Mamilos Cultura 134 - Dudamel e a Filarmônica de Nova York


Resumo

Cris Bartz compartilha com Ju Valauer sua experiência pessoal ao assistir o maestro venezuelano Gustavo Dudamel regendo a Filarmônica de Nova York no evento Spring Gala do Lincoln Center. Ela descreve sua paixão de longa data por Dudamel, que conheceu através de vídeos no YouTube em 2005, destacando seu carisma, estilo energético e quebra de estereótipos sobre maestros tradicionais.

O relato detalha a programação do concerto, que começou com uma composição da jovem compositora feminista Nina Schacher, seguida pela Ária das Bachianas Brasileiras de Heitor Villa-Lobos interpretada pela soprano Era Parque. Cris enfatiza como Dudamel propositalmente abriu espaço para mulheres compositoras e solistas em um ambiente tradicionalmente masculino, criando um momento significativo de representação.

Um dos pontos altos foi a integração de jovens músicos formados pelo programa venezuelano El Sistema com os veteranos da orquestra, executando o Danzón nº 8 de Arturo Márquez. Cris reflete sobre a mediação necessária para essa convivência geracional e racial, observando a beleza de ver adolescentes negros tocando ao lado de músicos septuagenários. A participação especial do ex-jogador de beisebol Bernie Williams, que se tornou violonista clássico, também gerou reflexões sobre carreira, tempo e realização pessoal.

O concerto culminou com um discurso de Dudamel sobre tempos sombrios e a importância da escuta, seguido pela apresentação do rapper Como com um coral, misturando hip-hop com a orquestra clássica. Cris analisa como Dudamel atua como um provocador que desafia convenções sem perder qualidade, promovendo diversidade cultural e racial. Ela também menciona uma crítica negativa do New York Times que questiona sua abordagem, levando a uma discussão final sobre a essência versus a forma de um concerto ‘verdadeiro’.


Indicações

Eventos

  • BBC Proms — Evento musical onde Dudamel substituiu um maestro doente em 2005, ganhando grande visibilidade através de vídeos no YouTube que circularam amplamente.
  • Spring Gala — Evento no Lincoln Center em Nova York onde Dudamel regeu a Filarmônica de Nova York, dando uma prévia de seu trabalho como futuro diretor musical da orquestra.

Obras

  • The Mothers in Standing (Nina Schacher) — Composição que abriu o concerto, descrita como uma obra sobre identidade, feminismo e vulnerabilidade de uma jovem compositora contemporânea.
  • Ária das Bachianas Brasileiras nº 5 (Heitor Villa-Lobos) — Obra brasileira executada pela soprano Era Parque, escolhida por Dudamel para representar a primavera e homenagear o Brasil.
  • Danzón nº 8 (Arturo Márquez) — Composição com forte latinidade executada pela mistura de jovens do El Sistema com veteranos da Filarmônica de Nova York.

Pessoas

  • Gustavo Dudamel — Maestro venezuelano carismático e inovador, formado pelo programa El Sistema, conhecido por seu estilo energético e por desafiar convenções da música clássica tradicional.
  • Nina Schacher — Compositora americana de origem indiana, feminista, com menos de 30 anos, cuja obra ‘The Mothers in Standing’ aborda temas de identidade, feminismo e vulnerabilidade.
  • Era Parque — Soprano jovem que interpretou a Ária das Bachianas Brasileiras nº 5 de Heitor Villa-Lobos no concerto, descrita como tendo uma voz etérea e presença de fada.
  • Arturo Márquez — Compositor mexicano cujo Danzón nº 8 foi executado no concerto, conhecido por trazer latinidade para a música clássica.
  • Bernie Williams — Ex-jogador de beisebol profissional porto-riquenho que se tornou violonista clássico após 16 anos de carreira esportiva, exemplificando transição de carreira e múltiplas paixões.
  • Como — Rapper que se apresentou com a orquestra, cantando uma música do filme Selma sobre a luta por direitos civis, em uma fusão de hip-hop com música clássica.

Programas

  • El Sistema — Programa venezuelano de formação musical que é o maior do mundo, responsável pela educação de Dudamel e muitos jovens músicos que participaram do concerto.

SéRies

  • Mozart in the Jungle — Série da Amazon Prime cujo personagem Rodrigo Silva (interpretado por Gabriel Garcia Bernal) é claramente inspirado em Gustavo Dudamel.

Linha do Tempo

  • 00:01:14Introdução ao concerto e paixão por Dudamel — Cris apresenta o tema do episódio: sua experiência ao assistir Gustavo Dudamel regendo a Filarmônica de Nova York. Ela conta como conheceu o maestro através de vídeos no YouTube em 2005, destacando seu carisma, estilo energético e quebra do estereótipo do maestro tradicional. Cris também menciona a série ‘Mozart in the Jungle’ e como o personagem de Rodrigo Silva foi inspirado em Dudamel.
  • 00:05:00Abertura inovadora com compositora feminista — Cris descreve a primeira música do concerto: ‘The Mothers in Standing’ da compositora Nina Schacher, uma mulher americana de origem indiana com menos de 30 anos. Ela destaca como essa escolha para abertura foi surpreendente e significativa, trazendo temas de identidade, feminismo e vulnerabilidade para um público tradicional. Cris observa a diversidade racial na plateia e sua própria reação de encantamento.
  • 00:06:20Homenagem ao Brasil com Heitor Villa-Lobos — Dudamel convida a soprano Era Parque para executar a Ária das Bachianas Brasileiras nº 5 de Heitor Villa-Lobos. Cris relata a emoção de ouvir música brasileira no Lincoln Center e o discurso do maestro sobre como a primavera precisa lembrar do Brasil. Ela descreve a performance da soprano como etérea e poderosa, destacando a presença de mulheres como solistas em um espaço tradicionalmente masculino.
  • 00:08:18Integração geracional com jovens do El Sistema — O palco é tomado por jovens músicos de 14-15 anos formados pelo programa venezuelano El Sistema, que se misturam aos veteranos da orquestra. Eles executam o Danzón nº 8 de Arturo Márquez. Cris reflete sobre o desafio e a beleza dessa integração entre gerações e raças, destacando a mediação necessária para fazer funcionar. Ela observa especificamente um violoncelista negro adolescente tocando ao lado de um músico de 70 anos.
  • 00:09:47Participação especial de ex-jogador de beisebol — Dudamel chama ao palco Bernie Williams, homem negro porto-riquenho que foi jogador de beisebol profissional por 16 anos antes de se tornar violonista clássico. Cris conta sua história de carreira dupla e transição para a música após a aposentadoria do esporte. Ela reflete sobre como isso desafia noções de tempo e carreira única, mostrando que as pessoas podem ter múltiplas paixões e realizações ao longo da vida.
  • 00:15:00Discurso sobre tempos sombrios e apresentação do rapper Como — Dudamel faz um discurso sobre governos autoritários, falta de confiança e guerras, afirmando que em momentos difíceis é importante lembrar do passado e reconhecer o presente para criar um futuro melhor. Ele então chama o rapper Como ao palco, que entra com uma mesa de DJ e um coral, para cantar uma música do filme Selma sobre a luta por direitos civis. Cris descreve a fusão poderosa de hip-hop com orquestra clássica como um momento emocionante que exemplifica o poder da música para fazer as pessoas escutarem umas às outras.
  • 00:18:19Crítica do New York Times e reflexão sobre essência versus forma — Cris menciona ter lido uma crítica negativa no New York Times que acusava Dudamel de priorizar diversidade em detrimento da ‘música clássica verdadeira’. Ela e Ju refletem sobre essa crítica, discutindo como as pessoas frequentemente confundem a forma tradicional de um concerto com sua essência. Elas argumentam que Dudamel mantém a qualidade enquanto inova na forma, desafiando padrões estabelecidos sem perder a excelência artística.

Dados do Episódio

  • Podcast: Mamilos
  • Autor: B9
  • Categoria: News
  • Publicado: 2024-05-02T17:41:44Z
  • Duração: 00:20:06

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Oferecimento Meu Peso Minha Jornada.

[00:00:03] Acesse a campanha e entenda a relação entre o peso e a saúde.

[00:00:30] Mamileiros e mamiletes, bem-vindos ao Mamilos Cultura,

[00:00:39] o nosso espaço de reflexões a partir de produções culturais.

[00:00:42] Eu sou a Ju Valauer.

[00:00:44] Eu sou a Cris Bartz.

[00:00:46] E hoje eu convidei a minha melhor amiga.

[00:00:49] Falei, amiga, Ju, vem cá.

[00:00:51] Eu quero te contar as reflexões que eu tive a partir da experiência de assistir

[00:00:55] a Filarmônica de Nova York, regida pelo Gustavo Dudamel,

[00:01:00] no evento de Spring Gala, no Lincoln Center,

[00:01:03] que é um centro cultural gigante que tem na cidade.

[00:01:06] Eu cheguei doida querendo contar tudo para ela,

[00:01:08] mas eu guardei para fazer isso aqui no ar, para todo mundo poder ouvir.

[00:01:12] Conta a sinopse para o pessoal, Ju.

[00:01:14] Gustavo Dudamel, o carismático maestro da Filarmônica de Los Angeles,

[00:01:18] conduziu a Filarmônica de Nova York em uma programação de 90 minutos

[00:01:22] e uma prévia do que está por vir quando ele assumir oficialmente

[00:01:26] como diretor musical e artístico da orquestra em 2021.

[00:01:30] Ou seja, é um spoiler.

[00:01:33] Ô Cris, mas de onde nasceu esse amor, essa paixão toda?

[00:01:36] Pois é, eu não fui lá ver a Filarmônica, não fui no Lincoln Center,

[00:01:41] eu fui ver o Gustavo Dudamel.

[00:01:43] O que acontece, eu preciso contextualizar um pouco, assim, quem que é ele, né?

[00:01:48] O Dudamel hoje, ele está com 43 anos, então ele é muito jovem para estar onde ele está,

[00:01:54] mas ele era muito mais jovem quando ele começou realmente a conquistar tudo.

[00:01:57] Ele é venezuelano, então, assim, já tem…

[00:02:00] Ele tem um approach, assim…

[00:02:01] Toda uma latinidade.

[00:02:02] Não é mesmo?

[00:02:03] E ele foi formado pelo programa da Venezuela, que é chamado El Sistema,

[00:02:08] que eu vou falar mais daqui a pouco desse programa.

[00:02:11] Com 18 anos, ele já era diretor da orquestra Simón Bolívar,

[00:02:16] que é a mais famosa da Venezuela.

[00:02:19] E aí ele começou a fazer uma turnê por diversos países com essa orquestra,

[00:02:22] ele chamou muito a atenção, ganhou maior visibilidade,

[00:02:25] porque era cheio dos vídeos dele no YouTube.

[00:02:28] E aí, cara, ele era…

[00:02:30] Quando eu falo com você, maestro,

[00:02:32] talvez você tenha uma visão, assim, de uma pessoa muito elegante,

[00:02:36] muito séria, mais cisuda, né?

[00:02:39] E, de repente, estava lá aquele jovem com os cabelos cacheados,

[00:02:42] todo doido, embananado para tudo quanto é lugar,

[00:02:45] muito sorridente, carismático pra caramba.

[00:02:48] E, assim, esses vídeos foram ganhando projeção.

[00:02:51] Ele acabou ganhando também um prêmio alemão em 2004,

[00:02:54] que, para mim, quando eu penso em maestro, eu penso no maestro alemão, entendeu?

[00:02:57] Um cara serião.

[00:02:59] Que é o jeito que se imprimiu dessa cultura de maestro no mundo.

[00:03:04] E, de repente, os alemães estavam premiando esse cara,

[00:03:07] que vinha com uma coisa meio quebrando o jeito deles.

[00:03:10] Eu conheci o Dada Maio em 2005, assistindo o vídeo dele no YouTube,

[00:03:15] da BBC Proms, que é um evento que tem…

[00:03:17] Assim, é muito legal.

[00:03:19] E aí, o maestro do evento desse, BBC Proms, adoeceu e ele substituiu.

[00:03:25] E aí, cara, assim, foi muito doido.

[00:03:27] A galera ficou apaixonada.

[00:03:29] Ele é um maestro que mistura um pouco, assim, de regência com coreografia, sabe?

[00:03:35] Que ele é muito empolgado do rolê.

[00:03:37] E aí, foi amor à primeira vista.

[00:03:39] Em 2014, inclusive, ele esteve no Brasil, na Sala São Paulo,

[00:03:43] os ingressos acessíveis.

[00:03:44] E, amiga, eu não fiquei sabendo na época.

[00:03:48] Ai, que dor.

[00:03:49] Não fiquei sabendo.

[00:03:50] Foi uma puta facada, é isso.

[00:03:51] São Paulo tem muitas coisas, passa batido, né?

[00:03:54] Se você não tiver de olho, você perde.

[00:03:56] E aí, nesse mesmo ano, em 2014,

[00:03:59] estreou a série Mozart in the Jungle, na Amazon Prime.

[00:04:02] Eu vi os episódios.

[00:04:04] Pois é.

[00:04:04] E o personagem do Gabriel Garcia Bernal, o Rodrigo Silva,

[00:04:09] é claramente inspirado nele, né?

[00:04:12] Sim.

[00:04:12] Então, eu assisti a série inteira e eu sou daquelas, né?

[00:04:16] Coração romântico.

[00:04:18] Você já não sabe mais o que é personagem e o que é verdade.

[00:04:21] E, pra mim, os dois viraram a mesma pessoa.

[00:04:23] Eu fiquei ainda mais apaixonada pelo Dudamel.

[00:04:25] Até chegar no dia 24 de abril de 2024,

[00:04:29] que eu ganhei de presente pra assistir o meu maestro preferido

[00:04:34] regendo lá a Filarmônica de Nova Iorque,

[00:04:36] nesse evento chamado Spring Gala, que eu conhecia.

[00:04:38] Não, não conhecia.

[00:04:40] Mas agora já sei.

[00:04:41] E, assim, Juliana, chorei que nem uma criança.

[00:04:45] Eu não sei…

[00:04:46] Uma coisa tomou conta de mim,

[00:04:48] que, assim, eu chorei que eu tava atrapalhando as pessoas do lado,

[00:04:51] que fungava, entendeu?

[00:04:53] Foi muito legal.

[00:04:54] Foi um monte de surpresa.

[00:04:56] É daí que vem a minha paixão pelo Dudamel.

[00:04:58] Muito bem.

[00:04:58] Mas eu queria saber o que ele…

[00:04:59] O que ele tocou?

[00:05:00] Então, eu, como boa brasileira, cheguei atrasada.

[00:05:04] Entrei correndo e nem peguei o programa.

[00:05:06] Então, eu não sabia o que que ia acontecer.

[00:05:09] E a primeira coisa que ele tocou, né?

[00:05:12] A primeira música que ele chama,

[00:05:14] a orquestra chama The Mothers in Standing,

[00:05:18] que é de uma compositora chamada Nina Schacher.

[00:05:21] E é assim que se fala.

[00:05:23] Cara, aí eu já tomei aquele susto, assim.

[00:05:25] Não era um dos grandes compositores maravilhosos europeus

[00:05:29] do século passado.

[00:05:30] Ele escolheu tocar uma mulher americana de origem indiana

[00:05:35] que tem menos de 30 anos,

[00:05:37] que é feminista pra caramba,

[00:05:39] que declara que a composição dela é sobre identidade,

[00:05:42] é sobre feminismo, é sobre vulnerabilidade.

[00:05:46] E aí eu falei, como é que o cara escolhe isso pra abertura, né?

[00:05:49] Que interessante, assim.

[00:05:51] E eu olhando pra plateia e falando…

[00:05:53] Aquela plateia que vai muito em concerto, né?

[00:05:56] Gente branca, com cara muito de rico.

[00:05:58] Só que em Nova York tem isso, né?

[00:06:00] Pessoas negras têm mais acesso.

[00:06:03] Então, tinham pessoas negras também na plateia.

[00:06:06] Mas eu fiquei…

[00:06:07] Será que esse povo tá gostando disso?

[00:06:08] Eu fiquei muito encantada.

[00:06:10] Aí eu pensei assim, não.

[00:06:12] É, beleza.

[00:06:13] Era pra abrir, era pra dar uma abertura pra noite.

[00:06:16] Aí, minha filha, ele vai e convida a soprano Era Parque

[00:06:20] e executa o quê?

[00:06:23] A área das baquianas brasileiras.

[00:06:25] Ai, linda.

[00:06:25] Número 5 do Heitor Villalobos.

[00:06:27] E ele faz…

[00:06:28] Ele faz bastante discurso entre as peças

[00:06:31] e ele fala que pra ter cor de primavera

[00:06:37] precisa lembrar do Brasil.

[00:06:39] Ai, que legal.

[00:06:40] Aí eu…

[00:06:40] Ai, meu Deus.

[00:06:42] Ele falou pra mim.

[00:06:43] E assim, foi muito bonita.

[00:06:44] A mulher tem uma voz.

[00:06:46] É muito jovem, Juliana.

[00:06:47] Ela deve ter uns 35 no máximo.

[00:06:50] Parece uma fada, né?

[00:06:51] Assim, se movimenta igual uma fada.

[00:06:54] Uma voz, assim, aquele silêncio.

[00:06:58] E tudo tomado pela voz daquela mulher

[00:07:00] e pela regência dele

[00:07:02] e a galera tocando Heitor Villalobos.

[00:07:05] Então, assim, a hora que eu vi isso, eu falei

[00:07:07] qual que é o lugar da mulher, né?

[00:07:09] Abrindo o principal evento,

[00:07:12] eu olhei e falei que começou com duas mulheres ali

[00:07:14] e uma música brasileira no meio.

[00:07:17] Então, assim, ver as mulheres entrando num lugar

[00:07:20] que era tão típico masculino,

[00:07:22] não é como instrumentista, sabe?

[00:07:25] É como compositora.

[00:07:28] É como…

[00:07:30] Solista.

[00:07:30] Solista, sabe?

[00:07:32] Eu fiquei bem interessada nessa primeira…

[00:07:36] Nessa entrada que ele fez.

[00:07:38] Ô, Cris, mas você falou que…

[00:07:40] Quando você fala de europeu, branco, século passado,

[00:07:43] também me passa muito a ideia de que a orquestra é feita de pessoas…

[00:07:47] Cabeça branca, de pessoas muito experientes,

[00:07:49] porque é o topo da carreira, né?

[00:07:52] É o topo da carreira.

[00:07:53] É cheguei lá, né?

[00:07:54] É.

[00:07:55] E o…

[00:07:56] Aí veio a sequência, que…

[00:07:57] Me deixou ainda mais movimentada ali as emoções.

[00:08:02] Sim, a orquestra tem muitos asiáticos ali na Filarmônica de Nova York

[00:08:06] e muitas pessoas mais velhas, assim.

[00:08:09] Você vê que a pessoa tá ali tem muito tempo, entendeu?

[00:08:12] É das antigas ali.

[00:08:14] E aí, na sequência, começa todo mundo a se mexer,

[00:08:18] alguns músicos saem e começa a entrar uma galera de 14, 15 anos.

[00:08:22] Ai, que legal.

[00:08:23] Daí, o palco é tomado, assim, por um monte de latino,

[00:08:26] de pessoas…

[00:08:27] As negras, meninos e meninas, com os instrumentos.

[00:08:30] Só que não saíram todos.

[00:08:32] Misturou.

[00:08:33] Tinha metade de gente muito jovem e a outra metade de gente muito velha.

[00:08:38] Difícil, hein, Cris?

[00:08:39] O que eu tenho ouvido de reclamação desse gap geracional não é brincadeira.

[00:08:43] Ó, eu não tenho a menor ideia de como ele fez isso,

[00:08:46] mas pra mim veio na hora, na mente, assim,

[00:08:49] o trabalho de um bom mediador, sabe?

[00:08:52] Porque os mais jovens têm resistência,

[00:08:55] e eu tenho certeza que os mais velhos também,

[00:08:59] mas eles executaram o Darzón nº 8, que é do Arturo Marques,

[00:09:02] que é um dos meus compositores favoritos,

[00:09:05] e o Arturo traz bastante latinidade pras músicas clássicas dele,

[00:09:10] e aí estavam as pessoas mais velhas tocando uma música que tem um batuque, entendeu?

[00:09:15] E assim, Juliana, eu acho que a música, ela toma uma proporção

[00:09:18] que, assim, todo mundo parecia muito bem.

[00:09:20] É muito bonito ver um violoncelista de um, sei lá,

[00:09:25] 14 anos.

[00:09:25] 14 anos negro, do lado de um cara que deve ter, sério, uns 70 anos,

[00:09:30] e tava funcionando.

[00:09:32] Isso não funciona por acaso.

[00:09:33] Eu tenho certeza que a mediação é fundamental,

[00:09:37] muita conversa, e um pouco de, tá desconfortável?

[00:09:40] Vai desconfortável mesmo.

[00:09:42] Ô, Cris, mas eu fiquei sabendo que teve uma participação especial muito inusitada,

[00:09:47] eu não acreditei.

[00:09:48] Teve jogador de beisebol tocando?

[00:09:50] Cara, óbvio, não conhecia, fiquei meio bocó,

[00:09:52] mas a hora que ele faz o discurso é muito legal,

[00:09:55] ele chama ao palco o Bernie Williams,

[00:09:58] ele é um homem negro de Porto Rico que toca violão clássico.

[00:10:02] Como se não bastasse, ele era jogador de beisebol,

[00:10:06] e quando ele era criança, em Porto Rico e depois no Bronx,

[00:10:09] pra onde ele se mudou ainda criança, pros Estados Unidos,

[00:10:12] ele foi tocando as duas coisas em paralelo,

[00:10:14] violão clássico e beisebol.

[00:10:16] E daí ele começou a jogar beisebol profissionalmente,

[00:10:19] jogou em times gigantes, tipo o Yanks,

[00:10:21] e foi onde ele se aposentou depois de 16 anos de carreira.

[00:10:25] Ele aposentou em 2015,

[00:10:27] em 2016 ele concluiu o mestrado dele de Música Clássica e Performance e Jazz.

[00:10:32] Caramba!

[00:10:33] Nos Estados Unidos, e aí é isso,

[00:10:35] é um cara de 55 anos que mudou de carreira, entendeu?

[00:10:39] Sensacional!

[00:10:40] As pessoas são muitas coisas, né?

[00:10:42] Porque teoricamente você nunca colocaria esses universos se encostando,

[00:10:47] se entremeando, né?

[00:10:48] Não, são coisas muito diferentes, e aí é muito difícil.

[00:10:52] A gente vê muitas pessoas, principalmente,

[00:10:55] mais jovens hoje, falando,

[00:10:57] eu queria tanto ganhar dinheiro com o que eu amo.

[00:10:59] E esse cara tinha duas paixões muito diferentes,

[00:11:02] gostaria de saber qual ele escolheria pra ganhar pão.

[00:11:06] Mas assim, quando eu olhei pra ele, eu pensei assim,

[00:11:09] o tempo é elástico, dá tempo de fazer as coisas, sabe?

[00:11:13] Eu acho que a gente precisa muito alterar a nossa percepção de tempo,

[00:11:16] de que tudo é pra ontem.

[00:11:18] Era um cara que tava feliz inteiro ali,

[00:11:21] tocando a música,

[00:11:23] depois de ter exercido uma profissão,

[00:11:25] muito diferente.

[00:11:26] Não, mas é o tempo das coisas, né, amada?

[00:11:28] Porque se ele tivesse tentado perseguir primeiro a música e depois o esporte,

[00:11:31] não dava, porque o esporte tem um tempo.

[00:11:33] Mas a música não.

[00:11:34] Então, acho que a inteligência pra mim tá em você perceber,

[00:11:39] conforme a gente vai ficando mais experiente,

[00:11:42] que carreiras que vão te expulsar,

[00:11:44] porque elas são, sim, muito etaristas,

[00:11:46] e tem um limite de idade,

[00:11:48] e que carreiras que vão valorizar a experiência.

[00:11:51] E eu acho que tem um recorte de raça importante aí também.

[00:11:53] Eu não sei se ele teria conseguido,

[00:11:55] entrar numa fila harmônica há tantos anos atrás, entende?

[00:12:00] Até porque, olhando até hoje, é muito branco.

[00:12:04] Quando o Gustavo convida os meninos que são formados pela escola venezuelana,

[00:12:10] eu esqueci de comentar isso.

[00:12:12] A hora que ele traz esses jovens e ele fala

[00:12:14] que eles são formados pelo El Sistema, na Venezuela,

[00:12:17] que é o maior programa de formação do mundo,

[00:12:20] que, inclusive, inspirou a Júlia.

[00:12:22] É isso que ele falou.

[00:12:24] Ele falou, oi.

[00:12:24] Tudo bem?

[00:12:26] Olha só, a melhor escola do mundo

[00:12:28] é fundada a partir da filosofia da escola que eu fiz na Venezuela.

[00:12:33] E quando começaram aquelas reprimendas mais fortes,

[00:12:37] eu acho que em 2014, na Venezuela,

[00:12:40] é óbvio que ele era muito ligado ao Maduro.

[00:12:43] Porque o expoente da música formada no país,

[00:12:46] ele rompeu publicamente.

[00:12:49] Fez várias manifestações contra e tudo mais,

[00:12:52] mas ele estava ali falando,

[00:12:53] oh, americano.

[00:12:54] Isso aqui vocês aprenderam com a gente.

[00:12:57] Essa coragem também é fruto do tempo.

[00:13:00] É poder entregar agora.

[00:13:02] E assim, esse cara também me pareceu isso.

[00:13:06] Agora eu posso fazer, entende?

[00:13:07] Claro, claro.

[00:13:08] Agora as portas se abrem, né?

[00:13:10] É.

[00:13:10] Mas não teve música clássica, não?

[00:13:12] Está tudo muito moderno, muito bom.

[00:13:14] Não, não.

[00:13:14] É tudo música clássica.

[00:13:16] Mas aí eram clássicas mais recentes, né?

[00:13:19] Mas sim, os classicões também.

[00:13:21] Vem na sequência ali.

[00:13:23] É.

[00:13:24] Do Strauss aí, tudo bem, né?

[00:13:26] Do Strauss.

[00:13:27] E foi maravilhoso.

[00:13:29] E não dá para não ficar chocada com a forma

[00:13:32] como o Dudamel se mexe, sabe?

[00:13:35] É uma coisa meio coreografia mesmo.

[00:13:37] É aquela baqueta voando,

[00:13:38] parecendo uma espada do Zorro.

[00:13:40] É o cabelo para um lado, ele para o outro,

[00:13:43] sorrindo e depois muito enérgico.

[00:13:46] É muito bonito ver uma pessoa fazendo o que ela ama fazer.

[00:13:50] O Gustavo Dudamel, com 40 anos,

[00:13:54] ele já tinha feito mais de 30 eletros, cardiograma,

[00:13:59] porque ele tem muito ataque cardíaco durante os concertos,

[00:14:03] de tanto que ele se envolve com isso.

[00:14:04] Então, ele está sempre fazendo acompanhamento do coração.

[00:14:07] Olha que loucura.

[00:14:08] E dá para ver isso, dá para ver como aquela pessoa está feliz

[00:14:12] fazendo aquilo, entregue, inteira.

[00:14:15] Eu lembrei muito do programa que a gente fez,

[00:14:16] que a gente falou de psicologia do trabalho

[00:14:18] e como o trabalho é a nossa realização no mundo

[00:14:23] e como isso…

[00:14:24] É a nossa singularidade e ajuda a construir a autoestima.

[00:14:27] Porque você fala, fui eu que fiz, olha essa obra.

[00:14:30] Então, assim, eu ampliei o meu desejo

[00:14:34] que as pessoas pudessem ser capazes de trabalhar com aquilo que elas amam,

[00:14:38] porque vai ser cansativo,

[00:14:40] talvez vai ganhar pouco também, entendeu?

[00:14:42] Mas é um sucesso de alma, aquilo ali.

[00:14:45] Foi muito bonito de acompanhar

[00:14:47] e dá para ver que essa psicologia do trabalho faz muito sentido.

[00:14:50] Ô, Cris, você falou que ele fala muito entre as músicas.

[00:14:53] O que mais?

[00:14:54] O que mais?

[00:14:54] O que mais ele falou?

[00:14:55] Putz, ah, não.

[00:14:56] Aí chegou uma hora, mais para o final ali, que a casa caiu.

[00:15:00] Porque ele começou um discurso falando dos tempos sombrios

[00:15:04] que a gente está passando.

[00:15:05] Imagina.

[00:15:06] Imagina, coisa pouca.

[00:15:08] É, não, a universidade nem está sendo fechada lá em Nova York.

[00:15:11] Mas ele estava falando disso, de governos autoritários,

[00:15:15] da falta de confiança entre as pessoas, das guerras.

[00:15:19] E aí ele fala que em momentos difíceis, assim,

[00:15:21] é muito importante a gente lembrar do passado,

[00:15:23] reconhecer o presente.

[00:15:24] Para poder criar um futuro novo, um futuro melhor.

[00:15:27] Só que às vezes a gente não quer ouvir o que o outro tem a dizer.

[00:15:31] Opa.

[00:15:32] E é aí que entra a música.

[00:15:34] E aí, cara, ele chama no palco o rapper Como,

[00:15:39] lindo, num terno branco.

[00:15:42] E o cara já entra trazendo uma mesa de DJ

[00:15:46] no meio da flamanda.

[00:15:47] Muito inesperado, né?

[00:15:48] Uma mesa e mais seis pessoas num coral,

[00:15:52] daqueles corais,

[00:15:53] que a gente vê que os americanos sabem fazer muito bem.

[00:15:56] E aí o Como começa a falar que ele estava ali para cantar a música do filme Selma,

[00:16:01] porque a luta dos negros por direitos civis é uma luta constante,

[00:16:05] que ela não pode ser esquecida.

[00:16:07] Daí a casa caiu, assim.

[00:16:10] Foi muito bonito.

[00:16:12] Música de preto, coral de preto, scratch de DJ preto,

[00:16:17] com aquele monte de branco tocando violino, arpa, bumbo, flauta, oboé, sei lá mais o quê.

[00:16:23] Porque quem ama a música e tudo misturado ali faz com que você escute.

[00:16:29] É aí que você escuta o que o outro tem a dizer.

[00:16:32] Você sempre fala isso, né?

[00:16:34] Porque você não está falando com a minha cabeça, você está falando com o meu coração.

[00:16:37] Então, aquela mensagem ficou ecoando ali.

[00:16:41] Eu fiquei pensando, será que as pessoas estão sentindo o mesmo que eu estou sentindo?

[00:16:46] E foi muito bonito.

[00:16:48] Tinha diversidade, mas ela respeitava o espaço onde ela estava, na minha opinião.

[00:16:53] Não é que diminuiu a qualidade para colocar a diversidade cultural, racial ali dentro.

[00:17:02] É que diversificou.

[00:17:05] Então, eu achei que isso mostra que você não vai baixar o nível para poder trazer mais gente.

[00:17:11] Não precisa baixar o nível, entendeu?

[00:17:13] O nível fica muito alto, mas tem um risco.

[00:17:17] E o Dudamel é esse lugar, é o lugar do provocador.

[00:17:20] Ele é um grande provocador.

[00:17:21] Em todos os lugares que ele vai.

[00:17:24] Só que ele provoca com uma qualidade excepcional.

[00:17:27] Então, ele faz muita entrega.

[00:17:29] E aí, ele pode brincar com esses outros elementos.

[00:17:32] Que é, se você me trouxe aqui, você sabe o que eu faço.

[00:17:35] E eu acho que ele mostrou para a Filarmônica de Nova York que vai ter barulho ali.

[00:17:39] Vai ter muito barulho.

[00:17:41] Desconfortável, né?

[00:17:42] Eles têm muito conteúdo para refletir até ele assumir.

[00:17:47] Até porque teve uma denúncia de assédio sexual tem uns dois anos.

[00:17:51] Uns quatro anos.

[00:17:51] Uns quatro anos, mais ou menos, na Filarmônica.

[00:17:53] Que ficou meio debaixo dos panos.

[00:17:55] Ele não vai pegar uma coisa muito fácil de fazer.

[00:17:58] Mas eu confio nesse poder que ele tem da música de unir as pessoas.

[00:18:03] E o carisma que ele tem.

[00:18:04] Ele vai, ele abraça todo mundo.

[00:18:06] Ele agradece todo mundo.

[00:18:07] Fica todo mundo muito movimentado.

[00:18:09] Com aquele cara beijando e abraçando todo mundo.

[00:18:11] Mas você tem toda razão, não agrada todo mundo.

[00:18:14] Depois do concerto, eu fui ler no outro dia uma crítica do New York Times.

[00:18:19] Que estava assim…

[00:18:21] Eu salvo a Filarmônica.

[00:18:23] Estava muito bonita a crítica.

[00:18:25] Eu peguei o nome das pessoas que eu citei aqui nessa crítica.

[00:18:29] Só que no final tinha um comentário de um leitor.

[00:18:31] E o comentário do cara era assim…

[00:18:34] Dudamel é o raro maestro cuja fama transcende a música clássica?

[00:18:39] Isso significa que ele é uma celebridade de primeira linha e, portanto, pode aparecer no Saturday Night Live?

[00:18:45] Ou isso significa que o que ele oferece simplesmente ofusca o legado da música clássica,

[00:18:51] a ponto dela não ser mais tão relevante?

[00:18:53] Me parece que é o segundo caso.

[00:18:55] Um maestro que, em prol da diversidade e de parecer o gente boa, esquece o que é um concerto de verdade.

[00:19:02] Curiosíssima para saber o que é um concerto de verdade para essa pessoa, não é?

[00:19:06] Cara, mudar padrão é muito difícil, né?

[00:19:08] Muito, muito.

[00:19:09] Concerto de verdade é aquilo que o cara…

[00:19:11] Que todo mundo já fez antes, né?

[00:19:13] Né?

[00:19:14] E aí, o tal gente boa é muito bom, né?

[00:19:17] Mas a gente já falou algumas vezes aqui no Mamilos Cultura.

[00:19:19] Como a gente se perde…

[00:19:21] Entre essência e forma, né?

[00:19:23] Porque um concerto de verdade, você só pode definir pela essência.

[00:19:28] A forma pode mudar.

[00:19:30] O concerto de verdade mantém a essência ao longo dos tempos.

[00:19:34] Mas é isso, a gente é muito mais…

[00:19:36] É mais fácil de ver a forma, não é?

[00:19:38] Se apegar à forma achando que a gente está segurando a essência na mão.

[00:19:41] Muito boa a reflexão.

[00:19:42] Você está pronta para ir comigo no próximo concerto, porque ele há de acontecer.

[00:19:47] Bora.

[00:19:48] Gustavo Dudamel, please come to Brazil.

[00:19:51] É isso, gente.

[00:19:53] A Chorona aqui ficou muito feliz de contar para vocês como foi legal assistir esse concerto.

[00:19:59] Temos um programa?

[00:20:00] Temos um programa.

[00:20:01] Beijo, gente.

[00:20:02] Beijo.

[00:20:21] Beijo.

[00:20:22] Beijo.

[00:20:23] Beijo.

[00:20:24] Beijo.

[00:20:25] Beijo.

[00:20:26] Beijo.

[00:20:27] Beijo.

[00:20:28] Beijo.

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[00:20:30] Beijo.

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[00:20:48] Beijo.

[00:20:49] Beijo.

[00:20:50] Beijo.