T3 | Ep. 3: Um universo policêntrico


Resumo

O episódio começa com a narrativa da viagem à Lua do Duque Astolfo, personagem do poema épico ‘Orlando Furioso’ de Ludovico Ariosto, escrito no século XVI. Nesta história fantástica, a Lua é descrita como um repositório de tudo o que se perde na Terra, incluindo a sanidade. Esta introdução literária serve como ponte para discutir como Galileu Galilei, um leitor ávido deste mesmo livro, revolucionou nossa compreensão do cosmos.

A narrativa então se concentra na noite de 7 de janeiro de 1610, em Veneza, quando Galileu, observando Júpiter com seu telescópio, descobriu quatro ‘estrelas’ (as luas Galileanas) orbitando o planeta. Esta descoberta foi fundamental porque, pela primeira vez, foram observados corpos celestes orbitando algo que não fosse a Terra ou o Sol. O episódio detalha as observações meticulosas de Galileu nas noites seguintes e como ele registrou os movimentos desses corpos em seu livro ‘Sidereus Nuncius’.

A descoberta teve implicações profundas para a cosmologia. Ela desafiou diretamente o modelo geocêntrico, que defendia a singularidade e centralidade da Terra. Se Júpiter tinha luas, o universo poderia ter múltiplos centros (um universo ‘policêntrico’), ou nenhum centro fixo, e estar em constante movimento. O episódio traça um paralelo entre essa estrutura cósmica e a narrativa ‘policêntrica e em movimento’ de ‘Orlando Furioso’, livro que influenciou profundamente o pensamento de Galileu.

Finalmente, o episódio explora as consequências sociais e profissionais da descoberta para Galileu. Ele nomeou as luas de ‘Estrelas Mediceias’ em homenagem à poderosa família Médici, especificamente ao Grão-Duque Cosimo II, seu ex-aluno. Esta jogada política astuta lhe garantiu um cargo bem remunerado como matemático e filósofo da corte em Florença. A publicação do ‘Sidereus Nuncius’, com suas ilustrações inovadoras que simulavam o movimento das luas, não só espalhou a notícia por toda a Europa como também marcou a entrada definitiva de Galileu no mundo da corte e consolidou uma nova forma de fazer e comunicar ciência.


Indicações

Books

  • Orlando Furioso — Poema épico de Ludovico Ariosto, do século XVI, que era o livro preferido de Galileu. Nele, o Duque Astolfo viaja à Lua, descrita como um lugar onde tudo o que se perde na Terra vai parar. O episódio destaca a influência da estrutura narrativa ‘policêntrica e em movimento’ deste livro no pensamento de Galileu.
  • Sidereus Nuncius — Livro publicado por Galileu Galilei em 1610 para anunciar suas descobertas astronômicas com o telescópio, incluindo as luas de Júpiter. O episódio elogia sua linguagem clara e suas ilustrações inovadoras, que usavam símbolos tipográficos para criar uma sequência persuasiva mostrando o movimento dos satélites.
  • O Queijo e os Vermes — Livro do historiador Carlo Ginzburg (1976) mencionado de passagem. É citado como um exemplo de história popular do século XX que, entre outros temas, aborda ideias heterodoxas do século XVI, como as de um moleiro que comparou a formação da Terra à de um queijo.

People

  • Galileu Galilei — Cientista italiano do século XVII, foco central do episódio. É apresentado como um observador meticuloso, um leitor de ‘Orlando Furioso’, e um estrategista que soube usar sua descoberta das luas de Júpiter para ascender socialmente na corte dos Médici.
  • Copérnico — Astrônomo polonês que, quase um século antes de Galileu, propôs o modelo heliocêntrico, colocando o Sol no centro do sistema solar e a Terra em movimento. O episódio situa o trabalho de Galileu como a busca por evidências que sustentassem essa ideia.
  • Aristóteles — Filósofo grego antigo cuja física, que enfatizava o movimento como princípio da natureza, foi um ponto de partida tanto para Copérnico quanto para Galileu. O episódio contrasta a pergunta aristotélica (‘por quê?’) com a pergunta galileana (‘como?’).
  • Tomás Haddad — Professor de História da Ciência na USP, citado como especialista. Ele comenta as ilustrações do ‘Sidereus Nuncius’ e a estratégia de Galileu para se inserir na corte dos Médici através da dedicatória de seu livro.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução: A Lua como depósito do perdido em ‘Orlando Furioso’ — O episódio começa narrando a viagem do Duque Astolfo à Lua no poema ‘Orlando Furioso’ de Ariosto. Na história, a Lua é descrita como idêntica à Terra e abriga tudo o que se perde no nosso planeta, desde objetos até sentimentos e a própria razão. Astolfo viaja para recuperar a sanidade perdida de seu amigo Orlando, descobrindo no processo que ele próprio havia perdido parte de sua razão.
  • 00:03:27Apresentação do podcast e transição para Galileu — As apresentadoras Leda Cartum e Sofia Nestrovski se apresentam e contextualizam o podcast. Elas fazem a ponte entre a história literária e a figura de Galileu Galilei, mencionando que tanto ele quanto Dom Quixote eram grandes admiradores de ‘Orlando Furioso’. A cena se desloca para a noite de 7 de janeiro de 1610, em Veneza, onde Galileu observa o céu com seu telescópio.
  • 00:06:57O que Galileu realmente descobriu e o contexto do movimento — As apresentadoras explicam que a grande descoberta de Galileu não foi que a Terra se move (ideia já proposta por Copérnico e outros), mas sim as evidências de como isso acontece. Elas contrastam a abordagem de Aristóteles (focado no ‘porquê’ das coisas) com a de Galileu (focado no ‘como’ do movimento), estabelecendo a base filosófica de sua investigação.
  • 00:09:00A descoberta das luas de Júpiter em janeiro de 1610 — O episódio descreve em detalhes as observações de Galileu entre 7 e 13 de janeiro de 1610. Ele inicialmente vê três, e depois quatro, ‘pequenas estrelas’ brilhantes próximas a Júpiter, cujas posições mudam a cada noite. Galileu percebe que esses corpos orbitam Júpiter, uma ideia revolucionária, pois nenhuma teoria da época previa luas em outros planetas.
  • 00:15:12Impacto da descoberta e o universo policêntrico — A descoberta das luas de Júpiter abalou a cosmologia vigente. Se a Terra não era o único corpo com um satélite, ela perdia sua singularidade. Isso sugeria um universo com múltiplos centros (policêntrico) ou nenhum centro fixo, tudo em movimento. O episódio traça um paralelo entre essa nova visão cósmica e a estrutura narrativa descentralizada e dinâmica de ‘Orlando Furioso’.
  • 00:23:38A estratégia de comunicação de Galileu em ‘Sidereus Nuncius’ — O episódio analisa como Galileu, inspirado pela verossimilhança do fantástico em Ariosto, soube apresentar suas descobertas incríveis de forma convincente. Ele usou uma linguagem clara e, crucialmente, incluiu no livro uma sequência de imagens simples (usando a letra ‘O’ e asteriscos) que simulavam o movimento das luas ao longo dos dias, criando um ‘filme’ persuasivo de suas observações.
  • 00:32:00Galileu e a corte: a nomeação das Estrelas Mediceias — A descoberta foi também uma oportunidade social para Galileu. Ele nomeou as luas de ‘Estrelas Mediceias’ em homenagem à família Médici, especificamente ao Grão-Duque Cosimo II de Florença, seu ex-aluno. Esta dedicatória astuta no ‘Sidereus Nuncius’ funcionou como um ‘passaporte’ para a corte, garantindo-lhe um cargo prestigioso e bem pago como matemático e filósofo do Grão-Ducado.
  • 00:36:44Repercussão internacional e legado da descoberta — O livro de Galileu foi um sucesso instantâneo, esgotando em uma semana. Sua descoberta correu o mundo, de cortes europeias até a China, gerando admiração e encomendas de telescópios. O episódio conclui refletindo sobre como a inserção da Terra na ‘dança das estrelas’ por Galileu mudou a perspectiva do observador, antecipando ideias relativistas e exigindo uma nova física.

Dados do Episódio

  • Podcast: vinte mil léguas
  • Autor: Megafauna Livraria Ltda
  • Categoria: Arts Books Science Natural Sciences
  • Publicado: 2024-04-29T03:00:04Z
  • Duração: 00:42:50

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] É na Lua que vão parar as muitas coisas que a gente perdeu aqui na Terra.

[00:00:11] É pra lá que viaja o Duque Astolfo, personagem de Orlando Furioso,

[00:00:17] um livro do começo do século XVI que foi escrito por Lodovico Ariosto.

[00:00:22] O Duque Astolfo viaja pra Lua numa carruagem puxada por quatro cavalos alados

[00:00:28] pra cumprir uma missão.

[00:00:30] Lá pelas tantas nessa história, o Orlando, que dá nome ao livro,

[00:00:35] enlouquece, fica doido e furioso.

[00:00:38] O Duque Astolfo, seu bom amigo, decide ir à Lua pra ajudar a recuperar a sanidade do Orlando,

[00:00:45] porque é na Lua que vão parar todas as coisas que a gente perde na Terra,

[00:00:49] inclusive a razão.

[00:00:51] Nesse livro, escrito décadas antes do Galileu apontar o telescópio pro céu,

[00:00:55] a Lua é descrita como sendo idêntica à Terra.

[00:00:58] Chegando lá, o Duque encontra rios, montanhas, cidades com casas e até repartições públicas.

[00:01:05] Da Lua, ele vê a Terra e percebe também que ela é como a Lua quando é vista por nós.

[00:01:11] Mas a diferença é que na Terra você perde as coisas e na Lua você encontra.

[00:01:16] Lá, numa grande pilha de coisas perdidas, tá a fama que já passou.

[00:01:21] Ao lado estão as rezas feitas da boca pra fora e, em seguida, as promessas quebradas.

[00:01:27] Também as promessas quebradas.

[00:01:28] Também estão ali as horas desperdiçadas.

[00:01:30] Os livros que a gente leu com pressa, sem aproveitar a leitura.

[00:01:34] Nessa pilha estão os planos que a gente poderia ter levado a cabo, mas não levou.

[00:01:38] E também os elogios vazios, de bajulação.

[00:01:41] E os gestos de caridade que foram sendo adiados e adiados, até que nunca foram feitos.

[00:01:47] O Duque Astolfo vê as próprias memórias, mas só de relance.

[00:01:51] Porque as memórias mudam de forma e escapam quando a gente tenta agarrá-las.

[00:01:56] A única coisa que ele não encontra na Lua é a loucura.

[00:02:00] Porque essa vive muito bem aqui com a gente.

[00:02:05] Então, depois de avaliar todo esse estoque, o Duque encontra finalmente o que ele estava buscando.

[00:02:11] A sanidade do seu amigo Orlando.

[00:02:14] É um líquido ralo que fica dentro de um frasco de vidro tampado pra não evaporar.

[00:02:20] No minuto seguinte, o Duque Astolfo toma um susto.

[00:02:24] Ele vê que tem ali um frasco com o nome dele.

[00:02:28] O Astolfo também tinha perdido um bom tanto da própria razão.

[00:02:31] E o pior é que ele nem tinha se dado conta.

[00:02:34] Então ele inala sua razão de volta.

[00:02:37] E percebe que ali estão as sanidades de muitas das pessoas conhecidas e consideradas sãs.

[00:02:43] Os poetas e os filósofos estão muito bem representados.

[00:02:47] No caminho de volta pra Terra, com o frasco do amigo Orlando embaixo do braço, ele resume.

[00:02:53] De modo geral, todo mundo é mais ou menos louco.

[00:02:56] E endoidece porque dá valor demais a uma coisa só.

[00:03:00] Em vez de perceber que o que mais vale é a soma de todas as coisas que compõem a vida.

[00:03:05] Você está ouvindo 20 Mil Léguas, o podcast de ciências e livros.

[00:03:27] Eu sou a Leda Cartum.

[00:03:29] E eu sou a Sofia Nestrovski.

[00:03:31] E esse é um podcast realizado pela Livraria Megafauna.

[00:03:34] Livros no Centro.

[00:03:36] Em parceria com a Serra Pileira.

[00:03:38] Instituto que apoia a ciência e a divulgação científica no Brasil.

[00:03:42] O 20 Mil Léguas conta também com o apoio da Vita Investimentos.

[00:03:46] E no episódio passado, você olhou pro céu com um telescópio.

[00:03:50] Ou uma luneta, ou um tubo óptico, ou óculos de longa vista.

[00:03:54] Um telescópio que aumenta até 20 vezes aquilo que está sendo observado.

[00:03:59] E o que você viu pelos olhos do Galileu

[00:04:02] foi a superfície da Lua como nunca tinha sido descrita antes.

[00:04:06] Cheia de golfos, cumes, pontas, promontórios e picos.

[00:04:11] Isso que você acabou de ouvir agora é a história da viagem à Lua do Duque Astolfo.

[00:04:16] E vem desse livro, Orlando Furioso.

[00:04:19] Que era o livro preferido de, digamos, duas pessoas.

[00:04:22] Embora uma delas não seja exatamente uma pessoa.

[00:04:26] Quem leu e releu esse livro do Ludovico Ariosto,

[00:04:30] esse longo poema que fala de heróis, de donzelas, de cavalos alados e de viagens astrais,

[00:04:36] quem leu e releu Orlando Furioso e se deixou influenciar por ele,

[00:04:41] foram tanto o herói Dom Quixote de la Mancha quanto a pessoa Galileu Galilei.

[00:04:46] E agora então a gente encontra de novo com esse irmão de alma do Dom Quixote.

[00:04:51] Com esse leitor de histórias fantásticas e dos astros do céu.

[00:05:00] No mesmo posto de todas as noites, do alto do campanário,

[00:05:05] passando frio enquanto segura o telescópio,

[00:05:08] tentando não tremer a mão, Galileu observa.

[00:05:12] No céu de Veneza de 7 de janeiro de 1610,

[00:05:17] logo quando anoitece,

[00:05:19] ele consegue distinguir Saturno e Júpiter no meio das estrelas que começam a despontar.

[00:05:25] Mas meia hora depois do sol se pôr,

[00:05:28] Saturno fica praticamente invisível.

[00:05:31] Ele já está num grau tão perto do horizonte que quase desaparece.

[00:05:36] Se escondeu.

[00:05:38] Vênus e Mercúrio já estão escondidos abaixo do horizonte desde o começo da noite.

[00:05:43] E Marte só vai nascer um pouco antes do sol,

[00:05:46] quando o frio já é tanto que mesmo Galileu,

[00:05:49] um homem que fica acordado até de madrugada,

[00:05:51] mas nem por isso dorme até tarde no dia seguinte,

[00:05:54] mesmo Galileu já vai estar na cama.

[00:05:57] Só Júpiter, o rei dos planetas,

[00:06:00] com sua massa que é maior do que o dobro da massa de todos os outros planetas juntos,

[00:06:05] que é chamado de o grande benéfico pelos praticantes das artes estelares,

[00:06:10] o penúltimo do nosso sistema que pode ser avistado a olho nu,

[00:06:14] só Júpiter se mostra bem no alto do céu.

[00:06:17] Galileu, guiado por não sei qual destino, como ele diria mais tarde,

[00:06:23] aponta as lentes para o planeta mais alto e mais visível de todos essa noite.

[00:06:27] Essa noite de 1610 já foi descrita como a mais emocionante de toda a história da ciência.

[00:06:40] Eu vou deixar um pouco o suspense.

[00:06:57] Bom, o que o Galileu descobriu a partir dessa noite,

[00:07:14] seguindo com a observação atenta pelas próximas 13 noites,

[00:07:18] não foi que a Terra gira em torno do Sol.

[00:07:21] Não foi Galileu o primeiro a pensar que o planeta Terra não está parado no centro do universo,

[00:07:26] mas que ele se movimenta.

[00:07:28] Isso foi proposto quase 100 anos antes dele pelo Copérnico.

[00:07:32] E, na verdade, mesmo muito antes do Copérnico,

[00:07:35] já existia gente na antiguidade que dizia isso.

[00:07:39] A questão do movimento na natureza é importante inclusive para o Aristóteles,

[00:07:44] aquele filósofo grego que foi apropriado pelos cristãos

[00:07:47] e que era uma autoridade para defender o sistema geocêntrico no qual a Terra está parada.

[00:07:53] Também o Aristóteles defendia que

[00:07:56] a natureza é princípio de movimento e mudança.

[00:07:59] Devemos entender o que é o movimento.

[00:08:02] Porque se não o entendemos, não entendemos a natureza.

[00:08:05] Quem ignora o movimento ignora a natureza.

[00:08:08] Essa é a conclusão do Aristóteles na sua física.

[00:08:12] Daí, se a gente saltar da Grécia Antiga para a Polônia em meados do século XVI,

[00:08:17] aqui está o Copérnico levando a sério essas afirmações do Aristóteles sobre o movimento.

[00:08:23] Só que ele levou mais a sério a ideia de que

[00:08:26] a natureza é princípio do movimento do que a certeza de que a Terra está parada.

[00:08:32] O que o Copérnico já no final da vida disse

[00:08:35] é que ele se incomodava com o fato de os filósofos

[00:08:38] não terem descoberto um esquema seguro para os movimentos do mecanismo do universo.

[00:08:43] E foi por causa desse incômodo do Copérnico

[00:08:46] que ele teve uma ideia que parecia absurda.

[00:08:50] A ideia de que a Terra se move.

[00:08:56] Corre então até a noite mais emocionante da história da ciência,

[00:09:00] 7 de janeiro de 1610.

[00:09:03] O que Galileu viu com o telescópio

[00:09:05] e o que ele confirmou nas noites seguintes

[00:09:08] é que Júpiter tem luz.

[00:09:12] Eu sei que isso pode não parecer muito emocionante.

[00:09:16] Falar do Galileu tem dessas.

[00:09:18] Eu não diria que são decepções,

[00:09:20] mas é uma reavaliação das nossas expectativas.

[00:09:23] A gente sentiu uma coisa parecida com isso

[00:09:25] quando a gente começou a estudar o Darwin,

[00:09:28] lá na primeira temporada do 20 mil léguas.

[00:09:31] Quando a gente se aproxima mais da vida

[00:09:33] e do pensamento da época do Darwin,

[00:09:35] da Inglaterra do século 19,

[00:09:37] a gente rápido entende

[00:09:39] que também não foi ele, o Darwin,

[00:09:41] que descobriu sozinho

[00:09:43] que as espécies se transformam.

[00:09:45] As gerações antes do Darwin já estavam falando isso.

[00:09:48] Inclusive, no caso do Darwin,

[00:09:50] o próprio avô dele já não acreditava que as espécies eram fixas.

[00:09:54] E o que o Darwin fez, mais do que essa grande descoberta,

[00:09:58] foi principalmente coletar as evidências

[00:10:01] para mostrar como isso acontece.

[00:10:03] Voltando para o Galileu e para a questão do movimento da Terra,

[00:10:07] as luas de Júpiter, para ele e para o mundo dele,

[00:10:10] são justamente essas evidências.

[00:10:12] Elas têm a ver com como isso acontece.

[00:10:16] Bem mais tarde, uns vinte e poucos anos depois daquela noite,

[00:10:20] Galileu diria que

[00:10:22] talvez não haja nada mais velho na natureza do que o movimento.

[00:10:26] A gente citou agora há pouco o Aristóteles,

[00:10:29] aquele velho filósofo a quem o Galileu iria se opor,

[00:10:33] dizendo algo bem parecido com isso.

[00:10:36] É que o ponto de partida do Galileu

[00:10:38] nunca vai deixar de ser o Aristóteles.

[00:10:40] E mesmo quando é para se opor,

[00:10:42] ele continua se opondo,

[00:10:44] só que em referência ao Aristóteles.

[00:10:47] É uma dessas oposições funcionais,

[00:10:49] dessas de que é difícil de se desvencilhar.

[00:10:52] Nada é mais velho do que o movimento,

[00:10:55] diz o Galileu.

[00:10:56] A natureza é princípio de movimento,

[00:10:59] diz o Aristóteles.

[00:11:00] Os dois estão de acordo.

[00:11:02] A principal diferença entre o Galileu e o Aristóteles

[00:11:05] são as perguntas que eles fazem.

[00:11:07] O Aristóteles está preocupado com as causas.

[00:11:10] Ele pergunta, por quê?

[00:11:13] Em seguida, para quê?

[00:11:15] Ou qual é a essência disso que eu estou observando?

[00:11:18] Já o Galileu olha para as coisas ao redor dele,

[00:11:21] vê que elas se movem,

[00:11:23] seja uma bolinha deslizando por um plano inclinado,

[00:11:26] seja os pontos brilhantes lá longe no céu,

[00:11:29] ele olha para tudo isso e não se pergunta por quê.

[00:11:32] O que ele se pergunta é, principalmente, como.

[00:11:35] Prestando muita atenção,

[00:11:37] observando e voltando a observar

[00:11:39] e medindo o que se observou

[00:11:41] e desenhando e descrevendo o que viu,

[00:11:43] Galileu quer entender como é que o movimento se dá.

[00:11:47] Nesse episódio, você vai observar e entender, com Galileu,

[00:11:50] esses movimentos celestes.

[00:11:52] Isso que ele chamou de dança das estrelas.

[00:11:55] E você vai entender também como é que a leitura de mundo do Galileu

[00:11:59] tinha muito de literária.

[00:12:01] Essa dança das estrelas interferiu na vida e nas relações do Galileu,

[00:12:06] que criou uma coreografia bem orquestrada

[00:12:09] para se inserir no mundo da corte.

[00:12:11] Olhe então aqui para Júpiter,

[00:12:13] através das palavras do próprio Galileu,

[00:12:15] no livro Sidérius Núncios.

[00:12:20] No sétimo dia de janeiro do presente ano de 1610,

[00:12:27] na primeira hora da noite,

[00:12:29] quando eu examinava os astros do céu através da luneta,

[00:12:33] Júpiter mostrou-se.

[00:12:35] E como me tinha munido de um instrumento excelente,

[00:12:39] vi que três pequenas estrelas estavam perto dele.

[00:12:43] Pequenas, mas muito brilhantes.

[00:12:48] Galileu primeiro percebeu

[00:12:50] esses três pequenos brilhos do lado de Júpiter,

[00:12:53] dois para o leste e um para o oeste.

[00:12:56] Ele desenhou rápido no papel que ele tinha acabado de ver,

[00:12:59] para não esquecer.

[00:13:00] Na noite seguinte, dia 8, a mesma coisa.

[00:13:03] Céu aberto, telescópio apontado para Júpiter,

[00:13:06] e ali de novo os três corpos brilhando,

[00:13:09] só que agora eles não estavam mais distribuídos do mesmo jeito.

[00:13:12] Galileu de novo desenhou o que ele viu.

[00:13:15] Na noite seguinte, uma interrupção.

[00:13:17] O céu estava nublado.

[00:13:19] Mas depois, no dia 10 de janeiro, o céu se abriu de novo

[00:13:22] e o Galileu viu mais uma vez aqueles astros brilhando,

[00:13:25] só que ainda em outra distribuição, no encalço de Júpiter.

[00:13:29] Era um comportamento muito estranho para qualquer corpo astronômico.

[00:13:33] Três dias depois, surgiu ainda um quarto corpo,

[00:13:36] bem pertinho de Júpiter.

[00:13:38] Galileu, com o seu instrumento excelente,

[00:13:41] descobriu então essas quatro estrelas próximas a Júpiter.

[00:13:44] Estrelas que se movem rapidamente e que, abre aspas,

[00:13:47] foram invisíveis para todos até agora.

[00:13:50] Fecha aspas.

[00:13:52] E estrelas, ou até mesmo planetas,

[00:13:55] foi a maneira como Galileu se referiu a essas luas,

[00:13:58] porque ninguém tinha ideia de que poderia haver qualquer outra lua

[00:14:01] que orbitasse qualquer outro planeta.

[00:14:08] Nenhuma teoria astronômica existente considerava a possibilidade

[00:14:12] de existirem outras luas girando ao redor de outros planetas

[00:14:15] que não fossem a Terra.

[00:14:18] Nenhuma teoria levantava essa hipótese,

[00:14:21] nem da mais convencional à mais maluca,

[00:14:24] como a ideia de um moleiro italiano do século XVI

[00:14:27] de que a Terra tinha se formado a partir do caos

[00:14:30] como um queijo se forma a partir do leite,

[00:14:33] e que apareceram vermes nesse leite.

[00:14:35] E esses vermes eram os anjos, os demônios e Deus.

[00:14:38] Esse moleiro acabou condenado e queimado pela Inquisição

[00:14:42] por dizer coisas como essas.

[00:14:44] E quatro séculos mais tarde, em 1976,

[00:14:48] ele virou tema de um dos livros de história mais populares do século XX,

[00:14:52] chamado O Queijo e os Vermes, do historiador Carlo Ginzburg.

[00:14:56] Bom, nem uma ideia como essa e nem qualquer outra,

[00:15:00] nem as teorias do Copérnico, nem as do Kepler,

[00:15:03] que era o principal astrônomo daquele momento,

[00:15:06] ninguém tinha imaginado a possibilidade de existir luas

[00:15:09] girando em torno de outros planetas.

[00:15:12] Era uma descoberta fantástica.

[00:15:14] Algo que parecia ter saído de um livro de aventuras.

[00:15:17] Quase como algo saído do Orlando Furioso,

[00:15:20] do tipo o poder de um personagem de transformar pedras em cavalos

[00:15:25] ou folhas de árvore em navios.

[00:15:28] A descoberta de novos corpos no céu.

[00:15:31] Hoje a gente sabe que não são só quatro as luas de Júpiter,

[00:15:35] mas pelo menos 90.

[00:15:37] Em 2023 foram descobertas mais 12.

[00:15:40] São luas de diferentes tamanhos,

[00:15:42] a grande maioria delas muito pequenas e com órbitas muito irregulares,

[00:15:46] que são impossíveis de serem avistadas por um telescópio como o do Galileu.

[00:15:50] Pensa que muitas dessas luas ainda nem receberam nomes.

[00:15:54] São corpos menores que estavam, por acaso,

[00:15:57] passando por perto do maior planeta do Sistema Solar

[00:16:00] e acabaram capturados pela gravidade,

[00:16:03] condenados a girar para sempre ao redor dele.

[00:16:06] Já as quatro luas que o Galileu identificou em 1610

[00:16:10] são de fato as luas mais massivas de Júpiter.

[00:16:14] Elas são tão grandes

[00:16:16] que se elas estivessem orbitando o Sol e não Júpiter,

[00:16:19] seriam consideradas planetas anões.

[00:16:22] A maior delas é maior até do que o planeta Mercúrio.

[00:16:26] E a segunda maior, a que está mais perto de Júpiter,

[00:16:29] é uma lua que está envolta por um oceano encoberto de gelo.

[00:16:33] Junto com algumas das luas geladas de Saturno,

[00:16:36] essa lua de Júpiter desbancou Marte

[00:16:39] e se tornou um dos lugares mais promissores do nosso Sistema Solar

[00:16:43] para o desenvolvimento de alguma forma de vida.

[00:16:46] Em abril de 2023,

[00:16:48] uma espaçonave foi lançada pela Agência Espacial Europeia

[00:16:52] só para investigar essas luas

[00:16:54] e a possibilidade de vidas minúsculas ali.

[00:16:57] Mas naquele momento,

[00:16:59] no comecinho do século XVII,

[00:17:02] Galileu não tinha como imaginar nada disso.

[00:17:05] Ele sabia que Júpiter era o maior planeta

[00:17:08] do nosso sistema.

[00:17:10] Mas ele não sabia, ele não tinha como saber,

[00:17:13] que Júpiter é um planeta gasoso

[00:17:15] feito de hidrogênio e de hélio,

[00:17:17] que são os dois elementos que se supõem

[00:17:20] serem os mais antigos do nosso universo

[00:17:23] e que compõem a totalidade desse planeta

[00:17:25] que não tem sequer uma superfície sólida,

[00:17:28] mesmo que a maior parte das luas dele

[00:17:30] sejam corpos rochosos.

[00:17:32] O Galileu não tinha como suspeitar

[00:17:35] que um dia, 385 anos depois,

[00:17:37] dele ter visto os pontos brilhantes próximos a Júpiter,

[00:17:41] uma espaçonave com o nome dele

[00:17:43] ia lançar uma sonda robótica

[00:17:45] através das nuvens do gigante gasoso

[00:17:48] para medir ventos que sobram

[00:17:50] a centenas de quilômetros por hora.

[00:18:05] Aqueles quatro pontos brilhantes,

[00:18:07] avistados pelo Galileu no inverno gelado,

[00:18:10] foram os primeiros objetos celestes descobertos

[00:18:13] que orbitam outro corpo que não é

[00:18:15] nem a Terra e nem o Sol.

[00:18:17] Para os filósofos, o que a existência dessas luas sugeria

[00:18:21] é que a Terra não é o planeta privilegiado

[00:18:23] do sistema solar nem do universo.

[00:18:26] Até então se fazia uma diferenciação da Terra,

[00:18:29] dizendo que, ao contrário dos outros planetas,

[00:18:32] essa grande esfera onde a gente vive

[00:18:34] e que flutua no espaço,

[00:18:36] seria a única com uma lua.

[00:18:39] E que isso aponta para o fato

[00:18:41] de que a Terra é diferente de todos os outros planetas

[00:18:44] e que a Terra, então, é regida por leis diferentes

[00:18:47] das que controlam o resto do universo.

[00:18:50] Esse argumento era a carta na manga

[00:18:52] de quem queria se opor ao modelo do Copérnico.

[00:18:55] O que esses opositores diziam

[00:18:57] era que seria impossível para a lua

[00:18:59] acompanhar um planeta que estivesse em movimento.

[00:19:02] O fato de a gente ter uma lua para chamar de nossa

[00:19:05] é o que aponta para a singularidade do planeta Terra.

[00:19:09] Isso confirma que esse planeta, sim, é imóvel

[00:19:13] e está, sim, no centro do universo.

[00:19:16] No modelo geocêntrico,

[00:19:18] a Terra é o único centro do universo.

[00:19:21] Já no modelo heliocêntrico do Copérnico,

[00:19:24] vá lá, talvez até dê para aceitar

[00:19:27] que o universo tenha dois centros,

[00:19:29] a Terra e o Sol.

[00:19:31] Mas com essa nova descoberta do Galileu,

[00:19:33] nem isso mais ia fazer sentido.

[00:19:36] O universo, então, teria mais um centro, Júpiter,

[00:19:39] o que queria dizer que, potencialmente,

[00:19:42] ele poderia ter infinitos centros.

[00:19:44] Ou nenhum.

[00:19:46] Um universo policêntrico e em movimento.

[00:19:49] O Galileu já conhecia uma coisa parecida com isso,

[00:19:52] ou já tinha lido alguma coisa parecida com isso

[00:19:55] em outro contexto, justamente no Orlando Furioso.

[00:19:59] Uma das maneiras possíveis de descrever esse,

[00:20:02] que era o livro preferido do Galileu,

[00:20:04] esse livro que ele leu a vida toda, desde jovem,

[00:20:06] até ele decorar passagens inteiras,

[00:20:08] e para o qual ele sempre voltava

[00:20:10] quando ele precisava encontrar inspiração,

[00:20:12] uma das maneiras de descrever o Orlando Furioso

[00:20:16] é justamente dizer que ele é um livro policêntrico e em movimento.

[00:20:21] A história do Orlando Furioso é um zigue-zague

[00:20:24] que é potencialmente infinito,

[00:20:26] com fatos encadeados depois de fatos,

[00:20:29] com uma velocidade tão grande,

[00:20:31] que muitas vezes a gente quase perde o fôlego lendo,

[00:20:34] e só tem um fim porque o autor morreu.

[00:20:37] Só ali ele parou de acrescentar novos episódios

[00:20:40] a essa longa aventura que viaja pela Europa

[00:20:42] e atravessa o mar a nada até a África,

[00:20:45] vai ao inferno e depois vai ao paraíso,

[00:20:47] e depois até a Lua,

[00:20:48] e se expande por tramas que desembocam em subtramas,

[00:20:51] e com criaturas viajantes que se encontram

[00:20:53] para depois se perderem de novo,

[00:20:55] e se procuram,

[00:20:56] e se espantam uma com a outra,

[00:20:58] amantes apaixonados,

[00:20:59] inimigos mortais,

[00:21:00] numa cadência rítmica que lembra

[00:21:02] o galope dos cavalos ou o tinir das espadas

[00:21:04] umas contra as outras.

[00:21:06] São novos e mais novos e mais novos personagens

[00:21:08] que vão brotando,

[00:21:10] como os corpos que brotaram no universo

[00:21:12] quando Galileu passou a observar com uma luneta.

[00:21:15] A incontável multidão de estrelas fixas

[00:21:17] que com as faculdades naturais

[00:21:19] se puderam observar até hoje,

[00:21:21] acrescentam-se incontáveis outras

[00:21:23] nunca antes vistas e que ultrapassam

[00:21:25] mais de dez vezes o número daquelas

[00:21:27] que se conhecem de há muito.

[00:21:29] Escreve Galileu no seu livro

[00:21:31] Sidérios Núncios.

[00:21:33] Aqui, no Orlando Furioso,

[00:21:35] tem uma multidão quase incontável

[00:21:37] de personagens,

[00:21:38] damas chorosas,

[00:21:39] fadas sábias,

[00:21:40] arcanjos,

[00:21:41] deuses olímpicos,

[00:21:42] taberneiros,

[00:21:43] pastores,

[00:21:44] barqueiros,

[00:21:45] eremitas,

[00:21:46] reis,

[00:21:47] num zig-zag que já parece uma rejeição

[00:21:49] ao modelo ptolomaico

[00:21:50] de um universo estático e hierárquico.

[00:21:53] Aqui, tudo se movimenta

[00:21:55] e os corpos são todos errantes.

[00:21:58] Mas o Orlando Furioso

[00:21:59] Ariosto morreu

[00:22:00] 30 anos antes do Galileu nascer.

[00:22:02] O Galileu amava um livro

[00:22:04] que era o livro mais importante

[00:22:05] de uma época anterior a ele,

[00:22:07] o século do Michelangelo,

[00:22:09] do Leonardo da Vinci.

[00:22:11] A gente já viu o Galileu aqui

[00:22:13] vestido de palhaço

[00:22:14] e vestido com a toga

[00:22:15] dos professores universitários.

[00:22:17] E a gente já ouviu a sugestão dele

[00:22:19] de sair todo mundo pelado por aí.

[00:22:22] Aliás, um dos sinais da loucura do Orlando

[00:22:25] é justamente esse.

[00:22:27] Agora,

[00:22:28] a gente vê mais uma vez

[00:22:30] Galileu com uma outra roupa.

[00:22:32] Dizem que ele se vestia seguindo uma moda

[00:22:34] uns 50 anos atrasado,

[00:22:36] uma coisa assim meio vintage.

[00:22:38] Esse também é Galileu,

[00:22:40] um revolucionário retrógrado.

[00:22:43] E depois de passar anos

[00:22:45] lendo essa poesia fantástica

[00:22:47] do Orlando Furioso,

[00:22:48] essa história já fora de moda,

[00:22:50] depois de anos admirado

[00:22:52] com o fato de que,

[00:22:54] mesmo no mais imaginativo e irreal,

[00:22:56] o Ariosto sabia dar um clima de realidade

[00:22:59] àquilo que ele contava.

[00:23:01] Por exemplo,

[00:23:02] o Galileu parabeniza o Ariosto

[00:23:04] pela intuição de,

[00:23:05] ao descrever um gigante,

[00:23:06] entender que,

[00:23:07] para que ele seja muito alto,

[00:23:09] ele precisa ser também muito largo e amplo,

[00:23:11] ou ele não teria como ter ossos

[00:23:13] que o sustentassem.

[00:23:15] Depois de ler um livro que é,

[00:23:17] ao mesmo tempo,

[00:23:18] maravilhoso e verossímil,

[00:23:20] Galileu também fez uma coisa parecida.

[00:23:23] Para apresentar as suas próprias diretrizes,

[00:23:26] descobertas maravilhosas ao mundo,

[00:23:28] ele encontrou uma maneira

[00:23:30] de descrever essas descobertas

[00:23:32] que também convencesse as pessoas,

[00:23:34] uma maneira que tivesse

[00:23:36] um clima de realidade.

[00:23:38] Como convencer os seus leitores,

[00:23:40] por exemplo,

[00:23:41] de que aquilo não era só uma ilusão

[00:23:43] produzida pelo telescópio,

[00:23:45] que ninguém nem entendia muito bem

[00:23:47] como é que funcionava?

[00:23:49] Ou como explicar que o telescópio

[00:23:51] não só aumentava de tamanho

[00:23:53] algumas estrelas ou planetas próximos,

[00:23:55] como também fazia brotar novas estrelas

[00:23:57] quando ele era apontado para o escuro da noite?

[00:23:59] Quando Galileu fez as descobertas

[00:24:01] com esse seu instrumento novo e desconhecido

[00:24:03] da maior parte do público,

[00:24:05] ele precisava saber como apresentar

[00:24:07] o aparentemente inverossímil

[00:24:09] como verossímil.

[00:24:11] Quer dizer,

[00:24:13] ele precisava encontrar a maneira

[00:24:15] de escrever com clareza

[00:24:17] sobre coisas obscuras.

[00:24:19] Coisas reais,

[00:24:21] como hoje a gente sabe

[00:24:23] serem reais as luas de Júpiter

[00:24:25] ou as estrelas distantes

[00:24:27] do nosso universo.

[00:24:29] Mas são coisas quase tão fantásticas

[00:24:31] para um renascentista

[00:24:33] quanto qualquer viagem à lua

[00:24:35] numa carruagem puxada por cavalos alados.

[00:24:37] A questão para o Galileu

[00:24:39] passou a ser

[00:24:41] o que fazer com essas descobertas?

[00:24:43] Como contar tudo o que ele viu?

[00:24:45] E essa também é a pergunta básica

[00:24:47] que qualquer escritor tem que se fazer.

[00:24:49] Tudo está no como

[00:24:51] mais do que no que contar

[00:24:53] ou no porquê contar.

[00:24:55] E o Sidereus Nuncius é um livro

[00:24:57] que a gente não quer abandonar

[00:24:59] quando a gente começa a ler.

[00:25:01] A linguagem dele é toda clara,

[00:25:03] inclusive pra gente hoje no século XXI

[00:25:05] e a gente sente o tempo todo

[00:25:07] a vitalidade do texto,

[00:25:09] o desejo de contar uma coisa nova

[00:25:11] e importante.

[00:25:13] O Galileu conta de como ele se sentiu

[00:25:15] quando ele primeiro observou o céu

[00:25:17] pelo telescópio.

[00:25:19] Qual é o passo a passo

[00:25:21] pra quem quiser montar um telescópio em casa

[00:25:23] também e tirar a dúvida por si próprio?

[00:25:25] Com um tubo de chumbo

[00:25:27] é necessário que preparem uma luneta

[00:25:29] de grande precisão

[00:25:31] que apresente os objetos de maneira

[00:25:33] brilhante, distintamente,

[00:25:35] sem estarem obscurecidos.

[00:25:37] E o que isso promete?

[00:25:39] Coisas talvez mais excelentes

[00:25:41] serão descobertas com o tempo

[00:25:43] ou por mim ou por outros

[00:25:45] com a ajuda de um instrumento semelhante.

[00:25:47] No episódio passado a gente falou

[00:25:49] de como a escolha do título

[00:25:51] dos Sidérios Núncios foi importante

[00:25:53] e de como a diagramação

[00:25:55] e a tipografia foram pensadas

[00:25:57] pra que o livro fosse um objeto de

[00:25:59] persuasão. Isso também faz

[00:26:01] parte da revelação sobre os satélites

[00:26:03] que ele viu em torno de Júpiter.

[00:26:05] As ilustrações do livro são parte

[00:26:07] de um argumento.

[00:26:09] Se hoje é comum que as descobertas

[00:26:11] científicas sejam publicadas

[00:26:13] acompanhadas de muitas imagens,

[00:26:15] naquele momento Galileu estava fazendo

[00:26:17] uma coisa muito inovadora.

[00:26:19] E essa sacada de artista que ele teve

[00:26:21] foi muito propícia

[00:26:23] pra dar conta de revelar as descobertas

[00:26:25] tão incríveis.

[00:26:27] E aqui, mais uma vez,

[00:26:29] você ouve o Tomás Haddad, que você já ouviu

[00:26:31] no episódio passado.

[00:26:33] Ele é professor de História da Ciência

[00:26:35] na Escola de Arte, Ciências e Humanidades da USP.

[00:26:37] Tem as imagens também

[00:26:39] que são ótimas,

[00:26:41] são divertidíssimas

[00:26:43] até eu diria,

[00:26:45] dos satélites de Júpiter

[00:26:47] que é uma espécie de um filme.

[00:26:49] E ali usando símbolos

[00:26:51] tipográficos mesmo.

[00:26:53] Uma letra O deitada pra representar

[00:26:55] Júpiter e

[00:26:57] asteriscos pra representar os satélites.

[00:26:59] Ora tem

[00:27:01] quatro de um lado

[00:27:03] e nenhum de outro.

[00:27:05] Ora tem dois e dois, três e um.

[00:27:07] Isso é possível fazer.

[00:27:09] Se a gente pega o PDF do livro

[00:27:11] recorta as imagens

[00:27:13] dá pra fazer um tipo de um filminho

[00:27:15] em que é possível ver

[00:27:17] esse movimento

[00:27:19] dos satélites

[00:27:21] exatamente como se vê no telescópio.

[00:27:23] Porque

[00:27:25] a gente até poderia dizer

[00:27:27] como assim o movimento dos satélites

[00:27:29] isso se dá em três dimensões

[00:27:31] eles estão girando em torno de Júpiter.

[00:27:33] Mas no telescópio o que você vê

[00:27:35] é uma coisa chapada,

[00:27:37] bidimensional

[00:27:39] em que tem Júpiter iluminado

[00:27:41] e do lado dele as vezes

[00:27:43] tem do lado direito

[00:27:45] vamos dizer, quatro

[00:27:47] luzinhas, as vezes tem

[00:27:49] duas do lado direito e duas do esquerdo

[00:27:51] uma e três

[00:27:53] e variações disso.

[00:27:55] Essa imagem que é bidimensional

[00:27:57] o Galileu

[00:27:59] interpreta como

[00:28:01] olha, isso é aquilo que é possível ver

[00:28:03] com o telescópio de um movimento

[00:28:05] que se dá no espaço

[00:28:07] de coisas que estão girando

[00:28:09] em torno de outras.

[00:28:11] E ele representa dessa maneira

[00:28:13] que é uma maneira econômica

[00:28:15] do ponto de vista da impressão, ele não

[00:28:17] precisa contratar um gravador

[00:28:19] para fazer uma imagem

[00:28:21] em cobre, em madeira,

[00:28:23] o que quer que seja, usa símbolos

[00:28:25] que estão ali nas próprias caixas no impressor

[00:28:27] e de certa forma

[00:28:29] mimetiza

[00:28:31] aquilo que se vê no telescópio.

[00:28:47] Você pode ver essas imagens

[00:28:49] na nossa newsletter, que se você não assina

[00:28:51] é só entrar no site da Livraria

[00:28:53] Megafauna para assinar e também

[00:28:55] ler as edições passadas.

[00:28:57] O Galileu criou um cineminha

[00:28:59] para revelar o movimento dos satélites

[00:29:01] de Júpiter, uma animação

[00:29:03] em stop motion.

[00:29:05] E essas ilustrações

[00:29:07] são um argumento de peso esmagador

[00:29:09] não dá para se fazer

[00:29:11] de desentendido depois de olhar para elas.

[00:29:13] Elas criam aquele clima

[00:29:15] de realidade do que ele quer mostrar.

[00:29:17] E no limite, dá sempre

[00:29:19] para apelar. Como quando

[00:29:21] Ariosto, no Orlando Furioso,

[00:29:23] conta cenas especialmente estrambóticas

[00:29:25] de burros que voam

[00:29:27] e de um homem que quer fugir em pânico

[00:29:29] se joga de um penhasco

[00:29:31] e consegue se agarrar num galho de uma árvore

[00:29:33] no meio do caminho. Muito assustado

[00:29:35] mas feliz também

[00:29:37] que finalmente ele consegue apreciar

[00:29:39] aquela vista. Depois de contar

[00:29:41] tudo isso, Ariosto para

[00:29:43] e diz.

[00:29:44] Exagerado

[00:29:45] Eu? Nunca. Jamais

[00:29:47] eu misturaria ficções

[00:29:49] nisso tudo que eu conto.

[00:29:51] Se tiverem algum problema com isso

[00:29:53] podem ir brigar com quem me contou essas histórias.

[00:29:55] E o Galileu poderia dizer

[00:29:57] se tiverem um problema com meu livro

[00:29:59] podem ir brigar com o universo.

[00:30:01] Antes daquelas

[00:30:03] noites de janeiro de 1610

[00:30:05] não tem muito

[00:30:07] nada que indique que o Galileu tinha a intenção

[00:30:09] de publicar um livro de astronomia.

[00:30:11] Ele tinha 47 anos

[00:30:13] quando Sidereus Núncio

[00:30:14] saiu.

[00:30:16] Naquele momento ele era um professor

[00:30:18] de matemática da universidade

[00:30:20] de Pádua e mal e mal

[00:30:22] ele conseguia sustentar os três filhos

[00:30:24] que ainda eram pequenos.

[00:30:26] Era uma vida difícil, mas

[00:30:28] anos mais tarde, o Galileu

[00:30:30] diria que esses anos em Pádua

[00:30:32] antes da publicação do livro

[00:30:34] foram os mais felizes da vida

[00:30:36] dele. Ele frequentava

[00:30:38] palácios cor-de-rosa de amigos

[00:30:40] e ao mesmo tempo ele dava aulas

[00:30:42] particulares de matemática

[00:30:44] para ajudar a pagar as próprias contas.

[00:30:46] Ele vendia esquadros, bússolas

[00:30:48] e um compasso militar que ele mesmo tinha inventado

[00:30:50] e tudo isso porque a matemática

[00:30:52] era considerado um assunto de segunda importância.

[00:30:54] Era muito diferente

[00:30:56] da filosofia, que era superior

[00:30:58] a matemática tanto no status profissional

[00:31:00] quanto no salário.

[00:31:02] Enquanto os matemáticos lidavam com os

[00:31:04] acidentes, o que os filósofos

[00:31:06] faziam era lidar com as causas

[00:31:08] dos fenômenos.

[00:31:10] Os filósofos é que fazem a pergunta nobre

[00:31:12] por quê?

[00:31:14] Os matemáticos são mais plebeus

[00:31:16] a pergunta é de uma ciência menor

[00:31:18] eles só querem saber como.

[00:31:20] E fazer essa explicação

[00:31:22] caber em números ou linhas e triângulos.

[00:31:24] Quando Galileu era jovem

[00:31:26] o pai dele tinha colocado ele para estudar

[00:31:28] medicina, para que ele pudesse

[00:31:30] ter uma profissão respeitável.

[00:31:32] Mas o Galileu se entediava

[00:31:34] com as aulas e aos poucos ele foi

[00:31:36] deixando de frequentar a faculdade

[00:31:38] porque ele gostava muito mais de passar os dias

[00:31:40] fazendo contas e decifrando as propriedades

[00:31:42] dos triângulos.

[00:31:44] Ele largou a faculdade antes de se formar.

[00:31:46] Mas ele tinha uma outra

[00:31:48] vantagem profissional desde cedo.

[00:31:50] Porque não é só da época de

[00:31:52] Pádua que ele frequentava palácios

[00:31:54] espalhafatosos de amigos nobres.

[00:31:56] O Galileu cresceu

[00:31:58] frequentando o mundo da corte.

[00:32:00] Mas foi pelas beiradas.

[00:32:02] O pai do Galileu era músico nas principais

[00:32:04] cortes da Itália.

[00:32:06] Ele levava o Galileu para conhecer aquele ambiente

[00:32:08] que era cheio de códigos próprios e de

[00:32:10] regras de convívio que são difíceis

[00:32:12] de entender e de imitar

[00:32:14] se você já não pertence àquele lugar.

[00:32:16] O jovem Galileu

[00:32:18] teve uma vantagem porque ele pôde observar

[00:32:20] desde cedo como aquele

[00:32:22] universo funcionava e

[00:32:24] sem precisar de um telescópio para isso.

[00:32:26] Mas foi só aos 47

[00:32:28] anos, quando ele publicou

[00:32:30] Sidérios Núncios, que o Galileu

[00:32:32] de fato se inseriu no mundo

[00:32:34] da corte. O Sidérios Núncios é

[00:32:36] um tipo de um passaporte

[00:32:38] do Galileu para entrar

[00:32:40] na corte granducal

[00:32:42] de Florença.

[00:32:44] Aqui, mais uma vez, é o Tomás Haddad.

[00:32:46] Então, ele rapidamente já negocia

[00:32:48] com o secretário de Estado

[00:32:50] de Florença, com quem ele já

[00:32:52] tinha uma relação ao longo

[00:32:54] da última década,

[00:32:56] mais ou menos, da primeira década

[00:32:58] do século XVII. Ele ia

[00:33:00] anualmente para Florença

[00:33:02] e etc. Ele negocia

[00:33:04] com esse secretário de Estado

[00:33:06] a possibilidade do granduque aceitar

[00:33:08] a dedicatória

[00:33:10] do livro que ele já está planejando

[00:33:12] escrever para relatar essas

[00:33:14] descobertas e que é o Sidérios

[00:33:16] Núncios.

[00:33:18] O que o Galileu vai fazer é dedicar o livro

[00:33:20] ao Cosimo II de Medici,

[00:33:22] um ex-aluno particular

[00:33:24] para quem ele ensinou matemática

[00:33:26] e que tinha se tornado um granduque

[00:33:28] fazia pouco mais de um ano

[00:33:30] e que, por isso, agora, estava em condições

[00:33:32] perfeitas para se tornar um patrono.

[00:33:34] Cosimo

[00:33:36] é o primogênito de quatro irmãos

[00:33:38] e esse número, quatro,

[00:33:40] por acaso, é exatamente

[00:33:42] o mesmo que o número de pontinhos

[00:33:44] que o Galileu tinha visto

[00:33:46] rodeando o planeta Júpiter.

[00:33:48] É uma coincidência muito feliz.

[00:33:50] Quando Galileu avistou o quarto ponto

[00:33:52] de luz, ele percebeu que, além de

[00:33:54] ter feito uma grande descoberta,

[00:33:56] ele tinha encontrado finalmente a passagem

[00:33:58] de entrada para a corte de Florença.

[00:34:00] O Galileu nomeia

[00:34:02] as luas de Júpiter de estrelas

[00:34:04] mediceias e diz na dedicatória

[00:34:06] do livro que, como línguas,

[00:34:08] os astros brilhantes

[00:34:10] hão de narrar e celebrar

[00:34:12] as extraordinárias virtudes dos Medici.

[00:34:14] A família Medici

[00:34:16] aceita esse nome com muito orgulho.

[00:34:18] Em parte, por aquela ser uma descoberta

[00:34:20] de fato maravilhosa

[00:34:22] e que deixaria todos os convidados

[00:34:24] espantados durante os banquetes na corte.

[00:34:26] Muito mais do que com os cavalos

[00:34:28] por o sangue, os pavões assados

[00:34:30] e as jóias orientais

[00:34:32] que eles tinham para exibir.

[00:34:34] Eles, agora, tinham estrelas

[00:34:36] para exibir.

[00:34:38] O mais importante ainda

[00:34:40] era ter um símbolo que legitimasse

[00:34:42] o poder deles.

[00:34:44] Aquela nomeação era uma maneira de dizer

[00:34:46] que até no universo existiam sinais

[00:34:48] da importância da família Medici.

[00:34:50] Isso porque, se até pouco

[00:34:52] antes disso você podia localizar

[00:34:54] um centro de poder, fosse na figura

[00:34:56] de um rei ou do papa,

[00:34:58] agora, com essa nova classe poderosa,

[00:35:00] o mundo passa a ter

[00:35:02] mais de um centro.

[00:35:04] É uma política policêntrica

[00:35:06] de movimento.

[00:35:08] Galileu viu no céu o que se via na terra,

[00:35:10] que a hierarquia do sistema antigo

[00:35:12] já não era mais um dado.

[00:35:14] A ideia de centro

[00:35:16] estava em disputa

[00:35:18] e as antigas estruturas davam lugar

[00:35:20] a novos tipos de movimento.

[00:35:22] Pela homenagem, Cosimo de Medici

[00:35:24] pagou um salário de mil escudos

[00:35:26] por ano para que Galileu

[00:35:28] se tornasse o matemático

[00:35:30] e também o filósofo da corte.

[00:35:32] Um pagamento como esse era três vezes maior

[00:35:34] do que qualquer artista importante

[00:35:36] que recebia na época.

[00:35:38] E colocava o Galileu no ranking

[00:35:40] das dez pessoas mais bem pagas

[00:35:42] do grão ducado da Toscana.

[00:35:44] Nisso, o Galileu,

[00:35:46] pra mim, dá pra dizer que ele tem até,

[00:35:48] ou ele representa,

[00:35:50] um tipo de encarnação do príncipe

[00:35:52] do Maquiavel que é super interessante.

[00:35:54] Algo surge

[00:35:56] e ele tem aquela capacidade

[00:35:58] de, bom,

[00:36:00] vou aproveitar essa oportunidade

[00:36:02] pra fazer alguma coisa

[00:36:04] que vai ser boa pra essa minha família.

[00:36:06] De fama pra essa minha permanência.

[00:36:08] Então, pra mim,

[00:36:10] ele representa um dos casos mais

[00:36:12] ricos, assim, pra se pensar

[00:36:14] o que é fazer ciência

[00:36:16] num mundo de corte

[00:36:18] no começo

[00:36:20] do século XVII.

[00:36:22] No mesmo dia que o livro saiu,

[00:36:24] o embaixador inglês que vivia em Veneza

[00:36:26] despachou uma cópia dos Cidades Nuncius

[00:36:28] pro rei da Inglaterra.

[00:36:30] Esse embaixador disse pro rei que estava enviando

[00:36:32] a mais estranha notícia

[00:36:34] que vossa majestade terá recebido

[00:36:36] de qualquer parte do mundo.

[00:36:38] E o autor está fadado

[00:36:40] a ser ou muitíssimo famoso

[00:36:42] ou muitíssimo ridículo.

[00:36:44] Os 550 exemplares

[00:36:46] impressos da primeira edição

[00:36:48] de Sidereus Nuncius

[00:36:50] esgotaram em menos de uma semana.

[00:36:52] Duques italianos, príncipes alemães,

[00:36:54] a rainha da França,

[00:36:56] o sacro imperador romano e metade

[00:36:58] dos cardeais de Roma

[00:37:00] escreveram pra Galileu encomendando telescópios.

[00:37:02] Em Paris, disseram

[00:37:04] que se o Galileu encontrasse qualquer outro planeta

[00:37:06] que ele deveria nomeá-lo

[00:37:08] em homenagem ao rei francês

[00:37:10] porque isso tornaria o próprio Galileu

[00:37:12] e toda sua família

[00:37:14] ricos pra sempre.

[00:37:16] Um jesuíta português que vivia em Pequim

[00:37:18] e que soube da notícia contou pros chineses

[00:37:20] que um famoso sábio ocidental

[00:37:22] usou um maravilhoso instrumento

[00:37:24] pra ver a Lua mil vezes maior.

[00:37:26] Vênus do tamanho da Lua,

[00:37:28] Saturno com forma de

[00:37:30] ovo de galinha

[00:37:32] e Júpiter rodeado de quatro pequenas estrelas

[00:37:34] que giram em torno dele

[00:37:36] muito velozmente.

[00:37:42] Talvez não haja

[00:37:44] nada mais velho na natureza

[00:37:46] do que o movimento.

[00:37:48] A gente retoma aqui aquela frase

[00:37:50] que você ouviu no comecinho desse episódio

[00:37:52] do próprio Galileu

[00:37:54] que concorda com Aristóteles

[00:37:56] quando ele diz que

[00:37:58] o princípio da natureza é o movimento e a mudança.

[00:38:00] Com o modelo copernicano

[00:38:02] o modelo que o Galileu defendeu

[00:38:04] você tira a Terra

[00:38:06] de um lugar estático

[00:38:08] e põe ela em movimento.

[00:38:10] O Galileu descreveu isso

[00:38:12] como colocar a Terra pra fazer parte

[00:38:14] da dança das estrelas.

[00:38:16] Com uma Terra em movimento

[00:38:18] tudo que a gente vê

[00:38:20] também tem que ser percebido

[00:38:22] a partir desse movimento.

[00:38:24] Quer dizer, quando você põe a Terra em movimento

[00:38:26] você põe também o observador

[00:38:28] em movimento.

[00:38:30] Hoje a gente não está mais parado

[00:38:32] olhando pras coisas

[00:38:34] a gente está também se movendo

[00:38:36] enquanto observa

[00:38:38] e a gente se observa observando.

[00:38:40] No finalzinho do Orlando Furioso

[00:38:42] o Ariosto descreve a chegada a um porto

[00:38:44] onde os amigos dele estão esperando.

[00:38:46] O poema dá uma volta

[00:38:48] em si mesmo

[00:38:50] como se ele pudesse se olhar

[00:38:52] a partir dos olhos daqueles

[00:38:54] que estão vendo ele chegar.

[00:38:56] O Galileu faz também um movimento parecido

[00:38:58] quando ele olha pra longe

[00:39:00] poderia estar olhando de volta pra ele.

[00:39:02] Ele faz

[00:39:04] como Duque Astolfo

[00:39:06] que da Lua olha pra Terra

[00:39:08] e percebe que a Terra é como a Lua

[00:39:10] de quem olha de lá pra cá.

[00:39:12] Existe Terra cheia

[00:39:14] assim como existe Lua cheia

[00:39:16] e o Galileu diz isso

[00:39:18] com todas as letras

[00:39:20] no livro dele.

[00:39:22] A partir daí, a partir dessa percepção

[00:39:24] o lugar que as coisas ocupam

[00:39:26] só pode ser percebido

[00:39:28] se você pensar primeiro no observador

[00:39:30] em como ele está enxergando

[00:39:32] o que ele enxerga.

[00:39:34] Isso vai gerar a necessidade de uma nova

[00:39:36] compreensão do mundo

[00:39:38] e no caso do Galileu, de uma nova física

[00:39:40] uma física que leva em consideração

[00:39:42] o observador.

[00:39:44] Uma física que três séculos antes

[00:39:46] do Einstein já deixa tudo

[00:39:48] um pouco relativo.

[00:39:50] Então a gente encerra imitando

[00:39:52] o que o Galileu escreveu pra terminar

[00:39:54] Os Sidérios Núncios.

[00:39:58] A falta de tempo me impede

[00:40:00] de prosseguir esse assunto.

[00:40:02] O honesto leitor pode esperar em breve

[00:40:04] mais sobre esses temas.

[00:40:06] E adivinha de quem ele pegou

[00:40:08] esse jeito de terminar uma história?

[00:40:10] Do próprio Orlando Furioso.

[00:40:12] Então a gente se despede até o próximo episódio

[00:40:14] imitando o Galileu

[00:40:16] que imitou o Ariosto.

[00:40:18] A gente gostaria de dizer mais

[00:40:20] mas não vai dar tempo.

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