Não se aprende filosofia


Resumo

O episódio parte da famosa formulação de Immanuel Kant — ‘não se aprende filosofia, só se aprende a filosofar’ — para argumentar que a filosofia é essencialmente uma prática, um fazer, e não um mero acúmulo de conhecimento. O host discute a diferença fundamental entre a filosofia como substantivo e o filosofar como verbo, uma ação que exige um posicionamento específico diante de questões teóricas.

São apresentadas qualidades fundamentais para quem aspira a filosofar, como a necessidade de evitar tomar partido dogmático por uma única escola de pensamento. O episódio critica a visão da filosofia como uma escolha de lado, usando o exemplo de um comentário que perguntou se o host deixaria de ser marxista para se tornar tomista após explicar as Cinco Vias de Tomás de Aquino. O verdadeiro filósofo, argumenta-se, busca compreender e dialogar com diferentes pensadores, usando ‘lentes’ diferentes para tarefas diferentes, assim como se usa óculos específicos para ler, usar o computador ou dirigir.

A discussão avança para a relação do filósofo com a verdade, citando Nietzsche sobre como a verdade nem sempre é agradável e Freud sobre nossa tendência a chamar de verdadeiro aquilo que nos satisfaz. O host critica a postura comum nas redes sociais de desqualificar argumentos com rótulos (como ‘materialista’ ou ‘burguês’) sem engajamento substantivo, uma atitude que busca manter crenças pré-estabelecidas com ‘boa consciência’. O episódio também distingue a discussão filosófica do ‘militantismo teórico’, defendendo que na filosofia não se entra com uma verdade pronta para impor, mas convivendo com a dúvida.

Por fim, são feitas reflexões sobre a natureza do podcast como meio que apela menos às emoções visuais e mais à razão, comparando-o com a apreciação da música erudita. O episódio conclui reforçando que a filosofia é uma prática acessível, que requer observação, autoexame, rigor lógico e abertura para dialogar com diferentes perspectivas, sem a pretensão de que uma única filosofia explique toda a complexidade da realidade.


Indicações

Cursos

  • Crítica da Religião: Feuerbach, Nietzsche e Freud — Curso do host que aborda a religião de maneira filosófica e crítica a partir de três obras fundamentais: ‘A Essência do Cristianismo’ (Feuerbach), ‘O Anticristo’ (Nietzsche) e ‘O Futuro de uma Ilusão’ (Freud). O curso promete explicar por que Feuerbach via a religião como uma antropologia invertida, por que Nietzsche dizia que o último cristão morreu na cruz e por que Freud a considerava uma ilusão.
  • Introdução à Filosofia: Dos Pré-Socráticos a Sartre — Curso que oferece uma visão panorâmica da história da filosofia, preparando o aluno para ter contato direto com textos dos próprios filósofos, e não apenas com comentários secundários.
  • Filosofia de Karl Marx: uma introdução — Curso que faz um recorte no que há de especificamente filosófico nas obras de Karl Marx.

Livros

  • Princípios de Filosofia, de René Descartes — Obra citada onde Descartes afirma que ‘uma nação é tanto mais civilizada e polida quanto melhor os seus homens filosofarem, e assim o maior bem de um Estado é possuir verdadeiros filósofos’.
  • O Anticristo, de Friedrich Nietzsche — Obra citada onde Nietzsche questiona a ideia de que a verdade produz necessariamente prazer, afirmando que para os espíritos mais profundos a experiência mostra o contrário.
  • História e Consciência de Classe, de Georg Lukács — Obra estudada pelo host durante a graduação, usada para analisar as Jornadas de Junho de 2013. Foi fundamental para sua formação e posteriormente para seu mestrado.

Pessoas

  • Vitor (autor do podcast História em Meia Hora) — Colega podcaster com quem o host conversou sobre as diferenças entre a produção de conteúdo para YouTube e para podcast.

Podcasts

  • História em Meia Hora (do Vitor) — Podcast fortemente recomendado pelo host. Em uma conversa com seu autor, Vitor, o host ouviu pela primeira vez insights sobre como algumas estratégias que funcionam no YouTube (como clickbaits) não funcionam bem para podcasts.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução: Kant e a diferença entre aprender filosofia e filosofar — O episódio inicia apresentando a tese central a partir de uma frase de Immanuel Kant: não se aprende filosofia, só se aprende a filosofar. É destacada a diferença fundamental entre a filosofia como substantivo (corpo de conhecimento) e o filosofar como verbo (ação, prática). O objetivo é mostrar que a filosofia é um fazer que exige um posicionamento específico para superar o senso comum.
  • 00:04:20Motivação: Comentários no YouTube e a importância da educação filosófica — O host explica que a discussão foi motivada por reações a um vídeo sobre as Cinco Vias de Tomás de Aquino no YouTube, que revelaram uma rara capacidade de compreensão e reflexão antes de opinar nas redes sociais. Isso ressalta a necessidade de trabalhos de educação filosófica, pois muitas pessoas trazem vícios de discussão inadmissíveis para a filosofia. É citada uma frase de Descartes sobre a importância dos filósofos para uma nação civilizada.
  • 00:06:02Diferenças entre podcast e YouTube: apelo visual vs. razão — É discutido o perfil diferente do público do podcast, considerado mais educado, e a teoria de que o podcast, assim como a música erudita, apela menos às emoções visuais e mais à razão. O host compara a apreciação de uma sinfonia de Beethoven (que requer esforço) com a contemplação instantânea de uma pintura, sugerindo que quem tem paciência para a música complexa pode ter mais facilidade com a filosofia abstrata.
  • 00:10:27A filosofia como prática, não acúmulo de conhecimento — Retomando o tema central, é afirmado que aprender filosofia não é acumular conhecimento, embora isso faça parte da atividade. O que caracteriza o filósofo é o amor à sabedoria e a busca constante. É criticada a visão da filosofia como ‘tomar partido’, ilustrada pela pergunta absurda de um comentarista se o host deixaria de ser marxista para se tornar tomista.
  • 00:13:44Analogia dos óculos: a necessidade de lentes diferentes — O host conta uma história pessoal sobre precisar de três óculos diferentes para dirigir, usar o computador e ler. Esta analogia serve para argumentar que o filósofo precisa de ‘lentes’ (perspectivas filosóficas) diferentes para analisar objetos diferentes, citando Aristóteles. Nenhuma filosofia sozinha explica toda a realidade complexa.
  • 00:16:06Exemplo acadêmico: analisando as Jornadas de Junho de 2013 — É relatada uma experiência na graduação onde os alunos deviam analisar as Jornadas de Junho de 2013 pela lente de um filósofo. O host escolheu Georg Lukács, o que foi fundamental para sua formação. No entanto, alguns colegas tiveram resultados ruins porque a filosofia escolhida tinha limites para explicar um evento social complexo, reforçando a ideia de que não se pode forçar o mundo a caber em categorias de um único pensador.
  • 00:24:11A verdade desagradável e a tendência a rejeitar o incômodo — É introduzida a lição de que a verdade nem sempre é agradável, com citações de Nietzsche e Freud. Discute-se a tendência humana de chamar de verdadeiro o que agrada e de falso o que desagrada. Isso se manifesta em discussões filosóficas quando as pessoas desqualificam argumentos com rótulos (ex: ‘isso é idealista’) sem engajar com eles, apenas para proteger suas crenças pré-estabelecidas.
  • 00:30:42A tarefa socrática de provocar e mostrar a ignorância — É afirmado que provocar o ‘homem comum’ e mostrar sua ignorância é uma tarefa do filósofo, assim como Sócrates fazia. O trabalho do Filosofia Vermelha, como ao apresentar as Cinco Vias de Tomás de Aquino, tem esse objetivo: promover a reflexão de alto nível, tanto para ateus quanto para teístas, e não promover uma crença específica.
  • 00:33:47Religião, metafísica e os limites da ciência — É discutida a relação entre filosofia e religião. Citando Hegel, argumenta-se que é fácil descartar a religião como ‘mística’, mas o difícil é ver nela seu ‘núcleo de verdade’. A ciência, que muitos ateus usam para refutar a religião, não lida com questões metafísicas, que são o domínio da filosofia. O próprio Papa Francisco aceita a evolução e o Big Bang, mostrando que a ciência não toca no essencial da religião.
  • 00:36:11Diferença entre filosofia e militantismo teórico — É feita uma distinção crucial entre militância política (necessária para transformar a sociedade) e ‘militantismo teórico’ na filosofia. Na filosofia, não se pode entrar em uma discussão já com uma verdade pronta para impor aos outros. O filósofo convive com a dúvida e não alcança certezas inquestionáveis duradouras. Transpor estratégias de argumentação política para a filosofia é um erro.

Dados do Episódio

  • Podcast: Filosofia Vermelha
  • Autor: Glauber Ataide
  • Categoria: Society & Culture Philosophy
  • Publicado: 2024-06-24T08:00:28Z
  • Duração: 00:39:42

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Olá, amigos e amigas do Saber!

[00:00:03] Neste episódio de hoje, vamos mostrar que filosofia não é algo que se aprende.

[00:00:10] Vejam, uma frase famosa do filósofo alemão Immanuel Kant afirma que não se aprende filosofia,

[00:00:18] só se aprende a filosofar.

[00:00:21] Perceba que há nessa formulação uma diferença fundamental entre a filosofia enquanto substantivo

[00:00:28] e o filosofar enquanto verbo, enquanto uma ação.

[00:00:33] Nós vamos tomar esta reflexão como ponto de partida para explicar um princípio fundamental

[00:00:39] expresso nessa formulação, a saber, que a filosofia é uma prática, um fazer,

[00:00:46] e não um mero acúmulo de um corpo de conhecimento.

[00:00:50] Nós vamos mostrar que fazer filosofia exige uma determinada forma de se posicionar

[00:00:57] diante de questões teóricas e intelectuais, e que, se quisermos superar o senso comum

[00:01:03] e avançar na compreensão do mundo e de nós mesmos, nós precisamos aprender como isso deve ser feito.

[00:01:12] Você pode se perguntar o que caracteriza um filósofo e como você pode se tornar um filósofo ou uma filósofa,

[00:01:19] e neste episódio nós vamos apresentar algumas das qualidades mais fundamentais

[00:01:25] sem as quais ninguém pode…

[00:01:27] Pode ser considerado um filósofo.

[00:01:29] Nada do que nós vamos mencionar exige dons especiais que estejam fora do seu alcance,

[00:01:35] mas tão somente sua observação e autoexame.

[00:01:39] Então vamos lá, acompanhem.

[00:01:54] Antes de iniciar, um breve recado.

[00:01:57] Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer a todos os nossos apoiadores

[00:02:02] que tornam este trabalho possível.

[00:02:05] Nas últimas semanas, tivemos um aumento significativo de novos apoiadores

[00:02:10] através da plataforma Apoia-se, mas ainda não alcançamos a nossa meta.

[00:02:16] Então seja você também um de nossos apoiadores.

[00:02:20] Mais informações você encontra no link na descrição deste episódio.

[00:02:24] O nosso segundo recado é sobre o meu mais novo curso,

[00:02:27] o curso Crítica da Religião, Feuerbach, Nietzsche e Freud.

[00:02:32] Neste curso abordamos a religião de maneira filosófica e crítica

[00:02:36] a partir de três obras fundamentais.

[00:02:39] A essência do cristianismo, de Feuerbach, o anticristo, de Nietzsche

[00:02:43] e o futuro de uma ilusão, de Freud.

[00:02:46] Este curso vai te fornecer as bases necessárias para compreender estas três obras

[00:02:51] e entre várias questões que vamos discutir,

[00:02:54] você vai compreender por que é que Feuerbach afirmava

[00:02:57] que a teologia ou a religião, de forma geral,

[00:03:00] não passa de uma antropologia invertida,

[00:03:03] por que Nietzsche achava que nunca existiu nenhum cristão,

[00:03:07] por que o último cristão morreu na cruz

[00:03:11] e por que Freud afirmava que a religião é uma ilusão.

[00:03:15] Mais informações você encontra no link que está na descrição deste episódio.

[00:03:20] E nosso último recado é que continuam abertas as inscrições para os nossos dois outros cursos,

[00:03:26] Introdução à Filosofia e Filosofia.

[00:03:27] Dos Pré-Socráticos a Sartre e a Filosofia de Karl Marx, uma introdução.

[00:03:32] Em nosso curso de Introdução à Filosofia, você terá uma visão panorâmica geral

[00:03:38] de toda a história da filosofia, começando dos Pré-Socráticos

[00:03:42] até alguns filósofos importantes do século XX.

[00:03:45] E o diferencial de nosso curso é que nós preparamos você

[00:03:48] para ter contato direto com alguns dos principais textos de toda a história da filosofia.

[00:03:54] Textos escritos pelos próprios filósofos,

[00:03:57] e não apenas comentários ou literatura secundária.

[00:04:01] E no curso de Introdução à Filosofia de Karl Marx,

[00:04:04] nós fazemos um recorte naquilo que há de especificamente filosófico nas obras de Marx.

[00:04:10] Os links estão todos na descrição deste episódio ou então em nosso site www.filosofiaepsicanalise.org.

[00:04:20] Voltemos então ao nosso tema, não se aprende filosofia.

[00:04:24] A ideia de trazer esta discussão

[00:04:27] neste episódio de hoje surgiu de alguns comentários em nosso canal no YouTube.

[00:04:32] É porque após publicarmos também lá sobre as cinco vias de Tomás de Aquino

[00:04:37] para demonstrar a existência de Deus, uma parte significativa das reações

[00:04:43] aos argumentos de Tomás de Aquino acabou nos mostrando que a capacidade de compreender

[00:04:49] e refletir antes de expressar opiniões é algo muito raro nas redes sociais.

[00:04:57] E, principalmente, em plataformas como o YouTube.

[00:05:00] Isso ressalta então a importância e a necessidade de trabalhos como este que desenvolvemos aqui

[00:05:07] para oferecer educação filosófica, tendo em vista que muitas pessoas até demonstram

[00:05:13] algum interesse por temas filosóficos, mas tentam trazer para a discussão filosófica

[00:05:19] vícios e posturas estranhos e inadmissíveis na filosofia.

[00:05:25] A filosofia, por exemplo, traz a oportunidade de pensar o que quer que seja, mas apenas no momento não%

[00:05:26] para a discussão filosófica, vícios e posturas estranhos e inadmissíveis na filosofia. A filosofia, por exemplo,

[00:05:26] possui uma boa formação de reação entre certos dos outros. Mas para os outros não é o objetivo de se manifestar

[00:05:27] por si só não é a solução para todos os problemas do mundo.

[00:05:31] Mas René Descartes tem boa dose de razão quando ele afirma o seguinte, abre aspas,

[00:05:36] uma nação é tanto mais civilizada e polida quanto melhor os seus homens filosofarem,

[00:05:44] e assim o maior bem de um Estado é possuir verdadeiros filósofos, fecha aspas.

[00:05:50] Descartes afirma isso em sua obra Princípios de Filosofia.

[00:05:54] Mas eu devo assinalar, antes de mais nada, que o perfil de quem nos ouve aqui no podcast é bem diferente.

[00:06:02] Eu não sei explicar por qual razão, mas além de o nosso público ser muito mais educado

[00:06:08] e interessado nos temas apresentados aqui no podcast,

[00:06:13] o nosso crescimento aqui também se dá bem mais rápido do que no YouTube.

[00:06:18] Eu acredito que, uma teoria minha, que há aqueles que não precisam de um auxílio

[00:06:24] virtual para o seu trabalho, mas que precisam de um auxílio virtual para o seu trabalho.

[00:06:24] Um auxílio visual para absorver um determinado conteúdo tem mais facilidade para lidar com as questões

[00:06:30] abstratas da filosofia, assim como acontece na música.

[00:06:34] A música tem menor apelo do que as artes visuais neste sentido.

[00:06:40] Então vejam só, apreciar uma sinfonia de Beethoven que se desenrola ao longo de 50 minutos

[00:06:47] e que precisa ser repetida várias vezes a fim de fixarmos alguns de seus trechos em nossa memória,

[00:06:53] bom, isso requer maior esforço e concentração do que contemplar um belo quadro ou uma escultura,

[00:07:02] cuja totalidade a gente pode aprender em nosso campo de visão, às vezes em um golpe de vista,

[00:07:08] e a gente pode contemplar em poucos minutos.

[00:07:11] Então estão percebendo a diferença como que a visão é importante,

[00:07:16] aquilo que apela aos nossos olhos tem mais peso do que aquilo que apela apenas aos nossos ouvidos,

[00:07:23] ou à nossa mente, à nossa razão.

[00:07:25] Agora, isso é também, a propósito, um dos motivos de trazermos música erudita nos intervalos dos nossos episódios,

[00:07:33] porque, geralmente, quem tem alguma inclinação para a filosofia também aprecia as músicas que trazemos.

[00:07:41] Porque eu penso o seguinte, quem se incomoda com a música de Beethoven

[00:07:45] provavelmente não terá a paciência necessária para lidar com a filosofia de Hegel, por exemplo.

[00:07:52] O podcast…

[00:07:53] O podcast apela menos às emoções do que às plataformas visuais.

[00:07:58] Eu me lembro que eu ouvi algo nesse sentido pela primeira vez conversando com o Vitor,

[00:08:03] o autor do podcast História em Meia Hora, podcast que eu fortemente recomendo.

[00:08:09] Se você ainda não acompanha o História em Meia Hora do Vitor, então acompanhe.

[00:08:14] Ele me disse em determinada ocasião que algumas coisas que funcionam no YouTube

[00:08:19] não dão muito certo para podcasts, tais como…

[00:08:23] Títulos com clickbaits ou então imagens de capas muito apelativas.

[00:08:29] E vejam só, repare como as imagens de capa dos vídeos no YouTube são geralmente bem expressivas,

[00:08:35] com os indivíduos fazendo as mais diversas caras e bocas.

[00:08:39] Isso é algo que não funciona tão bem para podcasts,

[00:08:43] porque aqui o apelo visual está ausente durante o episódio.

[00:08:47] E isso de tal forma que até alguns canais de música no YouTube

[00:08:52] não têm o apelo visual.

[00:08:52] Então, se você não tem o apelo visual, você não tem o apelo visual.

[00:08:53] Não teriam vida longa sem o vídeo, sem o conteúdo visual,

[00:08:58] mesmo sendo um canal de música.

[00:09:00] Vejam só que interessante, uma coisa que eu já percebi.

[00:09:02] Porque há no YouTube, por exemplo, alguns canais nos quais

[00:09:06] mulheres tocam guitarra usando decotes que provavelmente respondem

[00:09:12] por grande parte das visualizações do canal.

[00:09:16] Aí eu imagino, se fosse um homem feio tocando a mesma música,

[00:09:21] com o mesmo nível técnico, o número de visualizações seria provavelmente bem menor.

[00:09:28] Agora, esse tipo de canal, embora sendo de música, não funcionaria bem em podcast,

[00:09:33] porque o apelo visual que leva ao conteúdo não estaria presente nele.

[00:09:38] Agora, não compreenda esse comentário como moralista.

[00:09:42] A minha posição é a seguinte.

[00:09:44] Se a pessoa possui uma beleza natural de rosto ou corpo

[00:09:47] para chamar atenção para sua arte, para o seu conteúdo,

[00:09:51] ela é mais que justificada em fazê-lo.

[00:09:55] Se eu estivesse no lugar de tais criadoras de conteúdo,

[00:09:58] eu provavelmente faria o mesmo para chamar atenção

[00:10:01] para a minha produção de filosofia ou de música ou o que for.

[00:10:04] E por isso eu não julgo quem o faz.

[00:10:07] Eu tenho a mesma posição do host de um canal canadense de música

[00:10:12] que eu também acompanho.

[00:10:13] Ele certa vez afirmou o seguinte.

[00:10:15] Olha, a gente que é feio não pode fazer isso.

[00:10:17] Então, deixe as pessoas bonitas fazerem uso de sua beleza natural.

[00:10:21] Para chamar atenção para o seu conteúdo musical.

[00:10:25] Bom, mas tendo dito tudo isso,

[00:10:27] vamos falar agora sobre a postura do filósofo em suas atividades teóricas.

[00:10:33] Em primeiro lugar, eu gostaria de mencionar que

[00:10:36] aprender filosofia não significa acumular um certo corpo de conhecimento.

[00:10:43] Talvez você já tenha ouvido essa afirmação em algum outro episódio aqui em nosso podcast,

[00:10:48] mas a repetição é um importante recurso.

[00:10:51] Então vejam, acumular conhecimento certamente faz parte da atividade do filósofo.

[00:10:59] Porque nós só podemos dialogar com os filósofos do passado

[00:11:03] e com os nossos contemporâneos quando compreendemos o seu pensamento.

[00:11:08] Agora, só essa característica não é suficiente para caracterizar

[00:11:14] aquele indivíduo chamado de filósofo.

[00:11:17] Aquele que ama a sabedoria e está sempre em sua busca.

[00:11:21] Em um dos comentários que apareceram lá no YouTube,

[00:11:25] alguém me perguntou se eu deixaria de ser marxista para me tornar tomista,

[00:11:31] um seguidor de Tomás de Aquino.

[00:11:33] Isso só porque eu publiquei um vídeo explicando as cinco vias de Tomás de Aquino.

[00:11:39] Ou seja, só porque eu exerci a minha atividade de professor de filosofia.

[00:11:45] Agora vejam só que interessante,

[00:11:47] se eu deixaria de ser marxista para me tornar tomista.

[00:11:51] Além de este indivíduo não compreender o que significa ser um professor de filosofia,

[00:11:57] a incompreensão mais fundamental que propicia o surgimento de tais perguntas

[00:12:03] é uma concepção equivocada de filosofia como tomar partido,

[00:12:08] como se o filósofo devesse escolher um lado e enxergar o mundo só através daquelas lentes.

[00:12:16] Enquanto tal comportamento talvez seja aceitável em nível relativo,

[00:12:21] religioso ou ideológico, tal postura é inadmissível na filosofia.

[00:12:27] O filósofo é alguém que olha para o mundo com espanto e admiração,

[00:12:33] é alguém que se encanta com inteligência e argumentos bem formulados,

[00:12:38] buscando a companhia de todos aqueles que possuem tais habilidades.

[00:12:43] É por essa razão que um verdadeiro filósofo irá sim se ocupar de Tomás de Aquino,

[00:12:48] mesmo sendo ateu.

[00:12:50] Não se trata de concordar com seus argumentos,

[00:12:53] mas de compreendê-los na melhor interpretação possível e com eles dialogar.

[00:12:59] Porque, veja bem, ler o mundo através de apenas um tipo de lente nos torna míopes.

[00:13:07] Nenhuma filosofia dá conta de explicar sozinha toda a nossa realidade,

[00:13:13] porque o mundo é muito mais complexo do que qualquer escola de pensamento já criada.

[00:13:19] Então, ancorar-se em apenas um filósofo para tentar compreender cada aspecto do mundo natural,

[00:13:26] das relações sociais ou de nossa vida interior,

[00:13:29] significa limitar-se na tarefa de decifração do enigma da vida.

[00:13:35] É como usar uma chave de fenda quando um martelo seria a ferramenta mais apropriada.

[00:13:41] Eu vou dar mais um exemplo neste sentido,

[00:13:44] como é importante essa questão de ter diferentes lentes para ver a realidade.

[00:13:48] Recentemente, eu tive que ir ao oftalmologista.

[00:13:52] Isso é uma história real, de fato, aconteceu comigo recentemente.

[00:13:56] É pelo seguinte, os óculos que eu sempre utilizei não serviam mais para todas as minhas necessidades.

[00:14:02] De modo que, quando eu ia ler, por exemplo, eu tinha que remover os óculos

[00:14:08] porque eu conseguia enxergar as letras melhor sem os óculos do que com ele.

[00:14:13] Então, depois de alguns exames, veio o resultado.

[00:14:17] Eu precisaria, então, utilizar três óculos ao invés de apenas um.

[00:14:23] Então, os óculos que eu já utilizava passaram a ser utilizados

[00:14:27] só para dirigir e enxergar objetos mais distantes.

[00:14:31] O segundo seriam apenas utilizados para trabalhar no computador,

[00:14:35] porque o tratamento das lentes ajudaria a preservar a saúde dos olhos diante de telas.

[00:14:42] E os terceiros óculos são utilizados apenas para leitura.

[00:14:46] Então, eu tive que incorporar em minha rotina mais uma tarefa,

[00:14:50] a troca de óculos dependendo do tipo de atividade.

[00:14:54] Se eu vou dirigir, eu tenho que usar um tipo de óculos.

[00:14:58] Se eu vou ler, eu tenho que utilizar outro tipo.

[00:15:01] Se eu estou no computador, eu utilizo outro tipo.

[00:15:04] Isso é um pouco incômodo porque, às vezes, eu acabo me esquecendo de levar os óculos de dirigir para o carro

[00:15:10] ou, então, eu esqueço os óculos de computador lá no porta-luvas

[00:15:14] e tenho que voltar para buscá-los.

[00:15:16] Só que as vantagens, no entanto, compensam,

[00:15:19] porque eu agora consigo ler melhor os meus livros e também consigo ler melhor na tela do computador.

[00:15:26] Então, qual que é a ideia aqui?

[00:15:29] Esta analogia serve para mostrar que, às vezes, precisamos de lentes diferentes

[00:15:35] para o tipo de atividade que vamos desempenhar.

[00:15:38] Aristóteles já havia afirmado que o objeto sendo analisado

[00:15:43] determina, de certa maneira, o próprio método de investigação.

[00:15:48] Algo que eu já observei na prática também em uma matéria que eu fiz na graduação em Filosofia.

[00:15:54] Então, mais um exemplo sobre isso.

[00:15:56] Sobre a importância de diferentes métodos, lentes, parâmetros, dependendo do objeto.

[00:16:03] Aconteceu o seguinte quando eu estava na graduação em Filosofia.

[00:16:06] Poucos meses após as jornadas de junho de 2013,

[00:16:10] um professor ofertou uma disciplina optativa

[00:16:13] na qual a gente deveria analisar as jornadas de junho

[00:16:17] pelas lentes de um filósofo de nossa escolha.

[00:16:21] Então, foi nessa época que eu iniciei a leitura de Georg Lukács

[00:16:25] e, a partir de sua obra História e Consciência de Classe,

[00:16:29] eu escrevi um artigo que, inclusive, foi publicado posteriormente

[00:16:33] em uma revista acadêmica de Filosofia.

[00:16:36] Então, este passo foi fundamental em minha formação,

[00:16:40] porque eu descobri, naquele momento,

[00:16:42] o filósofo e a obra que eu estudaria posteriormente no mestrado.

[00:16:46] Agora, nem todos na minha turma, no entanto,

[00:16:49] tiveram a sorte de fazer uma boa escolha.

[00:16:53] Alguns trabalhos ficaram muito distantes,

[00:16:56] muito longe de oferecer uma análise minimamente satisfatória

[00:17:01] das jornadas de junho.

[00:17:03] E eu sabia que o problema não era exatamente o talento dos meus colegas,

[00:17:07] mas, principalmente, os limites dos próprios filósofos

[00:17:11] e as obras escolhidas por eles.

[00:17:13] Porque não é qualquer filosofia que pode explicar adequadamente

[00:17:19] um momento histórico de ebulição social, uma revolta ou uma revolução.

[00:17:24] Então, o filósofo não pode, por isso,

[00:17:27] simplesmente tomar partido por um ou outro filósofo qualquer

[00:17:32] e tentar fazer o mundo caber em suas categorias.

[00:17:36] Às vezes, nós precisamos de lentes diferentes para tarefas diferentes,

[00:17:41] de modo que Marx é mais adequado para explicar nossa realidade social no capitalismo

[00:17:47] e Tomás de Aquino nos ajuda a compreender melhor a relação entre fé e razão.

[00:17:53] Agora, isso não significa, no entanto, um mero ecletismo sem compromisso algum.

[00:18:00] O filósofo precisa pensar o mundo em sua totalidade,

[00:18:04] descendo à raiz dos fenômenos e com extremo rigor lógico,

[00:18:09] de modo que é necessário que o filósofo seja consistente, no mínimo, consigo mesmo.

[00:18:16] Ninguém é obrigado a abraçar tudo o que um determinado pensador disse,

[00:18:21] porque, da mesma forma que dificilmente encontramos alguém que nunca erra,

[00:18:26] tampouco encontramos alguém que apenas acerta.

[00:18:30] O filósofo não pratica, portanto, um ecletismo de conveniência

[00:18:35] sem rigor lógico ou coerência interna.

[00:18:39] Mas, beber de várias fontes não vai obrigar o estudante de filosofia

[00:18:45] a se tornar um mero discípulo de todos aqueles pensadores

[00:18:48] que estão na base de suas próprias reflexões.

[00:18:52] Nós vamos fazer agora nossa clássica pausa musical,

[00:18:55] a fim de que você absorva melhor o conteúdo exposto até agora

[00:18:59] e revigore a concentração para o restante do episódio.

[00:19:03] Hoje nós vamos ouvir uma música muito famosa,

[00:19:06] que é o Canon en Ré do compositor alemão,

[00:19:08] Johann Christoph Pachelbel.

[00:19:11] Talvez você já tenha lido o nome dele,

[00:19:14] e a pronúncia em português geralmente diz-se Pachelbel,

[00:19:18] mas o nome correto é Pachelbel.

[00:19:21] Ele nasceu aqui na cidade onde eu moro, em Nuremberg, na Alemanha.

[00:19:25] Ele foi organista de uma igreja que ainda se encontra de pé em atividade até hoje.

[00:19:30] Inclusive, lá existe uma placa mencionando seu nome.

[00:19:33] E ele também está enterrado aqui em Nuremberg,

[00:19:36] no mesmo cemitério que o filósofo Ludwig Feuerbach,

[00:19:39] filósofo que a gente aborda em nosso curso de crítica da religião.

[00:19:43] Pachelbel nasceu em 1653 em Nuremberg

[00:19:48] e faleceu também em Nuremberg em 1706.

[00:19:52] A música que você vai ouvir agora foi escrita provavelmente

[00:19:56] para o casamento do Johann Christoph Bach,

[00:19:59] que era o irmão mais velho do famoso compositor Johann Sebastian Bach.

[00:20:04] E provavelmente isso aconteceu em outubro de 1694,

[00:20:09] o que significa que agora, em 2024, essa música completa 330 anos.

[00:20:16] Essa música foi esquecida por vários séculos,

[00:20:19] mas foi redescoberta apenas por volta dos anos 1950

[00:20:24] e desde então se tornou uma das obras barrocas mais utilizadas no mundo pop.

[00:20:29] Diversos artistas utilizam a mesma sequência harmônica

[00:20:33] em suas músicas e ela também é muito utilizada em casamentos.

[00:20:37] Eu mesmo já executei essa música no violino em vários casamentos nos quais eu toquei.

[00:21:03] A música que você vai ouvir agora foi escrita provavelmente

[00:21:06] para o casamento do Johann Christoph Bach,

[00:21:09] que era o irmão mais velho do famoso compositor Johann Sebastian Bach.

[00:21:13] A música que você vai ouvir agora foi esquecida por vários séculos,

[00:21:16] mas foi redescoberta apenas por volta dos anos 1950

[00:21:19] e desde então se tornou uma das obras barrocas mais utilizadas no mundo pop.

[00:21:23] Diversos artistas utilizam a mesma sequência harmônica

[00:21:26] em suas músicas e ela também é muito utilizada em casamentos.

[00:21:30] Diversos artistas utilizam a mesma sequência harmônica em suas músicas e ele também é muito utilizada em casamentos.

[00:21:33] A música que você vai ouvir agora foi esquecida por vários séculos,

[00:21:36] mas foi redescoberta apenas por volta dos anos 195.

[00:21:39] A música que você vai ouvir agora foi esquecida por vários séculos,

[00:21:42] mas foi redescoberta apenas por volta dos anos hypothético.

[00:21:47] Diversos artistas utilizam a mesma sequência harmônica

[00:21:50] em suas músicas e ela também é muito utilizada em casamentos.

[00:21:54] Eu mesmo quase esqueci,

[00:21:57] masУ eu acho que eu conheço ainda um pouco desseigninha mais pops,

[00:22:00] e eu acho que isso pode ser usado emededito em casamentos.

[00:22:02] A CIDADE NO BRASIL

[00:22:32] A CIDADE NO BRASIL

[00:23:02] A CIDADE NO BRASIL

[00:23:32] A CIDADE NO BRASIL

[00:23:50] Caso você tenha interesse em conhecer melhor as músicas que tocamos aqui nos intervalos do podcast,

[00:23:56] basta procurar pela playlist Clássicas Filosofia Vermelha no Spotify.

[00:24:01] Há um link também para esta playlist na terceira aba do nosso perfil no Spotify.

[00:24:07] Voltemos então ao nosso tema, Não se aprende filosofia.

[00:24:11] Uma das lições mais importantes que o filósofo sempre deve ter em mente é que

[00:24:16] a verdade nem sempre é agradável.

[00:24:20] Em sua obra O Anticristo, Nietzsche afirma que descobrir a verdade pode estar associado muitas vezes

[00:24:28] a um sentimento desagradável e incômodo.

[00:24:32] Onde estaria escrito, pergunta Nietzsche,

[00:24:35] que os juízos verdadeiros produzem mais prazeres do que os falsos?

[00:24:40] Ou que exista uma harmonia pré-estabelecida na natureza

[00:24:45] de tal maneira que sentimentos agradáveis decorram necessariamente da verdade?

[00:24:52] Então, para Nietzsche, a experiência dos espíritos mais profundos mostra,

[00:24:57] justamente, o contrário.

[00:24:59] Essa frase agora é de Nietzsche, abre aspas,

[00:25:02] E vejam só, considerando a questão de uma perspectiva evolucionista,

[00:25:16] nada nos garante que a natureza nos dotou de um aparelho cognitivo

[00:25:21] para ver a realidade exatamente como ela é.

[00:25:25] O que garantia?

[00:25:26] O que a gente tem?

[00:25:28] De que o nosso cérebro, o nosso aparelho cognitivo, nos mostra as coisas como elas são.

[00:25:34] Talvez a gente perceba as coisas simplesmente da maneira que é mais apropriada

[00:25:39] à conservação e reprodução da espécie,

[00:25:42] de modo que as coisas em si mesmas são, de fato, incognoscíveis,

[00:25:47] como afirmou Immanuel Kant.

[00:25:49] Talvez a gente não conheça a coisa em si como ela realmente é.

[00:25:53] Então, o filósofo tem que lutar,

[00:25:56] lutar contra a tendência presente em cada um de nós

[00:26:00] de aderir a tudo o que nos agrada

[00:26:03] e chamar de falso aquilo de que não gostamos.

[00:26:07] O Freud já havia percebido como que nós estamos predispostos

[00:26:11] a chamar de verdadeiro aquilo que, de certa forma, nos traz alguma satisfação,

[00:26:17] o que pode ser visto também na maneira como alguns indivíduos

[00:26:19] tentam justificar seus gostos musicais.

[00:26:23] Já reparou que muitos indivíduos, por gostarem de certo tipo de música,

[00:26:27] vão tentar justificar e dizer que aquilo é bom?

[00:26:29] Recentemente está muito na moda alguns indivíduos gostarem de funk, por exemplo.

[00:26:35] Nada contra o funk, absolutamente.

[00:26:37] Mas o indivíduo quer mostrar, teoricamente, que o funk está no mesmo nível

[00:26:42] de um Mozart ou de um Bach, por exemplo.

[00:26:45] E eu acho isso totalmente desnecessário.

[00:26:48] Eu nem digo que é errado, porque eu nunca nem analisei a questão.

[00:26:51] Mas eu acho desnecessário a própria empreitada.

[00:26:55] O Immanuel Kant já fez…

[00:26:56] Ele afirmava que eu não preciso chamar de bom aquilo que simplesmente me agrada.

[00:27:02] Se eu gosto de um tipo de música, basta eu dizer que este estilo agrada a minha sensibilidade,

[00:27:09] mas eu não preciso chamá-lo de bom apenas por isso,

[00:27:12] porque o que é bom depende do conceito.

[00:27:16] E em discussões filosóficas, essa tendência de chamar de falso

[00:27:20] o que é apenas desagradável ao indivíduo se manifesta quando este evade,

[00:27:26] de certas discussões, ou apenas confia cegamente que as posições em que acredita

[00:27:32] já foram fundamentadas por alguém.

[00:27:35] Alguém aí no mundo, na história, já fundamentou as posições em que eu acredito.

[00:27:41] Então, em nossa recente apresentação sobre as cinco vias de Tomás de Aquino,

[00:27:46] alguns comentários lá em nosso canal no YouTube simplesmente diziam que

[00:27:50] os argumentos de Tomás de Aquino já haviam sido refutados.

[00:27:54] Mas ninguém disse…

[00:27:56] Então, vejam, trata-se aqui apenas de uma confiança do indivíduo

[00:28:02] de que as posições em que ele já acredita possuem uma boa explicação em algum lugar,

[00:28:09] embora ele próprio desconheça ou então não saiba explicar ou reproduzir

[00:28:14] essas boas razões, essas boas explicações.

[00:28:17] Agora, saber explicar as próprias posições é parte fundamental da atividade de um filósofo.

[00:28:24] Eu vi certa vez na internet…

[00:28:26] Uma definição de filósofo que captura bem como este é visto pelo chamado homem comum,

[00:28:33] ou man on the street.

[00:28:35] Então, vejam só, essa definição era até um meme.

[00:28:37] Dizia o seguinte, olha…

[00:28:39] O filósofo é alguém que resolve problemas sobre os quais você nunca ouviu falar

[00:28:44] e de uma maneira que você não entende.

[00:28:48] Achei bem engraçada essa definição, porque todo iniciante no estudo da filosofia

[00:28:53] tem exatamente essa impressão.

[00:28:56] De que o homem comum é um homem que não entende.

[00:28:56] De que o homem comum é um homem que não entende.

[00:28:56] De que os filósofos estão discutindo questões que ele nem mesmo sabia que existiam

[00:29:01] e de uma forma tão complexa que é impossível compreender sem muito estudo.

[00:29:07] O indivíduo que entra no mundo da filosofia precisa, então,

[00:29:11] compreender bem os problemas sendo discutidos

[00:29:14] e saber apresentar as soluções propostas para estes.

[00:29:18] E compreendendo que não se refuta um determinado argumento

[00:29:23] simplesmente ao aplicar um rótulo nesse argumento.

[00:29:26] Ou, então, simplesmente rejeitá-lo.

[00:29:29] Então, vejam…

[00:29:30] Chamar uma determinada filosofia de materialista, idealista ou, então, burguesa…

[00:29:37] Aplicar esses rótulos…

[00:29:39] Ah, isso aí eu não gosto, não, porque isso aí é uma filosofia materialista.

[00:29:43] Não, tal filósofo é idealista.

[00:29:46] Não, isso aí é filosofia burguesa.

[00:29:48] Vejam, isso é aplicar rótulos.

[00:29:51] Agora, isso não nos desobriga de mostrar onde e por qual razão

[00:29:56] a filosofia é idealista.

[00:29:56] Essa filosofia seria falsa.

[00:29:59] Mas, infelizmente, este é o tipo de resposta mais comum que encontramos na internet

[00:30:04] quando o indivíduo se depara com um bom argumento que ele não consegue responder.

[00:30:09] E seja isso por preguiça ou, então, incapacidade mesmo.

[00:30:13] Então, no fundo, o que tais indivíduos buscam é

[00:30:16] desqualificar tudo aquilo que desafia suas posições pré-estabelecidas

[00:30:22] a fim de mantê-las com boa consciência.

[00:30:26] Isso é, se eu desqualificar tudo o que ameaça as minhas ideias,

[00:30:33] então eu posso continuar acreditando nelas com boa consciência.

[00:30:37] Outra lição importante que todo aspirante a filósofo deve ter em mente é que

[00:30:42] provocar os chamados homens comuns e lhes mostrar sua própria ignorância

[00:30:48] é uma das tarefas do filósofo.

[00:30:51] Esta era uma das razões pelas quais Sócrates era odiado por muitos em Atenas,

[00:30:56] embora ele também tivesse muitos discípulos que lhe admiravam

[00:31:00] e estes, inclusive, fizeram com que ele tivesse hoje na história da filosofia

[00:31:05] o lugar de honra que possui.

[00:31:08] Parte do trabalho que nós também realizamos aqui com o Filosofia Vermelha

[00:31:13] vai nesse sentido, de tal maneira que as cinco vias de Tomás de Aquino

[00:31:18] que nós publicamos em nosso último episódio e também lá no YouTube

[00:31:21] são questões incômodas a todos aqueles que negam

[00:31:26] Deus de uma maneira tosca e dogmática.

[00:31:30] Mas vejam, nosso objetivo não é promover o teísmo ou a crença em Deus,

[00:31:35] mas promover a reflexão.

[00:31:37] Aqueles que querem manter seu ateísmo o devem fazer em alto nível

[00:31:42] e aqueles que já acreditam em Deus devem fazê-lo com compreensão.

[00:31:48] Falando ainda sobre essa questão religiosa,

[00:31:50] o próprio Hegel já havia afirmado em sua obra

[00:31:54] Princípios da Filosofia do Disponível,

[00:31:56] que é muito fácil ao indivíduo não estudado

[00:32:00] no alemão ele usa o termo ungebildet,

[00:32:02] aquele que não passou por uma formação, por uma bildung.

[00:32:06] Pois é, então é muito fácil esse indivíduo não estudado

[00:32:09] simplesmente descartar todo o assunto relacionado à religião

[00:32:13] dizendo que é místico.

[00:32:16] Então descarta, isso é místico, é religioso.

[00:32:19] Não, mas Hegel dizia

[00:32:20] o difícil mesmo é ver na religião o seu núcleo de verdade.

[00:32:26] Essa é uma frase bem interessante,

[00:32:28] uma reflexão bem importante de Hegel.

[00:32:31] Saber enxergar o núcleo de verdade na religião,

[00:32:35] aquele núcleo oculto.

[00:32:37] E eu não quero dizer com isso que Deus existe,

[00:32:40] que existe um alentúmulo, não quero dizer nada disso.

[00:32:44] Quem fizer o nosso curso de crítica da religião

[00:32:47] vai perceber, por exemplo, em Ludwig Feuerbach,

[00:32:50] o que exatamente isso significa.

[00:32:52] Mas vejam, ser ateu hoje em dia,

[00:32:56] não é distintivo algum de calibre intelectual.

[00:33:00] Alguns dos principais representantes do ateísmo contemporâneo

[00:33:03] não possuem formação filosófica.

[00:33:06] É uma deficiência que se torna muito clara

[00:33:09] quando eles tentam refutar a religião através da ciência,

[00:33:14] o que eu acho um erro.

[00:33:15] O próprio Papa Francisco já admitiu a teoria da evolução

[00:33:19] e o Big Ben, deixando claro que

[00:33:21] a ciência não toca no essencial da religião.

[00:33:26] As doutrinas mais fundamentais da religião são metafísicas,

[00:33:31] isto é, estão além da física.

[00:33:34] E neste campo de batalha, na metafísica,

[00:33:37] apenas a filosofia tem acesso e pode desafiar a religião.

[00:33:42] Então, ciência não faz metafísica.

[00:33:44] Quem faz metafísica é a filosofia.

[00:33:47] E também a gente pode mencionar que, ao longo da história,

[00:33:51] vários cientistas famosos acreditavam em Deus,

[00:33:54] o que revela como…

[00:33:56] O próprio discurso científico pode ser hoje apropriado como dogma,

[00:34:01] como uma simples crença inquestionada.

[00:34:04] E, caminhando para o final deste episódio,

[00:34:06] nós devemos também mencionar brevemente

[00:34:08] a diferença entre uma discussão filosófica

[00:34:12] e um mero militantismo teórico.

[00:34:15] Acontece com frequência que indivíduos engajados politicamente

[00:34:19] tentam tratar a atividade filosófica

[00:34:23] como apenas uma esfera da disputa política.

[00:34:27] Tentando trazer para a filosofia

[00:34:29] dispositivos e recursos que matam o próprio sentido da filosofia.

[00:34:35] Agora, o que significa a militância política na vida prática?

[00:34:41] Bom, a militância política envolve estar munido

[00:34:45] de uma certeza sólida o suficiente para levar à ação prática

[00:34:49] e convencer outros indivíduos a se juntarem em prol deste objetivo.

[00:34:55] Mas veja…

[00:34:56] Não há nada de errado em ser militante.

[00:35:00] Muito pelo contrário.

[00:35:02] Porque, vejam, nós podemos ter uma existência coletiva mais feliz

[00:35:07] se o nosso mundo passar pelas transformações que precisa,

[00:35:12] pelas transformações que são necessárias hoje.

[00:35:15] A maior parte de nossos problemas não vem de causas naturais,

[00:35:20] mas sociais.

[00:35:21] E, por isso, nós precisamos reorganizar as relações,

[00:35:26] entre os indivíduos, a fim de acabar com os principais flagelos que nos assolam hoje.

[00:35:32] Nas sociedades anteriores ao capitalismo,

[00:35:35] as crises eram de escassez, quase sempre causadas por causas naturais.

[00:35:42] Uma colheita que deu errado, o mau tempo, a seca.

[00:35:45] Mas vejam, no modo de produção capitalista,

[00:35:48] as crises são de excesso de riqueza.

[00:35:51] São porque foi produzido muito, foi produzido demais,

[00:35:56] e não há como escoar toda a produção.

[00:36:00] Então, este tipo de sociedade precisa ser transformado,

[00:36:04] e os militantes são fundamentais para isso.

[00:36:08] Agora, no que diz respeito à filosofia,

[00:36:11] não há espaço para o chamado militantismo teórico,

[00:36:16] no sentido de que nós não podemos entrar em uma discussão filosófica

[00:36:21] já de posse de uma verdade qualquer,

[00:36:23] com o único objetivo de…

[00:36:26] de impor sua própria verdade sobre os outros.

[00:36:29] Isso porque o filósofo é caracterizado como aquele que convive com a dúvida.

[00:36:35] Ele nunca alcança certezas inquestionáveis de forma duradoura.

[00:36:40] Então, na filosofia, não há espaço para o militantismo teórico,

[00:36:46] sendo um erro tentar transpor para o domínio filosófico

[00:36:51] formas e estratégias de argumentação que talvez sejam válidas,

[00:36:56] nas discussões políticas ou em outras áreas do conhecimento.

[00:37:00] Então, estas foram apenas algumas das características do filósofo.

[00:37:05] Há outras que podemos discutir em uma próxima oportunidade,

[00:37:09] mas se a partir de agora você já começar a praticar

[00:37:13] estas que mencionamos neste episódio,

[00:37:15] você já terá dado grandes passos em sua formação filosófica.

[00:37:20] A verdade não possui dono e não pode ser prisioneira de ninguém.

[00:37:26] E além disso, tentar enxergar o mundo através de apenas uma lente

[00:37:30] pode fazer com que não vejamos com a nitidez necessária

[00:37:34] aquilo que precisamos investigar.

[00:37:37] Discutir filosofia exige calma e a menor interferência possível das emoções,

[00:37:44] porque estas mais perturbam o nosso raciocínio do que nos ajudam a ver claramente.

[00:37:50] E vai nos levar muitas vezes a chamar de verdadeiro

[00:37:54] aquilo que nos dá a ver.

[00:37:56] E a chamar de falso aquilo que nos desagrada.

[00:38:00] Muitas vezes a verdade é amarga e a ilusão é doce.

[00:38:06] E além disso, a filosofia não comporta certas formas de discussão

[00:38:10] que podem talvez ser válidas em outras áreas ou na vida cotidiana.

[00:38:16] De modo que a gente não deve confundir o fazer filosófico

[00:38:20] com o mero militantismo teórico,

[00:38:22] como uma empreitada para impor ideias,

[00:38:26] pela força ou pela propaganda.

[00:38:28] E lembrando mais uma vez,

[00:38:30] faça sua inscrição em nosso curso de Introdução à Filosofia

[00:38:34] dos Pré-Socráticos à Sartre.

[00:38:37] O link para este curso está na descrição deste episódio,

[00:38:40] assim como os links para os nossos dois outros cursos

[00:38:42] Crítica da Religião, Feuerbach, Nietzsche e Freud

[00:38:46] e a Filosofia de Karl Marx, uma introdução.

[00:38:49] Os links podem ser também encontrados em nosso site

[00:38:52] www.filosofia.com

[00:38:56] E se você considera que a internet é um lugar melhor

[00:39:00] com o nosso trabalho do que sem ele,

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[00:39:12] O link está na descrição deste episódio,

[00:39:15] ou então você pode contribuir através de nossa chave Pix,

[00:39:18] que é o nosso endereço de e-mail

[00:39:20] filosofiavermelha.com

[00:39:23] Um grande abraço e até o próximo vídeo.

[00:39:26] Até o próximo.