Cultura do cancelamento em 2024: como estamos? — com Pedro Tourinho
Resumo
Cris Dias recebe Pedro Tourinho, autor do livro “Ensaio sobre o Cancelamento”, para uma análise profunda do fenômeno. A conversa começa com uma reflexão sobre a origem histórica do cancelamento, que não é novo, mas uma dinâmica social de apontar e constranger quem vai contra as regras vigentes, presente desde a Grécia Antiga, Inquisição e Macartismo.
Pedro Tourinho argumenta que a internet, especialmente a partir da popularização dos smartphones na década de 2010, deu voz a minorias historicamente silenciadas, permitindo que elas usassem essa mesma dinâmica para responsabilizar grupos de poder. Movimentos como Occupy Wall Street, MeToo e Black Lives Matter exemplificaram como o cancelamento digital pode furar bolhas, pautar a mídia e gerar mudanças concretas, como leis antiassédio e políticas antirracistas em empresas.
No entanto, o sistema se adaptou. A partir de 2020/2021, o termo “cultura do cancelamento” foi apropriado para descredibilizar a ferramenta, vitimizando os acusados e judicializando as questões, o que enfraqueceu sua eficácia. A dinâmica foi cooptada pela polarização política, virando uma arma nas guerras culturais e até uma ferramenta eleitoral, onde ser cancelado pode gerar engajamento e transformar a pessoa em um símbolo político eleito.
A discussão também aborda a importância de entender o cancelamento como uma “dinâmica” algorítmica, e não uma “cultura”, e a necessidade de um freio civilizatório para que pessoas privilegiadas reflitam sobre o impacto de suas palavras. Para encerrar, Pedro oferece um guia prático em três passos para quem se vê em uma situação de cancelamento: reconhecer o erro, entender e explicar por que foi um erro, e, crucialmente, reparar o dano de forma material e prática, focando no impacto onde “seu braço alcança”.
Indicações
Articles
- Carta sobre Justiça e Debate Aberto (Julho de 2020) — Documento assinado por 150 intelectuais que alertava para o clima de intolerância e dificuldade de debate dentro do campo progressista, simbolizando um ponto de virada na discussão sobre cancelamento e liberdade de expressão.
Books
- Ensaio sobre o Cancelamento — Livro do convidado Pedro Tourinho que organiza o “quebra-cabeça” histórico e social do fenômeno do cancelamento, analisando sua origem, evolução e estado atual.
Series
- The Morning Show — Série de TV (Apple TV+) altamente recomendada por Pedro Tourinho para entender as nuances e complexidades do cancelamento, especialmente através das perspectivas das vítimas de assédio e dos acusados. Ele destaca o arco do personagem de Steve Carell.
Linha do Tempo
- 00:00:00 — Introdução e analogia com a Zona Fantasma do Superman — Cris Dias abre o episódio com uma analogia pessoal e poderosa, comparando a sensação de ser cancelado à cena traumática do filme Superman (1978) onde os vilões são banidos para a Zona Fantasma. Ele contextualiza a internet como uma ferramenta positiva de mudança social, mas expressa sua preocupação de longa data com o “tribunal da internet” e a cultura do cancelamento, onde a pessoa é considerada culpada até prova em contrário. Essa introdução prepara o terreno para a conversa com o especialista Pedro Tourinho.
- 00:06:07 — Definição de cancelamento e motivação para o livro — Pedro Tourinho apresenta sua visão, diferenciando o cancelamento como responsabilização por atos imorais ou criminosos da dinâmica algorítmica de enxame e ódio nas redes, que pode atingir pessoas sem merecimento. Ele explica que escreveu o livro para organizar o “quebra-cabeça” do fenômeno, observando que muita gente saiu de agressor para vítima do cancelamento. Tourinho critica o termo “cultura”, preferindo “dinâmica”, pois este despersonaliza o processo e ajuda a entender a injustiça eventual como parte de uma correnteza algorítmica, não de uma conspiração cultural.
- 00:17:47 — Origem histórica e virada com a internet e os movimentos sociais — Tourinho traça a linhagem histórica do cancelamento, desde o ostracismo na Grécia Antiga até a Inquisição e o Macartismo, sempre como ferramenta de cima para baixo para controlar e excluir minorias e opositores. A virada ocorre com a internet móvel, que permitiu que essas mesmas minorias se organizassem algoritmicamente. Ele destaca movimentos como Occupy Wall Street (2011) e MeToo (2017) como exemplos de como hashtags e mobilização online conseguiram furar bolhas, pautar a mídia e gerar mudanças legislativas concretas, como leis antiassédio em vários estados americanos.
- 00:27:49 — A reação do sistema e a corrupção da ferramenta — O especialista descreve como o sistema se regulou e reverteu a eficácia do cancelamento como ferramenta de mudança. Isso aconteceu através de três estratégias: confundir o termo (se tudo é cancelamento, nada é), vitimizar quem é cancelado (transformando agressores em vítimas) e judicializar as questões, o que beneficia quem tem mais recursos. Ele cita o caso Johnny Depp vs. Amber Heard como um marco que mostrou os riscos e a complexidade de denunciar, além de exemplos de como a extrema-direita passou a mimetizar a tática, usando bots para atacar figuras progressistas.
- 00:39:16 — Cancelamento como freio civilizatório e a questão do privilégio — Tourinho defende que o cancelamento, em seu auge (2017-2021), funcionou como um freio civilizatório necessário. Para ele, a “paranoia” de ser cancelado obrigou pessoas privilegiadas (como ele mesmo, de família colonizadora) a pensar no impacto de suas palavras e ações sobre grupos historicamente oprimidos. Ele argumenta que o medo do cancelamento, mais do que a consciência, foi o que mudou políticas corporativas e leis. Esse corte, embora às vezes desproporcional na reação individual, é justo na perspectiva histórica de séculos de opressão.
- 00:52:00 — Guerras culturais, polarização e a criação de deputados — A conversa avança para como o cancelamento se tornou uma arma nas guerras culturais entre visões de mundo secular/progressista e religiosa/conservadora. Tourinho explica que, quando a guerra cultural virou guerra eleitoral, ser cancelado passou a gerar um pico de engajamento que pode ser capitalizado politicamente. Cancelar alguém pode, paradoxalmente, arremessá-lo para o polo oposto como um símbolo, dando a ele a visão midiática necessária para se eleger. O grande desafio, segundo ele, é enfraquecer essa dicotomia de extremos e buscar um caminho de justiça e convivência no centro.
- 01:02:44 — O estado atual em 2024 e o guia prático para quem é cancelado — Para Tourinho, o sistema conservador já se corrigiu e hoje muitas pessoas dizem que “o cancelamento não existe mais”, pois perdeu sua força de gerar grandes mudanças. Ele enfatiza a importância de agir onde “seu braço alcança”, na materialidade do dia a dia, em vez de apenas no ativismo digital. Por fim, ele oferece um guia prático em três passos para quem se vê em uma crise de cancelamento: 1) Reconhecer o erro (“fiz merda”), 2) Explicar por que foi um erro e que dano causou, e 3) Reparar o dano de forma material e prática, mudando o comportamento e contribuindo para que o erro não se repita na sociedade.
Dados do Episódio
- Podcast: Boa Noite Internet (private feed for contato@thluiz.com)
- Autor: Ampère
- Categoria: Society & Culture Philosophy Health & Fitness Mental Health
- Publicado: 2024-07-14T23:01:12Z
- Duração: 01:11:52
Referências
- URL PocketCasts: https://pocketcasts.com/podcast/addd9230-e661-013c-3063-0affccc8fded/episode/3bd1542d-75a6-4707-8e25-10c747ed90ab/
- UUID Episódio: 3bd1542d-75a6-4707-8e25-10c747ed90ab
Dados do Podcast
- Nome: Boa Noite Internet (private feed for contato@thluiz.com)
- Tipo: episodic
- Site: https://boanoiteinternet.com.br/podcast
- UUID: addd9230-e661-013c-3063-0affccc8fded
Transcrição
[00:00:00] Boa noite, internet. Boa noite, Brasil. Eu sou o Cris Dias.
[00:00:15] Uma das cenas de filme mais marcantes da minha vida, do tipo pesadelo e trauma,
[00:00:21] é de um filme que foi lançado quando eu tinha 5 anos de idade, Superman.
[00:00:25] O filme, sim, aquele com Christopher Reeve, o melhor Superman.
[00:00:30] A cena é logo no início, ainda em Krypton, quando o pai do super, o Marlon Brando,
[00:00:35] condena três criminosos a serem banidos para todos sempre na Zona Fantasma.
[00:00:41] A parte dessa cena que me deixou chocado é na hora que os três vilões são jogados na Zona Fantasma.
[00:00:48] Eles ficam em um círculo com os bambolês girando em volta.
[00:00:52] A grande redoma que eles estavam se abre.
[00:00:55] Eles ficam em um facho de luz que vai até o espaço.
[00:00:58] E aí vem, passa por esse facho de luz um espelho espacial, não sei, um quadrado brilhante e reflexivo
[00:01:05] que passa por cima deles e eles ficam presos ali naquele espaço apertado,
[00:01:10] as mãos no vidro, voando pelo espaço, gritando de desespero.
[00:01:14] Ah, você me paga, joreu.
[00:01:20] Como a gente vai ver no filme seguinte, Superman 2, o General Zod não era nenhum santo.
[00:01:25] E assim, não estava lá para vir, mas deve ter merecido.
[00:01:29] Mas ainda assim, aquele desespero de ficar ali preso dentro do espelhinho esteral me marcou muito.
[00:01:35] E é essa cena que me vem na cabeça quando eu penso no tema dessa semana do Bônus de Internet,
[00:01:40] Cultura do Cancelamento.
[00:01:43] Eu defendo, já tem tempo que a internet deu voz a pessoas que nunca tiveram plataforma antes,
[00:01:49] gerando o que eu chamo do sentimento de eu não estou maluco sozinho.
[00:01:52] As conversas online fizeram.
[00:01:55] Eu consegui ver que um monte de coisa não era coincidência, não era só um caso isolado ou invenção da nossa cabeça.
[00:02:02] É por isso que eu digo que apesar da gente adorar falar mal da internet,
[00:02:06] ela ainda tem um saldo positivo para o mundo.
[00:02:09] Em 10 anos, a sociedade mudou radicalmente por conta das conversas que aconteceram online.
[00:02:14] Sim, só 10 anos, porque a internet como tecnologia de conexão é antiga,
[00:02:18] mas ela só engata mesmo quando chega no celular de todo mundo ali na primeira metade da década de 2010.
[00:02:25] Eu inclusive falei disso em um artigo que eu publiquei essa semana lá no bonusdeinternet.com.br,
[00:02:30] porque agora eu estou fazendo isso, eu estou lançando os conteúdos extra por lá, aberto para todo mundo.
[00:02:37] Eu já falei de produtividade, criatividade, trabalho, então passa lá a bonusdeinternet.com.br
[00:02:42] e se cadastra para receber de graça no seu e-mail tudo o que sai.
[00:02:47] Mas enfim, eu defendo a internet, as xoxorretos como ferramenta de mudança,
[00:02:52] só que ao mesmo tempo,
[00:02:54] eu sempre fiquei muito preocupado com a internet.
[00:02:54] Eu sempre fiquei muito preocupado com a internet.
[00:02:55] Eu sempre fiquei muito incomodado com a cultura do cancelamento,
[00:02:58] que é quando alguém faz alguma coisa considerada errada,
[00:03:01] e aí começa o que eu costumo chamar de tribunal da internet,
[00:03:05] onde o veredito é decidido e executado ali na hora, que nem em Krypton,
[00:03:09] só que no feed de alguma rede social de preferência ou Twitter.
[00:03:13] E o que me incomoda nessa dinâmica é o sentimento de que a pessoa é culpada até a prova em contrário,
[00:03:19] de que se ela foi acusada, coisa boa não fez,
[00:03:21] e nessa eu vi muita gente que eu gosto ser cancelada sumariamente,
[00:03:25] o que foi um dos motivos de eu ter largado o Twitter já tem aí quase dois anos.
[00:03:30] Mas o tempo passa, a teoria vira prática,
[00:03:33] e a gente descobre que as coisas não são tão simples assim.
[00:03:37] Daí, enquanto a gente estava montando a pauta dessa temporada do Bônus de Internet,
[00:03:42] o tema cultura do cancelamento estava lá na lista,
[00:03:45] e me fez lembrar que um cara que eu conheço já tem aí mais de dez anos
[00:03:48] estava para lançar um livro sobre o assunto.
[00:03:51] Eu mandei um zap para saber como estava o projeto,
[00:03:53] e descobri que ele ia lançar o livro,
[00:03:55] na semana seguinte.
[00:03:57] Eu estou falando do Pedro Torinho,
[00:03:59] que é comunicólogo, especialista em entretenimento e mídia,
[00:04:03] já tinha escrito o livro Eu, Eu Mesmo e Minha Selfie,
[00:04:06] Como Cuidar da Sua Imagem no Século 21,
[00:04:09] foi meu chefe quando eu estava de saída do BuzzFeed ali no auge da loucura de 2020,
[00:04:14] também já foi meu cliente lá atrás,
[00:04:17] desde o início de 2023 atuou como secretário de Cultura e Turismo de Salvador,
[00:04:22] e agora acabou de lançar o tal livro,
[00:04:24] Ensaio sobre o Cancelamento,
[00:04:26] o link para tudo isso, você já sabe, vai estar lá no bônusdeinternet.com.br.
[00:04:32] A gente correu, agendou o estúdio,
[00:04:34] e agora você escuta esse papo sobre a origem da cultura do cancelamento,
[00:04:38] vê que de novidade ela não tem nada, né, a gente a cancela, tem tempo,
[00:04:42] mas também vai falar do que ela traz de diferente agora,
[00:04:46] e principalmente a parte que me fez querer falar desse assunto em 2024,
[00:04:51] entender o que mudou, o que a gente aprendeu nessa última década,
[00:04:54] se tem arrependimento,
[00:04:56] e para fechar, um guia prático para quando você for a pessoa cancelada da base,
[00:05:01] porque um dia todos serão cancelados por 15 minutos,
[00:05:04] inclusive eu, por conta desse programa, né, sei lá, vamos ver,
[00:05:08] mas eu fiquei muito feliz com o papo que me fez ver toda essa dinâmica de um jeito diferente,
[00:05:13] menos violento.
[00:05:21] Eu, Turinho, muito obrigado, boa noite.
[00:05:24] Eu estou muito feliz de estar aqui.
[00:05:27] Porque assim, estar no podcast com você é tipo, estou no Today Show,
[00:05:31] não sei se é Morning Show.
[00:05:33] É, agora vai, contratos aí, chegou o momento.
[00:05:37] É, porque realmente assim, a gente se encontrou a primeira vez há 15, 14, 15 anos atrás, né,
[00:05:43] falando de publicidade, mas ligada à internet de alguma forma ali, né.
[00:05:47] Isso, e redes sociais e tal.
[00:05:48] E redes sociais na época em 2010, 9.
[00:05:51] 9 e 10, ali.
[00:05:52] 2009.
[00:05:53] E aí a gente se acompanha e vê o que acontece.
[00:05:54] Então, acho que nós somos boas testemunhas do que a internet no Brasil,
[00:05:58] essas barbas brancas na época eu não tinha.
[00:06:02] Somos boas testemunhas de como isso tudo se desenvolveu de lá até aqui, né.
[00:06:05] Bom demais.
[00:06:06] É.
[00:06:07] Então eu preciso começar essa conversa perguntando pra você se eu vou ser cancelado até o fim dessa…
[00:06:11] Eu, sei lá, talvez seja um objetivo meu, eu quero ser cancelado no…
[00:06:16] Porque cancelamento tem a ver isso com opinião e com conversa, né.
[00:06:19] Então como é que a gente está hoje…
[00:06:24] Como é que você vê hoje a cultura do cancelamento, hoje eu vou, quero saber a tua definição de cultura do cancelamento, mas por que que você resolveu escrever esse livro?
[00:06:32] Por que que foi preciso escrever isso?
[00:06:34] É.
[00:06:35] Eu acho que o mundo hoje digital é tão hostil e tão enviesado para todas as direções que qualquer um de nós está sujeito a passar por um processo similar ao cancelamento.
[00:06:49] Por que que eu digo similar ao cancelamento?
[00:06:51] Porque eu tento separar um pouco a…
[00:06:54] Um pouco a dinâmica algorítmica das redes, da moral e da verdade.
[00:07:01] Porque uma coisa é você estar sendo cancelado por uma coisa, um crime que você fez, ou uma coisa imoral que você disse, e isso você sofrer consequências a partir disso.
[00:07:13] Uma outra coisa que acontece simultaneamente, muitas vezes, mas não necessariamente, é um enxame de você estar no pico de uma crise…
[00:07:24] …de uma imagem nas redes sociais.
[00:07:27] Que nem sempre ela está ligada à verdade em si.
[00:07:31] Uma frase fora de contexto,
[00:07:35] ou pior, uma frase colocada num contexto de gerar um auto engajamento, de forma…
[00:07:40] …que você vire o foco de um ataque, é o cancelamento que agente diz, mas não necessariamente estar na moral dos costumes, digamos assim.
[00:07:49] De ser…de cabeça cancelada.
[00:07:53] Então, hoje, muita gente está sujeita a virar o foco de uma rede de ódio na internet
[00:07:58] sem necessariamente merecer isso.
[00:08:02] Então, são duas coisas separadas.
[00:08:04] O cancelamento eu foco muito no livro.
[00:08:07] Primeiro, nessa dinâmica ancestral de você apontar para uma pessoa, constranger,
[00:08:14] por ter feito algo que não está de acordo com as regras daquela sociedade vigente,
[00:08:18] você afastar essa pessoa.
[00:08:20] Isso acontece desde a Grécia Antiga, desde sempre.
[00:08:24] Quando entra o algoritmo no meio, tudo fica muito mais complexo,
[00:08:27] porque ser cancelado atrai engajamento.
[00:08:31] Então, você consegue gerar picos de engajamento na rede com cancelamento.
[00:08:36] E isso beneficia muita gente.
[00:08:38] E traz engajamento dos dois lados também.
[00:08:40] Quem cancela e quem é cancelado.
[00:08:43] Porque, às vezes, a pessoa estava só tirando uma foto e foi cancelada pela foto.
[00:08:47] E foi colocada em outro lugar, etc.
[00:08:50] Mas, assim, a questão do engajamento…
[00:08:52] Quanta gente hoje ganha…
[00:08:53] Você ganha com uma crise de cancelamento, né?
[00:08:55] Você tem as redes sociais que ganham porque está gerando engajamento.
[00:08:59] Então, isso gera clique, gera interações, que aumenta o valor de mídia de uma rede social.
[00:09:06] Então, para as redes sociais, cancelamentos são ondas positivas.
[00:09:09] Porque gera uso.
[00:09:11] E com uso, tem monetização.
[00:09:12] E por aí vai.
[00:09:14] Hoje, também, politicamente, o cancelamento é uma ferramenta de polarização.
[00:09:20] Então, você reforça polarizações políticas.
[00:09:23] Políticas através de um cancelamento.
[00:09:26] Se você cancela alguém, a extrema-direita pode se beneficiar disso ou pode se prejudicar com isso.
[00:09:32] Mas, de qualquer jeito, tem alguém se beneficiando.
[00:09:35] E isso também é importante entender o poder político de um cancelamento hoje
[00:09:41] numa sociedade que tem algoritmos envolvidos.
[00:09:44] Porque também não é por acaso que acontece algum tipo de cancelamento.
[00:09:48] Né?
[00:09:49] Mas o cancelamento…
[00:09:51] Você tem problemas até com a expressão culto.
[00:09:53] Cultura do cancelamento.
[00:09:54] Eu não uso cultura.
[00:09:56] Por quê?
[00:09:56] Porque eu acho que caracterizar o cancelamento como uma cultura
[00:10:00] faz parte de um plano, de uma estratégia de descredibilizar o ato do cancelado.
[00:10:10] Ah.
[00:10:12] Não sei se…
[00:10:13] Não, essa é a minha cara de Nazaré fazendo conta aqui, equação.
[00:10:18] Porque, assim, qual é a grande coisa que me fez escrever o livro?
[00:10:21] Ver muita gente…
[00:10:23] Muita gente…
[00:10:25] Muito filho da puta.
[00:10:26] Pode falar palavrão aqui.
[00:10:27] Lógico que temos mais de 18.
[00:10:28] Muita gente filho da puta.
[00:10:31] Sair de assediador, de agressor, de racista, de criminoso
[00:10:36] pra se tornar vítima do cancelamento.
[00:10:39] Quando você coloca o cancelamento como uma cultura,
[00:10:41] automaticamente você faz com que as pessoas possam se dizer vítimas
[00:10:45] desse comportamento que não tem nada a ver com o que eu disse.
[00:10:48] É uma questão social.
[00:10:52] Então, o racista, automaticamente, ao ser cancelado hoje,
[00:10:56] ele pode dizer, eu sou vítima de cancelamento.
[00:10:58] Sim, eu brinco, vítima da sociedade.
[00:11:01] Vítima da sociedade.
[00:11:02] Eu tenho uns amigos que eles moram no Canadá, brasileiros que moram no Canadá.
[00:11:04] Ontem eles estavam contando história lá de partido, não sei o que.
[00:11:08] Aí ele falou…
[00:11:08] E eles moram na província de Alberta.
[00:11:10] Eu acho que a premier da província falou que os antivacina
[00:11:15] são os grupos mais perseguidos da história do Canadá.
[00:11:19] História do Canadá.
[00:11:21] Ah, não tem.
[00:11:22] Tem negros, não tem os…
[00:11:24] Eles chamam de primeiras nações, as primeiras nações.
[00:11:26] Não, são os antivacinas, não tem mais ninguém.
[00:11:28] Não tem mais ninguém.
[00:11:29] É isso, uma vítima da sociedade falar que não quer tomar vacina.
[00:11:33] Então, assim, essa…
[00:11:35] Já me perdi.
[00:11:36] A gente tá falando de…
[00:11:37] De…
[00:11:38] Você não gosta da expressão cultura?
[00:11:39] Cultura, porque eu acho que faz parte de uma estratégia que a sociedade encontrou
[00:11:42] pra poder diminuir a força daqueles julgamentos certeiros que se tinha
[00:11:45] no início dessa dinâmica chamada cancelamento.
[00:11:48] Com as questões de racismo, as questões de…
[00:11:52] Misoginia, machismo, violência…
[00:11:56] Mas não é cultura no sentido de que…
[00:11:58] Eu não sei se você abandonou o Twitter como eu.
[00:12:01] Eu me nego a falar o novo nome do Twitter.
[00:12:03] É, eu abandonei também.
[00:12:05] Não sei se é do cancelamento, mas existe uma cultura,
[00:12:09] ou existe uma cultura no Twitter, principalmente ali em 2020 e 2021.
[00:12:14] Em vez de chamar de cultura do cancelamento, eu vou chamar de cultura Twitter.
[00:12:17] De isso, de ficar apontando e vigiando e criticando
[00:12:22] e cultura no sentido, até incentivado, que você falou, de taxas de engajamento e tal,
[00:12:30] de falar assim, um jeito legal de eu ficar bem com a minha turminha
[00:12:35] é apontar dedos.
[00:12:39] Então você falou aí, as dinâmicas de cancelamento existem desde sempre,
[00:12:42] aí você citou Inquisição, por exemplo,
[00:12:45] teve nos anos 50, 1950, o macartismo lá nos Estados Unidos contra os comunistas,
[00:12:50] e uma prática comum.
[00:12:52] Por que somos humanos é apontar para o vizinho.
[00:12:55] Ela é bruxa, não gosta da minha vizinha, não quero ela aqui, vou apontar para ela.
[00:13:01] Isso é uma cultura, como é que isso, para você, isso se encaixa em cancelamento?
[00:13:05] Cultura, para mim, tem muito a ver com identidade da pessoa, da humanidade, da sociedade.
[00:13:12] E dinâmica tem a ver com coisas que acontecem, às vezes, sem nosso controle.
[00:13:16] Eu gosto de falar dinâmica até para despersonalizar um pouco.
[00:13:21] Tá.
[00:13:22] Realmente que os algoritmos e as redes sociais estabelecem uma dinâmica
[00:13:26] que as pessoas se sentem impulsionadas a reagir de uma forma igual a todas as outras
[00:13:35] sem ter consciência do que estão fazendo.
[00:13:39] Então, eu gosto de usar dinâmica porque parece que é uma coisa meio da física.
[00:13:44] Sim, a correnteza.
[00:13:46] A correnteza, tipo, não tem um mérito, não tem uma lógica, não tem um…
[00:13:51] É uma coisa que é…
[00:13:52] Acontece, é tipo, você só é uma colmeia, um enxame de abelhas que você, de repente, encontrou alguma coisa ali e vai.
[00:13:57] Peguei a corda de manhã e falo, e agora, como vamos?
[00:13:59] Vamos juntar todos nós para cancelar alguma coisa.
[00:14:02] Mas até tem, mas assim, não é de uma forma consciente.
[00:14:04] Isso, isso.
[00:14:05] E eu uso muito isso porque, às vezes, quando a pessoa é cancelada,
[00:14:09] ou a pessoa está sofrendo uma crise na internet que chamam de cancelamento,
[00:14:13] busca uma justiça.
[00:14:16] Tipo, mas isso é injusto.
[00:14:17] Tá.
[00:14:18] Isso é…
[00:14:19] Não faz sentido.
[00:14:22] Eu não fiz isso, eu não sou isso, não sei o quê.
[00:14:27] Quando você entende como dinâmica, você vê que é possível até que seja injusto, realmente.
[00:14:33] E que você tem só que lidar com essa dinâmica.
[00:14:35] Como é que essa dinâmica funciona?
[00:14:36] Começa o ataque, a onda sobe de engajamento, você fica no pico.
[00:14:40] Se você responde, você aumenta a onda.
[00:14:43] Então, toda a estratégia que tem que ser é diminuir a onda.
[00:14:45] Ou esperar essa onda passar para poder trazer a discussão no nível racional de volta.
[00:14:50] Uhum, uhum.
[00:14:52] Se você considera cultura, você vai querer brigar contra isso.
[00:14:55] Se você entende que é uma dinâmica, você espera passar.
[00:14:59] Para se colocar do jeito correto, assim.
[00:15:02] Acho que tem a ver muito com como enxergar o fenômeno, sabe?
[00:15:06] Então, eu não acho que haja uma cultura do cancelamento.
[00:15:08] Que as pessoas, na personalidade, na identidade dos povos hoje,
[00:15:12] uma característica básica delas, que vale ser chamada de cultura, é o cancelamento.
[00:15:18] Não acho que tenha esse peso cultural.
[00:15:20] Até porque…
[00:15:22] O que você fala?
[00:15:23] Tem desde a Grécia, Galileu e tal, existe cultura do cancelamento, então…
[00:15:27] Existe essa dinâmica de você…
[00:15:29] Existe cancelamento, então não é uma cultura.
[00:15:31] Acho que o cancelamento não denomina o nosso povo hoje, a nossa sociedade.
[00:15:38] Não é uma característica que define a nossa sociedade, não é o cancelamento.
[00:15:40] Tá.
[00:15:41] Concorda?
[00:15:41] Porque é uma característica que sempre existiu e…
[00:15:45] E não é um…
[00:15:47] Não tem esse peso de personalidade.
[00:15:50] Não acho que a sociedade hoje…
[00:15:52] Não tem uma personalidade canceladora.
[00:15:53] Tá.
[00:15:54] Eu acho que isso acontece nas redes.
[00:15:56] Isso é uma dinâmica algorítmica.
[00:15:57] Eu ia falar isso.
[00:15:58] Acho que existem redes canceladoras e…
[00:16:02] Eu tava ontem conversando com uma amiga que ela fala assim, que ela tava sendo cancelada.
[00:16:05] E aí, tava mal.
[00:16:07] Agora, em 2024?
[00:16:09] Foi cancelada há uns dois anos atrás.
[00:16:11] Ah, tá bom.
[00:16:12] E tava muito mal.
[00:16:13] Muito mal.
[00:16:14] E aí, o marido dela falou assim, amor, abre a porta aqui, vai lá fora.
[00:16:17] Sim, sim.
[00:16:18] Vê se tem alguém que te cancela.
[00:16:19] Vê se mudou alguma coisa.
[00:16:20] Isso, isso, isso.
[00:16:22] É um pouco isso, entendeu?
[00:16:23] Assim, na prática, muito do que acontece na rede, não muda a vida prática das pessoas.
[00:16:31] E pra você, tudo bem.
[00:16:32] Tudo bem.
[00:16:34] Você…
[00:16:35] Você acha que o cancelamento é uma…
[00:16:41] É, antes de mais nada, uma falta de confiança na justiça?
[00:16:44] Que você fala e…
[00:16:46] Enfim, talvez esteja atropelando aqui.
[00:16:48] Você fala do cancelamento como uma ferramenta política.
[00:16:51] Política.
[00:16:52] De defesa dos oprimidos e tal.
[00:16:53] É, tipo, na minha cabeça, e diz se você concorda ou não.
[00:16:58] Na minha cabeça, diz se você concorda ou não.
[00:17:00] Tipo, quebrar vidraça de banco no protesto.
[00:17:02] Assim, é, cara, é o que eu tenho.
[00:17:04] Assim, a vidraça não tem culpa, mas também, então, assim, é o que eu vou fazer.
[00:17:08] E eu costumo ser a favor de quebrar vidraça de banco, porque é só uma vidraça.
[00:17:12] É só um pedaço de vidro.
[00:17:13] Sim.
[00:17:13] Mas é um símbolo.
[00:17:14] É um ato simbólico.
[00:17:18] É…
[00:17:18] E você acha que o cancelamento…
[00:17:22] Faz isso de…
[00:17:23] Tá, o certo deveria ser eu te processar, porque você fez uma coisa que eu acho moral ou ilegal.
[00:17:31] Mas como eu sei que não vai dar em nada, então eu parto pro cancelamento?
[00:17:34] Eu acho, Cris, é importante a gente…
[00:17:36] E esse livro tem uma proposta de organizar essas peças do quebra-cabeça.
[00:17:40] Boa.
[00:17:41] Porque quando a gente vai puxando casos isolados, a gente não consegue entender o todo da história.
[00:17:46] Boa.
[00:17:46] Então, assim, eu fui lá pra trás.
[00:17:47] A sociedade sempre teve dinâmicas de apontar, constranger.
[00:17:51] E excluir quem ia contra a regra vigente.
[00:17:55] O famoso status quo.
[00:17:57] Então você tinha lá o ostracismo, você tinha o próprio exílio, a inquisição.
[00:18:03] Em que as redes de poder apontavam e constrangiam, expulsavam quem ia contra isso.
[00:18:12] Mas a gente pode dizer de cima pra baixo.
[00:18:13] Sócrates preferiu morrer do que o ostracismo.
[00:18:15] Tá.
[00:18:16] Por exemplo, ele foi ostracizado e preferiu…
[00:18:20] Não, prefiro morrer.
[00:18:21] Me dá esse veneno aí.
[00:18:23] É, me dá esse veneno que eu vou morrer, que eu não quero ficar no ostracismo.
[00:18:25] Entendeu?
[00:18:26] Então isso vinha até aqui.
[00:18:27] O que é que eu fui observando?
[00:18:30] Essas pessoas que foram canceladas até o nosso século, normalmente eram mulheres,
[00:18:37] homens, negros, LGBT, ou opositores de minorias contra o poder.
[00:18:44] Então, o cancelamento, essa dinâmica de você apontar, constranger, era usada como
[00:18:48] uma forma de controle para…
[00:18:51] Tirar da linha do poder, tirar da discussão quem ia contra o poder vigente.
[00:18:56] Dono de oligarquias, dono de jornais, poderes políticos, religião.
[00:19:00] Principalmente religião.
[00:19:02] Então, a inquisição, você vai tirar da frente quem não tá comigo.
[00:19:05] Então, veio assim.
[00:19:07] Até que em 2000…
[00:19:08] Você cita até o exemplo do Tiradentes mesmo, que era assim.
[00:19:11] Ele era parte de uma galera, mas só ele se deu mal.
[00:19:14] Só ele se deu mal.
[00:19:15] Os outros que eram membros da elite ficaram de boa.
[00:19:16] Ele que se deu mal, né?
[00:19:18] Elza Soares, né?
[00:19:20] Que foi…
[00:19:21] Matada como uma pessoa que atrapalhou o Garrincha.
[00:19:24] Sim.
[00:19:25] Né?
[00:19:25] E não uma mulher que sofreu as agressões, enfim.
[00:19:29] Então, assim, até esse momento, até esse século atual, essa dinâmica de apontar e
[00:19:36] constranger, ela tinha um endereço certo.
[00:19:39] Eu vou tirar da frente as minorias, quem é contra o sistema, os comunistas, os gays.
[00:19:47] Vou tirar da frente.
[00:19:48] E veio vindo assim.
[00:19:50] A internet gerou uma possibilidade.
[00:19:51] A possibilidade dessas minorias se fortalecerem algoritmicamente.
[00:19:59] Foi uma coisa que aconteceu, eu acho que sem as pessoas perceberem.
[00:20:02] Não acho que foi um plano do sistema.
[00:20:04] Não, não foi.
[00:20:05] De repente…
[00:20:05] Não, não foi.
[00:20:06] Não foi, com certeza.
[00:20:07] Muito pelo contrário.
[00:20:09] Não foi.
[00:20:10] E aí, então, quando você vem para 2011, você tem aquele…
[00:20:15] Quando a gente começou no Twitter em 2009, quando vem as hashtags, as hashtags começaram
[00:20:20] a se tornar grandes pontos de debate.
[00:20:23] Então, você tem a Primavera Árabe, você tem a Occupy Wall Street, eu tenho um capítulo
[00:20:27] só sobre a Occupy Wall Street, que eu digo que é quando houve um cruzamento semântico
[00:20:31] entre as ruas e as redes.
[00:20:33] Legal.
[00:20:34] Porque os cartazes que você vê na rua começou a virar exatamente a linguagem dos
[00:20:38] posts.
[00:20:39] Esse tipo de debate que vinha na rua, então a rua virou uma grande timeline da sociedade.
[00:20:45] A timeline acabou virando um pouco a rua.
[00:20:47] Permitindo até quem não estava fisicamente perto de Wall Street.
[00:20:50] Wall Street de participar do movimento e da discussão.
[00:20:53] É, porque assim, até esse momento, as minorias só conseguiam alguma mudança se fosse realmente
[00:20:58] para a rua com muita força e insistentemente.
[00:21:02] Quando houve esse cruzamento, essa união semântica entre rua e rede, essas minorias
[00:21:10] passaram a ter também, nas redes, a capacidade de mobilizar através de hashtags.
[00:21:18] Então, por exemplo, a Occupy Wall Street…
[00:21:20] Foi um ponto de encontro.
[00:21:21] O Occupy nasce em blogs, mas é ali em 2009.
[00:21:25] É, Occupy é 11, eu acho.
[00:21:27] Ah, é 11?
[00:21:27] Porque em resposta à crise…
[00:21:29] Então, 11, melhor ainda para o argumento que eu ia trazer.
[00:21:32] É quando a internet sai do computador e vai para o celular.
[00:21:35] Então, aumenta a famosa capilaridade.
[00:21:38] Tem mais gente dentro e mais tempo, né?
[00:21:41] Não é só quando você senta na frente do computador para fazer uma coisa.
[00:21:44] Então, essa…
[00:21:46] Ah, legal, temos a ferramenta que você falou agora.
[00:21:49] Acontece com a ajuda do…
[00:21:50] O Occupy Wall Street veio de um post.
[00:21:53] Dizendo, vamos ocupar Wall Street para pedir para o Obama fazer uma lei
[00:21:57] ou puxar uma discussão que acabe com a diferença social nos Estados Unidos.
[00:22:03] Foi essa a proposta.
[00:22:05] E as pessoas foram lá, passaram três meses ocupando.
[00:22:08] E eu fui lá, eu estava…
[00:22:10] Eu visitei.
[00:22:11] E é impressionante, olhando hoje, como a linguagem dos cartazes é muito similar ao Twitter.
[00:22:18] É, por exemplo…
[00:22:20] Por exemplo, nós somos 1%, 99 contra 1%.
[00:22:24] Legal.
[00:22:25] Frases…
[00:22:26] Tweetáveis.
[00:22:26] Tweetáveis.
[00:22:27] É o que cabe no cartaz, cabe no tweet.
[00:22:29] Isso, isso, isso.
[00:22:29] Boa.
[00:22:30] Então…
[00:22:31] Muito mais naquela época que era metade do que…
[00:22:33] É, e pensa que aquele movimento ali trouxe uma pressão da mídia gigantesca, assim.
[00:22:39] Também essas pessoas entenderam ali naquela Wall Street que se você fizer produções de conteúdo
[00:22:45] durante aquela atuação,
[00:22:48] você vai conseguir pautar empreendedores.
[00:22:50] Então, levava intelectuais, levava…
[00:22:52] Todo dia tinha uma pauta que era gerada no lugar físico, ampliada na hashtag,
[00:23:00] e que a imprensa pegava e colocava na home do site.
[00:23:03] Aí você consegue ter um canal de construção de relevância muito grande.
[00:23:09] Muitas dessas ondas acontecem a partir de cancelamentos.
[00:23:14] Por quê?
[00:23:14] Vamos um pouco mais pra frente.
[00:23:17] 2017.
[00:23:18] O movimento Me Too.
[00:23:20] Que foi também um post que puxou isso.
[00:23:25] É uma atriz que foi assediada que ela diz…
[00:23:27] E se todas as mulheres que sofreram um abuso colocassem nesse momento na internet um hashtag Me Too?
[00:23:36] Foi isso.
[00:23:38] E teve um engajamento altíssimo.
[00:23:40] O Me Too, na verdade, era um movimento até anterior, pré-internet, de uma mulher de Nova York
[00:23:45] que já tinha um movimento pra falar de assédio chamado Me Too.
[00:23:48] Mas era uma coisa de comunidade.
[00:23:50] E aí isso virou uma grande…
[00:23:54] Essa hashtag começou a reunir pessoas que sofreram abuso e assédio.
[00:23:58] Começaram a falar o que aconteceu com elas.
[00:24:01] Isso virou uma base de segurança pra quem denunciava.
[00:24:07] E aí caiu o cara mais importante de Hollywood.
[00:24:10] O Harvey Weinstein.
[00:24:11] É.
[00:24:12] Primeira vez que aconteceu isso dessa força.
[00:24:14] Porque, por exemplo, antes Mônica Levinsky tinha sido vítima de assédio do presidente da…
[00:24:20] República.
[00:24:21] E saiu como sendo uma devassa.
[00:24:23] Tem um parágrafo da People Magazine descrevendo a Mônica Levinsky naquela época
[00:24:31] que é um absurdo, assim.
[00:24:34] Uma menina feia que no colégio não pegava ninguém, começou a comer muito pra poder compensar
[00:24:40] o jeito que ela era e virou uma nifomaníaca que acaba com casamentos.
[00:24:44] Era…
[00:24:44] Tá assim.
[00:24:45] Estrutura de famílias.
[00:24:46] Tá assim.
[00:24:47] Isso em 98, mais ou menos.
[00:24:49] Sim.
[00:24:50] Ela demorou 25 anos pra conseguir fazer um documentário explicando o lado dela a história.
[00:24:54] Que foi em 2022 que saiu.
[00:24:57] Então, quando vem o Me Too, as pessoas falam, porra, as minorias são capazes de pautar.
[00:25:05] Depois do Me Too, dos 50 estados americanos, 30 e poucos, 32, lançaram leis anti-assédio e anti-abuso.
[00:25:14] Isso é um resultado concreto, positivo, de um cancelamento.
[00:25:20] Chamou atenção, quer dizer, o cancelamento do Harvard fez uma onda que pautou os veículos,
[00:25:25] que pautou a sociedade, virou uma discussão que gerou um efeito direto nas empresas, nos
[00:25:31] governos, tanto com leis nos estados americanos, como também as empresas com políticas de
[00:25:37] compliance, como lidar com isso, etc.
[00:25:39] A Lei Maria da Penha de 2017, quando ela realmente foi.
[00:25:43] Então, esse é um aspecto positivo.
[00:25:46] Dá pra ver o cancelamento desse…
[00:25:50] Esse momento como uma coisa positiva para a sociedade.
[00:25:52] Aí vamos para 2020, pandemia, George Floyd, aquela situação do Black Lives Matter, que era um movimento que já tinha,
[00:26:00] já tinha uma presença nas ruas nos Estados Unidos, o Black Lives Matter, mas naquele momento, na pandemia, o negócio estourou de novo.
[00:26:07] E aí começou uma segunda etapa, que é se as empresas iriam se comprometer em serem antirracistas.
[00:26:14] Se não se comprometessem, seriam canceladas.
[00:26:17] Tá.
[00:26:19] Lembra disso?
[00:26:19] Sim, sim.
[00:26:20] Então, gerou uma hipervigilância.
[00:26:23] Pessoas e empresas.
[00:26:23] Pessoas, personalidades famosas e tal.
[00:26:25] Mas eu gosto, nesse caso específico, eu gosto de focar em empresa, porque foi muito sintomático, assim como a sociedade cobrou que as grandes corporações se posicionassem.
[00:26:35] Então, Netflix, Nike, todo mundo teve que sair correndo para se posicionar publicamente.
[00:26:40] E ao se posicionar publicamente, gera um compromisso factual.
[00:26:46] Quem vai esquecer aquela edição do Globo News?
[00:26:49] Discutindo, falando das manifestações do Black Lives Matter, com cinco comentaristas brancos na tela.
[00:26:56] Depois disso, isso nunca mais aconteceu.
[00:26:59] Se você ligar a Globo News agora, vai ter uma diversidade mínima na tela.
[00:27:03] Mas na época, isso era uma coisa que passava.
[00:27:06] Então, muitas leis também antirracistas e muitas práticas antirracistas vieram desse movimento Black Lives Matter, que foi um movimento de cancelamento de empresas naquele momento.
[00:27:17] Né?
[00:27:19] Então, ou seja, nesse momento, entre 2017 e 2021, o cancelamento trouxe benefícios legais para a sociedade, porque ele deu voz a uma minoria que, historicamente, era o alvo desse constrangimento.
[00:27:38] Dos mesmos tipos de ferramentas.
[00:27:40] Dos mesmos tipos de ferramentas.
[00:27:43] Só que o sistema, ele se regula.
[00:27:45] Tá.
[00:27:46] Então, você começa a ter, a partir também de 2020, 2021…
[00:27:49] É, intelectuais dizendo que o cancelamento é uma afronta à liberdade de expressão.
[00:27:54] Isso.
[00:27:55] Você vê pessoas se dizendo vítimas de cancelamento.
[00:28:00] Pessoas estabelecendo cancelamento como uma cultura.
[00:28:03] Uma estratégia também de chamar tudo de cancelamento, quando nem sempre é.
[00:28:08] Eu dou um exemplo do caso da Lilian Schwartz, quando ela escreveu um artigo sobre Beyoncé na Folha de São Paulo.
[00:28:14] Ah, sim.
[00:28:14] E ela foi atacada, questionada por isso.
[00:28:18] Ela não foi atacada, ela foi questionada.
[00:28:19] Ela é uma jornalista, uma pesquisadora, escreveu um artigo, quando você bota uma opinião, você tá sujeito a que alguém discorde.
[00:28:26] E essa discordância na internet, às vezes, ela é pesada.
[00:28:30] Mas não é um cancelamento, quer dizer, ninguém foi isolado naquele momento, né?
[00:28:35] É duro.
[00:28:36] Essa linha, eu quero muito entrar nessa parte que tá agora, mas assim, é preciso, vou botar em forma de pergunta,
[00:28:44] é preciso estabelecer uma linha do que é cancelamento, o que é, a pessoa que tá do lado de lá se sentiu cancelada,
[00:28:49] mas não é cancelamento, é só, assim, aprenda que agora o mundo acontece no tribunal da internet,
[00:28:55] acontece no Twitter, acontece no TikTok agora, existe, não, isso aqui é cancelamento ou não é cancelamento?
[00:29:02] Você tem essa definição na tua cabeça?
[00:29:04] Eu tenho um pouco, porque eu acho que a partir, por isso a dinâmica, eu volto à questão da dinâmica, né?
[00:29:13] Quando essa dinâmica foi cooptada pelo sistema, então, pra mim, cancelamento é essa dinâmica em que as minorias,
[00:29:19] os grupos identitários, conseguiram ter uma forma de cancelar, ou de ter uma voz, ou de gerar uma ação em grupos,
[00:29:29] historicamente, donos do poder, que eram imunes a qualquer tipo de crítica e ação.
[00:29:33] Então, o cara não vai ser julgado, mas vai ser cancelado na internet.
[00:29:37] Eu considero cancelamento esse pedaço da história.
[00:29:42] Depois, quando começou a ser corrompido, por exemplo, quantas vezes você vê um influenciador progressista,
[00:29:48] progressista, que defende as questões identitárias, sendo cancelados, mas, na verdade, por uma rede de bots?
[00:29:56] Ah, tá bom.
[00:29:57] Quer dizer, a extrema-direita conseguiu começar a mimetizar o cancelamento pra entrar nesse jogo.
[00:30:04] Eu lembro uma vez que eu tava cuidando da gestão de crise de uma celebridade ligada, não totalmente ligada,
[00:30:09] a movimentos progressistas, mas ali, que ela foi atacada, assim, muito pesadamente.
[00:30:18] Uma forma muito pesada na internet.
[00:30:20] Eram muitos hashtags, muitos trends, topics, era muita coisa.
[00:30:24] A gente foi olhar os…
[00:30:26] Acusando de ter feito coisas autoritárias e…
[00:30:30] É, tipo, você tá vendo? Você também faz isso.
[00:30:33] Tá, tá.
[00:30:34] Sabe?
[00:30:36] 90% dos tweets vinham de bots na Arábia Saudita, sabe?
[00:30:42] Então, assim…
[00:30:43] Por isso, saindo do Twitter, tá resolvido.
[00:30:45] Então, saindo do Twitter, tá resolvido.
[00:30:47] Mas é uma história que você…
[00:30:48] Você contou, da sua amiga lá, abre a porta.
[00:30:50] É.
[00:30:51] Mas, é engraçado, você tá contando essa história dessa dinâmica,
[00:30:55] e eu já tô reinterpretando posts que eu vi da pessoa cancelada.
[00:31:01] Por exemplo, a Paola Carroacela, não lembro mais o ano,
[00:31:04] criticou comida 3D, tipo assim, comida carne feita em laboratório.
[00:31:08] Que acho que KFC tinha lançado um frango, que não era de frango.
[00:31:13] E ela, ah, já ia, essa comida artificial e tal.
[00:31:17] E aí, os veganos…
[00:31:18] Caíram de pau em cima, ah, o sofrimento animal, não sei o que, não sei o que lá.
[00:31:22] E ela, desobedecendo a sua recomendação, que a gente não…
[00:31:26] Respondeu.
[00:31:27] Mas, pro fim do programa, ela respondeu e alimentou.
[00:31:30] E aí, em um momento, ela fala assim, sei lá, fui cancelada, pelo visto, fui cancelada.
[00:31:35] Mas, agora, você contando isso, eu já tô pensando que ela falou assim,
[00:31:38] ih, fui cancelada, tipo, não, sou uma vítima, assim, ih, tá bom, fui cancelada.
[00:31:43] Ah, sei por isso.
[00:31:43] Deixa eu sair daqui, tá bom, vou fazer o que, sei lá, né?
[00:31:47] Vou ver televisão.
[00:31:48] Vou ver televisão aqui, porque eu fui cancelada.
[00:31:50] Porque eu li em algum lugar, já não lembro nem mais se foi no teu livro ou em algum artigo,
[00:31:56] que o cancelamento, até por essa palavra, tem uma dinâmica de consumo, né?
[00:32:01] Você perdeu uma celebridade, eu vou nos seus shows, eu compro seus discos e tal,
[00:32:06] mas, agora, eu vou te cancelar.
[00:32:08] Eu vou apertar o botão, cancelar, vou cancelar a compra, eu vou cancelar o carrinho,
[00:32:12] e eu vou parar de dar pra você o poder que eu te dava com a minha atenção,
[00:32:18] e, tipo isso, Paula, eu vou parar de assistir o Masterchef, eu vou parar de ir no seu restaurante
[00:32:23] com a ferramenta que eu tenho, que eu consumo, que eu, Cris, nem concordo,
[00:32:28] que é uma ferramenta tão poderosa assim, mas, beleza.
[00:32:33] Mas, eu, que é isso, então, sei lá, aí, Paula, vem aqui contar a sua, sua…
[00:32:39] Mas, você tá propondo que é assim, não, então, vou relaxar, tá bom, entendi, estou saindo do palco.
[00:32:44] Aí veio, aí veio essas transformações sociais a partir desse constrangimento na internet,
[00:32:47] que muita gente que não era, que não tava sujeito a ser atacado,
[00:32:53] pessoas que estavam na imunidade, na impunidade a vida inteira, começaram a ver, pô, eu não posso fazer isso.
[00:32:59] O Harvey Weiss tava fazendo isso há 30 anos em Hollywood, quer dizer, como é que agora não pode mais?
[00:33:05] Então, assim, houve esse momento, que durou ali, eu acho, 5 anos, 4 anos.
[00:33:11] Depois o sistema reverteu, como é que o sistema reverteu?
[00:33:13] Primeiro dizendo, confundindo o termo cancelamento.
[00:33:16] Se tudo é cancelamento, nada é cancelamento.
[00:33:17] Nada é cancelamento.
[00:33:18] Então, isso é uma coisa.
[00:33:20] Segundo, vitimizando quem, quem era, quem sofria esse ataque digital.
[00:33:25] Então, agora eu sou vítima, não sou agressor.
[00:33:27] E terceiro, que foi o último, que matou, realmente, a questão, é judicializando.
[00:33:32] Porque hoje, quando você, quando o acusado, quando alguém que sofreu um cancelamento, judicializa,
[00:33:41] e normalmente quem sofreu cancelamento são pessoas que têm mais recurso.
[00:33:44] Sim.
[00:33:45] Ou que quando não tem, tem uma rede em volta que vai…
[00:33:47] Tem uma rede em volta.
[00:33:47] Que vai apurar.
[00:33:49] Dificilmente uma denunciante de um assédio vai ter fôlego, ou saúde mental, ou disposição, ou força,
[00:34:00] para além de tudo que sofreu, ainda ter que passar por um processo judicial que vai durar 10 anos,
[00:34:05] que vai ser custoso, e ainda tem um risco de perder.
[00:34:09] Então, quando se judicializou as questões, automaticamente enfraqueceu a posição,
[00:34:17] então, uma conta que sempre foi feita, não vou denunciar porque não vai dar em nada,
[00:34:23] em algum momento vou denunciar porque vai acabar com a vida, vai, realmente, vai ter uma justiça,
[00:34:29] depois, não, não vou denunciar porque senão quem tem que pagar a conta sou eu.
[00:34:33] Então, nesse momento, e aí você tem o caso do Johnny Depp, né?
[00:34:36] Que é um caso que virou uma discussão nos Estados Unidos, entre ele e a esposa.
[00:34:40] Virou um documentário.
[00:34:41] Documentário, tem várias histórias.
[00:34:42] Que aquele momento ali, que ele meio ganhou aquele caso,
[00:34:46] as pessoas entenderam que denunciar também não é tão simples.
[00:34:51] E aí, então, volta.
[00:34:52] Mas você tem, eu gosto, entre aspas, do caso, eu acho interessante o caso do Johnny Depp,
[00:34:58] porque ele, a parte que mais me impressionou na história é a gravação da Breherd falando assim,
[00:35:05] ninguém vai acreditar que eu bati em você.
[00:35:10] Eu acho que parte da destruição do cancelamento como ferramenta,
[00:35:16] vem até disso, de que, ah, então tá, então eu vou pegar essa arma pra mim
[00:35:23] e vou sair cancelando por aí pra meu benefício.
[00:35:28] Eu vou, que nem você falou, a sua amiga lá com o bot da Arábia Saudita, assim,
[00:35:32] ah, então eu não gosto daquela pessoa, eu vou formar um jeito de cancelar ela
[00:35:37] e usar isso como arma.
[00:35:39] E se lá na época que você falou, 2020, principalmente, as empresas, por exemplo,
[00:35:44] não tinham uma política de tolerância zero.
[00:35:46] Contra racismo, contra assédio e tal.
[00:35:51] Uma das, sei lá, acho que é uma pergunta que a gente,
[00:35:54] será que a gente hoje tá vendo, ah, não é bem assim,
[00:35:57] a gente vai precisar investigar porque teve aquele um caso que eu brinquei,
[00:36:03] traiu movimento, é, traiu movimento.
[00:36:05] Pô, cara, pô, por que você fez isso?
[00:36:07] Aí você, todos os ganhos que foram feitos, aí vai virar o Zemama, tá vendo?
[00:36:13] Aquele cara ali se aproveitou, disse que era mais,
[00:36:16] mas não era agora, enfim, essa, mas você citou rapidinho aí uma carta,
[00:36:23] a Carta sobre Justiça e Debate Aberto, que é de julho de 2020,
[00:36:27] foi assinada por 150 intelectuais, pensadores, figuras do mundo,
[00:36:31] de nacionalidade diferente, gêneros, raça diferente, 150 pessoas,
[00:36:37] e eu, pra mim, ela simboliza, ela materializa muito essa discussão,
[00:36:43] principalmente o que aconteceu depois.
[00:36:45] Ela é uma…
[00:36:46] É uma carta onde essas pessoas ali, no calor de julho de 2020,
[00:36:51] falam assim, galera, calma, porque não tá dando nem pra conversar.
[00:36:56] Entre o campo progressista, as pessoas não estavam conseguindo conversar entre si,
[00:37:01] não era a batalha, né, time azul, time vermelho e bombas e trincheiras, sim.
[00:37:08] O que essa carta alegava era, e eles dão um exemplo,
[00:37:12] acho que eles dão um exemplo, um funcionário que trabalhava com análise,
[00:37:16] de dados, falou assim, ah, legal, tá tendo esse quebra-quebra por causa do George Floyd,
[00:37:22] mas eu juntei uns dados aqui e eu vi que essa galera tá achando que a gente precisa se juntar
[00:37:29] e chamar atenção pra esse tipo de coisa pra mudar, inclusive, voto.
[00:37:34] Mas eu puxei uns dados aqui e o que aconteceu é o inverso.
[00:37:38] O número de votos democratas, quando existem protestos violentos, cai.
[00:37:42] Esse cara foi demitido, porque foi assim, não, você não pode falar disso,
[00:37:46] não pode falar disso.
[00:37:46] Você tá contra o movimento, você tá contra o que a gente tá pregando.
[00:37:49] E o que os intelectuais pregavam então era isso, olha, ele tá difícil de conversar,
[00:37:53] a gente tá com medo de falar coisas e, legal, interessante esse ponto de vista,
[00:37:59] mas aí a reação também simboliza muito, que é, pelo menos do que eu lembro da época
[00:38:06] e do que eu pesquisei, gastou-se muito tempo, muito pouco tempo,
[00:38:12] discutindo as ideias da carta e gastou-se mais tempo assim, ah, mas é um bando de branco,
[00:38:16] é um branco privilegiado, ah, também não falo, então houve um cancelamento da carta,
[00:38:22] um pré-cancelamento, assim, não, é um non-chonsky, quem é um non-chonsky?
[00:38:26] É um branco, viveu, não sei o que, mora em São Paulo, tá aí, sendo tratado em São Paulo.
[00:38:33] Mas enfim, é, é, mas onde eu quero chegar na história toda é essa parte assim,
[00:38:39] o famoso, os americanos chamam de chilling effects,
[00:38:41] mas o cancelamento como ferramenta, a dinâmica do cancelamento,
[00:38:46] vou passar a falar de agora em diante, ele traz essa preocupação de,
[00:38:52] então não vou nem falar, então vamos, exemplo hipotético aqui do bando de internet,
[00:38:57] eu só vou chamar gente branca aqui no bando de internet,
[00:39:00] só vou chamar homens brancos aqui porque, vai que eu falo um pronome errado,
[00:39:05] vai que eu falo não sei o que, eu vou ser cancelado,
[00:39:07] eu tenho muito a perder e pouco a ganhar, essa dinâmica,
[00:39:12] você, antes de mais nada, concorda, continua acontecendo, aconteceu, como é que você vê isso?
[00:39:16] É, são várias camadas, né, por isso que eu gosto do cancelamento,
[00:39:19] porque ele, ele nos dá várias camadas, e aí, pensando nesse século que a gente tá hoje,
[00:39:24] 2000, anos 2000, 2024, eu acho que a gente tem que escolher
[00:39:27] sobre que perspectiva a gente quer ver o mundo.
[00:39:30] A perspectiva que vinha sendo construída, ou a perspectiva de quem não tinha esse espaço.
[00:39:37] É, pra tudo na vida, eu faço essa crítica, eu sou, minha família,
[00:39:42] chegou no Brasil em 1530, era literalmente uma capitania hereditária,
[00:39:46] fui donatário de capitania hereditária, então assim,
[00:39:50] minha perspectiva sempre foi a do colonizador, eu fui criado nisso como país,
[00:39:54] com nós todos, pessoas brancas que tiveram privilégios,
[00:39:57] sempre tiveram chance de falar, sempre falaram o que quis,
[00:40:01] sem ninguém questionar, sem se preocupar se tava agredindo o outro,
[00:40:04] se aquilo causava um gatilho no outro,
[00:40:06] nós sempre tivemos toda a liberdade de falar tudo o que a gente queria a vida inteira,
[00:40:10] isso é fato, ainda mais no Brasil.
[00:40:15] Esse corte,
[00:40:16] que nos coloca numa paranoia, que eu digo que é uma paranoia necessária,
[00:40:21] para que a gente não ofenda e não machuque o outro,
[00:40:25] e não reforce um sistema que reduz grupos a um isolamento,
[00:40:32] eu acho que é importante.
[00:40:34] Eu acho que é importante a gente ter esse susto,
[00:40:37] ter realmente uma ação afirmativa e dizer assim, você não pode mais falar isso.
[00:40:40] Se você falar, você vai se fuder.
[00:40:42] O medo do cancelamento mudou essas empresas,
[00:40:44] não mudaram essas empresas, a política racial não mudou,
[00:40:46] por conta de consciência, mudou com medo de ser cancelada.
[00:40:50] O que mudou as leis de assédio não foi consciência,
[00:40:54] mudou com medo de ser cancelado,
[00:40:56] criar ferramentas para que protegesse de alguma forma.
[00:40:58] Então assim, eu acredito que essa inflexão é importante,
[00:41:06] foi importante, é um corte importante,
[00:41:08] nos obriga a pensar, nos faz pensar.
[00:41:10] Quantos de nós fomos bater na porta de Jamila Ribeiro
[00:41:13] para entender o que estava acontecendo.
[00:41:16] A gente não sabe.
[00:41:18] Quando eu vi essa carta dos intelectuais,
[00:41:20] me pareceu várias pessoas assim.
[00:41:22] Sempre pude falar o que eu quis,
[00:41:23] sempre pensei o que eu quis,
[00:41:24] agora não quero ser questionado.
[00:41:27] Calma lá, porque o que você falava estava gerando um enfraquecimento,
[00:41:32] um apagamento, e pessoas de outros grupos de identidades
[00:41:34] nunca tiveram essa liberdade que você tem para falar.
[00:41:38] Então sim, foi um corte.
[00:41:40] E é um corte importante.
[00:41:42] Mas concordo que a gente também não pode parar de pensar.
[00:41:44] Tá.
[00:41:46] Enfim, há o corte.
[00:41:49] Como é que esse debate se relocaliza, se reconstrói
[00:41:54] a partir dessa premissa que tem mais gente na discussão
[00:41:59] e mais gente que é sensível à discussão.
[00:42:02] A minha grande preocupação enquanto secretário de Cultura e Turismo
[00:42:04] de uma cidade de pessoas negras
[00:42:07] é falar de um jeito que represente o que não ofenda.
[00:42:13] É uma preocupação de você potencializá-las,
[00:42:16] e de você não engatilhá-las.
[00:42:19] Não vou palavra, derruba.
[00:42:22] E não engatilhá-las, porque
[00:42:23] a mera presença de um homem branco poderoso
[00:42:28] numa roda de minorias que sempre estiveram fora do poder
[00:42:32] já é um gatilho de opressão,
[00:42:35] de saúde mental mesmo.
[00:42:36] Então assim, eu acho que o cancelamento naquele período
[00:42:39] nos fez frear.
[00:42:43] É um freio de arrume.
[00:42:44] Eu não posso falar isso.
[00:42:44] Se eu falar isso, eu estou machucando essas pessoas.
[00:42:46] Talvez essas pessoas, talvez não, com certeza,
[00:42:50] nem estavam no radar de raciocínio desses intelectuais.
[00:42:56] Simplesmente não estavam na conta.
[00:42:59] Então eu acho que é importante esse freio
[00:43:02] para que a gente se rearrume
[00:43:03] de forma a não ofender, enfraquecer, oprimir
[00:43:08] pessoas que são do nosso convívio.
[00:43:11] Então, para mim, isso foi muito positivo.
[00:43:13] O que isso virou depois, e aí também por isso,
[00:43:16] dinâmica, porque dinâmica a gente não tem controle sobre ela,
[00:43:19] então ela vai acontecendo,
[00:43:21] já perdeu essa força.
[00:43:24] Já perdeu essa força.
[00:43:25] Já perdeu essa força.
[00:43:26] Já foi corrompido, já foi corrompido,
[00:43:28] já foi enfraquecido, já virou ferramenta,
[00:43:32] já virou ferramenta eleitoral.
[00:43:33] Tudo isso já aconteceu.
[00:43:35] Mas naquele momento ali,
[00:43:37] esse corte foi fundamental para a nossa sociedade.
[00:43:40] Eu lembro uma frase do Wagner Moura,
[00:43:43] em 2018,
[00:43:44] que perguntaram para ele,
[00:43:46] o que ele achava do politicamente correto.
[00:43:48] Ele fala, para mim, politicamente correto
[00:43:50] é uma ferramenta civilizatória.
[00:43:52] E eu concordo muito com isso.
[00:43:54] Eu acho que o cancelamento, naquele momento,
[00:43:57] foi uma ferramenta civilizatória.
[00:44:00] E muita gente sofreu com isso.
[00:44:03] Muitas vezes é pesado, foi pesado.
[00:44:07] Mas o que é pesado para um de nós
[00:44:11] em relação a 500 anos de opressão,
[00:44:16] uma vida inteira vivendo o racismo em uma cidade,
[00:44:18] uma vida inteira vivendo a misoginia,
[00:44:22] é aquela porrada que eventualmente um de nós
[00:44:25] levou, levará, pode levar.
[00:44:28] Mesmo parecendo desproporcional,
[00:44:32] nessa perspectiva, não é tão desproporcional assim.
[00:44:37] Não, mas é engraçado você falar isso.
[00:44:38] Eu concordo porque eu coleciono ex-amigos
[00:44:41] e boa parte dessa coleção vem dessa dinâmica,
[00:44:46] que eu nunca tinha pensado sobre essa lente do cancelamento,
[00:44:50] mas vem dessa dinâmica de liberdade de expressão.
[00:44:55] Teve um caso, sei lá, um mês, dois meses atrás,
[00:44:59] que o cara entrou lelé no Instagram,
[00:45:03] querem calar uma nação.
[00:45:06] Eu assim, cara, eu lembrei, eu tava aqui,
[00:45:09] eu tava aqui naquela porta ali.
[00:45:11] E aí um amigo como, nossa, você viu isso aqui?
[00:45:14] Que loucura, tal.
[00:45:15] Aí eu falei, ah, deixa eu ver.
[00:45:16] Deixa o cara.
[00:45:17] Eu falei, deixa o cara.
[00:45:18] Aí eu vi um comentário dele no post dele falando assim,
[00:45:21] querem calar um país.
[00:45:22] Aí eu falei assim, não, cara, querem calar um país,
[00:45:26] eu acho que cruzou-se um limite e tal.
[00:45:29] E aí a gente ficou meio que tretando na DM
[00:45:32] e ele mandou o famoso passar bem.
[00:45:34] E aí eu falei, tá bom.
[00:45:35] Eu parei de seguir, não bloqueei, mas assim,
[00:45:37] eu parei de seguir e beleza.
[00:45:39] Mas é isso, a leitura que eu tenho é assim,
[00:45:42] não é que estão tentando te calar.
[00:45:45] É, eu brinco, é a consequência dos seus atos.
[00:45:47] Você quer falar coisas, você quer expressar sua opinião,
[00:45:51] beleza, expressa sua opinião.
[00:45:52] Que sei lá, que o Lula é ladrão.
[00:45:55] Beleza, cara.
[00:45:56] Mas as consequências vêm e você passou 500 anos falando e beleza.
[00:46:03] Então assim, não, eu tenho o direito de falar o que quiser.
[00:46:05] Sim, você tem o direito.
[00:46:07] Mas a resposta das pessoas não é censura, né?
[00:46:12] A resposta das pessoas é uma conversa.
[00:46:14] Por isso a minha brincadeira no início,
[00:46:15] se eu seria cancelado nesse programa,
[00:46:17] porque se a gente tá aqui, eu concordo com algumas coisas que você falou,
[00:46:20] eu falo, pô, Pedro, mas não, não sei o quê e tal.
[00:46:23] E o pensamento é, não, então eu vou ser cancelado.
[00:46:26] Porque se eu não concordar com tudo que o Pedro falar,
[00:46:29] os amigos do Pedro vão me cancelar.
[00:46:30] E não é.
[00:46:31] E que, né, democracia, conversa, meio isso.
[00:46:35] Outro caso que eu tive recente foi,
[00:46:37] eu sou do, enfim, da organização do TEDx Blumenau
[00:46:41] e o TEDx Blumenau foi convidado
[00:46:43] pra, pelo TED Global, escolher, vocês vão fazer o TEDx Democracia em Blumenau.
[00:46:48] E a piada que eu mais ouvi dos meus amigos da bolha progressista,
[00:46:52] que eu brinco à esquerda, Santa Cecília, foi,
[00:46:55] ah, mas você vai falar de democracia em Blumenau.
[00:46:59] Que parece que tem mais células neomazistas,
[00:47:02] o que foi uma das coisas até discutidas no evento.
[00:47:04] Tem célula neomazista, não sei quem isso quer lá.
[00:47:06] E o que eu fiquei pensando foi,
[00:47:08] você quer falar de democracia no boteco de Santa Cecília?
[00:47:12] Você quer falar…
[00:47:13] É em Blumenau mesmo.
[00:47:14] É em Blumenau que você tem que falar, que você tem que levar as pessoas.
[00:47:17] Então, essa, essa, do outro lado também, essa,
[00:47:21] eu não quero, eu vou ficar reverberando esses assuntos aqui na minha bolha
[00:47:26] e não quero nem levar a conversa do lado de lá.
[00:47:29] Essa nossa discussão aqui tá me dando esses flashbacks, assim.
[00:47:33] É porque tem esse ponto, assim, a internet faz com que a rede social,
[00:47:36] da forma que ela é estruturada hoje,
[00:47:38] ela faz com que a gente viva dentro da bolha.
[00:47:41] Nessa bolha de interesse, tudo que eu falo é relevante.
[00:47:44] Então, a gente acha que é super popular,
[00:47:46] porque teve milhões de likes naquela bolha.
[00:47:48] E tudo que você vê é uma coisa que você concorda.
[00:47:51] Então, parece que o mundo inteiro tá vivendo naquela direção
[00:47:55] de visão de mundo que você tem.
[00:47:58] Uma pessoa que é evangélica, ela vive numa bolha evangélica nas redes
[00:48:02] que ela não sabe que existem outras coisas.
[00:48:04] Então, ela tem a razão absoluta e ninguém discorda dela.
[00:48:07] Quem discorda tá fora, nem tá nesse raio de visão.
[00:48:10] Isso faz com que a gente vá se distanciando do debate.
[00:48:15] De alguma forma, o cancelamento cortava essa bolha em algum momento
[00:48:20] por ele fazer as bolhas terem que lidar com uma crise ao mesmo tempo.
[00:48:25] Não vou dizer a melhor, mas uma poderosa ferramenta de furar a bolha.
[00:48:29] De furar a bolha.
[00:48:30] E outro ponto, assim, que a gente não pode deixar de falar
[00:48:33] é da camada política, comportamental dessas dinâmicas de crise,
[00:48:39] de crise de cancelamento nas redes, né?
[00:48:41] Tem uma pesquisa feita nos Estados Unidos,
[00:48:43] por aquela Pew Research, que é tipo o grupo de pesquisa mais foda,
[00:48:46] sobre cancelamento nos Estados Unidos.
[00:48:47] Todo publicitário bota nos slides.
[00:48:49] É, porque é muito bom. É bom pra caramba.
[00:48:51] Eles fizeram uma pesquisa, acho que foi em 2021 ou 22, 21,
[00:48:57] que 58%, a pesquisa era sobre cancelamento, sobre cultura do cancelamento.
[00:49:04] 58% dos americanos entendem que cancelamento são responsabilizações
[00:49:08] pelos erros.
[00:49:10] 38% entendem que são agressões injustas.
[00:49:15] 2…
[00:49:18] E aí ele foi feito…
[00:49:20] Então você tem 60% quase que acha que é responsabilização
[00:49:23] e 40% que acha que é agressão.
[00:49:25] Quando você vai procurar fazer pelo recorte político dessas pessoas,
[00:49:30] quem acha que é responsabilização é democrata.
[00:49:34] Quem acha que é agressão desproporcional é republicano.
[00:49:38] Então assim, olha como as coisas estão ligadas às visões de mundo.
[00:49:45] Então assim, quem fala que é liberdade de expressão,
[00:49:48] também tem sido na pesquisa, são os conservadores.
[00:49:51] Que é contra a liberdade de expressão e conservadores.
[00:49:53] Quem fala que tá responsabilizando são os progressistas.
[00:49:58] Então virou realmente uma questão de polarização sobre visão do que é aquele fato,
[00:50:03] que é muito difícil de administrar, porque são completamente conflitantes.
[00:50:07] São ligadas com identidade, a identidade conservadora, a identidade progressista.
[00:50:14] Remete às guerras culturais, que eu acho que é um conhecimento importantíssimo
[00:50:18] para entender a dinâmica das redes.
[00:50:20] Guerras culturais surgiram lá na Alemanha de Bismarck,
[00:50:23] que era uma briga, uma disputa,
[00:50:27] pela forma como se acredita que o Estado deve reger a sociedade.
[00:50:34] De um lado o Estado laico,
[00:50:36] do outro lado o Estado religioso.
[00:50:38] É basicamente isso.
[00:50:39] E lá pra cá isso vem se replicando.
[00:50:41] Então você tem…
[00:50:42] Inclusive nesse campo também.
[00:50:44] Inclusive nesse campo também.
[00:50:45] Então você tem quem acha que a religião conservadora deve…
[00:50:49] É uma disputa para dizer como é que você deve viver.
[00:50:51] De ordem…
[00:50:52] De como você deve viver.
[00:50:53] Sim, sim, sim.
[00:50:54] Então assim, você tem que viver de acordo com esses dogmas religiosos,
[00:50:57] e aí cada país tem a sua religião que se mistura com o Estado.
[00:51:01] Ou você tem a sua identidade e a forma de viver de acordo com o que você é, com o que você pensa.
[00:51:06] De um lado essa disputa dos conservadores é uma disputa por controle,
[00:51:10] por manutenção de algum privilégio conservador e por…
[00:51:15] Controle, basicamente.
[00:51:18] E do outro lado é uma questão de sobrevivência.
[00:51:21] Porque se o LGBT, que é mais não,
[00:51:26] não brigar pela sua existência, ele vai ser aniquilado.
[00:51:30] Então são coisas muito…
[00:51:32] Ou um imigrante que reza pra outra religião…
[00:51:34] Ou, enfim…
[00:51:35] Isso mesmo.
[00:51:36] Ou ele tem que brigar pela existência dele num contexto conservador.
[00:51:40] Então é uma questão existencial para os progressistas,
[00:51:46] e é uma questão de controle e de existência também,
[00:51:51] no sentido de divisão de sociedade para os conservadores.
[00:51:55] Esse choque é o que nos guia.
[00:51:57] Guerra Fria vai pra lá…
[00:51:59] Desde você vai…
[00:52:00] Todas essas questões batem nesse lugar.
[00:52:03] E o cancelamento virou uma ferramenta…
[00:52:05] Virou uma ferramenta dessa guerra.
[00:52:07] Virou uma arma dessa guerra.
[00:52:09] Mas qual é o ponto que complica tudo mais?
[00:52:12] Quando a guerra cultural tornou-se uma guerra eleitoral.
[00:52:15] Porque quando você consegue puxar o engajamento pra um polo,
[00:52:20] desses dois,
[00:52:21] você automaticamente agrega uma tensão algorítmica
[00:52:26] e uma identificação social com esses públicos.
[00:52:29] Então, na verdade, o cara não precisa ter projeto,
[00:52:33] não precisa ter ideia de mundo,
[00:52:35] não precisa ter trabalho,
[00:52:36] não precisa ter entrega.
[00:52:37] Se ele se associar a um polo de uma forma forte,
[00:52:41] repetindo as questões da guerra cultural,
[00:52:44] que basicamente são religião, etnia e sexo,
[00:52:47] ele consegue trazer uma tensão eleitoral que ele não teria de outra forma.
[00:52:51] E o cancelamento acaba validando. Tá vendo?
[00:52:54] Tá vendo? Joga pro lado de lá.
[00:52:56] É o cara que é cancelado e vira deputado.
[00:52:58] Isso.
[00:52:59] Entendeu?
[00:53:00] Essa é a pergunta que tá no meu roteiro.
[00:53:01] É.
[00:53:02] Como criamos deputados ao cancelar?
[00:53:04] Como evitar esse…
[00:53:06] Porque é isso, o cancelamento vem…
[00:53:08] Tem aquele jogador de vôlei, lembra, que foi homofóbico?
[00:53:10] Tem milhão de exemplos, né?
[00:53:12] E aí vai e joga…
[00:53:13] Quando você pega uma pessoa, cancela,
[00:53:15] joga pra um campo,
[00:53:17] você dá uma puta tensão pra essa pessoa.
[00:53:19] Então, você cancela uma pessoa na rede, ele vira um pico de engajamento.
[00:53:23] Você arremessa ele pra um lado do jogo,
[00:53:26] normalmente pro lado conservador, que eram os que são mais cancelados.
[00:53:29] Ele automaticamente vira um símbolo
[00:53:31] do polo conservador da extrema direita.
[00:53:35] Com o engajamento de midiático necessário
[00:53:40] pra ter votos e ser eleito.
[00:53:42] Mas e aí?
[00:53:43] Se eu não quero mais ter deputados…
[00:53:45] Se eu não quero mais causar a eleição de deputados por causa disso,
[00:53:48] eu paro de cancelar?
[00:53:50] Tipo, estamos em 2024, já passamos, já teve carta, resposta à carta, tudo…
[00:53:55] Meio de 2024.
[00:53:57] Como é que tá a cultura, a dinâmica do cancelamento hoje?
[00:54:00] Eu acho que…
[00:54:01] É por isso que eu fiz esse livro, no sentido assim,
[00:54:03] as pessoas têm que entender esse quebra-cabeça inteiro.
[00:54:07] Porque não é só o recorte…
[00:54:08] Fazer ou não fazer.
[00:54:09] É.
[00:54:10] Não é só o recorte daquele fato específico.
[00:54:13] Ah, se foi justo, se não foi.
[00:54:15] Foi pesado, não foi.
[00:54:16] Era pra fazer, não era.
[00:54:17] Não é sobre isso, no fim.
[00:54:19] No fim, é sobre dois grupos.
[00:54:22] Os laicos, o secular e o extrema direita.
[00:54:27] Religioso, fundamentalista.
[00:54:29] Brigando pra dizer como você deve viver.
[00:54:32] O que a gente precisa entender é que a gente não precisa estar nos dois lados.
[00:54:36] A gente pode ter o caminho da justiça, o caminho do que é certo, o caminho do centro.
[00:54:43] E da convivência, né?
[00:54:44] Da convivência, da troca.
[00:54:46] Só que é muito difícil.
[00:54:48] Porque a gente é jogado nesse ping-pong a vida inteira.
[00:54:51] Se você não é isso, você é aquilo.
[00:54:53] Ah, você não tá, você tá fazendo isso, você é contra, você é contra o aborto,
[00:54:58] então você é bolsonarista.
[00:54:59] Isso.
[00:55:00] Eventualmente, não.
[00:55:01] Não, não.
[00:55:02] Eu vou te dizer uma pior ainda.
[00:55:03] Eu tenho, mas…
[00:55:04] Um exemplo de novo, que eu vivi, sei lá, alguns meses atrás.
[00:55:07] Que é, o cara falou assim, ah, fulano é de centro.
[00:55:11] Aí o outro falou assim, então é de direita.
[00:55:13] Não, ele é de centro.
[00:55:15] De centro.
[00:55:16] Não, todo mundo que é de centro é um direita dentro do armário.
[00:55:18] Então assim, até a definição do centro existe uma guerra cultural de não aceitar,
[00:55:26] não, não aceita o centro.
[00:55:27] Ou você tá aqui, seguindo, que é um dogma não religioso, assim, ou você assina incondicionalmente
[00:55:35] todos esses itens aqui, do imposto ao direito do aborto, ou você tá do lado de lá e vice-versa,
[00:55:42] né?
[00:55:43] Ou você vem pra minha igreja e faz isso ou aquilo, ou você é militudo, ou você
[00:55:47] já veio pra lacrar, já veio, criticou o Elon Musk, é, tá, tá lacrando.
[00:55:52] Então, acho que o apelo que a gente tem que fazer é pra…
[00:55:56] É pra enfraquecer essa dicotomia dos extremos.
[00:56:02] Porque, na verdade, tudo cai nisso daí.
[00:56:05] Quando a gente fala ele não, a gente tá colocando no colo de Bolsonaro todas as pessoas,
[00:56:16] ele vira o representante de todo o espectro político, religioso, de extrema-direita,
[00:56:21] etc.
[00:56:22] É no colo dele.
[00:56:23] Porque a gente criou essas pessoas ao jogar ela no extremo.
[00:56:26] Então, acho que o nosso grande desafio, como sociedade, é sair dos extremos.
[00:56:32] É conseguir…
[00:56:34] Eu tô muito feliz que você falou isso, porque eu não fazia ideia de que era pra esse lado
[00:56:37] que a nossa conversa ia.
[00:56:38] Eu tô muito feliz.
[00:56:39] É conseguir ter uma atuação justa, presencial, de você sair dos extremos.
[00:56:48] Um exercício que eu sugiro é pensar muito no impacto do que você diz, do que você faz,
[00:56:55] fora das redes.
[00:56:56] Eu digo sempre isso, assim, o impacto positivo é onde sua mão alcança.
[00:56:57] Você fez um post, apoiando uma causa, não vai ter impacto, provavelmente não vai ter
[00:56:58] impacto nenhum nesse post.
[00:56:59] Você tá só somando numa rede que vai crescendo e que vai, eventualmente, ser jogada pra um
[00:57:00] lado ou pro outro do ringue.
[00:57:01] Mas você tá ao seu redor, as pessoas estão vivas, você consegue ser uma pessoa melhor
[00:57:02] pra quem tá ao seu redor, pra quem trabalha com você, pra com quem você trabalha, seu
[00:57:03] vizinho, as pessoas que você encontra no ringue.
[00:57:04] Então, eu acho que o nosso grande desafio, como sociedade, é sair dos extremos.
[00:57:05] É conseguir ter uma atuação justa, presencial, de você sair dos extremos.
[00:57:06] É conseguir ter uma atuação justa, presencial, de você sair dos extremos.
[00:57:07] É conseguir ter uma atuação justa, presencial, de você sair dos extremos.
[00:57:08] É conseguir ter uma atuação justa, presencial, de você sair dos extremos.
[00:57:09] E também saber forma em qual lugar, que eu acho que a嗷 virá para o seu redor,
[00:57:10] as pessoas ali vão estar vindo que é de verdade um toque-esse
[00:57:35] a gente.
[00:57:36] Sim.
[00:57:37] aí tem um caminho, e é o que eu tenho tentado
[00:57:39] fazer assim, quando eu decidi ir
[00:57:41] pra política pública, nessa temporada
[00:57:43] trabalhando na prefeitura
[00:57:44] é uma prefeitura da União
[00:57:47] Brasil, eu sempre fui uma pessoa
[00:57:49] ligada ao movimento, ao progressista
[00:57:51] fui muito questionado, tanto por um lado quanto
[00:57:53] pro outro, falei gente, não tô
[00:57:55] muito preocupado com a corrente
[00:57:57] eu tô preocupado com o que
[00:57:58] eu sei o que eu estou fazendo aqui, eu vim aqui para
[00:58:01] fazer isso e estou conseguindo fazer o que eu me propus
[00:58:03] com acordância, concordância
[00:58:05] e discordância, mas eu tô fazendo
[00:58:07] o que eu me propus a fazer
[00:58:08] que é entregar uma cidade mais justa, é trabalhar
[00:58:11] pra uma cidade mais justa
[00:58:12] então eu acho que tendo
[00:58:15] essa visão geral
[00:58:16] o caminho é a gente enfraquecer
[00:58:19] os polos e trabalhar com
[00:58:21] o fato, com o factual, com o que é certo
[00:58:23] porque eu lembro, tem um
[00:58:25] tio meu, que se dizia
[00:58:27] super, que foi jogado do lado
[00:58:29] da direita, digamos assim, ah sou conservador
[00:58:31] e tudo mais
[00:58:33] ele também se dizia assim
[00:58:34] né
[00:58:35] e ele tinha um terreno
[00:58:36] uma área rural assim, perto de Salvador
[00:58:40] que foi invadido
[00:58:41] e aí, esse cara de direita
[00:58:44] que se dizia de direita, tudo
[00:58:46] falou assim, pô eu vou resolver isso
[00:58:48] eu falei, pô, o que ele vai fazer
[00:58:50] pra resolver isso?
[00:58:52] eu já fiquei morrendo de medo
[00:58:53] ele foi lá, ele ficou amigo
[00:58:56] do cara que
[00:58:58] ocupou o terreno dele
[00:59:00] conseguiu negociar
[00:59:02] com o Movimento Sem Terra, um lote
[00:59:04] pra essa pessoa sair do terreno dele
[00:59:06] ir pra um lote, pagou o lote
[00:59:08] ajudou a construir a casa
[00:59:10] deu ainda um trabalho
[00:59:12] e resolveu assim
[00:59:14] aí quando ele me contou isso, eu falei, cara, você tá dizendo que você é de direita?
[00:59:17] mas o seu cara é de esquerda
[00:59:18] então assim, isso
[00:59:20] confunde as pessoas, até em quem elas são
[00:59:22] de verdade, com o que elas
[00:59:24] se expressam, ou são levadas a se expressar
[00:59:27] na rede
[00:59:27] e quando você tira essas
[00:59:30] essas tags, e vê o que a pessoa
[00:59:32] faz no seu
[00:59:34] dia a dia, aí sim
[00:59:36] você consegue ter um juízo de valor
[00:59:37] mas nessa abordagem
[00:59:40] identitária das
[00:59:42] opiniões
[00:59:43] era muito fácil o seu tio
[00:59:46] ter caído, bom, já que eu sou de direita
[00:59:48] o que se espera de um cara de direita?
[00:59:50] é o que acontece, você acaba
[00:59:52] seguindo uma cartilha e tudo piora
[00:59:53] o mundo acaba
[00:59:54] por isso que tem que acabar, realmente
[00:59:58] o Twitter tinha que acabar
[00:59:59] como acabou, de fato
[01:00:02] porque, e aí você vê
[01:00:04] era Pedro que tá agarrado lá
[01:00:06] não consegue soltar
[01:00:06] você vê realmente como a questão do algoritmo é importante
[01:00:10] quando, antes do Elon Musk
[01:00:12] os discursos
[01:00:15] progressistas, e talvez essa seja
[01:00:17] até a tese dele
[01:00:17] viralizavam, tinham mais poder
[01:00:20] de engajamento no Twitter
[01:00:21] hoje, se você entra lá, você vê só discurso
[01:00:25] de extrema direita
[01:00:26] aleatoriamente na sua frente
[01:00:28] ou seja, a mudança de algoritmo
[01:00:30] de fato, muda
[01:00:32] o peso
[01:00:33] das opiniões
[01:00:35] que são, que ganham engajamento
[01:00:36] então talvez até ele tivesse em algum lugar certo
[01:00:39] de que as discussões
[01:00:41] identitárias ganharam um peso algoritmo
[01:00:43] com um favorecimento ao algoritmo em algum momento
[01:00:45] né
[01:00:46] como agora as outras
[01:00:49] não estão recebendo esse peso, talvez ele tivesse certo nisso
[01:00:51] e aí volta
[01:00:53] aquela questão, sobre que perspectiva você acha
[01:00:55] que deve ver o mundo hoje? Eu realmente acho
[01:00:57] que os algoritmos hoje tem que favorecer as questões
[01:00:59] identitárias, porque nos últimos 500 anos
[01:01:01] não foi assim que aconteceu
[01:01:02] então
[01:01:03] eu concordo com o que estava acontecendo ali
[01:01:05] porque eu acho que era uma posição afirmativa importante
[01:01:07] pra gente ter discussões que não furavam a bolha
[01:01:09] acadêmica, a bolha jornalística
[01:01:12] e que com essa
[01:01:14] força algoritmica para o discurso
[01:01:15] identitário, furou
[01:01:17] bolhas que não tinha antes, entendeu?
[01:01:20] Mas eu
[01:01:20] quero trazer de volta aqui
[01:01:23] eu gosto muito quando você fala
[01:01:25] a história de onde seu braço alcança
[01:01:27] porque antes de 2020
[01:01:29] existia uma expressão que a gente falava
[01:01:31] zoando, que era o ativista
[01:01:33] no sofá, eu vou twittar aqui
[01:01:35] pronto, está resolvido
[01:01:37] chega 2020, a gente está literalmente no sofá
[01:01:39] a gente não consegue ir pra rua
[01:01:41] isso
[01:01:41] é multiplicado por mil
[01:01:44] e
[01:01:45] a impressão que eu fiquei
[01:01:49] é de que as pessoas estavam
[01:01:51] mais preocupadas
[01:01:52] com aparência, com post, com engajamento
[01:01:55] do que mudar as coisas onde o braço alcança
[01:01:57] que nem você fala
[01:01:59] de que não
[01:02:01] não é que eu quero
[01:02:03] que essa injustiça
[01:02:05] não estou
[01:02:07] apoiando essa injustiça
[01:02:08] eu quero que essa injustiça acabe
[01:02:10] mas mais importante do que isso
[01:02:12] eu não quero ser visto como uma pessoa
[01:02:15] então assim, sim, eu sou contra o racismo
[01:02:17] eu quero que o racismo acabe, eu acho um absurdo o racismo
[01:02:19] mas mais importante do que isso
[01:02:21] eu não quero ser visto como racista
[01:02:23] não me confunda
[01:02:24] e
[01:02:26] imbicando pro final que é onde
[01:02:29] estamos agora, 2024
[01:02:30] eu
[01:02:33] às vezes acordo assim
[01:02:34] não, calma, o tempo avança
[01:02:36] a história segue
[01:02:37] e não estamos mais em 2020
[01:02:39] as conversas evoluíram
[01:02:42] como é que você acha que estão as conversas hoje
[01:02:44] de dinâmica de cancelamento, dessa polarização
[01:02:46] como é que você está
[01:02:48] você está otimista com o jeito que está hoje
[01:02:50] como é que você está?
[01:02:51] eu acho que o sistema
[01:02:52] conservador corrigiu
[01:02:55] essa coisa do sistema pra eles
[01:02:57] então hoje o que eu mais ouço
[01:03:00] é as pessoas dizerem que cancelamento não existe mais
[01:03:02] tá
[01:03:03] eu acho que faz sentido
[01:03:05] porque realmente hoje
[01:03:06] você não tem mais aquelas grandes mudanças causadas
[01:03:09] por um cancelamento como tinha antes
[01:03:11] hoje tudo já se
[01:03:13] um vira deputado
[01:03:14] o outro gere a crise
[01:03:15] tem suas ferramentas
[01:03:15] ou não dá em nada
[01:03:17] eu acho que tem um pouco isso
[01:03:20] acho que também
[01:03:21] acho que tem uma coisa que a gente precisa aprender enquanto sociedade
[01:03:24] que é essa questão
[01:03:25] da ação virtual versus ação real onde o braço alcança
[01:03:30] eu acho também que
[01:03:31] existe um vazio existencial nessas pessoas que estão vivendo o racismo
[01:03:33] das pessoas que vivem na internet
[01:03:34] porque ela não sente
[01:03:37] a materialização
[01:03:38] da sua existência
[01:03:40] e isso gera
[01:03:42] só que ninguém trabalha isso
[01:03:43] mas existe isso
[01:03:46] e quando você sai da internet
[01:03:48] pra resolver as coisas
[01:03:50] realmente se engaja
[01:03:52] de forma prática numa questão
[01:03:54] isso muda tanto
[01:03:56] a forma
[01:03:58] de viver, como você se fortalece
[01:04:01] como você se sente enquanto ser humano
[01:04:02] que é uma coisa que eu recomendo
[01:04:04] então acho que o ativista do sofá
[01:04:06] existe muito
[01:04:08] mas algumas pessoas
[01:04:10] já estão entendendo que
[01:04:12] tem que colocar a mão na massa
[01:04:14] quando a gente vê a atuação dos influenciadores no Jogando do Sul
[01:04:16] a gente vê que está longe disso totalmente ainda
[01:04:19] mas assim
[01:04:20] mas também tem
[01:04:21] tem casos e casos
[01:04:23] mas assim, o impacto onde
[01:04:25] o impacto acontece onde seu braço alcança
[01:04:28] pra mim essa é uma coisa que mudou
[01:04:30] muito a forma
[01:04:31] eu que como você
[01:04:32] fui lá do início do Twitter
[01:04:33] vimos essas manifestações todos acontecerem
[01:04:35] nos engajamos em muitas delas
[01:04:37] digitais
[01:04:38] tivemos, criamos hashtags
[01:04:40] participamos de hashtags
[01:04:41] que de fato sofremos
[01:04:43] algumas delas foram bem sucedidas sim
[01:04:45] chamar atenção pra fatos naquela época etc
[01:04:47] acho que depois de passar por tudo isso
[01:04:49] o impacto que meu braço alcança
[01:04:51] é a minha meta de vida
[01:04:53] é fazer isso
[01:04:55] e eu recomendo isso como uma forma também
[01:04:57] da gente sair da polarização
[01:04:58] porque quando você tem uma visão muito mais clara
[01:05:00] da materialidade
[01:05:01] do juiz
[01:05:02] do justo
[01:05:03] quando você tá cuidando disso pessoalmente, sabe?
[01:05:05] Bom demais
[01:05:06] acho que é um bom lugar pra gente encerrar o papo aqui
[01:05:09] foi ótimo
[01:05:10] a gente vai ter um momento
[01:05:11] saiba mais, que eu sempre esqueço
[01:05:12] e a Ana me lembra
[01:05:13] quem ouviu essa conversa aqui
[01:05:16] eu vou dizer que eu
[01:05:18] a grande coisa que eu tiro dessa conversa aqui
[01:05:21] que me pegou de surpresa positivamente
[01:05:23] é repensar até
[01:05:25] o que significa ser cancelado
[01:05:27] do lado cancelado que é
[01:05:29] é a história
[01:05:31] que não é novidade pra mim é a história que você conhece, né?
[01:05:31] a novidade pra mim é a história que você contou do
[01:05:33] abre a porta e vê lá fora
[01:05:34] mas assim, de que o cancelamento
[01:05:36] não tem como objetivo a destruição total
[01:05:38] e simplesmente apertar um botão de parar, de cancelar
[01:05:42] tem um pedaço do livro que é mais o final
[01:05:45] quando eu falo um pouco sobre
[01:05:46] se você foi cancelado
[01:05:47] isso, boa
[01:05:48] qual o guia, a guia prática, isso
[01:05:50] aconteceu, você falou
[01:05:52] você teve uma frase sua, uma imagem, um post que foi
[01:05:56] de forma justa ou não
[01:05:58] colocada nesse ringue do cancelamento, né?
[01:06:01] você tirou uma foto, uma coisa hipotética
[01:06:03] você tirou uma foto
[01:06:05] que representa
[01:06:07] uma figura
[01:06:08] do racismo
[01:06:10] uma figura da época da escravidão, por exemplo
[01:06:13] essa
[01:06:14] essa imagem gerou gatilho em milhões de pessoas
[01:06:17] e você foi cancelado porque criou essa imagem
[01:06:18] como é que você lida com isso?
[01:06:20] e aí eu tenho essa abordagem que é realmente muito
[01:06:23] que é o que eu recomendo realmente
[01:06:25] para as pessoas que me procuram
[01:06:27] ao falar de cancelamento
[01:06:28] primeira coisa é reconhecer
[01:06:31] que o seu ato
[01:06:33] pedir desculpas é conhecer porque o seu ato ali
[01:06:35] causou um mal-estar, uma agressão
[01:06:37] gatilho, reforçou
[01:06:39] uma política opressora
[01:06:42] para uma parcela grande da população
[01:06:44] então primeiro
[01:06:45] reconheça isso
[01:06:46] eu falo que o
[01:06:49] no media training
[01:06:50] tá aqui a sua cartinha, ela tem duas frases
[01:06:53] fiz merda, não vou fazer mais merda
[01:06:55] e tem a terceira fase
[01:06:57] que é o seguinte, primeiro fiz merda, ou seja
[01:06:59] é
[01:07:01] você fala até no livro, eu concordo assim, não é
[01:07:02] desculpa quem se sentiu ofendido
[01:07:05] não é veja bem
[01:07:07] fiz merda
[01:07:08] o que eu fiz foi um erro
[01:07:10] porque esse erro reproduz
[01:07:13] ações, práticas
[01:07:15] deploráveis para o nosso tempo
[01:07:17] e que isso não pode ser repetido mais
[01:07:19] então o primeiro passo é isso
[01:07:21] o segundo passo é entender
[01:07:23] porque e explicar, não é só
[01:07:25] pedir desculpa
[01:07:26] essa imagem que eu reproduzi
[01:07:28] ela reproduz também
[01:07:31] situações que causam gatilhos
[01:07:34] em pessoas negras
[01:07:36] que reproduz um colonialismo, um passado
[01:07:39] e que não deve ser reforçado para que isso não se fortaleça ainda mais
[01:07:42] nós temos que trazer novas imagens
[01:07:44] então você tem que compreender também
[01:07:47] e o terceiro, que é o mais importante
[01:07:49] e aí eu volto a materialidade, é reparar
[01:07:52] não é só pedir desculpa
[01:07:54] e dizer porque errou
[01:07:56] o que é que eu posso fazer para que esse erro não se repita
[01:07:59] para que as pessoas que foram ofendidas
[01:08:00] tenham reparação
[01:08:02] e para que também, enquanto em vida
[01:08:04] você materialize uma mudança de comportamento
[01:08:07] geralmente as pessoas não vão até esse ponto
[01:08:09] mas acho que é um ponto importantíssimo
[01:08:11] que é quando você de fato
[01:08:12] coloca a mão no problema
[01:08:14] e faz alguma coisa para você passar por isso
[01:08:17] sabe, então esses três passos
[01:08:19] se você sofreu
[01:08:20] entre aspas
[01:08:22] se você se viu
[01:08:23] numa situação, porque estão situações complexas
[01:08:26] o caso do Johnny Depp com a esposa
[01:08:27] é um casamento complexo
[01:08:29] dependendo do ângulo que você vá
[01:08:30] famoso, tudo errado
[01:08:31] tudo errado, então assim
[01:08:32] é difícil você jogar para um lado
[01:08:34] porque assim, tem
[01:08:35] eu até acho que a justiça até conseguiu fazer um certo
[01:08:37] algumas pessoas estavam certas
[01:08:39] algumas coisas, outras estavam erradas
[01:08:41] os dois estão errados
[01:08:42] os dois estão errados, né
[01:08:43] assim, tem coisas que são complexas
[01:08:45] isso, isso, isso
[01:08:46] então você tem que lidar com essa complexidade
[01:08:47] isso
[01:08:48] né, então está todo mundo sujeito a isso
[01:08:50] mas uma vez sujeito
[01:08:51] procure entender da perspectiva
[01:08:54] do oprimido
[01:08:55] de quem te cancelou
[01:08:57] porque você está sendo cancelado
[01:08:58] e o que você pode fazer para que isso não aconteça mais
[01:09:00] para a sociedade
[01:09:00] sabe
[01:09:02] bom demais
[01:09:03] então é isso, terminamos assim
[01:09:05] já que eu vou ser cancelado
[01:09:06] não, brincadeira
[01:09:07] não, bom demais
[01:09:09] quem quiser se aprofundar mais no tema
[01:09:11] vai ler o livro
[01:09:12] ensaio sobre cancelamento
[01:09:14] mais um TED Talk
[01:09:16] um outro livro, um artigo
[01:09:17] tem uma série que eu gosto muito
[01:09:20] sobre isso
[01:09:21] que é a Morning Show
[01:09:22] sim, Morning Show
[01:09:24] é muito interessante
[01:09:25] do primeiro ao terceiro
[01:09:27] são três temporadas
[01:09:29] sim
[01:09:29] e é muito interessante
[01:09:30] como ela vai atualizando a discussão
[01:09:33] em cada temporada
[01:09:35] e me fez entender muita coisa
[01:09:38] dessa complexidade
[01:09:40] do cancelamento
[01:09:44] principalmente para as vítimas
[01:09:46] vítimas do cancelado
[01:09:48] não a vítima do cancelamento
[01:09:49] para as vítimas dos assédios, dos abusos, etc
[01:09:52] e para mim é uma série fundamental
[01:09:54] para entender essa dinâmica hoje
[01:09:56] e tem uma parte da primeira temporada
[01:09:58] que me marcou muito
[01:09:59] que é o
[01:10:00] o
[01:10:00] o personagem do Steve Carell
[01:10:02] ele começa sendo cancelado
[01:10:04] sendo acusado de assédio
[01:10:06] e tal, não sei o que
[01:10:06] e ele
[01:10:08] é o que você falou
[01:10:09] entrar naquela dinâmica
[01:10:09] que ele não é justo
[01:10:10] olha só
[01:10:11] e não sei o que lá
[01:10:12] aí ele vai encontrar
[01:10:14] com o personagem do Martin Short
[01:10:16] que acho que é um diretor de cinema
[01:10:17] que já tinha sido cancelado
[01:10:19] antes dele
[01:10:20] e ele vai lá
[01:10:22] nós somos iguais e tal
[01:10:24] tá vendo, as pessoas não entendem
[01:10:25] e o Martin Short começa assim
[01:10:27] é um absurdo
[01:10:28] eu só passei a mão na bunda dela
[01:10:30] não sei o que
[01:10:30] aí ele vai lá
[01:10:30] e o Steve Carell
[01:10:31] caraca
[01:10:32] entendi
[01:10:33] ele vai
[01:10:35] ele vai entrando naquilo
[01:10:37] ele vai entendendo
[01:10:38] e até disso
[01:10:41] o quanto eu sou
[01:10:43] parecido com essas pessoas
[01:10:45] ou não
[01:10:45] e aí spoiler de segunda temporada
[01:10:47] ele leva as últimas consequências
[01:10:49] mas enfim
[01:10:50] é muito boa
[01:10:51] é muito boa
[01:10:52] essa série eu recomendo sempre
[01:10:53] porque
[01:10:54] ela tem muitas nuances
[01:10:56] importantes
[01:10:57] bom demais
[01:10:58] Pedro Torinho
[01:10:59] seu livro é
[01:11:00] Ensaio sobre o Mundo
[01:11:00] sobre Cancelamento
[01:11:01] é isso
[01:11:02] muitas livrarias
[01:11:02] muito obrigado
[01:11:03] pela oportunidade
[01:11:04] da gente bater um papo assim
[01:11:05] profundo né
[01:11:06] bom demais
[01:11:06] sobre a história
[01:11:07] bom demais
[01:11:08] vamos continuar gravando aqui
[01:11:09] obrigado
[01:11:10] obrigado
[01:11:11] não se esquece de ir lá
[01:11:13] no
[01:11:13] boa noite internet
[01:11:14] ponto com ponto BR
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[01:11:29] ponto com
[01:11:30] ponto BR
[01:11:31] e entra para o movimento
[01:11:32] o Boa Noite Internet
[01:11:35] é um podcast da Ampere
[01:11:36] a produção
[01:11:36] pesquisa
[01:11:37] edição de roteiro
[01:11:38] são da Ana Maron
[01:11:38] a edição de som
[01:11:40] é da Jéssica Correia
[01:11:41] a edição de vídeo
[01:11:42] é da Clara Ishikawa
[01:11:43] e a produção executiva
[01:11:44] é com o Gui Pinheiro
[01:11:46] até o próximo episódio
[01:11:48] Ampere