AMOR ANIMAL
Resumo
O episódio investiga a paixão e, por vezes, obsessão contemporânea por animais de estimação. Partindo de dados que mostram o Brasil como um dos maiores mercados pet do mundo, os hosts Lucas e André, ambos psicanalistas, questionam os motivos por trás desse fenômeno e seus desdobramentos psíquicos e sociais.
A discussão percorre a evolução histórica da relação, desde animais domésticos com funções utilitárias até os “pets” como objetos de devoção e amor incondicional. São explorados os benefícios comprovados da convivência com animais, como a liberação de oxitocina, redução do estresse e o desenvolvimento da empatia, especialmente em crianças. No entanto, o foco recai sobre os excessos: a humanização narcísica, onde o pet é tratado como filho ou extensão do self, e a instrumentalização dessa relação pelo consumo, que transforma o animal em acessório de status e nicho de mercado.
Os hosts analisam como a simplicidade afetiva dos animais, contrastada com a complexidade das relações humanas, pode servir como refúgio ou mesmo justificativa para o afastamento do contato interpessoal. Conceitos psicanalíticos como projeção, narcisismo e a “castração” simbólica (e real, no caso dos animais) são aplicados para entender dinâmicas como a atribuição de desejos humanos aos bichos, os ciúmes e a dificuldade em lidar com a indiferença ou a perda do pet. O episódio também aborda fenômenos patológicos, como o acumulador de animais, e a indústria da fofura (“Cute Studies”) que capitaliza nossos instintos de cuidado.
Indicações
Artigos
- Artigo na revista de estudos em semiótica e psicanálise da PUC — Artigo citado por André que trata do pet como “sua majestade”, analisando a mudança de status dos animais na sociedade contemporânea.
- Artigo do Christian Dunker no livro “Reinvenção da Intimidade” (Capítulo 11) — Discute como os pets são “como nós, mas não são como nós”, abordando a operação de retirar a outridade do animal ao tratá-lo como um bichinho de pelúcia idealizado.
- Artigo na Gama sobre Joshua Dale — Artigo que levou os hosts ao trabalho de Joshua Dale e seus estudos sobre a fofura (Cute Studies).
- Artigo no Atlantic sobre a obsessão millennial por cachorros — Aborda como os cachorros se tornaram marcadores de classe e símbolo de status para a geração millennial, substituindo marcadores tradicionais de sucesso.
Conceitos
- Baby Esquema (Konrad Lorenz) — Conjunto de características físicas infantis (rosto redondo, olhos grandes) que são percebidas como fofas e motivam comportamentos de cuidado nos seres humanos, transferido para os animais de estimação.
- Neotenia — Conceito científico que explica a retenção de características juvenis na fase adulta dos animais domesticados, contribuindo para a estética “fofa” que atrai os humanos.
- Teoria do Apego (John Bowlby) — Teoria desenvolvida no pós-guerra, originalmente no contexto da relação mãe-bebê, aplicada à relação tutor-pet, criando um efeito de “base segura” que beneficia ambos.
- Antropomorfização — Processo de atribuir características, emoções ou intenções humanas a animais (ou outros seres não-humanos). Conceito central para entender a relação contemporânea com os pets.
Livros
- Irresistível. Como a fofura conectou nossos cérebros e conquistou o mundo — Livro de Joshua Dale, pioneiro nos “Cute Studies”. Discute o efeito reparador da fofura, como vídeos de gatinhos podem reduzir ansiedade e aumentar a energia, e como objetos fofos são usados para induzir comportamentos de cuidado.
Pessoas
- Sigmund Freud — Citado por sua preferência por animais, considerados mais simples e agradáveis que os humanos, que sofrem com as exigências da civilização. Sua cadela Jufi é mencionada como uma das primeiras a atuar em um setting terapêutico.
- Francisco Juliano Cabral — Biólogo, mestre em psicologia experimental e doutorando em comportamento animal pela USP. Especialista entrevistado que trouxe a perspectiva da psicologia animal, apego e neotenia.
- Kenia Gitke — Socióloga entrevistada que estuda a antropomorfização dos animais de estimação em sua tese de doutorado. Trouxe a análise sociológica do fenômeno, vinculando-o a consumo, identidade e desencanto com o humanismo.
- Christian Dunker — Psicanalista citado em vários momentos, principalmente por seu artigo sobre acumuladores de animais e pelo capítulo sobre pets em “Reinvenção da Intimidade”.
Linha do Tempo
- 00:02:27 — Introdução e a pergunta fundamental: humanos ou animais? — Lucas provoca André com a pergunta clássica sobre preferência entre humanos e animais. André responde que prefere humanos, mas isso leva à citação de Freud, que considerava os animais mais agradáveis por sua simplicidade emocional, não sofrendo da “personalidade dividida” imposta pela civilização. Este ponto estabelece a tese central do episódio: a atração pelos pets reside em sua aparente simplicidade afetiva.
- 00:04:45 — Evolução semântica: de doméstico a pet — André analisa a mudança terminológica de “animal doméstico” (relativo à casa/função) para “animal de estimação” (ser querido) e, finalmente, para o termo inglês “pet”. Ele destaca que “to pet” significa acariciar, mimar, denotando um movimento em direção a um objeto de devoção e atenção especial, e não mais apenas de estima ou utilidade prática. Isso sinaliza uma transformação profunda no lugar que os animais ocupam nas vidas humanas.
- 00:08:22 — Benefícios emocionais e a química do afeto — Os hosts listam os benefícios comprovados da convivência com pets: combate à solidão, incentivo à atividade física, exercício do cuidado e liberação de oxitocina, o “hormônio do amor”. Eles mencionam que até assistir a vídeos de pets pode desencadear essa resposta química, explicando o vício nesse tipo de conteúdo e o sucesso dos “petfluencers”. A simplicidade do carinho físico com animais, livre das complexidades e confusões das relações humanas, é destacada.
- 00:14:12 — Pets como filhos: narcisismo e o ideal de amor — O episódio aborda a polêmica de tratar pets como filhos. Discute-se como, em um contexto de queda nas taxas de natalidade, solidão urbana e adiamento da parentalidade, os animais ocupam um espaço afetivo. Esse amor é analisado como potencialmente narcísico, onde o tutor se ama através do animal, projetando nele qualidades ideais. O pet é um “filho que não cresce, não abandona e retribui o amor sem grandes conflitos”, tornando-se um objeto de amor idealizado e controlável.
- 00:24:53 — Entrevista com especialista: a perspectiva da psicologia animal — Francisco Juliano Cabral, biólogo e doutorando em comportamento animal, explica que os pets preenchem lacunas afetivas e sociais criadas pela sociedade neoliberal e individualista. Ele fala sobre a teoria do apego (Bowlby) aplicada à relação tutor-pet, criando uma “base segura” para ambos. Também introduz conceitos como “neotenia” (retenção de características juvenis) e “baby esquema” (Lorenz), que explicam por que achamos filhotes e animais domesticados “fofos” e somos instintivamente levados a cuidar deles.
- 00:30:18 — Entrevista com especialista: a perspectiva sociológica — A socióloga Kenia Gitke analisa a antropomorfização dos pets como um fenômeno moderno, vinculado a padrões de consumo e construção de identidade. Ela aponta a contradição: desencantados com a humanidade, guiamos os pets pelo mesmo processo civilizatório (controle, medicalização, higienização). A relação é marcada por consumo (de ração premium a spas) e gera novos conflitos sociais (espaços públicos, definições de maternidade). Ela ressalta a moralidade em torno dos pets e o lugar “limbo” dos estudos animais nas ciências sociais.
- 00:40:07 — A indústria da fofura e o consumo instrumentalizado — Os hosts exploram como a “fofura” (kawaii, cute studies) dos pets foi instrumentalizada pelo mercado. Estudos mostram que vídeos fofos reduzem ansiedade e aumentam a produtividade, e imagens fofas influenciam comportamentos (como usar mais uma lixeira). Essa resposta quase compulsiva à fofura é aproveitada pelo “tecnocapitalismo psicopolítico” para conduzir o consumo. A conversa também aborda os “petfluencers” e a transformação do animal em pseudo-sujeito consumidor e celebridade.
- 00:47:46 — Pets como marcadores de status e a crise dos marcadores tradicionais — André discute como os pets, especialmente cães, tornaram-se marcadores de status para gerações mais jovens (millennials) que têm menos acesso a marcadores tradicionais como casa própria, carreira estável ou filhos. Ter um pet comunica estabilidade psíquica, maturidade e responsabilidade. No entanto, essa posse também tem barreiras econômicas, excluindo pessoas de baixa renda. A função de suporte emocional do pet é valorizada universalmente, mas sua posse pode significar coisas diferentes em diferentes estratos sociais.
- 00:54:56 — Castração real vs. simbólica e os limites da linguagem animal — Lucas levanta o tema da castração animal como um poder inquestionável do tutor sobre o corpo do animal, visando adaptá-lo à convivência humana (evitar doenças, comportamentos indesejados). Isso é comparado à castração simbólica humana, necessária para a entrada na linguagem e cultura. A discussão evolui para questionar se os animais têm linguagem e inconsciente (já que sonham, reconhecem palavras e expressões), mas conclui que a grande questão humana por trás disso é narcísica: “Será que ele sonha comigo? Será que sou importante para ele?”
- 00:56:28 — Conclusão: A importância da indiferença e o aprendizado relacional — André propõe que uma relação saudável com os pets requer aceitar uma “parcela de indiferença” do animal, rompendo a fantasia de amor incondicional e ininterrupto. Lidar com a falta e a perda (inevitável, dada a menor longevidade dos pets) é crucial. Lucas finaliza refletindo que os pets podem ser aliados para reduzir nosso antropocentrismo e nos ensinar sobre nós mesmos, separando o que é nosso do que é do outro, um exercício mais complexo com humanos. A relação com o pet é um lugar de testemunho e continência emocional, mas não deve substituir a complexidade do vínculo humano.
Dados do Episódio
- Podcast: vibes em análise
- Autor: floatvibes
- Categoria: Society & Culture
- Publicado: 2024-04-25T08:32:00Z
- Duração: 01:00:11
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/90f830c0-f4cb-0139-d4ee-0acc26574db2/episode/dea37f5f-28b2-4a00-ace5-0c95044a314c/
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Dados do Podcast
- Nome: vibes em análise
- Tipo: episodic
- Site: https://vibes-em-analise.zencast.website
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Transcrição
[00:00:00] Para os 215 milhões de brasileiros, existem 168 milhões de animais de estimação no país.
[00:00:07] Pois é, o Brasil é o segundo maior consumidor de produtos para pets, perdendo só para os Estados Unidos.
[00:00:13] Hoje, a gente vive em um país que tem mais pet shops do que farmácias.
[00:00:18] Mas por que será que a gente é tão apaixonado, e talvez até um pouco obcecado, por esses bichinhos?
[00:00:23] Os pets são, para alguns de nós, o bálsamo perfeito para o purgatório de ansiedade.
[00:00:28] Diversos estudos mostram como um animal pode trazer muitos benefícios para o seu tutor.
[00:00:34] Fazer companhia para quem se sente solitário, ser um motivo para sair de casa e da frente das telas pelo menos uma vez ao dia.
[00:00:40] E um animal pode ainda ser uma ótima forma de exercitar o cuidado com o outro, e ficar menos ensimesmado.
[00:00:47] Pode até trazer conforto para atravessar as grandes perdas da vida.
[00:00:51] A fidelidade canina e a independência felina tem mesmo muito a nos ensinar.
[00:00:55] É por isso que os pais e mães de pets brasileiros,
[00:00:58] segundo uma pesquisa da Comac,
[00:01:00] consideram a saúde do pet tão importante quanto a da sua família.
[00:01:05] Mas e quando essas relações com os animais começam a comprometer as nossas relações humanas?
[00:01:10] E outras áreas da nossa vida?
[00:01:13] Sabe quando o único vídeo que você se interessa em ver e compartilhar é de um gatinho tocando piano?
[00:01:18] Daí parece que a lógica se inverte um pouco.
[00:01:21] E aí é como se o pet tivesse um humano de estimação.
[00:01:25] Então não dá pra gente humanizar demais esse ser.
[00:01:28] Mas a questão é qual que é o limite?
[00:01:30] O que a nossa relação com os animais diz sobre o estado atual das coisas?
[00:01:35] Do nosso equilíbrio emocional?
[00:01:37] Da saúde das nossas relações?
[00:01:39] E até dos símbolos de status?
[00:01:43] Afinal, vale a gente lembrar que os pets também são signos da nossa identidade pessoal e cultural.
[00:01:49] Como nos lembra muito bem o amado ícone nacional, o vira-lata caramelo.
[00:01:54] Oi, eu sou o Lucas Liedtke.
[00:01:56] E eu sou o André Alves.
[00:01:57] Esse é o Vibes em Análise.
[00:01:59] Um podcast que se propõe a analisar algumas das vibes que estão submersas no inconsciente coletivo.
[00:02:04] O André e eu somos psicanalistas e pesquisadores.
[00:02:07] E as nossas análises estão no perfil Float Vibes.
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[00:02:21] Qualquer valor é uma contribuição super importante pra gente.
[00:02:24] Todos os links estão na descrição do episódio.
[00:02:26] Então vamos lá.
[00:02:27] André, eu sei que essa pergunta é meio idiota, mas só pra começar a esquentar a discussão.
[00:02:32] Você gosta mais de humanos ou animais?
[00:02:35] Música
[00:02:52] Olha só, Lucas.
[00:02:53] Você fez a pergunta clássica.
[00:02:54] Mas eu vou dar uma resposta não clássica.
[00:02:56] Não foge da resposta.
[00:02:58] Eu gosto mais de humanos do que de animais.
[00:03:00] Tá.
[00:03:01] Mas é claro que quando você fala isso eu lembro direto daquela frase tão famosa do Freud numa das raras entrevistas.
[00:03:07] Em que ele diz que os animais são tão mais simples.
[00:03:11] E não sofrem da personalidade dividida, da desintegração do ego.
[00:03:16] E de tudo mais que resulta na tentativa do homem se adaptar aos padrões da civilização.
[00:03:21] Que são demasiado elevados.
[00:03:23] Para os mecanismos intelectuais e psíquicos.
[00:03:26] Ele defende que os animais são muito mais agradáveis.
[00:03:29] Porque as emoções são mais simples e diretas.
[00:03:31] Por exemplo, quando um cão abana a cauda.
[00:03:34] Ou late expressando o seu desprazer.
[00:03:36] Nessa entrevista, lá do século passado.
[00:03:39] A gente tem o rastro de uma convicção que segue com a gente até hoje.
[00:03:43] Os animais são mais simples.
[00:03:45] As emoções.
[00:03:47] E por isso as suas companhias também são mais agradáveis.
[00:03:50] Isso é fundamental pra gente pensar.
[00:03:52] Toda a discussão sobre pets.
[00:03:55] Porque tem gente que trata os animais como filhos.
[00:03:58] Ou pessoas que se comovem muito mais com a crueldade aplicada a animais.
[00:04:02] Do que com a crueldade aplicada a humanos.
[00:04:04] É, tem mesmo uma simplicidade de afetos que pode ser muito bonita.
[00:04:08] E inspiradora também pra gente.
[00:04:11] Mas vamos lá.
[00:04:12] Comecei a pensar aqui.
[00:04:14] E acho que você também pensou sobre isso.
[00:04:16] O que é essa definição de animal doméstico.
[00:04:19] Ou animal de estimação.
[00:04:21] Ele é doméstico.
[00:04:22] Vem de domus.
[00:04:23] Que é relativo a casa.
[00:04:24] Domicílio.
[00:04:25] Então é um animal que foi domesticado.
[00:04:27] Domado também.
[00:04:28] E adaptado pra entrar no contexto humano.
[00:04:31] No contexto familiar.
[00:04:32] Na vida de uma casa.
[00:04:34] E animal de estimação é porque é um ser estimado.
[00:04:37] Um ser querido.
[00:04:38] Amado.
[00:04:39] E desejado.
[00:04:41] E que pode entrar até num lugar de devoção.
[00:04:43] São bons esses termos.
[00:04:45] Porque dá pra gente pensar inclusive numa pequena análise sócio histórica.
[00:04:49] De como animais domésticos se tornaram animais de estimação.
[00:04:54] E esses dois são códigos meio residuais dessa conversa.
[00:04:58] E pets talvez seja o código dominante.
[00:05:01] O termo chave pra gente falar de um tempo em que os animais ocupam definitivamente outro lugar.
[00:05:07] Nas nossas vidas.
[00:05:09] Ou como eu tava lendo num artigo muito bom na revista de estudos em semiótica e psicanálise da PUC.
[00:05:14] Sua majestade.
[00:05:16] O pet.
[00:05:17] Sim.
[00:05:18] Até porque pet em inglês é um verbo com o sentido de fazer carinho.
[00:05:22] De acariciar e mimar.
[00:05:24] Se a gente considerar que historicamente animais domésticos tinham que cumprir uma função no domicílio.
[00:05:30] No domus.
[00:05:31] Pra justificar o gasto de energia e de comida com eles.
[00:05:34] Por exemplo a caça pros cachorros ou o controle de pragas pros gatos.
[00:05:39] A gente tem realmente uma grande mudança.
[00:05:42] Porque o verbo to pet do inglês a gente pode definir como
[00:05:47] dedicar e devotar uma atenção especial.
[00:05:51] Ou seja, a gente não tá falando mais de um objeto de estimação.
[00:05:54] Mas sim de um objeto de devoção.
[00:05:57] E de quem a gente inclusive passou a esperar devoção.
[00:06:00] Uma veneração muito especial.
[00:06:02] É muito mais do que gostar.
[00:06:04] É um amor perfeito, sagrado, talvez até divino.
[00:06:07] Não é a toa que a gente tá tão em paz com a ideia de que os gatos mandam nos seus donos.
[00:06:11] É, André. Aí você falando vem um questionamento.
[00:06:14] Pra que que serve?
[00:06:15] Tem que ter uma utilidade também, os animais domésticos.
[00:06:18] Voltando no tempo, se a gente vai lá pra filosofia medieval, renascentista.
[00:06:24] É quando surge a ideia de que a natureza tá aí.
[00:06:26] Pra servir aos interesses dos seres humanos.
[00:06:30] Ou seja, desde lá, e aí pensando claro num paradigma mais eurocêntrico.
[00:06:35] E não de povos originários do Brasil.
[00:06:37] Onde é muito diferente.
[00:06:39] Mas desde lá existia um antropocentrismo.
[00:06:42] Ou seja.
[00:06:43] Todo animal deve servir a algum propósito humano.
[00:06:47] Se não prático, utilitário, ele pode também ser moral.
[00:06:50] Ou estético.
[00:06:51] Estético porque a gente sabe como um pet pode ser hoje tratado como um adereço.
[00:06:56] Um acessório fashion.
[00:06:57] E se a gente pensa que num tempo pré-Darwin.
[00:07:00] O ser humano, ele nem se reconhecia como descendente dos animais.
[00:07:04] Era um ser criado, espelhado a imagem de Deus.
[00:07:07] Que veio do barro, enfim.
[00:07:08] Tem muita gente que ainda acredita nessa história.
[00:07:10] Literalmente.
[00:07:11] Só que.
[00:07:12] Esse olhar então sobre os animais.
[00:07:14] Na modernidade.
[00:07:16] Ele se atualizou.
[00:07:17] Mas não mudou completamente.
[00:07:19] Tem algumas batalhas que vão sendo travadas nesse sentido.
[00:07:23] E eu acho que uma das que é mais comuns aí.
[00:07:25] Mais difundidas.
[00:07:26] Hoje em dia.
[00:07:27] É o movimento de não se falar em dono de um animal.
[00:07:30] Proprietário de um animal.
[00:07:32] Como se fosse um objeto de consumo.
[00:07:33] Ou uma posse.
[00:07:34] Mas sim pensar em tutor ou tutora.
[00:07:36] Que é alguém que cuida e protege o bicho.
[00:07:39] Mas o que parece bastante unânime.
[00:07:41] É como os animais podem fazer um bem pra gente.
[00:07:45] Num sentido até de reconexão.
[00:07:47] Com o nosso lado animal.
[00:07:49] Não necessariamente num sentido de um lado selvagem.
[00:07:52] E primitivo ou agressivo.
[00:07:54] Mas algo que nos reconecta.
[00:07:56] Quem sabe com o tal do tribe.
[00:07:59] Que é o lado humanizado do instinto.
[00:08:03] Ou seja.
[00:08:04] As nossas pulsões.
[00:08:05] A leitura emocional e neurotizada que a gente faz dos nossos instintos.
[00:08:09] Que todos nós temos.
[00:08:10] De sobrevivência.
[00:08:12] De autoconservação.
[00:08:13] Instinto sexual.
[00:08:15] Então.
[00:08:16] Um vínculo com um animal.
[00:08:17] Pode ser muito benéfico.
[00:08:18] Pro nosso bem estar emocional.
[00:08:20] Tem vários estudos que falam dessa.
[00:08:22] Liberação de oxitocina.
[00:08:24] Que desperta sensações de prazer e afeto.
[00:08:26] Só de um tutor ou uma tutora.
[00:08:28] Olharem pro olho do seu animal.
[00:08:30] É.
[00:08:31] Tem estudos que vão apontar ainda que.
[00:08:33] Simplesmente assistir conteúdos de pets.
[00:08:37] Já libera a oxitocina.
[00:08:39] Que é esse hormônio conhecido como aquele que.
[00:08:42] A gente obtém.
[00:08:44] Dos sentimentos de amor.
[00:08:45] De união social.
[00:08:46] De bem estar.
[00:08:47] O que explica o vício em vídeos de gatinho.
[00:08:49] Ou no tamanho que os petfluencers tem tomado.
[00:08:52] Pois é.
[00:08:53] Mas aí quando a gente começa a falar de conteúdo.
[00:08:55] Tem algo que tem tanto a ver com a relação entre.
[00:08:58] Humanos e animais de estimação.
[00:09:00] E que se perde.
[00:09:02] Nesses conteúdos.
[00:09:03] Que é o toque.
[00:09:04] Que é o carinho.
[00:09:06] No bicho.
[00:09:07] E aí mesmo a história do pet.
[00:09:08] Como esse acariciar.
[00:09:10] E.
[00:09:11] É curioso como o carinho entre humanos.
[00:09:14] É bem mais complicado.
[00:09:16] Porque ele gera mais dúvidas.
[00:09:18] Ele.
[00:09:19] Tem algumas confusões.
[00:09:21] De ternura.
[00:09:22] O que que é erótico.
[00:09:23] A grande confusão de línguas.
[00:09:25] Que o Ferenczi falava.
[00:09:27] Mas o carinho no animal.
[00:09:28] Ele tem uma pureza no afeto.
[00:09:30] Tem essa simplicidade aí.
[00:09:31] Que nos mobiliza.
[00:09:32] Parece que num lugar.
[00:09:33] Mais primitivo.
[00:09:35] E mais puro.
[00:09:36] Com intenções.
[00:09:37] Que não são tão.
[00:09:38] Complexificadas.
[00:09:39] Pelos complexos.
[00:09:40] Que a gente tem.
[00:09:41] É.
[00:09:42] Até porque.
[00:09:43] Em tese.
[00:09:44] Os animais.
[00:09:45] Não são os seres da política.
[00:09:46] Como os humanos são.
[00:09:47] E a gente sabe.
[00:09:48] Que a relação da política.
[00:09:49] Com o toque.
[00:09:50] É algo bastante intrincado.
[00:09:51] A gente não pode tocar.
[00:09:52] Em quem a gente quiser.
[00:09:53] E a gente não pode tocar.
[00:09:54] De qualquer forma.
[00:09:55] Em todo tipo de pessoas.
[00:09:56] Para os pets.
[00:09:57] A gente tem.
[00:09:58] Uma relação.
[00:09:59] Um pouco diferente.
[00:10:00] É aquela imagem.
[00:10:01] De você estar na rua.
[00:10:02] Cruzar com alguém.
[00:10:03] Que está.
[00:10:04] Passeando com o cachorro.
[00:10:05] Para o animal.
[00:10:06] Passeando com o cachorro.
[00:10:07] Por exemplo.
[00:10:08] Ou está com um gato.
[00:10:09] No colo.
[00:10:10] E a gente vai lá.
[00:10:11] E se autoriza.
[00:10:12] Automaticamente.
[00:10:13] A fazer um carinho.
[00:10:14] Talvez a gente tenha um receio.
[00:10:15] Será que morde.
[00:10:16] Será que pode.
[00:10:17] Será que ele gosta.
[00:10:18] Alguma coisa assim.
[00:10:19] Mas.
[00:10:20] O nosso instinto.
[00:10:21] É que.
[00:10:22] Aquele corpo.
[00:10:23] É um corpo.
[00:10:24] Que está.
[00:10:25] De alguma forma.
[00:10:26] Abaixo de nós.
[00:10:27] Na escala política.
[00:10:28] E portanto.
[00:10:29] Eu posso ter.
[00:10:30] Algum tipo.
[00:10:31] De interação.
[00:10:32] Com esse corpo.
[00:10:33] Muito diferente.
[00:10:34] Do que eu teria.
[00:10:35] Como humano.
[00:10:36] Como.
[00:10:37] Crianças.
[00:10:38] Que convivem.
[00:10:39] Com animais domésticos.
[00:10:40] Adquirem.
[00:10:41] Uma capacidade.
[00:10:42] Maior.
[00:10:43] De empatia.
[00:10:44] E de vinculação.
[00:10:45] Com os outros.
[00:10:46] Do que.
[00:10:47] Crianças.
[00:10:48] Que não são expostas.
[00:10:49] A esse tipo.
[00:10:50] De experiência.
[00:10:51] Ou mesmo assim.
[00:10:52] Filhos únicos.
[00:10:53] Podem aprender.
[00:10:54] Experiências.
[00:10:55] De partilhar.
[00:10:56] De dividir.
[00:10:57] De distribuir.
[00:10:58] Amor.
[00:10:59] E atenção.
[00:11:00] Com os próprios pais.
[00:11:01] Quando tem.
[00:11:02] Esse outro ser.
[00:11:03] Junto.
[00:11:04] Na casa.
[00:11:05] A criança.
[00:11:06] E aprendendo.
[00:11:07] A amar.
[00:11:08] E ser amada.
[00:11:09] E também.
[00:11:10] Ser um certo.
[00:11:11] Veículo.
[00:11:12] Para uma.
[00:11:13] Alfabetização.
[00:11:14] Relacional.
[00:11:15] E dá.
[00:11:16] Para a gente pensar.
[00:11:17] Que quem passa.
[00:11:18] A ser tutor.
[00:11:19] De um pet.
[00:11:20] Na vida adulta.
[00:11:21] Também.
[00:11:22] Está buscando.
[00:11:23] Algum tipo.
[00:11:24] De reintegração.
[00:11:25] Da capacidade.
[00:11:26] De vinculação.
[00:11:27] Uma redescoberta.
[00:11:28] Da intimidade.
[00:11:29] Bom.
[00:11:30] Agora.
[00:11:31] Você.
[00:11:32] Praticamente.
[00:11:33] Citou.
[00:11:34] Os animais.
[00:11:35] Do amor.
[00:11:36] Ele vai falar.
[00:11:37] Do metafórico.
[00:11:38] E o metonímico.
[00:11:39] Mas que.
[00:11:40] É basicamente.
[00:11:41] A gente pensar.
[00:11:42] Como.
[00:11:43] Os animais domésticos.
[00:11:44] São.
[00:11:45] Entre aspas.
[00:11:46] Como nós.
[00:11:47] Vivem na nossa casa.
[00:11:48] São.
[00:11:49] Parte da nossa família.
[00:11:50] Mas eles não são nós.
[00:11:51] Eles são.
[00:11:52] Uma metáfora.
[00:11:53] Da gente.
[00:11:54] E aí.
[00:11:55] Com isso.
[00:11:56] A gente pode.
[00:11:57] Ir descobrindo.
[00:11:58] Formas.
[00:11:59] De amar.
[00:12:00] E ser amado.
[00:12:01] E até.
[00:12:02] O desafio.
[00:12:03] Ou manipulável.
[00:12:04] Como uma criança.
[00:12:05] Talvez.
[00:12:06] Ou será que é?
[00:12:07] Essa é uma questão.
[00:12:09] Grande.
[00:12:10] Para o nosso tempo.
[00:12:11] E tem um outro aspecto.
[00:12:12] Disso que você está falando.
[00:12:13] Que é.
[00:12:14] Como a gente.
[00:12:15] Também.
[00:12:16] Se diverte.
[00:12:17] Ou se entretém.
[00:12:18] Bastante.
[00:12:19] Tentando descobrir.
[00:12:20] Do que.
[00:12:21] Que os animais.
[00:12:22] São capazes.
[00:12:23] Ou quais.
[00:12:24] Ações.
[00:12:25] E atos.
[00:12:26] Humanos.
[00:12:27] Os animais.
[00:12:28] Também.
[00:12:29] Conseguem desempenhar.
[00:12:30] Talvez.
[00:12:31] De todos.
[00:12:32] As minhas buscas.
[00:12:33] Pelo Tik Tok.
[00:12:34] Mas.
[00:12:35] Me deixaram perdido.
[00:12:36] E aí.
[00:12:37] Eu fui parar.
[00:12:38] Nos campeonatos.
[00:12:39] Internacionais.
[00:12:40] De Surf Dog.
[00:12:41] Que são os cães.
[00:12:42] Surfistas.
[00:12:43] Você já passou por isso?
[00:12:44] O surf canino.
[00:12:45] Aparentemente.
[00:12:46] Não só.
[00:12:47] É uma modalidade.
[00:12:48] Como.
[00:12:49] Existem.
[00:12:50] Muitos.
[00:12:51] Campeonatos.
[00:12:52] De cães.
[00:12:53] Que são treinados.
[00:12:54] Para surfar.
[00:12:55] E a gente tem.
[00:12:56] Um tricampeão.
[00:12:57] Mundial.
[00:12:58] No Brasil.
[00:12:59] E ele vai dar.
[00:13:00] Agora.
[00:13:01] Para a gente.
[00:13:02] Para a gente.
[00:13:03] Para a gente.
[00:13:04] Mas.
[00:13:05] Eu fico pensando.
[00:13:06] Inclusive.
[00:13:07] Numa certa.
[00:13:08] Regressão.
[00:13:09] Numa.
[00:13:10] Infantilização.
[00:13:11] Que os pets.
[00:13:12] Provocam.
[00:13:13] Em muitas pessoas.
[00:13:14] Sabe.
[00:13:15] Quando você encontra.
[00:13:16] Alguém.
[00:13:17] De repente.
[00:13:18] Na frente.
[00:13:19] De um gato.
[00:13:20] De um cachorro.
[00:13:21] Aquela pessoa.
[00:13:22] Começa a falar.
[00:13:23] Com voz.
[00:13:24] De criança.
[00:13:25] Tem uma coisa.
[00:13:26] Que retoma.
[00:13:27] Para mim.
[00:13:28] A definição.
[00:13:29] De um objeto.
[00:13:30] Mais lúdico.
[00:13:31] Como se eles.
[00:13:32] Nos autorizassem.
[00:13:33] A regredir.
[00:13:34] Para reaprender.
[00:13:35] O problema.
[00:13:36] É quando.
[00:13:37] A gente trava.
[00:13:38] Aqui.
[00:13:39] Satura.
[00:13:40] As funções.
[00:13:41] Que esse objeto.
[00:13:42] Pode cumprir.
[00:13:43] Do tipo.
[00:13:44] Uma relação.
[00:13:45] Que passa.
[00:13:46] A ser.
[00:13:47] O ideal.
[00:13:48] Das relações.
[00:13:49] Como se.
[00:13:50] Nada mais.
[00:13:51] Ou nenhum outro ser.
[00:13:52] Fosse capaz.
[00:13:53] De entregar.
[00:13:54] Todo o amor.
[00:13:55] Toda a diversão.
[00:13:56] Toda.
[00:13:57] A capacidade.
[00:13:58] Relacional.
[00:13:59] E a gente.
[00:14:00] Lascou.
[00:14:01] Um pouco.
[00:14:02] Né.
[00:14:03] É.
[00:14:04] André.
[00:14:05] Aí.
[00:14:06] Eu acho.
[00:14:07] Que a gente.
[00:14:08] Tem que abrir.
[00:14:09] Um grande.
[00:14:10] Capítulo.
[00:14:11] Desse episódio.
[00:14:12] Que é.
[00:14:13] Tratar.
[00:14:14] Os animais.
[00:14:15] De estimação.
[00:14:16] Como filhos.
[00:14:17] A cada dia.
[00:14:18] Dos pais.
[00:14:19] Ou das mães.
[00:14:20] Que se aproxima.
[00:14:21] Volta a discussão.
[00:14:22] De.
[00:14:23] Mas afinal.
[00:14:24] É mãe.
[00:14:25] Ou é pai.
[00:14:26] De pet.
[00:14:27] Ou não.
[00:14:28] É muito criticado.
[00:14:29] Quando ele falou.
[00:14:30] Que as pessoas.
[00:14:31] Estavam.
[00:14:32] Escolhendo ter pets.
[00:14:33] Ao invés.
[00:14:34] De filhos.
[00:14:35] E que isso.
[00:14:36] Estava.
[00:14:37] De alguma forma.
[00:14:38] Cancelando.
[00:14:39] A nossa humanidade.
[00:14:40] Muito interessante.
[00:14:41] Vindo de alguém.
[00:14:42] Que não tem filhos.
[00:14:43] E sim.
[00:14:44] Existe uma queda.
[00:14:45] De número.
[00:14:46] De bebês.
[00:14:47] E crianças.
[00:14:48] No mundo.
[00:14:49] Ou em boas partes.
[00:14:50] Do mundo.
[00:14:51] Existe uma solidão.
[00:14:52] Das grandes cidades.
[00:14:53] E.
[00:14:54] Pessoas.
[00:14:55] Que não.
[00:14:56] Se casam mais.
[00:14:57] É que.
[00:14:58] Talvez.
[00:14:59] Dê.
[00:15:00] Para sanar.
[00:15:01] Uma parte.
[00:15:02] Com um animal de estimação.
[00:15:03] E não.
[00:15:04] Necessariamente.
[00:15:05] Com um humano.
[00:15:06] Mas.
[00:15:07] Que parte.
[00:15:08] É essa.
[00:15:09] Porque.
[00:15:10] Você.
[00:15:11] Até conversa.
[00:15:12] Com um cachorro.
[00:15:13] Com um gato.
[00:15:14] Mas.
[00:15:15] Que tipo.
[00:15:16] De conversa.
[00:15:17] É essa.
[00:15:18] Até onde.
[00:15:19] Vai.
[00:15:20] Essa conversa.
[00:15:21] E aí.
[00:15:22] Tem.
[00:15:23] Um reconhecimento.
[00:15:24] Legal.
[00:15:25] Inclusive.
[00:15:26] De companhia.
[00:15:27] De cuidado.
[00:15:28] Mas também.
[00:15:29] De apego.
[00:15:30] E de dependência.
[00:15:31] E aí.
[00:15:32] Tem uma série.
[00:15:33] De cenas.
[00:15:34] E fatos.
[00:15:35] E questões.
[00:15:36] Nisso.
[00:15:37] Que é.
[00:15:38] Toda a polêmica.
[00:15:39] De dormir.
[00:15:40] Com um animal.
[00:15:41] Na cama.
[00:15:42] Ou.
[00:15:43] A dificuldade.
[00:15:44] De fazer.
[00:15:45] Sexo.
[00:15:46] Com uma pessoa.
[00:15:47] Nova.
[00:15:48] Na sua casa.
[00:15:49] Porque.
[00:15:50] O animal.
[00:15:51] Não deixa.
[00:15:52] Você.
[00:15:53] Voltar.
[00:15:54] Cedo.
[00:15:55] Do meu animal.
[00:15:56] Como eu sei.
[00:15:57] Aí.
[00:15:58] Tem um narcisismo.
[00:15:59] Tem todo um lance.
[00:16:00] Também.
[00:16:01] Dos ciúmes.
[00:16:02] E da atenção.
[00:16:03] Que o animal.
[00:16:04] Desperta.
[00:16:05] Em outras pessoas.
[00:16:06] E é muito curioso.
[00:16:07] Como.
[00:16:08] Esse significante.
[00:16:09] Animal.
[00:16:10] Vai virando.
[00:16:11] Um significante.
[00:16:12] Filho.
[00:16:13] A gente.
[00:16:14] Chama.
[00:16:15] Os nossos.
[00:16:16] Cães.
[00:16:17] E gatos.
[00:16:18] E outros animais.
[00:16:19] De filhos.
[00:16:20] Porque a gente.
[00:16:21] Interpreta.
[00:16:22] O amor.
[00:16:23] Dessa forma.
[00:16:24] De.
[00:16:25] Amar.
[00:16:26] Como.
[00:16:27] Se ama.
[00:16:28] Um bebê.
[00:16:29] Mas.
[00:16:30] É interessante.
[00:16:31] Também.
[00:16:32] Como algumas pessoas.
[00:16:33] Vão.
[00:16:34] Nessa direção.
[00:16:35] De pensar.
[00:16:36] Que o animal.
[00:16:37] De estimação.
[00:16:38] É como um filho.
[00:16:39] Mas.
[00:16:40] É um filho.
[00:16:41] Que não cresce.
[00:16:42] E nos abandona.
[00:16:43] Ele retribui.
[00:16:44] O nosso amor.
[00:16:45] Com a sua presença.
[00:16:46] E.
[00:16:47] Geralmente.
[00:16:48] Sem tantos conflitos.
[00:16:49] Sem tantas.
[00:16:50] Oscilações.
[00:16:51] Na qualidade.
[00:16:52] Afetiva.
[00:16:53] Ele nos lembra.
[00:16:54] Daqueles ideais.
[00:16:55] Que a gente gosta.
[00:16:56] Também.
[00:16:57] Em nós.
[00:16:58] Ou gostaria de ter.
[00:16:59] Em nós.
[00:17:00] Ele é muito inteligente.
[00:17:01] Ele é muito engraçado.
[00:17:02] Ele se dá muito bem.
[00:17:03] Com as pessoas.
[00:17:04] Ou.
[00:17:05] Todo mundo.
[00:17:06] Fala.
[00:17:07] Que ele é a minha cara.
[00:17:08] Saiu do meu ventre.
[00:17:09] É.
[00:17:10] Quase lá.
[00:17:11] Que é.
[00:17:12] Um amor.
[00:17:13] Narcísico.
[00:17:14] Porque o amor.
[00:17:15] Narcísico.
[00:17:16] É exatamente.
[00:17:17] Aquele.
[00:17:18] Em que a gente.
[00:17:19] Se ama.
[00:17:20] Através.
[00:17:21] Do outro.
[00:17:22] É.
[00:17:23] Que é.
[00:17:24] O que.
[00:17:25] A gente.
[00:17:26] Consegue.
[00:17:27] Mantenha.
[00:17:28] Quanto.
[00:17:29] Do animal.
[00:17:30] Como um outro.
[00:17:31] A gente.
[00:17:32] Consegue.
[00:17:33] Tolerar.
[00:17:34] Quanto.
[00:17:35] A gente.
[00:17:36] Consegue.
[00:17:37] Resistir.
[00:17:38] A transformar.
[00:17:39] O animal.
[00:17:40] Em um humano.
[00:17:41] Ou.
[00:17:42] Em uma.
[00:17:43] Extensão.
[00:17:44] De nós.
[00:17:45] Mesmos.
[00:17:46] Só.
[00:17:47] Que.
[00:17:48] Você.
[00:17:49] Matou.
[00:17:50] A charada.
[00:17:51] Para mim.
[00:17:52] Essa.
[00:17:53] É uma.
[00:17:54] A.
[00:17:55] Uma.
[00:17:56] Uma.
[00:17:57] E.
[00:17:58] Exatamente.
[00:17:59] Eu.
[00:18:00] Eu.
[00:18:01] Quero.
[00:18:02] Eu.
[00:18:03] É.
[00:18:04] Isso.
[00:18:05] Eu.
[00:18:06] Eu.
[00:18:07] Entendo.
[00:18:08] A.
[00:18:09] Eu.
[00:18:10] Você.
[00:18:11] Sinto.
[00:18:12] Com.
[00:18:13] A.
[00:18:14] A.
[00:18:15] A.
[00:18:16] Mãe.
[00:18:17] Senhora.
[00:18:18] Eu.
[00:18:19] Tenho.
[00:18:20] A.
[00:18:21] dinâmica. Porque aí, juntando
[00:18:23] algumas peças do nosso quebra-cabeça ou do
[00:18:25] nosso mosaico sobre esse estado atual
[00:18:27] dos pets ou da obsessão massiva
[00:18:29] pelos pets, tem
[00:18:31] uma necessidade de humanizar os pets
[00:18:33] como uma certa
[00:18:35] impossibilidade de lidar com outras
[00:18:37] pessoas. Ou aquela
[00:18:39] frase lá do Freud de que os pets
[00:18:41] são mais simples, como
[00:18:43] uma certa desculpa
[00:18:45] ou uma certa razão para não ter que
[00:18:47] lidar mais com humanos.
[00:18:49] Como eu li num dos fóruns do Reddit,
[00:18:52] a resposta para a obsessão das
[00:18:53] pessoas por pets, de uma forma
[00:18:55] resumida é, relacionamentos interpessoais
[00:18:57] significativos exigem trabalho.
[00:18:59] Já os cães e os gatos, apenas comida.
[00:19:02] É, não é só apenas comida.
[00:19:03] Certo. Defendendo um pouco aqui
[00:19:05] os amantes de
[00:19:07] animais de estimação. E aí
[00:19:09] algumas questões também. A gente
[00:19:11] sabe como os animais são seres
[00:19:13] sencientes. A senciência
[00:19:15] é a capacidade
[00:19:17] de sentir sensações e
[00:19:19] sentimentos de forma
[00:19:21] consciente. Não faz muito tempo que a
[00:19:23] ciência reconheceu isso. Como essas percepções
[00:19:25] conscientes do que
[00:19:27] acontece ao seu redor
[00:19:28] constituem uma consciência da sua existência.
[00:19:32] Então, eles sabem
[00:19:33] que são seres autônomos e não objetos.
[00:19:36] E aí existem também questões
[00:19:37] de humor, de predisposição,
[00:19:39] até algumas questões de saúde mental
[00:19:41] dos animais. De um jeito bem
[00:19:43] diferente, de um jeito bem particular,
[00:19:46] mas com algumas semelhanças
[00:19:47] com a nossa. Ainda mais quando a gente
[00:19:49] começa a conviver de forma tão intensa.
[00:19:51] E simbiótica com os bichos.
[00:19:53] Então, é claro que um trauma
[00:19:55] pode gerar uma fobia
[00:19:57] num animal. Ou a ausência
[00:19:59] de um tutor, uma tutora
[00:20:01] pode gerar um estado depressivo.
[00:20:03] O animal não come mais.
[00:20:05] Não se mexe mais. Assim como
[00:20:07] eles ficam muito mais dispostos pra viver
[00:20:09] quando estão perto dos humanos.
[00:20:11] E até lacrimejam mais.
[00:20:14] Olha que fofo.
[00:20:14] Não sabia desse. Então não é só comida
[00:20:17] que a gente tem que dar, ou que a gente pode
[00:20:19] dar, ou que a gente quer dar. Assim como a gente
[00:20:21] não dá só o alimento
[00:20:23] pra um bebê. A gente vai
[00:20:25] dar mais junto com o alimento.
[00:20:27] E aí vem a possibilidade
[00:20:29] de neurotizar os animais.
[00:20:32] Principalmente quando a gente começa
[00:20:33] a impor uma certa
[00:20:35] artificialização em excesso
[00:20:37] do seu habitat, dos seus
[00:20:39] comportamentos naturais.
[00:20:40] Você tá criticando a casa pra chihuahuas que a
[00:20:43] Paris Hilton tem na casa dela em Malibu?
[00:20:45] Não, sorte desses cachorros.
[00:20:47] Mas aí se cria, claro,
[00:20:49] relações de dependência,
[00:20:51] não sei se pode gerar algum tipo de psicose,
[00:20:53] mas, com certeza, segundo
[00:20:55] muitos especialistas,
[00:20:57] transtorno de ansiedade por separação.
[00:20:59] Que é aquela história de, ah, o meu filho
[00:21:01] ou o meu animal, não quer
[00:21:03] dormir sozinho. Então ele vem pra minha cama
[00:21:05] toda noite. Quando, na verdade,
[00:21:07] é a mãe ou o pai que não quer dormir sozinho.
[00:21:09] É muito bom isso que você tá falando, porque
[00:21:11] os pets têm uma característica
[00:21:13] muito específica,
[00:21:15] que é, eles geralmente não questionam
[00:21:17] as nossas formas de vinculação.
[00:21:19] Como eles não são seres da linguagem, eles
[00:21:21] não… Será que não? Ah, então, essa é
[00:21:23] uma boa discussão. Queria chegar
[00:21:25] nesse ponto. Como
[00:21:27] talvez eles não sejam seres da
[00:21:29] linguagem, eles não
[00:21:31] têm, geralmente,
[00:21:34] esses meios
[00:21:35] de nos dizer
[00:21:36] você ama demais, ou eu não
[00:21:39] gosto disso que você fala,
[00:21:41] ou eu não consigo lidar mais com
[00:21:43] você perguntando se eu sou um bom garoto ou
[00:21:45] não. Da mesma forma,
[00:21:47] eles geralmente também não questionam as nossas
[00:21:49] formas de neurotização.
[00:21:51] Tem uma outra história
[00:21:53] que eu adoro, Lucas, que é…
[00:21:55] Uma grande amiga conta que a avó
[00:21:57] dela adora vestir a cachorra
[00:22:00] com diferentes roupas
[00:22:01] e, pra todo mundo, é meio
[00:22:03] notório como o bicho fica incomodado.
[00:22:05] Mas o bicho meio que se acostumou.
[00:22:07] Cedeu. Como uma espécie
[00:22:09] de camisa de força. Eu não sei se eu viria tão
[00:22:11] longe. Não, mas é uma contenção, né?
[00:22:14] Também, mas aí,
[00:22:15] enfim, no inverno,
[00:22:17] como é que você não vai deixar um
[00:22:18] whippet, um galgo,
[00:22:20] um vestido?
[00:22:21] Um vestido, por exemplo.
[00:22:22] Enfim, a cachorra fica muito incomodada
[00:22:25] e toda vez que alguém
[00:22:27] questiona a avó dessa amiga
[00:22:28] por que ela continua vestindo o bicho
[00:22:30] que não tá conseguindo resistir mais
[00:22:32] a neurotização que essa senhora tá promovendo
[00:22:35] no animal, essa avó
[00:22:37] vocifera que, quando
[00:22:39] ela não coloca a roupa na cachorra,
[00:22:41] a cachorra pede.
[00:22:43] Porque a cachorra quer se vestir.
[00:22:46] Essa pequena história traz pra nossa
[00:22:49] conversa esse ângulo muito interessante,
[00:22:51] que é como a gente vai
[00:22:53] colocando os pets nesse campo
[00:22:55] desejoso. E delirante.
[00:22:57] Também.
[00:22:59] Não só de precisar
[00:23:01] que as suas necessidades básicas sejam
[00:23:03] atendidas, mas que
[00:23:04] o animal deseja isso.
[00:23:07] É a dieta holística pra gatos,
[00:23:09] por exemplo. É como um outro vídeo
[00:23:11] que eu vi no TikTok esses dias de uma mulher
[00:23:13] contando como o gato acorda
[00:23:15] ela todos os dias pedindo pra ela ligar
[00:23:17] a TV e assistir os desenhos favoritos
[00:23:19] dele. A gente tá de alguma
[00:23:20] forma promovendo toda essa
[00:23:22] classe, especialmente cães e gatos,
[00:23:24] a um lugar de quase sujeitos.
[00:23:26] Ou pseudo-sujeitos.
[00:23:28] Não acho que a gente tá fazendo isso necessariamente de uma forma
[00:23:30] consciente. Talvez nenhum meme
[00:23:32] exemplifique tudo isso tão bem quanto o fenômeno
[00:23:34] daquela página do Instagram, as galinhas
[00:23:36] inseguras. Mas é uma
[00:23:38] espécie de negação da condição animal.
[00:23:41] Como se o bicho pudesse
[00:23:42] servir muito mais do que instinto.
[00:23:45] E daí tem todo esse campo
[00:23:46] da psicologia animal, que
[00:23:48] também vai flertar com isso.
[00:23:50] Mas é como se esse aspecto selvagem,
[00:23:52] incontrolável, imprevisível do animal
[00:23:55] nos gerasse angústia demais.
[00:23:57] E daí humanizar o animal é um jeito
[00:23:59] da gente jogar esse jogo
[00:24:01] de que o pet pode ser uma versão
[00:24:03] do que a gente quiser que ele seja.
[00:24:04] Ainda que a gente esteja constantemente
[00:24:07] esbarrando com um limite inegável
[00:24:08] que é o instinto do animal. O pet
[00:24:11] não consegue tamponar a falta.
[00:24:13] E é isso que o capítulo 11 do Reinvenção da Intimidade
[00:24:15] do Dunker traz um pouco.
[00:24:17] Os pets são como nós, mas eles
[00:24:18] não são como nós. Em caso
[00:24:20] mais extremos como esses que a gente está conversando,
[00:24:22] essa operação toda, ela retira um pouco
[00:24:24] da outridade do animal. Uma vez que
[00:24:26] a gente tenta tratá-lo como se não fosse
[00:24:29] um animal, mas sim como o bichinho
[00:24:31] de pelúcia que a gente gostaria que ele fosse.
[00:24:33] O que isso remonta?
[00:24:35] Um dos maiores paradoxos da existência.
[00:24:38] Amar o objeto
[00:24:38] pelo que ele é, ou amá-lo pelo que a gente
[00:24:41] gostaria que ele fosse.
[00:24:47] Bom, para expandir um pouco o nosso
[00:24:48] conhecimento sobre esse tema, vamos
[00:24:50] ouvir alguns especialistas.
[00:24:53] O Francisco Juliano Cabral
[00:24:54] é biólogo, mestre em ciências
[00:24:57] psicologia experimental e doutorando
[00:24:59] em comportamento animal pelo
[00:25:00] Instituto de Psicologia da USP.
[00:25:03] A gente percebe atualmente
[00:25:04] por conta do nosso cotidiano acelerado
[00:25:07] que está repleto de pressões,
[00:25:09] exigências, etc.
[00:25:11] Que muitas vezes não sobra tempo
[00:25:12] para as pessoas criarem vínculos
[00:25:14] afetivos que sejam profundos
[00:25:17] e genuínos com outros
[00:25:19] indivíduos. Nesses
[00:25:20] sentidos, eu acho que os
[00:25:23] animais de estimação acabam
[00:25:24] preenchendo uma lacuna social
[00:25:26] e afetiva que foi criada
[00:25:29] nessa nossa sociedade
[00:25:30] neoliberal, consumista,
[00:25:33] meritocrática,
[00:25:34] que tem uma lógica produtivista,
[00:25:37] enfim. Essa lacuna
[00:25:38] diz muito sobre o nosso
[00:25:40] modo de vida atual, inserido
[00:25:42] num sistema que é caracterizado
[00:25:44] por essas ideologias que invariavelmente
[00:25:47] nos colocam como
[00:25:48] indivíduos isolados ou
[00:25:50] separados de uma noção de comunidade
[00:25:53] maior. Então, eu
[00:25:54] penso que os animais de estimação, eles
[00:25:56] conseguem suprir algumas dessas
[00:25:58] lacunas geradas pelo nosso modo
[00:26:00] de vida. Uma vez que eles podem
[00:26:02] oferecer uma relação genuína
[00:26:04] de afeto praticamente incondicional
[00:26:07] e uma relação submissa.
[00:26:09] Nesse sentido, o animal
[00:26:10] ele é sempre a parte mais vulnerável
[00:26:12] da relação, porque nas nossas
[00:26:14] interações, os humanos eles têm
[00:26:16] o poder de controlar muitos
[00:26:18] aspectos da vida dos seus animais.
[00:26:20] Atualmente, nós sabemos que
[00:26:22] a relação que nós temos com os animais
[00:26:25] de estimação é muito semelhante
[00:26:27] à relação entre cuidadores,
[00:26:28] ou seja, mães, pais
[00:26:30] em geral, e os seus bebês,
[00:26:32] possuindo características de apego.
[00:26:35] E aqui, quando nós falamos de apego,
[00:26:37] nós estamos nos referindo ao
[00:26:38] conceito criado pelo John Bowlby
[00:26:40] no contexto da pós-segunda guerra.
[00:26:43] Ele foi um psicanalista
[00:26:44] que estudou, que criou a teoria
[00:26:46] do apego por meio de uma abordagem
[00:26:48] inserida dentro da etologia,
[00:26:50] ou seja, ele sai um pouco
[00:26:52] da psicanálise e vai
[00:26:54] para a área dos estudos de comportamento
[00:26:56] animal. Porque o sistema de apego
[00:26:59] ele pode trazer uma série de
[00:27:00] benefícios para os sujeitos apegados.
[00:27:03] Quando eles estão na presença
[00:27:04] da figura de apego, ou seja,
[00:27:06] na presença do tutor, os cães
[00:27:08] em geral, quando eles possuem um padrão de apego
[00:27:11] que a gente chama de seguro,
[00:27:12] eles se sentem mais relaxados,
[00:27:15] mais seguros, e portanto
[00:27:16] acabam brincando bastante,
[00:27:18] exploram o ambiente, procuram
[00:27:20] por carinho. E o interessante é que
[00:27:22] a mesma coisa ocorre com seus tutores,
[00:27:25] ou seja, na presença
[00:27:26] dos seus cães, já foi demonstrado
[00:27:29] experimentalmente que
[00:27:30] os tutores ficam mais
[00:27:32] relaxados em situações estressantes,
[00:27:35] inclusive com
[00:27:36] redução da pressão arterial,
[00:27:38] por exemplo. Então, as nossas relações
[00:27:41] elas têm o potencial
[00:27:42] de estabelecer o que nós chamamos de
[00:27:44] efeito de base segura, tanto
[00:27:46] para o cão, quanto para o tutor.
[00:27:48] Uma coisa que eu acho importante
[00:27:50] e que é preciso comentar
[00:27:52] também, é que por mais que os nossos
[00:27:54] gastos com os produtos
[00:27:55] direcionados aos animais de estimação
[00:27:58] estejam relacionados às nossas tentativas
[00:28:00] de aumento de conforto
[00:28:02] e de qualidade de vida para eles,
[00:28:04] precisamos sempre ter em mente que
[00:28:06] eles possuem sua própria maneira de se
[00:28:08] relacionar com o mundo, que é
[00:28:09] totalmente diferente da nossa. Ou seja,
[00:28:12] embora a gente possa reconhecê-los
[00:28:14] como filhos ou como
[00:28:16] amigos, nós precisamos entender
[00:28:18] que eles não são como nós, e
[00:28:20] que eles possuem necessidades que são
[00:28:22] específicas da espécie.
[00:28:24] Um exemplo que eu sempre gosto
[00:28:26] de dar é o caso de colocar
[00:28:27] roupinhas nos cães. Então, eu já
[00:28:30] vi animais vestidos em dias
[00:28:32] de calor, por exemplo. Então,
[00:28:34] imagine, o cão, ele já
[00:28:36] possui a pelagem própria
[00:28:37] e colocar um tecido por cima vai
[00:28:40] aumentar a temperatura. E nesse
[00:28:41] caso, o bem-estar do animal será afetado
[00:28:44] negativamente. É que o processo
[00:28:46] de domesticação conferiu
[00:28:47] a eles aspectos que nos chamam a
[00:28:49] atenção. E são aspectos que estão
[00:28:52] relacionados à retenção
[00:28:53] de algumas características juvenis
[00:28:56] durante a fase adulta desses
[00:28:57] animais. Isso, na ciência, é chamado
[00:29:00] de neotenia. Ou seja,
[00:29:02] toda aquela estética que nós achamos
[00:29:04] fofa, né, nos cães e nos
[00:29:05] demais animais que são domesticados,
[00:29:08] são traços infantis.
[00:29:10] Fazem parte do que nós
[00:29:11] pesquisadores chamamos de baby esquema,
[00:29:14] ou esquema do bebê, né.
[00:29:16] E foi quem criou esse
[00:29:17] termo, foi um grande pesquisador,
[00:29:19] estudioso do comportamento animal,
[00:29:22] o Conrad Lorenz. E ele
[00:29:24] vai definir esse esquema do bebê
[00:29:25] como um conjunto de características
[00:29:27] físicas infantis, que
[00:29:29] a gente pode tratar como
[00:29:31] o rosto redondo, os olhos
[00:29:33] grandes, que são sempre percebidos
[00:29:36] como fofos e
[00:29:37] motivam um comportamento de cuidado
[00:29:40] no ser humano. Então, nós acabamos
[00:29:41] transferindo isso para os
[00:29:43] animais de estimação também.
[00:29:45] Então, o que acontece, por exemplo, no
[00:29:47] caso dos cães e dos gatos,
[00:29:49] é que eles retém esses comportamentos
[00:29:52] e essas características
[00:29:53] anatômicas dos filhotes
[00:29:55] mesmo na vida adulta,
[00:29:57] justamente por causa dessa domesticação.
[00:30:00] E isso nos chama
[00:30:02] a atenção e vai estimular
[00:30:04] esse nosso oferecimento
[00:30:05] de cuidado, de
[00:30:07] afeto, contribuindo, então,
[00:30:09] para a construção do nosso apego
[00:30:11] em geral. Muito interessante.
[00:30:14] E para a gente seguir se aprofundando
[00:30:16] nesse tema, a gente convidou a socióloga
[00:30:18] Kenia Gitke, que
[00:30:19] estuda, na sua tese de doutorado,
[00:30:22] a antropomorfização
[00:30:23] dos animais de estimação.
[00:30:25] É muito interessante
[00:30:27] a gente lembrar que a relação dos seres humanos
[00:30:29] com as demais espécies animais
[00:30:32] ocorre há dezenas
[00:30:33] de milhares de anos. Nós somos,
[00:30:35] de fato, como descreveu o filósofo
[00:30:37] Dominique Lestel, comunidades
[00:30:39] híbridas. No entanto,
[00:30:41] essa proximidade com algumas
[00:30:43] dessas espécies foi tomando
[00:30:45] novos contornos na modernidade,
[00:30:48] especialmente a particularidade
[00:30:49] do século XX. Então, agora,
[00:30:52] cães e gatos fazem
[00:30:53] parte da família,
[00:30:55] dormem nas nossas camas,
[00:30:57] eles comem ração balanceada,
[00:31:00] cujo valor, muitas vezes, excede
[00:31:02] o valor da própria alimentação humana.
[00:31:03] Eles recebem tratamentos estéticos,
[00:31:06] médicos, odontológicos,
[00:31:08] terapêuticos, tanto quanto
[00:31:10] os humanos. Ou seja, as noções
[00:31:11] de cuidado e de afeto em relação
[00:31:14] aos animais de estimação mudaram.
[00:31:16] De acordo com o historiador Kate Thomas,
[00:31:18] trata-se de um fenomenalizado,
[00:31:19] um ano bastante vinculado ao processo
[00:31:21] de urbanização, dessas novas
[00:31:23] configurações familiares,
[00:31:25] desse novo espaço do lar,
[00:31:27] de uma nova sociabilidade nas cidades.
[00:31:30] Mas, mais do que isso,
[00:31:32] me parece que a gente precisa encarar
[00:31:33] que há aqui uma influência
[00:31:35] dos padrões de consumo contemporâneos
[00:31:38] e de uma própria construção
[00:31:40] de identidade. Ou seja,
[00:31:42] aquela ideia dos marcadores identitários,
[00:31:44] da qual vocês, inclusive,
[00:31:45] já trataram aqui no podcast,
[00:31:47] ela envolve também a nossa relação com as
[00:31:49] demais espécies. Pois, afinal,
[00:31:51] a forma como nós nos relacionamos
[00:31:54] com as demais espécies
[00:31:55] ajuda a nos definir enquanto
[00:31:57] humanos. Isso ficou muito
[00:31:59] claro pra mim, inclusive,
[00:32:01] sendo uma socióloga que está inserida
[00:32:03] nos estudos animais. Eu
[00:32:05] me senti, e ainda me sinto, um pouco
[00:32:07] numa espécie de limbo. Geral,
[00:32:09] os meus colegas sociólogos ainda
[00:32:11] consideram as pesquisas sobre
[00:32:13] as relações entre humanos e não humanos
[00:32:15] como sendo algo, talvez, menos importante
[00:32:18] que as pautas mais
[00:32:19] consagradas da sociologia.
[00:32:21] Por outro lado, muitos
[00:32:23] indivíduos ligados a uma
[00:32:25] causa animal, parece que
[00:32:27] esperavam de mim, por pesquisar na área,
[00:32:29] uma espécie de ativismo,
[00:32:31] pro qual eu não tô necessariamente
[00:32:33] inclinada. Eu ouço muito
[00:32:35] coisas do tipo, ai, que bonitinho,
[00:32:37] você estuda os bichinhos.
[00:32:39] E aí eu queria aprofundar nesse ponto,
[00:32:42] porque o que nós vemos é uma
[00:32:43] construção de identidade
[00:32:45] ligada, inevitavelmente, a uma
[00:32:47] moralidade. É como aquele
[00:32:49] meme bastante famoso,
[00:32:51] confio mais em cachorro do que em gente.
[00:32:53] Há aí uma espécie de desconfiança
[00:32:55] moral de quem se coloca de maneira
[00:32:57] mais analítica, menos
[00:32:59] apaixonada, ou até mesmo
[00:33:01] ativista. Isso, provavelmente,
[00:33:03] tá muito ligado ao processo de
[00:33:05] descrença na espécie humana,
[00:33:07] que a gente vai vendo se
[00:33:09] cristalizar, especialmente ao longo
[00:33:11] do século XX e agora
[00:33:13] século XXI ainda mais. O próprio
[00:33:15] boom desses estudos animais
[00:33:17] me parece ser um pouco o reflexo de,
[00:33:19] isso, desse desencanto
[00:33:21] com o humanismo, que embasou
[00:33:23] tanto as ciências e as artes modernas.
[00:33:26] No entanto, ao mesmo tempo,
[00:33:27] me parece ter aí uma
[00:33:29] contradição nesse desencanto
[00:33:32] e a forma como a gente vai
[00:33:33] relacionando ele com os
[00:33:35] animais de estimação. Porque,
[00:33:37] vejam, nós estamos desapontados
[00:33:39] com os caminhos que a nossa espécie
[00:33:41] vem trilhando. Mas, paradoxalmente,
[00:33:44] nós vamos guiando os nossos
[00:33:45] animais de estimação pelo mesmo
[00:33:47] processo civilizatório. A
[00:33:49] gente vai afastando eles dos seus
[00:33:50] instintos, estabelecendo, controlando,
[00:33:53] vigiando a sua rotina,
[00:33:55] a sua alimentação, medicalizando
[00:33:57] o seu comportamento,
[00:33:59] neutralizando os seus odores
[00:34:01] corporais, de uma certa maneira
[00:34:03] pelucizando a sua existência.
[00:34:06] E já se estabeleceu
[00:34:07] nos estudos animais o conceito de
[00:34:09] antropomorfização, como sendo
[00:34:11] necessário para compreender essas relações.
[00:34:14] E é bastante
[00:34:15] evidente que esse tipo de conduta
[00:34:17] terá desdobramentos,
[00:34:19] positivos e negativos.
[00:34:22] E aí, de fato, se a gente
[00:34:23] pensa nas condições de vida
[00:34:25] desses animais, é indiscutível
[00:34:27] que eles ganham com todo esse cuidado,
[00:34:30] especialmente em relação à sua saúde,
[00:34:31] à sua alimentação, à sua
[00:34:33] segurança. Essa moralidade
[00:34:36] que é recente,
[00:34:38] essa que condena os maus
[00:34:39] tratos animais, seguramente é um ponto
[00:34:41] positivo para os animais.
[00:34:43] De qualquer forma, nem tudo
[00:34:45] é amor nessa relação.
[00:34:46] Não é como a gente ignorar
[00:34:49] que há uma restrição das liberdades
[00:34:51] desses animais, um
[00:34:53] tornar essa existência mais
[00:34:55] asséptica, territorialmente
[00:34:57] muito mais restrita, mais controlada,
[00:35:00] mais vigiada.
[00:35:01] Inclusive, a gente pode falar dessa
[00:35:03] tendência à medicalização da vida,
[00:35:05] do sofrimento, do mal-estar,
[00:35:08] essa a qual nós
[00:35:09] humanos estamos tão submetidos,
[00:35:11] de uma certa maneira ela escorre
[00:35:13] para os pets. A indústria farmacêutica
[00:35:15] enxergou aí um nicho de mercado tremendo
[00:35:18] e vem investindo consideravelmente
[00:35:20] nisso nas últimas décadas.
[00:35:22] E aí, claro, não é só
[00:35:24] a indústria farmacêutica que vem explorando
[00:35:26] a relação de amor das pessoas com
[00:35:27] seus pets, nesse jogo de consumo.
[00:35:31] Há toda uma gama
[00:35:32] de produtos, de serviços
[00:35:34] que é voltada para os pets e para as suas
[00:35:36] famílias, que vai de alimentos
[00:35:38] a vestuário, de festa de aniversário
[00:35:40] a serviços funerários,
[00:35:42] de cromoterapia
[00:35:44] a spa. Então,
[00:35:45] há aí também um jogo muito forte
[00:35:47] dessa questão de consumo.
[00:35:49] No caso dos animais humanos envolvidos
[00:35:51] nessa relação, são sempre
[00:35:53] muito veiculados os benefícios
[00:35:55] da presença dos pets.
[00:35:57] Eles são companhia, eles são carinho,
[00:35:59] eles são proteção, tal
[00:36:01] como um membro da família, de fato.
[00:36:03] Essa família multiespecífica
[00:36:06] que vai se conformando,
[00:36:08] vai se normalizando
[00:36:09] na nossa sociedade. Agora,
[00:36:11] esse tipo de transformação
[00:36:13] nas configurações sociais, ele nunca
[00:36:15] vem sem desdobramentos que podem ser
[00:36:17] problemáticos. Por exemplo,
[00:36:19] os dissensos entre humanos
[00:36:21] a respeito de como o pet deve ser
[00:36:23] tratado dentro de casa,
[00:36:25] que espaços ele pode ocupar.
[00:36:27] Isso gera, inclusive, conflitos familiares,
[00:36:29] conjugais, mas também
[00:36:31] fora de casa, nos espaços públicos
[00:36:33] comuns, nos restaurantes,
[00:36:35] nos parques infantis.
[00:36:37] Um outro exemplo também seriam os debates
[00:36:39] acalorados a respeito de
[00:36:41] maternidade. Ou seja,
[00:36:43] mãe de pet é mãe?
[00:36:45] Mãe de pet é tão mãe quanto
[00:36:47] mãe de sujeitos humanos. Então, ele
[00:36:49] demonstra um pouco, assim, os afetos
[00:36:51] que estão envolvidos nessas relações.
[00:36:54] Até mesmo se a gente pensar,
[00:36:55] por exemplo, diante da finitude
[00:36:57] dessa vida felina, canina,
[00:36:59] como é que nós, humanos, lidamos
[00:37:01] com o envelhecimento, com a doença,
[00:37:03] com o luto desses seres?
[00:37:06] E até mesmo, assim, no sentido
[00:37:07] mais amplo, quais são os
[00:37:09] impactos sociais, inclusive
[00:37:11] ambientais, do aumento intencional
[00:37:13] dessa população? Essas todas
[00:37:15] são questões em aberto que,
[00:37:17] merecem a nossa atenção. Não considerar
[00:37:19] esse fenômeno numa análise da
[00:37:21] sociedade contemporânea seria uma
[00:37:23] completa ingenuidade.
[00:37:25] Aí a gente chegou num ponto legal, André,
[00:37:27] que é como que é isso de humanizar
[00:37:29] os animais pra além da
[00:37:31] conta. Mas que conta que é essa?
[00:37:33] A gente sabe como, principalmente
[00:37:35] o Ocidente, antropomorfizou
[00:37:37] os animais. E
[00:37:39] isso acontece com a ajuda,
[00:37:42] obviamente, do consumo.
[00:37:43] O consumo nos ajuda com isso.
[00:37:45] Que são os brinquedos, são as roupas,
[00:37:47] são os móveis específicos,
[00:37:49] é a alimentação de qualidade
[00:37:51] especial, natural,
[00:37:54] premium,
[00:37:55] as festas de aniversário.
[00:37:57] Eu não quero falar sobre as festas de aniversário.
[00:37:59] As experiências pros pets,
[00:38:01] por exemplo, esses dias viralizou uma praia artificial
[00:38:03] exclusiva pra cachorros
[00:38:05] num hotel pra pets, em Lages,
[00:38:07] Santa Catarina. É curioso como a gente
[00:38:09] atribui ao nosso animal
[00:38:11] também um papel de consumidor.
[00:38:13] Um consumidor que tá ávido
[00:38:15] por novos produtos, por novas experiências,
[00:38:17] como se o mundo natural
[00:38:19] não fosse o suficiente.
[00:38:21] E como se cada espécie
[00:38:23] ou raça fosse também
[00:38:25] um nicho de mercado.
[00:38:27] Um tipo diferente de consumidor.
[00:38:29] E é óbvio que o animal também, hoje em dia,
[00:38:31] precisa viralizar
[00:38:32] e dançar, e ser bonito,
[00:38:35] atraente, engraçado.
[00:38:37] Será que não tem aí uma noção de animal
[00:38:39] que só desperta interesse
[00:38:41] nos humanos quando
[00:38:43] adquire também características humanas?
[00:38:46] A gente não tá assim,
[00:38:47] negando a natureza do animal?
[00:38:49] E além disso, criando experiências que estão
[00:38:50] fora da realidade. Imaginando e forçando
[00:38:53] pra que os animais
[00:38:55] possam se comportar como pequenos
[00:38:57] seres humanos. Isso tudo,
[00:38:59] como a gente já começou a falar, parece
[00:39:01] extremamente narcísico.
[00:39:02] Enquanto espécie, ser humano, porque
[00:39:05] é como se as coisas do mundo humano
[00:39:06] fossem superiores ao mundo natural
[00:39:08] dos bichos. E também narcísico
[00:39:10] no nível do sujeito, do tutor,
[00:39:13] tutora, pai ou mãe de pet.
[00:39:15] Porque existem até alguns conceitos
[00:39:17] como a pelucização
[00:39:18] dos animais de estimação, como se eles fossem
[00:39:21] animais de pelúcia. Ou o petichismo,
[00:39:24] esse fetiche com o pet
[00:39:25] que é completamente controlado
[00:39:27] e manipulado. Entra aí
[00:39:29] também o consumo
[00:39:31] de um bicho como um objeto de status,
[00:39:33] de beleza, de pedigree.
[00:39:35] E aí dá pra abrir toda uma discussão
[00:39:37] sobre raça, que é bastante interessante.
[00:39:40] Entre a raça pura
[00:39:41] e o vira-lata.
[00:39:43] Os padrões de beleza.
[00:39:44] Bom, por baixo
[00:39:45] a gente tem uma gramática pra esse episódio
[00:39:48] que eu tô muito impressionado.
[00:39:49] Mas essa chave do consumo que você foi buscar
[00:39:51] é muito interessante.
[00:39:54] Como se animais sonhassem,
[00:39:57] mas pets
[00:39:58] almejassem
[00:40:00] mega audiências.
[00:40:02] Principalmente nessa lógica de tantos
[00:40:04] petfluencers.
[00:40:06] Não sei se você sabe, Lucas, mas
[00:40:07] dizem em alguns estudos que
[00:40:09] o Brasil é o segundo país que mais busca
[00:40:12] perfis de animais no mundo.
[00:40:14] Perfis de animais. O cachorro que dança,
[00:40:15] o gato que fala com
[00:40:17] outro gato, porque tem uma narração do seu
[00:40:19] tutor, enfim.
[00:40:21] Eu passei bastante tempo
[00:40:23] em alguns desses perfis, confesso.
[00:40:26] Eu li até artigo na Folha de
[00:40:28] São Paulo sobre como
[00:40:29] gerenciar o seu negócio como petfluencer.
[00:40:32] Tem até categoria de pet do ano
[00:40:34] no Meme Awards.
[00:40:36] Mas se a gente parar pra pensar,
[00:40:38] especialmente nos conteúdos sobre animais
[00:40:40] e nessa relação com o consumo,
[00:40:42] nesse mecanismo do qual
[00:40:44] você tá falando de transformar os animais em
[00:40:45] pseudo-sujeitos, não dá pra dizer
[00:40:48] que as pessoas chegaram aí sozinhas.
[00:40:50] A aura de inocência
[00:40:51] e fofura dos pets foi bastante
[00:40:54] instrumentalizada no último século.
[00:40:56] Essa antropomorfização
[00:40:58] a serviço
[00:40:59] do mercado.
[00:41:02] Não é à toa que a Hello Kitty vale mais de
[00:41:04] 80 bilhões de dólares.
[00:41:06] Lendo um artigo na Gama,
[00:41:08] eu cheguei no nome do Joshua Dale,
[00:41:10] que é um pioneiro no que
[00:41:12] vem se chamando de Cute Studies.
[00:41:15] Ele escreveu um livro
[00:41:15] muito interessante, chamado
[00:41:17] Irresistível. Como a fofura
[00:41:20] conectou nossos cérebros
[00:41:21] e conquistou o mundo.
[00:41:23] Sim, que tem a ver com o que o Francisco falou
[00:41:25] de Baby Esquema, o esquema do bebê.
[00:41:27] Perfeito. Pro Dale,
[00:41:30] tem um efeito reparador
[00:41:31] na fofura. Por exemplo,
[00:41:33] tem um estudo da Universidade de Indiana
[00:41:36] que mostra que as pessoas
[00:41:37] se sentem menos ansiosas
[00:41:39] e mais cheias de energia depois que elas
[00:41:41] assistem um vídeo de gatinhos.
[00:41:43] Elas se sentem tão bem
[00:41:45] que a sensação suplanta a culpa
[00:41:47] por procrastinar, por exemplo,
[00:41:50] no trabalho. E isso ajuda ou dá
[00:41:51] motivação para enfrentar tarefas difíceis.
[00:41:54] Um outro estudo mostra que quem
[00:41:55] pede esmola na companhia de um bichinho
[00:41:58] tende a receber mais dinheiro.
[00:42:00] Ou até mesmo como
[00:42:01] cartoons, desenhos fofinhos
[00:42:04] ajudam ou
[00:42:05] incentivam as pessoas a preencherem
[00:42:07] questionários mais rápido
[00:42:09] e até com mais profundidade.
[00:42:12] Até uma lixeira com uma
[00:42:13] imagem fofa tende a ser
[00:42:15] mais usada do que uma lixeira comum.
[00:42:17] Enfim, são vários estudos sobre kawaii.
[00:42:20] Esse adjetivo do japonês
[00:42:22] para coisas que são
[00:42:23] graciosas e fofas, reduzindo bastante.
[00:42:26] Mas é um recurso
[00:42:27] de linguagem que ajuda as pessoas a lidar
[00:42:29] com assuntos e tarefas que parecem
[00:42:31] insuportáveis.
[00:42:33] Objetos fofos podem ser usados
[00:42:35] como indutor emocional de comportamento
[00:42:37] de cuidado em situações específicas.
[00:42:40] Só que também existe
[00:42:41] uma espécie de efeito
[00:42:43] compulsivo que
[00:42:45] deriva dessa fofura instrumentalizada.
[00:42:48] Como se a nossa resposta
[00:42:49] a objetos fofos
[00:42:50] fosse tão compulsiva
[00:42:53] a ponto dela ser virtualmente
[00:42:55] irreprimível.
[00:42:57] A gente opera automaticamente.
[00:43:00] Tem uma conexão muito
[00:43:01] forte entre esse tecnocapitalismo
[00:43:03] psicopolítico e a
[00:43:05] fofura dos pets.
[00:43:07] Como se convocar a fofura desses
[00:43:09] bichinhos pudesse nos convencer a fazer
[00:43:11] qualquer coisa.
[00:43:12] É um sistema que
[00:43:14] apela para os nossos impulsos,
[00:43:15] de cuidado, de nutrição, de tomar
[00:43:17] conta, exatamente para conseguir
[00:43:19] operar o consumo.
[00:43:28] Tem algo até mais
[00:43:29] simples que opera no básico
[00:43:31] da nossa relação com os animais
[00:43:33] que é a projeção.
[00:43:35] Então você não conseguir
[00:43:37] evitar de
[00:43:39] atribuir sentimentos
[00:43:41] que tem mais a ver com a gente
[00:43:43] do que com eles.
[00:43:45] E atribuir esses sentimentos e afetos
[00:43:47] aos animais.
[00:43:48] A projeção já atrapalha bastante
[00:43:50] as nossas relações de alguma forma
[00:43:52] porque às vezes é até uma sacanagem,
[00:43:55] uma injustiça o que a gente faz
[00:43:57] de projetar no outro.
[00:43:58] Só que com o animal isso é ainda
[00:44:00] um pouco mais covarde porque não
[00:44:02] passa pela elaboração simbólica,
[00:44:05] pela palavra.
[00:44:07] O animal não vai discutir a relação
[00:44:09] com você, ele não vai te julgar.
[00:44:12] E aí ele pode virar um depositório,
[00:44:14] inclusive do pior que existe em nós,
[00:44:16] das nossas frustrações,
[00:44:18] de um dia difícil,
[00:44:20] e aí podem surgir comportamentos abusivos,
[00:44:22] de maus tratos.
[00:44:24] Ou seja, existe uma hierarquia que está bem
[00:44:26] definida aí, mas não é porque existe
[00:44:28] uma hierarquia que pode ser
[00:44:30] uma relação desrespeitosa.
[00:44:32] É que é uma conversa que muita gente faz
[00:44:35] de como que pessoas
[00:44:37] aspas civilizadas
[00:44:39] podem ser contra a escravização
[00:44:41] de seres humanos,
[00:44:43] mas aceitar a crueldade com animais.
[00:44:45] É, nesse sentido é curioso como os animais
[00:44:48] retomam noções de desamparo
[00:44:52] e de abandono na gente por identificação
[00:44:55] e por pena que a gente sente
[00:44:57] e às vezes uma pena tão forte
[00:44:59] que nos toma completamente.
[00:45:01] E aí tem um quadro clínico que a gente
[00:45:03] não pode deixar de falar,
[00:45:04] que são os acumuladores de animais,
[00:45:07] que em geral acontecem mais entre mulheres
[00:45:10] e em geral mais com gatos.
[00:45:13] Que é o fenômeno das mães gateiras.
[00:45:15] São pessoas que muitas
[00:45:17] vezes passam a acreditar
[00:45:19] que os animais são seres
[00:45:21] superiores aos humanos
[00:45:23] e que não há ser humano
[00:45:25] nenhum no mundo que preste.
[00:45:27] O Dunker tem um trecho num artigo sobre
[00:45:29] isso que é muito interessante, eu vou ler aqui.
[00:45:31] Amar alguém que não tem mais
[00:45:33] ninguém que o ame, produz a sensação
[00:45:35] de que este amor é singular
[00:45:37] e singularizante, que ele é único,
[00:45:39] como deve ser o amor verdadeiro.
[00:45:41] Muito frequentemente essa impulsão
[00:45:44] a coletar animais redunda em uma acumulação
[00:45:47] muito maior do que a capacidade real
[00:45:49] de cuidado e atenção.
[00:45:51] Ou seja, nesses casos é preciso recolher
[00:45:54] esses cães e gatos abandonados
[00:45:56] porque o sujeito se sente
[00:45:58] como um desses animais.
[00:46:00] É uma tentativa de salvar a si mesmo.
[00:46:02] Só que essa impulsividade leva
[00:46:04] a situações que são muito diferentes
[00:46:06] de ONGs ou abrigos porque
[00:46:08] esses acumuladores não têm estrutura
[00:46:10] ou apoio, ou mesmo condições financeiras
[00:46:12] ou psicológicas de acolher tantos animais.
[00:46:14] E aí se torna um transtorno
[00:46:16] porque as pessoas perdem o controle
[00:46:18] e começam a fazer mal para elas próprias
[00:46:20] e também para os animais que elas
[00:46:22] estavam tentando salvar.
[00:46:24] Pois é, Lucas, muito tristes esses
[00:46:26] distúrbios que você foi buscar.
[00:46:28] Ainda mais porque eu tenho uma impressão
[00:46:30] de que paira nas redes sociais
[00:46:32] uma certa heroícisação desses perfis.
[00:46:34] Como se não fosse uma forma de
[00:46:36] adoecimento, como se não fosse uma forma
[00:46:38] de adoecimento,
[00:46:40] mas sim um sacrifício
[00:46:42] que na verdade todo mundo deveria
[00:46:44] ser capaz de operar.
[00:46:46] E de novo, é parte desse
[00:46:48] feitiço que os pets convocam
[00:46:50] em muitos de nós.
[00:46:52] Porque tem um estudo que eu estava lendo que me deixou
[00:46:54] bastante impressionado, que basicamente
[00:46:56] se contou para os entrevistados
[00:46:58] a história de que
[00:47:00] uma vítima foi
[00:47:02] espancada e abandonada
[00:47:04] sem nenhum tipo de apoio.
[00:47:06] E aí para os diferentes grupos
[00:47:08] de controle se contou
[00:47:10] que essa vítima era para um grupo
[00:47:12] um bebê, para outro
[00:47:14] grupo um cachorro e para outro
[00:47:16] grupo um adulto.
[00:47:18] Os níveis de empatia pelo bebê e pelo
[00:47:20] cachorro eram iguais e muito
[00:47:22] superiores aos níveis de empatia pelo adulto.
[00:47:24] Tem alguma coisa aí.
[00:47:26] E eu também fiquei bastante
[00:47:28] fixado na sua fala
[00:47:30] nessa ideia de superioridade
[00:47:32] e inferioridade. Porque
[00:47:34] de alguma forma a gente também usa
[00:47:36] o aparato dos pets
[00:47:38] como uma forma
[00:47:40] de significar superioridade.
[00:47:42] Dá para a gente pensar nos significados
[00:47:44] psicossociais e econômicos dos pets.
[00:47:46] A gente vê um número cada vez
[00:47:48] maior, principalmente de jovens
[00:47:50] optando por animais
[00:47:52] de estimação no lugar de filhos.
[00:47:54] Já que o, aspas,
[00:47:56] fardo de criar um pequeno ser humano
[00:47:58] vai perdendo o seu apelo
[00:48:00] para jovens que tem
[00:48:02] fobia de compromisso, falta
[00:48:04] de recursos, um interesse
[00:48:06] muito grande em viajar ou simplesmente
[00:48:08] priorizar a carreira.
[00:48:10] Eu estava lendo um artigo muito interessante no Atlantic
[00:48:12] sobre essa obsessão millennial
[00:48:14] pelos cachorros. Nos Estados Unidos
[00:48:16] hoje praticamente metade
[00:48:18] das pessoas entre 28 e 43
[00:48:20] anos tem cachorro. Metade.
[00:48:22] O ponto do artigo é que os cachorros
[00:48:24] especificamente se tornaram
[00:48:26] também um marcador
[00:48:28] de classe e um símbolo de status.
[00:48:30] Se as gerações mais jovens
[00:48:32] tem tido cada vez menos acesso
[00:48:34] a marcadores de status
[00:48:36] como a propriedade,
[00:48:38] a casa própria, a estabilidade
[00:48:40] financeira e uma carreira,
[00:48:42] ter filhos e até aposentadoria,
[00:48:44] ter um pet
[00:48:46] vai significando isso
[00:48:48] no meio social. É a ideia
[00:48:50] de que alguém que tem um pet
[00:48:52] está comunicando que também
[00:48:54] tem algum tipo de estabilidade
[00:48:56] psíquica, senso de
[00:48:58] responsabilidade, alguma
[00:49:00] maturidade, confiabilidade.
[00:49:02] Tem também uma questão
[00:49:04] de que o pet se tornou
[00:49:06] um marcador domiciliar.
[00:49:08] O índice mínimo de família.
[00:49:10] Algo que a família em si
[00:49:12] ocupava no passado. Prover
[00:49:14] pra um pet tornou-se
[00:49:16] algo socialmente aceito.
[00:49:18] Eu trabalho, levanto da cama,
[00:49:20] não entrego os pontos porque eu tenho ração pra pagar.
[00:49:22] Só que de novo, não é todo mundo
[00:49:24] que tem necessariamente acesso a isso.
[00:49:26] Porque as barreiras à posse de cães
[00:49:28] e gatos são maiores
[00:49:30] pra quem tem menos renda.
[00:49:32] A gente não pode esquecer que muitos
[00:49:34] abrigos coletivos
[00:49:36] recusam animais de estimação.
[00:49:38] Inclusive tem alguns estudos
[00:49:40] sobre pessoas em situação
[00:49:42] de rua e desamparo
[00:49:44] que desistem de ir pra esses abrigos
[00:49:46] exatamente porque não estão dispostas a abrir mão
[00:49:48] dos seus animais de estimação.
[00:49:50] O que a gente tá vendo nisso também é que
[00:49:52] independentemente da classe
[00:49:54] ou de onde você se encontra nessa grande escala
[00:49:56] de status social,
[00:49:58] a função de companheirismo
[00:50:00] e de suporte emocional que um pet
[00:50:02] é capaz de prover pro seu tutor
[00:50:04] é muito apreciada
[00:50:06] e muito importante.
[00:50:08] É, tem muito valor, né?
[00:50:10] Aí a gente pode falar também de um outro assunto interessante,
[00:50:12] André, que é
[00:50:14] quantos animais podem ser terapêuticos.
[00:50:16] No Brasil,
[00:50:18] nos anos 50,
[00:50:20] a Anise da Silveira começou a utilizar animais
[00:50:22] pra tratamentos de pessoas
[00:50:24] num hospital psiquiátrico
[00:50:26] no Rio de Janeiro.
[00:50:28] Ou como a gente vê, por exemplo,
[00:50:30] o convívio com animais reduzindo a sensação de dor
[00:50:32] entre crianças e adolescentes
[00:50:34] que estão hospitalizados.
[00:50:36] Esse tratamento tem um nome,
[00:50:38] é a atividade assistida por animais.
[00:50:40] Ou existe uma coisa também chamada
[00:50:42] ecoterapia,
[00:50:44] que utiliza cavalos pra estimular o
[00:50:46] desenvolvimento da mente e do corpo,
[00:50:48] pra reabilitação de pacientes portadores
[00:50:50] de diversas doenças físicas,
[00:50:52] psicológicas ou cognitivas,
[00:50:54] ou não precisa nem ser uma doença,
[00:50:56] mas transtornos,
[00:50:58] pessoas neurodivergentes,
[00:51:00] cuidados pra quem tá dentro do espectro autista,
[00:51:02] por exemplo.
[00:51:04] Isso pode trazer uma energia
[00:51:06] que pode ser muito
[00:51:08] revigorante pras pessoas,
[00:51:10] pra quem sofre de depressão,
[00:51:12] por exemplo.
[00:51:14] E aí tem esse recurso de animal
[00:51:16] de suporte emocional,
[00:51:18] que pode fazer parte do tratamento
[00:51:20] de vários quadros de ansiedade,
[00:51:22] estresse pós-traumático,
[00:51:24] e o sujeito recebe um laudo psiquiátrico
[00:51:26] pra poder andar com esse animal,
[00:51:28] inclusive em lugares onde normalmente
[00:51:30] ele não é permitido.
[00:51:32] E tudo isso é muito interessante, muito válido,
[00:51:34] e vale também a gente ter em mente
[00:51:36] que os animais de estimação
[00:51:38] ou esses animais
[00:51:40] que tem uma função de suporte emocional
[00:51:42] também podem ser
[00:51:44] utilizados como
[00:51:46] uma alternativa pra se esquivar
[00:51:48] do contato
[00:51:50] com outros seres humanos,
[00:51:52] ou de entrar em situações
[00:51:54] que podem ser vistas como traumáticas
[00:51:56] e angustiantes.
[00:51:58] E aí a gente tem um impasse.
[00:52:00] Você foi falando e eu fiquei pensando muito
[00:52:02] na Jufi.
[00:52:04] Ela era uma das pessoas que
[00:52:06] fazia o show show do Freud,
[00:52:08] que era um dos vários mascotes
[00:52:10] de quem ele tanto gostava,
[00:52:12] e que ficava dentro do consultório
[00:52:14] durante as sessões com os pacientes.
[00:52:16] Nos diários, ele inclusive observa
[00:52:18] que a Jufi era um bom termômetro de emoções.
[00:52:20] Ela se afastava dos pacientes mais ansiosos
[00:52:22] e interagia com os mais amigáveis.
[00:52:24] Tem muitos analistas que falam inclusive
[00:52:26] sobre como ter o seu pet
[00:52:28] dentro do consultório é um jeito
[00:52:30] de já quebrar um pouco
[00:52:32] as pesquisas.
[00:52:34] Mas essas anotações do Freud
[00:52:36] são as primeiras menções do uso de cães
[00:52:38] pra fins de diagnóstico ou mesmo de terapia.
[00:52:40] E a gente sabe, como você muito bem falou,
[00:52:42] que hoje principalmente cachorros
[00:52:44] são muito comuns em hospitais infantis,
[00:52:46] em asilos.
[00:52:48] Tem vários artigos científicos que falam,
[00:52:50] por exemplo, sobre como fazer carinho
[00:52:52] em um cachorro ou em um gato
[00:52:54] ajuda com picos de estresse.
[00:52:56] Falando nesse impasse que você trouxe, Lucas,
[00:52:58] eu li muitos relatos de como,
[00:53:00] durante muitos dias, a minha gata
[00:53:02] ou meu cachorro era o único ser vivo
[00:53:04] com o qual eu falava.
[00:53:06] A única pessoa com quem eu tocava.
[00:53:08] Pessoa? Exato.
[00:53:10] O animal sendo dito como uma pessoa.
[00:53:12] Ou como equivalente.
[00:53:14] Só que um equivalente
[00:53:16] até interessante no sentido de
[00:53:18] tolerar a maioria dos meus abraços
[00:53:20] ou dos meus carinhos.
[00:53:22] Ou quando eu estava nas profundezas
[00:53:24] da depressão pandêmica,
[00:53:26] esse pet me deixava pegá-lo no colo,
[00:53:28] encostar no seu…
[00:53:30] peito quente, pequenininho.
[00:53:32] Ou então a minha testa
[00:53:34] com a testa dele durante alguns segundos.
[00:53:36] Que bonitinho.
[00:53:38] André, mas você falou do cachorro do Freud
[00:53:40] e a gente não pode terminar
[00:53:42] esse episódio. Eu lembrei de uma
[00:53:44] história com um paciente dele que ele faz
[00:53:46] uma associação, o cachorro tá ali.
[00:53:48] A gente não pode escapar de falar
[00:53:50] alguma coisa nesse episódio sobre
[00:53:52] castração. Essa a gente ia
[00:53:54] deixar passar mesmo.
[00:53:56] Então, a castração do bicho
[00:53:58] que é essa castração
[00:54:00] real no corpo
[00:54:02] e que é sobre uma
[00:54:04] procriação controlada
[00:54:06] e que é um negócio também.
[00:54:08] Isso mostra muito o poder
[00:54:10] de um tutor, de uma tutora
[00:54:12] de decidir sobre a liberdade reprodutiva do animal.
[00:54:14] Essa autoridade inquestionável.
[00:54:16] E que em tese
[00:54:18] visa um bem maior do animal, enfim.
[00:54:20] Tem várias questões aí de que evita
[00:54:22] doenças, o animal vive mais…
[00:54:24] Mas principalmente
[00:54:26] é pra gerar comportamentos
[00:54:28] que fiquem mais adaptados à convivência
[00:54:30] com o universo dos seres humanos.
[00:54:32] Ou seja,
[00:54:34] a gente é castrado
[00:54:36] simbolicamente, à medida
[00:54:38] que e pra que a gente
[00:54:40] consiga entrar na linguagem e na cultura.
[00:54:42] E o animal também é castrado
[00:54:44] no real pra chegar
[00:54:46] mais perto de fazer parte
[00:54:48] do campo humano, pra ser um corpo
[00:54:50] mais aceitável no habitat
[00:54:52] civilizado dentro dos nossos parâmetros.
[00:54:54] E aí pra complicar
[00:54:56] eu fiquei pesquisando e li
[00:54:58] algumas opiniões bem diversas, mas que tem a ver
[00:55:00] com o que você jogou ali no começo.
[00:55:02] Se o animal, primeiro se o animal é um sujeito
[00:55:04] e se tem linguagem.
[00:55:06] Porque o animal sonha, né?
[00:55:08] Tem a história do sonho
[00:55:10] e tem
[00:55:12] fatos, pesquisas que indicam
[00:55:14] e isso não precisa de nenhuma pesquisa, mas
[00:55:16] eles reconhecem algumas palavras
[00:55:18] entendem algumas palavras
[00:55:20] e reconhecem expressões faciais
[00:55:22] dos humanos. Então
[00:55:24] tem uma linguagem? Se tem linguagem
[00:55:26] tem inconsciente? Eu acho muito interessante
[00:55:28] essas matérias que aparecem.
[00:55:30] Tem aparecido muito. Animais sonham
[00:55:32] com os seus tutores. E mil pesquisas
[00:55:34] e no fim o que mais chama atenção é
[00:55:36] será que ele tá sonhando comigo?
[00:55:38] Será que eu sou importante pra eles?
[00:55:40] Essa parece que é a grande
[00:55:42] questão.
[00:55:50] Muito bom isso que você puxou
[00:55:52] Lucas de
[00:55:54] será que eu sigo sendo a
[00:55:56] coisa mais importante na vida do meu pet?
[00:55:58] Talvez o pessoal que é
[00:56:00] pai ou mãe de gatos
[00:56:02] ou tutor de gatos
[00:56:04] tenha uma relação um pouco mais bem resolvida com isso
[00:56:06] porque eu tava lendo um artigo
[00:56:08] sobre como
[00:56:10] os gatos sabem o seu nome
[00:56:12] os gatos reconhecem
[00:56:14] quando são chamados pelos seus tutores
[00:56:16] só que o gato escolhe
[00:56:18] quando quer atender e quando não quer atender
[00:56:20] é fascinante
[00:56:22] e aí de novo a gente poderia ficar aqui
[00:56:24] três horas discutindo se são seres da linguagem
[00:56:26] ou não. Mas talvez
[00:56:28] uma das grandes questões pra gente pensar
[00:56:30] na relação com os pets seja
[00:56:32] atravessar a ideia dessa
[00:56:34] disponibilidade suprema
[00:56:36] de que os pets estão sempre ali pra nós
[00:56:38] a gente precisa reintegrar
[00:56:40] ou partir do pressuposto que tem
[00:56:42] uma parcela de indiferença
[00:56:44] do objeto animal em relação
[00:56:46] a nós. Porque toda relação
[00:56:48] precisa de um pedaço de indiferença
[00:56:50] não é sinal de saudabilidade
[00:56:52] vincular a gente manter a fantasia
[00:56:54] de amor incondicional
[00:56:56] ininterrupto. Pelo contrário
[00:56:58] é topando a falta no amor
[00:57:00] que a gente consegue de alguma forma
[00:57:02] mover o amor de um campo imaginário
[00:57:04] de sentido fechado
[00:57:06] para os fluxos desdelirantes
[00:57:08] do simbólico. A gente precisa
[00:57:10] conseguir lidar inclusive com a perda de um pet
[00:57:12] considerando que são seres
[00:57:14] que vivem menos do que a gente
[00:57:16] e as perdas desses seres
[00:57:18] ficam muito mais difíceis
[00:57:20] quando a gente lida com eles
[00:57:22] dessa forma muito maciça
[00:57:24] ou que os mantém numa posição
[00:57:26] de objeto saturado de narcisismo
[00:57:28] Faz sentido, Lucas?
[00:57:30] Faz, André. Eu tava pensando aqui naquela piada
[00:57:32] clássica
[00:57:34] entre behavioristas
[00:57:36] que são os dois ratinhos
[00:57:38] na gaiola do Skinner
[00:57:40] e aí eles falam
[00:57:42] olha como eu consegui condicionar esse humano direitinho
[00:57:44] toda vez que eu aperto o botão ele me dá comida
[00:57:48] Eu não conhecia essa piada
[00:57:50] e eu achava muito boa. É muito boa, né?
[00:57:52] Porque eu acho que é isso. É legal a gente
[00:57:54] aproveitar
[00:57:56] essas relações com os animais pra gente
[00:57:58] se auto-observar e se ver
[00:58:00] refletido, mas também
[00:58:02] se desver refletido
[00:58:04] e com isso aprender mais
[00:58:06] sobre si
[00:58:08] talvez até separar mais o que é meu
[00:58:10] e o que é do outro
[00:58:12] porque com os humanos isso é mais confuso
[00:58:14] isso tudo enquanto sujeito
[00:58:16] agora, enquanto espécie humana
[00:58:18] eu acho que
[00:58:20] os animais podem ser aliados
[00:58:22] ainda que indiretos
[00:58:24] na nossa missão de diminuir um pouco
[00:58:26] o nosso antropocentrismo
[00:58:28] e essa visão
[00:58:30] de superioridade
[00:58:32] imbatível da raça humana
[00:58:34] que vamos combinar
[00:58:36] não sei se tá com essa bola toda
[00:58:38] Achei bonito isso que você falou
[00:58:40] de como é que a gente convoca
[00:58:42] as duplas ou os grupos
[00:58:44] que a gente forma com os pets
[00:58:46] e pensa no que a gente aprende com essas
[00:58:48] relações e não
[00:58:50] necessariamente em como a gente usa essas
[00:58:52] relações pra benefício próprio
[00:58:54] Ao longo de todo esse episódio pra gente
[00:58:56] discutir aqui, Lucas
[00:58:58] eu fiquei pensando em como
[00:59:00] os pets exercem um lugar muito importante
[00:59:02] que é um lugar de testemunho
[00:59:04] Eu lembrei muito
[00:59:06] daquele texto do Luiz Claudio Figueiredo
[00:59:08] sobre os vértices da clínica psicanalítica
[00:59:10] e a clínica da continência
[00:59:12] sobre a qual a Melanie Klein
[00:59:14] nos ensinou tanto
[00:59:16] nesse modelo a gente parte da identificação
[00:59:18] projetiva pra gente pensar como a gente usa
[00:59:20] esse recurso de projetar as nossas angústias
[00:59:22] e as nossas fantasias
[00:59:24] e a gente tá falando ao longo desse episódio inteiro sobre
[00:59:26] isso. Não dá pra gente ir tão longe
[00:59:28] a ponto de dizer que os inconscientes
[00:59:30] do pet e o nosso se comunicam
[00:59:32] metabolizando e simbolizando as nossas
[00:59:34] experiências emocionais
[00:59:36] Ué, por que não? Porque talvez a gente tivesse
[00:59:38] colocando o pet numa posição
[00:59:40] de analista
[00:59:42] que o pet não tem, por mais que a gente
[00:59:44] converse com ele e clame por algum
[00:59:46] tipo de resposta. Mas pode ser muito
[00:59:48] terapêutico. E pode nos dar algum
[00:59:50] tipo de sustentação
[00:59:52] Tá bom. Vamos ficar com isso então
[00:59:54] Até a próxima. Até
[00:59:56] Tchau. Tchau