Jesus e Exu: diálogos possíveis


Resumo

O episódio do Mamilos aborda o tema da liberdade religiosa no Brasil, marcado pelo aumento de 106% nas denúncias de intolerância religiosa entre 2021 e 2022. Para discutir como construir pontes de diálogo, o programa recebe Cláudia Alexandre, Ebomí de Oxum e doutora em ciência da religião, e Leandro Rodrigues, pastor evangélico e teólogo da teologia inclusiva.

Os participantes compartilham suas trajetórias espirituais pessoais. Cláudia descreve um lar onde a fé nos orixás e a celebração da vida eram inseparáveis, uma herança familiar que a fortaleceu contra uma sociedade desigual. Já Leandro relata seu amor desde a infância por Cristo e a igreja, mas também o conflito profundo causado pela condenação de sua sexualidade dentro da tradição evangélica, conflito que encontrou solução ao descobrir a teologia inclusiva e uma releitura histórica e cultural dos textos bíblicos.

A conversa avança para uma análise estrutural da intolerância. Cláudia explica como a demonização das práticas religiosas africanas e indígenas foi uma estratégia fundante da colonização, usada para justificar a escravização ao negar alma a esses povos. Leandro e as apresentadoras observam que, historicamente, a religião majoritária tende a se tornar perseguidora, um fenômeno visto hoje com o crescimento evangélico no Brasil.

São explorados os fundamentos das diferentes tradições. Cláudia detalha os princípios das religiões de matriz africana: a inseparabilidade entre homem, natureza e divindade; a celebração da vida através da festa e da oferenda; e a ressignificação da família e da comunidade no terreiro como resistência ao trauma da escravidão. Leandro, por sua vez, explica os pilares da teologia inclusiva, que faz uma hermenêutica contextual dos textos bíblicos, mostrando como passagens usadas para condenar foram historicamente manipuladas e que o mandamento central é amar o próximo.

O debate conclui refletindo sobre os fundamentos para uma convivência pacífica. As participantes ateias, Juliana e Cris, argumentam pela primazia da Constituição como pacto civil comum acima de livros sagrados particulares. Todos concordam que a tolerância – que não é conivência com a injustiça, mas respeito a outras verdades – e o combate ao medo são essenciais. A importância das políticas públicas e das leis, como a que tipifica o racismo religioso, é destacada como ferramenta de proteção. O episódio encerra com um convite à humanidade, à curiosidade respeitosa e à construção de um mundo onde a liberdade de crer ou não crer seja garantida para todos.


Indicações

Grupos

  • Grupo inter-religioso liderado pelo Sheik Rodrigues — Iniciativa mencionada pelo pastor Leandro que reúne diferentes líderes religiosos, não para unir crenças, mas para se unir pela paz, liberdade e amor, atraindo muitos pastores.

Pessoas

  • Padre Júlio Lancelotti — Mencionado pelo pastor Leandro Rodrigues como alguém por quem tem grande amor e respeito, exemplificando a possibilidade de caminhada conjunta entre diferentes lideranças religiosas.
  • Sheik Rodrigo — Amigo muçulmano do pastor Leandro Rodrigues, citado como exemplo de amizade e respeito que transcende diferenças religiosas.

Linha do Tempo

  • 00:03:54Introdução dos convidados e o desafio da liberdade religiosa — As apresentadoras introduzem Cláudia Alexandre, Ebomí de Oxum e pesquisadora, e Leandro Rodrigues, pastor e teólogo da teologia inclusiva. O contexto é o aumento alarmante de 106% nas denúncias de intolerância religiosa no Brasil em um ano. A proposta é entender, a partir de fé diferentes, como trabalhar a favor da liberdade religiosa e do diálogo.
  • 00:04:52Trajetória espiritual de Cláudia: fé, ancestralidade e celebração — Cláudia descreve seu lar de origem como um espaço onde se cultuavam orixás e se celebrava a vida com samba e festa. Ela explica que nas religiões de matriz africana não há separação entre o sagrado e a vida cotidiana; homem, natureza e deuses convivem. A fé nos orixás, que são elementos da natureza, e o respeito aos ancestrais foram um alicerce para enfrentar uma sociedade desigual.
  • 00:08:01Trajetória do pastor Leandro: amor por Cristo e conflito com a sexualidade — Leandro conta que sempre foi apaixonado por Cristo e pela igreja desde criança, mas entrou em profundo conflito ao ouvir nos púlpitos que sua homossexualidade era pecado e o levaria ao inferno. Ele via um Jesus que andava com pecadores e lutava por justiça, mas sentia-se rejeitado por Ele. A descoberta da teologia inclusiva e o estudo histórico dos textos bíblicos foram uma luz, mostrando que a Bíblia não condena a homossexualidade.
  • 00:19:52Análise histórica: a demonização como estratégia de colonização — Cláudia explica as raízes históricas da intolerância. Os primeiros missionários e colonizadores demonizaram os corpos, cultos e práticas dos povos africanos e indígenas, classificando-os como ‘sem alma’ e ‘demoníacos’. Essa narrativa foi essencial para justificar moralmente a escravização, pois se esses corpos não tinham o Deus cristão, podiam ser dominados. Essa construção alimentou o medo e o preconceito que perduram.
  • 00:24:41Fundamentos das religiões de matriz africana: festa, comunidade e natureza — Cláudia detalha os princípios das religiões afro-brasileiras. A festa é fundamental para celebrar a vida e a morte. Não há separação entre dimensões; os orixás representam elementos da natureza e essa energia vive dentro das pessoas. Não há um livro sagrado único; o conhecimento é transmitido oralmente através de cânticos e mitos. O terreiro ressignifica a família, reconstruindo laços destruídos pela escravidão.
  • 00:28:56Explicação da teologia inclusiva e releitura bíblica — Leandro explica os fundamentos da teologia inclusiva. Ele argumenta que qualquer texto bíblico precisa ser estudado em seu contexto histórico, cultural e de autoria. Usa o exemplo de Levítico, mostrando que se isolam versículos sobre homossexualidade, mas ignoram outras regras do mesmo capítulo. A Bíblia foi usada para condenar negros e mulheres, e agora é preciso uma releitura que mostre que Deus não condena a homossexualidade, uma característica com a qual as pessoas nascem.
  • 00:35:01O papel da Constituição e os limites da convivência — Juliana, a partir de uma perspectiva ateia, propõe que a base para a convivência deve ser a Constituição, um pacto civil comum a todos, acima de livros sagrados particulares. Ela questiona como desarmar a tendência de medir os outros pela régua da própria religião. O debate converge para a ideia de que a liberdade religiosa de um termina onde começa a do outro, e que a tolerância é entender e respeitar que existem outras verdades.
  • 00:45:19Importância das políticas públicas e leis contra o racismo religioso — Cláudia fala sobre o medo físico e espiritual de ser uma sacerdotisa, com relatos de invasões e agressões a terreiros. Ela celebra a importância das políticas públicas e das leis, como a que tipifica o racismo religioso, para proteger vidas e garantir que agressores sejam punidos como cidadãos que violaram a lei, e não apenas sob um viés religioso. A lei traz uma sensação de segurança e é uma ferramenta crucial de proteção.
  • 00:48:53Conclusão: convite à humanidade, liberdade e desconstrução do medo — O episódio se encerra com reflexões sobre a necessidade de um duplo caminho: espiritual (questionar que mundo sua fé constrói) e institucional (respeitar a Constituição). O convite é para a curiosidade respeitosa, para falar da fé ‘para os seus’, sem proselitismo agressivo. A liberdade é definida como ‘não ter medo’. Os participantes trocam bênçãos e desejos de axé, destacando a beleza do momento de diálogo e a luta comum contra todo preconceito.

Dados do Episódio

  • Podcast: Mamilos
  • Autor: B9
  • Categoria: News
  • Publicado: 2023-09-01T16:58:16Z
  • Duração: 00:57:04

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Oferecimento Meu Peso Minha Jornada.

[00:00:03] Acesse a campanha e entenda a relação entre o peso e a saúde.

[00:00:11] Este podcast é apresentado por

[00:00:30] Mamileiros e mamiletes, eu sou a Juvalauer.

[00:00:41] Eu sou a Cris Bartz e esse é o Mamilos, o podcast que está mais preocupado em construir pontes do que provar pontos.

[00:00:48] E essa semana, a ponte é cheia de fé.

[00:00:55] Já reparou que o logo do Mercado Livre é um aperto de mãos?

[00:00:59] O símbolo que representa um acordo ganha ainda mais força com a nova campanha deles.

[00:01:04] Conta aí, Cris.

[00:01:05] Sim, depois de anos de tensão social provocado por questões políticas e pela epidemia de Covid,

[00:01:14] além de episódios de violência no esporte e intolerância religiosa,

[00:01:18] está mais que na hora de a gente trabalhar a convivência.

[00:01:21] E a melhor ferramenta para isso é o diálogo.

[00:01:24] Esse é o cerne da nova campanha do Mercado Livre,

[00:01:27] intitulada

[00:01:28] Essa iniciativa convida toda a nossa sociedade a refletir sobre a importância de conviver com diferentes pontos de vista.

[00:01:36] O Mercado Livre acredita que trabalhar em prol da coexistência pacífica de diferentes opiniões

[00:01:41] aumenta a diversidade e pode nos ajudar a encontrar soluções ainda não exploradas para problemas que a gente vive.

[00:01:48] Está fora desse campo de diálogo discursos que apontam para possíveis e prováveis agressões a pessoas ou outros seres,

[00:01:56] condutas criminosas devem responder às leis e não podem ser toleradas.

[00:02:02] Para todas as demais ideias, o convite é pensar e conversar, inclusive discordando.

[00:02:08] O Mamilos e o Mercado Livre acreditam que política, religião, futebol e vários outros temas se discutem sim.

[00:02:16] E as ferramentas para isso são a tolerância e o respeito.

[00:02:19] Podemos não concordar em nada, mas se a gente concordar em se respeitar, está aberta a porta da conversa.

[00:02:26] Mercado Livre, o melhor está chegando.

[00:02:34] Estacionar carros de som com música evangélica em frente a terreiros.

[00:02:39] Posicionar trabalhos em frente a igrejas.

[00:02:42] Julgar evangélicos como pessoas ignorantes e enxergar pessoas de religião de matriz africana como ligadas ao mal.

[00:02:49] Acreditar que católico não leva a religião a sério.

[00:02:52] Casas espíritas invadidas e depredadas.

[00:02:55] Apedrejar pessoas que estão indo para o Brasil.

[00:02:56] O número de denúncias de intolerância religiosa no Brasil aumentou 106% em apenas um ano.

[00:03:05] Passou de 583 em 2021 para 1,2 mil em 2022.

[00:03:10] Uma média de 3 por dia.

[00:03:12] 6 em cada 10 vítimas são mulheres.

[00:03:14] Só nos primeiros 20 dias de 2023, o Disque 100, canal de denúncia de violação de direitos humanos, registrou 58 ocorrências.

[00:03:23] A liberdade religiosa é assegurada na Constituição.

[00:03:26] O artigo 208 do Código Penal diz

[00:03:29] Mas os números apontam para a necessidade também de uma mudança cultural.

[00:03:50] E para isso é necessário muito diálogo.

[00:03:54] Hoje, o Mamilos vai receber duas pessoas.

[00:03:56] Que têm fés diferentes para entender como a gente pode trabalhar a favor da liberdade religiosa.

[00:04:03] Nessa missão, vamos receber Cláudia Alexandre, que é mestre e doutora em ciência da religião.

[00:04:08] Ela é também Ebomí de Oxum e pesquisadora do carnaval e das religiosidades de matriz africana.

[00:04:15] Junto com ela, a gente recebe Leandro Rodrigues, pastor, teólogo, presidente da Igreja Bittar,

[00:04:21] líder do Colegiado de Pastores e do Conselho Eclesiástico de Liberdade Religiosa.

[00:04:26] A gente recebe Leandro Rodrigues, pastor, teólogo, presidente da Igreja Bittar.

[00:04:28] Ele é mestre em ciência da liberdade religiosa.

[00:04:30] Ele é mestre em ciência da liberdade religiosa.

[00:04:32] Já que a gente quer caminhar junto, primeiro a gente precisa saber de onde vocês vêm.

[00:04:36] Então, fala um pouco pra gente desse despertar espiritual.

[00:04:39] Vocês sempre tiveram interesse, sempre foram muito próximos de espiritualidade?

[00:04:44] Ou quando foi que isso começou a ganhar mais importância pra vocês?

[00:04:48] De onde vocês vêm?

[00:04:51] Por favor.

[00:04:52] Eu brinco que a minha casa é tipo a música do Martinho da Vila.

[00:04:55] A minha casa é tipo a música do Martinho da Vila.

[00:04:56] Bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba, bebia menos.

[00:04:58] Parece uma boa casa.

[00:05:01] Tinha uma cumba, tinha um fragmento dessa família extensa negra

[00:05:09] que a gente tem trazido nos nossos debates sobre a questão da perspectiva.

[00:05:15] Então, a minha casa era uma casa em que se sambava e que se cultuava orixás.

[00:05:19] Então, ela me forneceu muito samba e muita fé no sagrado aos ancestrais.

[00:05:25] Então, eu não consigo dizer, ah, eu fui despertada.

[00:05:29] Na verdade, eu fui despertada pra vida e recebida num lar onde os orixás, os ancestrais, os mais velhos,

[00:05:38] a relação com a natureza, com a vida, ela era muito celebrada.

[00:05:44] Então, a gente diz que na casa onde é oculto a orixá, a gente reza cantando e sambando

[00:05:50] e a gente samba e canta as nossas rezas.

[00:05:55] Então, é muita festa, é muita celebração da vida e do culto aos orixás.

[00:06:01] O que há de muito controverso nessa realidade de uma família que, da minha época,

[00:06:11] eu tô falando da década de 60, ela tem oculto a sua ancestralidade

[00:06:17] enquanto uma família negra, uma família que tava bem estruturada

[00:06:21] em relação ao que os índices sociais falam.

[00:06:25] Então, da população negra no Brasil, meu pai era um militar.

[00:06:30] Quando ele faleceu, em 2002, ele era um alta patente.

[00:06:34] Então, era uma casa que tinha uma estrutura.

[00:06:37] E aí começa a nossa questão com a negritude, com a religiosidade.

[00:06:43] Mas um lar como o meu, que era centrado nesse culto aos orixás, à ancestralidade,

[00:06:50] era um lar que nos fortaleceu pra enfrentar a sociedade desigual.

[00:06:55] Então, quando me falam, olha, me define a sua presença nessa religião de matriz africana.

[00:07:03] Eu digo, é a minha vivência.

[00:07:05] É até muito difícil eu separar, porque é assim que as tradições de matriz africanas olham a vida.

[00:07:11] Nada se separa.

[00:07:13] Homem, natureza e deuses, eles convivem 24 horas.

[00:07:19] Então, o respeito à natureza, ele tá posto, porque cada elemento da natureza é um deus.

[00:07:25] E cada um desses deuses, eles estão dentro de você.

[00:07:30] Então, o respeito à água, à pessoa, o respeito aos metais, às pedras, à chuva.

[00:07:36] Quando chove, a gente celebra, porque tem ali um deus que tá provendo essa chuva, né?

[00:07:43] Quando há colheita, se faz oferenda, se celebra esse deus que dá a colheita, que dá alimento, que dá a comida.

[00:07:51] Então, essa é a minha vivência com a religião.

[00:07:54] Então, vamos lá.

[00:07:54] Ah, pastor, você vem de uma família evangélica, vem de um amor por Cristo,

[00:08:01] mas de talvez não se sentir muito bem-vindo na mesa da Santa Ceia, né?

[00:08:05] Muito pé pra lavar e pouca participação na Santa Ceia.

[00:08:10] Conta pra gente um pouquinho de como é essa religião de casa, como que era essa prática cristã

[00:08:18] e o que que te fez querer continuar, querer pertencer.

[00:08:22] Desde pequeno, eu renunciava.

[00:08:25] Não era porque a religião colocava ou porque meus pais colocavam,

[00:08:29] mas eu sempre renunciei jogar futebol pra poder estar na igreja.

[00:08:33] Quantas vezes minha mãe dizia, não, hoje você não precisa ir pra poder ficar.

[00:08:38] Só que eu tinha aquele desejo e isso desde sempre.

[00:08:42] Eu sempre fui muito apaixonado.

[00:08:44] Eu olhava tudo que acontecia dentro do culto, eu ficava deslumbrado, apaixonado.

[00:08:49] Eu queria viver aquilo, eu queria estar.

[00:08:52] Eu lembro que eu tinha os meus brinquedos, eu brincava de igreja.

[00:08:55] Eu lembro que quando tava chovendo, minha mãe, não, hoje vocês vão ficar.

[00:08:59] Eu falava pros meus irmãos, não, eu vou brincar de igrejinha e eu sou o pastor.

[00:09:03] Então eu sempre fui muito apaixonado por isso.

[00:09:06] Eu sou a terceira geração de evangélicos.

[00:09:09] Meus tios são todos pastores.

[00:09:11] Mas conforme eu fui crescendo, a minha sexualidade foi batendo muito forte

[00:09:17] e eu sempre ouvi nos púlpitos da igreja.

[00:09:21] É…

[00:09:21] Que…

[00:09:22] É…

[00:09:22] É…

[00:09:22] É…

[00:09:22] É…

[00:09:22] É…

[00:09:22] É…

[00:09:22] A minha sexualidade era pecado, de que eu iria pro inferno.

[00:09:26] Não tinha salvação.

[00:09:27] E eu comecei a entrar em conflito, porque eu amava Cristo.

[00:09:30] Eu via aquele Jesus que andava com pecadores.

[00:09:34] Aquele Jesus que lutava por justiça social.

[00:09:37] Aquele Jesus que lutava…

[00:09:39] Sempre tava do lado dos oprimidos.

[00:09:41] É…

[00:09:42] Aquele Jesus que…

[00:09:43] Que…

[00:09:44] A única vez que ele ficou bravo, não foi com pessoas de outras religiões,

[00:09:48] mas foi com a própria religião.

[00:09:50] Isso.

[00:09:51] E…

[00:09:51] E agora…

[00:09:52] E agora eu via um Jesus que não me aceitava.

[00:09:57] Que ele sabia…

[00:09:58] Porque dentro da minha tradição, Jesus conhece o nosso coração.

[00:10:02] É…

[00:10:03] Ele sabia o quanto eu o amava.

[00:10:05] E só que ele não me aceitava.

[00:10:08] Ele me rejeitava.

[00:10:09] Ou seja, ele me abominava.

[00:10:11] Ele tinha vontade de me vomitar por causa da minha sexualidade.

[00:10:16] E…

[00:10:16] Isso foi um grande conflito pra minha vida.

[00:10:19] É…

[00:10:19] E aí meus…

[00:10:20] Meus tios…

[00:10:21] Meus tios…

[00:10:22] Condenava…

[00:10:24] Eu era…

[00:10:25] Martelado com…

[00:10:27] Com essas falas preconceituosas.

[00:10:31] É…

[00:10:31] Via muitos homoafetivos dentro da igreja…

[00:10:34] É…

[00:10:35] Tendo que sair da igreja por não aguentar.

[00:10:37] Muitos…

[00:10:38] Eu até tentei conhecer outras religiões, mas eu não me enquadrava.

[00:10:43] Porque eu tinha uma ligação muito forte.

[00:10:45] E aí, quando eu conheci a teologia inclusiva,

[00:10:49] que eu vi uma luz no final…

[00:10:51] No fim do túnel.

[00:10:52] Quando eu vi que…

[00:10:53] Poxa, mas esse texto não quer dizer isso mesmo.

[00:10:57] Historicamente.

[00:10:58] Culturalmente.

[00:10:59] É…

[00:11:00] A Bíblia nunca quis dizer isso.

[00:11:02] E eu comecei a ver, a estudar.

[00:11:05] Eu comecei…

[00:11:06] Nossa…

[00:11:07] Ficar muito feliz.

[00:11:08] E…

[00:11:08] Eu nunca esqueço…

[00:11:10] Que eu tinha uma revista evangélica que chamava…

[00:11:12] Se eu não me engano, Cristianismo Hoje.

[00:11:15] Que publicou a foto de um pastor e disse…

[00:11:17] Pastor gay?

[00:11:18] Interrogação.

[00:11:19] E quando eu vi isso, eu fiquei…

[00:11:21] Pasmo.

[00:11:21] Pastor gay?

[00:11:22] E aí, foi aí que eu fui atrás.

[00:11:24] Comecei a procurar.

[00:11:25] E eu vi que nos Estados Unidos, as igrejas inclusivas…

[00:11:29] Ou igrejas tradicionais, que já estava aberta a comunidade LGBTQIA+.

[00:11:32] Mas era normal nos Estados Unidos.

[00:11:35] Isso aí começou lá na década de 60.

[00:11:38] E eu comecei a estudar.

[00:11:39] E aí, eu vi.

[00:11:41] Poxa.

[00:11:41] Aí, eu olhei pra Cris e falei…

[00:11:43] Eu sabia que você me amava.

[00:11:46] Juliana, você quer falar um pouquinho do seu caminho religioso?

[00:11:48] Olha, o meu caminho…

[00:11:50] A minha…

[00:11:51] Os dois lados da minha família são evangélicos.

[00:11:53] Igreja Adventista do Sétimo Dia.

[00:11:56] A minha mãe, quando se separou do meu pai, a gente era pequenininho.

[00:11:59] Ela saiu da igreja.

[00:12:01] Então, eu não fui criada dentro de lar Adventista.

[00:12:04] Embora, se vai na casa da avó, vai na casa dos tios.

[00:12:07] A gente ia na igreja, mas assim…

[00:12:08] Não tinha essa educação religiosa.

[00:12:11] Com 15 anos, eu fui morar na casa do meu pai.

[00:12:13] E ali, eu precisei de religião.

[00:12:17] Esse momento de transição fez muita diferença pra mim.

[00:12:21] Então, eu lembro direitinho do dia que eu me ajoelhei e falei…

[00:12:24] Bom, se não tem nada, o que eu tenho a perder?

[00:12:27] Cinco minutos?

[00:12:29] E se tiver alguma coisa, eu posso ser transformada por isso.

[00:12:32] Então, foi uma experiência religiosa forte.

[00:12:35] Eu tive uma conversão naquele momento.

[00:12:37] E dessa minha conversão, minha mãe se converteu, meu pai se converteu, meus irmãos se converteram.

[00:12:43] Eu fui líder jovem.

[00:12:47] Organizei acampamento de igreja.

[00:12:49] Fui diretora de coral.

[00:12:51] Estudava um monte.

[00:12:52] Igreja Adventista estuda muito.

[00:12:53] Então, tem lição.

[00:12:55] Então, fazia lição.

[00:12:56] Era professora de escola sabatina.

[00:12:58] Fui muito engajada nisso.

[00:13:00] Dos 15 aos 25.

[00:13:02] Então, 10 anos.

[00:13:04] E aí, eu comecei a minha trajetória de desconstrução.

[00:13:09] De novo.

[00:13:11] E eu acho que muito por conta dessa…

[00:13:15] Eu acho que você consegue me entender.

[00:13:16] É de entender regras perversas.

[00:13:20] Que te levam…

[00:13:21] Há uma incoerência com você mesmo.

[00:13:23] Então, é uma grande trajetória pra construir o meu ateísmo.

[00:13:27] Pra me desvencilhar disso.

[00:13:30] E eu acho que eu já tô num outro caminho agora.

[00:13:33] De olhar…

[00:13:35] Já tem mamilo sobre isso e tal.

[00:13:37] Foi muito importante pra mim ter tido a oportunidade de ir no Sírio, de Nazaré.

[00:13:43] Então, ver a religiosidade diferente.

[00:13:45] Acho que é um pouco do seu caminho.

[00:13:47] Fora das instituições.

[00:13:48] Que é o que Jesus veio falar.

[00:13:50] Não aos fariseus.

[00:13:51] A ligação com Deus.

[00:13:52] Isso.

[00:13:53] Esquece a religião.

[00:13:54] Porque a religião tá misturada com pessoas.

[00:13:56] Aí vai ficar difícil.

[00:13:57] Bom, eu vou rapidamente falar da minha trajetória, né?

[00:14:01] Eu nasci e fui criada em família testemunha de Jeová.

[00:14:06] Por parte de pai e por parte de mãe.

[00:14:08] É uma religião relativamente pequena, né?

[00:14:10] É uma religião pequena no Brasil.

[00:14:13] Sempre conhecida pelas suas regras.

[00:14:15] Que são muito severas.

[00:14:20] E…

[00:14:20] Nasci…

[00:14:21] Meio virada pra lua.

[00:14:24] Sempre foi muito difícil pra mim seguir as regras.

[00:14:27] Desde o início.

[00:14:29] Sempre muito questionadora.

[00:14:32] Levava muito problema pra família.

[00:14:35] Mas eu era boa naquilo.

[00:14:37] Mas não era aquilo que eu queria.

[00:14:39] Então, eu fui arrumando dor de cabeça pra não ir.

[00:14:43] Dor na perna pra não ir pregar.

[00:14:46] Sabe?

[00:14:46] Ah, não tô bem.

[00:14:47] E com 15 anos eu tive uma conversa.

[00:14:51] Com a minha mãe.

[00:14:51] Falei, olha…

[00:14:53] Sei que não é isso que você esperava.

[00:14:56] Sinto muito.

[00:14:58] Mas eu não consigo continuar fazendo isso pra te agradar.

[00:15:02] Eu realmente não acredito nesse monte de coisa.

[00:15:05] Eu acho que tem muito sofrimento envolvido.

[00:15:08] E pouca festa.

[00:15:09] É muita regra pra seguir.

[00:15:12] E pouca comemoração.

[00:15:13] A vida é muito pesada.

[00:15:15] Bom, caos, né?

[00:15:16] Tem gente da minha família que até hoje não fala comigo.

[00:15:19] Eu tinha 15 anos.

[00:15:21] E as pessoas, quando saem, elas são meio que expulsas mesmo.

[00:15:26] E as pessoas da família não falam.

[00:15:28] Então, eu falo que eu tive uma experiência LGBTQIA+.

[00:15:31] Desperdiçada, eu acho.

[00:15:34] E foi muito difícil.

[00:15:37] E aí, passo por todo esse processo de desconstrução.

[00:15:40] Igual a Juliana, né?

[00:15:41] Que é assim, cara, se é isso aí, não obrigada.

[00:15:45] Não é mesmo.

[00:15:46] E aí, passa esse momento de descrença.

[00:15:48] Muitas dessas regras, muito desse lugar.

[00:15:50] Mas eu sempre fui ligada ao místico.

[00:15:54] Às coisas que eu não posso explicar.

[00:15:56] Aos excessos de sentido.

[00:15:58] Então, de alguma maneira, sempre me fez falta.

[00:16:02] Porque tem uma flutuação aí de um lugar que não tá na racionalidade nem na ciência.

[00:16:07] Que eu respeito muitíssimo.

[00:16:09] E mais recentemente, né?

[00:16:12] Foi um grande presente pra gente a minissérie de festas populares.

[00:16:17] A Juliana teve esse encontro.

[00:16:20] Lá no Círio de Nazaré.

[00:16:22] E o meu encontro foi com o Congado.

[00:16:24] Que eu tive o privilégio de acompanhar a Uberlândia.

[00:16:27] Eu apanhei muito quando eu era pequena.

[00:16:29] Porque eu queria muito assistir aquele negócio esquisito ali na rua.

[00:16:33] Aquele monte de preto festejando, colorido.

[00:16:37] Que que é isso?

[00:16:38] E era, passa lá dentro, menina!

[00:16:39] Que era, passava na porta da minha casa.

[00:16:41] É, é uma tentação, vamos lá!

[00:16:43] E eu queria muito ver aquilo.

[00:16:45] E agora, quando eu estive no Congado pra visitar.

[00:16:50] É, poxa, aí você tem um lugar de reconhecimento que nem você sabe.

[00:16:56] Aí você chega e as pessoas…

[00:16:57] Não, você precisa tomar um banho.

[00:16:59] Você precisa tomar isso aqui.

[00:17:00] Você é de Itaúrichá.

[00:17:01] Você não sabe?

[00:17:03] Eu vou ter que te falar.

[00:17:04] E eu acho isso grandioso.

[00:17:06] Foi arrebatador, foi muito bonito pra mim.

[00:17:09] Foi um encontro com um lugar que anteriormente tinha muito medo.

[00:17:13] E é isso que eu queria que a gente conversasse aqui um pouco.

[00:17:16] Porque eu acho que esses encontros são interditados.

[00:17:19] Por muito.

[00:17:20] Por muito medo.

[00:17:21] Medo daqui, medo daqui, medo do que…

[00:17:24] Das regras que excluem pessoas e que provocam sofrimentos nas pessoas.

[00:17:30] Se temos quatro pessoas aqui hoje sentadas conversando sobre isso,

[00:17:33] a gente sente que é possível, mas não é fácil.

[00:17:37] Olha, a gente viu aqui que o censo do IBGE mostra que

[00:17:43] teve um aumento de 61% da população evangélica no Paris em 10 anos.

[00:17:48] É uma mudança muito…

[00:17:50] Muito significativa.

[00:17:52] Mas, ao mesmo tempo, eu olho pra esse dado e vejo um crescimento de intolerância religiosa,

[00:17:57] um crescimento de discussão sobre isso.

[00:18:01] Eu também olho pra essa mesa, onde 10 anos atrás não teria a Cláudia.

[00:18:05] Onde 10 anos atrás eu e Juliana nunca falaríamos sobre essa trajetória.

[00:18:09] Afinal, não acredita no Deus judaico-cristão.

[00:18:12] Não acredita no Deus judaico-cristão.

[00:18:14] Você é uma pessoa má.

[00:18:16] Então, a pergunta que eu queria fazer pra vocês é…

[00:18:19] Tá ruim, mas tá bom?

[00:18:20] A gente tem mais discussão sobre o assunto,

[00:18:23] porque a gente não tem mais uma grande maioria ditando.

[00:18:26] A população era majoritariamente católica.

[00:18:29] E aí, não tem muita discussão mesmo.

[00:18:31] Todo mundo acredita na mesma coisa.

[00:18:33] Como que vocês enxergam esse lugar aqui?

[00:18:36] Tem mais conversa, mas também tem mais atrito.

[00:18:40] Eu acredito que a gente tá em disputa.

[00:18:43] E são várias disputas.

[00:18:45] Começa com a disputa de território.

[00:18:47] Começa com a disputa do processo.

[00:18:50] Começa com o processo histórico.

[00:18:52] E agora a gente tá com a disputa de narrativa.

[00:18:55] Aliás, esses últimos quatro anos foi muito difícil pra nós.

[00:19:00] Mas o que tem favorecido em relação às religiões de matriz africanas

[00:19:04] são as políticas públicas e os movimentos sociais organizados.

[00:19:10] Então, quando a gente diz que há 20 anos atrás

[00:19:15] a população negra estava afastada dos bancos da academia,

[00:19:20] onde a gente tinha uma política de matriz africana,

[00:19:20] onde hegemonicamente se produz ciência,

[00:19:25] se produz o que as pessoas leem,

[00:19:27] se produz o que vai pra escola,

[00:19:30] se produz um pensamento crítico

[00:19:32] e exclui outros pensamentos, outras formas de vida,

[00:19:37] a gente tava numa grande desvantagem.

[00:19:40] Nós não podemos falar em religiões de matriz africana

[00:19:44] sem falar nas tradições,

[00:19:45] mas também a gente não pode falar do processo histórico

[00:19:48] e de uma história do Brasil.

[00:19:50] Quando você fala em medo,

[00:19:52] você tá falando de um medo que é da subjetividade,

[00:19:58] mas você não se percebe que há uma estrutura.

[00:20:02] A gente é vítima de um processo de escravismo.

[00:20:05] Não dá pra não racializar.

[00:20:07] Não dá pra…

[00:20:08] Mas traz pra gente como a religião nos ajuda a entender isso,

[00:20:14] porque esse medo, acho que o pastor lembra dentro da igreja

[00:20:19] como, não só as religiões de matriz africana,

[00:20:24] mas tudo que tem a ver com espiritismo, com espírito,

[00:20:28] tudo isso é do diabo, tudo isso é do demônio.

[00:20:31] A gente pode falar em línguas dentro da igreja, aí não é.

[00:20:35] Aí é um espírito de luz.

[00:20:38] Agora, por que o espírito que tá na outra comunidade

[00:20:42] é pra gente temer?

[00:20:43] Por que nos ensinaram a ter medo da macumba na encruzilhada?

[00:20:48] E aí que eu ia…

[00:20:49] Eu ia chegar nesse ponto,

[00:20:50] no ponto da forma em que foi contada essa história pra nós.

[00:20:55] Os povos africanos e povos originários,

[00:20:59] eles tinham que ser dominados.

[00:21:01] E a primeira estratégia de dominação

[00:21:05] foi a demonização desses corpos.

[00:21:08] E os primeiros missionários, os primeiros viajantes

[00:21:12] que vão nas comitivas de descobrimento,

[00:21:18] de colonização,

[00:21:19] eles tinham nesses grupos

[00:21:23] muitos missionários, católicos, padres, ligados à igreja.

[00:21:30] A igreja era o grande poder naquele momento.

[00:21:32] Era um dos grandes poderes naquele momento da colonização.

[00:21:36] E o primeiro olhar, a primeira narrativa desses viajantes,

[00:21:39] tanto quando chegam em África, quanto chegam no Brasil

[00:21:41] e encontram os primeiros habitantes,

[00:21:44] é de que eram corpos sem alma.

[00:21:45] E, portanto, teriam que ser…

[00:21:49] escravizados.

[00:21:50] Teriam que ser colocados dentro deles,

[00:21:53] desse corpo vazio, sem alma, sem conhecimento,

[00:21:56] sem tecnologia, sem saber o que era uma mentira,

[00:21:59] a alma.

[00:22:00] Eles precisavam primeiro ter Deus dentro deles.

[00:22:03] Por quê?

[00:22:04] Porque as práticas deles, porque as formas de relação deles

[00:22:07] um com o outro e com a vida eram demoníacas.

[00:22:12] Então, eles festejavam, eles cantavam,

[00:22:14] eles andavam nus, eles faziam matança de animais,

[00:22:19] assavam, comiam, rezavam em cima daquela forma

[00:22:22] de alimentar, de festejar as mulheres, os homens,

[00:22:27] as danças lascivas, os batuques.

[00:22:29] Isso tudo foi demonizado.

[00:22:31] Essa construção desses dominadores,

[00:22:36] ela foi para as narrativas.

[00:22:39] E foi também para justificar por que estão escravizando corpos.

[00:22:44] Se a Bíblia diz que somos todos irmãos e somos centenários,

[00:22:49] telhas de Deus, mas aqueles corpos não têm Deus.

[00:22:52] Aqueles corpos são demonizados, eles têm o demônio.

[00:22:56] Portanto, eles podem ser mutilados, eles podem ser escravizados.

[00:22:59] E aí, gente, começa a história do Brasil,

[00:23:03] começa a formação do povo brasileiro em cima de muita dor.

[00:23:07] Primeiro, eu acho que a doutora Cláudia pode falar com mais propriedade.

[00:23:16] Eu acho que onde existe uma religião,

[00:23:19] onde ela é a maioria, ela acaba sendo a perseguidora.

[00:23:24] A gente vê isso em lugares onde o budismo,

[00:23:28] que para a gente é uma religião de paz,

[00:23:29] mas tem lugares onde a população é a maioria budista e perseguem.

[00:23:35] A gente vê agora na Índia destruindo igrejas cristãs, os hinduístas, etc.

[00:23:41] Então, onde tem uma religião que ela é a maioria,

[00:23:45] ela tende a querer o poder,

[00:23:48] a querer dominar tudo.

[00:23:49] Hegemonia, né?

[00:23:50] Isso.

[00:23:50] E é o que acontece no Brasil, é o que nós estamos vendo.

[00:23:55] E agora está mudando a questão do cristianismo.

[00:23:58] Antigamente era o catolicismo que mandava,

[00:24:01] o catolicismo que ditava as regras,

[00:24:04] e agora são os evangélicos.

[00:24:06] E eu vejo esse crescimento absurdo da religião ou das igrejas evangélicas

[00:24:16] como uma…

[00:24:18] um modo de dominar as pessoas.

[00:24:23] Claudio, eu queria que você contasse um pouquinho sobre a sua fé,

[00:24:26] porque eu acho que ela é muito pouco difundida no Brasil, né?

[00:24:29] No que de fato acreditam essas religiões?

[00:24:31] Quais são os rituais?

[00:24:32] Como elas congregam?

[00:24:34] O que essas religiões oferecem de construção para a sociedade,

[00:24:37] de lugar de pertença para as pessoas?

[00:24:41] Ah, eu acho super importante a pergunta,

[00:24:42] porque eu acho que é disso que a gente precisa falar mais, né?

[00:24:45] Principalmente em relação ao campo religioso,

[00:24:48] que eu pertenço, que é das religiões afro-brasileiras.

[00:24:51] Até porque muita gente, quando fala de religiões afro-brasileiras,

[00:24:54] fala é macumba, né?

[00:24:56] E nem percebe que a gente está falando de um campo religioso,

[00:24:59] de muitas denominações de religiões afro-brasileiras.

[00:25:03] No meu terreiro, a gente não pergunta que religião tem as pessoas.

[00:25:06] E se aquele padre soubesse que muitos que sentam na assistência do meu terreiro

[00:25:10] são católicos, eu tenho evangélicos, eu tenho família de evangélicos,

[00:25:14] porque um dos filhos faz parte, em dias de festa,

[00:25:18] se eles sentam lá para acompanhar o filho.

[00:25:21] Então, tem uma abertura que a gente está precisando defender.

[00:25:27] Primeiro, eu vou dizer que a festa é fundamental

[00:25:29] para as tradições afro-brasileiras.

[00:25:33] Então, não vai existir um terreiro de umbanda ou candomblé,

[00:25:39] ou seja qual for a denominação afro-brasileira,

[00:25:43] que não tenha festa.

[00:25:45] A gente celebra a vida.

[00:25:47] A vida celebra a existência e celebra a morte.

[00:25:51] Mas a gente sabe o quanto foi importante conviver com aquela pessoa

[00:25:58] enquanto ela esteve viva, enquanto ela esteve próxima de nós.

[00:26:02] As religiões de matriz africanas ou afro-brasileiras,

[00:26:06] e depois, se tiver tempo, eu explico por que a gente usa os dois termos,

[00:26:10] mas ela não separa a vida.

[00:26:14] E eu falei agora em a pouco.

[00:26:16] Ela não separa a vida.

[00:26:17] Ela separa a vida do orum, que é a dimensão espiritual,

[00:26:21] com a terra, que é o aê.

[00:26:22] A gente tem muitos mitos.

[00:26:24] Cada um dos orixás, como eu já disse,

[00:26:26] representa um elemento da natureza.

[00:26:27] Mas não tem um livro sagrado, né?

[00:26:29] Que dá para ler ali e entender qualquer mensagem.

[00:26:31] Não tem livro sagrado, mas ele não é ágrafo.

[00:26:34] A gente tem muitas linguagens.

[00:26:36] Por que que se canta?

[00:26:38] Porque se transmite conhecimento pelos cânticos,

[00:26:40] mesmo que sejam em Yorubá.

[00:26:42] A umbanda, outras denominações que estão, a gente diz, associadas,

[00:26:48] ou cruzadas com as indígenas, a gente consegue entender,

[00:26:51] porque está aí, está na língua banto, está na língua guarani,

[00:26:56] então a gente consegue entender os cânticos alguns, né?

[00:26:59] Porque tem espaços sagrados indígenas que está na língua materna, né?

[00:27:05] Mas a relação com o orixá

[00:27:09] significa você manter essa energia da natureza viva em você.

[00:27:15] Então, por que que se faz oferendo?

[00:27:17] O que que é a comida?

[00:27:18] A comida é a celebração da vida, né?

[00:27:21] E não existe individualidade.

[00:27:23] Inclusive, a família, por que que a ressignificação dos terreiros,

[00:27:31] por que que surgem os terreiros?

[00:27:33] Porque a família foi a primeira atingida no processo da escravização, né?

[00:27:39] O escravizador chega em África, a primeira coisa que ele fala,

[00:27:42] que ele faz é jogar o pai para um lado, a mãe para o outro,

[00:27:45] a criança para o outro, o bebezinho para o outro,

[00:27:47] e joga no navio negreiro e separam as famílias.

[00:27:51] O pensamento do terreiro é fazer a pequena África,

[00:27:56] é ressignificar a família.

[00:27:58] Por isso que tem a mãe de santo, o pai de santo, o tio, o avô de santo,

[00:28:02] todos são irmãos e os orixás são pais, os orixás são mãe,

[00:28:07] porque foi um momento histórico de ressignificar a humanidade

[00:28:11] e trazer os conhecimentos ancestrais.

[00:28:14] E é tudo isso que a gente…

[00:28:17] Que a gente acredita.

[00:28:18] Deixa a gente conhecer um pouquinho agora dessa teologia.

[00:28:21] Como é que é teologia inclusiva?

[00:28:23] Porque, assim, tem uns textos da Bíblia que é meio…

[00:28:25] A Juliana tem mais memória de texto da Bíblia do que eu.

[00:28:30] É, mas tem ali umas coisas escritas que…

[00:28:33] É isso, cada um vai ler uma coisa, né?

[00:28:35] Você vai ver, tem religião que as pessoas interpretam aqui na Bíblia

[00:28:38] que não pode cortar o cabelo.

[00:28:40] Então, as mulheres têm o cabelo muito comprido.

[00:28:42] Tem outra religião, como o caso da Cecília Jeová,

[00:28:44] que interpreta que não pode transfusão de sangue,

[00:28:48] então as pessoas leem realmente coisas diferentes na Bíblia.

[00:28:50] Conta um pouquinho dessa teologia inclusiva, de onde saiu isso

[00:28:53] e o que é que vocês estão relendo ali?

[00:28:56] Porque quando o pastor Ed René Kivitz veio no Mamilos

[00:29:00] a última vez, mandou um áudio, ele falou

[00:29:03] aceita todos os pecadores e não tem pecadinho em pecadão.

[00:29:07] Então, do mesmo jeito que ele me aceita, vai te aceitar tranquilamente.

[00:29:10] Mas pra mim e pra você, ele fala vai e não peques mais.

[00:29:13] Então, é pecado sim.

[00:29:15] Isso não tem nada a ver com você não ser aceito.

[00:29:17] Na Santa Ceia, todo mundo é aceito.

[00:29:19] Porque se não fosse você, eu também não era.

[00:29:21] É todo mundo aceito, mas é pecado.

[00:29:23] O que você consegue ler pra dizer que isso não é pecado?

[00:29:26] Então, a Bíblia é um livro que você pode interpretar ele de diversas maneiras,

[00:29:36] como a Testemunha de Jeová, Adventista e outras igrejas interpretam,

[00:29:39] como foi usada a Bíblia há muitos anos.

[00:29:43] A Bíblia foi usada pra condenar os negros, dizer que os negros não tinham almas.

[00:29:46] A gente tem igrejas nos Estados Unidos ainda hoje,

[00:29:49] que é igreja pra negros e igreja pra brancos,

[00:29:52] devido a essa falsa teologia de pegar textos isolados para poder condenar.

[00:29:58] A gente sempre viu na história usarem a Bíblia pra condenar.

[00:30:04] A gente viu isso com a mulher, dizer que a mulher era apenas uma ajudadora do marido,

[00:30:10] não tinha função nenhuma.

[00:30:12] E a gente vê também usando a Bíblia pra condenar a homossexualidade.

[00:30:16] Mas qualquer texto da Bíblia, você precisa fazer uma hermenêutica,

[00:30:20] um estudo profundo e entender quando que foi escrito aquilo,

[00:30:24] por quem foi escrito aquilo, qual era o contexto da cultura, da sociedade.

[00:30:31] E a Bíblia, ela se interpreta.

[00:30:33] A gente não pode pegar um versículo isolado.

[00:30:36] Por exemplo, eu vou citar aqui, quando a gente olha lá em Levítico,

[00:30:39] que diz, homem não se deitará com homem como se fosse mulher,

[00:30:42] porque isso é abominação ao Senhor.

[00:30:44] O clássico.

[00:30:46] O texto que usa para condenar.

[00:30:47] Levítico, eu vou te falar, Levítico não sobra nada no Levítico.

[00:30:50] Levítico tá todo mundo usando a roupa que não mistura, a lã com não sei o que, o algodão.

[00:30:55] O palhaço.

[00:30:57] Pega uma parte só, o resto não quer não, né?

[00:30:59] Isso mesmo.

[00:31:00] Aí pega esse texto, né?

[00:31:02] Mas aí esquece dos outros textos que diz que não pode usar dois tecidos,

[00:31:06] que isso é abominação ao Senhor.

[00:31:07] Você não pode usar dois tipos de planta numa mesma terra,

[00:31:10] que isso é abominação ao Senhor, que você não pode comer marisco.

[00:31:13] Você tem um conjunto de regras, mas ele só…

[00:31:16] Que inclusive é o uso da terra, né?

[00:31:18] Isso.

[00:31:19] Como você não pode oprimir o seu irmão, não pode juros não, tá, amiga?

[00:31:23] Juro não pode.

[00:31:25] A rotativa da terra, a cada sete anos tem que deixar a terra descansar um ano,

[00:31:30] mas isso ninguém quer fazer, né?

[00:31:31] Não, ninguém quer fazer.

[00:31:32] Então, assim, pega aquele texto que é favorável a eles, né?

[00:31:37] Que interessa, né?

[00:31:38] Por exemplo, quando você olha Sodoma e Gomorra,

[00:31:40] Sodoma e Gomorra foi destruído por causa da homossexualidade?

[00:31:44] Claro que não.

[00:31:44] Quando a gente olha, a Bíblia diz que…

[00:31:46] Cercar a casa de Ló, os homens do maior ao menor,

[00:31:51] fazendo uma alusão que todos os homens, até as crianças estavam em volta.

[00:31:54] Então, todos eram homossexuais?

[00:31:56] Claro que não.

[00:31:57] Quando você olha em Ezequiel, Ezequiel diz.

[00:31:59] E esse foi o pecado de Sodoma, a falta de hospitalidade.

[00:32:02] Então, quando você começa a estudar profundo e entender,

[00:32:04] você vê que a Bíblia jamais condenou a homossexualidade.

[00:32:08] Que essa, principalmente esse contexto de Levítico,

[00:32:11] era uma regra para os sacerdotes, não era nem para a comunidade em si.

[00:32:15] E aí…

[00:32:16] E aí, é o que a gente conversou agora há pouco.

[00:32:18] Quando você…

[00:32:20] Como eu ia falando dessa sociedade evangélica que tem crescido,

[00:32:25] ao mesmo tempo que tem muitas pessoas com essa intolerância,

[00:32:30] mas a gente está vendo, por causa da internet,

[00:32:31] muitas pessoas abrindo a cabeça.

[00:32:33] E hoje nós temos igrejas tradicionais que estão se abrindo à comunidade.

[00:32:39] A gente vê, por exemplo, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil,

[00:32:42] que é a igreja da Inglaterra,

[00:32:43] hoje já faz casamentos homoafetivos.

[00:32:45] Nós vemos a igreja do Ed René, que ainda não…

[00:32:49] Mas ele já tem um discurso.

[00:32:50] A gente vê o Papa Francisco.

[00:32:52] Quem diria a igreja católica com esse discurso?

[00:32:55] Por quê?

[00:32:56] Porque até o Papa já está começando a enxergar como…

[00:33:00] Com essas informações que nós temos hoje, através da internet,

[00:33:04] nós descobrimos que esses textos foram manipulados durante a história,

[00:33:09] como vários textos foram manipulados para condenar negros,

[00:33:12] condenar mulheres, condenar estrangeiros.

[00:33:14] Né?

[00:33:15] Foram usados para condenar.

[00:33:17] E hoje nós vamos fazer uma releitura desses textos.

[00:33:22] E quando nós fazemos essa releitura,

[00:33:24] nós podemos olhar para a homossexualidade e dizer,

[00:33:27] não, Deus não condena.

[00:33:28] Até porque a homossexualidade é algo que a pessoa nasce, né?

[00:33:33] Jesus nunca condenou e Deus jamais vai condenar.

[00:33:36] O meu irmão tem uma explicação.

[00:33:38] O meu irmão também é pastor, ele tem uma explicação.

[00:33:39] Uma vez ele me explicou de um jeito que eu achei fácil de entender

[00:33:43] essas mudanças.

[00:33:45] Porque um livro sagrado não deveria mudar.

[00:33:47] Se ele contém a verdade, a verdade não muda ao longo dos tempos.

[00:33:51] E aí o meu irmão falou assim, imagina o seguinte,

[00:33:53] Moisés sobe lá no morro e ele tem um vislumbre do divino.

[00:33:58] Imagina se você tivesse a possibilidade de encontrar com o divino.

[00:34:01] Qual é o seu tamanho de cabeça e qual é o tamanho do divino?

[00:34:05] Na hora que você vai escrever, você tem que escrever o que você entende.

[00:34:08] Você tem que filtrar.

[00:34:10] Então tudo que já foi escrito, foi escrito passando por um ser humano.

[00:34:14] Isso.

[00:34:15] Pela nossa capacidade de compreensão, pelo nosso tempo.

[00:34:20] Pela intenção.

[00:34:21] Pela intenção.

[00:34:22] Então é compreensível que ao longo do tempo, com o mesmo fragmento

[00:34:27] de alguém que foi lá e pegou, de alguém que teve uma iluminação

[00:34:30] e deixou pra gente, a gente tem a responsabilidade, eu diria mais,

[00:34:36] não de evoluir, mas de dar novas compreensões.

[00:34:39] A gente precisa, como ser humano sozinho e como sociedade,

[00:34:43] aprender.

[00:34:45] Aqui pra aprender.

[00:34:46] Então não é modificar a palavra, é ter novas compreensões,

[00:34:50] é expandir o que a gente entende.

[00:34:52] Mas, já que a gente falou um pouco de cada religião,

[00:34:57] como ateia, eu preciso, eu acho, pedir pra gente dar um passo pra trás,

[00:35:01] que é, considerando o ponto de vista republicano,

[00:35:05] que é o que você falou, é o meu direito do meu culto,

[00:35:09] eu acredito, não sei o que vocês pensam,

[00:35:11] que a gente não deveria ficar restringindo,

[00:35:15] restrito, a interpretação do livro sagrado de cada religião

[00:35:19] pra limitar o direito uns dos outros.

[00:35:23] Então, eu não preciso da licença e da permissão do seu livro sagrado

[00:35:28] pra eu viver a minha vida do jeito que eu quiser.

[00:35:30] E nem ela, e nem ela.

[00:35:32] Da mesma maneira, se a sua religião achar abominável o que ela achar,

[00:35:36] se eu estou fora da sua religião, eu não deveria estar sujeita à sua regra,

[00:35:42] à sua régua.

[00:35:43] Então, isso que é difícil…

[00:35:45] Isso é difícil pra mim, que eu acho que é uma coisa que a gente precisa conversar

[00:35:47] pra que a gente consiga ter tolerância.

[00:35:49] Enquanto eu estava muito fervorosa como adventista,

[00:35:54] era natural que eu quisesse que a minha régua se estendesse pra todo mundo.

[00:36:01] Como que a gente pode desarmar isso?

[00:36:03] Porque se cada um quiser ficar medindo os outros pela sua régua,

[00:36:06] aí realmente não vai ter como.

[00:36:07] É porque eu acabo enxergando todo mundo em pecado, né?

[00:36:10] Porque se não tá seguindo a minha regra, tá errado e eu não deveria tolerar.

[00:36:15] Onde que a gente consegue se encontrar e sentar na mesa da família, do trabalho,

[00:36:21] de todos os lugares onde a gente comunga,

[00:36:24] respeitando a minha fé, mas entendendo que o outro não precisa segui-la?

[00:36:28] E que isso não quer dizer que ele é uma má pessoa.

[00:36:31] Pois é, eu acho que se a gente for falar de tempos,

[00:36:33] a gente vai falar no nosso tempo hoje,

[00:36:35] a gente tá num momento de muita urgência,

[00:36:38] de desconstruir o que o discurso de ódio pode fazer com o ser humano

[00:36:43] e com as mentes humanas.

[00:36:45] Então, quando a Juliana fala,

[00:36:48] olha, eu não gosto e eu tenho o direito de, ou de não gostar,

[00:36:53] eu acredito em algo.

[00:36:55] Se você não acredita, eu tenho que ter a consciência de saber

[00:37:00] que você tá no seu direito de não acreditar.

[00:37:03] Embora, por exemplo, eu acredito que o mundo seria muito mais feliz

[00:37:11] se ele cultuasse a natureza.

[00:37:13] Se ele sentisse…

[00:37:15] Se ele sentisse a força de um orixá,

[00:37:16] se ele tivesse a possibilidade de cantar,

[00:37:21] de bater palma, de vestir a roupa do orixá,

[00:37:25] de rememorar seus ancestrais,

[00:37:28] de reviver o quanto o povo negro foi resiliente,

[00:37:33] e o indígena também,

[00:37:34] a ponto de, em algum momento, estar reunido

[00:37:37] e atraindo pessoas pra cantar e celebrar juntos seus orixás

[00:37:41] e fazer suas oferendas e se abraçarem.

[00:37:44] E comungarem.

[00:37:47] Mas é o meu pensamento.

[00:37:49] E do meu terreiro, com os filhos de santo,

[00:37:52] no momento das orações, a gente reza para o mundo.

[00:37:57] A gente reza para o mundo.

[00:37:59] Nas minhas orações, eu rezo para os moradores de rua,

[00:38:03] para os que estão nos asilos,

[00:38:05] para as crianças nos orfanatos,

[00:38:07] para os abandonados, para os mal-amados,

[00:38:09] para os doentes nos leitos de hospital.

[00:38:11] Todas.

[00:38:11] Independente da religião deles.

[00:38:13] Eu não…

[00:38:13] Eu não…

[00:38:14] Eu não penso em religião.

[00:38:15] Eu penso em pessoas, em seres humanos.

[00:38:18] E penso muito em algo que está na Bíblia.

[00:38:22] Eu quero fazer.

[00:38:24] Eu quero que façam pra mim o que eu faço para o outro.

[00:38:28] E enquanto eu não pensar assim, a gente não muda esse mundo.

[00:38:32] Pois é.

[00:38:32] Eu acho que a gente tem muita gente com dor

[00:38:34] que acaba ferindo.

[00:38:37] Eu sempre falo assim, o medo, ele é um péssimo conselheiro.

[00:38:42] Aquele lugar da tolerância que é,

[00:38:43] então eu estou tolerando o mal, né?

[00:38:45] Porque eu estou vendo a pessoa fazer um negócio aqui

[00:38:46] que eu acho totalmente errado.

[00:38:48] Se eu não fizer nada, eu estou sendo conivente.

[00:38:50] E tolerância e conivência são coisas muito diferentes.

[00:38:54] Explica um pouquinho pra gente essa diferença aí.

[00:38:56] Assim, voltando só um pouquinho do que você estava falando,

[00:39:01] a Bíblia tem mais de 630 mandamentos ou preceitos.

[00:39:05] Muita coisa, hein?

[00:39:06] É, só que Jesus, ele resumiu em dois.

[00:39:08] Amar a Deus sobre todas as coisas

[00:39:10] e o seu próximo como a ti mesmo.

[00:39:13] Então, eu tenho que olhar a Cláudia,

[00:39:17] a mãe Cláudia, com amor,

[00:39:19] como eu estivesse me olhando e com respeito.

[00:39:23] Mas ela não é da minha religião,

[00:39:24] ela não acredita na minha fé,

[00:39:26] ela não tem os mesmos pensamentos,

[00:39:28] mas Jesus não disse, olha,

[00:39:29] ela tem que se enquadrar naquilo que você acredita.

[00:39:32] Jesus disse, olha o teu próximo e ame como a ti mesmo.

[00:39:36] Então, eu tenho que chegar aqui e esquecer onde ela mora.

[00:39:41] É bíblico e é o que mais…

[00:39:43] Eu não vou amar, eu não vou amar.

[00:39:44] Ela acredita em outra coisa.

[00:39:46] Eu sou obrigada a amar?

[00:39:47] Não tem um meio termo entre tratar ela mal e amá-la?

[00:39:51] Não tem um lugar ali?

[00:39:52] A infelizmente, eu tenho a minha crença,

[00:39:54] a minha crença é inegável,

[00:39:57] aquilo que eu creio é meu.

[00:40:00] Mas, e ela também tem a crença dela.

[00:40:02] A gente não estava falando para a gente unir as nossas crenças.

[00:40:05] Não, a gente não estava falando isso.

[00:40:06] A gente estava falando para uma convivência, amar.

[00:40:09] Eu tenho um amigo, eu acabei de falar,

[00:40:11] eu tenho um amigo, amigo.

[00:40:13] Não é colega, amigo, é o Sheik Rodrigo.

[00:40:16] Ele é muçulmano.

[00:40:17] Eu amo, eu tenho um amor grande

[00:40:21] pelo padre Júlio Lancelotti.

[00:40:24] A gente pode andar junto, respeitar.

[00:40:27] Eu não posso usar a minha Bíblia, o meu livro sagrado,

[00:40:30] aquilo que eu acredito,

[00:40:32] e começar a ditar para ela o que ela deve seguir,

[00:40:34] o que ela deve fazer.

[00:40:36] Essa regra é minha, esse livro é para mim,

[00:40:39] essa doutrina é para mim.

[00:40:40] Eu decidi seguir o que está necessário,

[00:40:43] esse livro.

[00:40:43] Eu não posso dizer para ela,

[00:40:44] olha, a partir de hoje você tem que seguir isso,

[00:40:46] senão você vai morrer,

[00:40:47] senão eu não vou conversar com você.

[00:40:49] Eu não posso fazer isso.

[00:40:50] Então, a Bíblia, ela é clara

[00:40:52] sobre esse maior mandamento,

[00:40:56] que é amar o próximo como a ti mesmo.

[00:40:59] A gente não vê Jesus chegando nos templos religiosos,

[00:41:02] de outras religiões,

[00:41:04] impondo a verdade,

[00:41:06] colocando as suas diretrizes,

[00:41:08] dizendo, olha, você tem que seguir

[00:41:09] se você não vai morrer.

[00:41:10] Não, Jesus não fez isso.

[00:41:12] Jesus, ele pregou para quem?

[00:41:14] Para os seus.

[00:41:15] Jesus falou para os seus.

[00:41:17] E aí, Jesus, ele diz, né?

[00:41:19] Eu vim para os meus, mas os meus não quiseram.

[00:41:22] Então, essa é a regra.

[00:41:25] Eu acho que não é nem tolerar,

[00:41:26] é caminhar, é poder andar junto.

[00:41:29] Mas, sabe, tem uma polêmica aí,

[00:41:31] que é quem que está acima ou à frente

[00:41:34] se é a lei dos homens ou a lei de Deus?

[00:41:36] Porque, do meu ponto de vista ateu,

[00:41:40] é claro que eu vou querer,

[00:41:41] dizer, assim, você pode seguir a sua religião

[00:41:43] em tudo que você quiser,

[00:41:45] você tem liberdade religiosa,

[00:41:46] desde que a sua liberdade religiosa

[00:41:48] não fira um princípio que é maior,

[00:41:51] que é a Constituição,

[00:41:51] que é o princípio que rege todos.

[00:41:53] Porque cada um pode escolher qual é a sua religião.

[00:41:56] Então, como você falou,

[00:41:57] ah, essas regras foram para mim,

[00:41:59] porque eu escolhi essas regras.

[00:42:01] A Constituição, não.

[00:42:02] A Constituição é para todos.

[00:42:03] Isso.

[00:42:04] Então, eu entendo a limitação do meu pensamento,

[00:42:08] mas, da perspectiva de ateu,

[00:42:10] o compromisso que,

[00:42:11] eu esperaria,

[00:42:13] o que eu acho que pode construir

[00:42:16] uma convivência mínima é,

[00:42:17] você é livre

[00:42:18] no constrangimento da Constituição.

[00:42:23] Para você não ser perseguido,

[00:42:25] você abre mão de uma parte da sua liberdade

[00:42:29] para garantir a liberdade dela.

[00:42:31] E, assim, todos somos livres.

[00:42:33] Então, o que eu quero falar é,

[00:42:37] acho importante que a gente fale dos preceitos

[00:42:40] dentro da religião,

[00:42:41] de cada um,

[00:42:42] e do sagrado de cada um.

[00:42:44] Mas, na minha opinião,

[00:42:45] e vocês podem me criticar

[00:42:46] se vocês acharem que estão errados,

[00:42:47] a gente tem que dar um passo além para,

[00:42:49] para além dos seus livros sagrados,

[00:42:52] ou de o que cada um acredita,

[00:42:53] tem um livro que é comum a todos,

[00:42:55] e é a Constituição.

[00:42:56] E aí, assim, gato,

[00:42:57] não é escolher,

[00:42:59] não, não, mas é,

[00:43:00] a regra dos homens está abaixo da regra de Deus,

[00:43:02] a regra de Deus vem antes.

[00:43:04] Aí vai ficar difícil.

[00:43:05] É bom viver em sociedade, né?

[00:43:07] Você falou que, assim,

[00:43:08] aí eu posso estar limitada.

[00:43:09] Você não está limitada.

[00:43:10] Você está falando de um,

[00:43:11] um Estado democrático de direito.

[00:43:13] Nós temos direitos.

[00:43:15] Temos deveres, sim,

[00:43:16] mas nós temos direito.

[00:43:18] E a vida humana,

[00:43:19] ela está acima de tudo.

[00:43:21] Na minha religião, por exemplo,

[00:43:24] não existe pecado.

[00:43:25] A gente não conhece pecado.

[00:43:27] A minha religião,

[00:43:28] ela não tem um livro sagrado.

[00:43:30] Isso não significa que nós não temos regras, né?

[00:43:33] Isso não significa que nós não seguimos discursos.

[00:43:38] Nós não seguimos narrativas.

[00:43:40] Nós temos os mitos que nos são contados

[00:43:44] há muitos séculos de histórias que foram vividas em África

[00:43:49] e que elas regem também.

[00:43:51] E as regras morais dentro dos terreiros,

[00:43:56] elas são rígidas também.

[00:43:58] Elas não precisam estar escritas.

[00:44:00] Para você ver a complexidade que é

[00:44:02] não só conduzir como ser um adepto da religião afro-brasileira.

[00:44:07] O que nós temos de registro,

[00:44:10] de formas de culto,

[00:44:14] eles é que nos dizem como ser conduzido

[00:44:17] e como a gente passa isso de geração em geração.

[00:44:21] Isso que a Juliana está trazendo da Constituição

[00:44:23] corrobora com o que eu estou falando de tolerância.

[00:44:27] Porque dentro dos preceitos religiosos,

[00:44:29] amar é um fundamento.

[00:44:31] Mas dentro da Constituição, não.

[00:44:33] Você não precisa amar a pessoa para conviver com ela.

[00:44:35] Você não tem.

[00:44:36] Então, eu entendo.

[00:44:38] E eu queria muito.

[00:44:39] Queria muito.

[00:44:39] Todo mundo se ama.

[00:44:40] Acho que é um mundo melhor.

[00:44:42] Comungando com a natureza.

[00:44:43] Acho que é melhor para caramba.

[00:44:45] Mas eu não preciso necessariamente disso

[00:44:47] para viver em comunhão.

[00:44:49] Eu preciso tolerar.

[00:44:50] E tolerar não é ver a iniquidade e não fazer nada.

[00:44:54] É entender que existem outras verdades

[00:44:56] para outras pessoas que devem ser respeitadas.

[00:44:58] E por isso, Cláudia,

[00:45:00] que política pública é importante.

[00:45:03] Porque aí a gente vai colocando marcadores

[00:45:05] para quem ultrapassar.

[00:45:07] Quem ultrapassar…

[00:45:07] São regras sociais.

[00:45:08] Aí começa que, ó…

[00:45:09] Aqui você é punido como um civil

[00:45:12] e não como um cristão

[00:45:13] ou como uma pessoa de matriz africana.

[00:45:15] Como um cidadão que não respeitou a regra.

[00:45:17] Vocês não sabem o quanto…

[00:45:19] Desculpa, passou.

[00:45:20] O quanto eu passei a dormir sossegada

[00:45:24] quando a lei de racismo,

[00:45:28] ela também passou a abranger a lei

[00:45:31] contra o racismo religioso.

[00:45:35] A invasão aos terreiros,

[00:45:36] a morte de Babalorixás e Elorixás,

[00:45:39] me doía o tempo inteiro.

[00:45:41] E me colocava o medo que a Cris tem falado.

[00:45:44] Qual é o medo de uma sacerdotisa

[00:45:46] das religiões afro-brasileiras?

[00:45:50] O meu terreiro fica em Paraty.

[00:45:52] Como é que a gente fecha a porta do terreiro

[00:45:54] e volta para São Paulo?

[00:45:57] É o medo físico e espiritual.

[00:46:00] Quando a gente chega na porta do terreiro

[00:46:02] e eu vou entrar paramentada,

[00:46:04] você fica olhando qualquer pessoa

[00:46:07] mal intencionada, violenta,

[00:46:09] racista, ela pode entrar.

[00:46:12] Como já entraram no meio de tantos rituais

[00:46:17] e tantas cerimônias religiosas

[00:46:18] e agrediram os filhos e mães

[00:46:21] e pais de santos e sacerdotes.

[00:46:23] Então, quer dizer,

[00:46:24] a gente precisava de leis,

[00:46:26] as políticas públicas.

[00:46:28] Quando eu coloco ela e celebro

[00:46:30] as políticas públicas,

[00:46:32] é porque eu celebro a minha vida

[00:46:34] e a vida dos meus pares.

[00:46:35] Eu acho que a conversa que a gente tem aqui

[00:46:39] é um convite à reflexão,

[00:46:41] que é a sua fé está te levando

[00:46:44] a construir que tipo de mundo

[00:46:46] ou a praticar que tipo de mundo.

[00:46:49] Eu gosto muito quando a Juliana fala

[00:46:50] olha, tem um lugar da espiritualidade

[00:46:53] e tem um lugar dos homens

[00:46:54] e os homens são falhos.

[00:46:56] E a gente está falando de poder.

[00:46:58] Eu gosto quando a Juliana fala

[00:47:00] olha, sempre a religião que esteve dominante

[00:47:03] que é aquela que tinha mais poder

[00:47:05] ela tentava suprimir as outras.

[00:47:08] Então, para você ter uma ideia,

[00:47:09] se a gente for pensar no tempo

[00:47:11] que o Brasil era muito mais católico

[00:47:14] do que evangélico,

[00:47:15] a vida das mulheres e dos negros

[00:47:17] e dos gays também não estava melhor.

[00:47:19] Não é uma questão de

[00:47:20] olha, chegaram os evangélicos

[00:47:23] e tudo mudou.

[00:47:25] Não, a gente vem mesmo

[00:47:26] numa toada de disputa de narrativa

[00:47:29] e disputa de poder.

[00:47:32] Que é sobre

[00:47:32] quem conversa com mais pessoas,

[00:47:35] quem coloca sua doutrina para a maioria.

[00:47:36] Mas isso, eu acho

[00:47:39] que é o mundo das instituições religiosas

[00:47:41] que é diferente do mundo espiritual

[00:47:43] que é diferente do mundo da fé.

[00:47:45] Então, acho que o convite

[00:47:46] que a gente precisa fazer aqui

[00:47:48] são dois. Primeiro, de natureza espiritual

[00:47:51] mesmo, que as pessoas

[00:47:52] questionem que mundo elas querem construir

[00:47:54] com a fé que elas estão praticando

[00:47:56] e que existe uma coisa

[00:47:59] difícil para pessoas

[00:48:01] religiosas, eu acredito

[00:48:03] porque Deus está sempre

[00:48:04] acima de tudo, não é?

[00:48:06] É Deus acima de tudo, mas

[00:48:08] tem uma coisa,

[00:48:09] tem uma coisa chamada Constituição

[00:48:10] e a gente, como civilização, falou assim

[00:48:12] olha, vamos escrever um livro aqui

[00:48:14] que ele é sagrado, mas assim, não é de nenhum

[00:48:17] Deus. A gente mesmo que está escrevendo aqui

[00:48:18] a gente faz umas emendas quando acha

[00:48:21] que está meio ruim. É sagrado porque o sagrado

[00:48:22] está em nós, né? Mas eu acho isso

[00:48:25] assim, problemas complexos

[00:48:27] exigem soluções

[00:48:29] complexas, né? Problemas complexos

[00:48:30] sempre tem uma solução simples e errada.

[00:48:33] Então, acho que tem uma parte que é

[00:48:35] espiritual sim, que é uma

[00:48:36] guerra espiritual. Tem essa

[00:48:38] frente de batalha, mas tem uma frente

[00:48:41] como você estava falando, institucional.

[00:48:44] E elas tem

[00:48:44] ferramentas diferentes, linguagens

[00:48:47] diferentes, tempos diferentes,

[00:48:49] líderes diferentes

[00:48:50] e eu acho que elas tem que andar juntas.

[00:48:53] Então, de um lado

[00:48:54] vamos aí cada um de nós

[00:48:56] nesta batalha espiritual para que a gente

[00:48:59] tenha mais tolerância e de um outro lado

[00:49:01] de uma forma institucional que a gente

[00:49:03] retome

[00:49:05] os consensos mínimos.

[00:49:08] E eu acho que esse

[00:49:08] é um momento civilizatório. A gente está tendo

[00:49:10] que falar o óbvio. A gente está tendo

[00:49:12] que voltar para os princípios

[00:49:14] e repactuar os princípios.

[00:49:17] Então, o princípio lá

[00:49:18] da

[00:49:19] escola primária, que é

[00:49:22] a minha liberdade termina onde a sua

[00:49:24] começa. Então, eu

[00:49:26] posso acreditar no que eu quiser

[00:49:28] no ET, no UFO e não acreditar

[00:49:30] no que eu quiser. Desde que a

[00:49:32] minha liberdade não interfia na sua

[00:49:34] no seu direito de ter o mesmo tanto

[00:49:36] de liberdade. Acho que esses

[00:49:38] pactos básicos a gente está precisando

[00:49:40] refazer. É, e eu acho que também

[00:49:42] o convite é curiosidade, né?

[00:49:44] Porque, ah, eu nunca vou poder falar da minha religião

[00:49:46] então só porque você não é da minha religião.

[00:49:48] Eu acho que existem convites para isso.

[00:49:50] Existem espaços para isso.

[00:49:52] Eu gostaria de ouvir da teologia.

[00:49:54] Eu gostaria de ouvir da humanidade. Então, eu acho que

[00:49:56] existem espaços onde a gente

[00:49:58] pode falar da

[00:50:00] fé

[00:50:01] para pessoas que querem ouvir.

[00:50:04] Eu gosto muito disso. Fala para os seus.

[00:50:06] Fala para quem tem interesse. Que direito você tem?

[00:50:08] De ir lá e ficar insistindo

[00:50:10] com a pessoa. Ou atacar

[00:50:12] o outro, né? É, o proselitismo é um problema

[00:50:14] nosso, né? Ele acontece em espaço

[00:50:16] público. Ele acontece no privado.

[00:50:19] E, assim,

[00:50:20] eu acho que esse lugar de

[00:50:22] a gente reproduz muito

[00:50:24] colonialismo, né?

[00:50:26] Sim. Eu preciso muito te convencer que

[00:50:28] eu sou melhor que você. Eu preciso te catequizar.

[00:50:31] Eu preciso colocar o meu

[00:50:32] conhecimento em você. Isso está muito na nossa

[00:50:34] cultura. É a desconstrução, né?

[00:50:36] A Juliana, quando a gente

[00:50:38] começou o programa, ela falou muito sobre

[00:50:40] desconstrução, né? E eu acho que

[00:50:42] nesse momento,

[00:50:44] e é o que eu peço sempre quando eu estou

[00:50:46] no terreiro, né? A gente

[00:50:48] tem que querer ser

[00:50:50] humano novamente. Ser

[00:50:52] humano. Humanidade.

[00:50:55] Respeitar a dor

[00:50:56] do outro. Dói em

[00:50:58] você. Se você sente dor, é impossível

[00:51:01] você não se sensibilizar

[00:51:03] quando o outro diz que

[00:51:04] sente dor, né? E

[00:51:06] você não pode ser aquele que provoca

[00:51:08] a dor no outro.

[00:51:10] Então, eu acho que, neste momento, eu quero

[00:51:12] um mundo mais humano,

[00:51:14] né? Eu quero as pessoas mais humanas

[00:51:16] nos seus direitos.

[00:51:19] A gente não consegue viver

[00:51:20] com

[00:51:22] o significado

[00:51:25] real de liberdade.

[00:51:28] As pessoas

[00:51:28] precisam querer ser livres.

[00:51:31] Livres de preconceitos,

[00:51:33] livres de dor,

[00:51:35] né? Livres de

[00:51:36] dogmas. Elas precisam,

[00:51:38] precisam querer ser livres. Eu acho que,

[00:51:40] acima de tudo, quando você

[00:51:42] é livre,

[00:51:44] você não se importa com a vida do outro.

[00:51:47] A Nina Simone fala, né?

[00:51:48] Que liberdade é não ter medo.

[00:51:50] É não ter medo.

[00:51:52] E você falou também tanto do medo, né?

[00:51:54] O medo que um provoca no outro.

[00:51:56] Isso é uma armadilha e é também

[00:51:58] um instrumento pra dominação.

[00:52:00] O medo o que que é?

[00:52:02] Não é mesmo? Então, a gente precisa

[00:52:04] querer se libertar.

[00:52:07] Essa é a liberdade

[00:52:08] que nós precisamos ter.

[00:52:10] E o Brasil é um país

[00:52:12] tão lindo, aonde eu posso

[00:52:14] chegar numa praça, falar de Jesus,

[00:52:16] ela pode fazer

[00:52:18] o seu trabalho

[00:52:19] nas ruas. E essa

[00:52:22] é a liberdade. E a liberdade também

[00:52:24] de não crer, né?

[00:52:26] Como eu costumo dizer,

[00:52:28] Jesus, ele ensinou

[00:52:29] o evangelho é uma forma diferente

[00:52:32] de viver. Não é nenhuma religião,

[00:52:34] é uma forma diferente de viver.

[00:52:36] E muitos ateus acabam seguindo

[00:52:38] essa forma diferente de viver. Porque se eu perguntar

[00:52:40] pra você, você mata? Você rouba?

[00:52:42] Você é mau caráter?

[00:52:43] Isso aqui é cheio de amor.

[00:52:45] Então, você segue o evangelho de Cristo

[00:52:48] mesmo sem acreditar.

[00:52:50] Foi isso que eu falei pra minha família.

[00:52:52] E é isso que é bonito.

[00:52:53] Você não precisa da instituição.

[00:52:55] Os valores estão dentro de você.

[00:52:58] Você abandona a fé,

[00:53:00] mas você não abandona os valores.

[00:53:01] Exatamente.

[00:53:03] Até porque são valores civilizatórios, né?

[00:53:06] Exatamente.

[00:53:07] E assim,

[00:53:08] e não acreditar no mal do outro

[00:53:10] sem conhecer o outro, né?

[00:53:12] Porque da mesma forma que o pastor…

[00:53:13] A gente é uma evangelizadora que disse.

[00:53:15] E assim, eu acho que é o momento mesmo

[00:53:18] dessa reflexão que você convidou a gente.

[00:53:20] Porque da mesma forma que o pastor

[00:53:22] diz, olha,

[00:53:23] eu não aceito, enquanto

[00:53:26] um pastor evangélico, a invasão

[00:53:28] nos terreiros

[00:53:29] de matrizes africanas, afro-brasileiras.

[00:53:32] Assim como eu digo aqui

[00:53:34] que nem tudo que falaram

[00:53:36] ou que mostram como sendo

[00:53:38] das religiões de matrizes africanas

[00:53:39] é o que eu professo no meu terreiro.

[00:53:41] Tem um pastor lá em Belém

[00:53:43] que todos os anos ele abre a igreja

[00:53:45] porque a igreja dele fica no caminho

[00:53:47] da passagem da santa, do sírio.

[00:53:50] E ele abre pra receber

[00:53:51] as pessoas, pra oferecer água,

[00:53:53] o serviço cristão mesmo.

[00:53:55] Porque aquilo é importante pra cidade.

[00:53:57] Então ele vai fazer isso.

[00:53:58] Então assim, ele vai chutar a santa?

[00:54:01] Não vai chutar a santa.

[00:54:02] Porque ele quer que tenham esse tipo de tratamento

[00:54:05] com o que é sagrado pra ele?

[00:54:06] Como eu não quero que faça isso com a santa.

[00:54:07] Não.

[00:54:08] Não vou fazer isso.

[00:54:10] Não vai no terreiro rasgar a bíblia.

[00:54:13] Ele não quer que faça isso.

[00:54:14] Então ele não vai chutar a santa.

[00:54:16] O que vai mediar isso,

[00:54:18] de novo, vai ter a parte espiritual

[00:54:20] e vai ter a parte de lei

[00:54:21] que vai mediar isso, entendeu?

[00:54:24] E eu sempre costumo dizer

[00:54:26] nas igrejas que a gente tem que demonizar

[00:54:28] sim algumas coisas.

[00:54:30] E aí eu vou ter que abrir aqui e vou ter que falar.

[00:54:32] A gente tem que demonizar.

[00:54:33] Tem que demonizar o feminicídio.

[00:54:35] Tem que demonizar a intolerância.

[00:54:37] Tem que demonizar a homofobia.

[00:54:39] Isso nós temos que…

[00:54:40] Porque isso aí realmente não é coisa de Deus.

[00:54:42] E eu quero, não sei se está no final,

[00:54:44] mas eu quero parabenizar…

[00:54:45] Não, eu só quero parabenizar vocês

[00:54:47] por esse trabalho incrível.

[00:54:49] Eu quero chamar vocês pra conhecer

[00:54:51] esse grupo interligioso

[00:54:54] que o Sheik Rodrigues está formando,

[00:54:57] que é essa união.

[00:54:59] Não união de crenças,

[00:55:00] mas a união pela paz,

[00:55:03] pela liberdade, pelo amor.

[00:55:04] E isso tem sido muito legal.

[00:55:07] E tem vindo muitos pastores pra esse grupo.

[00:55:11] E isso é muito legal.

[00:55:12] Num tempo de tanta intolerância

[00:55:14] vindo dos evangélicos.

[00:55:16] Então isso tem sido muito legal.

[00:55:17] Então parabéns

[00:55:19] que Deus continue usando vocês

[00:55:23] Amém!

[00:55:25] Dentro da minha fala,

[00:55:26] que Deus continue usando vocês

[00:55:27] pra ser essa voz.

[00:55:28] Isso sim vai ser uma voz profética nessa nação.

[00:55:31] Contra essa intolerância

[00:55:33] que tem matado muitas mães

[00:55:36] e pais de santos.

[00:55:37] Que tem apedrejado meninas

[00:55:39] que saem às ruas

[00:55:40] com as suas vestimentas.

[00:55:43] Então, muito obrigado

[00:55:45] e parabéns.

[00:55:46] Obrigada.

[00:55:47] Eu quero agradecer, dizer que a gente está

[00:55:49] num momento muito importante.

[00:55:50] Como a Cris falou, em outro momento

[00:55:52] eu não estaria aqui, à mesa,

[00:55:55] conversando com vocês tão harmonicamente

[00:55:57] e conhecendo

[00:55:59] o pastor que tem

[00:56:01] um trabalho tão importante

[00:56:03] porque eu vejo essas questões das minorias

[00:56:05] como uma luta única.

[00:56:07] Então a gente tem que lutar contra

[00:56:08] todo tipo de preconceito.

[00:56:11] Eu quero também desejar pra vocês

[00:56:13] muito axé. O axé é uma palavra

[00:56:15] muito forte nas religiões de matriz

[00:56:17] africanas. Ele significa

[00:56:19] tudo de bom que você possa

[00:56:21] desejar pra outra

[00:56:23] pessoa. Então quando a gente deseja

[00:56:25] axé, a gente quer o mundo

[00:56:27] aberto. A gente fala muito de caminhos

[00:56:29] abertos, com muita luz, com muita força

[00:56:31] e com toda a força da natureza

[00:56:33] dentro de vocês, porque isso significa

[00:56:35] muita saúde.

[00:56:37] E que Exu

[00:56:39] dê sempre uma boa

[00:56:41] comunicação pra todos nós.

[00:56:43] Axé. Obrigada.

[00:56:45] Temos um programa?

[00:56:46] Temos um programa. Estou toda abençoada.

[00:56:49] Toda trabalhada na bênção.

[00:56:51] Fica gostosa a sensação de mais um

[00:56:53] Mamilos no Ar. Até a próxima semana.

[00:56:55] Beijo, gente.

[00:57:07] Tchau, tchau.

[00:57:19] Tchau, tchau.