Caetano Galindo quer a língua viva


Resumo

A conversa parte de críticas que a Rádio Novelo recebe sobre “português errado” nas transcrições e sobre sotaques no áudio, e usa isso como gancho para discutir o que é “norma culta”, por que não existe um “bom português” mítico e como a língua é, antes de tudo, disputa de poder. Caetano Galindo explica a proposta do livro Latim em pó: popularizar a linguística histórica do português do Brasil e, ao mesmo tempo, combater o “complexo de vira-lata” que faz brasileiros terem vergonha de marcas muito comuns da fala (como “os carro”, o R retroflexo e o apagamento do R de infinitivo).

Ao longo do episódio, ele detalha como o português brasileiro se formou em contato intenso com línguas indígenas e africanas, e por que a influência não se limita ao vocabulário: há efeitos na sonoridade, em padrões silábicos e em traços estruturais que passaram a ser estigmatizados socialmente. Na segunda parte, o tema vira tradução: Galindo comenta como traduzir ajuda a enxergar esquisitices e singularidades do próprio idioma, fala da polêmica da linguagem neutra como um debate público saudável e reflete sobre o porquê de retraduções de clássicos serem necessárias, já que traduções envelhecem junto com convenções editoriais e expectativas de leitura.


Indicações

Livros

  • Latim em pó (Caetano Galindo) — citado como referência para entender por que o português do Brasil é como é e para combater preconceito linguístico
  • Ulisses (James Joyce) — mencionado como uma das traduções mais “encrencadas” de Galindo e decisiva para sua carreira
  • Graça Infinita (David Foster Wallace) — citado como obra difícil e “profética”, com tradução trabalhosa e emocionalmente pesada
  • Finnegans Wake (James Joyce) — citado como um projeto que Galindo cogita traduzir
  • A Divina Comédia (Dante Alighieri) — lembrada como uma leitura que ele conseguiu concluir

Filmes / Series

  • Na Sapata Está Onde Somos Amados (documentário) — citado como filme lançado a partir de evento ligado ao Museu da Língua Portuguesa
  • Língua Brasileira (espetáculo) — peça teatral que motivou o trabalho de Galindo e originou desdobramentos
  • Língua Brasileira (disco de Tom Zé) — álbum feito durante o processo do espetáculo, com músicas relacionadas ao projeto
  • Oxford English Dictionary (OED) — citado como exemplo de obra lexicográfica em atualização contínua (online e por assinatura)

Linha do Tempo

  • [00:00] — Reclamações de ouvintes sobre sotaques e “português errado” nas transcrições; defesa da variação linguística
  • [00:02] — Caetano conta como consegue ler andando e por que isso virou hábito
  • [00:04] — Como nasceu o livro Latim em pó: peça Língua Brasileira, pandemia e desdobramentos (museu, documentário, disco)
  • [00:07] — A “agenda” do livro: combater vergonha do português brasileiro e relacionar estigmas à história racial do país
  • [00:09] — “Língua é luta de poder”: mito da norma e a importação do padrão europeu como base do prestígio no Brasil
  • [00:12] — O “espanto” da linguística: opinião de leigos, autoridade científica e como dialogar sem condescendência
  • [00:17] — Sotaques, identidade e aumento de tolerância com diversidade (internet, mídia, podcasts)
  • [00:20] — Influência indígena e africana além do léxico: por que mudanças estruturais são raras e onde elas aparecem no PB
  • [00:25] — Transição para a segunda parte: tradução e o debate sobre linguagem neutra
  • [00:26] — Linguagem neutra: mais importante que “correção” é o debate público e a visibilização de demandas
  • [00:30] — Traduzir como “olhar de fora”: singularidades do português (artigo antes de nome próprio, excesso de preposições etc.)
  • [00:35] — Por que traduzir Ulisses: decisão de vida, impacto na carreira e prazer em traduzir o difícil
  • [00:41]Graça Infinita: desafios emocionais e técnicos; humor, inventividade e escolhas escondidas na tradução
  • [00:44] — Por que retraduzir clássicos: metáfora da Estátua da Liberdade e o envelhecimento das traduções

Dados do Episódio

  • Podcast: Fio da Meada
  • Autor: Rádio Novelo
  • Categoria: Society & Culture
  • Publicado: 2024-11-11
  • Duração: 0h52m

Referências


Dados do Podcast


Transcrição

[00:00:00] Rádio? Novelo?

[00:00:07] Para cada ouvinte que nos escreve criticando os sotaques dos membros da equipe da Rádio Novelo

[00:00:13] ou nos alertando que os roteiros no site estão em português errado,

[00:00:18] eu tenho vontade de mandar de presente um exemplar do livro Latim em pó

[00:00:23] do escritor e professor da Federal do Paraná, Caetano Galindo.

[00:00:28] Porque nesse livrinho delicioso de ler, ele explica como ninguém porque o nosso português é como é.

[00:00:35] Porque é super ok misturar nós com a gente, às vezes na mesma frase, como eu costumo fazer.

[00:00:42] Porque falar os carro e drible é exatamente o que se espera do falante de português do Brasil.

[00:00:50] A gente come o R final dos infinitivos, como na palavra comer,

[00:00:54] que nunca na vida saiu da minha boca como comer, independente da formalidade da situação.

[00:01:01] E a gente também enrola o R, chamado de R caipira, em muitas regiões do Brasil.

[00:01:07] E tá tudo certo.

[00:01:10] E também não adianta reclamar porque a língua é nossa e a gente faz com ela o que quiser

[00:01:14] e não interessa o que manda a chamada norma culta.

[00:01:18] E mesmo quem acha que usa a tal norma culta também faz tudo isso aí e mais,

[00:01:24] dependendo da região onde nasceu.

[00:01:27] Então, já que não dá pra virar central de distribuição do Latim em pó,

[00:01:32] eu fui lá conversar com Caetano pra ele explicar isso tudo pra gente.

[00:01:37] A gente falou também de linguagem neutra e sobre a influência das línguas africanas no nosso português.

[00:01:43] Aqui o Galindo cita a professora Yeda Pessoa de Castro,

[00:01:46] que graças ao nosso jeito de encurtar tudo, na entrevista apareceu só como Yeda.

[00:01:52] E ele contou sobre o trabalho dele como tradutor de obras muito difíceis de traduzir

[00:01:57] e até de ler no original mesmo, como Ulisses de James Joyce

[00:02:01] e Graça Infinita do David Foster Wallace.

[00:02:05] Ele também traduziu T.S. Eliot, Thomas Pynchon, enfim, o cara gosta de uma encrenca.

[00:02:12] E sabe explicar essas encrencas de um jeito claro, sem condescendência e com muito senso de humor.

[00:02:19] Espero que vocês gostem.

[00:02:24] Escuta, eu queria te fazer uma pergunta de curiosidade minha,

[00:02:27] porque eu vi uma entrevista tua em que você conta que você lê andando.

[00:02:32] Como é que você não dá com a cara no poste?

[00:02:35] Prática. Eu tinha 12, 13 anos de idade quando eu comecei a fazer.

[00:02:38] No começo eu andava devagar, andava meio que levantando os olhos para fazer um scan around.

[00:02:44] Mas hoje eu meio que desenvolvi uma visão periférica padrão, assim, eu leio de boa.

[00:02:49] Li 47 páginas vindo para cá agora de casa.

[00:02:52] Olha que incrível.

[00:02:53] Se eu não fizesse isso, eu praticamente não lia mais com o tipo de rotina que a gente tem.

[00:02:57] Eu leio andando com o cachorro, basicamente, e trajetos pequenos.

[00:03:02] Agora que a gente se mudou para mais longe da universidade, acho que eu vou ler mais.

[00:03:05] A primeira vez que eu ouvi falar disso foi uns anos atrás que eu li um livro

[00:03:08] de uma escritora irlandesa que ganhou o Booker há um tempo atrás.

[00:03:11] Chama Anna Burns.

[00:03:13] Mas o gatilho para tudo que acontece no livro é o fato de que ela lê andando.

[00:03:17] E como ela está em Belfast no auge da confusão, no auge dos Troubles,

[00:03:21] qualquer atitude que você tenha que seja um pouquinho fora do padrão

[00:03:25] chama atenção para você.

[00:03:27] E tudo que você não quer, especialmente sendo uma jovem mulher,

[00:03:30] você não quer chamar atenção de forma alguma, para nada.

[00:03:33] E como ela lê, ela gosta muito de ler, e ela lê andando,

[00:03:36] todo mundo acha isso esquisitíssimo, e isso chama a atenção para ela.

[00:03:39] E aí, meu filho, desencadei uma série de acontecimentos.

[00:03:42] E quando eu vi você dizendo isso, eu falei, gente, agora são duas pessoas

[00:03:45] que eu sei que andam, porque eu fui pesquisar a autora depois

[00:03:48] e ela conta numa entrevista que ela anda lendo na rua.

[00:03:53] E que, ok, que funciona, que ela também não dá com a cara no poste

[00:03:57] e dá tudo certo.

[00:03:58] Eu passei a minha vida explicando isso e as pessoas achando bizarro.

[00:04:01] E agora todo mundo anda com o celular na mão,

[00:04:03] e eu não ando com o celular na mão, aquilo sim desconcentra.

[00:04:06] Responder mensagem, aquilo desconcentra.

[00:04:09] Eu já tropecei respondendo o celular, mas lendo nunca.

[00:04:12] Tem toda a razão, todo mundo anda lendo, na verdade,

[00:04:15] porque não é um livro, é verdade, sobe a escada.

[00:04:18] E aí, então, eu dividi duas partes, primeiro falar do latim e pó

[00:04:23] e depois de questões de tradução,

[00:04:25] mas dá para misturar também uma coisa com a outra.

[00:04:28] E eu queria que você explicasse por que você escreveu o latim e pó

[00:04:32] e também o que é o latim e pó para os ouvintes que não sabem o que é.

[00:04:36] O latim e pó tem a ver com Felipe Hirsch,

[00:04:39] tem a ver com o convite dele para participar de um espetáculo

[00:04:43] que viria a ser o Língua Brasileira, que estreou em 22 em São Paulo.

[00:04:47] Começou assim, você quer participar de um projeto maluco

[00:04:50] sobre a história da língua portuguesa a partir de uma canção do Tom Zé.

[00:04:54] Como é que se diz não para um negócio desse?

[00:04:56] E eu comecei a trabalhar com eles, isso logo antes de eclodir a pandemia.

[00:05:00] O projeto acabou indo para a geladeira durante dois anos inteiros,

[00:05:03] só que durante esses dois anos a gente trabalhou muito.

[00:05:05] Eu escrevi dezenas de páginas para os atores,

[00:05:09] eu mandei horas de áudio para eles, a gente conversou sobre todo tipo de coisa.

[00:05:13] Fui meio que afiando essa possibilidade de explicar a história da língua

[00:05:18] e a linguística histórica para um público de não especialistas.

[00:05:21] Quando a peça estreou,

[00:05:22] o Felipe foi chamado para fazer a curadoria de uma ocupação do Museu da Língua Portuguesa.

[00:05:26] Eu participei disso também.

[00:05:28] Ele filmou esse evento e lançou um documentário chamado

[00:05:31] Na Sapata Está Onde Somos Amados.

[00:05:33] O Tom Zé acabou durante esses dois anos produzindo um disco inteiro

[00:05:36] de músicas relacionadas ao espetáculo, que também se chamou Língua Brasileira.

[00:05:39] E quando eu vi essa maré de coisas acontecendo,

[00:05:42] eu consultei a editora, companheira das letras,

[00:05:44] se eles teriam possibilidade de lançar meio a toque de caixa

[00:05:47] um livro pequeno que eu escrevesse sobre esse assunto.

[00:05:50] Eu escrevi o livro correndinho, a editora comprou essa ideia amalucada

[00:05:54] e o livro foi lançado em janeiro de 23 como culminação desse projeto.

[00:05:59] Por que o Latin em pó é como é?

[00:06:01] Isso tem a ver com o fato de que eu estou há 27 anos

[00:06:04] dando aula de Línguística Histórica na Federal do Paraná.

[00:06:07] E nesse tempo a minha área de atuação foi mudando

[00:06:11] cada vez mais para perto do português do Brasil.

[00:06:13] De início era Línguística Românica, depois virou História do Português,

[00:06:16] hoje é mais História do Português do Brasil.

[00:06:18] Eu fiz formas curriculares e alterações desse tipo

[00:06:22] e acabou que eu fui me interessando cada vez mais pelo português do Brasil.

[00:06:26] E com a repetição, todo semestre dando essa mesma disciplina para um público diferente,

[00:06:31] eu fui meio que depurando um jeito meu

[00:06:35] de narrar a história de como se formou o português do Brasil.

[00:06:38] Por isso que foi possível escrever esse livro tão rápido.

[00:06:41] Porque eu sentei e dei a aula que eu dou para os meus alunos

[00:06:45] escritos durante duas, três semanas, que foi o tempo de redação original do livro.

[00:06:50] E acabou que esse livro virou o que ele é,

[00:06:53] que é essa visão, de certa forma, nova,

[00:06:56] decorrente de trabalhos muito recentes das últimas décadas do português do Brasil,

[00:07:00] sem ter vergonha de ser um livro com uma bandeira,

[00:07:04] uma agenda política, que é eliminar o complexo de vira-lata,

[00:07:08] fazer os brasileiros deixarem de ter vergonha do que é efetivamente nosso na nossa língua

[00:07:13] e no meio do caminho mostrar para as pessoas o quanto essas coisas de que a gente foi ensinado a ter vergonha

[00:07:19] são quase sempre consequências da presença negra na história do Brasil e na nossa língua.

[00:07:25] É muito curioso e nada surpreendente você deslindar esse negócio todo

[00:07:29] e perceber que quase tudo que foi martelado na nossa cabeça,

[00:07:33] como feio, tosco, caipira, vergonhoso,

[00:07:37] no fundo é negro ou é decorrente de alguma maneira da presença negra no Brasil.

[00:07:42] É um livro que quer dizer uma coisa, é um livro que quer dizer

[00:07:45] vamos parar de ter vergonha do que a gente efetivamente é,

[00:07:48] vamos entender o que a gente é e vamos entender por que nos fizeram ter vergonha durante tanto tempo.

[00:07:53] É, você fala muito da ideia de que para começar existe um bom português,

[00:07:57] algum lugar onde se fala esse português mítico que seria o melhor português, o português mais correto.

[00:08:03] E a gente vê isso muito na rádio novela

[00:08:06] porque uma das coisas que você tem que aprender quando você vai fazer podcast

[00:08:09] é ler como se fala, escrever como se fala.

[00:08:12] Então a gente tem no nosso site as transcrições de todos os nossos podcasts,

[00:08:16] inclusive do Rádio Novela Presenta, que é um podcast que tem roteiro.

[00:08:20] Então tem o áudio das pessoas entrevistadas entremiado de roteiro com locução

[00:08:24] e essa locução é lida, mas ela é lida como se não tivesse sendo lida.

[00:08:28] Então ela é escrita como se não tivesse sendo lida.

[00:08:30] Então a gente escreve tá, ser, come o R final das palavras.

[00:08:35] E eu vi que você fala disso também, comer, falar, esse jeito que a gente fala,

[00:08:39] que a gente come o R final, que você explica de onde vem, que vem de línguas africanas.

[00:08:43] E a gente de vez em quando recebe reclamação de ouvinte,

[00:08:46] dizendo, vocês não sabem que em português não é assim,

[00:08:49] a gente não fala tá, a gente fala está, a gente não fala ser, a gente fala você.

[00:08:53] Minha vontade é que eu tivesse uma pilha de latinha em pó

[00:08:57] para mandar para cada ouvinte que reclama, para cada pessoa que vai na rede social reclamar.

[00:09:02] Porque outra coisa que as pessoas reclamam de vez em quando é sotaque.

[00:09:05] Enfim, a gente tem gente com sotaques do Brasil inteiro,

[00:09:08] mas as pessoas reclamam especialmente do sotaque carioca e reclamam do R chamado de R caipira.

[00:09:13] E você explica isso, tanto a questão de que a gente fala assim tá, ser, comer, falar, quanto o R.

[00:09:20] Explica aí para a gente.

[00:09:21] Cara, língua é luta de poder, é disputa de espaço.

[00:09:26] Uma grande estrutura social, política, cultural,

[00:09:30] que não é determinada, regrada, legislada por ninguém.

[00:09:35] Ninguém tem controle, ninguém tem poder de polícia real sobre o idioma.

[00:09:39] O idioma existe nesse empurra-empurra de forças diferentes, buscas de espaço,

[00:09:44] de representação, de tolerância.

[00:09:48] E é bonito ver isso, essa grande estrutura social que vai evoluindo,

[00:09:52] mudando aos poucos na briga, com os falantes se empurrando de um lado para o outro.

[00:09:56] Isso faz com que qualquer idioma do mundo, qualquer grande idioma do mundo,

[00:10:00] especialmente, tenha lá seu conjunto de mitos, inclusive.

[00:10:04] As pessoas criam algumas narrativas, criam algumas explicações simplórias,

[00:10:08] simplificadas em geral, para justificar suas próprias posturas.

[00:10:11] Isso não é novidade no Português do Brasil.

[00:10:13] O que é novidade do Português do Brasil é um dos lugares de onde acaba surgindo boa parte desses nossos mitos,

[00:10:21] que é essa curiosa origem bipartida da nossa língua.

[00:10:25] O fato de que a gente vive num país que durante séculos foi mastigando,

[00:10:31] digerindo e criando uma sua própria versão da língua portuguesa,

[00:10:35] em estreito contato com falantes de povos indígenas, depois com falantes africanos escravizados,

[00:10:41] gerando uma versão nossa da língua portuguesa.

[00:10:45] Que é aquilo que normalmente a gente vai encontrar falado nas ruas,

[00:10:49] falado em situação distensa, em situação não monitorada, como se diz na linguística.

[00:10:53] Só que a nossa variedade formal, a variedade da escola, a variedade da literatura,

[00:10:57] como em todo o idioma, é diferente dessa. Isso é tranquilo.

[00:11:01] Só que na maior parte dos casos, o que acontece é que essa variedade formal é resultado de um processo em que alguém vai lá,

[00:11:07] escolhe a fala de uma região, em geral de uma elite, sócio, político, econômica,

[00:11:13] dá uma escovada nela, um banho de loja, e ela se torna essa norma culta.

[00:11:17] No Português do Brasil, o que aconteceu de muito curioso foi que a gente não fez isso.

[00:11:21] A gente voltou pra Europa e pegou a norma dos portugueses e reimportou pra cá,

[00:11:27] inclusive a gente exportou pra lá as nossas elites, a gente mandava as pessoas estudarem Coimbra,

[00:11:31] a gente importava os nossos intelectuais de lá.

[00:11:34] E a gente criou com isso uma realidade meio bilíngue na história do Brasil.

[00:11:38] A gente tem um português pé no chão, que criou-se aqui, que surgiu aqui, que se desenvolveu aqui,

[00:11:45] e a gente tem esse outro português que foi fazer intercâmbio no exterior e voltou esquisitão,

[00:11:49] uns 200 anos depois, cheio de ideias.

[00:11:52] E a gente tem aí sim o típico complexo de vira-lata muito brasileiro,

[00:11:57] que é que a gente paga um pau desgraçado pra essa norma escolar, nobre, chique, importada,

[00:12:03] e a gente abomina todo o resto. E o todo o resto somos nós, a gente se autoabomina.

[00:12:09] É isso que você falou, é ser, tá, fazer, comendo, perto,

[00:12:14] todas as coisas que são lindas de um ponto de vista de diversidade linguística

[00:12:18] e que a gente acha muito maravilhoso quando a gente estuda francês, italiano, inglês,

[00:12:22] estuda a fundo e descobre, nossa, no Canadá se fala assim, na provença se fala desse jeito.

[00:12:27] A gente acha maior bacana quando é nas línguas bacanas, brancas e europeias.

[00:12:31] Quando é com a gente é tudo analfabeto, rastaquera, fuleiro, ordinário.

[00:12:35] Aí a gente não percebe que isso é variedade.

[00:12:38] Eu vi você falando que com latim e pó você queria provocar nos leitores espanto.

[00:12:44] Assim, o mesmo tipo de espanto que você sentiu quando você começou a estudar linguística.

[00:12:48] Porque é uma coisa gozada quando você entende um pouquinho de linguística

[00:12:51] porque você tem um conhecimento técnico sobre algo que pertence a todo mundo.

[00:12:55] Então todo mundo tem o direito de ter opinião sobre a língua.

[00:12:57] E às vezes a opinião não condiz justamente com o conhecimento linguístico que você tem

[00:13:02] como pessoa que estudou linguística.

[00:13:04] Então dá uma certa aflição você entender de linguística

[00:13:07] e ouvir as pessoas falarem essas barbaridades que você estava falando agora.

[00:13:11] Eu quero saber dos seus leitores e das lives que você fez,

[00:13:14] o que mais espanta eles no seu livro? Quais são as surpresas?

[00:13:18] Eu sempre digo para conhecidos meus que vêm das ciências exatas, sei lá, da física, da matemática

[00:13:23] e que estão lutando agora nesse mar de fake news

[00:13:26] em que as pessoas acreditam que têm direito a sua opinião sobre qualquer assunto.

[00:13:30] Sobre radiologia, sobre qualquer coisa.

[00:13:33] E eu digo, bem-vindo ao nosso mundo.

[00:13:35] Na linguística a gente está convivendo com isso há 200 anos.

[00:13:38] A gente chega às pessoas e diz, cara, a gente estuda esse negócio.

[00:13:41] Eu tenho uma opinião que de repente você devia levar em consideração.

[00:13:44] Mas não, qualquer um tem direito a dar uma opinião sobre o seu próprio idioma.

[00:13:47] E eu não posso negar isso.

[00:13:49] A língua é uma coisa constitutiva demais de quem nós somos e do nosso dia a dia.

[00:13:54] E daí chega um maluco e diz, não, você está entendendo tudo errado?

[00:13:57] É complicado.

[00:13:59] Agora o problema é que esse maluco, eu, o maluco que tem que dizer essas coisas para as pessoas

[00:14:03] na verdade não está querendo disputar espaço de autoridade

[00:14:06] com a opinião que as pessoas têm do seu próprio uso de língua.

[00:14:09] Está querendo disputar espaço de autoridade com outro maluco

[00:14:12] que é o cara que vem sentado numa cadeira de ouro

[00:14:14] e que diz um monte de mitos e verdades feitas

[00:14:17] e que todo mundo engoliu durante muito tempo.

[00:14:19] Isso que as pessoas têm que entender.

[00:14:21] Que quando a gente chega com esse saber codificado da linguística

[00:14:25] não é contra elas que a gente está lutando.

[00:14:27] A gente está lutando.

[00:14:28] A gente está lutando contra esse outro não saber cristalizadão

[00:14:32] e enfiado bem abaixo da sociedade há muito tempo

[00:14:35] que elas estão comprando sem nem saber.

[00:14:36] Mas o que eu sei fazer, eu acho, como professor e como autor nesses casos

[00:14:40] é pegar o leitor pela mão e dizer, vem comigo e olha se isso aqui não é muito louco.

[00:14:46] Compartir esse entusiasmo, esse espanto, esse maravilhamento mesmo

[00:14:51] diante de certas coisas, da linguística, da literatura

[00:14:54] no caso do latim, pode do nosso idioma.

[00:14:56] Chamar a atenção das pessoas para isso.

[00:14:57] Eu acho que isso é poderoso.

[00:14:58] Acho que isso tem um papel a cumprir.

[00:15:00] E eu acho que tem cumprido no caso do latim e pó.

[00:15:03] É, eu me lembro quando eu comecei a estudar linguística

[00:15:05] uma das coisas que eu mais gostei foi o poder do falante nativo.

[00:15:09] Entender que linguisticamente, cientificamente

[00:15:12] o falante nativo tem muito poder.

[00:15:15] Os cientistas vão todos parar e ouvir.

[00:15:17] Não, essa pessoa é falante nativo dessa língua.

[00:15:20] Tem que acreditar no que essa pessoa está falando.

[00:15:22] Entender que é assim que se fala.

[00:15:24] E aí, a partir daí, explicar.

[00:15:26] Isso é uma coisa maravilhosa.

[00:15:27] Que você entender que você é poderoso

[00:15:29] com relação à sua própria língua.

[00:15:31] Isso eu acho uma coisa maravilhosa.

[00:15:32] Eu adoraria que todo mundo entendesse isso,

[00:15:34] tomasse posse da sua própria língua,

[00:15:35] para não ter vergonha.

[00:15:36] A gente vê as pessoas dizendo,

[00:15:37] ah, eu tentei muitos anos mudar o meu sotaque.

[00:15:41] Às vezes, depois de anos, a pessoa não recupera mais aquele sotaque.

[00:15:44] Que é o que dava caráter, é o que dava identidade,

[00:15:46] é o que ligava a pessoa às suas origens,

[00:15:48] à sua família, aos seus afetos de infância.

[00:15:50] E você perder isso de propósito,

[00:15:52] porque a única maneira de você se encaixar

[00:15:56] é uma coisa triste.

[00:15:57] Então, o teu livro meio que recupera isso para as pessoas.

[00:16:00] Por isso que eu tenho vontade de dar para esses ouvintes

[00:16:02] que me escrevem, para dizer para eles,

[00:16:03] não, vocês estão enganados, mas é normal.

[00:16:05] Está certo, vocês estarem enganados.

[00:16:07] É assim que vocês foram ensinados.

[00:16:08] Não tem nenhum problema, vocês estarem enganados.

[00:16:10] Mas, está aqui.

[00:16:12] Eu sou formado em francês na universidade.

[00:16:13] E eu estudo um monte de língua estrangeira.

[00:16:15] Eu gosto de estudar língua estrangeira.

[00:16:17] Todos os franceses falam os plural.

[00:16:18] A língua francesa gerou exatamente esse mesmo mecanismo

[00:16:21] há séculos.

[00:16:22] Mas, em francês, é uma coisa bacana

[00:16:24] que a gente aprende como uma curiosidade.

[00:16:26] No dialeto do caipira brasileiro,

[00:16:28] é uma coisa feia e tosca.

[00:16:30] Todos os dinamarqueses falam cantano.

[00:16:32] Em comparação…

[00:16:33] Cantano, sei.

[00:16:34] Todas as sequências de letra ND na escrita,

[00:16:37] no dinamarquês viraram só N.

[00:16:39] Eles ainda escrevem ND, em boa parte dos casos,

[00:16:41] mas eles falam só…

[00:16:42] Igual a gente.

[00:16:43] Igual o estado de São Paulo, interior de Minas.

[00:16:46] Mas, em dinamarquês, é só uma realidade da língua.

[00:16:50] Por que essas coisas, no português,

[00:16:52] se transformam automaticamente em tosqueira?

[00:16:55] Elas estão marcadas sociologicamente.

[00:16:57] São pessoas sem acesso à escolaridade

[00:16:59] ou pessoas em situação de informalidade que usam essas…

[00:17:02] Mas isso é normal.

[00:17:03] É assim que funciona na história das línguas.

[00:17:05] Mas não tem nada de intrínsecamente ruim nessas coisas.

[00:17:08] Eu acho que esse tipo de coisa a gente precisa entender

[00:17:10] para entender qual é o grau da mentira

[00:17:12] que as pessoas engoliram durante muito tempo.

[00:17:15] E isso que você falou eu acho crucial.

[00:17:17] E eu acho que a geração atual está fazendo muito melhor do que a nossa

[00:17:20] e muito melhor do que todas as outras.

[00:17:22] Inclusive, envolve um grau de representatividade.

[00:17:25] Hoje você consegue entrar na televisão,

[00:17:27] ir na internet.

[00:17:28] A internet está fazendo muito isso.

[00:17:30] YouTube, as outras redes sociais.

[00:17:32] E você consegue encontrar gente que fala como você fala.

[00:17:35] E que não necessariamente passou por um treinamento

[00:17:38] ou sentiu que precisava passar por um treinamento

[00:17:40] para perder as suas marcas locais.

[00:17:42] A fulano fala perto

[00:17:44] e ele vai até o fim da carreira dele falando perto.

[00:17:46] E está tudo bem.

[00:17:48] Não tem problema.

[00:17:49] Você assiste série na Netflix.

[00:17:52] Você ouve 17 sotaques de inglês.

[00:17:55] Por que a gente só tem que ouvir um sotaque de português brasileiro?

[00:17:58] E veja, mesmo nos Estados Unidos e na Inglaterra isso foi um caminho.

[00:18:01] Demorou para chegar lá.

[00:18:02] Ainda tem preconceito linguístico. Ainda existe.

[00:18:05] Mas hoje já é bem mais tolerável.

[00:18:07] Inclusive estão tolerando muito bem misturar atores de procedências variadas

[00:18:12] num mesmo elenco sem explicar esse dado.

[00:18:15] Que é tudo muito novo.

[00:18:16] E isso começa a acontecer por aqui também.

[00:18:18] Jornalistas, repórteres, locutores.

[00:18:21] A gente começa a ver uma flexibilização.

[00:18:23] Uma quebra dessa muralha.

[00:18:25] De um padrão que durante muito tempo foi carioca.

[00:18:27] Mas que em alguma medida sempre foi não caipira.

[00:18:30] Não sulista. Não endestino.

[00:18:33] E agora isso começa a se quebrar.

[00:18:34] Eu acho lindo que aconteça.

[00:18:36] Durante muito tempo foi carioca.

[00:18:38] Depois passou a ser mais paulistano.

[00:18:40] E aí tem alguns sotaques que são fetichizados.

[00:18:44] Que também não é bom.

[00:18:45] Aí você diz, esse sotaque é tão fofinho.

[00:18:47] Esse sotaque é tão charmoso.

[00:18:49] Enfim, sotaque é sotaque.

[00:18:51] Todo mundo tem.

[00:18:52] E ele está muito ligado à sua identidade.

[00:18:54] O seu sotaque, o meu sotaque, o meu sotaque.

[00:18:56] Está super ligado à minha identidade.

[00:18:58] Eu acho gozada a pessoa reclamar do meu sotaque carioca.

[00:19:01] Eu vou falar como eu falo mesmo.

[00:19:03] Reclamar, sei lá, da tua cor de pele.

[00:19:05] Do teu cabelo, do teu nariz.

[00:19:07] É quem eu sou.

[00:19:08] Eu falo assim.

[00:19:09] Eu vim de fábrica desse jeito.

[00:19:10] Eu aprendi a falar desse jeito.

[00:19:12] Mas a gente tem que conviver com isso.

[00:19:13] Uma vez no Rio de Janeiro eu passei por uma história que eu sempre conto.

[00:19:16] Logo na época daqueles acampamentos na frente dos quartéis.

[00:19:19] E eu estava de carona com os professores da Federal Fluminense.

[00:19:22] E a gente passou num desses acampamentos.

[00:19:24] E alguém comentou uma coisa.

[00:19:26] E eu estava no banco de trás.

[00:19:27] E eu fiz um comentário irônico.

[00:19:29] Como se eu estivesse apoiando aquilo.

[00:19:31] Que era obviamente irônico.

[00:19:32] A gente já se conhecia.

[00:19:33] A gente já sabia quem nós éramos.

[00:19:35] Mas rolou um silêncio no carro.

[00:19:37] E de repente um motorista carioca falou.

[00:19:39] Cara eu sei que era piada.

[00:19:40] Mas com o teu sotaque ficou tão violento.

[00:19:43] Ah uau.

[00:19:44] E aí é aquele momento que eu percebo.

[00:19:46] Cara eu carrego o Curitiba.

[00:19:47] Eu saio daqui.

[00:19:48] Eu chego no Rio de Janeiro.

[00:19:50] Eu sou do sul.

[00:19:51] Eu sou curitibano.

[00:19:53] Eu venho desse lugar.

[00:19:54] Distante e amedrontador.

[00:19:56] E a gente não se dá conta disso quando está em casa.

[00:19:58] A gente se dá conta disso quando sai.

[00:20:00] E a possibilidade de sair.

[00:20:02] De encontrar outros falantes.

[00:20:03] Outras normas.

[00:20:04] Outros sotaques.

[00:20:05] É que está aumentando muito.

[00:20:06] As pessoas fazem isso virtualmente.

[00:20:08] Você consegue encontrar gente que fala outros portugueses o tempo todo.

[00:20:12] E isso só está fazendo aumentar essa tolerância.

[00:20:14] Ao contrário do espírito curitibano.

[00:20:16] Isso em podcast é fundamental.

[00:20:19] Dá textura.

[00:20:20] Há uma história que você vai contar se você tem vários sotaques diferentes.

[00:20:23] É muito bom.

[00:20:24] Fica lindo.

[00:20:25] Fica ótimo.

[00:20:26] Dá muito mais graça.

[00:20:27] Fica mais interessante.

[00:20:28] A história que você está contando.

[00:20:29] E uma coisa que você fala no livro que eu achei super interessante.

[00:20:32] Sobre a influência das línguas africanas e indígenas no português.

[00:20:35] A gente costuma pensar que essa influência é só no léxico.

[00:20:40] Só no vocabulário.

[00:20:41] Tudo o que chama Ita.

[00:20:42] E todos os nomes de comida.

[00:20:44] E os nomes de danças.

[00:20:45] E coisas assim.

[00:20:46] Que seriam de origem indígena.

[00:20:47] Ou de origem de línguas africanas.

[00:20:49] Mas você explica que a influência nesse sentido é enorme.

[00:20:53] Você usa uma frase que diz que o léxico é a parte mais barata.

[00:20:56] Da linguística histórica.

[00:20:58] Da evolução de uma língua.

[00:20:59] Eu queria que você explicasse isso.

[00:21:01] E explicar quais são as influências estruturais realmente.

[00:21:05] Dessas outras línguas no português.

[00:21:07] O léxico vocabulário é a epiderme do idioma.

[00:21:10] É por isso que as pessoas têm as duas coisas.

[00:21:12] Pronúncia e vocabulário.

[00:21:14] São as duas coisas sobre as quais os falantes leigos mais se pronunciam.

[00:21:18] Com as quais eles mais se incomodam.

[00:21:19] São as duas maiores fontes de fake news e memes.

[00:21:23] Pronúncia ainda não gera tanto meme.

[00:21:25] Porque não funciona tão bem como imagem por escrito.

[00:21:28] Mas é a parte barata.

[00:21:29] É a parte que muda muito rápido.

[00:21:30] É a parte que se altera fácil na história do idioma.

[00:21:33] Qualquer contato cultural de um grupo com o outro.

[00:21:36] Gera troca de palavras.

[00:21:38] Gera empréstimo.

[00:21:39] Gera alteração.

[00:21:40] Já a possibilidade de uma alteração estrutural.

[00:21:43] Na fonologia.

[00:21:44] Ou seja, aqueles sons que representam mudança de significado.

[00:21:47] E não são só a mera escolha.

[00:21:48] Ou alternativa de parte do falante.

[00:21:50] Na morfologia.

[00:21:51] Na sintaxe.

[00:21:52] Na gramática.

[00:21:53] Na estrutura do idioma.

[00:21:54] Isso é muito raro.

[00:21:56] Os idiomas muito raramente se deixam influenciar nesses níveis.

[00:21:59] Essas partes são duras.

[00:22:00] São o núcleo da estrutura do idioma.

[00:22:02] O vocabulário não.

[00:22:03] O vocabulário é a parte que risca fácil.

[00:22:05] Que se altera fácil.

[00:22:07] Que perde palavra o tempo todo.

[00:22:09] Ganha palavra o tempo todo.

[00:22:11] É por isso que, por exemplo, os grandes dicionários hoje.

[00:22:13] O Oxford English Dictionary, por exemplo.

[00:22:15] Não só não é mais um livro e está online.

[00:22:18] Como você faz uma assinatura, de fato.

[00:22:20] Porque ele está permanentemente renovado.

[00:22:22] Todo dia ele está sendo alterado.

[00:22:24] Palavras estão entrando.

[00:22:25] Definições estão mudando.

[00:22:26] Palavras estão saindo.

[00:22:27] É assim que funciona essa parte leve da estrutura do idioma.

[00:22:31] Lógico que nessa área.

[00:22:32] O português como uma língua que teve.

[00:22:34] E o português brasileiro.

[00:22:35] Como uma língua que teve muito contato cultural.

[00:22:37] Tem muito contato linguístico.

[00:22:39] A gente tem palavra de tudo que é idioma.

[00:22:41] No nosso dia a dia.

[00:22:42] Desde sukiyaki.

[00:22:44] A manequim.

[00:22:45] A esfirra.

[00:22:47] Qualquer cultura com que a gente teve algum contato.

[00:22:49] Por livro ou pessoalmente.

[00:22:51] Pode ter emprestado uma palavra para nós.

[00:22:53] A influência mais profunda desses idiomas.

[00:22:56] Indígenas.

[00:22:57] E da África Negra.

[00:22:59] No português do Brasil.

[00:23:01] Já é uma coisa mais interessante.

[00:23:03] Na hora que a gente percebe que.

[00:23:05] Por exemplo.

[00:23:06] O dito R retroflexo.

[00:23:08] Esse dito R caipira.

[00:23:09] Do perto da porta.

[00:23:11] Muito provavelmente.

[00:23:13] É de fato uma sobra.

[00:23:15] De uma tentativa dos falantes das línguas tupi.

[00:23:18] E dos falantes do yengatu.

[00:23:20] A língua geral da costa paulista.

[00:23:22] De produzir um som que eles não tinham.

[00:23:24] Uma confusão entre o L e o R.

[00:23:26] Que gerou esse som diferente.

[00:23:28] Para nós.

[00:23:30] E a gente tem uma coisa mais interessante.

[00:23:32] É inventário dos sons da língua que está mudando.

[00:23:34] Quando a gente pensa que.

[00:23:36] Algumas características das línguas banto.

[00:23:38] Podem explicar tanto o nosso problema.

[00:23:40] Com encontros consonantais.

[00:23:42] O fato de a gente dizer peneu.

[00:23:44] E dizer ritmo.

[00:23:46] Em vez de dizer pneu.

[00:23:48] E ritmo.

[00:23:50] Que ninguém fala.

[00:23:52] A gente tem problemas com palavras.

[00:23:54] Com encontros consonantais consecutivos.

[00:23:56] Como problema.

[00:23:58] E como drible.

[00:24:00] Porque a gente fala pobrema.

[00:24:02] A pessoa que desce a cacetada.

[00:24:04] Em quem fala pobrema.

[00:24:06] Fala drible.

[00:24:08] Quando está comentando futebol.

[00:24:10] Quanto o fato de a gente eliminar esses R’s.

[00:24:12] De infinitivo.

[00:24:14] Fazer, comer, pedir.

[00:24:16] Todas essas coisas podem ter a ver.

[00:24:18] Com o tipo de padrão silábico.

[00:24:20] As pessoas banto não aceitam o padrão silábico.

[00:24:22] Que não seja.

[00:24:24] Tudo isso pode ter vindo de.

[00:24:26] Por assim dizer.

[00:24:28] Um sotaque.

[00:24:30] Como esses africanos aprenderam o português.

[00:24:32] Eu aprendo inglês.

[00:24:34] Você aprende alemão hoje.

[00:24:36] A gente aprende filtrado pelo nosso idioma.

[00:24:38] Quando a gente aprende adulto.

[00:24:40] Imagina você aprender adulto.

[00:24:42] Em condições para lá de adversas.

[00:24:44] E para lá de emergenciais.

[00:24:46] Como os escravizados tinham que aprender.

[00:24:48] O português por essas pessoas.

[00:24:50] Pode representar uma explicação viável.

[00:24:52] Para várias características da nossa gramática.

[00:24:54] Não vamos nem falar da nossa prosódia.

[00:24:56] Do nosso amor pelo vocalismo por exemplo.

[00:24:58] O português europeu está eliminando as vogais da língua.

[00:25:00] E a gente mantém as vogais.

[00:25:02] Muito plenas.

[00:25:04] A gente acrescenta.

[00:25:06] Para o maior parte dos brasileiros.

[00:25:08] Parece um espanhol falando.

[00:25:12] Sem nem chegar a retórica.

[00:25:14] A discursividade.

[00:25:16] A gente tem dessas culturas orais.

[00:25:18] E dessas culturas africanas.

[00:25:20] A professora Ieda gosta de lembrar que.

[00:25:22] Até ela cita aquele abraço.

[00:25:24] Do Gilberto Gil.

[00:25:26] Que no momento tem um.

[00:25:28] Ela diz, isso é negro africano.

[00:25:30] Isso você não encontra em culturas europeias.

[00:25:32] E brancas.

[00:25:34] Essa reação meio melódica.

[00:25:36] E não linguística.

[00:25:38] E é super brasileira.

[00:25:40] E é super a nossa cara.

[00:25:46] Daqui a pouco a gente volta.

[00:25:52] Na segunda parte da conversa com o Caetano.

[00:25:54] A gente fala sobre tradução.

[00:25:56] Um tema que interessa a nós dois.

[00:25:58] E como ele gosta de encrenca.

[00:26:00] A gente já abre esse bloco.

[00:26:02] Falando de um assunto que causa bastante controvérsia.

[00:26:04] A linguagem neutra.

[00:26:12] Eu não ia te perguntar sobre linguagem neutra.

[00:26:14] Porque perguntar sobre linguagem neutra pra linguista.

[00:26:16] É meio irritante.

[00:26:18] Mas eu vi você dando uma resposta tão boa.

[00:26:20] E eu passei a adotar.

[00:26:22] Devo dizer.

[00:26:24] Mas eu dou crédito.

[00:26:26] Então eu queria que você desse essa mesma resposta.

[00:26:28] Aqui pra gente poder ter.

[00:26:30] Até você falando.

[00:26:32] Eu não ia te perguntar da linguagem neutra.

[00:26:34] Seria a primeira vez que um profissional da linguística.

[00:26:36] Está em alguma situação pública no Brasil nos últimos anos.

[00:26:38] E não é abordado sobre isso.

[00:26:40] Eu não ia perguntar justamente porque eu acho mais chatice.

[00:26:42] Eu acho que quando me perguntam.

[00:26:44] E eu tenho uma resposta técnica pra dar.

[00:26:46] Que não convence ninguém.

[00:26:48] Chateia todo mundo.

[00:26:50] Só irrita todo mundo.

[00:26:52] Não é exatamente o que eu penso.

[00:26:54] Apesar de eu saber que tecnicamente eu estou corretíssima.

[00:26:56] E eu ficava sem saber o que responder.

[00:26:58] Então eu me esquivava dessa pergunta.

[00:27:00] Mas quando eu ouvi você respondendo.

[00:27:02] Ah bom. Então tá. Ok. Vou dizer isso também.

[00:27:04] Eu acho que a coisa começa por aí.

[00:27:06] Todos profissionais de linguística tem que abordar essa questão.

[00:27:08] Em qualquer debate público hoje.

[00:27:10] É uma situação nova.

[00:27:12] Uma situação em que a sociedade brasileira como um todo.

[00:27:14] Está tematizando um problema de língua.

[00:27:16] Sem olhar pra Portugal.

[00:27:18] Sem olhar necessariamente pros padrões dos livros.

[00:27:20] É língua viva.

[00:27:22] É língua em uso agora.

[00:27:24] É briga na agora.

[00:27:26] As pessoas estão querendo determinar como é que a língua vai ser.

[00:27:28] E isso é maravilhoso que acontece.

[00:27:30] E além de tudo.

[00:27:32] Eu acho maravilhoso que.

[00:27:34] Essas, entre muitas aspas, minorias.

[00:27:36] Já ganharam a batalha mais importante.

[00:27:38] Elas conseguiram visibilizar o seu problema.

[00:27:40] E é bizarro.

[00:27:42] Na hora que você vai falar de espaço na sociedade.

[00:27:44] De representatividade política e tal.

[00:27:46] Ninguém presta muita atenção.

[00:27:48] Mas você quer mexer no todes.

[00:27:50] Aí parece que você mexeu no primogênito da família real.

[00:27:52] De repente todo mundo se pôs em armas.

[00:27:54] Contra a tentativa de.

[00:27:56] É engraçada essa nossa relação com a língua.

[00:27:58] E duvido que tenha sido uma coisa muito orquestrada.

[00:28:00] Especialmente de caso pensado.

[00:28:02] Mas foi lindo.

[00:28:04] A batalha em si.

[00:28:06] Já foi ganha quando a batalha começou a haver.

[00:28:08] As pessoas estão falando disso.

[00:28:10] As pessoas estão tendo que pensar nesse assunto.

[00:28:12] Então acho que sociologicamente.

[00:28:14] É um fenômeno para o lado interessante.

[00:28:16] Linguisticamente.

[00:28:18] Eu acho muito bacana que os brasileiros estejam.

[00:28:20] Se adonando.

[00:28:22] Dos seus problemas políticos e sociológicos.

[00:28:24] Dentro da língua.

[00:28:26] Nos seus próprios termos.

[00:28:28] Não sei se foi isso que eu disse que você achou bacana em algum outro.

[00:28:30] O dono tem que cuidar das reformas.

[00:28:32] Tem que ir para reunião de condomínio.

[00:28:34] É um debate de uma sociedade madura em torno da língua que usa.

[00:28:36] É exatamente isso.

[00:28:38] Eu acabei de me mudar.

[00:28:40] Eu estou pensando muito em reunião de condomínio.

[00:28:42] A gente não está terceirizando o problema.

[00:28:44] E não está perguntando para o colunista.

[00:28:46] Do jornal conservador ou não conservador.

[00:28:48] O que ele acha, o que ele não acha.

[00:28:50] Eles até tem que se manifestar.

[00:28:52] E devem se manifestar como eu me manifesto.

[00:28:54] Mas a briga está na praça pública.

[00:28:56] E eu acho que é aí que ela tem que acontecer.

[00:28:58] Uma outra coisa que você falou.

[00:29:00] Que meio que me libertou.

[00:29:02] Tem uma questão linguística que eu posso explicar.

[00:29:04] Posso dizer, olha.

[00:29:06] O fato do português fazer o plural neutro no masculino

[00:29:08] não quer dizer absolutamente nada.

[00:29:10] Não tem nada que faz no feminino.

[00:29:12] Não tem nada que não faz.

[00:29:14] Não tem gênero gramatical.

[00:29:16] Não tem nada a ver com gênero biológico.

[00:29:18] É uma coincidência da evolução das línguas.

[00:29:20] São acasos que vão acontecer.

[00:29:22] Não tem nada a ver. São coisas diferentes.

[00:29:24] Essa é a explicação técnica que você pode dar.

[00:29:26] Que não adianta nada.

[00:29:28] Não facilita a vida de ninguém.

[00:29:30] O que eu acho realmente importante

[00:29:32] na discussão da linguagem neutra é

[00:29:34] criar o barulho.

[00:29:36] As pessoas estão falando disso.

[00:29:38] E elas têm que falar disso.

[00:29:40] A língua portuguesa não está ameaçada.

[00:29:42] Ela não vai ser destruída.

[00:29:44] Eu acho que ninguém quer destruir a língua portuguesa.

[00:29:46] Ninguém quer a obrigatoriedade

[00:29:48] de uma revisão gramatical de um idioma.

[00:29:50] O que seria uma quimera.

[00:29:52] Ninguém conseguiu isso.

[00:29:54] Fora os turcos no começo do século 20.

[00:29:56] Ninguém conseguiu fazer isso por decreto.

[00:29:58] O que está acontecendo é a discussão.

[00:30:00] As pessoas querem o barulho.

[00:30:02] Eu acho que elas precisam desse barulho.

[00:30:04] E ele já está acontecendo.

[00:30:06] Passando agora para a parte de tradução.

[00:30:08] Eu vi você dizer que traduzir

[00:30:10] te faz ver o que o teu idioma

[00:30:12] tem de estranho.

[00:30:14] O que você quer dizer com isso?

[00:30:16] Eu digo para os alunos que é que nem quando

[00:30:18] você começa a namorar.

[00:30:20] Você sai da tua família.

[00:30:22] Começa a conviver como membro de outras famílias.

[00:30:24] E você percebe que certas coisas

[00:30:26] que você achava 100% normais

[00:30:28] na casa dos outros são vistas como muito estranhas.

[00:30:30] E vice-versa. Você precisa desse olhar

[00:30:32] externo para ver o que há de estranho

[00:30:34] em você. Que aquilo não era normal.

[00:30:36] Aquilo não era zerado. Aquilo era marcado.

[00:30:38] Para bem ou para mal.

[00:30:40] E quando a gente aprende outros idiomas

[00:30:42] e especialmente quando a gente precisa traduzir

[00:30:44] é que a gente se dá conta

[00:30:46] de certas singularidades

[00:30:48] do nosso idioma.

[00:30:50] Que enquanto a gente está imerso nele

[00:30:52] a gente não percebe e não deve perceber.

[00:30:54] Por isso que o nosso idioma é maravilhoso.

[00:30:56] Você sabe disso. Quando a gente é forçado

[00:30:58] a passar algum tempo falando outra língua.

[00:31:00] Está no exterior.

[00:31:02] Primeiro, cansa. E segundo,

[00:31:04] você tem aquela sensação de que você está tentando fazer

[00:31:06] passar um galão de 20 litros de água

[00:31:08] por um funil estreito.

[00:31:10] As coisas saem a conta-gotas.

[00:31:12] As coisas saem por caminhos tortuosos.

[00:31:14] Você está falando a tua língua, você não pensa nela.

[00:31:16] Você não pensa a respeito da língua.

[00:31:18] Você simplesmente fala. Isso é muito

[00:31:20] maravilhoso. Só que tem um preço.

[00:31:22] A gente não vê a língua de longe.

[00:31:24] A gente não vê a língua como os estrangeiros veem.

[00:31:26] E na hora de traduzir você vê. Você olha e diz

[00:31:28] isso é

[00:31:30] curioso. Por exemplo,

[00:31:32] nossa regra praticamente, no Centro Sul

[00:31:34] do Brasil, pelo menos, de usar

[00:31:36] artigo definido diante do nome próprio.

[00:31:38] Eu falei com a Branca ontem.

[00:31:40] Cara, isso é muito estranho.

[00:31:42] Se você vai olhar várias outras

[00:31:44] Primeiro, tem língua que nem artigo tem.

[00:31:46] Você vai falar russo e nem tem artigo.

[00:31:48] Mas se traduz por inglês, por exemplo, que é uma língua que quase todo mundo

[00:31:50] conhece hoje. Imagine assim

[00:31:52] I spoke with the Paul.

[00:31:54] Virou um personagem

[00:31:56] automaticamente. Virou uma entidade.

[00:31:58] Não faz sentido usar artigo

[00:32:00] diante do nome próprio. Mas a gente usa e

[00:32:02] tudo bem. É tranquilo.

[00:32:04] Tem certas coisinhas da tua língua. Por exemplo,

[00:32:06] a quantidade de preposição que a gente

[00:32:08] usa. Quando você traduz poesia,

[00:32:10] dá uma raiva da

[00:32:12] quantidade de preposição que você precisa socar

[00:32:14] numa frase pra fazer sentido.

[00:32:16] E você não percebe isso no teu dia a dia.

[00:32:18] Eu me lembro de uma coisa agora

[00:32:20] que eu tinha que lembrar

[00:32:22] os meus alunos, que eu dava aula

[00:32:24] de interpretação simultânea na PUC

[00:32:26] aqui no Rio. E uma coisa

[00:32:28] que eu me lembro de ter que falar com os alunos

[00:32:30] é que em português você não fala

[00:32:32] eu vou lavar o meu rosto, eu vou lavar

[00:32:34] as minhas mãos. Em inglês você fala

[00:32:36] I’m gonna wash my hands. Em português

[00:32:38] você não fala. Isso pra tradução simultânea

[00:32:40] é maravilhoso. Quanto mais você puder encurtar

[00:32:42] parece que não faz diferença

[00:32:44] mas esse minhas mãos

[00:32:46] que você fala vou lavar a mão, em vez de

[00:32:48] falar vou lavar as minhas mãos, é maravilhoso.

[00:32:50] Isso já te ganha. Então você tem que aproveitar

[00:32:52] todas essas diferenças linguísticas

[00:32:54] que na tua língua é mais conciso

[00:32:56] mas a pessoa tá lá

[00:32:58] traduzindo, o aluno ainda não tá acostumado

[00:33:00] tá muito com o inglês na cabeça

[00:33:02] não tá muito pensando em português ainda

[00:33:04] e sai esse possessivo que não existe.

[00:33:06] Que é um problema da tradução, né?

[00:33:08] Que os tradutores, paradoxalmente,

[00:33:10] acabam sendo algumas das pessoas mais vulneráveis

[00:33:12] aos estrangeirismos, porque a gente tá

[00:33:14] conversando na outra língua. E é muito fácil

[00:33:16] você traduzir no ponto morto

[00:33:18] sem prestar atenção nessas coisas.

[00:33:20] O teu colega da Pública do Rio, o

[00:33:22] Paulo Henrique Zubrito, sempre fala aqui

[00:33:24] o inglês é uma língua bizarra em que você pode

[00:33:26] produzir a sentença. Eu pus a minha

[00:33:28] mão no meu bolso, peguei o meu

[00:33:30] lenço para suar o meu…

[00:33:32] E tudo bem, é assim que é. Isso é perfeito

[00:33:34] em inglês e é grotesco em

[00:33:36] português. E, no entanto, as pessoas traduzem

[00:33:38] esse tipo de coisa sem nem

[00:33:40] parar pra pensar, porque é fácil.

[00:33:42] Eu pus o Mai aqui, mas não, a gente

[00:33:44] não usa. A gente não usa uma frase desse

[00:33:46] jeito. Então, perceber essas

[00:33:48] singularidades, né? Eu sempre gosto de um outro exemplo

[00:33:50] do Brito. Eu brinco com os meus alunos

[00:33:52] que eles têm que cronometrar a cada aula, quanto

[00:33:54] tempo leva para ocitar o Brito pela primeira vez.

[00:33:56] Faz muito bem.

[00:33:58] É, sei lá quanto tempo levou aqui.

[00:34:00] Mas ele dá um exemplo que eu acho ótimo

[00:34:02] dessa nossa dificuldade de

[00:34:04] olhar estrangeirizadores sobre a nossa

[00:34:06] própria língua, que a gente vê muito em processo

[00:34:08] de tradução, que essa dificuldade de se

[00:34:10] olhar, de olhar o idioma de longe e ver

[00:34:12] certas coisas. E ele estava dando um exemplo

[00:34:14] em sala de aula de que a gente

[00:34:16] costuma generalizar no singular.

[00:34:18] Por exemplo, o locutor

[00:34:20] de podcast gosta de fazer

[00:34:22] assim. A gente não diz os locutoras

[00:34:24] de podcast, mas as pessoas escrevem.

[00:34:26] E ele estava dizendo isso pra uma turma.

[00:34:28] E sempre tem alguém que se revolta,

[00:34:30] sempre tem aquele aluno que não

[00:34:32] gosta da informação e uma pessoa levantou a mão e

[00:34:34] falou, eu não concordo, professor. O brasileiro

[00:34:36] não fala assim.

[00:34:38] E ele falou, sabe, tipo,

[00:34:40] ok, fechei a minha divisão aqui

[00:34:42] e você acabou. Pronto.

[00:34:44] A gente não precisa dizer, os

[00:34:46] brasileiros não falam assim. Em inglês

[00:34:48] precisa. Em outros línguas precisa.

[00:34:50] A gente não precisa. E aí você foi traduzir

[00:34:52] Ulysses, que francamente assim,

[00:34:54] que ideia, porque você teve essa ideia.

[00:34:56] E se foi ruim, se foi bom, se foi

[00:34:58] um trauma na sua vida.

[00:35:00] Mas também você foi traduzir o

[00:35:02] David Foster Wallace. Por quê, meu

[00:35:04] Deus? Eu acho que deve ser masoquismo.

[00:35:06] Olha, o Ulysses na

[00:35:08] real foi na força da

[00:35:10] raiva, como dizem as crianças hoje.

[00:35:12] Tem uma longa história por trás

[00:35:14] disso. Na verdade, deriva do fato de que

[00:35:16] eu estava com um projeto de doutorado engatilhado.

[00:35:18] Eu tinha sido aprovado pra uma bolsa na Alemanha.

[00:35:20] Eu ia passar quatro anos na Alemanha estudando

[00:35:22] história da língua romena. Quando eu

[00:35:24] me divorciei e pensei que não queria

[00:35:26] deixar minha filha aqui e ficar quatro

[00:35:28] anos longe. Abandonei aquele projeto e

[00:35:30] fui inventar um novo doutorado.

[00:35:32] E daí foi o momento que eu falei, ah, quer saber?

[00:35:34] Já que eu não vou conseguir fazer aquilo, porque não tinha como

[00:35:36] fazer aquele projeto no Brasil, ninguém

[00:35:38] poderia me orientar. Eu vou fazer um negócio

[00:35:40] completamente louco, completamente de

[00:35:42] veleidade pessoal. Eu vou inventar um projeto

[00:35:44] de doutorado em torno da tradução do Ulysses.

[00:35:46] Então foi de ruim

[00:35:47] idade que eu decidi ali. Naquele

[00:35:49] momento, eu lembro do momento. E me deu

[00:35:51] uma super empolgação e

[00:35:53] a partir dali a minha vida mudou

[00:35:55] pra sempre. Então você pergunta

[00:35:57] se foi bom, se foi ruim. Foi

[00:35:59] maravilhoso. Meu cachorro se chama Leopoldo.

[00:36:01] Apelhio de Léo?

[00:36:03] É. Chama ele de Léo ou chama de

[00:36:05] Leopoldo mesmo? Blum? Não, eu

[00:36:07] chamo ele de qualquer outro nome improvável.

[00:36:09] Eu chamo ele de Pafuncio, de

[00:36:11] Evillage, de Dostak, qualquer

[00:36:13] coisa. Eles me deram tudo.

[00:36:15] Me deram tudo. Minha carreira mudou.

[00:36:17] Meu rumo de carreira mudou. Minha carreira

[00:36:19] editorial só existe por causa disso,

[00:36:21] como tradutora. Traduzi mais de 60

[00:36:23] livros. Tudo por causa do Ulysses.

[00:36:25] Eu fui a lugares

[00:36:27] diferentes no mundo. Eu

[00:36:29] recebi convites que eu nunca receberia.

[00:36:31] Eu atuei em áreas

[00:36:33] que eu nunca poderia conhecer.

[00:36:35] Mesmo agora, esse meu envolvimento mais recente com

[00:36:37] teatro, por exemplo, em São Paulo,

[00:36:39] vem do Ulysses. Vem das pessoas terem me

[00:36:41] conhecido ali. Uma cadeia

[00:36:43] de coisas que aconteceram na minha vida nos últimos

[00:36:45] 25

[00:36:47] anos. Todas elas derivadas

[00:36:49] daquele momento de completa

[00:36:51] irresponsabilidade ala Zélig

[00:36:53] do diálogo. Você pode ver o que acontece

[00:36:55] quando um psicopata tá no lêmio.

[00:36:57] Eu vou traduzir o Ulysses e Danis.

[00:36:59] Muita coisa muito linda

[00:37:01] aconteceu e eu devo

[00:37:03] quase que exclusivamente a esse

[00:37:05] livro, a esse autor. E foi um processo

[00:37:07] prazeroso. Foi.

[00:37:09] Eu gosto de traduzir coisa difícil. Eu gosto de ter

[00:37:11] que lidar com os problemas. Eu gosto de forçar

[00:37:13] o português. Eu gosto de descobrir

[00:37:15] como lidar com as coisas. Eu gosto

[00:37:17] de inventar soluções.

[00:37:19] Me deixa muito feliz. Na verdade, o ato

[00:37:21] de traduzir o momento

[00:37:23] de tradução é uma das situações

[00:37:25] de maior estabilidade

[00:37:27] emocional na minha vida.

[00:37:29] Eu venho da música, né? E

[00:37:31] é igual quando você senta no instrumento pra improvisar

[00:37:33] sozinho, sabe? Tipo, estou no piano e só vou ficar

[00:37:35] aqui improvisando uma meia horinha.

[00:37:37] Parece que o teu cérebro se desconecta

[00:37:39] de um monte de coisa e você tá só num

[00:37:41] fluxo bacana. Traduzir pra mim é assim.

[00:37:43] Eu gosto muito de traduzir.

[00:37:45] Às vezes é frustrante, né? Poesia,

[00:37:47] especialmente, é trabalhoso, é

[00:37:49] reinhido, é lento.

[00:37:51] Mas o resultado final, invariavelmente,

[00:37:53] é prazeroso também.

[00:37:55] É uma atividade que me deixa muito feliz.

[00:37:57] Bom, eu não consigo nem imaginar o que

[00:37:59] que seria traduzir George uma geral, mas

[00:38:01] principalmente traduzir a Ulisses.

[00:38:03] Eu ouvi você falando também que você tá querendo traduzir

[00:38:05] Fennegan’s Way, que eu não vou nem entrar nisso.

[00:38:07] Mas o Ulisses

[00:38:09] eu li num grupo com a

[00:38:11] Bernardina, que também fez uma tradução

[00:38:13] com a Bernardina Pinheiro, que

[00:38:15] já tava bem velhinha, mas ela ainda fazia esses grupos.

[00:38:17] Foi uma coisa muito legal. Levou dois

[00:38:19] anos, saiu num grupo bacana.

[00:38:21] Mas é um livro muito difícil. É uma dessas coisas assim

[00:38:23] que eu fiz. Fiz, tá feito.

[00:38:25] Ainda bem que eu já fiz, porque eu acho que

[00:38:27] eu não faria de novo e não

[00:38:29] leria de novo, sabe? Não entraria ali de novo.

[00:38:31] Já vi, já sei o que que é. Pra você

[00:38:33] não, né? Você ama mergulhar naquele universo

[00:38:35] do Joyce, né? É um imenso prazer.

[00:38:37] Eu sou um leitor muito preguiçoso.

[00:38:39] Eu sou um leitor de entretenimento.

[00:38:41] Sério, cara. Eu sou um leitor de entretenimento.

[00:38:43] Eu leio muito rápido e eu leio

[00:38:45] muito por cima. Inclusive porque

[00:38:47] eu vou meio que pensando assim

[00:38:49] em quais livros eu vou reler. E daí no meio do caminho

[00:38:51] eu já vou pensando, tá, isso vai ficar pra próxima.

[00:38:53] Isso vai ficar… Eu leio pra saber o que vai

[00:38:55] acontecer, normalmente.

[00:38:57] E justamente, um dos problemas é que eu tava travado

[00:38:59] com Ulisses. Eu não conseguia entrar na leitura

[00:39:01] do Ulisses. Eu tinha decidido ler o livro

[00:39:03] quando a minha filha tava pra nascer, em 97.

[00:39:05] Daí ela nasceu

[00:39:07] e eu parei por motivo de criança

[00:39:09] pequena. Mas a ideia, a ideia

[00:39:11] de que você vai começar o Ulisses quando nascer

[00:39:13] um bebê é uma ideia realmente que não faz nenhum

[00:39:15] sentido. Chama homem isso, né?

[00:39:17] Olha o tempo que eu vou ter agora.

[00:39:19] É, estúpido imbecil.

[00:39:21] Minha filha chama Beatriz, né? Eu decidi também

[00:39:23] que eu ia ler a Divina Comédia. Essa eu li.

[00:39:27] E daí eu tava travado e eu pensei, cara, se eu não

[00:39:29] inventar um projeto que me obrigue a ler

[00:39:31] esse livro, eu nunca vou conseguir ler

[00:39:33] do meu jeito, que é esse jeito leviânico.

[00:39:35] Ah, tá. E daí eu pensei, eu vou traduzir.

[00:39:37] Ao traduzir, eu vou me obrigar

[00:39:39] a ler no miúdo. Eu vou ser

[00:39:41] o meu grupo de leitura de uma pessoa só, né?

[00:39:43] E foi exatamente o que aconteceu. Eu também levei dois anos

[00:39:45] pra fazer a tradução, exatamente como o tempo da tua

[00:39:47] leitura. Acho pouco até pra tradução.

[00:39:49] Poxa, pra leitura é um tempo

[00:39:51] ok, mas pra tradução eu achei que deveria

[00:39:53] um horaria mais. Podia ter sido bem mais,

[00:39:55] eu acho. Só que dali pra frente eu já relia

[00:39:57] o livro incontáveis vezes, né?

[00:39:59] Eu não tenho a menor ideia de quantas vezes eu li.

[00:40:01] Olha que legal. Eu traduzi

[00:40:03] pouca coisa na vida. A única coisa na verdade

[00:40:05] que eu já traduzi de verdade foram dois livros da

[00:40:07] Lydia Davis. Totalmente fascinante.

[00:40:09] Uma coisa incrível.

[00:40:11] Vai lançar agora um terceiro que eu não

[00:40:13] pude traduzir porque eu não tenho justamente tempo

[00:40:15] e nem, na verdade, espaço mental.

[00:40:17] Eu queria saber se isso acontece com você. Porque a Lydia Davis

[00:40:19] pra quem não sabe é uma escritora americana,

[00:40:21] uma contista, mas ela escreve uns contos

[00:40:23] muito peculiares, que são quase poesia,

[00:40:25] são contos às vezes que têm duas frases,

[00:40:27] às vezes têm cinco páginas,

[00:40:29] são muito diferentes e muito

[00:40:31] profundos. Ela consegue botar muita coisa ali

[00:40:33] naquelas três linhas do conto,

[00:40:35] muito impressionante. Mas o que acontecia

[00:40:37] comigo quando eu estava traduzindo esses dois livros dela

[00:40:39] é que eu ficava com aquilo na cabeça

[00:40:41] o tempo todo. Então, eu estava andando na rua,

[00:40:43] passeando o cachorro, por exemplo,

[00:40:45] e eu estava como se fosse com aquele cubo mágico,

[00:40:47] sabe? Pensando na cabeça,

[00:40:49] fazendo… vai encaixar aqui.

[00:40:51] Ah, tá, tem essa solução aqui.

[00:40:53] Ah, meu Deus, será que eu vou esquecer até chegar em casa?

[00:40:55] O tempo todo, assim,

[00:40:57] 24 horas por dia eu estava com aquilo na cabeça.

[00:40:59] E isso exige

[00:41:01] um espaço mental muito grande.

[00:41:03] Isso acontece com você também?

[00:41:05] Veja de novo, homem. Então, tipo,

[00:41:07] essa é a história da minha vida. No meio das

[00:41:09] preocupações razoáveis e necessárias

[00:41:11] da vida, eu reservo coisas,

[00:41:13] tipo, quando eu estava traduzindo Hélio,

[00:41:15] problemas mais complicados, essa rima

[00:41:17] que não resolve, esse verso

[00:41:19] que não tá legal, eu reservo, de

[00:41:21] propósito, deixo na memória pra quando eu for

[00:41:23] tomar banho ou andar com o cachorro.

[00:41:25] E daí são as horas em que eu passo a limpo

[00:41:27] as coisas que estão. Mas eu sou

[00:41:29] bem mentalmente disciplinadinho,

[00:41:31] eu tenho gavetinhas, eu consigo guardar as coisas

[00:41:33] ali e puxar de volta

[00:41:35] quando eu quiser. É raro

[00:41:37] isso de as coisas me atrapalharem.

[00:41:39] Tipo, eu tá querendo fazer outra coisa

[00:41:41] e a tradução não deixar. Isso acontece

[00:41:43] quando eu escrevo. Quando eu escrevi teatro, isso

[00:41:45] aconteceu muito. Tipo, estar

[00:41:47] habitando aquele mundo e ter dificuldade

[00:41:49] pra sair.

[00:41:51] Mas pra traduzir, não tanto.

[00:41:53] Aconteceu com Wallace. Você perguntou do Wallace,

[00:41:55] eu não te respondi. Eu perguntei do

[00:41:57] Graça Infinita, que é esse livro do

[00:41:59] David Foster Wallace, que também é um livro muito

[00:42:01] difícil. Enfim, não tem nada a ver,

[00:42:03] um outro tipo de dificuldade. Eu acho que o Lisses é muito

[00:42:05] mais difícil, mas o Wallace, a impressão

[00:42:07] que eu tenho com o Wallace é que

[00:42:09] é mais chato de traduzir. Chato, chato

[00:42:11] no sentido de boring. Porque é um livro

[00:42:13] meio circular, ele vai, ele volta,

[00:42:15] ele vai, ele volta e… É um livro mais

[00:42:17] incômodo de traduzir. As dificuldades

[00:42:19] verbais são muito grandes,

[00:42:21] uma capacidade de expressão

[00:42:23] magnífica, absurda,

[00:42:25] mas ele é um livro, acima de tudo,

[00:42:27] que te coloca em lugares muito

[00:42:29] incômodos. Você tem que

[00:42:31] escrever três páginas do

[00:42:33] monólogo interior de uma adolescente

[00:42:35] suicida numa ala

[00:42:37] para dependentes de drogas de um

[00:42:39] hospital. Você tem que habitar aquilo ali

[00:42:41] e aí esse elemento começa

[00:42:43] a doer. Graça Infinita é um livro

[00:42:45] que me

[00:42:47] obseda até hoje. Também é um livro

[00:42:49] que eu já reli várias vezes.

[00:42:51] É um livro que eu fico aplicando

[00:42:53] ao mundo o tempo todo.

[00:42:55] Tipo, ah cara, isso é igual a cena do Graça Infinita,

[00:42:57] isso vem do Graça Infinita. É um livro

[00:42:59] muito profético de muita coisa,

[00:43:01] infelizmente, porque muito pessimista

[00:43:03] nesse sentido. O papel da literatura ele

[00:43:05] dizia que era mergulhar o mais fundo

[00:43:07] possível nas trevas

[00:43:09] de cada um, encontrar a partezinha que

[00:43:11] brilha e trazer de volta para a superfície.

[00:43:13] Só que ele vai muito

[00:43:15] fundo. Às vezes é

[00:43:17] realmente muito pesado traduzir aquilo.

[00:43:19] Mas o livro é de uma inventividade,

[00:43:21] de um brilhantismo e de um humor

[00:43:23] bocó também ao mesmo tempo.

[00:43:25] Tem muito. É muito quinta série.

[00:43:27] É muito quinta série.

[00:43:29] Com que eu me identifico muito.

[00:43:31] Então, eu gostei

[00:43:33] demais. Inclusive de coisas que ninguém vai

[00:43:35] perceber. Tipo, tem lá um grupo de apoio

[00:43:37] para homens brancos,

[00:43:39] americanos de classe alta,

[00:43:41] discutindo os seus problemas. Eu não vou lembrar

[00:43:43] agora, porque eu sou esse tipo de pessoa,

[00:43:45] mas o nome do grupo,

[00:43:47] se você, e ele não te chama a atenção pra isso,

[00:43:49] mas se você for bem treinado nesse tipo de autor

[00:43:51] e for fazer a sigla do nome do

[00:43:53] grupo, a sigla da Whiners,

[00:43:55] que seria tipo os reclamões.

[00:43:57] Eu me dou o trabalho

[00:43:59] de fazer um grupo que em português vai dar

[00:44:01] bundões. Dois leitores

[00:44:03] vão descobrir isso em algum momento.

[00:44:05] Mas isso faz toda a

[00:44:07] diferença, faz toda a diferença numa

[00:44:09] tradução. E a Whiners é divertido,

[00:44:11] na verdade, eu acho, essas coisas assim,

[00:44:13] de tentar… Ah, você diz, ah, desgraçada,

[00:44:15] você escondeu isso aqui e ninguém viu.

[00:44:17] E aí, explica só

[00:44:19] uma última pergunta. Por que que de

[00:44:21] tantos e tantos anos precisa retraduzir

[00:44:23] esses grandes clássicos, ou

[00:44:25] pequenos clássicos? Uma vez eu escrevi

[00:44:27] um texto pro blog da Companheira das Letras,

[00:44:29] em que eu tentava explicar isso com uma

[00:44:31] imagem, que é o seguinte. A estátua da

[00:44:33] Liberdade, quando foi inaugurada,

[00:44:35] era dourada. Com o passar

[00:44:37] do tempo, ela foi ficando marrom, e isso estava

[00:44:39] programado, o revestimento dela ia envelhecer.

[00:44:41] E hoje ela tem aquele tom esverdeado

[00:44:43] que a gente conhece.

[00:44:45] Quando ela foi restaurada pela última vez,

[00:44:47] eles não retornaram ao dourado,

[00:44:49] eles restauraram o estado

[00:44:51] de antiguidade que era familiar

[00:44:53] as pessoas daquele momento. Ela ficou bem

[00:44:55] verdinha, ou seja, ela ficou bem velha

[00:44:57] em vez de ficar nova. A minha

[00:44:59] ideia da tradução é a seguinte.

[00:45:01] Uma obra de arte, um livro,

[00:45:03] é como a estátua da Liberdade.

[00:45:05] Ele envelhece, ele se altera,

[00:45:07] as pessoas mudam a relação que tem com ele,

[00:45:09] as verdades que estão ali dentro

[00:45:11] mudam de cor, a gente

[00:45:13] bane um livro por um tempo,

[00:45:15] volta ele, se apaixona, se

[00:45:17] desencanta, tem essa relação mutável.

[00:45:19] Uma tradução é

[00:45:21] uma fotografia da obra de arte

[00:45:23] num determinado momento.

[00:45:25] E se eu apresento pra você hoje, se eu te vendo

[00:45:27] uma réplica da estátua da Liberdade

[00:45:29] e essa réplica é dourada,

[00:45:31] você diz, não, essa réplica não corresponde

[00:45:33] à estátua da Liberdade, a estátua da Liberdade é

[00:45:35] verde. E pouco adianta

[00:45:37] eu te dizer, cara, mas ela era assim

[00:45:39] antes. As réplicas,

[00:45:41] as reproduções, precisam

[00:45:43] ser atualizadas pra

[00:45:45] acompanhar o estado de evolução da

[00:45:47] obra. Porque soma-se, não só a

[00:45:49] tradução da obra, soma-se a isso o fato de que

[00:45:51] as convenções editoriais mudam.

[00:45:53] Os leitores hoje

[00:45:55] esperam de uma tradução um conjunto

[00:45:57] de coisas que eles não esperavam.

[00:45:59] Nos anos 50 do século 20, por exemplo.

[00:46:01] Ideia simples, traduzir nome

[00:46:03] próprio. Até os anos 50 era

[00:46:05] regra, a gente traduzia o

[00:46:07] nome dos personagens. Era o

[00:46:09] Carlos Bovarrie, sem qualquer

[00:46:11] problema. Hoje a gente não faz

[00:46:13] mais isso. As obras antigas

[00:46:15] do idioma ganham a sua

[00:46:17] seu envelhecimento linguístico como

[00:46:19] pátina. As traduções ganham

[00:46:21] como rasgo na página.

[00:46:23] A gente não quer olhar uma tradução com ortografia

[00:46:25] que não seja nossa. Como assim, tá-se

[00:46:27] com gírias que não sejam

[00:46:29] reconhecíveis por nós. Então

[00:46:31] não é tão místico assim.

[00:46:33] Quando eu comecei na tradução eu sempre ficava pensando

[00:46:35] também, parece uma coisa ordenada por

[00:46:37] Deus, né? Que as traduções envelhecem

[00:46:39] de um jeito diferente das obras.

[00:46:41] Eu acho que tem razões bem objetivas pra poder explicar isso.

[00:46:43] Eu acho que é isso.

[00:46:45] Eu sou o Radão aqui, bom conhecer vocês

[00:46:47] pessoalmente, visualmente agora.

[00:46:49] E fico de olho. Então, bom,

[00:46:51] eu iria assinar a série de qualquer maneira, mas

[00:46:53] agora eu tenho pelo menos esse programa pra pular.

[00:46:59] Esse foi o Fia da Meada.

[00:47:01] Obrigada por ouvir.

[00:47:03] No site da Rádio Novelo

[00:47:05] você pode encontrar a transcrição do episódio.

[00:47:07] Lá

[00:47:09] você também encontra o link pro livro

[00:47:11] Latinha em pó.

[00:47:13] E se você quiser saber mais sobre o podcast

[00:47:15] a gente tá no Instagram e no

[00:47:17] threads e no X no

[00:47:19] rádio novelo. Dá pra acompanhar

[00:47:21] a gente também no Blue Sky no

[00:47:23] rádio novelo.com.br

[00:47:25] E segue o Fia

[00:47:27] da Meada no seu aplicativo de áudio

[00:47:29] preferido. A gente também tá no

[00:47:31] YouTube, tem episódio novo

[00:47:33] toda segunda-feira.

[00:47:35] A coordenação e a produção são

[00:47:37] da Evelyn Argenta. A direção

[00:47:39] criativa é da Paula Escarpin

[00:47:41] e da Flora Thompson Devaux.

[00:47:43] A direção executiva é da

[00:47:45] Marcela Casaca. A edição

[00:47:47] executiva é da Natalia Silva.

[00:47:49] A gerência de produto é da

[00:47:51] Juliana Jäger. A montagem

[00:47:53] desse episódio é da Luisa Silvestrini.

[00:47:55] A sonorização

[00:47:57] e mixagem são da Mariana Leão.

[00:47:59] A captação de áudio em

[00:48:01] Curitiba foi do estúdio Pacundé.

[00:48:03] A música original é

[00:48:05] da Luna França. O apoio

[00:48:07] de produção é do Vitorogo Brandalise,

[00:48:09] da Bia Guimarães, da Sara Zoubel,

[00:48:11] da Carol Pires, da

[00:48:13] Bárbara Rubira, da Carolina Morais,

[00:48:15] da Ashley Calvo e da Isabel

[00:48:17] de Santana. O desenvolvimento

[00:48:19] de produto e audiência é da Bia

[00:48:21] Ribeiro. A identidade visual

[00:48:23] é da Natasha Gompers.

[00:48:25] A coordenação de ilustração e design

[00:48:27] é do Gustavo Nascimento.

[00:48:29] A coordenação executiva é da

[00:48:31] Lara Martins. E a análise

[00:48:33] administrativa e financeira

[00:48:35] é da Tainá Nogueira.