Cinco provas da existência de Deus


Resumo

Este episódio apresenta uma exploração filosófica das cinco provas ou ‘vias’ desenvolvidas por Tomás de Aquino para demonstrar racionalmente a existência de Deus. O apresentador contextualiza a discussão dentro do método da disputa medieval, um estilo de debate estruturado com um opositor imaginário, destacando que a filosofia aborda questões como a religião com rigor e reflexão, distante das emoções e do senso comum.

A primeira parte do episódio é dedicada a preparar o terreno, analisando três questões preliminares que Tomás de Aquino aborda: se a existência de Deus é auto-evidente, se podemos torná-la evidente e, finalmente, se Deus de fato existe. O apresentador detalha as objeções do opositor imaginário e as respostas de Tomás de Aquino, rejeitando a ideia de que a consciência de Deus é inata ou que sua existência é auto-evidente para todos. Em vez disso, argumenta-se que a proposição ‘Deus existe’ pode ser tornada evidente através de seus efeitos no mundo.

A segunda parte aprofunda a segunda questão, sobre a possibilidade de demonstrar a existência de Deus. Novamente, seguindo a estrutura da disputa, são apresentadas as objeções do opositor (como a ideia de que a existência de Deus é apenas um artigo de fé e que os efeitos limitados não podem medir uma causa ilimitada) e as respostas de Tomás de Aquino. Ele defende que é possível uma demonstração ‘a posteriori’, partindo dos efeitos (a criação) para a causa (Deus), mesmo sem uma definição completa da essência divina.

O episódio é interrompido por uma pausa musical (a abertura de ‘Die Jahreszeiten’ de Haydn) antes de prosseguir para a apresentação das cinco vias propriamente ditas, prometendo uma discussão complexa e de alto nível. O apresentador também faz um apelo aos ouvintes para apoiarem o podcast, que é mantido sem patrocínios, destacando a importância do suporte da comunidade para a continuidade e melhoria do trabalho.


Indicações

Music

  • Die Jahreszeiten (As Estações) — Obra do compositor austríaco Franz Josef Haydn, cuja abertura é tocada durante a pausa musical do episódio para revigorar a concentração dos ouvintes.

People

  • Tomás de Aquino — Filósofo e teólogo medieval do século XIII, autor das ‘Cinco Vias’ ou provas da existência de Deus, discutidas em detalhe ao longo do episódio.
  • Santo Anselmo de Aosta — Mencionado como o formulador do argumento ontológico, que Tomás de Aquino critica e cita através de seu ‘opositor imaginário’.
  • Aristóteles — Referenciado por Tomás de Aquino em sua discussão sobre proposições auto-evidentes e os primeiros princípios da demonstração.
  • João Damasceno — Apologista cristão citado pelo ‘opositor imaginário’ para defender a ideia de uma consciência inata de Deus e também a teologia negativa (saber o que Deus não é).
  • Boécio — Filósofo medieval citado por Tomás de Aquino para sustentar que certas noções são auto-evidentes apenas para os estudados.

Works

  • Suma Teológica — Obra magna de Tomás de Aquino, onde as ‘Cinco Vias’ são apresentadas. O episódio analisa a estrutura da disputa contida nela.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução ao tema e ao método filosófico — O episódio inicia apresentando o tema das cinco provas filosóficas da existência de Deus. É estabelecido que a filosofia, diferentemente do senso comum, discute tudo, incluindo religião, mas com calma e reflexão, afastando-se de emoções. O objetivo é mostrar que a existência de Deus é uma questão de razão, não apenas de crença, seguindo os argumentos de Tomás de Aquino.
  • 00:02:29Apelo de apoio ao podcast e contexto de produção — O apresentador faz uma pausa no tema principal para falar sobre a sustentação do podcast. Ele explica que o Filosofia Vermelha não tem patrocinadores e não recebe renda do Spotify, dependendo inteiramente de apoiadores. É feito um convite para os ouvintes contribuírem através da plataforma Apoia-se ou se inscreverem em cursos, visando manter a regularidade e a qualidade da produção.
  • 00:06:16Contexto histórico e obra de Tomás de Aquino — É apresentada uma breve biografia de Tomás de Aquino, filósofo medieval do século XIII, destacando sua prolífica produção escrita (cerca de 8,5 milhões de palavras) e sua morte prematura. É explicado que as ‘cinco provas’ são, na verdade, as ‘cinco vias’ apresentadas dentro do gênero literário da ‘disputa’ medieval, um debate estruturado com um opositor imaginário.
  • 00:08:34A primeira questão: É auto-evidente que Deus existe? — Tomás de Aquino estrutura a questão em três artigos. O primeiro pergunta se a existência de Deus é auto-evidente. O opositor imaginário apresenta três argumentos a favor (consciência inata, argumento ontológico de Anselmo e a existência da verdade). Tomás de Aquino rebate, argumentando que não é auto-evidente, pois ateus existem, e que a proposição só é auto-evidente em si mesma, mas não para nós, que não compreendemos plenamente o termo ‘Deus’.
  • 00:17:36A segunda questão: Podemos tornar evidente que Deus existe? — O segundo artigo aborda se é possível demonstrar racionalmente a existência de Deus. O opositor argumenta que é um artigo de fé, que falta uma definição de Deus e que os efeitos limitados não podem provar uma causa ilimitada. Tomás de Aquino responde citando Romanos 1:20, defendendo a demonstração ‘a posteriori’ (do efeito para a causa). Ele distingue entre conhecer ‘que’ algo existe e ‘o que’ algo é, afirmando que os efeitos são suficientes para provar a existência da causa.
  • 00:24:06Pausa musical e preparação para as cinco vias — O apresentador anuncia uma pausa musical com a abertura de ‘Die Jahreszeiten’ (As Estações) de Haydn, para que os ouvintes absorvam o conteúdo complexo apresentado até então e revigorem a concentração para a parte final do episódio, que promete apresentar as cinco provas (vias) da existência de Deus.

Dados do Episódio

  • Podcast: Filosofia Vermelha
  • Autor: Glauber Ataide
  • Categoria: Society & Culture Philosophy
  • Publicado: 2024-06-10T08:00:53Z
  • Duração: 00:39:17

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Olá, amigos e amigas do Saber!

[00:00:03] Neste episódio de hoje, vamos apresentar cinco provas filosóficas para a existência de Deus.

[00:00:10] O senso comum afirma que gosto, religião ou política não se discute, mas isso não se aplica à filosofia.

[00:00:19] Nada escapa da crítica filosófica.

[00:00:23] De modo que, na filosofia, nós discutimos o gosto em uma disciplina chamada estética,

[00:00:29] nós discutimos a religião na filosofia da religião e discutimos a política na filosofia política.

[00:00:37] Tudo é discutido na filosofia, mas, por discussão aqui, nós não entendemos o que geralmente vemos em nosso cotidiano ou na internet,

[00:00:47] tais como gritaria, ânimos acirrados, lacração e frases curtas de efeito.

[00:00:54] Discussão na filosofia exige calma, reflexão.

[00:00:59] Discussão nos ares puros, no alto de uma montanha, como Nietzsche gostava de se expressar,

[00:01:04] e a menor interferência possível dos afetos e emoções.

[00:01:09] Porque afetos e emoções mais perturbam nossa razão e o pensar equilibrado do que ajudam.

[00:01:16] Por isso, nós vamos mostrar neste episódio que a existência de Deus na filosofia não é questão de crença, mas de razão.

[00:01:25] O filósofo medieval Tomás de Aquino,

[00:01:29] desenvolveu cinco argumentos para mostrar que é possível concluir racionalmente que Deus existe,

[00:01:36] e isso a partir do mundo que conhecemos.

[00:01:40] Se você acredita que Deus existe ou não, isso pouco importa para nós aqui.

[00:01:45] O único pré-requisito para ouvir este episódio é que você queira aprofundar seu conhecimento e, ao mesmo tempo,

[00:01:53] queira se elevar acima do senso comum sobre este tipo de questão.

[00:01:59] Para aqueles que já acreditam em Deus, tais formulações de Tomás de Aquino podem dar uma fundamentação racional à sua fé.

[00:02:08] Agora, para aqueles que não acreditam, os argumentos de Tomás de Aquino exigirão uma sofisticação intelectual maior e mais rigorosa para sustentar o seu ateísmo.

[00:02:21] Então, vamos lá, acompanhem.

[00:02:29] Antes de iniciar, eu gostaria de falar algo importante com vocês.

[00:02:40] Nós iniciamos este podcast no ano de 2020 e, desde então, já publicamos aproximadamente 90 episódios.

[00:02:49] Agora, a regularidade praticamente infalível com que nós publicamos novos episódios a cada 15 dias

[00:02:56] pode, às vezes, passar a impressionar.

[00:02:59] Eu tenho a impressão de que este ciclo é quase como um fenômeno da natureza,

[00:03:04] como se fosse o sol que se levanta e se põe todos os dias, a chuva que cai do céu ou as flores que crescem na primavera.

[00:03:13] Mas não é bem assim.

[00:03:15] Novos episódios aqui no podcast não dão em árvores.

[00:03:19] Produzir estes episódios exige não somente o tempo de produção de cada um em particular,

[00:03:25] o que envolve pesquisa, escrita, gravação…

[00:03:29] mas também vários anos de estudo na universidade, obtendo uma formação acadêmica em filosofia

[00:03:36] e também, literalmente, milhares de outras horas de estudo para trazer este conteúdo a você com a qualidade que fazemos.

[00:03:46] Manter um trabalho assim ao longo dos anos não é fácil.

[00:03:49] Às vezes, eu mesmo encontro podcasts interessantes no Spotify, cuja última publicação foi há vários anos atrás.

[00:03:57] O que revela algo que eu não conhecia.

[00:03:58] O que revela algo que eu não conhecia.

[00:03:58] O que revela algo que eu não conhecia.

[00:03:58] Algo que eu também sinto na pele.

[00:04:01] Não é fácil manter um podcast com regularidade e por anos a fio.

[00:04:06] Principalmente quando o podcast não é, pelo menos, autossustentável.

[00:04:11] O podcast Filosofia Vermelha não tem patrocinadores e nem recebemos um salário de algum capitalista para fazer o que fazemos.

[00:04:19] O valor que nós recebemos do Spotify pelos milhares de streams que nós obtemos nesta plataforma é igual a…

[00:04:28] Nós recebemos zero reais por tudo que nós produzimos aqui no Spotify.

[00:04:36] O que é que sustenta, então, este podcast?

[00:04:38] Este trabalho só é viável devido aos nossos apoiadores, aos quais eu expresso aqui a minha mais profunda gratidão.

[00:04:46] Nós gostaríamos de citar o nome de cada um de vocês neste momento, mas isso não é possível em um episódio de podcast.

[00:04:53] Então, é por isso que, pela primeira vez em tantos anos, eu gostaria de…

[00:04:58] As nossas estatísticas nos mostram que menos de 5% dos nossos inscritos já contribuíram com a manutenção deste podcast.

[00:05:09] Revelando que nós ainda temos muito potencial para crescer e melhorar este trabalho.

[00:05:16] Este podcast poderia ser semanal se eu tivesse condições para isso.

[00:05:20] E também poderíamos produzir mais cursos a fim de aprofundarmos em questões específicas da filosofia.

[00:05:27] Mas nas atuais…

[00:05:28] Condições, talvez tenhamos que publicar apenas um episódio por mês, ao invés de dois, como fazemos agora.

[00:05:35] Por isso, eu quero convidar você a se inscrever em um de nossos cursos de filosofia

[00:05:40] e também a se tornar um apoiador regular de nosso trabalho através da plataforma Apoia-se.

[00:05:47] Nós reformulamos recentemente o sistema de recompensas nesta plataforma

[00:05:52] e agora você pode obter conteúdo exclusivo dependendo da sua faixa de apoio.

[00:05:57] Os links…

[00:05:58] Links para os nossos cursos de filosofia e também para o Apoia-se estão na descrição deste episódio

[00:06:04] ou então em nosso site www.filosofiaepsicanalise.org

[00:06:10] Voltemos então ao nosso tema, 5 provas da existência de Deus.

[00:06:16] Inicialmente, uma breve palavra sobre Tomás de Aquino.

[00:06:20] Tomás de Aquino foi um filósofo medieval do século XIII, nascido em 1224 ou 1225.

[00:06:28] A data é incerta e falecido antes de completar 50 anos de idade, em 1274.

[00:06:37] Morreu relativamente novo, mesmo considerando as condições da época.

[00:06:43] Ele foi também um escritor prolífico.

[00:06:46] Sua obra contém aproximadamente 8,5 milhões de palavras,

[00:06:51] o que significa que ele deve ter escrito cerca de 1.190 palavras por dia,

[00:06:58] num período de 20 anos.

[00:07:01] E sua morte foi repentina.

[00:07:03] E especula-se que provavelmente foi causada pelo cansaço e pelo excesso de trabalho.

[00:07:10] Trabalho este que figura entre o que de melhor o pensamento medieval produziu.

[00:07:16] Agora, aquilo que é popularmente conhecido como as 5 provas da existência de Deus,

[00:07:22] inclusive é o nome deste episódio,

[00:07:24] na verdade tem o nome de 5 vias,

[00:07:27] na obra de Tomás de Aquino.

[00:07:29] E essas 5 vias são apresentadas em meio a uma disputa mais geral sobre a existência de Deus,

[00:07:36] a qual vamos apresentar inicialmente a fim de preparar a compreensão para as 5 vias,

[00:07:42] o que virá na segunda parte deste episódio.

[00:07:46] Percebam que nós acabamos de afirmar que essas 5 vias são apresentadas em meio a uma disputa.

[00:07:52] Essa palavra aqui não é inocente, não está aqui por acaso.

[00:07:56] Quando usamos o termo inocente, não é inocente.

[00:07:57] Quando usamos o termo disputa,

[00:07:58] nós estamos nos referindo a um estilo particular de escrita muito comum na Idade Média.

[00:08:05] E é um estilo no qual discute-se algo com o opositor imaginário,

[00:08:10] seguindo uma estrutura específica de debate.

[00:08:13] A disputa não é exatamente como um diálogo platônico,

[00:08:17] porque falta aqui o elemento coloquial e o drama,

[00:08:20] mas se aproxima deste no sentido de que diversas objeções são levantadas

[00:08:27] e todas devem ser respondidas.

[00:08:29] Tomás de Aquino divide a questão da existência de Deus em 3 partes a saber.

[00:08:34] Primeiro, se é auto-evidente que Deus existe.

[00:08:39] Segundo, se nós podemos tornar evidente que Deus existe.

[00:08:45] E terceiro, se Deus de fato existe.

[00:08:48] Então, Tomás de Aquino vai responder a estas 3 questões em 3 artigos.

[00:08:54] Então, vejam só.

[00:08:57] É apresentada a tese de que parece auto-evidente que Deus existe

[00:09:02] e que não é, então, possível demonstrar sua existência.

[00:09:06] Isso é até parte do senso comum.

[00:09:08] Muita gente afirma que todo mundo sabe que Deus existe.

[00:09:13] Muita gente pensa que é auto-evidente.

[00:09:15] Para que provar que Deus existe?

[00:09:17] Mas vejam só, a questão não é bem assim.

[00:09:19] Mas vejam outra coisa também importante.

[00:09:22] O que nós vamos apresentar agora, inicialmente, é um opositor imaginário.

[00:09:27] O opositor imaginário de Tomás de Aquino.

[00:09:28] E não exatamente o que ele pretende defender.

[00:09:31] Então, primeiro, vejam só o que esse opositor imaginário vai afirmar.

[00:09:35] E depois vai ter a resposta de Tomás de Aquino.

[00:09:38] É isso que a gente falou que é o estilo da disputa.

[00:09:41] Então, vejam só.

[00:09:41] Em primeiro lugar, nós chamamos de auto-evidente

[00:09:45] aquilo do qual temos consciência de maneira inata.

[00:09:50] Segundo o apologista cristão João Damasceno,

[00:09:53] a consciência de que Deus existe está implantada

[00:09:57] por natureza em cada um de nós.

[00:09:59] De onde podemos concluir que é auto-evidente que Deus existe.

[00:10:04] Primeiro ponto.

[00:10:05] Segundo ponto.

[00:10:06] Proposições são chamadas auto-evidentes

[00:10:09] quando nós as reconhecemos tão logo sabemos

[00:10:13] o que os seus termos significam.

[00:10:15] O que seria, segundo Aristóteles,

[00:10:17] uma característica dos primeiros princípios de uma demonstração.

[00:10:22] Uma vez que a gente entende o que a palavra Deus significa,

[00:10:27] disso se segue que Deus existe.

[00:10:29] Porque essa palavra Deus significa

[00:10:32] aquilo do qual nada maior pode ser significado.

[00:10:37] É a formulação um pouco complexa,

[00:10:39] mas depois a gente vai explicar um pouco melhor.

[00:10:41] Mas vejam só.

[00:10:42] A ideia do adversário imaginário de Tomás de Aquino é o seguinte.

[00:10:47] Considerando que existir em pensamento e em realidade

[00:10:51] é maior do que existir apenas em pensamento.

[00:10:55] E tendo em vista que,

[00:10:56] uma vez,

[00:10:57] que entendemos a palavra Deus existe em pensamento,

[00:11:01] a gente tem que concluir que Deus também existe de fato.

[00:11:05] De modo que é auto-evidente que Deus existe.

[00:11:09] Agora, vamos observar que, neste ponto,

[00:11:11] Tomás de Aquino está fazendo referência ao argumento ontológico

[00:11:16] de Santo Anselmo de Aosta,

[00:11:18] mas com uma pequena diferença em sua formulação.

[00:11:21] O Santo Anselmo nos pedia para imaginar um ser

[00:11:25] do qual nada maior pode ser pensado.

[00:11:27] De modo que a formulação de Santo Anselmo

[00:11:31] não foi fielmente reproduzida por Tomás de Aquino nessa passagem.

[00:11:35] O opositor imaginário também afirma o seguinte.

[00:11:38] Olha, a gente ainda poderia acrescentar que

[00:11:41] a verdade é auto-evidente,

[00:11:44] porque a negação de tal afirmação já é uma admissão de sua validade.

[00:11:50] Vejam só que interessante.

[00:11:51] Se a verdade não existe,

[00:11:54] então é verdadeira a afirmação,

[00:11:56] de que a verdade não existe.

[00:11:58] E se existe algo que é verdadeiro,

[00:12:01] como essa afirmação,

[00:12:02] então a verdade existe.

[00:12:05] E tendo em vista que Jesus afirmou que ele é o caminho

[00:12:08] à verdade e à vida,

[00:12:11] conclui-se então que é auto-evidente que Deus existe.

[00:12:15] Então, a existência da verdade

[00:12:17] seria uma prova da existência de Deus.

[00:12:20] Então, o que apresentamos até agora nesses três pontos

[00:12:23] foram as observações ou a tese,

[00:12:26] do opositor imaginário de Tomás de Aquino.

[00:12:30] Então, agora é a vez de Tomás de Aquino

[00:12:32] rebater estes três pontos apresentados.

[00:12:36] Quanto à primeira afirmação sobre as proposições auto-evidentes,

[00:12:42] Tomás de Aquino afirma que, segundo Aristóteles,

[00:12:45] ninguém pode pensar o contrário de uma proposição auto-evidente.

[00:12:50] Mas é possível pensar o contrário da afirmação

[00:12:53] Deus existe, não é?

[00:12:55] Há vários ateus no mundo,

[00:12:56] que afirmam que Deus não existe.

[00:13:00] Isso nos permite concluir que

[00:13:01] não é auto-evidente que Deus existe.

[00:13:05] Tomás de Aquino também vai afirmar que

[00:13:07] uma proposição auto-evidente

[00:13:10] é auto-evidente em si mesma.

[00:13:14] Mas isso não significa que ela seja auto-evidente

[00:13:17] para todas as pessoas ou o tempo todo.

[00:13:21] Porque, vejam bem,

[00:13:22] para compreender uma proposição,

[00:13:24] é necessário saber o que as suas propostas

[00:13:26] ou partes, sujeito e predicado, significam.

[00:13:30] De modo que o filósofo medieval Boércio tem razão

[00:13:34] quando afirma que certas noções são auto-evidentes

[00:13:38] apenas para os estudados.

[00:13:40] Uma proposição pode ser auto-evidente

[00:13:43] desde que se saiba o que ela está dizendo.

[00:13:47] De modo que, se ela faz uso de termos

[00:13:50] que não sabemos o que significam,

[00:13:52] ela não pode ser auto-evidente para todo mundo.

[00:13:55] Isso nos leva a uma conclusão muito importante.

[00:13:56] Isso nos leva a uma conclusão muito importante. Isso nos leva a uma conclusão muito importante.

[00:13:56] Isso nos leva a uma conclusão muito importante.

[00:13:57] Então, a conclusão de que a proposição

[00:13:59] Deus existe é auto-evidente em si mesma,

[00:14:03] porque nela sujeito e predicado,

[00:14:06] ou seja, Deus e existência são o mesmo,

[00:14:09] mas esta proposição não é auto-evidente para nós.

[00:14:14] Porque o significado de uma parte dessa proposição,

[00:14:18] a saber, Deus, não é auto-evidente para nós.

[00:14:21] Por essa razão, nós precisamos tornar tal proposição evidente

[00:14:26] a partir de coisas que são menos evidentes em si mesmas,

[00:14:32] mas coisas que são evidentes para nós,

[00:14:35] a saber, os efeitos de Deus.

[00:14:37] Nós podemos, então, resumir as respostas a essas objeções

[00:14:42] do primeiro artigo de Tomás de Aquino nessa sessão

[00:14:45] da seguinte maneira.

[00:14:47] Primeiro, Tomás de Aquino rebate dizendo que

[00:14:49] a consciência de que Deus existe

[00:14:52] não é implantada em nós de maneira clara ou específica.

[00:14:57] O ser humano tem consciência do que ele deseja,

[00:15:01] mas isso não significa que ele tem consciência da existência de Deus.

[00:15:06] Por exemplo, quando nós sentimos que uma pessoa está se aproximando por trás,

[00:15:12] nós não podemos dizer que esta pessoa é Pedro,

[00:15:16] mesmo se de fato for Pedro que estiver se aproximando.

[00:15:19] Nós só saberemos quem esta pessoa é

[00:15:22] após uma confirmação visual ou auditiva,

[00:15:26] mas não podemos dizer que ela é Pedro.

[00:15:26] mas o mero pressentimento de uma aproximação ainda não nos diz quem a pessoa é em particular.

[00:15:34] Poderia ser Maria, Tiago, João ou qualquer outro indivíduo.

[00:15:39] Então, de forma semelhante, todos querem a felicidade ou o bem perfeito,

[00:15:45] mas muitos indivíduos acreditam que estes residem nas riquezas ou nos prazeres,

[00:15:52] de modo que não há uma relação clara entre o sumo bem que todo ser humano deseja e o próprio Deus.

[00:16:00] O ponto mais importante aqui é o seguinte.

[00:16:03] Para Tomás de Aquino, o ser humano não tem uma consciência inata da existência de Deus.

[00:16:10] No segundo ponto deste nosso resumo é o seguinte.

[00:16:13] Nem todo mundo entende o que a palavra Deus significa.

[00:16:18] A definição de que Deus seria o ser do qual,

[00:16:21] nada maior pode ser pensado, não é clara para a maioria das pessoas.

[00:16:27] E, em algumas religiões, Deus é até mesmo pensado como possuindo um corpo.

[00:16:33] E mesmo que a palavra Deus, de fato, fosse geralmente reconhecida como possuindo este significado,

[00:16:41] isso não daria razão ao argumento ontológico de Anselmo de Aosta

[00:16:45] conferindo existência factual a Deus, mas tão somente no pensamento.

[00:16:51] E quanto ao terceiro ponto, falando sobre a existência da verdade,

[00:16:57] Tomás de Aquino afirma que

[00:16:58] é auto-evidente que a verdade existe de forma geral,

[00:17:03] mas não é auto-evidente que exista uma primeira verdade.

[00:17:09] E, com isso, nós encerramos o primeiro artigo no qual Tomás de Aquino tenta responder a questão

[00:17:15] se é auto-evidente que Deus existe.

[00:17:17] Nós apresentamos, inicialmente, três questões.

[00:17:21] A primeira foi…

[00:17:21] Se é auto-evidente que Deus existe.

[00:17:25] Nós ainda temos duas.

[00:17:27] Se podemos tornar evidente que Deus existe e se Deus, de fato, existe.

[00:17:32] Agora, nós vamos passar para a segunda dessas questões.

[00:17:36] Se nós podemos tornar evidente que Deus existe.

[00:17:40] E, nisso, ele vai fazer em seu segundo artigo.

[00:17:43] Então, seguindo o modelo da disputa medieval,

[00:17:46] quem começa falando no segundo artigo é o opositor imaginário de Tomás de Aquino.

[00:17:51] E ele começa falando o seguinte, expondo o seu ponto em três questões.

[00:17:57] Primeiro, considerando que a existência de Deus é um artigo de fé

[00:18:02] e tendo em vista que a fé se ocupa daquilo que não se pode ver,

[00:18:08] conclui-se que a existência de Deus não pode ser demonstrada racionalmente.

[00:18:14] Vejam só, Tomás de Aquino quer provar o contrário depois,

[00:18:18] que é possível provar racionalmente que Deus existe.

[00:18:22] Mas o seu opositor imaginário está dizendo que não.

[00:18:25] Está dizendo que a existência de Deus é um artigo de fé

[00:18:28] e a fé se ocupa daquilo que não se pode ver.

[00:18:32] Primeiro ponto do opositor imaginário.

[00:18:35] Segundo ponto, para se demonstrar alguma coisa,

[00:18:39] é necessário antes ter uma definição.

[00:18:42] Mas, como também o João Damasceno, o antigo apologista cristão, afirmava,

[00:18:47] nós não podemos saber o que Deus é,

[00:18:51] mas o que Ele não é, o que é também chamado de teologia negativa.

[00:18:57] E terceiro ponto.

[00:18:59] Além disso, se fosse possível demonstrar que Deus existe,

[00:19:03] isso seria unicamente argumentando através de seus efeitos,

[00:19:09] das coisas que Deus fez.

[00:19:11] Agora, Deus e seus efeitos são imensuráveis.

[00:19:16] Deus é ilimitado e seus efeitos são limitados.

[00:19:21] Só que…

[00:19:21] Só que…

[00:19:21] O limitado não é capaz de medir o ilimitado.

[00:19:25] De modo que não é possível demonstrar que Deus existe.

[00:19:30] Agora, então, é a vez de Tomás de Aquino rebater estes três pontos.

[00:19:35] E em seu apoio, ele cita uma passagem bíblica, Romanos 1, 20,

[00:19:40] dizendo que as coisas ocultas de Deus podem ser claramente compreendidas

[00:19:45] através das coisas que Ele criou.

[00:19:47] E, sendo assim, isso nos possibilita demonstrar que,

[00:19:51] Deus existe a partir das coisas feitas por Ele.

[00:19:55] Porque o primeiro passo para compreender uma coisa

[00:19:58] é saber justamente que ela existe.

[00:20:01] Agora, sobre não ser possível demonstrar que Deus existe,

[00:20:05] Tomás de Aquino afirma que há dois tipos de demonstração.

[00:20:11] Aquelas que argumentam a partir da causa para o efeito,

[00:20:16] mostrando a ordem natural das coisas em si mesmos

[00:20:19] e por que as coisas são claras.

[00:20:21] São como são.

[00:20:22] E aquelas que argumentam ao contrário, do efeito para a causa,

[00:20:27] seguindo a ordem na qual nós conhecemos as coisas.

[00:20:30] Isso vai simplesmente mostrar como as coisas são.

[00:20:34] Não exatamente o porquê, mas o como.

[00:20:37] Agora, quando os efeitos são mais aparentes do que a sua causa,

[00:20:41] então nós conhecemos a causa através de seus efeitos.

[00:20:45] Agora, qualquer efeito que conhecemos melhor do que a sua causa,

[00:20:51] pode demonstrar que sua causa existe,

[00:20:54] porque efeitos dependem de suas causas

[00:20:57] e só podem ocorrer se suas causas já existem.

[00:21:02] E disso, então, nós podemos concluir que,

[00:21:04] a partir de efeitos que são evidentes para nós,

[00:21:08] nós podemos demonstrar algo que não é auto-evidente para nós

[00:21:14] a saber que Deus existe.

[00:21:15] Vamos, então, resumir as réplicas de Tomás de Aquino neste segundo artigo.

[00:21:20] Primeiro, quanto àquela primeira tese,

[00:21:24] a qual afirmava que a crença em Deus é apenas um artigo de fé,

[00:21:28] Tomás de Aquino afirma que as verdades que podemos conhecer sobre Deus

[00:21:33] através da razão, como a sua existência, por exemplo,

[00:21:37] não são artigos de fé, mas são pressupostos por estes.

[00:21:43] Agora, isso não impede que um indivíduo aceite unicamente através da fé

[00:21:49] algo que pode ser definido como um artigo de fé.

[00:21:50] Isso pode ser demonstrado também através da razão.

[00:21:53] Este é o caso da maioria daqueles que acreditam em Deus,

[00:21:57] os quais nem mesmo suspeitam que seja possível demonstrar filosoficamente

[00:22:02] que Deus existe, como estamos fazendo agora neste episódio.

[00:22:06] Você pode perguntar para a maioria dos cristãos fiéis evangélicos que você conhece.

[00:22:12] A maioria não tem a menor ideia que existem provas filosóficas da existência de Deus.

[00:22:19] Então, eles aceitam.

[00:22:20] Eles aceitam por fé, o que, na verdade, pode ser demonstrado também através da razão,

[00:22:25] segundo Tomás de Aquino.

[00:22:27] Agora, quanto à segunda afirmação do oponente imaginário de Tomás de Aquino,

[00:22:32] afirmação que dizia que precisamos de uma definição do que Deus é

[00:22:37] antes de demonstrar sua existência,

[00:22:40] Tomás de Aquino afirma que o significado da palavra Deus deriva de seus efeitos.

[00:22:48] Quando argumentamos do efeito,

[00:22:50] o efeito tem que tomar o lugar de uma definição da causa

[00:22:55] na prova de que a causa existe,

[00:22:59] especialmente quando a causa em questão é o próprio Deus.

[00:23:03] Ao contrário daquela tese afirmada inicialmente,

[00:23:06] ao provar que alguma coisa existe,

[00:23:09] a ligação central não é o que a coisa é,

[00:23:13] porque nós não podemos nem mesmo perguntar o que ela é

[00:23:17] até sabermos se ela de fato existe.

[00:23:20] O que interessa, então, é o uso que fazemos do significado do nome da coisa.

[00:23:27] Logo, ao demonstrar que Deus existe a partir de seus efeitos,

[00:23:30] podemos, então, começar pelo significado da palavra Deus.

[00:23:36] E, por último, Tomás de Aquino responde ao terceiro ponto

[00:23:39] aquela tese sobre a comensurabilidade dos efeitos e da causa.

[00:23:45] Ele afirma que qualquer efeito pode deixar claro que uma causa existe,

[00:23:49] de modo que,

[00:23:50] os efeitos de Deus, portanto, são suficientes para provar sua existência,

[00:23:56] mesmo que estes não sejam suficientes para nos ajudar a compreender o que Ele é.

[00:24:03] Antes de prosseguirmos para o terceiro e último artigo,

[00:24:06] antes de apresentar as cinco provas da existência de Deus,

[00:24:10] nós vamos fazer a nossa clássica pausa musical

[00:24:13] a fim de que você absorva melhor o conteúdo exposto até agora

[00:24:17] e revigore a concentração para o restante.

[00:24:20] Eu sei que essa discussão é um pouco mais complexa,

[00:24:24] um pouco mais complicada,

[00:24:26] mas este é o nosso compromisso com você,

[00:24:29] trazer material de alto nível.

[00:24:32] Hoje nós vamos ouvir a abertura da obra

[00:24:34] Die Jahreszeiten,

[00:24:36] obra de Franz Josef Haydn,

[00:24:39] compositor austríaco da Viena Clássica,

[00:24:42] nascido em 1732 em Rohau, na Áustria,

[00:24:46] e falecido em 1809 em Viena.

[00:24:50] O título, a propósito, significa As Estações.

[00:25:20] O título, a propósito, significa As Estações.

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[00:25:48] Hino Nacional Brasileiro

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[00:39:12] Legenda Adriana Zanotto