Planeta Terra: Está queimando? Vai ter planeta? O que faço? Vamos descobrir (participação especial: Altay de Souza)


Resumo

O episódio começa apresentando o conceito de eco-ansiedade, citando uma pesquisa de 2021 que mostra que 60% dos jovens entre 16 e 25 anos estão muito preocupados com o estado do planeta. Os participantes discutem como essa ansiedade está ligada a um senso de impotência diante de um problema tão grande e distante.

Altay de Souza, o convidado especialista, explica que o planeta em si não está condenado – ainda tem bilhões de anos –, mas a humanidade enfrenta sérios desafios. Ele traça um paralelo histórico, desde a Revolução Francesa, para mostrar como a sociedade atual é estruturada em um modelo econômico baseado no crescimento e acumulação infinitos, que entra em conflito direto com os limites ecológicos do planeta. O modelo capitalista, que depende de crescimento exponencial, é comparado a um câncer que cresce até matar o organismo hospedeiro.

A conversa avança para discutir possíveis soluções e como lidar com a ansiedade. Altay diferencia ansiedade (sensação de desamparo e falta de controle) de angústia (reconhecimento do problema e preparação para enfrentá-lo). Ele argumenta que o conhecimento – entender como os sistemas naturais e econômicos funcionam – é a chave para transformar ansiedade em angústia produtiva. Um estudo de 2023 é citado, mostrando uma relação inversa entre o grau de conhecimento sobre ecossistemas e o nível de ansiedade climática.

Os participantes exploram ações práticas, desde a escala individual até a coletiva. Discutem a importância de repensar a educação, não como preparação para o trabalho, mas como uma ferramenta para compreender o mundo e desenvolver senso crítico. A ideia de “refazer o ensino médio” na idade adulta é proposta como uma forma de ressignificar o conhecimento à luz da experiência de vida. Também são abordadas questões como consumo consciente, a pegada ambiental de pets e a carne cultivada em laboratório.

O episódio conclui com uma nota de esperança cautelosa. Altay menciona que, segundo o relatório do IPCC, já temos a tecnologia necessária para mitigar os efeitos das mudanças climáticas; o desafio agora é político e comportamental. A solução passa por reduzir desigualdades, adotar modelos econômicos baseados em estabilidade (como a “Economia Donut” de Kate Raworth) e, principalmente, por cada indivíduo assumir responsabilidade, buscar conhecimento e preparar as próximas gerações para um mundo em transformação.


Indicações

Conceitos

  • Eco-ansiedade (Ansiedade climática) — Conceito discutido ao longo do episódio, definido como a ansiedade gerada pela preocupação com as mudanças climáticas e o estado do planeta, caracterizada por um senso de impotência frente a um problema global.
  • Demarketing — Conceito de Philip Kotler mencionado por Altay. Refere-se ao uso das ferramentas de marketing não para aumentar o consumo, mas para reduzi-lo, por exemplo, em campanhas para economizar água.
  • Economia Donut (Donut Economy) — Modelo econômico proposto por Kate Raworth, citado por Altay. Visualiza a economia como uma rosquinha, onde os limites externos são os limites ecológicos do planeta e os limites internos são as necessidades sociais básicas. O objetivo é operar dentro desse espaço seguro, priorizando a estabilidade em vez do crescimento infinito.

Livros E Autores

  • Kierkegaard — Filósofo mencionado por Altay, especificamente sua obra sobre angústia. Ele usa o conceito de Kierkegaard sobre o tédio e a importância dos limites para a criatividade e a felicidade, contrastando com a busca infinita por experiências dos muito ricos.

Podcasts

  • Escafandro — Recomendado por Altay como um podcast que conta em detalhes a história factual da solução para o problema do CFC e do buraco na camada de ozônio, servindo como um estudo de caso sobre como lidar com crises ambientais.

Linha do Tempo

  • 00:05:49O planeta e a humanidade estão condenados? — Altay de Souza responde à pergunta central do episódio. Ele esclarece que o planeta Terra, como entidade física, não está condenado a curto prazo, mas a humanidade enfrenta desafios severos devido ao modelo econômico atual. Ele traça um paralelo histórico com a Revolução Francesa para ilustrar como sociedades passaram por transformações radicais, sugerindo que estamos em outro ponto de inflexão, desta vez ligado aos limites ecológicos.
  • 00:15:51A lição do CFC e do buraco na camada de ozônio — Altay conta a história da solução para o problema do CFC e do buraco na camada de ozônio como um exemplo de como um problema ambiental foi resolvido quando a solução não conflitou com o modelo de produção vigente. Ele menciona o podcast Escafandro, que detalha essa história, e critica como a indústria usou a necessidade de uma nova tecnologia para forçar a renovação do mercado de geladeiras, mostrando como interesses econômicos podem moldar respostas ambientais.
  • 00:25:57Diferença entre ansiedade e angústia climática — Altay faz uma distinção crucial entre ansiedade e angústia no contexto da crise climática. Ansiedade é um estado de desamparo aprendido, onde a pessoa se sente paralisada por um problema que parece grande demais e fora de seu controle. Angústia, por outro lado, envolve reconhecer o problema, entender seus mecanismos e se preparar para enfrentá-lo, mesmo sem garantia de sucesso. Ele usa a analogia de se preparar para uma luta de judô contra um campeão mundial.
  • 00:30:01O conhecimento como antídoto para a eco-ansiedade — Baseando-se em um estudo de 2023 publicado na revista Climate Change, Altay explica que existe uma relação inversa entre o conhecimento sobre como os ecossistemas funcionam e o nível de ansiedade climática. Entender processos como o ciclo da água ou a dinâmica dos solos dá às pessoas um senso de agência, permitindo que compreendam o tamanho do problema e possam, por exemplo, pressionar legisladores de forma mais informada. Ele enfatiza a importância de ‘refazer o ensino médio’ na vida adulta.
  • 00:57:41Soluções práticas e a escala do problema — A discussão se volta para ações concretas. Altay menciona que, segundo o IPCC, já temos a tecnologia para mitigar a crise climática; o desafio é político e comportamental. Ele cita o impacto ambiental dos animais de estimação e a carne cultivada em laboratório como exemplos de áreas onde mudanças são possíveis. A conversa também aborda o conceito de ‘demarketing’ (de Philip Kotler) – usar técnicas de marketing para reduzir o consumo – e a ‘Economia Donut’ de Kate Raworth, que propõe um modelo econômico baseado em limites ecológicos e sociais, não em crescimento infinito.

Dados do Episódio

  • Podcast: O Alvissareiro
  • Autor: O Alvissareiro
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2023-11-07T03:41:54Z
  • Duração: 01:12:15

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] E aí, moçada? E aí, Jéssica Correia?

[00:00:25] Olá, olá, Yasuda. Como você está?

[00:00:27] Eu estou muito bem, e você?

[00:00:28] Eu estou bem, estou bem.

[00:00:29] Até o momento.

[00:00:30] Vamos descobrir, né?

[00:00:31] Vamos descobrir.

[00:00:32] Eu só tenho um pouco de calor hoje.

[00:00:33] Calor, né? Será que o planeta está queimando?

[00:00:36] Eu não sei, vamos descobrir.

[00:00:37] Vamos descobrir isso.

[00:00:38] Estamos aqui também hoje com o Gabriel Prado.

[00:00:40] E aí?

[00:00:41] E aí, você está bem?

[00:00:42] I’m burning.

[00:00:43] I’m burning.

[00:00:44] I’m burning.

[00:00:45] Vamos falar um pouquinho sobre esse negócio de…

[00:00:49] Eu odeio.

[00:00:50] Se a coisa está queimando ou não mesmo, se está calor.

[00:00:52] Se a chapa está esquentando.

[00:00:54] Se a chapa está esquentando.

[00:00:55] A gente trouxe hoje um convidado.

[00:00:56] Aham.

[00:00:57] A gente trouxe hoje alguém que pode falar em nome da ciência.

[00:01:00] Sim.

[00:01:01] Exatamente.

[00:01:02] Um especialista com um E maiúsculo.

[00:01:04] Um especialista com um E maiúsculo.

[00:01:06] Irmãozinho de família Benove, de podcasts.

[00:01:08] Veja só vocês.

[00:01:09] Alta Ediçoso.

[00:01:10] Muito bem-vindo a O Alvi Sareiro.

[00:01:12] Uma honra estar aqui com vocês, um grupo tão seleto.

[00:01:15] E eu realmente não sei porque vocês precisam de mais uma chancela

[00:01:18] para perceber que as coisas estão estranhas.

[00:01:21] Mas é porque, veja bem, O Alvi Sareiro é aquele podcast

[00:01:24] que traz boas notícias para as pessoas.

[00:01:26] E talvez a gente tenha que trazer mais essa, né?

[00:01:29] Ai.

[00:01:30] E aí…

[00:01:31] Eu gosto muito que isso durou, tipo, dois episódios.

[00:01:34] Vem o programa.

[00:01:35] A gente tentou.

[00:01:37] É que a gente fez um número zero, né?

[00:01:39] Para falar, oh, vem aí.

[00:01:40] Vem aí.

[00:01:41] E aí, só pedrada.

[00:01:42] Vem aí o quê?

[00:01:43] Otimismo.

[00:01:44] Mas eu vou…

[00:01:45] Você vai entender por estar aqui, porque o título desse programa,

[00:01:48] inclusive, um título aí que tem sua referência, né?

[00:01:51] Eu fui ali na cultura pop, na cultura netflíquica

[00:01:55] para buscar esse título.

[00:01:56] O título é Planeta Terra.

[00:01:58] Está queimando?

[00:01:59] Vai ter planeta?

[00:02:00] O que faço?

[00:02:01] Vamos descobrir juntos.

[00:02:02] Esse é o título desse programa.

[00:02:05] Bem curto.

[00:02:06] Bem curto, maravilhoso.

[00:02:07] Vai ficar lindo na capuz.

[00:02:08] Não, conta para a gente, agora, porque eu adorei

[00:02:10] quando você explicou o nome.

[00:02:12] Referência a Bojack Horseman.

[00:02:14] Então, você é fã.

[00:02:15] Que é uma das minhas séries netflíquicas favoritas.

[00:02:18] Muito bem.

[00:02:19] É isso aí.

[00:02:20] Então, se você é fã, você já entendeu, obviamente.

[00:02:21] Se você não é fã, vai lá.

[00:02:22] Não precisava de mim.

[00:02:23] Vai lá assistir a série.

[00:02:24] A nossa ideia é a seguinte nesse programa.

[00:02:27] É discutir um pouquinho sobre a aflição das pessoas.

[00:02:30] Se tem razão.

[00:02:31] Se não tem razão.

[00:02:32] O que a ciência está falando a esse respeito.

[00:02:35] E claro, enfim, tentar fazer algum tipo de prognóstico aí.

[00:02:39] Do que a gente pode fazer nos próximos anos.

[00:02:41] Mas antes de partirmos para a pauta.

[00:02:44] A gente tem sempre aqueles recadinhos.

[00:02:46] O primeiro deles, o Alvi Sareiro,

[00:02:48] é membro orgulhoso da família Benove de podcasts.

[00:02:51] Você pode ouvir todos eles em benove.com.br

[00:02:55] barra podcasts.

[00:02:56] São podcasts para todos os gostos,

[00:02:58] cores, sabores e amores que você nutre nessa vida.

[00:03:02] Acesse já e ouça horas e horas de produção podcastica inédita nas interwebs.

[00:03:09] Este programa de O Alvi Sareiro

[00:03:11] está sendo gravado nos estúdios Voz da Vila Romana, em São Paulo.

[00:03:16] Para você conhecer um pouquinho mais

[00:03:17] e também tirar o seu projeto de podcast da gaveta,

[00:03:20] acesse instagram.com barra estúdios Voz

[00:03:24] para falar com toda a equipe e inundar o Instagram e o TikTok com os famigerados cortes.

[00:03:31] Então sem mais delongas, parte o pauta?

[00:03:34] Bora!

[00:03:43] Muito bem, muito bem.

[00:03:44] Não sei se muito bem, né?

[00:03:45] Não, talvez não.

[00:03:47] Vamos tentar entender aqui algumas coisas.

[00:03:49] Por que a gente se interessou em fazer essa pauta?

[00:03:51] É a parte mais importante.

[00:03:52] Então teve uma pesquisa aí mais ou menos no ano de 2021

[00:03:57] que foi referenciada pela BBC,

[00:03:59] porém não se manifestaram a respeito da fonte.

[00:04:02] Ou seja, carece de fontes.

[00:04:05] Pode ter sido a própria BBC, sei lá.

[00:04:07] A rainha.

[00:04:08] Pode ter sido a rainha na época, indo de porta em porta.

[00:04:11] A rainha na mesa branca, né?

[00:04:13] Isso.

[00:04:14] Bateram de porta em porta ali, do sud.

[00:04:16] Do sud.

[00:04:17] Na verdade foi com 10 mil entrevistados em 10 países.

[00:04:20] Concluiu-se o seguinte, que 60% desses participantes dessa entrevista,

[00:04:25] que tinham idades entre 16 e 25 anos,

[00:04:28] disseram que estavam muito ou extremamente preocupados

[00:04:32] o estágio ou o estado do planeta, as questões do clima atuais.

[00:04:38] Para três quartos, abre aspas, o futuro é assustador.

[00:04:42] E mais da metade, 56%, acredita que a humanidade está condenada.

[00:04:48] Esse fenômeno…

[00:04:50] Até aí normal, né?

[00:04:51] Até aí normal.

[00:04:52] É juventude.

[00:04:53] É juventude, pois é.

[00:04:54] Mas esse fenômeno ligado às questões do planeta, do clima,

[00:04:59] do que está acontecendo,

[00:05:00] ganharam um nome que a gente acabou de descobrir que nem é tão novidade assim,

[00:05:04] que é a eco ansiedade ou ansiedade climática

[00:05:07] por conta das notícias sobre a mudança climática.

[00:05:10] E isso tem afetado as pessoas de maneiras diferentes.

[00:05:14] Não é só a questão de ser mais jovem,

[00:05:16] talvez estejam mais desiludidos com o futuro,

[00:05:18] mas também tem recortes aí,

[00:05:20] se você vai ver como isso impacta a questão de renda,

[00:05:23] onde exatamente no planeta você está, gênero.

[00:05:27] E claro, no fim das contas, isso tudo tem a ver com a bem dita desigualdade,

[00:05:33] que a gente já discutiu e em tantos outros povos.

[00:05:36] Quantos episódios a gente tem?

[00:05:38] Esse é o sete.

[00:05:39] A gente falou em sete episódios.

[00:05:40] Isso, exatamente.

[00:05:41] Em seis e contando.

[00:05:46] Para a gente começar, são essas perguntas realmente do título.

[00:05:49] O planeta está mesmo condenado?

[00:05:51] Como é que a gente vive a partir daqui?

[00:05:53] O que a gente tem que esperar para os próximos anos?

[00:05:56] Zero esperança.

[00:05:57] Para além da questão de como mitigar o problema,

[00:06:00] se é que dá, e a gente vai falar um bocado disso também,

[00:06:03] como é que a gente vive nesse futuro sem essa eco ansiedade ou ansiedade climática?

[00:06:08] Eco ansiedade parece uma ansiedade carbono neutro.

[00:06:12] É uma ansiedade que, para cada ataque de…

[00:06:18] Você planta uma árvore.

[00:06:19] Ou você não toma remédio para não ir às substâncias para o mar,

[00:06:22] como tem acontecido. Não está rolando isso?

[00:06:24] Sim.

[00:06:25] Incluição.

[00:06:26] Todo o plástico da sua ansiedade se transforma em uma nova garrafa.

[00:06:30] Exatamente.

[00:06:31] Uma nova Pepsi.

[00:06:32] Uma garrafa de vidro.

[00:06:36] Vamos começar no começo.

[00:06:38] A primeira pergunta é que a gente tem que aproveitar o Thay, que está aqui.

[00:06:41] Exato. A gente vai tirar tudo dele.

[00:06:43] Então, Thay, o planeta está mesmo condenado?

[00:06:46] Não.

[00:06:47] Obrigada, gente.

[00:06:48] Valeu.

[00:06:49] A humanidade está condenada.

[00:06:51] A humanidade está condenada.

[00:06:53] Melhorou.

[00:06:54] Vamos lá.

[00:06:55] Então, pensando no planeta enquanto entidade física,

[00:06:59] o planeta ainda tem mais uns 6 bilhões de anos

[00:07:01] até o Sol crescer o suficiente para englobar ele.

[00:07:03] Para engolir o planeta.

[00:07:04] Então, a questão é o que a gente vai fazer até lá.

[00:07:06] Quando você pensa na humanidade como a gente imagina hoje,

[00:07:09] de fato temos desafios.

[00:07:10] E é interessante, se você pensar do ponto de vista histórico,

[00:07:13] pensa, por exemplo, é claro que a gente não tem empatia

[00:07:16] para imaginar como era a vida de uma pessoa na época feudal.

[00:07:20] Então, imagina, sei lá, 800 anos atrás, mais ou menos,

[00:07:24] no final do feudalismo, começo dos Estados-nação,

[00:07:27] você tinha aquela, até mais recentemente, para facilitar.

[00:07:29] 1789, Revolução Francesa.

[00:07:31] Então, a gente tinha o rei, e aí os burgueses tomaram,

[00:07:34] tem toda a questão dos jacobinos, não importa,

[00:07:36] você viu isso no seu ensino médio, mas se você não lembra,

[00:07:38] tudo bem também.

[00:07:39] A gente vai falar, inclusive, um spoiler,

[00:07:41] vamos falar sobre isso até o final do programa.

[00:07:43] Você não precisa de ensino superior para entender isso,

[00:07:45] é que você não entendeu isso tão bem no ensino médio,

[00:07:48] mas não tem problema.

[00:07:49] Se você pensar a Revolução Francesa,

[00:07:50] tenho uns trezentos e poucos anos,

[00:07:51] a sociedade era muito diferente de como é hoje.

[00:07:53] Então, você pensar na época da Revolução Francesa,

[00:07:56] para hoje, uma pessoa que nasceu em 1789,

[00:07:59] a sociedade de hoje é inimaginável.

[00:08:01] Inimaginável, é a sensação de que a humanidade vai acabar.

[00:08:05] E uma parte dela acabou, de fato.

[00:08:07] Milhões, e eu não estou exagerando,

[00:08:10] milhões de pessoas perderam sua vida,

[00:08:12] ou a possibilidade de ter uma vida um pouco mais frutífera,

[00:08:15] por conta de algumas decisões que foram tomadas naquela época,

[00:08:17] decisões sociais.

[00:08:18] Hoje a gente está passando por uma situação um pouco parecida,

[00:08:21] por uma questão diferente.

[00:08:22] Na época da Revolução Francesa,

[00:08:24] era por conta de uma demanda cultural, histórica,

[00:08:27] de grupos que disputavam recurso e política numa certa época.

[00:08:31] Hoje a questão é mais de fundo.

[00:08:33] Então, quando você pensa em aquecimento global,

[00:08:35] a gente até gravou um naro rodor sobre isso,

[00:08:37] sobre o impacto do aquecimento global.

[00:08:39] Tem o relatório do IPCC, que é lançado a cada três, quatro anos.

[00:08:42] Eu li o último relatório e tal, bem longo e tal.

[00:08:45] Fudeu, basicamente.

[00:08:46] Só que assim, quando você fala fudeu,

[00:08:48] não é uma coisa assim que do ano passado para cá mudou

[00:08:50] e você não tinha controle.

[00:08:51] Não é isso.

[00:08:52] Não é que, tipo, abriram, sei lá,

[00:08:55] acenderam o barril agora.

[00:08:57] Isso, não estourou agora.

[00:08:59] É um processo.

[00:09:00] E aí vale a pena para a gente que é mais velho,

[00:09:02] acho que o Yasuda, não sei vocês,

[00:09:04] mas a gente está quase ali nos 40.

[00:09:06] Eu sou um garoto.

[00:09:07] Isso, jovem, jovem mansivo.

[00:09:09] Mas para quem está ali perto dos 40,

[00:09:11] vai lembrar dessas coisas.

[00:09:12] Então, toda essa questão de aquecimento global

[00:09:14] vem do século XIX.

[00:09:15] Então, quando você pensa da ansiedade global,

[00:09:17] a ansiedade eco-anxiety,

[00:09:19] a ansiedade do eco, do ambiente e tal,

[00:09:22] é uma questão mais antiga do que as pessoas acham.

[00:09:24] É que está ficando mais popular.

[00:09:25] Está virando meme, está pegando.

[00:09:27] Mas se você pensa,

[00:09:28] a discussão sobre aquecimento global

[00:09:29] começou no século XIX,

[00:09:31] 1888, 1889.

[00:09:33] O criador da teoria das placas tectônicas,

[00:09:35] que hoje a gente viu que é fato,

[00:09:36] ele já falava do aquecimento global

[00:09:38] por conta da dinâmica tectônica.

[00:09:40] Então, desde aquela época já tinha essa discussão.

[00:09:42] A questão que não era muito saliente

[00:09:44] porque não incomodava as pessoas

[00:09:45] e porque tinham outros interesses,

[00:09:47] interesses econômicos, interesses políticos.

[00:09:49] Não afetava tanto o ambiente, que é uma questão de fundo.

[00:09:52] E aí foi se criando uma ideia de sociedade,

[00:09:54] que vem do ideal burguês,

[00:09:56] uma ideia de sociedade que cresce por acumulação.

[00:09:58] A ideia de lucro por acumulação

[00:10:00] é uma ideia que favorece vários grupos,

[00:10:02] tem coisas positivas, muito.

[00:10:04] A massificação da educação

[00:10:06] e a possibilidade de mais pessoas

[00:10:08] terem acesso à educação,

[00:10:09] foi pela possibilidade de você ter uma educação

[00:10:11] não para emancipação,

[00:10:13] mas sim uma educação voltada para o trabalho.

[00:10:15] Então, logo pós o começo do século XX,

[00:10:17] principalmente na França e na Inglaterra,

[00:10:19] as pessoas precisam trabalhar.

[00:10:21] Adan Smith, qual é a ideia de uma nação rica?

[00:10:23] Uma nação rica é uma nação capaz de gerar trabalho.

[00:10:25] E quanto mais trabalho você gera, mais rico você é.

[00:10:27] Então você tem que educar as pessoas para o trabalho.

[00:10:29] E aí você tem que ensinar português e matemática,

[00:10:31] língua e matemática para as pessoas.

[00:10:33] Beleza? Ótimo!

[00:10:35] Tem um ganho secundário, as pessoas se escolarizaram,

[00:10:37] pensam melhor, estruturam melhor,

[00:10:39] têm uma noção de futuro melhor,

[00:10:41] só que isso não é voltado para o conhecimento do mundo,

[00:10:43] mas sim para o trabalho.

[00:10:45] Então, é tudo dialético.

[00:10:47] E aí, numa sociedade que é estruturada por acúmulo,

[00:10:49] quando você estuda a teoria econômica do começo do século XX,

[00:10:51] que é uma vergonha que continua até hoje.

[00:10:53] Maldita economista!

[00:10:55] É ortodoxo!

[00:10:57] Desgraça dos satanais!

[00:10:59] Aí a economia comportamental está crescendo hoje,

[00:11:01] mas está entrando em conflito com essa.

[00:11:03] Mas enfim, isso é outro tema.

[00:11:05] Mas essa ideia de que você só tem lucro,

[00:11:07] você só tem crescimento econômico,

[00:11:09] macroeconômico, quando você tem acúmulo.

[00:11:11] Então, o crescimento econômico

[00:11:13] é pautado pelo lucro,

[00:11:15] não pela estabilidade.

[00:11:17] Isso é uma coisa que tem um conflito completo

[00:11:19] com a ideia biológica.

[00:11:21] Quando você pensa que surgiu na mesma época,

[00:11:23] final do século XIX.

[00:11:25] Quando você pensa a teoria da seleção natural,

[00:11:27] principalmente a genética de população,

[00:11:29] genética de população é baseado no equilíbrio ecológico.

[00:11:31] Então você tem que manter uma situação

[00:11:33] em que os agentes biológicos estão em equilíbrio.

[00:11:35] O modelo econômico é o contrário.

[00:11:37] O modelo só cresce, só dá lucro

[00:11:39] e só se sustenta quando ele cresce.

[00:11:41] Quando ele continua crescendo.

[00:11:43] Sempre crescendo.

[00:11:45] Se você tem um modelo econômico vigente

[00:11:47] que pode ter achado uau,

[00:11:49] é mais ou menos o seguinte,

[00:11:51] você tem lá a sua empresa, por exemplo.

[00:11:53] Pro modelo econômico vigente,

[00:11:55] se você ganha um valor

[00:11:57] aqui hipotético, um milhão de reais

[00:11:59] ao longo do ano do senhor de 2023

[00:12:01] para 2024, sabe o que acontece?

[00:12:03] Se você ganhar o mesmo milhão de reais,

[00:12:05] você está com problemas.

[00:12:07] Você está em déficit.

[00:12:09] Esse é o modelo. Não, você tem que crescer.

[00:12:11] E crescer há uma taxa de acordo

[00:12:13] com o seu crescimento de 2022 para 2023.

[00:12:15] Então, sei lá, se em 2022

[00:12:17] você tinha ganhado 900 mil,

[00:12:19] e aí você ganhou um milhão em 2023,

[00:12:21] então a projeção para 2024

[00:12:23] vai ficar nessa casa de um milhão

[00:12:25] e cem, mas é só para facilitar a conta.

[00:12:27] Mas é essa a ideia.

[00:12:29] Isso.

[00:12:31] Isso é insustentável do ponto de vista

[00:12:33] de produtivo até.

[00:12:35] Do ponto de vista macroeconômico, isso é a mola.

[00:12:37] Só que aí você se baseia numa

[00:12:39] premissa de que o recurso natural

[00:12:41] é infinito. E aí que você quebra o axioma.

[00:12:43] Porque hoje a gente está chegando

[00:12:45] num limite de saturação disso.

[00:12:47] Então não dá para considerar o limite biológico

[00:12:49] como infinito, porque ele não é. E a ação

[00:12:51] da atividade antrópica humana está afetando

[00:12:53] esse limite. Então, por exemplo, já tem

[00:12:55] no próprio artigo do IPCC, né? Então, imagina

[00:12:57] toda a capacidade de recurso biológico que a Terra

[00:12:59] tem por um ano, tá? É x.

[00:13:01] A gente utiliza essa capacidade biológica

[00:13:03] em nove meses. Ou seja, a gente está comendo

[00:13:05] o bolo mais rápido do que o bolo é produzido.

[00:13:07] É simples assim, a gente não está dando conta.

[00:13:09] Se você pensar num sistema biológico, se o sistema

[00:13:11] biológico fosse semelhante ao sistema

[00:13:13] econômico, essa é a definição de um câncer

[00:13:15] que vai crescendo. E aí vai matar o organismo

[00:13:17] num certo momento. Multiplicando.

[00:13:19] É muito parecido, é muito parecido. Então, assim,

[00:13:21] a questão do aquecimento global já é

[00:13:23] discutida há um século, pelo menos. Os meus

[00:13:25] colegas que são climatólogos, como eles já estão

[00:13:27] muito acostumados com isso, ele vai falar

[00:13:29] terça-feira, né?

[00:13:33] Acendi um cigarro?

[00:13:35] Eu tinha 20 anos. 30 anos atrás.

[00:13:37] Não, não. Tipo, já passou do eu sabia.

[00:13:39] Tipo, o eu sabia era na Eco 92.

[00:13:41] Você lembra da Eco 92?

[00:13:43] Lembra, Collor?

[00:13:45] Era uma criança, era um infante.

[00:13:47] Mas eu lembro da comoção Eco 92,

[00:13:49] sim, com certeza. O Collor foi deposto lá,

[00:13:51] pichado depois e tal.

[00:13:53] A Eco 92, a questão da

[00:13:55] camada de ozônio, aquela toda discussão no começo dos anos 90.

[00:13:57] A Lorota era assim,

[00:13:59] que é verdade. Foi nos anos 60,

[00:14:01] foi um pouco antes até, foi produzido

[00:14:03] um tipo de gás

[00:14:05] refrigerante que era muito eficaz,

[00:14:07] gás freon, muito eficaz.

[00:14:09] Inclusive, não chegou a ganhar o Nobel, mas

[00:14:11] ganhou prêmios, e de fato, os químicos,

[00:14:13] e os engenheiros químicos que fizeram

[00:14:15] isso. E aí tem uma série de aplicações, o

[00:14:17] gás freon, ele é muito eficaz e tal. Só que a questão

[00:14:19] que ele é liberado na atmosfera,

[00:14:21] ele reage com ozônio, e o

[00:14:23] ozônio é O3, né? São três moléculas de

[00:14:25] oxigênio, ele quebra ozônio em dois, então

[00:14:27] gera oxigênio. E aí ozônio é muito importante pra

[00:14:29] proteção da camada de ozônio

[00:14:31] da Terra contra os raios ultraviolentes.

[00:14:33] A gente aprendia na escola nessa época,

[00:14:35] eu fui criança de aprender aquela coisa

[00:14:37] da camada de ozônio nos protege,

[00:14:39] nos raios UV.

[00:14:41] Mas você lembra, mesmo que

[00:14:43] seja sua memória afetiva, você lembra que isso

[00:14:45] era muito presente, o Jornal Nacional

[00:14:47] falava, todo mundo falava.

[00:14:49] Bickman falava, que era uma coisa

[00:14:51] pra quem gostava. O tema de biologia

[00:14:53] era o CFC, né?

[00:14:55] Erradicamos o CFC.

[00:14:57] CFC Free,

[00:14:59] até as embalagens de,

[00:15:01] embalagens de McDonald’s, mudaram naquela época

[00:15:03] porque não usava mais aquele

[00:15:05] isopor do CFC lá.

[00:15:07] Que era produzido com máquina…

[00:15:09] Eu vou falar de coisa séria, canudo, vai matar

[00:15:11] tartaruga? Algumas, mas não todas.

[00:15:13] Mas o ponto

[00:15:15] disso do CFC é que assim,

[00:15:17] de novo, é importante, e a

[00:15:19] camada de ozônio a gente tava ferrado, né?

[00:15:21] Só que o que aconteceu? A solução

[00:15:23] não atrapalhava com o modelo de produção

[00:15:25] vigente, e é por isso que a gente não sentiu.

[00:15:27] Então, por exemplo, quando começou a dar problema,

[00:15:29] e aí, posso fazer jabá de outros

[00:15:31] podcasts? Claro!

[00:15:33] Tem um podcast fantástico que conta a história mesmo,

[00:15:35] factual, explica com mais detalhes,

[00:15:37] que é o Escafandro.

[00:15:39] Eu gosto muito do Tomás,

[00:15:41] acho muito bom.

[00:15:43] Aí o Escafandro tem um episódio especificamente sobre isso,

[00:15:45] que ele conta os detalhes factuais,

[00:15:47] da questão do CFC, da camada de ozônio

[00:15:49] e tal. E o que aconteceu?

[00:15:51] Quando eles perceberam que ia dar ruim, eles falavam,

[00:15:53] ó, a gente tem que descobrir um outro gás

[00:15:55] refrigerante que não dê esse problema, beleza?

[00:15:57] Então, em um espaço de 10 anos, mais ou menos, eles descobriram

[00:15:59] outro. E aí, os caras do marketing,

[00:16:01] desgraça do satanás de cóter do

[00:16:03] inferno, os 4P do demônio,

[00:16:05] fizeram o seguinte, falaram, ó, descobrimam

[00:16:07] um novo gás, beleza?

[00:16:09] Aí era os anos 80, mais ou menos.

[00:16:11] Quando eles descobriram outro gás, é, não dá pra

[00:16:13] substituir o gás da geladeira por esse novo.

[00:16:15] Tem que comprar uma nova geladeira.

[00:16:17] Percebeu, né? Ou seja, eles

[00:16:19] usaram isso pra refazer o mercado e fazer

[00:16:21] consumir mais. Aí a mudança foi

[00:16:23] super rápida. Em 5 anos, mudou tudo.

[00:16:25] Bom você trazer esse capítulo

[00:16:27] muito peculiar, esse caos,

[00:16:29] porque aí vamos trazer pra esse momento atual.

[00:16:31] É cocaozo. Esse momento que

[00:16:33] a gente tá aqui, óbvio, porque

[00:16:35] assim, o climatologista pode

[00:16:37] tá falando,

[00:16:39] rindo da minha cara. Porém, o ser humano

[00:16:41] médio, o ouvinte que tá em casa,

[00:16:43] as pessoas estão nessa

[00:16:45] mesa,

[00:16:47] a roda da turminha no boteco,

[00:16:49] essa galera aí toda, eles podem

[00:16:51] tá muito preocupados nesse exato

[00:16:53] momento, porque as notícias

[00:16:55] se avolumam, né? Nesse momento

[00:16:57] a Amazônia tá com a seca histórica.

[00:16:59] O que é fato. O que é fato. Nesse

[00:17:01] momento nós tivemos, né, muito

[00:17:03] recentemente a pior onda já registrada

[00:17:05] de calor, né, em termos de temperaturas

[00:17:07] aí em algumas capitais do país.

[00:17:09] Estamos tendo chuvas muito

[00:17:11] acima da média, né, no… No sul.

[00:17:13] No sul. Tudo isso tá acontecendo nesse

[00:17:15] exato momento. Então nesse exato momento a pessoa

[00:17:17] opa, eu preciso,

[00:17:19] preciso me preocupar. E novamente

[00:17:21] esse mercado tá vindo com soluções.

[00:17:23] Isso. Por exemplo, sei lá,

[00:17:25] vamos… E se em vez

[00:17:27] de você utilizar determinada

[00:17:29] coisa que queima petróleo,

[00:17:31] você ir partir pra elétrico,

[00:17:33] se queria trocar, por exemplo, todos os carros do mundo.

[00:17:35] Ou… Ah, né,

[00:17:37] vou… Pra não ficar apenas nisso,

[00:17:39] né. Transporte público.

[00:17:41] Vamos tirar, vamos eletrificar

[00:17:43] toda a frota. Transporte de

[00:17:45] cargas. A mesma coisa. Significa

[00:17:47] que a gente tá fazendo praticamente a mesma

[00:17:49] coisa e eu sei que também tem a questão

[00:17:51] de… Mas sem a gente

[00:17:53] falar da matriz energética, por exemplo,

[00:17:55] isso não tem muita diferença,

[00:17:57] né, por assim dizer, né. Mas a gente

[00:17:59] tá tentando aplicar novamente

[00:18:01] pra esse problema o mesmo modelo,

[00:18:03] né. Exatamente. E não vai funcionar.

[00:18:05] Talpar o antes, né? Como o antes?

[00:18:07] Como o antes. Então antes funcionou

[00:18:09] por quê? Porque o axioma de

[00:18:11] que os recursos naturais, entre aspas, são infinitos,

[00:18:13] ou seja, eles são muito grandes, dado

[00:18:15] quanto a gente consome, né. Funcionava.

[00:18:17] Funcionava. Hoje já não é assim. E

[00:18:19] de novo, não é uma questão do

[00:18:21] aumento da população. Claro que a população aumentou

[00:18:23] muito rápido exponencialmente, mas não tem

[00:18:25] a ver com isso. Tem a ver com a questão do consumo

[00:18:27] mesmo. E a necessidade macroeconômica de que

[00:18:29] o mercado só cresce por uma acumulação

[00:18:31] e daí vem o nome capitalismo, né.

[00:18:33] O que faz o mercado crescer não é o trabalho,

[00:18:35] é o empregador. A gente vai chegar

[00:18:37] de novo… Peraí, eu só quero saber se a gente tá

[00:18:39] chegando no capitalismo. Não, não, não.

[00:18:41] Se a gente tá chegando de novo numa frase

[00:18:43] que é repetida com bastante

[00:18:45] conhecimento nesse programa alviçareiro, a culpa é

[00:18:47] do capitalismo? Não.

[00:18:49] A culpa não é do capitalismo.

[00:18:51] Não é? Não é?

[00:18:53] Break news.

[00:18:55] É que não é que a questão é culpa

[00:18:57] do capitalismo. A questão é a culpa das pessoas.

[00:18:59] Porque as pessoas entendem o capitalismo como se fosse

[00:19:01] uma pessoa. Mas não é. Não é uma pessoa,

[00:19:03] né. Ela é resultado de um

[00:19:05] conglomerado de interesses, feito por

[00:19:07] as pessoas. Então, por exemplo, quando você

[00:19:09] pensa o seu trabalho, o seu trabalho cresce

[00:19:11] de forma aditiva. Então, quando mais

[00:19:13] você produz, mas você não consegue produzir

[00:19:15] exponencialmente, você produz aditivamente.

[00:19:17] Quando você pega o trabalho que as pessoas

[00:19:19] produzem, né, por um empregador. Então, o empregador

[00:19:21] ele pega o trabalho de cada pessoa

[00:19:23] e ele consegue transformar isso

[00:19:25] num efeito exponencial. Quando ele vive

[00:19:27] por capital e não por trabalho.

[00:19:29] Então, quem vive por capital

[00:19:31] ganha de forma exponencial. Quem é

[00:19:33] assalariado vive de forma aditiva.

[00:19:35] Tudo bem ser essa regra do mercado.

[00:19:37] A questão é que um ganho aditivo, como

[00:19:39] uma reta, é muito diferente de um ganho exponencial.

[00:19:41] Você não precisa fazer uma função exponencial

[00:19:43] tão diferente da função linear. Você pode

[00:19:45] dar uma aproximada. Então, assim,

[00:19:47] tem muita gente que advoga isso. Não, tem que quebrar o

[00:19:49] mercado e começar tudo de novo, né.

[00:19:51] Se você quebrar, custo de vidas

[00:19:53] vai ser muito longo pra ter uma

[00:19:55] amortização. Você nem vai ver, né. Você não vai ver, vai levar

[00:19:57] gerações. Vida a Revolução Francesa.

[00:19:59] Quem implementou a Revolução Francesa

[00:20:01] e aplicou, não viu os resultados. Foram

[00:20:03] gerações posteriores. Isso é

[00:20:05] uma questão de escolha. A questão não é essa.

[00:20:07] Parece governo quando quer resolver tudo em quatro anos e deixa

[00:20:09] pra lá e não dá continuidade. Isso.

[00:20:11] Você não faz um plano de governo.

[00:20:13] Exato. E aí a ideia de um legado

[00:20:15] de governo, não é você pensar no seu

[00:20:17] curral eleitoral. É o que você vai deixar de legado

[00:20:19] de fato, né. E é difícil.

[00:20:21] É uma decisão difícil. Mas a questão

[00:20:23] é assim. Vamos supor que o modelo

[00:20:25] capitalista é o modelo que está e vai continuar.

[00:20:27] Só de diminuir a desigualdade, você

[00:20:29] resolve o problema de forma exponencial,

[00:20:31] né. E aí como é que você ajuda

[00:20:33] a resolver isso? Primeiro com legislações,

[00:20:35] daí o papel do Estado forte,

[00:20:37] essa coisa liberal, para. Não funciona

[00:20:39] gente. Então funciona pra

[00:20:41] alguns. Exato, mas

[00:20:43] sociedade não. E principalmente não

[00:20:45] pra essa emergência que

[00:20:47] estamos tendo nesse momento. Isso. Então

[00:20:49] o seu pé vai queimar daqui a um ano,

[00:20:51] o meu pé tá queimando agora. A questão

[00:20:53] é que todo mundo se ferra no final. A questão é quando?

[00:20:55] Então tudo bem, você vai ficar bebendo

[00:20:57] Martini, sei lá, numa piscina,

[00:20:59] em Dubai, numa festa, em Ibiza,

[00:21:01] mas vai chegar uma hora que vai acabar pra todo mundo.

[00:21:03] A questão é como é que a gente cria uma coisa

[00:21:05] mais sustentável, diminuindo a desigualdade.

[00:21:07] Você pode diminuir a desigualdade tendo o Estado

[00:21:09] um pouco mais forte pra regular algumas coisas,

[00:21:11] aí tem a ação das empresas e tal,

[00:21:13] mas muitas empresas vão quebrar, porque a margem

[00:21:15] de lucro delas é muito baixa, e aí elas

[00:21:17] dependem de crescimento rápido. Então,

[00:21:19] tem esses modelos, e aí uma questão de pesquisa

[00:21:21] macroeconômica e tal, mas do ponto

[00:21:23] de vista individual, tem coisas que a gente pode

[00:21:25] fazer, que aí ataca a questão da ansiedade,

[00:21:27] né. Aí indo pra esse conceito de

[00:21:29] é com ansiedade, alguma coisa assim,

[00:21:31] não é um conceito novo, ele vem de 2007.

[00:21:33] Olha só, essa pra mim até pegou

[00:21:35] como novidade, tá sendo mais

[00:21:37] comentada agora, tá sendo

[00:21:39] mais falada, né, a gente

[00:21:41] viu que, por exemplo, dessa pesquisa que eu peguei

[00:21:43] em 2021, aí já vi

[00:21:45] coisas assim em 2022, esse

[00:21:47] ano, mas não era uma coisa que eu tava

[00:21:49] ultra acompanhando anteriormente.

[00:21:51] É, então, a discussão acadêmica

[00:21:53] sobre isso começou em 2007, estudando

[00:21:55] quem? Os ativistas, porque…

[00:21:57] Ah tá, os ativistas tinham é com ansiedade,

[00:21:59] porque eles estavam mais perto, o Greenpeace,

[00:22:01] aquela coisa toda, a prevalência era mundial. Eles cresceram

[00:22:03] ouvindo da Eco 92,

[00:22:05] chegaram em 2007 e falaram, meu,

[00:22:07] não mudou nada. Assistiram Ilha das

[00:22:09] Flores? É,

[00:22:11] o polegar opositor.

[00:22:13] Gente,

[00:22:15] é assim, estudo público.

[00:22:17] E aí começaram a escrever o acordo de Paris.

[00:22:19] É, que não mudou nada.

[00:22:21] Inferno.

[00:22:23] Mas enfim, eu converso… Volta aí, vai sair

[00:22:25] assim, meu Deus. Não, não, eu não

[00:22:27] tenho mais ansiedade, tipo, tá,

[00:22:29] você chega em uma resiliência, tá bom.

[00:22:31] É isso, a gente faz o que pode.

[00:22:33] Mas esse conceito surgiu em 2007, 2008,

[00:22:35] então já tem alguns estudos a respeito

[00:22:37] desde aquela época, mas o interessante é que

[00:22:39] dá pra descrever comportamentalmente o que seria

[00:22:41] essa eco ansiedade, porque não se aplica só

[00:22:43] a questão climática, né? Então, pensa

[00:22:45] no indivíduo, né? O indivíduo que se sente

[00:22:47] ansioso em relação ao fato do

[00:22:49] aquecimento global, das dificuldades

[00:22:51] ambientais e tal, e o fato de hoje

[00:22:53] isso está afetando a gente. A gente tem recordes

[00:22:55] de calor, você tá sentindo calor, você

[00:22:57] tá sentindo fudação, isso tá batendo no seu pé.

[00:22:59] Então, dá essa ansiedade mesmo.

[00:23:01] Então, o ponto é o seguinte, que situação

[00:23:03] seria essa? Então, imagina a situação de um

[00:23:05] agente que tem um evento externo

[00:23:07] a ele, que afeta ele, mas é

[00:23:09] muito distante dele. Então,

[00:23:11] o clima é uma coisa muito distante

[00:23:13] de você, que te afeta, você se

[00:23:15] sente muito pequeno em relação a esse ambiente,

[00:23:17] e aí o seu senso de agência é

[00:23:19] muito baixo. Ah, o que que eu faço frente ao

[00:23:21] aquecimento global? Quem sou eu pra mudar isso?

[00:23:23] Isso, exato. É a minha eco bag que vai fazer

[00:23:25] isso. Isso, então, mesmo que você compra

[00:23:27] a eco bag, enfim, parece que

[00:23:29] não funciona. Vai continuar chovendo

[00:23:31] muito ou fazendo muito calor. Então, o seu senso de

[00:23:33] agência é baixo. A sua capacidade de

[00:23:35] controlar aquilo que te controla é muito

[00:23:37] pequeno, muito pequena. E aí tem uma coisa

[00:23:39] importante, que na psicologia tem dois conceitos

[00:23:41] importantes, que é o conceito de ansiedade

[00:23:43] e o conceito de angústia.

[00:23:45] Então, um grande problema da

[00:23:47] eco ansiedade é que as pessoas querem, no fundo,

[00:23:49] ser felizes. E não dá. Não, você

[00:23:51] não vai.

[00:23:53] Ela só querem

[00:23:55] parar de se preocupar com aquilo.

[00:23:57] Melhorou, melhorou.

[00:23:59] A gente sempre trazendo boas notícias.

[00:24:01] Muito obrigada, gente. Esse é um alvi sarilo.

[00:24:03] Ouvinte, você não vai

[00:24:05] ser feliz. É, se depender

[00:24:07] disso, esquece.

[00:24:09] Em relação a isso, você não vai mesmo. Mas a ansiedade

[00:24:11] é isso, né? É resolver o faniquí, não é

[00:24:13] resolver o problema. É tirar ele da sua

[00:24:15] frente. Isso, vamos definir,

[00:24:17] vamos definir. Ansiedade é um estado

[00:24:19] que você sente, né? Em relação

[00:24:21] a um problema que você tem que resolver, que você

[00:24:23] não tem controle. Então, por exemplo, um exemplo

[00:24:25] bem besta. Você tem uma prova semana que vem

[00:24:27] e você não estudou pra prova. Você não estudou.

[00:24:29] Não vai vir um bem divino, vai vir uma luz na sua

[00:24:31] cabeça na hora da prova. Você não estudou,

[00:24:33] você sabe que não vai ter mais tempo, então você fica

[00:24:35] ansioso. Puta, vou ter que fazer a prova.

[00:24:37] Aí o que você faz em nome da sua

[00:24:39] ansiedade? Você foge, não vai

[00:24:41] fazer a prova. Ou você faz a prova,

[00:24:43] tira aquele meio e aí depois você fala

[00:24:45] ah, é porque não estudei o suficiente, que se eu tivesse

[00:24:47] estudado, era bom. Ia

[00:24:49] muito bem. Ou seja, você lida de uma forma

[00:24:51] desadaptativa com a ansiedade. Por quê?

[00:24:53] Porque você não se preparou pra resolver

[00:24:55] o problema. Ansiedade é isso.

[00:24:57] Por isso que você tem transtorno de ansiedade.

[00:24:59] Porque a pessoa está numa situação,

[00:25:01] enfim, acontece com ela ou ela se coloca

[00:25:03] numa situação que ela sente que não tem controle

[00:25:05] das coisas. Então as coisas vão acontecer comigo,

[00:25:07] eu não consigo fazer nada, eu caio em desamparo.

[00:25:09] Tudo bem, isso é ansiedade, uma questão.

[00:25:11] Angústia é diferente, né?

[00:25:13] Angústia é uma outra coisa. Tipo, tem

[00:25:15] um negócio que vai acontecer, pode ser que eu perca,

[00:25:17] pode ser que eu seja derrotado, mas

[00:25:19] eu sei o caminho que eu poderia ter

[00:25:21] pra que talvez dê certo. Você não tem a

[00:25:23] garantia de nada. Então, por exemplo, eu tenho a prova

[00:25:25] semana que vem, mas eu tô estudando desde essa semana.

[00:25:27] Faz um mês que eu tô estudando, todo dia

[00:25:29] um pouquinho, vai ter a prova. A gente

[00:25:31] volta em um minutinho com esse papo.

[00:25:33] Por exemplo, eu associo muito, que eu

[00:25:35] fiz judô 30 anos, né? Então no judô é assim,

[00:25:37] vai ter o campeonato. Como é que você faz pra se preparar

[00:25:39] pro campeonato? Você treina. Treina.

[00:25:41] Mas você tem que treinar um ano antes pra

[00:25:43] dar certo. Mas você tem garantia de,

[00:25:45] mesmo treinando um ano? Não. Não. Mas ali

[00:25:47] você se sente angustiado. Eu me preparei,

[00:25:49] eu sei que eu sou bom, que eu sou ruim, que pode

[00:25:51] dar certo, que pode dar errado. Pode ser que na hora

[00:25:53] o cara seja melhor? Pode. Mas pelo menos

[00:25:55] tô me preparando pra perda.

[00:25:57] E se eu perder, eu sei porque eu tô perdendo. Beleza.

[00:25:59] Essa é a angústia. Essa é a saída

[00:26:01] da felicidade. Então quer dizer que a gente chama

[00:26:03] angústia de

[00:26:05] ansiedade. Algumas vezes. Na maior parte

[00:26:07] dos casos. Algumas vezes. Então, por exemplo, a

[00:26:09] pessoa que tem o transtorno de ansiedade,

[00:26:11] ela sente que ela não consegue fazer nada.

[00:26:13] Sente as mãos atadas. É, então…

[00:26:15] Que ela não tem controle. Isso.

[00:26:17] Tem uma paralisia, assim. O experimento clássico

[00:26:19] de ansiedade que vem dos anos 50. O sentido de

[00:26:21] agência, né? Agência. Sobre a própria vida

[00:26:23] e as situações. Isso.

[00:26:25] O experimento clássico dos anos 50, que até é

[00:26:27] antiético hoje, mas o resultado é tão robusto que não precisa

[00:26:29] refazer. Você pega um ratinho e coloca numa caixinha

[00:26:31] e ele lá, tá na caixinha dele,

[00:26:33] você começa a dar choques nele, você eletrifica

[00:26:35] o piso e começa a dar

[00:26:37] choques nele e ele não pode fazer nada pra evitar.

[00:26:39] Nada. Vai chegar uma hora que ele vai ficar parado

[00:26:41] do choque. Ele entra em desamparo. Isso é desamparo

[00:26:43] aprendido. Ele aprendeu que não adianta fazer nada.

[00:26:45] Muitas pessoas se sentem assim.

[00:26:47] E aí tem uma série de condicionantes pra isso.

[00:26:49] Às vezes você passou por um trauma, uma dificuldade, mas

[00:26:51] na questão do aquecimento global, é uma coisa

[00:26:53] tão maior que você, que você não entende,

[00:26:55] é você levando choque o dia inteiro.

[00:26:57] Você abre o desgraça do TikTok,

[00:26:59] do Twitter. Portão de

[00:27:01] notícias, qualquer coisa. É.

[00:27:03] Você fica vendo esse monte de coisas e o objetivo

[00:27:05] último dessas notícias não é pra te informar,

[00:27:07] é pra te associar, pra você clicar

[00:27:09] pra comprar a porra de um produto. Exato.

[00:27:11] Uma eco bag.

[00:27:13] E um dos assuntos que eu acho importante.

[00:27:15] Um dos assuntos importantes

[00:27:17] é trazer realmente o consumo

[00:27:19] e a agência

[00:27:21] pessoal em relação. Não queremos

[00:27:23] mudar a nossa vida em nada.

[00:27:25] O nosso conforto em nada.

[00:27:27] Mas assim, eu tô super preocupada com o meu ambiente.

[00:27:29] E aí tem um lance que pra mim

[00:27:31] acho que é uma categoria aí que já

[00:27:33] houve talvez com uma força grande

[00:27:35] no mercado. E outros temos

[00:27:37] entrar na moda com greenwashing e tal. E o pessoal

[00:27:39] até tentou veja bem,

[00:27:41] pegar um pouco mais leve. Mas mega tá aí

[00:27:43] que é um consumo de indulgência.

[00:27:45] Uma coisa do tipo, olha

[00:27:47] então eu tô comprando a eco bag,

[00:27:49] eu tô… Separando o meu

[00:27:51] lixo. Separando o meu lixo, eu tô…

[00:27:53] Canudo de papel.

[00:27:55] Isso, meu canudo agora é de papel.

[00:27:57] Eu tô olhando lá os rótulos dos produtos.

[00:27:59] Tô olhando rótulos dos produtos, aquela coisa.

[00:28:01] Tô comprando de marcas que tem

[00:28:03] selo de origem, etc.

[00:28:05] Então minha parte tá feita.

[00:28:07] Então isso é um pedaço.

[00:28:09] Isso é uma parte. É importante.

[00:28:11] Então você informar, saber de onde

[00:28:13] os produtos, a procedência, é legal.

[00:28:15] Isso ajuda a reduzir sua angústia.

[00:28:17] Não quer dizer que você vai ser feliz. A sua felicidade

[00:28:19] depende de você. Não coloca isso

[00:28:21] em outro. Tem a ver

[00:28:23] com você, seu espaço individual, sua história de vida.

[00:28:25] É individual. Cada um tem o seu caminho.

[00:28:27] E aqui a gente não tá pra fazer terapia de ninguém.

[00:28:29] Quer dizer, veja bem.

[00:28:31] Né, Gabriel?

[00:28:33] Não, não. Eu falo como psicólogo que podcast

[00:28:35] não sai pra terapia de ninguém.

[00:28:37] Perfeito. Ouvindo aqui, só que na terapia.

[00:28:39] Isso, que fique registrado, tá?

[00:28:41] Então assim, a ideia é que você vai ter a angústia.

[00:28:43] A angústia é algo que

[00:28:45] não é nem que ela te movimenta, ela te organiza

[00:28:47] a entender os porquês

[00:28:49] das coisas que te controlam, como

[00:28:51] elas te controlam. E isso te dá uma forma

[00:28:53] de contracontrole.

[00:28:55] E aí uma coisa muito importante que a gente já discutiu, que eu acho

[00:28:57] fundamental, e as pessoas, no começo

[00:28:59] elas acham estranhíssimo, tá?

[00:29:01] Mas eu acho que eu consegui convencer vocês na conversa que a gente

[00:29:03] teve antes. Você entender como as coisas

[00:29:05] funcionam te dá um senso de agência,

[00:29:07] não pra resolver, mas pra entender o

[00:29:09] impacto de algo que vai acontecer.

[00:29:11] Então eu vou dar o exemplo do judô mesmo. Imagina que eu treino

[00:29:13] o judô, treinei o ano inteiro, tô bem,

[00:29:15] eu entendo lá, tô bem preparado.

[00:29:17] Aí entra o campeonato, eles vão fazer o sorteio da Chaves.

[00:29:19] E aí o cara que cai na sua chave é o campeão

[00:29:21] mundial. O que eu vou fazer?

[00:29:23] Você pode fazer alguma coisa, mas você sabe como se preparar.

[00:29:25] Ó, eu tenho aqui o que eu sei fazer,

[00:29:27] eu já vi as lutas do cara, eu sei o que ele vai fazer.

[00:29:29] Mas provavelmente eu vou tomar o cacete, né?

[00:29:31] Mas tá bom. Mas pelo menos você já se prepara,

[00:29:33] você já sabe que você vai ter uma perda, como é que você

[00:29:35] lida com ela, você se prepara. Se você ganhar

[00:29:37] porra, mas o que você vai fazer?

[00:29:39] Esse senso de preparação te dá

[00:29:41] agência, né? Então,

[00:29:43] por exemplo, pensando no aquecimento global, coisa

[00:29:45] do tipo, como que você se prepara? Entendendo

[00:29:47] como a natureza funciona. E aí tem um artigo,

[00:29:49] 2023, saiu em março, fantástico.

[00:29:51] É um artigo que eles aplicaram várias escalas

[00:29:53] num conjunto de pessoas, muito bem feito o artigo.

[00:29:55] Inclusive a revista chama Climate Change,

[00:29:57] né? Uma revista pra isso mesmo, muito

[00:29:59] interessante. O que eles mostraram é que existe uma

[00:30:01] relação inversa entre o seu grau

[00:30:03] de ansiedade com o clima e o seu

[00:30:05] conhecimento de como o ecossistema

[00:30:07] funciona. Então você informar

[00:30:09] a pessoa sobre como funciona um bioma,

[00:30:11] por exemplo, uma coisa que eu sei

[00:30:13] que vocês viram no ensino fundamental e médio.

[00:30:15] Você lembra do nome? Não lembra como funciona.

[00:30:17] O ciclo da chuva.

[00:30:19] O nome vem.

[00:30:21] Eu lembro até da ilustração.

[00:30:23] Vendo pro mar.

[00:30:25] Opa, os dentes.

[00:30:27] Não dá vontade de escorralar?

[00:30:29] O seu hipocampo registra

[00:30:31] essa merda.

[00:30:33] Nunca isso foi tão útil quanto agora.

[00:30:35] De você ver que a água cicla, aí mole o solo,

[00:30:37] tem a reação hidrogenada,

[00:30:39] que faz o crescimento. Você entender isso

[00:30:41] e você entender, porra, o ciclo do solo

[00:30:43] está esquentando muito lá no norte,

[00:30:45] norte e nordeste, é por isso que não tem o ciclo

[00:30:47] do solo. E aí você entende o procedimento.

[00:30:49] O fato de você entender isso te dá um senso

[00:30:51] de agência, o campeão mundial que vai lutar comigo.

[00:30:53] Eu vou conseguir fazer uma coisa contra isso?

[00:30:55] Não. Mas pelo menos eu entendo o tamanho

[00:30:57] do impacto. Então talvez isso

[00:30:59] não te afete agora, mas vai afetar daqui uns anos.

[00:31:01] Se continuar do jeito que está.

[00:31:03] Logo, você consegue chegar no

[00:31:05] legislador e preservar.

[00:31:07] O que você está fazendo, porque você foi eleito

[00:31:09] por causa do seu curral eleitoral,

[00:31:11] que é plantador de soja em

[00:31:13] Mato Grosso, se você chegar pro cara e falar assim

[00:31:15] Oh mano, eu aprendi no meu ensino

[00:31:17] médio que tem o ciclo da água

[00:31:19] e você está matando a floresta, não está tendo o ciclo

[00:31:21] da água. Por exemplo,

[00:31:23] em 2019 a gente teve

[00:31:25] aquela tarde fatídica em São

[00:31:27] Paulo, que mais ou menos umas 3 da tarde

[00:31:29] virou noite e

[00:31:31] começou a chover cinzas.

[00:31:33] Ou seja, a gente não pode

[00:31:35] negar que isso pode estar relacionado

[00:31:37] a secas que a gente vê

[00:31:39] hoje como uma consequência

[00:31:41] do que causou aquela chuva de cinzas.

[00:31:43] Ótimo comentário. Então imagine uma pessoa

[00:31:45] que o ensino médio ela nem lembra o que é

[00:31:47] o ciclo da chuva. O que ela vai achar

[00:31:49] daquilo? É um evento bíblico.

[00:31:51] Foi Deus que fez aquilo.

[00:31:53] Deus nosso senhor que está colocando uma

[00:31:55] praga sobre nós.

[00:31:57] E vai ficar ansiosa.

[00:31:59] Claro. Como é que ela vai controlar?

[00:32:01] O que me preocupa, sei lá, tem gente que se

[00:32:03] cansiosa está ficando com nada.

[00:32:05] Não, está acontecendo nada.

[00:32:07] Aí a pessoa faz o que? Vou escolher não ter filho.

[00:32:09] Por exemplo, ela toma outros tipos de atitude.

[00:32:11] Não dá conta de ter filho ou não. Se você não

[00:32:13] quer, é uma decisão importante.

[00:32:15] Mas treine bastante.

[00:32:17] Ainda bem que a gente está numa sociedade moderna

[00:32:19] onde você pode treinar.

[00:32:21] Inclusive gravar um programa

[00:32:23] sobre isso, treine mesmo.

[00:32:25] Vai sair, encontra a gente.

[00:32:27] Mas por exemplo, a pessoa fala

[00:32:29] não quero ter filho, aí compra 27 gatos.

[00:32:31] Ou seja, está aumentando o problema.

[00:32:33] Melhor ter o filho do que os 27 gatos.

[00:32:35] Não do ponto de vista individual, mas coletivo.

[00:32:37] Mas é até mesmo falando

[00:32:39] dessa questão de filhos, mas

[00:32:41] pensando sobre a vida dessa

[00:32:43] criança no futuro, como que

[00:32:45] você toma essa decisão pensando

[00:32:47] mais por esse lado mesmo?

[00:32:49] Você percebe que se você tiver um cachorro você se sente menos culpado?

[00:32:51] O cachorro vai viver menos.

[00:32:53] E ele vai ter uma vida mais miserável.

[00:32:55] Exato.

[00:32:57] E dentro dos dogmas da nossa sociedade

[00:32:59] você já vê várias

[00:33:01] contas. Por exemplo,

[00:33:03] você ter um filho hoje custa

[00:33:05] em média 1 milhão e meio

[00:33:07] de reais. E por aí vai.

[00:33:09] Esquece.

[00:33:11] Você acha que seu cachorro está muito longe disso?

[00:33:13] Não. Quando ele ficar velho você tinha um plano

[00:33:15] de saúde para o raio do cachorro?

[00:33:17] Misericórdia.

[00:33:19] Idas semanais ao veterinário.

[00:33:21] Agora fiquei curiosa em relação

[00:33:23] à criança do futuro.

[00:33:25] Como que lidar também, eu acho que é essa

[00:33:27] angústia de colocar um serzinho no mundo

[00:33:29] onde vai ter algo mais ciente.

[00:33:31] É, porque novamente

[00:33:33] a gente volta àquela primeira pergunta

[00:33:35] do programa. Tem que ter alguém para te abanar.

[00:33:37] Que é o lance de, oh, a humanidade realmente

[00:33:39] está com problemas. O planeta vai continuar aí

[00:33:41] de alguma maneira. A humanidade

[00:33:43] está com severos problemas.

[00:33:45] Acho que a gente pode abordar bem assim.

[00:33:47] Tá mesmo. Então talvez haja uma interferência

[00:33:49] quer o sistema produtivo atual

[00:33:51] queira, quer não queira.

[00:33:53] Vai ter algum tipo de

[00:33:55] interferência mesmo. Vai ter problemas

[00:33:57] de produção, a gente vai ter problemas

[00:33:59] de regime de chuva, a gente vai ter guerras,

[00:34:01] a gente vai ter não. São coisas que estão acontecendo.

[00:34:03] A gente teve um evento

[00:34:05] de grandes proporções

[00:34:07] três anos atrás.

[00:34:09] Uma pandemia. Isso, isso.

[00:34:11] Vamos ter outras. Vamos ter outras.

[00:34:13] Com mais frequência.

[00:34:15] Isso tudo da programa. Então eu entendo

[00:34:17] essa questão de a pergunta

[00:34:19] que a Jéssica quer fazer. Como é que eu boto um filho no mundo?

[00:34:21] Exatamente. Como se bota

[00:34:23] uma criatura. Com angústia, não com ansiedade.

[00:34:25] Isso. Então, um ponto importante disso

[00:34:27] é o problema da criança.

[00:34:29] E eu estou falando isso

[00:34:31] de um jeito importante.

[00:34:33] Eu estou adorando isso. Adorei.

[00:34:35] Só que assim, qual que é a sua tarefa

[00:34:37] enquanto cuidador dessa criança? Criar as

[00:34:39] condições para gerar senso de agência

[00:34:41] naquela criança. Então, por exemplo,

[00:34:43] hoje mesmo, você pega os mais jovens,

[00:34:45] de 12 a 18 anos,

[00:34:47] eles têm uma noção mais niilista do mundo.

[00:34:49] Que é inclusive um dos

[00:34:51] motivos que a gente quis fazer

[00:34:53] essa pauta. Histórias que eu ouço

[00:34:55] de pais, de adolescentes, pais,

[00:34:57] estão justamente relatando essa…

[00:34:59] Como lidar com essa desesperança das crianças.

[00:35:01] A criança com 15 anos

[00:35:03] é uma coisa estoica. Isso.

[00:35:05] Que escolha a criança tem

[00:35:07] com o mundo de consumo que você está fazendo,

[00:35:09] com o que ela está vendo.

[00:35:11] É aquela coisa. Tipo, quando você é adolescente

[00:35:13] tudo faz sentido porque você é burro.

[00:35:15] Tudo bem.

[00:35:17] Lembrando pela psicologia,

[00:35:19] você é adolescente até aos 25.

[00:35:21] A maturação cerebral vai até aos 25.

[00:35:23] Até se terminar a faculdade, você não está muito diferente.

[00:35:25] Isso é importante. Ah, estou trabalhando,

[00:35:27] estou fazendo estágio. Grande coisa.

[00:35:29] Grande esmerda. Grande coisa.

[00:35:31] O problema das crianças do futuro

[00:35:33] vai ser resolvido por elas. Você já

[00:35:35] fez a merda, tanca a sua responsabilidade.

[00:35:37] E a questão é, como que você

[00:35:39] faz para ser menos errado? Então,

[00:35:41] você pensar, pinça os nossos pais.

[00:35:43] Eu vou contar um caso, bem pessoal,

[00:35:45] para mim, me marca muito. Por exemplo, minha mãe

[00:35:47] teve uma origem muito difícil e tal. Eu lembro que

[00:35:49] faz um ano, mais ou menos, eu estava

[00:35:51] dirigindo com a minha mãe, que a gente ia num lugar,

[00:35:53] estava dirigindo ela do lado, e a gente passou ali

[00:35:55] em São Paulo, numa certa região, tinha um McDonald’s.

[00:35:57] Uma região específica. Ela lembrou,

[00:35:59] ela veio para mim e falou assim, nossa,

[00:36:01] eu nunca tive a oportunidade de

[00:36:03] te trazer nesse McDonald’s. Nunca

[00:36:05] tive a oportunidade. E eu percebi que ela falou quase

[00:36:07] embargada com isso. Na hora

[00:36:09] me ocorreu isso. E daí? Nada,

[00:36:11] a criação dela não foi afetada em nada

[00:36:13] por isso. Isso é um problema dela.

[00:36:15] Isso é uma questão dela. Não tem

[00:36:17] a ver comigo. A criação que ela me deu foi ótima,

[00:36:19] a despeito disso. A questão é,

[00:36:21] por que que, e aí vem da

[00:36:23] geração dela, por que que a criação

[00:36:25] que minha mãe me deu, na perspectiva

[00:36:27] dela, leva em conta ela ter me levado na

[00:36:29] porra de um McDonald’s? Capitalismo?

[00:36:31] Não, eu não sei, não sei,

[00:36:33] não importa. A questão é, a questão

[00:36:35] não é isso. Quanto disso a gente está passando

[00:36:37] para frente? O quanto você chega

[00:36:39] pro seu filho, filha, e fala assim,

[00:36:41] não está te faltando coisas. Está te faltando

[00:36:43] um cacete que está te faltando.

[00:36:45] Está alimentado, eu estou te dando educação, então não está faltando nada.

[00:36:47] Trate de estudar.

[00:36:49] Trate de

[00:36:51] ser melhor do que eu. Educação

[00:36:53] parental, qual está isso?

[00:36:55] Por que? Não, não, trate de ser melhor

[00:36:57] do que eu, por que? Porque eu estudei pra ser

[00:36:59] formado pra ser um operário. Larga

[00:37:01] esse podcast e vai ler o livro.

[00:37:03] Não, e leia os livros pra entender

[00:37:05] como o mundo funciona, não pra arrumar um emprego.

[00:37:07] Porque vai ter um problema de

[00:37:09] empregos também, e o problema dos empregos

[00:37:11] não é nem porque o capitalismo está

[00:37:13] colapsando, é porque ele está funcionando demais,

[00:37:15] pra prescindir dos empregos. E a gente

[00:37:17] não sabe fazer o que fazer da nossa

[00:37:19] existência, porque a nossa noção de identidade

[00:37:21] é pautada pelo trabalho. É.

[00:37:23] Você tira o trabalho da equação, não sobra

[00:37:25] muita coisa. Exato, e isso que

[00:37:27] você tem que fazer com seu filho, preparar ele pro mundo

[00:37:29] sem trabalho. Pra que quando alguém aqui

[00:37:31] em São Paulo pergunte pra ele, quem é

[00:37:33] você? Ele não responda com o emprego dele.

[00:37:35] Isso, isso. Então

[00:37:37] isso que você tem que fazer,

[00:37:39] né? Então assim, como que você faz pra preparar

[00:37:41] a pica é do seu filho, ele

[00:37:43] que vai se virar, mas como é que você prepara ele?

[00:37:45] Aí é a sua responsabilidade, aí é a sua

[00:37:47] terapia. Mas eu quero chegar num

[00:37:49] ponto antes, sobre a decisão

[00:37:51] de colocar esse ser no mundo. Essa é uma

[00:37:53] decisão individual. Individual. É,

[00:37:55] cada um, assim, eu pessoalmente… Você

[00:37:57] segura a marimba de ter botado um serzinho

[00:37:59] no mundo. Exato, do mesmo jeito que você

[00:38:01] segura a marimba. Por que que é mais fácil segura a marimba

[00:38:03] de um cachorro e de um gato e não de uma criança?

[00:38:05] Olha, você tá aqui… Dane-se,

[00:38:07] pai de cachorro e gato. Porque crianças

[00:38:09] se desenvolvem e cachorros continuam

[00:38:11] estúpidos. Isso, é basicamente

[00:38:13] isso. Sim, sim. Porque você cria a

[00:38:15] criança pra independência. Você cria o cachorro

[00:38:17] e o gato pra manter o afeto com você.

[00:38:19] Então você não gosta do cachorro e gato

[00:38:21] por ele. É porque ele te dá. O filho não te

[00:38:23] dá isso. O filho não é investimento. O filho é custo.

[00:38:25] Cachorro e gato é investimento.

[00:38:27] Então eu vou ter cachorro e gato. Exato.

[00:38:29] Entendeu o pensamento do capitalista?

[00:38:31] É muito mais fácil o filho

[00:38:33] te odiar do que o

[00:38:35] cachorro. Por quê? Porque o afeto

[00:38:37] do cachorro e gato você ganha em PG.

[00:38:39] O que você dá de recurso é em PA. Ensino

[00:38:41] médio. Se você não sabe o que é PG e PA, volte

[00:38:43] no ensino médio. Não, eu vou voltar, gente. Depois

[00:38:45] da nossa conversa… Progressão aritmética, progressão geométrica.

[00:38:47] Eu vou ter que fazer isso no mês de novo, gente.

[00:38:49] Isso da ciência de agência. Você refazer

[00:38:51] o seu ensino médio. Essa foi uma provocação

[00:38:53] que a gente tava tendo pouco

[00:38:55] antes de vir aqui gravar, que a gente

[00:38:57] precisa milçar um pouquinho melhor.

[00:38:59] As coisas que eu tô aí… Olha, parte dos problemas

[00:39:01] a gente vai resolver se as pessoas, agora

[00:39:03] assim, com nossa idade, a gente chegando…

[00:39:05] 30 a mais. 30 a mais.

[00:39:07] Chegando 40 e tal. Então neste exato

[00:39:09] momento que já temos uma bagagem de

[00:39:11] mundo, ou seja, a gente já viveu, quem

[00:39:13] pode viajar, já viajou,

[00:39:15] já conheceu ali uma série

[00:39:17] de coisas, acho que já teve vivências

[00:39:19] também. Eu tava pensando assim, até pra

[00:39:21] ser empático com outras histórias

[00:39:23] quando você lê um livro. Ah, puto,

[00:39:25] espera aí. Eu tô entendendo porque algo

[00:39:27] semelhante já aconteceu comigo.

[00:39:29] Que não é o caso quando você tá lendo um livro com 17

[00:39:31] anos. Com 15 anos, né?

[00:39:33] As coisas ainda… Tem coisas ali, emoções

[00:39:35] que você ainda simplesmente não vivenciou.

[00:39:37] Muito bom. E essa provocação

[00:39:39] eu achei maravilhosa, porque boa parte

[00:39:41] dessa ecosiedade

[00:39:43] seria resolvida se

[00:39:45] essas noções do ensino médio

[00:39:47] tivessem em pleno funcionamento.

[00:39:49] Se você tivesse levado a sério

[00:39:51] o ensino médio e não tivesse sido o estudante

[00:39:53] relapso que a gente sabe que você foi.

[00:39:55] Não, mas pense que você foi um estudante bom, sabe?

[00:39:57] Por exemplo, eu quero entrar no ITA,

[00:39:59] no Instituto de Tecnológica da Aeronáutica. O curso é

[00:40:01] difícil, a prova é difícil. Você tem que estudar

[00:40:03] para um cacete. Então você fez o melhor ensino

[00:40:05] médio que você pode fazer. E ainda

[00:40:07] estudou muito. Estudou muito. Botou gás, fosfato.

[00:40:09] Adianta de alguma coisa? Adianta zero.

[00:40:11] Zero? Porque para que você fez isso? Para passar

[00:40:13] na porra de uma prova. Você gastou três

[00:40:15] anos para aprender o suficiente

[00:40:17] para passar numa prova, mas não para viver

[00:40:19] que seria pós-jeto do ensino médio.

[00:40:21] Para isso deveria

[00:40:23] ter a maturidade. Sim, porque no fim

[00:40:25] das contas é isso. Você precisa ter vivido. E eu acho cruel

[00:40:27] também, porque logo depois já vem a escolha

[00:40:29] do que você quer cursar, que é uma decisão que você

[00:40:31] vai, grosso modo, toma ali

[00:40:33] entre 18 e 20

[00:40:35] alguns anos. Outro bem que para algumas

[00:40:37] pessoas acaba acontecendo mais tarde por conta

[00:40:39] de oportunidade, mas estou dizendo, supondo que

[00:40:41] o fluxo educacional

[00:40:43] funcionasse de acordo com as idades

[00:40:45] em que eles são colocadas, é com 17,

[00:40:47] 18, até 20 anos você toma

[00:40:49] uma decisão que você não está pronto para tomar

[00:40:51] também. Isso. E aí você vai cursar

[00:40:53] uma série de coisas, ou dependendo do

[00:40:55] curso que você escolher, se

[00:40:57] quer isso. Exato.

[00:40:59] Eu dou até uma coisa pensada

[00:41:01] de alto, assim. Vamos imaginar uma

[00:41:03] sociedade hipotética no futuro,

[00:41:05] em que vamos supor que é até capitalista,

[00:41:07] mas a disparidade não é até grande.

[00:41:09] Então a desigualdade não é tão grande,

[00:41:11] ou seja, você tem a quantidade

[00:41:13] de trabalho que você tem, é suficiente,

[00:41:15] imagina que você automatizou muitas coisas,

[00:41:17] então a quantidade de trabalho que você

[00:41:19] exerce no campo social

[00:41:21] gera uma quantidade de produtos e comida

[00:41:23] que a maior parte das pessoas não precisa trabalhar.

[00:41:25] Vamos imaginar essa sociedade, parece uma

[00:41:27] sociedade boa. Eu estou tentando pensar

[00:41:29] no nome desse lugar, é no

[00:41:31] Noruega, né? Não precisa nem pensar

[00:41:33] nisso, pensa em uma sociedade que não existe mesmo.

[00:41:35] Bem utópica. Isso, com bilhões.

[00:41:37] Não precisa ser escandinava. Porque a Noruega dá certo

[00:41:39] com milhões de pessoas, uma espécie de escala de bilhões.

[00:41:41] Tá bom. A gente deu um jeito que

[00:41:43] isso aconteceu. Você vai começar, aí você faz sua

[00:41:45] escolarização, termina o ensino médio e tal,

[00:41:47] você vai fazer faculdade, porque para se

[00:41:49] especializar em alguma coisa e tal, legal, mas vai

[00:41:51] chegar uma hora perto dos seus 35, 40, que

[00:41:53] você vai sentir um senso de ineficácia enorme.

[00:41:55] Aí uma ideia, a ideia seria o seguinte,

[00:41:57] você só pode se aposentar

[00:41:59] se com os 40, 45 você refisar o

[00:42:01] ensino médio. Você vai pegar aqueles mesmos 3

[00:42:03] anos que você fez quando você tinha 15 até 18,

[00:42:05] e refazer com 45. 3 anos.

[00:42:07] Não é um supletivo. Você vai refazer com base

[00:42:09] no que você vivenciou, dos 18 até

[00:42:11] os 40. Porra, vai ser outra coisa. Você pode

[00:42:13] ter outras ideias, criar outra coisa, refazendo

[00:42:15] as coisas. Você não precisa aprender nada de novo.

[00:42:17] É só ressignificar porque você ficou diferente.

[00:42:19] E eu acho que é uma coisa bizarra, né? Porque

[00:42:21] teve uma série de coisas que eu lembro de ter aprendido

[00:42:23] no ensino médio, que eu fui ver o uso

[00:42:25] prático, como essas, sei lá,

[00:42:27] 10 anos depois,

[00:42:29] 20 anos depois, é bizarro mesmo

[00:42:31] como esse mecanismo funciona, né?

[00:42:33] E aquilo deveria ser, assim,

[00:42:35] não, é teu canivete suíço. É o mínimo

[00:42:37] que você precisa para viver em

[00:42:39] sociedade. Para não passar vergonha.

[00:42:41] E para entender como o mundo funciona.

[00:42:43] Então, o fato de a gente ter uma

[00:42:45] sociedade onde você dá centenas de

[00:42:47] milhares de reais para pessoas, que tem

[00:42:49] uma certa eloquência e capacidade

[00:42:51] de se expressar e tal, e arregimenta pessoas.

[00:42:53] Que quando você ouve a pessoa, a pessoa é uma porta.

[00:42:55] E assim, não é que uma pessoa é porta

[00:42:57] porque ela é burra, é porque falta capacidade

[00:42:59] intelectual. E quando eu falo intelectual, não quer dizer

[00:43:01] que falta cognição. Não, não, falta

[00:43:03] conhecimento. E mais que conhecimento,

[00:43:05] falta tempo dedicado para estudar.

[00:43:07] Simples. É uma coisa que é aberta para todo mundo.

[00:43:09] A vantagem do YouTube é essa.

[00:43:11] Você pode pegar supletivo do Enem, essas coisas,

[00:43:13] assistir, tá tudo lá. Por que você não tem

[00:43:15] agência de pegar aquilo e olhar

[00:43:17] a sua vida? Um exemplo que eu sempre dou é esse.

[00:43:19] Tipo, imagina que você tem uns 40 anos, você já viajou

[00:43:21] para alguns lugares do Brasil. Não precisa nem ter saído fora.

[00:43:23] Refaço as aulas de geografia,

[00:43:25] relevo, rio. Puta, já fui nesse rio.

[00:43:27] Agora entendi porque tem essa montanha,

[00:43:29] esse negócio, a foce. Porra.

[00:43:31] Por que as fronteiras são assim?

[00:43:33] Ou mesmo essa coisa de

[00:43:35] por que as cidades são assim? Por que as

[00:43:37] por que os países são assim?

[00:43:39] Agora que você entende um pouquinho mais de conflitos.

[00:43:41] É muita, realmente

[00:43:43] traz uma questão mesmo. Mas

[00:43:45] para questão climática, o que

[00:43:47] me aperta é que assim, um pouco de conhecimento

[00:43:49] ou muito conhecimento, de qualquer maneira

[00:43:51] a gente sabe. Tem gente que vai ser muito

[00:43:53] afetada. E pode ser que essa

[00:43:55] pessoa esteja justamente nesse

[00:43:57] clube de quem vai ser muito afetado.

[00:43:59] Estou falando aqui novamente, dependendo

[00:44:01] do país onde você nasceu, dependendo da região

[00:44:03] do país, desse país onde você nasceu,

[00:44:05] dependendo da renda, da distribuição

[00:44:07] de renda desse país, as coisas tendem

[00:44:09] a ser muito, muito, muito

[00:44:11] diferentes em termos de impacto.

[00:44:13] Eu dou uns exemplos práticos, porque eu trabalho em

[00:44:15] projetos de saúde pública em vários lugares do mundo.

[00:44:17] 2017 foi antes da pandemia.

[00:44:19] 2017 eu estava na Índia,

[00:44:21] Mahabalipuram. Mahabalipuram, a Índia é

[00:44:23] dividido em duas partes, o Norte e o Sul. O Norte é bem

[00:44:25] desenvolvido. O que vocês conhecem da Índia é o Norte.

[00:44:27] O Sul é a miséria, uma

[00:44:29] treva. Um dos melhores matemáticos do

[00:44:31] mundo, minha grande inspiração

[00:44:33] matemática nasceu em Chennai, que é uma região muito pobre

[00:44:35] da… Inclusive tem um filme

[00:44:37] sobre ele, que é o Ramanujan, que é

[00:44:39] o filme chama O Homem que Viu o Infinito.

[00:44:41] Que ele foi para a Inglaterra e

[00:44:43] nasceu em uma região muito pobre. Ele não tinha alôs,

[00:44:45] ele escrevia com borra de arroz

[00:44:47] no chão. Era um negócio fantástico,

[00:44:49] uma genialidade incrível. E aí eu fui para essa região,

[00:44:51] que é o meu trabalho de saúde pública, 2017.

[00:44:53] A gente entrevistava as pessoas, porque lá a

[00:44:55] prevalência de tuberculose era muito alta, enfim,

[00:44:57] tinha que fazer um plano de manejo de saúde pública

[00:44:59] e tal. É muito interessante, assim, porque você

[00:45:01] entrevista as pessoas ali, por exemplo, você

[00:45:03] entrevista uma mulher de 30 anos, em média.

[00:45:05] Essa mulher de 30 anos, ela teve seis filhos.

[00:45:07] Seis. Só tinha um vivo.

[00:45:09] Os cinco filhos anteriores morreram até

[00:45:11] dois anos da criança. Só tinha um vivo.

[00:45:13] E ela felicíssima. Felicíssima. Porque

[00:45:15] esse filho estava vivo. Porque quando ela olha

[00:45:17] os pares, as outras perderam oito filhos,

[00:45:19] sete, ela perdeu seis.

[00:45:21] Um vingô.

[00:45:23] É, o termo é esse, um vingô. Isso, exatamente.

[00:45:25] Que é uma realidade que aqui no Brasil a gente viu

[00:45:27] nos anos 30, 20, 100 anos atrás.

[00:45:29] Acho que em zonas rurais,

[00:45:31] um pouco mais. Talvez 60,

[00:45:33] 70. Esse termo

[00:45:35] vingô, pessoas falavam até os

[00:45:37] anos 80, tranquilamente.

[00:45:39] Mas o interessante assim, quando você entrevista

[00:45:41] essas pessoas e você olha esse filho,

[00:45:43] você fica pensando, e aí é um viés,

[00:45:45] você se sente mal, eu me sentia mal,

[00:45:47] porque olha, esse filho, ele nunca vai para a faculdade.

[00:45:49] Muitas pessoas hoje, e eu não estou falando

[00:45:51] do Brasil, tá? O Brasil é privilegiado.

[00:45:53] Muitas regiões do mundo, a pessoa

[00:45:55] nasce sem nenhuma chance.

[00:45:57] Porque ela vive num lugar que o ambiente,

[00:45:59] por exemplo, Mahabalipuram, é um lugar que no verão

[00:46:01] é muito quente e úmido.

[00:46:03] Não é igual a Amazônia, é mais ainda.

[00:46:05] É muito quente e úmido. Então, de novo, física,

[00:46:07] do ensino médio, né? Quando você pega

[00:46:09] uma panela na água, imagina você pega uma panela

[00:46:11] com água e ferve. Já, vocês já fizeram

[00:46:13] isso assim? Chega uma hora que a água borbulha,

[00:46:15] mas antes disso, antes de borbulhar,

[00:46:17] você vê um que está esquentando,

[00:46:19] você pega uma colher e mexe

[00:46:21] na água, não sai a fumaça? Já aconteceu

[00:46:23] isso? Antes de borbulhar, você mexe, né?

[00:46:25] Ou seja, as moléculas embaixo

[00:46:27] já estavam ali se movimentando muito,

[00:46:29] mas tinha uma tensão superficial que quando você

[00:46:31] coloca uma colher, se a temperatura

[00:46:33] aumentar mais, aí saem as bolhas. Lembra?

[00:46:35] PV, NR e T. Por você, nunca resei tanto,

[00:46:37] é essa a equação.

[00:46:39] Tem a versão

[00:46:41] proibidona dessa, que é puta velha, não rejeita

[00:46:43] a tarada. É a mesma coisa.

[00:46:45] Ah, essa eu lembro. Você lembra?

[00:46:47] Desgraça. É, porque é escola pública, né, gente?

[00:46:49] É o que fica ali no campo, né?

[00:46:51] É essa eu lembro. É, tá vendo?

[00:46:53] Bata, bata, escola pública, bata.

[00:46:55] Isso aí.

[00:46:57] Então, é essa a equação, né?

[00:46:59] A outra é mais bonitinha, uau,

[00:47:01] legal.

[00:47:03] Tá vendo? Então, mas quando

[00:47:05] você tá lá, por exemplo, imagina que você tá num

[00:47:07] lugar muito, muito quente, 45°

[00:47:09] e muito úmido. A tendência do seu

[00:47:11] corpo é quando você tá muito quente, ele

[00:47:13] resfria o corpo suando. Mas já tem tanto,

[00:47:15] tanta água no ambiente,

[00:47:17] que seu corpo não consegue suar. Você começa a

[00:47:19] cozinhar igual uma batata. Meu Deus.

[00:47:21] É tipo a coisa do sapo também. Meu Deus.

[00:47:23] Esse ano teve uma onda de calor lá, morreram

[00:47:25] 3 mil pessoas por dia.

[00:47:27] Esse ano, na Índia,

[00:47:29] não é o sapo, velho. 3 mil pessoas

[00:47:31] por dia. Chupa covid.

[00:47:33] Isso, chupa covid.

[00:47:35] Esse ano, os colegas que eu tenho lá

[00:47:37] na Índia, tá trabalhando, o que que eles vão fazer?

[00:47:39] É tipo, o ambiente se torna inóspito.

[00:47:41] Mas então a gente tá falando também da questão

[00:47:43] do aquecimento em questão de classe

[00:47:45] social também.

[00:47:47] Classe social, sim, sim.

[00:47:49] Que aí vai ter uma quantidade de pessoas que já estão morrendo

[00:47:51] hoje, mudanças climáticas.

[00:47:53] Que o fim já chegou. Que o fim já chegou.

[00:47:55] Esse fim da humanidade chegou. Enquanto a gente tava

[00:47:57] conversando, eu falei, tá, então, aquela coisa

[00:47:59] boba de daqui quantos anos vai realmente pegar

[00:48:01] fogo, né? Lembra o cara do século

[00:48:03] 19 falando? Então, só que assim,

[00:48:05] já tá acontecendo hoje.

[00:48:07] É muito mais lento e cruel do que prega,

[00:48:09] por exemplo, Hollywood

[00:48:11] ou a imprensa, né?

[00:48:13] Do tipo, ah, regiões costeiras,

[00:48:15] tipo, Manhattan vai sumir,

[00:48:17] Miami, Ipanema.

[00:48:19] Não, já tá acontecendo,

[00:48:21] é muito pior, é muito mais cruel

[00:48:23] e são pessoas invisíveis. Exatamente.

[00:48:25] Então, hoje em dia, você não precisa matar as pessoas,

[00:48:27] você só precisa não olhar pra elas. Isso é

[00:48:29] escalar, tem acontecido, acontecido.

[00:48:31] Quando chega, quando o negócio bater no nosso pé,

[00:48:33] uma galera já rodou. Não, e aí que o negócio tá

[00:48:35] em sério mesmo, mesmo mesmo. Não, não, não.

[00:48:37] Aí já acabou. Já acabou.

[00:48:39] Exato. Quando bater no nosso pé

[00:48:41] do ponto de vista de pessoas

[00:48:43] privilegiadas, moradores, de áreas nobres

[00:48:45] com uma certa renda, etc, etc,

[00:48:47] já acabou. Já acabou.

[00:48:49] Você não vai ter, você não tem nem o que fazer,

[00:48:51] você vai esperar só, sabe? Então, a questão assim,

[00:48:53] ai meu Deus, vou ficar ansioso. Não!

[00:48:55] O que você pode fazer por você mesmo? Aprenda

[00:48:57] como o mundo funciona, refaça o seu ensino

[00:48:59] médio. E aí, é uma coisa que a gente falou,

[00:49:01] então, vamos imaginar, tá bom, eu vou refazer

[00:49:03] meu ensino médio. Três anos, de verdade. Então,

[00:49:05] vou pegar lá, vou supor,

[00:49:07] lá vou fazer um, sei lá, um catadão

[00:49:09] do ENEM, vou começar todo dia a estudar um pouquinho,

[00:49:11] como se fosse um colégio, né? Então,

[00:49:13] imagina, você trabalha durante o dia oito horas, você vai fazer

[00:49:15] a noite, né? Três horas você vai estudar todo dia,

[00:49:17] a noite. Quantifique a quantidade de horas

[00:49:19] que você vai gastar, né? Nesses três anos

[00:49:21] estudando centenas de horas. Você,

[00:49:23] nessas três horas que você vai estar estudando,

[00:49:25] é claro que você vai achar um saco, mas você vai ter

[00:49:27] ganhos posteriores, você vai ter insights,

[00:49:29] elucubrações. Esses insights vão vir de graça.

[00:49:31] Você não vai ter custo com isso, você não vai

[00:49:33] poluir o ar por isso, nem nada, e

[00:49:35] você vai se sentir melhor. Se você pensar

[00:49:37] depois desses três anos, a quantidade

[00:49:39] de coisas que você deixou de consumir

[00:49:41] é inimaginável. E se você pensar

[00:49:43] isso de forma escalável, em todas as pessoas

[00:49:45] de uma população, você salva uma economia.

[00:49:47] Só com isso. E aí é o que a gente conversou.

[00:49:49] A solução é simples, só que não

[00:49:51] é fácil. É muito mais fácil você ficar

[00:49:53] horas no TikTok do que estudando.

[00:49:55] Mas agora eu vou te fazer uma pergunta capciosa,

[00:49:57] que é, quais são as

[00:49:59] decisões difíceis que a gente mais está

[00:50:01] evitando hoje em dia?

[00:50:03] Então, decisão, por exemplo, decisões difíceis,

[00:50:05] uma delas é essa coisa de estudar, porque

[00:50:07] estudar é um negócio chato.

[00:50:09] Então, se você tem um filho, sei lá, dez, onze anos,

[00:50:11] aí o moleque pergunta, por que eu tenho que saber o que é

[00:50:13] a equação de primeiro grau? Porque assim, moleque, cala a boca!

[00:50:15] Isso! Porque do ponto

[00:50:17] de vista dele, não faz nenhum sentido.

[00:50:19] É muito abstrato mesmo. Ele vai fazer sentido,

[00:50:21] quando ele tiver trinta e eu e o homem xoxô,

[00:50:23] e lembra, y menos y zero igual a m

[00:50:25] x menos x zero. Tem alguma putaria aí pra eu lembrar,

[00:50:27] ou não? Não, não, não. Isso vem do

[00:50:29] Euclides, com dois pontos você gera uma reta,

[00:50:31] sabe, pra achar a cor de centro angular, essas coisas.

[00:50:33] Isso faz muito sentido quando você tem trinta anos, você tá no trabalho

[00:50:35] e, nossa, é isso mesmo! Você vê um

[00:50:37] gráfico, você inteirou. Sim, sim, é.

[00:50:39] Justamente quando você, esse tipo de

[00:50:41] parada, principalmente porque, né,

[00:50:43] a formação em humanas também vão,

[00:50:45] temos que conversar sobre isso também, mas

[00:50:47] é, você só vai ver

[00:50:49] um, assim, eu só fui me dar um click

[00:50:51] de, nossa, eu sei operar isso,

[00:50:53] peraí, quando

[00:50:55] eu tava na parte prática de mexer em gráficos

[00:50:57] de pesquisa, assim, é

[00:50:59] nisso que, aah!

[00:51:01] Agora fez sentido! Agora fez sentido!

[00:51:03] Isso, então, mas quando você tem dez, onze anos, você não vê sentido nisso,

[00:51:05] e faz sentido, você tem que ter contato,

[00:51:07] né, verdade, pra você não serve nada, pra nada.

[00:51:09] Como é que você constrói um senso de utilidade ali

[00:51:11] no adolescente? Isso é um desafio da pedagogia hoje,

[00:51:13] mesmo, né, e tudo bem, mas a questão é,

[00:51:15] de novo, a gente projeta em quem é mais

[00:51:17] vulnerável as nossas dificuldades.

[00:51:19] Você chegar pro moleque de dez, onze anos,

[00:51:21] ah, eu não quero aprender a equação de primeiro grau, então por que você não aprende?

[00:51:23] Você dá um exemplo, não, eu vou aprender,

[00:51:25] e eu vou mostrar que eu sei mais que você.

[00:51:27] Equação de segundo grau, eu vou entender,

[00:51:29] então, sem seu filho de dez, onze anos lá, doze anos,

[00:51:31] entendendo a equação de segundo grau, você sabe resolver,

[00:51:33] sabe resolver um báscara, puta, faz

[00:51:35] bom tempo, então, não culpa o moleque,

[00:51:37] porque você também não sabe, né, então, tome

[00:51:39] pra você, então se você, tipo,

[00:51:41] faça o que você vê de ruim

[00:51:43] no outro, se o outro tá fazendo errado, você vai fazer certo,

[00:51:45] tipo, puxa pra você a responsabilidade,

[00:51:47] porque aí o outro se inspira, né, a gente busca um chamanismo

[00:51:49] o tempo todo, né, mas uma das coisas

[00:51:51] difíceis, decisões difíceis, é essa, a gente

[00:51:53] focar a nossa trajetória numa educação

[00:51:55] para o conhecimento do mundo, e não uma educação

[00:51:57] pro trabalho, né, ah, vou fazer um

[00:51:59] MBA, porque isso vai melhorar a minha inserção profissional,

[00:52:01] não, legal, faça.

[00:52:03] Mas isso não é muito escola construtivista, pensando no

[00:52:05] futuro, assim, em relação

[00:52:07] mesmo a essa criança

[00:52:09] sobreviver no mercado de trabalho, porque eu entendo,

[00:52:11] é, é, é dialético.

[00:52:13] Exato. É dialético, não tem solução

[00:52:15] fácil, não vai ter uma solução. Exato.

[00:52:17] Vai ter uma solução menos errada. Essa é a questão.

[00:52:19] É, exato. Então, as pessoas ficam procurando

[00:52:21] chamanismo. Qual que é a solução perfeita?

[00:52:23] Que é a desgraça da internet, né?

[00:52:25] Então, tá lá no Instagram, eu tenho a solução

[00:52:27] pro seu problema. Então, eu…

[00:52:29] Assine meu curso. Isso, meu curso de como

[00:52:31] dar curso. Doze dias. Exatamente.

[00:52:33] Então, hoje a gente vive numa sociedade

[00:52:35] que é a sociedade dos como’s. Como

[00:52:37] ganhar dinheiro, como ser feliz, como resolver meu problema.

[00:52:39] E aí, tem pessoas que oferecem esses como’s.

[00:52:41] E aí, quando você compra um como,

[00:52:43] esse como é sempre ligado a um quem?

[00:52:45] E aí que você é catequizado pra alguma coisa

[00:52:47] e você não resolve nada. Você só segue um guru.

[00:52:49] E ninguém olha o porquê. Exatamente.

[00:52:51] Ninguém segue… O porquê tá em você.

[00:52:53] Não tá no guru, não tá…

[00:52:55] E obviamente

[00:52:57] que isso carrega uma outra coisa, que é apontar

[00:52:59] pro outro, né? Exato.

[00:53:01] Ah, o mundo tá cagado porque vocês…

[00:53:03] Não foram iluminados,

[00:53:05] até pra pessoas que estão fazendo as coisas corretas.

[00:53:07] Porque vocês não usam eco-bag,

[00:53:09] porque vocês comem carne, porque vocês…

[00:53:11] Porque vocês ferraram o planeta

[00:53:13] antes de eu chegar, e agora muito tarde.

[00:53:15] É a coisa que a gente vê na academia, assim.

[00:53:17] Aí é o reflexo do pesquisador, do cientista.

[00:53:19] O cientista fala, tá vendo, não falei?

[00:53:21] Tá errado. A questão é você tomar

[00:53:23] bronca pra você. Não, a culpa é minha.

[00:53:25] O que eu fiz… Exemplo político,

[00:53:27] é recente, é assim, né? Quando você,

[00:53:29] sei lá, você fez mestrado, autorado,

[00:53:31] pesquisa e tal, né? Trabalha na área acadêmica.

[00:53:33] Eu trabalhei lá com modelagem

[00:53:35] de dado pra Covid em Honduras,

[00:53:37] no governo de Honduras, né? E pessoas

[00:53:39] da minha família eram negacionistas,

[00:53:41] né? Em vez de ficar culpando eles,

[00:53:43] o que eu fiz de errado? O que eu fiz de errado

[00:53:45] pra ter pessoas tão próximas a mim que são assim,

[00:53:47] né? Claro que você não vai resolver o problema,

[00:53:49] mas você pensa, onde que eu criei essa distância?

[00:53:51] Fazer o caminho inverso, às vezes. Isso. E aí você

[00:53:53] consegue olhar pro seu filho. Então, por que que…

[00:53:55] A questão não é que ele chegar pra mim e falar

[00:53:57] ah, eu não gosto de equação de primeiro grau. A questão é

[00:53:59] o que eu fiz pra que ele não gostasse?

[00:54:01] É a escola? É o jeito como eu falo?

[00:54:03] Por que que… Se eu chegar pra ele… É a didática, né?

[00:54:05] É, ou se eu chegar pra ele, porra, equação de primeiro grau é foda.

[00:54:07] Pronto.

[00:54:09] É, que é o que eu posso fazer pra ele gostar.

[00:54:11] Isso, isso. Tanca a responsabilidade das coisas

[00:54:13] um pouco pra você, né?

[00:54:15] Tô tão orgulhoso agora que

[00:54:17] meu afiliado veio me perguntar sobre equações

[00:54:19] e tal, eu fiquei fazendo os gráficos assim com a mãozinha.

[00:54:21] Assim, ó, assim, ó.

[00:54:23] Assim que eu fiz o gráfico com a mãozinha.

[00:54:25] Eu fiquei, não, que aí é o seguinte, ó,

[00:54:27] o valor, né, o Y lá,

[00:54:29] a equação geralmente Y igual a X,

[00:54:31] mais B e tal. Então, por quê?

[00:54:33] Porque num gráfico, né, é assim,

[00:54:35] tem X, assim, tem Y, então quando…

[00:54:37] O que que essa equação tá querendo dizer?

[00:54:39] Quando X é zero, então Y tem esse valor.

[00:54:41] Isso, é constante.

[00:54:43] Então, ó, o que que acontece?

[00:54:45] Essa aqui forma um gráfico assim.

[00:54:47] Aí expliquei como era ao quadrado,

[00:54:49] expliquei como era ao cubo,

[00:54:51] aí o menino foi ficando interessado.

[00:54:53] Falei, ó, equação é legal, né?

[00:54:55] Mas você percebe que toda criança te dá uma chance?

[00:54:57] Sim. Toda criança te dá uma chance.

[00:54:59] Você que é filha da puta de não aproveitar.

[00:55:01] De falar, ai, ai, tinha tanta dificuldade com isso na escola, né?

[00:55:05] Onde chega pra ele e fala, não sei, vamos aprender junto?

[00:55:07] Vamos aprender junto?

[00:55:09] Mas eu tava lendo um livro sobre culinária

[00:55:11] e o cara falava que pra uma criança

[00:55:13] dizer que não gosta da comida,

[00:55:15] efetivamente, você precisa oferecer

[00:55:17] mais de 10 vezes pra realmente fazer

[00:55:19] aquele hábito entrar na criança.

[00:55:21] Ela aprende a não gostar.

[00:55:23] Ela aprende a não gostar se você oferece uma vez.

[00:55:25] Se você oferece 10, as chances caem abruptamente.

[00:55:27] Isso, então quando a criança cria rejeição,

[00:55:29] alguma coisa, isso é construído.

[00:55:31] Em parte a sua culpa.

[00:55:33] Porque você já tem essa barreira em si, né?

[00:55:35] Você não precisa falar, ela olha pra você.

[00:55:37] A criança aprende olhando.

[00:55:39] Então, você cuidar de você mesmo

[00:55:41] já é o primeiro passo, né?

[00:55:43] Voltando na sua pergunta, uma das coisas é isso.

[00:55:45] Você se abrir pra conhecimento que você não sabe

[00:55:47] e que a ideia é que você nunca tá certo,

[00:55:49] você tá menos errado, o tempo todo.

[00:55:51] Você tá menos errado, você é burro mesmo,

[00:55:53] amanhã você é menos burro que hoje,

[00:55:55] hoje eu sou mais…

[00:55:57] Veja bem, ser humano em calto,

[00:55:59] que talvez tenha ouvido tudo até agora.

[00:56:01] Você é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço.

[00:56:03] E aí, então assim…

[00:56:05] Se alguém tá dizendo isso a respeito dele, entendeu?

[00:56:07] Não.

[00:56:09] Estudo, não, assim, estuda, entendeu?

[00:56:11] Vai estudar mesmo, entendeu?

[00:56:13] Você não manja nada mesmo, é isso.

[00:56:15] Não, o negócio, o que a gente já falou,

[00:56:17] estudar é o jeito mais difícil de ser pobre.

[00:56:19] Às vezes você não tem chance de estudar,

[00:56:21] porque você é muito pobre,

[00:56:23] você precisa sobreviver, tá?

[00:56:25] Então não se culpe, a questão é essa.

[00:56:27] A única coisa que eu sei fazer é estudar,

[00:56:29] e eu tenho privilégio por isso, tá?

[00:56:31] Tem muita sorte, tem um componente de sorte

[00:56:33] do imponderável que é importante.

[00:56:35] A gente fez graduação mais ou menos na mesma época,

[00:56:37] eu fiz graduação, mestrado, doutorado,

[00:56:39] numa época que tinha muito dinheiro pra pesquisa.

[00:56:41] Então, por exemplo, quando tava no primeiro ano da graduação,

[00:56:43] meu pai morreu e eu ia alagar a faculdade,

[00:56:45] mas surgiu um monte de bolsa e aí…

[00:56:47] Aí você vai desenrolando. Então eu dei sorte.

[00:56:49] Claro que eu fiz um pouco em função disso,

[00:56:51] mas foi sorte.

[00:56:53] Se eu tivesse começado a faculdade hoje,

[00:56:55] dificilmente terminaria. Então, assim,

[00:56:57] é o imponderável, tá? Isso é importante.

[00:56:59] Outra coisa importante, que eu sei que você tava

[00:57:01] perguntando por causa disso, tá até brilhando o olho,

[00:57:03] maldita!

[00:57:05] Tem o naruhodô que a gente gravou

[00:57:07] ontem atrás, que é um dos naruhodôs que a gente foi

[00:57:09] entre aspas, cancelado, assim, que é sobre animal

[00:57:11] doméstico.

[00:57:13] De novo, essa é uma solução simples,

[00:57:15] mas não é fácil. E aí

[00:57:17] tem todas as referências que eu deixei naquele

[00:57:19] naruhodô ou duplo sobre isso,

[00:57:21] porque temos animais domésticos, esse é o título,

[00:57:23] que a gente fala, tem dados muito

[00:57:25] robustos mostrando isso, que se você acabar com

[00:57:27] todos os pets, e quando eu falo acabar, não é matar

[00:57:29] eles, é parar de ter, as pessoas

[00:57:31] param de ter pets.

[00:57:33] Espera essa geração

[00:57:35] que você tem hoje

[00:57:37] acabar, e simplesmente

[00:57:39] não tem outro. Não tem outro, simples.

[00:57:41] Faça o controle populacional, manejo no ambiente,

[00:57:43] como você faz para outras espécies nativas,

[00:57:45] né? Então pega lá,

[00:57:47] tem um monte de gato no ambiente, pega todos,

[00:57:49] castre e devolve. Não pegue e

[00:57:51] adota, devolve. A gente vai ter, estocasticamente,

[00:57:53] ao longo de um certo tempo, eu não lembro quanto,

[00:57:55] meio grau de redução no aquecimento global,

[00:57:57] meio grau, que é muito, na variabilidade.

[00:57:59] É, porque a gente está falando hoje em um e meio,

[00:58:01] né? Isso, você vai ter

[00:58:03] um terço do efeito é gerado por animal

[00:58:05] doméstico, para você ver o tamanho da escala.

[00:58:07] Pensando em toda a cadeia, né? Não necessariamente

[00:58:09] sei lá, o pum do gato, mas

[00:58:11] a ração,

[00:58:13] a areia, o cuidado, tudo,

[00:58:15] tudo, tudo, tudo. Então é um mercado

[00:58:17] que só nos Estados Unidos é 130

[00:58:19] bilhões de dólares por ano.

[00:58:21] É um mercado produtivo muito grande, se você

[00:58:23] só em ração, todos, gato, cachorro,

[00:58:25] bicho, papagaio, tal, que consomem,

[00:58:27] eles consomem uma quantidade, por exemplo, de trigo e

[00:58:29] soja muito grande. Se você pensar no solo,

[00:58:31] na produção e tal, é uma outra questão.

[00:58:33] Consumo de carne entra numa outra questão

[00:58:35] também. A questão não é parar o consumo de carne,

[00:58:37] não é virar vegano, mas

[00:58:39] você já tem alternativas tecnológicas muito

[00:58:41] boas para substituir a carne por carne biológica,

[00:58:43] mas não gerada da vaca. Fala um pouquinho

[00:58:45] da carne biológica pra gente. Então,

[00:58:47] já tem soluções, a questão é escalar

[00:58:49] pra diminuir custo, né? Hoje você

[00:58:51] já consegue pegar, por exemplo, células

[00:58:53] tronco de vaca e multiplicar células,

[00:58:55] né? Não vai virar uma vaca, mas vira um

[00:58:57] tecido. E aí esse tecido não vira um

[00:58:59] bife, né? Não vai virar um yagu, alguma

[00:59:01] coisa assim. Wagyu. Wagyu. Isso.

[00:59:03] Ah, é que eu gosto.

[00:59:05] É, eu imaginei. Uma maminha.

[00:59:07] Não vai virar aquele bife. Ah, quero fazer

[00:59:09] uma picanha, diferenciar células. Mas vira uma carne

[00:59:11] moída. Vira uma carne moída. Suficiente pra você

[00:59:13] fazer um hambúrguer. Uma gama de

[00:59:15] produções. Ao ponto. Isso.

[00:59:17] Exatamente. Então você vai ter uma economia

[00:59:19] escalável muito grande. Então assim,

[00:59:21] isso do relatório do IPCC é muito interessante,

[00:59:23] né? Porque o relatório do IPCC é dividido em três

[00:59:25] partes. Tem a parte climatológica, que são os

[00:59:27] dados de clima. Tem a parte do

[00:59:29] meio, né? Que é a parte do que a gente

[00:59:31] está fazendo, a ação antrópica. E tem a parte

[00:59:33] final que é o que a gente pode fazer pra mitigar

[00:59:35] o efeito, né? Basicamente essas três partes.

[00:59:37] Na última parte, que é a parte de mitigar o efeito,

[00:59:39] tem um resultado que é esperançoso,

[00:59:41] assim, que ele fala. Ó, a gente hoje,

[00:59:43] pra mitigar o efeito do aquecimento global,

[00:59:45] a gente não precisa desenvolver

[00:59:47] mais tecnologia. Com a tecnologia que a gente tem

[00:59:49] hoje, a gente resolve o problema.

[00:59:51] A questão é comportamental e política.

[00:59:53] É tancar a responsabilidade. Ou seja,

[00:59:55] depende, realmente depende de,

[00:59:57] sei lá, termos… Ou sei.

[00:59:59] Aprendermos todos um pouco mais sobre

[01:00:01] isso. Tomar melhores decisões.

[01:00:03] Vamos falar nas horas certas, na hora de

[01:00:05] votar, na hora de… Consumir.

[01:00:07] Consumir. Ser mais

[01:00:09] consciente sobre o seu impacto

[01:00:11] no mundo e o seu poder de agência.

[01:00:13] Você não precisa deixar de ter peste,

[01:00:15] você não precisa deixar de consumir carne,

[01:00:17] tendo conhecimento pra dosar

[01:00:19] o que você faz e

[01:00:21] ao invés de focar somente

[01:00:23] no seu impacto no mundo, como é que você consegue

[01:00:25] impactar as outras pessoas? Exatamente.

[01:00:27] Juntos? Exatamente. Se a solução

[01:00:29] são pessoas, quem que

[01:00:31] muda a cabeça de pessoas? Pessoas.

[01:00:33] Tem que começar nisso. E aí tem um ponto importante,

[01:00:35] que volta na questão central do consumo.

[01:00:37] Que aí é uma das coisas mais paradoxais

[01:00:39] assim, da psicologia experimental, eu acho.

[01:00:41] Que é o exemplo do Netflix, que eu já…

[01:00:43] Então, hoje ainda o Netflix, ele tá ficando caro,

[01:00:45] mas ele é relativamente barato, né? Então você

[01:00:47] paga uma quantidade relativamente pequena

[01:00:49] de dinheiro pra ter acesso a milhares de filmes.

[01:00:51] Você não assiste os filmes.

[01:00:53] Ou quando você escolhe uma série, você vem

[01:00:55] binge. Por quê? Porque

[01:00:57] você passa tanto tempo escurolando, porque

[01:00:59] são tantas opções que quando você escolhe uma,

[01:01:01] mesmo que ela seja boa, o valor

[01:01:03] subjetivo de ganho que você vai ter é muito

[01:01:05] pequeno, frente a perda de todos os outros.

[01:01:07] Sim. Ou seja, você tem

[01:01:09] o Netflix, é uma experiência ansiogênica.

[01:01:11] É ansiedade. Eu não assino.

[01:01:13] Nem quero. Porque pra quê que eu vou me expor

[01:01:15] a isso? Então, por exemplo, se você fizer o

[01:01:17] Netflix ou que seja uma outra empresa, que não tenha

[01:01:19] milhões de filmes, tenha 30. E aí nesse

[01:01:21] mês você vai ver os 30. Tenha um por dia.

[01:01:23] Mas sabia que… Passando sempre no mesmo horário.

[01:01:25] Não é propaganda, porque a gente não tem…

[01:01:29] Engraçadinho. Mas assim, não

[01:01:31] é propaganda nem nada, pois a gente não tem

[01:01:33] patrocinadores. Mas a MUBI…

[01:01:35] Por enquanto. Tem esse modelo. Então

[01:01:37] mudou. Mudou?

[01:01:39] Antes eles tinham um filme por dia

[01:01:41] disponível no catálogo. Agora

[01:01:43] eles estão fazendo meio On Demand e

[01:01:45] tá indo pro lado da Netflix

[01:01:47] e tipo e outras

[01:01:49] empresas. E aí eu falo, poxa,

[01:01:51] tá vendo como que quando um sozinho

[01:01:53] tenta fazer esse…

[01:01:55] Mas sabe o que é interessante? Que dá

[01:01:57] certo esse com poucas opções.

[01:01:59] Só que quando você pergunta pra pessoa

[01:02:01] é um problema psicométrico. Eu pergunto

[01:02:03] pra você, o que você prefere? Um filme ou 30?

[01:02:05] Claro que você vai responder 30. Porque você

[01:02:07] não sabe a experiência de sofrimento

[01:02:09] subjetivo de ter que escolher entre 30.

[01:02:11] É que tem mais coisas

[01:02:13] que influem nisso. A gente já discutiu alguns

[01:02:15] outros programas sobre outros assuntos. Aquela coisa

[01:02:17] do… Ah, você não tá vendo?

[01:02:19] Isso, tem a influência dos pares,

[01:02:21] tem uma série de efeitos. E se você vira pra pessoa

[01:02:23] e fala, você tem um filme pra ver, você é

[01:02:25] comunista, né?

[01:02:27] Não, eu só não tenho o saco de

[01:02:29] escolher. Mas é o seguinte,

[01:02:31] o caminho do como, que é o mais

[01:02:33] fácil de esperar uma resposta.

[01:02:35] Eu duro sei lá também, assim, mesmo que

[01:02:37] assim, frente às opções

[01:02:39] do mundo, mesmo que eu não assine nada

[01:02:41] e sei lá, decida. Por exemplo, um lugar

[01:02:43] tem filme pra dedel pra escolher também, então

[01:02:45] é complexo, né?

[01:02:47] O caminho, eu acho que é a gente ficar

[01:02:49] um pouco menos, um pouco mais

[01:02:51] analógico. Então, como a tecnologia

[01:02:53] pode ajudar a deixar a gente mais analógico?

[01:02:55] Como ele ajuda a filtrar pra gente ter

[01:02:57] menos opções e aí… E em questão até

[01:02:59] de trocar menos equipamentos,

[01:03:01] pensar melhor na

[01:03:03] roupa que você usa, porque a indústria

[01:03:05] têxtil é uma das mais agressivas

[01:03:07] nesse sentido também, né?

[01:03:09] Bom, vocês estudaram, vocês são da área

[01:03:11] de comunicação, tá? Vocês estudaram um pouquinho de marketing,

[01:03:13] vocês estudaram o famoso Kotler, 4P,

[01:03:15] preço, praça, propaganda e produto.

[01:03:17] Tá aí até hoje, lançando…

[01:03:19] O marketing…

[01:03:21] Ah, ele vai mudando letra, vai

[01:03:23] aumentando o P, é uma coisa maravilhosa,

[01:03:25] ele vai se atualizando aí.

[01:03:27] Mas os 4P tão aí.

[01:03:29] 3 ou 4 aí.

[01:03:31] Ele tá com mais de 90 anos, ele tá

[01:03:33] ficando velhinho, ele tem um site que

[01:03:35] eu acho que bateu a consciência dele, porque ele vai morrer daqui

[01:03:37] a pouco, então ele já fica meio assim, né?

[01:03:39] Ele fala, é um site assim,

[01:03:41] como proteger o capitalismo dele mesmo, né?

[01:03:43] E ele tem um cunhão, um conceito,

[01:03:45] dos muitos que ele tem, que chama demarketing.

[01:03:47] O demarketing é assim, como fazer um marketing

[01:03:49] pra reduzir o consumo?

[01:03:51] Porque a meta do marketing é aumentar, né?

[01:03:53] Então, como reduzir? Tipo, consumo de água.

[01:03:55] Consumir menos água e tal, como é que você faz o demarketing?

[01:03:57] É um conceito interessante,

[01:03:59] você usa as mesmas ferramentas que o objetivo último é

[01:04:01] como fazer um comportamento um pouco

[01:04:03] mais eficaz. Só que aí ele vai contra

[01:04:05] aquela curva de crescimento que a gente falou no início, né?

[01:04:07] Percebeu? Mas novamente,

[01:04:09] acaba entrando um conhecimento, a gente tava

[01:04:11] batendo um papo, já vem caminhando aqui

[01:04:13] pro final também, que a gente já tá…

[01:04:15] Mas uma das coisas do papo que a gente tava batendo,

[01:04:17] e aí um exemplo que a gente

[01:04:19] deu foi a questão do desperdício

[01:04:21] de alimentos. Desperdício de alimentos

[01:04:23] acontece ao longo de toda a cadeia

[01:04:25] e tudo mais. Com um pouco de conhecimento,

[01:04:27] você tem capacidade, por exemplo,

[01:04:29] de entender que pra

[01:04:31] certos pratos o melhor ingrediente é aquele

[01:04:33] justamente que jamais alguém

[01:04:35] iria comprar no mercado. Isso.

[01:04:37] Porque ele tá feio, ele tá quase passando,

[01:04:39] mas sei lá, pra fazer, por exemplo,

[01:04:41] um bolo de banana, você não vai comprar

[01:04:43] uma banana bonita, madura,

[01:04:45] amarela,

[01:04:47] sem nenhuma manchinha, não,

[01:04:49] ela tá passando. Tomate,

[01:04:51] como você falou. Tomate pra fazer molho,

[01:04:53] não pode ser um tomate rosa,

[01:04:55] né? Duro, aquele

[01:04:57] perfeito, né?

[01:04:59] Não, ele tem que tá já passado,

[01:05:01] ele tá amassado assim, porque ele tá muito

[01:05:03] frágil, a pele tá pra estourar mesmo.

[01:05:05] Ou sei lá, comprou um

[01:05:07] PF, sobrou arroz,

[01:05:09] que sempre sobra. Vira bolinho.

[01:05:11] Essas criatividades, e aí eu… Isso eu já

[01:05:13] falei em várias situações, mas é sempre legal,

[01:05:15] eu gosto, eu leio filosofia, eu gosto.

[01:05:17] E aí, a filosofia do Kikei Gardia é muito boa.

[01:05:19] Eu falei lá no Cris, né, também, mas

[01:05:21] vale a pena aqui, assim, dando referências, né,

[01:05:23] referência do demarketing. Ah, eu quero estudar uns temas,

[01:05:25] demarketing é um conceito,

[01:05:27] D-E, marketing, né, é um conceito interessante.

[01:05:29] E um outro chama economia do donut. Já ouviu falar?

[01:05:31] Tem uma economista, ela tem

[01:05:33] TED até, assim, o TED é só uma apresentação,

[01:05:35] mas é legal ler os textos, os artigos dela.

[01:05:37] É uma economista europeia, eu não lembro se é holandesa,

[01:05:39] que ela coloca a economia do donut.

[01:05:41] Então, o donut é uma rosquinha, né, que tem um buraco no meio,

[01:05:43] e aí, ela imagina como se o mundo fosse

[01:05:45] uma rosquinha, em que todas as pessoas são

[01:05:47] a massa da rosquinha. E a rosquinha tem dois limites,

[01:05:49] né, o limite pra fora e o limite pra dentro,

[01:05:51] porque se o limite de dentro acabar vira um bolinho,

[01:05:53] e o limite de fora é o tamanho da rosquinha.

[01:05:55] Então, o que que seriam os limites da rosquinha?

[01:05:57] É o aquecimento global, é o ambiente,

[01:05:59] a quantidade de recurso, é o que tá do lado de fora,

[01:06:01] né, é o que é externo a gente.

[01:06:03] O que que é dentro? São as questões políticas, sociais,

[01:06:05] desigualdade, é a questão de dentro.

[01:06:07] E aí, a gente tem que operar nesse limite.

[01:06:09] Como é que a gente cria uma economia?

[01:06:11] E aí, ela tem toda uma formalização matemática, inclusive, pra isso,

[01:06:13] pra como criar um estado macroeconômico

[01:06:15] baseado, não em acumulação,

[01:06:17] mas sim em estabilidade.

[01:06:19] Utilizando os modelos da genética de população.

[01:06:21] Porra, foda!

[01:06:23] Foda!

[01:06:25] Então, o nome dela é Kate Harworth, né?

[01:06:27] Vale a pena ver o TED dela,

[01:06:29] a literatura. Donut Economy.

[01:06:31] Isso, economia do Donut, né?

[01:06:33] Inclusive, eu tenho uma certa formalização, tem as brigas dos economistas,

[01:06:35] mas eles se resolvem depois.

[01:06:37] Eu tô finalmente feliz,

[01:06:39] porque esse é um raro programa que

[01:06:41] tá terminando num up aqui.

[01:06:43] E demais!

[01:06:45] Vai lá, adquire mais conhecimento.

[01:06:47] Eu entendi muita coisa, que eu devo

[01:06:49] parar com essa gracinha

[01:06:51] adolescente de ser

[01:06:53] sinicista, cínico ou estoico.

[01:06:55] É importante sentar a bunda

[01:06:57] na cadeira e estudar.

[01:06:59] Eu tô precisando desse pouco de esperança, né?

[01:07:01] Mano, a culpa é sua. Toma um tapa na cara

[01:07:03] e bora, sabe?

[01:07:05] Você tá meio merda, também mexe a bunda

[01:07:07] no seu meio, né?

[01:07:09] E que é melhor ser angustiado do que ser ansioso.

[01:07:11] Isso é fantástico. Aí é o livro do Kierkegaard.

[01:07:13] O Kierkegaard tem um livro,

[01:07:15] de Angústia.

[01:07:17] Ele coloca uma coisa que é muito importante, que é o tédio.

[01:07:19] Eu adoro o Kierkegaard.

[01:07:21] Ele fala assim, o que é o tédio?

[01:07:23] Imagina que você é uma pessoa bilionária.

[01:07:25] Você tem dinheiro infinito. Eu tentei.

[01:07:27] E aí você adora hambúrguer.

[01:07:29] Você como pessoa milionária, o que você vai fazer?

[01:07:31] Você vai comer hambúrgueres em todos os lugares.

[01:07:33] Então no Brasil você come hambúrguer, na Itália, no Japão, não sei lá onde.

[01:07:35] Ou seja, você tem, no fundo,

[01:07:37] mesmo tendo todo o dinheiro, você é uma pessoa entediada.

[01:07:39] Porque você tá repetindo a mesma experiência

[01:07:41] de lugares diferentes. Aí ele faz uma

[01:07:43] tecnologia como a fazenda. Então imagina

[01:07:45] que você pega um lote da fazenda e planta soja.

[01:07:47] Quando você termina de plantar soja e o solo

[01:07:49] fica fraco, você troca de lote.

[01:07:51] E aí vai indo. Ou seja, você tá aumentando o tamanho da fazenda

[01:07:53] cada vez mais, porque você tem dinheiro.

[01:07:55] A ideia dele não é isso. Então, por exemplo,

[01:07:57] quando teve lá aqueles quatro gaiato coitado

[01:07:59] e um filho de um deles, que se meteram no barco 20 mil

[01:08:01] metros para baixo da terra, e viraram sardinha,

[01:08:03] aqueles caras tinham

[01:08:05] um desejo de desbravar? Não, eles tinham tédio.

[01:08:07] Eles eram pessoas entediadas. Hoje,

[01:08:09] se você for juntar o dinheiro, vai lá no alto do Everest,

[01:08:11] escravizando xerpa. Chega lá no alto do Everest,

[01:08:13] o que você vai encontrar? Uma fila. De entediados.

[01:08:15] Exatamente. Não são pessoas motivadas,

[01:08:17] são pessoas entediadas.

[01:08:19] Cambada de malditos. Que maravilhoso.

[01:08:21] Mais outra sugestão de leitura.

[01:08:23] Então, o texto chama

[01:08:25] rotação de culturas, tá? Do que que é gato?

[01:08:27] Aí ele fala o seguinte, que a ideia é você entender quais

[01:08:29] são os seus limites. Então, por exemplo, eu tenho uma doença

[01:08:31] mental, sou deprimido. Tenho depressão crônica.

[01:08:33] Isso, na verdade, tem que te ajudar, porque é um limite.

[01:08:35] E aí quando você tem o limite daqui,

[01:08:37] é igual a rosquinha, quando você tem o limite

[01:08:39] daquilo que você sabe que você consegue fazer,

[01:08:41] aquilo que você não consegue, isso cria um limite.

[01:08:43] Isso cria uma energia em você, uma força

[01:08:45] pra você ser criativo com seus limites.

[01:08:47] Se você é uma pessoa criativa com seus limites

[01:08:49] e desenvolve resultados adaptativos,

[01:08:51] você vai ser mais feliz que qualquer bilionário que você imaginar.

[01:08:53] E faz todo o sentido porque

[01:08:55] justamente, a gente que trabalha muito com

[01:08:57] criatividade, né, tem que abordar esse tema.

[01:08:59] E uma das palavras que geralmente uso

[01:09:01] pra falar sobre criatividade é limite.

[01:09:03] Exato.

[01:09:05] Se eu não tenho limites, não vou fazer nada criativo.

[01:09:07] Já não consegue começar.

[01:09:09] Eu só vou ficar jogando coisas.

[01:09:11] Então, aí é um desafio pra você,

[01:09:13] porque eu não conheço tantos quanto você.

[01:09:15] Eu conheço algumas pessoas da área.

[01:09:17] Pensa pessoas boas de criação, da área de criação mesmo.

[01:09:19] Não planejamento e estratégia.

[01:09:21] Poxa vida!

[01:09:23] Pensa os caras bons, criação.

[01:09:25] Pensa os caras bons.

[01:09:27] Tem algum deles que é bom da cabeça?

[01:09:29] Não!

[01:09:31] É condição indispensável.

[01:09:33] Você tem que ser meio zoado pra você desenvolver

[01:09:35] um bagulho. E zoado não no sentido de ser

[01:09:37] doente, zoado no sentido de

[01:09:39] entender, esse é o meu limite.

[01:09:41] Tem coisas que eu não consigo e a ausência,

[01:09:43] a negação te define. Então, um último

[01:09:45] exemplo pra encerrar. Você nasceu em São Paulo.

[01:09:47] Então, você sente em você o que é ser paulista.

[01:09:49] Mas você não sabe o que é ser paulista,

[01:09:51] paulistana. Mas, por exemplo, você não é baiano.

[01:09:53] Você não é. Concorda?

[01:09:55] Você não é paraense.

[01:09:57] Você não é gaúcho.

[01:09:59] Ou seja, você se define como paulistano

[01:10:01] pela ausência do que você não é.

[01:10:03] Ou seja, você nunca vai saber o que você é.

[01:10:05] Você sabe o que você não é. Isso te dá o limite.

[01:10:07] Não é foda?

[01:10:09] Gente, olha que

[01:10:11] um raro programa que termina numa nota pra cima.

[01:10:13] Gente, logo o de…

[01:10:15] Aquecimento global.

[01:10:17] Mas a gente já se estendendo

[01:10:19] demais no nosso tempo.

[01:10:21] Mas imagina, foi um programa

[01:10:23] prazeroso de fazer

[01:10:25] demais.

[01:10:29] Eu quero demais

[01:10:31] agradecer por ter aceitado o convite.

[01:10:33] A gente ficou mó feliz, na verdade.

[01:10:35] Vou gravar com o Otair.

[01:10:37] Falei porque quem roubei

[01:10:39] o Otair

[01:10:41] pra gravar o alviçareiro.

[01:10:43] E a gente fica realmente muito agradecido.

[01:10:45] Quero também agradecer demais vocês,

[01:10:47] lindos membros fixos da

[01:10:49] bancada, Jéssica Correia

[01:10:51] e Gabriel Prado.

[01:10:53] Eu que agradeço a hora e meia

[01:10:55] de conhecimento adquirido.

[01:10:57] E também agradecer a você,

[01:10:59] seu ouvinte, que ouviu-nos até agora.

[01:11:01] E queria dizer neste momento

[01:11:03] que daqui 15 dias

[01:11:05] estaremos de volta.

[01:11:07] Com mais um alviçareiro dessa temporada.

[01:11:09] Um beijo

[01:11:11] e até lá. Tchau.

[01:11:29] O alviçareiro nos mais diversos

[01:11:31] players de podcast do mercado.

[01:11:33] Isso mesmo, estamos nos melhores

[01:11:35] e piores players de podcast

[01:11:37] por aí. Links pro nosso

[01:11:39] Instagram e o nosso TikTok.

[01:11:41] Onde postamos os fabulosos

[01:11:43] cortes e links

[01:11:45] para as redes sociais de todo mundo

[01:11:47] que participa aqui do podcast.

[01:11:49] Você acabou de ouvir o alviçareiro

[01:11:51] número 7. Programa que

[01:11:53] teve a participação especial de Altair

[01:11:55] e de Souza. Roteiro e apresentação

[01:11:57] de Luiz Iassuda, este que

[01:11:59] vos fala, Gabriel Prado

[01:12:01] e Jéssica Correia. A edição é de

[01:12:03] Jéssica Correia e este programa foi gravado

[01:12:05] nos estúdios Voss, em São Paulo.

[01:12:07] O alviçareiro conta com parceria

[01:12:09] na divulgação do P9.