7 - Com ciência quântica


Resumo

Este episódio de encerramento da temporada investiga as origens da associação entre teoria quântica e consciência, tão comum em conteúdos pseudocientíficos. Os apresentadores exploram como conceitos como “salto quântico”, “função de onda” e “colapso” são deturpados para sugerir que o pensamento humano pode influenciar a realidade.

No primeiro bloco, são analisados os possíveis motivos para essa associação, mostrando como a fama da física quântica como algo “contraintuitivo e esquisito” a tornou um arquétipo para coisas mal compreendidas. São examinados exemplos de obras como “A Cura Quântica” de Deepak Chopra e filmes como “Quem Somos Nós”, que propagam a ideia de que a consciência causa o colapso da função de onda.

O segundo bloco discute experimentos que tentaram investigar cientificamente essas conexões, como os trabalhos de Robert Young e Brenda Doom na Universidade de Princeton, e os experimentos de Dean Radin sobre influência mental em fótons. É detalhada a história do físico brasileiro Gabriel Guerrer, que tentou reproduzir esses experimentos através de crowdfunding, mas cujos resultados não mostraram evidências da influência da mente.

No terceiro bloco, os apresentadores organizam as conclusões da temporada em três categorias de argumentos pseudocientíficos: conceitos deturpados (interpretações literais erradas), reducionismo deturpado (extrapolação indevida de fenômenos quânticos para escala macroscópica) e consciência deturpada (especulações sobre consciência como elemento fundamental). A temporada é encerrada destacando que, embora existam questões em aberto na teoria quântica, isso não justifica atribuir-lhe propriedades místicas sem evidências.


Indicações

Filmes

  • Quem Somos Nós — Documentário citado como exemplo de divulgação de informações falsas sobre fenômenos quânticos, como a afirmação de que objetos macroscópicos podem estar em dois lugares simultaneamente.
  • O Segredo — Filme que promove a ideia do pensamento positivo criando a realidade, frequentemente associado a argumentos pseudocientíficos quânticos.

Livros

  • A Cura Quântica — Livro de Deepak Chopra frequentemente citado como exemplo de misticismo quântico, que associa conceitos quânticos a ideias sobre saúde e consciência.
  • A Física da Alma — Obra de Amit Goswami que faz conexões entre física quântica e espiritualidade, mencionada como parte do corpus do misticismo quântico.

Pessoas

  • Deepak Chopra — Médico e autor de livros como ‘A Cura Quântica’, citado como exemplo de profissional que usa sua formação para dar credibilidade a especulações místicas sobre quântica.
  • Amit Goswami — Físico e autor de ‘A Física da Alma’, mencionado como exemplo de acadêmico que promove conexões entre quântica e espiritualidade.
  • Oswaldo Pessoa Jr. — Professor do Departamento de Filosofia da USP e estudioso do misticismo quântico, entrevistado que fornece análise crítica das ideias pseudocientíficas.
  • Gabriel Guerrer — Físico brasileiro que tentou reproduzir experimentos sobre influência da mente em fenômenos quânticos através de crowdfunding, cuja história é detalhadamente analisada.
  • Dean Radin — Parapsicólogo estadunidense cujos experimentos alegando influência mental sobre fótons no experimento da fenda dupla inspiraram a investigação de Gabriel Guerrer.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução: A quântica como arquétipo do contraintuitivo — O episódio começa discutindo como a física quântica se tornou o modelo daquilo que é esquisito e contraintuitivo. São apresentados exemplos de como a teoria mudou nossa compreensão da natureza, como a quantização da luz e órbitas eletrônicas, e a dualidade onda-partícula. A frase do professor Rafael Chaves estabelece que a teoria quântica ocupa essa posição de arquétipo do estranho.
  • 00:03:15O tema central: associação entre quântica e consciência — Os apresentadores anunciam que o episódio investigará de onde surgiu a associação entre teoria quântica e consciência, tão frequente em conteúdos pseudocientíficos. É esclarecido que atualmente não há conexão científica bem estabelecida entre esses campos. O episódio será dividido em três blocos: motivos da associação, experimentos que investigam conexões, e conclusões sobre a pseudociência quântica.
  • 00:04:32A ideia pseudocientífica número 1: pensamento constrói realidade — São apresentados exemplos de como a pseudociência associa quântica à ideia de que o pensamento constrói a realidade. Citações de vídeos e obras como “A Cura Quântica” e “O Segredo” ilustram essa narrativa. Os apresentadores questionam como essas ideias acabaram associadas à teoria quântica e prometem analisar exemplos de conexões entre narrativas pseudocientíficas e elementos da teoria discutidos ao longo do podcast.
  • 00:06:42Exemplo 1: O termo “salto quântico” deturpado — É analisado como o termo científico “salto quântico” (que descreve a transição brusca de um elétron entre órbitas) foi apropriado pela pseudociência como sinônimo de mudanças radicais na vida pessoal. Trechos do livro “A Cura Quântica” de Deepak Chopra mostram essa associação, sugerindo que a consciência promove “saltos quânticos” em mecanismos de cura, como na remissão espontânea de doenças.
  • 00:09:19Exemplo 2: Dualidade onda-partícula e controle da realidade — A dualidade onda-partícula é deturpada para sugerir que a intenção do observador decide se um fóton se comporta como onda ou partícula. Citações de vídeos pseudocientíficos afirmam que, controlando fótons, pode-se controlar qualquer aspecto da realidade. A professora Bárbara Maral é citada para esclarecer que os efeitos quânticos ocorrem independentemente da mentalização humana.
  • 00:11:01Exemplo 3: Probabilidades e a suposta lacuna da consciência — A natureza probabilística da teoria quântica é apresentada como terreno fértil para especulações pseudocientíficas. O misticismo quântico sugere que a consciência seria o elemento que falta para tornar a teoria determinística. São introduzidos os conceitos de função de onda e colapso, explicando como são deturpados para sugerir que a consciência causa e guia o colapso para resultados desejados.
  • 00:14:43A primeira tese do misticismo quântico: consciência causa colapso — O professor Oswaldo Pessoa Jr. identifica como “primeira tese do misticismo quântico” a ideia de que a consciência causa o colapso da função de onda. Ele descreve um raciocínio pseudocientífico completo: o cérebro seria quântico, as pessoas entrariam em emaranhamento quântico no ambiente de trabalho, e através do pensamento positivo provocariam um colapso que influenciaria positivamente a realidade ao seu redor.
  • 00:17:06Problemas conceituais: cérebro quântico e emaranhamento macroscópico — São analisados os graves problemas conceituais dessa narrativa. Primeiro, não há evidências de que o cérebro funcione quanticamente, pois o corpo é um ambiente hostil para fenômenos quânticos, que requerem isolamento, baixas temperaturas e vácuo. Segundo, mesmo que houvesse emaranhamento no cérebro, mantê-lo entre pessoas diferentes seria extremamente improvável devido à decoerência.
  • 00:18:48O golpe final: aleatoriedade quântica além do controle — O argumento decisivo contra a pseudociência: mesmo assumindo todos os pressupostos improváveis anteriores, querer definir o resultado das medições quânticas vai contra o que se conhece. Experimentos robustos mostram que os resultados quânticos são fundamentalmente aleatórios, além do nosso controle. Isso levanta a questão-chave: há evidência direta de que a mente não influencia esses resultados?
  • 00:20:02Bloco 2: Busca por evidências científicas — Início da discussão sobre experimentos que tentaram encontrar evidências da influência da mente sobre fenômenos quânticos. É destacada a importância da busca por evidências na ciência, mas também a complexidade desse processo, já que até ideias esdrúxulas podem contar com algum tipo de evidência fraca a seu favor, como ocorreu com a cloroquina para COVID-19.
  • 00:20:50Trabalhos de Robert Young e Brenda Doom em Princeton — São mencionados os trabalhos de Robert Young e Brenda Doom, pesquisadores da Universidade de Princeton, que no final dos anos 70 reportaram resultados indicando possível influência da mente no funcionamento de geradores de números aleatórios. Young era um físico prestigiado que trabalhou na NASA, o que deu credibilidade inicial a esses resultados, embora não se conheça nenhum mecanismo físico para tal efeito.
  • 00:22:10A história do físico brasileiro Gabriel Guerrer — É apresentada a história do físico brasileiro Gabriel Guerrer, doutor pela USP com pesquisa no CERN, que se interessou por supostas interações entre pensamento e fenômenos físicos após conhecer os trabalhos do parapsicólogo Dean Radin. Radin alegava que a mentalização poderia influenciar fótons no experimento da fenda dupla, até mesmo à distância via internet, com resultados mais expressivos em pessoas com treinamento em meditação.
  • 00:24:41Ceticismo inicial e problemas metodológicos — Os apresentadores expressam ceticismo sobre esses resultados, que vão contra tudo o que se sabe sobre teoria quântica. São destacados problemas metodológicos: a subjetividade do conceito de “intenção” ou “mentalização”, a dificuldade de formalizá-lo cientificamente, e o risco de justificativas como “não estava mentalizando direito” para resultados negativos, tornando a afirmação infalsificável.
  • 00:26:15Desafios para reproduzir experimentos controversos — São discutidos os desafios práticos de reproduzir experimentos controversos: o trabalho gigantesco envolvido, a falta de recompensa para resultados negativos na academia (dificuldade de publicação, perda de financiamento), e a questão do financiamento com verbas públicas para pesquisas com bases teóricas fracas. Os apresentadores debatem se vale investir recursos limitados da ciência nesse tipo de investigação.
  • 00:28:20O experimento de Guerrer via crowdfunding — Gabriel Guerrer decidiu reproduzir os experimentos de Dean Radin através de crowdfunding, evitando usar verba pública. Mais de 400 pessoas contribuíram. Ele montou um experimento rigoroso com isolamento magnético, térmico e contra vibrações, definindo parâmetros estatísticos antecipadamente. Foram realizadas sessões com voluntários alternando 30 segundos de mentalização e 30 de relaxamento.
  • 00:31:42Resultados iniciais: nenhuma diferença estatística — Os resultados iniciais, seguindo os parâmetros pré-definidos, mostraram que estatisticamente não fazia diferença para os fótons se havia pessoas mentalizando instruções. A presença dos participantes não alterou o comportamento dos fótons de maneira diferenciável da aleatoriedade completa esperada. Oswaldo Pessoa Jr. comenta que ficou feliz por Guerrer ter seguido o método científico.
  • 00:34:07A guinada questionável: alteração a posteriori — Contrariando o que ele mesmo havia defendido, Guerrer alterou os parâmetros estatísticos após coletar os dados e ver que não mostravam o que ele queria. Com essa mudança a posteriori, os resultados passaram a sugerir comportamento anômalo dos fótons durante a mentalização. Ele concluiu sua palestra dizendo que “as interações mente-matéria existem” e que “mais dados são necessários”.
  • 00:35:09Crítica à prática não científica — Os apresentadores criticam veementemente essa prática: alterar parâmetros após ver os dados invalida a análise, pois permite obter praticamente qualquer resultado desejado. A plateia leiga foi induzida a concluir que havia evidência da influência do pensamento. O experimento, que já envolvia um conceito mal definido (“intencionar”), tornou-se uma aula de como fazer pseudociência.
  • 00:36:24Comentários de apoiadores e justificativas infalsificáveis — Comentários no YouTube da palestra ilustram como o desfecho artificialmente ambíguo permitiu que crentes mantivessem sua fé, sugerindo que o tempo de concentração deveria ser maior, ou que mais pessoas deveriam mentalizar juntas. Isso exemplifica afirmações infalsificáveis típicas da pseudociência, onde resultados negativos sempre podem ser explicados por condições inadequadas.
  • 00:38:16Bloco 3: Conclusões e categorização da pseudociência quântica — Início do bloco final, que organiza as conclusões da temporada sobre a pseudociência quântica. Os apresentadores criam três categorias que englobam a maioria dos argumentos pseudocientíficos, refletindo diferentes graus de complexidade: conceitos deturpados, reducionismo deturpado e consciência deturpada.
  • 00:39:15Categoria 1: Conceitos deturpados — A primeira categoria inclui argumentações rasas onde pessoas ouvem palavras-chave da quântica e inventam significados literais descolados do contexto científico. Exemplos: a ideia de que a pineal “verte em partícula” vibrações, ou a afirmação do filme “Quem Somos Nós” de que objetos macroscópicos podem estar em dois lugares simultaneamente (deturpação da superposição). São pseudocientistas amadores sem formação séria em teoria quântica.
  • 00:41:14Categoria 2: Reducionismo deturpado — A segunda categoria se baseia numa extrapolação indevida do reducionismo científico (explicar o todo pelas partes). Argumenta que se fótons e átomos apresentam estranhezas quânticas, então objetos macroscópicos também podem. Isso ignora completamente a decoerência discutida no episódio 5. Exemplos: a “vibração da saúde” ou “frequência do milagre”, onde emoções teriam vibrações quânticas específicas.
  • 00:44:45Categoria 3: Consciência deturpada — A terceira e mais sofisticada categoria inverte a lógica: como a consciência não pode ser reduzida a fenômenos quânticos, ela seria o elemento misterioso que explica a realidade. Autores como Deepak Chopra (médico) e Amit Goswami (físico) focam em pontos onde a teoria quântica não tem respostas claras, mascarando especulações como ciência. São difíceis de rebater por explorar sutilezas complexas.
  • 00:47:29Diferença entre pseudociência e misticismo quântico — É feita uma distinção importante: pseudociência afirma coisas simplesmente erradas que contradizem evidências (conceitos e reducionismo deturpados), enquanto misticismo afirma coisas que não sabemos se são verdade e não podemos avaliar cientificamente (consciência deturpada). O problema está em dar caráter científico a algo que, por hora, não tem nada de científico.
  • 00:49:59Encerramento da temporada e reflexões finais — Os apresentadores fazem um balanço da temporada, que passou por conceitos como quantização, dualidade onda-partícula, superposição, aleatoriedade, emaranhamento e decoerência. Reconhecem que mesmo após sete episódios, não é fácil decidir entre ciência e pseudociência quântica, especialmente com argumentos intencionalmente confusos. Esperam ter aguçado a curiosidade e mostrado que a ciência genuína pode ser mais fascinante que promessas pseudocientíficas.
  • 00:51:19Agradecimentos e informações finais — São feitos agradecimentos a apoiadores, entrevistados, financiadores (CNPq e cluster ML4Q), e à equipe de produção. É anunciado que material complementar estará disponível no site do podcast, incluindo referências científicas e transcrições. Os ouvintes são incentivados a recomendar o podcast e avaliá-lo em suas plataformas. A temporada é oficialmente encerrada.

Dados do Episódio

  • Podcast: O Q Quântico
  • Autor: O Q Quântico
  • Categoria: Science
  • Publicado: 2024-05-23T10:00:00Z
  • Duração: 00:57:09

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Então, o quântico meio que se tornou o arquétipo daquilo que é contraintuitivo e esquisito.

[00:00:10] O quântico se tornou o arquétipo daquilo que é contraintuitivo e esquisito.

[00:00:16] Desde o início das nossas conversas aqui para o podcast,

[00:00:19] tanto o Léo quanto a Glaucia repetiram várias vezes

[00:00:22] que uma das características da quântica era ser contraintuitiva.

[00:00:27] E à medida que a gente foi discutindo os temas que apareceram nos episódios,

[00:00:31] foi ficando um pouco mais claro o que eles queriam dizer com isso.

[00:00:35] Por exemplo, antes da teoria quântica,

[00:00:37] se pensava que várias propriedades de objetos fundamentais,

[00:00:41] como a órbita do elétron e a própria luz, eram contínuos.

[00:00:44] Depois da quântica, ficou estabelecido que ambas essas coisas são quantizadas.

[00:00:49] Antes da quântica, se pensava que os sistemas físicos

[00:00:52] se dividiam exclusivamente entre ondas ou partículas.

[00:00:56] Depois da quântica, ficou estabelecido que eles podem se comportar como as duas coisas.

[00:01:02] Antes da quântica, não se pensava que a mera ação de observar um objeto

[00:01:06] poderia alterar esse objeto.

[00:01:09] Depois da quântica, ficou claro que toda observação envolve uma interação

[00:01:13] e que, para sistemas muito frágeis, essa interação faz muita diferença.

[00:01:18] Na frase que abriu o episódio, o Rafael Chaves,

[00:01:21] que é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte,

[00:01:24] já falou que isso tudo…

[00:01:26] Tudo coloca a teoria quântica numa posição de arquétipo,

[00:01:29] ou seja, de modelo daquilo que é esquisito.

[00:01:33] E acontece que nós, seres humanos,

[00:01:35] temos uma mania de organizar tudo em caixinhas,

[00:01:38] mesmo quando isso não faz muito sentido.

[00:01:42] Por exemplo, se uma pessoa é ruim em fazer contas de cabeça

[00:01:45] e é assim mais artística…

[00:01:48] É de humanas.

[00:01:49] Já se a pessoa é boa com números e é mais razão que emoção…

[00:01:54] É de exatas.

[00:01:55] Exatas.

[00:01:56] É uma coisa que envolve números e contas.

[00:01:59] É matemática.

[00:02:00] Agora, se envolve fórmulas e tem blocos e planos inclinados…

[00:02:04] É física.

[00:02:06] Mas tem uma dessas categorias mais ou menos difusas

[00:02:09] que é maior que todas essas.

[00:02:11] É a categoria das coisas que a gente não entende bem.

[00:02:15] Acontece que a quântica está entre as teorias científicas que,

[00:02:18] no imaginário popular,

[00:02:20] mais aparece associada a essa categoria de coisas mal compreendidas.

[00:02:24] Claro, frases famosas,

[00:02:26] como a do ganhador do Nobel, Richard Feynman…

[00:02:28] Posso dizer seguramente que ninguém entende a física quântica?

[00:02:32] …contribuem para essa fama.

[00:02:34] E aí, com a quântica tendo esse status de grande representante

[00:02:37] daquilo que é meio estranho,

[00:02:39] outras coisas que também são um pouco estranhas

[00:02:42] acabam sendo associadas à quântica.

[00:02:44] Então, se eu tenho aqui algo que eu não consigo explicar,

[00:02:48] pronto, é quântico.

[00:02:49] Ou seja, o Rafael está falando de mais uma dessas simplificações

[00:02:53] um pouco enganadoras,

[00:02:55] mas que a gente acaba entendendo.

[00:02:56] E acaba fazendo se não tomar cuidado.

[00:02:58] Bom, isso aqui é difícil,

[00:03:00] quântica também é difícil e esquisita,

[00:03:02] então uma deve estar conectada com a outra.

[00:03:05] E outro desses temas,

[00:03:06] que também é difícil de entender

[00:03:08] e que fascina a humanidade há tempos,

[00:03:11] é a consciência.

[00:03:13] Esse é o tema do episódio de hoje.

[00:03:15] E a gente já vai dizer desde o início.

[00:03:17] Atualmente, não há nenhuma conexão científica

[00:03:20] bem estabelecida entre teoria quântica e a nossa consciência.

[00:03:24] Mesmo assim,

[00:03:24] a pergunta central do episódio é

[00:03:27] de onde surgiu essa associação

[00:03:29] entre teoria quântica e consciência

[00:03:32] que a gente encontra tão frequentemente

[00:03:34] em conteúdos pseudocientíficos.

[00:03:36] Eu sou a Glaucia Murta,

[00:03:38] física e pesquisadora da Universidade de Düsseldorf, na Alemanha.

[00:03:41] Eu sou a Luciane Troilib,

[00:03:43] jornalista e divulgadora científica na UFSM,

[00:03:46] a Universidade Federal de Santa Maria.

[00:03:48] E eu sou o Leonardo Guerini,

[00:03:50] matemático e professor também na UFSM.

[00:03:53] Esse é o podcast do UFSM.

[00:03:54] No primeiro bloco de hoje,

[00:03:57] a gente conta alguns dos possíveis motivos

[00:04:00] dessa associação entre física quântica

[00:04:02] e a ideia de que o nosso pensamento

[00:04:05] constrói a nossa realidade.

[00:04:07] No segundo bloco,

[00:04:08] a gente discute experimentos

[00:04:09] que se propõem a investigar essas conexões.

[00:04:12] E no bloco 3,

[00:04:13] a gente encerra o episódio e a temporada

[00:04:15] com algumas conclusões

[00:04:17] sobre esse panorama da pseudociência quântica

[00:04:20] que a gente vem traçando aqui.

[00:04:21] Vem com a gente que está começando o episódio 7

[00:04:24] com o UFSM.

[00:04:24] Com ciência quântica.

[00:04:32] Desde o nosso primeiro episódio,

[00:04:35] a gente ouviu aqui algumas falas de pseudociência

[00:04:37] associando quântica

[00:04:39] à ideia de que o nosso pensamento

[00:04:41] constrói a nossa realidade.

[00:04:43] Agora, o que muda a realidade?

[00:04:46] O observador.

[00:04:48] A intenção de ver o que vai acontecer.

[00:04:53] Essa é, de fato,

[00:04:54] a ideia de que o nosso pensamento

[00:04:54] é a ideia número 1 da pseudociência quântica,

[00:04:57] que aparece em muitos e muitos vídeos

[00:04:59] que a gente encontrou na internet.

[00:05:01] Então eu tenho este pequeno pacto

[00:05:03] quando eu crio o meu dia.

[00:05:06] Digo, eu estou usando este momento

[00:05:07] para criar o meu dia.

[00:05:09] E estou influenciando o campo quântico.

[00:05:13] Essa ideia também aparece bastante

[00:05:15] nas obras mais influentes do misticismo quântico,

[00:05:17] como os livros

[00:05:18] A Cura Quântica e A Física da Alma.

[00:05:21] E também nos filmes

[00:05:22] Quem Somos Nós e O Segredo.

[00:05:24] A Física Quântica

[00:05:27] realmente começa a apontar

[00:05:29] esta descoberta.

[00:05:30] Diz que não se pode ter um universo

[00:05:33] sem estar mentalmente nele.

[00:05:36] Que a mente está realmente

[00:05:37] forjando a coisa que está sendo percebida.

[00:05:41] Mas como que essas ideias

[00:05:43] sobre consciência afetando a realidade

[00:05:45] acabaram associadas com teoria quântica?

[00:05:48] Qual que é a relação

[00:05:49] entre essas coisas?

[00:05:50] Bom, a resposta para essa pergunta

[00:05:52] não é óbvia.

[00:05:54] A maioria dessas ideias,

[00:05:54] é bem confusa.

[00:05:56] Com algumas expressões científicas

[00:05:58] que aparecem sem muitos detalhes

[00:06:00] e sem muito sentido.

[00:06:01] Como as falas do vendedor de colchão quântico

[00:06:03] que a gente trouxe aqui no nosso primeiro episódio.

[00:06:06] Ah não, a quântica é a mesma, tá?

[00:06:08] Não existe quântica mais fraca

[00:06:10] nem quântica mais forte.

[00:06:12] A frequência que ela está emitindo

[00:06:13] é entre tipo 50 e 60 hertz.

[00:06:16] Essa é a frequência do colchão.

[00:06:18] Aqui eu estou falando do tratamento power, né?

[00:06:21] Aqui eu estou falando da quântica

[00:06:22] caindo direto para a célula.

[00:06:24] Mas para tentar responder

[00:06:26] a pergunta da Lu,

[00:06:27] vamos primeiro analisar alguns exemplos

[00:06:30] de conexão entre essas narrativas

[00:06:31] pseudocientíficas e alguns elementos

[00:06:34] da teoria quântica que a gente discutiu

[00:06:36] ao longo do podcast.

[00:06:37] Um exemplo clássico que aparece

[00:06:40] é o termo salto quântico.

[00:06:42] Mostrando o passo a passo

[00:06:44] do que eu fiz para chegar

[00:06:45] ao meu salto quântico.

[00:06:48] Um dos maiores responsáveis

[00:06:50] por esse termo se difundir tanto

[00:06:51] é o livro A Cura Quântica,

[00:06:54] Ipak Chopra,

[00:06:55] onde a gente encontra o seguinte.

[00:06:57] Ela conseguia, de algum modo,

[00:06:59] motivar a ausência do câncer,

[00:07:01] mas com a mesma facilidade

[00:07:03] poderia voltar a ele.

[00:07:04] A palavra que vem à mente

[00:07:05] quando um cientista pensa

[00:07:07] nessas mudanças súbitas

[00:07:08] é quântum.

[00:07:10] Aqui a gente encontra o termo quântum

[00:07:13] associado a uma mudança súbita.

[00:07:16] Ou seja, a gente tem uma analogia

[00:07:18] com o termo científico salto quântico.

[00:07:21] Esse termo surgiu para descrever

[00:07:22] a ação brusca de um elétron

[00:07:24] saltando de uma órbita eletrônica

[00:07:26] para a outra.

[00:07:27] Um fenômeno que começou a ser estudado

[00:07:29] lá bem no início da teoria quântica,

[00:07:31] como a gente contou no episódio 2.

[00:07:33] Mas hoje, a expressão salto quântico

[00:07:36] é usada pela pseudociência

[00:07:38] como um sinônimo da mudança radical

[00:07:40] que muitas pessoas querem ver na sua vida.

[00:07:42] Como emagrecer,

[00:07:43] melhorar um relacionamento

[00:07:45] ou mudar de trabalho.

[00:07:46] Então, no fim das contas,

[00:07:49] por causa dessa analogia,

[00:07:50] a gente acaba tendo a física quântica

[00:07:52] associada a mudanças drásticas

[00:07:54] e repentinas.

[00:07:56] O trecho a seguir também vem do livro

[00:07:58] A Cura Quântica,

[00:07:59] associando esses tais saltos quânticos

[00:08:01] à consciência no contexto da saúde.

[00:08:04] Muitas curas são de origem

[00:08:06] igualmente misteriosa,

[00:08:07] como os casos de remissão espontânea

[00:08:09] e o uso eficiente de placebos

[00:08:11] ou drogas enganadoras.

[00:08:13] Em todos esses casos,

[00:08:15] a consciência profunda parece ter promovido

[00:08:18] um drástico salto quântico

[00:08:19] no mecanismo de cura.

[00:08:21] Ou seja, a mensagem implícita aqui

[00:08:24] é que, de alguma forma,

[00:08:26] a consciência age de maneira quântica

[00:08:28] para causar fenômenos,

[00:08:29] como a remissão espontânea de uma doença

[00:08:31] e o efeito placebo.

[00:08:33] Pois é, eles partem da premissa

[00:08:35] de que, se a gente não tem explicação

[00:08:37] para algo, então essa explicação

[00:08:39] deve ser alguma combinação

[00:08:41] de consciência e teoria quântica.

[00:08:44] Outro ponto pseudocientífico

[00:08:46] que a gente já trouxe aqui no podcast

[00:08:47] é essa ideia de que tudo tem

[00:08:49] uma vibração, e que vibrações

[00:08:51] positivas te levam à saúde e ao sucesso

[00:08:54] financeiro, enquanto que

[00:08:55] frequências negativas geram efeitos

[00:08:57] nocivos. Mas a gente também

[00:08:59] encontra esse papo de frequência quântica

[00:09:01] associado à ideia de construir

[00:09:03] a sua realidade. Por exemplo…

[00:09:06] Essa conversa de que o fóton

[00:09:19] te obedece tem a ver com a dualidade

[00:09:22] da partícula. Como a gente

[00:09:23] falou no episódio 3, a teoria

[00:09:25] quântica diz que os sistemas

[00:09:27] quânticos, em situações bem

[00:09:29] específicas, podem agir tanto

[00:09:31] como ondas, quanto como partículas.

[00:09:34] Essa ideia é muitas

[00:09:35] vezes deturpada para fazer

[00:09:37] parecer que o que decide se o fóton

[00:09:39] vai ser de fato uma onda ou uma

[00:09:41] partícula é a intenção do

[00:09:43] observador, ou seja, a intenção

[00:09:45] da pessoa que está conduzindo o experimento.

[00:09:48] E, bom, seguindo

[00:09:49] essa linha de raciocínio, se a gente

[00:09:51] consegue controlar o comportamento de

[00:09:53] fótons, elétrons e átomos,

[00:09:55] a gente consegue controlar qualquer coisa.

[00:09:58] Comece observando

[00:09:59] o seguinte. Qual carro você quer ter?

[00:10:01] Qual casa você quer ter? Que tipo de roupas

[00:10:03] quer usar? Qual bairro quer morar?

[00:10:05] Qual cidade quer morar? Simples.

[00:10:07] Observe o fóton. Observe

[00:10:09] a realidade. Diga pra ele. É isso que eu quero ver.

[00:10:11] É isso que eu quero ver. E ele vai

[00:10:12] se transformar. A energia vai se transformar.

[00:10:16] Mas a Bárbara Maral,

[00:10:18] professora da Universidade

[00:10:19] de São Paulo, já avisa

[00:10:21] que isso não tem nada a ver. Os efeitos

[00:10:23] quânticos de um experimento

[00:10:25] estão bem definidos, mesmo se não houver

[00:10:27] pessoa nenhuma mentalizando

[00:10:29] instruções pro fóton. A primeira

[00:10:31] coisa é que não existe

[00:10:33] a necessidade de ter um ser

[00:10:35] senciente ali, consciente do que está

[00:10:37] acontecendo, pras previsões da

[00:10:39] física quântica se manifestarem.

[00:10:41] Então, a consciência

[00:10:43] não tem um papel relevante

[00:10:44] nisso tudo. Mas, mais que

[00:10:47] controlar apenas o comportamento

[00:10:48] ondulatório ou corpuscular dos fótons

[00:10:51] e elétrons, a conexão mais

[00:10:53] forte entre quântica e essa

[00:10:54] ideia pseudocientífica de que o pensamento

[00:10:57] constrói a realidade,

[00:10:59] se dá através das probabilidades.

[00:11:01] Física quântica tem sido

[00:11:03] muito clara a respeito disso.

[00:11:04] O próprio Eisenberg, co-descobridor da física

[00:11:07] quântica, disse que átomos não são

[00:11:08] coisas, são apenas tendências.

[00:11:11] Então, em vez

[00:11:12] de pensar em coisas, precisa

[00:11:15] pensar em possibilidades.

[00:11:16] São todas possibilidades de

[00:11:18] consciência.

[00:11:20] A gente contou no episódio passado que a teoria

[00:11:23] quântica é intrinsecamente

[00:11:24] probabilística. Ou seja,

[00:11:27] não existe nenhum mecanismo

[00:11:28] pra predizer com certeza

[00:11:30] qual vai ser o resultado de uma medição

[00:11:32] quântica. Isso, inclusive,

[00:11:34] gerou muita discussão sobre se a teoria

[00:11:36] seria completa, se não estaria faltando

[00:11:38] algo que a tornasse determinística.

[00:11:41] E lá na física

[00:11:42] quântica, existe um temperinho

[00:11:45] que quando você coloca,

[00:11:46] você materializa o teu sonho.

[00:11:49] E uma das grandes

[00:11:50] bandeiras do misticismo quântico

[00:11:52] é dizer que esse algo que não

[00:11:54] está sendo levado em conta, é

[00:11:56] a nossa consciência.

[00:11:59] Bom, aqui está.

[00:12:01] Pozinho mágico na sua fórmula

[00:12:02] de materialização.

[00:12:04] Pra falar sobre isso, a gente precisa

[00:12:06] introduzir duas expressões

[00:12:08] do jargão científico.

[00:12:10] Uma é o termo função de onda.

[00:12:12] E a outra é a noção

[00:12:15] de colapso.

[00:12:17] Vamos trazer de novo o experimento da

[00:12:18] fenda dupla. Digamos que a gente vai

[00:12:20] medir, ou fotografar,

[00:12:22] o elétron pra ver por qual

[00:12:24] fenda ele passou. E digamos que

[00:12:26] esse elétron esteja em um estado de superposição

[00:12:28] de passar pela fenda da esquerda

[00:12:30] e pela fenda da direita.

[00:12:32] A descrição matemática desse estado

[00:12:34] do elétron é justamente

[00:12:36] o que a gente chama de função de onda.

[00:12:39] Só que quando a gente de fato

[00:12:40] faz a medição, ou seja,

[00:12:43] usa detectores pra verificar

[00:12:44] qual caminho o elétron seguiu,

[00:12:46] a gente interage com esse elétron.

[00:12:48] E isso acaba com essa superposição.

[00:12:50] A superposição. A detecção,

[00:12:52] faz com que o elétron assuma

[00:12:54] aleatoriamente uma das trajetórias

[00:12:56] clássicas. Ou seja,

[00:12:58] ele passa pela fenda da esquerda

[00:13:00] ou ele passa pela

[00:13:02] fenda da direita.

[00:13:04] Então, o tal colapso

[00:13:05] é justamente essa transição

[00:13:07] causada pela medição do sistema.

[00:13:10] A gente diz que o sistema em superposição

[00:13:12] colapsou e passou

[00:13:14] a ser descrito por um estado clássico.

[00:13:16] E essa é a mesma mudança

[00:13:18] brusca a qual a expressão

[00:13:20] salto quântico se refere.

[00:13:22] Vale dizer que o termo colapso

[00:13:24] é um pouco polêmico,

[00:13:26] porque ele remete a certas interpretações

[00:13:28] específicas da teoria quântica.

[00:13:31] Mas discussões filosóficas

[00:13:33] à parte, não está errado

[00:13:34] dizer que a detecção causou

[00:13:36] o colapso da função de onda do elétron.

[00:13:39] Agora, o problema

[00:13:40] é usar essa terminologia

[00:13:42] pra se referir não a fótons e elétrons,

[00:13:45] mas a desejos, metas

[00:13:46] e planos pessoais, como nessa fala aqui.

[00:13:50] Significa

[00:13:51] que o mecanismo mental

[00:13:53] que produz o colapso da função de onda

[00:13:55] funciona também

[00:13:57] para colapsar a função de onda

[00:14:00] de um desejo,

[00:14:02] de um projeto,

[00:14:03] de um objetivo,

[00:14:05] de uma meta.

[00:14:07] Então, do ponto de vista pseudocientífico,

[00:14:10] eles estão dizendo que

[00:14:11] é a consciência do observador,

[00:14:13] ou seja, da pessoa que está fazendo o experimento,

[00:14:16] que é responsável por esse

[00:14:17] colapso da função de onda.

[00:14:20] Mais ainda,

[00:14:21] a consciência seria capaz de guiar

[00:14:22] esse colapso pra que se obtenha

[00:14:24] o resultado desejado.

[00:14:26] É isso, né?

[00:14:28] É isso. Essa ideia é tão central no misticismo

[00:14:31] quântico que o Oswaldo Pessoa Jr.,

[00:14:33] que é professor do Departamento de Filosofia

[00:14:35] da Universidade de São Paulo

[00:14:36] e estudioso desses temas,

[00:14:39] se refere a ela como

[00:14:40] a primeira tese do misticismo quântico.

[00:14:43] Bem, então, a primeira tese

[00:14:45] do misticismo quântico é de que

[00:14:47] a consciência causa o colapso.

[00:14:50] Só uma

[00:14:50] aviso. Infelizmente,

[00:14:52] os próximos áudios da entrevista com o Oswaldo

[00:14:55] falham em alguns momentos,

[00:14:56] mas a gente espera que ainda dê pra entender.

[00:15:00] E o Oswaldo conta como esse

[00:15:02] raciocínio é utilizado pela

[00:15:04] pseudociência quântica.

[00:15:06] No meu trabalho, eu sou uma pessoa

[00:15:08] que só se dá mal. Agora, eu

[00:15:11] comprei o livro O Segredo e descobri

[00:15:12] qual é o segredo das pessoas famosas e ricas.

[00:15:15] O segredo é o pensamento positivo.

[00:15:17] O segredo é o

[00:15:18] pensamento positivo. Ok.

[00:15:20] Aí tu se pergunta,

[00:15:22] mas por que o pensamento positivo funciona?

[00:15:25] Funciona porque o meu cérebro

[00:15:27] é quântico e quando eu tô

[00:15:28] no meu ambiente de trabalho, eu

[00:15:30] entro em emaranhamento quântico com as outras mentes

[00:15:33] à minha volta.

[00:15:35] A gente falou brevemente de

[00:15:36] emaranhamento no episódio passado.

[00:15:39] É outra daquelas propriedades

[00:15:40] estranhas da física quântica e que

[00:15:42] basicamente tem a ver com a existência

[00:15:44] de correlações entre objetos

[00:15:46] que podem estar bem distantes.

[00:15:48] Mas reforçando que aqui

[00:15:50] o Oswaldo tá descrevendo um ponto de

[00:15:52] vista pseudo-científico.

[00:15:55] Depois que eu leio o segredo e aprendo isso,

[00:15:56] agora eu sei que eu posso chegar em casa, aproveitar

[00:15:58] que eu ainda tô emaranhado quânticamente com as

[00:16:00] pessoas da minha sala, e aí

[00:16:02] através do pensamento positivo,

[00:16:04] eu provoco um colapso na onda quântica

[00:16:06] emaranhada e

[00:16:08] consigo escolher qual é o resultado da medição.

[00:16:11] Eu provoco um colapso

[00:16:12] na onda quântica emaranhada

[00:16:15] e consigo escolher qual é o resultado

[00:16:16] da medição.

[00:16:18] Bom, até aqui já apareceu uma

[00:16:20] série de problemas conceituais bem

[00:16:22] graves nessa história. Mas por

[00:16:24] enquanto, vamos fazer um esforço pra

[00:16:26] ignorar isso e tentar chegar ao final

[00:16:28] desse raciocínio. E aí, eu escolho

[00:16:31] que eu quero que o resultado seja positivo,

[00:16:33] provoco um colapso positivo

[00:16:34] e o meu ambiente agora vai

[00:16:36] se comportar de maneira positiva com relação

[00:16:39] a mim. E aí, no dia seguinte, eu vou lá

[00:16:40] e as pessoas começam a me tratar bem.

[00:16:43] Tá. Analisando

[00:16:44] os problemas dessa história,

[00:16:46] já começa com a questão de haver

[00:16:48] emaranhamento no nosso cérebro.

[00:16:50] Bem, primeiro que o cérebro seja

[00:16:52] quântico é uma questão ainda não decidida.

[00:16:54] Não dá pra excluir a possibilidade

[00:16:56] de que o nosso cérebro funcione

[00:16:58] quanticamente. Mas como a gente já

[00:17:00] falou aqui no podcast, o nosso corpo

[00:17:02] é um ambiente hostil para os fenômenos

[00:17:04] quânticos. Pois é.

[00:17:06] Vocês já tinham falado que as propriedades

[00:17:08] como superposição e emaranhamento

[00:17:11] requerem isolamento do seu

[00:17:12] entorno, né? O que em geral

[00:17:14] inclui temperaturas baixas

[00:17:16] e vácuo. Exatamente.

[00:17:18] Então, no estado atual

[00:17:20] da ciência, a gente não tem nenhum

[00:17:22] bom motivo pra pensar que

[00:17:24] tem algum processo envolvendo o

[00:17:26] emaranhamento quântico no nosso cérebro.

[00:17:28] Mas ok. Pra essa discussão,

[00:17:30] vamos assumir que isso poderia ser

[00:17:32] verdade. Só que nesse ponto

[00:17:34] surge um problema ainda maior.

[00:17:36] Mas que possa haver emaranhamento

[00:17:38] entre dois corpos macroscópicos

[00:17:40] é muito duvidoso.

[00:17:42] Como a gente discutiu no episódio 5,

[00:17:44] a interação com o ambiente

[00:17:46] causa decoerência,

[00:17:47] que é a perda das propriedades quânticas.

[00:17:50] Então, quanto maior o espaço

[00:17:52] que as partículas precisam viajar,

[00:17:54] mais difícil é evitar

[00:17:55] essa interação com outras coisas, como

[00:17:57] luz ou moléculas de ar.

[00:18:00] Em geral, o emaranhamento se sustenta

[00:18:02] por um tempo tão curto que

[00:18:04] algumas estimativas dizem que não

[00:18:06] daria tempo nem pra um neurônio

[00:18:07] se comunicar com outro. Então,

[00:18:09] imagina emaranhar pessoas

[00:18:11] diferentes, cada uma em sua casa.

[00:18:15] Mas o golpe de misericórdia

[00:18:16] nessa história toda vem agora,

[00:18:18] no final.

[00:18:20] Apesar de que você, ao provocar um colapso,

[00:18:22] possa escolher se o resultado vai ser

[00:18:24] positivo ou negativo, isso vai contra

[00:18:26] o que se tem em quântico.

[00:18:28] Ou seja, assumir que existe algum tipo

[00:18:30] de mecanismo fantástico

[00:18:32] que, além de gerar emaranhamento no nosso cérebro,

[00:18:35] consegue manter essa correlação

[00:18:36] entre pessoas diferentes

[00:18:38] já é uma especulação gigante

[00:18:40] sem nenhuma evidência.

[00:18:42] Agora, querer definir o resultado

[00:18:45] das medições quânticas,

[00:18:47] aí já é demais.

[00:18:48] Quando se faz uma medição em quântico, você não controla.

[00:18:50] O resultado que você vai obter, né?

[00:18:52] Como a gente argumentou no episódio passado,

[00:18:54] existem experimentos muito

[00:18:56] convincentes que servem como evidências

[00:18:58] robustas de que o resultado

[00:19:00] de uma medição quântica é aleatório.

[00:19:02] Algo que está além

[00:19:04] do nosso controle.

[00:19:05] Tá, a gente tem evidências de que os resultados

[00:19:08] quânticos são aleatórios.

[00:19:10] Mas não seria possível pra nossa

[00:19:12] mente interferir nessas probabilidades?

[00:19:15] Talvez tornar algum

[00:19:16] resultado mais ou menos provável?

[00:19:18] Por exemplo,

[00:19:20] se alguém desafia a gente a mostrar

[00:19:22] que essa ideia tá errada.

[00:19:24] Alguém chega e fala algo do tipo

[00:19:26] Como se responde a isso?

[00:19:39] Tem alguma evidência

[00:19:40] direta de que a nossa mente

[00:19:42] não influencia esses resultados?

[00:19:44] Pois é, essa é a pergunta

[00:19:46] chave. E é exatamente

[00:19:48] isso que a gente vai tratar no próximo

[00:19:50] bloco.

[00:20:02] Você se lembra do nosso

[00:20:04] primeiro episódio? Nele,

[00:20:06] a gente discutiu algumas características

[00:20:08] importantes da ciência. Talvez

[00:20:10] a mais importante de todas seja

[00:20:12] a busca por evidências. Mas

[00:20:14] como nada é simples nessa vida,

[00:20:16] até o embasamento em evidências

[00:20:18] é um assunto que pode ser polêmico.

[00:20:20] Isso porque mesmo algumas

[00:20:22] das ideias mais esdrúxulas da

[00:20:23] pseudociência contam com algum tipo

[00:20:26] de evidência, ainda que muito fraca

[00:20:28] a seu favor. Assim como

[00:20:30] o caso emblemático de utilizar

[00:20:31] cloroquina pra tratar covid

[00:20:33] tinha o suporte de um ou outro

[00:20:36] artigo científico, que logo

[00:20:38] se mostraram insuficientes e não puderam

[00:20:40] ser reproduzidos por outros grupos

[00:20:42] de pesquisa, essa ideia do

[00:20:44] pensamento afetando a realidade

[00:20:45] também conta com alguns poucos artigos

[00:20:48] a seu favor que ficaram famosos.

[00:20:50] Uma referência típica são

[00:20:52] os trabalhos de Robert Young e Brenda

[00:20:54] Doom, pesquisadores da Universidade

[00:20:56] de Princeton, nos Estados Unidos,

[00:20:58] que no final da década de 70

[00:20:59] apresentaram resultados indicando

[00:21:02] a possível influência da mente no

[00:21:04] funcionamento de geradores de números

[00:21:06] aleatórios. Ou seja,

[00:21:08] esses geradores eram dispositivos

[00:21:10] que produziam aleatoriamente

[00:21:12] sequências de zeros e uns.

[00:21:14] E esses pesquisadores afirmaram

[00:21:16] que conseguiram enviesar essas sequências

[00:21:18] com a força do pensamento.

[00:21:20] O Robert Young, inclusive,

[00:21:21] era um físico prestigiado

[00:21:23] que tinha trabalhado na NASA

[00:21:25] e atuado como reitor da Escola de Engenharia

[00:21:28] e Ciências Aplicadas de Princeton

[00:21:30] por 15 anos.

[00:21:32] Não é à toa que os resultados

[00:21:33] de alguém com essas credenciais

[00:21:35] chamaram tanta atenção.

[00:21:37] Bom, do ponto de vista científico,

[00:21:40] não se conhece nenhum tipo de força

[00:21:41] gerada pelo nosso pensamento

[00:21:43] que pudesse causar um efeito assim.

[00:21:45] Mas, claro, a ciência não sabe tudo.

[00:21:48] E como existem muitas coisas

[00:21:49] ainda desconhecidas, não é possível

[00:21:51] excluir completamente a possibilidade

[00:21:54] de que existam fenômenos de interação

[00:21:56] entre a mente e a matéria.

[00:21:58] Então pode ser

[00:22:00] que exista algum tipo de força

[00:22:02] ainda desconhecida que seria

[00:22:04] responsável por esse fenômeno.

[00:22:05] Bom, é uma possibilidade.

[00:22:08] Esse falando agora é o

[00:22:10] Gabriel Guerrer, um físico brasileiro

[00:22:12] que ficou interessado nessas supostas

[00:22:14] interações entre o pensamento

[00:22:16] e os fenômenos físicos e resolveu

[00:22:18] ele mesmo investigar o assunto.

[00:22:19] A gente tirou essa e as próximas

[00:22:22] falas dele de uma palestra

[00:22:24] que está no YouTube. E quem contou

[00:22:26] essa história pra gente foi o Oswaldo

[00:22:27] Pessoa Jr., professor da USP.

[00:22:30] Na USP, o Gabriel Guerrer

[00:22:31] recentemente

[00:22:33] desenvolveu uma visão mística

[00:22:35] e teve um insight, uma epifania.

[00:22:38] O Guerrer é um físico

[00:22:39] experimental, com doutorado pela USP.

[00:22:42] Inclusive, uma parte da

[00:22:43] pesquisa dele foi realizada no CERN,

[00:22:46] que é o maior laboratório de física de

[00:22:47] partículas do mundo, que fica na fronteira

[00:22:49] entre a França e a Suíça.

[00:22:51] Só que depois de terminar o doutorado,

[00:22:53] ele se deparou com os artigos de um engenheiro

[00:22:55] eletricista e parapsicólogo estadunidense

[00:22:58] chamado Dean Brayden,

[00:22:59] que foi um dos primeiros a estudar o possível

[00:23:01] efeito da mente no contexto

[00:23:03] de um experimento que a gente falou bastante aqui

[00:23:05] no podcast, o experimento da fenda dupla.

[00:23:09] É possível

[00:23:09] perguntar, então, será que a

[00:23:11] intenção das pessoas poderia, de alguma

[00:23:13] forma, afetar a luz, afetar

[00:23:16] os fótons, que são esses

[00:23:17] bloquinhos fundamentais de luz?

[00:23:21] O Dean Brayden

[00:23:21] testava se a mentalização dos

[00:23:23] participantes poderia influenciar

[00:23:25] fótons a ir mais pela fenda da

[00:23:27] esquerda ou mais pela fenda da direita

[00:23:29] e media isso através do padrão

[00:23:31] de interferência que era gerado.

[00:23:34] Lembrando que, em geral, a probabilidade

[00:23:35] dos fótons passarem por uma fenda

[00:23:37] ou pela outra é a mesma,

[00:23:39] ou seja, é 50-50.

[00:23:42] Então, o que a gente vai fazer agora

[00:23:44] nesse experimento envolvendo

[00:23:45] luz é

[00:23:47] investigar se a

[00:23:49] intenção, então, desse

[00:23:51] participante aqui de modificar

[00:23:53] o comportamento da luz

[00:23:55] faz padrões diferentes.

[00:23:59] Mais ou menos

[00:24:00] entre 2011 e 2016,

[00:24:03] Dean Brayden realizou

[00:24:04] vários experimentos assim e reportou

[00:24:06] resultados surpreendentes.

[00:24:08] Por exemplo, os artigos dele

[00:24:09] apontavam não apenas que a mentalização

[00:24:12] de fato influenciava os fótons,

[00:24:14] como, inclusive, fazia isso

[00:24:15] até mesmo à distância, com pessoas

[00:24:17] participando do experimento através

[00:24:19] da internet. E mais,

[00:24:21] pessoas com treinamento e meditação

[00:24:23] geravam resultados ainda mais expressivos.

[00:24:27] Resultados

[00:24:27] impressionantes mesmo.

[00:24:29] Mas e aí, qual que é a reação de vocês

[00:24:31] quando escutam isso? Vocês não

[00:24:33] ficam se perguntando se isso pode mesmo

[00:24:35] estar certo? Ou vocês já de

[00:24:37] cara consideram que é algo meio

[00:24:39] suspeito? É, eu acho que

[00:24:41] a minha primeira reação é ficar com o pé

[00:24:43] atrás, porque os resultados são

[00:24:45] surpreendentes demais e vão

[00:24:47] contra tudo o que eu já estudei sobre

[00:24:49] teoria quântica. E, além disso,

[00:24:52] quando se faz pesquisa, é muito

[00:24:53] comum surgirem, eventualmente,

[00:24:56] alguns resultados totalmente

[00:24:57] fora da curva, que passam um tempo

[00:24:59] sem explicação plausível, mas

[00:25:01] que depois se descobre que foi só um

[00:25:03] erro na implementação do experimento.

[00:25:06] Outro ponto que deixa a gente com o pé

[00:25:07] atrás é que o experimento se propõe

[00:25:09] a responder uma pergunta muito subjetiva.

[00:25:12] A intenção das pessoas

[00:25:14] afeta o experimento?

[00:25:15] O que significa isso? Como

[00:25:17] formalizar o conceito de intenção,

[00:25:20] de mentalização?

[00:25:21] Porque, se a gente não tem essas definições

[00:25:23] claras, e nem como confirmá-las,

[00:25:26] um resultado negativo num experimento

[00:25:28] assim pode sempre ser explicado com

[00:25:30] ele não estava mentalizando direito

[00:25:32] ou faltou colocar mais

[00:25:33] força na intenção. Nesse caso,

[00:25:35] a gente volta para aquela ideia de crença

[00:25:37] infalsificável que a gente discutiu

[00:25:39] no episódio 1, né? Que são

[00:25:41] aquelas afirmações que não se pode demonstrar

[00:25:44] e que são incorretas.

[00:25:45] Mas ok, isso é se o experimento

[00:25:47] dá errado. E quando o experimento

[00:25:49] aparentemente dá certo, como

[00:25:51] esses que a gente mencionou, vocês não

[00:25:53] ficam curiosos?

[00:25:55] Olha, eu fico pensando que, se fosse

[00:25:57] tão fácil assim, alguém já teria

[00:25:59] ganhado o Nobel com isso há tempos.

[00:26:02] Mas eu confesso que essa não é a postura

[00:26:03] mais científica. Diante de um resultado

[00:26:05] inesperado assim, num mundo ideal,

[00:26:08] talvez a atitude mais

[00:26:09] responsável seria alguém da comunidade

[00:26:11] científica tentar, de fato,

[00:26:14] reproduzir esses experimentos.

[00:26:15] Só que isso envolve várias questões,

[00:26:17] polêmicas. Primeiro, que

[00:26:19] montar um experimento é um trabalho

[00:26:21] gigantesco. Você precisa dedicar

[00:26:23] muito tempo e muita energia.

[00:26:25] E se você tem algum motivo

[00:26:27] para achar que o experimento vai dar errado,

[00:26:29] é pior ainda. Porque resultados

[00:26:31] negativos, muitas vezes,

[00:26:33] não são recompensados.

[00:26:35] Como assim, não são recompensados?

[00:26:38] Na minha experiência, pelo menos,

[00:26:40] se você acaba um projeto de pesquisa

[00:26:41] com resultados negativos

[00:26:43] ou inconclusivos, muito provavelmente

[00:26:45] você vai ter dificuldade de

[00:26:47] publicar nas revistas científicas mais

[00:26:49] importantes. E isso pode

[00:26:51] se refletir na perda de bolsas de pós-graduação,

[00:26:54] de pós-doutorado,

[00:26:55] ou na perda de financiamento para futuras

[00:26:57] pesquisas. Isso tudo, e a gente

[00:26:59] ainda não falou de outro ponto central,

[00:27:02] que é como conseguir

[00:27:03] financiamento para esse experimento.

[00:27:06] Experimentos normalmente são

[00:27:07] empreitadas caras, e a maior parte

[00:27:09] da pesquisa científica no mundo

[00:27:11] é realizada com verba pública.

[00:27:14] Então, vale realmente

[00:27:15] uma reflexão sincera. Vale,

[00:27:17] vale a pena investir em experimentos

[00:27:19] que tentam demonstrar a influência da

[00:27:21] mente, assim, através da

[00:27:23] intenção dos participantes?

[00:27:26] Olha, eu posso dizer que

[00:27:27] eu acharia bem interessante saber os

[00:27:29] resultados de mais experimentos assim.

[00:27:32] Mas, ao mesmo tempo, eu entendo

[00:27:33] que, com um financiamento limitado

[00:27:35] para a ciência, talvez esse tipo de

[00:27:37] pesquisa não seja prioridade.

[00:27:39] Pois é. A base científica

[00:27:41] dessas ideias é muito fraca.

[00:27:43] E, em geral, em ciência,

[00:27:45] você precisa de uma proposta mais objetiva,

[00:27:47] com hipóteses mais específicas

[00:27:50] sobre o que você acha que vai acontecer

[00:27:51] e bons motivos teóricos

[00:27:53] para que isso aconteça. Então, eu seria

[00:27:55] contra usar dinheiro público

[00:27:57] para esse tipo de experimento.

[00:27:59] Aqui, o Oswaldo novamente.

[00:28:01] Então, assim, o FAPESP, né,

[00:28:03] talvez seja antiético dar dinheiro

[00:28:05] para alguém fazer um experimento desse tipo.

[00:28:08] Mas o Gabriel Guerra,

[00:28:09] esse que a gente escutou mais cedo,

[00:28:11] ficou tão empolgado com os resultados do

[00:28:13] Dean Radin, da mente influenciando

[00:28:15] a luz, que decidiu que ele mesmo

[00:28:17] ia tentar reproduzir esses experimentos.

[00:28:20] O fato é que

[00:28:21] eu vi isso e eu falei, cara, isso é coisa

[00:28:23] mais incrível, me interessa

[00:28:25] investigar isso, eu quero saber se isso é

[00:28:27] verdade ou não. Então,

[00:28:29] a partir dessa grande curiosidade,

[00:28:31] eu começo a propor essa replicação

[00:28:34] desse experimento.

[00:28:36] Ele reuniu voluntários

[00:28:37] para, entre aspas, intencionar

[00:28:40] que os fótons agissem de

[00:28:41] determinada forma, passando por

[00:28:43] uma das fendas e não pela outra.

[00:28:46] A pergunta que a gente vai

[00:28:47] fazer é, será que o fato

[00:28:49] de você estar intencionando,

[00:28:52] será que isso pode, de

[00:28:53] alguma maneira, afetar

[00:28:55] a probabilidade dos resultados?

[00:28:58] Nem que seja muito

[00:28:59] pouco, nem que afete em 51%,

[00:29:02] 50.1%,

[00:29:04] mas será que esse efeito

[00:29:05] existe? Essa é a grande

[00:29:07] pergunta. Como a gente

[00:29:09] falou, um problema imediato

[00:29:11] era como financiar esse experimento.

[00:29:14] Então, o Guerra montou

[00:29:15] uma vaquinha online em que mais de

[00:29:17] 400 pessoas contribuíram para juntar

[00:29:19] o dinheiro necessário. Isso contornou

[00:29:21] o problema de usar verba pública

[00:29:23] para experimentos não embasados.

[00:29:25] É legal que ele conseguiu dinheiro por crowdfunding.

[00:29:27] Então, essa seria a maneira

[00:29:29] mais correta de você financiar esses

[00:29:31] experimentos. Com a verba garantida,

[00:29:34] o Guerra começou a trabalhar

[00:29:35] no experimento. Ele usou todo

[00:29:37] seu treinamento de doutor em física

[00:29:39] experimental para montar um experimento

[00:29:41] bastante rigoroso.

[00:29:43] Isso envolvia sessões

[00:29:45] com participantes tentando influenciar

[00:29:47] os fótons e sessões sem

[00:29:49] participante nenhum, que serviam como

[00:29:51] grupo de controle para futuras comparações.

[00:29:54] Isolamento

[00:29:55] magnético e isolamento térmico

[00:29:57] do ambiente, para que possíveis alterações

[00:29:59] dos fótons não pudessem ser

[00:30:01] causadas por variações de temperatura

[00:30:03] nem de campo magnético.

[00:30:05] Mesa ótica com isolamento

[00:30:07] de vibrações, para que o

[00:30:09] aparato experimental se mantivesse

[00:30:11] completamente imóvel.

[00:30:12] E uma escolha cuidadosa

[00:30:15] dos parâmetros utilizados na

[00:30:17] análise estatística.

[00:30:18] Esse último fator significa que ele fez

[00:30:20] algumas sessões de teste a fim de

[00:30:23] decidir quais seriam os parâmetros

[00:30:24] utilizados no tratamento dos dados,

[00:30:27] que é um passo importante.

[00:30:28] E para que servem esses parâmetros?

[00:30:31] Esses parâmetros são posteriormente

[00:30:33] utilizados para traduzir os

[00:30:35] milhares de fótons detectados

[00:30:37] em uma conclusão final do tipo

[00:30:38] tantos por cento dos fótons passaram

[00:30:41] pela fenda da esquerda e isso não

[00:30:43] é apenas uma flutuação estatística.

[00:30:45] Existe, de fato, alguma

[00:30:47] força direcionando esses fótons.

[00:30:49] E é importante definir esses

[00:30:51] parâmetros de antemão, ou seja,

[00:30:53] fixar os detalhes da análise que

[00:30:54] será feita antes de se

[00:30:56] produzir os dados oficiais do experimento.

[00:30:59] Guardem essa informação, ela é

[00:31:00] essencial.

[00:31:02] A gente faz a seguinte regra dentro do

[00:31:04] jogo científico. Agora eu travo

[00:31:06] os botões nessa posição,

[00:31:09] não posso mais mudar os meus

[00:31:10] parâmetros de análise e eu vou

[00:31:12] fazer novos experimentos e eu vou aplicar

[00:31:14] essa análise e a gente vai ver o que é

[00:31:16] o que acontece.

[00:31:18] Feitas todas essas preparações,

[00:31:20] ele foi lá e realizou diversas

[00:31:22] sessões com diversos participantes,

[00:31:25] seguindo um procedimento em que

[00:31:26] os participantes alternavam entre

[00:31:28] 30 segundos tentando influenciar os

[00:31:30] fótons e 30 segundos de relaxamento.

[00:31:33] Sessões na segunda,

[00:31:34] na terça, na quarta, na quinta,

[00:31:36] na sexta e no sábado, com vários

[00:31:38] voluntários diferentes por semanas.

[00:31:41] Até que, finalmente,

[00:31:42] os dados foram computados, analisados

[00:31:45] e ele teve um veredito.

[00:31:46] Agora, é o grande momento.

[00:31:49] É o grande momento.

[00:31:51] Esses áudios que a gente está escutando

[00:31:53] são da primeira vez que ele divulgou

[00:31:54] esses resultados, num evento que

[00:31:56] contava na plateia com vários dos

[00:31:58] apoiadores que contribuíram para o

[00:32:00] crowdfunding do experimento.

[00:32:02] Atenção, então vou mostrar aqui o experimento,

[00:32:04] o resultado do experimento 6 e 7.

[00:32:10] Pois é. Calma que tem mais dois.

[00:32:15] Tem o 8 e o 9 agora,

[00:32:16] são os dois últimos experimentos. Podem ver, então,

[00:32:18] que…

[00:32:19] 8 e 9.

[00:32:23] Nessa hora,

[00:32:25] ele apresenta um gráfico com os resultados

[00:32:27] do experimento, que mostra que

[00:32:28] em algumas sessões, as porcentagens

[00:32:31] médias de por qual fenda os fótons

[00:32:33] passaram, caem dentro da faixa

[00:32:34] esperada de flutuação estatística,

[00:32:37] enquanto que as médias de outras sessões

[00:32:39] caem fora. Então,

[00:32:41] a conclusão seria dada pela

[00:32:42] combinação de todas essas médias.

[00:32:45] Então, o resultado,

[00:32:46] o resultado final, combinando todo mundo,

[00:32:49] ele deu compatível

[00:32:51] com nenhuma diferença.

[00:32:53] Como se intenção e relaxamento

[00:32:55] fossem equivalentes.

[00:32:56] O resultado final

[00:32:58] deu compatível com nenhuma

[00:33:00] diferença. Ou seja,

[00:33:03] como o próprio Guerra fala,

[00:33:04] estatisticamente, não fazia

[00:33:06] diferença para os fótons do experimento

[00:33:08] se havia pessoas passando instruções

[00:33:10] mentais para que eles seguissem

[00:33:12] esse ou aquele caminho.

[00:33:13] A presença dos participantes

[00:33:16] não autorizava,

[00:33:16] alterou esses fótons de uma maneira

[00:33:18] que pudesse ser diferenciada da

[00:33:20] aleatoriedade completa que era esperada.

[00:33:23] Aqui, o Oswaldo novamente.

[00:33:25] Ele não obteve o resultado positivo,

[00:33:27] o que deixou ele meio em crise,

[00:33:28] mas a gente ficou muito feliz dele ter

[00:33:30] seguido o método científico e não ter

[00:33:32] conseguido achar um resultado claro.

[00:33:34] Bom, fim da história então, né?

[00:33:37] Ele ficou sabendo de resultados

[00:33:38] que pareciam fantásticos,

[00:33:41] foi lá, tentou reproduzir

[00:33:42] e obteve uma contradição com os

[00:33:44] artigos originais.

[00:33:46] Eu, inclusive, simpatizei com a motivação

[00:33:48] do Guerra de ir atrás e tentar

[00:33:51] mesmo verificar esse resultado.

[00:33:53] Até porque eu tenho certeza

[00:33:54] que ele teve que encarar muita cara feia

[00:33:56] de vários colegas cientistas.

[00:33:58] Mas o problema é que a história não

[00:34:00] terminou aí, como deveria.

[00:34:03] Ele segue a apresentação

[00:34:04] falando o seguinte.

[00:34:07] Ok, acabou o experimento, agora eu vou

[00:34:08] mudar uma regrinha só pra ver o que acontece

[00:34:10] e refazer a análise.

[00:34:13] Contrariando o que ele

[00:34:14] mesmo tinha falado antes,

[00:34:16] ele vai lá e faz uma mudança

[00:34:18] bem escolhida, a posteriori,

[00:34:21] nos parâmetros a serem usados

[00:34:23] na análise estatística.

[00:34:24] E de acordo com esses novos parâmetros,

[00:34:27] pronto, o resultado final

[00:34:28] é que os fótons que foram submetidos

[00:34:30] à mentalização se comportaram

[00:34:32] de forma anômala, mais

[00:34:34] enviesada do que apenas aleatoriamente.

[00:34:37] E nesse ponto,

[00:34:39] ele fala a mensagem final

[00:34:40] da palestra dele.

[00:34:42] Resumindo, as interações mente-matéria

[00:34:44] existem, e a resposta,

[00:34:46] por enquanto, é, talvez,

[00:34:49] mais dados

[00:34:51] são necessários.

[00:34:52] A gente aqui pronto pra elogiar

[00:34:54] o Gabriel Guerrer, e ele dá essa guinada

[00:34:56] super questionável.

[00:34:58] Se você quer testar uma hipótese e altera

[00:35:00] os parâmetros depois de coletar os dados

[00:35:02] e ver que eles não mostram o que você queria,

[00:35:05] então a conclusão da sua análise

[00:35:07] não é mais válida.

[00:35:09] Isso porque é possível

[00:35:10] obter praticamente qualquer resultado

[00:35:13] que se queira, alterando os parâmetros

[00:35:15] a posteriori.

[00:35:16] Por isso que é tão importante fixar

[00:35:18] os parâmetros antes da realização

[00:35:21] do experimento, como o Guerrer

[00:35:22] mesmo tinha ressaltado.

[00:35:24] A gente faz a seguinte regra dentro do jogo

[00:35:26] científico. Agora eu travo os botões

[00:35:28] nessa posição, não posso mais mudar

[00:35:30] os meus parâmetros de análise.

[00:35:34] Então, induzir a plateia leiga

[00:35:36] a concluir que essa análise posterior

[00:35:38] serviria como evidência da influência

[00:35:41] do pensamento é, no mínimo,

[00:35:43] uma prática altamente não científica.

[00:35:46] Então, o experimento,

[00:35:46] já envolvia um conceito

[00:35:48] mal definido.

[00:35:50] Afinal, o que significa precisamente

[00:35:52] intencionar ou mentalizar?

[00:35:55] Como garantir que o voluntário

[00:35:57] está de fato mentalizando uma ideia

[00:35:59] ou um desejo?

[00:36:00] E depois de obter uma resposta negativa,

[00:36:02] seguida de um comportamento negacionista

[00:36:04] do seu autor, essa história

[00:36:06] vira uma aula de como fazer

[00:36:08] pseudociência.

[00:36:11] Inclusive, como a gente

[00:36:12] já tinha antecipado, esse conceito

[00:36:14] mal definido abre brechas,

[00:36:16] para várias justificativas

[00:36:18] de por que o experimento deu errado.

[00:36:20] Como a gente vê nos comentários da palestra

[00:36:22] no YouTube.

[00:36:24] É, não tem como saber se o participante

[00:36:26] está de fato realizando o comando

[00:36:28] sugerido de intenção.

[00:36:30] O tempo de concentração e relaxamento

[00:36:32] da intencionalidade precisa ser

[00:36:34] bem maior que 30 segundos.

[00:36:36] Talvez 3 minutos,

[00:36:38] quiçá 5 minutos.

[00:36:40] Mas acho que seria interessante fazer uma versão

[00:36:42] com mais de uma pessoa na intenção.

[00:36:44] Será que valeria o ditado que a união

[00:36:46] faz a força?

[00:36:48] Ou seja, o desfecho artificialmente

[00:36:51] ambíguo da palestra

[00:36:52] fez com que as pessoas que já estavam

[00:36:54] decididas a acreditar que a consciência

[00:36:56] afeta os sistemas quânticos

[00:36:58] e, portanto, a realidade como um todo

[00:37:01] tenha uma desculpa para seguir

[00:37:02] firme na sua crença.

[00:37:04] Vale dizer que é uma atitude louvável

[00:37:07] colocar suas crenças à prova

[00:37:08] e tentar formalizar suas convicções

[00:37:10] dentro das regras do jogo científico.

[00:37:13] Mas aí, fica combinado

[00:37:14] que você precisa aceitar os resultados

[00:37:16] que encontrar, inclusive

[00:37:18] quando eles forem contra o que você esperava.

[00:37:46] A gente também vai falar de revistas predatórias

[00:37:58] e das malandragens que rolam

[00:38:00] na disseminação de suplementos alimentares

[00:38:02] e que muitas vezes nem são necessários, né gente?

[00:38:05] Então procure aí o Ciência Suja

[00:38:06] no seu tocador favorito ou no YouTube

[00:38:08] e vem ouvir porque em Crimes Contra a Ciência

[00:38:10] as vítimas somos todos nós.

[00:38:16] Para encerrar a temporada

[00:38:25] a gente tentou organizar

[00:38:26] as nossas conclusões dessa análise

[00:38:28] da pseudociência quântica

[00:38:30] que a gente trouxe aqui nesses sete episódios

[00:38:33] do Q Quântico.

[00:38:34] A nossa temporada inteira foi estruturada

[00:38:36] a partir de frases de pseudociência

[00:38:38] que a gente encontrou no YouTube,

[00:38:40] em alguns podcasts e nas obras mais

[00:38:42] influentes da pseudociência quântica.

[00:38:45] Foi a partir daí que a gente escolheu

[00:38:46] os temas e conceitos científicos

[00:38:48] que a gente discutiu por aqui.

[00:38:50] Mas comparando essas diferentes fontes

[00:38:52] pseudocientíficas, a gente foi se dando

[00:38:54] conta que o grau de complexidade

[00:38:56] das argumentações varia bastante.

[00:38:59] Para fechar a temporada

[00:39:00] a gente criou três categorias,

[00:39:03] três caixinhas, que na nossa

[00:39:04] opinião englobam a maioria dos

[00:39:06] argumentos de pseudociência quântica

[00:39:08] e refletem os diferentes graus

[00:39:10] de complexidade. A gente tem

[00:39:12] a categoria dos conceitos

[00:39:15] deturpados,

[00:39:16] a categoria do reducionismo

[00:39:19] deturpado e a

[00:39:20] categoria da consciência

[00:39:22] deturpada. Uma coisa que

[00:39:24] ficou bem clara é que esse papo

[00:39:26] meio coach é o que traz as ideias

[00:39:28] entre aspas, científicas

[00:39:30] mais furadas. Por exemplo,

[00:39:32] essa fala a seguir, que a gente já tocou

[00:39:34] aqui, eu acho que é a minha favorita.

[00:39:37] Então imagine assim,

[00:39:38] você me dá um sorriso,

[00:39:40] ou você está sendo simpática comigo,

[00:39:42] você vai emitir uma vibração.

[00:39:44] A minha pineal, ela vai pegar

[00:39:46] essa estrutura e vai

[00:39:47] verter em partícula.

[00:39:50] Essa conversa de onda virar

[00:39:52] partícula e partícula virar onda,

[00:39:54] assim como se fosse um superpoder,

[00:39:57] é claramente o caso de alguém

[00:39:58] que escutou o termo dualidade

[00:40:00] onda-partícula, que é mesmo

[00:40:02] um conceito científico, e interpretou

[00:40:04] essa expressão de maneira literal,

[00:40:07] descolada do contexto científico.

[00:40:08] Outro campeão de bobagens

[00:40:10] é o filme Quem Somos Nós,

[00:40:12] que dá pra gente ótimos exemplos

[00:40:14] de como passar informações gritantes,

[00:40:16] instantemente falsas, sobre fenômenos

[00:40:18] quânticos.

[00:40:19] Agora é possível ver em muitos laboratórios

[00:40:22] nos Estados Unidos, objetos

[00:40:24] que são grandes

[00:40:26] para serem vistos a olho nu,

[00:40:28] e estão em dois lugares

[00:40:30] simultaneamente. Dá até pra tirar

[00:40:32] uma fotografia disso.

[00:40:35] Nessa última fala,

[00:40:36] a gente vê essa deturpação acontecendo

[00:40:38] com o conceito de superposição,

[00:40:41] que como a gente discutiu

[00:40:42] no episódio 4, não pode ser

[00:40:44] literalmente interpretado

[00:40:46] como estando em dois lugares

[00:40:48] ao mesmo tempo.

[00:40:49] Ou seja, esses são exemplos de pessoas

[00:40:51] simplesmente escutando palavras-chave

[00:40:54] da quântica, inventando

[00:40:56] ou deduzindo errado

[00:40:57] um significado e um contexto pra elas.

[00:41:00] Então, é esse tipo de argumentação

[00:41:02] rasa que a gente coloca

[00:41:04] na categoria dos conceitos

[00:41:06] deturpados.

[00:41:08] Um outro tipo de argumento

[00:41:10] que a gente encontra bastante

[00:41:11] se baseia na ideia de

[00:41:13] reducionismo.

[00:41:14] O reducionismo basicamente

[00:41:17] quer dizer que as propriedades

[00:41:19] do todo podem ser

[00:41:20] explicadas através das propriedades

[00:41:23] das suas partes. Por exemplo,

[00:41:25] uma broca de diamante é

[00:41:26] extremamente dura devido à estrutura

[00:41:29] molecular do diamante.

[00:41:30] Ou seja, às vezes a gente precisa

[00:41:33] entender como um objeto é composto

[00:41:35] pra explicar uma característica

[00:41:37] sua numa escala maior, como a

[00:41:38] dureza. O reducionismo

[00:41:40] é uma postura bastante comum nas ciências

[00:41:43] exatas. Muitos fenômenos

[00:41:44] físicos podem ser explicados

[00:41:46] através das partículas mais fundamentais

[00:41:49] da matéria. Então, boa parte

[00:41:51] da pesquisa na física busca

[00:41:53] entender essas entidades fundamentais.

[00:41:55] Outro exemplo importante

[00:41:57] é a temperatura, que é

[00:41:59] um conceito que só aparece em objetos

[00:42:01] macroscópicos, mas que resulta

[00:42:03] da interação dos átomos e moléculas

[00:42:05] que formam um objeto.

[00:42:06] Estudar objetos cada vez menores

[00:42:08] tem se mostrado uma estratégia útil

[00:42:11] pra entender melhor o mundo.

[00:42:12] Inclusive, é normalmente nisso

[00:42:14] que se apostam muitas fichas

[00:42:16] quando falamos de desenvolvimento tecnológico.

[00:42:19] E aí entram áreas como teoria quântica,

[00:42:21] nanomateriais, bioquímica

[00:42:23] e assim por diante.

[00:42:24] Agora, tem um conjunto de argumentos

[00:42:26] pseudocientíficos que leva essa

[00:42:28] ideia de reducionismo ao extremo,

[00:42:31] fazendo uma argumentação do tipo

[00:42:33] se as partes, que são

[00:42:34] fótons, átomos e etc,

[00:42:37] podem apresentar essas estranhezas

[00:42:39] quânticas, como superposição

[00:42:41] e dualidade onda-partícula,

[00:42:43] então o todo, os objetos,

[00:42:44] os objetos macroscópicos, também podem.

[00:42:47] Mas essa lógica

[00:42:48] é simplesmente errada.

[00:42:50] Como mostrou toda a nossa discussão sobre

[00:42:52] decoerência no episódio 5,

[00:42:54] os fenômenos quânticos não sobrevivem

[00:42:56] em escalas macroscópicas por conta da interação

[00:42:58] com o ambiente.

[00:43:00] Esse tipo de argumentação forma a categoria

[00:43:02] do reducionismo deturpado,

[00:43:05] que é a premissa por trás

[00:43:07] de vários argumentos pseudocientíficos,

[00:43:09] como a tal vibração da saúde

[00:43:11] ou a frequência do milagre.

[00:43:13] Como você pode ver,

[00:43:14] as emoções duras,

[00:43:17] como tristeza,

[00:43:19] como culpa,

[00:43:21] humilhação, elas vibram

[00:43:23] em escalas baixas.

[00:43:25] Enquanto sentimentos de amor,

[00:43:28] felicidade, iluminação,

[00:43:30] elas estão vibrando

[00:43:31] em escalas altas.

[00:43:33] E como já apareceu aqui nesse episódio,

[00:43:36] esse papo também aparece

[00:43:37] em falas do tipo

[00:43:38] Controle a sua realidade ao controlar

[00:43:40] fenômenos quânticos.

[00:43:42] Simples. Observe o fóton.

[00:43:44] Observe a realidade. Diga pra ele

[00:43:46] é isso que eu quero ver, é isso que eu quero ver.

[00:43:48] E ele vai se transformar.

[00:43:50] A energia vai se transformar.

[00:43:52] Você, que escutou todos os nossos episódios

[00:43:55] e chegou até aqui,

[00:43:57] agora sabe que esses argumentos

[00:43:58] que a gente comentou até agora,

[00:44:01] baseados em distorções de conceitos

[00:44:03] e da ideia de reducionismo,

[00:44:05] não estão corretos.

[00:44:07] Aqui entre nós, a gente chamou

[00:44:08] as pessoas que usam esse tipo de argumentação

[00:44:11] de pseudocientistas amadores,

[00:44:13] porque as afirmações que eles fazem,

[00:44:14] são relativamente simples

[00:44:16] e relativamente fáceis de rebater.

[00:44:19] Esse tipo de afirmação

[00:44:20] é feita por pessoas que, em geral,

[00:44:23] não têm nenhuma formação séria

[00:44:24] em teoria quântica.

[00:44:26] Agora, tem uma outra posição na ciência

[00:44:28] que se opõe ao reducionismo,

[00:44:30] que acredita que nem todo fenômeno

[00:44:32] pode ser explicado apenas pelo

[00:44:34] entendimento das suas partes.

[00:44:36] Um exemplo de fenômeno que muita gente

[00:44:38] acredita que se enquadra nesse caso

[00:44:40] é a própria consciência,

[00:44:42] que já apareceu tanto aqui no episódio.

[00:44:45] Ninguém, ou quase ninguém,

[00:44:47] acredita que quando a gente

[00:44:48] entender melhor os fótons, elétrons

[00:44:50] e quarks, a gente vai

[00:44:52] finalmente entender como a nossa

[00:44:54] consciência funciona, ou que

[00:44:56] haja uma partícula fundamental

[00:44:58] da consciência.

[00:45:00] Ou seja, o consenso atual

[00:45:01] é que a consciência não pode ser explicada

[00:45:04] apenas através do estudo isolado

[00:45:06] de neurônios e outros componentes

[00:45:08] fundamentais do nosso cérebro.

[00:45:10] E é justamente na categoria

[00:45:12] da consciência deturpada,

[00:45:14] que a gente encontra as ideias

[00:45:16] pseudocientíficas mais difíceis de rebater.

[00:45:19] O argumento é que,

[00:45:20] já que a consciência não pode ser

[00:45:22] reduzida a fenômenos da teoria quântica,

[00:45:25] ela poderia ser o elemento

[00:45:26] misterioso que falta

[00:45:28] para explicar a realidade.

[00:45:30] Então, aqui, o jogo inverte.

[00:45:32] E a linha de raciocínio da pseudociência

[00:45:34] é a de que

[00:45:35] são os efeitos quânticos que surgem

[00:45:38] como resultado da nossa consciência.

[00:45:40] Em outras palavras,

[00:45:42] agora é a nossa consciência que está

[00:45:44] no centro da discussão,

[00:45:45] como causa fundamental de tudo.

[00:45:48] Inclusive, os trechos do livro

[00:45:49] A Cura Quântica, que a gente leu no bloco 1,

[00:45:52] seguem esse raciocínio.

[00:45:54] Aliás, as pessoas que se encaixam

[00:45:56] nessa última categoria são muitas vezes

[00:45:58] profissionais de saúde

[00:46:00] ou especialistas no assunto.

[00:46:02] Por exemplo, o Deepak Chopra,

[00:46:04] autor de livros como A Cura Quântica,

[00:46:07] é formado em medicina.

[00:46:09] Outro exemplo, o Amit Goswami,

[00:46:11] que é autor de livros como

[00:46:12] Física da Alma,

[00:46:13] é doutor em física

[00:46:15] e ex-professor universitário.

[00:46:18] Então, a gente vê que são pessoas

[00:46:19] com uma formação acadêmica

[00:46:21] e que têm um grande entendimento da física quântica.

[00:46:24] E o caso do físico Gabriel Guerrer,

[00:46:26] que a gente contou no bloco 2,

[00:46:28] também se encaixa nessa categoria.

[00:46:30] Analisar esses autores

[00:46:31] é muito mais indigesto

[00:46:33] porque a gente vê que eles conhecem

[00:46:35] os conceitos científicos e fazem um esforço

[00:46:38] para concentrar seus argumentos

[00:46:40] justamente nas sutilezas

[00:46:41] mais complexas da teoria.

[00:46:43] Que também são os tópicos

[00:46:45] que podem confundir até os cientistas,

[00:46:47] que dirá o público leigo.

[00:46:49] Apesar de também apresentarem

[00:46:51] algumas frases explicitamente falsas,

[00:46:54] na maioria das vezes,

[00:46:55] esses autores focam em pontos

[00:46:57] para os quais a teoria quântica

[00:46:58] não tem respostas claras.

[00:47:00] Para dar mais um exemplo do livro A Cura Quântica,

[00:47:03] a gente tem

[00:47:03] O que acontece exatamente nessa zona

[00:47:06] não é conhecido pelos físicos,

[00:47:09] tampouco pela medicina.

[00:47:11] Tá certo que a teoria não explica tudo,

[00:47:13] então tem sim espaço para especulação.

[00:47:17] Mas o problema aqui

[00:47:18] é que esses autores tentam

[00:47:19] mascarar suas especulações

[00:47:21] e vendem milhões de livros e cursos

[00:47:23] colocando o selo da ciência

[00:47:25] em algo que, pelo menos por hora,

[00:47:27] não passa de um ato de fé.

[00:47:29] Em outras palavras,

[00:47:30] são pessoas que exploram pontos complexos

[00:47:33] da teoria quântica

[00:47:34] fazendo supostas conexões com a nossa consciência,

[00:47:37] que não é um conceito bem compreendido.

[00:47:40] Assim, fica mais fácil

[00:47:42] fazer afirmações místicas

[00:47:43] sem o risco de serem contrapostas.

[00:47:57] Bom, a gente está chegando

[00:47:59] no final do episódio que encerra a temporada.

[00:48:02] E ao longo dessa jornada

[00:48:03] em que a gente usou a pseudociência

[00:48:05] como uma porta de entrada para a ciência,

[00:48:08] a gente passou por vários conceitos

[00:48:10] e fenômenos quânticos.

[00:48:11] A gente falou de quantização,

[00:48:14] dualidade onda-partícula,

[00:48:17] superposição,

[00:48:19] aleatoriedade,

[00:48:21] emaranhamento…

[00:48:23] A gente contou

[00:48:23] sobre as questões filosóficas que a teoria quântica levanta

[00:48:26] e também sobre a decoerência,

[00:48:28] que explica a ausência de fenômenos quânticos

[00:48:30] no nosso dia a dia

[00:48:31] e sobre como isso é um desafio

[00:48:33] para as futuras tecnologias quânticas.

[00:48:36] É, acho que depois de tudo isso

[00:48:38] deu para entender melhor

[00:48:39] porque a quântica tem essa fama

[00:48:41] de contraintuitiva e esquisita.

[00:48:43] A gente viu também

[00:48:45] como essa fama abre as portas

[00:48:47] para o mau uso e a deturpação

[00:48:49] dos conceitos quânticos.

[00:48:50] Nesse episódio, a gente fecha a temporada

[00:48:53] com um panorama geral da pseudociência

[00:48:55] e do misticismo quântico.

[00:48:57] Aliás, até agora,

[00:48:59] a gente tratou essas duas coisas

[00:49:00] mais ou menos como sinônimos,

[00:49:02] mas é legal diferenciar uma coisa da outra.

[00:49:05] A pseudociência afirma

[00:49:07] coisas simplesmente erradas

[00:49:08] que contradizem as evidências

[00:49:10] e o conhecimento científico.

[00:49:12] É o que acontece,

[00:49:13] nos casos de conceitos deturpados

[00:49:16] e das argumentações seducionistas,

[00:49:18] como a gente comentou no bloco passado.

[00:49:21] Já o misticismo

[00:49:22] afirma coisas que a gente não sabe

[00:49:24] se é verdade e que, em geral,

[00:49:26] a gente ainda não consegue

[00:49:27] avaliar cientificamente,

[00:49:29] que é o caso das argumentações

[00:49:31] que envolvem a consciência.

[00:49:33] E justamente por não ter afirmações

[00:49:35] obviamente erradas,

[00:49:37] os argumentos místicos são os mais difíceis

[00:49:39] de contrapor, né?

[00:49:40] E vale ressaltar que,

[00:49:42] em algum nível,

[00:49:43] todos nós temos alguma crença mística.

[00:49:46] Ou seja, nem tudo na vida é ciência.

[00:49:49] Mas o problema,

[00:49:50] ou a maldade aqui,

[00:49:52] está em tentar dar o caráter científico

[00:49:54] a algo que, por hora,

[00:49:56] não tem absolutamente nada de científico.

[00:49:59] E, Léo, lá no episódio 1,

[00:50:01] tu falou que a tua mãe

[00:50:02] te pediu para avaliar um livro

[00:50:03] de coisas quânticas, entre aspas,

[00:50:06] e como era difícil dar uma resposta para ela.

[00:50:09] Será que agora,

[00:50:10] depois de ouvir o podcast,

[00:50:12] a tua mãe está convencida

[00:50:13] de que aquele livro

[00:50:14] não tinha nada a ver com ciência?

[00:50:16] Olha, eu não sei se a minha mãe

[00:50:18] teve fôlego para acompanhar a temporada,

[00:50:20] porque a gente não fugiu

[00:50:22] de discussões difíceis

[00:50:23] que acompanham o tema.

[00:50:24] Mas, com certeza,

[00:50:26] esses sete episódios

[00:50:27] dão uma resposta um pouco melhor

[00:50:29] do que a que eu dei para ela inicialmente.

[00:50:31] E, apesar da gente conseguir esclarecer

[00:50:33] pelo menos algumas falas

[00:50:35] da pseudociência quântica,

[00:50:37] por outro lado, também ficou claro

[00:50:38] que existem ideias sofisticadas

[00:50:40] que não são fáceis de serem avaliadas

[00:50:42] pelo público leigo.

[00:50:44] Até porque, muitas vezes,

[00:50:46] elas são apresentadas de maneira

[00:50:47] intencionalmente confusa.

[00:50:49] Bom, a gente já tinha avisado

[00:50:51] que, mesmo ao chegar ao final da temporada,

[00:50:54] não ia ser fácil decidir

[00:50:55] entre o que é ciência

[00:50:56] e o que é pseudociência quântica.

[00:50:59] Mas, pelo menos,

[00:51:00] a gente espera que esses episódios

[00:51:01] tenham servido para aguçar sua curiosidade

[00:51:04] e para mostrar que, muitas vezes,

[00:51:06] a ciência pode ser ainda mais fantástica

[00:51:08] e fascinante do que as promessas

[00:51:10] da pseudociência.

[00:51:12] Antes de terminar,

[00:51:19] a gente gostaria de deixar um agradecimento especial

[00:51:22] ao Marcelo Terracunha

[00:51:23] pelo apoio de primeira hora ao projeto.

[00:51:26] Agradecemos também a Miriam Quadros

[00:51:28] pelo feedback detalhado

[00:51:30] nas primeiras etapas do podcast

[00:51:31] e à equipe do podcast Ciência Suja,

[00:51:34] que acompanhou a gente ao longo

[00:51:35] de toda a nossa trajetória.

[00:51:38] A gente agradece também aos nossos entrevistados,

[00:51:40] que foram tão importantes

[00:51:41] para dar forma ao conteúdo que nós fizemos.

[00:51:42] E, por último, a gente gostaria de agradecer

[00:51:42] ao conteúdo dessa temporada

[00:51:43] e aos nossos financiadores, o CNPq,

[00:51:46] e, em particular, o professor Sebastião Padua,

[00:51:49] que é coordenador do projeto de pesquisa

[00:51:51] ao qual o podcast está vinculado

[00:51:53] e ao cluster de excelência ML4Q.

[00:51:56] E, acima de tudo,

[00:51:57] a gente agradece a você, ouvinte,

[00:51:59] que é o motivo principal desse projeto existir.

[00:52:02] Ao longo do projeto,

[00:52:03] a gente tomou bastante cuidado

[00:52:05] para que os conceitos científicos

[00:52:06] fossem passados da maneira mais precisa possível.

[00:52:10] Mas todo o trabalho de divulgação científica

[00:52:12] existe em um projeto de pesquisa.

[00:52:12] Exige alguma simplificação.

[00:52:14] E alguns elementos importantes

[00:52:16] dos conceitos científicos

[00:52:18] podem acabar ficando de fora.

[00:52:20] Então, no nosso site

[00:52:21] www.ufsm.br

[00:52:25] barra o quequântico

[00:52:26] a gente vai deixar alguns complementos

[00:52:29] para esclarecer mais

[00:52:30] algumas das ideias que a gente trouxe aqui.

[00:52:32] E, se quiser deixar algum comentário

[00:52:34] para a gente, você pode entrar em contato

[00:52:36] pelo e-mail oquequântico

[00:52:38] arroba gmail.com

[00:52:40] ou pelo Instagram

[00:52:41] arroba oquequântico

[00:52:42] arroba oquequântico

[00:52:43] arroba oquequântico

[00:53:12] arroba oquequântico

[00:53:13] e o segredo de 2006.

[00:53:16] No material extra do site

[00:53:18] você encontra referências

[00:53:20] para os artigos que a gente citou aqui

[00:53:22] junto com a transcrição do episódio

[00:53:24] e a tradução para o inglês.

[00:53:26] Se você gostou do episódio

[00:53:27] você pode ajudar a gente

[00:53:29] recomendando o podcast para aquele amigo ou amiga

[00:53:31] que se interessa pelo tema.

[00:53:33] E não deixe de avaliar o podcast

[00:53:35] na sua plataforma de podcast favorita.

[00:53:38] O Quequântico é apresentado por mim

[00:53:40] Luciane Troilib pela Glaucia Murta

[00:53:42] e pelo Leonardo Guerini.

[00:53:44] Além de nós três, a Samara Vobeto

[00:53:46] e o Vitor Zucolo

[00:53:47] completam o time de produtores do podcast.

[00:53:50] O roteiro do episódio

[00:53:52] é do Leonardo Guerini e da Glaucia Murta

[00:53:54] com contribuições minhas

[00:53:56] e da Samara Vobeto.

[00:53:58] A idealização do projeto

[00:53:59] é do Leonardo Guerini e da Glaucia Murta.

[00:54:02] A consultoria de roteiro

[00:54:04] é feita pela equipe do podcast

[00:54:06] Ciência Suja.

[00:54:07] A edição de som é do Leonardo Guerini

[00:54:10] a mixagem é do Felipe Borrego

[00:54:12] o suporte de gravação

[00:54:14] é do Pablo Juan

[00:54:15] a música original é do Pedro Leal Davi

[00:54:18] e a identidade visual

[00:54:19] e as ilustrações de capa são do Augusto Zambonato.

[00:54:23] Quem cuida das nossas

[00:54:24] mídias sociais é a Milene Eichelberger

[00:54:26] e o nosso site

[00:54:28] foi desenvolvido pelo Daniel Carli.

[00:54:31] O Quequântico

[00:54:32] é produzido dentro das universidades públicas.

[00:54:35] A gente contou com o apoio

[00:54:36] de diversos funcionários das nossas instituições

[00:54:39] que contribuíram para que

[00:54:40] o podcast chegasse ao seu formato

[00:54:42] final. Nós agradecemos

[00:54:43] o apoio financeiro do Conselho Nacional

[00:54:46] de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

[00:54:48] o CNPq

[00:54:49] e do Cluster de Excelência

[00:54:51] Matter and Light for Quantum Computing

[00:54:53] da Alemanha e o suporte

[00:54:55] à infraestrutura da Heinrich Heine

[00:54:57] Universität Düsseldorf e das

[00:54:59] Rádios da Universidade Federal de Santa Maria.

[00:55:12] A gente se vê no próximo episódio.

[00:55:42] Tchau, tchau.

[00:56:12] Tchau, tchau.

[00:56:42] Tchau, tchau.