T15E01 - Ansiedade Climática


Resumo

O episódio aborda a ansiedade climática, um sentimento de medo, impotência e preocupação com o futuro do planeta desencadeado pelas mudanças climáticas. As convidadas, Amalia Garcés (estudante de física e ativista climática) e Caína Bruno Nila (geógrafa e doutoranda em climatologia), explicam como essa ansiedade se manifesta de diferentes formas, incluindo frustração, raiva e tristeza, e destacam que ela é uma resposta legítima à percepção de que as ações necessárias não estão sendo tomadas.

A discussão explora a distribuição desigual da ansiedade climática, com estudos mostrando que países em desenvolvimento e populações mais jovens são mais afetados. É destacada a injustiça climática: o Sul Global, responsável por apenas 8% das emissões históricas, sofre mais as consequências. A conversa também aborda a falta de atenção à saúde mental nas agendas oficiais, como as COPs, onde o foco permanece em aspectos práticos e negociados, enquanto a sociedade civil lidera as discussões sobre o impacto psicológico.

São analisados os mecanismos que amplificam a ansiedade, como o acesso constante a informações sobre desastres climáticos globais e a percepção de que os acordos internacionais, como o fundo de perdas e danos, são insuficientes e lentos. As convidadas discutem como a incerteza inerente às projeções climáticas e a natureza política de órgãos como o IPCC contribuem para o sentimento de impotência.

Por fim, o episódio debate como transformar a ansiedade climática em ação. É enfatizado que o sentimento pode ser um catalisador para o engajamento coletivo, como visto em movimentos como o Fridays for Future. A importância da comunidade, da divulgação científica completa e da pressão política é destacada como antídoto para a paralisia. A mensagem final é de que, embora o desafio seja enorme, a ação individual e coletiva é essencial para construir um futuro mais habitável e justo.


Indicações

Artigos

  • Estudo de 2021 com 10 mil jovens — Pesquisa com jovens de 16 a 25 anos em 10 países que mostrou que 84% estavam pelo menos moderadamente preocupados com a crise climática, com destaque para o Brasil (67% muito/extremamente preocupados).
  • Comentário na Nature Climate Change — Artigo discutindo como tratar a ansiedade climática, argumentando contra a ‘positividade tóxica’ e defendendo a ação informada, similar à abordagem necessária durante a pandemia de COVID-19.

Movimentos

  • Fridays for Future / Greve pelo Clima — Movimento de ativismo climático jovem que começou na Europa e se espalhou globalmente, reformulando o ativismo climático contemporâneo e influenciando líderes globais.
  • Amazônia de Pé — Projeto de lei de iniciativa popular que precisa de assinaturas, com uma plataforma que facilita a participação de qualquer pessoa na coleta.

Organizacoes

  • IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) — Órgão da ONU que sintetiza a ciência climática. É descrito como um órgão também político, onde os relatórios são encomendados e a linguagem aprovada por países, o que limita seu alcance.

Pessoas

  • Ailton Krenak — Pensador e líder indígena citado por suas ideias sobre ‘adiar o fim do mundo’ e refletir sobre qual fim de mundo queremos.

Linha do Tempo

  • 00:01:21Introdução das convidadas e definição da ansiedade climática — Apresentação de Amalia Garcés e Caína Bruno Nila. Início da discussão sobre como a ansiedade climática se manifesta, diferenciando-a do medo comum. É descrita como um sentimento vago de medo, inquietação e preocupação antecipando perigos futuros, acompanhado de tensão muscular e problemas de concentração. As convidadas começam a explorar suas manifestações específicas.
  • 00:02:42A ansiedade climática nas agendas políticas internacionais — Amalia comenta sua experiência na COP, destacando que as consequências psicológicas das mudanças climáticas não fazem parte da agenda oficial dos países. As discussões são centradas em aspectos práticos, textos negociados e financiamento. A sociedade civil é quem promove conversas sobre ansiedade e saúde mental nesses espaços, enquanto os governos estão distantes do tema.
  • 00:05:37Insuficiência do fundo de perdas e danos e justiça climática — Discussão sobre o fundo de perdas e danos aprovado na COP, considerado insuficiente em valor e caráter voluntário. É contrastado com a promessa não cumprida dos EUA de 100 bilhões de dólares e com a estimativa da ONU de necessidade de 150 a 300 bilhões anuais até 2030. Introduz-se o conceito de justiça climática, onde os países menos responsáveis pelas emissões sofrem mais.
  • 00:07:40Distribuição geográfica e geracional da ansiedade climática — Análise de estudos que mostram que a ansiedade climática atinge mais fortemente países em desenvolvimento e jovens. Um estudo de 2021 com 10 mil jovens de 10 países, incluindo o Brasil, revela que 84% estavam pelo menos moderadamente preocupados. No Brasil, 67% estavam muito ou extremamente preocupados. Discute-se o porquê dos jovens serem mais afetados, incluindo o acesso à informação e a percepção de que herdarão um mundo problemático.
  • 00:16:14Complexidade e interseccionalidade da ansiedade climática — Discussão sobre as múltiplas fontes da ansiedade climática: desde o medo direto de desastres até a angústia gerada pelo acesso à informação. É destacado que o clima é um tema interseccional, conectado a guerra, economia, gênero e raça. A dificuldade de isolar a causa da ansiedade é abordada, pois vários fatores globais se alimentam mutuamente.
  • 00:20:34Frustração com avanços e retrocessos nas políticas climáticas — As convidadas expressam frustração com a constante sensação de ‘dois passos para frente, um para trás’ nas políticas climáticas. Exemplos incluem anúncios positivos do governo brasileiro sendo seguidos por decisões contraditórias, como a entrada na OPEC e leilões de petróleo. Essa incoerência gera raiva e mina a confiança, alimentando a ansiedade.
  • 00:23:32Transformando ansiedade em ação coletiva — Debate sobre como a ansiedade climática pode ser um catalisador para a ação, como visto no movimento Fridays for Future. O engajamento em comunidade é apresentado como antídoto para a impotência. Discute-se também o risco oposto: a paralisia ou o fatalismo (‘o mundo vai acabar mesmo’).
  • 00:27:21Estratégias para evitar a paralisia e a positividade tóxica — Discussão sobre a necessidade de evitar tanto a paralisia quanto uma ‘positividade tóxica’ que nega a gravidade da crise. É citado um artigo da Nature Climate Change que compara com a COVID-19: é preciso agir, não apenas ter pensamento positivo. A ação local, a divulgação científica completa e a pressão política são apresentadas como caminhos.
  • 00:32:04Importância da comunidade e do ativismo acessível — Ênfase na comunidade como elemento central para superar a paralisia. São citados exemplos de ações acessíveis, como o projeto de lei Amazônia de Pé, que facilita a participação popular. A responsabilidade de quem já está engajado é cativar outras pessoas e criar canais para a ação, transformando a ansiedade individual em potência coletiva.

Dados do Episódio

  • Podcast: Fronteiras da Ciência
  • Autor: Fronteiras da Ciência/IF-UFRGS
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2024-03-04T08:00:00Z

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Este é o programa Fronteiras da Ciência, onde discutiremos os limites entre o que é ciência e o que é mito.

[00:00:10] De acordo com a Wikipedia, a ansiedade é uma emoção, um sentimento vago, meio desagradável de medo, inquietação, preocupação,

[00:00:19] que se caracteriza por uma tensão ou um desconforto causado pela antecipação de algum perigo, de alguma coisa desconhecida ou estranha.

[00:00:27] Diferente do medo, que é uma resposta a uma ameaça percebida claramente, real, a ansiedade é mais uma expectativa de alguma ameaça futura.

[00:00:37] Muitas vezes ela é acompanhada por tensão muscular, orientação, fadiga, alguns problemas de concentração,

[00:00:44] e quando acontece com muita frequência pode até virar um transtorno.

[00:00:49] Não que nos faltem motivações para desenvolver a ansiedade atualmente.

[00:00:52] Política, economia, ecologia, direitos humanos, guerras, tem muitas coisas acontecendo que certamente estão causando esses sintomas em muitas pessoas.

[00:01:01] Hoje a gente vai falar de um desses motivos, as mudanças climáticas.

[00:01:05] Esse é um caso atípico porque, embora as perspectivas futuras sejam bem sombrias, seus efeitos já são percebidos concretamente agora.

[00:01:13] Não é algo abstrato que nossos netos vão enfrentar num cenário apocalíptico de cinema anual.

[00:01:19] É uma coisa real e está acontecendo.

[00:01:21] Então, nossas convidadas ansiosas hoje são a Amalia Garcés, que é estudante de física e ativista climática,

[00:01:29] e a Caína Bruno Nila, que é geógrafa, doutoranda em climatologia e também estudante de física.

[00:01:36] Para conversar com ela, não menos ansiosos, eu, Jefferson Aranzon, e a Carolina Brito, do Departamento de Física,

[00:01:42] todo mundo da URBS hoje.

[00:01:44] Então, vamos começar com a Caína.

[00:01:45] Como é que essa ansiedade se manifesta?

[00:01:48] Tem alguma diferença para outras manifestações de ansiedade?

[00:01:52] Quer dizer, o ansioso climático é algo que a gente nota ali que passou, o ansioso climático, né?

[00:01:57] Tem outras emoções negativas que também são disparadas pelas mudanças climáticas?

[00:02:03] A frustração, a gente nota que não consegue resolver o problema, a raiva porque ninguém resolve o problema.

[00:02:09] Então, nos conta um pouco sobre como se manifesta a ansiedade.

[00:02:13] É, quando se dá de uma ansiedade climática, ela pode se manifestar de várias formas.

[00:02:18] No sentido de uma sensação de medo, de impotência diante do futuro, do planeta.

[00:02:24] Então, até mesmo raiva, porque a gente se dá conta de que as medidas necessárias não estão sendo tomadas.

[00:02:31] Então, tem pessoas que ficam tristes, deprimidas, chateadas e se sentindo realmente impotentes diante do futuro.

[00:02:38] Amália, você teve na última conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas,

[00:02:42] que teve agora no ano passado, em 2020.

[00:02:44] Muita da discussão nesses casos se concentra nas causas das mudanças e como mitigar isso.

[00:02:52] Mas as consequências mentais psicológicas, elas fazem parte da agenda dos países?

[00:02:59] Ou tem algum outro tipo de organização que trazem os sistemas para discussão?

[00:03:04] Acho que uma resposta bem curta para a pergunta é que não, não faz parte da agenda dos países.

[00:03:08] As discussões são muito mais centradas em coisas mais práticas.

[00:03:12] Os textos que vão ser escritos e como os países vão interpretar aqueles textos para implementar ou não implementar algum tipo de coisa.

[00:03:18] Em relação a ações realmente práticas de dinheiro, de adaptação das cidades e dos países assim não tão focados nas pessoas.

[00:03:28] Mas com atores globais.

[00:03:31] A gente vê a ansiedade climática sendo muito discutida nesses espaços.

[00:03:35] No entanto, quando a gente vai para o espaço da sociedade civil dentro da COP.

[00:03:39] A COP tem vários pavilhões em que organizações da sociedade civil são representadas.

[00:03:45] E nesses pavilhões, essas organizações têm a liberdade de organizar conversas, palestras sobre o que elas podem entender.

[00:03:53] E nesses espaços tem muitos ativistas falando sobre essa insegurança, essa ansiedade.

[00:03:58] Porque também é com a sociedade civil que a gente encontra essa comunidade.

[00:04:03] E eu acho que é o jeito que muitos ativistas lidam com essa ansiedade que a gente tem.

[00:04:07] É estando em comunidade, conseguindo conversar.

[00:04:10] Mas realmente nesses espaços quem promove esse tipo de conversa é a sociedade civil.

[00:04:15] Os governos estão muito longe de querer discutir a ansiedade climática.

[00:04:19] Até porque o jeito mais direto de entender como lidar com a ansiedade climática é entender como lidar com a crise climática.

[00:04:26] E a gente sabe que os países não parecem estar muito a fim de bater isso.

[00:04:30] São discutidas medidas de adaptação, de mitigação.

[00:04:33] Não se fala praticamente sobre a questão de saúde mental, que também mata.

[00:04:37] E mesmo quando a gente fala do que está sendo discutido de adaptação, de mitigação.

[00:04:41] Esse ano, por exemplo, saiu o fundo de perdas hidrantes.

[00:04:44] Que foi o fundo que estava sendo discutido há muito tempo durante as COPs.

[00:04:47] Que é um fundo em que países que são historicamente responsáveis pela crise climática vão dar dinheiro para países que são mais afetados.

[00:04:54] Para que eles consigam se adaptar e fazer uma transição.

[00:04:57] Esse fundo começou a ser discutido há mais de dez anos.

[00:05:01] Eles saíram no primeiro dia da COP como uma grande vitória dessa COP.

[00:05:05] E na verdade foi muito insuficiente.

[00:05:08] Então a gente está falando de um fundo que vai teoricamente ajudar as pessoas a transicionar.

[00:05:15] Seria um jeito de lidar com a ansiedade climática de novo.

[00:05:18] Seria o jeito de tirar uma insegurança das pessoas.

[00:05:21] Porque uma das coisas que causam a ansiedade climática é a insegurança de que a casa, a comunidade, o espaço onde as pessoas circulam e vivem pode deixar de existir.

[00:05:32] Pode ser acabado.

[00:05:34] Só que esse mesmo fundo foi completamente insuficiente.

[00:05:37] Tanto em termos de países contribuindo para o fundo quanto da quantidade que os países estavam contribuindo.

[00:05:42] Porque ele era completamente voluntário.

[00:05:44] Os Estados Unidos, por exemplo, na primeira vez que eles acordaram e entraram para o fundo, eu acho que era 17,5 milhões de dólares.

[00:05:51] Que é uma casa em Nova Iorque.

[00:05:53] De quem foi a proposta?

[00:05:55] A proposta surgiu na administração do Obama.

[00:05:58] Quando eles prometeram doar 100 bilhões de dólares.

[00:06:01] E eles nunca implementaram.

[00:06:03] Então isso virou uma cobrança dos países que queriam esse fundo.

[00:06:06] Então, ao longo dos últimos anos, vários países que receberiam desse fundo foram cobrando.

[00:06:12] Só que só demora para surgir o fundo.

[00:06:14] A gente já viu que já gerou várias consequências.

[00:06:17] A gente está vendo os acidentes e tudo que está acontecendo no mundo por causa das mudanças climáticas.

[00:06:22] Esse fundo, a proposta conjunta era de 100 bilhões de dólares.

[00:06:26] Mas isso já era pouco perto do ideal.

[00:06:29] Porque tem um relatório da ONU que prevê que a gente vai precisar entre 150 e 300 bilhões de dólares ao ano.

[00:06:35] Já em 2030, por exemplo.

[00:06:37] Esse fundo tem relação com o que a gente chama de justiça climática.

[00:06:40] Porque são os países que promovem, que são principais responsáveis pela emissão do gás de pieta estufa.

[00:06:46] Que vão, de alguma maneira, compensar, se é possível, os países que mais sofrem, que são os mais vulneráveis.

[00:06:51] E aí eu queria entrar justamente nessa questão de quem mais sofre de ansiedade climática.

[00:06:57] Tem alguns artigos que fazem levantamento.

[00:06:59] A gente vai falar sobre alguns.

[00:07:01] Eu fiquei bastante tocada pelo fato de que os números que eu estou vendo indicam que essa mudança climática realmente está abalando mais pessoas que estão em países de desenvolvimento.

[00:07:12] O que sugere é que as pessoas estão dando conta realmente.

[00:07:15] Porque, num certo momento, a mudança climática era um assunto de países desenvolvidos, eu tinha a impressão.

[00:07:20] Por exemplo, no Brasil, esse era um não assunto até alguns anos atrás, enquanto que a Europa já tratava disso.

[00:07:25] Então, o Vi pode pensar, não, a gente está falando de algum assunto que os países em desenvolvimento nem sentem ainda.

[00:07:30] Não, as pessoas estão sentindo, é uma realidade.

[00:07:33] Então, o que os dados nos falam sobre isso?

[00:07:35] Como é que a ansiedade climática atinge diferentes pessoas em diferentes países?

[00:07:40] É interessante ressaltar que o norte global, como a gente chama, norte subglobal, países desenvolvidos,

[00:07:47] eles poluíram e emitiram muito para alcançarem esse status de países desenvolvidos.

[00:07:53] Eles estão a ser de 92% responsáveis pelo colapso climático, segundo alguns levantamentos.

[00:08:00] Então, o sul global, que é responsável por 8%, acaba sofrendo muito mais.

[00:08:05] É realmente injusto, por isso é importante falar de justiça climática, porque é no sentido de

[00:08:11] os menos responsáveis são os que mais sofrem as consequências das mudanças climáticas.

[00:08:16] E relacionado com isso, tem um trabalho de 2021, foram 10 mil pessoas entrevistadas em vários países,

[00:08:23] incluindo o Brasil.

[00:08:25] Esse trabalho é interessante porque ele traz resultados quantitativos para discussão.

[00:08:30] Então, quais foram os principais resultados desse estudo?

[00:08:34] Como é que é essa percepção das mudanças climáticas?

[00:08:37] Como é que ela se modifica de país para país, de região para região, em função das ameaças que existem para cada país?

[00:08:45] Tem uma pesquisa de 2021 que pegou uma amostra de 10 mil crianças e jovens, idades entre 16 e 25 anos,

[00:08:53] de 10 países, incluindo o Brasil.

[00:08:56] E os resultados foram que 59% estavam extremamente preocupados com essa questão das mudanças climáticas,

[00:09:04] e 84% estavam, pelo menos, moderadamente preocupados.

[00:09:09] Claro, é importante também, a gente tem que ressaltar que o fato de ter tanta gente preocupada

[00:09:14] significa que tem muita gente consciente da situação.

[00:09:17] Esse é o lado bom.

[00:09:18] Esse é o lado bom. A gente sabe que tem muita gente sentindo esse desconforto, tem muita gente que está informada e consciente.

[00:09:24] Se ninguém tivesse preocupado, seria um problema. Se ninguém tivesse sentido essa ansiedade.

[00:09:28] Eu acho que vale mencionar que desse estudo, da parte do Brasil, 67%, então bem mais da metade,

[00:09:35] eles estavam muito preocupados ou extremamente preocupados com a crise climática.

[00:09:39] E a nossa geração, a geração mais jovem agora, sente muito a ansiedade climática

[00:09:45] no sentido de que esse vai ser o mundo que a gente vai herdar.

[00:09:48] Esse é o mundo que a gente vai ter que lidar quando a gente estiver em posições de poder,

[00:09:51] quando a gente estiver em posições de tomada de decisão,

[00:09:54] a gente vai ter que lidar com um mundo que nos parece que vai estar destruído.

[00:09:58] Isso é extremamente aterrorizante.

[00:10:01] E é isso, a ansiedade climática acaba por ser muito jogada para a gente,

[00:10:06] porque mesmo agora, quando a gente consegue chegar nesses espaços de tomada de decisão,

[00:10:11] a gente não consegue ser tratado com respeito ou com seriedade,

[00:10:16] porque a gente ainda não tem essa idade que a gente só vai ter quando o mundo provavelmente não vai estar muito habitável.

[00:10:22] Quanto fala que a geração que vocês é que mais sente? O que os dados falam em termos de recorte geracional?

[00:10:27] Qual é o impacto desse sentimento de medo ou de ansiedade que esse artigo traz? Tem recorte de idade?

[00:10:35] Esse estudo só trabalha com pessoas jovens, ele não faz uma pesquisa com pessoas mais velhas.

[00:10:40] Mas vocês têm uma ideia de porque?

[00:10:42] Eu entendo que o pessoal da geração de vocês é quem visualiza que vai passar 80% da sua vida já nesse cenário apocalíptico.

[00:10:53] Mas existe um gradiente de gerações que vai desde a geração da malha,

[00:11:00] passando pela caia e passando para a caia e finalmente chegando ainda na minha geração.

[00:11:05] E eu tenho a mesma preocupação.

[00:11:07] Então vocês têm alguma ideia de porque o estudo fez esse recorte específico?

[00:11:12] Se é porque se eu compartilho a mesma preocupação, os resultados vão ser iguais?

[00:11:17] Ou se porque de fato existe uma diferença de consciência, de preocupação na geração de vocês e que a minha geração já não compartilha?

[00:11:28] Porque, pelo contrário, boa parte da nossa vida se passou sem vivenciar esses problemas.

[00:11:35] Então realmente pode ser que muita gente projete isso dizendo sempre foi assim porque as coisas vão mudar.

[00:11:40] Assim, o assunto de mudanças climáticas, o tema, ele não é novo, mas ele vem se popularizando nos últimos anos, na última década.

[00:11:49] Então quando a gente fala de conferências climáticas, a gente tem estocou em 1972, já passaram mais de 50 anos.

[00:11:55] Copes, muitas cópias estão chegando daqui a pouco na COP30 que vai ser no Brasil.

[00:12:00] O tema para tomadores de decisão, ele é muito antigo já.

[00:12:03] A gente já perdeu essa janela de mais de 50 anos sem as ações precisarem ser feitas.

[00:12:07] Mas para a população em geral, ele está se popularizando principalmente porque a gente vê desastres,

[00:12:12] eventos extremos que estão piorando, estão se tornando mais frequentes, mais intensos.

[00:12:16] Isso está começando a fazer parte do cotidiano delas.

[00:12:19] Não é mais uma preocupação para o futuro.

[00:12:21] Ouvia falar que no futuro os nossos filhos, os nossos dedos vão ter que lidar com isso.

[00:12:25] Agora eles estão se dando conta de que já está aqui.

[00:12:27] Nós já estamos nesse contexto de mudanças climáticas.

[00:12:30] Então os jovens estão tendo a oportunidade de já crescerem com essas informações.

[00:12:36] A internet contribui.

[00:12:38] Eu encontrei um artigo de jornal que fala sobre o estudo feito na Universidade de Nottingham,

[00:12:44] que perguntou para adultos em 11 países se estavam pensando em não ter filhos

[00:12:48] ou se tinham tido arrependimento entre os filhos e toda a sociedade climática.

[00:12:52] E na Índia 74% disseram que sim, ou seja, estavam pensando em não ter filhos

[00:12:58] ou se haviam arrependimento entre os filhos.

[00:13:00] No Brasil ficou em 50% e no Japão lá em 30%.

[00:13:04] Então a gente vê que os países estão em desenvolvimento com essa ansiedade maior,

[00:13:08] chegando a um patamar de 70% na Índia.

[00:13:11] Então eu não sei detalhes desse estudo, mas ele está na mesma linha do estudo

[00:13:15] que o da Lela Cessnegno nos comentamos anteriormente.

[00:13:18] É o sul global, né?

[00:13:19] Então que mais sofrem as consequências mudanças climáticas,

[00:13:22] muito provavelmente também são os que mais sofrem as consequências na saúde mental

[00:13:27] com a ansiedade climática.

[00:13:29] É, deve ser dito, sempre teve pessoas de diversas gerações preocupadas com a crise climática

[00:13:35] indo nesses espaços tentando colocar o pé na porta para tentar entrar e falar

[00:13:39] e tentar conseguir alguma ação.

[00:13:41] A gente vê isso desde Stockholm, tem sempre pessoas engajadas.

[00:13:45] A questão, uma das que contribui para que a nossa geração consiga ter tanta preocupação,

[00:13:52] consiga estar tão engajada nesse tema, é realmente o acesso à informação.

[00:13:56] A gente não só está sentindo na pele a mudança climática,

[00:13:59] aqui em Porto Alegre a gente vê os ciclones que estão acontecendo,

[00:14:03] cada vez mais parece destrutivamente, a gente está vendo o calor, enfim.

[00:14:08] Mas a gente também ouve de desastres, a gente ouve do que está acontecendo em N lugares do mundo.

[00:14:15] Assim, mesmo dentro do ativismo climático, a gente consegue achar comunidade

[00:14:19] e discutir coisas preocupantes que estão acontecendo

[00:14:23] em dois lugares completamente diferentes do mundo,

[00:14:26] mas que se relacionam porque ambos os lugares estão sendo afetados pela mudança do clima.

[00:14:31] Então eu acho que com a nossa geração que é tão online, que é tão conectada,

[00:14:36] acaba sendo muito fácil da gente se engajar.

[00:14:40] E eu acho que isso gera todo esse movimento que a gente viu nos últimos anos,

[00:14:45] um novo ativismo climático jovem, mas isso também dissenina muito essa ansiedade.

[00:14:50] Pois é, justamente, um outro efeito que essa conexão extrema pode causar

[00:14:56] é uma amplificação de pequenas coisas.

[00:14:59] Então esses dados que esse trabalho de 2021 trouxe saudados obtidos em entrevistas,

[00:15:05] onde a pessoa declara como ela se sente, como ela acha que se sente.

[00:15:09] Tem alguma outra forma de a gente acessar essa prevalência de ansiedade?

[00:15:14] Porque declaração é uma coisa, eu digo, olha, eu como minha comida é saudável,

[00:15:19] mas eu preciso fazer uns exames clínicos para ver o quanto realmente eu estou saudável.

[00:15:24] Então existem outros resultados, outros trabalhos que tentam comparar os níveis de ansiedade na população,

[00:15:32] porque eu acho que tem um excesso em todo tipo de pesquisa relacionada com pessoas,

[00:15:38] tem um excesso de fatores de confusão.

[00:15:41] Então a gente no Brasil ficou ansiosos aqui nos últimos anos por razões diversas e óbvias.

[00:15:47] Então como é que a gente pode realmente acessar a prevalência de ansiedade

[00:15:53] e resolver o mesmo problema que a gente tem no clima, que é o problema de atribuição?

[00:15:57] Como é que a gente pode ter certeza de que não é só uma correlação, mas é uma causa concreta

[00:16:03] que a ansiedade está sendo causada pelas novidades climáticas e não por guerras, problemas políticos

[00:16:10] ou dessa amplificação que pode acontecer na rede?

[00:16:14] A ansiedade climática tem algumas complicações.

[00:16:17] A primeira delas é que a ansiedade climática vem de mais de um lugar.

[00:16:20] Existe a ansiedade climática, que eu mencionei antes, da pessoa que está numa situação de risco,

[00:16:25] que está num morro que pode desabar, que está num lugar, numa comunidade

[00:16:29] que vai ser fisicamente diretamente afetada pela crise climática.

[00:16:33] Isso é um aspecto da ansiedade climática, que é o medo de que o dia a dia vai ser destruído a qualquer momento.

[00:16:40] Mas a ansiedade climática também pode vir de pessoas que têm acesso à informação

[00:16:45] e vão pesquisar sobre e vão descobrir mais dados sobre e vão se informar e vão pensar

[00:16:50] meu Deus, o mundo vai acabar.

[00:16:53] As duas estão contemplando algum fim de algum mundo, mas em ângulos bem diferentes.

[00:17:00] As duas coisas são a ansiedade climática.

[00:17:02] Isso eu acho que já torna difícil de analisar com uma coisa só.

[00:17:06] Talvez o clima seja o tópico mais interseccional que pode existir.

[00:17:11] Porque quando a gente fala de clima, a gente está falando de sociedade,

[00:17:15] a gente está falando de todos os problemas que tem uma sociedade.

[00:17:18] Quando a gente está falando de clima, a gente está falando de gênero, a gente está falando de raça.

[00:17:22] E tem também o aspecto ambiental de clima, que é o mais óbvio, talvez.

[00:17:27] Então, quando a gente fala de guerra, por exemplo, a guerra pode entrar na ansiedade climática,

[00:17:32] porque a guerra está afetando as pessoas que estão numa região de risco.

[00:17:36] A guerra está emitindo um monte de gases do efeito estufa e está realmente piorando

[00:17:41] a crise climática que a gente está tentando lidar.

[00:17:43] Então, isso também, para mim, é muito difícil de encaixar,

[00:17:47] porque isso tudo alimenta a ansiedade climática.

[00:17:51] A questão climática, ela envolve todo o nosso cotidiano.

[00:17:54] Ela atravessa desde economia, saúde, como a gente está falando aqui, de saúde mental.

[00:17:59] Segurança alimentar, biodiversidade.

[00:18:01] Quantas espécies vão entrar em extinção conforme o nível do aquecimento global?

[00:18:06] É importante a gente lembrar disso.

[00:18:08] O Acordo de Paris está tentando limitar o aquecimento global a 1,5°C em relação ao período pré-industrial.

[00:18:14] E atualmente, segundo o Copernicus, a gente está em um nível sustentado de cerca de 1,25.

[00:18:21] E o Acordo de Paris trata desse 1,5 sustentado.

[00:18:25] Então, a gente ainda não alcançou isso.

[00:18:27] E ainda é possível alcançar, apesar de estar se tornando muito difícil.

[00:18:31] Está cada vez mais difícil.

[00:18:33] Tem muitos pesquisadores da área que não acreditam mais que seja possível,

[00:18:36] que a gente vai ter que tentar o 2°C.

[00:18:38] Mas, para mim, cada décimo de grau importa.

[00:18:41] Isso vai fazer toda a diferença na nossa vida, agora e no futuro.

[00:18:44] Que aquecer, a gente não vai conseguir resfriar sem medidas.

[00:18:47] E aí entra uma questão polêmica, já a engenharia, a remoção e tudo isso.

[00:18:51] Então, eu acho que isso é um pessimismo exagerado.

[00:18:54] A gente está na eminência de uma guerra nuclear.

[00:18:57] O inverno nuclear depois resolve o problema.

[00:19:01] Tem a MOC também, a circulação do celular atlântico,

[00:19:04] que está entrando em colapso.

[00:19:06] E, se realmente parar neste século, vai resfriar a parte da atmosfera de morte.

[00:19:10] Mas aí que está. É uma série de catástrofes intermigadas.

[00:19:13] O emissário só vai aquecer com essa catástrofe se ela ocorrer.

[00:19:17] Então, é muita coisa para a gente lidar.

[00:19:19] E é quase impossível a gente não ter possibilidade.

[00:19:22] É realmente isso. A gente dá um passo para frente e dois para trás.

[00:19:25] A gente sente, não, agora a gente tem uma ministra do meio ambiente

[00:19:28] que vai fazer muitas coisas pela gente.

[00:19:30] O Lula vai fazer a COP30, vai ser a maior coisa que vai ter no Brasil.

[00:19:34] O Brasil vai ser protagonista.

[00:19:36] A gente vai para a COP.

[00:19:38] Nossa, vai ter encontro com o governo.

[00:19:40] A gente chega lá, fundo de florestas, anunciado pela ministra Marina.

[00:19:45] E a gente fica super animados para um dia depois descobrir que o Brasil entrou na OPEC.

[00:19:50] Eles dão a desculpa de que é porque eles querem ajudar esses países a transicionar.

[00:19:54] E daí eles ainda anunciam um leilão de postos de petróleo pelo Brasil inteiro perto de áreas protegidas.

[00:20:02] Então, toda vez que a gente sente que tem alguma coisa que está nos impulsionando para frente,

[00:20:07] que vai nos ajudar a ter uma ação efetiva,

[00:20:10] a gente tem essas coisas que nos tiram a confiança.

[00:20:13] E que geram esse sentimento não só de ansiedade, mas de raiva.

[00:20:17] É muito frustrante ter isso acontecendo o tempo todo.

[00:20:20] E é realmente o tempo todo.

[00:20:22] Tem a COP onde isso fica extremo, porque os países querem mostrar tudo.

[00:20:26] E, depois de mostrar tudo, acabam fazendo uma lavagem verde.

[00:20:29] Mas isso é a realidade de estar lidando com o clima.

[00:20:34] É ter que ver tudo isso e encarar as coisas como nada que é bom pode ser confiado.

[00:20:39] Quando a gente estuda o relatório do OPEC, que é o painel intergovernamental das nossas climáticas,

[00:20:44] eles tomam o cuidado de fazer cenários.

[00:20:47] Isso é interessante, porque quem já leu aquilo tem que aprender como é que eles fazem esses cenários.

[00:20:51] E as barras de erros são enormes.

[00:20:54] E as pessoas falam, isso é porque os leões climáticos não funcionam.

[00:20:57] Não, a principal barra de erro tem a ver com essa incerteza.

[00:21:01] Porque a gente tem os acordos da COP que são totalmente voluntários.

[00:21:05] Daí nem os governos vão lá e alguns aceitam.

[00:21:08] E como a gente não tem como cobrar, a gente tem um monte de regressões.

[00:21:11] Então, essa coisa dos passos por trás,

[00:21:13] elas são tomadas em conta, na verdade, nessas barras de erro, que são gigantescas.

[00:21:17] Então, o IPCC reúne os artigos e tem essas previsões baseadas também nessa coisa que está ralando,

[00:21:23] que é essa gigantesca incerteza que existe constantemente, não só no Brasil, mas no mundo inteiro.

[00:21:30] Durante essa última COP que aconteceu em Dubai, nos Emiratos Árabes,

[00:21:34] eu tive a oportunidade de estar em uma reunião de jovens com o coordenador do IPCC, o James Kia,

[00:21:41] e o vice-coordenador, que é o Ladislaus Chenga.

[00:21:44] Tem vários vice-coordenadores, mas o Ladislaus é o responsável por relações com jovens.

[00:21:50] A gente estava tentando conseguir jeitos de colaborar com o grupo de jovens, com o IPCC.

[00:21:55] E tudo é muito difícil.

[00:21:57] Mesmo que essas pessoas sejam cientistas, que elas estejam muito envolvidas e engajadas no clima,

[00:22:03] o IPCC acaba por ser um órgão também extremamente político.

[00:22:06] E tem muitas coisas que eles não podem fazer, que eles não podem falar,

[00:22:10] a risco de que os países-membros que estão coordenando os relatórios discutem.

[00:22:16] Então, todos os relatórios do IPCC são encomendados.

[00:22:19] Toda a linguagem tem que ser aprovada por todos os países.

[00:22:22] Eles têm que dar uma ciência relativamente imparcial e eles não podem induzir essa criação de políticas.

[00:22:29] Isso é muito difícil para um relatório como é o IPCC,

[00:22:33] que está dizendo claramente precisamos de ação climática, mas a gente se pergunta

[00:22:37] o quão mais estaria sendo dito se não fosse também tão político e restrito.

[00:22:43] E essas incertezas são muito difíceis de lidar, porque nos últimos anos a gente até conseguiu sair do caminho

[00:22:49] que nos levava aos 4 graus de aquecimento, que seria o próprio apocalipse.

[00:22:54] E atualmente tem análises mostrando que a gente estaria se encaminhando com as políticas atuais

[00:22:59] para o caminho do 2.6 graus Celsius de aquecimento global.

[00:23:02] E a meta é 1.5. A gente está muito longe dessa meta com as políticas atuais.

[00:23:07] Então, o que essas coisas são tão importantes e o que acontece nelas é o que vai definir,

[00:23:12] como vai ser o nosso futuro. Tanto o que é definido ali, que como a Amalia explicou, é extremamente complicado

[00:23:18] ter um acordo entre todos os países e concordar em textos que geralmente saem fracos.

[00:23:22] E no final, os que não cumprem também não assoprem ninguém por penalização.

[00:23:27] Então, é quase assim, se você está consciente de como funciona, você vai ter a ansiedade.

[00:23:32] Não tem jeito. Como é que a gente passa para tratar essa ansiedade?

[00:23:36] A ansiedade climática é um catalisador de ação.

[00:23:38] Então, muitas vezes a ansiedade climática é um sentimento de desconforto.

[00:23:43] Então, eu preciso me engajar, eu preciso me movimentar, eu preciso fazer alguma coisa.

[00:23:48] Porque, claramente, não está sendo feito o suficiente. E a gente vê o impacto que isso tem.

[00:23:53] Por exemplo, o Grav pelo Clima, que é o Fridays for Future, que é o movimento em que eu comecei o meu ativismo,

[00:23:59] que começou na Europa e se espalhou por um ano inteiro.

[00:24:01] Foi um movimento que acabou por reformular com o que é um ativismo jovem atualmente falando de clima.

[00:24:07] E os ativistas que saíram desse movimento, que estão agora pelo mundo fazendo mil e uma coisas,

[00:24:13] conseguiram chegar em lugares muito importantes.

[00:24:17] A gente viu reuniões com líderes globais que o movimento conseguiu ter uma influência e um impacto.

[00:24:24] Então, a ansiedade climática que a gente tem porque a gente sente que não está sendo feito o suficiente

[00:24:29] faz com que muitos de nós se movam, se juntem, trabalhem em comunidade.

[00:24:33] Porque é isso que é importante. Não é uma pessoa, não são duas.

[00:24:37] É um montão de gente trabalhando juntos numa cidade, num bairro, mas num país e internacionalmente.

[00:24:44] Então, o sentimento de impotência consegue nos juntar o suficiente para que a gente consiga ser uma potência.

[00:24:51] É uma coisa boa.

[00:24:52] Não, é uma visão autista. É uma visão de quem não paralisa com a ansiedade.

[00:24:55] Justo.

[00:24:56] O outro lado da moeda é quem fica completamente paralisado com essa ansiedade,

[00:24:59] ou quem sente que, bom, o mundo vai acabar de qualquer maneira.

[00:25:03] Isso que eu queria perguntar para vocês, como é que nós evitamos esse tipo de sentimento?

[00:25:07] Porque eu sigo alguns cientistas, ativistas climáticos, nas redes sociais,

[00:25:11] e alguns deles topam muito nessa tecla.

[00:25:13] A gente tem que evitar essa paranisia. Como é que a gente faz isso?

[00:25:17] Eu sou, a princípio, eu era só uma pesquisadora de clima muito preocupada,

[00:25:22] e que convive com a ansiedade climática diariamente na sua pesquisa, o seu cotidiano.

[00:25:26] E a minha forma de tentar contribuir mais, porque eu acho que a pesquisa ela tem que sair dos muros da academia,

[00:25:32] ela tem que chegar nas pessoas, eu tenho esse compromisso de informar o que a ciência está dizendo e conscientizar as pessoas.

[00:25:39] Isso, obviamente, também gera um sentimento de ansiedade.

[00:25:42] Tem gente que acha que nem tudo deveria ser dito, por exemplo.

[00:25:45] Eu já acho que não, eu acho que tudo tem que ser dito.

[00:25:48] As pessoas precisam estar conscientes da situação do planeta para que isso seja de wake-up call.

[00:25:53] A nossa atual situação é tão crítica que a gente não pode ter um discurso reconfortante agora.

[00:25:59] A gente tem pouquíssimo tempo para fazer mudanças drásticas, estruturais.

[00:26:02] É uma década decisiva. Então a hora de dar toda a nossa energia é agora.

[00:26:07] Tudo que é feito, ativista individual, é como na medicina, né?

[00:26:11] Você precisa ter o consenso informado para depois dizer, se eu soubesse, é feito diferente.

[00:26:15] Não, todo mundo tem que saber.

[00:26:17] É saber para tomar melhores decisões e cobrar quem tem poder de fazer acontecer.

[00:26:22] Então é isso, gente, a ciência está dizendo isso, a gente tem que se informar.

[00:26:26] Quanto mais a gente se informa, mais a gente vai ter esse desconforto.

[00:26:29] Mas ao mesmo tempo, tem pesquisas que mostram que quem sente esse desconforto é muito mais propensuagem.

[00:26:35] E é isso que a gente precisa agora de ação.

[00:26:38] Na linha assim do que a gente está conversando aqui, eu li hoje um comentário na Nature Climate Change

[00:26:44] falando como tratar a nossa climática.

[00:26:46] E basicamente a mensagem é que não adianta a gente tratar de maneira psicológica do tipo, assim,

[00:26:52] do que a gente costuma chamar, que eu costumo chamar, dessa positividade tóxica.

[00:26:57] Ah, vai dar certo, então está tudo bem, vamos esquecer o que está acontecendo e vamos pensar positivo.

[00:27:02] Ele fez uma comparação com a Covid, ele disse, olha, não adianta a gente ter esse sentimento da Covid.

[00:27:06] Eu vou aprender que eu vou usar mastro, eu preciso fazer esse dado na época, agora eu posso tomar vacina,

[00:27:11] já é um pouco melhor, mas na época a gente precisava fazer o isolamento social,

[00:27:14] não adiantava a gente ter a ideia de que ia dar certo, as pessoas estavam morrendo.

[00:27:18] É a mesma coisa, agora tu tem que saber o que fazer para agir.

[00:27:21] Daí eles colocam algumas ações locais, pessoais, que não são a solução total, mas eles citam, por exemplo,

[00:27:27] se eu moro em um lugar eladável, eu preciso não estar em nenhum lugar,

[00:27:30] preciso tentar colocar meus móveis mais para cima, eu preciso agir para poder reduzir a sociedade climática.

[00:27:35] Então, também tem que ser global.

[00:27:37] E existe essa questão, tem gente que vê algumas notícias sobre mudanças climáticas,

[00:27:41] meu Deus, é o fim do mundo, acabou, eu vou aproveitar os últimos anos de vida, não tenho o que fazer,

[00:27:46] joga a toalha.

[00:27:47] E a gente não pode ir por esse caminho, tem que ser justamente o contrário, não pode ser algo que desmotiva,

[00:27:53] que nos traz a sensação de fatalismo, é o contrário, isso aí tem que servir de alerta,

[00:27:58] de força de combustível para a gente conseguir agir e conseguir evitar o que ainda pode ser evitado,

[00:28:03] conseguir um futuro mais habitável, conseguir salvar muita gente, muitas espécies,

[00:28:07] metade do planeta está extremamente vulnerável às mudanças climáticas,

[00:28:10] então tudo o que a gente puder evitar no aquecimento global vai salvar vidas.

[00:28:15] Eu acho que uma das dificuldades que é lidar com a mudança climática,

[00:28:19] que tem a ver com a ansiedade e tem a ver com isso, tem a ver com a Covid,

[00:28:23] eu acho que isso é visto muito na medicina, que é a dificuldade de agir com a prevenção.

[00:28:29] Você tem que mostrar para as pessoas que agir agora vai impedir que algo aconteça no futuro,

[00:28:34] mas se algo não acontecer no futuro é muito fácil de pensar,

[00:28:38] e se não tivesse acontecido? Será que a gente precisava mesmo ter feito isso?

[00:28:42] Prevenção é uma coisa muito difícil de convencer as pessoas de que deve ser feito,

[00:28:47] e eu acho que em clima isso é uma coisa em escala global, claro que agora a gente já está passando

[00:28:52] do ponto de prevenção e a gente está chegando num ponto de tentar remediar a situação,

[00:28:57] porque tem um custo grande, a questão de parar de emitir gases de petestufa é complicada,

[00:29:02] a gente tem que parar de andar de avião, a gente tem que parar de desviar a casa, a gente tem que…

[00:29:07] Fazer churrasco?

[00:29:08] Não, do ponto de vista individual é difícil, fazer algumas coisas importa,

[00:29:13] deixar de comer carne uma vez por semana é o começo,

[00:29:16] mas a gente tem que fazer esforço, no nível de escala nacional e global é muito difícil.

[00:29:20] É, tu tem que mostrar que tu vai gastar, digamos assim, em termos que globalmente são interessantes,

[00:29:26] tu vai gastar muito mais dinheiro com a remediação do problema do que com a prevenção dele.

[00:29:31] Mas tem uma mensagem do Calvin que eu acho ótima, ele fala,

[00:29:34] tá, e se a gente fizer tudo isso sem ter tido necessidade, aí a gente só teria criado um planeta melhor.

[00:29:41] E eu acho isso muito interessante, porque assim, a pessoa fala, é o fim do mundo,

[00:29:45] é o fim do mundo como nós o conhecemos hoje talvez, muita coisa vai mudar,

[00:29:50] a sociedade vai precisar mudar, porque a nossa relação com o planeta ela é insustentável

[00:29:55] da forma como ela está agora.

[00:29:57] Então a gente tem também, se a gente pensar um pouco pelo lado positivo,

[00:30:00] a oportunidade de fazer melhor em muitas coisas.

[00:30:03] Então assim, a transição energética não é fácil, não existe bala de prata também,

[00:30:07] não é só energia eólica, não é só energia solar, não é só energia nuclear,

[00:30:10] existem diversas soluções que a gente vai ter que pegar um pouco de cada uma conforme o contexto local também,

[00:30:17] e enquanto isso a gente vai desenvolvendo novas coisas, por exemplo,

[00:30:21] Por exemplo, o protocolo de Montreal foi um sucesso, né?

[00:30:24] Os HFCs foram banidos e na época, meu Deus, e agora, o que a gente vai fazer?

[00:30:30] Mas eles foram banidos e a gente conseguiu ficar sem isso.

[00:30:33] Hoje ainda existem emissões, mas é muito diferente do que era na época desse acordo, né?

[00:30:38] Então isso é o que está talvez salvando a camada de Ozone, ela ainda está se recuperando,

[00:30:43] ela vai levar décadas para se recuperar, mas ela talvez não existisse mais,

[00:30:48] ela não tivesse uma chance se esse acordo não tivesse sido protocolado e assinado.

[00:30:53] Eu acho que é uma clássica do ativismo falar de fins de mundo, né?

[00:30:56] Então aí a gente tem que citar, obviamente, o Krenak, que tem as suas ideias para adiar o fim do mundo,

[00:31:00] que é quem fala muito disso e que fim de mundo que nós queremos também, né?

[00:31:05] Mas eu queria voltar um pouquinho só porque a gente estava falando e tu estava falando com uma divulgadora de ciência,

[00:31:10] e eu acho que a parte da coisa que é divulgar as informações por inteiro e fazer as pessoas

[00:31:17] a estarem conscientes do que está acontecendo é também porque nós, a população, somos responsáveis pelas pessoas que nós elegemos.

[00:31:25] Então eu acho que nos últimos anos a gente viu o impacto que uma eleição pode ter nas decisões que o nosso país toma

[00:31:32] e eu acho que ter essa consciência a gente vê também que o Brasil é uma potência em termos de protestos

[00:31:38] e a gente viu protestos gigantes no último governo que as pessoas se mobilizaram muito,

[00:31:44] então nenhum país com esse poder de mobilização tem acesso à informação é muito importante

[00:31:49] e eu acho que a divulgação científica é a divulgação científica como a Karina estava falando por inteiro

[00:31:54] da informação como ela é, é muito importante pra isso.

[00:31:57] E por fim também eu queria voltar no que a Carolina tinha dito em relação a como evitar paralisia, né?

[00:32:04] Como evitar que as pessoas fiquem paralisadas por essa ansiedade

[00:32:07] e eu acho que isso vem das pessoas que sentem a ansiedade e decidem agir.

[00:32:12] Eu acho que parte da nossa responsabilidade também é cativar outras pessoas pra vir pra ação junto.

[00:32:18] Isso vem de muitas maneiras diferentes.

[00:32:20] Isso vem de organizações não governamentais que se mobilizam e fazem um projeto que facilitam a ação.

[00:32:26] Por exemplo, a gente viu o Amazonia de Pé, que é um projeto de lei que está sendo organizado

[00:32:31] e precisa de algo com 500 mil assinaturas.

[00:32:33] E o que eles fizeram foi criar uma plataforma em que qualquer pessoa pode baixar fichas de assinatura e coletar assinaturas.

[00:32:39] Ou a gente tem projetos que vão diretamente em comunidades mais afetadas de pessoas dessas próprias comunidades

[00:32:46] pra tentar gerar alguma mudança local ou alguma mudança regional.

[00:32:49] Eu acho que isso é muito importante pra evitar paralisia, é ter justamente comunidade,

[00:32:54] que pra mim é a coisa mais importante talvez do ativismo climático.

[00:32:57] E no momento em que eu encaro que eu posso fazer uma diferença e que eu posso fazer alguma coisa,

[00:33:03] eu também posso conseguir que outras pessoas venham comigo e façam comigo.

[00:33:07] E eu acho que é importante deixar a mensagem também de que eu como divulgadora, pesquisadora,

[00:33:12] eu tenho meus dias também, eu sou muito engatilhada por ondas de calor, por exemplo.

[00:33:16] Quando tem uma onda de calor terrível, eu fico pensando, meu Deus,

[00:33:19] quanto terrível vai ser o futuro e que isso vai ser cada vez mais frequente e mais intenso.

[00:33:23] Mas ao mesmo tempo, isso também serve como força pra continuar,

[00:33:27] porque eu não posso sucumbir a essa… é, com ansiedade.

[00:33:30] Eu não posso, eu preciso continuar fazendo o que eu tô fazendo.

[00:33:33] Eu tô fazendo pesquisa, eu tô fazendo divulgação, eu tô fazendo ativismo.

[00:33:36] Essa questão do ativismo é muito importante.

[00:33:38] Algumas têm que ser estrutural, mas quando a gente faz o individual,

[00:33:41] isso constrói também o estrutural, o sistêmico.

[00:33:45] Por isso que a gente precisa ter todo mundo consciente, todo mundo fazendo o que é possível fazer,

[00:33:49] cobrando, e é nessa parte que entra o ativismo.

[00:33:52] Procure locais em que você acha que combinam com a tua forma de pensar,

[00:33:56] as que a Malha pode falar muito bem sobre isso.

[00:33:58] E sigam, façam, falem sobre isso, torne esse assunto uma prioridade no seu cotidiano,

[00:34:03] porque é o maior desafio da humanidade.

[00:34:05] Então, pra divulgar, jovens escutando, com menos de 29 anos,

[00:34:09] da região do Rio Grande do Sul, que queiram entrar para o ativismo climático,

[00:34:13] veiam para o app Pelo Clima no Instagram e nas redes sociais.

[00:34:17] Então, hoje a gente recebeu a Mariana Grecês e a Caína Bruno Lima

[00:34:22] pra nos falar sobre a ansiedade climática.

[00:34:25] Conversando com elas, eu, Jepha Soareson e a Carolina Barito,

[00:34:28] os dois do Instituto de Física e todo mundo da UX hoje.

[00:34:31] O Programa Fronteiras da Ciência é um projeto do Instituto de Física da URGAS.