Bit Quântico: Gabriela Lemos e os peixes fora d’água


Resumo

Este episódio conta a trajetória da física Gabriela Barreto Lemos, professora do Instituto de Física da UFRJ. A história começa com seu interesse inicial por cosmologia durante a graduação na UFMG, que foi redirecionado para a física quântica após uma conversa com a professora Maria Carolina Nemes. A paixão de Carolina pelos experimentos pioneiros de Sérgio Haroche, que mais tarde ganhariam o Prêmio Nobel, contagiou Gabriela e a levou para o mundo da ótica quântica.

No doutorado, Gabriela mudou-se para o Rio de Janeiro para trabalhar com Luiz Davidovich, mas acabou sendo orientada por Fabrício Toscano na área de caos quântico. Uma proposta teórica dela evoluiu para um desafio experimental quando o professor Paulo Henrique Souto Ribeiro (Paulão) sugeriu que ela mesma realizasse o experimento em seu laboratório minúsculo no Fundão. Ela descreve as dificuldades da transição da teoria para a prática, seu laboratório decorado com imagens dos jardins de Monet, e a emoção de finalmente ver os fenômenos previstos se materializarem nos resultados.

Para o pós-doutorado, após várias tentativas frustradas, Gabriela conseguiu uma bolsa de prestígio em Viena com Anton Zeilinger (futuro Nobel) em circunstâncias improváveis: aplicou de uma lan house na Bolívia no dia do prazo e fez a entrevista à beira de uma piscina no México, com a bateria do laptop acabando no meio da chamada. Em Viena, ela experimentou intensamente a síndrome do impostor, questionando se merecia estar ali.

O episódio finaliza refletindo sobre a síndrome do impostor como um fenômeno comum na carreira científica, especialmente em transições e novos ambientes. Gabriela compartilha que aprendeu a valorizar sua trajetória única e que a diversidade de experiências e formas de pensar é crucial para o avanço da ciência. Sua história é um exemplo de persistência, de mirar alto apesar dos ‘nãos’ e inseguranças, e de abraçar oportunidades mesmo quando se sente como um ‘peixe fora d’água’.


Indicações

Conceitos

  • Síndrome do Impostor — Fenômeno discutido no final do episódio, onde pessoas se sentem como fraudes, duvidando de suas habilidades e realizações. Gabriela relata ter sentido isso intensamente ao chegar em Viena.

Lugares

  • Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) — Onde Gabriela fez sua graduação e iniciou sua pesquisa em física quântica com Maria Carolina Nemes.
  • Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) — Para onde Gabriela se mudou para o doutorado, inicialmente para trabalhar com Luiz Davidovich, e onde realizou seu primeiro experimento no laboratório do Fundão.
  • Viena, Áustria — Local do prestigiado pós-doutorado de Gabriela com Anton Zeilinger, onde ela experienciou fortemente a síndrome do impostor.

Pessoas

  • Maria Carolina Nemes — Professora da UFMG que orientou Gabriela na iniciação científica e mestrado, apresentando-a aos experimentos de Sérgio Haroche. Foi homenageada com o prêmio Carolina Nemes para físicas em início de carreira.
  • Sérgio Haroche — Físico experimental francês, ganhador do Prêmio Nobel de Física em 2012 por suas técnicas pioneiras de manipulação e medição de sistemas quânticos, como prender fótons em cavidades e criar estados tipo ‘gato de Schrödinger’.
  • Claude Cohen-Tannoudji — Físico francês, ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1997 por técnicas de resfriamento de átomos com lasers. Ele respondeu educadamente ao e-mail de Gabriela, indicando que estava aposentado e sugerindo que ela contactasse Alain Aspect.
  • Alain Aspect — Físico francês, ex-aluno de Cohen-Tannoudji, mencionado como potencial orientador de doutorado. Ganhou o Prêmio Nobel de Física em 2022, poucos meses após esta entrevista ter sido gravada.
  • Luiz Davidovich — Professor emérito da UFRJ, grande nome da ótica quântica no Brasil e ex-presidente da Academia Brasileira de Ciências. Gabriela inicialmente queria ser orientada por ele no doutorado.
  • Fabrício Toscano — Professor da UFRJ que orientou Gabriela no doutorado, trabalhando na área de caos quântico. Ajudou-a a alinhar seus interesses com a proposta experimental.
  • Paulo Henrique Souto Ribeiro (Paulão) — Professor (na época na UFRJ, hoje na UFSC) que chefiava o laboratório onde Gabriela realizou seu primeiro experimento. Foi quem a desafiou a fazer o experimento ela mesma e a apoiou durante o processo.
  • Anton Zeilinger — Pesquisador em Viena com quem Gabriela fez pós-doutorado. Ganhou o Prêmio Nobel de Física em 2022, junto com Alain Aspect. Ele valorizou o entusiasmo de Gabriela ao selecioná-la para a bolsa.

Linha do Tempo

  • 00:01:12O início do interesse pela física quântica — Gabriela conta que inicialmente queria estudar cosmologia na UFMG, mas não havia orientadores na área. O coordenador do curso a direcionou para a professora Maria Carolina Nemes, que trabalhava com física de partículas. Esse encontro foi o ponto de partida para sua jornada na física quântica.
  • 00:02:53A paixão pelos experimentos de Sérgio Haroche — Maria Carolina Nemes apresentou a Gabriela os experimentos pioneiros do físico francês Sérgio Haroche, que mais tarde ganharia o Nobel. Haroche criava ‘gatinhos de Schrödinger’ ao prender fótons em cavidades e emaranhá-los com átomos. A fascinação por fenômenos quânticos que desafiam a lógica clássica fez Gabriela se apaixonar pela área.
  • 00:05:10O doutorado e a mudança para o Rio — Após receber várias negativas para bolsas no exterior, incluindo uma elegante recusa de Claude Cohen-Tannoudji (Nobel) que a indicou para Alain Aspect (futuro Nobel), Gabriela decidiu fazer doutorado no Rio com Luiz Davidovich. Ela não foi tão bem na prova de seleção e acabou sendo orientada por Fabrício Toscano, trabalhando com caos quântico.
  • 00:08:57O desafio de fazer seu primeiro experimento — Ao final do doutorado, Gabriela e Fabrício fizeram uma proposta experimental. O professor Paulo Henrique Souto Ribeiro (Paulão) disse que não tinha ninguém para realizá-la, mas que ela poderia tentar fazer ela mesma no laboratório dele. Ela aceitou o desafio e descreve o laboratório minúsculo, que decorou com imagens dos jardins de Monet, e as dificuldades de transitar da teoria para a prática.
  • 00:12:44A conquista do pós-doutorado em Viena — Para o pós-doc, Gabriela queria voltar para a teoria. Após muitas negativas, recebeu um e-mail do Paulão em 31 de dezembro, durante uma viagem de mochilão na Bolívia, sobre uma vaga em Viena com prazo naquele mesmo dia. Ela se inscreveu às pressas de uma lan house. A entrevista foi feita à beira de uma piscina no México, com a bateria do laptop acabando. Ela conseguiu a bolsa para trabalhar com Anton Zeilinger (futuro Nobel).
  • 00:16:26A síndrome do impostor em Viena — Gabriela descreve a sensação de ser um ‘peixe fora d’água’ ao chegar em Viena para a prestigiada bolsa. Ela duvidava se tinha o currículo adequado e se perguntava ‘o que eu estou fazendo aqui?‘. Mais tarde, Zeilinger lhe disse que a escolheu por seu entusiasmo, mesmo sem muita experiência, porque ela aprenderia. O episódio usa essa experiência para discutir a síndrome do impostor na carreira científica.

Dados do Episódio

  • Podcast: O Q Quântico
  • Autor: O Q Quântico
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2024-05-02T10:00:00Z
  • Duração: 00:19:58

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Olá, pessoal! Eu sou a Glaucia Murta e esse é o podcast O Que Quântico.

[00:00:08] A gente está começando mais um Bit Quântico e hoje a gente vai contar a história da Gabriela Barreto Lemos,

[00:00:14] que se enveredou tanto por teoria quanto por experimentos e que nesse percurso esbarrou em vários ganhadores do Prêmio Nobel.

[00:00:22] E a Gabriela, além de ser uma grande cientista, também é uma ótima contadora de histórias, como vocês já já vão descobrir.

[00:00:30] A Gabriela Barreto Lemos atualmente é professora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro,

[00:00:45] mas ela é mineira e começou seus estudos na Universidade Federal de Minas Gerais.

[00:00:51] Aliás, você já deve ter notado que boa parte dos nossos entrevistados tem alguma conexão com a UFMG.

[00:00:57] E isso não é por acaso.

[00:00:59] Já que tanto eu quanto o Léo fizemos o doutorado por lá e a gente se conheceu nesse período.

[00:01:05] Bom, mas para começar a contar a história da Gabriela, a gente perguntou como que ela se interessou pela física quântica.

[00:01:12] Como é que eu me interessei? Eu queria fazer cosmologia, na verdade.

[00:01:17] E na UFMG, na época, eu não tinha nenhum cosmólogo, não tinha ninguém para me orientar na graduação.

[00:01:23] Aí eu fui conversar com o coordenador de curso.

[00:01:27] Essa história começa lá no…

[00:01:29] No início dos anos 2000.

[00:01:31] A essa altura, a Gabriela já estava cursando a graduação em Física

[00:01:35] e tentava entrar em alguma área de pesquisa mais específica.

[00:01:39] E já que não tinha ninguém para orientar ela em cosmologia,

[00:01:42] o coordenador do curso sugeriu uma outra direção.

[00:01:46] Então, ele me sugeriu que eu procurasse a professora Maria Carolina Nemes,

[00:01:50] que trabalhava na época com física de partículas.

[00:01:54] A professora Maria Carolina Nemes é um nome muito importante e muito querido,

[00:01:59] na comunidade física brasileira.

[00:02:02] Eu tive o prazer de ter aula de quântica com ela.

[00:02:05] E olha, eu posso dizer que era inspirador ouvir sobre quântica de quem gostava tanto do que fazia.

[00:02:11] A Maria Carolina faleceu em 2013.

[00:02:14] E em sua homenagem, foi criado o prêmio Carolina Nemes para físicas em início de carreira,

[00:02:20] cujo trabalho de pesquisa tenha contribuído de forma significativa

[00:02:24] para o avanço da física ou do ensino de física no país.

[00:02:28] Mas voltando para a Gabriela,

[00:02:29] ela foi lá, conversou com a Maria Carolina

[00:02:32] e acertou de começar a estudar física de partículas com ela.

[00:02:36] Isso foi no final do semestre, logo antes da Gabriela sair de férias.

[00:02:40] E quando eu voltei das férias, ela falou assim,

[00:02:43] olha, tem uma coisa que está me deixando muito mais animada do que a física de partículas.

[00:02:49] Tem coisa que está me deixando assim, me perdendo sono, assim.

[00:02:53] Aí eram os experimentos do Sérgio Arroche.

[00:02:57] O Sérgio Arroche é um físico experimenteado,

[00:02:59] experimental francês,

[00:03:00] que nessa época estava desenvolvendo técnicas pioneiras

[00:03:04] para manipular e medir sistemas quânticos.

[00:03:07] Essas técnicas levaram ele a ganhar o Prêmio Nobel de Física em 2012.

[00:03:12] E elas se baseavam em prender a luz, ou seja, prender fótons entre espelhos,

[00:03:18] no que a gente chama de uma cavidade.

[00:03:20] Ele conseguia ver uma situação tipo gato de Schrödinger na cavidade,

[00:03:24] em que você tinha um átomo emaranhado com fótons,

[00:03:29] na cavidade.

[00:03:30] Então, ele estava criando gatinhos de Schrödinger.

[00:03:33] A gente ainda não explicou aqui no podcast o que é emaranhamento,

[00:03:37] mas no episódio 6, a gente vai falar um pouquinho disso.

[00:03:41] Por agora, não se preocupa se você não sabe o que significa um átomo emaranhado com fóton.

[00:03:47] O importante é que a professora que ia orientar a Gabriela,

[00:03:51] a Maria Carolina Nemes, estava apaixonada por isso.

[00:03:54] E eu me apaixonei também.

[00:03:56] Eu li os artigos do Sérgio Arroche.

[00:03:59] Aí eu comecei com ótica quântica e teoria quântica a partir daí.

[00:04:03] Mas por que isso interessava tanto a Gabriela?

[00:04:07] Me interessava porque são fenômenos que estavam rolando ali

[00:04:12] que não fazem sentido na nossa lógica de pensamento da física,

[00:04:17] que a gente chama de física clássica.

[00:04:19] Então, na verdade, essa era a grande questão.

[00:04:22] Tipo, é meio uma lista em Países Maravilhas,

[00:04:24] em que, de certa forma, quando você lê um trabalho desses,

[00:04:29] assim, na gradação, pra mim, eu sentia como a Alice que tinha, sabe,

[00:04:33] descido aquele buraco e tinha encontrado fenômenos completamente malucos, né?

[00:04:41] E fascinantes, fascinantes.

[00:04:44] Mas que não fazem sentido fora do buraco, né?

[00:04:47] E eu queria morar num mundo que fosse todo assim, sabe?

[00:04:50] Minha revolta era que não conseguia ver os fenômenos quânticos no dia a dia.

[00:04:57] Então, eu queria entender por quê.

[00:04:58] Então, foi assim que a Gabriela fez iniciação científica com a Maria Carolina

[00:05:04] e depois o mestrado também.

[00:05:07] Mas aí, chegou o momento de decidir o que fazer no doutorado.

[00:05:10] Depois, eu queria muito sair de Minas e até apliquei pra um monte de bolsa fora

[00:05:17] e recebi um monte, um monte, um monte, um monte de não.

[00:05:22] E muitos, mais do que receber muitos não,

[00:05:25] muitos coisas ignorando.

[00:05:28] O único e-mail, assim, que foi muito bonito, assim,

[00:05:32] que a gente mandou pra um físico chamado Claude Cohen Tanoudi,

[00:05:36] que é um prêmio Nobel.

[00:05:37] O Claude Cohen Tanoudi é outro físico francês, natural da Argélia,

[00:05:42] que ganhou o prêmio Nobel em 1997,

[00:05:46] devido a técnicas experimentais pra manipular átomos utilizando lasers,

[00:05:51] num processo que é chamado de resfriamento de átomos.

[00:05:54] E ele mandou um e-mail tão bonito,

[00:05:56] porque ele conhecia o trabalho da Carolina,

[00:05:58] olha que beleza.

[00:06:00] E ela ficou tão emocionada com esse e-mail.

[00:06:03] Ele falou, olha, eu aposentei, né,

[00:06:05] super elegante o e-mail, assim,

[00:06:08] e falando que ele conhecia o trabalho dela,

[00:06:10] que ele respeitava muito o trabalho dela,

[00:06:12] e que ele tinha acabado de aposentar,

[00:06:14] e que, infelizmente, então, ele não podia mais pegar aluno,

[00:06:18] mas que era pra gente escrever pra um ex-aluno dele,

[00:06:21] que chamava Alain Aspect,

[00:06:23] que hoje, assim, em algum momento,

[00:06:25] eu acho que ele vai ganhar o prêmio Nobel

[00:06:27] pra um cara que faz trabalho,

[00:06:28] um trabalho belíssimo, belíssimo.

[00:06:30] Essa entrevista com a Gabriela aconteceu em meados de 2022.

[00:06:35] E não é que a Gabriela é pé quente?

[00:06:37] Poucos meses depois, o Alain Aspect,

[00:06:40] de fato, ganhou o prêmio Nobel de Física de 2022.

[00:06:44] Mas calma, porque quando ela recebeu a sugestão de contactar ele

[00:06:48] pra possivelmente fazer o doutorado sob a sua orientação,

[00:06:52] o ano ainda era 2005.

[00:06:54] Será que deu certo?

[00:06:56] E aí a gente escreveu pra Alain Aspect,

[00:06:58] que nunca respondeu.

[00:06:59] Então, aí, finalmente, eu falei,

[00:07:01] então eu vou pro Rio de Janeiro,

[00:07:02] porque lá tem um cara muito famoso,

[00:07:04] que é o Luiz Davidovich.

[00:07:06] O Luiz Davidovich é professor emérito de Física na UFRJ

[00:07:10] e um grande nome da ótica quântica no Brasil.

[00:07:13] Hoje, ele também tem se dedicado

[00:07:15] a cargos importantes de política e de gestão.

[00:07:19] Por exemplo, ele foi presidente da Academia Brasileira de Ciências

[00:07:22] entre 2016 e 2022.

[00:07:25] Mas a sua carreira como físico

[00:07:27] teve muito destaque.

[00:07:29] E ele também colaborou com nomes de peso

[00:07:30] da Comunidade Científica Internacional.

[00:07:33] Que, inclusive, trabalhou com o Sérgio Arrocha

[00:07:36] muito nesses experimentos,

[00:07:37] fazendo a parte teórica.

[00:07:39] Aí eu vim pro Rio.

[00:07:41] Aí tem uma curiosidade.

[00:07:42] Quando eu fiz a prova…

[00:07:44] A prova que a Gabriela se refere aqui

[00:07:46] é a prova de seleção pra entrar no doutorado.

[00:07:49] E eu era muito boa aluna,

[00:07:52] mas eu engasguei.

[00:07:53] É uma coisa que eu faço bastante em provas,

[00:07:55] dá um medo.

[00:07:57] Aí eu não fui tão bem na prova.

[00:08:00] Então eu passei, eu passei com bolsa,

[00:08:03] mas eu não fui, tipo assim, das primeiras.

[00:08:05] E aí, então, eu não consegui que o Luiz Davidovich me orientasse,

[00:08:10] mas ele sugeriu um jovem chamado Fabrício Toscano.

[00:08:15] O Fabrício Toscano segue firme e forte como professor na UFRJ.

[00:08:19] Só que ele trabalha numa área chamada caos quântico.

[00:08:22] E essa não era bem a área em que a Gabriela tinha planejado trabalhar.

[00:08:26] Não.

[00:08:27] No entanto, a gente conseguiu meio que alinhar as ideias,

[00:08:31] eu e Fabrício,

[00:08:32] e a gente estudou, então, sistemas quânticos

[00:08:35] em contato com ambientes

[00:08:39] onde tinha uma dinâmica caótica.

[00:08:42] E aí, no final do doutorado,

[00:08:44] eu e Fabrício fizemos uma proposta experimental.

[00:08:47] Geralmente, o teórico faz proposta experimental

[00:08:49] e entrega pros experimentais realizarem, né?

[00:08:53] E, no entanto, quando eu fui entregar pros experimentais realizarem,

[00:08:57] o professor Paulo Henrique Souto Ribeiro…

[00:09:01] O Paulo Henrique Souto Ribeiro é hoje professor do Departamento de Física

[00:09:06] da Universidade Federal de Santa Catarina.

[00:09:09] Mas, na época, ele era chefe do laboratório lá na UFRJ,

[00:09:13] que fica na Ilha do Fundão.

[00:09:15] Só que ele disse que não tinha ninguém pra realizar esse experimento

[00:09:18] que a Gabriela tava propondo.

[00:09:20] Todo mundo já tava ocupado com outros projetos.

[00:09:23] Mas que se a Gabriela tava mesmo interessada,

[00:09:25] eles tinham lá os equipamentos,

[00:09:27] e ela podia tentar fazer o experimento ela mesma.

[00:09:30] Aí eu falei, ah, quer saber? Eu vou fazer esse experimento.

[00:09:33] Gente, eu cheguei lá no laboratório,

[00:09:36] era um laboratório minúsculo.

[00:09:37] Era assim, é uma mesa encostada na parede,

[00:09:40] uma mesa ótica, minúscula.

[00:09:42] Tinha um espacinho.

[00:09:43] E só tinha um corredorzinho

[00:09:45] pra você andar e acessar a mesa.

[00:09:49] E ali eu coloquei um computador,

[00:09:51] e o Paulão, ele chegava na porta,

[00:09:53] e ele é muito grande.

[00:09:54] Aqui, a Gabriela tá falando do professor,

[00:09:57] Paulo Henrique Souto Ribeiro,

[00:09:58] que também é conhecido como Paulão.

[00:10:01] Então ele chegava na porta, ele nem entrava.

[00:10:04] Só cabia uma pessoa lá dentro.

[00:10:05] E não cabia nenhum Paulão lá dentro.

[00:10:08] De jeito nenhum.

[00:10:09] E eu lembro que eu fiquei tão incomodada

[00:10:10] que aquele laboratório era tão seco

[00:10:11] que eu peguei um monte de…

[00:10:14] Porque laboratórios são escuros,

[00:10:16] e eles não são muito, assim…

[00:10:19] Aí eu imprimi um monte de imagens

[00:10:22] dos jardins do Monet,

[00:10:23] e cobri meu laboratório de Monet.

[00:10:26] Então era um laboratório…

[00:10:27] Que não tinha nada a ver

[00:10:28] com os outros laboratórios do fundão,

[00:10:30] que eram todos secos e grandes,

[00:10:33] mas sem…

[00:10:33] E eu fiz um ambiente super aconchegante ali.

[00:10:36] E aí eu descobri que

[00:10:38] experimento é uma coisa de minúcia mesmo,

[00:10:41] de fazer as coisas bem detalhadas,

[00:10:44] assim, com calma,

[00:10:45] rodando e tal.

[00:10:47] Aí eu comecei a colocar a música,

[00:10:49] aí você começa a relaxar,

[00:10:50] aí você começa a fazer as coisas com calma,

[00:10:52] com paciência, pouquinho em pouquinho.

[00:10:54] E aí o Fabrício ficava assim,

[00:10:56] e eu, Gabriela,

[00:10:57] não vai funcionar.

[00:10:59] Porque a gente precisa de uma distância

[00:11:01] entre a lente e o espelho

[00:11:03] de 12.4532 milímetros.

[00:11:07] Não vai funcionar,

[00:11:08] esse sistema é caótico.

[00:11:09] Nossa, que esse espelho não vai funcionar.

[00:11:12] A lente, eu falei que era uma lente fina,

[00:11:14] mas a lente tem um centímetro de largura, gente!

[00:11:17] Socorro!

[00:11:18] Eu vou ter que mudar todos os meus cálculos.

[00:11:20] Diferente da teoria,

[00:11:21] a prática, o experimento no laboratório

[00:11:24] é cheio de empecilhos e dificuldades

[00:11:26] que a gente não consegue entender.

[00:11:27] Nem imagina.

[00:11:28] Então penso que não passou a Gabriela,

[00:11:31] que só tinha formação teórica.

[00:11:33] Aí os meninos aguentaram

[00:11:35] todas as minhas histerias,

[00:11:36] e o Paulo aguentou também.

[00:11:38] E eu quase queimei os equipamentos,

[00:11:42] e eu passei, nossa!

[00:11:44] Fui aprendendo, assim,

[00:11:45] os detalhes do físico-experimental

[00:11:47] e deu certo, assim.

[00:11:49] No final, um dos alunos do Paulão

[00:11:51] me ajudou mais no experimento,

[00:11:53] ele entrou no trabalho,

[00:11:54] mas basicamente o negócio foi

[00:11:56] trancos-barrancos meus, assim.

[00:11:58] E no final, o que eu aprendi

[00:12:00] é que dá certo.

[00:12:02] Surreal!

[00:12:03] Então que aqueles detalhes lá

[00:12:05] do tamanho da lente,

[00:12:07] das distâncias que não tá perfeita e tal,

[00:12:10] mesmo com aquilo tudo,

[00:12:11] a gente conseguiu ver maravilhosamente

[00:12:13] o fenômeno que eu tinha imaginado, né?

[00:12:16] Ver, e aquilo foi muito bonito.

[00:12:19] Aquilo foi, tipo, uau!

[00:12:22] Quando saíram as figuras,

[00:12:23] ficava, que figuras lindas!

[00:12:26] E foi aí que eu fiz o meu primeiro experimento.

[00:12:29] Essa saga toda,

[00:12:30] saindo da teoria até o experimento,

[00:12:32] passando pelo laboratório apertadinho

[00:12:34] com os jardins de Monet,

[00:12:36] é mais ou menos o resumo

[00:12:37] do doutorado da Gabriela.

[00:12:39] A próxima etapa é o pós-doutorado,

[00:12:42] ou pós-doc para os íntimos.

[00:12:44] E aí, quando eu fui pro pós-doc,

[00:12:46] eu queria voltar pra teoria,

[00:12:48] porque, não, eu achava mais

[00:12:50] interessante.

[00:12:52] Queria sair daquele laboratório escuro.

[00:12:54] E eu apliquei pra um monte,

[00:12:55] de lugar, monte.

[00:12:57] Aí, de novo, ou eu não recebia resposta,

[00:13:00] ou eu recebia um não.

[00:13:02] Aí, eu tava na Bolívia,

[00:13:05] numa viagem toscaça

[00:13:07] de mochilão na Bolívia.

[00:13:10] Aí, eu parei numa lan house,

[00:13:12] uma hora, no dia 31 de dezembro,

[00:13:15] eu lembro de noitinho disso.

[00:13:16] E fui olhar e-mail,

[00:13:18] sabe aquela coisa?

[00:13:20] Aí, tinha um e-mail do Paulão,

[00:13:21] falando, olha, abriu

[00:13:23] essa vaga pra uma bolsa,

[00:13:25] sei lá, em Viena.

[00:13:27] Só que o prazo é dia 31 de dezembro.

[00:13:30] E se ele tinha mandado, sei lá,

[00:13:31] dia 28, sei lá.

[00:13:33] Ou seja, dia 31 de dezembro,

[00:13:36] no meio de um mochilão na Bolívia,

[00:13:38] a Gabriela ficou sabendo

[00:13:40] de uma vaga de pós-doutorado em Viena,

[00:13:42] na Áustria, cujo prazo pra se inscrever

[00:13:45] era o próprio dia 31 de dezembro.

[00:13:48] Mas, como já deu pra perceber,

[00:13:49] a Gabriela não é de se intimidar.

[00:13:52] Na mesma hora, ela falou pra sua amiga

[00:13:54] que tava lá com ela,

[00:13:55] e tomar um café, porque ela precisava

[00:13:57] se inscrever.

[00:13:58] Ou, como a gente costuma dizer,

[00:14:00] ela precisava aplicar pra uma vaga de pós-doutorado.

[00:14:04] Aí, eu fui, apliquei.

[00:14:06] Apliquei, assim,

[00:14:07] no escuro, total.

[00:14:09] Tiro no escuro. Escrevi o que eu pude

[00:14:11] lá, de carta de intenção,

[00:14:14] de plano de estudo,

[00:14:15] tudo na Lan House.

[00:14:17] Depois, voltei, fiz minha viagem na Bolívia.

[00:14:20] Então, deu certo.

[00:14:22] Deu certo, porque

[00:14:23] quando eu tava em outra viagem,

[00:14:25] no México,

[00:14:26] a gente tá ouvindo a Gabriela passar por vários lugares.

[00:14:30] Rio, Bolívia,

[00:14:31] México.

[00:14:33] No caso do México, o motivo da viagem

[00:14:35] foi pra participar de uma conferência.

[00:14:38] O meio acadêmico é complicado

[00:14:39] em muitos aspectos,

[00:14:41] mas, por outro lado, também possibilita

[00:14:43] fazer algumas viagens espetaculares

[00:14:45] de vez em quando.

[00:14:47] Então, depois da conferência, a Gabriela

[00:14:49] tirou alguns dias de férias

[00:14:51] numa praia no estado de Oaxaca.

[00:14:53] Aí, eu recebo um e-mail.

[00:14:55] Falando, olha, a gente tá querendo

[00:14:57] uma entrevista com você pra essa coisa

[00:14:59] que você aplicou em Viena.

[00:15:00] Mas é tipo assim, nessa semana.

[00:15:03] Gente, eu tô em Oaxaca e tal. Não, mas tem que ser

[00:15:05] essa semana. Aí, eu fiquei lá

[00:15:07] na beira da piscina com o meu

[00:15:09] laptop e fiz

[00:15:11] a chamada, né? E eram

[00:15:13] vários professores do outro lado. Todos professores

[00:15:15] do grupo de quântica de Viena,

[00:15:17] que é um grupo grande. São vários professores, né?

[00:15:20] E eu, assim, de roupa,

[00:15:21] tentei colocar uma blusa menos

[00:15:23] tipo, esquema,

[00:15:25] na praia, menos. Fui lá fora

[00:15:27] e fui fazer a entrevista. A entrevista caía

[00:15:29] e, vocês não acreditam, foi acabar

[00:15:31] a bateria no meio da entrevista.

[00:15:34] E eu tava… Sabe aquele negócio que fica

[00:15:35] só pra cima, assim, arrumada? E embaixo

[00:15:37] você ainda tá, tipo, esquema praia.

[00:15:39] E eu saí com esse laptop correndo

[00:15:41] pela pousada pra procurar

[00:15:43] um cabo.

[00:15:45] E deu certo. E eles me chamaram pra ir

[00:15:47] pra Viena, naquela semana mesmo.

[00:15:49] Então, aquela documentação

[00:15:51] feita às pressas lá na Bolívia

[00:15:53] e a entrevista feita na piscina

[00:15:55] da pousada no México deram

[00:15:57] frutos. E em 2012,

[00:15:59] a Gabriela ganhou uma bolsa de

[00:16:01] postdoc muito prestigiada

[00:16:03] pra trabalhar em Viena com um pesquisador

[00:16:05] chamado Anton Zeilinger.

[00:16:07] A gente falou que a Gabriela era pé-quente,

[00:16:09] né? Por coincidência,

[00:16:11] ou não, o Zeilinger também

[00:16:13] viria ganhar o Prêmio Nobel em 2022,

[00:16:16] junto com o Alain Aspect

[00:16:17] que apareceu aqui na história antes.

[00:16:19] Mas, apesar do sucesso de passar

[00:16:21] na vaga, isso não impediu que ela

[00:16:23] se sentisse um peixe fora d’água

[00:16:25] em Viena.

[00:16:26] Essa bolsa, eu só fui descobrir depois.

[00:16:28] Era muito prestigiosa. E eu não sei

[00:16:30] como eu consegui ela.

[00:16:32] Eu não sei, foi meio que…

[00:16:34] Porque eu não tinha o currículo pra essa bolsa.

[00:16:37] Será que eles não se enganaram? Será que eles não

[00:16:38] trocaram o currículo com outra pessoa?

[00:16:42] Então, assim,

[00:16:43] eu era totalmente um peixe fora d’água.

[00:16:45] Eu ficava, o que eu tô fazendo aqui?

[00:16:47] O que eu tô fazendo aqui?

[00:16:48] Aí, depois, eu fui entender. Eu conheci melhor o Zeilinger

[00:16:51] assim, que eu era tão empolgada

[00:16:53] que ele falou, eu sei que você não

[00:16:55] tem muita experiência, não.

[00:16:57] Você vai aprender.

[00:16:58] E ela aprendeu mesmo.

[00:17:00] Depois de muito bem sucedida nesse pós-doc

[00:17:03] em Viena, a Gabriela ainda foi

[00:17:05] cientista residente na escola do

[00:17:07] Instituto de Arte de Chicago,

[00:17:09] nos Estados Unidos, onde, inclusive,

[00:17:11] ela teve o desafio de ensinar

[00:17:13] física quântica pra estudantes

[00:17:15] de belas artes.

[00:17:16] Depois, ela fez outro pós-doc no

[00:17:19] Instituto Internacional de Física,

[00:17:20] em Natal, no Rio Grande do Norte.

[00:17:22] E foi professora visitante

[00:17:24] na Universidade de Massachusetts,

[00:17:26] nos Estados Unidos.

[00:17:28] Hoje, a Gabriela é professora da

[00:17:30] Universidade Federal do Rio de Janeiro,

[00:17:32] membra da Comissão de Justiça,

[00:17:34] Equidade, Diversidade e Inclusão

[00:17:36] da Sociedade Brasileira de Física

[00:17:38] e mãe do Fidel, que nasceu em

[00:17:40] abril de 2023.

[00:17:42] Meio maluco, né? Essa história.

[00:17:45] Bom, é importante dizer

[00:17:46] que a Gabriela sempre foi ótima aluna,

[00:17:49] além de super batalhadora,

[00:17:50] como a gente viu.

[00:17:52] Mesmo assim, nessa fala final

[00:17:54] sobre a Bolsa de Viena,

[00:17:56] quando ela se perguntava

[00:17:57] o que eu estou fazendo aqui,

[00:17:59] e se sentia um peixe fora d’água,

[00:18:01] a gente vê que mesmo excelentes

[00:18:03] profissionais podem chegar a duvidar

[00:18:05] de si mesmos.

[00:18:07] A chamada Síndrome do Impostor

[00:18:09] é um fenômeno em que as pessoas

[00:18:11] se sentem como fraudes,

[00:18:12] duvidando de suas habilidades

[00:18:14] e questionando seus talentos

[00:18:16] e realizações.

[00:18:18] A Síndrome do Impostor pode afetar

[00:18:20] profissionais em diferentes estágios

[00:18:22] da carreira.

[00:18:23] Inclusive, é bastante comum

[00:18:25] em estudantes que acabaram de ingressar

[00:18:27] em um novo ambiente acadêmico.

[00:18:29] No meu caso, a Síndrome do Impostor

[00:18:32] começou a bater quando eu parei

[00:18:33] de ser avaliada por provas

[00:18:35] e comecei a ser avaliada

[00:18:37] por análise de currículo,

[00:18:38] onde agora a contagem de pontos

[00:18:40] é mais subjetiva.

[00:18:42] Hoje, eu consigo lidar melhor

[00:18:44] com esse sentimento

[00:18:45] porque os anos de experiência

[00:18:47] me mostraram o valor

[00:18:48] das diferentes particularidades

[00:18:50] da minha trajetória.

[00:18:51] A ciência é um empreendimento humano

[00:18:54] e que, portanto, não deve ficar restrita

[00:18:57] a ser feita por um grupo de pessoas

[00:18:59] com um perfil específico.

[00:19:01] As diferentes trajetórias,

[00:19:03] que refletem diferentes culturas

[00:19:05] e formas de pensar e aprender

[00:19:07] sobre o mundo, só têm a contribuir

[00:19:09] para o avanço da ciência.

[00:19:11] E talvez fosse exatamente isso

[00:19:13] que a banca da bolsa de pós-doc

[00:19:15] de Viena estava buscando

[00:19:17] quando selecionou a Gabriela.

[00:19:21] Bom, a história da Gabriela

[00:19:31] mostra pra gente que, além de trabalho duro,

[00:19:34] é importante mirar alto nos objetivos

[00:19:36] e seguir tentando.

[00:19:38] Mesmo depois de vários nãos,

[00:19:40] mesmo com as inseguranças,

[00:19:42] e dar a cara a tapa mesmo.

[00:19:44] Ainda que algumas vezes

[00:19:46] a gente esteja vestido da cintura pra baixo

[00:19:48] num esquema meio praia,

[00:19:50] e outras vezes a gente se sinta

[00:19:52] um peixe fora d’água.