mas não suficiente; é preciso uma luta organizada.
  • 00:59:00A violência contra a população trans e a falta de dados — Os participantes destacam a violência extrema contra a população trans no Brasil (expectativa de vida de 35 anos) e a subnotificação dos dados, muitas vezes mascarados como ‘crimes passionais’. Criticam a retirada de perguntas sobre orientação sexual e identidade de gênero do Censo, o que impede políticas públicas adequadas e invisibiliza a existência LGBT.
  • 01:00:58Crítica ao pós-modernismo e às políticas identitárias — Matheus analisa como a descrença na organização da classe trabalhadora pós-68 levou a teorias pós-modernas (Foucault, Derrida) que negam metanarrativas e o protagonismo de classe. Isso resultou em movimentos LGBT voltados para políticas de identidade e assimilação (ex.: apoio a Bill Clinton), desmobilizadores e incapazes de enfrentar as bases materiais da opressão.
  • 01:08:00O mito do marxismo homofóbico e erros históricos — Discute-se o capítulo do livro que aborda o ‘mito da homofobia marxista’. Reconhece-se que houve erros graves em experiências socialistas e dentro de partidos comunistas (como no caso de Herbert Daniel no Brasil), mas argumenta-se que isso não é inerente ao marxismo, que oferece as melhores ferramentas para análise e superação. A opressão era global, não exclusiva desses países.
  • 01:22:00O avanço da extrema direita e a necessidade de organização — Os convidados alertam para o avanço internacional da extrema direita e sua pauta anti-trans (ex.: leis na Flórida e Texas, projetos no Brasil). Destacam que os mesmos partidos que atacam LGBTs são os que atacam indígenas, a reforma trabalhista e promovem o desmonte social. A resposta deve ser a organização revolucionária conjunta da classe trabalhadora, superando a mera reatividade.
  • 01:35:00Conclusão e chamado à organização revolucionária — Matheus e Renan concluem que a única saída contra a violência e os retrocessos é a organização revolucionária. Convidam os ouvintes a conhecerem o Coletivo LGBT Comunista (lgbtcomunista.org) e a se organizarem nas ferramentas de luta da classe trabalhadora. Enfatizam que a superação da LGBTfobia está ligada à superação do capitalismo e à construção do socialismo.

Dados do Episódio

  • Podcast: Revolushow
  • Autor: Revolushow
  • Categoria: News Politics
  • Publicado: 2023-06-16T09:00:45Z
  • Duração: 01:43:47

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] 🎵

[00:00:00] Olá pessoas, estamos começando mais um episódio da Revolução, o seu podcast de esquerda, mas sem perder a ternura jamais.

[00:00:21] E como vocês podem ver pelo título que está aí, né, ou que vocês podem ouvir também o título que está aí,

[00:00:25] nós vamos falar sobre um livro que saiu aí em conjunto com o coletivo LGBT Comunista pela Autonomia Literária, né,

[00:00:33] que é Sexualidade e Socialismo, História Política e Teoria da Libertação LGBT, né, um livro essencial aí da Sherry Wolf,

[00:00:42] espero que eu tenha falado o nome corretamente aí, o povo anglófono que me perdoe, ou não, mas aqui a gente fala do jeito que dá.

[00:00:50] E vamos falar aí sobre esse tema extremamente importante, né.

[00:00:53] Pra falar disso, nós temos aqui à minha esquerda o nosso querido Matheus Gonçalves.

[00:01:00] Diga olá, Matheus. Quem é você? Pra onde vem? Como se alimenta?

[00:01:02] Fala, camaradas.

[00:01:03] Bom, gente, é um prazer estar aqui participando do Revolução hoje.

[00:01:06] Eu sou o Matheus, sou artista plástico, sou historiador.

[00:01:09] Tive o prazer de contribuir com a tradução do livro da Sherry Wolf e também de contribuir com a ilustração que foi pra capa do livro pela Autonomia Literária.

[00:01:18] Então é um prazer estar conversando com vocês hoje sobre essa obra que, de fato, é realmente essencial aí pra gente pensar,

[00:01:23] o movimento LGBT, principalmente esses ataques que vêm ocorrendo contra a população trans no nosso país.

[00:01:29] Obrigado pelo espaço.

[00:01:30] Muito bom. Eu que agradeço aí pela sua disponibilidade de estar com a gente aqui nesse momento.

[00:01:34] E aí, ao lado esquerdo do Matheus, Renan Lira.

[00:01:38] Diga olá, Renan. Não é parente do… É o Renan Lira do bem, né.

[00:01:42] Nem parente do Arthur Lira, nem do Renan Calheiras.

[00:01:47] Então, gente, eu sou o Renan.

[00:01:49] Eu estou me formando em Direito agora.

[00:01:52] Falo daqui de São Paulo.

[00:01:54] Eu sou militante do Coletivo LGBT Comunista.

[00:01:57] Sou secretário político nacional do coletivo.

[00:02:01] Também sou conselheiro estadual LGBT.

[00:02:04] E educador popular pelo Núcleo de Educação Popular 13 de Maio.

[00:02:09] Sobre o livro, particularmente, é um prazer, uma satisfação estar aqui pra discutir o livro que a gente traduziu.

[00:02:15] Entendendo a necessidade de fazer com que o movimento LGBT brasileiro se aproprie das discussões que a gente julga que tem a contribuir.

[00:02:23] Com a compreensão da… Com a base material da opressão LGBT.

[00:02:27] E, pra isso, a gente tem esse episódio aqui pra discutir hoje, por algumas horas.

[00:02:31] Fantástico demais.

[00:02:33] Vamos aí, então, pra esse bate-papo que eu acho que vai ser nada menos que show com vocês.

[00:02:38] Mas antes da gente começar isso aqui, eu queria que, se possível, aí vem uma pegadinha agora, hein.

[00:02:44] Vocês explicassem o que é o LGBT comunista, que história é essa, coletivo, o que é um coletivo, o que tá acontecendo, vocês fazem parte.

[00:02:51] Maravilha.

[00:02:53] O coletivo LGBT comunista é um coletivo do PCB, o Partido Comunista Brasileiro.

[00:03:00] E a gente, no partido, entendeu a necessidade de se organizar nos movimentos sociais também.

[00:03:08] Pra isso, a interface que o partido entendeu como sendo a mais viva, a mais pujante pra conseguir fazer essa relação entre movimentos sociais e partido,

[00:03:18] vem a figura dos coletivos.

[00:03:20] Que é o caso do coletivo LGBT comunista, mas não só ele.

[00:03:23] O coletivo feminista classista no Montenegro, e o coletivo Minervino de Oliveira também.

[00:03:28] O coletivo negro Minervino de Oliveira, pra atuar no movimento negro.

[00:03:31] A partir do coletivo, a gente atua no movimento social LGBT, levando as bandeiras do partido, levando a estratégia política do partido,

[00:03:42] mas com uma autonomia pra entender as demandas próprias da população trabalhadora LGBT.

[00:03:46] E, claro, numa via de mão dupla.

[00:03:49] Produzindo acúmulo, produzindo…

[00:03:50] Produzindo teoria, traduzindo teoria, como é esse caso, levando isso pra dentro do partido, pra que ele avance também nas demandas LGBT da classe trabalhadora.

[00:03:59] Alguma coisa? Faltou, Matheus?

[00:04:00] Não, perfeito. Só completar que hoje a gente tá organizado em dez núcleos ao longo do país.

[00:04:06] Então, a gente tá organizado em São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Salvador, Vitória da Conquista, Teresina, Fortaleza, Natal, Joinville e Cuiabá.

[00:04:15] Então, esse episódio também é um convite pra que os ouvintes…

[00:04:20] Os ouvintes conheçam um pouco mais sobre o trabalho do LGBT comunista nas nossas redes sociais, no nosso site, lgbtcomunista.org.

[00:04:28] E nas nossas redes, no nosso site, a gente também tá disponibilizando textos teóricos, demais traduções,

[00:04:34] sempre nesse intuito de trazer a teoria pra prática do movimento LGBT brasileiro.

[00:04:40] Perfeito. Sobre esses núcleos que você citou, na verdade, tem mais coisa, né?

[00:04:44] A gente tá lançando agora o núcleo em Brasília.

[00:04:46] Olha aí.

[00:04:46] Tá pra lançar o núcleo em Belo Horizonte.

[00:04:49] E…

[00:04:50] Além disso, tem alguns outros sendo formados pelo país.

[00:04:53] Então, mesmo que não tenha, na relação do nosso site, algum núcleo que vocês atuem, propriamente, algum núcleo na cidade de vocês,

[00:05:01] preencham o formulário, entrem em contato com a gente, mandem um e-mail, acessem o nosso Instagram pra contatar a gente.

[00:05:07] Porque existem outros núcleos sendo formados e vocês podem participar desse processo de construção do LGBT comunista aí onde vocês estão.

[00:05:13] Olha aí. Muito bom. Eu já anotei aqui porque o teu pessoal aqui em Volta Redonda é bom, hein?

[00:05:18] Pra formar um núcleo aqui.

[00:05:20] Inclusive, a gente vira e mexe conversa, né?

[00:05:23] Falando assim, e aí? Quando é que vai ser o LGBT comunista em Volta Redonda?

[00:05:25] Eu falei, opa, bora.

[00:05:27] Então, eu já vou aproveitar esse momento aí e já falar pra galera.

[00:05:30] Você que tá ouvindo isso aqui de Volta Redonda, fique esperto, hein?

[00:05:33] Cobra a gente aí, cobra a galera aqui pra formar um núcleo aqui em Volta Redonda.

[00:05:37] É importante demais dar conta.

[00:05:39] Vou começar com uma coisa básica que a gente sempre conversa quando a gente vai falar de algum livro em específico.

[00:05:46] Com o Matheus. Matheus, aí você participou, né, da tradução do livro.

[00:05:50] Com outras pessoas, né?

[00:05:52] Como que veio essa decisão e essa vontade de traduzir esse livro?

[00:05:56] Eu vi que esse livro já tinha uma certa circulação em inglês, né?

[00:06:02] Algum tempo atrás. Até achei algumas capas aqui e alguns pequenos jornais falando sobre ele.

[00:06:08] Mas, né, a gente tem que ter a versão em português.

[00:06:11] Como é que foi essa decisão e por que a necessidade desse livro, que você me lembra bem, saiu em 2021, né?

[00:06:18] Isso, isso. A gente lançou ele em 2021.

[00:06:20] Em 2021, num evento online, que é a parada virtual LGBT tem classe.

[00:06:24] Inclusive, ele tá inteiro no YouTube.

[00:06:27] Se vocês jogarem lá, vocês conseguem dar uma olhada.

[00:06:28] Tem bastante mesas de debate com, enfim, personalidades aí do movimento LGBT, teóricos,

[00:06:35] que estão discutindo, de fato, sobre as questões trazidas pelo livro.

[00:06:40] Foi um desafio, na verdade, essa tradução, porque ela começou da constatação de que o coletivo precisava conhecer

[00:06:48] e se apropriar.

[00:06:49] Teoricamente, daquilo, dentro do nosso campo, né, do campo do materialismo histórico dialético,

[00:06:55] que pensava, que refletia, que poderia dar aí um alimento pra nossa ação prática.

[00:07:02] E a gente se depara, dentro dessa nossa pesquisa, a partir dessa necessidade,

[00:07:06] na verdade, um campo um pouco árido.

[00:07:09] Quando a gente fala de movimento LGBT ou de identidades LGBT, quando se estuda sobre isso,

[00:07:14] sobretudo na academia, a gente tende a se deparar com perspectivas fora

[00:07:19] do nosso escopo teórico.

[00:07:21] Então, a gente se depara muito com análises baseadas na teoria decolonial,

[00:07:26] ou na sociologia interativa estadunidense, e a gente compreendeu como importante

[00:07:33] a gente ir atrás, então, dos comunistas que estavam discutindo hoje

[00:07:37] sobre as questões em torno do movimento LGBT.

[00:07:41] Esse processo de tradução, ele começa primeiro interno, né,

[00:07:43] então a gente pega o livro em inglês, a gente se distribui, aí os capítulos,

[00:07:49] entre os capítulos, e a gente se distribui, e aí os capítulos, entre os capítulos,

[00:07:49] entre os militantes, para que a gente consiga fazer uma discussão bem aprofundada,

[00:07:53] primeiro internamente, e a partir dessa discussão, e esse processo todo levou aí mais de um ano, né,

[00:07:59] de tradução interna, de debates, a gente entendeu que poderia ser uma contribuição especial

[00:08:05] aí do LGBT comunista, que a gente publicasse esse livro traduzido,

[00:08:10] para a gente também começar a pautar esse tipo de abordagem dentro do debate

[00:08:18] sobre a questão LGBT.

[00:08:19] Então, a partir disso, a gente vai fazer uma grande revisão, né,

[00:08:24] dessa tradução que a gente fez primeiro internamente.

[00:08:27] Foram quatro camaradas que, na época, traduziram junto comigo o livro,

[00:08:32] então eu acho importante citá-los, né, a Mariana Lazari, o Paulo Gabriel Galvão e Gui Cassiano.

[00:08:38] A gente junto, né, acabou aí revisando essa tradução que já tinha sido feita,

[00:08:44] e também entramos coletivamente em contato com a Editora Autonomia Literária

[00:08:48] para viabilizar a publicação.

[00:08:49] Então, o contexto de tradução é um pouco esse, né,

[00:08:53] de tentar, a partir da análise que a Sherwolf faz sobre o movimento LGBT estadunidense,

[00:08:59] entender o que dessa análise a gente consegue aproveitar,

[00:09:04] a gente consegue aproximar do que a gente enfrenta hoje no Brasil,

[00:09:09] tendo em vista que, de fato, a análise não pode ser transplantada para a realidade brasileira.

[00:09:14] Quando a gente fala, principalmente de um livro historiográfico,

[00:09:18] como o livro da Sherwolf,

[00:09:19] tem eventos específicos, uma conjuntura histórica ali que vai engendrar essa identidade

[00:09:23] naquele local específico, que é diversa daquela que a gente encontra

[00:09:28] quando a gente se depara com o Brasil.

[00:09:31] Então, apesar desses limites, a gente tem aí bastante pontos de aproximação

[00:09:37] e a ideia, realmente, é trazer isso, né, essa perspectiva aí para um debate,

[00:09:42] inclusive, teórico com, enfim, movimento, com academia,

[00:09:45] para a gente aparecer aí dentro do movimento LGBT,

[00:09:49] basicamente isso.

[00:09:51] Muito bom. Renan, se você quiser complementar alguma coisa.

[00:09:54] É exatamente isso. E aí, nesse processo, é que tem um aspecto do livro

[00:09:58] que a gente entendeu como sendo central.

[00:10:01] É um livro que vai, né, ao longo dele, discutir uma série de questões.

[00:10:04] Vai discutir tanto esse âmbito historiográfico, mas desenvolver uma análise

[00:10:08] das questões biológicas que envolvem a população LGBT,

[00:10:12] desenvolver uma análise também da pós-modernidade,

[00:10:15] mas a gente achou que o CERN se concentra na análise que,

[00:10:19] o livro vai fazer procurando as bases materiais da opressão

[00:10:23] que vai atingir essa parte da população trabalhadora,

[00:10:27] que é a opressão LGBTfóbica.

[00:10:30] Ela passa uma boa parte do livro desvendando isso,

[00:10:33] a partir de estudos anteriores, em contato com outras pessoas,

[00:10:37] como o John Demílio, que foi orientador dela.

[00:10:40] Esse livro foi feito a partir da pesquisa que ela desenvolveu

[00:10:44] com orientação do John Demílio.

[00:10:46] Então, a gente entendeu que esse núcleo duro,

[00:10:48] de tentar desvendar qual é a base material da opressão LGBT,

[00:10:53] a gente achou que, bom, daqui tem muito a contribuir com as discussões brasileiras,

[00:10:58] muito a contribuir com a discussão comunista,

[00:11:02] e foi assim, o livro que a gente conseguiu entender que consegue

[00:11:06] sintetizar melhor esses aspectos materiais que vão condicionar

[00:11:11] a forma como as LGBTs vão viver na sociedade de classe.

[00:11:15] Eu tava vendo aqui, pensando nisso, na verdade,

[00:11:18] sobre essa questão, assim, que a homossexualidade,

[00:11:21] ela não se expressa como um fenômeno unívoco durante todo o período da sociedade humana.

[00:11:27] Tem vários momentos diferentes, que a gente sempre fala no serviço social,

[00:11:30] quando a gente tá fazendo a faculdade, sempre discute isso, né,

[00:11:33] que todos os fenômenos são socialmente determinados e historicamente situados, né,

[00:11:37] todos os momentos da humanidade como bom ser humano.

[00:11:40] E aí, a população LGBT hoje não é a mesma população LGBT da década de 30,

[00:11:47] que não é a mesma da década de 60.

[00:11:48] Então, você tem as variáveis, né, nesses momentos históricos, de perseguição, de não-perseguição, né,

[00:12:01] lembrando, por exemplo, que até, eu acho que se me lembro bem,

[00:12:04] foi 2003 ou 2005, né, tem que precisar esse direito.

[00:12:08] Você que tá ouvindo aí, me corrija se eu estiver errado.

[00:12:10] Se eu me lembro bem, eu acho que um dos criadores da ciência da computação

[00:12:15] foi muito famoso por aquele filme O Jogo da Imitação, que é o Alan Turing.

[00:12:18] Foi perdoado pela coroa inglesa, né, pela sua homossexualidade.

[00:12:22] Olha que loucura, né, assim, tipo, do século XXI, sabe?

[00:12:25] Eles aceitaram, né, que foi um erro, né, a castração química, enfim, né,

[00:12:31] naquele momento, e demorou esse tempo todo pra, enfim, eles se lembrarem disso.

[00:12:35] Falaram, não, o Alan Turing, né, que loucura, a gente tem que, né…

[00:12:38] Só acho que você tá sendo generoso ainda, porque foi depois de 2010, foi…

[00:12:43] Foi depois de 2010?

[00:12:44] Foi em 2012, 2013, por aí, que ele recebeu o perdão.

[00:12:47] É, então…

[00:12:48] Dez anos atrás, né?

[00:12:49] Dez anos atrás só, né?

[00:12:51] Que eles tentam reparar esse erro histórico aí, né, na Inglaterra.

[00:12:57] E aí, eu queria perguntar pra vocês sobre essa questão, assim,

[00:13:00] sobre as expressões das opressões que a população LGBT sofre ao longo da história, né,

[00:13:07] sofre ao longo de todos os processos no capitalismo.

[00:13:10] Como que a Sherry, ela vai trazer isso, né, pra gente?

[00:13:14] Então, a chave pra se pensar essa questão, Osani,

[00:13:18] é que esse livro vai apresentar pra gente,

[00:13:21] é a gente conseguir tirar um pouco das perspectivas essencialistas

[00:13:25] que vão colocar, de modo trans-histórico, se não há histórico,

[00:13:30] a própria construção da homossexualidade,

[00:13:32] de que sempre foi assim, sempre existiu,

[00:13:35] muitas vezes apelando aí a outros animais,

[00:13:39] existem mais de mil espécies de animais, padrões homossexuais, coisas desse tipo.

[00:13:44] O livro da Sherry Wolfe vai apresentar pra gente

[00:13:46] a homossexualidade.

[00:13:47] Homossexualidade é um fenômeno histórico,

[00:13:49] como você estava colocando, um fenômeno determinado socialmente,

[00:13:53] e vai ser o advento do capitalismo que vai produzir a possibilidade

[00:13:58] de pessoas se organizarem através de sexualidades.

[00:14:01] E quando a gente fala, ah, homossexualidade é um produto histórico,

[00:14:04] não só ela, a própria heterossexualidade também.

[00:14:08] Mas o que a autora vai apresentar pra gente

[00:14:10] é que a homossexualidade, a partir de uma mudança

[00:14:16] que ocorre na Europa e vai se refletir nos Estados Unidos

[00:14:21] em formato relativamente semelhante,

[00:14:24] a partir dos colonos, enfim,

[00:14:26] existia na família feudal, na instituição familiar feudal,

[00:14:29] uma unidade de produção da vida.

[00:14:32] A própria família era o lugar onde se produzia e reproduzia a vida.

[00:14:36] Então, desde a parte de tecer roupas, a colheita,

[00:14:41] tudo isso estava centralizado nesse núcleo familiar.

[00:14:43] E aí, com o processo da Revolução Industrial,

[00:14:46] o próprio surgimento da indústria, das fábricas,

[00:14:51] vai fazer com que os trabalhadores

[00:14:54] passem a não mais produzir as coisas dentro desse ambiente familiar.

[00:14:58] A família vai passar a ser um lugar de reprodução da vida,

[00:15:01] e não de produção propriamente.

[00:15:03] A produção vai se dar no ambiente fabril.

[00:15:05] E isso vai mudar muita coisa, muita, muita coisa.

[00:15:07] Sendo a principal delas a possibilidade de se viver,

[00:15:10] se vivenciar fora do próprio ambiente familiar.

[00:15:13] Então, ter contato com outras pessoas,

[00:15:16] passar a se relacionar com outras pessoas,

[00:15:19] isso vai permitir que se vivencie a sexualidade de forma distinta.

[00:15:23] Diferente, por exemplo, da Grécia.

[00:15:25] Na Grécia, o que a gente tinha lá de práticas homeróticas,

[00:15:28] e essa diferenciação que a autora faz entre práticas homossexuais

[00:15:32] e uma identidade homossexual propriamente,

[00:15:37] é que nesse processo de Revolução Industrial,

[00:15:40] nesse processo de mudança da família enquanto esse núcleo de produção da vida,

[00:15:45] passa-se a…

[00:15:46] a vivenciar, há uma possibilidade de ser mais anônimo,

[00:15:50] de manter relações com outras pessoas.

[00:15:52] Nesse primeiro momento, homens passam por isso primeiro.

[00:15:56] E aí, isso vai fazer com que se configure a própria concepção de desejo.

[00:16:01] A família quer esse lugar para se manter a subsistência e continuar ali.

[00:16:07] A sexualidade não está no âmbito do desejo,

[00:16:10] mas no âmbito da necessidade concreta de se produzir gerações

[00:16:13] para ter trabalho empreendido,

[00:16:16] conseguir produzir a vida.

[00:16:19] Claro, isso vai se manter em algum nível,

[00:16:22] esse âmbito da produção e reprodução da vida.

[00:16:25] Mas, também há um contato para além do núcleo familiar,

[00:16:29] para além dessas relações de parentesco.

[00:16:32] E isso vai fazer com que, nesse conhecimento de pessoas,

[00:16:35] isso se reorganize através de centros urbanos,

[00:16:39] e aí permita-se vivenciar a sexualidade de outra forma.

[00:16:42] Isso ela está falando lá nos…

[00:16:46] Em 1800, no processo da segunda metade de 1800, principalmente.

[00:16:52] Mas que vai se acentuar lá no início do século 20.

[00:16:56] E aí, de lá para cá, as mudanças são cada vez mais frequentes.

[00:17:01] Por exemplo, a própria sigla LGBT.

[00:17:04] A gente pensar na sigla LGBT é pensar em algo muito recente.

[00:17:08] Não se falava em LGBT na década de 70.

[00:17:11] Hoje mesmo, há discussões sobre se a sigla LGBT é a mais adequada.

[00:17:15] Porque existem, por exemplo, pessoas não binárias.

[00:17:19] E isso vai se mudando,

[00:17:21] geracionalmente,

[00:17:23] nesse último período, com muito mais ênfase.

[00:17:26] A partir de uma forma de sociedade que permite

[00:17:29] que as pessoas vivenciem a sexualidade de modo muito distinto do que era no século passado.

[00:17:34] Do que era dois séculos atrás.

[00:17:36] Essa é a diferença mais…

[00:17:37] Não, perfeito. Vou pegar o gancho do Nan, então.

[00:17:40] Quando o Nan coloca essa diferenciação entre comportamento,

[00:17:45] comportamento homossexual e identidades homossexuais ou identidades transexuais,

[00:17:50] a gente está, de fato, num outro campo de avaliação teórica.

[00:17:55] Fora desse essencialismo que vai dizer que LGBTs sempre existiram

[00:17:59] e, portanto, precisamos ser respeitadas, porque estivemos aí ao longo da história.

[00:18:04] Ou então, que nascemos assim.

[00:18:06] Um aspecto como se fosse biológico.

[00:18:09] Que, por mais que esses discursos, eles, por vezes, tenham interesse,

[00:18:14] interesses genuínos no bem-estar das pessoas LGBT,

[00:18:18] em algum tipo de proteção contra a violência que atravessa os nossos corpos, as nossas mentes,

[00:18:25] eles são discursos infundados.

[00:18:28] Porque essa diferença entre identidade e comportamento

[00:18:33] vai ser central para a gente entender o papel da massificação, do assalariamento da classe trabalhadora.

[00:18:39] Para que a gente consiga pensar em se identificar,

[00:18:44] se dizer, se apresentar, enquanto, no meu caso, um homem gay ou uma pessoa transexual, uma mulher lésbica, que seja.

[00:18:51] O livro da Sherry, ele é um livro bem legal nesse sentido, porque ele tem nove capítulos,

[00:18:57] mas ela vai passar, se não me engano, quatro desses capítulos fazendo uma análise histórica.

[00:19:02] Pegando um pouco do contexto europeu para começar a analisar os Estados Unidos na passagem do século XIX para o começo do século XX.

[00:19:10] E aí, ela vai colocar que esse movimento de assalariamento,

[00:19:13] E aí, ela vai colocar que esse movimento de assalariamento,

[00:19:13] de assalariamento da população fez com que sobreviver dentro do núcleo familiar não fosse um pressuposto para estar vivo.

[00:19:21] Você conseguiria garantir a sua sobrevivência através do salário e, com isso,

[00:19:26] você não precisava de todo esse trabalho que era partilhado dentro da família.

[00:19:30] Por isso, inclusive, que as famílias de antigamente eram muito maiores do que as famílias que a gente encontra hoje em dia.

[00:19:38] E, junto com isso, ela vai colocar que as guerras, tanto a primeira como a segunda,

[00:19:42] foram determinantes para que essas identidades pudessem florescer posteriormente na década de 60,

[00:19:48] foram determinantes para que essas identidades pudessem florescer posteriormente na década de 60,

[00:19:54] que é mais ou menos ali onde ela vai demarcar que essas identidades estavam mais plenamente conformadas.

[00:20:01] E por que a guerra é fundamental?

[00:20:03] A guerra é fundamental porque ela vai trazer a possibilidade de vivenciar experiências homoeróticas que, por vezes,

[00:20:07] A guerra é fundamental porque ela vai trazer a possibilidade de vivenciar experiências homoeróticas que, por vezes,

[00:20:09] A guerra é fundamental porque ela vai trazer a possibilidade de vivenciar experiências homoeróticas que, por vezes,

[00:20:11] A guerra é fundamental porque ela vai trazer a possibilidade de vivenciar experiências homoeróticas que, por vezes,

[00:20:12] por vezes frequentemente

[00:20:14] eram ou

[00:20:17] enfim, guetificadas, vamos dizer assim

[00:20:19] na sociedade não era algo bem visto, era algo

[00:20:21] reprimido com violência

[00:20:22] e que por isso você não conseguia

[00:20:25] se reconhecer ali, você tinha muito mais

[00:20:27] dificuldade de vivenciar os seus desejos, a sua

[00:20:29] afetividade, e também

[00:20:31] porque com a

[00:20:33] participação dos Estados Unidos

[00:20:35] nas duas guerras, você tem uma

[00:20:37] entrada muito forte das mulheres

[00:20:38] no mercado de trabalho, nas indústrias

[00:20:41] então ela traz

[00:20:43] alguns relatos inclusive de mulheres

[00:20:44] que saem de cidades do interior

[00:20:46] para grandes centros urbanos, trabalhar

[00:20:48] nas indústrias e ficavam, por exemplo

[00:20:51] em casas

[00:20:52] compartilhadas com outras mulheres

[00:20:54] e esse contato novo

[00:20:56] permitiu com que essas mulheres

[00:20:58] descobrissem desejos,

[00:21:00] afetividades, que talvez

[00:21:02] não fosse possível

[00:21:04] caso elas não tivessem

[00:21:07] tido essa experiência. Inclusive

[00:21:09] eu acho que

[00:21:10] a ideia que ela coloca

[00:21:12] que é importante a partir disso

[00:21:14] é que o capitalismo

[00:21:16] ele vai propiciar

[00:21:18] que as pessoas

[00:21:19] vivenciem esses desejos

[00:21:22] a partir da transformação

[00:21:24] da família. Ao mesmo

[00:21:26] tempo que o capitalismo permite

[00:21:28] que essas identidades

[00:21:30] se desenvolvam,

[00:21:32] essas identidades são afirmadas

[00:21:35] como um outro

[00:21:36] elas são afirmadas como algo

[00:21:38] negativo, elas

[00:21:40] são na verdade

[00:21:42] contrapostas à norma

[00:21:44] e a norma é a ideia de

[00:21:46] heterossexualidade, que o Renan

[00:21:48] já colocou também. Então ao mesmo tempo

[00:21:50] que você tem conformação histórica

[00:21:52] das identidades LGBT, você vai ter

[00:21:54] a conformação histórica da heterossexualidade

[00:21:56] como a norma, sendo as

[00:21:58] pessoas LGBT o desviante

[00:22:00] dessa norma. E isso

[00:22:02] vai envolver um processo de

[00:22:04] violência que se cristaliza principalmente

[00:22:06] em três esferas, que é

[00:22:08] a esfera jurídica, a esfera

[00:22:10] biológica e a esfera

[00:22:12] da psicologia, enfim

[00:22:14] desses estudos

[00:22:17] que vão todos apontar

[00:22:19] para a patologização

[00:22:20] para a criminalização

[00:22:22] do diferente. Eu acho que

[00:22:24] essa ideia é bem importante também

[00:22:26] para a gente começar a pensar essa

[00:22:28] atuação contraditória do capitalismo

[00:22:31] frente à nossa existência.

[00:22:32] Isso que você apontou sobre a questão

[00:22:34] da patologização, que a Sherry

[00:22:36] coloca ali em vários momentos

[00:22:38] no livro também, que a gente vê

[00:22:40] o nosso cotidiano. Acho que foi recentemente

[00:22:43] que o código

[00:22:44] internacional de

[00:22:46] vários recentemente, na verdade,

[00:22:48] o código internacional de doenças retira

[00:22:50] tanto a homossexualidade

[00:22:53] agora não lembro bem se a transexualidade

[00:22:54] também foi retirada

[00:22:56] ou estou enganado,

[00:22:58] podem me corrigir, e como

[00:23:00] que o modelo

[00:23:02] de família nuclear burguesa,

[00:23:04] que é uma herança do modelo de família

[00:23:06] aristocrática,

[00:23:08] ele impõe

[00:23:10] as famílias da classe trabalhadora, que são completamente

[00:23:12] diferentes, vindo desse momento específico

[00:23:15] pré-capitalista,

[00:23:16] da unidade familiar

[00:23:18] camponesa,

[00:23:20] que é isso que você falou,

[00:23:21] para quem nunca viu uma roça,

[00:23:25] porque acontece,

[00:23:27] para você produzir

[00:23:28] numa unidade familiar

[00:23:30] camponesa, você precisa de muitos braços,

[00:23:32] a não ser que você tenha muita tecnologia,

[00:23:34] mas a gente está falando século XIII, século XII,

[00:23:36] então definitivamente a tecnologia

[00:23:38] mais incrível naquele momento era o arado de ferro,

[00:23:40] então assim, literalmente precisa de muitos

[00:23:42] braços, quando você

[00:23:44] passa para esse momento que você

[00:23:46] colocou, que é esse momento

[00:23:48] da transferência

[00:23:51] do campo para a cidade,

[00:23:52] do processo de cercamentos,

[00:23:54] em que as pessoas vão morar nos cortiços,

[00:23:56] então elas começam a se relacionar

[00:23:58] com muitas outras pessoas ao mesmo tempo,

[00:24:00] por uma necessidade e ao mesmo tempo

[00:24:02] pela questão do assalaramento, e mesmo assim

[00:24:04] ainda reproduzindo uma parte considerável

[00:24:06] desse processo de ainda ter muitos braços,

[00:24:09] porque muitos braços significa mais

[00:24:10] gente trabalhando na fábrica

[00:24:11] e mais salários,

[00:24:14] para você juntar aos valores

[00:24:16] da família naquele momento,

[00:24:18] de uma época que não tinha previdência social,

[00:24:20] não tinha nada assim,

[00:24:22] inclusive o termo aposentar vem

[00:24:24] literalmente de você ir para o aposento e morrer,

[00:24:26] então que a gente acaba pegando

[00:24:28] isso hoje em dia com

[00:24:30] um outro sentido,

[00:24:32] pelo menos agora tem

[00:24:34] salário, aposentadoria,

[00:24:37] ainda tem,

[00:24:38] uma certa aposentadoria

[00:24:40] para fazer esse tipo de coisa,

[00:24:41] então isso é muito interessante,

[00:24:43] vocês estão colocando essas questões e eu estou me lembrando

[00:24:46] disso, e de como que

[00:24:48] a moral e o moralismo

[00:24:50] atuam especificamente

[00:24:52] na conformação e na tentativa

[00:24:54] de destruição de qualquer outra forma de identidade

[00:24:56] que seja possível,

[00:24:58] que não seja a família nuclear

[00:25:00] burguesa, que reproduza

[00:25:02] ali a concepção

[00:25:04] de herança e a necessidade

[00:25:06] de reproduzir esse campo.

[00:25:08] Então, você estava falando

[00:25:10] de aposentadoria,

[00:25:12] da origem de aposentadoria,

[00:25:14] a própria origem de família, né?

[00:25:16] Família vem do

[00:25:18] famulos, que era aquele

[00:25:19] contingente de escravos que os romanos

[00:25:22] tinham, que vai se mudando ao longo

[00:25:24] da história, até chegar na

[00:25:26] família nuclear, que é a

[00:25:28] concepção da família que a gente tem hoje.

[00:25:30] E sim, a

[00:25:31] transexualidade foi retirada

[00:25:34] do CID, quando teve a última atualização

[00:25:36] do CID, passou do CID-10 para CID-11

[00:25:38] e atualizou várias coisas lá,

[00:25:40] no Código Internacional,

[00:25:41] sei lá se é código, enfim,

[00:25:43] Internacional de Doenças,

[00:25:46] eu acho que foi em 2019, a transexualidade

[00:25:48] saiu e a homossexualidade, 90,

[00:25:50] na década de 90,

[00:25:51] desse lugar de patologia.

[00:25:54] Mas sobre o que você coloca, Zami,

[00:25:56] eu acho que é interessante pensar,

[00:25:58] inclusive, como isso vai se diferenciar,

[00:26:00] a própria Sherwood vai colocar,

[00:26:02] na forma como esses tabus,

[00:26:04] essa questão moral, vai chegar

[00:26:06] para a família da classe trabalhadora,

[00:26:07] que, como você disse,

[00:26:09] não tem um ambiente tão privativo

[00:26:11] quanto a própria

[00:26:13] família da classe média,

[00:26:15] ela vai fazer essa diferenciação, falando

[00:26:17] que, por exemplo, muitas das questões que estavam

[00:26:19] colocadas como tabu para a classe média,

[00:26:22] para a classe trabalhadora não chegava,

[00:26:23] porque não era uma opção material para se ter.

[00:26:26] É interessante pensar como

[00:26:27] à medida que, voltando

[00:26:29] à coisa da contradição

[00:26:31] que o Matheus trouxe,

[00:26:33] como à medida que o capitalismo

[00:26:36] vai permitir que as pessoas

[00:26:38] comecem a vivenciar e construir

[00:26:40] identidade a partir

[00:26:42] da sua sexualidade,

[00:26:44] a partir do seu gênero,

[00:26:46] vai fazer também com que se gere

[00:26:48] esse processo

[00:26:50] de mão dupla, em que isso vai ser reprimido,

[00:26:53] vai criar uma consciência média

[00:26:54] na população,

[00:26:56] que vai regrar

[00:26:58] a partir do que é tido como normal.

[00:27:00] Aliás, o conceito de heterossexual

[00:27:03] vai surgir décadas depois

[00:27:04] do próprio conceito de homossexual.

[00:27:07] O outro,

[00:27:08] sempre vem antes, né?

[00:27:09] Depois que você vai falar o que é você.

[00:27:11] Depois que você tem o outro, você para e…

[00:27:13] Ah, tá bom, se existe homossexual, a gente tem que ser alguma coisa.

[00:27:16] E aí passa a existir a heterossexualidade.

[00:27:18] Mas isso vai acontecer desse modo

[00:27:20] contraditório, de forma que

[00:27:22] a própria forma como a gente

[00:27:24] vai se relacionar

[00:27:25] na sociedade, na família,

[00:27:29] vai produzir

[00:27:30] uma consciência na gente que vai

[00:27:32] ser em defesa de,

[00:27:35] por exemplo,

[00:27:36] da necessidade reprodutiva,

[00:27:38] de gerações de trabalhadores,

[00:27:40] e aí é um dos motivos que

[00:27:41] imediatamente vai se

[00:27:43] confrontar com

[00:27:46] as identidades LGBT, porque elas vão

[00:27:48] questionar essa própria lógica

[00:27:50] no limite, né?

[00:27:53] A forma como as pessoas LGBT

[00:27:55] se relacionam,

[00:27:56] questiona a constituição

[00:27:58] e a essência da família,

[00:28:01] e isso vai

[00:28:02] sempre ser de uma forma muito

[00:28:04] contraditória, muito conflituosa,

[00:28:06] entre a possibilidade

[00:28:08] de se fazer e a repressão

[00:28:10] que isso vai gerar.

[00:28:12] Corrigindo aqui, aproveitando

[00:28:14] para dar essa informação que eu

[00:28:15] não tinha, mas foi em 2019

[00:28:18] que foi retirado do CID,

[00:28:20] na 72ª

[00:28:22] Assembleia da Saúde Mundial,

[00:28:24] e ano passado que terminou

[00:28:26] o prazo para cada país

[00:28:28] se adaptar, era dia 1º de janeiro

[00:28:30] de 2022, que foi

[00:28:32] 1º de janeiro do ano passado. Então, assim,

[00:28:34] literalmente muito,

[00:28:36] muito recente

[00:28:38] na história mundial

[00:28:39] o processo de

[00:28:42] oficialização, da despatologização

[00:28:44] da transexualidade, né?

[00:28:47] Inclusive, assim,

[00:28:48] isso que você fala, assim, dessa coisa

[00:28:50] da homossexualidade, da transexualidade,

[00:28:53] das pessoas lésbicas,

[00:28:55] das pessoas bis,

[00:28:56] de isso ser algo que confronta

[00:28:58] o modelo de família

[00:29:00] nos vários momentos da história,

[00:29:02] nos vários momentos dos modelos de família,

[00:29:05] tem uma relação muito direta também

[00:29:06] com o próprio processo

[00:29:08] de você

[00:29:10] se utilizar dos manicômios, né?

[00:29:13] Desses hospitais, pra você

[00:29:14] tentar, literalmente,

[00:29:16] encarcerar essas

[00:29:18] populações, assim chamadas desviantes,

[00:29:21] nas sociedades, né?

[00:29:22] Então, você vai ter

[00:29:23] desde

[00:29:25] um caso muito famoso da escultora

[00:29:30] Clamir Caldel, né?

[00:29:32] Por ser escultora,

[00:29:34] por ter um trabalho pesado,

[00:29:35] a gente falou mais cedo de falar

[00:29:37] obviedades, né?

[00:29:38] Vocês lembram, mas, assim,

[00:29:39] aí a gente vai falar uma obviedade aqui agora, né?

[00:29:41] Como ela trabalhava com esculturas, né?

[00:29:44] Obviamente, ela

[00:29:45] ficava mexendo com pedra, né?

[00:29:49] Com sisal, enfim, um monte de material

[00:29:51] que, assim,

[00:29:53] se é o seu trabalho, você trabalha

[00:29:54] 24 horas por dia, né?

[00:29:56] Ou 7 dias na semana, você vai

[00:29:58] estar ali sujo, né? Assim,

[00:30:00] daquele material, né?

[00:30:02] A mão vai estar com as marcas

[00:30:04] do processo de trabalho.

[00:30:05] E o irmão dela,

[00:30:07] por achar ela pouco feminina,

[00:30:09] porque ela usava calças, né?

[00:30:10] Porque é muito difícil você fazer esculturas

[00:30:13] usando vestidos, acaba

[00:30:14] fazendo com que ela seja

[00:30:17] encarcerada em um manicômio, né?

[00:30:18] E aí, recentemente, saiu uma edição

[00:30:21] que eu queria muito pra ler,

[00:30:23] que são as cartas dela ao irmão, né?

[00:30:25] Pedindo pra retirar ela de lá, porque

[00:30:27] ela é escultora, enfim.

[00:30:30] Ela não é maluca, né?

[00:30:31] Assim,

[00:30:32] o termo que se utiliza na época, né?

[00:30:36] Então, isso é muito interessante,

[00:30:37] assim, eu fico pensando em quanto

[00:30:39] que pessoas trans e as pessoas

[00:30:41] LGBTs, no geral,

[00:30:43] elas foram também

[00:30:45] encarceradas pelas famílias

[00:30:46] mais abastadas, né? E quando

[00:30:49] não as famílias mais abastadas

[00:30:51] não tinham… as famílias não tinham

[00:30:53] condições, né? De arcar

[00:30:55] com uma internação permanente.

[00:30:57] A gente tem que lembrar que o SUS é uma invenção

[00:30:59] de seguridade

[00:31:01] muito recente no Brasil, né?

[00:31:03] A partir da década de 90, 88, 90,

[00:31:05] né? Que tá ameaçado nesse momento.

[00:31:07] Elas eram

[00:31:08] marginalizadas ao máximo possível.

[00:31:11] E ainda são, né? Se pensar, por exemplo,

[00:31:13] aqui também

[00:31:14] na realidade brasileira,

[00:31:17] o próprio manicômio de Barbacena.

[00:31:19] Sim. Até, tipo,

[00:31:21] mais de 50 mil pessoas morreram

[00:31:23] lá. Era um lugar onde

[00:31:25] se despejava homossexuais, às vezes

[00:31:27] as famílias, mas muitas vezes

[00:31:29] o próprio Estado recolhia e

[00:31:31] colocava lá no manicômio.

[00:31:32] O próprio de segurança, né?

[00:31:34] E todo esse movimento

[00:31:36] de dividir a própria classe

[00:31:38] trabalhadora, né? Então, a partir

[00:31:40] da determinação do outro,

[00:31:42] você, ao mesmo tempo, incentiva

[00:31:45] uma espécie de policiamento

[00:31:46] interno da classe, né?

[00:31:48] Que vai tá ali

[00:31:49] operando, na verdade, na própria lógica

[00:31:52] do capital, né? Então,

[00:31:54] o capitalismo vai olhar pra miséria

[00:31:56] que ele próprio produz e

[00:31:58] vai dizer, né? Pra classe

[00:32:00] trabalhadora, pra própria burguesia

[00:32:02] que a culpa da

[00:32:04] merda que a gente vive, né? A culpa da

[00:32:06] miséria, do desemprego, é

[00:32:08] a existência de pessoas

[00:32:10] LGBT, que é

[00:32:12] um discurso parente, né?

[00:32:14] Do discurso racista contra imigrantes,

[00:32:16] enfim, por aí vai, né?

[00:32:18] Que vai tá sempre buscando aí uma espécie

[00:32:20] de culpabilização moral pra um problema

[00:32:22] que tá baseado na exploração da

[00:32:24] classe sobre a classe, né?

[00:32:26] E todo esse…

[00:32:28] essa divisão, esse

[00:32:30] sentimento aí de policiamento,

[00:32:33] essa opressão, ela vai

[00:32:34] acabar empurrando as pessoas LGBT,

[00:32:36] LGBT, pras margens, quando não

[00:32:38] pra dentro dos manocomos, como a gente tá

[00:32:40] comentando aqui, né? E isso

[00:32:42] vai ter profundos impactos

[00:32:44] sobre a nossa identidade.

[00:32:46] Por exemplo, se hoje

[00:32:48] a gente tem

[00:32:50] uma certa permissividade

[00:32:52] maior de se apresentar

[00:32:54] uma pessoa LGBT

[00:32:56] em determinados espaços,

[00:32:58] obviamente isso vai variar de acordo com

[00:33:00] a realidade imediata, né?

[00:33:02] De cada trabalhador, mas hoje, em geral,

[00:33:04] existe uma permissividade maior,

[00:33:06] que é muito fruto aí das conquistas do movimento,

[00:33:09] antes você não tinha.

[00:33:10] Antes você tinha, inclusive,

[00:33:12] que esconder

[00:33:14] os seus afetos, esconder

[00:33:16] uma relação, às vezes,

[00:33:18] de família desviante da norma.

[00:33:21] Então não era incomum, por exemplo,

[00:33:23] que casais LGBTs,

[00:33:25] por exemplo, casais lésbicos, uma das

[00:33:26] mulheres, vivesse, às vezes,

[00:33:28] a vida inteira, né?

[00:33:30] Como se fosse um casal heterossexual, se apresentando

[00:33:32] socialmente com um casal heterossexual,

[00:33:35] mas, na verdade,

[00:33:36] era um casal lésbico, né? Que aí, depois,

[00:33:38] quando o momento histórico muda,

[00:33:40] esses casais se afirmam

[00:33:42] e, enfim, se apresentam de uma maneira

[00:33:44] diferente aí pro mundo.

[00:33:46] Então, é uma

[00:33:48] característica muito forte dessa primeira metade

[00:33:50] do século XX, que

[00:33:52] a existência das pessoas LGBTs

[00:33:54] acabe se restringindo a círculos

[00:33:56] privados, né?

[00:33:58] De afetividade.

[00:34:00] Enfim, tanto círculos mais

[00:34:02] ligados à própria classe trabalhadora,

[00:34:04] a gente pode citar um exemplo, né?

[00:34:06] Um exemplo que aí vai mais pra segunda metade

[00:34:08] do século XX, por exemplo, com os balls

[00:34:10] lá nos Estados Unidos, né?

[00:34:12] Que são essas festas que vão reunir

[00:34:14] a população negra, a população LGBT

[00:34:16] ali pra celebrar

[00:34:18] essa… aquilo que

[00:34:20] eles acusavam, né? De ser

[00:34:22] desviante, de ser

[00:34:24] corruptivo, mas também

[00:34:26] dentro da própria

[00:34:28] população ali um pouco mais

[00:34:30] abastada, por exemplo, em círculos intelectuais,

[00:34:32] círculos de leitura universitários

[00:34:34] dentro dos quais

[00:34:36] se desenvolvia ali

[00:34:38] uma espécie de

[00:34:40] gueto, vamos dizer assim, né? Não sei se é essa

[00:34:42] melhor palavra, porque essa palavra é muito carregada,

[00:34:44] né? Mas são esses espaços

[00:34:46] aí à margem, esses espaços

[00:34:48] escondidos que vão

[00:34:50] possibilitar que essas pessoas se reconheçam

[00:34:52] primeiramente, antes que esse reconhecimento

[00:34:54] venha a público. Também é uma outra

[00:34:56] prática que vem

[00:34:58] desse processo de policiamento,

[00:35:00] por exemplo, os encontros em parques

[00:35:02] entre homens, que é uma coisa

[00:35:04] que existe até hoje e

[00:35:06] banheirões aí das cidades

[00:35:08] brasileiras, no próprio Parque

[00:35:10] de Ibirapuera, aqui em São Paulo, né?

[00:35:12] Que são uma manifestação

[00:35:14] aí da identidade

[00:35:16] que ainda permanece, que é muito devedora

[00:35:18] desse processo aí de perseguição

[00:35:20] que vem desde o começo do século

[00:35:22] XX. Renan, se você quiser falar mais ou

[00:35:24] complementar, sinta sua vontade. Não, sobre

[00:35:26] esse aspecto eu acho que tá tranquilo,

[00:35:28] é isso mesmo, a gente pensar

[00:35:30] a partir da…

[00:35:32] de como…

[00:35:34] o exemplo das bolsas,

[00:35:36] que o Matheus trouxe, são esses

[00:35:38] grupos onde vai

[00:35:40] surgir a cultura vogue, né?

[00:35:42] Consagrada

[00:35:44] pela Madonna, a gente

[00:35:46] pensar em como

[00:35:48] esses agrupamentos que

[00:35:50] vão fazer

[00:35:52] um espaço de convivência

[00:35:54] à margem, vão persistir

[00:35:56] mesmo em momentos que a gente entende

[00:35:58] como mais… a gente tá falando

[00:36:00] que geracionalmente

[00:36:02] a população LGBT vai

[00:36:04] ter modificações,

[00:36:06] por exemplo, hoje

[00:36:08] em uma sala de aula

[00:36:10] é muito comum que uma

[00:36:12] parte significativa da turma se considere LGBT

[00:36:14] em uma sala de aula de ensino fundamental

[00:36:16] mesmo. Isso é

[00:36:18] muito comum, coisa que

[00:36:20] se a gente fala de 10 anos atrás,

[00:36:22] já não era tão comum. Se a gente fala de

[00:36:24] 20 anos atrás, era menos comum

[00:36:26] ainda. 70 anos atrás,

[00:36:28] incogitável. Só, assim,

[00:36:30] Renan, isso que você acabou de falar,

[00:36:32] eu lembrei de

[00:36:34] um episódio muito específico da minha

[00:36:36] juventude, lá pelos meus 13 anos,

[00:36:38] se eu me lembro bem,

[00:36:42] de um garoto da…

[00:36:44] acho que eu tava na sexta série,

[00:36:46] que falou

[00:36:48] no colégio que era homossexual

[00:36:50] e a mãe

[00:36:52] foi no colégio batendo ele.

[00:36:54] É, isso não é raro, velho.

[00:36:56] Não é? Pouco tempo, né?

[00:36:58] Não, eu lembro que

[00:37:00] ativamente, no meu

[00:37:02] ensino médio, a escola

[00:37:04] ligava para pais quando

[00:37:06] haviam dois homens. Isso que era

[00:37:08] assim, na minha escola,

[00:37:10] só tinha viado. Mas mesmo assim,

[00:37:12] quando era meio que público,

[00:37:14] a escola ligava para os pais para avisar

[00:37:16] que o filho estava com um namorado,

[00:37:18] que o filho estava com outro homem. Bem recente, assim,

[00:37:20] casos de pai buscar filho também,

[00:37:22] já vivenciei. Não é

[00:37:24] algo distante, não. É algo que a gente tá falando que

[00:37:26] acontece ainda hoje, embora com essa

[00:37:28] maior…

[00:37:30] esse processo de ter mais pessoas

[00:37:32] se assumindo como LGBTs, pessoas

[00:37:34] mais à vontade para falar disso,

[00:37:36] retomando, é até bom

[00:37:38] que eu consiga puxar o gancho do que eu queria falar,

[00:37:40] ainda assim, hoje,

[00:37:42] a gente necessita

[00:37:44] desses agrupamentos

[00:37:46] como forma de encontrar

[00:37:48] uma sociabilidade mais segura,

[00:37:50] por exemplo,

[00:37:52] a gente tá pegando muitos exemplos aqui de São Paulo, né, mas

[00:37:54] por exemplo, aqui em São Paulo existem lugares

[00:37:56] onde a população

[00:37:58] LGBT se reúne, em geral

[00:38:00] na área central e também nas periferias,

[00:38:02] mas na área central a gente tem o Largo

[00:38:04] do Aroche, por exemplo, que é esse ponto

[00:38:06] mais seguro de convivência,

[00:38:08] um ponto onde você vai se encontrar

[00:38:10] e falar que tá entre os seus.

[00:38:12] Ainda hoje, esses processos de

[00:38:14] agrupamento

[00:38:16] pra população LGBT

[00:38:18] se faz muito necessário,

[00:38:20] porque, do mesmo modo que há

[00:38:22] mais comentários na sociedade, mais produção

[00:38:24] na Netflix, a gente abre o catálogo da Netflix,

[00:38:26] tem até uma abinha, filmes LGBT,

[00:38:28] ainda assim, isso

[00:38:30] se dá na realidade

[00:38:32] vindo também com uma série de violências

[00:38:34] que fazem, que impõem a

[00:38:36] necessidade de a gente

[00:38:38] encontrar os nossos fora

[00:38:40] da Netflix pra conseguir

[00:38:42] ter um pouquinho de tranquilidade,

[00:38:44] conseguir aproveitar a música,

[00:38:46] coisas desse tipo.

[00:38:48] Então, puxando um pouco o gancho

[00:38:50] disso que o Nan traz

[00:38:52] e pensando um pouco no que a

[00:38:54] Cher Wolf também coloca, analisando

[00:38:56] ali os Estados Unidos,

[00:38:58] é interessante que esse momento

[00:39:00] de guerras, que eu mencionei anteriormente,

[00:39:02] ele vai trazer

[00:39:04] uma população no imediato

[00:39:06] pós-guerra muito mais à vontade,

[00:39:08] vamos dizer assim, com

[00:39:10] práticas

[00:39:12] ali homoafetivas,

[00:39:14] homoeróticas, que eram

[00:39:16] vivenciadas ali nos campos

[00:39:18] ou, enfim, nessa nova sociabilidade

[00:39:20] nas cidades, que passa a ser uma realidade pra muitas

[00:39:22] mulheres nos Estados Unidos na década de 50,

[00:39:24] mas, junto com esse

[00:39:26] aparente avanço

[00:39:28] que se deu bastante pelo reconhecimento

[00:39:30] que a gente

[00:39:32] LGBT

[00:39:34] encontrou nessas novas

[00:39:36] possibilidades de

[00:39:38] se relacionar, tem um

[00:39:40] movimento muito forte

[00:39:42] na década de 50 nos Estados Unidos

[00:39:44] de reforço da

[00:39:46] família mononuclear burguesa,

[00:39:48] da família monogâmica, muito

[00:39:50] na ideia de que era necessário

[00:39:52] aumentar a taxa de natalidade

[00:39:54] do país pra um crescimento

[00:39:56] econômico. Então, se fortalece

[00:39:58] a ideia de família

[00:40:00] e começa-se a perseguir

[00:40:02] os casais LGBT, enfim,

[00:40:04] isso passa a ser muito público,

[00:40:06] essa repressão começa

[00:40:08] a tomar um holofote muito

[00:40:10] maior, e ela acaba caindo no

[00:40:12] bojo nos Estados Unidos, junto à perseguição

[00:40:14] contra os comunistas. Isso é uma coisa que a

[00:40:16] Cher Wolf coloca bastante ali

[00:40:18] quando ela vai mencionar

[00:40:20] a perseguição macartista

[00:40:22] lá nos Estados Unidos. Então,

[00:40:24] todo esse processo

[00:40:26] da década de 50, ele vai

[00:40:28] estar expresso, por exemplo,

[00:40:30] em programas de rádio e televisão

[00:40:32] como Forerunner’s Best,

[00:40:34] que era

[00:40:36] um programa aí que reforçava

[00:40:38] esse caráter central,

[00:40:40] patriarcal da figura masculina

[00:40:42] no âmbito da família,

[00:40:44] de uma forma jocosa, de uma forma tipo

[00:40:46] uma novela das sete

[00:40:48] aqui no Brasil. Junto com isso,

[00:40:50] você tem expressões

[00:40:52] da LGBTfobia, do reforço familiar

[00:40:54] na própria arte.

[00:40:56] Se a gente for pegar, em 55,

[00:40:58] você tem uma exposição no Museu de Arte

[00:41:00] Moderno de Nova York, que chama

[00:41:02] The Family of Man. E a ideia

[00:41:04] era justamente trazer

[00:41:06] um clima, vamos dizer assim,

[00:41:08] um incentivo à paz mundial

[00:41:10] a partir da ideia de

[00:41:12] que somos todos uma única família,

[00:41:14] a família dos homens. E

[00:41:16] é uma exposição no MoMA, e essas fotografias

[00:41:18] elas estão dispostas no espaço

[00:41:20] expositivo de uma maneira a

[00:41:22] impactar sentimentalmente

[00:41:24] o espectador. E essa

[00:41:26] família universal que é apresentada

[00:41:28] é o modelo de família cristão.

[00:41:30] Inclusive, reforçando

[00:41:32] alguns signos de erotização

[00:41:34] do corpo feminino

[00:41:36] enquanto objeto de desejo sexual.

[00:41:38] E isso teve um enorme impacto

[00:41:40] naquele momento, essa exposição do MoMA.

[00:41:42] Mas essa exposição que eu cito é apenas

[00:41:44] um exemplo dos diversos

[00:41:46] que existiram ao longo da década de 50

[00:41:48] que tentaram empurrar

[00:41:50] as LGBTs de volta pro armário.

[00:41:52] E que vão reverberar na década

[00:41:54] de 60 com a eclosão de Stonewall

[00:41:56] e das revoltas que vão dar origem

[00:41:58] de fato a um movimento LGBT de peso

[00:42:00] nos Estados Unidos.

[00:42:02] E isso é interessante a gente pensar

[00:42:04] o que está acontecendo

[00:42:06] na base da sociedade

[00:42:08] que vai motivar essas coisas.

[00:42:10] Por exemplo, a repressão dos anos 50

[00:42:12] nos Estados Unidos vem muito devido

[00:42:14] ao processo de que na década

[00:42:16] de 40 teve esse grande

[00:42:18] contingente de 16 milhões

[00:42:20] de pessoas indo pra guerra,

[00:42:22] 400 mil morrem, que o Matheus

[00:42:24] estava comentando lá no começo,

[00:42:26] isso permite com que as mulheres vivenciem entre si

[00:42:28] as que ficaram nos Estados Unidos,

[00:42:30] que os homens vivenciem entre si

[00:42:32] na guerra.

[00:42:34] Então volta-se com

[00:42:36] a eclosão de bares gays,

[00:42:38] São Francisco, por exemplo,

[00:42:40] surgindo como esse grande ponte LGBT

[00:42:42] porque é uma cidade portuária

[00:42:44] onde os navios deixavam os trabalhadores.

[00:42:46] Você tem esse momento ali que está

[00:42:48] colocado de modo que o exercício

[00:42:50] da sexualidade tem uma eclosão

[00:42:52] e no momento

[00:42:54] seguinte uma necessidade

[00:42:56] de se mudar a compreensão

[00:42:58] do homem que se tinha, a compreensão

[00:43:00] do indivíduo que se tinha ali, porque

[00:43:02] nesse primeiro período a gente tinha

[00:43:04] o sujeito que precisava se convencer de ir pra guerra,

[00:43:06] foi pra guerra, aí depois

[00:43:08] nesse momento de mudança produtiva

[00:43:10] nos Estados Unidos precisava-se

[00:43:12] do homem que fosse entender a necessidade

[00:43:14] de ser um executivo de si mesmo,

[00:43:16] a figura do self-made man

[00:43:18] que vai ser produzida, como tudo isso

[00:43:20] tem necessariamente

[00:43:22] essa base material da necessidade produtiva

[00:43:24] e como isso vai se reproduzir

[00:43:26] dentro da própria esfera

[00:43:28] reprodutiva também, no sentido de

[00:43:30] precisar que

[00:43:32] mais trabalhadores sejam produzidos,

[00:43:34] novas gerações de trabalhadores, que as famílias

[00:43:36] tenham esse incentivo

[00:43:38] no aumento da natalidade nos Estados

[00:43:40] Unidos e isso vai fazer com que

[00:43:42] a repressão venha,

[00:43:44] que McCarthy tenha um amplo

[00:43:46] espaço pra colocar no mesmo bojo aí

[00:43:48] como o Matheus estava falando

[00:43:50] a população homossexual e

[00:43:52] os comunistas, inclusive

[00:43:54] usando isso pra se

[00:43:56] contrapor aos movimentos

[00:43:58] homófilos, que é como se chama

[00:44:00] essas primeiras organizações

[00:44:02] que vai se ter nos Estados Unidos LGBT

[00:44:04] na década de 50, que é

[00:44:06] a Matashino Society

[00:44:08] e a Daughters of Billits

[00:44:10] a Matashino Society é fundada por um

[00:44:12] cara que é Harry Hay, era do

[00:44:14] Partido Comunista dos Estados Unidos

[00:44:16] chegou a sair e tal

[00:44:18] mas ele era do Partido Comunista dos Estados Unidos

[00:44:20] e aí

[00:44:22] isso foi usado pelo governo americano

[00:44:24] como forma de denunciar

[00:44:26] essas organizações, falando que elas eram

[00:44:28] influenciadas por comunistas

[00:44:30] que não tinham interesse nas demandas

[00:44:32] homossexuais, pra se criar

[00:44:34] uma tensão aí, fazer com que

[00:44:36] na repulsa da Guerra Fria, jogasse

[00:44:38] também a população LGBT nesse bojo

[00:44:40] Isso é muito interessante, como

[00:44:42] que o capitalismo dá um jeito

[00:44:44] de se

[00:44:46] utilizar

[00:44:48] enfim, das mais variadas

[00:44:50] formas de opressão da sociedade

[00:44:52] em prol do mantenimento

[00:44:54] do sistema econômico

[00:44:56] e político

[00:44:58] bom, é isso

[00:45:00] a homossexualidade está sendo trazida

[00:45:02] pelos comunistas

[00:45:04] ou então

[00:45:06] que ainda é pauta

[00:45:08] principalmente a gente que acabou de passar por esse período

[00:45:10] fantástico

[00:45:12] do governo, daquele cujo nome

[00:45:14] não deve ser citado

[00:45:16] nos últimos quatro anos

[00:45:18] é sempre o retorno

[00:45:20] a esse ponto

[00:45:22] e pensar também que

[00:45:24] o aumento da repressão e da violência

[00:45:26] no contexto da década de 50

[00:45:28] resultou também

[00:45:30] na elevação do

[00:45:32] nível de qualidade da consciência

[00:45:34] das LGBTs

[00:45:36] ao passo que em 60, na década de 60

[00:45:38] quando se tem

[00:45:40] a revolta da lanchonete de

[00:45:42] Campton, a revolta de Stonewall

[00:45:44] que são dois eventos

[00:45:46] bastante comentados pela Sherwolf

[00:45:48] no livro, você vai ter

[00:45:50] uma população LGBT

[00:45:52] que a partir da resistência

[00:45:54] a uma batida policial

[00:45:56] em um local, que era um local

[00:45:58] de convívio, era um local

[00:46:00] onde essas pessoas

[00:46:02] se sentiam à vontade

[00:46:04] para ser quem eram

[00:46:06] consegue-se criar uma resistência

[00:46:08] que domina o bairro onde ficava

[00:46:10] o Stonewall Inn, que é o bar

[00:46:12] onde acontece a revolta

[00:46:14] por meses, e a polícia não consegue

[00:46:16] pisar naquele bar

[00:46:18] porque foram erguidas barricadas

[00:46:20] isso a Sherry também coloca no livro

[00:46:22] para que a população LGBT

[00:46:24] domine aquele bairro

[00:46:26] e que consiga de alguma maneira ter

[00:46:28] tranquilidade, apesar

[00:46:30] dos protestos da

[00:46:32] Mattachine Society, que o Renan colocou

[00:46:34] porque isso é interessante, os primeiros movimentos

[00:46:36] os primeiros

[00:46:38] atores desse movimento LGBT

[00:46:40] que se erguem nos Estados Unidos

[00:46:42] eles vão ser muito pautados

[00:46:44] a partir do discurso

[00:46:46] de violência

[00:46:48] que é colocado contra eles

[00:46:50] então a Mattachine Society vai ser

[00:46:52] um movimento que vai

[00:46:54] entender de fato que

[00:46:56] eram pessoas doentes, que não podiam

[00:46:58] sofrer violência, mas que precisavam

[00:47:00] de assistência

[00:47:02] então quando as LGBTs

[00:47:04] se revoltam em Stonewall

[00:47:06] contra a repressão policial

[00:47:08] eles vão pedir para que elas parem

[00:47:10] porque aquilo estava causando uma má impressão

[00:47:12] é basicamente isso

[00:47:14] então também como isso vai alterando

[00:47:16] a qualidade do movimento

[00:47:18] e a qualidade da identidade

[00:47:20] que aquelas pessoas tinham, que não mais se entendiam

[00:47:22] como pessoas doentes

[00:47:24] mas sim como pessoas ponto

[00:47:26] porque

[00:47:28] a sexualidade

[00:47:30] ela não pode ser

[00:47:32] um fator que

[00:47:34] nos diferencia

[00:47:36] como o capitalismo

[00:47:38] coloca, ele nos diferencia nessa sociedade

[00:47:40] porque ele é marcado pela violência

[00:47:42] a sexualidade é apenas um aspecto da nossa humanidade

[00:47:44] e ela aparece

[00:47:46] na forma dessas identidades que são frutos

[00:47:48] da violência justamente por

[00:47:50] conta desse movimento

[00:47:52] de repressão, se não houvesse um movimento

[00:47:54] de repressão, se isso não fosse terminado

[00:47:56] como um outro, talvez a gente não teria esses nomes

[00:47:58] talvez essas identidades elas teriam emergido

[00:48:00] historicamente de uma outra maneira

[00:48:02] muito bom, cara, muito interessante

[00:48:04] porque como que isso se conecta

[00:48:06] com a nossa luta

[00:48:08] e a necessidade da gente

[00:48:10] superar a sociedade

[00:48:12] capitalista, e aí eu quero fazer essa pergunta

[00:48:14] para vocês, vocês acham que é

[00:48:16] possível superar

[00:48:18] a LGBTfobia

[00:48:20] a nível mundial dentro do sistema

[00:48:22] capitalista ou

[00:48:24] não?

[00:48:26] é a pergunta

[00:48:28] chegou a pergunta

[00:48:30] o capitalismo

[00:48:32] ele produz as condições

[00:48:34] para que surja uma identidade

[00:48:36] para que surjam identidades LGBTs

[00:48:38] mas ao mesmo tempo

[00:48:40] ele vai ter nele os limites

[00:48:42] da

[00:48:44] própria existência

[00:48:46] dessas identidades, quais sejam

[00:48:48] principalmente

[00:48:50] uma função econômica

[00:48:52] para a identidade LGBT que é

[00:48:54] existe um contingente de trabalhadores

[00:48:56] que vão ocupar determinados postos

[00:48:58] de trabalho na nossa sociedade

[00:49:00] tais como telemarketing

[00:49:02] vendedores de shopping

[00:49:04] vão participar da superpopulação

[00:49:06] relativa através, por exemplo

[00:49:08] do exército industrial de reserva

[00:49:10] esse contingente de trabalhadores que não vão

[00:49:12] conseguir se empregar, vão ficar no trabalho informal

[00:49:14] e isso vai fazer

[00:49:16] com que a população

[00:49:18] trabalhadora como um todo

[00:49:20] tenha um

[00:49:22] limite nas suas reivindicações, por exemplo

[00:49:24] salariais, porque existem pessoas

[00:49:26] que por não conseguirem trabalhar

[00:49:28] se inserem em postos

[00:49:30] ruins, recebendo um valor

[00:49:32] na sua força de trabalho terrível

[00:49:34] e isso vai fazer com que haja um rebaixamento geral

[00:49:36] do valor da força de trabalho

[00:49:38] nessa sociedade, isso é uma função econômica

[00:49:40] da existência da LGBTfobia

[00:49:42] na sociedade capitalista, além do que a gente

[00:49:44] está falando aqui, de uma característica

[00:49:46] ideológica disso que é

[00:49:48] o divisionismo entre a classe trabalhadora

[00:49:50] porque você passa a enxergar seu filho

[00:49:52] como não sendo da mesma classe que você

[00:49:54] como sendo algo

[00:49:56] repulsivo, como sendo algo indesejado

[00:49:58] como seus colegas de trabalho

[00:50:00] você não quer eles no seu sindicato

[00:50:02] e aí isso vai criando uma divisão

[00:50:04] na classe trabalhadora

[00:50:06] do ponto de vista ideológico que

[00:50:08] embora não seja

[00:50:12] necessariamente, racionalmente

[00:50:14] produzido pelo capitalismo

[00:50:16] e muitas vezes o é, a gente sabe disso

[00:50:18] ainda consegue cumprir

[00:50:20] uma utilidade nessa sociedade

[00:50:22] então, nesses marcos da

[00:50:24] sociedade que a gente está

[00:50:26] na sociedade de classes

[00:50:28] pensar em superar essas funções

[00:50:30] da própria LGBTfobia

[00:50:32] me parece muito difícil

[00:50:34] me parece que a gente só

[00:50:36] consegue pensar em outra forma de

[00:50:38] exercer a sexualidade

[00:50:40] quando a sexualidade deixar de ser uma questão

[00:50:42] propriamente, quando a gente

[00:50:44] tiver uma sociedade onde as pessoas possam

[00:50:46] se envolver

[00:50:48] de maneiras distintas

[00:50:50] quando a família

[00:50:52] deixar de cumprir a função que cumpre hoje

[00:50:54] na nossa sociedade

[00:50:56] enquanto esse espaço de reprodução da vida

[00:50:58] enquanto esse espaço atrelado

[00:51:00] a noções de parentesco

[00:51:02] enfim, quando a gente conseguir

[00:51:04] dar um salto na base

[00:51:06] da nossa sociedade, no modo como a gente

[00:51:08] produz

[00:51:10] a vida a partir das nossas

[00:51:12] relações sociais de produção, enfim

[00:51:14] quando a gente conseguir superar essa relação

[00:51:16] que passa necessariamente pela forma

[00:51:18] violenta de

[00:51:20] exploração do trabalho

[00:51:22] assalariado, que a gente vai conseguir pensar

[00:51:24] em outras formas também de se

[00:51:26] relacionar afetivamente que

[00:51:28] não sejam calcadas

[00:51:30] em um processo de violência

[00:51:32] o que não significa necessariamente que

[00:51:34] bom, a gente está num processo revolucionário

[00:51:36] acabou a

[00:51:38] LGBTfobia, não vamos cair nesse

[00:51:40] lugar também que é um lugar ruim

[00:51:42] é uma compreensão ruim

[00:51:44] a revolução por si só vai trazer

[00:51:46] é uma concepção quase da adventista do sétimo dia

[00:51:48] vai chegar e

[00:51:50] aí vai estar lá aquele panfleto

[00:51:52] os leões junto com as

[00:51:54] cabras, todo mundo junto

[00:51:56] gente fez a revolução!

[00:51:58] fez a revolução

[00:52:00] agora todo meu amigo

[00:52:02] exato, também não é

[00:52:04] por aí, mas é a revolução que

[00:52:06] vai criar a possibilidade

[00:52:08] da gente superar a

[00:52:10] LGBTfobia, nos marcos

[00:52:12] do capital, dessa sociedade

[00:52:14] que produz e reproduz violência o tempo

[00:52:16] todo, a gente não consegue

[00:52:18] entender a LGBTfobia

[00:52:20] como uma partada do

[00:52:22] próprio funcionamento da sociedade

[00:52:24] de classes nesse momento histórico

[00:52:26] muito bom, que é operacionalizada né

[00:52:28] a LGBTfobia, o machismo

[00:52:30] o racismo

[00:52:32] em vários momentos

[00:52:34] da história, em momentos mais óbvios

[00:52:36] e em momentos menos óbvios

[00:52:38] isso é

[00:52:40] muito interessante, e eu estava pensando nisso

[00:52:42] que você estava falando, sobre a questão dos postos de trabalho precarizados

[00:52:44] e como que

[00:52:46] uma parte considerável da população

[00:52:48] trans no Brasil, Amanda

[00:52:50] para participar hoje para conversar com a gente também

[00:52:52] mas infelizmente não teve como

[00:52:54] como uma parte considerável da população trans

[00:52:56] no Brasil é

[00:52:58] relegada a postos de trabalho

[00:53:00] mais precarizados ainda

[00:53:02] sub precarizados, seja

[00:53:04] tendo que se submeter

[00:53:06] a possibilidade de o único

[00:53:08] trabalho formal possível

[00:53:10] se conseguir ao longo dos anos

[00:53:12] seja o telemarketing, porque ninguém está

[00:53:14] vendo ela, ou ele

[00:53:16] porque na hora que você vai

[00:53:18] empregar a pessoa em uma determinada

[00:53:20] posição, o empregador

[00:53:22] fica assim, mas será

[00:53:24] devo colocar nessa

[00:53:26] para o atendimento aqui

[00:53:28] os outros clientes vão ter preconceito

[00:53:30] e aí vai atravessar

[00:53:32] o processo de trabalho, então assim, tem muitos nuances

[00:53:34] dessa perversidade

[00:53:36] e do assassinato, a população

[00:53:38] trans é uma das populações com uma taxa

[00:53:40] de homicídio no Brasil que é muito absurda

[00:53:42] em alguns

[00:53:44] estados com

[00:53:46] média de vida de 35 anos

[00:53:50] veja, média de vida de 35 anos

[00:53:52] a média de vida de um plebeu

[00:53:54] em Roma Antiga era 25

[00:53:56] 10 anos a mais

[00:53:58] na Roma Imperial

[00:54:00] que loucura

[00:54:02] então, e pegar esse gancho

[00:54:04] de que os dados que a gente tem

[00:54:06] por exemplo sobre a morte da população trans no Brasil

[00:54:08] são subnotificados

[00:54:10] em geral os dados que a gente

[00:54:12] apresenta sobre a população

[00:54:14] LGBT, eles são dados

[00:54:16] que são baseados

[00:54:18] nessa ideia do clipping

[00:54:20] é você fazer um monitoramento

[00:54:22] dos canais

[00:54:24] de divulgação de crimes

[00:54:26] enfim, dos jornais

[00:54:28] e ir fazendo uma contabilização a partir daí

[00:54:30] mas e os casos de violência

[00:54:32] que não são noticiados

[00:54:34] como que esses casos eles

[00:54:36] aparecem no número

[00:54:38] eles não refletem nesse número

[00:54:40] tendo em vista que

[00:54:42] 0,5% dos homicídios no país

[00:54:44] são resolvidos

[00:54:46] como é que você

[00:54:48] vai perceber

[00:54:50] qual que é a motivação

[00:54:52] do assassinato

[00:54:54] por isso

[00:54:56] essa questão que você falou da subnotificação

[00:54:58] subnotifica mesmo, isso quando notifica

[00:55:00] crime de LGBTfobia em geral

[00:55:02] é colocado como crime passional

[00:55:04] sim, exato, crime passional

[00:55:06] motivo fútil

[00:55:08] o homicídio ocorreu por motivo fútil

[00:55:10] fica parecendo que a pessoa estava

[00:55:12] disputando o UNO

[00:55:14] e aí caram na porrada

[00:55:16] muitas vezes não é assim

[00:55:18] com consequências muito perversas

[00:55:20] porque é a invisibilização

[00:55:22] da nossa existência, então

[00:55:24] se tem dados pra falar sobre isso

[00:55:26] dados seguros com os quais a gente pode pensar

[00:55:28] políticas públicas, por exemplo, não se pensa

[00:55:30] políticas públicas da população LGBT

[00:55:32] a gente não sabe hoje em dia

[00:55:34] como que as pessoas LGBT no Brasil

[00:55:36] por exemplo, se distribuem nacionalmente

[00:55:38] em termos geográficos

[00:55:40] mesmo, de território e nem

[00:55:42] dentro do mundo do trabalho

[00:55:44] a gente intui que as LGBTs

[00:55:46] estão mais no telemarketing

[00:55:48] pelas razões que você coloca, Zami

[00:55:50] mas a gente não tem nenhum dado

[00:55:52] que consegue trazer pra gente

[00:55:54] como é a realidade da população LGBT

[00:55:56] que está no telemarketing

[00:55:58] como a gente pode pensar

[00:56:00] em políticas públicas mesmo

[00:56:02] pra garantir os direitos da população

[00:56:04] em específico

[00:56:06] e isso também enfraquece a própria categoria

[00:56:08] dos trabalhadores telemarketing

[00:56:10] a nível geral

[00:56:12] sobre essa coisa de

[00:56:14] a gente intuir

[00:56:16] eu trabalhei por mais de 7 anos da minha vida

[00:56:18] em telemarketing

[00:56:20] qualquer vez que você entra

[00:56:22] num call center

[00:56:24] você vai ver que a população

[00:56:26] nitidamente é composto por mulheres

[00:56:28] e LGBTs

[00:56:30] quando não mulheres e LGBTs

[00:56:32] é nítido assim, mas é justamente isso

[00:56:34] é só a partir de intuição mesmo

[00:56:36] até mesmo porque

[00:56:38] a gente não pode tirar essa crítica

[00:56:40] que deve ser colocada

[00:56:42] que é, por exemplo, no censo

[00:56:44] no censo que ainda está sendo realizado

[00:56:46] esse censo que já está sendo arrastado aí

[00:56:48] teve corte de verba, teve corte de pergunta

[00:56:50] teve uma série de problemas

[00:56:52] essa coleta ainda está acontecendo

[00:56:54] foram retiradas

[00:56:56] as possibilidades de perguntas

[00:56:58] sobre sexualidade

[00:57:00] e sobre identidade de gênero

[00:57:02] pra gente ter um panorama mínimo

[00:57:04] sobre como se organiza a população LGBT

[00:57:06] aqui no Brasil hoje

[00:57:08] e depois o STF

[00:57:10] corroborou com o veto

[00:57:12] orçamentário a essas perguntas

[00:57:14] que é ótimo, a gente fica realmente

[00:57:16] na intuição

[00:57:18] há-se uma percepção

[00:57:20] de que

[00:57:22] e aí

[00:57:24] o órgão que poderia auxiliar nisso

[00:57:26] não pode

[00:57:28] o corte orçamentário

[00:57:30] é uma rodinha de hamster

[00:57:32] isso não é

[00:57:34] nenhum problema só do Brasil

[00:57:36] veja, a gente tem

[00:57:38] esses rankings que colocam o Brasil

[00:57:40] como sendo um dos países

[00:57:42] mais violentos para a população LGBT

[00:57:44] é um dos países mais violentos

[00:57:46] para a população LGBT

[00:57:48] um dos países que mais mata as pessoas LGBT

[00:57:50] dois países que produzem

[00:57:52] algum tipo de dados sobre isso

[00:57:54] em geral esses dados

[00:57:56] são produzidos também nos outros lugares

[00:57:58] não pelo estado

[00:58:00] através de clipagem, através desses

[00:58:02] mecanismos da sociedade civil

[00:58:04] que vai tentar se debruçar

[00:58:06] sobre essas questões

[00:58:08] vai tentar monitorar

[00:58:10] da melhor forma possível

[00:58:12] do que dá pra ser feito

[00:58:14] e pensar também

[00:58:16] que

[00:58:18] a gente não tem esses dados sendo produzidos

[00:58:20] esses dados são produzidos em geral mundialmente

[00:58:22] através dessa ideia do clipping

[00:58:24] que eu falei anteriormente

[00:58:26] a gente tem países ainda

[00:58:28] em 2023

[00:58:30] aprovando leis de morte contra pessoas LGBT

[00:58:32] como é o caso da Uganda

[00:58:34] que em março se reuniu aos outros

[00:58:36] seis países que atualmente tem

[00:58:38] penas de morte contra a população LGBT

[00:58:40] que é a Arábia Saudita, Irã

[00:58:42] Iêmen, Nigéria, Mauritânia

[00:58:44] e Brunei

[00:58:46] então assim, a gente

[00:58:48] não vê na verdade um avanço

[00:58:50] mundialmente

[00:58:52] 69 países

[00:58:54] membros da ONU

[00:58:56] ainda criminalizam a homossexualidade

[00:58:58] você tem esses outros que eu citei

[00:59:00] onde a homossexualidade

[00:59:02] é punida com pena capital

[00:59:04] então

[00:59:06] a gente não tem dados desses países

[00:59:08] então as vezes a gente fala

[00:59:10] o Brasil é o país que mais mata a população LGBT

[00:59:12] e beleza

[00:59:14] a gente tem

[00:59:16] o dado que a gente tem

[00:59:18] é um dado extremamente subnotificado

[00:59:20] mas a gente tem esses outros

[00:59:22] territórios do mundo

[00:59:24] onde essa questão

[00:59:26] a violência contra pessoas LGBT

[00:59:28] ela é um completo escuro

[00:59:30] é institucionalizada

[00:59:32] no nível

[00:59:34] da formalidade jurídica

[00:59:36] como você pontuou

[00:59:38] o livro, a gente está muito nessa

[00:59:40] perspectiva histórica do livro

[00:59:42] mas o livro se organiza discutindo algumas outras questões

[00:59:44] ele vai polemizar alguns outros assuntos

[00:59:46] que acho que são pertinentes

[00:59:48] por exemplo

[00:59:50] um outro âmbito

[00:59:52] que a Cheryl vai tocar

[00:59:54] se refere à forma

[00:59:56] como o movimento LGBT

[00:59:58] nos Estados Unidos

[01:00:00] na Europa, consequentemente

[01:00:02] mesmo no sul global

[01:00:04] vai entender as demandas LGBT

[01:00:06] a partir de um momento

[01:00:08] que se vê uma descrença

[01:00:10] na organização dos trabalhadores

[01:00:12] uma descrença na forma partido

[01:00:14] isso se dá lá

[01:00:16] desde os anos 70

[01:00:18] mas vai ser acentuado com

[01:00:20] o fim das experiências socialistas

[01:00:22] com o fim da possibilidade de socialismo

[01:00:24] real na virada dos 80 para os 90

[01:00:26] no fim da União Soviética

[01:00:28] especificamente e sobretudo

[01:00:30] isso vai fazer com que

[01:00:32] determinados acadêmicos

[01:00:34] determinadas pessoas

[01:00:36] principalmente da academia

[01:00:38] passem a

[01:00:40] incorporar uma descrença

[01:00:42] na organização dos trabalhadores

[01:00:44] e isso vai se refletir de modo que

[01:00:46] as produções desde então

[01:00:48] vão para outro campo, vão negar

[01:00:50] o protagonismo da classe trabalhadora

[01:00:52] enquanto um sujeito histórico

[01:00:54] vão negar inclusive

[01:00:56] e muitas vezes

[01:00:58] a existência sequer de sujeito

[01:01:00] vão ter uma base metodológica muito

[01:01:02] avessa

[01:01:04] a concepção que a gente

[01:01:06] tem e versa

[01:01:08] da compreensão do mundo

[01:01:10] vão negar, por exemplo

[01:01:12] o que vão chamar de metanarrativas

[01:01:14] eu estou falando aqui especificamente

[01:01:16] do movimento que acontece

[01:01:18] a partir das mobilizações de maio

[01:01:20] de 1968

[01:01:22] sobretudo na França

[01:01:24] com nomes como Foucault

[01:01:26] que chegou a ser militante do Partido Comunista Francês

[01:01:28] inclusive

[01:01:30] com nomes como Jacques Derrida

[01:01:32] enfim, essa galera que vai começar a pensar

[01:01:34] que essas grandes metanarrativas

[01:01:36] não dão conta de compreender

[01:01:38] a perspectiva

[01:01:40] de como se mobilizar

[01:01:42] para ser

[01:01:44] esse indivíduo

[01:01:46] e aí

[01:01:48] nesse bojo isso vai se refletir

[01:01:50] e estar presente

[01:01:52] Sherry Rolfe até é otimista

[01:01:54] ela fala que

[01:01:56] as necessidades de quando ela publica o livro

[01:01:58] em 2009

[01:02:00] indicavam que estava em decadência

[01:02:02] mas na verdade

[01:02:04] qualquer pessoa que entra hoje

[01:02:06] no departamento de ciências sociais

[01:02:08] vê que produção teórica

[01:02:10] eclética do pós-modernismo

[01:02:12] ainda vigora muito forte

[01:02:14] eu digo isso enquanto uma pessoa

[01:02:16] que estudou por alguns anos

[01:02:18] no departamento de ciências sociais

[01:02:20] com que a compreensão

[01:02:22] inclusive boa parte da

[01:02:24] pós-modernidade dentro das instituições de sexualidade

[01:02:26] também é

[01:02:28] avessa a perspectiva essencialista de sexualidade

[01:02:30] vão colocar

[01:02:32] no âmbito de uma

[01:02:34] construção social

[01:02:36] isso que vão chamar de

[01:02:38] construcionismo

[01:02:40] mas por uma outra perspectiva

[01:02:42] uma perspectiva que não vai buscar

[01:02:44] quais são as determinações materiais históricas

[01:02:46] que vão condicionar

[01:02:48] primeiro possibilitar e depois continuar

[01:02:50] condicionar a existência das pessoas LGBT

[01:02:52] vai fazer isso de uma maneira

[01:02:54] muito idealista

[01:02:56] e isso vai gerar uma série de consequências

[01:02:58] na forma como

[01:03:00] as políticas LGBT

[01:03:02] vão passar a ser pensadas

[01:03:04] a autora até cita exemplos

[01:03:06] práticos

[01:03:08] das políticas de identidade

[01:03:10] que vão acontecer nos Estados Unidos

[01:03:12] ela cita por exemplo

[01:03:14] a Nação Queer

[01:03:16] uma organização lá dos Estados Unidos

[01:03:18] que vão fazer com que

[01:03:20] essa atuação política

[01:03:22] se dê muito mais na perspectiva de

[01:03:24] contestação, de negação

[01:03:26] a uma luta coletiva

[01:03:28] de que a bandeira

[01:03:30] homossexual é uma bandeira que tem que ser

[01:03:32] defendida por homossexuais

[01:03:34] de que essas pessoas organizadas

[01:03:36] tem que reivindicar suas demandas

[01:03:38] em geral

[01:03:40] esse reivindicar também

[01:03:42] é curioso

[01:03:44] porque

[01:03:46] como a autora vai descrever

[01:03:48] a partir de Foucault o poder está

[01:03:50] dissolvido na sociedade

[01:03:52] então

[01:03:54] não é o Estado que vai deter o poder

[01:03:56] não é uma classe que vai deter o poder

[01:03:58] o poder está em relação

[01:04:00] sempre, então na relação do indivíduo

[01:04:02] com o outro, na relação de um grupo com o outro

[01:04:04] por exemplo na relação

[01:04:06] entre o grupo de homossexuais e o grupo de

[01:04:08] heterossexuais, então

[01:04:10] essa

[01:04:12] política do enfrentamento

[01:04:14] a partir de indivíduos

[01:04:16] acaba fazendo

[01:04:18] com que o movimento LGBT

[01:04:20] encontre um limite

[01:04:22] caia num

[01:04:24] num lugar que

[01:04:26] vai fazer com que ele

[01:04:28] no limite ao cabo

[01:04:30] no fim das contas

[01:04:32] fique muito mais

[01:04:34] reivindicatório

[01:04:36] do que era no momento anterior e do que pode ser

[01:04:38] pensando na totalidade

[01:04:40] das lutas que vão atravessar a classe

[01:04:42] trabalhadora, pensando na

[01:04:44] relação

[01:04:46] unitária

[01:04:48] entre as violências que

[01:04:50] vão passar e constituir

[01:04:52] a forma como a gente produz a vida na sociedade

[01:04:54] capitalista, seja

[01:04:56] a violência que vai atingir as mulheres, a violência que vai

[01:04:58] atingir as LGBTs

[01:05:00] tira do horizonte as determinantes

[01:05:02] que vai ter nesse processo

[01:05:04] e coloca-se pra

[01:05:06] aqui nessa relação a gente vai criar uma relação

[01:05:08] descentralizada

[01:05:10] fora dos poderes e a

[01:05:12] perspectiva de superação da própria sociedade

[01:05:14] de classes acaba saindo

[01:05:16] do horizonte nesse processo

[01:05:18] não se fala mais

[01:05:20] até se fala, mas de modo muito mais

[01:05:22] colateral, mas o que vige em geral

[01:05:24] na academia e que vai repercutir

[01:05:26] nas organizações do movimento LGBT

[01:05:28] até hoje, é uma perspectiva

[01:05:30] muito mais individualizante que vai

[01:05:32] querer ser aceito, vai querer

[01:05:34] ocupar um espaço nessa sociedade

[01:05:36] e se adequar a vida

[01:05:38] nessa sociedade a partir

[01:05:40] de uma relação individualmente

[01:05:42] subjetivamente

[01:05:44] desierarquizada, por assim dizer

[01:05:46] eu acho que essa parte do livro é uma parte

[01:05:48] muito importante, ela vai fazer uma

[01:05:50] crítica dura inclusive

[01:05:52] a própria teoria queer

[01:05:54] uma crítica bem

[01:05:56] eu acho que é uma crítica boa, mas bem

[01:05:58] firme no sentido de que as

[01:06:00] consequências que isso vai trazer pra

[01:06:02] o movimento LGBT são

[01:06:04] muito devastadoras do ponto de vista de

[01:06:06] desorganização política

[01:06:08] desmobilização política

[01:06:10] e eu acho que é um ponto também

[01:06:12] chave do livro da Sher Wolf

[01:06:14] que a gente precisa

[01:06:16] incorporar em algum nível

[01:06:18] nas análises que a gente faz quando pensa

[01:06:20] nos novos movimentos sociais como um todo

[01:06:22] novos movimentos sociais é que

[01:06:24] nitidamente a gente tá falando de movimento LGBT

[01:06:26] movimento negro, movimento

[01:06:28] feminista, que não necessariamente são novos

[01:06:30] mas entram nesse bojo, mas também do movimento de moradia

[01:06:34] enfim, esse conjunto

[01:06:36] de movimentos que não são a luta

[01:06:38] sindical propriamente dita

[01:06:40] essa forma mais tradicional de organização

[01:06:42] da classe trabalhadora. Junto com isso

[01:06:44] a gente tem

[01:06:46] essas implicações que o Renan coloca pro movimento

[01:06:48] que a autora vai considerar

[01:06:50] como táticas derrotistas

[01:06:52] de, por exemplo

[01:06:54] o movimento se organizar

[01:06:56] em algum nível institucionalmente

[01:06:58] em torno de determinados

[01:07:00] partidos, como se a eleição

[01:07:02] de determinada figura política

[01:07:04] fosse determinante pra

[01:07:06] avanços da população LGBT

[01:07:08] ela cita, por exemplo

[01:07:10] que o movimento LGBT na década

[01:07:12] de 90 nos Estados Unidos

[01:07:14] ele se coloca muito em torno

[01:07:16] da figura do Bill Clinton

[01:07:18] mas o Bill Clinton foi uma pessoa

[01:07:20] que manteve intactas as leis da sodomia

[01:07:22] assinou uma lei contrária ao movimento

[01:07:24] igualitário, manteve

[01:07:26] a posição desigual dos LGBTs no exército

[01:07:28] ele nunca mencionou nada sobre

[01:07:30] direitos a pessoas trans

[01:07:32] então essa concepção

[01:07:34] que começa a se gestar

[01:07:36] aí na academia

[01:07:38] ela invade os movimentos

[01:07:40] sociais com muita força

[01:07:42] e eu acho que é importante

[01:07:44] a gente refletir

[01:07:46] nesse momento do nosso debate também

[01:07:48] sobre o papel que o

[01:07:50] marxismo ele acaba desempenhando

[01:07:52] um pouco as organizações marxistas

[01:07:54] pra esse descolamento

[01:07:56] ou esse aparente descolamento

[01:07:58] das pautas LGBT

[01:08:00] da pauta da classe trabalhadora

[01:08:02] no capítulo 3 da Chekhov

[01:08:04] que chama o mito da homofobia marxista

[01:08:06] ela vai tentar responder

[01:08:08] a essa pergunta do porquê

[01:08:10] então forjou-se um mito

[01:08:12] de que marxismo é homofóbico

[01:08:14] porque pelo que a gente falou até aqui

[01:08:16] no marxismo não tem nada de homofóbico

[01:08:18] o marxismo na verdade

[01:08:20] ele se prova como

[01:08:22] a teoria

[01:08:24] a prática

[01:08:26] consequente, concreta e verdadeira

[01:08:28] sobre a realidade

[01:08:30] da opressão que determina

[01:08:32] a vida das pessoas LGBT

[01:08:34] contudo ela vai localizar

[01:08:36] aí essa resposta

[01:08:38] em dois principais pilares

[01:08:40] um desses pilares é o tratamento

[01:08:42] dado às LGBTs em estados

[01:08:44] com experiências socialistas

[01:08:46] e no interior dos partidos

[01:08:48] comunistas dos Estados Unidos

[01:08:50] ao longo da história

[01:08:52] e um outro pilar que ela vai colocar

[01:08:54] é o legado do anticomunismo

[01:08:56] macartista nos Estados Unidos

[01:08:58] que vai colocar aí as LGBTs

[01:09:00] no mesmo bojo dos comunistas que estavam

[01:09:02] tentando destruir a sociedade

[01:09:04] e esse momento

[01:09:06] apesar de ser muito importante

[01:09:08] para a gente conseguir inclusive

[01:09:10] reavaliar as nossas

[01:09:12] táticas enquanto comunistas

[01:09:14] e o legado que a gente tem em relação

[01:09:16] a essa parcela da população

[01:09:18] trabalhadora, apesar dessa importância

[01:09:20] o livro ele é muito infeliz

[01:09:22] eu acho, da minha avaliação

[01:09:24] quando ele vai falar sobre isso

[01:09:26] porque o livro ele vai tender

[01:09:28] a primeiro negar

[01:09:30] que as experiências socialistas

[01:09:32] elas tinham algo de socialista

[01:09:34] e nessa negação vai se utilizar

[01:09:36] de categorias que são estranhas

[01:09:38] ao próprio método que a autora

[01:09:40] se propõe empreender

[01:09:42] para efetivar o estudo

[01:09:44] do objeto que ela está analisando

[01:09:46] então categorias como o totalitarismo

[01:09:48] que vão colocar no mesmo bojo

[01:09:50] a Alemanha nazista com a União Soviética

[01:09:52] e Cuba, inclusive

[01:09:54] ela não vai reconhecer uma série

[01:09:56] de avanços que

[01:09:58] são gestados ao longo da Revolução

[01:10:00] Cubana e mudanças de posição

[01:10:02] dentro do próprio processo histórico

[01:10:04] pelo qual atravessam as experiências

[01:10:06] do socialismo que ela menciona

[01:10:08] inclusive a gente coloca uma crítica

[01:10:10] a esse momento do livro

[01:10:12] no nosso pós-fácil, então eu acho

[01:10:14] que é importante que a gente

[01:10:16] não perca de vista

[01:10:18] quando o movimento comunista

[01:10:20] errou com as LGBTs

[01:10:22] porque errou, isso é claro

[01:10:24] isso não pode ser

[01:10:26] revisionado, a gente não pode

[01:10:28] fechar os olhos para isso

[01:10:30] mas a gente também

[01:10:32] tem que entender que não é algo

[01:10:34] particular dos comunistas

[01:10:36] ou particular daquelas experiências socialistas

[01:10:38] mas era uma realidade

[01:10:40] do capitalismo global naquele momento

[01:10:42] se as LGBTs

[01:10:44] foram oprimidas

[01:10:46] em Cuba, na União Soviética

[01:10:48] na China, como ela menciona

[01:10:50] elas também o eram

[01:10:52] de maneiras muito similares

[01:10:54] e por vezes inclusive muito piores

[01:10:56] em estados como os Estados Unidos

[01:10:58] como a Inglaterra lá no começo do episódio

[01:11:00] que eu comecei a falar

[01:11:02] isso é muito interessante

[01:11:04] e vou fazer uma pergunta para vocês

[01:11:06] que eu estava pensando aqui agora

[01:11:08] sobre isso

[01:11:10] nesse capítulo 3 ela vai falar

[01:11:12] como uma carta em específico do Marx

[01:11:14] e do Engels

[01:11:16] que é uma carta muito famosa

[01:11:18] e foi distribuída na internet recentemente

[01:11:20] na época que ela está contando, de 2009 para baixo

[01:11:22] que é uma posição muito ruim

[01:11:24] mas é uma carta

[01:11:26] entre os dois

[01:11:28] e ela vai colocar

[01:11:30] essas questões

[01:11:32] eu fiquei pensando aqui agora

[01:11:34] como é interessantíssimo

[01:11:36] você tem um momento em que o macartismo

[01:11:38] vai se utilizar da LGBTfobia

[01:11:40] para tentar fazer com que aquelas

[01:11:42] trabalhadoras se afastem dos comunistas

[01:11:44] naquele momento

[01:11:46] e aí com a queda da União Soviética

[01:11:48] o campo socialista tendo

[01:11:50] os problemas que tem

[01:11:52] o que sobrou

[01:11:54] volta de novo uma nova possibilidade

[01:11:56] de se utilizar

[01:11:58] para afastar a população LGBT

[01:12:00] dos comunistas também

[01:12:02] o que vocês acham?

[01:12:04] se eu estou viajando

[01:12:06] sobre

[01:12:08] essa carta

[01:12:10] primeiro a gente precisa fazer uma crítica

[01:12:12] à autora

[01:12:14] essa não é a única vez no texto que ela vai

[01:12:16] se utilizar da Wikipédia

[01:12:18] para referenciar coisas

[01:12:20] inclusive

[01:12:22] é muito péssimo

[01:12:24] desculpa te interromper

[01:12:26] algumas referências que ela tem

[01:12:28] a Wikipédia, a sites

[01:12:30] na hora que a gente foi traduzir

[01:12:32] elas não estavam nem mais disponíveis online

[01:12:34] então tem até uma dificuldade em localizar

[01:12:36] essas poucas fontes

[01:12:38] às vezes são fontes primárias de notícias

[01:12:40] que ela utiliza

[01:12:42] eu acho que de fato isso é um pecado

[01:12:44] que ela comete dentro do livro

[01:12:46] acho que é importante colocar essa crítica

[01:12:48] também, a autora

[01:12:50] às vezes peca na utilização

[01:12:52] das fontes, acho que a Wikipédia

[01:12:54] é o momento que mais deixa isso

[01:12:56] claro, mas também em outros

[01:12:58] momentos, ela

[01:13:00] muitas vezes cita momentos históricos também

[01:13:02] a partir de outros autores

[01:13:04] e não das fontes primárias

[01:13:06] que eu acho que poderia deixar enriquecer um tanto o texto

[01:13:08] mas sobre a questão

[01:13:10] propriamente dita, eu não acho

[01:13:12] nenhuma loucura da sua parte não

[01:13:14] eu acho que nos momentos onde

[01:13:16] há necessidade

[01:13:18] ou necessidade

[01:13:20] aí, seja

[01:13:22] de atacar o

[01:13:24] comunismo, marxismo

[01:13:26] a partir

[01:13:28] dessa possibilidade de se pensar

[01:13:30] algo para além da

[01:13:32] sociedade de classes, ou de se atacar

[01:13:34] a população LGBT, porque precisa de

[01:13:36] novos contingentes de trabalhadores

[01:13:38] aumentar natalidade

[01:13:40] não só isso, mas só para dar um exemplo

[01:13:42] vai vir o bojo

[01:13:44] completinho de ataques sistemáticos

[01:13:46] utilizando o marxismo para atacar a população LGBT

[01:13:48] e atrelando

[01:13:50] a pauta LGBT

[01:13:52] ou às vezes vai

[01:13:54] atacar o marxismo falando que não tinha relação

[01:13:56] com a pauta LGBT, olha que loucura

[01:13:58] depende muito da conveniência

[01:14:00] do momento, o que a gente

[01:14:02] precisa, agora vamos

[01:14:04] para o lado de falar que o marxismo apoia LGBT

[01:14:06] não, espera, agora a gente vai falar

[01:14:08] que o marxismo mata LGBTs

[01:14:10] é

[01:14:12] da conveniência nesse sentido

[01:14:14] vamos falar que erros históricos

[01:14:16] de alguns estados

[01:14:18] e aí mesmo dentro do nosso campo

[01:14:20] a gente consegue encontrar

[01:14:22] por exemplo uma autora marxista

[01:14:24] que quando vai fazer essa

[01:14:26] análise da população LGBT

[01:14:28] quando chega nas experiências

[01:14:30] socialistas, que ela vai dizer que

[01:14:32] não são socialistas

[01:14:34] enfim, são estados burocráticos

[01:14:36] ou coisas do tipo

[01:14:38] ela

[01:14:40] ignora um pouco a base material

[01:14:42] desse processo que vai levar

[01:14:44] a constituição da LGBTfobia

[01:14:46] ou a permanência ou a

[01:14:48] incidência da LGBTfobia nessas experiências

[01:14:50] mas o Matheus traz um aspecto

[01:14:52] aqui que eu acho assim

[01:14:54] primordial, mas pensando no Brasil

[01:14:56] mesmo, que é o aspecto de como

[01:14:58] muitas vezes o movimento comunista

[01:15:00] foi problemático

[01:15:02] a carta do Marx é um exemplo

[01:15:04] é uma carta que é trocada entre

[01:15:06] Marx e Engels ali

[01:15:08] no momento em que está surgindo

[01:15:10] por exemplo a figura do

[01:15:12] Marx que é o cara que vai discutir o

[01:15:14] uranismo, é o primeiro

[01:15:16] homem gay que vai falar

[01:15:18] abertamente em defesa da

[01:15:20] homossexualidade, coisas desse

[01:15:22] tipo, é no calor desse

[01:15:24] momento que ele está pensando isso

[01:15:26] e nas consequências

[01:15:28] que isso pode gerar

[01:15:30] para o movimento comunista, a resposta de Engels

[01:15:32] é pior ainda do que

[01:15:34] a própria questão de Marx

[01:15:36] mas isso vai, essa compreensão

[01:15:38] vai repercutir

[01:15:40] por exemplo no Brasil

[01:15:42] a ponto de um cara

[01:15:44] que é o Herbert Daniel

[01:15:46] que era um guerrilheiro

[01:15:48] atrelado

[01:15:50] as organizações que durante a ditadura

[01:15:52] estavam constituindo guerrilhas

[01:15:56] escrever num livro autobiográfico dele

[01:15:58] chamado Passagem para o Próximo Sonho

[01:16:00] que em prol da

[01:16:02] causa revolucionária

[01:16:04] ele decidiu negar

[01:16:06] o amor que ele tinha por um camarada

[01:16:08] que cerrava trincheiras com ele

[01:16:10] porque ele sabia que isso ia

[01:16:12] colocar ele num lugar de

[01:16:14] não poder mais lutar

[01:16:16] de ser expulso

[01:16:18] da organização, ser expulso

[01:16:20] da própria guerrilha

[01:16:22] e enfim, o Herbert Daniel

[01:16:24] depois disso, ele

[01:16:26] fica tão amargurado, tão

[01:16:28] decepcionado com o marxismo

[01:16:30] que vai para o Partido Verde

[01:16:32] depois do processo

[01:16:34] de redemocratização

[01:16:36] ele vai para o Partido Verde

[01:16:38] e isso é reincidente

[01:16:40] mesmo na história brasileira, mesmo dentro

[01:16:42] do Partido Comunista

[01:16:44] se a gente pensa, por exemplo

[01:16:46] na Pagu, na bissexualidade dela

[01:16:48] apareceu em uma série de momentos

[01:16:52] ataques a ela também

[01:16:54] por causa disso

[01:16:56] mas no mesmo movimento que

[01:16:58] acontece isso, também existem muitas

[01:17:00] iniciativas do próprio marxismo

[01:17:02] a gente estava citando aqui no caso dos Estados Unidos

[01:17:04] o surgimento desse

[01:17:06] da primeira organização LGBT

[01:17:08] que é o caso da Mataxin Society

[01:17:10] dá para pensar também na frente de libertação

[01:17:12] gay

[01:17:14] que era uma frente nos Estados Unidos

[01:17:16] que reunia células e organizações diversas

[01:17:18] tinha uma célula que se chamava

[01:17:20] Red Butterfly

[01:17:22] que era uma célula

[01:17:24] marxista-leninista

[01:17:26] que produzia um conteúdo e uma atuação

[01:17:28] política muito interessante para a gente pensar sobre isso

[01:17:30] no Brasil a gente tem

[01:17:32] experiências trotskistas

[01:17:34] como por exemplo a Convergência Socialista

[01:17:36] que é uma organização

[01:17:38] clandestina

[01:17:40] dos anos

[01:17:42] no fim dos anos 70

[01:17:44] que vai culminar em ser uma das tendências

[01:17:46] que vai fundar o PT

[01:17:48] depois

[01:17:50] vai rachar com o PT

[01:17:52] uma parte da Convergência

[01:17:54] vai fundar o PSTU

[01:17:56] enfim, era uma organização

[01:17:58] pioneira aqui no Brasil

[01:18:00] também pensando nas demandas da população LGBT

[01:18:02] desde

[01:18:04] a primeira organização

[01:18:06] que a gente vai chamar

[01:18:08] de um ponto de inflexão aqui no Brasil

[01:18:10] da Constituição do Movimento LGBT Brasileiro

[01:18:12] que é o SOMOS

[01:18:14] Grupo de Afirmação Homossexual

[01:18:16] esse SOMOS, o nome disso é baseado

[01:18:18] em uma

[01:18:20] organização argentina

[01:18:22] homônima

[01:18:24] e aí dentro do SOMOS

[01:18:26] a gente tem a Convergência presente

[01:18:28] pautando a necessidade

[01:18:30] de a classe trabalhadora reivindicar

[01:18:32] as bandeiras da população

[01:18:34] homossexual

[01:18:36] a gente tem

[01:18:38] inclusive um ato muito simbólico

[01:18:40] de tensão dentro do SOMOS

[01:18:42] que era constituído

[01:18:44] por dois grandes grupos

[01:18:46] nessa organização que era

[01:18:48] daqui de São Paulo

[01:18:50] que eram os autonomistas

[01:18:52] liderados por um cara que

[01:18:54] vai escrever um livro

[01:18:56] muito famoso depois

[01:18:58] que é o Devassos no Paraíso

[01:19:00] ele é o João Silvério Trevisan

[01:19:02] em contraposição de outro lado

[01:19:04] com essas lideranças

[01:19:06] da Convergência Socialista

[01:19:08] que vão estar presentes no SOMOS

[01:19:10] como é o caso do James Green

[01:19:12] um outro autor também

[01:19:14] de um outro livro chamado Além do Carnaval

[01:19:16] que vai analisar a homossexualidade

[01:19:18] ao longo da história no Brasil

[01:19:20] e nessa tensão

[01:19:22] que tinha entre sala autonomista

[01:19:24] e comunista

[01:19:26] tem o

[01:19:28] primeiro de maio no ABC

[01:19:30] em 1980

[01:19:32] não me falo a memória

[01:19:34] talvez seja 81

[01:19:36] mas eu acho que é 80

[01:19:38] que é o ato histórico que vai

[01:19:40] demandar, estão tentando criminalizar

[01:19:42] os sindicatos, então

[01:19:44] vai juntar mais de 100 mil pessoas

[01:19:46] no primeiro de maio lá

[01:19:48] pra pautar uma série de coisas

[01:19:50] o James Green fala

[01:19:52] a gente tem que ir como somos

[01:19:54] isso vai causar um rebuliço lá dentro

[01:19:56] muita tensão

[01:19:58] vai gerar um racha

[01:20:00] e ele vai com 50 homossexuais

[01:20:02] para

[01:20:04] o ato do dia dos trabalhadores

[01:20:06] com duas faixas muito simbólicas

[01:20:08] que falavam

[01:20:10] dos direitos dos trabalhadores

[01:20:12] homossexuais

[01:20:14] e um apoio ao primeiro de maio

[01:20:16] contra o processo de criminalização

[01:20:18] dos sindicatos

[01:20:20] e nisso, esse grupo chega lá no ato

[01:20:22] e é ovacionado, é super aplaudido

[01:20:24] todo mundo fala, caramba

[01:20:26] que bom que vocês estão aqui, sejam bem vindos

[01:20:28] então

[01:20:30] esses momentos

[01:20:32] ao longo da história

[01:20:34] Cher Wolf vai citar uma série de outros

[01:20:36] em geral dos Estados Unidos

[01:20:38] eles aconteceram e são muito importantes também

[01:20:40] para a gente pensar como

[01:20:42] é um processo contraditório

[01:20:44] mesmo dentro do marxismo

[01:20:46] a adesão ou não a pauta LGBT

[01:20:48] mas que é o marxismo

[01:20:50] quem vai conseguir dar

[01:20:52] as melhores respostas

[01:20:54] para a opressão LGBT

[01:20:56] e para a superação dessa opressão

[01:20:58] eu queria trazer uma outra questão

[01:21:00] que

[01:21:02] pensando um pouco

[01:21:04] sobre o que mudou

[01:21:06] desde que a Cher Wolf publicou primeiro

[01:21:08] esse livro, lá em 2009

[01:21:10] e quando ela publica

[01:21:12] o livro em 2009

[01:21:14] ela menciona

[01:21:16] que o movimento LGBT

[01:21:18] precisava fazer uma pressão

[01:21:20] para que o governo

[01:21:22] Obama, que era o governo

[01:21:24] aparentemente progressista daquele momento

[01:21:26] nos Estados Unidos

[01:21:28] honrasse com as promessas de

[01:21:30] campanha à população LGBT

[01:21:32] a Cher Wolf vai ser uma das organizadoras

[01:21:34] de uma marcha que vai

[01:21:36] cobrar do governo estadunidense

[01:21:38] isso naquele momento onde ela publica o livro

[01:21:40] junta 200 mil pessoas

[01:21:42] sim

[01:21:44] que é um movimento muito expressivo

[01:21:46] de cobrança

[01:21:48] ao governo

[01:21:50] e depois disso o que vem?

[01:21:52] vem Donald Trump

[01:21:54] então a gente

[01:21:56] assiste logo depois

[01:21:58] dessa publicação

[01:22:00] do livro uma onda

[01:22:02] da direita

[01:22:04] organizada a nível internacional

[01:22:06] da extrema direita pipocando

[01:22:08] não só nos Estados Unidos como na Europa

[01:22:10] como na América Latina

[01:22:12] então a gente

[01:22:14] tem alguns dados

[01:22:16] que são bem

[01:22:18] preocupantes, por exemplo

[01:22:20] segundo um dado da ONG

[01:22:22] Quality California em 2022

[01:22:24] os Estados Unidos bateram um recorde

[01:22:26] de projetos contra pessoas LGBT

[01:22:28] foram mais de 200 tramitados

[01:22:30] naquele ano

[01:22:32] entre estes eu destaco

[01:22:34] uma lei que chamou

[01:22:36] Lei Direito Parental na Educação

[01:22:38] que é uma lei do estado da Florida

[01:22:40] que proibia discussão sobre

[01:22:42] sexualidade e identidade de gênero

[01:22:44] nas escolas públicas

[01:22:46] e pelo que eu pesquisei

[01:22:48] essa lei continua em vigor ainda

[01:22:50] ainda hoje

[01:22:52] além disso no mesmo ano

[01:22:54] o governo do Texas enviou uma carta

[01:22:56] às agências de saúde

[01:22:58] anunciando que os tratamentos de afirmação de gênero

[01:23:00] de jovens trans constituem abuso infantil

[01:23:02] então criminalizando

[01:23:04] o acesso à saúde

[01:23:06] da população trans em específico

[01:23:08] mas comprometendo as bases

[01:23:10] que asseguram o direito à saúde

[01:23:12] das pessoas LGBT de maneira mais ampla

[01:23:14] e isso

[01:23:16] acontece a nível mundial

[01:23:18] não é algo particular dos Estados Unidos

[01:23:20] inclusive esse mês

[01:23:22] que a gente grava o episódio

[01:23:24] maio de 2023

[01:23:26] o deputado Gil Diniz

[01:23:28] do PL

[01:23:30] ele instaurou um inquérito para investigar

[01:23:32] por crime de responsabilidade

[01:23:34] o hospital das clínicas aqui de São Paulo

[01:23:36] por realizar hormonoterapias e atender

[01:23:38] jovens trans

[01:23:40] mas a pauta

[01:23:42] principalmente contra a existência

[01:23:44] contra a vida, contra o acesso à saúde

[01:23:46] de pessoas trans

[01:23:48] é uma pauta que tem sido levantada

[01:23:50] a nível internacional

[01:23:52] não é à toa que o PL

[01:23:54] que é o partido

[01:23:56] não apenas do Bolsonaro

[01:23:58] mas do Nicolas Ferreira

[01:24:00] que recentemente entrou aí nos holofotes

[01:24:02] quando no dia 8 de março

[01:24:04] ele apareceu vestindo uma

[01:24:06] peruca lá na câmara

[01:24:08] apresentando a existência de mulheres

[01:24:10] trans como uma ameaça

[01:24:12] às mulheres que ele

[01:24:14] considera verdadeiras

[01:24:16] de verdade

[01:24:18] então ele reconhece que existe

[01:24:20] um movimento de violência contra as mulheres

[01:24:22] mas ele vai localizar a raiz

[01:24:24] dessa violência, o problema na existência

[01:24:26] de pessoas trans que

[01:24:28] porventura dividam o mesmo banheiro

[01:24:30] com uma mulher cis

[01:24:32] isso não é por acaso que Gil Diniz, Nicolas Ferreira

[01:24:34] Bolsonaro estão atuando

[01:24:36] o PL tem ligações

[01:24:38] com think tanks de extrema direita

[01:24:40] como por exemplo a Atlas Network

[01:24:42] e essa ligação

[01:24:44] ela acontece através de institutos liberais

[01:24:46] do Brasil

[01:24:48] e lideranças da direita

[01:24:50] e a gente vê

[01:24:52] na verdade que o movimento LGBT

[01:24:54] ele recuou

[01:24:56] não avançou

[01:24:58] desde a publicação do livro The Sherwolf

[01:25:00] em 2009

[01:25:02] na verdade a gente tem

[01:25:04] um fortalecimento

[01:25:06] da organização

[01:25:08] de extrema direita a nível internacional

[01:25:10] que vai começar a pautar essa pauta

[01:25:12] anti-trans em todo o globo

[01:25:14] em março desse ano também

[01:25:16] a Folha ela noticiou

[01:25:18] que desde o começo

[01:25:20] de janeiro foi

[01:25:22] um novo projeto de lei

[01:25:24] anti-trans por dia proposto

[01:25:26] aqui no Brasil, que eram 69

[01:25:28] até aquele momento, hoje já devem ser

[01:25:30] aí um número

[01:25:32] maior, então partidos

[01:25:34] não só do PL né, o Patriota

[01:25:36] o MDB, progressistas

[01:25:38] republicanos, pró-estadania, democratas

[01:25:40] uma série aí de

[01:25:42] partidos em peso

[01:25:44] colocando

[01:25:46] pra discussão projetos

[01:25:48] anti-trans nas áreas da educação

[01:25:50] do esporte, da saúde

[01:25:52] e não é à toa que os

[01:25:54] mesmos partidos que estão

[01:25:56] se organizando contra a existência

[01:25:58] de pessoas trans em específico

[01:26:00] e contra a população LGBT

[01:26:02] de maneira mais ampla

[01:26:04] são os mesmos partidos que

[01:26:06] votaram a favor agora na Câmara

[01:26:08] por exemplo da PL 490

[01:26:10] que estabelece o marco temporal

[01:26:12] contra a demarcação

[01:26:14] enfim, de terras aí

[01:26:16] dos povos indígenas

[01:26:18] mas não só isso, também autoriza

[01:26:20] o garimpo e a plantação de transgênicos

[01:26:22] nas terras indígenas, flexibiliza

[01:26:24] a política de não contato de povos em isolamento

[01:26:26] voluntário, que possibilita

[01:26:28] a realização de empreendimentos econômicos

[01:26:30] sem que os povos sejam consultados

[01:26:32] essa PL

[01:26:34] ela vai acarretar em que? Vai acarretar nos matamentos

[01:26:36] da Amazônia, no genocídio aprofundado

[01:26:38] dos indígenas, na recusa

[01:26:40] do reconhecimento da história colonial

[01:26:42] brasileira, e são os mesmos partidos

[01:26:44] que em 2017

[01:26:46] votaram a favor da reforma trabalhista

[01:26:48] do Temer, então os mesmos partidos

[01:26:50] que jogam

[01:26:52] a culpa da miséria social

[01:26:54] na existência de pessoas trans

[01:26:56] na existência de pessoas LGBT

[01:26:58] são os partidos que se articulam

[01:27:00] por um projeto de Brasil

[01:27:02] que visa desindustrializar

[01:27:04] o nosso parque industrial

[01:27:06] visa fortalecer o agronegócio

[01:27:08] fazendo a manutenção do

[01:27:10] Brasil enquanto

[01:27:12] um país de posição

[01:27:14] mais subalterna no sistema

[01:27:16] internacional e que vai agudizar

[01:27:18] a exploração da classe trabalhadora

[01:27:20] a nível geral, que vai promover

[01:27:22] o desemprego, que vai promover

[01:27:24] a miséria, então esses países

[01:27:26] eles se articulam contra

[01:27:28] a classe trabalhadora e

[01:27:30] jogam a culpa dessa merda

[01:27:32] que a gente vive hoje na gente

[01:27:34] nas pessoas LGBT, em geral

[01:27:36] em específico nas pessoas trans, então a gente

[01:27:38] percebe que é muito

[01:27:40] importante que as

[01:27:42] LGBTs se organizem e que se organizem

[01:27:44] com essa perspectiva revolucionária

[01:27:46] junto com o restante da classe

[01:27:48] trabalhadora nas suas múltiplas

[01:27:50] determinações

[01:27:52] que nós da classe trabalhadora não somos

[01:27:54] um monolito

[01:27:56] não podemos ser definidos

[01:27:58] de maneira estanque como

[01:28:00] algo que é

[01:28:02] único, sei lá, que o trabalhador

[01:28:04] como aquele proletário

[01:28:06] homem branco que vai pra fábrica

[01:28:08] na verdade, nós trabalhadores somos

[01:28:10] também LGBT, somos

[01:28:12] também mulheres, somos também

[01:28:14] negros, então

[01:28:16] a gente precisa realmente

[01:28:18] desse movimento

[01:28:20] atuando de uma forma

[01:28:22] articulada e de um nível de organização

[01:28:24] que permita que a gente não esteja

[01:28:26] sempre apagando o incêndio

[01:28:28] com uma pistolinha de água

[01:28:30] que a gente consiga ser propositivo

[01:28:32] e que a gente consiga, mais do que

[01:28:34] isso, pautar

[01:28:36] o que é realmente importante

[01:28:38] pra que a gente continue vivo, pra que a gente

[01:28:40] continue tendo a possibilidade

[01:28:42] de existir hoje em dia

[01:28:44] Sobre isso

[01:28:46] sobre isso que o Matheus coloca

[01:28:48] eu fico

[01:28:50] ele tava trazendo uma série de dados

[01:28:52] aí tentando

[01:28:54] preencher o que aconteceu

[01:28:56] de lá pra cá, eu fico pensando

[01:28:58] aqui no Brasil

[01:29:00] que a gente teve

[01:29:02] na última década especificamente

[01:29:04] um crescimento

[01:29:06] do movimento social LGBT

[01:29:08] a gente teve a possibilidade de mais

[01:29:10] pessoas se organizarem, a gente teve

[01:29:12] inclusive partidos tratando essa

[01:29:14] pauta com mais seriedade, daí

[01:29:16] vem o surgimento do coletivo LGBT

[01:29:18] comunista dentro do PCB, por exemplo

[01:29:20] vem nesse bojo, a partir

[01:29:22] do momento em que a classe

[01:29:24] trabalhadora vai voltar a se

[01:29:26] mobilizar aqui no país

[01:29:28] que o marco é junho de 2013

[01:29:30] nesse

[01:29:32] bojo de lutas que a gente vem

[01:29:34] enfrentando no último período

[01:29:36] a

[01:29:38] tava muito

[01:29:40] a postura do movimento LGBT

[01:29:42] vinha sendo cada vez mais incisiva

[01:29:44] embora uma constante

[01:29:46] é a reatividade

[01:29:48] a gente sempre

[01:29:50] como pra usar o termo que o Matheus

[01:29:52] usou, fica apagando fogo

[01:29:54] a gente sempre fica tentando fazer com que

[01:29:56] o STF não recue

[01:29:58] nas decisões que tem em defesa

[01:30:00] da população LGBT, que em geral são

[01:30:02] via decisões

[01:30:04] sempre o poder judiciário que tá cumprindo

[01:30:06] esse papel que deveria ser do legislativo

[01:30:08] atender as demandas da população LGBT

[01:30:10] tem que se apresenta o Bolsonaro

[01:30:12] como esse inimigo claro, que atinge

[01:30:14] ataca, desmonta

[01:30:16] uma série de políticas

[01:30:18] de enfrentamento à LGBTfobia

[01:30:20] desde

[01:30:22] políticas de HIV AIDS

[01:30:24] mas também políticas

[01:30:26] em geral que vão atingir a

[01:30:28] população LGBT, por exemplo

[01:30:30] o desmonte da

[01:30:32] Petrobras

[01:30:34] a privatização da BR Distrito

[01:30:36] contribuidora

[01:30:38] autonomia do Banco Central

[01:30:40] uma série de reforma da

[01:30:42] Previdência, enfim, mano pra manga

[01:30:44] recente aprovação da

[01:30:46] Caboço Fiscal

[01:30:48] eu tava falando do Bolsonaro especificamente que vem com esse bojo

[01:30:50] de coisas, e aí fica claro

[01:30:52] o nosso inimigo, mas

[01:30:54] a gente tem esse momento aí que é

[01:30:56] da eleição do Lula

[01:30:58] que vai fazer com que a população LGBT

[01:31:00] e a classe trabalhadora como um todo

[01:31:02] fale

[01:31:04] podemos descansar um pouco

[01:31:06] agora

[01:31:08] vai

[01:31:10] agora o Brasil volta pro eixo

[01:31:12] e aí

[01:31:14] as políticas

[01:31:16] persistem, só que dessa vez

[01:31:18] com o movimento LGBT

[01:31:20] e não só o movimento LGBT

[01:31:22] todo o conjunto

[01:31:24] de movimentos da classe trabalhadora

[01:31:26] quando voltam, voltam de um lugar

[01:31:28] que é muito mais tímido nessa atuação

[01:31:30] tem uma dificuldade muito maior de conseguir

[01:31:32] se impor, de demandar

[01:31:34] as coisas, daí a gente pega

[01:31:36] o arcabouço fiscal, um claro

[01:31:38] exemplo de uma nova política

[01:31:40] fiscal, uma nova política de

[01:31:42] corte, de produção de

[01:31:44] superávit primário

[01:31:46] uma nova política que é contra

[01:31:48] as políticas sociais

[01:31:50] mas também o próprio

[01:31:52] Marco Temporal com uma tímida atuação

[01:31:54] da esquerda

[01:31:56] pra contrapor ele

[01:31:58] o próprio desmonte agora do Ministério do Meio Ambiente

[01:32:00] do Ministério dos Povos

[01:32:02] Originários

[01:32:04] a gente com uma dificuldade muito grande

[01:32:06] de se articular pra colocar

[01:32:08] as nossas pautas

[01:32:10] antes a gente tava sendo reativo

[01:32:12] agora, nesse momento

[01:32:14] a própria reatividade

[01:32:16] saiu do horizonte

[01:32:18] e é o momento que

[01:32:20] necessita, que impõe

[01:32:22] a

[01:32:24] que urge

[01:32:26] a capacidade de a gente se articular

[01:32:28] não só de modo reativo

[01:32:30] mas pra avançar nas nossas demandas

[01:32:32] existem demandas históricas da população

[01:32:34] LGBT trabalhadora

[01:32:36] que acabam sendo negligenciadas

[01:32:38] que a gente tem uma dificuldade de articular

[01:32:40] mas que essas bandeiras não podem sair do horizonte

[01:32:42] a síntese

[01:32:44] da violência que a população LGBT vai

[01:32:46] sofrer é expressa

[01:32:48] como a gente falou aqui em uma série de momentos

[01:32:50] como você trouxe Zami

[01:32:52] é a própria população

[01:32:54] trans e os ataques que a população trans

[01:32:56] sofre, que vão desde

[01:32:58] o primeiro momento de vida

[01:33:00] desde

[01:33:02] o primeiro momento de vida exagero, mas enfim, desde

[01:33:04] esse ambiente da família

[01:33:06] onde você já sofre uma série de

[01:33:08] violações e privações

[01:33:10] depois no ambiente da escola

[01:33:12] se muitos, se você conseguir terminar

[01:33:14] esse primeiro momento da escola

[01:33:16] no ambiente de trabalho

[01:33:18] em geral, já no ambiente da escola

[01:33:20] as pessoas se retiram desse ambiente

[01:33:22] por causa da violência, saem de casa

[01:33:24] e aí tem uma série de dificuldades de se articular

[01:33:26] e como a gente pauta

[01:33:28] essas demandas concretas

[01:33:30] de uma parte significativa da

[01:33:32] população

[01:33:34] como um programa

[01:33:36] que urge que a gente reivindique

[01:33:38] eu acho que essa é a questão que se coloca

[01:33:40] e a resposta

[01:33:42] o Matheus dá aí os indícios

[01:33:44] e levanta a bola pra gente

[01:33:46] matar

[01:33:48] que é através de uma organização política coesa

[01:33:50] que é através de não rebaixar

[01:33:52] em momentos

[01:33:54] onde isso parece ser uma possibilidade

[01:33:56] as nossas bandeiras

[01:33:58] porque os ataques vêm

[01:34:00] eles vêm de onde a gente mais espera

[01:34:02] mas eles também vêm de onde a gente acha que

[01:34:04] existe uma tranquilidade

[01:34:06] porque o que vai impor

[01:34:08] as vitórias

[01:34:10] da classe trabalhadora

[01:34:12] não é outra coisa senão a própria luta

[01:34:14] e organização da classe trabalhadora

[01:34:16] então, nesse momento

[01:34:18] a nossa organização se faz vital

[01:34:20] pra continuar pensando

[01:34:22] numa esquerda que

[01:34:24] continue crescendo, numa esquerda radical

[01:34:26] que continue conseguindo

[01:34:28] se organizar nos locais de trabalho

[01:34:30] moradia, estudo

[01:34:32] nos próprios movimentos sociais

[01:34:34] enfim, é a organização política

[01:34:36] essa

[01:34:38] esse imperativo

[01:34:40] pra gente conseguir em algum momento

[01:34:42] superar

[01:34:44] pra conseguir construir as bases

[01:34:46] pra superar a sociedade que nos violenta o tempo todo

[01:34:48] que é a sociedade de classes

[01:34:50] que é a sociedade que produz

[01:34:52] e reproduz violências pra gente

[01:34:54] a todo momento

[01:34:56] pra gente LGBT

[01:34:58] pra gente heterossexual

[01:35:00] pra gente trabalhador, pra gente trabalhadora

[01:35:02] enfim, pra essa

[01:35:04] heterogeneidade que vai compor

[01:35:06] a nossa classe

[01:35:08] muito bom, Renan

[01:35:10] cara, assim, você e o Matheus

[01:35:12] chegaram num ponto, assim

[01:35:14] tão bom, né

[01:35:16] Matheus foi indo, foi indo, foi indo

[01:35:18] aí eu já tava pensando assim

[01:35:20] e aí, como é que a gente vai resolver

[01:35:22] aí o Matheus, não, organização política

[01:35:24] foi isso, perfeito, né, assim

[01:35:26] fantástico, assim, o que vocês levantaram

[01:35:28] eu acho que inclusive a gente já chegou no ponto ótimo

[01:35:30] aqui do

[01:35:32] nosso querido podcast

[01:35:34] então acho que é isso, chegamos aí num ponto ótimo

[01:35:36] aqui da nossa discussão aqui do

[01:35:38] RevoluShow junto com o Matheus, junto com o Renan

[01:35:40] e eu queria ver aí com vocês

[01:35:42] né, o que vocês

[01:35:44] gostariam de deixar de recado

[01:35:46] pra galera, o que vocês gostariam de passar pra frente

[01:35:48] sobre o livro

[01:35:50] né, e que vocês acham essencial

[01:35:52] aí pra classe

[01:35:54] trabalhadora, pra população LGBT que tá

[01:35:56] ouvindo nesse exato momento

[01:35:58] Matheus, sinta-se à vontade aí

[01:36:00] eu acho que é isso, eu e o Renan a gente

[01:36:02] chega hoje pra gravar contigo

[01:36:04] muito nesse espírito de

[01:36:06] trazer qual pode ser a contribuição

[01:36:08] do livro Sexualidade e Socialismo

[01:36:10] pra gente pensar o Brasil hoje

[01:36:12] o movimento LGBT hoje

[01:36:14] e a gente sai com um recado

[01:36:16] pros nossos ouvintes de que

[01:36:18] a única saída

[01:36:20] contra essa organização

[01:36:22] da direita que vem

[01:36:24] ocorrendo a nível mundial

[01:36:26] de violência contra a nossa existência

[01:36:28] contra as pessoas LGBT

[01:36:30] é a organização revolucionária

[01:36:32] não existe outra saída que vai

[01:36:34] conseguir trazer pra gente

[01:36:36] a possibilidade de converter

[01:36:38] as nossas identidades não mais num signo

[01:36:40] de violência, mas em mais

[01:36:42] um aspecto da nossa humanidade

[01:36:44] que não vai nos determinar

[01:36:46] como diferente, mas que vai

[01:36:48] nos aproximar

[01:36:50] na diversidade

[01:36:52] inclusive pensando na própria

[01:36:54] superação das identidades sexuais

[01:36:56] e de gênero, porque a partir do momento que você

[01:36:58] supera o processo de violência

[01:37:00] que generifica

[01:37:02] que determina

[01:37:04] em identidades desviantes

[01:37:06] você supera a própria identidade

[01:37:08] e com isso você tem uma outra

[01:37:10] formação social

[01:37:12] então a única saída pra gente

[01:37:14] conseguir barrar

[01:37:16] esses retrocessos e não apenas barrar

[01:37:18] mas ser propositivo sobre quais são as políticas

[01:37:20] de interesse para os trabalhadores

[01:37:22] em geral e para os trabalhadores

[01:37:24] em específico é na organização

[01:37:26] revolucionária, então eu convido

[01:37:28] todos os ouvintes a conhecerem mais

[01:37:30] sobre o trabalho do LGBT comunista

[01:37:32] também a se organizar

[01:37:34] ensinando o LGBT comunista nos demais

[01:37:36] instrumentos, nas demais ferramentas

[01:37:38] de luta popular da classe

[01:37:40] trabalhadora, porque

[01:37:42] o bicho tá pegando, se a gente

[01:37:44] não se proteger, se a gente não

[01:37:46] atuar coletivamente, a gente vai

[01:37:48] ser esmagado. Muito bom, Renan?

[01:37:50] Então gente, eu fico

[01:37:52] antigamente se tinha dúvida

[01:37:54] Rosa Luxemburgo nos

[01:37:56] disse, socialismo ou barbárie?

[01:37:58] Bom, era o que se

[01:38:00] apresentava como possibilidade, a questão

[01:38:02] é que desde então cada vez

[01:38:04] mais a gente está

[01:38:06] na barbárie, a gente está

[01:38:08] submerso na barbárie

[01:38:10] que é a sociedade do capital

[01:38:12] que é a sociedade que

[01:38:14] quer usar da gente

[01:38:16] para produzir valor, para valorizar o

[01:38:18] valor, para catar esse

[01:38:20] valor produzido. Nessa

[01:38:22] sociedade a

[01:38:24] gente é colocado o tempo todo

[01:38:26] de todas as formas

[01:38:28] possíveis

[01:38:30] em

[01:38:32] postos de trabalho

[01:38:34] ruim, de modo que a gente não

[01:38:36] consiga se relacionar

[01:38:38] desde as

[01:38:40] nossas relações parentais

[01:38:42] até com

[01:38:44] a sociedade como um todo

[01:38:46] e o movimento

[01:38:48] LGBT não pode ser

[01:38:50] organizado em torno das demandas

[01:38:52] que não dizem respeito a

[01:38:54] gente. O movimento LGBT

[01:38:56] deve ser organizado pelas

[01:38:58] bases, deve ser organizado através

[01:39:00] da população

[01:39:02] que produz

[01:39:04] a riqueza que é socialmente

[01:39:06] a riqueza socialmente produzida

[01:39:08] que é

[01:39:10] privatizada após

[01:39:12] esse processo de produção. Nesse

[01:39:14] sentido a gente

[01:39:16] precisa enfrentar os

[01:39:18] dilemas do nosso tempo histórico e

[01:39:20] esse enfrentamento se dá necessariamente

[01:39:22] pela superação

[01:39:24] desse modo de produção.

[01:39:26] Daí, como fazer isso?

[01:39:28] É a pergunta que

[01:39:30] esse podcast

[01:39:32] que a gente está, se propõe a responder

[01:39:34] desde sempre

[01:39:36] é fazendo uma revolução

[01:39:38] e uma revolução que inclua

[01:39:40] toda a classe trabalhadora

[01:39:42] que inclua a população LGBT

[01:39:44] trabalhadora, que seja

[01:39:46] realizada também pela população LGBT

[01:39:48] trabalhadora. Nesse

[01:39:50] sentido a organização política se faz fundamental

[01:39:52] esse instrumento de luta

[01:39:54] que é capaz

[01:39:56] de colocar abaixo

[01:39:58] a hegemonia do capital.

[01:40:00] Por isso fica o chamamento para todo mundo

[01:40:02] se mobilizar

[01:40:04] no

[01:40:06] site do coletivo LGBT

[01:40:08] comunista, que é

[01:40:10] lgbtcomunista.org

[01:40:12] a gente se propõe

[01:40:14] a discutir a realidade

[01:40:16] brasileira, a traduzir

[01:40:18] textos para

[01:40:20] ajudar a gente, tal como esse livro,

[01:40:22] na compreensão da

[01:40:24] opressão que atinge a população LGBT

[01:40:26] das determinações que se tem nesse

[01:40:28] processo, de como enfrentar isso

[01:40:30] então conheçam o nosso

[01:40:32] site, conheçam o coletivo

[01:40:34] LGBT comunista

[01:40:36] e conheçam também

[01:40:38] as organizações

[01:40:40] em geral de luta da nossa classe

[01:40:42] que querem o fim

[01:40:44] da hegemonia do capital

[01:40:46] que se propõe a construir aí

[01:40:48] o poder popular rumo ao

[01:40:50] socialismo. Quero

[01:40:52] agradecer também para finalizar

[01:40:54] o RevoluShow, agradecer

[01:40:56] ao Zami, ao Iago

[01:40:58] ao Gelo que vai

[01:41:00] editar

[01:41:02] aqui os momentos

[01:41:04] de falha meus, que engasguei

[01:41:06] que eu tossi. Enfim, agradecer

[01:41:08] a todo mundo que está aqui ouvindo

[01:41:10] a gente até agora. Muito obrigado.

[01:41:12] Eu queria agradecer vocês por estarem

[01:41:14] com a gente aqui até agora, já são

[01:41:16] 10 e meia da noite

[01:41:18] gravando um tema tão

[01:41:20] importante quanto esse. E queria dizer

[01:41:22] que sempre que vocês quiserem levantar algum

[01:41:24] tema, alguma questão

[01:41:26] do LGBT comunista ou qualquer outra

[01:41:28] questão que vocês tragam

[01:41:30] de trabalho de vocês, de pesquisa, até de

[01:41:32] vontade para propor

[01:41:34] um episódio. Então, o canal aqui é extremamente

[01:41:36] aberto. É isso mesmo. Eu falo, Zami, eu estou querendo

[01:41:38] falar de tal coisa. Eu falo, bora, vamos.

[01:41:40] Tem mais alguém aí que você quer chamar? Vamos.

[01:41:42] A gente grava tranquilamente, sabe?

[01:41:44] Porque a ideia do podcast mesmo

[01:41:46] é que a gente consiga trazer

[01:41:48] o máximo de pessoas, o máximo de debate

[01:41:50] possível para o nosso campo,

[01:41:52] para a gente conseguir avançar.

[01:41:54] Uma vez a gente brincava

[01:41:56] um tempo atrás falando que o pessoal,

[01:41:58] o João, o Diego,

[01:42:00] o RevoluShow é uma grande universidade aberta.

[01:42:02] Eu brinco e falo assim, olha, para mim o RevoluShow

[01:42:04] é um grande campinho, né?

[01:42:06] Qualquer um pode entrar. Na universidade não é todo mundo.

[01:42:08] Então, assim, para mim é um grande campinho,

[01:42:10] né? Quem quiser entrar no campinho

[01:42:12] para conversar, sinta-se à vontade.

[01:42:14] Só não pode ser liberal que a gente

[01:42:16] não permite entrar no campinho.

[01:42:18] Tá bom, gente? Então, sinta-se à vontade.

[01:42:20] Sempre que vocês quiserem, estamos aí. Muito obrigado.

[01:42:22] Muito obrigado. Bom demais. E você que está ouvindo a gente

[01:42:24] até agora, presente momento, queria agradecer por você ter chegado

[01:42:26] até o final desse terrível

[01:42:28] episódio aqui do RevoluShow

[01:42:30] e que você

[01:42:32] é essencial para a gente porque esse podcast

[01:42:34] só existe por sua causa, né?

[01:42:36] Porque você nos ouve e porque você nos ajuda

[01:42:38] a pagar a conta de

[01:42:40] gás dessa linda e maravilhosa comuna.

[01:42:42] Então, sinta-se à vontade aí de nos apoiar na plataforma

[01:42:44] da Aurelo ou no Padrim ou

[01:42:46] pelo PicPay. É só você procurar o RevoluShow

[01:42:48] nas três plataformas

[01:42:50] aí. É claro que eu recomendo que você vá

[01:42:52] na Aurelo, né? Porque a gente tem menos

[01:42:54] taxa lá, né? Esse negócio de ser taxado é triste

[01:42:56] demais. Imposto é roubo! Sacanagem.

[01:42:58] É… A gente ser taxado é triste demais,

[01:43:00] mas sinta-se à vontade para nos auxiliar lá.

[01:43:02] Tá bom? Então, um abraço para vocês

[01:43:04] e aquele saudoso e maravilhoso tchau-tchau

[01:43:06] no coração, tá?