COISAS QUE IRRITAM
Resumo
André Alves e Lucas Liedtke, pesquisadores e psicanalistas do podcast Vibes em Análise, mergulham em uma discussão sobre a irritação. Eles começam listando situações cotidianas que nos tiram do sério, como ligações de telemarketing, pessoas furando fila ou interrupções indesejadas, para então investigar esse estado emocional desafiador que nos tira do controle, é desgastante e pode comprometer relações e conquistas.
A conversa avança para uma conceitualização da irritação, traçando paralelos históricos com termos como neurastenia (século XIX) e estresse (século XX), entendidos como respostas a transformações sociais e pressões psicossociais. Eles discutem como a irritação pode ser um sintoma mascarado, como na depressão, e analisam suas fases e efeitos psicosomáticos, comparando-a com o modelo de estresse de Hans Selye (alarme, resistência, exaustão). Os hosts também refletem sobre como o termo “estresse” pode ser socialmente mais aceitável do que “raiva”, embora ambos estejam conectados.
André e Lucas exploram as dinâmicas psicológicas por trás da irritação, identificando três lógicas principais: 1) baixa tolerância à frustração e fixação em idealizações (como proposto por Albert Ellis); 2) o mecanismo de defesa da projeção, onde conflitos internos são atribuídos ao outro, muitas vezes mesclados com inveja; e 3) ciclos viciosos de comportamento repetitivo e manias em relacionamentos, que estagnam a comunicação. Eles também ponderam o lado potencialmente transformador da irritação quando compartilhada coletivamente, como força motriz para mudança social (“social unrest”).
A discussão se volta para fatores contemporâneos que exacerbam a irritabilidade, como a ilusão de controle, a cultura da conveniência, a aceleração do tempo percebido devido aos dispositivos eletrônicos e a constante sensação de interrupção. Eles analisam fenômenos online como a “lacração”, o cancelamento e as “manadas raivosas”, onde a desinibição digital e a busca por engajamento criam ciclos de agressividade. A participação especial da escritora e podcaster Camilla Frender traz uma perspectiva prática, com exemplos de irritações cotidianas (como falta de educação e invasão de espaço) e estratégias de autocuidado, como a “peneirinha da amizade” e o gerenciamento do consumo de redes sociais.
Por fim, os hosts discutem a complexidade das experiências emocionais (citando Christopher Bollas), onde a irritação raramente é um afeto puro, mas uma condensação de memórias, desejos e expectativas. Eles refletem sobre o desafio de lidar com pessoas irritadas, a dificuldade de manter a empatia diante da hostilidade e a importância de estabelecer limites saudáveis e uma comunicação assertiva para prevenir que a irritação acumulada destrua vínculos. A conclusão enfatiza que a irritação é parte constitutiva das relações humanas e que o autoconhecimento e a responsabilização por nossos estados emocionais são chave para uma navegação mais saudável desse terreno movediço.
Indicações
Books
- Catch Them Before They Fall (Segúrios Antes Que Caiam) — Livro do psicanalista Christopher Bollas mencionado por André. Ele discute, em um capítulo favorito, a ideia de ‘experiências emocionais’ como condensações únicas de afetos, memórias e desejos, em vez de emoções puras.
Concepts
- Neurastenia — Termo histórico do final do século XIX, popularizado pelo neurologista George Beard, que descrevia uma ‘fraqueza neural’ ou doença dos nervos com sintomas como cansaço, esgotamento e insônia, associada a transformações sociais da época.
- Modelo de Estresse de Hans Selye — Conceito dividido em três fases: alarme (reações agudas), resistência (adaptação) e exaustão (esgotamento). Usado para entender os efeitos prolongados do estresse e sua relação com a irritação.
- Social Unrest (Irritação Social) — Conceito mencionado como o lado transformador da irritação quando compartilhada coletivamente. Refere-se à indignação que pode servir como força motriz para mudanças e momentos históricos importantes.
People
- Albert Ellis — Psicólogo comportamental citado por Lucas. Ele associa a irritação a crenças irracionais ou absolutistas sobre como as coisas ‘deveriam ser’, resultando de uma fixação em idealizações.
- Byung-Chul Han — Filósofo mencionado por Lucas em relação ao conceito de ‘Sociedade Paliativa’ e à ‘ilusão de controle’ característica do nosso tempo, que contribui para a irritabilidade.
- Christian Dunker — Psicanalista brasileiro citado por André. Ele tem uma hipótese sobre como a desvalorização da palavra nas interações online pode levar a uma incapacidade de conviver em sociedade no mundo real.
Linha do Tempo
- 00:02:13 — Introdução ao tema da irritação e questionamentos iniciais — André pergunta a Lucas se ele se irrita facilmente e pede uma lista de coisas que o irritam. Lucas reflete sobre a diferença entre coisas que irritam especificamente alguém e coisas que irritam quase todo mundo, relacionando isso ao temperamento. Ele propõe explorar os fatores que desencadearam a irritação, incluindo os mais novos e característicos do nosso tempo, com o objetivo de desabafar e também alertar para não sermos nós as pessoas irritantes.
- 00:04:11 — Conceitualização da irritação e paralelo histórico com a neurastenia — Os hosts começam a definir a irritação como uma resposta emocional a estímulos de frustração ou raiva, muitas vezes relacionada a questões mais profundas. Lucas faz um paralelo histórico, remontando ao final do século XIX com o conceito de neurastenia (popularizado por George Beard), uma ‘doença dos nervos’ com sintomas como cansaço e insônia, associada a transformações sociais e industriais. Ele menciona como Freud associou a neurastenia a questões sexuais e como, no século XX, muitos desses sintomas passaram a definir o que chamamos de estresse.
- 00:07:17 — A irritação e o modelo de estresse de Hans Selye — André complementa a discussão sobre estresse, buscando as origens do conceito no endocrinologista Hans Selye, que nos anos 60 dividiu o estresse em três fases: alarme, resistência e exaustão. Ele discute os problemas do estresse prolongado e como isso se relaciona com os efeitos psicosomáticos e psicossociais da irritação. André também levanta como o termo ‘estresse’ pode ser usado para encobrir ou suavizar a raiva, citando pesquisas que mostram os brasileiros como um dos povos mais estressados do mundo.
- 00:11:24 — Três dinâmicas psicológicas por trás da irritação — Lucas propõe explorar três funcionamentos ou dinâmicas psicológicas por trás das fontes de irritação. A primeira é a baixa tolerância à frustração e crenças irracionais sobre como as coisas ‘deveriam ser’ (citando Albert Ellis). A segunda é o mecanismo de defesa da projeção, onde conflitos internos são jogados para o mundo externo, muitas vezes misturado com inveja. A terceira é o comportamento repetitivo e as manias, que criam um ciclo vicioso e destrutivo nos vínculos, estagnando a ‘linguagem vincular’.
- 00:16:11 — O lado transformador da irritação coletiva e o dilema da reação — Os hosts discutem que a irritação não deve ser vista apenas negativamente. Eles destacam seu potencial transformador quando é coletiva, como uma ‘irritação social’ ou indignação que pode ser força motriz para grandes momentos históricos (conceito de ‘social unrest’). Em seguida, colocam o dilema prático: diante de um estado irritadiço, é melhor se isolar ou partir para cima e tentar resolver? Eles concluem que ambos os cenários têm riscos: isolar pode fazer as coisas acumularem e ficarem violentas, enquanto confrontar na hora pode gerar mais conflito.
- 00:24:01 — Fatores contemporâneos: ilusão de controle, impaciência e interrupção — A discussão se volta para fatores modernos que aumentam a irritabilidade. André cita o trânsito como exemplo clássico de situação que gera irritação por perda de controle e impotência. Ele menciona pesquisas sobre o aumento da impaciência e conflitos no Brasil. Lucas relaciona isso à ‘ilusão de controle’ (citando Byung-Chul Han) na era da conveniência, onde temos ferramentas que dão a sensação de controle, mas sentimos que temos menos tempo. A interrupção constante (mensagens, demandas) é apontada como uma das grandes fontes de irritação moderna, por desrespeitar o tempo e o momento do outro.
- 00:26:27 — Irritação online: lacração, cancelamento e manadas raivosas — Os hosts analisam a irritação no ambiente digital. Lucas descreve fenômenos como a lacração, o cancelamento e as frases de efeito que impedem a construção de diálogo, gerando um efeito terrível no psiquismo. André fala sobre a ‘desinibição online’ e a dinâmica de competição para irritar o outro, que engaja nas redes. Ele menciona o termo ‘manadas raivosas’ para descrever essas ondas de ódio. Eles refletem sobre as consequências para quem recebe milhares de comentários odiosos e como a desvalorização da palavra online pode prejudicar a convivência no mundo real.
- 00:30:12 — Participação de Camilla Frender: irritações cotidianas e estratégias — A convidada Camilla Frender, escritora e podcaster, compartilha sua perspectiva. Ela acredita que as pessoas estão mais irritadas hoje devido a fatores como trânsito, poluição e redes sociais (comparações, ofensas gratuitas). Ela fala sobre seu medo de trazer irritação para o ambiente familiar e cita exemplos de coisas que a irritam: falta de educação, pessoas que interrompem, que voltam todo assunto para si, e desrespeito no espaço coletivo (como carros que não dão passagem). Camilla também dá dicas práticas, como a ‘peneirinha da amizade’ (afastar-se de pessoas tóxicas) e esconder aplicativos de redes sociais em momentos de vulnerabilidade.
- 00:37:05 — Identificação com objetos idealizados e a dificuldade de crítica — Refletindo sobre a fala da Camilla, os hosts discutem como as pessoas parecem se ofender com facilidade por pouco. Eles usam o exemplo dos fãs fervorosos (como os ‘Swifters’ da Taylor Swift) para ilustrar como uma identificação maciça com um objeto idealizado faz com que qualquer crítica seja sentida como um ataque pessoal, desencadeando reações agressivas de defesa. Isso se estende a diversos fandoms na cultura contemporânea.
- 00:40:45 — Complexidade emocional e a ideia de experiências emocionais únicas — André elabora sobre a complexidade das emoções, citando o psicanalista Christopher Bollas. Ele explica que não existem emoções puras, mas ‘experiências emocionais’ que são condensações únicas de muitos elementos internos (afetos, memórias, desejos, expectativas). A irritação, portanto, raramente é sobre uma coisa só; é um amálgama de vários eventos internos. Em momentos de crise, podemos tentar nos ‘objetificar’, perguntando ‘por que sou assim?’, coisificando a nós mesmos e aos outros.
- 00:43:43 — Desafio de lidar com pessoas irritadas e a importância dos limites — Lucas levanta a dificuldade de ter empatia e lidar com alguém que está irritado ou agressivo, pois o discurso muitas vezes é hostil e coloca o ouvinte na defensiva. É difícil separar o que é do outro e o que é nosso nessa dinâmica. A pessoa irritada pode estar buscando uma briga, criando um risco de violência e rompimento de vínculos por questões não elaboradas. Eles concluem refletindo sobre a importância contemporânea de estabelecer limites saudáveis e uma comunicação assertiva para prevenir a sobrecarga e o desrespeito que levam à irritação extrema.
Dados do Episódio
- Podcast: vibes em análise
- Autor: floatvibes
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2024-04-11T09:40:37Z
- Duração: 00:46:21
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/90f830c0-f4cb-0139-d4ee-0acc26574db2/episode/d935019e-678d-407a-8903-956bb72ef9e8/
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Dados do Podcast
- Nome: vibes em análise
- Tipo: episodic
- Site: https://vibes-em-analise.zencast.website
- UUID: 90f830c0-f4cb-0139-d4ee-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Aquela ligação do telemarketing no sábado, ou pior, na segunda-feira de manhã.
[00:00:05] Você vê alguém furando a fila, pegando o lugar em que você ia sentar no ônibus
[00:00:08] ou a sua vaga no estacionamento do shopping.
[00:00:11] Alguém escreve um comentário mais ardido na foto que você postou.
[00:00:15] Ou discorda de você no almoço em família.
[00:00:18] Gente que fala alto demais.
[00:00:20] Gente que demora demais pra falar.
[00:00:22] Um celular que toca bem no meio da sessão do cinema.
[00:00:25] Ou no meio da reunião.
[00:00:27] Difícil, né?
[00:00:27] É tudo tão irritante.
[00:00:30] A irritação é um estado emocional desafiador porque nos tira do sério.
[00:00:35] Ficar irritado é desgastante pra mente, pro corpo.
[00:00:39] Faz mal pra saúde em muitos níveis.
[00:00:41] E é perigoso porque nos faz agir de uma forma ainda mais irracional do que normal.
[00:00:46] De forma muitas vezes inconsequente.
[00:00:48] E pode comprometer as nossas relações, nosso trabalho, nossas conquistas e o nosso lugar no mundo.
[00:00:54] Mas tem situações que são mesmo a gota d’água.
[00:00:55] E produzem um transbordamento de afetos enorme.
[00:00:58] Ao mesmo tempo que a gente se sente inundado pela raiva,
[00:01:02] a gente também é consumido por um incêndio interno que se manifesta como uma erupção.
[00:01:08] E aí a gente estoura.
[00:01:09] E dizem que a gente tem que ter calma, paciência, deixa pra lá.
[00:01:12] O velho tá bom, mas não se irrite.
[00:01:15] Só que tem dias em que o mundo parece determinado a nos irritar.
[00:01:18] E ultimamente, parece que o mundo tem nos testado ainda mais.
[00:01:22] Ou será que a gente tá cada vez mais irritado?
[00:01:25] Existe uma gradação de intensidade.
[00:01:27] Do incômodo, da perturbação.
[00:01:28] Pra irritação, pra raiva e pro ódio.
[00:01:33] Todo mundo já navegou por essa escala e sabe como é péssimo se sentir desse jeito.
[00:01:37] Mas será que tem outra saída?
[00:01:39] Tem algum jeito de frear a irritação?
[00:01:42] Deixar baixar a poeira antes da coisa explodir?
[00:01:44] Oi, eu sou o André Alves.
[00:01:46] E eu sou o Lucas Liedtke e esse é o Vibes em Análise.
[00:01:49] Um podcast onde a gente analisa vibes que estão submersas no inconsciente coletivo.
[00:01:54] O Lucas e eu somos pesquisadores e psicanalistas.
[00:01:57] E as nossas análises estão no perfil arroba floatvibes no Instagram, no TikTok e na nossa newsletter que você pode assinar no Substack.
[00:02:04] E pra manter esse podcast no ar, você pode fazer uma contribuição no Apoia-se.
[00:02:07] Qualquer valor é de grande importância pra gente.
[00:02:10] Os links estão todos aqui na descrição do episódio.
[00:02:12] Então vamos lá.
[00:02:13] Lucas, você se irrita fácil?
[00:02:15] Ou talvez quer contar pra gente uma lista das coisas que mais te irritam?
[00:02:27] Eu achei que você ia me fazer essa pergunta.
[00:02:39] Isso até me colocou pra pensar um pouco no que são…
[00:02:42] Até quais são as diferenças que existem entre coisas específicas que podem irritar alguém e coisas que irritam praticamente todo mundo.
[00:02:50] Ainda que existam pessoas que são meio imunes à irritação, o que é meio assustador até.
[00:02:56] Mas…
[00:02:56] A gente pode falar sobre essas pessoas mais pra frente.
[00:02:59] Fico pensando que tudo isso tem muito a ver com o temperamento do sujeito.
[00:03:03] Nessa temperatura que vai do frio, indiferente, até o explosivo e…
[00:03:09] E acho que dá pra gente ir explorando esse campo da irritação aí.
[00:03:12] Investigando alguns fatores que costumam desencadear a irritação.
[00:03:17] Também fatores que são talvez mais novos e atuais.
[00:03:21] Mais característicos do nosso tempo.
[00:03:22] E falar sobre isso pode fazer algum bem.
[00:03:26] Talvez pra todo mundo.
[00:03:28] No sentido da gente desabafar, se escutar, se identificar, não se sentir tão sozinho na nossa irritação.
[00:03:35] Mas também ficar atento pra não ser a gente, nós, as pessoas extremamente irritantes.
[00:03:42] Ou as pessoas irritadas demais.
[00:03:44] Facilmente irritáveis.
[00:03:45] Pessoas inflamáveis.
[00:03:47] Que parece que a gente tá só na busca de um fósforo pra poder riscar.
[00:03:51] E arremessar no caldo emocional que parece mais um querosene.
[00:03:55] A beira de explodir a qualquer momento.
[00:03:57] Mas eu tô muito animado com esse episódio, Lucas.
[00:03:59] Porque eu sempre quis fazer um sobre o ódio.
[00:04:01] E acho que a gente finalmente encontrou um ângulo que faz bastante sentido pro nosso tempo.
[00:04:06] O da irritabilidade.
[00:04:08] Então, vamos começar, como de costume, com alguma conceitualização.
[00:04:11] Alguma definição de irritação.
[00:04:13] O jeito que eu enxergo é a irritabilidade como uma resposta emocional.
[00:04:17] Algum estímulo que nos causa frustração ou raiva.
[00:04:20] Geralmente a gente pensa na irritação como algo que é engatilhado.
[00:04:24] Ou provocado por coisas que são muito difíceis.
[00:04:26] Ou por coisas que são pequenas, sem tanto significado assim.
[00:04:29] Mas a gente sabe que elas geralmente se relacionam com coisas grandonas.
[00:04:33] Que tem significados um pouco mais profundos em nós.
[00:04:36] É, e que talvez seja difícil investigar e descobrir quais são esses gatilhos.
[00:04:41] Eu acho legal a gente voltar um pouco no tempo, na história.
[00:04:44] E lá pro final do século XIX.
[00:04:47] Quando surge um termo, que é um termo que não se fala hoje em dia.
[00:04:50] Mas quem estuda psicanálise já ouviu falar bastante.
[00:04:53] Que é a neurastenia.
[00:04:54] A neurastenia é um termo que foi…
[00:04:56] popularizado por um neurologista norte-americano, que é o George Baird.
[00:05:01] E significava, na época, uma espécie de fraqueza neural.
[00:05:05] Uma doença dos nervos.
[00:05:06] Que é uma sensibilidade muito aumentada.
[00:05:09] E nesse quadro vinha vários sintomas físicos.
[00:05:12] De cansaço, esgotamento, problemas intestinais, insônia, dor de cabeça.
[00:05:16] Tudo isso sem uma causa orgânica aparente.
[00:05:19] E sem se enquadrar também em nenhuma doença psiquiátrica.
[00:05:22] Tinha nessa época um contexto de intensa transformação social.
[00:05:26] E industrial.
[00:05:28] Criando um estilo de vida novo pras pessoas.
[00:05:30] E causando alguma coisa na saúde mental.
[00:05:33] Que não se sabia muito bem o que que era.
[00:05:35] E uma certa incapacidade de simbolizar.
[00:05:39] O Freud, lá vem ele, safado como sempre.
[00:05:42] Vai puxar a neurastenia pro campo das questões sexuais.
[00:05:47] Da insatisfação sexual.
[00:05:48] O que é um tanto polêmico, a gente sabe.
[00:05:50] Ao mesmo tempo, porque nem tudo é sobre sexo.
[00:05:53] Apesar de que a gente sabe que…
[00:05:55] O prazer sexual…
[00:05:56] Vai trazer pro sujeito um tipo de bem-estar.
[00:06:00] Um tipo de relaxamento.
[00:06:02] Mais tarde na história, se a gente pega aí a metade do século XX.
[00:06:07] Muitos desses sintomas vão definir o que a gente começou a chamar culturalmente de estresse.
[00:06:13] O estresse vem da física e significa apertado.
[00:06:16] É um objeto que tá sob pressão.
[00:06:18] Então isso também traz um contexto psicossocial pra esse mal-estar.
[00:06:22] É um indivíduo que tá dentro de um sistema que tá pressionando ele.
[00:06:26] Que tá estressando ele.
[00:06:28] Agora, só pra tirar um pouco da patologia de tudo isso.
[00:06:32] A irritação nos gera mal-estar, mas não é uma doença.
[00:06:36] Ela pode ser um sintoma de um transtorno.
[00:06:39] Se fala muito como a irritação pode ser um disfarce de uma depressão.
[00:06:43] Esconde uma depressão, por exemplo.
[00:06:44] E a pessoa se manifesta com uma alta irritabilidade.
[00:06:48] É interessante também esse olhar de que a irritação é um sinal pra gente escutar alguma coisa.
[00:06:53] E tentar fazer alguma mudança de comportamento.
[00:06:56] Muito legal essas imagens que você foi falando.
[00:06:59] Porque mostram pra gente como a irritação tem esse caráter psicosomático.
[00:07:04] De como a gente não sente só com a mente.
[00:07:07] A gente sente também com o corpo.
[00:07:08] E a nossa mente também se sente como um corpo.
[00:07:11] E estresse, eu também acho que é um conceito meio chave pra gente pensar na irritação.
[00:07:17] Eu fui até buscar nas origens do conceito lá do endocrinologista, o Hans Selye.
[00:07:21] Eu acho que é assim que fala.
[00:07:22] Que nos anos 60 quebrou o estresse em três etapas.
[00:07:26] Ou três fases.
[00:07:27] Uma fase de alarme, que tem aquelas manifestações mais agudas.
[00:07:31] Uma fase de resistência, quando essas manifestações mais agudas vão desaparecendo.
[00:07:37] E uma fase de exaustão, o pós-estresse.
[00:07:40] Quando a gente volta pras reações antes de ter passado por esse pequeno colapso que o estresse provoca em nós.
[00:07:47] O problema do estresse prolongado é que a gente fica durante tempo demais nessas fases de resistência, de alarme e de exaustão.
[00:07:55] E eu acho que isso é muito importante.
[00:07:56] E eu acho que tudo isso pode nos ajudar bastante a pensar na irritação.
[00:07:59] E nos efeitos psicosomáticos e também psicossociais que ela provoca.
[00:08:05] Mas tem um outro aspecto que é como o estresse é usado pra encobrir a raiva.
[00:08:10] Ou pra falar de uma versão um pouco mais suave da raiva.
[00:08:15] Por exemplo, a gente sabe que o brasileiro é um dos povos mais estressados do mundo.
[00:08:20] Tem uma pesquisa em 31 países que mostra pra gente que o brasileiro se sente mais estressado
[00:08:25] que a média global.
[00:08:27] Essa mesma pesquisa aponta que 74% dos brasileiros se sentiram tão estressados
[00:08:32] a ponto de não conseguir mais lidar com as situações da vida.
[00:08:35] E claro que isso muito ligado a casos de depressão.
[00:08:39] As pessoas dizendo que se sentem deprimidas.
[00:08:42] Do ponto de vista de gerenciamento de imagem, é bem menos pior a gente ser um dos povos mais estressados do mundo
[00:08:49] do que um dos povos mais raivosos do mundo.
[00:08:52] Porque aí tem um outro estudo.
[00:08:54] Um outro estudo da Healthcare Society que mostra que 60% das pessoas
[00:08:59] explodem com seus companheiros ou pessoas muito próximas porque se sentem estressadas demais.
[00:09:05] É, o estressado é mais moderno.
[00:09:08] O raivoso parece muito primitivo.
[00:09:10] Muito bom.
[00:09:11] Pouco civilizado.
[00:09:12] É, e aí parece que o estresse como código, fazendo uma de Raymond Williams do podcast,
[00:09:18] é um código que já foi dominante e talvez agora esteja se tornando um pouco mais residual.
[00:09:23] Porque o código dominante é a ansiedade.
[00:09:25] Que é outra palavra que tenta abarcar uma série muito grande de estados psíquicos.
[00:09:31] A questão é que quais são os fatores que mais deixam as pessoas estressadas?
[00:09:35] Trabalho, dinheiro, insônia, questões do corpo, questões da alimentação.
[00:09:41] São essas coisas que vão inflamando a nossa vida.
[00:09:45] E a nossa irritabilidade como um todo vai aumentando.
[00:09:49] Então retomando aquela primeira etapa que eu descrevi do estresse.
[00:09:52] Que é a fase do alarme.
[00:09:54] Todas essas questões vão nos deixando numa espécie de estado alarmado.
[00:09:59] Ou melhor, em um estado constantemente irritado.
[00:10:03] É, então mas vale um cuidado né André pra gente não se identificar demais.
[00:10:08] Eu acho que assim como você não é a sua ansiedade, você não é a sua irritação.
[00:10:11] Um papo meio de mindfulness aqui, mas eu acho que é importante a gente lembrar que a gente não é a nossa emoção.
[00:10:18] Você é o sujeito.
[00:10:20] Observando a sua emoção.
[00:10:22] Não que você tenha controle absoluto dela.
[00:10:24] Mas dá pra se colocar um pouco de fora e enxergar.
[00:10:30] Você tá agindo intencionalmente ou você tá só reagindo emocionalmente?
[00:10:35] A gente tem que entender também que as emoções são passageiras.
[00:10:38] Que vai passar.
[00:10:40] E isso faz parte das relações.
[00:10:42] Uma mãe vai ter que se irritar com o bebê.
[00:10:44] O bebê vai se irritar com a mãe.
[00:10:46] E assim eles vão criar um narcisismo.
[00:10:48] Vai ter uma separação com o objeto.
[00:10:50] Então esses afetos por mais difíceis que sejam.
[00:10:52] Eles nos constituem.
[00:10:54] E fazem parte das nossas relações.
[00:10:56] E nos dão umas pistas meio valiosas.
[00:10:58] Do desejo, da angústia.
[00:11:00] Do que a gente consegue e não consegue suportar.
[00:11:02] Eu achei legal essa cena que você trouxe.
[00:11:04] De uma mãe e de um bebê.
[00:11:06] Inclusive aprendendo os seus limites de tolerância e de intolerância através da irritação.
[00:11:11] Bom então vamos tentar desvendar um pouco esse funcionamento da irritação.
[00:11:22] Como é que a coisa funciona.
[00:11:24] Se tem uma coisa que te incomoda.
[00:11:26] Que tá te perturbando.
[00:11:27] E você não fala sobre isso.
[00:11:29] Você não faz nada a respeito.
[00:11:31] Aquilo dificilmente vai embora sozinho.
[00:11:33] Então vai começando a acumular.
[00:11:35] Isso vai virando uma irritação.
[00:11:37] Mas isso é quando você sabe o motivo.
[00:11:39] Ainda que talvez você não saiba o motivo por trás do motivo.
[00:11:43] Por que aquele motivo virou um motivo?
[00:11:45] Como você disse.
[00:11:47] Às vezes parece que é algo muito pequeno.
[00:11:49] Como é que algo tão pequeno me incomoda tanto?
[00:11:52] Então a gente tem que investigar motivos.
[00:11:54] Talvez inconscientes dessa irritação.
[00:11:56] Que não foram falados e elaborados ainda.
[00:11:58] E aí a gente começa a associar.
[00:12:00] Você pode dizer que tá irritado com alguma coisa.
[00:12:03] Mas tem alguma outra coisa por trás.
[00:12:06] Que você sabe.
[00:12:08] E não quer admitir.
[00:12:09] Ou você simplesmente não sabe.
[00:12:11] E vai aparecer à medida que você fala sobre isso.
[00:12:14] Mas aí tem que conseguir falar.
[00:12:15] Tem que conseguir elaborar.
[00:12:17] Sem virar uma explosão.
[00:12:19] Sem virar também uma série de acusações.
[00:12:21] Quando a gente tá pensando em relações interpessoais.
[00:12:24] Porque tem muita coisa que nos irrita.
[00:12:26] Por diferentes motivos.
[00:12:28] E aí eu pensei em três diferentes funcionamentos.
[00:12:31] Ou dinâmicas psicológicas.
[00:12:33] Que podem estar por trás.
[00:12:35] De uma fonte de irritação.
[00:12:38] A primeira.
[00:12:39] E você falou sobre isso.
[00:12:40] É enxergar que a irritação é resultado de uma baixa tolerância à frustração.
[00:12:46] Tem um psicólogo mais da linha comportamental.
[00:12:49] Que é o Albert Ellis.
[00:12:50] E ele vai dizer que a irritação resulta de crenças irracionais.
[00:12:54] Ou absolutistas.
[00:12:55] De como as coisas deveriam ser.
[00:12:57] Ou seja.
[00:12:58] É o resultado de uma fixação nossa em idealizações.
[00:13:02] A respeito dos outros.
[00:13:03] Ou de nós mesmos.
[00:13:04] Ou do mundo.
[00:13:05] É quando o ideal se comprova que é só um ideal.
[00:13:07] E não a realidade.
[00:13:09] Aí a gente pode reagir com irritação.
[00:13:11] Diante dessa frustração.
[00:13:13] A segunda lógica que eu encontrei.
[00:13:15] Numa linha bem freudiana.
[00:13:17] É pensar no mecanismo de defesa do ego.
[00:13:20] Mais conhecido de todo mundo.
[00:13:21] Que é a projeção.
[00:13:22] Então a gente tem um conflito interno.
[00:13:25] Psíquico.
[00:13:26] Que a gente joga para o mundo externo.
[00:13:28] Projeta isso no outro.
[00:13:30] Aquilo que não está bem resolvido na gente.
[00:13:32] Aquilo que a gente mal reconhece na gente.
[00:13:35] E aí.
[00:13:36] Até às vezes se mistura um pouco com a inveja.
[00:13:38] Sabe quando a irritação e a inveja vem meio juntas.
[00:13:41] Que é.
[00:13:42] Sei lá.
[00:13:43] Alguém tem um comportamento que te irrita muito.
[00:13:45] Você não sabe porque.
[00:13:46] Mas que talvez você gostaria de poder agir assim também.
[00:13:50] Mas não consegue.
[00:13:51] Ou tem vergonha.
[00:13:52] Ou acha que está errado.
[00:13:54] E aí aquilo no outro.
[00:13:55] Te irrita muito.
[00:13:56] E o terceiro ponto que dá para ressaltar.
[00:13:58] É o comportamento repetitivo.
[00:14:00] Até assim.
[00:14:01] Estereotipias.
[00:14:02] E manias.
[00:14:03] Que tem uma constância.
[00:14:04] Daquele comportamento.
[00:14:05] Que não muda.
[00:14:07] E ele vai se tornando muito irritante.
[00:14:09] Geralmente o comportamento do outro.
[00:14:11] E aí a pessoa não quer.
[00:14:13] Ou não consegue mudar.
[00:14:14] E você continua se irritando com ela.
[00:14:16] Num ciclo vicioso.
[00:14:18] E muito destrutivo.
[00:14:19] Para o vínculo.
[00:14:20] E é complicado.
[00:14:21] Porque nenhum dos dois está certo.
[00:14:23] Ou errado.
[00:14:24] É só uma dinâmica.
[00:14:25] Que está.
[00:14:26] Com pouca variação.
[00:14:27] Naquele comportamento.
[00:14:28] E na reação que a gente tem.
[00:14:29] Diante daquele comportamento.
[00:14:31] É como se a linguagem vincular.
[00:14:33] Deixasse de acrescentar novos termos.
[00:14:35] E começasse a ficar repetitiva demais.
[00:14:37] Exatamente.
[00:14:38] Porque o léxico dessa linguagem vincular.
[00:14:40] Não consegue mais.
[00:14:41] Se desenvolver.
[00:14:42] Ou se expandir.
[00:14:43] Você foi falando desses tipos.
[00:14:44] De irritabilidade.
[00:14:45] E eu pensei quase em estruturas.
[00:14:47] Porque o segundo tipo.
[00:14:49] Parece muito uma estrutura estérica.
[00:14:51] Uma resposta emocional estérica.
[00:14:53] Naquele sentido.
[00:14:54] De que.
[00:14:55] Você está se emocionando demais.
[00:14:57] Exatamente.
[00:14:58] Porque não está conseguindo.
[00:14:59] Entrar em contato.
[00:15:00] Com o sentimento fundamental.
[00:15:01] Aí desloca.
[00:15:02] E converte.
[00:15:03] Eu me irrito muito.
[00:15:04] Com isso.
[00:15:05] Mas na verdade.
[00:15:06] Isso está mascarando.
[00:15:07] Encobrindo.
[00:15:08] Escondendo alguma coisa.
[00:15:09] Que é impensável.
[00:15:10] Para mim.
[00:15:11] Que é aquilo.
[00:15:12] Exemplo clássico.
[00:15:13] Aí aquela pessoa.
[00:15:14] É muito arrogante.
[00:15:15] Ela fala sempre o que pensa.
[00:15:17] Tem uma opinião sobre tudo.
[00:15:19] Bom.
[00:15:20] Talvez.
[00:15:21] Você gostaria.
[00:15:22] De poder se expressar.
[00:15:23] Dessa forma.
[00:15:24] Ou talvez.
[00:15:25] Te lembre alguém.
[00:15:26] Que você não conseguiu superar.
[00:15:27] Ou talvez.
[00:15:28] Essa pessoa te interesse.
[00:15:29] Uhum.
[00:15:30] Ou mesmo.
[00:15:31] O primeiro tipo.
[00:15:32] Me fez pensar.
[00:15:33] Naquela reclamação.
[00:15:34] De escritório.
[00:15:35] Sabe.
[00:15:36] Lucas.
[00:15:37] Todo mundo.
[00:15:38] Fica reclamando.
[00:15:39] Aquilo vai se tornando.
[00:15:40] Uma negatividade.
[00:15:41] Que vai contaminando.
[00:15:42] Tudo.
[00:15:43] E a gente nunca consegue.
[00:15:44] Tratar.
[00:15:45] Efetivamente.
[00:15:46] O que está.
[00:15:47] Produzindo irritação.
[00:15:48] Ninguém está levando isso.
[00:15:49] Adiante.
[00:15:50] Porque a irritação.
[00:15:51] Quando ela é sentida.
[00:15:52] De forma coletiva.
[00:15:53] Ela também produz.
[00:15:54] Uma certa ruminação.
[00:15:55] Da queixa.
[00:15:56] Você reclama.
[00:15:57] Exatamente.
[00:15:58] Porque não pretende.
[00:15:59] Resolver a queixa.
[00:16:00] De forma significativa.
[00:16:01] Mas claro.
[00:16:02] Também.
[00:16:03] A gente.
[00:16:04] Colocar a irritação.
[00:16:05] Nesse campo.
[00:16:06] Negativo demais.
[00:16:07] Porque.
[00:16:08] A irritação.
[00:16:09] Também produz.
[00:16:10] Mudança.
[00:16:11] E transformação.
[00:16:12] Como agitação social.
[00:16:13] O termo.
[00:16:14] Em inglês.
[00:16:15] Social.
[00:16:16] Unrest.
[00:16:17] Quase.
[00:16:18] Uma irritação.
[00:16:19] Social.
[00:16:20] Uma indignação.
[00:16:21] E que vai.
[00:16:22] Inclusive.
[00:16:23] Ser.
[00:16:24] Força.
[00:16:25] Motora.
[00:16:26] Para grandes momentos.
[00:16:27] Da história.
[00:16:28] Em que.
[00:16:29] O incômodo.
[00:16:30] Compartilhado.
[00:16:31] Faz.
[00:16:32] Com que as pessoas.
[00:16:33] Sejam.
[00:16:34] Somente.
[00:16:35] Desse incômodo.
[00:16:36] E diante da irritação.
[00:16:37] Se.
[00:16:38] É melhor.
[00:16:39] Você.
[00:16:40] Se afastar.
[00:16:41] Se isolar.
[00:16:42] Ou.
[00:16:43] Partir.
[00:16:44] Para cima.
[00:16:45] E tentar resolver.
[00:16:46] Esse.
[00:16:47] É.
[00:16:48] Talvez.
[00:16:49] O grande.
[00:16:50] Dilema.
[00:16:51] Que a gente.
[00:16:52] Se encontra.
[00:16:53] Quando.
[00:16:54] Está.
[00:16:55] Pensando.
[00:16:56] Como reagir.
[00:16:57] Diante.
[00:16:58] De um estado.
[00:16:59] Irritadiço.
[00:17:00] É bom.
[00:17:01] Se isolar.
[00:17:02] Sentindo.
[00:17:03] O tempo todo.
[00:17:04] Na hora.
[00:17:05] É assim.
[00:17:06] As duas.
[00:17:07] Coisas.
[00:17:08] Funcionam.
[00:17:09] E as duas.
[00:17:10] Não funcionam.
[00:17:11] Depende.
[00:17:12] Muito.
[00:17:13] De cada.
[00:17:14] Caso.
[00:17:15] E por isso.
[00:17:16] Que acho.
[00:17:17] Que é.
[00:17:18] Tão.
[00:17:19] Difícil.
[00:17:20] Navegar.
[00:17:21] Esse.
[00:17:22] Estado.
[00:17:23] Porque.
[00:17:24] Nos.
[00:17:25] Dois.
[00:17:26] Cenários.
[00:17:27] Você.
[00:17:28] Dando.
[00:17:29] Um.
[00:17:30] Passo.
[00:17:31] A.
[00:17:32] Muitas.
[00:17:33] Coisas.
[00:17:34] Que você.
[00:17:35] Deixou.
[00:17:36] De falar.
[00:17:37] Elas.
[00:17:38] Vão.
[00:17:39] Ficando.
[00:17:40] Muito.
[00:17:41] Grandes.
[00:17:42] Muito.
[00:17:43] Violentas.
[00:17:44] Também.
[00:17:45] Porque.
[00:17:46] Você.
[00:17:47] Não.
[00:17:48] Colocou.
[00:17:49] Para.
[00:17:50] Fora.
[00:17:51] Ao.
[00:17:52] Mesmo.
[00:17:53] Tempo.
[00:17:54] Você.
[00:17:55] Botar.
[00:17:56] Para.
[00:17:57] Fora.
[00:17:58] Na.
[00:17:59] Hora.
[00:18:00] Você.
[00:18:01] Falou.
[00:18:02] Eu.
[00:18:03] Fiquei.
[00:18:04] Pensando.
[00:18:05] Em.
[00:18:06] Como.
[00:18:07] Irritação.
[00:18:08] Tem.
[00:18:09] A.
[00:18:10] Ver.
[00:18:11] Com.
[00:18:12] Excesso.
[00:18:13] Quase.
[00:18:14] Um.
[00:18:15] Flerte.
[00:18:16] Com.
[00:18:17] Exagero.
[00:18:18] Pulsional.
[00:18:19] Como.
[00:18:20] Alguma.
[00:18:21] Coisa.
[00:18:22] Que.
[00:18:23] Não.
[00:18:24] Consegue.
[00:18:25] Escoar.
[00:18:26] E.
[00:18:27] Acaba.
[00:18:28] Derramando.
[00:18:29] Meus.
[00:18:30] Pais.
[00:18:31] Falam.
[00:18:32] Mas.
[00:18:33] Isso.
[00:18:34] Nem.
[00:18:35] Lembro.
[00:18:36] Muito.
[00:18:37] Lembro.
[00:18:38] Um.
[00:18:39] Pouco.
[00:18:40] Mas.
[00:18:41] Acho.
[00:18:42] Que.
[00:18:43] Eu.
[00:18:44] Não.
[00:18:45] Sei.
[00:18:46] Se.
[00:18:47] Eu.
[00:18:48] Lembro.
[00:18:49] Porque.
[00:18:50] Eles.
[00:18:51] Me.
[00:18:52] Contaram.
[00:18:53] Mas.
[00:18:54] Quando.
[00:18:55] Era.
[00:18:56] Bem.
[00:18:57] Crianças.
[00:18:58] No.
[00:18:59] Quarteirão.
[00:19:00] Para.
[00:19:01] Voltar.
[00:19:02] Um.
[00:19:03] Pouco.
[00:19:04] Mais.
[00:19:05] Calmo.
[00:19:06] E.
[00:19:07] Não.
[00:19:08] Explodir.
[00:19:09] Eu.
[00:19:10] Não.
[00:19:11] Sei.
[00:19:12] Se.
[00:19:13] Isso.
[00:19:14] Faz.
[00:19:15] Muito.
[00:19:16] Sentido.
[00:19:17] Eu.
[00:19:18] Não.
[00:19:19] Sei.
[00:19:20] O.
[00:19:21] Quanto.
[00:19:22] Isso.
[00:19:23] É.
[00:19:24] Saudável.
[00:19:25] Para.
[00:19:26] As.
[00:19:27] Pessoas.
[00:19:28] Que.
[00:19:29] A.
[00:19:30] Gente.
[00:19:31] Tem.
[00:19:32] Interesse.
[00:19:33] Com.
[00:19:34] As.
[00:19:35] Pessoas.
[00:19:36] Não.
[00:19:37] Pode.
[00:19:38] Estragar.
[00:19:39] As.
[00:19:40] Relações.
[00:19:41] Me.
[00:19:42] Questiona.
[00:19:43] Um.
[00:19:44] Pouco.
[00:19:45] Do.
[00:19:46] Quanto.
[00:19:47] A.
[00:19:48] Gente.
[00:19:49] Acaba.
[00:19:50] Às.
[00:19:51] Vezes.
[00:19:52] Até.
[00:19:53] Criando.
[00:19:54] Mais.
[00:19:55] Irritações.
[00:19:56] Para.
[00:19:57] Gente.
[00:19:58] Sem.
[00:19:59] Medo.
[00:20:00] Que.
[00:20:01] A.
[00:20:02] Vida.
[00:20:03] Em.
[00:20:04] Sociedade.
[00:20:05] É.
[00:20:06] Irritante.
[00:20:07] Mas.
[00:20:08] Eu.
[00:20:09] Achei.
[00:20:10] Muito.
[00:20:11] Boa.
[00:20:12] Essa.
[00:20:13] História.
[00:20:14] Do.
[00:20:15] Pequeno.
[00:20:16] Lucas.
[00:20:17] E.
[00:20:18] Eu.
[00:20:19] Pensei.
[00:20:20] Que.
[00:20:21] Tinha.
[00:20:22] Uma.
[00:20:23] Tentativa.
[00:20:24] Curiosa.
[00:20:25] Impulsional.
[00:20:26] Naquele.
[00:20:27] Momento.
[00:20:28] No.
[00:20:29] Meio.
[00:20:30] Do.
[00:20:31] Caldeirão.
[00:20:32] Das.
[00:20:33] Pulsões.
[00:20:34] Que.
[00:20:35] A.
[00:20:36] Família.
[00:20:37] Então.
[00:20:38] Você.
[00:20:39] Precisava.
[00:20:40] Se.
[00:20:41] Colocar.
[00:20:42] Um.
[00:20:43] Pouquinho.
[00:20:44] Para.
[00:20:45] Fora.
[00:20:46] Para.
[00:20:47] Conseguir.
[00:20:48] Separar.
[00:20:49] O.
[00:20:50] Que.
[00:20:51] Era.
[00:20:52] Teu.
[00:20:53] Do.
[00:20:54] Sua.
[00:20:55] Capacidade.
[00:20:56] De.
[00:20:57] Tolerância.
[00:20:58] Irritação.
[00:20:59] Porque.
[00:21:00] Sabe.
[00:21:01] As.
[00:21:02] Pessoas.
[00:21:03] Que.
[00:21:04] São.
[00:21:05] Muito.
[00:21:06] Irritadas.
[00:21:07] Ou.
[00:21:08] Facilmente.
[00:21:09] Irritáveis.
[00:21:10] Hoje.
[00:21:11] Tem.
[00:21:12] Fases.
[00:21:13] Na.
[00:21:14] Nossa.
[00:21:15] Vida.
[00:21:16] Em.
[00:21:17] Que.
[00:21:18] Fica.
[00:21:19] Muito.
[00:21:20] Propenso.
[00:21:21] A.
[00:21:22] Se.
[00:21:23] No.
[00:21:24] Núcleo.
[00:21:25] Psicótico.
[00:21:26] E.
[00:21:27] O.
[00:21:28] Sujeito.
[00:21:29] Vai.
[00:21:30] Se.
[00:21:31] Deslocando.
[00:21:32] Por.
[00:21:33] Uma.
[00:21:34] Posição.
[00:21:35] Em.
[00:21:36] Que.
[00:21:37] Se.
[00:21:38] Sente.
[00:21:39] Invadido.
[00:21:40] Pelo.
[00:21:41] Mundo.
[00:21:42] Com.
[00:21:43] Frequência.
[00:21:44] E.
[00:21:45] Isso.
[00:21:46] Irrita.
[00:21:47] Isso.
[00:21:48] Inflama.
[00:21:49] Sim.
[00:21:50] E.
[00:21:51] Vai.
[00:21:52] O.
[00:21:53] Sujeito.
[00:21:54] E.
[00:21:55] A.
[00:21:56] Mediação.
[00:21:57] Entre.
[00:21:58] O.
[00:21:59] Mundo.
[00:22:00] E.
[00:22:01] O.
[00:22:02] Sujeito.
[00:22:03] Passa.
[00:22:04] A.
[00:22:05] Ser.
[00:22:06] Feita.
[00:22:07] Por.
[00:22:08] Toda.
[00:22:09] Essa.
[00:22:10] Gramática.
[00:22:11] Raivosa.
[00:22:12] Irritada.
[00:22:13] Agressiva.
[00:22:14] Às.
[00:22:15] Vezes.
[00:22:16] Até.
[00:22:17] Violenta.
[00:22:18] Isso.
[00:22:19] Fica.
[00:22:20] Muito.
[00:22:21] E aí.
[00:22:22] Afasta.
[00:22:23] Demais.
[00:22:24] Sim.
[00:22:25] E aí.
[00:22:26] Cria.
[00:22:27] Abismos.
[00:22:28] Então.
[00:22:29] No.
[00:22:30] Lugar.
[00:22:31] De.
[00:22:32] Conseguir.
[00:22:33] Dizer.
[00:22:34] Você.
[00:22:35] Só.
[00:22:36] Pode.
[00:22:37] Ir.
[00:22:38] Até.
[00:22:39] Aqui.
[00:22:40] O.
[00:22:41] Sujeito.
[00:22:42] Grita.
[00:22:43] Sai.
[00:22:44] Daqui.
[00:22:45] O.
[00:22:46] Que.
[00:22:47] Acaba.
[00:22:48] Comprometendo.
[00:22:49] As.
[00:22:50] Adoraria.
[00:22:51] Saber.
[00:22:52] A.
[00:22:53] Sua.
[00:22:54] Lista.
[00:22:55] Pensei.
[00:22:56] Em.
[00:22:57] Pessoas.
[00:22:58] Que.
[00:22:59] Não.
[00:23:00] Respeitam.
[00:23:01] O.
[00:23:02] Senso.
[00:23:03] De.
[00:23:04] Coletividade.
[00:23:05] E.
[00:23:06] Aí.
[00:23:07] O.
[00:23:08] Barulho.
[00:23:09] É.
[00:23:10] Uma.
[00:23:11] Irritação.
[00:23:12] Muito.
[00:23:13] Moderna.
[00:23:14] A.
[00:23:15] Poluição.
[00:23:16] Auditiva.
[00:23:17] E.
[00:23:18] Visual.
[00:23:19] A.
[00:23:20] Se.
[00:23:21] Apropriar.
[00:23:22] De.
[00:23:23] Suas.
[00:23:24] Ideias.
[00:23:25] Quando.
[00:23:26] Distorcem.
[00:23:27] O.
[00:23:28] Que.
[00:23:29] Você.
[00:23:30] Disse.
[00:23:31] Quando.
[00:23:32] Te.
[00:23:33] Ignoram.
[00:23:34] Quando.
[00:23:35] Não.
[00:23:36] Te.
[00:23:37] Respondem.
[00:23:38] Ou.
[00:23:39] Quando.
[00:23:40] Você.
[00:23:41] Não.
[00:23:42] Responde.
[00:23:43] E.
[00:23:44] Aí.
[00:23:45] Te.
[00:23:46] Cobram.
[00:23:47] Uma.
[00:23:48] manipulação da realidade na nossa mão,
[00:23:50] mas isso é uma ilusão. E a irritação
[00:23:52] é, em si,
[00:23:54] um próprio descontrole.
[00:23:56] E aí vai deixando mais claro ainda que você está perdendo
[00:23:58] o controle. E aí a gente se afunda ainda mais.
[00:24:00] O exemplo mais trivial
[00:24:01] de irritação por perder
[00:24:04] o controle da situação é o trânsito.
[00:24:06] Não tem o que fazer. Você está ali preso,
[00:24:08] impotente.
[00:24:10] Só vai ter que ter paciência.
[00:24:12] Você só vai sofrer mais se você ficar
[00:24:14] hiperanalisando o comportamento
[00:24:16] de cada um dos motoristas que estão ali
[00:24:18] e ninguém queria estar ali. Está todo mundo
[00:24:20] estressado. Acho que você tocou num aspecto
[00:24:22] bem fundamental da irritabilidade
[00:24:24] e da irritação, que é a impaciência.
[00:24:26] Eu cruzei com algumas pesquisas que falam
[00:24:28] sobre como os brasileiros parecem estar mais
[00:24:30] impacientes, dando menos risadas,
[00:24:32] mais facilmente entrando em conflitos
[00:24:34] e atraques com o outro. Tem briga
[00:24:36] no trânsito, briga entre torcedores,
[00:24:38] briga até no avião. Tem uns números
[00:24:40] meio assustadores de que as brigas nos aviões
[00:24:42] aumentaram 200, 300%
[00:24:44] nos últimos anos. A grande questão
[00:24:46] é assim, o que está acontecendo?
[00:24:48] E essa ilusão de controle,
[00:24:50] vou buscar o Han e o Sociedade
[00:24:52] Paliativa, eu penso que está muito
[00:24:54] ligada a esse tempo da conveniência
[00:24:56] em que a gente não pode perder tempo.
[00:24:58] Tem uma psicóloga australiana
[00:25:00] que eu não vou nem ousar pronunciar
[00:25:02] o nome dela porque é bem complicado, mas vai estar
[00:25:04] na descrição do episódio, que publicou um estudo
[00:25:06] faz alguns anos sobre como a gente
[00:25:08] percebe o tempo de maneiras diferentes
[00:25:10] quando a gente está muito conectado
[00:25:12] a dispositivos eletrônicos.
[00:25:14] Não estou falando só mal das redes sociais,
[00:25:16] ainda, mas de dispositivos de uma forma
[00:25:18] geral. Que parece que o nosso relógio
[00:25:20] interno vai acelerando
[00:25:22] o seu ritmo. E a gente
[00:25:24] vai sentindo que a gente está mais e mais
[00:25:26] pressionado. É a imagem que você trouxe
[00:25:28] sobre o estresse. Então
[00:25:30] junta essas duas coisas.
[00:25:32] A ilusão de que a gente tem mais e mais ferramentas
[00:25:34] que nos dão o controle de tudo.
[00:25:36] Ao mesmo tempo que a gente sente que tem
[00:25:38] menos tempo a perder, não tem tempo pra
[00:25:40] nada e que a pressão
[00:25:41] vai colocando a gente num estado um pouco mais
[00:25:44] alarmado. É, e nisso tem um
[00:25:46] outro ponto muito atual
[00:25:48] que é a interrupção.
[00:25:50] Uma das coisas que mais irritam é quando as
[00:25:52] pessoas, como você está dizendo,
[00:25:54] não respeitam o seu tempo, não respeitam
[00:25:56] o seu momento, não respeitam
[00:25:58] a sua vez. E te interrompem.
[00:26:00] E impõem o ritmo delas. E impõem
[00:26:02] o tempo delas. Então
[00:26:04] não é à toa que a gente está tão
[00:26:06] irritado porque quantas vezes a gente é
[00:26:08] interrompido em um único dia.
[00:26:11] Com mensagens, com demandas,
[00:26:12] com estímulos que a gente
[00:26:14] não queria estar recebendo. Que nos
[00:26:16] distraem e que sugam
[00:26:18] a nossa energia. E aí André,
[00:26:20] falando em sugar energia, tem um aspecto
[00:26:22] também bem contemporâneo do nosso
[00:26:24] tempo que é um pouco
[00:26:26] daquele fenômeno
[00:26:27] online da lacração
[00:26:29] e das tentativas de cancelamento
[00:26:32] e das frases
[00:26:34] de efeito que não deixam
[00:26:36] o interlocutor
[00:26:37] construir uma conversa. Isso é muito
[00:26:40] irritante. Isso tem um efeito
[00:26:41] terrível pro sujeito
[00:26:44] que está terrivelmente online.
[00:26:46] Porque a gente entra aí na lógica
[00:26:48] dos desabafos. Do pronto, falei.
[00:26:51] Você aperta, enviar
[00:26:52] e vai viver a sua vida.
[00:26:54] E aí quando vê tem uma resposta ainda
[00:26:56] mais calorosa
[00:26:58] ou irritada ou irritante.
[00:27:00] E aí é uma bola de neve. Ou uma bola
[00:27:02] de fogo. Porque já tem em curso
[00:27:04] ali um efeito da desinibição
[00:27:06] online. Você não
[00:27:08] falaria aquilo daquele modo se fosse
[00:27:10] cara a cara com o outro. E tem um certo
[00:27:12] anonimato. E aí as pessoas falam
[00:27:14] o que vem à mente.
[00:27:16] Elas reagem impulsivamente.
[00:27:19] E vira realmente
[00:27:20] uma competição de quem está
[00:27:21] conseguindo irritar mais o outro.
[00:27:24] Ou fazer o outro perder a linha.
[00:27:26] E fazer o outro se expor também
[00:27:28] virtualmente. Porque está todo mundo vendo.
[00:27:30] E isso engaja.
[00:27:31] Essa tensão engaja.
[00:27:33] É por isso que eu raramente respondo
[00:27:36] um comentário
[00:27:37] que me irrita. Porque eu sei que não
[00:27:40] vai ter um bom desfecho.
[00:27:41] Aquilo ali não vai ser uma conversa.
[00:27:43] Vai ser uma briga
[00:27:44] numa arena.
[00:27:46] Que quer ver as pessoas brigando.
[00:27:48] Eu tenho um nome pra isso.
[00:27:50] Eu achei um psicólogo que vem chamando
[00:27:52] todas essas ondas de cancelamento
[00:27:53] e esse ódio SA que está tão
[00:27:55] mobilizado nas redes de manadas
[00:27:58] raivosas. Que é alguém
[00:28:00] expressa algum tipo de
[00:28:02] irritação, agressividade
[00:28:04] e raiva exatamente
[00:28:05] pra provocar esse efeito em cascata
[00:28:07] que você está descrevendo. E que não necessariamente
[00:28:10] a gente faz isso de forma consciente.
[00:28:12] De um ponto de vista psi, o que importa
[00:28:14] não é só a emoção.
[00:28:16] O que a gente faz com ela. Como você expressa
[00:28:18] processa ou suprime.
[00:28:20] E é interessante essa estratégia que você
[00:28:22] estabelece porque
[00:28:23] no final das contas, o que a gente esquece
[00:28:26] é que as mídias sociais elas parecem
[00:28:28] operar numa regra diferente da regra
[00:28:30] social. Porque é uma certa
[00:28:32] desvalorização
[00:28:34] da palavra. Ou desresponsabilização
[00:28:37] da palavra.
[00:28:38] A gente vai soltando palavras ao vento.
[00:28:40] Do tipo, eu amo. Eu odeio.
[00:28:42] Eu queria estar morta.
[00:28:44] Tudo bem. São todas brincadeiras.
[00:28:46] Mas os casos mais
[00:28:48] graves é o que a gente vê
[00:28:50] por exemplo nas caixas de comentários dos portais
[00:28:52] de notícia ou dos perfis de pessoas
[00:28:54] muito famosas. Que é uma série
[00:28:56] de ataques muito
[00:28:58] ferozes. Gratuitos
[00:29:00] e covardos. Sem nenhum tipo de
[00:29:02] preocupação com as consequências.
[00:29:03] O Dunker tem uma hipótese bem interessante sobre
[00:29:06] isso que é, isso vai provocando
[00:29:08] nos sujeitos que desvalorizam demais
[00:29:10] a palavra, uma incapacidade
[00:29:12] de conviver em sociedade. Sim.
[00:29:14] Porque aí quando você vai ter
[00:29:16] que lidar. No mundo real. No mundo real.
[00:29:18] Com almoço em família, uma reunião de trabalho
[00:29:20] ou uma… Ou no avião. Ou um desentendimento
[00:29:22] no trânsito. Ah. Você vai
[00:29:24] pro mesmo lugar. Que é a palavra
[00:29:26] que engatilha. E não a palavra
[00:29:28] que media. Não a palavra que escoa.
[00:29:30] Mas a palavra que ataca.
[00:29:32] Concilia. Exato. Fora que tem o outro
[00:29:34] lado disso também. Parece que a gente ficou
[00:29:36] muito bom nesse jogo de engatilhamento
[00:29:38] da agressividade. Não é à toa que
[00:29:40] tem alguns acadêmicos que estão provocando
[00:29:42] uma história de a gente estar vivendo numa
[00:29:44] certa era da ira.
[00:29:46] Que a gente troca de targets
[00:29:48] da nossa irritabilidade com uma velocidade
[00:29:50] intensa demais. Só que isso tem
[00:29:52] consequências pro outro lado. Pra quem recebe
[00:29:54] essa ira. O que que acontece com o psiquismo
[00:29:56] de uma pessoa que recebe cem, mil, dez
[00:29:58] mil comentários odiosos ao mesmo tempo?
[00:30:00] Como é que é ser um objeto
[00:30:02] que vai ter que dar conta de conter,
[00:30:04] entre todas as aspas, a irritação de
[00:30:06] centenas ou milhares de pessoas de uma vez só?
[00:30:12] Bom, e pra gente expandir um pouco
[00:30:14] a escuta da irritação e da irritabilidade
[00:30:16] a gente convidou a Camilla Frender.
[00:30:18] Ela é escritora, roteirista e podcaster.
[00:30:20] Dona do Pequeno Império
[00:30:22] É Noia Minha.
[00:30:23] Eu tenho certeza que as pessoas estão
[00:30:25] bem mais irritadas hoje em dia.
[00:30:28] E eu fico me policiando muito
[00:30:29] porque eu tenho
[00:30:31] pavor de
[00:30:33] trazer a minha irritação
[00:30:35] pro ambiente familiar.
[00:30:38] Eu acho que tudo é mais estressante.
[00:30:39] Acho que a gente tá numa cidade com
[00:30:41] mais trânsito, mais poluição.
[00:30:44] Agora a gente tem
[00:30:46] todo o lance de redes sociais
[00:30:48] onde a gente também se irrita
[00:30:50] com aquilo. Ou porque tá frustrado
[00:30:52] porque tá se comparando com alguém.
[00:30:54] Ou porque foi xingado
[00:30:56] por algo que fez.
[00:30:58] Às vezes eu mesma posto um vídeo
[00:31:00] nada a ver, uma bobagem
[00:31:03] e alguém vem
[00:31:04] e dá uma ofensa gratuita.
[00:31:06] Essas mini coisas vão virando
[00:31:08] uma grande irritação quando elas vão
[00:31:10] se somando, né? Então acho que
[00:31:12] por N motivos a gente tá
[00:31:14] mais irritado. Mas essa é a minha opinião.
[00:31:16] Essa é a minha grande preocupação. Eu fico pensando
[00:31:18] na minha mãe como mãe.
[00:31:20] Não sei, eu tenho a sensação de que ela era uma mãe tão
[00:31:22] calma e que os momentos de
[00:31:24] irritação eram muito pontuais.
[00:31:26] E eu percebo que eu me controlo
[00:31:28] pra caramba pra deixar
[00:31:30] a irritação pro lado de fora
[00:31:32] da porta da minha casa e não descontar
[00:31:34] em ninguém que tá ali dentro que não tem nada a ver com isso.
[00:31:37] É uma grande paranoia.
[00:31:38] Olha, os noias, a gente tem
[00:31:40] um quadro dentro do Rapidinhas
[00:31:42] que chama Roleta do Unfollow
[00:31:44] e ali eu percebo
[00:31:46] onde atua a irritação
[00:31:47] da minha audiência e também as pessoas
[00:31:50] percebem a minha. O Roleta do Unfollow
[00:31:52] nada mais é do que
[00:31:54] você expor algo
[00:31:56] que todo mundo gosta, menos você.
[00:31:58] E isso causa às vezes
[00:32:00] umas polêmicas, porque
[00:32:02] você pode tanto não gostar
[00:32:04] de um artista específico,
[00:32:06] sei lá, um cantor, uma cantora.
[00:32:08] Quem já falou algo
[00:32:10] sobre a Taylor Swift de maneira
[00:32:12] negativa, sabe o que é lidar
[00:32:14] com os fãs da Taylor Swift.
[00:32:16] Por exemplo,
[00:32:17] quanto você pode dizer que não gosta de feijão
[00:32:19] e alguém vai ficar muito revoltado
[00:32:22] que você não gosta de feijão.
[00:32:23] Mas na verdade, esse quadro, ele acaba
[00:32:25] aproximando pessoas que se sentem excluídas
[00:32:28] de alguma maneira por ou não gostar
[00:32:30] da cantora do momento ou não
[00:32:32] gostar da comida mais
[00:32:34] brasileira que tem. Mas dá
[00:32:36] pra enxergar bastante a irritação das pessoas ali
[00:32:38] porque vem muita coisa de
[00:32:40] relacionamento humano, sabe?
[00:32:42] De irritação entre a família,
[00:32:44] irritação com o namorado.
[00:32:46] Irritação com o atendente do telemarketing.
[00:32:49] Ou a visão da atendente
[00:32:50] do telemarketing que só recebe
[00:32:52] gente irritada pra resolver
[00:32:54] os problemas. Olha,
[00:32:56] eu sei, pra mim,
[00:32:58] o que é uma pessoa irritante.
[00:33:00] Agora, eu acho que vai muito de cada
[00:33:02] um. Tipo, gosto de
[00:33:04] ah, eu acho isso bonito, eu não acho.
[00:33:06] Eu tenho meio um perfil de
[00:33:08] bem certo do que é
[00:33:10] uma pessoa irritante na minha cabeça.
[00:33:12] E de várias situações.
[00:33:14] A pessoa que te interrompe
[00:33:15] demais quando você tá falando, pra mim,
[00:33:18] é extremamente irritante.
[00:33:19] A pessoa que tudo que você tá falando
[00:33:22] ela volta pra si, o assunto
[00:33:24] também me irrita muito.
[00:33:26] Quando eu tô andando a pé, ou
[00:33:27] a pessoa que tá de carro, que não te dá
[00:33:29] passagem, que você tá vendo que tá chovendo
[00:33:32] e a pessoa tá ali
[00:33:33] que quer passar e buzina
[00:33:35] e passa na poça e te joga
[00:33:37] água. Faltas de educação
[00:33:39] é uma coisa muito irritante, né? Acho que chegamos
[00:33:42] no ponto. Pessoas mal educadas,
[00:33:43] pessoas que tratam os outros
[00:33:45] mal, pessoas que não percebem
[00:33:47] a presença do outro, pessoas que falam
[00:33:49] muito alto no telefone, dentro
[00:33:51] de um ambiente fechado,
[00:33:53] pessoa que atende o outro no viva voz,
[00:33:55] pessoa que assiste vídeo com o som
[00:33:57] ligado. A falta de educação, no
[00:33:59] geral, pra mim, me irrita
[00:34:01] muito. Olha, se eu pudesse
[00:34:03] dar uma dica, não vou dizer que eu consigo
[00:34:05] aplicar isso na minha vida toda vez.
[00:34:08] Mas, se você já identificou
[00:34:09] coisas que te irritam e que estão
[00:34:11] no seu controle,
[00:34:13] por exemplo, às vezes eu participo de algum
[00:34:15] podcast, não tô falando que vai acontecer isso
[00:34:17] nesse.
[00:34:19] Mas as pessoas fazem aqueles cortes
[00:34:21] e aí acaba viralizando e eu
[00:34:23] chego num fura bolha, né?
[00:34:25] Chego num público que não me conhece,
[00:34:28] que não é meu e tal
[00:34:29] e aí eu sou bastante xingada
[00:34:32] ou, sei lá, as pessoas comentam
[00:34:34] coisas bem desagradáveis. E aí
[00:34:35] eu já sei quando isso
[00:34:37] acontece, eu já faço uma técnica
[00:34:40] que é tirar o Instagram
[00:34:41] da minha página ali principal, deixar
[00:34:43] o ícone lá nos últimos
[00:34:45] de aplicativos, que só de eu abrir o celular
[00:34:47] e lembrar que eu movi ele pra lá, é que eu tô
[00:34:49] num momento que não é pra eu ficar lendo
[00:34:51] o que tá sendo escrito a meu respeito
[00:34:54] ali. Então eu me poupo
[00:34:55] de coisas que me irritam.
[00:34:57] Fazer uma peneirinha da amizade, eu chamo
[00:34:59] de peneirinha da amizade, quando você faz
[00:35:01] aquela limpa de amigos que não te agregam mais,
[00:35:04] que não foram pro mesmo
[00:35:06] lugar que você e que de repente
[00:35:08] se tornaram pessoas desagradáveis
[00:35:09] do seu convívio. Isso a gente também pode
[00:35:12] acrescentar pra família. Não é
[00:35:13] sempre que um parente vai ser
[00:35:15] legal, bem-vindo, querido.
[00:35:18] Então eu acho que eu não vejo mais
[00:35:19] hoje em dia problema em me desligar
[00:35:21] dessas pessoas com mais facilidade.
[00:35:24] Eu acho que antes eu tinha uma cabeça de
[00:35:25] ah, mas foi meu amigo a vida toda.
[00:35:27] Ah, mas poxa, é meu tio.
[00:35:29] Agora não, agora foi, mas
[00:35:31] agora não tá me fazendo bem, não quero mais.
[00:35:33] Tchau. Então acho que essa seria
[00:35:35] uma dica. Você, de fato,
[00:35:38] fazer uma limpa nas coisas que te irritam
[00:35:40] agora. Se o seu vizinho de cima
[00:35:42] está fazendo uma obra,
[00:35:43] se de repente
[00:35:45] tem uma maquita na sua cabeça
[00:35:47] e de fato você está
[00:35:49] livre pra ser uma pessoa um pouco
[00:35:51] irritada, porque não tem o que fazer.
[00:35:54] Tá bom, espero que eu tenha ajudado
[00:35:55] aí, não se irritem comigo.
[00:35:58] Escutando a Camila aí, fiquei
[00:35:59] pensando numa coisa que ela falou
[00:36:01] dessa sensação de como parece
[00:36:03] que a gente vem se
[00:36:05] ofendendo com muita facilidade
[00:36:07] por muito pouco. Isso justamente
[00:36:09] por um estado mais
[00:36:11] de irritabilidade maior.
[00:36:13] Esse exemplo que ela deu das pessoas que trazem
[00:36:15] sempre o assunto pra si, eu achei
[00:36:17] muito interessante, que é essa falta mesmo
[00:36:19] de escuta e falta de capacidade
[00:36:22] de conviver um com o outro
[00:36:24] e de você, numa dificuldade de coabitar
[00:36:26] o mesmo espaço até.
[00:36:28] E você se ofender,
[00:36:30] se alguém gosta de uma coisa e você não gosta,
[00:36:33] por que você vai se ofender
[00:36:34] com isso? Por que você vai querer
[00:36:36] comprar abrigo com essa pessoa?
[00:36:38] Precisa mesmo uma separação aí.
[00:36:39] É, tá identificado demais com o objeto.
[00:36:42] Esse é o grande drama do
[00:36:43] Swifters que ela foi lá e citou.
[00:36:45] Que é estar tão identificado com o objeto
[00:36:47] idealizado, que é uma coisa que você falou
[00:36:49] bastante ao longo da nossa conversa.
[00:36:51] Mas tá tão identificado com esse objeto idealizado
[00:36:53] do Taylor Swift que…
[00:36:55] Não pode existir ninguém no mundo que não gosta dessa pessoa.
[00:36:58] Exato. Que é a mesma coisa
[00:36:59] de todos os fandoms.
[00:37:01] Da Beehive, dos fãs do BTS,
[00:37:04] dos, enfim…
[00:37:05] Dos Vitor Lovers.
[00:37:07] Ou mesmo de quem joga League of Legends,
[00:37:10] Free Fire, Roblox, Minecraft,
[00:37:11] enfim, todos esses fandoms.
[00:37:13] Que parecem estar organizando boa parte
[00:37:15] da cultura hoje. E aí qualquer
[00:37:17] tipo de crítica
[00:37:19] é interpretado automaticamente como um ataque.
[00:37:21] E aí vem uma manada raivosa
[00:37:23] tentando derrubar aquele que foi o autor
[00:37:25] do impropério,
[00:37:27] da audácia de estabelecer
[00:37:29] algum tipo de crítica. Mas de novo,
[00:37:31] a questão é estar numa identificação
[00:37:33] muito maciça, porque sente como um ataque.
[00:37:36] Eu achei bom no começo da fala da Camila
[00:37:37] quando ela traz essa ideia de
[00:37:39] respeitar e até
[00:37:41] temer um pouco o poder
[00:37:43] contagiante da irritabilidade.
[00:37:45] Sim. De como no
[00:37:47] ambiente familiar ou na vida cotidiana
[00:37:49] a irritação tem que ser guardada
[00:37:51] pra alguns momentos. Porque se
[00:37:53] ela passa a ser o modus operandi de
[00:37:55] tudo, vai ser muito difícil conseguir sustentar
[00:37:57] os vínculos. Completamente. A gente vai
[00:37:59] ter que, de alguma forma, saber administrar
[00:38:01] essa irritabilidade
[00:38:03] e se observar. E aí, se
[00:38:05] autoconhecer mesmo sobre o seu estado emocional.
[00:38:08] E ver o que vai
[00:38:08] também engatilhar você. Por que você
[00:38:11] vai atrás do motivo
[00:38:13] de se sentir incomodado?
[00:38:15] Então tem aí uma necessidade de se responsabilizar
[00:38:18] pela nossa irritação,
[00:38:20] mesmo que essas provocações
[00:38:22] pareçam vir sempre de fora.
[00:38:24] Porque, até mesmo se você pensa,
[00:38:25] um mesmo evento externo pode
[00:38:27] esgotar sua paciência num momento,
[00:38:30] mas no outro dia não te abalar.
[00:38:31] Então, vale uma mãozinha na cabeça
[00:38:34] nessa hora e refletir.
[00:38:35] Olha, eu acho que hoje, de fato,
[00:38:37] eu estou irritado. Então eu vou
[00:38:40] minimizar as chances
[00:38:41] de fazer coisas que vão ser impulsivas,
[00:38:44] que vão prejudicar as minhas relações
[00:38:46] e se antecipar
[00:38:48] um pouco. Acho que a análise também
[00:38:50] ajuda muito nesse sentido. Você fazer alguns
[00:38:51] cálculos, assim. Isso é maturidade
[00:38:54] emocional. Não é
[00:38:55] nunca se irritar. Não é achar
[00:38:58] que as pessoas que se irritam
[00:38:59] são inferiores ou… Claro que a gente
[00:39:02] não quer deixar a primitividade
[00:39:03] e a selvageria tomar conta.
[00:39:05] Então, pra isso, vale a gente ter
[00:39:07] uma comunicação também mais
[00:39:10] assertiva e honesta.
[00:39:11] Comesta com os outros. Irrespeitosa.
[00:39:14] No lugar de acusações raivosas.
[00:39:15] É, e mesmo num sentido de avisar
[00:39:17] Oi, queria te avisar que hoje eu tô irritado.
[00:39:20] Por um aspecto, tem a ver
[00:39:21] com você. Mas por muitos
[00:39:23] outros, não. Não é sobre você.
[00:39:25] Ou mesmo, não tem nada a ver com você. Mas eu quero
[00:39:27] te avisar que eu tô irritado hoje. Então eu vou
[00:39:29] te pedir um pouco de paciência. A gente não tem
[00:39:31] que ter vergonha de admitir que tá irritado.
[00:39:34] Isso não faz da gente uma pessoa inferior.
[00:39:36] Porque eu acho que existe também esse
[00:39:37] ideal da pessoa que é
[00:39:39] supostamente evoluída entre a
[00:39:41] aspas, que nunca perde a linha.
[00:39:44] Que tá acima de tudo e de todos.
[00:39:46] Que olha de cima, que não se abala fácil.
[00:39:48] A pessoa que faz meditação.
[00:39:50] A pessoa que faz análise, inclusive.
[00:39:53] Então ela tá sempre tranquila.
[00:39:54] E os outros são loucos, são selvagens,
[00:39:56] são barraqueiros. Só que
[00:39:58] essa pessoa que acha que nunca perde a linha,
[00:40:00] ela pode ser muito nociva pras relações.
[00:40:02] Porque ela vai reprimir
[00:40:04] os seus afetos e vai
[00:40:06] tender a se comportar
[00:40:08] de uma forma muito irritante, que é
[00:40:10] passivo-agressivo.
[00:40:11] Não sei se você conhece
[00:40:13] esse termo.
[00:40:20] Essa última imagem
[00:40:21] que você trouxe me fez pensar,
[00:40:23] Lucas, em como é complexo.
[00:40:26] E aí você falou
[00:40:27] putz, tem dias que eu tô irritado.
[00:40:30] E não é com você,
[00:40:32] ou talvez seja um pouco com você,
[00:40:34] mas esse teu raciocínio…
[00:40:35] Ou vai sobrar pra você.
[00:40:38] Mas esse teu raciocínio
[00:40:39] me fez pensar em como é sobre o
[00:40:41] monte de coisas. E eu queria
[00:40:43] elaborar um pouquinho sobre isso. Você sabe que eu tô
[00:40:45] relendo Segúrios Antes Que Caiam,
[00:40:47] do Christopher Bolas.
[00:40:48] Catch Them Before They Fall. Aquele
[00:40:51] psicanalista estadunidense que foi
[00:40:53] recentemente traduzido, finalmente, pela
[00:40:55] editora NOS. E tem uma passagem
[00:40:57] que ele fala sobre experiências emocionais,
[00:40:59] que é o meu capítulo favorito do livro.
[00:41:01] Ele fala sobre como um afeto
[00:41:03] é um evento interno único.
[00:41:06] Geralmente um estado mental e corporal,
[00:41:08] tipo ansiedade, alegria,
[00:41:09] raiva ou medo. Mas
[00:41:11] não existe a ideia de
[00:41:13] uma emoção. Existem
[00:41:15] experiências emocionais, que
[00:41:17] vão ser essas condensações
[00:41:19] de muitos elementos internos.
[00:41:22] Uma experiência emocional
[00:41:23] é uma organização.
[00:41:25] É quase como se fosse um sonho acordado.
[00:41:28] Ou seja, não tem
[00:41:29] nada puro. Não tem nada em estado
[00:41:31] bruto. Não tem estou irritado por
[00:41:33] isso. Porque o que eu acho que
[00:41:35] eu tô sentindo, muitas vezes,
[00:41:37] é a junção de vários afetos, memórias,
[00:41:39] desejos e expectativas.
[00:41:41] Em movimento. E aí tem uma parte
[00:41:43] desse capítulo em que ele fala sobre como
[00:41:45] a gente precisa respeitar a dor.
[00:41:47] Porque as pessoas choram, gritam,
[00:41:49] urram, se debatem. Geralmente
[00:41:51] empregam todos os recursos
[00:41:53] disponíveis pra conseguirem
[00:41:55] ser quem elas são.
[00:41:57] Esses estados em que a gente vai pegando
[00:41:59] tudo que a gente pode pra conseguir manifestar
[00:42:01] o que a gente é, ou o que a gente tá
[00:42:03] sentindo, ou qual é a dor que a gente tá
[00:42:05] acessando, pro bolas
[00:42:07] não são estados de identificações
[00:42:09] projetivas, mas são
[00:42:11] objetificações projetivas.
[00:42:14] Nos momentos mais
[00:42:15] infernais das nossas vidas,
[00:42:17] tem que a gente tenta se objetificar.
[00:42:20] Perguntando pra Deus,
[00:42:21] pro cosmos, pra vida,
[00:42:23] por que eu sou desse jeito? Só que nada
[00:42:25] é projetado pelas pessoas da mesma forma.
[00:42:28] Cada um de nós é
[00:42:29] uma coisa específica. Ou seja,
[00:42:31] a gente tá sempre irritado
[00:42:33] por uma condensação
[00:42:35] de eventos internos
[00:42:37] únicos. E que tão
[00:42:39] mobilizando várias coisas ao mesmo tempo.
[00:42:41] Inclusive expectativas, desejos,
[00:42:43] afetos e memórias.
[00:42:45] E que às vezes a gente vai coisificar.
[00:42:47] Porque perante esses objetos
[00:42:49] que nos irritam, a gente
[00:42:51] também se sente um pouco coisificado.
[00:42:54] Ou retornado a um estado de
[00:42:55] que, por que eu sou essa coisa?
[00:42:57] E por que essa outra coisa me
[00:42:59] coisifica ou faz isso comigo?
[00:43:01] Quase como se andasse um monte
[00:43:03] de coisas em bando dentro de nós.
[00:43:06] É tá irritado
[00:43:07] ao mesmo tempo porque estragou
[00:43:09] a minha camiseta favorita,
[00:43:11] mas também pelas condições de vida
[00:43:13] nesse sistema que a gente vive.
[00:43:15] Um sentimento de solidão
[00:43:17] que rememora muitas vivências
[00:43:19] do passado. E talvez
[00:43:21] uma falta de linguagem
[00:43:24] pra poder dar conta de tudo isso.
[00:43:25] Mas aí eu já tô indo longe demais.
[00:43:27] Eu concordo que as emoções vêm todas
[00:43:29] muito misturadas. E é difícil
[00:43:32] talvez nomear
[00:43:33] todas elas, identificar todas elas.
[00:43:36] Mas eu sinto que
[00:43:37] tem algumas que predominam em alguns momentos.
[00:43:40] E…
[00:43:41] Como lidar com uma pessoa irritada?
[00:43:43] Porque quando você
[00:43:45] tá convivendo, encontra alguém
[00:43:47] que tá triste ou que tá ansioso,
[00:43:50] a gente consegue ser mais empático.
[00:43:52] Agora uma pessoa que tá irritada
[00:43:53] ou que tá agressiva
[00:43:55] é quase impossível a gente
[00:43:57] apoiar essa pessoa ou escutar
[00:43:59] ela porque muitas vezes
[00:44:01] o discurso já vem
[00:44:03] engatilhando alguns códigos
[00:44:05] que fazem
[00:44:07] a gente não baixar
[00:44:09] a cabeça. A gente entra
[00:44:11] numa postura também
[00:44:12] defensiva. E fica difícil,
[00:44:15] como a gente já falou, separar o que é meu
[00:44:17] e o que é do outro.
[00:44:18] E a conversa
[00:44:20] tende justamente a misturar as coisas.
[00:44:23] Porque
[00:44:23] essa pessoa tá irritada comigo ou ela tá irritada
[00:44:26] porque ela é irritada
[00:44:28] ou outras coisas irritaram ela?
[00:44:30] Qual que é a diferença?
[00:44:32] Essa pessoa tá desregulada. E a gente tá
[00:44:34] tentando não confrontar
[00:44:37] esse sujeito. Tentando ajudar
[00:44:38] esse sujeito. Tirar ele daquele estado emocional.
[00:44:41] Mas como é que você vai ter empatia
[00:44:42] com alguém que tá descarregando em você
[00:44:44] de qualquer jeito? Ou mesmo coisas
[00:44:46] que inclusive não tem nada a ver com você?
[00:44:49] É impossível não responder a essas
[00:44:50] provocações. Porque a pessoa irritada
[00:44:53] ela tá louca pra brigar. E aí
[00:44:54] você cai numa cilada de ser estimulado
[00:44:57] pela hostilidade. Ainda mais
[00:44:58] se você também não tá muito bem
[00:45:00] dos nervos naquele momento.
[00:45:02] E aí a gente realmente
[00:45:04] corre o risco da violência, de romper
[00:45:06] o pacto civilizatório, de machucar
[00:45:09] um ao outro. Aquela relação
[00:45:11] que a gente vive pode não ter mais
[00:45:12] volta. Às vezes por coisas
[00:45:14] muito mundanas. Mas é
[00:45:16] que tinha mais coisas por trás.
[00:45:19] Coisas que nunca foram conversadas.
[00:45:20] Que talvez nunca venham a ser
[00:45:22] conversadas. E aí eu fico pensando
[00:45:24] que o que mais se fala hoje em dia
[00:45:26] é sobre a gente estabelecer os limites.
[00:45:29] Aprender a dizer mais
[00:45:30] não. Quais são os limites
[00:45:32] saudáveis num relacionamento?
[00:45:35] Ou em certas situações? Pra prevenir
[00:45:37] essa irritação
[00:45:38] de se sentir sobrecarregado.
[00:45:41] De se sentir desrespeitado.
[00:45:44] Quando que a gente coloca
[00:45:45] esse limite do não? Isso aqui
[00:45:47] eu não vou tolerar. Porque isso aqui
[00:45:48] vai me tirar do sério. Como que a gente faz isso?
[00:45:52] Eu acho que a gente pode
[00:45:53] deixar por aqui. Não acho que
[00:45:54] exista mais nada nessa sessão
[00:45:56] que a gente possa dizer. Vamos se acalmar
[00:45:59] então. Escutar uma música, ler um livro.
[00:46:01] Um podcast.
[00:46:02] Dar uma volta pra se acalmar.
[00:46:05] Até. Tchau.
[00:46:11] Tchau.