Ernst Bloch, filósofo da esperança


Resumo

Este episódio apresenta uma introdução ao pensamento do filósofo alemão Ernst Bloch (1885-1975), conhecido como o ‘filósofo da esperança’. Bloch foi um pensador marxista ateu que, paradoxalmente, estabeleceu um diálogo profundo e fecundo com a religião, influenciando diretamente movimentos como a Teologia da Libertação. O episódio estrutura-se em quatro partes principais: uma breve biografia intelectual de Bloch, seguida pela exploração de três de seus conceitos centrais.

A primeira parte conceitual aborda a ‘esperança’. Para Bloch, a esperança não é um mero sentimento ou afeto, mas um ato cognitivo e racional, uma característica definidora do ser humano. Ela se distingue do mero desejo ou de uma simples espera passiva. Bloch, partindo da pergunta kantiana ‘O que posso esperar?’, argumenta que a esperança se tornou um ato cognitivo a partir de Karl Marx, pois a crítica da economia política apresenta a esperança como perceptível e como substância da própria realidade, direcionada à superação do mundo alienado. A esperança é ativa, exige ação (praxis) e, embora seja ‘desapontável’, permanece como força contra o niilismo porque o processo do mundo é aberto.

O segundo conceito explorado é o de ‘utopia concreta’. Bloch resgata o conceito de utopia do sentido pejorativo de ‘irrealizável’ para seu sentido etimológico de ‘não-lugar’, algo que ainda não existe. Ele critica as utopias abstratas e defende uma utopia que leve em conta as possibilidades já presentes na realidade. Para Bloch, ‘ser humano significa ter utopias’; é uma condição antropológica. Sua utopia concreta envolve observar os desenvolvimentos sociais, econômicos e culturais para ouvir as tendências do que é possível. O marxismo é visto por Bloch como a primeira expressão dessa utopia concreta, um estágio em direção à eliminação da exploração.

Por fim, o episódio examina a concepção peculiar de ‘ateísmo’ em Bloch. Seu ateísmo não é uma simples negação, mas uma ‘humanização das esferas transcendentes’. Ele busca trazer à luz o potencial transgressor e socialmente revolucionário da religião, identificando ‘ateísmos no Cristianismo’. Bloch analisa, por exemplo, a história do Êxodo como um canto de triunfo de uma classe oprimida e vê em Jesus um ‘rei nacionalista revolucionário’. Sua famosa afirmação paradoxal – ‘apenas um ateu pode ser um bom cristão e apenas um cristão pode ser um bom ateu’ – sintetiza essa visão dialética, onde a negação de um Deus transcendente (ateísmo) e a afirmação do divino no humano (cristianismo) se encontram. Bloch traça paralelos entre religião, arte, ciência e literatura, vendo todas como formas culturais pelas quais os seres humanos buscam superar o presente em direção a uma ‘pátria adequada à sua essência’.


Indicações

Books

  • O Princípio Esperança — Obra magna de Ernst Bloch, publicada em 1959, que desenvolve plenamente seu conceito de esperança como ato cognitivo e tema central da filosofia. É mencionada como uma das obras de Bloch com tradução para o português do Brasil.
  • O Espírito da Utopia — Primeiro livro de Bloch, lançado durante a Primeira Guerra Mundial (1918). Nele, Bloch confronta a rigidez da filosofia universitária e a social-democracia pequeno-burguesa, introduzindo temas como o messianismo secularizado que seriam desenvolvidos posteriormente.
  • Ateísmo no Cristianismo (Atheismus im Christentum) — Obra de Bloch onde ele explora os elementos ateus dentro da própria religião cristã, analisando impulsos de libertação inerentes a ela e defendendo a ideia de ‘transcender sem transcendência’.

Courses

  • Introdução à Filosofia, dos pré-socráticos à Sartre — Curso oferecido pelo podcast, com mais de 14 horas de duração, acesso vitalício e flexível. O objetivo é preparar o aluno para ler textos filosóficos originais de pensadores como Platão, Aristóteles, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche e Sartre.
  • A Filosofia de Karl Marx – Uma Introdução — Curso focado nos aspectos filosóficos do pensamento de Karl Marx, excluindo abordagens econômicas ou o marxismo como tradição ampla. Aborda temas como materialismo histórico, dialética, a crítica da religião e a revolução.

People

  • Georg Lukács — Filósofo húngaro contemporâneo e amigo intelectual de Bloch. Lukács afirmou que, ao conhecer Bloch, percebeu que ainda era possível fazer filosofia como Aristóteles e Hegel. Eles estudaram juntos, concordavam em tudo inicialmente, mas depois tiveram uma ruptura sobre o conceito de utopia e realismo na literatura.
  • Jürgen Moltmann — Teólogo muito conhecido, considerado um pai da Teologia da Libertação. Foi diretamente influenciado pela obra de Bloch, a ponto de o episódio afirmar que, se Moltmann é o pai, Bloch seria o ‘avô’ da teologia da libertação. Moltmann vê na filosofia de Bloch uma origem comum para religião e revolução.
  • Karl Marx — Referência central para Bloch. O episódio destaca que Bloch considera que a esperança se tornou um ato cognitivo a partir de Marx, cuja crítica da economia política apresenta a esperança como substância da realidade. Bloch também dialoga com a afirmação de Marx sobre a religião ser ‘ópio do povo’ e ‘protesto’.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução a Ernst Bloch e sua relevância — O episódio inicia apresentando Ernst Bloch como um dos filósofos mais importantes do século XX, ainda pouco divulgado no Brasil. Destaca-se seu papel fundamental como base para a Teologia da Libertação na América Latina, apesar de ser um filósofo marxista e ateu. O programa anuncia que abordará uma biografia do pensador e três de seus principais temas: os conceitos de esperança e utopia concreta, e sua visão paradoxal sobre ateísmo e cristianismo.
  • 00:04:43Biografia intelectual de Ernst Bloch — Apresenta a trajetória de Bloch, nascido em 1885 em Ludwigshafen, uma cidade operária que o marcou politicamente. Sua adesão ao marxismo foi motivada pelos horrores da Primeira Guerra Mundial. Seu primeiro livro, ‘O Espírito da Utopia’ (1918), confrontava a filosofia universitária rígida e a social-democracia pequeno-burguesa. Bloch tinha um estilo homilético e um messianismo secularizado no centro de seu pensamento. Sua obra magna é ‘O Princípio Esperança’ (1959). Teve uma relação intelectual próxima e depois conflituosa com Georg Lukács. Após o nazismo, tentou viver na Alemanha Oriental, mas seu marxismo não ortodoxo o levou a se mudar para a Alemanha Ocidental, onde faleceu em 1975.
  • 00:11:24O conceito de esperança como ato cognitivo — Explora a concepção blochiana de esperança. Inicia contextualizando a relação amistosa de Bloch com a religião, partindo da análise de Marx que vê na religião tanto um ‘ópio’ quanto um ‘protesto contra este mundo’. Para Bloch, ‘onde há esperança há religião’. A esperança é o tema central de sua filosofia, partindo da pergunta antropológica ‘O que o homem pode esperar?’ (retomada de Kant). Diferente de um mero sentimento, a esperança é um ato cognitivo, uma característica definidora do ser humano, aprendida e ativa. Bloch reformula a 11ª tese de Marx: ‘Trata-se de aprender a esperanha’. A esperança é desapontável, mas isso não a invalida, pois o processo do mundo permanece aberto.
  • 00:22:16A utopia concreta e sua dimensão antropológica — Define o conceito de ‘utopia concreta’. Distingue o sentido comum de utopia (irrealizável) do sentido etimológico (não-lugar, algo que ainda não existe). Bloch preserva o ‘bom núcleo’ das utopias anteriores, mas rejeita as abstratas. Sua utopia concreta considera: 1) possibilidades presentes na realidade; 2) desenvolvimento dessas possibilidades no pensamento; 3) capacidade humana de superação; 4) característica da matéria de desenvolver possibilidades latentes. Afirma que ‘ser humano significa ter utopias’. A obra ‘O Princípio Esperança’ começa pelos pequenos sonhos cotidianos. A religião captura o desejo humano por uma vida melhor. O marxismo é visto como a primeira expressão dessa utopia concreta, um estágio rumo à eliminação da exploração.
  • 00:29:36O ateísmo dialético de Bloch e a religião — Examina a visão única de Bloch sobre ateísmo. Seu ponto de partida é a negação de um Deus pessoal transcendente, mas vai além: é uma humanização dos poderes transcendentes, reapropriando o divino no ser humano (indo além de Feuerbach). Busca o potencial transgressor e revolucionário da religião. Em ‘Ateísmo no Cristianismo’, identifica elementos ateus dentro da religião. Analisa o Êxodo como triunfo de uma classe oprimida e os profetas como pregadores subversivos. Vê Jesus como um ‘rei nacionalista revolucionário’. A Trindade representa um homem (Jesus) entrando no lugar da transcendência. Daí sua afirmação paradoxal: ‘apenas um ateu pode ser um bom cristão e apenas um cristão pode ser um bom ateu’. Para Bloch, ateísmo e humanidade verdadeira são aspectos de uma mesma realidade, e religião, arte, ciência e literatura são formas culturais de buscar uma ‘pátria adequada à essência humana’.

Dados do Episódio

  • Podcast: Filosofia Vermelha
  • Autor: Glauber Ataide
  • Categoria: Society & Culture Philosophy
  • Publicado: 2023-06-12T08:00:00Z
  • Duração: 00:39:13

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Olá, amigos e amigas do Saber. Neste episódio falaremos sobre Ernst Bloch, o filósofo da esperança.

[00:00:08] Bloch é um dos filósofos mais importantes do século XX, mas ainda não teve uma recepção e uma divulgação tão ampla no Brasil quanto tem aqui na Alemanha.

[00:00:19] Um dos principais frutos de seu trabalho, no entanto, é bem conhecido na América Latina e trata-se da teologia da libertação.

[00:00:28] Nós não podemos pensar, é inimaginável, a teologia da libertação sem as reflexões de Bloch, que é um filósofo, na verdade, marxista e ateu,

[00:00:39] mas que faz um diálogo muito interessante com a religião, como nós vamos ver aqui neste episódio.

[00:00:44] Então, o que nós vamos fazer hoje é o seguinte, nós vamos apresentar inicialmente uma breve biografia do Bloch e, em sequência,

[00:00:51] três dos mais importantes temas de sua filosofia.

[00:00:55] Os conceitos de esperança, de utopia.

[00:00:58] Nós vamos tentar compreender o que é a utopia concreta de Bloch e mostraremos que a esperança não é meramente um sentimento,

[00:01:09] mas esperança é um ato racional e cognitivo.

[00:01:13] Explicaremos também, de maneira breve, a interessante afirmação de Bloch de que apenas um ateu pode ser um bom cristão

[00:01:21] e apenas um cristão pode ser um bom ateu.

[00:01:25] Parece um paradoxo, né?

[00:01:26] Só um ateu pode ser um bom cristão.

[00:01:29] E só um cristão pode ser um bom ateu.

[00:01:32] Então, vamos lá, acompanhem.

[00:01:46] Antes de iniciar, um breve recado.

[00:01:48] Faça sua inscrição em nosso curso de Introdução à Filosofia, dos pré-socráticos à Sartre.

[00:01:54] O nosso curso tem mais de 14…

[00:01:56] 14 horas de duração, oferece total flexibilidade, porque não tem data nem para você começar e nem para você terminar.

[00:02:02] O seu acesso é vitalício e você ainda recebe um certificado ao concluir.

[00:02:07] O nosso objetivo com esse curso é colocar você em contato direto com alguns dos principais textos de toda a história da filosofia.

[00:02:15] Então, ao invés de você ler comentadores ou então literatura secundária falando sobre os filósofos,

[00:02:23] os nossos vídeos vão te preparar para que você leia diretamente.

[00:02:26] Por conta própria, textos de Platão, Aristóteles, Sêneca, Marco Aurélio, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, René Descartes, Immanuel Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Sartre, etc.

[00:02:40] Para mais informações, acesse o link que está na descrição deste episódio, ou então o link que você pode encontrar em nosso site, que é www.filosofiaepsicanalise.org.

[00:02:53] O nosso segundo e último recado é sobre o meu curso de Introdução à Filosofia, dos pré-socráticos à Sartre.

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[00:03:02] falando apenas sobre Karl Marx.

[00:03:05] E assim como o outro curso de introdução à filosofia,

[00:03:08] o acesso aqui também é vitalício

[00:03:10] e você pode fazer com total flexibilidade,

[00:03:13] sem data para iniciar ou finalizar.

[00:03:15] Então, se inscrever nesses cursos é como adquirir um livro.

[00:03:19] Você faz uma inscrição e tem acesso para sempre.

[00:03:23] Sobre a introdução à filosofia de Marx,

[00:03:25] é importante ressaltarmos que este não é um curso de introdução ao marxismo.

[00:03:29] O nosso recorte contempla os aspectos filosóficos do pensamento de Karl Marx,

[00:03:35] o que significa que aspectos econômicos, por exemplo,

[00:03:39] não estão no escopo do curso.

[00:03:41] Isso se explica pelo fato de o marxismo ser uma tradição imensa

[00:03:45] que tem início nas obras de Marx,

[00:03:47] mas que vai abranger vários outros pensadores além do próprio Marx

[00:03:51] e também várias outras áreas do conhecimento além da filosofia.

[00:03:55] E o nosso recorte quer pegar Marx e a filosofia.

[00:03:58] Nós não queremos outros pensadores e nem outras áreas.

[00:04:02] E alguns dos temas que nós abordamos neste curso são

[00:04:04] a biografia de Marx, o que é materialismo histórico, o que é dialética.

[00:04:10] Nós explicamos a afirmação de Marx de que a religião é o óbvio do povo.

[00:04:14] Falamos sobre o idealismo alemão,

[00:04:17] a tensão entre normatividade e descrição

[00:04:19] que se encontra no interior das obras de Marx.

[00:04:23] Nós falamos sobre a revolução como exigência da razão

[00:04:26] e vários, vários outros temas.

[00:04:27] Para saber mais, basta clicar no link que está na descrição deste episódio

[00:04:31] ou então no link que você encontra em nosso site

[00:04:33] www.filosofiaepsicanalise.org

[00:04:38] Voltemos então ao nosso tema

[00:04:40] Ernst Bloch, filósofo da esperança.

[00:04:43] Vamos apresentar inicialmente então uma breve biografia de Bloch.

[00:04:47] Vamos ver quem foi este filósofo ateu marxista,

[00:04:51] mas que faz um fecundo diálogo com a religião.

[00:04:54] Ernst Bloch nasceu em 8 de julho de 1880.

[00:04:57] Em 1885, na cidade de Ludwigshafen, na Alemanha.

[00:05:02] Esta era uma cidade operária e Bloch considerava a sua cidade

[00:05:06] como a face e a expressão do capitalismo tardio,

[00:05:10] devido aos vários proletários, trabalhadores famintos e explorados.

[00:05:15] Bloch afirma que começou a se ocupar com política

[00:05:18] ao ver os trabalhadores nessa situação pelas ruas.

[00:05:21] Trabalhadores famintos, explorados.

[00:05:23] Então, quando ele tinha 13 ou 14 anos de idade aproximadamente,

[00:05:27] ele fez uma assinatura do jornal Fovets,

[00:05:30] o qual, no entanto, ele precisava esconder de seus pais em casa.

[00:05:34] Seus pais não podiam ver que ele tinha esse jornal de esquerda nessa idade.

[00:05:39] E assim como os filósofos Georg Lukács e Walter Benjamin,

[00:05:44] Bloch foi levado ao marxismo pelos horrores da Primeira Guerra Mundial.

[00:05:49] E Bloch enxergava o marxismo, então, como uma defesa contra um armagedom

[00:05:54] que estava prestes a engolir a humanidade.

[00:05:57] Por um tempo, Bloch seguiu o revisionismo de um cara chamado Eduard Bernstein.

[00:06:03] Quem conhece a literatura marxista do século XX já ouviu falar desse nome, né?

[00:06:07] É bem falado Bernstein.

[00:06:09] Então, Bloch inicialmente seguia essa linha desse cara, que era o Bernstein,

[00:06:13] e depois se aproximou de Karl Kautsky,

[00:06:16] que também, para quem conhece a literatura marxista, sabe que é um nome muito conhecido.

[00:06:21] O primeiro livro de Bloch, chamado O Espírito da Utopia,

[00:06:25] foi lançado durante a Primeira Guerra Mundial,

[00:06:27] e seu objetivo era confrontar aquelas duas correntes que Bloch via como predominantes em sua época.

[00:06:35] Por um lado, a rigidez e a falta de movimento na filosofia universitária,

[00:06:40] e por outro, a social-democracia pequeno-burguesa,

[00:06:44] a qual enxergava o ser humano apenas como um apêndice

[00:06:48] que deveria ser integrado a uma base econômica.

[00:06:52] Desde cedo, Bloch lia filósofos como Fichte, Schelling e Engels.

[00:06:57] E, embora ele não entendesse tudo o que lia,

[00:07:00] ele acabava fazendo uma interpretação interessante, por assim dizer,

[00:07:05] daquilo que ele não compreendia bem.

[00:07:07] E, a propósito, essa chamada incompreensão é uma marca registrada do Bloch.

[00:07:14] Ele nunca interpreta os filósofos de maneira oficial,

[00:07:18] mas ele se interessa por aquilo que flui pelas margens das correntes principais.

[00:07:24] O estilo de Bloch é mais homilético,

[00:07:27] do que analítico, por assim dizer.

[00:07:29] No centro de seu pensamento jaz um messianismo secularizado,

[00:07:34] a doutrina judaica de que a redenção é sempre possível em nosso tempo, neste mundo.

[00:07:40] Bloch acreditava que, por mais que um mundo redimido, por assim dizer,

[00:07:45] fosse radicalmente diferente do mundo atual,

[00:07:48] sendo uma utopia nesse sentido,

[00:07:50] era possível, mesmo assim, alcançar tal mundo redimido

[00:07:54] sem ter que se render

[00:07:56] a uma escatologia cristã de morte e renascimento, por exemplo.

[00:08:00] Então, este foi exatamente o principal tema abordado em sua obra Espírito da Utopia,

[00:08:06] lançada em 1918,

[00:08:08] e esse tema vai encontrar o seu pleno desenvolvimento em sua obra

[00:08:12] O Princípio Esperança, de 1959.

[00:08:15] A propósito, O Princípio Esperança é uma das obras de Bloch

[00:08:20] que tem tradução para o português do Brasil.

[00:08:23] Bloch influenciou, e também foi influenciado,

[00:08:26] por diversos pensadores importantes,

[00:08:28] tais como Walter Benjamin, Theodor Adorno, Bertolt Brecht, Simone Weil e Georg Lukács.

[00:08:35] Esse último é de especial relevância,

[00:08:37] e a influência de um sobre o outro foi recíproca.

[00:08:40] Talvez você nunca tenha ouvido falar sobre Georg Lukács,

[00:08:43] mas é um filósofo muito importante no século XX,

[00:08:46] é um filósofo que está ali na base da escola de Frankfurt,

[00:08:49] e foi o filósofo que eu estudei no meu mestrado em Filosofia.

[00:08:53] É um filósofo que nasceu no Império Austro-Húngaro.

[00:08:56] Lukács conta que, quando conheceu Bloch,

[00:08:59] percebeu que ainda era possível fazer Filosofia como Aristóteles e Hegel.

[00:09:05] Veja, essa é uma afirmação fantástica.

[00:09:08] Bloch e Lukács estudaram juntos,

[00:09:11] os dois nasceram no mesmo ano, em 1885,

[00:09:14] e Lukács ficou impressionado.

[00:09:17] Lukács afirma,

[00:09:18] Quando eu conheci Bloch, eu vi que ainda era possível fazer Filosofia

[00:09:23] como Aristóteles e Hegel haviam feito.

[00:09:26] E o Bloch nos conta, por sua vez,

[00:09:28] que lá pelos anos 1913, 1914,

[00:09:32] ele e o Lukács concordavam em tudo.

[00:09:35] E mesmo depois de algumas semanas sem se encontrar,

[00:09:38] por exemplo, um período de férias ou o que fosse,

[00:09:41] quando os dois se encontravam novamente,

[00:09:43] eles percebiam que eles tinham desenvolvido o pensamento

[00:09:46] na mesma direção, mas de maneira independente,

[00:09:50] mesmo estando separados e sem se comunicar.

[00:09:53] Infelizmente, houve depois uma ruptura.

[00:09:55] E Bloch acusa Lukács de não ter compreendido

[00:09:59] o seu conceito de utopia.

[00:10:01] E o Bloch também, por sua vez, era contra o tipo de realismo

[00:10:05] que o filósofo húngaro defendia na literatura,

[00:10:08] porque o Bloch achava que ali faltava a dimensão utópica.

[00:10:13] E o principal ponto de contato entre ambos foi

[00:10:16] a problemática sujeito-objeto na Fenomenologia do Espírito de Hegel.

[00:10:20] Para fechar então essa parte biográfica de Bloch,

[00:10:23] o que nós podemos ainda dizer?

[00:10:24] Durante o período nazista, o Bloch se refugiou nos Estados Unidos

[00:10:28] e, após a Segunda Guerra Mundial,

[00:10:30] ele tentou se estabelecer na Alemanha Oriental Socialista.

[00:10:34] Mas lá ele encontrou alguns problemas devido ao seu marxismo pouco ortodoxo.

[00:10:39] Em 1961, ele se muda então para a República Federal Alemã

[00:10:45] e passa o resto de sua vida em Tübingen,

[00:10:48] onde vem a falecer no ano de 1975.

[00:10:52] Ao contrário de vários outros filósofos de seu campo,

[00:10:55] Bloch se tornou uma influência muito além do marxismo.

[00:10:59] De modo que não é incomum hoje encontrar em livrarias não especializadas aqui da Alemanha

[00:11:06] até mesmo essas obras que trazem apenas trechos e citações do Bloch organizadas por temas.

[00:11:12] Além, é claro, de aqui na Alemanha existir uma extensa literatura acadêmica,

[00:11:17] infelizmente ainda não disponível no Brasil.

[00:11:20] Vamos apresentar agora um dos principais conceitos da obra de Bloch,

[00:11:24] que é o conceito de esperança.

[00:11:27] Inicialmente, pode parecer estranho um filósofo marxista ter uma relação tão amistosa com a religião.

[00:11:34] Afinal de contas, uma das afirmações mais conhecidas de Karl Marx

[00:11:38] e também menos compreendidas, para falar a verdade,

[00:11:41] é aquela afirmação de que a religião é o ópio do povo.

[00:11:45] Essa metáfora de Marx quer dizer basicamente que a religião

[00:11:49] é uma espécie de anestésico para aliviar o homem de seu sofrimento real.

[00:11:56] Sofrimento este causado principalmente pelas condições sociais.

[00:12:01] Agora, é importante não perder de vista, no entanto,

[00:12:04] outro aspecto da religião que Marx aponta no mesmo texto.

[00:12:09] Se, por um lado, a religião é expressão da miséria real,

[00:12:13] ela também é, por outro, um protesto contra este mundo.

[00:12:18] É isso que está no texto de Marx,

[00:12:20] o texto no qual ele fala que a religião é o ópio do povo.

[00:12:23] Ele também afirma isso.

[00:12:25] A religião é também um protesto contra este mundo.

[00:12:28] Isso no sentido de que a religião é também o reconhecimento

[00:12:33] de que este mundo não é bom o suficiente

[00:12:36] e que o ser humano merece um destino melhor.

[00:12:40] O cristianismo apresentado no livro de Apocalipse, por exemplo,

[00:12:44] é basicamente uma religião da esperança.

[00:12:46] Este livro trouxe a um mundo abandonado e desesperado

[00:12:50] uma fé escatológica em um futuro de liberdade e justiça na presença de Deus.

[00:12:56] Bloch enxerga no cerne das religiões o desejo de um futuro melhor,

[00:13:02] de modo que ele afirma o seguinte, abre aspas,

[00:13:05] onde há esperança há religião, fecha aspas.

[00:13:09] Uma afirmação interessante, não é?

[00:13:11] Onde há esperança há religião.

[00:13:15] E, em nenhuma outra religião,

[00:13:17] essa esperança aparece de forma tão intensa quanto no cristianismo

[00:13:21] e especificamente na história da ressurreição do Cristo crucificado e humilhado.

[00:13:26] A esperança é considerada por Bloch como tema central de toda a filosofia.

[00:13:31] E seu ponto de partida é a antropologia filosófica,

[00:13:35] porque a reflexão sobre o que o homem é

[00:13:38] se orienta pela pergunta sobre o que o homem pode esperar.

[00:13:42] Veja só que interessante. Eu afirmei agora.

[00:13:45] O ponto de partida é a antropologia filosófica.

[00:13:48] É uma área da filosofia, né? A antropologia filosófica.

[00:13:51] E a pergunta é o que o ser humano pode esperar.

[00:13:55] Essa pergunta já havia sido colocada por Immanuel Kant,

[00:13:59] para quem um projeto de crítica da razão deveria responder as seguintes perguntas.

[00:14:04] o que eu posso saber.

[00:14:07] o que eu devo fazer.

[00:14:09] E, terceiro, o que eu posso esperar.

[00:14:11] Se você já fez o nosso curso de introdução à filosofia,

[00:14:14] você já viu isso lá, né?

[00:14:16] Na sessão sobre Kant, nós falamos sobre essas três perguntas que o Kant coloca

[00:14:20] e o que significa cada uma delas, como que o Kant tenta responder.

[00:14:24] Então, Bloch também faz uso dessa terceira pergunta aqui que o Kant coloca.

[00:14:28] O que eu posso esperar.

[00:14:30] Então, esse é o ponto de partida para Bloch.

[00:14:33] O que o ser humano pode esperar.

[00:14:36] Assim como o medo, a esperança é geralmente compreendida como um afeto.

[00:14:41] Mas, tendo em vista que

[00:14:43] o processo do mundo é sempre aberto

[00:14:46] e que o ser humano sempre busca algo melhor,

[00:14:49] a esperança é também um ato cognitivo.

[00:14:52] Vejam só, isso aqui é muito importante para compreender a filosofia de Bloch.

[00:14:57] Esperança, em Bloch, não diz respeito meramente a um sentimento.

[00:15:02] Não.

[00:15:03] A esperança é tomada de maneira filosófica.

[00:15:06] A esperança é um ato cognitivo.

[00:15:10] E o oposto da esperança,

[00:15:12] enquanto ato cognitivo, não é o medo, mas a lembrança.

[00:15:16] Bloch considera que a esperança se tornou um ato cognitivo a partir de Karl Marx.

[00:15:22] Porque Marx, em sua crítica da economia política,

[00:15:25] apresenta a esperança como perceptível

[00:15:28] e também como substância da própria realidade,

[00:15:32] cujo momento racional se direciona no sentido de uma esperança de superação do mundo alienado.

[00:15:39] Então, percebam que, desde o início,

[00:15:40] Bloch já liga a sua filosofia à filosofia de Karl Marx.

[00:15:45] E ele vai refletir sobre a esperança,

[00:15:48] tendo por base também o marxismo.

[00:15:51] A esperança não é, como nós já afirmamos, um mero sentimento.

[00:15:54] A esperança é uma característica definidora do ser humano.

[00:15:59] Nós somos movidos pela esperança desde as pequenas coisas do cotidiano

[00:16:04] até as maiores metas de nossas vidas.

[00:16:07] E é importante também aqui distinguir

[00:16:09] a esperança de Bloch

[00:16:11] tanto do mero desejo quanto de uma simples espera.

[00:16:15] Então, vejam só.

[00:16:17] Esperança, no sentido de Bloch,

[00:16:19] não é um mero desejo

[00:16:21] e também não é uma simples espera.

[00:16:24] O conceito é bem mais complexo.

[00:16:26] Além disso, a esperança é também algo que se aprende.

[00:16:30] Bloch toma como modelo aquela 11ª tese de Marx à Feuerbach

[00:16:35] e vai fazer uma alteração interessante.

[00:16:37] Essa tese,

[00:16:38] caso você não conheça ou não se lembre,

[00:16:40] é aquela que Marx fala o seguinte

[00:16:42] Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras.

[00:16:47] Trata-se de transformá-lo.

[00:16:49] Bloch vai pegar essa segunda parte e vai falar o seguinte

[00:16:52] Trata-se de aprender a esperança.

[00:16:55] Bloch quer dizer com isso que

[00:16:57] a esperança é um afeto ativo

[00:17:00] o qual exige ação por parte do indivíduo.

[00:17:03] Ser capaz de ter esperança não significa

[00:17:06] tolerar o mundo com paciência,

[00:17:08] mas intervir no processo através da ação.

[00:17:13] Então, ter esperança significa intervir no processo,

[00:17:18] agir significa praxis.

[00:17:20] Bloch é um filósofo que soa muito religioso para os ateus

[00:17:24] e muito ateu para os religiosos.

[00:17:27] Sobre a esperança, ele se pergunta o seguinte

[00:17:29] A esperança pode ser desapontada?

[00:17:32] E ele responde

[00:17:33] A esperança é desapontável.

[00:17:36] Caso contrário, não seria esperança.

[00:17:38] Ela se torna uma esperança provada através de tais experiências,

[00:17:43] mas ela permanece esperança contra todo o niilismo ao redor,

[00:17:48] pois o processo do mundo é aberto.

[00:17:50] Ele ainda não foi conquistado em lugar algum,

[00:17:52] mas também não foi frustrado.

[00:17:54] Então, a esperança para Bloch pode ser desapontada,

[00:17:57] mas isso não é motivo para a desesperança.

[00:18:00] A humanidade nunca perdeu a esperança em um mundo melhor.

[00:18:04] Nós vamos fazer agora

[00:18:05] a nossa clássica pausa musical

[00:18:08] a fim de que você reflita e absorva o conteúdo exposto até este momento.

[00:18:12] Você vai ouvir a entrada para A Rainha de Sabá

[00:18:16] para dois oboés e cordas

[00:18:18] do compositor alemão Georg Friedrich Händel

[00:18:22] nascido em 1685 e falecido em 1759.

[00:18:35] A Rainha de Sabá

[00:18:37] A Rainha de Sabá

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[00:19:03] A CIDADE NO BRASIL

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[00:21:33] Caso você tenha interesse em conhecer melhor as músicas que tocamos aqui nos episódios do podcast,

[00:21:53] basta procurar pela playlist Clássicas Filosofia Vermelha no Spotify.

[00:21:59] Voltemos então ao nosso tema,

[00:22:01] Ernest Bloch, filósofo da espírita.

[00:22:03] Antes do episódio, nós vimos inicialmente uma breve biografia de Bloch

[00:22:08] e depois sobre o conceito de esperança.

[00:22:12] Agora nós vamos avançar e falar um pouco sobre utopia concreta,

[00:22:16] que é um dos principais conceitos de Bloch.

[00:22:20] O termo utopia possui mais de um sentido.

[00:22:23] O conceito é geralmente interpretado como algo não realizável.

[00:22:28] Quando você fala utopia, o que se associa?

[00:22:30] Ah, uma coisa que não é realizável,

[00:22:32] ou algo distante da realidade.

[00:22:34] Só que etimologicamente, utopia significa apenas não-lugar.

[00:22:41] O, em grego, é um prefixo de negação,

[00:22:43] no sentido de que o topos, e topos é lugar,

[00:22:47] o topos é um não-lugar.

[00:22:49] Então, uma utopia, de maneira etimológica, é um não-lugar.

[00:22:54] Não quer dizer algo que não pode ser realizado.

[00:22:57] É simplesmente algo que ainda não existe.

[00:23:00] E na literatura, na filosofia,

[00:23:02] as utopias encontram-se tanto no tempo,

[00:23:05] no sentido de que uma utopia vai acontecer no futuro,

[00:23:09] ou então até mesmo no passado.

[00:23:11] Um passado idealizado pode ser visto como uma utopia.

[00:23:14] E, às vezes, as utopias aparecem também no espaço.

[00:23:17] Como falando, por exemplo, de uma ilha distante,

[00:23:20] ou de um país distante.

[00:23:22] Então, atenção, nós estamos falando de utopia no sentido geral.

[00:23:25] Nós ainda não estamos falando da utopia concreta.

[00:23:28] Porque nós precisamos fazer essa comparação.

[00:23:31] O que o Bloch quer dizer?

[00:23:32] O Bloch quer dizer com utopia concreta.

[00:23:34] Nós vamos ver que não é exatamente isso.

[00:23:36] A utopia política tem uma longa história na tradição filosófica,

[00:23:40] e passa por pensadores como Platão,

[00:23:43] alguns filósofos do helenismo que hoje são praticamente desconhecidos,

[00:23:47] Thomas More,

[00:23:48] Tommaso di Campanella, o italiano,

[00:23:50] Francis Bacon e vários outros.

[00:23:52] Quase todas as vertentes socialistas tentam se desassociar desse tipo de utopismo.

[00:23:58] E, na tradição marxista, isso não é diferente.

[00:24:01] Um exemplo é a obra do socialismo utópico ao socialismo científico, do Engels.

[00:24:07] Este é um dos esforços mais claros e explícitos de tentar distanciar o marxismo das utopias anteriores.

[00:24:15] E, nessa obra, Engels compara diversas formas de socialismo

[00:24:19] e mostra porque a proposta dele e de Marx é científica

[00:24:24] e porque a proposta dele supera as correntes criticadas.

[00:24:27] Isso é, as correntes socialistas utópicas anteriores.

[00:24:31] Falar de uma utopia, no entanto, não é falar de algo irrealizável,

[00:24:36] mas apenas de algo que ainda não existe.

[00:24:39] Nesse sentido, é que o marxismo ainda guarda algo de utópico,

[00:24:44] o que não significa diminuir o rigor de sua análise da sociedade capitalista

[00:24:49] ou, então, comprometer o marxismo com os socialistas anteriores.

[00:24:53] Bloch considera que o bom núcleo das utopias anteriores deve ser preservado.

[00:24:59] Com isso,

[00:25:00] Bloch, então,

[00:25:01] distancia de todas as utopias abstratas,

[00:25:04] daquelas que não se ocupam com as condições de possibilidade de superação do mundo atual.

[00:25:11] O conceito de utopia em Bloch vai além da definição clássica

[00:25:15] e envolve pelo menos quatro outros aspectos.

[00:25:18] E isso aqui é muito importante para que a gente compreenda o que Bloch quer dizer com utopia

[00:25:23] e o que utopia significa em outras tradições.

[00:25:26] Então, para Bloch, a gente tem que considerar pelo menos o seguinte.

[00:25:29] Primeiro,

[00:25:30] as possibilidades já presentes em determinada realidade.

[00:25:34] Segundo,

[00:25:35] o desenvolvimento dessas possibilidades no pensamento a partir do que já é dado.

[00:25:41] Terceiro,

[00:25:42] a propriedade ou, então, a capacidade que os seres humanos possuem de superar a si próprios

[00:25:47] e o mundo dado, tanto no pensamento quanto na ação.

[00:25:50] E quarto,

[00:25:51] a característica presente na própria matéria de desenvolver e deixar serem desenvolvidas

[00:25:57] as possibilidades latentes em si.

[00:25:59] O próprio ser humano, para Bloch, é utópico em si.

[00:26:04] Ele afirma que ser humano significa ter utopias.

[00:26:08] Preste atenção nessa última formulação que é importante.

[00:26:10] É uma formulação antropológica.

[00:26:13] Ser humano significa ter utopias.

[00:26:17] Anteriormente, a gente já havia falado que a esperança é uma característica fundamental do ser humano.

[00:26:23] E agora nós vemos este complemento.

[00:26:25] Ser humano é ter esperança e ter esperança significa ter utopias.

[00:26:28] Ser humano é ter esperança e ter esperança significa ter utopias.

[00:26:29] Não há ninguém que não tenha uma utopia, porque ter utopia é constitutivo dos seres humanos.

[00:26:37] A principal obra de Bloch, o princípio esperança, começa discutindo os pequenos sonhos cotidianos

[00:26:44] a fim de mostrar que somos seres que sempre se projetam para o futuro

[00:26:49] e que isso se manifesta de diversas maneiras em nossas vidas.

[00:26:53] Todos nós sonhamos com um mundo melhor, com uma boa vida

[00:26:57] e neste ponto a religião captura, mesmo que de forma mística, uma característica importante dos seres humanos

[00:27:05] que é o desejo de uma vida melhor.

[00:27:08] É por isso que Bloch realiza um grande diálogo com a religião.

[00:27:12] Embora ele próprio fosse ateu, sua obra foi uma das principais fontes da teologia da libertação

[00:27:20] porque a obra de Bloch influenciou diretamente o Jürgen Moltmann, um teólogo muito conhecido,

[00:27:26] porque a obra de Bloch influenciou diretamente o Jürgen Moltmann, um teólogo muito conhecido,

[00:27:27] como o pai da teologia da libertação.

[00:27:30] Então se consideramos o Moltmann as direções,

[00:27:34] hagedown parágrafo 268, Bloch seria seu avô.

[00:27:40] Essa forma de lidar com a religião, esse diálogo amistoso, esse tratamento que quan Challenge выпуска

[00:27:50] me lembra do princípio da Filosofia do Direito, entre os qual Hegel afirma.

[00:27:54] clock boxe finals

[00:27:56] fala lá o seguinte, olha, é muito fácil para os não educados,

[00:28:00] no alemão ele fala ungebildet, as pessoas que não tem bildung,

[00:28:04] não tem educação, para os incultos, é muito fácil para esses

[00:28:07] adotar uma postura que descarte todo o assunto ligado à religião

[00:28:12] como se fosse uma coisa mística ou supersticiosa.

[00:28:15] Agora, afirma o Hegel, difícil mesmo é ser capaz de enxergar ali

[00:28:21] o bom, a necessidade interna e o que há de verdade.

[00:28:25] E eu vejo que o Bloch faz isso.

[00:28:27] Bloch não quer simplesmente descartar a religião dizendo

[00:28:30] ah, isso aí é coisa mística, isso aí é coisa supersticiosa,

[00:28:34] não, eu sou muito gebildet, eu sou uma pessoa culta, não lido com religião.

[00:28:39] Hegel fala, é muito fácil afirmar isso, o difícil é você olhar para a religião

[00:28:43] e ver o que tem de bom ali, ver a necessidade interna e ver o que há de verdade,

[00:28:48] porque há algo de verdade na religião.

[00:28:51] Então, o conceito de utopia concreta para Bloch

[00:28:54] designa a possível mediação de desejos e pensamentos utópicos com as tendências reais.

[00:29:02] Isso significa observar os desenvolvimentos sociais, econômicos e culturais

[00:29:07] e ouvir as tendências e latências do que se anuncia como possível.

[00:29:13] O marxismo é, desde o início da obra de Bloch, o que ele entende por utopia concreta.

[00:29:19] A tradição iniciada por Marx é a primeira porta,

[00:29:23] um estágio em direção a uma situação em que exploração e dependência serão, de fato, eliminadas.

[00:29:30] Vamos avançar agora para o próximo tema, que é ateísmo.

[00:29:36] O que quer dizer ateísmo em Bloch?

[00:29:38] Porque dissemos que Bloch é um filósofo ateu,

[00:29:41] mas ele é um ateu que faz um diálogo muito interessante com a religião.

[00:29:45] O que Bloch entende, então, por ateísmo?

[00:29:47] Inicialmente, é importante a gente salientar que não existe uma única forma ou tipo de ateísmo.

[00:29:53] A descrença em Deus pode se manifestar de diferentes maneiras,

[00:29:57] e em Ernst Bloch não é diferente.

[00:29:59] O seu ponto de partida é a negação da existência de um Deus pessoal transcendente

[00:30:04] e um Deus que oriente os rumos da história mundial.

[00:30:08] Só que isso é só o ponto de partida.

[00:30:10] A concepção de ateísmo em Bloch vai bem além disso.

[00:30:13] O ateísmo de Bloch é inseparável de uma humanização das esferas e poderes transcendentes,

[00:30:20] os quais foram frequentemente utilizados,

[00:30:22] por toda a história, de maneira ideológica pelas classes dominantes,

[00:30:26] como instrumentos de opressão.

[00:30:28] Bloch se reapropria daquilo que é divino no próprio ser humano.

[00:30:33] Essa tarefa já havia sido levada a cabo por Ludwig Feuerbach.

[00:30:37] Só que o filósofo da esperança vai além de seu antecessor

[00:30:41] e busca trazer à luz o potencial transgressor e social revolucionário da religião.

[00:30:49] Vejam só, o projeto de Bloch é bem interessante.

[00:30:51] Não é?

[00:30:52] O Bloch vai tentar trazer à luz o potencial transgressor e social revolucionário da religião.

[00:30:59] E isso tornaria possível moldar o processo histórico

[00:31:03] na direção de um reino da liberdade e da humanidade,

[00:31:07] tornando-o produtivo no sentido de uma utopia concreta.

[00:31:11] A própria religião traz elementos ateístas em si.

[00:31:15] Isso fica claro no próprio título de uma das obras de Bloch,

[00:31:19] que é Ateísmos in Christentum,

[00:31:21] que traduzido seria algo como Ateísmo no Cristianismo.

[00:31:25] Vejam só que interessante, né?

[00:31:27] Ateísmo no Cristianismo.

[00:31:30] Isso é, há elementos ateus dentro das próprias religiões.

[00:31:34] Bloch tenta, então, ressaltar tais aspectos

[00:31:37] analisando impulsos de libertação inerentes à religião.

[00:31:41] E o objetivo de sua filosofia da religião

[00:31:44] é expor elementos utópicos para transcender este mundo deficitário,

[00:31:50] mas transcender sem transcendência.

[00:31:53] Isso também é muito importante na filosofia de Bloch.

[00:31:56] É transcender sem transcendência.

[00:31:59] Então, vamos ver na prática como é que Bloch faz algumas leituras,

[00:32:03] principalmente do cristianismo.

[00:32:05] No Antigo Testamento, por exemplo, o que mais interessa a Bloch

[00:32:08] é a história do Êxodo.

[00:32:10] A saída dos israelitas de uma situação de pobreza e servidão

[00:32:14] e sua peregrinação por uma terra prometida

[00:32:17] é vista por Bloch como uma canção de triunfo,

[00:32:20] de uma classe oprimida e rebelde.

[00:32:22] Por muitos anos, no deserto, aquela comunidade não tinha ricos e pobres

[00:32:26] e tornou-se, posteriormente, parte do inconsciente coletivo dos israelitas

[00:32:32] e, principalmente, de alguns de seus profetas,

[00:32:35] tais como Amós e Isaías.

[00:32:37] No contexto do Antigo Testamento,

[00:32:39] profecia não significa exatamente prever o futuro

[00:32:42] ou predizer o que acontecerá.

[00:32:45] Não.

[00:32:45] Profecia, no Antigo Testamento,

[00:32:47] quer dizer, principalmente,

[00:32:50] iniciar a lei e exigir o seu cumprimento.

[00:32:53] É nesse sentido que os profetas são vistos por Bloch

[00:32:56] como pregadores subversivos social-apocalípticos,

[00:33:00] porque eles se colocam ao lado dos pobres e contra todos os palácios.

[00:33:05] Já no Novo Testamento,

[00:33:07] interessa a Bloch principalmente o messianismo judaico

[00:33:11] e as representações escatológicas de um novo reino no final dos tempos.

[00:33:16] O próprio contexto do Novo Testamento já seria,

[00:33:20] em um tópico social,

[00:33:21] porque tem como pano de fundo

[00:33:23] as tensões entre os judeus oprimidos e os romanos.

[00:33:26] Jesus aparece, então, como um rei,

[00:33:28] como um nacionalista revolucionário.

[00:33:31] E isso foi atestado pela própria inscrição pregada na cruz.

[00:33:36] Qual que era a inscrição na cruz?

[00:33:38] Jesus, rei dos judeus.

[00:33:40] Já aqui, a uma perspectiva teológica,

[00:33:42] o dogma da trindade também recupera para o ser humano

[00:33:46] aquilo que foi alienado na divindade.

[00:33:48] A leitura de Bloch é que, em um tópico social,

[00:33:49] a leitura de Bloch é que o Filho de Deus entra no lugar do Pai

[00:33:53] e aquele que olha para Jesus está vendo o próprio Deus,

[00:33:57] o qual é um ser humano.

[00:33:59] Então, na trindade, um homem entra no lugar da transcendência,

[00:34:03] o que, para o judaísmo do tempo de Jesus, era uma blasfêmia.

[00:34:07] E é por isso que Bloch faz uma afirmação muito interessante

[00:34:09] na obra Ateísmos in Christentum, ou Ateísmo no Cristianismo.

[00:34:14] Ele fala o seguinte, abre aspas,

[00:34:16] O melhor da religião é que ela produz hereges.

[00:34:20] Fecha aspas.

[00:34:21] Que afirmação interessante, né?

[00:34:22] O melhor da religião é que ela produz hereges.

[00:34:26] E é também, neste sentido, que Bloch faz aquela clássica afirmação

[00:34:30] que nós mencionamos no início deste episódio.

[00:34:33] Abre aspas.

[00:34:34] Apenas um ateu pode ser um bom cristão.

[00:34:37] Mas isso também é certo.

[00:34:39] Apenas um cristão pode ser um bom ateu.

[00:34:42] Fecha aspas.

[00:34:43] Então, vejam só que interessante, né?

[00:34:44] Mais uma vez.

[00:34:46] Ateu pode ser um bom cristão.

[00:34:48] Apenas um cristão pode ser um bom ateu.

[00:34:50] E Bloch afirma, olha,

[00:34:52] De outra maneira, como poderia o filho do homem ter se declarado igual a Deus?

[00:34:57] Então, a negação de Deus na transcendência

[00:35:00] e sua presença em um ser humano foi o que Jesus fez.

[00:35:04] O que pode ser considerado, de certa maneira,

[00:35:06] como uma negação de Deus ou ateísmo.

[00:35:09] E Bloch ainda afirma o seguinte, olha,

[00:35:11] Não é por acaso que os primeiros mártires,

[00:35:13] eles eram chamados no pátio de Nero,

[00:35:16] de ateus ou ateoi.

[00:35:18] Interessante, né?

[00:35:19] Os primeiros mártires cristãos eram chamados de ateus.

[00:35:24] E por quê?

[00:35:24] Olha, quando o filho do homem se manifesta e diz,

[00:35:27] bom, aquele Deus da transcendência sou eu,

[00:35:31] isso é uma negação da transcendência,

[00:35:33] é uma forma de ateísmo.

[00:35:34] Então, o que seria o ateísmo?

[00:35:37] Seria o abandono de um Deus por parte do homem,

[00:35:40] como Feuerbach pensava,

[00:35:41] de modo que o homem e Deus se tornem apenas um,

[00:35:44] se assim for.

[00:35:45] Então, o ateísmo,

[00:35:46] seria a mais alta mística divina,

[00:35:50] afirma o Jürgen Moltmann.

[00:35:51] Se o ateu destrói todas as imagens,

[00:35:54] tradições e sentimentos religiosos em si,

[00:35:58] os quais o unem de maneira ilusória com Deus,

[00:36:01] então, o seu ateísmo pode ser considerado,

[00:36:03] de certa maneira, como teologia negativa.

[00:36:06] É uma forma bem dialética de enxergar

[00:36:09] a relação entre religião ou crença em Deus e ateísmo.

[00:36:14] Bloch traça, então,

[00:36:15] paralelos e identifica o que há de comum

[00:36:18] entre religião, arte, ciência e literatura.

[00:36:22] Você já parou para pensar sobre isso?

[00:36:23] O que haveria em comum entre religião,

[00:36:27] arte, ciência e literatura?

[00:36:29] Bom, segundo Bloch,

[00:36:30] todas podem ser vistas como

[00:36:32] formas de articulação cultural

[00:36:35] com as quais os seres humanos buscam

[00:36:37] superar seu presente em direção a uma nova terra,

[00:36:41] a fim de alcançar ali aquela desejada pátria,

[00:36:45] adequada à sua essência.

[00:36:47] Pense bem, quando nós vamos para o campo da arte,

[00:36:50] da literatura,

[00:36:51] quando a gente assiste um filme, por exemplo,

[00:36:53] por um momento a gente está participando

[00:36:55] de um outro mundo, um outro universo,

[00:36:58] uma realidade que não é a nossa.

[00:37:00] Nós conhecemos os personagens

[00:37:02] que não são pessoas reais,

[00:37:04] mas que existem apenas ali naquele mundo

[00:37:06] que é o mundo da imaginação

[00:37:08] e nós somos transportados completamente

[00:37:10] para esse outro mundo.

[00:37:11] Então, a arte faz isso,

[00:37:13] a literatura faz isso.

[00:37:15] Você lendo,

[00:37:15] um livro,

[00:37:16] você vendo um filme,

[00:37:17] você está em um outro mundo possível

[00:37:20] e a religião também faz isso.

[00:37:22] Então, para fechar esse ponto,

[00:37:24] ateísmo e humanidade verdadeira

[00:37:26] são dois aspectos de uma mesma realidade.

[00:37:30] Compreendido de maneira ateísta,

[00:37:32] o cristianismo envolve uma utopia do reino,

[00:37:35] não obstante o cristianismo deslocar isso

[00:37:38] para um além-mundo,

[00:37:39] para uma outra realidade,

[00:37:41] para um pós-morte.

[00:37:43] Mas ele faz isso,

[00:37:44] ele envolve,

[00:37:45] uma utopia do reino.

[00:37:46] E o teólogo Jürgen Moltmann afirma

[00:37:49] que a filosofia de Bloch

[00:37:50] identifica uma origem comum

[00:37:52] para a religião e para a revolução

[00:37:55] e traça então seus objetivos futuros paralelos.

[00:38:00] O que nós vimos então neste episódio

[00:38:01] foi basicamente isso.

[00:38:02] Nós iniciamos apresentando

[00:38:04] uma breve biografia de Bloch,

[00:38:06] depois nós falamos sobre esperança,

[00:38:09] depois sobre utopia concreta

[00:38:10] e depois sobre ateísmo.

[00:38:13] Lembrando mais uma vez,

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[00:38:57] Um grande abraço e até o próximo!