6 - O universo é um grande cassino
Resumo
O episódio começa com um experimento clássico de aprendizado de probabilidades, mostrando que animais como pombos aprendem a apostar sempre na opção mais provável, enquanto humanos frequentemente buscam padrões inexistentes, piorando seu desempenho. Isso ilustra a dificuldade humana em aceitar a aleatoriedade, um tema central para entender a física quântica.
A discussão então diferencia dois tipos de aleatoriedade: a aparente, que surge da nossa ignorância sobre todas as variáveis (como em um cara ou coroa, que é deterministicamente decidido pela física se conhecermos todas as condições), e a intrínseca. Exemplos como embaralhamento de cartas e o trabalho do matemático e mágico Percy Diaconis são usados para mostrar como processos aparentemente aleatórios podem ser controlados com conhecimento e prática, reforçando a ideia do determinismo clássico, encapsulado pela metáfora do Demônio de Laplace.
A conversa avança para o mundo quântico, onde a história é diferente. Mediçōes em sistemas quânticos, como a polarização de um fóton (análoga a uma ‘moeda quântica’), são intrinsecamente aleatórias. Mesmo com conhecimento completo do estado do sistema, o resultado é imprevisível. Esta aleatoriedade fundamental foi um ponto de discórdia histórica, com Einstein argumentando que a teoria era incompleta (“Deus não joga dados”). No entanto, experimentos baseados no emaranhamento quântico (como os dos ganhadores do Nobel de 2022) fornecem evidências robustas de que a aleatoriedade quântica é real e que tentativas de ‘completar’ a teoria com variáveis locais escondidas falham.
Por fim, o episódio explora uma aplicação prática crucial dessa aleatoriedade: a criptografia quântica. A aleatoriedade intrínseca das medições quânticas, combinada com as correlações do emaranhamento, permite a geração e distribuição segura de chaves secretas à distância, criando cifras inquebráveis. Esta tecnologia já é uma realidade, com startups e redes em operação. O episódio conclui ligando essas discussões ao combate à pseudociência, que frequentemente tenta preencher a ‘incompletude’ percebida da quântica com noções como a consciência humana, um tema a ser explorado no episódio seguinte.
Indicações
Canais
- Numberphile — Canal do YouTube que apresenta entrevistas e explicações sobre matemática, incluindo uma entrevista com Percy Diaconis sobre embaralhamento de cartas, mencionada no episódio.
Empresas
- ID Quantique — Startup suíça citada como exemplo de empresa que já oferece produtos e sistemas completos de criptografia quântica há mais de 20 anos, mostrando a maturidade desta tecnologia.
Filmes
- Quem Somos Nós? (2004) — Filme citado no episódio como um exemplo que distorce conceitos da física quântica, sugerindo erroneamente que a consciência humana é necessária para ‘colapsar’ as possibilidades quânticas e trazer eventos à realidade.
Livros
- O livro dos códigos — Livro do autor Simon Singh mencionado no episódio, que conta a história da criptografia e a luta entre criptógrafos e quebradores de códigos ao longo do tempo.
Pessoas
- Percy Diaconis — Matemático e ex-mágico estadunidense. Seu trabalho estudou a aleatoriedade em processos como embaralhamento de cartas e cara ou coroa, mostrando que sete embaralhadas do tipo ‘cascata’ são suficientes para randomizar um baralho e que uma moeda tem 51% de chance de cair com a face inicial virada para cima.
- Alain Aspect, John Clauser e Anton Zeilinger — Físicos ganhadores do Prêmio Nobel de Física de 2022 por seus experimentos com fótons emaranhados, que testaram as desigualdades de Bell e forneceram evidências robustas contra teorias de variáveis locais escondidas, corroborando a aleatoriedade intrínseca da mecânica quântica.
- Pierre Simon Laplace — Matemático francês que propôs a ideia do ‘Demônio de Laplace’, uma entidade que, conhecendo todas as posições e velocidades do universo, poderia prever deterministicamente todo o seu futuro e passado, representando a visão determinista da física clássica.
Projetos
- Rede Rio Quântica — Projeto brasileiro mencionado que está desenvolvendo uma infraestrutura de comunicação quântica, exemplificando a implementação prática da criptografia quântica no país.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Experimento com lâmpadas e aprendizado animal — Apresenta um experimento clássico onde animais aprendem a apostar na lâmpada que acende com 70% de probabilidade. Pombos e peixinhos aprendem a estratégia ótima (sempre apostar no vermelho), enquanto humanos, buscando padrões complexos, têm desempenho pior. Isso ilustra a dificuldade humana em lidar com a aleatoriedade.
- 00:08:21 — Aleatoriedade aparente vs. intrínseca e o cara ou coroa clássico — Define aleatoriedade aparente (falta de conhecimento) e intrínseca (imprevisibilidade fundamental). Explica que um cara ou coroa com uma moeda comum não é intrinsecamente aleatório: se conhecêssemos todas as condições físicas (força, ponto de aplicação, resistência do ar), poderíamos prever o resultado. As probabilidades de 50/50 surgem da nossa ignorância.
- 00:17:23 — Percy Diaconis: do mágico ao matemático da probabilidade — Apresenta Percy Diaconis, um matemático que começou como mágico. Seu trabalho mostrou que, com prática, é possível controlar embaralhamentos de cartas (tornando-os determinísticos) e que o resultado de um cara ou coroa tem 51% de chance de ser a face que estava para cima no início do lançamento. Seu teorema mais famoso diz que sete embaralhadas do tipo ‘cascata’ são suficientes para randomizar um baralho.
- 00:21:34 — O Demônio de Laplace e o determinismo clássico — Introduz a ideia do Demônio de Laplace: uma entidade que, conhecendo a posição e velocidade de todas as partículas do universo em um instante, poderia prever todo o passado e futuro usando as leis da física clássica. Esta visão puramente determinista do universo foi desafiada pelo advento da teoria quântica.
- 00:24:28 — Medições quânticas e aleatoriedade intrínseca — Contrasta medições clássicas (que apenas revelam um valor preexistente) com medições quânticas. Em sistemas quânticos, como um fóton em superposição, a medição não apenas revela, mas determina o resultado de forma aleatória e imprevisível, mesmo com conhecimento completo do estado. Esta é a aleatoriedade intrínseca.
- 00:31:28 — Einstein, Bohr e a busca por uma teoria completa — Aborda a resistência à aleatoriedade quântica, exemplificada pela famosa frase de Einstein, “Deus não joga dados”. O artigo EPR (1935) argumentou que a teoria quântica era incompleta, sugerindo a existência de ‘variáveis escondidas’ locais que tornariam o mundo determinístico.
- 00:35:34 — Experimentos de Bell e o fim do sonho das variáveis locais — Discute os experimentos de Alain Aspect, John Clauser e Anton Zeilinger (Nobel de Física 2022), que testaram as previsões da teoria quântica contra modelos de variáveis locais escondidas. Os resultados confirmaram a quântica, fornecendo fortes evidências de que a aleatoriedade é intrínseca e que qualquer teoria determinística alternativa teria que ser não-local (exigindo conhecimento de eventos distantes).
- 00:37:12 — Criptografia quântica: aplicação da aleatoriedade intrínseca — Explica como a aleatoriedade quântica é a base para a criptografia inquebrável. Para criar uma chave secreta segura, é necessário usar números verdadeiramente aleatórios. A quântica fornece essa aleatoriedade e, através do emaranhamento, permite que duas partes distantes gerem a mesma chave secreta de forma segura, resolvendo o problema da distribuição.
- 00:47:22 — Estado atual da criptografia quântica — Afirma que a distribuição quântica de chaves é uma das tecnologias quânticas mais maduras. Já existem startups (como a ID Quantique) e redes implementadas no mundo, inclusive no Brasil (projeto Rede Rio Quântica), utilizando fibras óticas e satélites. A China é uma líder nesta área.
- 00:48:56 — Conexão com a pseudociência e o próximo episódio — Conclui que a dificuldade humana em aceitar a aleatoriedade intrínseca abre espaço para a pseudociência, que frequentemente propõe a ‘consciência’ como a peça que falta para ‘completar’ a teoria quântica e explicar a suposta ‘escolha’ entre possibilidades. Este será o tema do próximo episódio.
Dados do Episódio
- Podcast: O Q Quântico
- Autor: O Q Quântico
- Categoria: Science
- Publicado: 2024-05-09T10:00:00Z
- Duração: 00:53:33
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/fc12afa0-bb1b-013c-5156-0acc26574db2/episode/d4730045-ff38-47e3-89b8-dacfe475a452/
- UUID Episódio: d4730045-ff38-47e3-89b8-dacfe475a452
Dados do Podcast
- Nome: O Q Quântico
- Tipo: episodic
- Site: https://www.ufsm.br/midias/arco/o-q-quantico
- UUID: fc12afa0-bb1b-013c-5156-0acc26574db2
Transcrição
[00:00:00] Imagina que tu tá participando de uma brincadeira em que tem uma lâmpada branca e outra lâmpada
[00:00:08] vermelha, e uma delas vai acender, mas tu não sabe qual.
[00:00:12] Aí primeiro acende a vermelha, depois a branca e depois a vermelha de novo.
[00:00:17] E a pergunta é, qual lâmpada que vai ser a próxima a acender?
[00:00:21] Alguns anos atrás, nas décadas de 1960 e 1970, foram realizados alguns estudos desse
[00:00:28] tipo, numa área de pesquisa chamada Aprendizado de Probabilidades.
[00:00:33] O objetivo era entender como alguns animais, no seu habitat natural, tomavam decisões
[00:00:38] que eram basicamente probabilísticas, ou seja, podiam tanto dar certo como dar errado.
[00:00:44] Por exemplo, num cenário de escassez, quando é que um grupo de aves deve partir pra uma
[00:00:49] nova área, em busca de comida?
[00:00:51] Pode muito bem acontecer de elas acharem um novo local com mais alimento, mas também
[00:00:55] pode acontecer de elas abrirem mão do pouco de comida que elas têm.
[00:00:58] Por outro lugar, com ainda menos.
[00:01:01] Então, será que com o tempo, as aves aprendem a fazer apostas melhores, ou seguem sempre
[00:01:07] o mesmo instinto?
[00:01:08] Alguns cientistas começaram a fazer alguns experimentos parecidos com esse que a Lu mencionou
[00:01:13] antes.
[00:01:14] Tinham duas lâmpadas, uma vermelha e uma branca, e os animais precisavam adivinhar
[00:01:18] qual delas iria acender, e eram recompensados quando acertavam.
[00:01:22] Bom, não era exatamente assim, mas a premissa é a mesma.
[00:01:26] Só que o mecanismo que controlava essas lâmpadas…
[00:01:28] Era aleatório, como se fosse decidido por cara ou coroa.
[00:01:32] Quando caía a cara, acendia a lâmpada vermelha, e quando caía a coroa, acendia a branca.
[00:01:38] Só que não era um cara ou coroa como uma moeda comum.
[00:01:41] Era uma moeda enviesada, que tinha um lado mais pesado que o outro.
[00:01:44] Então a chance de cair cara, ou seja, de acender vermelho, era de 70%, contra 30% de
[00:01:51] chance de cair coroa e acender a luz branca.
[00:01:54] Só que esse mecanismo não ficava abertamente exposto.
[00:01:57] A única coisa que os animais…
[00:01:58] sabiam, eram as luzes acendendo.
[00:02:00] Bom, se o experimento é planejado desse jeito, então existe uma estratégia ótima,
[00:02:05] que maximiza o número de acertos.
[00:02:08] Ou seja, se os animais usassem essa estratégia, eles teriam a maior chance possível de acerto.
[00:02:14] Tu já sabe qual é essa estratégia?
[00:02:17] A ideia é…
[00:02:18] Sempre apostar que vai acender a lâmpada vermelha.
[00:02:21] Faz sentido.
[00:02:22] Porque, se o padrão que governa as lâmpadas é aleatório,
[00:02:25] o melhor que se pode fazer…
[00:02:28] é sempre no resultado que tem mais chance de acontecer.
[00:02:32] Chutando sempre no vermelho, a taxa média de acerto é de 70%.
[00:02:36] Que, nesse caso, é a mais alta possível.
[00:02:39] Agora, sabe o que é curioso?
[00:02:41] Animais não tão inteligentes assim, como pombos e peixinhos dourados,
[00:02:46] costumam entender isso.
[00:02:47] E, após algumas rodadas, aprendem que devem sempre chutar vermelho.
[00:02:52] E sabe qual animal muitas vezes não se sai tão bem assim nesse tipo de experimento?
[00:02:57] Os seres humanos.
[00:02:58] Os seres humanos.
[00:02:58] Os seres humanos.
[00:02:58] Os seres humanos.
[00:02:58] Os seres humanos.
[00:02:58] Os seres humanos.
[00:02:58] Os seres humanos que, teoricamente, são tão espertos e tudo mais,
[00:03:03] não se dão por satisfeitos em acertar apenas 70% das vezes,
[00:03:08] como os pombos aprendem a fazer.
[00:03:10] A gente quer acertar 100%.
[00:03:12] E, nisso, muitas vezes a gente acaba se convencendo
[00:03:16] que existe um padrão mirabolante por trás do comportamento das lâmpadas.
[00:03:20] Ou seja, que existe um segredo que contém a chave pro sucesso
[00:03:24] e que pode ser decifrado.
[00:03:25] Mas, em certas ocasiões, como nesses…
[00:03:28] experimentos em particular,
[00:03:30] isso simplesmente não é possível,
[00:03:32] porque o acender das lâmpadas é escolhido de forma aleatória.
[00:03:36] E acaba que, nesses casos,
[00:03:38] os seres humanos apresentam um desempenho pior que o dos peixinhos dourados.
[00:03:43] A gente quis começar esse episódio falando desse experimento
[00:03:46] porque ele ilustra bem uma característica dos seres humanos
[00:03:49] que contribui para a propagação de misticismos e pseudociências.
[00:03:54] Seres humanos têm uma grande dificuldade
[00:03:56] de acreditar que alguns eventos,
[00:03:58] sejam simplesmente aleatórios.
[00:04:01] E, por acaso, isso também tem muita coisa a ver com a teoria quântica.
[00:04:07] Eu sou a Glaucia Murta,
[00:04:09] física e pesquisadora na Universidade de Düsseldorf, na Alemanha.
[00:04:12] Eu sou a Luciane Träub, jornalista e divulgadora científica
[00:04:16] na Universidade Federal de Santa Maria.
[00:04:18] E eu sou o Leonardo Guirini, matemático e professor também na UFSM.
[00:04:23] Esse é o podcast O Que Quântico?
[00:04:25] No primeiro bloco de hoje,
[00:04:26] a gente fala sobre por que essas coisas…
[00:04:28] que a gente gosta de chamar de aleatórias,
[00:04:31] como o cara ou coroa,
[00:04:32] num certo sentido, não são realmente aleatórias.
[00:04:36] Já no bloco 2, a gente conta um pouquinho mais
[00:04:39] sobre medições quânticas e por que
[00:04:41] essas, sim, são aleatórias de verdade.
[00:04:44] E, para finalizar, no bloco 3,
[00:04:47] a gente fala sobre criptografia
[00:04:48] e o que ela tem a ver com tudo isso.
[00:04:51] Vem com a gente que está começando o episódio 6,
[00:04:54] O Universo é um Grande Cassino.
[00:04:58] Então, o que eu diria para as pessoas é que se abram, né?
[00:05:07] Então, a gente se abrir para o novo,
[00:05:09] se abrir para as possibilidades,
[00:05:11] porque a física quântica é a física das possibilidades, né?
[00:05:15] A física quântica é a física das possibilidades.
[00:05:19] A gente encontrou essa fala que você ouviu agora
[00:05:21] num canal de YouTube de pseudociência.
[00:05:24] Esse é mais um desses casos em que a frase em si faz sentido
[00:05:27] e que, com alguma boa vontade,
[00:05:28] a gente pode dizer que ela está cientificamente correta,
[00:05:32] mas não por motivos místicos.
[00:05:34] Só que, quando a gente fala em possibilidades,
[00:05:37] isso fica um pouco vago.
[00:05:39] Uma maneira mais precisa de falar sobre essas coisas
[00:05:42] é dizer que a física quântica é a física das probabilidades.
[00:05:46] Falo isso porque o estudo da probabilidade
[00:05:49] é essencial para entender a mecânica quântica.
[00:05:52] Então, assim, se a gente não entende probabilidade,
[00:05:55] nada feito.
[00:05:56] Essa falando agora é a Gabriela,
[00:05:58] Gabriela Barreto Lemos,
[00:06:00] professora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
[00:06:04] A probabilidade é uma maneira de quantificar
[00:06:08] cada uma das possibilidades que podem ocorrer num certo evento.
[00:06:13] Talvez o exemplo mais simples que a gente pode pensar
[00:06:16] é jogar uma moeda para cima num cara ou coroa.
[00:06:19] Nesse caso, considerando que a gente tem uma moeda normal,
[00:06:22] simétrica, com um formato e um peso regular,
[00:06:25] a gente costuma dizer que a probabilidade de cair
[00:06:28] cara é 50% e a probabilidade de cair coroa também é 50%.
[00:06:35] Em outras palavras, quando a gente joga uma moeda para cima,
[00:06:38] em geral, a gente não sabe qual vai ser o resultado.
[00:06:42] Então, atribuir uma probabilidade a cada um dos resultados possíveis
[00:06:46] é uma maneira da gente tentar dizer algo sobre o que vai acontecer.
[00:06:49] E se a gente não entende probabilidade,
[00:06:51] já que só que a gente não vai entender física quântica não,
[00:06:53] a gente não vai entender o mundo, né?
[00:06:56] A gente concorda.
[00:06:58] De fato,
[00:06:59] tem muita coisa no mundo que você só entende
[00:07:01] se entender um pouquinho sobre probabilidades.
[00:07:03] Aqui, a gente pode citar várias coisas importantes
[00:07:06] do nosso dia a dia que envolvem probabilidade.
[00:07:09] Por exemplo, tem a previsão do tempo que indica quais são as chances de chover amanhã.
[00:07:14] Outro exemplo é que vários testes de eficácia de medicamentos
[00:07:18] são feitos para se estimar a probabilidade de uma pessoa melhorar ou ser curada.
[00:07:23] E ainda outro tópico muito relevante que a gente ouviu falar bastante durante a pandemia
[00:07:28] são os modelos probabilísticos,
[00:07:30] que, naquele caso, serviam para estimar o número de pessoas contaminadas pelo vírus
[00:07:35] se essa ou aquela política de prevenção fosse colocada em prática.
[00:07:39] E, inclusive, muitos desses temas geraram polêmicas
[00:07:43] justamente devido a distorções sobre o que significa probabilidade,
[00:07:47] o que são modelos probabilísticos e como interpretá-los.
[00:07:51] Mas, voltando para o conceito de probabilidade,
[00:07:53] todas as áreas da ciência que envolvem experimentos necessariamente,
[00:07:58] incluem estudos estatísticos,
[00:08:00] em que, muitas vezes, o objetivo é estimar as probabilidades
[00:08:04] do modelo em questão estar certo ou errado.
[00:08:07] Então, realmente, a probabilidade é um ponto central na ciência.
[00:08:10] Não tem como você falar de desenvolvimento científico
[00:08:14] sem falar de probabilidade, né?
[00:08:17] Tá. Então, quando a gente joga uma moeda normal para cima,
[00:08:21] a gente diz que a probabilidade de cair cara é de 50%
[00:08:24] e a probabilidade de cair coroa também é 50%.
[00:08:28] Mas, lá no início do episódio, na descrição dos blocos,
[00:08:31] a gente já disse que cara ou coroa não era algo realmente aleatório.
[00:08:36] Mas por quê?
[00:08:38] Bom, antes da gente responder isso,
[00:08:40] a gente precisa primeiro definir o que significa ser aleatório.
[00:08:45] Essa já é uma tarefa difícil e tem mais de uma definição possível.
[00:08:49] Mas, aqui no episódio, a gente quer diferenciar dois tipos de aleatoriedade.
[00:08:54] O primeiro tipo é a aleatoriedade que surge pela nossa falsidade,
[00:08:58] que é a falta de conhecimento de todas as variáveis que influenciam um evento.
[00:09:02] E isso a gente vai chamar de aleatoriedade aparente.
[00:09:08] Já, já, a gente vai dar exemplos disso.
[00:09:11] Mas, por outro lado, tem também a aleatoriedade intrínseca.
[00:09:16] Ou seja, que envolve eventos que não têm nenhuma maneira de serem previstos com certeza,
[00:09:22] mesmo que a gente conheça tudo que é possível saber sobre esse evento.
[00:09:26] Deixa a gente tentar dar uns exemplos.
[00:09:28] Vamos dar uns exemplos usando sequências de números.
[00:09:30] Se eu ficar repetindo apenas 0, 1, 0, 1, 0, 1, 0, 1,
[00:09:37] essa não parece uma sequência aleatória, certo?
[00:09:39] Eu estou só alternando entre 0 e 1, um de cada vez,
[00:09:42] então é realmente fácil prever qual é o próximo número que vai aparecer.
[00:09:47] Agora, se eu falasse 3, 1, 4, 1, 5, 9, 2, 6, 5, 3, 5,
[00:09:55] e continuasse,
[00:09:58] à primeira vista, isso pareça aleatório.
[00:10:01] Mas, se você identificar que esses são exatamente os primeiros números
[00:10:05] que aparecem na expansão decimal do número π,
[00:10:08] pronto, você vai ver que eles não são aleatórios.
[00:10:11] Se você quiser saber qual é o próximo número que vai aparecer nessa lista,
[00:10:15] você só precisa procurar o número π na internet
[00:10:18] e ver qual número vem depois do último que eu falei.
[00:10:21] Ou seja, existe uma fórmula que prediz qual é o próximo número.
[00:10:26] Tá.
[00:10:27] Mas, então, voltando ao cara e coroa,
[00:10:29] vocês estavam dizendo que o resultado talvez não fosse aleatório.
[00:10:34] Então, quer dizer que existe uma fórmula que prevê se vai sair cara ou coroa?
[00:10:39] Então, à primeira vista, pode parecer estranho,
[00:10:42] mas é isso mesmo que a gente está dizendo.
[00:10:45] Só que é um pouco diferente desse exemplo do π,
[00:10:47] em que já tinha uma lista pronta com os números que vão sair.
[00:10:50] No caso do cara ou coroa,
[00:10:52] o que explica a situação é mais a física do que a matemática.
[00:10:56] Pensa.
[00:10:57] Comigo, quando eu jogo o cara ou coroa,
[00:10:59] eu estou aplicando uma certa força em algum ponto dessa moeda,
[00:11:03] que faz ela girar no ar.
[00:11:04] Então, por que é possível, em princípio, predizer o que vai acontecer?
[00:11:10] Porque, se eu conhecer precisamente as dimensões dessa moeda,
[00:11:15] a densidade do material,
[00:11:17] a força que eu apliquei,
[00:11:19] o ponto exato onde essa força foi aplicada,
[00:11:22] a resistência do ar
[00:11:24] e a força da gravidade,
[00:11:27] se eu souber tudo isso,
[00:11:29] em princípio,
[00:11:30] a física clássica me diz como calcular a trajetória dessa moeda.
[00:11:34] São simplesmente as leis da mecânica clássica.
[00:11:37] Eu posso, inclusive, tentar jogar a moeda
[00:11:39] de um jeito específico para manipular o resultado.
[00:11:42] Por exemplo,
[00:11:43] um caso extremo seria fazer com que a moeda não girasse nenhuma vez.
[00:11:47] Ou seja, ela sobe no ar e depois desce
[00:11:50] sempre com a mesma face voltada para cima, o tempo todo.
[00:11:54] É.
[00:11:54] E a gente não está dizendo que fazer isso,
[00:11:57] não é fácil, né?
[00:11:58] Muito pelo contrário.
[00:11:59] A menos que a gente jogue a moeda de uma maneira meio roubada,
[00:12:02] que nem o Leo falou,
[00:12:04] simular o movimento da moeda pode ser um problema super complexo.
[00:12:08] Mas, em princípio, é possível.
[00:12:11] Se eu conhecer bem essa moeda
[00:12:13] e souber direitinho como foi a minha interação com ela,
[00:12:17] não tem chance por acaso.
[00:12:19] A moeda vai seguir um movimento bem determinado
[00:12:22] e, teoricamente, a gente sempre pode calcular
[00:12:25] qual que vai ser a face que vai acabar voltando.
[00:12:26] E, teoricamente, a gente sempre pode calcular qual que vai ser a face que vai acabar voltando.
[00:12:27] A moeda vai ser voltada para cima.
[00:12:29] Esse raciocínio não se restringe apenas a moedas.
[00:12:32] É a mesma coisa quando a gente joga um dado
[00:12:34] ou quando a gente vê aquelas roletas nos cassinos.
[00:12:37] Todos esses objetos,
[00:12:39] assim como qualquer outro objeto do nosso cotidiano,
[00:12:42] se movimentam de maneira determinística.
[00:12:44] Ou seja, de forma completamente determinada
[00:12:47] pelas forças que agem sobre eles.
[00:12:49] As probabilidades surgem apenas pela nossa falta de conhecimento
[00:12:53] de todas as variáveis possíveis
[00:12:55] que podem influenciar o evento.
[00:12:56] ao evento, que fazem com que a gente não
[00:12:58] consiga saber o resultado com 100%
[00:13:01] de certeza. Então,
[00:13:02] o que vocês estão dizendo é que um cara
[00:13:04] ou coroa não é decidido pela sorte,
[00:13:07] é decidido pela física.
[00:13:09] Essencialmente, sim.
[00:13:11] Então, se você me pergunta
[00:13:13] se um jogo de cara ou coroa é
[00:13:14] aleatório, do ponto de vista
[00:13:16] do processo físico que está acontecendo,
[00:13:19] eu respondo que não.
[00:13:20] Porque, em princípio,
[00:13:22] dá pra predizer o que vai acontecer.
[00:13:25] Agora, mesmo que eu
[00:13:26] faça antecipadamente todos
[00:13:28] os cálculos direitinho, é quase
[00:13:30] impossível colocar isso em
[00:13:32] prática. É difícil
[00:13:34] dosar a força exata que eu tenho
[00:13:36] que usar e é difícil acertar o
[00:13:38] local exato em que eu tenho que atingir
[00:13:40] a moeda. É por isso que,
[00:13:42] em geral, a gente não consegue prever
[00:13:44] o resultado. E é daí
[00:13:46] que surgem essas probabilidades
[00:13:48] de 50% de chance
[00:13:50] de sair cara e 50%
[00:13:52] de chance de sair coroa.
[00:13:54] Por esse motivo que, para todos os
[00:13:56] efeitos, não tem problema
[00:13:58] em usar um cara ou coroa pra decidir
[00:14:00] quem começa batendo os pênaltis num jogo
[00:14:02] de futebol, por exemplo. Mas é
[00:14:04] importante deixar claro o porquê.
[00:14:06] Cara ou coroa pode ser uma maneira
[00:14:08] imparcial de decidir as coisas, mas
[00:14:10] não por ser algo intrinsecamente
[00:14:12] aleatório, mas por causa da nossa
[00:14:14] ignorância sobre as condições
[00:14:16] físicas do problema.
[00:14:18] Se você lembrar o que a gente falou mais cedo,
[00:14:20] é exatamente isso que a gente
[00:14:22] chamou de aleatoriedade aparente.
[00:14:25] Se a gente controlasse
[00:14:26] de maneira precisa todas as
[00:14:28] variáveis que a Glaucia citou antes,
[00:14:30] resistência do ar, a força que é aplicada
[00:14:32] na moeda, etc., a gente
[00:14:34] conseguiria sempre fazer a moeda
[00:14:36] cair com o cara virado pra cima,
[00:14:38] por exemplo. Então,
[00:14:40] quer dizer que a gente só não consegue
[00:14:42] entrar num cassino e sair de lá
[00:14:44] milionária porque a gente não sabe com que
[00:14:46] força a bolinha foi jogada em cima da
[00:14:48] roleta? É isso?
[00:14:50] É. Teria que saber também a força
[00:14:52] com que a roleta foi girada e mais
[00:14:54] outros detalhes, mas basicamente
[00:14:56] isso. A gente gosta de
[00:14:58] dizer que essas coisas são decididas
[00:15:00] na sorte, mas se tudo depende
[00:15:02] da física, o que a sorte
[00:15:04] tem a ver com isso?
[00:15:06] E outra pergunta que eu acho legal é
[00:15:08] será que existem outros
[00:15:10] processos aparentemente
[00:15:12] aleatórios, mas que depois de muito
[00:15:14] treino a gente consegue controlar?
[00:15:17] E pensando nisso,
[00:15:18] a gente vai se dando conta de que é
[00:15:20] exatamente desse jeito que os
[00:15:22] mágicos e ilusionistas fazem
[00:15:24] boa parte dos seus truques.
[00:15:26] É verdade. Assim como a gente está falando
[00:15:28] de moedas e cara ou coroa,
[00:15:30] a gente também pode falar de cartas e
[00:15:32] embaralhamento. Existem várias
[00:15:34] maneiras de embaralhar as cartas de um baralho,
[00:15:36] mas duas delas são as mais
[00:15:38] populares. A primeira
[00:15:40] é pegar o baralho numa mão
[00:15:42] e com a outra, simplesmente
[00:15:44] pegar blocos de cartas e passar
[00:15:46] eles para o fim do baralho.
[00:15:55] Outra maneira
[00:15:56] que é visualmente mais bonita
[00:15:58] é chamada de cascata.
[00:16:00] A gente divide o baralho em dois montes,
[00:16:02] segura um em cada mão e vai
[00:16:04] soltando as cartas de modo que os dois
[00:16:06] montes acabam se intercalando.
[00:16:14] Normalmente, quando alguém embaralha
[00:16:16] as cartas desse segundo jeito,
[00:16:18] existem duas coisas que
[00:16:19] aparentemente ficam por conta da sorte.
[00:16:23] A primeira
[00:16:23] é a quantidade de cartas em cada mão.
[00:16:26] Quando a gente divide o baralho em dois montes.
[00:16:28] E a segunda
[00:16:29] é a maneira como as cartas se intercalam.
[00:16:32] Agora, o que uma pessoa
[00:16:34] pode fazer é praticar tanto
[00:16:36] esse embaralhamento até chegar
[00:16:38] no ponto em que não tem mais incerteza
[00:16:40] nenhuma nesses dois momentos.
[00:16:42] A gente pode treinar o corte
[00:16:44] até conseguir dividir o baralho em dois
[00:16:46] montes com exatamente o mesmo
[00:16:48] número de cartas. E pode
[00:16:50] treinar o movimento da cascata
[00:16:52] até que as cartas se intercalem
[00:16:54] exatamente uma a uma.
[00:16:56] Uma carta de uma mão, uma carta
[00:16:58] da outra, e assim por diante.
[00:17:01] Se você consegue fazer isso,
[00:17:02] você sabe exatamente
[00:17:04] a ordem final em que as cartas vão
[00:17:06] ficar. Assim, esse processo
[00:17:08] é determinístico. E o embaralhamento
[00:17:11] passa a ser só um teatro.
[00:17:13] Uma pessoa
[00:17:14] que estudou essas coisas, tanto
[00:17:16] do ponto de vista dos truques, quanto do ponto
[00:17:18] de vista científico, e de quem
[00:17:20] eu sou fã, é o Percy Diaconis.
[00:17:23] Ele é um matemático estadunidense
[00:17:24] bastante conhecido, que,
[00:17:26] já é professor da Universidade de Stanford
[00:17:28] há um bom tempo. Mas, quando
[00:17:30] Diaconis era pequeno, ele sabia
[00:17:32] exatamente o que ele queria ser.
[00:17:34] O sonho dele era ser mágico.
[00:17:36] Então, quando ele tinha 14 anos,
[00:17:38] ele fugiu de casa pra seguir
[00:17:40] a vida de mágico itinerante,
[00:17:42] aprendendo e, inclusive, inventando
[00:17:44] um monte de truques, principalmente
[00:17:46] com cartas.
[00:17:53] Aliás,
[00:17:54] essas últimas falas que a gente tem
[00:17:56] escutado são do Percy Diaconis
[00:17:58] em uma entrevista pro canal do YouTube
[00:18:00] Numberphile. Quando você
[00:18:02] tem talento pra isso, toda forma
[00:18:04] de embaralhamento de cartas
[00:18:06] acaba sendo uma oportunidade pra
[00:18:08] enganar, no melhor sentido da palavra,
[00:18:10] as pessoas.
[00:18:12] A ideia é sempre a mesma. Tirar proveito
[00:18:14] dessa impressão que a gente tem
[00:18:16] de que o mundo é aleatório. Quando,
[00:18:18] na verdade, a sequência de movimentos
[00:18:20] e escolhas que tá acontecendo
[00:18:22] é completamente determinada
[00:18:24] pelo mágico.
[00:18:26] Tinha esse tipo de talento, mas também
[00:18:28] tinha muita curiosidade. Ele começou
[00:18:30] a se perguntar algumas coisas parecidas
[00:18:32] com as que a gente já trouxe aqui no episódio.
[00:18:35] Se a gente jogar
[00:18:36] cara ou coroa sempre do mesmo jeito,
[00:18:38] o resultado vai ser sempre o mesmo?
[00:18:41] Quantos parâmetros são
[00:18:42] necessários pra se descrever um cara
[00:18:44] ou coroa do ponto de vista físico?
[00:18:46] Qual é a melhor forma
[00:18:48] de embaralhar cartas do ponto de vista
[00:18:50] probabilístico?
[00:18:51] A pergunta é, quantas vezes você tem
[00:18:54] que enganar um paquete de cartas pra misturar?
[00:18:56] E foi assim que ele acabou se tornando
[00:18:58] um matemático especialista
[00:19:00] na área de probabilidade.
[00:19:02] Entre os seus vários trabalhos,
[00:19:04] ele desenvolveu, junto com o departamento
[00:19:06] de engenharia da sua universidade,
[00:19:09] uma máquina de cara ou coroa,
[00:19:11] em que a moeda era jogada
[00:19:12] sempre com a mesma força, aplicada
[00:19:15] sempre no mesmo lugar.
[00:19:16] Logo, o resultado era sempre o mesmo.
[00:19:19] Outro resultado legal
[00:19:20] é que o Diaconis mostrou que, na verdade,
[00:19:23] as probabilidades do cara ou coroa
[00:19:24] não são necessariamente
[00:19:26] 50-50, mas sim
[00:19:28] que existe 51% de chance
[00:19:30] do resultado ser a face
[00:19:32] que já estava virada pra cima
[00:19:34] na hora do lançamento.
[00:19:35] Ou seja, se você for decidir algo no cara ou coroa,
[00:19:39] peça a cara e lance a moeda
[00:19:41] com a face cara
[00:19:42] virada pra cima, porque com isso
[00:19:44] a sua chance de vencer vai ser um pouquinho maior.
[00:19:47] Mas o resultado mais famoso
[00:19:49] do Percy Diaconis
[00:19:50] é sobre embaralhamento mesmo.
[00:19:52] Em 1992,
[00:19:53] ele demonstrou um teorema matemático
[00:19:56] que diz que sete embaralhadas
[00:19:58] do tipo cascata
[00:19:59] são o suficiente pra deixar as cartas
[00:20:02] muito próximas da forma mais
[00:20:04] aleatória possível.
[00:20:09] Ou seja,
[00:20:10] depois de sete embaralhadas,
[00:20:12] a ordem das cartas vai estar
[00:20:13] completamente bagunçada.
[00:20:16] Seis embaralhadas não são o suficiente
[00:20:18] e uma oitava embaralhada
[00:20:20] já não faz muita diferença.
[00:20:22] Sete é o número certo.
[00:20:24] Isso, claro, se quem tiver
[00:20:26] embaralhando for uma pessoa amadora,
[00:20:28] introduzindo aquelas incertezas
[00:20:30] que a gente falou antes, na hora
[00:20:31] de cortar e de misturar as cartas.
[00:20:34] Só pra comparação,
[00:20:36] se você for embaralhar as cartas
[00:20:37] do outro jeito mais usual,
[00:20:39] o por blocos, você precisaria
[00:20:41] de dez mil embaralhadas pra obter
[00:20:43] o mesmo resultado.
[00:20:45] Numa entrevista recente a um jornal português,
[00:20:48] perguntaram pro Diaconis se a aleatoriedade
[00:20:50] existe mesmo ou se é só
[00:20:51] uma invenção dos matemáticos pra
[00:20:53] representar coisas que eles não controlam.
[00:20:56] Sabe qual foi a resposta dele?
[00:20:58] Ele disse
[00:21:00] Depois de pensar nisso durante
[00:21:02] cinquenta anos e esquecendo agora
[00:21:04] a mecânica quântica, o meu melhor
[00:21:06] palpite é que a aleatoriedade
[00:21:08] é uma afirmação sobre o conhecimento
[00:21:10] de determinada pessoa.
[00:21:12] Não é uma afirmação
[00:21:14] acerca do mundo exterior.
[00:21:16] Aqui, você deve ter notado
[00:21:18] que o Diaconis mencionou a teoria
[00:21:20] quântica na resposta dele.
[00:21:22] E a gente já já vai chegar lá.
[00:21:24] Antes disso, eu só queria contar
[00:21:26] que se a gente levar essa forma de pensar
[00:21:28] às suas últimas consequências,
[00:21:30] a gente chega numa ideia chamada
[00:21:32] de Demônio de Laplace.
[00:21:34] Essa é uma anedota criada
[00:21:36] pelo Pierre Simon, o Marquês de
[00:21:38] Laplace, que foi um matemático
[00:21:40] francês que viveu entre os séculos 18
[00:21:42] e 19. A ideia é mais
[00:21:44] ou menos assim. Se alguma pessoa
[00:21:46] e teria que ser alguém com capacidades
[00:21:48] sobrenaturais, por isso que se fala em
[00:21:50] demônio, mas se alguma pessoa
[00:21:52] souber com precisão
[00:21:54] a posição e a velocidade de cada
[00:21:56] objeto do universo em um determinado
[00:21:58] instante de tempo, digamos
[00:22:00] ontem ao meio-dia,
[00:22:02] então, a partir disso,
[00:22:04] ela consegue prever o movimento
[00:22:06] de qualquer coisa do universo
[00:22:08] em qualquer momento, do passado
[00:22:10] ou do futuro, utilizando as leis
[00:22:12] da física clássica.
[00:22:24] Ou seja, essa história mostra pra gente
[00:22:26] que as leis da mecânica clássica
[00:22:28] descrevem o universo como se fosse
[00:22:30] um reloginho, onde uma engrenagem
[00:22:32] aciona outra engrenagem,
[00:22:34] que aciona outra, e assim por diante,
[00:22:36] de maneira completamente previsível.
[00:22:38] Desse ponto de vista,
[00:22:40] se a gente tem a impressão de que o universo
[00:22:42] é aleatório, é só porque a gente
[00:22:44] não tem informação suficiente sobre
[00:22:46] ele, ou porque a gente não conhece
[00:22:48] o mecanismo inteiro do relógio,
[00:22:50] ou porque a gente não consegue fazer os cálculos.
[00:22:52] Bom, é claro que esse
[00:22:54] argumento é bastante provocativo.
[00:22:56] Pensar assim é basicamente
[00:22:58] dizer que tudo no universo,
[00:23:00] inclusive as pessoas e demais
[00:23:02] seres vivos, se resumem a bolas
[00:23:04] de bilhar se chocando umas com as outras,
[00:23:06] fadadas a seguir os caminhos traçados.
[00:23:08] Mas fora isso,
[00:23:10] talvez daria pra pensar que os fenômenos
[00:23:12] da natureza, pelo menos os que envolvem
[00:23:14] objetos inanimados, funcionam
[00:23:16] assim mesmo. O demônio de Laplace
[00:23:18] foi uma ideia que surgiu ainda
[00:23:20] no século XIX. De lá pra cá,
[00:23:22] muita coisa mudou.
[00:23:24] Em particular, um evento que deu um golpe
[00:23:26] duro nessa concepção determinística
[00:23:28] de universo foi justamente
[00:23:30] o surgimento da teoria quântica.
[00:23:32] Isso porque, diferente
[00:23:34] de um caro coroa ou de um
[00:23:36] embaralhamento de cartas, a teoria
[00:23:38] quântica, pelo menos como a gente conhece
[00:23:40] hoje, é intrinsecamente
[00:23:42] probabilística.
[00:23:54] Então, eu acho
[00:23:56] que a questão central,
[00:23:58] que eu acho que é o mais difícil da gente
[00:24:00] fazer essa transição
[00:24:02] de pensar sistemas clássicos
[00:24:04] e pensar sistemas quânticos,
[00:24:06] que é o que que significa
[00:24:08] medir alguma coisa.
[00:24:10] Essa é a Bárbara Amaral,
[00:24:12] que é professora do Departamento de Física
[00:24:14] e Matemática da Universidade de São Paulo
[00:24:16] e pesquisadora de Teoria
[00:24:18] da Informação Quântica. Como a Bárbara
[00:24:20] falou, pra gente entender a
[00:24:22] aleatoriedade que surge na teoria
[00:24:24] quântica, primeiro a gente precisa
[00:24:26] entender o que é uma medição.
[00:24:28] Na maioria das vezes,
[00:24:30] fazer uma medição ou uma observação
[00:24:32] do sistema que você está estudando
[00:24:34] é uma coisa tão simples que a gente
[00:24:36] faz sem nem prestar muita atenção.
[00:24:38] Por exemplo, pensa de novo
[00:24:40] no caro coroa. Como que a gente
[00:24:42] verifica se a moeda está com a face
[00:24:44] cara ou com a face coroa
[00:24:46] virada pra cima? Bom,
[00:24:48] a gente simplesmente olha pra ela.
[00:24:50] Ou seja, nesse caso,
[00:24:52] a medição é olhar qual
[00:24:54] face da moeda que está virada pra cima.
[00:24:56] Nada demais, né?
[00:24:58] Mas é importante notar que essa
[00:25:00] medição só é possível porque existe
[00:25:02] uma interação física com essa moeda.
[00:25:04] De novo, é aquela história
[00:25:06] que já apareceu aqui no podcast algumas
[00:25:08] vezes. A gente só enxerga
[00:25:10] algo quando existem fótons,
[00:25:12] ou seja, luz, que são
[00:25:14] refletidos por esse algo e depois
[00:25:16] capturados pelos nossos olhos.
[00:25:18] Então, nesse caso do caro coroa,
[00:25:20] é necessário que haja essa interação
[00:25:22] por meio de fótons
[00:25:24] pra que a gente possa enxergar a moeda
[00:25:26] e medir se ela está com cara ou com
[00:25:28] coroa virada pra cima. Só que a gente
[00:25:30] nem costuma prestar atenção nessas
[00:25:32] interações. Isso acontece
[00:25:34] principalmente porque esse tipo de medição
[00:25:36] na prática não
[00:25:38] influencia o resultado que eu obtenho.
[00:25:40] Ou seja, se eu olhar ou
[00:25:42] se eu não olhar pra moeda, isso não
[00:25:44] vai mudar qual face que está virada pra cima.
[00:25:46] Independente da minha
[00:25:48] medição, a face virada pra cima
[00:25:50] está bem definida. No nosso
[00:25:52] mundo clássico, a gente
[00:25:54] sempre pensa que os objetos,
[00:25:56] os sistemas físicos,
[00:25:58] eles têm grandezas,
[00:26:00] propriedades que são bem definidas
[00:26:02] e a medição, o ato
[00:26:04] de medir, é uma maneira
[00:26:06] que a gente encontrou pra
[00:26:08] revelar esse valor, que
[00:26:10] já estava lá bem definido
[00:26:12] pra aquele sistema. Ou seja,
[00:26:14] quando a gente faz medições nos objetos
[00:26:16] do nosso dia a dia, seja
[00:26:18] vendo o resultado de um caro coroa,
[00:26:20] ou medindo a velocidade de um carro,
[00:26:22] ou medindo a temperatura de um corpo,
[00:26:24] pra todas elas, a gente precisa
[00:26:26] interagir com o respectivo objeto
[00:26:28] que está sendo medido. Mas é uma interação
[00:26:30] desprezível, que não afeta em nada
[00:26:32] nem esse objeto, nem o resultado
[00:26:34] da medição. Então, essa noção
[00:26:36] é a noção de medição que a gente tem
[00:26:38] do nosso dia a dia, da física
[00:26:40] clássica, e é muito difícil a gente
[00:26:42] pensar que existe uma coisa que não seja
[00:26:44] isso, né? Só que quando a gente
[00:26:46] está medindo sistemas quânticos,
[00:26:48] a história é outra. Como a gente
[00:26:50] falou no episódio passado, as
[00:26:52] propriedades quânticas de um sistema
[00:26:54] são supersensíveis e instáveis,
[00:26:56] e até a interação com alguns
[00:26:58] fótons já causa alterações no sistema.
[00:27:00] Então, só pra
[00:27:02] fazer uma analogia, se a gente julgasse
[00:27:04] caro coroa como uma moeda
[00:27:06] quântica, apenas olhar
[00:27:08] qual foi o resultado obtido
[00:27:10] já poderia alterar o estado
[00:27:12] em que essa moeda estava. Isso também
[00:27:14] lembra a situação dos elétrons
[00:27:16] no experimento da fenda dupla, uns episódios
[00:27:18] atrás, em que só de olhar os
[00:27:20] elétrons, a gente já alterava o
[00:27:22] comportamento deles, né? É, bem
[00:27:24] lembrado. Além de muito instável,
[00:27:26] outra diferença do mundo quântico
[00:27:28] para o mundo clássico é que no
[00:27:30] quântico existem fenômenos tipo
[00:27:32] superposição. Então, imagina
[00:27:34] que antes de ser medida, essa moeda
[00:27:36] quântica estivesse isolada de
[00:27:38] tudo à sua volta e num estado
[00:27:40] de superposição de cara
[00:27:42] e coroa. Para medir essa
[00:27:44] moeda, a gente precisa interagir com ela
[00:27:46] de alguma forma, e essa interação
[00:27:48] acaba com o isolamento.
[00:27:50] A partir daí, a
[00:27:52] entre aspas, seleção natural
[00:27:54] quântica, que a gente discutiu no episódio
[00:27:56] passado, acaba com a
[00:27:58] superposição e faz com que a moeda
[00:28:00] assuma um dos estados clássicos,
[00:28:02] apenas cara ou apenas coroa.
[00:28:04] Nossa, então agora
[00:28:06] tá embolando tudo, né? Estão
[00:28:08] aparecendo todas as discussões de todos
[00:28:10] os episódios. Calma,
[00:28:12] que agora a gente chegou num ponto central
[00:28:14] desse episódio. Quando a gente mede
[00:28:16] a moeda quântica e ela assume
[00:28:18] um desses estados, cara ou coroa,
[00:28:20] a própria teoria
[00:28:22] já descreve esse processo como algo
[00:28:24] aleatório, ou seja, como algo
[00:28:26] que não pode ser determinado com
[00:28:28] 100% de certeza. Então,
[00:28:30] isso é um contraste grande com a moeda
[00:28:32] clássica, essa do nosso dia a dia.
[00:28:34] No bloco passado, a gente
[00:28:36] tava falando que uma moeda normal
[00:28:38] só resulta em 50% cara
[00:28:40] e 50% coroa, porque a gente
[00:28:42] não conhece todos os detalhes
[00:28:44] dessa moeda e da maneira como ela foi
[00:28:46] arremessada, mas na quântica
[00:28:48] é diferente. Vocês tão falando
[00:28:50] toda hora de moeda quântica,
[00:28:52] mas o que que é isso? Não é uma
[00:28:54] moeda bem pequenininha, né?
[00:28:56] Ah, é só uma analogia. Assim
[00:28:58] como a moeda normal só tem duas
[00:29:00] faces, cara ou coroa,
[00:29:02] existem medições em sistemas quânticos
[00:29:04] que também só podem dar dois
[00:29:06] resultados, como medir a polarização
[00:29:08] do fóton, por exemplo, que só pode
[00:29:10] resultar em horizontal ou vertical.
[00:29:12] Então, medir a polarização
[00:29:14] do fóton é análogo
[00:29:16] a jogar um cara ou coroa com uma moeda
[00:29:18] quântica. A diferença
[00:29:20] é que, segundo a teoria quântica,
[00:29:22] mesmo quando a gente sabe tudo
[00:29:24] que se pode saber sobre esse fóton,
[00:29:26] o resultado desse cara ou coroa
[00:29:28] quântico continua sendo imprevisível.
[00:29:30] É como se o mundo
[00:29:32] quântico fosse um cassino à prova
[00:29:34] de qualquer trapaça, com tudo
[00:29:36] sendo decidido realmente
[00:29:38] na sorte.
[00:29:44] Nossa, mas que loucura!
[00:29:46] Pois é, a teoria quântica diz que
[00:29:48] em geral não há nenhuma maneira
[00:29:50] da gente saber de antemão qual
[00:29:52] vai ser o resultado de uma medição quântica.
[00:29:54] O melhor que a gente pode fazer
[00:29:56] é calcular a probabilidade de se
[00:29:58] obter cada resultado.
[00:30:00] Agora, não é difícil de imaginar
[00:30:02] que esse tipo de afirmação incomoda
[00:30:04] muita gente. Inclusive,
[00:30:06] esse é outro aspecto da quântica que
[00:30:08] nos força a sair da nossa zona de conforto.
[00:30:10] Nós, seres humanos,
[00:30:12] estamos acostumados a procurar padrões
[00:30:14] em tudo, e a gente lida muito mal
[00:30:16] com o aleatório, como já mostrou aquele
[00:30:18] experimento das lâmpadas vermelha e branca
[00:30:20] que a gente contou lá na abertura do episódio.
[00:30:22] Então, quando você escuta que a teoria
[00:30:24] quântica é intrinsecamente
[00:30:26] aleatória, talvez você duvide
[00:30:28] disso. Talvez você pense
[00:30:30] Ok, então a teoria
[00:30:32] não consegue prever quais vão ser os
[00:30:34] resultados, mas isso não quer dizer
[00:30:36] que eles são de fato imprevisíveis,
[00:30:38] certo? Eventualmente,
[00:30:40] a ciência vai avançar e entender melhor
[00:30:42] isso. Essa desconfiança
[00:30:44] é bastante natural e dominou grande
[00:30:46] parte das discussões filosóficas
[00:30:48] sobre a teoria na primeira metade do
[00:30:50] século XX, que foram protagonizadas
[00:30:52] por cientistas como Max Born,
[00:30:54] Wolfgang Pauli, Werner Heisenberg
[00:30:56] e Erwin Schrödinger,
[00:30:58] entre outros. E também teve
[00:31:00] contribuições importantes de
[00:31:02] figuras como a matemática e filósofa
[00:31:04] alemã Grete Herrmann, cujo
[00:31:06] trabalho infelizmente não ganhou a devida
[00:31:08] visibilidade na história da ciência.
[00:31:10] Bom, mas no cerne dessa
[00:31:12] discussão, a gente tem também os
[00:31:14] famosos debates entre o Einstein e o Bohr.
[00:31:16] Como a gente já contou aqui,
[00:31:18] Einstein é um dos grandes críticos
[00:31:20] da teoria quântica, e foi pensando
[00:31:22] nesse caráter probabilístico da teoria
[00:31:24] que ele soltou outra das suas famosas
[00:31:26] frases.
[00:31:28] O que o Einstein
[00:31:30] quis dizer é que,
[00:31:32] apesar da teoria quântica ser correta,
[00:31:34] talvez esse caráter
[00:31:36] probabilístico indique que a teoria
[00:31:38] seja incompleta.
[00:31:40] Ou seja, que talvez existam
[00:31:42] outros elementos, outros fatores
[00:31:44] que a gente ainda não conhece,
[00:31:46] mas que influenciam nas medições quânticas,
[00:31:48] fazendo aparecer esse caráter
[00:31:50] probabilístico.
[00:31:52] Em 1935, foi publicado
[00:31:54] um artigo científico sobre esse tema
[00:31:56] que ficou conhecido como EPR,
[00:31:58] devido às iniciais dos seus três autores,
[00:32:00] Einstein, Podolski
[00:32:02] e Rosen. Nesse artigo,
[00:32:04] eles elaboram um argumento para
[00:32:06] demonstrar que a teoria quântica era incompleta,
[00:32:08] e que, portanto,
[00:32:10] a sua aleatoriedade seria apenas aparente.
[00:32:12] Mais tarde,
[00:32:14] ficou claro que as hipóteses assumidas
[00:32:16] no artigo do EPR
[00:32:18] não eram tão óbvias assim.
[00:32:20] Isso não muda o fato de que ele teve
[00:32:22] um impacto científico muito grande
[00:32:24] e, inclusive, marcou o início de uma nova
[00:32:26] área de pesquisa.
[00:32:28] Seguindo a linha de raciocínio dos seus autores,
[00:32:30] se a teoria quântica era incompleta,
[00:32:32] o que a gente devia tentar fazer
[00:32:34] é completar a teoria.
[00:32:36] Aqui, a Bárbara Amaral novamente.
[00:32:38] Então, a gente pode
[00:32:40] tentar pensar
[00:32:42] em completar
[00:32:44] a física quântica
[00:32:46] pensando que existem parâmetros
[00:32:48] adicionais, além
[00:32:50] dos que a gente já conhece,
[00:32:52] que permitiriam a gente eliminar
[00:32:54] essas probabilidades da conversa.
[00:32:56] Assim, a gente
[00:32:58] poderia tentar construir uma teoria
[00:33:00] que desse conta de responder tudo
[00:33:02] deterministicamente,
[00:33:04] que fosse uma versão melhorada da nossa teoria
[00:33:06] atual, tipo uma teoria
[00:33:08] quântica 2.0.
[00:33:10] Esses parâmetros adicionais que
[00:33:12] completariam a teoria podem ser
[00:33:14] chamados de um completamento.
[00:33:16] Mas como obter esse completamento?
[00:33:18] E um ponto chave que aparece
[00:33:20] nessas discussões é o termo
[00:33:22] local.
[00:33:24] Para entender o que algo ser local significa,
[00:33:26] vamos voltar para o Karo Koroa
[00:33:28] com a moeda clássica normal.
[00:33:30] Para que seja possível determinar
[00:33:32] o resultado do Karo Koroa,
[00:33:34] a gente precisa saber apenas
[00:33:40] as propriedades da moeda
[00:33:42] e a força aplicada nela.
[00:33:44] Eu não preciso saber o que está acontecendo
[00:33:46] do outro lado do planeta,
[00:33:48] ou em outros pontos muito distantes, por exemplo.
[00:33:50] Por causa disso,
[00:33:52] a gente pode chamar esse Karo Koroa
[00:33:54] clássico de um fenômeno local,
[00:33:56] porque basta conhecer o sistema
[00:33:58] físico que a gente está medindo,
[00:34:00] que é a moeda, e o que acontece
[00:34:02] no entorno desse sistema para que tudo
[00:34:04] fique determinado.
[00:34:06] Mas essa é uma moeda clássica.
[00:34:08] A próxima pergunta agora é
[00:34:10] será que a gente pode assumir que sistemas
[00:34:12] quânticos também se comportam de maneira local?
[00:34:14] Ou seja,
[00:34:16] tem sentido assumir que tudo
[00:34:18] que afeta a medição em um elétron
[00:34:20] está ali, pertinho desse elétron?
[00:34:22] Só que aí, essa suposição,
[00:34:24] junto com outras suposições
[00:34:26] que são completamente naturais,
[00:34:28] eles acabam fazendo previsões
[00:34:30] que não são consistentes
[00:34:32] com o que a gente vê no laboratório
[00:34:34] quando a gente faz medições
[00:34:36] em sistemas quânticos.
[00:34:38] Ou seja, o que a gente vê no laboratório
[00:34:40] é que a tentativa de completar
[00:34:42] a teoria quântica, assumindo que os sistemas
[00:34:44] dependem apenas do que acontece
[00:34:46] próximo a eles, junto com outras
[00:34:48] suposições muito naturais, como a Bárbara
[00:34:50] falou, essa tentativa
[00:34:52] falha.
[00:34:54] Então, a gente chega a outra
[00:34:56] característica peculiar da teoria
[00:34:58] quântica, a não-localidade,
[00:35:00] que, de maneira
[00:35:02] simplificada, diz que os resultados
[00:35:04] de uma medição não podem
[00:35:06] ser predeterminados por
[00:35:08] nenhuma variável que poderia ter
[00:35:10] influenciado o sistema.
[00:35:12] Se a gente quer reproduzir
[00:35:14] o que a gente observa
[00:35:16] no laboratório com sistemas
[00:35:18] quânticos usando essa intuição
[00:35:20] clássica, a gente chega numa contradição.
[00:35:22] E como a gente sabe que os experimentos
[00:35:24] são muito bem feitos e estão corretos,
[00:35:26] a gente tem
[00:35:28] que concluir que a gente não pode
[00:35:30] explicar esses experimentos
[00:35:32] com a intuição clássica.
[00:35:34] São experimentos desse tipo
[00:35:36] que aparecem na pesquisa dos físicos
[00:35:38] Alain Aspé, John Clauser
[00:35:40] e Anton Zeilinger, que ganharam o prêmio
[00:35:42] Nobel de Física recentemente.
[00:35:44] Eles lideraram
[00:35:46] vários experimentos nas décadas
[00:35:48] de 70, 80 e 90
[00:35:50] explorando fótons com
[00:35:52] outra das propriedades contraintuitivas
[00:35:54] da quântica, que é o
[00:35:56] emaranhamento, que a gente vai falar
[00:35:58] mais no próximo bloco.
[00:36:00] E uma das consequências desses experimentos
[00:36:02] foi obter evidências robustas
[00:36:04] de que não é possível completar
[00:36:06] a teoria quântica, pelo menos
[00:36:08] quando a gente assume hipóteses muito naturais.
[00:36:10] É verdade
[00:36:12] que essas evidências não excluem
[00:36:14] inteiramente outras formas
[00:36:16] contraintuitivas de completar a teoria
[00:36:18] quântica e torná-la determinística.
[00:36:20] Mas mostra que, para que
[00:36:22] haja chance disso acontecer,
[00:36:24] seria preciso, por exemplo, levar em conta
[00:36:26] informações possivelmente muito
[00:36:28] distantes do sistema quântico que a gente
[00:36:30] está medindo. Ou seja,
[00:36:32] para que haja alguma chance da teoria
[00:36:34] quântica parecer determinística para
[00:36:36] você, você teria que ser uma espécie
[00:36:38] de demônio de Laplace, que sabe
[00:36:40] tudo sobre todos os pontos do universo.
[00:36:44] .
[00:36:54] Bom, então esses experimentos
[00:36:56] dos ganhadores do prêmio Nobel que vocês
[00:36:58] comentaram, eles basicamente
[00:37:00] mostram que, para todos os efeitos,
[00:37:02] os sistemas quânticos têm mesmo
[00:37:04] um comportamento inerentemente
[00:37:06] aleatório. Mas então,
[00:37:08] essa aleatoriedade quântica,
[00:37:10] ela tem alguma aplicação prática?
[00:37:12] Sim. Essa aleatoriedade
[00:37:14] é, por exemplo, um dos pilares
[00:37:16] da criptografia quântica,
[00:37:18] que é a área onde eu faço pesquisa.
[00:37:20] Eu sei que criptografia tem
[00:37:22] a ver com trocar mensagens de forma
[00:37:24] segura. Tipo, tem criptografia
[00:37:26] no internet banking e também
[00:37:28] nas mensagens do WhatsApp, né?
[00:37:30] Pois é. A criptografia
[00:37:32] estuda técnicas para que a gente possa
[00:37:34] se comunicar de maneira segura,
[00:37:36] trocando mensagens de forma
[00:37:38] que elas não possam ser lidas por
[00:37:40] terceiros. Então, a ideia
[00:37:42] da criptografia é usar uma
[00:37:44] cifra, que nada mais é do que
[00:37:46] uma regra para encriptar,
[00:37:48] ou seja, para modificar a mensagem
[00:37:50] de forma que ela fique ininteligível.
[00:37:52] E aí, só uma
[00:37:54] pessoa que também conhece os detalhes
[00:37:56] da cifra pode decifrar
[00:37:58] essa mensagem. Tem várias cifras
[00:38:00] famosas que foram utilizadas ao longo da
[00:38:02] história, como a cifra de César,
[00:38:04] que foi utilizada por Júlio César lá
[00:38:06] no século I a.C.,
[00:38:08] em que a ideia era simplesmente
[00:38:10] transladar a posição das letras
[00:38:12] no alfabeto. Por exemplo,
[00:38:14] se eu escolho fazer uma translação de duas
[00:38:16] posições, então
[00:38:18] o A vira C, o B vira
[00:38:20] D, o C vira E,
[00:38:22] e assim por diante. Outro
[00:38:24] exemplo bem mais sofisticado é
[00:38:26] a máquina Enigma, que foi usada pelo
[00:38:28] exército alemão na Segunda Guerra Mundial
[00:38:30] e que envolve um algoritmo bem
[00:38:32] mais complicado e dinâmico para encriptar
[00:38:34] a mensagem. E talvez,
[00:38:36] quando você era criança, você já
[00:38:38] tenha usado uma cifra famosa no
[00:38:40] Brasil, que é a língua do P.
[00:38:42] Conhece, Lu?
[00:38:44] A língua do P.
[00:38:46] Tá, mas até agora eu não consigo
[00:38:48] imaginar como é que a Quântica ajuda aqui.
[00:38:50] Bom, o problema
[00:38:52] é que todas essas cifras,
[00:38:54] apesar de algumas inclusive serem
[00:38:56] muito engenhosas, como as que a gente
[00:38:58] usa atualmente para encriptar nossos
[00:39:00] e-mails, internet banking, etc.,
[00:39:02] em princípio,
[00:39:04] elas são quebráveis. E ser
[00:39:06] quebrável significa que se a gente
[00:39:08] usa uma certa cifra para encriptar
[00:39:10] várias mensagens, uma hora
[00:39:12] alguém pode conseguir decifrar
[00:39:14] o segredo da nossa cifra.
[00:39:16] Inclusive, tem um livro muito legal,
[00:39:18] o livro dos códigos, do autor
[00:39:20] Simon Singh, que conta bem
[00:39:22] a luta travada entre os criptógrafos
[00:39:24] e os hackers ao longo da história.
[00:39:26] Pensa na língua do P. Se tiver
[00:39:28] um adulto bem atento, talvez
[00:39:30] depois de um tempo escutando, ele já
[00:39:32] consiga entender qual que é a regrinha
[00:39:34] usada para bagunçar a mensagem.
[00:39:36] E a partir daí, ele consegue
[00:39:38] entender tudo que as crianças estão falando.
[00:39:40] Então, uma maneira de
[00:39:42] ter uma criptografia inquebrada
[00:39:44] é eu modificar a regra da minha
[00:39:46] cifra toda hora que eu for mandar
[00:39:48] uma mensagem nova.
[00:39:50] Como assim modificar a regra da cifra?
[00:39:52] Bom, a gente pode usar
[00:39:54] a cifra de César como exemplo.
[00:39:56] Em princípio, eu posso pensar
[00:39:58] na cifra de César da seguinte forma.
[00:40:00] Eu escolho um número entre
[00:40:02] 1 e 26, que é o número de
[00:40:04] letras do alfabeto, e esse número
[00:40:06] vai me dizer de quantas posições
[00:40:08] eu preciso transladar o
[00:40:10] alfabeto para encriptar a mensagem.
[00:40:12] Mas a ideia agora é
[00:40:14] para cada letra da minha
[00:40:16] mensagem, eu vou sortear um número
[00:40:18] diferente para definir a
[00:40:20] translação dessa letra.
[00:40:22] Deixa eu ver se eu entendi. Então,
[00:40:24] se eu quiser encriptar a palavra
[00:40:26] Oi, eu preciso sortear
[00:40:28] dois números. Aí, por exemplo,
[00:40:30] se eu sorteei 3 e 1,
[00:40:32] então o O
[00:40:34] se move 3 posições
[00:40:36] e vira R, e o I
[00:40:38] translada 1 posição e
[00:40:40] vira J. Daí a palavra
[00:40:42] Oi, encriptada, vira
[00:40:44] RJ. É isso?
[00:40:46] Exato. E agora,
[00:40:48] como cada letra foi encriptada
[00:40:50] usando um número que foi escolhido
[00:40:52] aleatoriamente, não tem uma regra
[00:40:54] geral para ser descoberta.
[00:40:56] Então, se você me mandar essa
[00:40:58] mensagem encriptada, a única
[00:41:00] maneira de eu conseguir ler
[00:41:02] é se eu souber quais são os números
[00:41:04] que você usou para encriptar ela.
[00:41:06] E se esses números são aleatórios
[00:41:08] mesmo, não tem como eu
[00:41:10] e nem ninguém descobrir eles
[00:41:12] a não ser que você me conte.
[00:41:14] Tá. Acho que agora eu estou vendo
[00:41:16] onde que a aleatoriedade quântica
[00:41:18] está entrando aqui. Pois é.
[00:41:20] Se você usar a aleatoriedade
[00:41:22] que vem das medições em sistemas quânticos,
[00:41:24] que é uma aleatoriedade intrínseca
[00:41:26] e não apenas aparente,
[00:41:28] para escolher os números que você usa
[00:41:30] na sua cifra, a sua mensagem
[00:41:32] está totalmente segura. Só que
[00:41:34] tem um porém. Como a Glócia falou,
[00:41:36] para que a outra pessoa possa decodificar
[00:41:38] a sua mensagem, você precisa
[00:41:40] encontrar algum jeito de enviar
[00:41:42] esses números aleatórios para ela.
[00:41:44] Em criptografia, a gente chama
[00:41:46] esses números aleatórios que você usa
[00:41:48] na sua cifra de chave
[00:41:50] secreta. Então, isso
[00:41:52] que o Leo descreveu se chama
[00:41:54] distribuição de chave secreta,
[00:41:56] que é um problema central na criptografia,
[00:41:58] já que basicamente
[00:42:00] as pessoas teriam que se encontrar
[00:42:02] para trocar essas chaves.
[00:42:04] Se encontrar, tipo, presencialmente?
[00:42:06] Sério?
[00:42:08] Em princípio, sim. Inclusive
[00:42:10] esse evento, que é chamado de
[00:42:12] cerimônia de chaves, ainda
[00:42:14] é usado hoje em dia quando se trata
[00:42:16] de encriptar informações muito sensíveis,
[00:42:18] como a comunicação entre bancos
[00:42:20] e empresas de cartão de crédito, por exemplo.
[00:42:22] Então a quântica,
[00:42:24] além de fornecer a aleatoriedade necessária,
[00:42:26] resolve ao mesmo tempo
[00:42:28] o problema da distribuição dessas chaves
[00:42:30] secretas. A ideia
[00:42:32] é usar medições em sistemas quânticos
[00:42:34] para gerar essa chave secreta à distância
[00:42:36] mesmo, sem que as partes precisem
[00:42:38] se encontrar. Mas para isso,
[00:42:40] a gente precisa de um ingrediente essencial,
[00:42:42] o emaranhamento.
[00:42:44] Que é uma daquelas propriedades
[00:42:46] estranhas da quântica que apareceu
[00:42:48] no bloco 2, quando a gente falou
[00:42:50] dos experimentos que levaram ao prêmio Nobel
[00:42:52] de 2022.
[00:42:54] A gente não vai entrar a fundo nesse fenômeno,
[00:42:56] que tem várias sutilezas e
[00:42:58] consequências muito interessantes.
[00:43:00] Mas para tentar dar uma ideia,
[00:43:02] vamos voltar para o exemplo das moedas.
[00:43:04] Imagina que eu parti uma moeda ao meio,
[00:43:06] no sentido longitudinal,
[00:43:08] de modo que cada metade fique
[00:43:10] com uma face dela.
[00:43:12] Coloquei cada uma dessas metades em um envelope
[00:43:14] e entreguei um desses envelopes
[00:43:16] para você, Lu, e um envelope
[00:43:18] para a Glaucia. Quando você abrir
[00:43:20] seu envelope e ver que você ficou com o lado
[00:43:22] cara, o que vai estar no envelope
[00:43:24] da Glaucia?
[00:43:26] Se eu fiquei com cara, a Glaucia
[00:43:28] tem que ter ficado com coroa.
[00:43:30] Exato. Então,
[00:43:32] esse é um exemplo de correlação.
[00:43:34] As metades de moeda que vocês receberam
[00:43:36] não são metades quaisquer.
[00:43:38] Elas não são independentes uma da outra.
[00:43:40] Então, nesse caso, a gente disse
[00:43:42] que elas estão correlacionadas.
[00:43:44] Como a gente está falando de duas faces
[00:43:46] da mesma moeda, a face que você
[00:43:48] recebe e a face que a Glaucia
[00:43:50] recebe tem que ser opostas.
[00:43:52] Então, quando você olha
[00:43:54] dentro do seu envelope, você deduz
[00:43:56] também o que tem no envelope da Glaucia.
[00:43:58] Mas até aqui,
[00:44:00] é só uma correlação clássica
[00:44:02] mesmo. Agora,
[00:44:04] se a gente usa um sistema quântico
[00:44:06] para fazer o papel dessa moeda,
[00:44:08] se em vez de falar em duas metades
[00:44:10] de uma moeda, a gente fala de dois
[00:44:12] fótons, por exemplo, a gente tem
[00:44:14] essas propriedades estranhas
[00:44:16] da quântica à nossa disposição.
[00:44:18] Em particular, a gente pode usar
[00:44:20] um par de fótons emaranhados.
[00:44:22] O emaranhamento,
[00:44:24] de forma bem simplificada,
[00:44:26] é uma superposição de correlações.
[00:44:28] Falando em termos de uma moeda,
[00:44:30] é como se cada uma de vocês
[00:44:32] recebesse novamente uma metade
[00:44:34] da moeda, só que não é nem a metade
[00:44:36] cara, nem a metade coroa.
[00:44:38] Porque o que a gente tem agora
[00:44:40] é uma superposição do caso
[00:44:42] em que a Lu recebe cara
[00:44:44] e a Glaucia recebe coroa, e do caso
[00:44:46] oposto, em que a Lu recebe coroa
[00:44:48] e a Glaucia recebe cara.
[00:44:50] Nossa, tá difícil. Não tô
[00:44:52] conseguindo visualizar isso.
[00:44:54] É, é difícil de visualizar.
[00:44:56] Mas, colocando em outras palavras,
[00:44:58] é como se cada uma de vocês
[00:45:00] tivesse uma metade de moeda
[00:45:02] em superposição de cara ou coroa,
[00:45:04] mas de maneira correlacionada.
[00:45:06] Sempre que você medir ou
[00:45:08] observar a sua metade,
[00:45:10] e obtiver cara, a Glaucia
[00:45:12] vai obter coroa na metade dela.
[00:45:14] E sempre que você medir e encontrar
[00:45:16] coroa, a Glaucia vai encontrar cara
[00:45:18] na dela. Essa definição
[00:45:20] de emaranhamento como uma
[00:45:22] superposição de correlações
[00:45:24] não deixa claras todas as nuances
[00:45:26] e consequências impressionantes
[00:45:28] que esse fenômeno gera.
[00:45:30] Mas isso já mostra pra gente que
[00:45:32] o emaranhamento das moedas garante
[00:45:34] que no momento em que a gente abrir
[00:45:36] nossos envelopes, que é o análogo
[00:45:38] de fazer a medição no sistema,
[00:45:40] tem 50% de chance
[00:45:42] da Lu ter cara e eu ter coroa,
[00:45:44] e 50% de chance
[00:45:46] da Lu ter coroa e eu ter cara.
[00:45:48] Então, se a Glaucia
[00:45:50] e a Lu estiverem distantes uma da outra
[00:45:52] e quiserem escolher entre zero
[00:45:54] ou um de maneira aleatória,
[00:45:56] elas podem usar dois fótons
[00:45:58] emaranhados pra funcionar como as duas
[00:46:00] metades da moeda. Então, elas
[00:46:02] podem combinar, por exemplo,
[00:46:04] que o resultado vai ser zero se a Glaucia
[00:46:06] tirar cara e um se a Glaucia
[00:46:08] tirar coroa. A Glaucia só precisa
[00:46:10] medir a sua metade da moeda,
[00:46:12] o seu fóton, e a Lu
[00:46:14] sempre vai saber qual é o
[00:46:16] resultado da Glaucia, porque
[00:46:18] vai ser exatamente o oposto do resultado
[00:46:20] do fóton dela. E lembrando
[00:46:22] que o fóton é um pacotinho de luz.
[00:46:24] Então, quando o Leo fala de
[00:46:26] enviar fótons emaranhados pra
[00:46:28] dois pontos distantes, aqui
[00:46:30] a gente pode pensar simplesmente
[00:46:32] em enviar um sinal de luz mesmo.
[00:46:34] Por exemplo, através de uma fibra
[00:46:36] ótica. O grande desafio
[00:46:38] é como manipular esse sinal
[00:46:40] pra que ele tenha as propriedades
[00:46:42] que a gente precisa e encontrar
[00:46:44] maneiras de lutar contra a decoerência
[00:46:46] pra que o sinal chegue ao seu destino
[00:46:48] sem perder as propriedades quânticas.
[00:46:50] Então, resumindo,
[00:46:52] a teoria quântica, através
[00:46:54] do emaranhamento, dá pra
[00:46:56] gente os dois ingredientes essenciais
[00:46:58] pra criptografia.
[00:47:00] A aleatoriedade pra fazer com que
[00:47:02] ninguém tenha informações sobre a chave
[00:47:04] secreta e
[00:47:06] a correlação pra fazer
[00:47:08] com que duas pessoas distantes uma da outra
[00:47:10] obtenham a mesma chave.
[00:47:12] Que legal, mas em que pé que tá
[00:47:14] isso? Essa ideia de
[00:47:16] criptografia quântica tá só na teoria
[00:47:18] ainda ou já tem serviços
[00:47:20] e produtos disponíveis hoje em dia?
[00:47:22] A criptografia quântica, ou
[00:47:24] mais especificamente a distribuição
[00:47:26] quântica de chave secreta,
[00:47:28] é uma das tecnologias quânticas
[00:47:30] mais maduras que a gente tem no momento.
[00:47:32] Tem várias startups
[00:47:34] que oferecem produtos que vão desde
[00:47:36] componentes até sistemas completos
[00:47:38] de criptografia, como por exemplo
[00:47:40] a startup suíça ID Quantique
[00:47:42] que já tá no mercado há mais de 20
[00:47:44] anos. E nas últimas duas
[00:47:46] décadas, várias redes de criptografia
[00:47:48] quântica, abrangendo pequenas
[00:47:50] distâncias, foram implementadas
[00:47:52] em diferentes lugares do mundo.
[00:47:54] E tem também algumas iniciativas
[00:47:56] surgindo no Brasil, como o projeto
[00:47:58] Rede Rio Quântica. Um ponto interessante
[00:48:00] é que essas redes quânticas
[00:48:02] vão fazer uso das infraestruturas
[00:48:04] de comunicação já existentes, como
[00:48:06] fibras óticas e satélites.
[00:48:08] Pois é, a gente tem comunicação
[00:48:10] quântica sendo implementada até
[00:48:12] usando satélite, o que permite
[00:48:14] cobrir distâncias bem maiores.
[00:48:16] E a China é a grande liderança
[00:48:18] dessa tecnologia. Ou seja,
[00:48:20] já tem tempo que essa tecnologia
[00:48:22] saiu do papel, e isso
[00:48:24] só foi possível pelos avanços
[00:48:26] do nosso entendimento sobre a teoria quântica.
[00:48:38] Ok, depois de todo esse
[00:48:42] papo de probabilidades,
[00:48:44] embaralhamento, emaranhamento e
[00:48:46] criptografia quântica, o meu
[00:48:48] papel aqui no podcast é perguntar
[00:48:50] por que a gente trouxe essas
[00:48:52] discussões e o que elas têm a ver
[00:48:54] com pseudociência?
[00:48:56] Então, a gente decidiu dedicar
[00:48:58] um episódio inteiro para falar da natureza
[00:49:00] probabilística da teoria quântica,
[00:49:02] justamente porque é muito difícil
[00:49:04] para o ser humano aceitar
[00:49:06] que algo seja essencialmente probabilístico.
[00:49:08] Fica parecendo apenas
[00:49:10] que a gente não entende direito esses
[00:49:12] fenômenos e que a teoria precisa
[00:49:14] de algum complemento. E quando a
[00:49:16] pseudociência se depara com essa situação,
[00:49:18] ela tem uma saída simples.
[00:49:20] Para a pseudociência,
[00:49:22] o que está faltando na teoria quântica,
[00:49:24] a peça que se encaixa perfeitamente
[00:49:26] e que os cientistas são preconceituosos
[00:49:28] demais para admitir,
[00:49:30] é a consciência humana.
[00:49:38] Quando nós aceitamos isso,
[00:49:40] então a questão imediatamente aparece
[00:49:42] quem ou o que escolhe entre essas
[00:49:44] possibilidades de trazer o evento
[00:49:46] real de experiência.
[00:49:48] Então, nós diretamente,
[00:49:50] imediatamente, vemos que a consciência
[00:49:52] deve estar envolvida.
[00:49:54] Essas falas foram retiradas
[00:49:56] do filme Quem Somos Nós?
[00:49:58] de 2004.
[00:50:00] A gente já comentou em episódios passados
[00:50:02] que esse filme ilustra bem
[00:50:04] o quanto as ideias da teoria quântica
[00:50:06] são entorpadas e transportadas
[00:50:08] para outro contexto.
[00:50:10] E os conceitos que a gente trouxe aqui
[00:50:12] nesse episódio, como probabilidade
[00:50:14] e a possível incompletude da teoria,
[00:50:16] também são frequentemente explorados
[00:50:18] pela pseudociência.
[00:50:20] Todas essas coisas não são nada além
[00:50:22] de possíveis movimentos de consciência.
[00:50:24] E estou escolhendo
[00:50:26] momento a momento
[00:50:28] dentre esses movimentos
[00:50:30] para trazer minha verdadeira experiência
[00:50:32] à manifestação.
[00:50:34] Dá para notar que essas falas
[00:50:36] não soam com os pontos
[00:50:38] que a gente discutiu aqui no episódio.
[00:50:40] Não é como se elas fossem inventadas do nada.
[00:50:42] Então, será que no fundo
[00:50:44] elas não podem fazer algum sentido?
[00:50:46] Afinal de contas,
[00:50:48] qual é a relação entre teoria quântica
[00:50:50] como a conhecemos hoje
[00:50:52] e a consciência humana?
[00:50:54] Esse é o tema do nosso próximo
[00:50:56] e último episódio.
[00:51:06] No nosso site,
[00:51:08] você encontra os artigos sobre
[00:51:10] aprendizado de probabilidades por animais,
[00:51:12] artigos matemáticos do Percy
[00:51:14] Diaconis, um vídeo dele
[00:51:16] falando sobre embaralhamento de cartas
[00:51:18] e o artigo seminal do Trio EPR
[00:51:20] que discute a completude
[00:51:22] da teoria quântica.
[00:51:24] Nesse episódio, você escutou trechos
[00:51:26] das nossas entrevistas com a Gabriela Barreto Lemos
[00:51:28] e com a Bárbara Amaral.
[00:51:30] Nós também usamos trechos dos canais de Youtube
[00:51:32] Thiago Benevides,
[00:51:34] Numberphile e do filme
[00:51:36] Quem Somos Nós, de 2004.
[00:51:38] Se você gostou do episódio,
[00:51:40] você pode ajudar a gente recomendando
[00:51:42] o podcast para aquele amigo ou amiga
[00:51:44] que se interessa pelo tema.
[00:51:46] Siga também o Q Quântico
[00:51:48] no Instagram,
[00:51:50] e não deixe de avaliar o podcast
[00:51:52] na sua plataforma de podcast favorita.
[00:51:54] O Q Quântico
[00:51:56] é apresentado por mim, Luciane Troilbe,
[00:51:58] pela Glaucia Murta
[00:52:00] e pelo Leonardo Guerini.
[00:52:02] Além de nós três, a Samara Vobeto
[00:52:04] e o Vitor Zuccolo completam
[00:52:06] o time de produtores do podcast.
[00:52:08] O roteiro do episódio
[00:52:10] é do Leonardo Guerini e da Glaucia Murta,
[00:52:12] com contribuições minhas
[00:52:14] e da Samara Vobeto.
[00:52:16] A idealização do projeto é do Leonardo Guerini
[00:52:18] e da Glaucia Murta.
[00:52:20] A consultoria de roteiro é feita
[00:52:22] pela equipe do podcast Ciência Suja.
[00:52:24] A edição de som
[00:52:26] é do Leonardo Guerini,
[00:52:28] a mixagem é do Felipe Barbosa,
[00:52:30] o suporte de gravação
[00:52:32] é do Pablo Juan,
[00:52:34] o final é do Pedro Leo Davi
[00:52:36] e a identidade visual e as ilustrações
[00:52:38] de capa são do Augusto Zambonato.
[00:52:40] Quem cuida das nossas mídias sociais
[00:52:42] é a Milene Eichelberger
[00:52:44] e o nosso site foi desenvolvido
[00:52:46] pelo Daniel Carlin.
[00:52:48] O Q Quântico é produzido dentro
[00:52:50] das universidades públicas.
[00:52:52] A gente contou com o apoio de diversos
[00:52:54] funcionários das nossas instituições
[00:52:56] que contribuíram para que o podcast
[00:52:58] chegasse ao seu formato final.
[00:53:00] Nós agradecemos o apoio financeiro
[00:53:02] do Conselho Nacional de Desenvolvimento
[00:53:04] Científico e Tecnológico, o CNPq,
[00:53:06] e do Cluster de Excelência
[00:53:08] Matter and Light for Quantum Computing
[00:53:10] da Alemanha.
[00:53:12] E o suporte e a infraestrutura
[00:53:14] da Heinrich Heine University Düsseldorf
[00:53:16] e das rádios da Universidade Federal
[00:53:18] de Santa Maria.
[00:53:20] Obrigada pela audiência e até o próximo episódio.
[00:53:32] Tchau!