CONFLITOS DO MASCULINO
Resumo
O episódio inicia com uma reflexão sobre o conceito de masculinidade tóxica e a ideia de que o masculino estaria em crise diante das transformações sociais das últimas décadas. Os apresentadores Lucas Liedtke e André Alves, ambos psicanalistas, discutem como movimentos feministas, pautas identitárias e mudanças no mercado de trabalho desafiam os códigos tradicionais do que significa ser homem.
A conversa explora como a psicanálise históricamente pouco se ocupou em pensar sobre o homem, focando mais na compreensão do feminino. Referências a Freud e Lacan são discutidas, destacando como suas teorias refletem e perpetuam estruturas patriarcais, mas também como podem ser revisitadas criticamente. A obra de pensadores como Judith Butler, Paul Preciado e Pedro Ambra é mencionada para questionar a naturalização da masculinidade.
O episódio aborda as respostas reacionárias à crise do masculino, como os movimentos masculinistas, incels e red pills, que buscam resgatar versões caricatas e idealizadas da virilidade. Discute-se como essa reação está ligada a um sentimento de desamparo identitário e à dificuldade dos homens em lidar com a perda de privilégios.
A saúde mental masculina é outro tema central, com dados sobre como os homens buscam menos ajuda psicológica, têm maiores taxas de suicídio e usam menos serviços de saúde. A conversa explora como a repressão emocional e a dificuldade de expressar vulnerabilidade geram violência e isolamento.
Por fim, o episódio convida o psicanalista Lucas Bulamá para aprofundar a discussão sobre identidade masculina, ressentimento e as caricaturas oferecidas tanto por movimentos conservadores quanto por versões progressistas do masculino. A conversa enfatiza a necessidade de espaços seguros para aprendizagem e a importância de escutar a singularidade de cada sujeito além dos estereótipos de gênero.
Indicações
Books
- O que é um homem? — Livro de Pedro Ambra mencionado como valioso para quem quer se aprofundar no assunto das fórmulas de sexuação de Lacan e questionamentos sobre masculinidade.
- Problemas de Gênero e Corpos que Importam — Obras de Judith Butler discutidas como fundamentais para explodir convenções de gênero e criar modelos de existência mais livres.
- Indivíduo Singular Plural, a Identidade em Questão — Livro de Eduardo Leal Cunha que discute como a crise atual do masculino está ligada à figura do homossexual masculino como limite identitário.
- Seja Homem — Livro de JJ Bolas mencionado, com prefácio de Emicida que critica os imperativos da masculinidade tradicional e seus custos psíquicos.
Estudos
- Estudo do Instituto Ideia — Pesquisa mencionada que mostra que 47% dos homens brasileiros se acham bonitos, 58% nunca usariam camisa com estampa de oncinha, e muitos têm medo de desrespeitar normas do masculino.
- Pesquisa sobre homens jovens — Dados citados indicam que 44% dos entrevistados são a favor de que mulheres casem virgens, especialmente entre jovens, e muitos homens jovens não apoiam o feminismo.
- Estudo sobre amizade masculina (2021) — Pesquisa com 2.000 adultos estadunidenses mostra que menos da metade está satisfeita com número de amigos, enquanto 15% não tem nenhum amigo - número 5 vezes maior que nos anos 1990.
- Estudo Meninos Sonhando os Homens do Futuro — Projeto do Papo de Homem mencionado como iniciativa importante para repensar a criação de meninos e sonhar outros tipos de masculinidade.
People
- Judith Butler — Filósofa e teórica do gênero cuja obra é referência para pensar além das convenções binárias e criar modelos de existência mais livres.
- Pedro Ambra — Psicanalista autor de ‘O que é um homem?’, obra mencionada como importante para entender as fórmulas de sexuação lacanianas.
- Eduardo Leal Cunha — Psicólogo e psicanalista autor de ‘Indivíduo Singular Plural’, que discute a relação entre crise do masculino e a figura do homossexual.
- Suzana Muscati — Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo que cunhou o termo ‘desamparo identitário’ para explicar violências praticadas por sentimento de precariedade pessoal.
- Davidson Faustino — Sociólogo que discute como homens negros, mesmo atravessados pelo racismo, também podem ser opressores e não devem ser isentados de responsabilidade.
- Guilherme Almeida — Autor de texto sobre transmasculinidades que mostra como homens trans atuaram como ‘estufa de possibilidades’ para repensar o que é ser homem no Brasil.
- Nana Queiroz — Jornalista e ativista pelos direitos das mulheres, autora da ideia de que ‘os homens não são o vírus’ e que ‘meninos são a cura do machismo’.
- David Lapujard — Filósofo e professor da Sorbonne citado por dizer que ‘não podemos permanecer na fraqueza de cultivar apenas a força, porém ter a força de estar à altura da própria fraqueza’.
Linha do Tempo
- 00:03:40 — Introdução ao tema do novo masculino e complexidade da discussão — Lucas Liedtke introduz o tema reconhecendo sua complexidade e o risco de polarização. Ele destaca que o episódio levantará mais perguntas do que respostas, especialmente porque questões de gênero são terreno arriscado. Ambos concordam que é melhor começar pelo lugar de fala enquanto homens, usando teorias psicanalíticas para fazer um apanhado analítico sobre questões contemporâneas do masculino.
- 00:06:08 — A psicanálise e sua relação histórica com o masculino — Os apresentadores discutem como a psicanálise se ocupou pouco em pensar sobre o homem, focando mais em tentar compreender a mulher. Eles destacam a importância de estudar não apenas os oprimidos, mas também os opressores. A obra de Pedro Ambra ‘O que é um homem?’ é mencionada como referência valiosa para quem quer se aprofundar no assunto através das fórmulas de sexuação de Lacan.
- 00:14:11 — Judith Butler e a desnaturalização do gênero — André Alves menciona a importância da obra de Judith Butler para pensar além das convenções binárias de gênero. Ele destaca que Butler, assim como Freud e Lacan, tinha teorias sobre gênero, mesmo que não tão explícitas. A ideia central é que todos fazemos suposições sobre papéis de gênero, e o trabalho de pensadores como Butler busca explodir essas convenções para criar modelos de existência mais livres.
- 00:19:10 — Patriarcado, capitalismo e respostas reacionárias — Lucas Liedtke discute como o patriarcado está amarrado ao sistema capitalista, com agentes que exploram e rebaixam corpos considerados mais fracos. Ele descreve o patriarcado como sistema, o machismo como método e a misoginia como discurso. A conversa aborda as respostas reacionárias à ameaça de perda de privilégios, como movimentos que tentam retomar uma dignidade tradicional masculina através de ideais ultrapassados.
- 00:25:37 — Masculinidade tóxica e seus efeitos nos homens — Os apresentadores discutem o conceito de masculinidade tóxica como um culto ao ego narcísico que não pode ser questionado por sua fragilidade. Eles destacam como essa masculinidade faz mal aos outros, mas também aos próprios homens, através da repressão emocional, dificuldade de expressar sentimentos e transformação de afetos em violência. Exemplos como o do ex-presidente que não diz ‘eu te amo’ para o filho homem ilustram essa dinâmica.
- 00:28:29 — A figura do homossexual masculino e limites identitários — André Alves menciona o texto de Eduardo Leal Cunha sobre como a figura do homossexual masculino historicamente demarcou o limite para toda identificação masculina possível. Para corresponder à imagem ‘natural’ do homem, era preciso escapar de qualquer traço considerado perverso ou adulterado. Isso criou um campo de exclusão que definia o que era ser homem através da negação do homossexual.
- 00:34:55 — Participação do psicanalista Lucas Bulamá — Lucas Bulamá é convidado para contribuir com a discussão. Ele questiona se a masculinidade já teve algum momento fora da crise, sugerindo que talvez o que vemos hoje seja a emergência da voz de quem não conseguia participar da masculinidade hegemônica. Bulamá critica tanto as caricaturas red pill quanto as versões progressistas estereotipadas, destacando que todas as proposições identitárias são parciais e não capturam a singularidade dos sujeitos.
- 00:40:19 — Saúde mental masculina e estatísticas preocupantes — Os apresentadores discutem como os homens historicamente consideram saúde mental como ‘bobagem’ ou ‘mimimi’, sendo menos propensos a buscar ajuda. Eles apresentam estatísticas alarmantes: homens se matam quatro vezes mais que mulheres, 80% dos alcoólatras são homens, e eles cuidam menos da saúde física. A repressão emocional transforma ciúmes em feminicídio e frustração em abandono, com muitos homens tendo dificuldade de articular afetos.
- 00:46:44 — O ‘esquerdomacho’ e a desconstrução superficial — A conversa aborda o fenômeno do ‘esquerdomacho’ - homens que fazem discurso progressista mas não conseguiram desconstruir comportamentos machistas na prática. Compara-se com brancos que acham que não são mais racistas por lerem autores antirracistas. O perigo está em achar que já se desconstruiu completamente, quando na realidade o processo é contínuo e exige autocrítica constante.
- 00:48:43 — Transmasculinidades e expansão das possibilidades — André Alves menciona o texto de Guilherme Almeida sobre transmasculinidades, destacando como homens trans atuaram como ‘estufa de possibilidades’ no cenário brasileiro do que é ser homem. Ele lista diversas expressões de masculinidade trans: homens não binários, portadores de vulva, grávidos, afetivos, feministas, gays, bissexuais, trabalhadores sexuais, e heteronormativos. Essa diversidade mostra como existem possibilidades mais ou menos radicais do que é ser homem.
- 00:52:47 — Armadilhas do binarismo e competição de gênero — Lucas Liedtke alerta para as armadilhas do pensamento binário mesmo em discursos progressistas. Ele critica comparações baseadas em estereótipos de gênero que apenas alimentam uma guerra ‘nós versus eles’. Apesar da necessidade de desarticular o patriarcado, mensagens generalistas não promovem equidade social, apenas reforçam diferenciações hostis. É preciso escutar a singularidade de cada sujeito além dos papéis de gênero.
- 00:58:46 — Paternidade e educação de meninos — Os apresentadores discutem a epidemia de abandono paterno no Brasil: 6 milhões de brasileiros não têm o nome do pai na certidão de nascimento, e 11 milhões de famílias são formadas por mães que criam filhos sozinhas. Isso cria modelos de masculinidade ou muito faltantes ou muito autoritários. O estudo ‘Meninos Sonhando os Homens do Futuro’ do Papo de Homem é mencionado como iniciativa importante para repensar a criação de meninos.
Dados do Episódio
- Podcast: vibes em análise
- Autor: floatvibes
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2023-11-09T08:33:00Z
- Duração: 01:01:59
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/90f830c0-f4cb-0139-d4ee-0acc26574db2/episode/9b56934d-e14d-452d-a78e-ac05afed5d5f/
- UUID Episódio: 9b56934d-e14d-452d-a78e-ac05afed5d5f
Dados do Podcast
- Nome: vibes em análise
- Tipo: episodic
- Site: https://vibes-em-analise.zencast.website
- UUID: 90f830c0-f4cb-0139-d4ee-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Masculinidade tóxica é um termo que vem fazendo muitos de nós refletir criticamente sobre os códigos sociais e culturais do que significa ser homem.
[00:00:08] Mas tudo que é masculino é tóxico?
[00:00:10] As últimas décadas trouxeram transformações fundamentais que desafiam à máxima o mundo é dos homens.
[00:00:16] Revolução sexual, métodos anticoncepcionais, a solidificação da mulher no mercado de trabalho, as pautas identitárias.
[00:00:24] Enfim, é um contexto onde já virou costume dizer que o masculino entrou em crise
[00:00:28] e que o feminino não é aquele tal do sexo frágil ou o segundo sexo.
[00:00:33] A partir daí, ganharam tração movimentos que buscam definir o que seria um novo masculino.
[00:00:38] De um lado, a gente tem muitos homens dispostos a desmontar os estereótipos mais clássicos e mais nocivos.
[00:00:44] De outro, tem um efeito rebote de homens que se sentem muito ameaçados por tudo isso
[00:00:49] e retomam versões bastante caricatas do masculino.
[00:00:52] O homem muito bruto, o provedor, o pegador, o homem entre aspas que é muito homem.
[00:00:58] Mas afinal, o que é um homem?
[00:01:01] Alguns recorrem à narrativa do instinto do macho, das determinações supostamente naturais.
[00:01:07] Mas esse ser homem também é herdar uma longa trajetória do patriarcado que violenta e mata mulheres
[00:01:13] e permite ao homem gozar de mais direitos, de mais benefícios, de mais liberdade
[00:01:17] e ainda ganhar 20% a mais que as mulheres, segundo o IBGE.
[00:01:21] Mesmo assim, para na cultura de massa e nas mídias sociais, um sentimento de que os homens estão em baixa.
[00:01:26] Ficaram meio perdidos.
[00:01:28] Os extremos do opressor ou do frágil.
[00:01:31] Aprisionados entre o mito e o fracasso.
[00:01:33] Afinal, o que há para além do ideal da virilidade?
[00:01:37] E indo mais longe, como que a sociedade pode criar meninos que tenham a coragem
[00:01:41] e a responsabilidade de se tornarem homens antimachistas?
[00:01:45] Embora os últimos 50 anos tenham sido revolucionários para as mulheres,
[00:01:49] parece que a gente não tem movimentos correspondentes sobre a atualização dos papéis masculinos.
[00:01:55] Nesse cenário de tantas transformações,
[00:01:58] tão da ferida masculina foi se tornando crônica.
[00:02:00] E como diz o escritor James Baldwin,
[00:02:02] há poucas coisas abaixo do céu mais difíceis de entender e de perdoar do que a ideia de masculinidade.
[00:02:08] Oi, eu sou o Lucas Liedtke.
[00:02:10] E eu sou o André Alves.
[00:02:11] Esse é o Vibes em Análise,
[00:02:13] um podcast em que a gente busca analisar algumas vibes que estão submersas no inconsciente coletivo.
[00:02:17] O André e eu somos pesquisadores e psicanalistas
[00:02:20] e as nossas análises estão no perfil
[00:02:21] arroba floatvibes
[00:02:23] no Instagram, no TikTok e na nossa newsletter no Substack.
[00:02:26] Se você quer ajudar a manter esse podcast no ar,
[00:02:28] pode fazer uma contribuição no Apoia-se.
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[00:02:37] Então, muitos dos livros
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[00:02:48] O link também está aqui na descrição do episódio.
[00:02:50] E antes da gente começar realmente o episódio,
[00:02:52] tem uma notícia que a gente quer muito compartilhar.
[00:02:55] O Vibes em Análise
[00:02:55] acaba de virar um livro.
[00:02:58] Com os nossos parceiros da Editora Nacional,
[00:03:00] a gente atualizou e aprofundou 15 dos episódios
[00:03:02] mais marcantes do podcast
[00:03:04] em uma publicação, com novos questionamentos,
[00:03:06] referências teóricas, bibliográficas
[00:03:08] e participações de especialistas.
[00:03:10] Culpa, consumo, tesão,
[00:03:13] vergonha, amizades, sonhos,
[00:03:15] política, solidão gay,
[00:03:17] memes e muitos outros assuntos.
[00:03:19] Enfim, é uma grande surra de vibes.
[00:03:21] E assim como no podcast,
[00:03:22] a gente espera que as vibrações que a gente escutou
[00:03:24] e escreveu nesse livro estimulem
[00:03:26] novos contornos simbólicos,
[00:03:28] e quem sabe algumas transformações?
[00:03:31] Em breve, a gente conta mais
[00:03:32] sobre os eventos de lançamento
[00:03:34] e também outros conteúdos.
[00:03:35] O link para adquirir o livro está aqui na descrição do episódio.
[00:03:39] Então vamos lá.
[00:03:40] Lucas, como é que você enxerga esse tal
[00:03:42] do novo masculino?
[00:03:58] Bom, André,
[00:04:01] vamos pensar juntos aqui.
[00:04:03] O que eu estou sentindo é que esse vai ser um episódio
[00:04:05] daqueles bem ambiciosos,
[00:04:07] em que a gente tenta abordar um assunto
[00:04:09] muito amplo, complexo,
[00:04:12] delicado.
[00:04:14] Andando no fio da navalha do cancelamento.
[00:04:16] Então, já vamos avisando aqui
[00:04:18] que a gente talvez levante
[00:04:20] mais perguntas do que respostas,
[00:04:22] mais do que a gente já faz normalmente.
[00:04:24] Porque tem muitas visões, muitas formas de interpretar
[00:04:26] esse tema. E sempre que o assunto
[00:04:27] passa pela questão de gênero,
[00:04:29] a gente sabe que está navegando um terreno bem arriscado.
[00:04:33] Dá aquele medo de falar
[00:04:34] absurdos, de ofender alguém,
[00:04:36] de radicalizar demais as opiniões,
[00:04:39] de não se reconhecer
[00:04:40] no seu próprio machismo.
[00:04:42] E tem boas chances de muita gente
[00:04:44] não se sentir representado também.
[00:04:46] Ou querer argumentar que não é bem assim,
[00:04:48] entrar na defensiva,
[00:04:50] aquela história de, mas veja bem,
[00:04:52] nem todo homem. E aí as mulheres
[00:04:54] dizem, mas sempre um homem.
[00:04:56] E por aí vai.
[00:04:57] Com certeza, porque não é nada fácil
[00:04:59] essa conversa.
[00:05:01] E muita gente vai fazer e falar
[00:05:03] muita bobagem nesse percurso.
[00:05:05] Mas errar, e às vezes errar
[00:05:07] bastante, é parte de qualquer
[00:05:09] processo de aprendizado. Sim.
[00:05:11] Só que a gente insiste na ideia
[00:05:13] de que é melhor a gente aprender juntos. Sim.
[00:05:15] Do que a gente entregar esse aprendizado
[00:05:17] para partes mais
[00:05:19] nefastas da internet, da cultura.
[00:05:21] É. A real é que,
[00:05:23] abrindo aqui até para os nossos ouvintes,
[00:05:25] por muito tempo a gente pensou em fazer um episódio
[00:05:27] sobre o feminino. Sobre
[00:05:28] feminismos, questões do feminino.
[00:05:31] A gente já recebeu vários pedidos
[00:05:33] para falar sobre esse tema. Mas,
[00:05:35] talvez seja melhor mesmo a gente começar pelo
[00:05:37] nosso lugar de fala enquanto dois homens.
[00:05:39] E abrindo aqui as teorias
[00:05:41] de alguns pensadores,
[00:05:43] psicanalistas, para a gente fazer
[00:05:44] algum tipo de apanhado
[00:05:46] analítico sobre
[00:05:49] algumas das questões importantes
[00:05:50] e contemporâneas a respeito
[00:05:53] do masculino. Não todas,
[00:05:55] mas é um recorte. E,
[00:05:57] obviamente, não tem como falar do masculino
[00:05:58] sem falar do feminino e vice-versa.
[00:06:01] Mas, eu acho que é bom
[00:06:02] o nosso foco hoje ser
[00:06:04] o masculino. Até porque
[00:06:06] é muito curioso como a psicanálise
[00:06:08] se ocupou pouco para pensar
[00:06:10] sobre o homem. E muito
[00:06:12] sobre tentar compreender a mulher. E a gente
[00:06:14] viu muitos homens fazendo isso.
[00:06:16] Homens tentando entender o psiquismo
[00:06:18] e o sofrimento das mulheres. E falando
[00:06:21] em nome das mulheres.
[00:06:22] Que coisa estranha. Acho que já vale
[00:06:25] um primeiro aprendizado que é
[00:06:27] a gente não pode estudar
[00:06:28] e pesquisar e falar só sobre
[00:06:31] quem é oprimido. Mas também
[00:06:33] sobre o opressor.
[00:06:35] Por isso que eu gosto muito da provocação
[00:06:37] do nosso colega psicanalista Pedro Ambra
[00:06:39] que tem uma obra que se chama
[00:06:40] O que é um homem?
[00:06:42] Um livro que é muito valioso para quem quer
[00:06:44] se aprofundar mais no assunto e para quem tem
[00:06:46] mais afinidade com as fórmulas de sexuação
[00:06:49] do Lacan. Para ver o quanto elas são
[00:06:50] binárias ou não.
[00:06:53] Falocêntricas ou falogocêntricas
[00:06:54] e tudo mais. Mas para a gente não
[00:06:56] chegar complicando muito
[00:06:58] o que a gente pode começar definindo aqui então
[00:07:00] é que a gente precisa fazer questão
[00:07:02] sobre o masculino. Isso significa
[00:07:04] não tomar o masculino como padrão
[00:07:06] e o feminino como diferente. A mulher
[00:07:08] como o homem invertido. Porque
[00:07:10] isso seria agir no princípio da
[00:07:12] normatividade. O que é muito difícil
[00:07:14] porque a tradição da psicanálise e a
[00:07:16] nossa bibliografia básica é exatamente isso.
[00:07:18] É, e de não se questionar sobre a identidade
[00:07:20] masculina. Isso é um fenômeno que é linguístico
[00:07:22] porque fica muito claro quando a gente
[00:07:24] fala ou falava do
[00:07:26] homem não como masculino mas como
[00:07:28] sinônimo de ser humano.
[00:07:31] Universal. O homem universal
[00:07:32] histórico, antropológico. Na bíblia
[00:07:34] por exemplo, isso está lá assim
[00:07:36] como um show de horror. Então
[00:07:38] o primeiro passo realmente é
[00:07:40] desnaturalizar a masculinidade.
[00:07:43] Como diz o povo preciado
[00:07:44] não existe uma identidade mais
[00:07:46] estagnada e rígida do que
[00:07:48] a sua identidade invisível. Como se a identidade
[00:07:50] estivesse sempre no outro. Então
[00:07:52] acho que a gente começa aqui pensando
[00:07:54] quando e como que os homens vão começar
[00:07:56] a falar mais ou ter melhores
[00:07:58] conversas sobre o que
[00:08:00] é ser homem, o que poderia ser
[00:08:02] ou deveria ser ser um homem.
[00:08:04] Isso vem acontecendo de forma um tanto nichada
[00:08:06] considerando a grande cultura de massa
[00:08:08] e às vezes ainda acontece da pior forma possível
[00:08:10] num caminho de retrocesso
[00:08:12] e de conservadorismo. Então
[00:08:14] acho que a ideia hoje é dar um pequeno passo
[00:08:16] pra aprofundar e
[00:08:18] expandir essa discussão. Antes da gente
[00:08:20] abrir essa questão da crise
[00:08:22] ou das crises do masculino, Lucas
[00:08:24] pra gente começar falando um pouco
[00:08:26] sobre a teoria psicanalítica
[00:08:28] vale a gente lembrar que o Lacan
[00:08:30] foi muito inovador quando propôs
[00:08:32] que pra além da
[00:08:34] anatomia ou das construções sociais
[00:08:36] o homem seria aquele que
[00:08:38] ocupa o mundo marcado
[00:08:40] pela lei e pela exceção.
[00:08:43] Se a gente pensar
[00:08:43] no pai da horda primitiva
[00:08:46] se a gente pensar no nome do pai
[00:08:48] construções do Lacan
[00:08:50] que fazem a gente pensar
[00:08:51] em qual que é o lugar do homem
[00:08:54] e que ao mesmo tempo
[00:08:56] mais que o Freud, o Lacan deu uns passos
[00:08:59] pra gente refletir
[00:09:01] ou elaborar
[00:09:02] como esses lugares não são necessariamente
[00:09:05] imutáveis ou invisíveis
[00:09:07] como você trouxe.
[00:09:08] Só que tem muita gente boa que se debruçou
[00:09:11] sobre essa questão e o Pedro Ambra é um deles
[00:09:13] não deixa de ser curioso
[00:09:15] que o que não existe pro Lacan
[00:09:17] é a mulher.
[00:09:19] Exatamente esse lugar
[00:09:21] do negativo que você descreveu.
[00:09:23] Eu nem ia trazer essa colocação aí
[00:09:25] do Lacan porque
[00:09:26] então vamos pro Freud
[00:09:29] vamos pro Freud, acho bom também
[00:09:31] porque o discurso do Freud
[00:09:32] é cheio de afirmações que definem
[00:09:35] o feminino pelo negativo
[00:09:36] e que colocam a mulher
[00:09:38] sempre num lugar bastante secundário
[00:09:40] ele faz inclusive algumas referências
[00:09:42] que não são muito lisonjeiras
[00:09:44] pras mulheres. O que eu acho interessante
[00:09:47] é que ele não esconde o fato
[00:09:49] de como ele conhecia
[00:09:51] pouco o universo feminino, como ele dizia
[00:09:53] quase deixando uma provocação
[00:09:55] barra uma herança pra primeira vez que ele conhece o universo feminino.
[00:09:56] A primeira geração de psicanalistas, especialmente
[00:09:58] psicanalistas mulheres, pra trazerem
[00:10:00] um pouco mais de luz pro assunto.
[00:10:03] A gente sabe que tem umas imagens
[00:10:04] que são bastante difíceis da gente
[00:10:06] pensar hoje em dia só pra dar
[00:10:08] uma palhinha inveja do pênis.
[00:10:11] Mas, o que que tudo isso
[00:10:12] nos diz? Por que que a gente tá falando
[00:10:14] disso tudo? Pra gente cancelar o
[00:10:16] Freud, começar a Freud bashing, fazer
[00:10:18] tudo isso? Não, óbvio que não.
[00:10:20] Mas, pra lembrar que a gente
[00:10:22] tem muito trabalho pela frente
[00:10:24] pra desnaturalizar a compreensão
[00:10:26] de masculinidade
[00:10:28] que seguem dominantes
[00:10:30] até hoje. Inclusive na teoria
[00:10:32] psicanalítica. Com certeza.
[00:10:35] É um debate bem complexo, né?
[00:10:36] Bem polarizante o quanto
[00:10:38] a psicanálise é binária
[00:10:40] demais, pra começar. O quanto
[00:10:42] ela é, de fato, é anterior e
[00:10:44] defasada em relação às teorias de gênero.
[00:10:47] Então, a psicanálise vai sendo
[00:10:49] acusada muitas vezes de
[00:10:50] ser uma epistemologia misógina.
[00:10:53] E essas críticas tem que ser
[00:10:54] mesmo escutadas e discutidas.
[00:10:56] O Freud vai articular a noção
[00:10:58] de falo como uma referência de valor
[00:11:01] de um objeto que significa poder,
[00:11:03] status, dominação, que
[00:11:04] desperta desejo e inveja.
[00:11:06] Inclusive entre homens, que reconhecem
[00:11:08] outros homens como mais poderosos.
[00:11:11] E aí, sim, inicialmente
[00:11:12] a teoria passava muito pelo
[00:11:14] órgão genital masculino, literalmente o pênis.
[00:11:17] Psicanálise começa com
[00:11:18] uma certa fixidez e
[00:11:20] um biologismo, mas vai
[00:11:22] evoluindo pra um aspecto mais
[00:11:24] psicossocial. O falo vai
[00:11:26] sendo repensado depois
[00:11:28] em tudo que ele representa.
[00:11:30] E todo o imaginário e o simbólico que vem aí.
[00:11:33] Então, já tem um patriarcado
[00:11:35] impregnado na própria teoria
[00:11:36] que, sim, reflete a cultura
[00:11:38] da época, reflete a cultura atual,
[00:11:41] mas que não pode servir pra
[00:11:42] perpetuar esses valores. Então,
[00:11:44] a teoria precisa nos ajudar a entender
[00:11:46] a cultura pra questionar
[00:11:48] e transformar a própria cultura e as dinâmicas
[00:11:50] entre os sujeitos. Então, óbvio que
[00:11:52] o Freud, em vários níveis, era, sim,
[00:11:54] machista, mas vamos avançar.
[00:11:56] Avançar um pouco além da polêmica, como você falou.
[00:11:59] Não ficar só na lacração,
[00:12:00] na lógica do cancelamento. E pensar,
[00:12:02] inclusive, nessa postura
[00:12:04] que ele teve, de fazer algo
[00:12:06] bastante inovador na época, que era
[00:12:08] escutar aquelas mulheres. Escutar
[00:12:10] os seus sofrimentos. Se interessar
[00:12:12] e legitimar as suas queixas.
[00:12:15] As suas dores, as suas dúvidas,
[00:12:17] as suas confusões mentais.
[00:12:18] Ao invés de só chamar elas de loucas
[00:12:20] ou de bruxas, como
[00:12:22] se fazia. Então, e claro,
[00:12:24] tem o mérito delas, obviamente,
[00:12:26] de ter coragem de se abrir, com relação
[00:12:28] a coisas tão íntimas, pra um homem
[00:12:30] que tava ali disposto a escutá-las.
[00:12:32] E romper com um sistema que era tão
[00:12:34] engessado e opressor,
[00:12:37] que era justamente o que tava
[00:12:39] deixando essas mulheres doentes.
[00:12:41] Com tanta repressão da sexualidade
[00:12:42] feminina, do desejo feminino, que
[00:12:44] sempre foi muito misterioso e assustador.
[00:12:46] E um grande tabu pro homem.
[00:12:48] A gente tinha, então, naquela época, um
[00:12:50] adoecimento que a gente pode dizer
[00:12:52] que era um adoecimento por generificação.
[00:12:55] Um termo que não existia na época.
[00:12:56] Na época, obviamente, mas porque a gente
[00:12:58] só começa a se falar em gênero nos anos 70 e 80.
[00:13:01] Hoje, algumas coisas
[00:13:02] podem ser meio parecidas,
[00:13:04] mas tem outras muito diferentes.
[00:13:07] E isso exige uma revisitação
[00:13:08] da teoria. A gente vê tantos
[00:13:10] analistas se desdobrando
[00:13:12] em mil pedaços pra conseguir manter
[00:13:14] uma imagem tão sacralizada
[00:13:16] do Freud, do Lacan,
[00:13:18] de defender eles a qualquer custo.
[00:13:21] E tem tanta gente nova,
[00:13:22] tão interessante, articulando pensamentos novos,
[00:13:24] que, às vezes, sinceramente,
[00:13:26] parece que é uma grande perda de tempo
[00:13:28] e um retrocesso, esse rigor que fica
[00:13:30] querendo manter um certo
[00:13:32] conservadorismo retrógrado.
[00:13:35] A gente tem que admitir que
[00:13:36] a psicanálise foi, e ainda é,
[00:13:39] bastante cúmplice
[00:13:40] com a epistemologia da
[00:13:42] diferença sexual. Heterossexual,
[00:13:45] cis, normativa,
[00:13:47] e a gente devia parar
[00:13:48] de tentar recalcar esse fato.
[00:13:51] Você não acha?
[00:13:51] Muito bom, Lucas.
[00:13:53] Trouxe pra mim uma lembrança
[00:13:55] muito…
[00:13:56] boa, de como, ao longo da minha
[00:13:58] formação como analista,
[00:14:00] várias dessas questões me incomodavam demais.
[00:14:03] E, talvez,
[00:14:04] onde eu tenho encontrado um pouco de
[00:14:06] elaboração, tenha sido
[00:14:08] exatamente na obra da Judith Butler,
[00:14:11] uma leitora de Freud
[00:14:12] e de Lacan. A Butler
[00:14:14] tem uma frase que eu gosto muito, que é assim,
[00:14:17] todo mundo tem uma teoria
[00:14:18] de gênero, então não é tudo culpa
[00:14:20] dela. Inclusive, o Freud e o Lacan
[00:14:22] tinham teorias sobre gênero.
[00:14:25] A questão é que isso não é necessariamente
[00:14:26] as claras
[00:14:28] ou tão manifestos
[00:14:30] sobre gênero, mas está
[00:14:32] tudo lá. E muitos analistas
[00:14:34] talvez façam um grande esforço pra, como
[00:14:36] você muito bem disse, recalcar.
[00:14:38] Mas aí vale a gente lembrar que a Judith Butler
[00:14:40] não foi a primeira e não é
[00:14:42] a única a falar sobre tudo isso. Muito pelo contrário.
[00:14:45] Tem desde a
[00:14:46] Gail Rubin até a Simone de Beauvoir.
[00:14:49] Liedelman, Juliet Mitchell,
[00:14:51] enfim, tem muita gente que fala
[00:14:52] e pensou sobre isso.
[00:14:53] A questão é que todos nós
[00:14:55] fazemos suposições
[00:14:56] sobre os papéis
[00:14:58] e sobre como os gêneros
[00:15:00] devem se comportar.
[00:15:02] O que está por trás da teoria da Butler
[00:15:04] e de muita gente é
[00:15:06] tentar explodir as convenções de gênero
[00:15:08] pra gente conseguir criar modelos de
[00:15:10] existência nos quais a gente
[00:15:12] seja mais livre pra amar, pra nos
[00:15:14] organizar, pra existir.
[00:15:16] Sem medo de sofrer grandes violências por estar
[00:15:18] no mundo. Se a gente pega o Problemas
[00:15:20] de Gênero e o Corpos que Importam, dois dos
[00:15:22] trabalhos mais relevantes da Butler,
[00:15:23] o que a gente tem por trás
[00:15:25] é exatamente essa pergunta que você trouxe
[00:15:28] do Pedro Ambra, que é o que é ser um
[00:15:29] homem e também o que é ser uma mulher.
[00:15:32] E a insistência de que
[00:15:33] essas perguntas têm que ser perguntas abertas
[00:15:35] e que as nossas diferenças
[00:15:38] genéticas e biológicas
[00:15:39] não devem determinar quem a gente
[00:15:42] é, o que a gente pode ou não pode
[00:15:43] fazer, ou mesmo que tipo de roupa
[00:15:45] a gente tem que usar.
[00:15:47] Quando 47% dos homens brasileiros
[00:15:50] dizem que se acham bonitos
[00:15:52] ou mesmo
[00:15:53] 58% afirmam
[00:15:55] que nunca usariam uma camisa
[00:15:57] com estampa de oncinha, dois dados
[00:15:59] de uma pesquisa. A gente também está tendo
[00:16:01] notícias de que grande
[00:16:03] parte dos que se identificam como homens
[00:16:05] no Brasil tem medo
[00:16:07] dos resultados de desrespeitar
[00:16:09] as normas do masculino.
[00:16:11] O que está introjetado? Ser bonito
[00:16:13] abre portas, então eu não posso
[00:16:15] me achar feio. Ser feio
[00:16:17] é assumir que ninguém vai me querer.
[00:16:19] Usar estampa de oncinha ou camisa rosa
[00:16:21] pode atrair olhares estranhos
[00:16:23] com os quais eu não vou saber lidar.
[00:16:25] Claro que o sistema de controle
[00:16:27] do gênero não oprime
[00:16:29] todo mundo de forma igualitária,
[00:16:31] mas também tem as suas formas
[00:16:33] de opressão psíquica
[00:16:35] para homens, mesmo que eles se
[00:16:37] beneficiem desse sistema.
[00:16:39] Existe muita repressão
[00:16:41] envolvida em
[00:16:42] tornar-se um homem.
[00:16:44] Parafraseando a Simone de Beauvoir que falava sobre como
[00:16:47] não se nasce mulher, mas torna-se mulher.
[00:16:49] Se conformar com essas normas
[00:16:51] que a gente já está trazendo logo de largada,
[00:16:53] tem um custo psíquico.
[00:16:54] Mudar a forma como a gente enxerga
[00:16:57] gênero é necessariamente
[00:16:59] uma forma da gente mudar a realidade.
[00:17:01] Mudar as interpretações do que a gente
[00:17:03] chama de, aspas, homem
[00:17:04] é também um jeito da gente mover o mundo.
[00:17:13] É, André, talvez
[00:17:14] seja interessante ter uma base assim
[00:17:16] da gente estar muito alinhados, antes de a gente
[00:17:18] começar a falar até do sofrimento
[00:17:21] do homem, que é
[00:17:22] o sistema de informações
[00:17:24] que a gente vive, que é
[00:17:26] o patriarcado. São informações
[00:17:28] e comandos, como você disse,
[00:17:30] que é curioso, porque o
[00:17:32] homem, ele já nasce homem no sentido
[00:17:34] de que ele já nasce com muitos direitos.
[00:17:36] Mas sim, ele tem um tornar-se
[00:17:38] homem, ou tornar-se mais homem do que ele
[00:17:40] já é, nesse ideal, nesse mito.
[00:17:42] Porque existem esses comandos que estão ali
[00:17:44] nos dizendo que o homem
[00:17:45] manda na mulher, que o homem não chora,
[00:17:48] que o homem não transa com
[00:17:50] outro homem, que o homem nem cumprimenta outro
[00:17:52] homem com um beijo na bochecha. Enfim, são esses
[00:17:54] comandos e informações que estão
[00:17:56] aí dominando e que vêm de um
[00:17:58] racionalismo
[00:17:59] bastante primitivo e que são bem
[00:18:02] difíceis de serem quebrados. A gente vê
[00:18:04] uma certa flexibilização em alguns
[00:18:06] contextos nas últimas décadas,
[00:18:08] mas grande parte
[00:18:10] do problema é que está tudo
[00:18:12] isso muito bem amarrado com
[00:18:14] o sistema capitalista, com os senhores
[00:18:16] da dominação, que são
[00:18:18] esses agentes do capitalismo, que
[00:18:20] detêm e exploram o corpo do outro,
[00:18:22] que reduzem e rebaixam,
[00:18:24] o corpo do outro. É a história
[00:18:26] do Marcuse que você trouxe alguns episódios
[00:18:28] atrás. Essa degradação
[00:18:30] da mulher ou de corpos que são
[00:18:32] considerados supostamente
[00:18:34] mais fracos ou frágeis em
[00:18:36] uma hierarquia social. São corpos
[00:18:38] mais matáveis.
[00:18:39] É como um tipo de humilhação
[00:18:42] da carne em nome do poder,
[00:18:44] para fazer a manutenção do lugar
[00:18:46] de autoridade. É isso que, infelizmente,
[00:18:48] supostamente, faz o homem ser
[00:18:50] homem. Faz o homem ser
[00:18:52] mais homem que outros homens,
[00:18:54] perante os outros homens e também
[00:18:55] perante muitas mulheres.
[00:18:57] É essa potência que precisa ser sempre
[00:18:59] hiperpotência. É o
[00:19:01] imbrochável, a virilidade como um mito,
[00:19:04] porque é o ideal. Tudo isso
[00:19:05] está dentro de uma estratégia de poder do masculino
[00:19:08] enquanto gênero.
[00:19:10] Aí a gente tem o patriarcado
[00:19:11] como um sistema, o machismo
[00:19:14] como um método e a misoginia
[00:19:16] como um discurso. E a gente tem
[00:19:17] que considerar que o feminismo
[00:19:19] é bastante recente,
[00:19:21] pensando na história da humanidade.
[00:19:24] É tão recente que em alguns lugares do mundo
[00:19:26] mal começou, se é que chegou.
[00:19:28] Então, ainda se vive muito
[00:19:30] um reinado absoluto e supremo
[00:19:32] dos homens. Inclusive, essa sociedade
[00:19:34] do desempenho e da performance
[00:19:36] que a gente tanto fala,
[00:19:38] está aí explicando tudo isso, nos mostrando
[00:19:40] quais são os valores que estão em voga.
[00:19:42] E que a gente pode ir questionando, para ver
[00:19:44] o que a gente coloca no lugar.
[00:19:45] Complicado é que a gente tem visto uma resposta
[00:19:48] a essa ameaça de perda
[00:19:50] de um lugar de privilégio,
[00:19:52] que são esses movimentos reacionários.
[00:19:54] Não danosos e absurdos,
[00:19:56] talvez nem mereçam ser muito citados
[00:19:58] aqui, mas que é esse pavor
[00:20:00] à feminização da sociedade.
[00:20:02] Uma tentativa muito desesperada
[00:20:04] de retomar a dignidade
[00:20:06] tradicional do homem, que está sendo hoje
[00:20:08] colocada em risco.
[00:20:10] Lembra até a história da Ângela Diniz,
[00:20:12] da legítima defesa da honra,
[00:20:13] que justificaria um assassinato. Isso nos anos 70.
[00:20:16] Mas que, enfim, é essa ideia
[00:20:17] da honra masculina. E que vai
[00:20:20] ficando tão ridícula, quando a gente para
[00:20:22] para pensar. Porque o homem,
[00:20:23] o homem dito machão,
[00:20:26] vai achar que o ridículo está
[00:20:27] num homem que é, entre aspas, mais feminino.
[00:20:30] Que isso é o cúmulo da humilhação.
[00:20:31] Um homem que, de repente, se veste mulher,
[00:20:34] ou que se reconhece como uma mulher trans.
[00:20:36] E a gente tem visto circular
[00:20:37] esses discursos de uma forma tão
[00:20:40] abominável.
[00:20:42] Mas essa desmoralização
[00:20:43] desses homens no cenário político,
[00:20:45] inclusive, tem sido um espetáculo interessante
[00:20:47] de acompanhar. A gente tem visto muitas mulheres
[00:20:49] que conseguem balançar
[00:20:51] a cadeira desses homens,
[00:20:53] dos lugares de poder. Homens que estão
[00:20:55] mais assim, para meninos, garotos.
[00:20:58] E elas vêm fazendo essas articulações
[00:20:59] tão inteligentes e tão
[00:21:01] corretas e agressivas, porque tem que
[00:21:03] ser agressivas. Porque não
[00:21:06] dá mais para deixar isso passar.
[00:21:08] Esse homem ultraconservador que você foi buscar,
[00:21:10] super reacionário,
[00:21:12] é interessante mesmo a gente sublinhar
[00:21:14] como tem uma camada de
[00:21:15] ressentimento muito grande.
[00:21:17] Quase uma reação meio desesperada
[00:21:20] em relação a todas essas mudanças
[00:21:22] que a sociedade vem vivendo,
[00:21:23] principalmente através dos
[00:21:25] movimentos feministas ou das ondas
[00:21:27] do feminismo, mas também
[00:21:29] através de pautas LGBTQIA+,
[00:21:32] e várias outras questões que a gente foi citando
[00:21:34] desde o começo do episódio.
[00:21:35] E isso vai se configurar através de uma tentativa
[00:21:38] de retorno a um passado idealizado
[00:21:40] que a gente sabe nunca necessariamente
[00:21:41] existiu. Como se a virilidade
[00:21:44] se tornasse inversamente proporcional
[00:21:46] à autonomia
[00:21:46] das mulheres ou de pessoas LGBT,
[00:21:50] enfim. A ideia central
[00:21:52] é um resgate de um passado,
[00:21:53] em que, em tese,
[00:21:55] se sabia o que era ser homem de verdade.
[00:21:58] Como se os homens do passado
[00:22:00] não tivessem tido as suas próprias crises.
[00:22:02] Então a ideia de crise do masculino
[00:22:04] está exatamente
[00:22:05] fundamentada na possibilidade
[00:22:08] de que deve ter havido
[00:22:09] uma era de ouro dos homens.
[00:22:12] E que isso foi destruído
[00:22:13] pela pós-modernidade globalista,
[00:22:16] usando termos bem
[00:22:17] frequentes nessas esferas ultraconservadoras.
[00:22:21] Só que quando a gente estuda
[00:22:22] sobre isso com um pouco mais de
[00:22:23] profundidade, o que fica evidente
[00:22:26] é que existe uma grande tentativa em curso
[00:22:28] de não se haver com os seus
[00:22:30] próprios limites. Essa imposição
[00:22:32] incessante de resgate
[00:22:34] e retorno
[00:22:35] vai produzir muita violência.
[00:22:38] Uma violência direta de ataque
[00:22:40] e também uma violência indireta.
[00:22:42] Porque, como você muito bem disse, as reações
[00:22:44] a esse discurso ultraconservador precisam
[00:22:46] ser agressivas para conseguir
[00:22:47] se impor de alguma forma. Mas,
[00:22:50] de qualquer jeito, a gente está falando de uma
[00:22:51] narrativa muito idealizada sobre
[00:22:53] si. Só que é um ideal muito
[00:22:55] oco. Porque o mito da
[00:22:57] virilidade em si é uma grande
[00:22:59] farsa. Ou melhor,
[00:23:01] ele é construído em cima de
[00:23:03] muita humilhação do outro.
[00:23:06] É uma busca à
[00:23:07] completude narcísica
[00:23:09] que tem como preço, ou como
[00:23:11] custo, transformar
[00:23:13] várias outras pessoas em bode expiatório.
[00:23:16] Você falou de
[00:23:17] um ideal invisível e eu pensei naquela
[00:23:19] imagem da mão invisível do mercado.
[00:23:21] Você falou do patriarcado tão ligado
[00:23:23] ao capitalismo, por exemplo.
[00:23:25] Mas, de novo, para que esse modelo
[00:23:27] possa existir, é preciso rebaixar
[00:23:29] ou mesmo humilhar
[00:23:31] e matar
[00:23:32] toda uma outra série de corpos.
[00:23:36] Tem que estar abaixo.
[00:23:37] Como se a única fonte garantidora
[00:23:39] de autoestima fosse uma posição
[00:23:41] de superioridade em relação ao outro.
[00:23:44] Uma superioridade que ela é velada,
[00:23:45] ela não é falada e que precisa
[00:23:47] acreditar que o outro não tem nenhum valor.
[00:23:49] É disso que a gente está falando
[00:23:51] quando, naquele estudo que eu citei,
[00:23:53] 44% dos entrevistados
[00:23:56] dizem que são a favor de que
[00:23:57] as mulheres casem virgens.
[00:23:59] Um número que é especialmente maior
[00:24:02] entre jovens.
[00:24:04] A gente tem também números
[00:24:05] bastante impressionantes de homens
[00:24:07] jovens que não apoiam o feminismo.
[00:24:10] Que é uma pergunta tão difícil de
[00:24:11] responder. Se você apoia ou se você não apoia
[00:24:13] o feminismo. O que é feminismo?
[00:24:15] Tantas interpretações possíveis.
[00:24:17] Esse significante que ficou tão grande.
[00:24:19] Só que nessa ideia de superioridade
[00:24:22] eu acho que a grande questão,
[00:24:23] Lucas, é quem está realmente por baixo.
[00:24:26] A Suzana Muscati,
[00:24:27] a psicanalista que também
[00:24:29] é da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo,
[00:24:32] tem um texto em que ela
[00:24:33] fala muito bem sobre como
[00:24:35] inversamente ao que
[00:24:37] possa parecer, a necessidade
[00:24:39] de manutenção da dominação
[00:24:41] e de poderes fixos
[00:24:42] não representa uma condição de poder.
[00:24:45] Pelo contrário, revela a
[00:24:47] falta de poder.
[00:24:49] Ela cunhou essa expressão de desamparo
[00:24:51] identitário para definir
[00:24:53] um tipo de violência que é
[00:24:55] praticada não como resultado
[00:24:57] de um sentimento de força e poder
[00:24:59] de um sobre o outro,
[00:25:01] mas em função de um sentimento
[00:25:03] muito desnorteador
[00:25:05] de precariedade pessoal,
[00:25:08] de fracasso, de perda
[00:25:09] de identidade. Que é uma
[00:25:11] ideia muito interessante
[00:25:13] para a gente pensar na crise
[00:25:15] do masculino. Perfeito, você
[00:25:17] já está se avançando aí
[00:25:18] na problematização do conceito
[00:25:21] do falo. Pode deixar, talvez,
[00:25:23] mais para o final ou até para um outro episódio,
[00:25:25] porque realmente é complexo, mas que passa
[00:25:27] exatamente por aí. É o significante da
[00:25:29] falta. Quando a gente foi falando aí
[00:25:31] veio muito estar no ar
[00:25:33] esse termo tão comum que é
[00:25:35] a masculinidade tóxica.
[00:25:37] Que é esse masculino que
[00:25:38] tem um culto ao próprio ego,
[00:25:41] um narcisismo meio inabalável,
[00:25:44] que não consegue lançar um olhar
[00:25:45] crítico para si mesmo, porque realmente é
[00:25:47] muito frágil, pode desmoronar.
[00:25:49] Tem uma estrutura muito precária
[00:25:51] que não pode ser questionada.
[00:25:53] A masculinidade, como a gente sabe, faz muito mal
[00:25:55] para os outros, mas no fim também faz muito
[00:25:57] mal para si mesmo, porque vai
[00:25:59] passar pela violência, nessas explosões,
[00:26:01] não consegue expressar os sentimentos,
[00:26:03] reprime as suas emoções,
[00:26:05] como medo. O homem não pode sentir
[00:26:07] medo, não pode sentir tristeza
[00:26:09] ou até o amor. A doçura,
[00:26:11] a ternura. Eu lembro sempre daquela cena
[00:26:13] do nosso infeliz ex-presidente
[00:26:15] no programa da Luciana Gimenez
[00:26:17] dizendo com muito orgulho
[00:26:19] que ele não diz eu te amo para o seu filho
[00:26:21] homem. Ele só diz para a filha.
[00:26:23] Tão endurecido, tão homofóbico
[00:26:25] que trabalham para poder
[00:26:27] desbloquear e compartilhar os seus sentimentos.
[00:26:30] Esses homens com tanta
[00:26:31] dificuldade de mostrar qualquer
[00:26:33] vulnerabilidade. E isso considerando
[00:26:35] também que existem muitas mulheres
[00:26:37] que não vão se interessar por um homem que se mostra
[00:26:39] mais vulnerável. E aí a gente tem um patriarcado
[00:26:41] infiltrado nas mulheres
[00:26:43] que acreditam que os homens precisam ser
[00:26:45] realmente mais autoritários
[00:26:47] ou incisivos e reprimir o seu lado
[00:26:49] mais gentil, mais empático.
[00:26:52] Então, nesse sentido,
[00:26:53] existe uma desconstrução e uma reconstrução
[00:26:56] que envolve todo mundo.
[00:26:57] Não só os homens, mas
[00:26:59] é complicado também porque a gente não
[00:27:01] manda no nosso desejo.
[00:27:03] Você pode se atrair por um tipo de homem
[00:27:05] ou um tipo de mulher que não é
[00:27:07] o que você gostaria segundo as
[00:27:09] visões de gênero que você
[00:27:11] tem ou que você acha que deveria ter.
[00:27:13] Mas como é que você vai mudar a sua força?
[00:27:15] O que dá para fazer
[00:27:16] além de ir explorando
[00:27:19] o seu desejo, entendendo algumas motivações
[00:27:21] inconscientes, ver quais
[00:27:23] são as suas formações
[00:27:25] de entendimento de gênero que a gente teve
[00:27:26] na infância, nossos modelos, figuras
[00:27:29] que nos marcaram e, obviamente,
[00:27:31] tudo que a cultura fez e faz
[00:27:33] com a gente. E aí, não tem como não
[00:27:35] falar da pornografia como esse
[00:27:37] exemplo tão gráfico
[00:27:39] da supremacia masculina
[00:27:40] do agente masculino
[00:27:42] agindo sobre um objeto feminino,
[00:27:45] do prazer sexual mediado realmente
[00:27:47] pela exibição da satisfação
[00:27:49] masculina a qualquer custo.
[00:27:50] Por meio do domínio físico, psíquico,
[00:27:53] da humilhação,
[00:27:55] do desprezo à mulher, se isso for necessário,
[00:27:57] tudo que for necessário para fazer
[00:27:59] um homem gozar, mesmo que passe
[00:28:01] pela violência. Será que é possível
[00:28:03] reinventar essa sexualidade
[00:28:05] masculina? Como ser um homem
[00:28:07] heterossexual que olha para a mulher
[00:28:09] não de forma predatória,
[00:28:11] mas com respeito, com admiração,
[00:28:13] até com idolatria, porque
[00:28:14] a grande maioria dos homens
[00:28:16] héteros idolatram outros homens
[00:28:19] e não necessariamente mulheres.
[00:28:21] Que homens que vão idolatrar mais as mulheres?
[00:28:22] Os gays.
[00:28:25] O Eduardo Leal Cunha,
[00:28:29] psicólogo e psicanalista que escreveu aquele livro
[00:28:31] muito interessante chamado
[00:28:32] Indivíduo Singular Plural, a Identidade em Questão,
[00:28:36] tem um texto que eu acho
[00:28:37] fantástico. Ele fala
[00:28:39] de como a gente acredita bastante que, como
[00:28:41] cultura, a crise atual do masculino
[00:28:43] está mobilizada principalmente pelos avanços
[00:28:45] dos movimentos feministas dos últimos séculos,
[00:28:47] algo que a gente está falando bastante aqui.
[00:28:49] Só que ele propõe que essa crise também está
[00:28:51] intimamente ligada a uma outra
[00:28:52] figura negativa do masculino, o homossexual
[00:28:55] masculino, o gay, a bicha, o viado,
[00:28:57] a gente pode chamar como quiser.
[00:28:58] Até porque a gente é, a gente chama como a gente quiser.
[00:29:01] Muito bem. O que ele
[00:29:03] vai discutindo é que a figura
[00:29:05] do homossexual foi demarcando
[00:29:06] historicamente para o homem algo fundamental
[00:29:09] a qualquer identidade, que é
[00:29:10] o campo de exclusão, o limite para
[00:29:13] toda e qualquer identificação possível.
[00:29:15] Ou seja, para corresponder a uma
[00:29:17] imagem natural do homem, era preciso
[00:29:19] escapar de qualquer traço
[00:29:21] ou vestígio,
[00:29:22] de pertencer
[00:29:24] ao mundo oposto disso, a perversão,
[00:29:27] a adulteração do que é
[00:29:29] o homem natural.
[00:29:30] E, consequentemente, escapar ao homem que
[00:29:32] deseja outro homem abertamente.
[00:29:35] É uma ideia muito parecida do que o branco
[00:29:37] fez com o negro, conforme a gente falou tanto
[00:29:39] lá no episódio do antirracismo.
[00:29:41] É, tem algo aí. Pensando nos gays
[00:29:43] também, esse gay discreto, fora do
[00:29:44] meio, que não dá pinta, porque
[00:29:46] se ele for feminino, ele vai ser desvalorizado,
[00:29:49] ele tem que passar desapercebido, ele tem
[00:29:51] que ser só mais um homem.
[00:29:52] Por quê? Porque, entre aspas, todos os homens
[00:29:54] são iguais. Existem muitas imagens
[00:29:57] de formações coletivas
[00:29:58] masculinas, do exército,
[00:30:01] do uniforme, do time esportivo,
[00:30:03] a torcida organizada,
[00:30:05] algo que faz essa homogenização
[00:30:06] de cenas de coletivos
[00:30:08] homoafetivos, como uma aliança
[00:30:11] masculina, que é estruturante.
[00:30:13] Tem até uma tendência meio esquisita aí,
[00:30:15] que eu não sei se você já viu rolando nas redes sociais,
[00:30:17] de mulheres perguntando
[00:30:19] para os seus namorados se eles costumam
[00:30:20] pensar muito no exército romano.
[00:30:22] Império romano. Exato.
[00:30:24] Essa história é uma loucura. E aí todas ficam muito surpresas
[00:30:27] de descobrir que sim, que esse é um universo
[00:30:28] que interessa muito os homens, hoje em
[00:30:30] 2023. E aí tem alguma coisa
[00:30:33] que me remete a uma
[00:30:35] tentativa de escapar
[00:30:36] da sua própria individualidade, da sua
[00:30:38] subjetividade, de olhar para dentro
[00:30:40] de si. Porque muitos homens
[00:30:42] não percebem como o patriarcado é um sistema
[00:30:45] que prejudica e
[00:30:47] precariza a sua própria subjetividade.
[00:30:49] E que a insegurança se manifesta
[00:30:51] aí. É um narcisismo estruturalizado.
[00:30:52] É um narcisismo estruturado no gênero. É acreditar que
[00:30:54] você não é bom porque você é bom.
[00:30:56] Você é bom porque você é um homem.
[00:30:58] É por isso que a gente precisa pensar em como
[00:31:00] mesmo essa ideia de
[00:31:02] o que é ser um homem
[00:31:04] ficou difusa e confusa
[00:31:07] demais nos últimos tempos.
[00:31:09] A ponto da gente precisar
[00:31:11] voltar a ideais
[00:31:12] muito antigos do que é
[00:31:14] o masculino. Nesse texto
[00:31:16] do Eduardo Leal, do qual eu estava falando,
[00:31:19] ele vai descrevendo como o homem gay
[00:31:20] desde o princípio do século XXI
[00:31:22] já não é mais aquele
[00:31:24] pecador lascivo, mas
[00:31:27] também é um bom pai de família
[00:31:28] ou um empreendedor de sucesso
[00:31:30] ou um governante, enfim.
[00:31:33] E aí tem esse aspecto viril
[00:31:35] muito musculoso e
[00:31:37] que não vai necessariamente
[00:31:39] usar o vestuário antigo
[00:31:41] ou marcado, atravessado
[00:31:43] bastante pelo feminino, se a gente está falando
[00:31:44] exatamente desse gay padrão
[00:31:47] que você descreveu. O que que importa
[00:31:49] nessa discussão toda? Que perde
[00:31:51] nitidez,
[00:31:52] a fronteira identitária entre o homem
[00:31:55] e o seu outro
[00:31:56] ou o seu negativo, o que confunde
[00:31:59] ainda mais a ideia do que é ser um homem.
[00:32:01] O que que isso tudo escancara
[00:32:03] como muito bem nos mostrou
[00:32:05] o Preciado? Que essa masculinidade
[00:32:07] viril é outra
[00:32:09] ficção somática, como
[00:32:11] todas as outras. Assim como
[00:32:13] o homem do Império Romano é uma
[00:32:15] ficção somática.
[00:32:17] O que que é uma ficção somática?
[00:32:19] É uma virilidade que é construída
[00:32:21] nas academias,
[00:32:22] orientada por esteroides, anabolizantes,
[00:32:25] termogênicos.
[00:32:27] Tem uma grande discussão, inclusive,
[00:32:29] sobre como alguns ícones dessa
[00:32:31] extrema-direita ultraconservadora
[00:32:33] masculinista
[00:32:34] vendem testosterona.
[00:32:37] Tem suplementos de testosterona,
[00:32:39] tem toda uma fetichização em cima da
[00:32:41] testosterona. Inclusive um debate
[00:32:43] gigantesco sobre como o Ken do filme
[00:32:45] da Barbie era um low T
[00:32:46] ou alguém que tinha baixa testosterona.
[00:32:49] Enfim, nada disso é
[00:32:51] natural. Nada disso é
[00:32:52] biológico. Toda conversa
[00:32:54] está exatamente no campo do que que a gente
[00:32:57] topa como narrativa. Tem uma
[00:32:58] frase do James Baldwin que pra mim é sempre
[00:33:01] muito lúcida, que é
[00:33:03] assim.
[00:33:03] Os anormais ou aberrações
[00:33:05] são chamados de anormais ou aberrações
[00:33:07] e são tratados como tal
[00:33:09] em geral de forma abominável
[00:33:11] porque são seres humanos que
[00:33:13] fazem ecoar no nosso íntimo
[00:33:15] os nossos mais profundos terrores e desejos.
[00:33:18] Se historicamente os limites
[00:33:19] entre homem de verdade
[00:33:20] e quem não era homem o suficiente,
[00:33:22] eram melhores e demarcados,
[00:33:25] parece que esses limites no contemporâneo
[00:33:27] se dissolveram a ponto
[00:33:29] de ser quase insuportável.
[00:33:31] E aí o que que a gente vai ter?
[00:33:33] Uma quantidade significativa de homens
[00:33:34] tentando resgatar as versões mais
[00:33:36] primitivas do que é
[00:33:38] esse homem de verdade.
[00:33:40] Essa discussão importa demais porque
[00:33:42] se a gente abriu esse episódio
[00:33:44] com uma das perguntas fundamentais
[00:33:46] que é o que é um homem, parece que
[00:33:48] as esquerdas,
[00:33:50] e aí estou falando do campo político
[00:33:52] mesmo, estão um pouco engajadas
[00:33:54] em construir hipóteses
[00:33:56] para responder essas perguntas.
[00:33:58] Porque a gente tem um medo tremendo
[00:34:00] e muito justificado
[00:34:02] de com isso
[00:34:03] desfazer todo o trabalho das conquistas
[00:34:06] que foram feitas para as mulheres
[00:34:07] e para o movimento ou para os movimentos LGBTI
[00:34:10] a mais nas últimas décadas.
[00:34:12] Algo que ainda é bastante frágil.
[00:34:15] Mas se a gente
[00:34:16] pensa no multiverso
[00:34:18] de possibilidades da machosfera
[00:34:20] dos menfluencers,
[00:34:21] dos movimentos masculinistas
[00:34:24] tem um espectro
[00:34:25] enorme de respostas
[00:34:27] sendo oferecido
[00:34:29] a muitos homens que no fundo
[00:34:31] estão ávidos por
[00:34:33] os limites tão difusos demais.
[00:34:35] Os ideais caíram.
[00:34:37] Eu não sei o que fazer com tudo isso.
[00:34:39] Só me diz uma resposta
[00:34:41] para essa pergunta tão grande
[00:34:44] e tão insuportável
[00:34:46] que é como é que eu vou ser homem.
[00:34:51] Para nos ajudar com essa pergunta
[00:34:55] ou talvez para nos trazer
[00:34:56] muitas outras perguntas
[00:34:58] a gente convidou o Lucas Bulamá.
[00:35:00] O Lucas é psicólogo, psicanalista,
[00:35:02] mestre e doutor em psicologia clínica
[00:35:04] e também autor de
[00:35:06] História de uma regra não escrita
[00:35:08] a proscrição da homossexualidade masculina
[00:35:10] no movimento psicanalítico.
[00:35:12] Oi Lucas, oi André.
[00:35:14] Prazer em receber esse convite aqui de vocês
[00:35:16] para participar do Vibes,
[00:35:17] um podcast que eu sempre fui muito fã.
[00:35:19] É o primeiro ponto que eu acho que vale destacar
[00:35:21] é que a gente voltar um pouquinho
[00:35:23] e pensar o que é a crise do masculino,
[00:35:25] da dita masculinidade.
[00:35:26] Acho que primeiro perguntar lateralmente
[00:35:28] se a masculinidade já teve
[00:35:31] algum momento fora da crise,
[00:35:33] que ela já esteve estável,
[00:35:34] hegemônica,
[00:35:35] num sentido de uma identidade
[00:35:37] preta por ter, vamos dizer assim,
[00:35:39] que coubesse em todo mundo, né?
[00:35:40] One size fits all.
[00:35:41] E eu tenho minhas dúvidas.
[00:35:42] Eu acho que talvez o que a gente vê hoje
[00:35:44] seja muito mais,
[00:35:45] claro, com outros fatores,
[00:35:46] mas eu vou voltar nisso já,
[00:35:48] seja a emergência da voz
[00:35:50] de quem não conseguia participar
[00:35:51] de fato desse escaninho
[00:35:52] que a gente costuma pensar
[00:35:54] como masculinidade hegemônica.
[00:35:56] Essa entidade fálica,
[00:35:58] provedora,
[00:35:59] forte,
[00:36:00] inquestionável,
[00:36:01] dominadora.
[00:36:02] Então, quanto especificamente
[00:36:04] é o que é ofertado como alternativa,
[00:36:06] a gente tem visto
[00:36:07] que algumas caricaturas
[00:36:09] estão sendo oferecidas
[00:36:10] do macho que é macho,
[00:36:11] macho de verdade,
[00:36:12] desses movimentos red pill,
[00:36:14] ou mesmo os incels
[00:36:15] que se reconhecem
[00:36:16] como os não masculinos de verdade,
[00:36:18] mas afirmam pelo oposto
[00:36:19] o que são os chads,
[00:36:21] são os homens de verdade.
[00:36:22] Então, esses são tipificados, né?
[00:36:25] Acho que vocês estão comentando
[00:36:25] um pouco disso,
[00:36:26] de que são caricaturas.
[00:36:27] E que isso pode ser
[00:36:29] que seja, de fato,
[00:36:29] um paradoxo
[00:36:30] com outras ofertas
[00:36:31] um pouco mais lábios, né?
[00:36:33] Mais flexíveis,
[00:36:34] mais criativas,
[00:36:35] de masculinidade.
[00:36:36] O que eu posso dizer sobre isso
[00:36:38] é que eu acho tudo
[00:36:39] um pouco caricatural demais.
[00:36:40] Porque quando a gente trabalha
[00:36:42] no terreno da identidade,
[00:36:43] quando a gente trabalha
[00:36:44] com o que é o masculino,
[00:36:45] a gente sempre vai trabalhar
[00:36:46] com algum caractere,
[00:36:48] de novo,
[00:36:49] meio preta por ter, sabe?
[00:36:50] Assim, o que é o homem?
[00:36:51] Ah, o homem é tal coisa.
[00:36:53] O homem é isso.
[00:36:54] A gente está sempre nessa lógica
[00:36:55] um tanto fálica,
[00:36:56] bem freudiana,
[00:36:57] para dizer que o homem é um um, né?
[00:36:58] É alguma coisa que se é.
[00:37:00] Eu acho que quando a gente transita
[00:37:01] em campos de proposições identitárias,
[00:37:03] a gente está sempre
[00:37:03] tentando encaixar alguma coisa
[00:37:05] que, no fundo,
[00:37:06] não é tão encaixada.
[00:37:07] E, geralmente,
[00:37:08] agora uma crítica também,
[00:37:09] esses movimentos mais progressistas,
[00:37:12] entre aspas,
[00:37:13] de esquerda,
[00:37:14] que oferecem uma masculinidade
[00:37:15] mais sensível,
[00:37:17] mais respeitosa,
[00:37:18] muitas vezes são formas disfarçadas
[00:37:20] de tentar,
[00:37:21] ainda,
[00:37:22] insistir na mesma dominação.
[00:37:24] Porque, no fundo,
[00:37:25] tem dois limites importantes aí.
[00:37:27] A primeira é uma proposição identitária,
[00:37:28] que ela sempre vai ser parcial
[00:37:29] e as pessoas vão tentar se encaixar
[00:37:31] em alguma coisa que, no fundo,
[00:37:33] dada a individualidade,
[00:37:36] a subjetividade individual de cada um
[00:37:38] e a singularidade de cada um,
[00:37:40] não vão, de fato, se encaixar.
[00:37:42] Então, eu acho tudo um pouco
[00:37:44] estereotipado demais.
[00:37:45] Eu acho tudo caricato demais
[00:37:47] quando se trata de identidade,
[00:37:48] seja ele o homem antigo,
[00:37:50] o Red Pill,
[00:37:50] provedor,
[00:37:51] que tem que buscar uma mulher
[00:37:52] de 20 anos,
[00:37:54] que não tenha filhos,
[00:37:55] que seja feminina, etc.,
[00:37:56] quanto esse homem
[00:37:57] esquerdista,
[00:37:59] provedor,
[00:38:00] sensível,
[00:38:01] flores na barba.
[00:38:01] E esse outro tema
[00:38:02] que vocês abordam,
[00:38:03] que eu acho que sempre vem
[00:38:04] um chamado interessante da gente,
[00:38:07] nós, psicanalistas,
[00:38:08] clínicos,
[00:38:09] trabalhadores, vamos dizer assim,
[00:38:10] da saúde mental
[00:38:10] e das subjetividades,
[00:38:12] tem uma demanda de proposição,
[00:38:14] uma demanda propositiva.
[00:38:15] E sobre, especificamente,
[00:38:17] o que se…
[00:38:18] para onde se dirige,
[00:38:19] para onde deveria se dirigir,
[00:38:21] uma boa masculinidade,
[00:38:23] a parte dessa masculinidade tóxica
[00:38:25] que vem sendo criticada.
[00:38:27] Mas só que pensando
[00:38:28] num aspecto um pouco mais recreativo,
[00:38:29] eu tenho visto bastante
[00:38:30] uma espécie de germinação,
[00:38:33] de fermentação
[00:38:33] do ressentimento masculino.
[00:38:35] E é curioso até pensar
[00:38:36] no ressentimento masculino,
[00:38:37] porque geralmente
[00:38:37] quando a gente pensa
[00:38:38] no ressentimento,
[00:38:39] na psicanálise,
[00:38:40] o ressentimento era mais
[00:38:41] o rancor,
[00:38:42] o ressentimento era algo
[00:38:43] mais feminino.
[00:38:44] Mas há um ressentimento
[00:38:45] importante do masculino
[00:38:46] que, de novo,
[00:38:47] volta na primeira questão,
[00:38:48] acho que tem a ver
[00:38:49] com a criação desses subgrupos,
[00:38:50] desses grupos,
[00:38:51] bastante perigosos,
[00:38:52] como, por exemplo,
[00:38:53] os incels,
[00:38:54] os red pills,
[00:38:55] que às vezes optam
[00:38:56] por vias de atitude
[00:38:57] violentas,
[00:38:58] como, por exemplo,
[00:38:59] acho que não é difícil
[00:39:00] de associar
[00:39:00] aqueles tiroteios em massa,
[00:39:02] assassinatos em massa
[00:39:03] que acontecem, por exemplo,
[00:39:04] bastante nos Estados Unidos,
[00:39:05] mas começaram a pegar
[00:39:06] um pouco no Brasil
[00:39:06] com a manifestação
[00:39:07] desse ressentimento,
[00:39:08] que é a ideia do
[00:39:09] se tudo era meu de direito antes
[00:39:11] e agora não tenho nada,
[00:39:12] eu vou reclamar
[00:39:13] o meu direito.
[00:39:14] É como
[00:39:15] uma minoria espoliada,
[00:39:17] que é um homem castrado,
[00:39:18] um homem emasculado
[00:39:19] que deveria ter tido
[00:39:20] tudo como
[00:39:21] necessário.
[00:39:21] Os homens deveriam ter tido
[00:39:22] nessa posição hegemônica.
[00:39:23] Claro que eu não acho ruim
[00:39:25] que as coisas sejam expostas
[00:39:26] dessa maneira,
[00:39:27] eu acho isso bom,
[00:39:28] acho que é preciso
[00:39:29] ocupar um pouco
[00:39:30] dessa posição minoritária
[00:39:31] para ter um pouco
[00:39:32] do sabor, do amargo
[00:39:33] que é ser desprezado,
[00:39:35] que é ser desqualificado,
[00:39:36] mas é claro
[00:39:37] que a gente pode pensar
[00:39:38] em criticar o espaço,
[00:39:40] o espaço dado
[00:39:40] às identidades ainda
[00:39:42] nesse momento
[00:39:43] que a gente pode chamar
[00:39:44] de pós-moderno
[00:39:45] ou as contribuições
[00:39:46] do pós-structuralismo
[00:39:47] nesse cenário contemporâneo.
[00:39:49] O que a gente pode fazer
[00:39:50] com as identidades
[00:39:51] nesse momento
[00:39:51] nesse espaço
[00:39:52] em que parece que não sobra
[00:39:53] muito mais para elas,
[00:39:54] que eu acho que talvez
[00:39:54] sejam parâmetros
[00:39:55] para a gente orientar
[00:39:56] a nossa conduta,
[00:39:57] mas muito mais
[00:39:58] de uma maneira lúdica
[00:39:59] como potenciais,
[00:40:01] espaços potenciais
[00:40:02] para usar uma linguagem
[00:40:03] mais unicotiana
[00:40:04] e não como lugares fixos
[00:40:06] para você atingir e ficar.
[00:40:09] Essa fala do Lucas
[00:40:10] traz muita coisa
[00:40:11] para a gente pensar
[00:40:11] e tem um tema
[00:40:13] que a gente está talvez
[00:40:14] se esquivando um pouco aqui
[00:40:16] que é a saúde mental masculina.
[00:40:19] Historicamente,
[00:40:20] o homem tem
[00:40:21] de achar que a saúde mental
[00:40:22] é mais bobagem,
[00:40:24] é um pouco mais frescura,
[00:40:26] assim,
[00:40:26] ou é mimimi.
[00:40:27] Eles ou nós
[00:40:29] somos geralmente
[00:40:30] menos propensos
[00:40:31] a se abrir
[00:40:32] e buscar ajuda
[00:40:33] para as nossas questões emocionais,
[00:40:36] pela educação
[00:40:36] que a gente recebe,
[00:40:37] pelos estigmas sociais,
[00:40:39] as expectativas culturais
[00:40:40] do que é a masculinidade.
[00:40:42] Então tem esse super-homem aí,
[00:40:44] que é o cara que se basta,
[00:40:45] que se resolve,
[00:40:47] que não precisa de ajuda,
[00:40:49] que sabe tudo também.
[00:40:50] Como é que você vai
[00:40:50] imaginar que tem um analista
[00:40:52] ou uma analista
[00:40:53] que vai saber mais sobre você
[00:40:55] do que você mesmo?
[00:40:56] Esses imperativos aí
[00:40:57] do ideal masculino
[00:40:58] complicam um pouco
[00:41:00] a busca por ajuda.
[00:41:02] E aí como é que ele vai dar vazão?
[00:41:04] E é meio esquisito mesmo
[00:41:05] pensar sobre
[00:41:06] o sofrimento psíquico masculino.
[00:41:08] É esquisito para todo mundo,
[00:41:09] para os homens e para as mulheres.
[00:41:11] Os homens não sofrem?
[00:41:13] Dá para fazer umas provocações também
[00:41:14] que é
[00:41:15] será que em algum nível
[00:41:16] o feminismo
[00:41:17] leva algumas mulheres
[00:41:19] a invalidarem
[00:41:20] o sofrimento masculino?
[00:41:20] Ou mais
[00:41:22] a desejarem
[00:41:23] o sofrimento dos homens
[00:41:24] como um tipo de revanche?
[00:41:27] De reparação?
[00:41:28] A gente vai ter que ter
[00:41:29] muita paciência
[00:41:29] para escutar
[00:41:30] o sofrimento de um homem.
[00:41:31] Ainda mais se for
[00:41:32] um homem branco, hétero, rico
[00:41:34] e tudo mais.
[00:41:35] Depois de tudo
[00:41:35] que eles fizeram
[00:41:36] e ainda fazem
[00:41:37] com as mulheres.
[00:41:39] As injustiças sociais,
[00:41:41] a objetificação do corpo,
[00:41:43] a sobrecarga
[00:41:44] e o não reconhecimento
[00:41:45] do trabalho doméstico,
[00:41:47] o ódio às mulheres.
[00:41:48] Apesar de tudo isso
[00:41:49] e talvez
[00:41:50] até em parte
[00:41:51] por causa de tudo isso,
[00:41:53] o homem sofre sim.
[00:41:54] Pensar sobre saúde
[00:41:55] mental masculina
[00:41:56] é lembrar que os homens
[00:41:57] se matam quatro vezes mais
[00:41:58] que as mulheres.
[00:41:59] Que 80% dos alcoólatras
[00:42:01] são homens.
[00:42:02] Que as adicções
[00:42:03] são saídas
[00:42:04] bastante precárias
[00:42:05] para os homens
[00:42:06] lidarem com as suas angústias.
[00:42:07] O homem então
[00:42:08] cuida menos de si
[00:42:10] em aspectos de saúde também.
[00:42:12] Vai menos no médico,
[00:42:13] se alimenta pior,
[00:42:15] morre mais cedo,
[00:42:15] não usa protetor solar
[00:42:16] porque acha que é mais forte
[00:42:18] do que o sol,
[00:42:19] não faz exame de próstata
[00:42:20] porque não tem
[00:42:20] porque ninguém pode chegar
[00:42:21] perto daquela região.
[00:42:23] E aí com relação
[00:42:24] ao sofrimento psíquico,
[00:42:26] é muito evidente
[00:42:27] que os homens precisam
[00:42:28] aprender a falar.
[00:42:30] E precisam sim
[00:42:31] ser escutados.
[00:42:32] E até acolhidos.
[00:42:34] E isso vem mudando
[00:42:35] em alguns contextos,
[00:42:37] mas para as gerações
[00:42:37] mais antigas
[00:42:38] ou até para as culturas
[00:42:39] mais conservadoras
[00:42:40] ou interioranas,
[00:42:41] assim pouca coisa mudou.
[00:42:42] Os homens continuam
[00:42:43] sendo muito brutos,
[00:42:45] agressivos,
[00:42:46] com dificuldade
[00:42:47] de articular os seus afetos.
[00:42:49] E aí,
[00:42:49] ao invés de
[00:42:50] escoar para a linguagem,
[00:42:52] isso vira violência.
[00:42:53] Então,
[00:42:54] o ciúmes
[00:42:54] vira
[00:42:55] feminicídio.
[00:42:57] A frustração
[00:42:58] vira abandono
[00:43:00] porque o homem
[00:43:01] tem mais dificuldade
[00:43:02] de discutir a relação.
[00:43:03] Então,
[00:43:03] ele abandona a esposa,
[00:43:05] os filhos,
[00:43:06] por aí vai.
[00:43:06] O desamparo identitário
[00:43:08] vira incels.
[00:43:09] E isso vem gerando
[00:43:10] estragos
[00:43:10] emocionais
[00:43:11] e traumáticos
[00:43:12] em todo mundo,
[00:43:14] desde que o homem
[00:43:15] é homem.
[00:43:15] Na hora que você falou,
[00:43:16] Lucas,
[00:43:16] eu pensei direto
[00:43:17] naquele livro
[00:43:18] do JJ Bolas,
[00:43:19] o Seja Homem.
[00:43:20] Que talvez essa seja
[00:43:21] uma das maiores
[00:43:22] sacanagens
[00:43:23] se a gente pensar nos homens.
[00:43:25] Que é,
[00:43:26] existe esse imperativo
[00:43:27] do Seja Homem,
[00:43:28] mas ninguém diz
[00:43:29] muito bem como.
[00:43:30] E aí,
[00:43:30] no prefácio desse livro,
[00:43:31] o Emicida escreve
[00:43:32] uma frase que eu acho
[00:43:33] assim,
[00:43:34] retumbante.
[00:43:35] O mundo é seu.
[00:43:37] Desde que você compra
[00:43:38] uma lista
[00:43:38] extremamente longa
[00:43:39] de atributos.
[00:43:40] Mas acredite,
[00:43:41] você é livre
[00:43:42] e o mundo é seu.
[00:43:43] Esse belíssimo mundo
[00:43:44] de Malboro,
[00:43:45] onde ao vencedor
[00:43:46] resta um câncer.
[00:43:47] Que pra mim
[00:43:48] condensa muito bem
[00:43:49] essa vibe
[00:43:50] da qual você está falando
[00:43:51] de qual é o custo
[00:43:53] ou qual é o preço
[00:43:54] de ser homem
[00:43:55] ou de tentar
[00:43:56] performar
[00:43:57] todos esses códigos
[00:43:58] clássicos,
[00:43:59] residuais
[00:44:00] do que é o masculino.
[00:44:02] Dominantes.
[00:44:03] Códigos dominantes mesmo.
[00:44:04] E aí a gente está esbarrando
[00:44:06] em outra questão central
[00:44:07] do homem clássico
[00:44:08] que é
[00:44:09] isso que você disse
[00:44:10] sobre a violência
[00:44:11] e essa ausência
[00:44:12] de linguagem
[00:44:12] pra falar de si.
[00:44:14] Que é complicado
[00:44:14] na clínica, inclusive.
[00:44:16] Porque se a psicanálise
[00:44:17] ou a grande maioria
[00:44:19] das terapias
[00:44:20] são atributos
[00:44:20] à crença
[00:44:21] na cura pela fala
[00:44:22] muitos homens
[00:44:23] sequer conseguem
[00:44:24] conceber a ideia
[00:44:25] de que existe
[00:44:26] um mundo interno.
[00:44:27] De que existem angústias
[00:44:28] que são dignas de fala.
[00:44:30] Você sabe que eu repito
[00:44:31] essa frase
[00:44:32] à exaustão
[00:44:32] mas pra mim
[00:44:33] um dos maiores imperativos
[00:44:34] do masculino
[00:44:35] não é homem não chora
[00:44:36] mas sim homem não fala.
[00:44:38] Nesse estudo
[00:44:38] do Instituto Ideia
[00:44:39] do qual eu falei
[00:44:39] 80% dos homens brasileiros
[00:44:41] nunca fizeram terapia.
[00:44:42] Só que
[00:44:43] ansiedade e estresse
[00:44:44] são sintomas
[00:44:45] muito recorrentes
[00:44:46] pra muitos homens.
[00:44:47] Além disso
[00:44:48] a gente vem
[00:44:49] acompanhando
[00:44:50] um crescimento
[00:44:51] no número de homens
[00:44:52] que tem dificuldades
[00:44:53] de se relacionar
[00:44:54] com mulheres
[00:44:54] e muitos homens
[00:44:56] que tem cada vez
[00:44:57] menos amigos.
[00:44:58] A gente falou
[00:44:59] um pouco disso
[00:44:59] no episódio
[00:45:00] do Melhores Amigos
[00:45:01] mas tem esse estudo
[00:45:02] de 2021
[00:45:03] 2 mil adultos
[00:45:05] estadunidenses
[00:45:06] em que menos
[00:45:07] da metade
[00:45:08] da amostra
[00:45:09] disse estar
[00:45:10] realmente satisfeita
[00:45:11] com o número
[00:45:12] de amigos que tem.
[00:45:13] Enquanto 15%
[00:45:14] não tem nenhum amigo.
[00:45:15] Um número
[00:45:16] que é 5 vezes maior
[00:45:17] do que nos anos 90.
[00:45:19] E são muitos
[00:45:19] desses homens
[00:45:20] que vão abdicar
[00:45:21] da vida social
[00:45:22] e se mergulhar
[00:45:23] em videogame e pornografia
[00:45:24] como única fonte
[00:45:25] de satisfação e prazer.
[00:45:26] É, você tava falando
[00:45:27] antes dos códigos
[00:45:28] residuais e dominantes
[00:45:30] e a gente começou
[00:45:31] a falar aqui
[00:45:32] de terapia
[00:45:32] e tem esse código
[00:45:33] emergente também
[00:45:34] que a gente precisa discutir
[00:45:36] que tem a ver
[00:45:37] com o homem
[00:45:37] que faz terapia
[00:45:38] que passa por
[00:45:39] esse fenômeno
[00:45:40] bem comum
[00:45:41] no nosso tempo
[00:45:41] que vem se chamando
[00:45:43] de esquerdo macho.
[00:45:44] Um neologismo
[00:45:45] tão interessante
[00:45:46] do cara que
[00:45:47] faz o discurso
[00:45:48] que sabe
[00:45:49] o blá blá blá
[00:45:50] que se posiciona
[00:45:51] que faz o post
[00:45:53] mas que na prática
[00:45:54] não conseguiu
[00:45:54] desconstruir
[00:45:55] muita coisa.
[00:45:56] Tem toda uma embalagem
[00:45:57] bem nessa linha
[00:45:58] do selo
[00:45:59] terapia em dia.
[00:46:00] No fundo
[00:46:01] esse cara
[00:46:01] ainda tem muito
[00:46:02] pra trabalhar
[00:46:03] pra virar um cara
[00:46:04] menos entre aspas
[00:46:05] escroto
[00:46:06] porque falta
[00:46:07] autocrítica.
[00:46:08] Ele continua
[00:46:08] muitas vezes
[00:46:09] subordinando a mulher
[00:46:10] não reconhecendo
[00:46:12] o trabalho
[00:46:12] que ela faz
[00:46:13] falta escuta
[00:46:14] é um pouco
[00:46:15] como o branco
[00:46:16] que acha que não é mais racista
[00:46:17] porque leu
[00:46:18] o manual da Djamila.
[00:46:19] Calma
[00:46:20] é um processo
[00:46:21] levou tantos séculos
[00:46:22] pra construir uma coisa
[00:46:24] que a gente não vai conseguir
[00:46:25] desconstruir
[00:46:26] de um dia pro outro
[00:46:26] mesmo que a gente tenha
[00:46:27] essa intenção
[00:46:28] conscientemente
[00:46:29] às vezes se torna
[00:46:31] meio que até mais perigoso
[00:46:32] você achar que já
[00:46:33] se desconstruiu
[00:46:33] esse homem
[00:46:35] que se acha desconstruído
[00:46:36] não necessariamente
[00:46:37] tá lutando
[00:46:38] pra transformar
[00:46:39] a estrutura
[00:46:40] às vezes ele acha
[00:46:41] inclusive que tá saindo
[00:46:42] na frente
[00:46:42] no jogo de sedução
[00:46:43] das mulheres
[00:46:44] e é melhor mesmo
[00:46:44] que o mundo
[00:46:45] seja muito machista
[00:46:46] e ele não
[00:46:47] ele acha que não é
[00:46:48] ele entendeu
[00:46:49] que ele tem que ser
[00:46:49] desconstruído
[00:46:49] que é um pouco
[00:46:51] semelhante com
[00:46:52] numa lógica
[00:46:53] interseccional
[00:46:54] homens negros
[00:46:56] e ou
[00:46:57] homens gays
[00:46:58] que acham
[00:46:59] que porque são
[00:46:59] atravessados
[00:47:00] por algum tipo
[00:47:01] de opressão
[00:47:01] já zeraram a conta
[00:47:03] da possibilidade
[00:47:05] de serem opressores
[00:47:06] que é difícil
[00:47:07] navegar isso
[00:47:08] o Davidson Faustino
[00:47:09] sociólogo
[00:47:10] tem um texto
[00:47:10] que eu gosto bastante
[00:47:12] em que ele fala
[00:47:12] sobre como
[00:47:13] o homem negro
[00:47:14] não seria um homem
[00:47:15] se a gente pensar
[00:47:16] em como a colonização
[00:47:16] e o racismo
[00:47:17] impediram que o homem negro
[00:47:18] seja reconhecido
[00:47:19] como o páreo
[00:47:20] do homem branco
[00:47:21] ao mesmo tempo
[00:47:22] historicamente
[00:47:23] muitas mulheres negras
[00:47:24] apontam como
[00:47:25] esse assunto
[00:47:26] é bem mais complexo
[00:47:28] porque mesmo
[00:47:28] que o racismo
[00:47:29] determine um lugar
[00:47:31] específico
[00:47:32] para o homem negro
[00:47:32] que é nesse
[00:47:33] entre mundos
[00:47:34] muitas mulheres
[00:47:35] apontam como
[00:47:37] homens negros
[00:47:38] também podem ser
[00:47:39] radicalmente opressores
[00:47:40] e que não dá
[00:47:40] para isentá-los
[00:47:41] da sua responsabilidade
[00:47:42] e dos seus
[00:47:43] eventuais privilégios
[00:47:44] que é um assunto
[00:47:45] muito próximo
[00:47:46] do que a gente
[00:47:47] tenta ter
[00:47:47] com homens gays
[00:47:48] a gente falou
[00:47:48] bastante disso
[00:47:49] no Solidão Gay 1 e 2
[00:47:50] mas nessa dança
[00:47:52] com desconstruções
[00:47:53] que se trouxe
[00:47:53] Lucas
[00:47:54] tem um texto
[00:47:55] do Guilherme Almeida
[00:47:55] muito excelente
[00:47:56] sobre transmasculinidades
[00:47:58] ele discute
[00:47:59] como a transsexualidade
[00:48:00] masculina
[00:48:01] na última década
[00:48:02] atuou como
[00:48:03] uma certa
[00:48:03] estufa de possibilidades
[00:48:05] no cenário brasileiro
[00:48:06] do que é ser homem
[00:48:07] porque nem
[00:48:08] todo homem trans
[00:48:09] obviamente
[00:48:10] está disposto
[00:48:11] a romper
[00:48:12] com todos os códigos
[00:48:13] dominantes
[00:48:14] e residuais
[00:48:15] do masculino
[00:48:15] muito pelo contrário
[00:48:17] muitos homens trans
[00:48:18] estão interessados
[00:48:19] em se adaptar
[00:48:19] de alguma forma
[00:48:20] a esses códigos
[00:48:21] mas
[00:48:22] é um leque amplo
[00:48:23] porque a gente tem
[00:48:24] homens trans
[00:48:25] não binários
[00:48:26] a gente tem
[00:48:27] homens trans
[00:48:27] orgulhosamente
[00:48:28] portadores de uma vulva
[00:48:30] refutando
[00:48:31] todo o paradigma
[00:48:31] psiquiátrico
[00:48:32] da aversão
[00:48:33] à própria genitália
[00:48:34] para o pavor
[00:48:35] dos lacanianos
[00:48:36] que defendem
[00:48:36] a teoria
[00:48:37] do real do corpo
[00:48:38] homens trans
[00:48:39] grávidos
[00:48:40] que não abrem mão
[00:48:41] da sua afirmação
[00:48:42] de paternagem
[00:48:43] homens trans
[00:48:44] muito afetivos
[00:48:45] muito cuidadores
[00:48:46] muito feministas
[00:48:47] ou aqueles
[00:48:48] que se afirmam gays
[00:48:49] ou bissexuais
[00:48:50] ou aqueles
[00:48:51] que são
[00:48:51] trabalhadores sexuais
[00:48:53] ou aqueles
[00:48:54] que estão se relacionando
[00:48:55] afetivo ou sexualmente
[00:48:56] com mulheres trans
[00:48:57] e travestis
[00:48:58] além de homens trans
[00:48:59] também heteronormativos
[00:49:00] todas essas características
[00:49:02] mostram pra gente
[00:49:04] como existem possibilidades
[00:49:05] mais ou menos radicais
[00:49:07] mais ou menos conformistas
[00:49:09] do que é ser um homem
[00:49:10] bom André
[00:49:10] aí eu acho que vale
[00:49:12] a gente abrir
[00:49:12] um parênteses
[00:49:14] aqui nesse episódio
[00:49:14] que você me provocou
[00:49:17] que é
[00:49:17] a problemática
[00:49:18] do binarismo
[00:49:19] a gente tá fazendo
[00:49:20] um episódio
[00:49:20] sobre o masculino
[00:49:21] então a gente já tá
[00:49:22] operando numa lógica binária
[00:49:24] e a gente pode
[00:49:25] e vai continuar
[00:49:26] separando masculino e feminino
[00:49:27] em termos
[00:49:28] não só anatômicos
[00:49:29] mas culturais
[00:49:30] sociais
[00:49:30] comportamentais
[00:49:31] e dá pra fazer isso
[00:49:33] de muitas formas
[00:49:34] algumas mais simplistas
[00:49:35] outras mais elaboradas
[00:49:37] então
[00:49:37] o Jung
[00:49:38] por exemplo
[00:49:39] vai introduzir
[00:49:39] o conceito de
[00:49:40] ânima e ânimos
[00:49:41] pra explicar
[00:49:41] como aspectos
[00:49:42] femininos
[00:49:43] e masculinos
[00:49:44] estão presentes
[00:49:45] em todos os indivíduos
[00:49:46] independente do sexo
[00:49:47] ou do gênero
[00:49:49] e que eles podem ser
[00:49:49] mais inconscientes
[00:49:51] à medida que a gente
[00:49:52] se identifica mais
[00:49:52] com um gênero
[00:49:53] ou com outro
[00:49:54] independente da questão
[00:49:54] anatômica
[00:49:55] enfim
[00:49:55] tudo isso é muito interessante
[00:49:57] ainda assim
[00:49:58] essa separação
[00:49:59] de masculino e feminino
[00:50:00] que nos organiza
[00:50:01] de tantas formas
[00:50:02] geralmente vira
[00:50:03] um tipo de dinâmica
[00:50:05] sem fim
[00:50:06] por isso que esse episódio
[00:50:07] tem três horas
[00:50:08] mulher não entende
[00:50:11] disso ou daquilo
[00:50:12] até
[00:50:13] as falas
[00:50:14] que são liberais
[00:50:15] e progressistas
[00:50:16] e que buscam
[00:50:17] uma transformação
[00:50:18] do senso cultural
[00:50:19] comum
[00:50:19] que vão pra coisas assim
[00:50:20] o homem não é mais forte
[00:50:22] que a mulher
[00:50:23] porque a mulher
[00:50:24] consegue lidar melhor
[00:50:25] com o seu mundo interno
[00:50:26] e seus afetos
[00:50:26] e pra isso
[00:50:27] é necessário sim
[00:50:28] muita força
[00:50:29] e muita coragem
[00:50:30] ou quando a gente
[00:50:31] começa a fazer
[00:50:31] aquela bagunça
[00:50:32] assim de
[00:50:33] tem que ser muito homem
[00:50:34] pra bancar
[00:50:35] sua sensibilidade
[00:50:36] em um mundo
[00:50:37] tão machista
[00:50:38] que reprime
[00:50:39] o homem que é sensível
[00:50:40] sabe?
[00:50:41] ou até aquela frase
[00:50:43] da querida Rita Lee
[00:50:44] que infelizmente
[00:50:45] é tão infeliz
[00:50:46] que diz
[00:50:47] eu sou mais macho
[00:50:48] que muito homem
[00:50:49] sabe quando
[00:50:50] esses raciocínios
[00:50:51] começam a dar
[00:50:52] umas voltas
[00:50:52] e voltas
[00:50:53] e a gente vai chegando
[00:50:54] nessas ideias
[00:50:55] de
[00:50:55] coaches de internet
[00:50:57] mesmo
[00:50:58] que começam a falar
[00:50:58] coisas do tipo assim
[00:50:59] olha
[00:51:00] o homem que aceita
[00:51:01] uma mulher provedora
[00:51:02] é um homem desconstruído
[00:51:04] que legal
[00:51:05] ele não se sente
[00:51:06] intimidado por ela
[00:51:07] mas peraí
[00:51:08] será que ele não tá
[00:51:08] simplesmente sendo oportunista
[00:51:10] agindo como
[00:51:11] muitas mulheres
[00:51:12] que topam
[00:51:12] ficar com o cara
[00:51:13] basicamente por causa
[00:51:14] do dinheiro dele
[00:51:15] essas colocações todas
[00:51:16] que eu fui jogando
[00:51:17] várias aqui
[00:51:17] geram
[00:51:19] um desconforto
[00:51:19] na gente
[00:51:20] porque são comparações
[00:51:21] com base
[00:51:22] em estereótipos de gênero
[00:51:24] mesmo quando tem a intenção
[00:51:25] de questionar os estereótipos
[00:51:26] ainda assim
[00:51:27] a gente tá falando
[00:51:28] de taxonomias de gênero
[00:51:30] como se fosse uma planilha
[00:51:31] sabe
[00:51:31] com duas colunas
[00:51:33] homem
[00:51:34] poder
[00:51:34] mulher
[00:51:35] submissão
[00:51:36] homem razão
[00:51:37] mulher emoção
[00:51:38] e muitas vezes
[00:51:39] essas falas
[00:51:40] só aumentam
[00:51:41] as separações
[00:51:42] e despertam
[00:51:43] sentimentos de hostilidade
[00:51:44] e uma mentalidade
[00:51:46] de diferenciação
[00:51:47] que não necessariamente
[00:51:48] traz
[00:51:49] escuta da alteridade
[00:51:51] mas sim uma guerra
[00:51:52] nós versus eles
[00:51:53] então mesmo que seja
[00:51:55] imprescindível
[00:51:56] o esforço de todo mundo
[00:51:57] para desarticular
[00:51:58] o patriarcado
[00:51:59] a gente também não pode
[00:52:00] fazer um desserviço
[00:52:01] com mensagens
[00:52:02] que são generalistas
[00:52:04] que não promovem
[00:52:05] equidade social
[00:52:06] ou igualdade de direitos
[00:52:07] porque estão só
[00:52:08] alimentando a batalha
[00:52:09] entre homens e mulheres
[00:52:10] se provocando
[00:52:12] fazendo homens e mulheres
[00:52:13] reagir
[00:52:14] uns aos outros
[00:52:15] mesmo que seja
[00:52:16] com novos semblantes
[00:52:17] que a gente vai adicionando
[00:52:18] na cultura
[00:52:18] e a gente não pode
[00:52:18] e assim
[00:52:19] eu não estou querendo dizer
[00:52:20] uma coisa na linha
[00:52:20] todas as vidas importam
[00:52:22] sabe
[00:52:23] e de que não existe machismo
[00:52:25] e de que não existe
[00:52:26] nenhuma diferença
[00:52:27] entre ser homem
[00:52:28] ou ser mulher
[00:52:29] mas é um ponto de atenção
[00:52:30] pra gente ter
[00:52:31] um cuidado
[00:52:32] com esse dualismo
[00:52:33] sabe
[00:52:33] essa competição
[00:52:34] de quem é melhor
[00:52:35] ou pior
[00:52:36] em qual aspecto
[00:52:37] que não adianta
[00:52:37] destruir um estigma
[00:52:38] pra criar outro
[00:52:39] a gente vai continuar
[00:52:40] se deparando com sujeitos
[00:52:42] que não se enxergam
[00:52:43] nesses papéis de gênero
[00:52:44] sejam eles quais forem
[00:52:46] então nessa hora
[00:52:47] eu acho sempre importante
[00:52:48] a gente voltar
[00:52:48] de alguma forma
[00:52:50] pra singularidade
[00:52:51] pensando na clínica
[00:52:52] principalmente
[00:52:53] porque
[00:52:53] e aí
[00:52:54] o que é o masculino
[00:52:55] pra você
[00:52:55] apesar de tudo
[00:52:56] que dizem
[00:52:57] que um homem é
[00:52:58] ou deveria ser
[00:52:58] ou deveria deixar de ser
[00:52:59] como você se relaciona
[00:53:02] com essa noção
[00:53:03] de masculino
[00:53:03] que você tem
[00:53:04] em termos clínicos
[00:53:05] a gente tem que conseguir
[00:53:06] escutar o cultural
[00:53:07] e social
[00:53:08] mas principalmente
[00:53:09] o que é singular
[00:53:10] e subjetivo
[00:53:11] daquele sujeito
[00:53:12] e como é que
[00:53:12] esses ideais
[00:53:13] que vão parando
[00:53:14] na cultura
[00:53:15] produzem
[00:53:16] transformação
[00:53:17] ou estagnação
[00:53:18] do pensamento
[00:53:19] exato
[00:53:20] porque eu fico pensando
[00:53:21] Lucas
[00:53:21] que
[00:53:22] aí vou jogar
[00:53:23] na lógica binarista
[00:53:24] um pouco tá
[00:53:25] não tem como sair dela
[00:53:26] mas ela pode ser
[00:53:28] uma grande armadilha também
[00:53:29] claro
[00:53:29] mas jogando um pouco
[00:53:31] nessa lógica
[00:53:31] tem esse significante
[00:53:33] que ficou tão grande
[00:53:34] na última década
[00:53:35] especialmente
[00:53:36] que é
[00:53:37] a síndrome
[00:53:38] da impostora
[00:53:39] sabe
[00:53:39] e eu fiquei
[00:53:40] refletindo bastante
[00:53:41] sobre um equivalente
[00:53:43] a isso
[00:53:44] que é
[00:53:44] a ansiedade
[00:53:45] da performance
[00:53:46] ansiedade da performance
[00:53:48] às vezes
[00:53:48] é traduzido como
[00:53:49] medo de palco
[00:53:50] é algo que se convencionou
[00:53:52] a definir
[00:53:53] como o medo
[00:53:53] de fazer alguma coisa
[00:53:54] na frente de um grupo
[00:53:55] de pessoas
[00:53:56] é um desses
[00:53:56] pseudo-diagnósticos
[00:53:57] bem famosos
[00:53:58] no TikTok
[00:53:59] e que geralmente
[00:54:00] são usados
[00:54:01] para falar
[00:54:02] sobre impotência sexual
[00:54:03] mas eu penso
[00:54:04] que esse significante
[00:54:06] nos ajuda
[00:54:07] a pensar muito
[00:54:09] e eu fico pensando
[00:54:10] bastante na clínica
[00:54:11] inclusive
[00:54:11] sobre como
[00:54:13] essa ansiedade
[00:54:14] de corresponder
[00:54:15] ou não corresponder
[00:54:16] a todos esses discursos
[00:54:17] de hashtags
[00:54:18] seja homem
[00:54:19] uma hashtag
[00:54:20] que estamos falando
[00:54:20] de mais de 65 milhões
[00:54:22] de views no TikTok
[00:54:22] produzem nos sujeitos
[00:54:24] um medo
[00:54:25] de conseguir
[00:54:26] ou de não conseguir
[00:54:27] desempenhar o seu papel
[00:54:29] do que os outros
[00:54:30] supostamente
[00:54:31] esperam
[00:54:32] do sujeito
[00:54:33] desempenho
[00:54:34] é uma palavra
[00:54:35] que eu estou plantando
[00:54:36] aqui
[00:54:36] intencionalmente
[00:54:37] ansiedade
[00:54:38] da performance
[00:54:39] no sentido
[00:54:39] de desempenho mesmo
[00:54:41] e aí
[00:54:42] vou ser bem
[00:54:42] psicanalista raiz
[00:54:43] nesse sentido
[00:54:44] dá pra gente levar
[00:54:44] pra sexualidade
[00:54:45] bem rápido
[00:54:46] pensando nesse campo sexual
[00:54:48] quando
[00:54:48] os homens
[00:54:49] não performam
[00:54:50] ou falham
[00:54:50] o que que muitos homens
[00:54:52] fazem
[00:54:52] automaticamente
[00:54:54] questionam
[00:54:54] que tipo de homem
[00:54:55] eu sou
[00:54:55] seja um homem
[00:54:57] super masculinista
[00:54:59] ou um homem
[00:54:59] desconstruído
[00:55:00] esquerdomacho
[00:55:01] como você trouxe
[00:55:02] é um pouco
[00:55:02] enlouquecedor
[00:55:03] porque pra muitos homens
[00:55:05] é como se a relação sexual
[00:55:06] tivesse o poder
[00:55:07] de desmontar
[00:55:08] ou desintegrar
[00:55:09] toda a história
[00:55:10] sobre si
[00:55:10] que aquele sujeito
[00:55:11] contou pra si
[00:55:12] até aqui
[00:55:12] é claro que
[00:55:13] muitos homens
[00:55:14] vão estabelecer
[00:55:14] uma relação paranoica
[00:55:15] com o mundo
[00:55:16] porque é uma
[00:55:17] constituição psíquica
[00:55:18] muito frágil
[00:55:18] ou mesmo
[00:55:19] vão acabar dependendo
[00:55:21] de conteúdos
[00:55:22] eróticos e pornográficos
[00:55:23] pra poder sobreviver
[00:55:25] ou sentir prazer
[00:55:25] porque ali
[00:55:26] pelo menos tem uma promessa
[00:55:27] de que eu não vou falhar
[00:55:28] o que eu tô tentando dizer
[00:55:29] com tudo isso
[00:55:30] Lucas
[00:55:30] é que
[00:55:31] eu penso que também
[00:55:32] tem um certo
[00:55:33] gap educacional
[00:55:34] nessa conversa toda
[00:55:36] sobre homens
[00:55:36] quem tá
[00:55:37] interessado
[00:55:38] na tarefa
[00:55:39] de criar ambientes
[00:55:40] seguros de aprendizagem
[00:55:42] em que os erros
[00:55:43] sejam minimamente
[00:55:43] permitidos
[00:55:44] envolvendo homens
[00:55:46] ambientes que não
[00:55:47] sejam mais um lugar
[00:55:48] pra desenvolver
[00:55:48] desempenhar opressão
[00:55:49] e também não seja
[00:55:51] um lugar
[00:55:51] só pra você
[00:55:52] escutar o tempo inteiro
[00:55:53] que todos os homens
[00:55:54] são um lixo
[00:55:54] entende?
[00:55:56] é e tem uma
[00:55:57] diferenciação
[00:55:58] que a gente precisa fazer
[00:55:59] a gente
[00:56:00] separa e depois
[00:56:01] junta
[00:56:02] depois separa
[00:56:02] mas é importante
[00:56:03] separar
[00:56:04] que é
[00:56:04] o que é esse social
[00:56:05] e cultural
[00:56:06] e o que é o interpessoal
[00:56:08] e o íntimo
[00:56:09] então o mais complexo
[00:56:11] é navegar
[00:56:12] entre esses dois
[00:56:12] porque uma coisa
[00:56:13] é esse macro
[00:56:15] social
[00:56:15] que é do nosso tempo
[00:56:17] que é da história
[00:56:18] da humanidade
[00:56:18] que são esses dados
[00:56:20] estatísticos
[00:56:21] da população
[00:56:21] e tudo mais
[00:56:22] e outra é
[00:56:23] o que é da nossa vida
[00:56:25] do meu masculino
[00:56:26] do meu feminino
[00:56:27] da minha referência
[00:56:28] em modelos
[00:56:29] de homem e mulher
[00:56:30] da minha identificação
[00:56:31] dos meus objetos
[00:56:32] homem e mulher
[00:56:33] das minhas fantasias
[00:56:35] então esses dois campos
[00:56:36] eles se conversam
[00:56:37] mas eles também
[00:56:38] tem alguma independência
[00:56:40] tanto do lado
[00:56:41] do homem
[00:56:42] como da mulher
[00:56:43] ninguém vai resolver
[00:56:45] o patriarcado inteiro
[00:56:46] do Brasil
[00:56:47] do mundo
[00:56:47] da história
[00:56:48] na verdade
[00:56:48] na sua casa
[00:56:49] no seu casamento
[00:56:50] na sua cama
[00:56:51] e a gente também
[00:56:52] não pode achar
[00:56:52] que a gente vai estar imune
[00:56:53] a isso
[00:56:53] só porque nós dois
[00:56:55] nos amamos
[00:56:55] e tudo mais
[00:56:56] porque o estrutural
[00:56:57] é inconsciente
[00:56:58] isso vai estar
[00:56:59] nos atravessando
[00:56:59] mas a gente escuta
[00:57:01] muito por exemplo
[00:57:01] como ambos os lados
[00:57:04] muitas vezes
[00:57:05] se restringem
[00:57:06] em alguns papéis
[00:57:08] em alguns movimentos
[00:57:09] para poder
[00:57:10] se afastar
[00:57:11] de tudo
[00:57:12] que remeta
[00:57:13] ao machismo
[00:57:14] então por exemplo
[00:57:15] uma mulher
[00:57:16] que gostaria
[00:57:16] que um homem
[00:57:17] fosse mais
[00:57:18] agressivo
[00:57:18] agressivo
[00:57:19] no sexo
[00:57:20] ou em outros aspectos
[00:57:21] da vida
[00:57:21] ou mesmo que bancasse
[00:57:23] uma certa objetificação
[00:57:24] do corpo dela
[00:57:25] que isso pudesse
[00:57:26] entrar na fantasia
[00:57:26] dos dois
[00:57:27] assim como a gente
[00:57:28] também escuta
[00:57:28] que um homem
[00:57:29] muitas vezes
[00:57:30] se sente culpado
[00:57:31] de agir dessa forma
[00:57:32] claro porque isso pode
[00:57:32] remontar a toda uma herança
[00:57:34] e toda uma trajetória
[00:57:35] de comportamentos
[00:57:36] predatórios
[00:57:36] que não é todo homem
[00:57:37] que quer ser signatário
[00:57:39] desse pacto
[00:57:39] acho que isso é muito importante
[00:57:40] da gente lembrar
[00:57:41] mas como você
[00:57:43] muito bem está dizendo
[00:57:44] mas poder e dominação
[00:57:45] não estão fora
[00:57:47] do campo sexual
[00:57:48] erótico
[00:57:49] muito pelo contrário
[00:57:51] só que a dominação
[00:57:52] ela não pode estar
[00:57:53] acima do consentimento
[00:57:54] só que navegar
[00:57:56] esses eixos
[00:57:57] é muito difícil
[00:57:59] mas assim
[00:58:04] você sabe que
[00:58:05] eu acredito muito
[00:58:06] na força do pensamento
[00:58:07] que a gente é capaz
[00:58:09] de expandir
[00:58:09] a nossa capacidade
[00:58:11] de pensar
[00:58:11] pra gente conseguir
[00:58:12] bancar descentramentos
[00:58:13] nesse sentido
[00:58:15] eu concordo
[00:58:16] bastante com aquele livro
[00:58:17] da Nana Queiroz
[00:58:18] que é o livro
[00:58:18] Jornalista e Ativista
[00:58:19] pelos Direitos das Mulheres
[00:58:20] que diz que os homens
[00:58:22] não são o vírus
[00:58:23] que os meninos
[00:58:24] são a cura do machismo
[00:58:25] e não a causa do machismo
[00:58:27] que é uma ideia
[00:58:28] que conversa
[00:58:29] com muita coisa
[00:58:29] que tem sido produzida
[00:58:30] não queria deixar de falar
[00:58:32] nesse episódio
[00:58:33] do estudo
[00:58:33] que o Papo de Homem
[00:58:34] está desenvolvendo
[00:58:35] chamado
[00:58:36] Estudo Meninos
[00:58:37] Sonhando os Homens do Futuro
[00:58:39] a gente precisa conseguir
[00:58:41] ousar
[00:58:42] sonhar
[00:58:43] outros tipos
[00:58:43] de masculinidade
[00:58:44] é, aí esse capítulo
[00:58:46] do pai
[00:58:46] realmente
[00:58:47] é um episódio
[00:58:48] à parte
[00:58:48] o abandono paterno
[00:58:50] o que que é
[00:58:51] a gente tem hoje
[00:58:52] 6 milhões de brasileiros
[00:58:54] que não tem o nome do pai
[00:58:55] na sua certidão de nascimento
[00:58:56] 11 milhões de famílias
[00:58:58] formadas por mães
[00:58:59] que criam seus filhos
[00:59:00] sozinhas
[00:59:00] então
[00:59:01] é uma epidemia
[00:59:03] de abandono paterno
[00:59:04] em termos materiais
[00:59:05] e afetivos
[00:59:06] o que que isso provoca
[00:59:06] na constituição psíquica
[00:59:08] de uma criança
[00:59:09] ainda mais de um menino
[00:59:10] ou mesmo no contexto social
[00:59:12] do Brasil
[00:59:13] então são paternidades
[00:59:14] realmente muito precárias
[00:59:15] criando filhos
[00:59:16] com modelos de masculinidade
[00:59:17] que não são
[00:59:18] que ou
[00:59:19] a gente tem uma coisa
[00:59:20] faltante demais
[00:59:21] ou severo demais
[00:59:23] um pai também
[00:59:24] autoritário e rígido
[00:59:25] que não se mostra castrado
[00:59:26] que pode tudo
[00:59:28] e que não serve
[00:59:29] como modelo de castração
[00:59:30] pra geração que o segue
[00:59:31] é, e que fica
[00:59:33] muito identificado
[00:59:34] com essa narrativa
[00:59:35] do vencedor
[00:59:36] que pra mim
[00:59:37] é igualmente problemática
[00:59:39] e muito danosa
[00:59:40] inclusive
[00:59:41] as subjetividades
[00:59:42] tem aquela frase
[00:59:43] do
[00:59:43] David Lapujard
[00:59:45] que é o filósofo
[00:59:46] e professor
[00:59:47] da Sorbonne
[00:59:47] que ele fala
[00:59:48] que a gente não pode
[00:59:49] permanecer na fraqueza
[00:59:50] de cultivar apenas a força
[00:59:51] porém ter a força
[00:59:53] de estar à altura
[00:59:53] da própria fraqueza
[00:59:54] é, isso é muito bom
[00:59:55] aí fica um pouco
[00:59:57] essa imagem
[00:59:58] assim do poder
[00:59:59] e do
[01:00:00] pudor
[01:00:01] da masculinidade
[01:00:02] o que a gente vê
[01:00:03] é que o homem
[01:00:04] não pode ser frágil
[01:00:05] o homem vai ser
[01:00:06] convocado continuamente
[01:00:07] a reafirmar a sua força
[01:00:09] esconder as suas inseguranças
[01:00:10] o homem não lida bem
[01:00:12] com a sua impotência
[01:00:13] como você estava falando
[01:00:14] essa é a sua maior
[01:00:15] fragilidade
[01:00:16] então junto com
[01:00:17] o poder masculino
[01:00:18] vem
[01:00:18] o pudor masculino
[01:00:20] o medo
[01:00:20] a vergonha
[01:00:21] o constrangimento
[01:00:22] de ter a sua força
[01:00:23] questionada
[01:00:24] que foi o que você começou
[01:00:25] a falar lá do falo
[01:00:26] do desamparo identitário
[01:00:28] é, que é esse risco
[01:00:29] de ser percebido
[01:00:30] como incompleto
[01:00:31] como não todo
[01:00:32] como se faltasse
[01:00:33] um pedaço
[01:00:34] como assim
[01:00:35] o homem falta um pedaço?
[01:00:36] sim
[01:00:36] falta
[01:00:37] essa falta se revela
[01:00:39] justamente
[01:00:40] nessa operação
[01:00:41] de reafirmação fálica
[01:00:43] porque de novo
[01:00:44] o falo não é o pênis
[01:00:45] o falo
[01:00:46] não é sinônimo
[01:00:46] de poder
[01:00:47] o falo
[01:00:48] é o significante
[01:00:49] da falta
[01:00:49] é o que simboliza
[01:00:50] e presentifica
[01:00:51] que existe sim
[01:00:52] uma falta
[01:00:53] o falo não é algo em si
[01:00:55] ele é uma sombra
[01:00:57] é a silhueta
[01:00:58] de um buraco
[01:00:59] de uma falta
[01:00:59] seja de um homem
[01:01:00] ou de uma mulher
[01:01:01] então
[01:01:02] essa noção do falo
[01:01:03] enquanto função
[01:01:04] para tentar
[01:01:05] assegurar um poder
[01:01:06] que está sendo questionado
[01:01:07] e vira muito mais
[01:01:08] um escudo
[01:01:09] para proteger
[01:01:10] o que é frágil
[01:01:11] o que é insuficiente
[01:01:12] e que existe
[01:01:14] em todos nós
[01:01:15] nesse sentido
[01:01:16] o homem parece
[01:01:17] que precisa
[01:01:17] se
[01:01:18] reconectar mais
[01:01:19] com a sua humanidade
[01:01:20] que é sentir
[01:01:21] se permitir sentir
[01:01:23] falar o que sente
[01:01:24] e acreditar
[01:01:25] que pode também sentir
[01:01:26] o que o outro está sentindo
[01:01:27] então os homens
[01:01:28] merecem mais
[01:01:29] do que
[01:01:29] força
[01:01:31] e vitória
[01:01:32] mas conseguir
[01:01:33] expandir
[01:01:33] a sua gramática afetiva
[01:01:35] eu acho que a gente
[01:01:35] pode deixar aqui
[01:01:36] vamos
[01:01:37] seguir sentindo
[01:01:38] e questionando
[01:01:39] ou melhor
[01:01:40] sustentando perguntas
[01:01:42] tá bom
[01:01:42] até uma próxima então
[01:01:44] até já
[01:01:44] tchau tchau
[01:01:45] tchau
[01:01:48] tchau