Arqueologia do futuro


Resumo

O episódio acompanha uma expedição do projeto Amazônia Revelada, que utiliza tecnologia LIDAR (laser) para mapear e identificar estruturas arqueológicas escondidas sob a floresta amazônica. A equipe, composta por arqueólogos como Morgan Schmidt, Eduardo Neves e o acadêmico local Fernando Ferreira, viaja ao Acre e Rondônia para verificar no campo as imagens captadas do ar, que revelam geoglifos (grandes desenhos geométricos cavados na terra), caminhos antigos e a misteriosa Serra da Muralha, uma construção de pedra no topo de uma montanha.

A narrativa detalha os desafios práticos do trabalho de campo, que vão desde negociar a entrada em propriedades privadas com fazendeiros desconfiados até enfrentar estradas de terra, chuvas torrenciais, pneus furados e a presença do crime organizado na região de fronteira. A expedição visita sítios como o Nakahara 50, onde encontram cerâmicas antigas e conversam com moradores locais como o senhor Luís e sua nora Neide, que expressam preocupação com o desmatamento acelerado.

Uma parte significativa da história é dedicada à difícil jornada para alcançar a Serra da Muralha em Rondônia. Após superar obstáculos logísticos e a relutância de caseiros, a equipe finalmente chega ao topo e encontra a impressionante muralha de pedra, que data de 1.200 a 2.000 anos atrás. A descoberta posterior de que a área pertence a um dos maiores desmatadores da Amazônia, Shaulis Pozebon, preso por crimes ambientais, destaca a tensão entre a preservação do patrimônio arqueológico e as forças econômicas que destroem a floresta.

O episódio conclui com uma reflexão do arqueólogo Eduardo Neves sobre o significado mais profundo dessas descobertas. Ele argumenta que a arqueologia amazônica revela um passado de abundância e sociedades complexas que viveram em harmonia com a floresta, criando monumentos como a própria floresta cultivada. Esse conhecimento do passado se torna crucial para repensar modelos futuros de ocupação da Amazônia, que atualmente promovem escassez através do desmatamento e da monocultura, em oposição aos sistemas agroflorestais milenares dos povos indígenas.


Indicações

Lugares

  • Serra da Muralha (Rondônia) — Sítio arqueológico remoto no topo de uma montanha, constituído por uma muralha de pedra com aproximadamente 380m de extensão, datada de 1.200 a 2.000 anos atrás. É um local de difícil acesso e pouco estudado.
  • Geoglifos do Acre — Estruturas geométricas (círculos, quadrados, hexágonos) cavadas na terra por povos indígenas há centenas ou milhares de anos, muitas vezes visíveis apenas do ar ou após o desmatamento. O primeiro geoglifo do Brasil foi tombado em 2024.

Pessoas

  • Eduardo Neves (USP) — Professor de arqueologia na USP e um dos líderes do projeto Amazônia Revelada. Destaca-se por sua habilidade em comunicação científica e diálogo com comunidades locais durante o trabalho de campo.
  • Fernando Ferreira — Arqueólogo acreano, mestre pelo Museu Paraense Emílio Goeldi e coordenador de campo do Amazônia Revelada no Acre. Sua motivação é resgatar a história indígena do Acre, contra a narrativa oficial que começa com a chegada do ‘homem branco’.
  • Morgan Schmidt — Arqueólogo e geógrafo americano radicado no Brasil há 20 anos. Trabalha na conexão entre o projeto Amazônia Revelada e o INPE, analisando as imagens de LIDAR para identificar potenciais sítios arqueológicos.
  • Cleaverson Pessoa — Doutorando em Arqueologia na USP, com olho treinado para identificar cerâmicas e vestígios no campo. Identificou mais de mil estruturas arqueológicas no sul do Amazonas e oeste do Acre.

Projetos

  • Projeto Amazônia Revelada — Projeto de pesquisa arqueológica que utiliza tecnologia LIDAR para mapear e identificar sítios arqueológicos escondidos sob a floresta amazônica, com o objetivo de protegê-los.

Publicacoes

  • Artigo na revista Science (INPE) — Artigo de pesquisadores do INPE que estima a existência de mais de 10 mil sítios arqueológicos ainda não descobertos sob a floresta amazônica.
  • Perfil na revista Piauí (Eduardo Neves) — Reportagem de Bernardo Esteves na edição de julho de 2024 da revista Piauí, que acompanhou a expedição à Serra da Muralha e fez um perfil do arqueólogo Eduardo Neves.

Tecnologias

  • LIDAR (Light Detection and Ranging) — Tecnologia de laser aerotransportada que emite milhões de feixes de luz por segundo para criar mapas 3D do terreno e da estrutura da floresta, permitindo enxergar estruturas arqueológicas mesmo sob a mata fechada.

Linha do Tempo

  • 00:00:00Introdução: Imagens e resistência na América Latina — A apresentação inicia refletindo sobre como a arte e as imagens foram formas de resistência e comunicação em momentos de silêncio político na América Latina. Anuncia o curso de Histórias da Arte Latino-Americana da Escola MASP, ligando a discussão sobre disputas de imaginário público com o tema principal do episódio.
  • 00:02:28A expedição: Segredos revelados pelo desmatamento — Branca Viana introduz a reportagem de Letícia Leite sobre uma expedição arqueológica na Amazônia. Ela adverte que a história é sobre segredos da floresta que só agora começamos a entender, revelados paradoxalmente pela destruição. A expedição envolve escalada, crime organizado e negociações tensas.
  • 00:05:03A tecnologia LIDAR e a descoberta acidental — Letícia explica como a tecnologia LIDAR, usada pelo INPE para contar e pesar as árvores da Amazônia, acabou revelando marcas no solo. O arqueólogo Morgan Schmidt descreve como essas imagens mostram geoglifos e caminhos antigos, iniciando o projeto Amazônia Revelada para investigar esses achados.
  • 00:09:12Primeira visita de campo: Negociando acesso com fazendeiros — A equipe, com Morgan Schmidt e Eduardo Neves, dirige-se ao sítio Nakahara 50 no Acre. Eles discutem a estratégia para abordar o proprietário, Luís, explicando que só querem medir e fotografar as valas circulares antigas em seu terreno, sem escavar ou causar prejuízo. A negociação é delicada devido ao medo comum de perder a terra.
  • 00:12:37Encontro com moradores locais e descobertas — O senhor Luís (92 anos) e sua nora Neide recebem os pesquisadores. Luís mostra uma garrafa de barro antiga encontrada na propriedade. Neide expressa curiosidade sobre as estruturas e preocupação com o desmatamento no Acre, refletindo sobre o futuro da floresta para as próximas gerações.
  • 00:16:42A história dos geoglifos e a importância do diálogo — Fernando Ferreira, arqueólogo acreano, comenta sobre a dificuldade atual de acesso a sítios em grandes fazendas, mas destaca a receptividade de pequenos proprietários e comunidades ribeirinhas. Ele enfatiza o valor do diálogo e do interesse mútuo em descobrir a história do lugar.
  • 00:19:47Identidade acreana e a busca pela história indígena — Fernando Ferreira fala sobre o problema de identidade no Acre, onde muitos se envergonham da ascendência indígena ou seringueira. Ele conta sua história pessoal (avó indígena, pai seringueiro assassinado) e como um museu local com urnas funerárias o inspirou a estudar arqueologia, uma disciplina ausente em sua graduação inicial.
  • 00:24:25Visita ao sítio Nakahara 71 e novas descobertas — A equipe visita outro sítio identificado por imagens, o Nakahara 71. Lá, encontram montículos e um platô que Morgan Schmidt sugere ser uma antiga aldeia ou espaço cerimonial. Cleaverson Pessoa encontra fragmentos de cerâmica no local, mais uma prova de ocupação humana antiga.
  • 00:29:59Rumo à Serra da Muralha: Uma estrutura de pedra misteriosa — A expedição se dirige a um sítio mais dramático e remoto: a Serra da Muralha, em Rondônia. Cleaverson Pessoa explica que se trata de uma muralha de pedra no topo de uma montanha, descoberta nos anos 70, pouco estudada e envolta em especulações (como uma possível ‘Machu Picchu brasileira’), mas que datações indicam ser mais antiga que o Império Inca.
  • 00:33:42Ameaças à região: Garimpo, desmatamento e crime organizado — Eduardo Neves contextualiza a Serra da Muralha dentro de uma área de grande pressão: o ‘arco do desmatamento’, com presença de garimpo ilegal e crime organizado (como o Comando Vermelho, envolvido no tráfico de cocaína). A viagem até o local é marcada por estradas ruins, chuvas e sinal precário.
  • 00:38:52Negociação tensa e acesso conquistado à fazenda — A equipe enfrenta resistência ao tentar acessar a fazenda que dá entrada à serra. Eduardo Neves tenta explicar o trabalho aos caseiros, um deles afiando um facão. Após um almoço tenso e uma conversa onde Edu mostra uma reportagem sobre geoglifos, o caseiro acaba cedendo, impressionado com a determinação do geólogo idoso Amilcar Adame.
  • 00:42:33A subida final e a chegada à Serra da Muralha — Após tentativas frustradas por causa da chuva e do terreno, a expedição finalmente chega ao sopé da serra. Com a ajuda de um drone, localizam a muralha ainda distante. No último dia, conseguem fazer a árdua subida pela mata fechada e alcançam o topo, onde encontram a imponente muralha de pedra com vista para a floresta.
  • 00:47:51 — A equipe trabalha rapidamente no topo, medindo a muralha com GPS e registrando seu volume. O arqueólogo Guto reflete sobre a importância de preservar a área e sonha com a possibilidade de musealização futura. A vista revela um mar de floresta aparentemente intacta.
  • 00:48:57A revelação: O dono da Serra da Muralha — De volta à cidade, Letícia investiga e descobre que a fazenda Ecolog, onde fica a Serra da Muralha, pertence a Maria Salete Pozebon, mãe de Shaulis Pozebon, considerado o maior desmatador da Amazônia, condenado a 99 anos por organização criminosa e extorsão. A ironia é que um patrimônio arqueológico único está nas mãos de um grande destruidor da floresta.
  • 00:49:35Conclusão: Arqueologia como chave para o futuro — Eduardo Neves conclui refletindo que a arqueologia na Amazônia é sobre o futuro. Identificar sítios pode ajudar a proteger florestas ameaçadas por obras como a BR-319. Mais profundamente, as descobertas revelam um passado de abundância e sociedades que moldaram a floresta de forma sustentável, oferecendo um modelo alternativo ao atual sistema que gera escassez através do desmatamento e da monocultura.

Dados do Episódio

  • Podcast: Rádio Novelo Apresenta
  • Autor: Rádio Novelo
  • Categoria: Society & Culture Documentary
  • Publicado: 2024-07-04T03:05:00Z
  • Duração: 01:01:21

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Tem um jeito de olhar para a América Latina que começa pelo mapa, pelas fronteiras.

[00:00:06] E tem outro que começa pelas imagens.

[00:00:09] Quando a política tentou impor o silêncio aqui no continente, a resposta veio também com a forma.

[00:00:15] No mural, no cartaz, na fotografia, na ocupação da rua.

[00:00:18] O que circulava como imagem carregava memórias, recados, métodos de sobrevivência.

[00:00:25] A arte foi a forma mais direta de dizer o que não cabia em palavras.

[00:00:30] A Escola MASP está com inscrições abertas para o curso Histórias da Arte Latino-Americana.

[00:00:36] Um percurso crítico pela produção do continente nos séculos XX e XXI.

[00:00:40] Obras, documentos e ações coletivas que disputam imaginários públicos

[00:00:45] e articulam redes de solidariedade num continente atravessado por ditaduras,

[00:00:50] lutas anti-imperialistas e reivindicações por justiça social.

[00:00:54] São 12 aulas online e ao vivo, às segundas, das 19h às 21h.

[00:00:59] De 9 de março a 1º de junho, com Luiz e Malmaceda.

[00:01:03] E as aulas ficam gravadas por 30 dias.

[00:01:06] No mesmo semestre, a Escola MASP também oferece Histórias da Arte Moderna,

[00:01:10] com Felipe Martinez, de 16 de março a 15 de junho,

[00:01:14] usando obras do acervo do MASP como fio condutor,

[00:01:17] para atravessar as transformações da pintura europeia do fim do século XIX ao início do XX,

[00:01:23] de Monet e Van Gogh, a Matisse e Picasso, e chegar no modernismo brasileiro.

[00:01:29] O link para a inscrição do curso de Histórias da Arte Latino-Americana

[00:01:33] está na descrição do episódio.

[00:01:35] E assinantes do Clube Novelo têm 10% de desconto com o cupom MASPNOVELO10.

[00:01:45] Está começando o Rádio Novelo Apresenta.

[00:01:54] Eu sou a Branca Viana.

[00:01:55] É menos comum do que a gente gostaria,

[00:01:59] mas de vez em quando uma correspondente nossa consegue levar um gravador numa aventura.

[00:02:05] Muitas vezes a gente chega meses, anos, décadas depois que uma história aconteceu

[00:02:10] e a gente tenta recontar do nosso jeito.

[00:02:14] Mas tem uma emoção diferente ouvir tudo enquanto ainda está acontecendo,

[00:02:19] enquanto quase tudo ainda está por vir.

[00:02:22] O que a gente tem para você essa semana é a história de uma expedição,

[00:02:28] com diretrizes.

[00:02:29] Deito a escalada de montanha, crime organizado, negociações tensas e muita lama.

[00:02:37] Isso tudo faz parte da história.

[00:02:39] Mas talvez o mais importante dela ainda esteja em aberto.

[00:02:43] Porque essa é uma história sobre segredos da floresta amazônica

[00:02:47] que a gente está começando a entender só agora.

[00:02:52] Quem levou o nosso microfone até lá foi a Letícia Leite.

[00:02:59] Não sei se você sabe, mas a floresta amazônica tem sido bombardeada.

[00:03:09] Aviões equipados com lasers estão sobrevoando as árvores.

[00:03:13] E numa velocidade de 170 km por hora, esse laser dispara uma luz para baixo.

[00:03:19] Um milhão de feixes de luz por segundo.

[00:03:22] Eles batem nas folhas, nos troncos das árvores e voltam para contar uma história.

[00:03:29] Esse bombardeio é para salvar a floresta.

[00:03:32] Mas não só.

[00:03:34] Ele também pode salvar aquilo que está escondido dentro dela.

[00:03:39] Todo mundo sabe que a floresta está sob pressão.

[00:03:43] Que ela está recuando, sendo incendiada, sucateada, dizimada.

[00:03:48] Mas acho que menos gente sabe daquilo que aquela destruição tem revelado.

[00:03:53] Em abril de 2024, o Ministério Público Federal entrou com uma ação contra um pecuarista no Acre.

[00:03:58] Não era por ter derrubado um pedaço de floresta.

[00:04:02] Fazia tempo que aquele lugar era pasto.

[00:04:04] Era por ter soterrado uma estrutura no chão.

[00:04:07] Por ter passado por cima dela com um trator semeando milho e soja naquela terra revirada.

[00:04:14] Essa estrutura era uma de muitas que estão sendo reveladas pela derrubada da floresta.

[00:04:18] São círculos, quadrados, hexágonos.

[00:04:22] Grandes rodas com estradas irradiando para todo lado.

[00:04:25] Desenhos grandes e perfeitos.

[00:04:27] Cavados com valas profundas.

[00:04:30] Feitos com uma matemática sofisticada.

[00:04:33] Uma engenharia de terra feita por povos indígenas.

[00:04:37] O que foi danificado, talvez destruído naquela fazenda, é um de muitos geoglifos amazônicos.

[00:04:45] Geo significa terra.

[00:04:47] Glifo significa marca.

[00:04:49] São literalmente marcas na terra.

[00:04:51] Mas são muito mais do que isso.

[00:04:53] São a primeira página de uma história que a gente está tentando ler agora.

[00:04:57] Antes que ela seja apagada.

[00:05:03] O INPE, eles usam o LIDAR para estudar a floresta.

[00:05:07] Então eles conseguem estudar a estrutura da floresta, tipo uma imagem 3D da floresta, né?

[00:05:15] E o chão também.

[00:05:16] Esse é o Morgan Schmidt. Ele é arqueólogo e geógrafo.

[00:05:20] Eu fui conversar com ele para tentar entender melhor justamente a tecnologia que está sendo usada para enxergar essas estruturas.

[00:05:26] Porque quando a floresta já foi derrubada, é fácil bater o olho e ver um círculo gigante numa clareira, né?

[00:05:32] Mas com a floresta em pé, você precisa de algo muito mais sofisticado.

[00:05:36] Tudo isso começou um pouco sem querer.

[00:05:39] Entre 2016 e 2018, o INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, fez uma série de voos sobre a floresta.

[00:05:47] Eles estavam usando essa tecnologia que o Morgan falou.

[00:05:50] LIDAR, que é uma sigla em inglês para detecção de luz e distância.

[00:05:55] Eles estavam usando essa tecnologia que o Morgan falou.

[00:05:56] Eles estavam bombardeando a floresta com lasers, tentando mapear as árvores, para chegar numa conta.

[00:06:02] Quantas árvores tem na Amazônia?

[00:06:04] E qual o peso de todas elas juntas?

[00:06:07] Eles fizeram um inventário das árvores da Amazônia.

[00:06:11] Juntaram com os melhores mapas da época, imagens do Google Earth,

[00:06:14] e cruzaram com esse levantamento do LIDAR para chegar até a estimativa mais precisa que a gente tem.

[00:06:21] 390 bilhões de árvores.

[00:06:24] Pesando 75 bilhões de árvores.

[00:06:25] Bilhões de toneladas.

[00:06:27] Isso, aliás, sem contar as raízes.

[00:06:29] Então, eles estão interessados em estudar o carbono na floresta.

[00:06:34] A quantidade de carbono, o estoque de carbono.

[00:06:36] Então, eles estão estudando a estrutura da floresta por causa disso.

[00:06:42] Mas a gente está interessado no chão.

[00:06:44] Pois é.

[00:06:45] O INPE estava mirando nas árvores.

[00:06:47] Mas quando eles analisaram as imagens, eles perceberam marcas na terra.

[00:06:51] Como se fossem sombras no mapa.

[00:06:54] A gente olhou.

[00:06:55] As imagens do Acre.

[00:06:57] E conseguimos identificar vários geoglifos.

[00:07:00] E muitos caminhos.

[00:07:01] Pareciam muitos caminhos.

[00:07:04] O Morgan está trabalhando com os dados do INPE.

[00:07:06] Mas ele não trabalha no INPE.

[00:07:09] Ele trabalha num projeto chamado Amazônia Revelada.

[00:07:12] Minha tarefa é fazer a conexão entre o projeto Amazônia Revelada e nosso parceiro, que é o INPE.

[00:07:21] O Morgan, talvez você tenha percebido.

[00:07:23] Ele é americano.

[00:07:24] Mas ele mora no Brasil há 20 anos.

[00:07:25] Eu tenho bastante experiência de arqueologia da paisagem na Amazônia.

[00:07:30] Ele trabalha há anos com arqueologia no Alto Xingu, no Mato Grosso.

[00:07:35] As pesquisas por lá revelaram que no período entre 1200 e 1500,

[00:07:40] onde hoje tem a maior aldeia do povo cuicuro,

[00:07:43] tinham muitas aldeias, que eram bem maiores do que as atuais.

[00:07:48] Mas as imagens que o Morgan está olhando hoje podem ser de formações muito mais antigas.

[00:07:55] Quando eu conversei com o Morgan, ele estava na casa dele, em Santa Catarina.

[00:08:01] Mas ele tinha passado os últimos tempos viajando virtualmente pela Amazônia.

[00:08:06] Nos últimos meses, o projeto Amazônia Revelada começou a fazer seus próprios voos de mapeamento sobre o estado do Acre.

[00:08:12] E vendo as primeiras imagens, já deu para identificar vários outros sítios.

[00:08:17] Muitas vezes tem coisas, como eu falei, são bem nítidas.

[00:08:20] Não tem questão.

[00:08:22] São sítios arqueológicos, são antropogênicos.

[00:08:24] Mas tem várias coisas que você vê que parecem uma coisa, mas pode ser, pode não ser.

[00:08:33] Aí teria que ir para o campo e verificar.

[00:08:37] Nos últimos meses, o Morgan ficou olhando como se fosse um raio-x da floresta.

[00:08:42] Vendo a floresta sem as árvores.

[00:08:44] Procurando caminhos antigos, escondidos pelo tempo.

[00:08:49] Depois de olhar centenas de imagens no computador, estava na hora de conferir aquilo de perto.

[00:08:53] Ele estava preso.

[00:08:54] Prestes a embarcar para o Acre.

[00:08:57] E eu fui junto.

[00:09:01] Uns dois meses depois, eu estava sacolejando por uma estrada de terra com o Morgan ao volante.

[00:09:06] Como vocês vão abordar esse nosso trabalho com o proprietário?

[00:09:12] Falar, pedir licença, falar que a gente está vendo essas coisas, as antigas.

[00:09:17] Quem estava no banco de trás, estrategizando junto com o Morgan, era o Edu, o Eduardo Neves, professor de arqueologia na USP.

[00:09:25] E eles estavam estrategizando porque, muitas vezes, a parte mais delicada do trabalho de um arqueólogo

[00:09:31] não é tirar um material super frágil da terra.

[00:09:35] É conseguir acesso ao sítio arqueológico.

[00:09:37] Mas aqui não vai, não vamos fazer buraco.

[00:09:39] Aqui não tem nenhuma, não vai mexer com a propriedade dele.

[00:09:42] É porque muitas vezes eles ficam desconfiados que eles podem perder o terreno.

[00:09:48] Muitos desses sítios, que foram identificados via imagem aérea, ficam dentro de propriedades privadas.

[00:09:54] Porque muitos geoglifos ficam em lugares estratégicos, perto de rios, por exemplo.

[00:10:00] Lugares que pareciam bons para morar há centenas, milhares de anos.

[00:10:04] E ainda parecem bons hoje.

[00:10:06] Então, estão ocupados por casas, fazendas, enfim.

[00:10:11] Era o caso do sítio que a gente ia ver no primeiro dia de campo.

[00:10:15] Ele se chama Nakahara 50.

[00:10:18] Fica no Acre, mas já bem perto da divisa com o Amazonas.

[00:10:21] E ele tem esse nome, Nakahara,

[00:10:23] que foi identificado no Google Earth por um senhor chamado Nakahara.

[00:10:29] Só que agora, com as imagens do LiDAR, dava pra ver muito melhor.

[00:10:34] Se os satélites do Google Earth mostravam uma imagem meio pixelada, bem distante,

[00:10:39] com o LiDAR, tudo ficava muito mais nítido.

[00:10:42] De cima, dava pra ver um círculo formado por valas.

[00:10:47] Podia ser um sistema de drenagem, uma área de plantio, um lugar de moradia,

[00:10:51] ou um lugar sagrado.

[00:10:53] Usado em cerimônias.

[00:10:55] Os arqueólogos queriam ir lá pra fotografar, medir,

[00:10:58] buscar o máximo de informações que pudessem ajudar a entender melhor

[00:11:02] como aquele círculo perfeito tinha sido feito.

[00:11:05] E pra quê.

[00:11:07] Só que faltava combinar com os russos.

[00:11:09] No caso, os proprietários.

[00:11:17] Depois de duas horas de estrada, a gente parou no ponto que o GPS indicava.

[00:11:21] Tinha uma casa de madeira pintada de azul.

[00:11:23] Na varanda, tava um senhor sentado numa cadeira de balanço.

[00:11:25] Todo mundo desceu do carro e o Edu foi na frente.

[00:11:27] Ele se apresentou.

[00:11:29] Tudo bem? Meu nome é Eduardo.

[00:11:31] E foi direto ao ponto.

[00:11:33] Como é que é o nome do senhor?

[00:11:35] Sou Luís.

[00:11:37] Sou Luís.

[00:11:39] Se autoriza a gente a dar uma olhadinha numa coisa.

[00:11:41] O Edu começou a explicar que eles só queriam tirar umas medidas e fotos das valas no quintal dele.

[00:11:43] O Edu começou a explicar que eles só queriam tirar umas medidas e fotos das valas no quintal dele.

[00:11:45] O Edu começou a explicar que eles só queriam tirar umas medidas e fotos das valas no quintal dele.

[00:11:47] A gente tá vendo aquelas coisas que foram escavadas pelos antigos.

[00:11:49] Sabe umas valas que tinham antigamente, umas estradas que eles faziam?

[00:11:51] Sabe umas valas que tinham antigamente, umas estradas que eles faziam?

[00:11:53] O Morgan chegou com um iPad pra tentar mostrar uma imagem de satélite pro Luís.

[00:11:55] O Morgan chegou com um iPad pra tentar mostrar uma imagem de satélite pro Luís.

[00:11:57] Aquele desenho não parecia fazer muito sentido pra ele.

[00:11:59] Aquele desenho não parecia fazer muito sentido pra ele.

[00:12:01] Nem as explicações sobre avião, INPE, LIDER, enfim.

[00:12:03] Nem as explicações sobre avião, INPE, LIDER, enfim.

[00:12:05] Essa linha azul é uma vala circular.

[00:12:07] E essas linhas vermelhas são múltiplas.

[00:12:09] E essas linhas vermelhas são múltiplas.

[00:12:11] O Edu foi tentar de novo.

[00:12:13] Teve um pessoal do instituto lá de São Paulo que trabalha com pesquisa,

[00:12:15] Teve um pessoal do instituto lá de São Paulo que trabalha com pesquisa,

[00:12:17] essa coisa da floresta, tudo.

[00:12:19] Eles passaram essa faixa, uma coisa que vai num aviãozinho.

[00:12:21] Eles passaram essa faixa, uma coisa que vai num aviãozinho.

[00:12:23] Vai tirando uma fotografia.

[00:12:25] E aí apareceram essas linhas.

[00:12:27] Tá vendo que tem uma linha circular?

[00:12:29] E essas linhas aqui foram cavadas pelo pessoal que viveu aqui há muito tempo atrás.

[00:12:31] E essas linhas aqui foram cavadas pelo pessoal que viveu aqui há muito tempo atrás.

[00:12:33] E o nosso interesse é só dar uma olhadinha e ver qualquer profundidade disso.

[00:12:35] E o nosso interesse é só dar uma olhadinha e ver qualquer profundidade disso.

[00:12:37] O Luís Lourenço da Silva tem 92 anos.

[00:12:39] O Luís Lourenço da Silva tem 92 anos.

[00:12:41] Ele nasceu em Pernambuco.

[00:12:43] Passou para São Paulo, onde perdeu os pais.

[00:12:45] Casou e se mudou para o Acre aos 38 anos.

[00:12:47] Casou e se mudou para o Acre aos 38 anos.

[00:12:49] Ele vive nessa região,

[00:12:51] pertinho da fronteira com a Bolívia,

[00:12:53] já tem 50 anos.

[00:12:55] Ele já tinha reparado na vala em formato de círculo

[00:12:57] no meio do passo da fazenda dele.

[00:12:59] Mas ele achava que eram formações naturais.

[00:13:01] Eu pensei que eram coisas da natureza mesmo

[00:13:03] Eu pensei que eram coisas da natureza mesmo

[00:13:05] porque aparece muita coisa da natureza.

[00:13:07] porque aparece muita coisa da natureza.

[00:13:08] mas já tinha outros sinais da ocupação dos antigos,

[00:13:10] mas já tinha outros sinais da ocupação dos antigos,

[00:13:12] Tem até umas garrafas de barro.

[00:13:17] Busca lá aquela garrafa de barro para eles verem.

[00:13:20] Que eles acharam aqui no fundo da terra.

[00:13:22] É mesmo?

[00:13:25] Uma bela garrafa de barro, que pode ter mais de mil anos.

[00:13:29] Eu me chamo Rosineide Sons Conceição, tenho 41 anos.

[00:13:33] E moro aqui tem 25 anos.

[00:13:39] A Neide é a nora do Luiz.

[00:13:41] E ela não ficou tão surpresa assim com a aparição dos pesquisadores.

[00:13:45] Porque ela disse que um outro time de arqueólogos já tinha visitado a propriedade da mãe dela.

[00:13:50] É interessante porque a gente fica curioso também.

[00:13:54] E é muito interessante saber que as pessoas se interessam.

[00:13:58] Porque a gente em si não consegue saber o que é.

[00:14:03] A gente vê algo assim na terra e a gente pensa.

[00:14:07] Passam muitas coisas pela cabeça da gente, mas a gente não sabe direito o que é.

[00:14:10] Então é muito interessante.

[00:14:11] Para a Neide, uma das coisas que passam pela cabeça dela é.

[00:14:15] Isso é importante para o Acre.

[00:14:17] Porque o Acre é uma região onde as pessoas ficam assustadas.

[00:14:22] Ah, o Acre existe.

[00:14:24] Eu mesmo sou acriana, não me envergonho de ser.

[00:14:27] Sou feliz e acho muito bom ser acriana.

[00:14:31] Eu acho gostoso morar nesse lugar, na floresta.

[00:14:34] Em algo que a gente está bem próximo da natureza.

[00:14:37] É muito bom.

[00:14:38] 85% do território do Acre é floresta.

[00:14:42] Mas isso está mudando.

[00:14:44] Em 2023, o Acre foi responsável por 19% de todo o desmatamento na Amazônia Legal.

[00:14:51] A cada 10 árvores derrubadas, duas viviam no Acre.

[00:14:56] A Neide, que é daqui, está vendo a paisagem desse lugar ser transformada.

[00:15:01] Vendo a floresta aos poucos virar pasto.

[00:15:04] Às vezes eu fico imaginando.

[00:15:05] Será que os filhos, meus netos…

[00:15:08] O bisneto vai conseguir ver uma castanheira, vai chegar, conhecer uma castanheira.

[00:15:15] Porque é muito preocupante.

[00:15:17] Foi justamente a abertura de pasto, ao longo de décadas de desmatamento,

[00:15:21] que tornou visíveis os primeiros geoglifos.

[00:15:25] Na década de 70, o arqueólogo Ondemar Dias localizou alguns desenhos na terra em fazendas de gado no Acre.

[00:15:32] Mas as descobertas não causaram muita repercussão.

[00:15:36] Até que um jovem estudante de geografia,

[00:15:38] chamado Alceu Hanze, olhou da janela de um avião e viu,

[00:15:42] no meio de uma área de pasto, círculos perfeitos, cravados na terra.

[00:15:49] Isso foi em 1986.

[00:15:52] Meses depois, ele conseguiu voltar pra lá num avião pequeno.

[00:15:56] Dessa vez, com dois fotógrafos profissionais.

[00:16:00] Os três apresentaram pro mundo, pela primeira vez, imagens aéreas dos geoglifos da Amazônia.

[00:16:06] Eles fotografaram estruturas que tinham forma de quadrado, de círculos, de um U duplo.

[00:16:14] Algumas eram parecidas com o que estava ali na nossa frente, no Nacarrara 50.

[00:16:20] Onde a gente tá e o que que tá acontecendo aqui, Fernando?

[00:16:22] Então, nós estamos no Nacarrara 50.

[00:16:25] Aqui é um geoglifo, você pode olhar a forma circular.

[00:16:28] Aqui são as valetas dele.

[00:16:30] E a gente tá olhando, o Morga tá tirando alguns pontos de GPS.

[00:16:33] Daqui a pouco, se parar, tio, eu não subi o drone pra fotografar.

[00:16:36] A gente vai pra ali de cima.

[00:16:38] Hoje em dia, os grandes fazendeiros têm fechado as portas pra nós, arqueólogas e arqueólogos.

[00:16:42] Eles têm medo de perder a terra, tem uma discussão.

[00:16:45] Acho que tem a ver com as questões políticas do Brasil também.

[00:16:47] Mas os pequenos proprietários e os ribeirinhos, indígenas, quer dizer,

[00:16:52] a arqueologia sempre abre pra uma conversa muito interessante.

[00:16:55] Porque as pessoas vivem lá, elas sabem que aqueles lugares estão lá.

[00:16:58] E se elas percebem que não vão perder a terra por causa disso,

[00:17:01] e não vai ser a arqueologia que vai fazer isso, obviamente,

[00:17:03] elas querem saber também quem que fez, como é que foi feito.

[00:17:06] Fica imaginando, porque a gente chega, assim, num lugar, a gente pensa que a gente é o primeiro, né?

[00:17:13] Então a gente vai descobrir aí que já passou pessoas morando.

[00:17:17] É interessante, né?

[00:17:19] A gente rodou pelo Nacarrara 50 durante umas duas horas.

[00:17:24] O geoglifo é um círculo um pouco maior que um campo de futebol.

[00:17:28] E tem vários caminhos saindo desse círculo.

[00:17:30] O que você achou aí?

[00:17:31] Aqui é uma cerâmica, aqui no chão.

[00:17:33] A outra aqui não.

[00:17:35] Esse é o Cleaverson Pessoa.

[00:17:36] Doutorando em Arqueologia na USP.

[00:17:39] Em cinco anos, o Cleaverson identificou mais de mil estruturas arqueológicas no sul do Amazonas.

[00:17:44] E no oeste do Acre.

[00:17:46] E em pouco tempo, andando pelo Nacarrara 50,

[00:17:49] ele conseguiu bater o olho no que, pra mim, parecia só um pedaço de barro.

[00:17:53] Mas que ele identificou como sendo parte de uma vasilha.

[00:17:56] É difícil, né, encontrar cerâmicas nesses geoglifos.

[00:17:59] Então, uma olhada rápida, se a gente encontrar cerâmica, é uma surpresa, né?

[00:18:04] Então mostra aqui.

[00:18:05] É uma surpresa boa, porque é uma prova de uma ocupação humana antiga.

[00:18:10] Uma marca.

[00:18:11] Assim como a Terra Preta.

[00:18:13] Assim como os geoglifos.

[00:18:15] De que aquele espaço já foi habitado.

[00:18:18] De que ele tem uma história pra contar.

[00:18:25] A próxima parada era perto de Sena Madureira, no oeste do Acre.

[00:18:29] E a gente tava indo pra lá muito por causa do Fernando Ferreira.

[00:18:32] Sou do Acre, acreano.

[00:18:35] O Fernando tá fazendo mestrado em Arqueologia no Museu Paraense Emílio Guilde.

[00:18:39] Ele foi o coordenador de campo no Amazônia Revelada pra essa etapa do projeto no Acre.

[00:18:44] Quando o Edu me convidou pra fazer parte desse projeto Amazônia Revelada,

[00:18:48] ele falou, cara, a gente vai mapear a Amazônia através de LIDAR,

[00:18:51] e a gente seleciona algumas áreas.

[00:18:53] E uma área que a gente tava pensando em trabalhar seria o Acre.

[00:18:56] O que tu acha? Eu disse, fantástico.

[00:18:58] Então eu disse, ó, eu quero, né, se puder, uma área no município de Sena Madureira.

[00:19:05] Claro.

[00:19:06] O Fernando tinha dois motivos pra querer olhar esse pedaço do Acre.

[00:19:09] O primeiro é que toda a região oeste do estado ainda tem grandes porções de floresta.

[00:19:15] Mas tá muito perto do chamado Arco do Desmatamento.

[00:19:18] A gente pensou assim, se a gente conseguir descobrir sítios arqueológicos naquela área,

[00:19:23] é uma proteção a mais pra essa floresta.

[00:19:25] Uma proteção a mais.

[00:19:27] Porque proteger o patrimônio arqueológico é uma obrigação do governo.

[00:19:31] Tá na lei desde 1961.

[00:19:33] Então? Descobrir o patrimônio arqueológico. Então? Descobrir o patrimônio arqueológico.

[00:19:33] Então? Descobrir o patrimônio arqueológico. Então? Descobrir o patrimônio arqueológico.

[00:19:34] Então? Descobrir e registrar sítios arqueológicos em área de floresta

[00:19:38] é um motivo a mais pra deixar a floresta lá, de pé,

[00:19:41] protegendo o clima e a possibilidade da gente conhecer melhor a história dos povos indígenas do Acre.

[00:19:47] A gente tem um problema muito grande no Acre de não ter uma identificação com a nossa própria identidade.

[00:19:52] Muitas pessoas se envergonham de ser descendente de indígena ou descendente de seringueiro.

[00:19:57] Eu mesmo, meu avô veio para o Acre na década de 40.

[00:20:00] Cortou seringa e etc.

[00:20:02] Casou com uma mulher indígena.

[00:20:03] Casou com uma mulher indígena.

[00:20:03] indígena daqui do Acre.

[00:20:05] A avó do Fernando teve 13 filhos.

[00:20:07] Ela morreu cedo. Ele não tem

[00:20:09] nenhuma lembrança dela, nenhuma foto.

[00:20:12] Muito menos sabe dizer

[00:20:13] de qual povo indígena ela era.

[00:20:15] E todo mundo diz, ah, a tua avó é indígena.

[00:20:17] Os meus próprios dizem, ah, ela era índia.

[00:20:19] Aí tem um que diz, não, ela não era índia.

[00:20:21] Ela era filho de índio,

[00:20:23] não sei o quê, tentando amenizar

[00:20:25] porque tem um preconceito, né?

[00:20:28] Que a gente sabe muito.

[00:20:29] Quando eu estudava ensino médio, era

[00:20:31] um insulto chamar outro de seringueiro.

[00:20:33] Ah, você é seringueiro. E o pessoal

[00:20:35] ficava insultado. O Fernando

[00:20:37] é filho de seringueiro. Quando eu tinha

[00:20:39] quatro anos, meu pai foi assassinado.

[00:20:42] Ele morreu num seringal

[00:20:43] em Chapuri. Confusões

[00:20:45] de questões de bebedeira,

[00:20:47] tem muito isso no interior, principalmente

[00:20:49] em seringal. E ele acabou

[00:20:51] sendo assassinado. A mãe do

[00:20:53] Fernando ficou sozinha com dois filhos

[00:20:55] pequenos. E acabou indo morar na cidade

[00:20:57] de Sena Madureira, pra ficar perto do irmão

[00:20:59] dela. Foi lá que o Fernando

[00:21:01] cresceu. E Sena Madureira

[00:21:03] é uma cidade, eu considero, uma cidade carismática,

[00:21:05] um pouco bucólica também, né?

[00:21:07] E a gente tem o rio Iaco, né?

[00:21:09] Que é a veia central do município.

[00:21:12] E tudo é pelo rio também.

[00:21:14] Quando o Fernando tinha 12 anos,

[00:21:15] ele conheceu um lado da região

[00:21:17] que deixou ele fissurado. Aqui em Sena

[00:21:19] Madureira, tem um museu de Sena

[00:21:21] que infelizmente tá fechado. E eu fui

[00:21:23] numa visitação da escola nesse museu.

[00:21:25] E lá tinha umas urnas funerárias

[00:21:27] da Shiburema.

[00:21:29] Há quase 30 anos, urnas

[00:21:31] funerárias foram descobertas numa antiga

[00:21:33] estrada de Sena Madureira.

[00:21:35] São vasos enormes, muito

[00:21:37] bem decorados. E quando o Fernando

[00:21:39] bateu o olho neles, ele sabia

[00:21:41] que ele queria estudar a história do lugar

[00:21:43] onde ele cresceu. Quando eu entrei na história,

[00:21:45] o curso de História da UFAG da minha grade

[00:21:47] não se trabalhava com arqueologia

[00:21:49] ainda. E infelizmente

[00:21:51] nem com história indígena.

[00:21:53] Pra você ver, um curso de História na Universidade

[00:21:55] Federal do Acre, no meio da Amazônia, não tinha

[00:21:57] disciplina de História Indígena e não tinha

[00:21:59] disciplina de Arqueologia, mesmo a gente ter

[00:22:01] nessa quantidade de sítios arqueológicos no Acre.

[00:22:03] Até que um dia, o Fernando viu um

[00:22:05] cartaz colado na parede da Universidade.

[00:22:08] Era uma seleção pra participar

[00:22:09] de um sítio escola. E eu disse, ah,

[00:22:11] vou me inscrever. Eu conheci

[00:22:13] o Fernando em 2014.

[00:22:15] O que acontece? Esse de novo

[00:22:17] é o Edu Neves, da USP.

[00:22:19] O que aconteceu em 2014 é meio

[00:22:21] complexo. Estavam querendo construir

[00:22:23] uma linha de transmissão entre Porto Velho

[00:22:25] e Rio Branco. Só que essa linha

[00:22:27] ia passar perto de uma estrada,

[00:22:29] um caminho. E tinha um debate.

[00:22:31] Se essa estrada tinha sido aberta na década

[00:22:33] de 70, ou se ela era mais

[00:22:35] antiga. De qualquer forma,

[00:22:37] esse sítio já tinha sido danificado

[00:22:39] pela obra. E o IFAM teve que

[00:22:41] patrocinar uma nova

[00:22:43] pesquisa de campo nesse sítio

[00:22:45] com uma escavação voltada

[00:22:47] pra determinar a antiguidade daquela estrutura,

[00:22:49] daquela estrada. Só que em vez

[00:22:51] de só investigar aquele pedaço,

[00:22:53] eles resolveram fazer um sítio escola

[00:22:55] pra alunos do Acre.

[00:22:57] Fazer com que jovens pudessem meter a mão

[00:22:59] na massa na hora de recuperar a história,

[00:23:01] a história do estado deles.

[00:23:02] O que é um sítio escola? É você trazer um montão de gente,

[00:23:05] alunas e alunos, pra passar um mês,

[00:23:07] 45 dias, escavando um sítio arqueológico,

[00:23:09] aprendendo a fazer arqueologia de campo,

[00:23:11] discutindo, incorporando

[00:23:13] as técnicas de registro e assim por diante.

[00:23:15] E o Fernando foi uma dessas pessoas que se inscreveu

[00:23:17] pra esse curso, pra esse sítio escola.

[00:23:20] E logo de cara

[00:23:21] percebi o talento muito grande que ele tem.

[00:23:23] A curiosidade

[00:23:24] pela arqueologia.

[00:23:27] Depois do sítio escola,

[00:23:29] o Fernando embarcou de vez na arqueologia.

[00:23:31] Querendo ou não, a história do Acre

[00:23:33] começa a ser contada a partir

[00:23:35] da chegada do homem branco aqui.

[00:23:38] E é isso, o homem branco chegou

[00:23:39] no ciclo da borracha, etc.

[00:23:41] A história oficial é essa. E os povos

[00:23:43] indígenas que habitavam aqui?

[00:23:45] Não é contada essa história.

[00:23:46] Essa história tá viva na tradição oral de muitos povos

[00:23:49] indígenas, claro. Mas a arqueologia

[00:23:51] e essas novas tecnologias

[00:23:53] estão ajudando a comprovar

[00:23:55] aquilo que sempre foi dito.

[00:23:56] E resgatar a história dos povos

[00:23:58] que já não estão com a gente.

[00:24:00] E os dados estão mostrando pra gente que tem sítios.

[00:24:02] E muitos sítios.

[00:24:04] E isso é muito bom, porque comprova

[00:24:06] dizendo que tem

[00:24:08] uma expansão desses sítios arqueológicos

[00:24:10] tipo geoglifo ao oeste e norte do estado

[00:24:12] do Acre. Mostra que essas pessoas

[00:24:14] estavam por todo o Acre, não era só

[00:24:16] na porção leste do Acre ou oeste

[00:24:18] de Rondônia, mas estavam habitando

[00:24:20] toda essa região.

[00:24:25] O primeiro sítio que a gente foi ver perto de

[00:24:28] Sena Madureira era o Nacarrara

[00:24:29] 71. Sim, o senhor Nacarrara

[00:24:32] realmente tem um bom olho pra essas coisas.

[00:24:34] Ele já registrou mais de

[00:24:35] 200 geoglifos.

[00:24:40] No Nacarrara 71, mais uma vez

[00:24:42] eu vi o Edu fazendo comunicação científica

[00:24:44] ao vivo e em cores.

[00:24:46] Primeiro com um proprietário,

[00:24:47] depois com outro.

[00:24:52] Pra mim, esse sítio

[00:24:54] não parecia nada demais.

[00:24:56] Parecia um grande pasto.

[00:24:57] Não tinha aqueles desenhos gravados

[00:24:59] no chão. Mas tinha outra

[00:25:01] formação na terra.

[00:25:03] Uns morrinhos, uns barrancos

[00:25:05] que eles chamam de montículos.

[00:25:07] E também tinha um platô e uns caminhos

[00:25:09] conectando tudo. O Morgan

[00:25:11] estava muito empolgado com esse sítio.

[00:25:14] O que você imaginava que podia ser aqui?

[00:25:17] Aqui?

[00:25:17] Aqui eu

[00:25:19] penso que

[00:25:21] era uma aldeia,

[00:25:23] um tipo de aldeia

[00:25:25] ou um espaço

[00:25:27] ceremonial.

[00:25:29] Talvez uma praça

[00:25:32] aqui, talvez

[00:25:32] uma aldeia com casas,

[00:25:36] com pessoas morando aqui.

[00:25:38] Mas para confirmar isso,

[00:25:39] a gente teria que fazer escavações

[00:25:41] para ver que tipo de vestígios

[00:25:44] que a gente pode encontrar aqui.

[00:25:47] Alguns vestígios

[00:25:47] não demoraram a aparecer.

[00:25:49] De novo, o homem dos olhos excepcionais.

[00:25:52] Cleverson Pessoa.

[00:25:53] Cerâmica.

[00:25:53] Cerâmica?

[00:25:54] Cerâmica.

[00:25:56] Isso aqui era tipo assim,

[00:25:59] vasilhas de cerâmica.

[00:26:01] Aí é só o caco que quebrou.

[00:26:03] O time passou uma hora rodando pelo

[00:26:05] Nacarrara 71, que tem mais ou menos

[00:26:08] o dobro do tamanho do que a gente tinha

[00:26:10] visto no outro dia.

[00:26:12] E antes de ir embora, o Fernando

[00:26:13] deu o veredito para o proprietário.

[00:26:15] Está verificado. É um sítio arqueológico

[00:26:18] no seu quintal. O senhor tem um sítio

[00:26:19] no seu quintal. O senhor não se

[00:26:21] preocupa. A terra é sua. É uma

[00:26:23] propriedade privada. A única coisa que a gente

[00:26:25] quer estudar é entender mesmo como funciona

[00:26:27] isso. Quem morava, quem fez,

[00:26:29] que a gente também não sabe quem fez isso, né?

[00:26:31] A gente já sabe que é gente antiga.

[00:26:33] Então, muito obrigado por nos receber aqui.

[00:26:37] A gente acabou não conseguindo chegar no terceiro

[00:26:39] sítio que eles tinham programado,

[00:26:41] porque o acesso estava bem difícil.

[00:26:44] Mas ali, onde a gente tinha parado

[00:26:46] na estrada, o Cleverson

[00:26:47] atacou de novo.

[00:26:48] Olha aí, olha que legal.

[00:26:50] O Cleverson

[00:26:52] tinha achado um caco de cerâmica.

[00:26:55] E depois outro,

[00:26:56] e mais outro.

[00:26:57] É uma vasilha quase toda.

[00:26:59] Aí, o Fernando

[00:27:02] achou a boca de um vaso

[00:27:03] enterrado na estrada.

[00:27:05] Quer dar uma olhada aqui? O Edu estava

[00:27:07] eufórico.

[00:27:09] Ele chamou o Manuel, motorista que

[00:27:11] tinha levado a gente até lá, pra ver também.

[00:27:14] Tá vendo aqui?

[00:27:16] Caco de pote, assim?

[00:27:19] É dos índios

[00:27:20] de antigamente, né?

[00:27:22] Tá vendo que ele tá

[00:27:23] todo quebradinho aqui, assim, ó?

[00:27:26] Eles faziam aquelas coisas de

[00:27:27] barro antes, né?

[00:27:29] Aí, esse pessoal tá

[00:27:31] estudando aqui o local, né?

[00:27:34] Descobriram aqui

[00:27:35] detritos, né?

[00:27:37] De sítio arqueológico,

[00:27:40] par de cerâmica.

[00:27:42] Então, pra mim, isso aqui é novidade.

[00:27:43] Novidade, que eu não entendia

[00:27:45] isso aqui, mas

[00:27:46] quantas vezes passei por aqui, em cima desse

[00:27:49] desse sítio arqueológico

[00:27:51] aqui, e não tinha

[00:27:53] conhecimento disso.

[00:27:59] Oi, aqui quem fala é a Lorena Tabosa,

[00:28:04] do Prato Cheio, podcast de

[00:28:05] o Jô e o Trigo, que discute alimentação

[00:28:07] como você nunca ouviu.

[00:28:09] A gente já falou sobre o falso milagre do whey,

[00:28:12] sobre o casamento das indústrias

[00:28:13] de cigarro e de ultraprocessados,

[00:28:16] gentrificação alimentar,

[00:28:18] e até sobre como o salmão

[00:28:19] não tem nada de saudável e chique.

[00:28:22] Ele tem piolho,

[00:28:23] co-artificial e um monte de

[00:28:25] antibióticos pra arrematar.

[00:28:27] E tem episódio novo no ar.

[00:28:29] Essa semana a gente conta a história do sucrilhos,

[00:28:32] que deve ter povoado a infância

[00:28:33] de muitos milênios por aqui.

[00:28:36] Esse croque-croque, docinho-docinho

[00:28:38] deixa um gosto um tanto

[00:28:39] amargo nos paladares mundo afora.

[00:28:42] Até com religião e celibato,

[00:28:44] os cereais matinais já se meteram.

[00:28:46] Acredita?

[00:28:47] Depois daqui, já favorita o Prato Cheio

[00:28:49] na sua plataforma preferida pra ouvir esse

[00:28:51] e os outros episódios.

[00:28:53] Prato Cheio, alimentação

[00:28:55] como você nunca ouviu.

[00:28:59] Às vezes, um sítio arqueológico

[00:29:01] não é um desenho que só dá pra ver do ar.

[00:29:04] Ou um montículo

[00:29:05] disfarçado de barranco.

[00:29:07] Ou um caco de cerâmica que pode

[00:29:09] bem passar despercebido.

[00:29:11] Às vezes, é uma estrutura bem dramática

[00:29:14] que a gente só não vê

[00:29:16] porque é bem difícil

[00:29:17] de chegar lá.

[00:29:20] Os últimos três dias de viagem

[00:29:21] foram dedicados a um sítio assim.

[00:29:24] Uma muralha de pedra misteriosa

[00:29:26] construída no topo

[00:29:27] de uma montanha a uns 100 metros.

[00:29:29] No mapa de Rondônia

[00:29:32] fica aquele fiozinho

[00:29:34] na parte oeste.

[00:29:37] No caminho pra lá,

[00:29:37] o Cleverson veio me explicando

[00:29:39] onde fica essa serra.

[00:29:41] Se você olhar no mapa do Brasil,

[00:29:43] lá em cima, na região norte,

[00:29:45] o estado de Rondônia tem uma tripinha

[00:29:47] que entra no estado do Acre.

[00:29:49] A gente percorreu essa tripinha toda

[00:29:51] numa região conhecida como

[00:29:53] Ponta do Agunã.

[00:29:55] É lá que fica essa montanha.

[00:29:56] O sítio mesmo, ele tá no topo

[00:29:58] de um…

[00:29:59] de uma serra

[00:30:00] da margem esquerda do Madeira,

[00:30:03] próxima à Foz do Abunã.

[00:30:05] E ele foi identificado no final da década de 70

[00:30:08] pelo arqueólogo Eurico Miller,

[00:30:09] que veio do Rio Grande do Sul

[00:30:11] e fez vários trabalhos em Rondônia.

[00:30:14] Eurico Miller era um arqueólogo gaúcho.

[00:30:17] Ele andou por boa parte de Rondônia

[00:30:19] e descobriu e registrou

[00:30:20] vários sítios arqueológicos.

[00:30:22] Mas ele deixou uma anotação bem curta

[00:30:24] sobre a Serra da Muralha,

[00:30:26] no meio de uma centena de sítios.

[00:30:28] Uma única página que ele fala

[00:30:29] da Serra da Muralha.

[00:30:31] E desde então ela nunca foi pesquisada,

[00:30:33] né, sistematicamente.

[00:30:35] Lá em 1979,

[00:30:37] o Eurico anotou que a muralha tinha

[00:30:39] aproximadamente 1,20m de altura

[00:30:41] e 380m de extensão.

[00:30:45] E que talvez

[00:30:45] fosse usada como local de defesa.

[00:30:48] Uma das coisas que faz

[00:30:50] da Serra da Muralha um sítio especial

[00:30:52] é que ela foi feita de pedra.

[00:30:54] Então, tem gente

[00:30:56] na região que acredita que a muralha

[00:30:57] seja a Machu Picchu da Amazônia Brasileira.

[00:31:00] Tipo, que os incas poderiam ter chegado

[00:31:02] até Rondônia.

[00:31:03] Se costuma associar essa muralha de pedra

[00:31:05] com o passado inca e tudo mais,

[00:31:07] mesmo que não tenha nada

[00:31:08] que possa, de fato, associar

[00:31:11] essa construção

[00:31:14] com uma expansão incaica.

[00:31:18] Por isso também é muito importante

[00:31:20] que novas pesquisas sejam feitas

[00:31:22] nesse sítio,

[00:31:24] pra gente tentar entender um pouco melhor

[00:31:26] o significado que ele tem.

[00:31:28] O que seria essa construção?

[00:31:31] Se era uma proteção de um lugar?

[00:31:33] Se era um lugar cerimonial?

[00:31:34] Se era uma habitação?

[00:31:36] Então, tem várias especulações nesse sentido.

[00:31:39] É interessante porque ele mexe

[00:31:41] com o imaginário das pessoas.

[00:31:43] O Império Inca

[00:31:45] era altamente organizado e centralizado

[00:31:47] no imperador, com governadores regionais,

[00:31:50] uma agricultura desenvolvida

[00:31:51] com técnicas avançadas

[00:31:53] de irrigação e cultivo em terraços.

[00:31:56] Eles construíram estradas,

[00:31:57] pontes e conjuntos arquitetônicos.

[00:31:58] Impressionantes,

[00:32:00] usando pedras encaixadas,

[00:32:03] sem argamassa.

[00:32:04] O Cleverson disse que tem gente

[00:32:06] que defende essa ideia de Machu Picchu brasileira,

[00:32:09] que parece meio glamuroso

[00:32:10] ter construções inca no Brasil.

[00:32:13] Mas ele acha que tem um preconceito ali,

[00:32:15] em que não descarta de cara

[00:32:17] que a muralha possa ter sido feita

[00:32:18] por outros povos indígenas.

[00:32:21] E, de fato, a datação de carbono

[00:32:23] indicou que a muralha teria

[00:32:24] entre 2.000 e 1.200 anos.

[00:32:26] Ou seja, que é bem mais velha,

[00:32:28] mais velha do que o Império Inca.

[00:32:34] O Cleverson é uma das poucas pessoas

[00:32:37] que conseguiu visitar a muralha

[00:32:38] nos últimos anos.

[00:32:40] Ele participou de uma expedição

[00:32:41] que subiu lá em 2016.

[00:32:44] E, naquela época,

[00:32:45] a muralha tinha sido danificada.

[00:32:47] Quando eu estive lá, eu vi que

[00:32:48] algumas partes da muralha

[00:32:50] tinham sido vandalizadas, né?

[00:32:51] Tiraram os granitos, os blocos de granitos, né?

[00:32:55] E algumas partes tentaram recolocar

[00:32:57] e não ficou a mesma coisa.

[00:32:58] Mas a muralha não está ameaçada

[00:33:00] só por aventureiros que podem se dar ao trabalho

[00:33:02] de subir uma serra

[00:33:04] para vandalizar um patrimônio arqueológico.

[00:33:06] A ponta do Abunã é também a ponta

[00:33:08] do arco do desmatamento, né?

[00:33:10] Que começa lá no Pará, lá em cima, né?

[00:33:12] E ele chega até essa ponta do Abunã,

[00:33:14] até aqui no Acre.

[00:33:15] Esse era o principal motivo da gente estar

[00:33:17] a caminho de Vista Alegre do Abunã,

[00:33:19] que fica já em Rondônia.

[00:33:21] A gente colocou uma das áreas no liner ali

[00:33:24] justamente porque a ideia do Amazonas Revelado

[00:33:26] é tentar proteger essas áreas que estão ameaçadas.

[00:33:28] Esse, de novo, é o Edu Neves.

[00:33:30] E esse pedaço ali da Serra da Muralha

[00:33:32] em ponta do Abunã está dentro desse contexto mais amplo.

[00:33:34] Duas grandes ameaças.

[00:33:36] Três, eu diria, né?

[00:33:38] O garimpo ilegal, o desmatamento

[00:33:40] e o crime organizado.

[00:33:42] Porque a gente está do lado da fronteira da Bolívia.

[00:33:44] Numa tríperse fronteira nacional

[00:33:46] entre Amazonas, Rondônia e Acre

[00:33:48] e a Bolívia, que está ao sul também.

[00:33:50] Então, é um lugar quente, digamos assim,

[00:33:52] para trabalhar.

[00:33:54] Deu para ver que a gente estava num lugar quente

[00:33:56] quando a gente estava quase chegando no nosso hotel.

[00:33:58] Tinha um muro com as letras C e V

[00:34:00] pichadas em vermelho.

[00:34:02] As iniciais do comando vermelho.

[00:34:04] A produção de cocaína no mundo

[00:34:06] está concentrada em três países.

[00:34:08] Colômbia, Peru e Bolívia.

[00:34:10] Esse pedaço de Rondônia e Acre

[00:34:12] que a gente estava rodando

[00:34:14] está na rota de distribuição

[00:34:16] de mais da metade da cocaína produzida no mundo.

[00:34:18] Com destino à Europa e à África.

[00:34:26] No hotel, o pessoal começou a planejar

[00:34:28] a expedição do dia seguinte.

[00:34:30] E foi aí que eu fui percebendo

[00:34:32] que não ia ser fácil chegar na Serra da Muralha.

[00:34:36] Na época da nossa visita

[00:34:38] estava chovendo muito.

[00:34:40] Vários municípios do Acre tinham decretado

[00:34:42] estado de emergência.

[00:34:44] A gente estava em dois carros,

[00:34:46] mas um deles não tinha tração nas quatro rodas.

[00:34:48] Porque no caos das chuvas

[00:34:50] não deu para alugar coisa melhor.

[00:34:52] Então, a missão era essa.

[00:34:54] Chegar no topo de uma serra

[00:34:56] que sabia mais ou menos onde ficava

[00:34:58] e sabia que tinha garimpo, desmatamento

[00:35:00] e crime organizado próximo.

[00:35:02] Chovendo,

[00:35:04] com muita lama pela frente,

[00:35:06] com uma caminhonete e um carro de passeio.

[00:35:08] E tudo isso em áreas

[00:35:10] sem sinal de telefone ou internet.

[00:35:12] Mas a ideia é essa.

[00:35:14] Ir até a fazenda, andar um pouquinho

[00:35:16] na área desmatada

[00:35:18] e tentar localizar

[00:35:20] aquela partezinha baixa

[00:35:22] e daí entrar para a mata.

[00:35:24] E andar uns 200 metros

[00:35:26] e tentar localizar o picadão.

[00:35:28] Esse é o Amilcar Adame,

[00:35:30] um geólogo de 75 anos

[00:35:32] que se juntou ao time

[00:35:34] nessa fase final.

[00:35:36] Fato interessante sobre ele.

[00:35:38] Ele descobriu a maior paleotoca.

[00:35:40] Um daqueles buracos de bicho preguiça

[00:35:42] gigante da Amazônia.

[00:35:44] Talvez por isso ele não tivesse

[00:35:46] intimidado com o tamanho do buraco

[00:35:48] em que a gente estava se metendo.

[00:35:56] A gente saiu de manhecer.

[00:35:58] Uns 40 minutos depois

[00:36:00] já chegou num mar de lama.

[00:36:02] Caminhão de tora, cara.

[00:36:04] Tô louco. Caminhão de tora.

[00:36:06] Caramba.

[00:36:08] Para aqui, Morgan. Para aqui.

[00:36:10] A gente ficou ali um tempinho

[00:36:12] até conseguir passar.

[00:36:16] Deu um certo alívio

[00:36:18] passar por aquela lama toda

[00:36:20] com dois carros.

[00:36:22] Deu também um aperto no peito

[00:36:24] para passar por aquele caminhão

[00:36:26] cheio de toras de árvores.

[00:36:28] Pô, gente, furou. Não tem jeito.

[00:36:30] Furou os dois.

[00:36:32] Dois lados.

[00:36:34] O outro furou também, né?

[00:36:36] A caminhonete tinha vencido o mar de lama.

[00:36:38] Mas dois dos pneus, não.

[00:36:40] Também não tinha sinal de celular.

[00:36:42] A gente podia voltar

[00:36:44] para o hotel e tentar um guincho

[00:36:46] e nisso desistir da serra

[00:36:48] ou podia largar um dos carros

[00:36:50] enfiar a galera toda no outro

[00:36:52] e seguir em frente.

[00:36:54] Se deixar na escada, sabe por quê?

[00:36:56] Se ligar o motor, ele vai fundir.

[00:36:58] A gente seguiu.

[00:37:00] Metade do pessoal dentro,

[00:37:02] metade na caçamba.

[00:37:06] A ideia era chegar numa fazenda

[00:37:08] que dava acesso à serra.

[00:37:10] Só que desde aquela vez

[00:37:12] que o Cleverson tinha subido,

[00:37:14] a fazenda tinha sido vendida.

[00:37:16] O pessoal não sabia quem era o dono,

[00:37:18] muito menos quem eles iriam encontrar por lá.

[00:37:20] Dessa vez,

[00:37:22] tive o privilégio de ver o Edu

[00:37:24] tentando explicar o trabalho dele

[00:37:26] para dois caras enquanto um deles

[00:37:28] afiava um facão.

[00:37:30] O clima não estava tranquilo.

[00:37:32] Aqui está a BR, está vendo?

[00:37:34] Aqui está a BR.

[00:37:36] Ela vem bem nessa linha aqui.

[00:37:38] E aqui está a Ecolog.

[00:37:40] Aqui é a serraria deles, está vendo?

[00:37:42] O Edu estava explicando que a Serra da Muralha

[00:37:44] fica dentro de outra fazenda,

[00:37:46] a fazenda Ecolog,

[00:37:48] mas que o acesso por lá é bem mais complicado.

[00:37:50] A diferença é que nós estamos aqui no azul,

[00:37:52] a Ecolog está aqui e a Serra está aqui.

[00:37:54] O problema é a autorização.

[00:37:56] Vocês têm que ter autorização do dono.

[00:37:58] Dessa vez, a lábia arqueológica não colou.

[00:38:00] Ele não está querendo deixar a gente.

[00:38:02] Eu não posso.

[00:38:04] O Adame sugeriu que a gente fosse

[00:38:06] margeando a cerca da fazenda

[00:38:08] sem entrar na terra deles,

[00:38:10] até onde desse.

[00:38:12] A gente saiu andando, todo mundo meio decepcionado.

[00:38:14] Só que não deu muito tempo,

[00:38:16] um cara veio atrás da gente numa moto.

[00:38:18] A gente achava que tinha saído.

[00:38:20] Mas a gente ainda estava dentro.

[00:38:30] Enquanto o Edu se desculpava

[00:38:32] e explicava que a gente tinha se enganado,

[00:38:34] o Adame continuou andando.

[00:38:36] Depois, o caseiro foi atrás dele

[00:38:38] e trouxe ele de volta também.

[00:38:42] A gente almoçou na sede da fazenda.

[00:38:44] Um almoço estranho,

[00:38:46] mas muito bem-vindo.

[00:38:48] Papo vai, papo vem,

[00:38:50] mas não é investida.

[00:38:52] Ele pegou o celular e foi mostrar

[00:38:54] uma reportagem do Fantástico sobre geoglifos

[00:38:56] em que ele aparecia.

[00:38:58] Tem aqui em Rondônia.

[00:39:00] Tem inclusive lá no Guaporé.

[00:39:02] Está vendo?

[00:39:04] O que é que fez isso aí?

[00:39:06] Foi os índios que fizeram isso há muito tempo.

[00:39:08] A gente quer ver se tem uma pedra lá em cima,

[00:39:10] se tem alguma coisa parecida aqui embaixo.

[00:39:12] Dois cafezinhos depois,

[00:39:14] o cara resolveu levar a gente

[00:39:16] na camanete dele até o pé da serra.

[00:39:18] E no caminho,

[00:39:20] ele falou que não estava pretendendo

[00:39:22] deixar a gente passar de jeito nenhum.

[00:39:24] E não foi a matéria do Fantástico

[00:39:26] que convenceu ele.

[00:39:28] Foi quando ele viu o Adame.

[00:39:30] Ele lembrou do avô dele,

[00:39:32] um alemão que se mudou para o sul do Brasil

[00:39:34] e veio para Rondônia na década de 60.

[00:39:36] Daí, ele viu um senhorzinho

[00:39:38] de cabelo branco e olhos azuis

[00:39:40] andando determinado daquele jeito

[00:39:42] e ele ficou balançado.

[00:39:44] Depois da manhã um pouco complicada,

[00:39:46] com a toleira, o carro quebrado,

[00:39:48] a gente conseguiu chegar

[00:39:50] na fazenda, que dá acesso,

[00:39:52] e agora a gente vai entrar no mato,

[00:39:54] que são mais ou menos dois quilômetros de caminhada

[00:39:56] até a gente subir na Serra da Muralha.

[00:39:58] É um momento especial, porque a equipe toda

[00:40:00] conseguiu chegar e a gente vai ver

[00:40:02] o que tem lá, essas muralhas grandes

[00:40:04] de pedras empilhadas.

[00:40:06] O Fernando estava bem animado,

[00:40:08] mas a verdade é que já eram duas da tarde

[00:40:10] e a gente ainda precisava resgatar

[00:40:12] o carro que tinha atolado.

[00:40:14] A gente mal conseguiu entrar na mata

[00:40:16] começou a chover e todo mundo teve que bater

[00:40:18] em retirada.

[00:40:20] No dia seguinte a gente tentou de novo.

[00:40:22] O guincho chegou pra pegar

[00:40:24] o carro abandonado, mas aí

[00:40:26] ele atolou na lama também.

[00:40:28] O que é sinal de que as coisas realmente

[00:40:30] estão complicadas, né?

[00:40:32] Mas deu pra desatolar o guincho,

[00:40:34] voltar naquela primeira fazenda

[00:40:36] e retomar o caminho.

[00:40:38] Depois de uns 50 minutos

[00:40:40] de trilha, a gente deu de cara

[00:40:42] com uma clareira e uma pedra enorme

[00:40:44] de granito.

[00:40:45] Conta aqui pra mim onde a gente está.

[00:40:47] A gente está no sopé

[00:40:49] da Serra da Muralha,

[00:40:51] que é uma formação

[00:40:53] granítica.

[00:40:55] Esse é o Carlos Augusto Zimpel,

[00:40:57] o Guto, que é arqueólogo e professor

[00:40:59] na Universidade Federal de Rondônia.

[00:41:01] Eu não tinha apresentado ele ainda

[00:41:03] porque era muita gente numa caminhonete só,

[00:41:05] que dirá na cabeça do ouvinte.

[00:41:07] Guto

[00:41:09] estava descrevendo a dificuldade que é

[00:41:11] chegar no alto dessa serra.

[00:41:13] É uma coisa bem especial, já que fizeram

[00:41:15] um muro lá em cima, fizeram algo,

[00:41:17] alguma coisa especial tem lá.

[00:41:19] E vamos ver se a gente consegue com o projeto

[00:41:21] estabelecer, ao menos chegar perto um pouco

[00:41:23] pra começar a contar essa história que foi perdida

[00:41:25] no caminho do tempo.

[00:41:27] Pra tentar entender onde a gente estava,

[00:41:29] o Guto subiu um drone.

[00:41:31] E quando ele achou a muralha,

[00:41:33] ele viu que a gente estava muito longe.

[00:41:35] Uns dois quilômetros em linha reta.

[00:41:37] Só que dois quilômetros de mata fechada

[00:41:39] e terreno acidentado.

[00:41:41] Olha só.

[00:41:43] É isso aqui, né?

[00:41:45] É, isso aí.

[00:41:47] Caralho!

[00:41:49] Já estava ficando tarde

[00:41:51] e não dava pra arriscar uma volta no escuro.

[00:41:53] Então, a gente voltou tudo.

[00:41:55] Trilha, fazenda,

[00:41:57] atoleiro, estrada.

[00:41:59] E resolveu tentar de novo,

[00:42:01] no dia seguinte.

[00:42:03] No nosso último dia em Vista Alegre do Abunã.

[00:42:05] Era a última chance.

[00:42:07] O pessoal da fazenda estava até ficando

[00:42:09] acostumado com a gente nessa altura do campeonato.

[00:42:11] Hoje eu estou

[00:42:13] gravando aqui o pessoal

[00:42:15] pra gente fazer o registro.

[00:42:17] Porque hoje a gente vai chegar até lá.

[00:42:19] Quer deixar um recadinho pro pessoal que vai subir aí?

[00:42:21] Seria qual o conselho?

[00:42:23] Não, é desejar sorte.

[00:42:25] E nesse dia a gente estava com sorte.

[00:42:27] Foi uma subida dura.

[00:42:29] Mata densa.

[00:42:31] Mas no dia 6 de março

[00:42:33] de 2024,

[00:42:35] a expedição do projeto Amazônia Revelada

[00:42:37] chegou no topo da Serra da Muralha.

[00:42:39] Mata densa.

[00:42:41] Mata densa.

[00:42:43] Mata densa.

[00:42:45] Aqui, ó.

[00:42:47] A muralha.

[00:42:49] Olha a muralha.

[00:42:51] Olha o visual.

[00:42:53] Chegamos ali, o rio Madeira.

[00:42:55] Aqui, ó.

[00:42:57] E aí?

[00:42:59] E aí, feliz, animado.

[00:43:01] E agora vamos começar a trabalhar.

[00:43:03] Tomar uma aguinha aí, marcar os pontos da muralha.

[00:43:05] Tirar umas fotos.

[00:43:07] E ver o que a gente encontra mais por aqui.

[00:43:09] A gente ia ter mais ou menos

[00:43:11] uma hora e meia lá no alto

[00:43:13] pra poder voltar com a luz do dia.

[00:43:15] O que dá pra fazer em uma hora e meia, Edu,

[00:43:17] aqui de trabalho?

[00:43:19] Aqui, ler ponto com GPS.

[00:43:21] Fazer uns registros do muro

[00:43:23] com escala, né?

[00:43:25] Do muro, pra ter uma ideia do volume.

[00:43:27] Depois a gente faz uma projeção do volume de pedra.

[00:43:29] A quantidade que foi trazida pra cá.

[00:43:31] Quando eles calcularem

[00:43:33] o volume das pedras,

[00:43:35] vai dar pra fazer umas projeções sobre quantas pessoas

[00:43:37] construíram a muralha.

[00:43:39] É impressionante. É uma loucura isso, né, cara?

[00:43:41] Aqui no alto,

[00:43:43] super bem encaixadinho, né?

[00:43:47] Olhando pra muralha,

[00:43:49] eu embarquei nessa viagem no tempo

[00:43:51] que a arqueologia propõe.

[00:43:53] Imaginei os pés que percorreram

[00:43:55] aqueles caminhos.

[00:43:57] As mãos que empilharam aquelas pedras.

[00:43:59] E as pessoas que estiveram

[00:44:01] exatamente onde eu tava.

[00:44:03] Atrás de um muro de pedra,

[00:44:05] em cima de um mar de floresta.

[00:44:07] Mas enquanto eu tava ali,

[00:44:09] nessa viajada, meio ofegante

[00:44:11] da subida, o time dispersou.

[00:44:13] Cada um foi pra um lado.

[00:44:15] Um tava medindo, outro tava procurando

[00:44:17] caco de cerâmica, outro tava tirando

[00:44:19] fotos com o drone.

[00:44:21] Eu fui atrás do Guto.

[00:44:23] Isso mostra um pouco porque a gente não conhece nada

[00:44:25] de Amazônia ainda. Eu vivo na Amazônia

[00:44:27] tem mais de 15 anos,

[00:44:29] e não é por viver há 15 anos aqui

[00:44:31] que eu não me surpreenda.

[00:44:33] Aqui a sódio já tá aqui perto,

[00:44:35] mas ao mesmo tempo isso aqui ainda tá preservado.

[00:44:37] Porque assim, durante as próximas gerações,

[00:44:39] pra que um dia, quem saiba,

[00:44:41] porque não sonhar um pouco mais alto,

[00:44:43] que a gente consiga musealizar

[00:44:45] esse local. Ou seja, fazer um caminho

[00:44:47] legal pras pessoas conseguirem chegar aqui,

[00:44:49] virem até aqui,

[00:44:51] conseguir ter essa mesma visão que eu tô tendo agora.

[00:44:53] A sensação de

[00:44:55] tá lá em cima era incrível.

[00:44:57] Eu tô vendo mais ou menos uns 500 ou 600

[00:44:59] quilômetros aqui na minha frente.

[00:45:01] Lá de cima,

[00:45:03] eu só conseguia enxergar árvores.

[00:45:05] Era a floresta até onde

[00:45:07] eu alcançava.

[00:45:09] Não dava pra ver descampado, pasto,

[00:45:11] gado, só árvore.

[00:45:13] Eu fiquei pensando em tudo que meus olhos

[00:45:15] não alcançavam.

[00:45:17] E em tudo que os aviões do Leider

[00:45:19] podem revelar.

[00:45:23] No mesmo mês que a gente subiu

[00:45:25] a Serra da Muralha, a Ministra da Cultura

[00:45:27] homologou o tombamento do primeiro

[00:45:29] geoglifo do país.

[00:45:31] É um geoglifo de círculo inscrito

[00:45:33] em quadrado. Um desenho enorme

[00:45:35] e geometricamente perfeito.

[00:45:37] Do tamanho de três campos de futebol.

[00:45:39] E as pesquisas dizem

[00:45:41] que ele foi feito por indígenas

[00:45:43] há dois mil anos.

[00:45:45] Mas esse foi o único tombamento.

[00:45:47] O resto

[00:45:49] ainda tá em perigo, sujeito

[00:45:51] à destruição, seja ela

[00:45:53] deliberada ou não.

[00:46:01] Teve um artigo que saiu na revista Science

[00:46:03] escrito por pesquisadores do INPE.

[00:46:05] Eles estimaram que pode ter mais

[00:46:07] de 10 mil sítios arqueológicos

[00:46:09] novos na Amazônia.

[00:46:11] Escondidos, por enquanto,

[00:46:13] debaixo da floresta.

[00:46:15] E identificar um sítio

[00:46:17] é só o começo.

[00:46:19] A gente tá começando a entender

[00:46:21] o tanto que a gente ainda não sabe.

[00:46:23] Vocês imaginam

[00:46:25] isso aqui no passado, quando tinha muita gente morando.

[00:46:27] Dava pra ver o fogo das aldeias.

[00:46:29] Dava pra fazer muita coisa. Acho que

[00:46:31] isso aqui pode ter sido uma

[00:46:33] mobilização coletiva.

[00:46:35] Não só de uma aldeia,

[00:46:37] por exemplo, que resolve construir.

[00:46:39] Porque uma maneira de se organizar, uma maneira

[00:46:41] de socializar, uma maneira de

[00:46:43] interagir, uma maneira de

[00:46:45] melhorar as relações sociais

[00:46:47] é tu fazer mobilização

[00:46:49] pra trabalho. Até hoje isso é feito.

[00:46:51] No interior, quando o pessoal

[00:46:53] precisa abrir uma roça, junta todo mundo

[00:46:55] pra fazer essa roça.

[00:46:57] Isso é uma maneira de articular e criar

[00:46:59] parentesco, uma série de coisas.

[00:47:01] Na volta, o Guto ficou

[00:47:03] refletindo em voz alta.

[00:47:05] O legal de tudo foi que

[00:47:07] a muralha tá preservada.

[00:47:09] Ou seja,

[00:47:11] apesar da gente ter um avanço grande

[00:47:13] na Amazônia,

[00:47:15] essa pressão dos ruralistas

[00:47:17] que estão acabando,

[00:47:19] estão destruindo grande parte da floresta.

[00:47:21] A gente tá numa área super perigosa

[00:47:23] que é Rondônia. A gente vê que tem

[00:47:25] algumas áreas ainda, dá pra ter um pouquinho de esperança

[00:47:27] de estar preservando.

[00:47:29] Então, fiquei muito feliz de ver

[00:47:31] que não foi depredada.

[00:47:33] Na volta da cidade,

[00:47:35] na Serra, eu fiquei com uma pulga

[00:47:37] atrás da orelha.

[00:47:39] De quem é esse mar de floresta?

[00:47:41] Quem é o dono

[00:47:43] da floresta que engloba um sítio

[00:47:45] arqueológico tão imponente

[00:47:47] e sobre o qual a gente sabe tão pouco ainda?

[00:47:49] Quando eu cheguei em casa,

[00:47:51] eu comecei a fuçar.

[00:47:53] Tudo que eu tinha no começo

[00:47:55] era o nome da fazenda.

[00:47:57] Ecolog.

[00:47:59] Quem comprou Ecolog agora, salvo engano,

[00:48:01] é uma pessoa que tem um sobrenome alemão.

[00:48:03] Acho que ele é do sul.

[00:48:05] Eu tive que cruzar as coordenadas

[00:48:07] de GPS da Serra

[00:48:09] com o banco de dados do INCRA

[00:48:11] e conferir alguns CNPJs.

[00:48:13] Mas eu cheguei no nome do proprietário.

[00:48:15] Proprietária, na verdade.

[00:48:17] Maria Salete

[00:48:19] Pozebon.

[00:48:21] Mãe de Shaulis Pozebon.

[00:48:23] Quando eu joguei no Google,

[00:48:25] apareceram milhares de citações.

[00:48:27] A Agência Pública,

[00:48:29] Intercept Brasil, Repórter Brasil

[00:48:31] e o Diário nos Ruralistas

[00:48:33] publicaram longas investigações

[00:48:35] sobre Shaulis Pozebon.

[00:48:37] Isso porque ele é considerado

[00:48:39] o maior desmatador da Amazônia.

[00:48:41] Eu sei que muita gente já ganhou

[00:48:43] esse prêmio, por motivos diferentes.

[00:48:45] No caso do Shaulis,

[00:48:47] é porque, além de operar

[00:48:49] a retirada ilegal das árvores,

[00:48:51] ele também controlava o mercado

[00:48:53] de madeireiras.

[00:48:55] Ele é dono de 120 madeireiras

[00:48:57] na região norte.

[00:48:59] E ele foi condenado a 99 anos

[00:49:01] de prisão.

[00:49:03] Pelos crimes de organização criminosa

[00:49:05] e extorsão.

[00:49:07] Esse cara é o dono

[00:49:09] da Serra da Muralha.

[00:49:11] E de boa parte daquele mar de floresta

[00:49:13] que eu vi lá de cima.

[00:49:15] Ele foi preso em 2019 e ainda está lá,

[00:49:17] na Penitenciária Estadual de Porto Velho.

[00:49:25] O meu grande amigo Mike Heckenberger,

[00:49:27] que trabalha há mais de 30 anos na Amazônia,

[00:49:29] ele sempre falou, ele fala isso há anos,

[00:49:31] que a arqueologia na Amazônia

[00:49:33] não é só sobre o passado, é sobre o futuro também.

[00:49:35] Esse, de novo, é o Eduardo Neves.

[00:49:37] Pra ele, dá pra dizer

[00:49:39] que a arqueologia na Amazônia

[00:49:41] é sobre o futuro por vários motivos.

[00:49:43] Tem um futuro imediato,

[00:49:45] daquele que está em perigo agora.

[00:49:47] Se a Amazônia Revelada conseguir identificar

[00:49:49] mais sítios arqueológicos,

[00:49:51] isso pode ajudar a segurar

[00:49:53] bolsões de florestas em alguns lugares críticos.

[00:49:55] Um deles

[00:49:57] é entre os rios Purus e Madeira,

[00:49:59] que é uma região fundamental

[00:50:01] para o equilíbrio climático

[00:50:03] e para as populações indígenas que vivem lá.

[00:50:05] Tem uma proposta de uma grande obra

[00:50:07] de pavimentação da BR-319,

[00:50:09] que liga Porto Velho

[00:50:11] a Manaus.

[00:50:13] Se isso for feito, o desmatamento

[00:50:15] provavelmente vai começar a comer solto.

[00:50:17] A gente sabe, independente de ser a favor ou contra,

[00:50:19] que se essa estrada for reaberta

[00:50:21] e se nada direito for feito com relação

[00:50:23] a isso, todo aquele pedaço

[00:50:25] do interfluvo entre o Madeira e o Purus

[00:50:27] vai ser destruído nos próximos anos.

[00:50:29] Mas tem um outro tipo de futuro que está em jogo.

[00:50:31] É um futuro

[00:50:33] que a arqueologia pode iluminar para a gente.

[00:50:35] E ele vem do passado.

[00:50:39] Olhando para as narrativas sobre a Amazônia

[00:50:41] nos séculos passados,

[00:50:43] o que predominava era uma ideia de escassez,

[00:50:45] de pobreza,

[00:50:47] de que não tinha nada na Amazônia,

[00:50:49] de que era só um grande vazio verde

[00:50:51] ocupado por alguns poucos grupinhos.

[00:50:53] A ideia de

[00:50:55] solos pobres, pouca proteína,

[00:50:57] condições climáticas adversas,

[00:50:59] insalubridade.

[00:51:01] Sempre uma adjetivação negativa.

[00:51:03] E isso afetava a arqueologia também.

[00:51:05] Muita gente saiu por aí

[00:51:07] procurando a Machu Picchu brasileira,

[00:51:09] o Tenochtitlã brasileiro.

[00:51:11] E não achou.

[00:51:13] Mais uma ausência.

[00:51:15] E qual é a questão subjacente a isso?

[00:51:17] É a presença ou não do Estado?

[00:51:19] O Estado organizado,

[00:51:21] impérios, centralização

[00:51:23] política,

[00:51:25] hierarquias bem marcadas,

[00:51:27] desigualdade social.

[00:51:29] Arqueólogas e arqueólogos procuraram isso durante

[00:51:31] muito tempo, não encontravam e diziam

[00:51:33] olha, não tem porquê.

[00:51:35] Porque eram condições muito inóspitas.

[00:51:37] Como se o estado natural

[00:51:39] da nossa espécie

[00:51:41] fosse viver em estados

[00:51:43] desiguais.

[00:51:45] Como se a desigualdade social

[00:51:47] fosse um resultado inevitável

[00:51:49] da história da nossa espécie.

[00:51:51] Que é uma visão absolutamente eurocêntrica.

[00:51:55] O que a arqueologia na Amazônia mostra

[00:51:57] é um outro tipo de sociedade.

[00:51:59] Um outro jeito de ser.

[00:52:01] Cada um tem sua roça.

[00:52:03] Vai lá pegar seu peixe.

[00:52:05] Vai caçar sua comida.

[00:52:07] Você não precisa investir muito em canal de irrigação.

[00:52:09] Nessas grandes obras de infraestrutura.

[00:52:11] Seu nível da produção

[00:52:13] é descentralizado.

[00:52:15] Isso só acontece por causa de um contexto de abundância.

[00:52:17] Não era por falta de recursos

[00:52:19] que os povos indígenas da Amazônia

[00:52:21] não construíram grandes cidades.

[00:52:23] Cidades do jeito que a gente pensa cidades.

[00:52:25] De pedras, tijolos

[00:52:27] e argamassa.

[00:52:29] As civilizações

[00:52:31] eram outras.

[00:52:33] Os monumentos eram outros.

[00:52:35] E foi justamente

[00:52:37] porque eles tinham tantos recursos

[00:52:39] que os povos da Amazônia

[00:52:41] não precisavam fazer esse tipo

[00:52:43] de cidade.

[00:52:45] Então acho que a gente pode virar essa conversa.

[00:52:47] Em vez de falar em escassez, falar em abundância.

[00:52:49] O passado era de abundância.

[00:52:51] Mas agora

[00:52:53] a gente está arrumando para a escassez.

[00:52:55] Como é que a gente ocupa a Amazônia hoje?

[00:52:57] A gente cria a escassez.

[00:52:59] Por exemplo, através da eliminação

[00:53:01] de um monte de plantas

[00:53:03] e de bichos que tem ali cultivando

[00:53:05] uma única espécie.

[00:53:07] Escassez de floresta.

[00:53:09] Escassez de biodiversidade.

[00:53:11] Eu posso dizer para você como cientista

[00:53:13] e como cidadão

[00:53:15] que os sistemas agroflorestais da Amazônia

[00:53:17] são muito antigos. Eles são milenares e eles estão aí.

[00:53:19] Eles foram se modificando ao longo do tempo

[00:53:21] e existem até hoje.

[00:53:23] Até como forma de resistência

[00:53:25] em contextos de populações indígenas.

[00:53:27] Mas eu não posso garantir para você

[00:53:29] que o sistema de cultivo da monocultura

[00:53:31] que a gente vê hoje no Brasil central

[00:53:33] em partes da Amazônia

[00:53:35] vai sobreviver dessa mesma maneira

[00:53:37] nos próximos 30 anos.

[00:53:41] As estradas, os desenhos na terra,

[00:53:43] o trabalho que foi feito

[00:53:45] para fazer daquele espaço um lugar

[00:53:47] cada vez mais fértil e habitável.

[00:53:49] Uma imensa floresta e rica

[00:53:51] que foi formada e moldada

[00:53:53] pelos povos que passaram por ela.

[00:53:55] Essas

[00:53:57] são as obras monumentais

[00:53:59] que a arqueologia e a antropologia

[00:54:01] estão descortinando na Amazônia.

[00:54:03] E a gente precisa olhar

[00:54:05] bem para elas.

[00:54:07] Para não tornar a Amazônia

[00:54:09] de fato um vazio.

[00:54:19] Essa foi a Letícia Leite, colaboradora

[00:54:21] do Rádio Novelo Apresenta.

[00:54:23] Oi, aqui é a Bia Ribeiro,

[00:54:25] coordenadora de produto da Rádio Novelo.

[00:54:27] E eu estou aqui para te contar uma novidade

[00:54:29] que a gente vem preparando há um tempão.

[00:54:31] O Clube da Novelo.

[00:54:33] O Clube da Novelo é uma assinatura

[00:54:35] para quem quer estar ainda mais

[00:54:37] perto da gente.

[00:54:39] Quem assina, tem direito a uma newsletter

[00:54:41] especial, tem convite

[00:54:43] para eventos ao vivo

[00:54:45] com a nossa equipe, pode ouvir

[00:54:47] os episódios do Rádio Novelo Apresenta

[00:54:49] e das nossas séries originais

[00:54:51] antes de todo mundo.

[00:54:53] E quem optar por fazer a assinatura

[00:54:55] anual do clube, ainda ganha

[00:54:57] uma bolsa super estilosa para

[00:54:59] sair mostrando por aí que é ouvinte

[00:55:01] da Rádio Novelo.

[00:55:03] Aqui na descrição do episódio

[00:55:05] tem um link para saber mais.

[00:55:15] Obrigada por ouvir mais

[00:55:17] esse episódio do Rádio Novelo Apresenta.

[00:55:19] No post desse episódio

[00:55:21] no nosso site, tem muitas

[00:55:23] fotos que a Letícia tirou

[00:55:25] das cerâmicas do pessoal do

[00:55:27] Amazônia Revelada em Campo,

[00:55:29] da Serra da Muralha, e tem mais

[00:55:31] material de leitura para quem quiser

[00:55:33] mergulhar no mundo dos geoglifos

[00:55:35] amazônicos.

[00:55:37] Quem também acompanhou a subida

[00:55:39] da Serra da Muralha e estava chacoalhando

[00:55:41] na caminhonete junto com a Letícia

[00:55:43] e o pessoal, era o Bernardo Esteves,

[00:55:45] repórter da revista Piauí.

[00:55:47] Ele fez um perfil do Eduardo Neves

[00:55:49] que saiu na edição de julho

[00:55:51] de 2024 da Piauí

[00:55:53] e que também está linkado no post

[00:55:55] do nosso site.

[00:55:57] Se você quiser falar com a gente,

[00:55:59] é só escrever para o e-mail

[00:56:01] apresenta.radionovelo.com.br

[00:56:03] E para ficar sabendo

[00:56:05] de eventos, publicações,

[00:56:07] conhecer outros podcasts nossos,

[00:56:09] descobrir a cara do pessoal

[00:56:11] que faz a Novelo, tudo isso,

[00:56:13] é só seguir a gente nas redes sociais.

[00:56:15] No Twitter, no Instagram

[00:56:17] e no YouTube,

[00:56:19] procura por Rádio Novelo.

[00:56:21] E tem também a nossa newsletter

[00:56:23] que dá para se inscrever no nosso site.

[00:56:25] O Rádio Novelo Apresenta

[00:56:27] é um original da Rádio Novelo.

[00:56:29] Tem episódio novo

[00:56:31] toda quinta-feira.

[00:56:33] A direção criativa

[00:56:35] é da Paula Scarpin

[00:56:37] e da Flora Thompson Devaux.

[00:56:39] A direção executiva

[00:56:41] é da Marcela Casaca

[00:56:43] e a gerência de produto

[00:56:45] é da Juliana Jaeger.

[00:56:47] Nossos produtores sênior

[00:56:49] são o Vitor Hugo Brandalize,

[00:56:51] a Evelyn Argenta,

[00:56:53] e as produtoras da nossa equipe

[00:56:55] são a Bárbara Rubira,

[00:56:57] a Natália Silva,

[00:56:59] a Júlia Matos

[00:57:01] e a Ashley Calvo.

[00:57:03] A checagem desse episódio

[00:57:05] foi feita pela Caroline Farah.

[00:57:07] Nesse episódio, a gente usou

[00:57:09] um músico original de Pedro Nego

[00:57:11] e também da Blue Dot.

[00:57:13] O desenvolvimento de produto e audiência

[00:57:15] é feito pela Bia Ribeiro.

[00:57:17] O design das nossas peças

[00:57:19] é do Gustavo Nascimento.

[00:57:21] E a nossa estagiária

[00:57:23] é a Isabel de Santana.

[00:57:25] Obrigada e até a semana que vem.