#214 - Mario Sergio Cortella
Resumo
Neste episódio do Provocast, Marcelo Tass recebe o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella para uma ampla conversa sobre temas fundamentais da vida contemporânea. A discussão começa com uma reflexão profunda sobre a democracia, seu significado histórico e os desafios atuais que enfrenta, incluindo a ascensão de movimentos antidemocráticos e o papel da tecnologia nesse processo.
Cortella analisa como a internet e as redes sociais amplificaram vozes que antes estavam confinadas aos “rincões da vida”, permitindo que visões reacionárias e supremacistas ganhassem espaço público. Ele discute a diferença entre ser “público” (espectador) e “povo” (ator) na democracia, citando Lima Barreto, e defende que a democracia é uma “plantinha frágil” que precisa ser regada todos os dias com participação ativa.
O diálogo avança para o tema da tecnologia, com Cortella refletindo sobre inteligência artificial, seu potencial e riscos. Ele argumenta que a IA pode ser útil como ferramenta de auxílio, mas problemática se ganhar autonomia decisória. O filósofo também compartilha suas escolhas pessoais sobre o uso de tecnologia, incluindo sua relutância com certas redes sociais e emojis, que considera uma forma “hieroglífica” que empobrece a comunicação.
Na parte final, Cortella fala sobre educação, destacando o valor da escola e os desafios dos professores brasileiros. Ele também compartilha aspectos pessoais de sua trajetória, incluindo seu período como monge carmelita, o significado de sua barba icônica, e reflexões sobre casamento e o sentido da vida. O filósofo conclui que o sentido da existência está em “ficar nos outros” através das obras e afetos que deixamos.
Indicações
Books
- Cidadania Obscura — Livro escrito em coautoria com Marcelo Tass, mencionado como uma reflexão sobre a indecência na vida coletiva. Cortella comenta que a obscenidade voltou à tona, não apenas no campo moral sexual, mas no social - miséria, fome, abandono, preconceito e guerra são obscenos.
- Deus nos livre — Livro mais recente de Cortella, da editora Vozes, que trata de ‘desassossegos e encantamentos em relação à religião, à religiosidade e à espiritualidade’. O filósofo o apresenta como uma reflexão sobre a construção de sentido na vida e sobre como ‘Deus nos livre da falta de sentido’.
- Fragmentos de curso amoroso — Obra de Roland Warth mencionada por Cortella ao discutir relacionamentos. O filósofo cita a ideia de que ‘você não ama alguém, você ama o amor’, e que a pessoa com quem se vive bem é aquela que ‘toma conta do amor que você ama’.
People
- Lima Barreto — Escritor brasileiro citado por Cortella com a frase ‘O Brasil não tem povo, tem público’, significando que a população é mais espectadora do que atora na vida democrática.
- Renato Janine Ribeiro — Filósofo brasileiro com quem Cortella debate sobre a obrigatoriedade do voto. Janine defende o voto facultativo, enquanto Cortella argumenta que ainda precisamos de mais algumas eleições com voto obrigatório antes de fazer a transição.
- Zygmunt Bauman — Filósofo polonês citado na introdução de um bloco, com a frase ‘Quando eu digo amigo, e o Facebook diz amigo, estamos falando de coisas completamente diferentes’.
- Contardo Caligari — Referenciado por Cortella ao discutir a criação de crianças, com a frase ‘desejos não são direitos’, criticando uma educação muito permissiva.
- Ledo Ivo — Poeta alagoano citado por Cortella com a frase ‘o que sobra é obra, o resto só sobra’, usada para ilustrar a importância de deixar uma contribuição duradoura.
Linha do Tempo
- 00:02:28 — A democracia está em perigo? — Marcelo Tass pergunta se a democracia está levando uma ‘sova’ no mundo atual. Cortella explica o conceito histórico de democracia como gestão da vida coletiva pela sociedade, com escolha de representantes. Ele menciona os abalos do século XX com totalitarismos e como se imaginava que após 1945 haveria exaltação da vida participativa, mas isso não se concretizou totalmente. O filósofo destaca que movimentos de imigração em larga escala e capacidades tecnológicas de inclusão e exclusão trouxeram novas dificuldades.
- 00:08:11 — A culpa é da internet? — Tass pergunta se a culpa dos problemas democráticos é da internet. Cortella responde que a internet facilitou que vozes de ‘rincões’ e ‘grotões’, que antes só recebiam informação mas não emitiam, agora possam se expressar. Ele argumenta que concepções reacionárias e visões supremacistas, que se achava estarem sepultadas, agora têm como se mostrar através da tecnologia. Isso criou uma disputa política intensa sobre percepções morais da vida e aceitação de direitos.
- 00:12:42 — Como desenvolver pensamento crítico? — Em resposta à pergunta de um ouvinte, Cortella discute como desenvolver pensamento crítico sem ser influenciável. Ele argumenta que ser influenciável é positivo quando se trata de ‘boas influências’ - aquelas que permitem a contraposição de ideias e aceitação de que outros podem pensar diferente. O filósofo cita Descartes e a dúvida metódica como exemplo de influência positiva, onde se duvida de tudo para encontrar terreno firme, exceto da própria dúvida, que é indubitável.
- 00:17:29 — A inteligência artificial é inteligente? — Tass pergunta se a inteligência artificial é realmente inteligente. Cortella responde que sim, se entendermos inteligência como capacidade de operar, raciocinar, refletir e propor. Ele não teme a IA quando ela auxilia processos automáticos de maneira mais veloz e estruturada, mas se preocupa com a possibilidade de ela ganhar autonomia e decidir sem intervenção humana. Cortella observa que atualmente a IA tem capacidade de rearranjo e reinvenção, mas não de criação genuína, embora isso possa mudar no futuro.
- 00:23:45 — IA aumenta desigualdades? — Em resposta à pergunta de um ouvinte chamado Daniel, Cortella discute se as inteligências artificiais podem aumentar a concentração de renda e desigualdades. Ele usa o exemplo de uma trabalhadora de escritório que, ao longo de 40 anos, viu a tecnologia evoluir (máquinas de escrever, computadores, dispositivos móveis) mas continua ganhando dois salários mínimos e morando na periferia. Cortella argumenta que a tecnologia só trará benefícios coletivos se for acompanhada de partilha dos ganhos de produtividade através de educação, saúde e cultura.
- 00:33:47 — A experiência como monge carmelita — Cortella revela que antes de ser professor e filósofo, foi monge da ordem carmelita descalça por três anos (1973-1975). Ele entrou na ordem para viver uma experiência religiosa ‘de modo mais intenso e autêntico’, mergulhando no lado de dentro da religião. O filósofo sente falta do silêncio do convento, onde havia períodos do dia sem fala, e conta que como torcedor do Santos Futebol Clube, ficava agoniado aos domingos quando tinha que estar na capela enquanto o time jogava. Após três anos, decidiu que sua vocação estava na docência e comunicação.
- 00:45:05 — Qual o sentido da vida? — Respondendo à pergunta da ouvinte Janice Mendes sobre o sentido da vida, Cortella menciona seu livro mais recente ‘Deus nos livre’, que trata de desassossegos e encantamentos em relação à religião e espiritualidade. Ele argumenta que não há um sentido pré-determinado para a existência, mas que nós somos construtores de sentido. Para Cortella, o sentido mais forte da vida é ‘ficar’ - não partir, mas permanecer nas pessoas através de obras, afeto e amizade. Ele cita o poeta Ledo Ivo: ‘o que sobra é obra, o resto só sobra’.
Dados do Episódio
- Podcast: Provocast
- Autor: TV Cultura
- Categoria: News
- Publicado: 2024-03-07T17:00:00Z
- Duração: 00:53:44
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/cca71c70-d321-0137-1e20-0acc26574db2/episode/3a96cca6-82a7-4144-9f99-fa82fa3dabc7/
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Dados do Podcast
- Nome: Provocast
- Tipo: episodic
- Site: https://podcasters.spotify.com/pod/show/provocast
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Transcrição
[00:00:00] Alô, alô, aqui Marcelo Tass com o Provocast, o podcast do Provoca.
[00:00:10] Bem-vindo você que me escuta aí a qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada,
[00:00:14] no lugar onde bem entender, você também pode ver este programa
[00:00:18] nos perfis da TV Cultura, no YouTube, no Twitter, no X e no Facebook.
[00:00:23] Neste episódio aqui do Provocast, você vai ouvir uma voz familiar,
[00:00:28] a mais inconfundível do Brasil, o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella
[00:00:36] numa conversa necessária sobre democracia, tecnologia, educação
[00:00:41] e os tombos que a vida nos dá.
[00:00:45] Eu, se fosse você, escutaria aí de caneta e papel na mão,
[00:00:48] porque o papo está uma aula com o professor.
[00:00:53] Escuta aí.
[00:00:56] Meio século antes de Cristo.
[00:00:58] Em Atenas, os gregos tiveram uma ideia completamente doida.
[00:01:02] E se em vez de reis, faraós, imperadores, os próprios cidadãos decidissem os seus destinos?
[00:01:09] A ideia ganhou o nome de democracia,
[00:01:12] que em grego significa literalmente governo do povo.
[00:01:16] E de povo, o meu convidado parece entender muito bem.
[00:01:20] Mais de 20 milhões de seguidores.
[00:01:24] É o filósofo mais popular do Brasil,
[00:01:27] Mário Sérgio Cortella.
[00:01:28] Um verdadeiro democrata.
[00:01:31] Os alemães chamavam isso de Aufklärung, o iluminismo,
[00:01:36] que na França foi mais sério.
[00:01:38] O melhor de tudo é que quando você fala de povo,
[00:01:41] eu tenho uma preocupação forte.
[00:01:43] O grande Lima Barreto dizia
[00:01:45] o Brasil não tem povo, tem público.
[00:01:48] O Brasil não tem povo, tem público.
[00:01:51] Isto é, é mais espectador do que ator.
[00:01:55] E nesse sentido, a democracia tem…
[00:01:58] A democracia tênese, que você cita no mundo grego,
[00:02:00] ela também tinha uma boa parte das pessoas como público e não como povo de fato.
[00:02:12] Este é o Provoca em Rede Nacional de Televisão
[00:02:15] e também está nas plataformas da TV Cultura,
[00:02:17] YouTube, o X, o antigo Twitter, Facebook
[00:02:20] e também em podcast, no seu tocador preferido.
[00:02:24] O professor Cortella, pelo mundo afora, a democracia,
[00:02:28] está levando uma sova, vamos dizer assim,
[00:02:32] ou está em perigo, né?
[00:02:33] Antes de você me dizer o porquê disso,
[00:02:38] refresca a nossa memória cansada.
[00:02:40] O que é democracia?
[00:02:43] Se nós olharmos aquilo que é,
[00:02:44] ou que vem desde o século XVIII,
[00:02:47] com a Revolução Francesa de um lado,
[00:02:48] a Revolução Norte-Americana de outro,
[00:02:51] a gente tem a ideia de democracia
[00:02:53] como sendo uma gestão da vida coletiva
[00:02:56] que seja feita pela própria sociedade,
[00:02:58] que escolherá seus representantes para fazerem as leis
[00:03:02] e outros para avaliarem as leis,
[00:03:05] outros para executarem as leis.
[00:03:07] E nesse sentido, esse princípio
[00:03:09] em que cada pessoa é também autora
[00:03:12] da sua vida na comunidade,
[00:03:14] ele está colocado nos 300 anos mais recentes
[00:03:17] como sendo um valor.
[00:03:19] O século XX teve vários abalos disso
[00:03:22] com a organização de estruturas totalitárias
[00:03:25] na União Soviética, depois com o nazismo,
[00:03:28] na Alemanha, o fascismo na Itália
[00:03:31] e outros exemplares pela América Latina
[00:03:34] em que o totalitarismo vem à tona
[00:03:36] e ainda ele tem presença no XXI.
[00:03:39] Mas se imaginava, ou se desejava,
[00:03:42] ou se supunha que a ideia da repressão,
[00:03:45] a ideia de você ter de constranger as pessoas
[00:03:48] para que elas não tenham ação naquilo que fazem,
[00:03:51] ficaria, depois da Segunda Guerra de 1945,
[00:03:55] ficaria distante.
[00:03:56] Haveria ali,
[00:03:57] a exaltação da vida participativa.
[00:04:00] Não necessariamente.
[00:04:02] Nós tivemos hoje uma nova organização
[00:04:04] da vida econômica que levou a uma disputa
[00:04:07] internacional de mercado, isto é,
[00:04:09] o que foi o sonho do mundo global
[00:04:12] ao se realizar, ele trouxe dificuldades.
[00:04:14] Movimentos de imigração, que nunca aconteceram
[00:04:16] em tamanha escala na história,
[00:04:18] uma capacidade tecnológica de inclusão e exclusão
[00:04:22] que se tornou muito mais gritante
[00:04:24] e, de repente, quando você e eu,
[00:04:26] por exemplo, menos imaginávamos,
[00:04:29] a democracia teve que ser defendida de novo.
[00:04:32] De novo?
[00:04:33] Algo que estava lá no século XVIII como um ideal.
[00:04:36] E que já estava como um ideal que conquistamos.
[00:04:41] Será que tem a ver com a origem até da palavra
[00:04:44] que o povo no governo e nós confundimos com o eleitor,
[00:04:49] o cara que elege?
[00:04:50] Qual é a diferença do eleitor para o povo?
[00:04:52] Nós usamos uma expressão que não faz muito sentido
[00:04:55] em outros países, você sabe disso,
[00:04:56] que é a cidadania.
[00:04:58] Se você utilizar em inglês a ideia de citizenship,
[00:05:01] você vai dizer, aqui no Brasil nós precisamos de cidadania.
[00:05:05] Um norte-americano dirá, mas nós temos,
[00:05:07] você tem o direito de votar,
[00:05:09] você tem a noção de tributação.
[00:05:12] A nossa ideia nisso é um pouco solta,
[00:05:14] haja vista que, você sabe disso,
[00:05:17] a gente chama pessoas como você e eu
[00:05:19] como contribuintes
[00:05:21] e não como pagadores de impostos.
[00:05:23] Há uma diferença.
[00:05:24] Qual é?
[00:05:25] Entre um taxpayer, alguém que paga imposto,
[00:05:27] e um contribuinte.
[00:05:28] Contribuinte parece uma coisa meio voluntária.
[00:05:31] Você contribui e o outro se der dos lados de lá,
[00:05:34] retribui.
[00:05:35] E não é assim.
[00:05:36] É uma organização da vida.
[00:05:38] Em alguns lugares em que o cidadão é aquele que comanda.
[00:05:41] Nesse sentido, a percepção de um outro modo de presença
[00:05:46] em que as pessoas passam a reivindicar
[00:05:49] a sua autoria da vida,
[00:05:52] ela ficou um pouco menos romântica,
[00:05:54] como ela já foi.
[00:05:56] Se desejaria até, em vários lugares,
[00:05:58] que se tivesse, por exemplo, um governo que resolva.
[00:06:01] Se eu vou participar ou não,
[00:06:03] isso aí eu decido.
[00:06:05] Se eu tenho que ter uma postura que não seja de mero espectador,
[00:06:09] eu que escolho.
[00:06:10] Então é o uso da liberdade para falar da não participação.
[00:06:13] Mas, por último,
[00:06:15] como eu lembro sempre, usando a antiga frase,
[00:06:17] os ausentes nunca têm razão.
[00:06:20] A situação está muito difícil de entender,
[00:06:23] porque a democracia está em risco,
[00:06:25] até nos países que eram os nossos modelos de democracia.
[00:06:29] O que está acontecendo?
[00:06:31] Acho que a gente ampliou a capacidade
[00:06:34] de trazer à tona percepções do mundo, da vida,
[00:06:37] convicções que não tinham onde se mostrar.
[00:06:40] Em outras palavras, você pega nações do porte da norte-americana,
[00:06:44] da nação alemã, da nação francesa,
[00:06:47] em que a democracia, a própria Inglaterra,
[00:06:50] que sempre tiveram uma tradição democrática mais íntima,
[00:06:53] mais extensa,
[00:06:54] mas, ainda assim, com um movimento da política
[00:06:57] que se dava mais entre as elites intelectuais,
[00:07:00] econômicas e políticas.
[00:07:02] À medida em que o mundo tecnológico trouxe a possibilidade
[00:07:06] de organização de outras formas de presença,
[00:07:10] quer dizer, você não precisa passar pelos canais institucionais,
[00:07:13] oficiais, aquilo que a gente imaginava sepultado,
[00:07:17] que era a concepção reacionária da vida,
[00:07:20] uma visão supremacista,
[00:07:22] que a gente disse que não existe mais.
[00:07:25] E aí não só existia como agora tem como se mostrar.
[00:07:35] E o movimento que vinha numa direção de superação
[00:07:39] desse tipo de arcaísmo na vida coletiva,
[00:07:42] ele ganhou uma dimensão de que nações de porte,
[00:07:45] como a brasileira, entram numa disputa política,
[00:07:49] num digládio em relação às posturas,
[00:07:52] que devem ser uma percepção moral da vida,
[00:07:55] a aceitação de direitos ou a recusa a esses direitos
[00:07:59] por considerá-los imorais.
[00:08:01] A gente achava, de vez em quando,
[00:08:03] que isso estava já ultrapassado,
[00:08:05] que era ecos do século XIX.
[00:08:08] A culpa é da internet? É isso que você está me falando?
[00:08:11] Não, estou dizendo que a internet pode facilitar
[00:08:13] que aqueles lugares que não tinham os famosos rincões da vida,
[00:08:18] aqueles grotões, como se dizia no rádio antigo,
[00:08:21] onde a voz chegava, mas de lá não saía.
[00:08:25] A voz chegava, mas ela não saía.
[00:08:28] Agora a voz do rádio, da TV, ela chega, mas ela sai também.
[00:08:40] Muita gente, eu vejo, desiludida com a democracia,
[00:08:43] que é uma coisa triste e perigosa.
[00:08:46] Você está desiludido?
[00:08:48] Não, de maneira alguma.
[00:08:49] Eu acho que nós temos um pouco a fé
[00:08:51] pelo afeto pela democracia.
[00:08:53] A democracia, o general Dutra,
[00:08:55] que foi eleito presidente da República,
[00:08:58] ele dizia que a democracia, essa é uma frase antiga,
[00:09:01] ele a usava, ela é uma plantinha frágil
[00:09:04] que você tem que regar todos os dias.
[00:09:07] Nós temos pouco afeto pela democracia
[00:09:09] porque numa sociedade em que se tem mais
[00:09:12] o papel de público do que de povo,
[00:09:15] trazendo de novo Lima Barreto,
[00:09:18] a noção de que eu tenho o direito,
[00:09:20] e acima de tudo o dever de participar,
[00:09:23] acaba se restringindo aos momentos de pleitos eleitorais.
[00:09:27] Nesse sentido…
[00:09:29] Democracia é votar.
[00:09:30] É votar e poder ser votado.
[00:09:32] Como entre nós o voto ainda é obrigatório,
[00:09:35] isso ainda se coloca como um ônus,
[00:09:37] e não como um bônus da vida social.
[00:09:39] Não deveria ser?
[00:09:40] Eu ainda defendo, essa é uma discussão
[00:09:42] que eu já tive várias vezes com um professor,
[00:09:45] esse sim, um grande filósofo, Renato Janine Ribeiro,
[00:09:48] porque o Renato sempre defendeu
[00:09:50] de que não se deveria ter obrigatoriedade do voto.
[00:09:53] E eu acho que a gente, por um tempo,
[00:09:55] pelo menos por cinco eleições gerais na nação…
[00:09:59] Mas já não passou esse tempo?
[00:10:01] Não, eu acho que ainda falta uma.
[00:10:03] Falta uma?
[00:10:04] A gente deve ter, naquilo que eu calculei,
[00:10:06] na época que comecei a conversar isso com o Renato Janine,
[00:10:08] pelo menos cinco dessas eleições gerais,
[00:10:12] acho que pelo menos a próxima, sim.
[00:10:14] Depois, pouco a pouco, se vai colocando essa condição.
[00:10:17] Essa é uma proposta, meu caro deputado parlamentar?
[00:10:22] Não, porque eu sou parlamentarista.
[00:10:25] Mas é uma ideia? É uma ideia ser proposta, então.
[00:10:28] É, já tem várias pessoas que propuseram.
[00:10:30] Há um temor de que a não obrigatoriedade do voto,
[00:10:33] que ela leve a um esvaziamento da democracia.
[00:10:36] Mas com a facilitação que hoje algumas sociedades
[00:10:39] e cidades no Brasil estão fazendo do transporte
[00:10:42] que possa ser gratuito, do acesso mais facilitado,
[00:10:46] de ter uma confiabilidade das urnas eletrônicas
[00:10:49] que permite uma votação mais veloz,
[00:10:51] que não é apenas no voto impresso,
[00:10:53] tudo isso pode trazer essa condição.
[00:10:56] Agora, perto da democracia grega,
[00:10:59] nós estamos bastante avançados.
[00:11:09] Vamos fazer essa aula rápida,
[00:11:11] porque a democracia grega tem a trindade ali,
[00:11:16] que é Sócrates, Platão, Aristóteles.
[00:11:19] Não é aquela democracia que a gente imagina.
[00:11:21] Aliás, porque Sócrates e Platão eram avesso,
[00:11:23] a ideia de democracia.
[00:11:25] Você diria que a democracia seria uma maneira
[00:11:28] de degradar a convivência.
[00:11:30] A palavra aristocracia é muito mais forte.
[00:11:34] Aristóteles significa os melhores.
[00:11:36] Aristocracia seria o governo dos melhores.
[00:11:38] Mas a democracia naquele momento era mais restrita.
[00:11:41] Ela é um ideal expressivo, mas na prática
[00:11:45] só era considerado cidadão homem, portanto mulher alguma,
[00:11:50] a partir de 30 anos de idade,
[00:11:53] que tivesse a capacidade de ser cidadão,
[00:11:56] então não podia ser estrangeiro,
[00:11:58] e numa sociedade em que dois terços das pessoas eram escravas,
[00:12:02] seja por dívida, seja por conquista,
[00:12:05] não como aconteceu depois.
[00:12:07] Não era essa belezura que a gente imagina.
[00:12:10] Mas o ideal vale, isto é, o conceito
[00:12:13] do poder das pessoas.
[00:12:15] As pessoas que vivem naquela comunidade.
[00:12:17] A democracia.
[00:12:18] Isso não pode se perder.
[00:12:20] O que nós temos que tomar cuidado
[00:12:22] é que hoje há um grande número de democracidas.
[00:12:25] Não de democratas.
[00:12:27] Isto é, os que caminham na esteira
[00:12:30] de desmontagem ou de desapreço pela democracia.
[00:12:34] Está cheio deles aí.
[00:12:35] E tem muita gente querendo te fazer pergunta, Cortella.
[00:12:38] Olha aqui.
[00:12:39] Ibson Santos.
[00:12:40] Como desenvolver um pensamento crítico
[00:12:42] e não influenciável?
[00:12:44] Ou não tem jeito, sempre seremos influenciados?
[00:12:48] Uma das coisas boas é que eu sou capaz de ser influenciado.
[00:12:51] Eu só consigo estar aqui dialogando contigo
[00:12:54] porque eu estudei, eu li,
[00:12:56] muitas pessoas me influenciaram.
[00:12:58] O que minha mãe dizia, e a tua,
[00:13:00] não ande em más companhias.
[00:13:02] Portanto, as boas influências são aquelas que fazem
[00:13:05] com que eu tenha um pensamento crítico
[00:13:07] que é aquele em que eu admito a contraposição,
[00:13:10] em que eu acato a possibilidade
[00:13:12] de que alguém não pense como eu,
[00:13:14] de que eu coloque em prova aquilo que tenho para mim
[00:13:17] como sendo uma rota,
[00:13:19] mas que pode ser olhado de uma outra maneira.
[00:13:21] A ideia de um pensamento crítico
[00:13:23] é aquele que separa.
[00:13:24] Então, o critério é quando você escolhe
[00:13:27] o que serve daquilo que não serve.
[00:13:29] Será que eu tenho influenciadores
[00:13:31] para fazer essas escolhas?
[00:13:33] Claro.
[00:13:34] Tenho influenciadores no campo da literatura,
[00:13:36] da religião, da política institucional,
[00:13:39] no campo da economia.
[00:13:40] Isso não significa que ser influenciável
[00:13:43] me coloque como robótico.
[00:13:46] Significa apenas que eu levo em conta
[00:13:48] o pensamento de outras pessoas.
[00:13:50] Muita gente não tem como
[00:13:52] eu não lembrar do filósofo Descartes
[00:13:54] e a influência que ele tem sobre mim
[00:13:56] com a dúvida metódica.
[00:13:58] E quando o Descartes lembra…
[00:14:00] Qual é a dúvida do Descartes
[00:14:02] que temos que guardar?
[00:14:03] A dúvida metódica tem só uma,
[00:14:05] que é a mais forte.
[00:14:06] Se eu posso duvidar de todas as coisas,
[00:14:09] e é necessário duvidar de todas as coisas,
[00:14:12] para eu poder pisar num terreno firme.
[00:14:15] Para eu pisar num terreno firme,
[00:14:17] eu tenho que testar os terrenos
[00:14:19] onde eu estou pisando
[00:14:20] para ver qual que balança e qual não.
[00:14:22] Eu posso duvidar de tudo,
[00:14:23] menos uma coisa, da dúvida.
[00:14:25] A dúvida é indubitável.
[00:14:28] Se eu duvidar da dúvida,
[00:14:29] eu já estou duvidando.
[00:14:30] A dúvida metódica não é a suspeita
[00:14:33] que demole,
[00:14:34] é aquela que busca fincar a certeza
[00:14:37] no lugar onde ela possa ficar estruturada.
[00:14:40] Ah, meu querido Cortés.
[00:14:41] Você pode também fazer perguntas aqui no Provoca,
[00:14:45] é só mandar nas nossas redes,
[00:14:47] no YouTube, no X,
[00:14:49] no Facebook com a hashtag Provoca.
[00:14:52] Cortés, só uma última coisa nesse bloco ainda.
[00:14:56] Há algum bom par de anos,
[00:14:58] nós escrevemos juntos um livro,
[00:15:01] Cidadania Obscura.
[00:15:03] Basta de Cidadania Obscura.
[00:15:04] Basta de Cidadania Obscura.
[00:15:05] E esse basta, inclusive,
[00:15:07] eu sentia ali naquele momento,
[00:15:10] a gente nunca falou sobre isso,
[00:15:11] que era meio que assim,
[00:15:12] vamos terminar com esse assunto.
[00:15:14] Parece que não.
[00:15:15] Não.
[00:15:16] A obscenidade, isto é,
[00:15:18] aquilo que é indecente na vida coletiva,
[00:15:20] voltou à tona.
[00:15:21] Por quê?
[00:15:22] Uma parte daquilo que a gente falava antes,
[00:15:24] isto é, a gente não sabia
[00:15:26] que havia a possibilidade
[00:15:28] de algumas indecências se estruturarem
[00:15:31] para vir à tona,
[00:15:32] porque a gente achou que ela estava exilada.
[00:15:34] Isso, já estava se esvaindo.
[00:15:36] A segunda coisa dentro disso é que
[00:15:38] a obscenidade,
[00:15:39] ela não é aquilo que se finca no campo moral.
[00:15:43] Se coloca obsceno muito no campo da sexualidade
[00:15:46] quando aparece muito mais no social.
[00:15:49] Por exemplo, a miséria é obscena.
[00:15:52] A fome é obscena.
[00:15:54] O abandono é obsceno.
[00:15:55] O preconceito.
[00:15:56] O preconceito é obsceno.
[00:15:57] O desemprego é obsceno.
[00:15:59] A guerra é obscena.
[00:16:01] Eu li outro dia uma frase, Taz,
[00:16:03] eu não me lembro o autor,
[00:16:05] vou lembrar em outro momento, mas não agora,
[00:16:07] em que alguém disse
[00:16:09] assim,
[00:16:10] o grande momento da vida
[00:16:11] é quando um filho disser à mãe,
[00:16:13] mãe, o que é guerra?
[00:16:17] Mãe, o que é guerra?
[00:16:19] Não é a frase, não é o que era a guerra.
[00:16:22] O que é isso que eu não sei?
[00:16:24] O que é isso?
[00:16:37] No próximo bloco,
[00:16:39] nós vamos falar com o tema
[00:16:41] que o Cortella,
[00:16:43] mas ele ama de paixão,
[00:16:45] as novas tecnologias
[00:16:47] e o emoji.
[00:16:49] Até logo.
[00:17:00] Olha essa do filósofo polonês
[00:17:02] Zygmunt Bauman.
[00:17:04] Quando eu digo amigo,
[00:17:05] e o Facebook diz amigo,
[00:17:07] estamos falando de coisas
[00:17:09] completamente diferentes.
[00:17:11] O Bauman se foi em 2017,
[00:17:13] o Facebook e as redes sociais
[00:17:15] continuam aí causando conversas
[00:17:17] com muito ruído.
[00:17:19] Atualmente está na moda filosofar
[00:17:21] sobre inteligência artificial.
[00:17:23] Ô Mário Sérgio,
[00:17:25] meu filósofo me diga,
[00:17:27] a inteligência artificial
[00:17:29] é inteligente?
[00:17:31] Ela o é.
[00:17:33] Se a gente entende inteligência
[00:17:35] como sendo a capacidade de operar,
[00:17:37] uma capacidade de raciocínio,
[00:17:39] de reflexão e, ao mesmo tempo,
[00:17:41] de propositura, sim.
[00:17:43] É difícil, porque, em tese,
[00:17:45] inteligência artificial seria uma contradição
[00:17:47] no termo.
[00:17:49] Porque toda inteligência,
[00:17:51] a menos que a gente imagine
[00:17:53] que nós nos criamos,
[00:17:55] nós poderíamos dizer que a inteligência
[00:17:57] é autônoma.
[00:17:59] A inteligência é ligar pontos,
[00:18:01] escolher os pontos.
[00:18:03] Você poder ler dentro.
[00:18:05] Nesse sentido,
[00:18:07] eu não tenho nenhum temor
[00:18:09] de uma inteligência
[00:18:11] que possa ser chamada de artificial
[00:18:13] ou não.
[00:18:15] Porque isso em si
[00:18:17] é uma nomenclatura para algo
[00:18:19] que ameaça de um lado
[00:18:21] e beneficia de outro.
[00:18:23] Como todas as coisas
[00:18:25] que nós somos capazes de produzir.
[00:18:27] Mas a gente gosta mais de falar
[00:18:29] do que ameaça.
[00:18:31] Claro, mas isso é bom,
[00:18:33] é ótimo, que coisa boa.
[00:18:35] Mas se ficar só no estado de atenção
[00:18:37] também, não podemos perder o que ela pode?
[00:18:39] Podemos. Eu não temo
[00:18:41] nenhuma inteligência artificial,
[00:18:43] nenhuma dessas que estão aí no circuito,
[00:18:45] se ela auxiliar processos
[00:18:47] automáticos. Isto é,
[00:18:49] que elas façam por mim,
[00:18:51] só de maneira mais veloz, mais estruturada
[00:18:53] e, portanto, me auxilie.
[00:18:55] O que eu não quero é que ela seja autônoma.
[00:18:57] Que ela decida sem mim.
[00:18:59] E ela pode fazer isso? Ela poderá no momento, não.
[00:19:01] Ela pode pensar?
[00:19:03] A palavra é um pouco mais aberta,
[00:19:05] porque quando a gente diz, por exemplo, que outros animais
[00:19:07] não pensam, nós estamos
[00:19:09] colocando para nós um atributo
[00:19:11] que é o pensamento,
[00:19:13] que seria exclusivo. Se nós
[00:19:15] colocarmos autonomia nessas
[00:19:17] estruturas automáticas,
[00:19:19] claro que o que nós chamamos de pensamento
[00:19:21] será capaz.
[00:19:23] Nesse momento, ainda a gente não tem
[00:19:25] perspectiva de criação.
[00:19:27] Nós temos perspectiva de rearranjo,
[00:19:29] de reinvenção,
[00:19:31] ou para usar um termo da moda,
[00:19:33] de requalificação.
[00:19:35] Isto é, você agrega uma série
[00:19:37] de fontes e é capaz
[00:19:39] de dar a ela uma nova forma.
[00:19:41] Mas isso ainda não é um passo
[00:19:43] de criação. Mas poderá vir a sela.
[00:19:57] Como que você dosa a tecnologia
[00:19:59] na sua vida?
[00:20:01] É uma série de escolha.
[00:20:03] Eu sou capaz de ter comigo tecnologia.
[00:20:05] Algumas das formas de rede social
[00:20:07] eu não tenho.
[00:20:09] E não quero. Embora ela
[00:20:11] seja usada. Por exemplo, eu não tenho
[00:20:13] o WhatsApp. Eu uso o da Cláudia,
[00:20:15] mas eu não tenho.
[00:20:17] Você usa o dela.
[00:20:19] Você usa o WhatsApp.
[00:20:21] Eu posso te entregar aqui hoje?
[00:20:23] Quando a gente se conheceu, inclusive para escrever
[00:20:25] o livro, você falava que não usava
[00:20:27] nada. Você era contra emoji.
[00:20:29] Não era contra emoji.
[00:20:31] Ou contra.
[00:20:33] Hoje você… Não fui eu que mudei.
[00:20:35] Você é o rei do TikTok.
[00:20:37] Você está no TikTok.
[00:20:39] A ideia, você lembra
[00:20:41] quando nós brincavamos em relação a emoji?
[00:20:43] Eu dizia, cuidado. E nós estamos começando
[00:20:45] a usar uma forma de comunicação
[00:20:47] que ela é hieroglífica.
[00:20:49] E nós estamos voltando para a restrição
[00:20:51] do repertório
[00:20:53] de comunicação. Em que é muito
[00:20:55] mais fácil, no lugar de eu escrever
[00:20:57] algo para você
[00:20:59] que eu tenho que elaborar, pensar em você,
[00:21:01] mandar um coraçãozinho.
[00:21:03] E você, na época, dava um exemplo
[00:21:05] que eu gostava bastante.
[00:21:07] Se você recebesse
[00:21:09] uma mensagem
[00:21:11] da sua esposa
[00:21:13] dizendo assim,
[00:21:15] vamos jantar hoje?
[00:21:17] E você não pudesse jantar,
[00:21:19] você dizia assim, não posso.
[00:21:21] Mas mandava um coraçãozinho.
[00:21:23] Um coraçãozinho, uma plantinha.
[00:21:25] Essa facilitação,
[00:21:27] esse truque comunicativo,
[00:21:29] ele faz com que
[00:21:31] você economize tempo.
[00:21:33] Você continua contra isso?
[00:21:35] Eu continuo contra o uso exacerbado,
[00:21:37] o uso desmesurado. Mas eu tenho usado.
[00:21:39] Você tem usado? É isso que eu ia te entregar.
[00:21:41] Em alguns momentos eu vou falar com os meus filhos
[00:21:43] e filhas, com os meus netos e netas.
[00:21:45] Você está mandando coraçãozinho.
[00:21:47] Mas agora já com uma coisa que é
[00:21:49] o meu rosto simulado,
[00:21:51] um avatarzinho.
[00:21:53] Isso não significa que eu ainda
[00:21:55] me entregue na totalidade.
[00:21:57] Eu não sou avesso a linguagens antigas.
[00:21:59] Haja vista, por exemplo, que eu gosto
[00:22:01] de história em quadrinhos,
[00:22:03] que eu gosto de desenhos,
[00:22:05] que eu gosto de formas antiquíssimas como o teatro.
[00:22:07] Eu aprecio coisas que são feitas.
[00:22:09] Mas não fico assim tão seduzido.
[00:22:11] A inteligência artificial
[00:22:13] é muito nova
[00:22:15] para nós entendermos ainda
[00:22:17] qual é o impacto que ela carrega.
[00:22:19] Sem dúvida.
[00:22:21] E tem uma discussão, por exemplo,
[00:22:23] se ela é capaz de tomar consciência.
[00:22:25] O que você pensa disso?
[00:22:27] A ideia de que não só eu sei,
[00:22:29] como uma possibilidade reflexa,
[00:22:31] uma reflexão,
[00:22:33] ela não é distante no uso de tecnologia.
[00:22:35] Eu acho que a gente conseguirá em algum momento
[00:22:37] produzir
[00:22:39] essa capacidade.
[00:22:41] Mas então me diga o que é
[00:22:43] consciência?
[00:22:45] Consciência, em princípio, é eu não apenas saber algo,
[00:22:47] mas saber que sou eu que sei.
[00:22:49] Isto é, eu conseguir me distanciar
[00:22:51] em relação àquele ato.
[00:22:53] Exemplo concreto que a filosofia dá,
[00:22:55] antigo, um cão sente dor,
[00:22:57] mas ele não sabe que é ele que está sentindo.
[00:22:59] Ele só sente.
[00:23:01] Eu sinto algo, mas eu sei que sou eu.
[00:23:03] Eu consigo me afastar no tempo,
[00:23:05] e não por reflexo.
[00:23:07] Eu posso me pensar como Cortella com 20 anos de idade,
[00:23:09] mas como eu era imbecil,
[00:23:11] como se eu fosse outro.
[00:23:13] Posso me olhar na história que passou,
[00:23:15] olhar a minha linha de tempo e pensar
[00:23:17] eu podia fazer de outro modo.
[00:23:19] Isto é, é quando eu descolo do imediato.
[00:23:21] Isso é consciência.
[00:23:23] O imediato é a ciência, o saber.
[00:23:25] Quando eu me descolo disso,
[00:23:27] eu tenho a consciência.
[00:23:29] Eu sei muito.
[00:23:31] Faz, mas também não faz à toa.
[00:23:33] Pensa.
[00:23:35] Viver é difícil.
[00:23:39] Vamos ver o que eles estão te perguntando
[00:23:41] aqui, Cortella.
[00:23:43] A nossa inteligência artificial,
[00:23:45] que é o nosso público.
[00:23:47] Daniel, as IAS, as inteligências artificiais,
[00:23:49] têm potencial para facilitar a vida individualmente,
[00:23:51] mas no coletivo
[00:23:53] isso não vai aumentar a concentração
[00:23:55] de renda e as desigualdades?
[00:23:57] Sim.
[00:23:59] Há 40 anos apareceram as máquinas de escrever
[00:24:01] que eram mais ágeis.
[00:24:03] E havia uma menina
[00:24:05] que morava na periferia de São Paulo,
[00:24:07] que é a cidade onde moro,
[00:24:09] que trabalhava num escritório
[00:24:11] no centro da cidade de São Paulo,
[00:24:13] oito horas por dia,
[00:24:15] ganhava dois salários mínimos.
[00:24:17] Há 30 anos apareceu a máquina de escrever eletrônica.
[00:24:19] E ela passou a trabalhar oito horas por dia,
[00:24:21] ganhar dois salários mínimos
[00:24:23] e continuou morando na periferia.
[00:24:25] Certo?
[00:24:27] Ela começou a conhecer os computadores pessoais
[00:24:29] de uso mais expressivo.
[00:24:31] E ela passou a trabalhar oito horas por dia,
[00:24:33] rendeu muito mais,
[00:24:35] ganhou dois salários mínimos
[00:24:37] e continuou morando onde ela morava.
[00:24:39] Agora ela conta com uma tecnologia exuberante
[00:24:41] de comunicação que anda com ela,
[00:24:43] que é tudo mobile,
[00:24:45] que é tudo algo que permite liberdade dela
[00:24:47] nesse campo,
[00:24:49] e ela continua trabalhando oito horas por dia,
[00:24:51] morando na área periférica
[00:24:53] e ganhando dois salários mínimos.
[00:24:55] Como sair dessa enrascada?
[00:24:57] Ou a gente faz disso,
[00:24:59] uma ferramenta de partilha,
[00:25:01] que se entenda que é necessária,
[00:25:03] não apenas refinar a capacidade de produzir,
[00:25:05] mas repartir aquilo que é produzido
[00:25:07] como forma de bem coletivo social,
[00:25:09] por intermédio de educação,
[00:25:11] de letramento,
[00:25:13] de cultura,
[00:25:15] por intermédio de condições de saúde,
[00:25:17] de escolarização,
[00:25:19] ou é só o refinamento tecnológico.
[00:25:21] A educação está atenta
[00:25:23] ao uso dessas ferramentas
[00:25:25] para produzir conhecimento?
[00:25:27] Em alguns momentos,
[00:25:29] ela teve um encantamento,
[00:25:31] começou mais na Universidade Aberta de Londres,
[00:25:33] você se lembra o quanto se falava
[00:25:35] do ensino à distância,
[00:25:37] da importância do uso de tecnologia,
[00:25:39] e se notou que sim,
[00:25:41] a tecnologia é um apoio forte
[00:25:43] para as capacidades de apreensão
[00:25:45] e compreensão,
[00:25:47] mas ela não pode ser dominadora
[00:25:49] no campo da distração.
[00:25:51] Se diria, até há dez anos
[00:25:53] nós temos que colocar em todas as salas
[00:25:55] ou para todas as pessoas um aparelho.
[00:25:57] Num determinado momento se notou
[00:25:59] que no campo do aprendizado
[00:26:01] isso poderia ser danoso,
[00:26:03] porque esse mesmo aparelho,
[00:26:05] tal como eu, quando estava na escola em Londres,
[00:26:07] não podia levar gibi para dentro de sala de aula,
[00:26:09] não podia ficar com a revista
[00:26:11] olhando enquanto a professora dava aula,
[00:26:13] às vezes se usava a revista,
[00:26:15] não a que eu levava
[00:26:17] ou outra até que me entregava,
[00:26:19] quando era parte do material pedagógico.
[00:26:21] Quando não era, se dizia,
[00:26:23] guarde a revista, guarde o jornal.
[00:26:25] Agora, uma parte da organização
[00:26:27] diz assim, deixe os seus celulares,
[00:26:29] não pode entrar,
[00:26:31] vai guardar numa caixinha,
[00:26:33] ou seja o que for,
[00:26:35] como um modo de impedir um componente
[00:26:37] que não é inadequado,
[00:26:39] ele é inadequado na situação escolar,
[00:26:41] que é a distração.
[00:26:43] Felipe, professor, qual a sua percepção
[00:26:45] sobre a maneira como as crianças
[00:26:47] estão sendo criadas?
[00:26:49] Algo lhe preocupa?
[00:26:51] Eu uso uma frase que não é minha,
[00:26:53] mas que eu gosto, que diz que o mundo
[00:26:55] que nós vamos deixar para os nossos filhos
[00:26:57] depende muito dos filhos
[00:26:59] que nós vamos deixar para esse mundo.
[00:27:01] E que filhos e filhas estamos deixando?
[00:27:03] Uma parcela das crianças hoje
[00:27:05] está sendo formada,
[00:27:07] a depender da camada social,
[00:27:09] formada por uma geração de adultos
[00:27:11] que é muito permissiva.
[00:27:13] Como dizia o grande Contardo Caligari,
[00:27:15] desejos não são direitos.
[00:27:19] Desejos não são direitos.
[00:27:21] Contardo dizia, uma parte hoje
[00:27:23] dos jovens, por exemplo,
[00:27:25] da média, ou até das elites econômicas,
[00:27:27] vive como se ele fosse
[00:27:29] um adulto em férias.
[00:27:31] Ou seja, ele vai ao cinema,
[00:27:33] ele passeia, ele vai comer fora,
[00:27:35] ele só não trabalha.
[00:27:37] E eu vi outro dia um meme,
[00:27:39] que você deve ter visto,
[00:27:41] em que a mãe relatava
[00:27:43] em uma das redes sociais.
[00:27:45] Sabe o que eu faço com os meus filhos
[00:27:47] para eles arrumarem o quadro
[00:27:49] e fazerem a tarefa?
[00:27:51] Eu cheguei para eles e disse assim,
[00:27:53] o quadro do nosso wi-fi
[00:27:55] vai mudar todos os dias.
[00:27:57] Todos os dias eu vou mudá-la.
[00:27:59] Você terá acesso a ela
[00:28:01] depois que o seu quarto estiver arrumado,
[00:28:03] depois que a sua tarefa escolar estiver feita.
[00:28:05] Você terminou, você vem aqui
[00:28:07] e eu passo. À noite eu mudo.
[00:28:09] Que ideia que você está dando aí?
[00:28:11] Não estou dando, eu só estava lendo.
[00:28:13] Eu não tenho mais crianças pequenas.
[00:28:15] Meus netos e netos, agora os pais que cuidem.
[00:28:17] Você pode provocar uma revolução aí dentro das casas.
[00:28:19] Nem de longe.
[00:28:21] Como que é a música que você fez em homenagem à escolinha?
[00:28:23] Nunca mais.
[00:28:25] Volta aqui.
[00:28:27] Nunca mais.
[00:28:29] O problema está na tecnologia
[00:28:31] ou está na gente mesmo?
[00:28:33] Não há tecnologia sem a gente.
[00:28:35] Eu uso um exemplo
[00:28:37] de modo muito repetitivo
[00:28:39] e eu não digo
[00:28:41] até que as pessoas se cansem,
[00:28:43] mas até que elas se convençam.
[00:28:45] Se eu tenho aqui nas mãos
[00:28:47] uma faca
[00:28:49] e você, Tas, tem nas mãos uma maçã,
[00:28:51] eu posso usar ela
[00:28:53] essa faca que está nas minhas mãos
[00:28:55] para nós repartirmos a maçã
[00:28:57] ou para tomá-la de você.
[00:28:59] É claro que a questão não está na faca.
[00:29:01] Portanto,
[00:29:03] é evidente que a tecnologia
[00:29:05] está como sendo
[00:29:07] algo que não poderá
[00:29:09] ter autonomia,
[00:29:11] porque como a nossa autonomia,
[00:29:13] como gente, ao falar você da gente,
[00:29:15] ela pode ser arriscada,
[00:29:17] eu temo.
[00:29:19] Não avesso, não recuso,
[00:29:21] não descarto, mas
[00:29:23] fico assuntando
[00:29:25] meia distância e pensando
[00:29:27] será?
[00:29:29] Será?
[00:29:31] Ainda no tema da escola,
[00:29:33] meu caro Cortella,
[00:29:35] qual é o problema maior da educação?
[00:29:37] Crianças que não gostam da escola
[00:29:39] ou escola que não gosta de criança?
[00:29:41] A escola aprecia bastante.
[00:29:43] Crianças adoram a escola.
[00:29:45] Elas adoram.
[00:29:47] O que elas não gostam necessariamente
[00:29:49] é das nossas aulas,
[00:29:51] quando a aula vai começar,
[00:29:53] tem uma gritaria, uma correria,
[00:29:55] aquela alegria toda.
[00:29:57] Aí toco sinal, elas vão mais ou menos quietas para a sala.
[00:29:59] Solta para o intervalo, sai numa alegria danada.
[00:30:01] A aula acaba mais cedo,
[00:30:03] elas não vão embora para casa, elas ficam ali.
[00:30:05] Você tem que ir, senão elas não vão.
[00:30:07] Portanto, elas adoram a escola.
[00:30:09] O que existe é alguma dificuldade em relação
[00:30:11] ao modo de adequação
[00:30:13] do procedimento pedagógico
[00:30:15] com as gerações que estão chegando.
[00:30:17] Professoras e professores fazem
[00:30:19] um esforço imenso, especialmente das grandes
[00:30:21] redes de ensino, para terem
[00:30:23] condições de trabalho para isso acontecer
[00:30:25] de um modo mais eficaz.
[00:30:27] A formação do docente e da docente
[00:30:29] é mais complicada, porque ele tem
[00:30:31] que dar aula em vários lugares.
[00:30:33] Então não tem tempo para isso.
[00:30:35] É bom fazer justiça.
[00:30:37] O Brasil é o país que os professores mais trabalham
[00:30:39] e são menos valorizados.
[00:30:41] Trabalham muito e tem também
[00:30:43] um desprestígio em relação a isso.
[00:30:45] A atividade docente, embora ela tenha
[00:30:47] uma relevância falada,
[00:30:49] não necessariamente ela é
[00:30:51] praticada no cotidiano.
[00:30:53] Quando eu fui secretário de educação
[00:30:55] na cidade de São Paulo,
[00:30:57] quando se fazia uma pesquisa,
[00:30:59] olha que interessante,
[00:31:01] quando era feita uma pesquisa pelo governo
[00:31:03] em relação a quais eram as áreas prioritárias
[00:31:05] para dar uma solução,
[00:31:07] educação aparecia em sexto lugar, sétimo lugar.
[00:31:09] E aí, claro, que de modo humorado,
[00:31:11] colegas de secretariado
[00:31:13] diziam assim, está vendo?
[00:31:15] Está vendo como você não está precisando?
[00:31:17] Mas não era isso.
[00:31:19] A educação escolar do cotidiano
[00:31:21] ela tem já há tanto tempo
[00:31:23] na nossa forma de ação
[00:31:25] e ela está tão acomodada em algumas circunstâncias
[00:31:27] que ela nem é olhada
[00:31:29] como sendo algo que precise
[00:31:31] de uma transformação tão forte e precisa.
[00:31:33] Quando a gente é a mesma coisa,
[00:31:35] quem não estiver feliz,
[00:31:37] por favor, se retire da sala.
[00:31:39] Eu vi,
[00:31:41] falando dos memes, outro divertidíssimo,
[00:31:43] as aulas retomando
[00:31:45] na volta ao trabalho,
[00:31:47] aí você deve ter visto isso.
[00:31:49] A mãe chega com a criança
[00:31:51] na escola depois de um tempo de férias
[00:31:53] em que você tem que dar ocupação
[00:31:55] para esses pequenos e pequenas,
[00:31:57] chega com ele
[00:31:59] e o rapaz que está ali na zeladoria
[00:32:01] se aproxima e diz, olha,
[00:32:03] infelizmente não vai ter aula hoje
[00:32:05] porque houve uma grande chuva
[00:32:07] ontem à tarde, como a senhora viu,
[00:32:09] e o pátio da escola está inundado.
[00:32:11] Ela pega o menino e fala, não, pode deixar,
[00:32:13] ele sabe nadar e solta.
[00:32:15] Esta ideia da escola
[00:32:17] não só como um local de formação,
[00:32:19] mas também como de guarda.
[00:32:21] Aquilo que em espanhol
[00:32:23] nas creches se chama de guarderia,
[00:32:25] como um lugar onde você
[00:32:27] deixa as crianças
[00:32:29] para elas ficarem ali
[00:32:31] guardadas naquele tempo,
[00:32:33] vez ou outra tem muito mais impacto
[00:32:35] do que como um local de formação.
[00:32:37] Mas tem saída.
[00:32:41] Eu estou aqui chegando, quase na aula de violão
[00:32:43] do menino. Cadê o menino?
[00:32:45] Ha! Ha! Ha!
[00:32:47] Além de
[00:32:49] educador, filósofo, gente
[00:32:51] fina, como vocês estão vendo, o Mário Sérgio
[00:32:53] é pai e avô
[00:32:55] pós-graduando em casamentos,
[00:32:57] no plural,
[00:32:59] e já foi até monge. No próximo
[00:33:01] bloco nós vamos explorar essas passagens
[00:33:03] menos conhecidas do Cortella,
[00:33:05] como diz aquele filósofo,
[00:33:07] o povo só vê as pingas
[00:33:09] que eu tomo, ninguém vê os tombos
[00:33:11] que eu levo.
[00:33:17] .
[00:33:21] João da Cruz, frade espanhol
[00:33:23] que viveu no século XVI,
[00:33:25] se tornou santo padroeiro
[00:33:27] dos místicos e dos poetas.
[00:33:29] Um conselho dele,
[00:33:31] para chegares a saber tudo,
[00:33:33] não queiras saber
[00:33:35] coisa alguma.
[00:33:37] Não é uma ironia que o meu convidado,
[00:33:39] que sabe tanto, sobre tanta coisa,
[00:33:41] foi atraído justamente pela ordem
[00:33:43] fundada por São João
[00:33:45] da Cruz. Isso mesmo,
[00:33:47] pessoal, antes de professor,
[00:33:49] filósofo pop, o Mário Sérgio Cortella
[00:33:51] foi um monge.
[00:33:53] Ordem carmelitana
[00:33:55] descalça, cuja
[00:33:57] fundação foi de Teresa
[00:33:59] d’Ávila, uma doutora
[00:34:01] no mundo católico,
[00:34:03] e João da Cruz. Que ideia foi essa?
[00:34:05] A ideia era virar
[00:34:07] santo? Não, era virar Papa.
[00:34:09] Papa, claro. Minha intenção desde
[00:34:11] menino era ser o primeiro Papa brasileiro.
[00:34:13] Mas depois eu…
[00:34:15] Você está falando sério? Sim.
[00:34:17] Minha família é de formação católica.
[00:34:19] Eu fui formado numa família nessa condição.
[00:34:21] E eu, quando
[00:34:23] eu entrei na universidade, eu entrei para fazer
[00:34:25] filosofia, eu estava
[00:34:27] decidido a fazer uma experiência no mundo religioso.
[00:34:29] E eu achava que… Por quê?
[00:34:31] Porque eu achava que se era para provar
[00:34:33] a experiência religiosa, tinha que ser de modo
[00:34:35] mais intenso e autêntico.
[00:34:37] E o melhor modo de fazer era pelo lado
[00:34:39] de dentro. Sim, mergulhar. Isso.
[00:34:41] E aí quando eu entrei na universidade para fazer
[00:34:43] filosofia em 1970,
[00:34:45] em 1973,
[00:34:47] eu entrei na ordem carmelitana
[00:34:49] descalça num convento,
[00:34:51] na clausura, e nele vivi
[00:34:53] por três anos. 73,
[00:34:55] 74, 75.
[00:34:57] E, portanto, tive ali
[00:34:59] uma vivência religiosa, de vida comunitária.
[00:35:01] Intensa. Três anos.
[00:35:03] Três anos na clausura. Saía para ir
[00:35:05] à universidade e voltava. Tinha os trabalhos
[00:35:07] conventuais, as convivências.
[00:35:09] Você sente falta de alguma coisa do convento?
[00:35:11] Sim, sinto falta bastante
[00:35:13] do silêncio em alguns momentos.
[00:35:15] Porque numa ordem religiosa como
[00:35:17] a carmelita, naquele momento,
[00:35:19] havia vários períodos do dia em que
[00:35:21] não se falava. Eventualmente
[00:35:23] nas refeições, por exemplo,
[00:35:25] você só se comunicava por gesto,
[00:35:27] só se falava ou se via
[00:35:29] TV ou se ouvia rádio
[00:35:31] das 19h às 20h.
[00:35:33] No restante havia silêncio.
[00:35:35] E esse silêncio, ele auxilia
[00:35:37] bastante. Claro que eu tinha alguma dificuldade.
[00:35:39] Como torcedor
[00:35:41] do Santos Futebol Clube,
[00:35:43] eu aos domingos à tarde,
[00:35:45] uma vez ou outra tinha de estar na capela,
[00:35:47] dentro daquilo que era o
[00:35:49] ofício, como se usa no termo religioso,
[00:35:51] e o Santos jogando.
[00:35:53] E eu ficava agoniado.
[00:35:55] Agoniado e imaginando
[00:35:57] o que estava acontecendo. Mas isso era uma parte
[00:35:59] da atividade. Do sacrifício.
[00:36:01] E aí eu fiquei três anos no convento e achei
[00:36:03] que sim, a minha atividade
[00:36:05] deveria ser no campo da comunicação,
[00:36:07] da docência, que eu sempre gostei,
[00:36:09] mas não na vida religiosa. Eu comecei a dar aulas
[00:36:11] na PUC São Paulo. Eu tinha
[00:36:13] 22 anos. Muito cedo. É, muito cedo.
[00:36:15] E nela eu fiquei 35 anos.
[00:36:17] E, portanto,
[00:36:19] a carreira acadêmica, ela
[00:36:21] deu sequência a uma presença
[00:36:23] minha, dentro do que eu desejava,
[00:36:25] que era trabalhar com pessoas.
[00:36:27] O modo religioso seria um deles.
[00:36:45] E aí eu comecei a trabalhar com pessoas.
[00:36:49] E aí eu comecei a trabalhar com pessoas.
[00:36:51] E aí eu comecei a trabalhar com pessoas.
[00:36:53] Cortella, eu tenho uma curiosidade.
[00:36:55] Quando a barba
[00:36:57] entrou na sua vida?
[00:36:59] Ela entrou em 1970.
[00:37:01] Olha que coisa interessante.
[00:37:03] A barba entrou na minha vida em 1974.
[00:37:05] A barba entrou na minha vida em 1974.
[00:37:07] Quando eu estava no segundo ano da universidade.
[00:37:09] Quando eu estava no segundo ano da universidade.
[00:37:11] Ainda de modo muito incipiente.
[00:37:13] Eu tinha aqui bigode.
[00:37:15] Depois, por conta da vida conventual,
[00:37:17] em 1975
[00:37:19] eu deixei a barba,
[00:37:21] um pouco mais expressiva,
[00:37:23] porque isso compunha a figura
[00:37:25] do futuro papa que você seria.
[00:37:27] do futuro papa que você seria.
[00:37:29] E depois, na sequência,
[00:37:31] porque, como eu comecei a dar aulas na universidade,
[00:37:33] e eu era muito mais novo
[00:37:35] que boa parte dos meus alunos,
[00:37:37] então eu deixei a barba para dar um certo ar
[00:37:39] circunspecto.
[00:37:41] A partir daí, o uso da barba
[00:37:43] ficou no recorrente.
[00:37:45] Portanto, faz 48 anos
[00:37:47] Portanto, faz 48 anos
[00:37:49] que eu deixo a barba.
[00:37:51] Que você nunca se viu sem barba.
[00:37:53] Quando o André Sérgio, meu filho mais velho,
[00:37:55] que tem 46 anos,
[00:37:57] nasceu, eu tirei a barba
[00:37:59] pelos 3 meses iniciais
[00:38:01] do nascimento dele, por conta de higiene.
[00:38:03] Dela não cair na hora do cuidado.
[00:38:05] Temos imagens?
[00:38:07] Não temos imagens.
[00:38:09] Nós temos só o André, mas as imagens
[00:38:11] só se você tiver.
[00:38:13] E é bonito aí, hein?
[00:38:15] Eu gosto. Gostou?
[00:38:17] Pensa em fazer um modelito?
[00:38:19] Você sabe que outro dia eu vi
[00:38:21] em dois desses novos modos
[00:38:23] de barbearia, que agora voltou
[00:38:25] Sim, está na moda.
[00:38:27] Numa delas havia um assim,
[00:38:29] barba cortela.
[00:38:31] Que era um corte
[00:38:33] específico, em que a pessoa
[00:38:35] anunciava que era daquele modo.
[00:38:37] Eu acho muito bom.
[00:38:39] E qual é o significado da barba?
[00:38:41] Você está vendo que eu estou com um projeto
[00:38:43] muito incipiente.
[00:38:45] Você já foi e voltou várias vezes com essa configuração.
[00:38:47] Eu ando indeciso.
[00:38:49] Qual é o papel?
[00:38:51] No campo da minha atividade,
[00:38:53] que é a docência e da escrita,
[00:38:55] é você, vez ou outra,
[00:38:57] ter um ar circunspecto
[00:38:59] e poder cofiá-la.
[00:39:01] Fazer esse gesto
[00:39:03] que parece inteligente,
[00:39:05] meditativo. Então ele compõe mais
[00:39:07] o ensemble do que de fato
[00:39:09] uma necessidade.
[00:39:11] Agora, também hábitos.
[00:39:13] O que é isso?
[00:39:19] Olha aqui, professor.
[00:39:21] Joelton Belal.
[00:39:23] O professor filosofa sobre os memes
[00:39:25] e imitações
[00:39:27] que fazem…
[00:39:29] Claro, porque a imitação sempre é uma homenagem,
[00:39:31] como diz a antiga frase.
[00:39:33] Quando ela é divertida,
[00:39:35] ela faz com que eu me alegre
[00:39:37] com aquilo. Os memes,
[00:39:39] eles fazem com que eu tenha uma visão
[00:39:41] eventualmente crítica sobre mim.
[00:39:43] E, vez ou outra, eu penso
[00:39:45] o quanto isso é um modo de divulgação.
[00:39:47] Tal como eu tenho nas redes sociais,
[00:39:49] tal como eu tenho o quadrinho
[00:39:51] Cortella e Filó, que é uma maneira
[00:39:53] de chegar nas pessoas,
[00:39:55] eu tenho também a maneira do meme
[00:39:57] que não sou eu que faço, mas quando alguém
[00:39:59] faz, aliás, isso acaba ampliando.
[00:40:01] Sim.
[00:40:03] Você tem visto memes sobre você?
[00:40:05] Sim, vários, vários. Me conta dos seus preferidos.
[00:40:07] Olha, eu gosto. Você tem alguns
[00:40:09] que fazem uma imitação do meu sotaque.
[00:40:11] Vários me perguntam.
[00:40:13] Eu falo desse jeito, desse jeito.
[00:40:15] E eu não consigo me imitar.
[00:40:17] Sim. Vez ou outra eu tento até imitar.
[00:40:19] Minha voz, como alguns imitam.
[00:40:21] E tem criança que, vez ou outra,
[00:40:23] também se aproxima de mim. Ou na rua,
[00:40:25] ou no shopping, ou no aeroporto.
[00:40:27] E a mãe ou o pai diz assim, meu filho
[00:40:29] sabe te imitar. Eu falo, que gostoso.
[00:40:31] Faça. Aí ele faz.
[00:40:33] Há pessoas que fazem a imitação em programas
[00:40:35] de TV. Há outras
[00:40:37] que fazem usando
[00:40:39] o meu modo de falar. A minha
[00:40:41] gostosura, não eu como gostoso,
[00:40:43] mas como prazer de
[00:40:45] etimologia. Não é a minha área
[00:40:47] de estudo, mas eu gosto de lidar com o sentido
[00:40:49] das palavras. Então,
[00:40:51] há coisas que eu aprecio.
[00:40:53] Quem me imita, ou os memes, eles colocam
[00:40:55] na hora do escrito. Então,
[00:40:57] filam,
[00:40:59] fomos lam.
[00:41:01] Quando você sonha,
[00:41:03] a voz
[00:41:05] off do sonho é com
[00:41:07] esse sotaque? Não, não é.
[00:41:09] Não é. Esse modo
[00:41:11] de brincar não vem pra mim.
[00:41:13] No sonho. Você sabe que
[00:41:15] Nyx à noite, dos gregos,
[00:41:17] a divindade da noite, ela era
[00:41:19] a mãe de Onírus, que é
[00:41:21] exatamente o sono, e também
[00:41:23] da ideia do pesadelo.
[00:41:25] Portanto,
[00:41:27] quando eu tenho pesadelo, eu fico
[00:41:29] aprisionado num lugar em que os alto-falantes
[00:41:31] ficam com a minha voz o tempo
[00:41:33] todo. E não é a voz da consciência.
[00:41:35] Mas eu raramente tenho pesadelo.
[00:41:37] E me conta um.
[00:41:39] O meu maior pesadelo é
[00:41:41] estar com uma meia furada,
[00:41:43] meia.
[00:41:45] Sabe a meia em que você está
[00:41:47] com ela numa fura na ponta
[00:41:49] e o dedão sai fora?
[00:41:51] Uma das coisas que eu lembro do Nelson Rodrigues
[00:41:53] era aquela ideia de você, por exemplo,
[00:41:55] atravessando uma rua, sendo atropelado
[00:41:57] e depois se coloca
[00:41:59] alguma coisa em cima e fica só
[00:42:01] o dedão, que ele diria pornográfico,
[00:42:03] saindo pelo buraco da meia.
[00:42:05] Aquilo é indecente. É obsceno.
[00:42:07] Esse tipo de coisa é aterrorizador.
[00:42:13] Nada, só compra
[00:42:15] uma vela, acende
[00:42:17] e faz uma oração firme e forte
[00:42:19] porque o carro
[00:42:21] vai voar.
[00:42:23] Rogério, Cortella, qual é a diferença
[00:42:25] entre o inteligente,
[00:42:27] o esperto e o sábio?
[00:42:29] A pessoa sábia é aquela que sabe a diferença
[00:42:31] entre o inteligente e o esperto.
[00:42:33] Né? Eu não sei.
[00:42:35] Então eu não sou sábio.
[00:42:37] Mas eu tenho inteligência pra imaginar
[00:42:39] que o esperto é aquele que
[00:42:41] simula uma inteligência, mas
[00:42:43] ela é provisória como capacidade.
[00:42:45] Porque ela se desmonta.
[00:42:47] Ela é muito
[00:42:49] quimérica.
[00:42:51] Portanto, a esperteza, ela tem
[00:42:53] a utilização da inteligência como maneira
[00:42:55] de drible e engano.
[00:42:57] Outra coisa é a inteligência que serve
[00:42:59] assim e serve aos outros. E acho que
[00:43:01] uma pessoa sábia é aquela
[00:43:03] que entenderia melhor isso.
[00:43:05] Que não é o meu caso. Ser chamado
[00:43:07] às vezes de sábio, que às vezes outras fazem
[00:43:09] de maneira elogiosa,
[00:43:11] acho um pouco elevado.
[00:43:13] Eu demorei, por exemplo, pra
[00:43:15] admitir a ideia, como você fez no começo,
[00:43:17] ser chamado de filósofo.
[00:43:19] Até uns 20 anos, quem é da área de
[00:43:21] filosofia tinha muito pudor
[00:43:23] ser chamado de filósofo. A gente sempre preferiu
[00:43:25] e vários preferem até hoje. Por quê?
[00:43:27] Porque a ideia de filósofo, ela é tão elevada
[00:43:29] no nosso cotidiano, embora
[00:43:31] ninguém se incomode de ser chamado de filósofo,
[00:43:33] aliás, de sociólogo, de psicólogo,
[00:43:35] de economista, de antropólogo,
[00:43:37] ser chamado de filósofo parecia
[00:43:39] algo meio arrogante. Você tá acima, é.
[00:43:41] É, muito arrogante. Então, até hoje,
[00:43:43] tem vários colegas meus, homens,
[00:43:45] mulheres, de várias áreas, que preferem
[00:43:47] se chamar de professora de filosofia ou de professora.
[00:43:49] Hoje você não se incomoda. Não, não me incomoda.
[00:43:51] Aliás, eu mesmo comecei a me identificar
[00:43:53] quando, há uns 20 anos,
[00:43:55] nos programas de TV, tem que fazer
[00:43:57] a identificação. Botar o nominho, é.
[00:43:59] Ali no gerador de caractere,
[00:44:01] o famoso GC,
[00:44:03] se pedia assim, qual é a sua profissão?
[00:44:05] Antes eu punha professor
[00:44:07] de filosofia, aí passei a usar filósofo.
[00:44:09] O que que fez virar essa chave?
[00:44:11] Que não era
[00:44:13] algo de petulância. Sei.
[00:44:15] Não era algo que dizia assim, eu sou como
[00:44:17] Sócrates, como
[00:44:19] Descartes, como Kant.
[00:44:21] Eu sou alguém que os admira,
[00:44:23] que deles aprendeu,
[00:44:25] mas eu tenho uma atividade, que se não é igual,
[00:44:27] ela é na mesma
[00:44:29] frequência. Sim.
[00:44:31] Então ela não é idêntica. Assim como
[00:44:33] eu não imagino que alguém que se chame
[00:44:35] de músico, né, esteja colocando
[00:44:37] isso lado a lado com Heitor
[00:44:39] Villalobos, com Mozart, né, com
[00:44:41] Catullo da Paixão Cearense, etc.
[00:44:43] Você também pode fazer
[00:44:45] perguntas aqui pro filósofo, é só
[00:44:47] mandar nas nossas redes, no Youtube,
[00:44:49] no X, no Twitter, Facebook,
[00:44:51] com a hashtag Provoca.
[00:44:53] Tem mais uma aqui pra você.
[00:44:55] Janice Mendes, com
[00:44:57] todo o seu conhecimento, sabedoria,
[00:44:59] é ela que tá falando aqui, hein.
[00:45:01] Me diga, o que
[00:45:03] somos nós?
[00:45:05] O que eu estou fazendo aqui neste
[00:45:07] planeta? Qual o
[00:45:09] sentido de tudo isso?
[00:45:11] Meu livro mais recente,
[00:45:13] não casualmente, ele se dedica
[00:45:15] a pensar isso. Ele se chama
[00:45:17] Deus nos livre.
[00:45:19] São desassossegos
[00:45:21] e encantamentos em relação
[00:45:23] à religião, à religiosidade
[00:45:25] e à espiritualidade.
[00:45:27] A grande questão da vida é
[00:45:29] por quê? Por que cá estamos?
[00:45:31] Existe alguma razão
[00:45:33] pra nossa existência?
[00:45:35] Nós somos construtores de sentido,
[00:45:37] não há, pra mim, um sentido
[00:45:39] pré-determinado. Um sentido
[00:45:41] que alguém disse, você nasceu
[00:45:43] para isso. Ou essa
[00:45:45] é a razão. Mas se constrói
[00:45:47] o sentido. Acho
[00:45:49] que o sentido mais forte da vida
[00:45:51] pra mim, como pra qualquer pessoa,
[00:45:53] é ficar.
[00:45:55] Isto é, não partir.
[00:45:57] E qual é o único modo de ficar? Ficar
[00:45:59] nas pessoas. Ficar com a tua
[00:46:01] obra, ficar com a tua
[00:46:03] capacidade, teu afeto, tua amizade.
[00:46:05] O poeta Ledo Ivo,
[00:46:07] grande alagoano, dizia, o que sobra
[00:46:09] é obra, o resto só sobra.
[00:46:11] O que sobra é a obra.
[00:46:13] O resto só sobra. Por isso,
[00:46:15] nesse livro,
[00:46:17] da editora Vozes, ele tem
[00:46:19] uma marca que é pensar exatamente
[00:46:21] o Deus nos livre
[00:46:23] como uma compreensão.
[00:46:25] Deus nos livre da falta
[00:46:27] de sentido. Deus nos livre
[00:46:29] da incapacidade
[00:46:31] de construir sentido.
[00:46:33] Deus nos livre do desespero.
[00:46:35] Evidentemente que a ideia de Deus
[00:46:37] está colocada de modo simbólico.
[00:46:39] Ela aparece como sendo
[00:46:41] uma percepção do que é
[00:46:43] para nós uma reverência
[00:46:45] à vida. Por isso entendo,
[00:46:47] e aí respondo de modo mais
[00:46:49] final. Não
[00:46:51] acho que haja um sentido já
[00:46:53] construído. Acho que ele
[00:46:55] aparece na nossa trajetória,
[00:46:57] mas se alguém me perguntar qual é
[00:46:59] a finalidade de aqui estar,
[00:47:01] eu diria e digo, é ficar nos outros.
[00:47:03] Quando eu partir,
[00:47:05] eu quero fazer falta.
[00:47:07] Eu quero que pessoas digam,
[00:47:09] eu quero que a gente faça falta.
[00:47:11] Eu quero que a gente faça falta.
[00:47:27] Que memória que você tem da sua infância
[00:47:29] em Londrina?
[00:47:31] Eu saí de Londrina com 13 anos,
[00:47:33] tenho memória do meu quintal,
[00:47:35] da casa em Londrina.
[00:47:37] Tenho do Lago Ingapó,
[00:47:39] da cidade, tenho.
[00:47:41] Das vezes que eu fui ao estádio de futebol,
[00:47:43] Vitorino Gonçalves Dias,
[00:47:45] em que eu ia com meu pai, eu e meu irmão
[00:47:47] Héctor, e ali ele comprava
[00:47:49] para nós uma coisa deliciosa,
[00:47:51] que era uma laranja que vinha descascada
[00:47:53] e o cara tinha uma maquininha.
[00:47:55] Descascava aquilo, ardia o beiço,
[00:47:57] porque a laranja ficava com a casca
[00:47:59] muito aparente.
[00:48:01] Tem memória da escola, tem o sabor
[00:48:03] daquele bolinho
[00:48:05] de carne que se vendia na porta da escola
[00:48:07] dentro de um cesto. Tem
[00:48:09] uma memória imensa
[00:48:11] da minha professora que me alfabetizou,
[00:48:13] que foi capaz
[00:48:15] de fazer com que eu pudesse aprender
[00:48:17] a ler e escrever.
[00:48:19] E até hoje ela fica
[00:48:21] comigo dentro das minhas coisas.
[00:48:23] E você chegou em São Paulo com 13 anos,
[00:48:25] você lembra a sua primeira impressão?
[00:48:27] Sim, foi no dia 27 de
[00:48:29] dezembro de 1967,
[00:48:31] uma quarta-feira.
[00:48:33] A família chegou, foi morar na área central
[00:48:35] na Avenida Angélica,
[00:48:37] a um quarteirão do Parque Buenos Aires.
[00:48:39] Na época era a Praça Buenos Aires.
[00:48:41] E eu, assim que o caminhão de mudança
[00:48:43] deixou tudo no apartamento,
[00:48:45] eu saí a caminhar sozinho,
[00:48:47] três anos de idade.
[00:48:49] E por pouco não fiquei ali mesmo
[00:48:51] no asfalto da Avenida Angélica.
[00:48:53] Atropelado, porque desabituado
[00:48:55] com o trânsito daquele.
[00:48:57] E eu saí da parte de trás de um ônibus
[00:48:59] para cruzar e vim ali num carro.
[00:49:01] E foi a primeira vez que eu ouvi um palavrão
[00:49:03] dirigido a mim,
[00:49:05] especialmente, de maneira direta.
[00:49:07] Qual que era o palavrão? Ah, um palavrão,
[00:49:09] que eu não gosto de falar. Que aqui na TV Cultura.
[00:49:11] Porque ele lembra a dona Emília. Vai lembrar
[00:49:13] da sua mãe. Mas fazia referência
[00:49:15] à mãe. Emília
[00:49:17] e Antônio. Emília e Antônio.
[00:49:19] Meu pai descendente de italianos,
[00:49:21] minha mãe de espanhóis.
[00:49:23] Eles se casaram em 1953.
[00:49:25] Em 1954 nasci
[00:49:27] eu, né? E eles viveram juntos.
[00:49:29] Meu pai era bancário e minha mãe professora.
[00:49:31] Aprendi muito
[00:49:33] com eles, ensinei muito pra eles.
[00:49:35] Convivemos com alegria.
[00:49:37] É uma coisa muito boa.
[00:49:39] Eu ensinei o que pra eles?
[00:49:41] Nossa, coisas do dia a dia,
[00:49:43] do campo da filosofia.
[00:49:45] Ensinei algumas coisas da área da música.
[00:49:47] Meus pais adoravam música.
[00:49:49] A gente quando ia à praia,
[00:49:51] embora Londrina seja no estado do Paraná,
[00:49:53] as praias que frequentávamos eram
[00:49:55] no estado de São Paulo. Santos,
[00:49:57] Praia Grande, Itanhaém,
[00:49:59] Peruíbe, porque era mais fácil o acesso.
[00:50:01] Litoral Sul, é. Isso, era mais fácil
[00:50:03] o acesso do que ir até o litoral paranaense.
[00:50:05] E a gente vinha de Londrina até aqui,
[00:50:07] de jipe,
[00:50:09] por exemplo, em 1960,
[00:50:11] 1962,
[00:50:13] demorava 18 horas.
[00:50:15] Se parava no caminho, na Raposa de Tavares,
[00:50:17] pra fazer piquenique na estrada, não havia posto.
[00:50:19] E a gente vinha cantando
[00:50:21] de lá até aqui.
[00:50:29] Me ajuda aí
[00:50:31] pra não perder as contas.
[00:50:33] Você se casou quatro.
[00:50:35] Você sabe que às vezes falam assim, quantas vezes se casou?
[00:50:37] Às vezes foram necessárias.
[00:50:39] É isso? Sim.
[00:50:41] Às vezes foram necessárias. Eu sou casado
[00:50:43] com Cláudia, faz dez anos,
[00:50:45] e tenho um gosto
[00:50:47] muito imenso de não desistir,
[00:50:49] de persistir dentro desse
[00:50:51] caminho. Tive movimentos
[00:50:53] de convivência,
[00:50:55] de casamento, de matrimônio absolutamente
[00:50:57] encantadores, felizes,
[00:50:59] e quando deixaram de ser,
[00:51:01] de comum acordo, deixaram de ser.
[00:51:03] E isso é uma atualização
[00:51:05] do aplicativo?
[00:51:07] Não necessariamente.
[00:51:09] Ela pode ser, por exemplo,
[00:51:11] o esgotamento de um processo de convivência,
[00:51:13] de um tempo.
[00:51:15] O Roland Warth dizia que você não ama alguém,
[00:51:17] você ama o amor.
[00:51:19] Quem é a pessoa que você
[00:51:21] vive bem? É aquela que
[00:51:23] toma conta do amor que você ama.
[00:51:25] Quando esse amor começa
[00:51:27] a perder o cuidado, aí
[00:51:29] você tem que mudar de quem cuida.
[00:51:31] E aí você sai.
[00:51:33] Isso está na obra dele, você lembra?
[00:51:35] Fragmentos de curso amoroso.
[00:51:37] E é uma coisa dos dois lados,
[00:51:39] um cuidado…
[00:51:41] Nenhuma das formas minhas de
[00:51:43] convivência matrimonial, ela
[00:51:45] teve uma ruptura em que
[00:51:47] se diz descarte-se o que se teve.
[00:51:49] Não, ao contrário. Era um caminho
[00:51:51] em que não se seguia
[00:51:53] do mesmo modo. Mas eu continuo com essa
[00:51:55] resposta. Quantas vezes se casou?
[00:51:57] Quantas vezes foram necessárias?
[00:51:59] Meu caro monge, filósofo,
[00:52:01] para você é muito fácil
[00:52:03] me dizer o que é
[00:52:05] a vida.
[00:52:07] É um mistério, uma dádiva
[00:52:09] que a gente tem a
[00:52:11] absoluta capacidade de participar.
[00:52:13] Não sei a razão
[00:52:15] direta, mas eu sei acima
[00:52:17] de tudo que eu não quero descuidar.
[00:52:19] É algo a ser zelado,
[00:52:21] algo a ser fluído,
[00:52:23] algo a ser vivido.
[00:52:25] Não é imune à turbulência,
[00:52:27] à dificuldade, à encrenca,
[00:52:29] mas não é só turbulência, dificuldade
[00:52:31] e encrenca.
[00:52:33] Por isso, partirei.
[00:52:35] Deixarei de fazer parte
[00:52:37] da vida, mas não deixarei
[00:52:39] de fazer parte da vida.
[00:52:41] Dela eu sou um arranjo único.
[00:52:43] Antes de eu ser, o universo
[00:52:45] não é como ele é.
[00:52:47] Quando eu deixar de ser, ele não será mais como ele é.
[00:52:49] Eu sou único, mas eu não sou
[00:52:51] o único. Por isso eu sou
[00:52:53] com outras pessoas. A vida
[00:52:55] é partilha.
[00:52:57] Ai,
[00:52:59] que visita boa isso!
[00:53:01] Prosa boa, né, Cordeiro?
[00:53:03] Eu acho que nós só temos que fazer
[00:53:05] umas fotos agora, que o pessoal gosta de fazer
[00:53:07] umas fotos. A gente conversa, conversa,
[00:53:09] aí tem pessoas que precisam
[00:53:11] divulgar a gente.
[00:53:13] Divulgar, levar ao vulgo.
[00:53:15] Ao vulgo, levar ao povo.
[00:53:17] A filosofia ensina
[00:53:19] a gente a fazer boas perguntas.
[00:53:21] Me ensina uma aí pra eu fazer pra você
[00:53:23] pro próximo encontro.
[00:53:25] Por que os kamikazes usavam capacete?
[00:53:37] Por que os kamikazes usavam capacete?